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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Organização – digitalização / escrita – montagem José Rabaça Gaspar – joraga.net – 2015 04 / 05

Organização – digitalização / escrita – montagem – joraga.net – 2015 04 -- José Rabaça Gaspar

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Organização – digitalização / escrita – montagem – joraga.net – 2015 04

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Organização – digitalização / escrita – montagem – joraga.net – 2015 04 -- José Rabaça Gaspar

Ficha Técnica
Título --

uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Organização – digitalização / escrita – montagem – joraga.net – 2015 04 -- José Rabaça Gaspar

Ilustrações / ligações – internet com créditos assinalados…
Divulgação – SCRIBD
Publicação – 2015 Abril / Maio

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

dedicatória
a todos os naturais e moradores de Manteigas…
a TODOS os que nasceram na… e ao redor da Serra da Estrela…
aos criadores… contadores… / divulgadores…
das nossas Tradições / Memórias…
que NOS sabem encantar com as suas estórias / histórias…
CONTOS… LENDAS…

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

apresentação
... tinha eu uma quantidade de sonhos a transformar em realidade
com a varinha de condão,
que uma fada madrinha me veio oferecer,
quando, subitamente,
como ninguém queria sonhos fantásticos
e sonhos de encantar empacotados numa caixa
que mais parecia uma máquina,
um dia de Abril, a bruxa serpente
lançou o seu mau olhado na minha caixa de magia
donde saiam letras e fantasias de espantar...
e assim ficaram, outra vez,
só na cabeça daquele velho ceifeiro
que segava erva para cavalos
e assim poder viver do produto da venda
que os cavaleiros pagavam com uns míseros tostões...
... ao ver-me triste, a fada madrinha disse
que iria pedir ajuda a uma outra fada sua amiga
que tinha uma varinha de condão
que ensinava os génios prisioneiros a saírem da sua lamparina mágica,
para se porem ao serviço dos seus amos
e para deleite e formação da turba,
que gostava de Contos e Lendas de enC(o)ant(r)ar...
... levado, então, pelos conselhos e ajudas da fada madrinha
e consultando os livros de Magia
que ela tinha nos seus tesouros...
fui de viagem até aos meus tempos de lendas
e estórias e de contos de enC(o)ant(r)ar...
com toda a magia da fantasia
e com toda a amizade
a minha HOMENAGEM
a TODOS os CONTADORES… a cuja FONTE me permitiram ir beber…
para me poder deliciar nesta CASCATA de CONTOS e de LENDAS:
José Rabaça Gaspar
(da introdução apresentada mais adiante…)

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ÍNDICE
... uma introdução... a remeter para as mil noites e uma... Selma… Thiago de Mello… a minha avó…
Pearl S. Buck… Decameron (Boccaccio)… ...........................................................................................11
... o segador de erva... semeador de sonhos... (Texto adaptado) .........................................................18
AS FALAS DO VELHO ContaOuvidor de ISTÓRIAS... ................................................................................25
a HISTÓRIA VERDADEIRA DA SERRA DA ESTRELA! ...............................................................................27
hoje podia ser a do pastor da serra da estrela. aquela... .................................................................37
ora iaquiéque o catrâmbias no na contava assim... .........................................................................39
A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA ........................................................................................41
A VERDADEIRA HISTÓRIA do PASTOR da SERRA DA ESTRELA - contada do alto dos 2.000 anos... ........41
Afinal a História Continua... -- (ou a possível LENDA DE VIRIATO que se impôs a Roma…) ...................62
LENDA DA SERRA DA ESTRELA – Maria Antonieta Garcia (pub. Paulo Jesus) .......................................74
LENDA DA SERRA DA ESTRELA -- in LENDAS DE PORTUGAL, Vol. 3, Fernanda Frazão ..........................77
A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA - por GENTIL MARQUES .................................................79
A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA -- por Gentil Marques (2ª versão) ..................................83
A SERRA DA ESTRELA -- João Pedro S. e Vasco Silva .............................................................................89
Lenda da serra da Estrela - Pedro Brito e Luís Carrondo ......................................................................89
ALFÁTIMA – UM REINO DE OUTRO este MUNDO – por JRG ..................................................................90
Fátima -- Texto de Eduardo Noronha. Foi publicada com o título «Fátima-Lenda de S. João na BeiraBaixa.» ............................................................................................................................................. 101
Fátima -- Escrito por Branca de Cameira ........................................................................................... 105
LENDA DA MOURA ALFÁTIMA, por Gentil Marques .......................................................................... 108
FÁTIMA -- in LENDAS PORTUGUESAS - de Fernanda Frazão .............................................................. 113
A MOURA DO ALFÁTEMA -- por José Crespo ..................................................................................... 115
CORUTO DE ALFATEMA por José Avelino de Almeida e outros... -- In Expedição Científica – Serra da
Estrela -- 1881 .................................................................................................................................. 119
LENDA DE FÁTIMA – por Barbosa Colen -- in Expedição Científica de 1881 ........................................ 122
Fátima – Maria Antonieta Garcia...................................................................................................... 127
LENDA DE ALFATEMA - in CONTOS TRADICIONAIS PORTUGUESES - Vol. II (de IV), pp. 323/4 ............. 129
UMA LENDA DE MANTEIGAS - por José da Serra ................................................................................. 130
UMA LENDA DE MANTEIGAS – a possível origem desta terra… ......................................................... 131
A LENDA NA BOCA DO NOSSO POVO - José Lucas Baptista Duarte ..................................................... 137
LENDA DA PRINCESA ESTRELA --Extraída da "Monografia da Vila de Seia" De P. José Quelhas Bigotte
......................................................................................................................................................... 138
LENDA DOS TRÊS RIOS (Mondego, Alva e Zêzere) -- VISCONDE DE SANCHES DE FRIAS ...................... 139
O MISTÉRIO DO CRASTO E A LENDA DE ALFÁTIMA (ou ALFÁTEMA) -- MANUEL FERREIRA DA SILVA .. 141
SENHORA DO ROSÁRIO - LENDA POPULAR DE MANTEIGAS -- Viriato Zêzere - ANTÓNIO DE JESUS DE
CARVALHO ........................................................................................................................................ 143

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LENDA DA NOSSA SENHORA DOS VERDES -- por VIRIATO DE ZÊZERE ................................................ 147
LENDA DA CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DA ARGENTEIRA -- ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica)
......................................................................................................................................................... 149
LENDA DA CAPELA DE SÃO LOURENÇO --ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica) ........................... 151
LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE SANTA MARIA – MANTEIGAS (in recorte de jornal /st. sd) ......... 154
OUTROS CONTOS – CONTOS TRADICIONAES do POVO PORTUGUÊS ................................................... 156
LOBA-MULHER 1 - In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos .......... 156
OS TRÊS RIOS -- In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos............... 157
RIO ZÊZERE – In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, ................. 158
O MONDEGO, 0 ZÊZERE E O ALVA - in CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de
Vasconcellos ..................................................................................................................................... 158
A MÃE do DIABO -- CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos ............. 159
Lagoas da Serra da Estrela -- (CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos
......................................................................................................................................................... 160
A Torre de Centocelas -- CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos .... 161
Alfátema -- in CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos .................... 163
Serra da Estrela -- (CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos............. 164
A CABRA PERDIDA – A CABRA E O LOBO -- Fred WACHSMANN ......................................................... 166
Os três rios da Serra, Mondego, Zêzere e Alva -- in - Fred WACHSMANN – COMO EU VI A SERRA DA
ESTRELA, Lisboa, 1949. p. 43 ............................................................................................................. 167
A Raiva do Alva – in Lendas de Portugal -- Coimbra .......................................................................... 167
A Raiva do Alva – in folclore-online/lendas/balta (Beira Alta) ........................................................... 167
FREI JOÃO SEM CUIDADOS (71) – in Tradições do Povo Português .................................................... 168
AS ORELHAS DO ABBADE (117) -- in Tradições do Povo Português .................................................... 170
O LOBO E A OVELHA (249) -- in Tradições do Povo Português ........................................................... 170
O SACCO DAS NOZES - in Tradições do Povo Português (101) ............................................................ 171
Lenda de Folgosinho de Ar – por Gentil Marques .............................................................................. 171
Lenda da Fonte da Pedra - (Alvoco da Serra) ..................................................................................... 176
Um FINAL com mais TRÊS / QUATRO extras… um CONVITE para voltar ao princípio… ou antes: um
ESPAÇO para CONTAR a sua/s (Hhis)estórias… .................................................................................... 178
«… um tesoiro do tempo da moirama…» -- José Manuel Custódia Biscaia ......................................... 178
«Dinossauros em Manteigas» - José Manuel Custódia Biscaia .......................................................... 180
A Visão de Cuco - Germano Cleto ...................................................................................................... 181
TI MALATÃO (O Malato – Pastor de Manteigas…) -- J. S. ................................................................... 183
anexos para se ter uma ideia do que são os “mitos”… os Contas… as lendas… ................................... 184
Algumas OBRAS com Contos e Lendas de Manteigas .......................................................................... 193

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

MANTEIGAS
uma CASCATA / RIO de Contos & Lendas… da minha STerra
a minha Terra na Serra

... uma introdução... a remeter para as mil noites e uma... Selma… Thiago de Mello… a minha avó… Pearl S. Buck… Decameron (Boccaccio)…
... tinha eu uma quantidade de sonhos a transformar em realidade com a varinha de
condão, que uma fada madrinha me veio oferecer, quando, subitamente, como ninguém queria sonhos fantásticos e sonhos de encantar empacotados numa caixa que
mais parecia uma máquina, um dia de Abril, a bruxa serpente lançou o seu mau olhado
na minha caixa de magia donde saiam letras e fantasias de espantar... e assim ficaram,
outra vez, só na cabeça daquele velho ceifeiro que segava erva para cavalos e assim
poder viver do produto da venda que os cavaleiros pagavam com uns míseros tostões...
... ao ver-me triste, a fada madrinha disse que iria pedir ajuda a uma outra fada sua
amiga que tinha uma varinha de condão que ensinava os génios prisioneiros a saírem
da sua lamparina mágica, para se porem ao serviço dos seus amos e para deleite e
formação da turba, que gostava de Contos e Lendas de enC(o)ant(r)ar...
... levado, então, pelos conselhos e ajudas da fada madrinha e consultando os livros de
Magia que ela tinha nos seus tesouros... fui de viagem até aos meus tempos de lendas
e estórias e de contos de enC(o)ant(r)ar...
... e parei nas primeira páginas das Mil Noites e Uma...
.... e disse Scheherazade para a sua irmã Dinazarde: (adaptado)
«… Minha boa irmã, preciso do vosso socorro num assunto importantíssimo que é de
vida ou de morte; peço-vos que não mo recuseis. Esta noite, vai o meu pai levar-me ao
sultão para ser sua esposa... e como sabeis, desde aquela grande desgraça com a sultana, que ele próprio matou e o seu concubino, todas as mulheres que tiverem a
(des)graça de ser esposas do sultão, terão essa (des)ventura de só a viverem uma noite... No dia seguinte, logo ao nascer do sol, a mulher é entregue ao Grão-vizir, nosso
pai, que não tem outro remédio senão mandar matá-la e depois encontrar outra esposa para noite seguinte...
«Não vos assuste esta nova. Com a tua ajuda, estou disposta a livrar-me da morte e a
livrar todo o povo desta grande consternação em que vive temendo pelas suas filhas...
O que te peço é muito simples. Quando estiver junto do sultão, vou suplicar-lhe que
me permita deixar-vos dormir junto à câmara nupcial, para que possa gozar, nesta última noite, da vossa companhia, ali bem perto... Se alcançar esta graça, como espero,
logo de manhã muito cedo, antes do nascer do sol, lembrai-vos de me acordar e dizer
mais ou menos estas palavras:

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"Minha irmã, se não dormis, rogo-vos, esperando o dia, que não tarda em aparecer,
que me conteis um desses belos contos que sabeis..." (Volume I, Tomo I, p. 34, antes
da 1ª Noite)
«E assim aconteceu... e como, ao nascer do sol, o primeiro conto ia ainda a meio
"quando o génio estava decidido a matar o pobre mercador... ou pescador..." e o sultão tinha de partir para as suas orações e os seus afazeres... foi-lhe concedido mais um
dia de vida... e depois outro... e depois outro... até aos mil que foram as mil noites e
uma...»
... é, possivelmente, o que espero deste milagroso aparecimento da Fada Madrinha...
que estes contos sirvam para nos enC(o)ANT(r)AR... e assim nos livrarmos da morte
que nos espera... ao menos que a esperança não morra e a vida nos apareça como alguma coisa digna de ser vivida... descobrindo algo de bom e belo para nós e para os
outros...
O que é que vai acontecer-Nunca se sabe como acontece nos contos de fadas e estórias de enC(o)ant(r)ar, quando se liberta o Génio da Lâmpada e se abrem as portas do Sonho e da Fantasia...
Como nos contos das mil noites e uma...
...estes contos não terão lógica nem sequência e podem ser dominados só pelo inesperado e pelo absurdo das circunstâncias mais inverosímeis, tendo por fronteiras só a pura fantasia do delírio e da imaginação do insólito e do mistério e o atrevimento e o encanto do fascínio e do deslumbramento... onde o amor é uma fonte de volúpias e de
êxtases que nos podem levar para outros Mundos na imensidão do cosmos, onde a lei
natural, a lei do amor, superior a todas as interdições, barreiras e preconceitos, levará
o ser humano, como as águas do rio, de todos os rios, de todas as fontes e cascatas… a
mergulhar nesse mar imenso que é a mar... amar...
E assim, para tornar a começar, cabem aqui alguns versos que o meu amigo Thiago de
Melo1 me ofereceu com dedicatória no dia vinte de Julho de 1975 (nos meus 37
anos!!! meu Deus!!!), do seu poema ESTATUTOS DO HOMEM, de Santiago do Chile, em
Abril de 1964:
...
Artigo 8. -- "Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor"
...
Artigo 11. -- "Fica decretado, por definição,
1.

12

1

Amadeu Thiago de Mello é um poeta e tradutor brasileiro. Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de
trinta idiomas. Wikipédia -- Nasceu a 31 Março 1926 -- (Manaus AM) --

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que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo 12. -- "Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.
Parágrafo único - Só uma coisa proibida:
AMAR sem amor.

E, já agora, também umas palavras arrancadas de um livro da minha outra apaixonada
que nunca vi e de quem nunca tinha ouvido falar até perto dos meus cinquenta anos, a
Selma Lagerlöf2, in HISTÓRIAS MARAVILHOSAS, Editorial Minerva, 1952, logo a abrir
nas Recordações que não Esquecem:
"Tinha eu cinco anos quando sofri o primeiro desgosto, e tão profundo que me é difícil
dizer se, desde então, tive outro maior. Foi quando a minha avó morreu.
"Era hábito seu sentar-se todos os dias no sofá de canto do seu quarto e contar-nos
histórias.
"Lembro-me bem da avó a desfiar histórias, umas após outras, de manhã à noite, enquanto nós, as crianças a ouvíamos muito quietas, sentadas ao seu lado. Era uma vida
esplêndida! Não creio que outras crianças além de nós tivessem uma infância tão feliz!
"Assim, não será de estranhar que eu fale um pouco a respeito da avó. Ainda hoje a vejo, com o seu cabelo branco de neve, o corpo levemente inclinado, e os dedos, muito
ágeis, a mover agulhas de meia, todo o dia...
"Lembro-me, também, de que, sempre que terminava uma história, me passava a mão
pela cabeça e dizia:
"-- Tudo isto é tão verdadeiro como estarmos, eu aqui e tu aí, a ver-nos uma à outra."
...
depois
"... a grande solidão em que ficámos quando ela se foi... aquela manhã em que vimos o
sofá vazio..."
...
"Calaram-se as histórias e canções que embelezavam a nossa casa, encerradas naquele
caixão negro, donde nunca mais voltaram!"
"E então, qualquer coisa de muito doce nos faltou na vida. Foi como se nos houvessem
expulsado de um mundo maravilhoso, cujas portas, constantemente abertas para nós,

1.

2

Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf, foi uma escritora sueca, vencedora do Prémio Nobel de Literatura de 1909. Selma Lagerlöf foi a
primeira mulher a ser membro da Academia Sueca, em 1914.Wikipédia

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se tivessem fechado de súbito e para sempre. E não havia mais ninguém que fosse capaz de as abrir!"
Isto não é verdade, pois não--!!! É mentira. A própria neta desta avó transformou-se
numa excepcional Contadora de Histórias que entusiasmou e continua a entusiasmar
as crianças grandes e pequenas de todo o mundo e a povoar-lhes os seus mundos de
fantasia e de sonhos!!! E por isso lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura, a primeira Mulher a recebê-lo...

É assim que eu lembro, mais ou menos a minha avó... Não no sofá de canto, mas na
cadeira de balouço, que ela tinha trazido do Brasil e desde há uns anos eu transporto
comigo para onde quer que vá e ocupa sempre o lugar principal da sala como se transportasse comigo aquela sala e aquela casa dos meus avós lá na serra e onde, sucessivamente, a vejo sentada o costurar ou a fazer malha pendurada dos seus óculos redondos de metal e donde, quase sempre calada ou com poucas palavras, governava
toda aquela imensa casa e família que, de repente, com a morte do meu avô, era ela
ainda muito jovem, lhe ficou inteiramente confiada... ou o meu pai a ler o jornal ou a
chamar-nos para as "contas" do dia ou para as grandes decisões... e até a mãe, apesar
de mal ter tempo para se sentar um pouco, pois a recordação é de vê-la sempre a girar, sempre com montes de coisas para fazer..., inclusive ir com a vassoura debaixo do
braço a casa de uma ou outra vizinha doente para lhe varrer a casa e fazer-lhe um
pouco de companhia, apesar da lide da casa e dos seus oito filhos e "invasões" constantes!!!

É, sentado nesta cadeira, virada para a Varanda Aberta sobre o Vale do Zêzere, que
naqueles tempos não tinha casas em frente para lhe cortar os horizontes, que eu me
vejo muitas vezes a desfiar histórias que nunca saberei contar e exorcizar assim aquela

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tristeza imensa da Selma quando disse, precipitadamente com certeza, levada por
aquela grande perda:
"… Calaram-se as histórias e canções que embelezavam a nossa casa, encerradas naquele caixão negro, donde nunca mais voltaram!"
"E então, qualquer coisa de muito doce nos faltou na vida. Foi como se nos houvessem
expulsado de um mundo maravilhoso, cujas portas, constantemente abertas para nós,
se tivessem fechado de súbito e para sempre. E ninguém mais havia que fosse capaz de
as abrir!"
Ora, como isto não pode ser verdade, e os netos que ouviram as histórias de encantar
também um dia virão a ser avós...
Aí vai... um, dois, três... era uma vez... e as portas de um mundo maravilhoso vão-se
abrir...

Para mim já se abriram...
Fui ao tesouro do livro das "Mil e Uma Noites" e andei à procura das frases dispersas
por aqueles milhares de páginas que me impressionaram quando li o Livro... afinal as
histórias podem-nos livrar da morte...
"... Aos que nos contarem a sua história e o motivo que os trouxe a esta casa, não lhes
façais mal nenhum..., porém não poupeis os que se recusarem dar-nos esta satisfação."
(p. 150, 36ª Noite de Histórias encadeadas, sabiamente interrompidas em suspenso ao
nascer do sol, a hora marcada para o Sultão mandar matar a "esposa de uma noite"...
"Tendo o mariola (o moço de recados) percebido que não se tratava senão de contar a
sua história para se livrar de ser morto pelos sete escravos de Zobeida armados com os
seus alfanges, tomou a palavra e contou a sua história, o modo como a irmã de Zobeida o tinha requisitado para a acompanhar nas compras do mercado e... de como foi
até casa das três irmãs, que eram servidas por aqueles terríveis escravos e tinham duas
cadelas pretas..."
(p. 152, 37ª Noite)
Decisão do Califa GIAFAR (p. 244, 62ª Noite):
"Quero mandar escrever as suas histórias, que bem merecem ter um lugar nos anais do
meu reinado."
"Sei uma história mais maravilhosa... Como vossa majestade gosta de ouvir histórias
deste género, estou pronto a contar-vo-la, com a condição de que, se a achardes mais
maravilhosa do que aquela que acabais de ouvir, dareis perdão ao meu escravo..."
(p.368, 93ª Noite e começa a história de NOUREDDIN ALI e de BEDREDDIN HASSAN)
"Achou o Califa Haroun Alraschid tão maravilhosa esta história, que concedeu, sem hesitar, a graça do perdão ao escravo Rihan;"

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(p.436, 122ª Noite... - fim do 1º Livro do 1º Volume
... em que Shariar, seduzido pela bela contadora de histórias ainda hesita em mandar
matá-la... e pensa para consigo, se seria ajuizado e digno de um Sultão da sua estirpe,
deixar-se encantar pela magia das estórias, ou se devia dar execução, de imediato, à
jura que fizera desde que descobrira a infidelidade da sua primeira Sultana:
"A boa sultana conta histórias muito extensas; e quando uma vez tem principiado uma
não há meio de recusar ouvi-la toda. Não sei se devia mandar matá-la hoje; mas não;
não nos precipitemos: a história que contará é talvez mais interessante que todas as
que contou até agora, e não devo privar-me do gosto de a ouvir…").
"Achou o sultão a história tão interessante que recomendou ao seu historiógrafo particular que a escrevesse com todas as circunstâncias..."
(1º Volume, 2º Livro, p. 16, 128ª Noite)
"Se jamais alguma história mereceu ser escrita em letras de ouro, é a deste corcunda."
(p. 172, 184ª Noite, diz o Barbeiro, o 7º irmão, o Silencioso, depois das Histórias dos
seus seis irmãos.)
"O sultão, arrebatado de alegria de alegria e de admiração, ordenou que se escrevesse
a história do corcunda com a do barbeiro para que a memória delas, que tanto merecia
ser conservada, não se apagasse em tempo algum."
"... e o califa achou esta estória tão extraordinária, que ordenou a um famoso historiador que a escrevesse com todas as circunstâncias... e fosse guardada com letras de oiro
nos seus arquivos donde muitas cópias, tiradas desse original, a fizeram pública, mais
tarde..."
(p.222, II vol., livro 3, lá para o fim de uma longa História de GANEN, filho de ABOU AIBU, O ESCRAVO DE AMOR, que começa na p. 163, e pode ir até à p. 286, se lhe metermos na sequência, a História do PRÍNCIPE ZEYN ALASNAM e DO REI DOS GÉNIO... Aqui,
onde já o narrador perdeu a conta das noites em que Sheherazade seduzia o sultão
com as suas histórias e ele, claro, não se decidia a mandar matá-la.)
"O califa Haron Alraschid dava a Cogi Hassan uma atenção tão grande, que não percebeu o fim da sua história senão pelo seu silêncio. Disse: "Cogia Hassan, havia muito
tempo que não tinha ouvido cousa que me desse tanto gosto... Quero também que
contes a minha história ao guarda do meu tesouro, para que a faça pôr por escrito, e
que nele seja conservada com o diamante."
(p.182, II vol. livro 4, isto no fim de uma longa série de histórias encadeadas e inseridas
misturadas com a HISTÓRIA DE ALADIN, OU A LÂMPADA MARAVILHOSA.)
"Tinham-se já passado mil e uma noites nestes inocentes passatempos que haviam
contribuído muito para diminuir as prevenções desagradáveis do sultão contra a fidelidade das mulheres... Lembrava-se do valor com que Sheherazade se expusera voluntariamente a ser sua esposa, sem recear a morte, à qual sabia que estava destinada no
dia seguinte, como as outras que a precederam..."
"Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável nos vossos pequemos contos; há
bastante tempo que com eles me divertis; abrandaste a minha cólera e de boa vontade

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renuncio, em abono vosso, à lei cruel que me impusera; tendes toda a protecção minha, e quero que sejais considerada como a libertadora de todas as senhoras, que deviam ser imoladas ao meu justo ressentimento."
"... O Grão Vizir foi o primeiro que soube esta agradável nova da própria boca do sultão. Espalhou-se logo pela cidade e pelas províncias, o que atraiu ao sultão e à amável
Sheherazade, sua esposa, mil bênçãos de todos os povos do império das Índias."
(Volume II., Tomo IV, p. 448, 1001ª Noite)
Vale a pena, ainda, fazer uma incursão pelas “Histórias Maravilhosas do Oriente” de
Pearl S. BucK…

A estória do Velho Segador de Erva... O pobre CEIFEIRO rico...
ou a estória de um CEIFEIRO... um mercador... príncipes... e princesas...
ou talvez a estória de como as estórias se reproduzem e criam riqueza através da comunicação... ou da ajuda "desinteressada" de um amigo mercador...
... e assim começa a primeira estória a do Velho Segador de Erva... O CEIFEIRO...
Eis um conto de encantar da Índia.
É o primeiro conto do livro de Pearl S. BucK,
in HISTÓRIAS MARAVILHOSAS DO ORIENTE,
(https://pt.scribd.com/doc/158221131/Historias-Maravilhosas-do-Oriente-Pearl-S-Buck-pdf)

edição livros do Brasil, Lisboa,
com direitos de autor, desde 1965, By Pearl S. Buck and Kenyon Angel,
que me proponho reescrever e recontar.
Fala de um velho de coração simples,
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que vive numa cabana de colmo, no meio da floresta,
e, mesmo pobre e sem nada para dar,
está decidido a ser generoso e a compartilhar
o pouco que foi guardando ao longo dos anos...
... Este gesto desinteressado
vai provocar uma espiral de dádivas verdadeiramente assombrosas...
Dá e torna a dar o que lhe é dado... até que...
ao fazer os outros felizes encontra a sua própria felicidade...
... pareceu-me talvez a melhor parábola do segredo da comunicação...

A estória do velho segador de erva...
... o segador de erva... semeador de sonhos... (Texto adaptado)
Em tempos que já lá vão, vivia, numa aldeia não muito longe duma grande cidade, um
pobre Velho. Vivia numa cabana de colmo e ganhava a vida cortando erva que vendiaa como forragem para os cavalos. Ganhava cinco meios-dinheiros por dia, mas, como
era um simples e tinha tão poucas necessidades, ainda poupava meio-DINHEIRO pois
gastava o resto na comida e nas roupas de que precisava, ele e a família...
Assim viveu muitos anos... Os filhos partiram, cada um para a sua vida, e bem longe
daquela miséria, a mulher morreu... Então, um dia, vendo-se só e sentindo o peso dos
anos, certa noite, decidiu verificar as economias que tinha escondido num grande pote
de barro, debaixo da cabana.
Tirou o saco de dentro do pote e despejou-o no solo. Sentou-se a olhar, cheio de espanto, o tesouro que se tinha acumulado... Que faria com tudo aquilo-- Não pensou,
sequer, em gastá-lo consigo, pois estava disposto a passar o resto dos seus dias como
sempre vivera e não ambicionava maior conforto ou luxo.
Como não sabia o que fazer meteu tudo outra vez num saco velho e empurrou este
para debaixo da cama, enrolou-se no seu esfarrapado cobertor e deitou-se.
Geralmente, não sonhava; mas naquela noite sonhou com uma rapariga encantadora.
Acordou cedo, com o rosto da jovem ainda gravado no espírito. Então, foi ao saco, tirou algumas moedas, um saco razoável bastante pesado, e dirigiu-se à loja de um joalheiro, que conhecia na cidade, com o qual ajustou a compra de uma bonita pulseirinha de ouro.
Com a pulseira cuidadosamente embrulhada na faixa de algodão que usava à cintura,
foi a casa de um amigo rico, um mercador que andava com os seus camelos e as suas
mercadorias por muitos países. O velho teve a sorte de o encontrar em casa. Sentou-se
e, depois de tagarelarem um pouco, perguntou-lhe quem era a senhora mais bela e
virtuosa que jamais encontrara.
O mercador respondeu-lhe que não sabia, mas, numa terra bem longe onde passara,
diziam haver uma princesa, famosa em toda a parte tanto pela sua rara beleza, como
pelo seu temperamento amável e generoso.
-- Então-- -- disse o Velho-- --, da próxima vez que fores para esses lados dá-lhe esta
pulseirinha, com os respeitosos cumprimentos de um homem que admira muito mais a
virtude do que deseja a riqueza.

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Tirou a pulseira da faixa e estendeu-a ao amigo. O mercador sentiu-se, naturalmente,
muito surpreendido, mas não disse nada nem levantou objecções à realização dos desejos do amigo.
O tempo passou e, no decurso das suas viagens, o mercador chegou, finalmente, à capital desse reino longínquo, no tempo do Sultão Babel. Assim que teve ensejo, apresentou-se no palácio e mandou entregar a pulseira, bem acondicionada numa caixinha
perfumada que ele próprio oferecera, e não se esqueceu de mandar também o recado
que o Velho lhe confiara.
A princesa não tinha nenhuma ideia de quem lhe oferecia tal prenda, mas ordenou à
criada que dissesse ao mercador que voltasse depois de terminados os seus negócios
na cidade, a fim de lhe dar uma resposta. Decorridos poucos dias, o mercador voltou e
recebeu da princesa, como retribuição, um carregamento de ricas sedas, além de um
presente em dinheiro para si próprio, e pôs-se de novo a caminho.
Meses depois regressou a casa e levou imediatamente o presente da princesa ao Velho.
Grande foi a perplexidade do bom homem ao ver descarregar à sua porta os fardos de
seda!
Que havia de fazer de mercadoria tão cara-- Após muito pensar, rogou ao mercador
que tentasse lembrar-se se conhecia algum jovem príncipe a quem tais tesouros pudessem ser úteis.
-- Claro que conheço!-- -- redarguiu o mercador, muito divertido -- -- Conheço-os todos, de Deli a Bagdade e de Constantinopla a Larquenau. Mas não existe nenhum mais
digno que o galante e rico jovem príncipe das Ilhas dos Cantos enC(o)ant(r)ados.
-- Muito bem, leva-lhe então as sedas, com a minha bênção-- -- disse o Velho, muito
aliviado por se ver livre delas.
Na sua próxima viagem para esses lados, o mercador levou as sedas e em devido tempo chegou à capital das Ilhas e solicitou audiência ao príncipe. Levado à sua presença,
mostrou-lhe as belas sedas do Velho e rogou ao jovem que as aceitasse como humilde
tributo ao seu mérito e grandeza. Muito comovido, o príncipe ordenou que fossem entregues ao Velho, como retribuição, doze dos melhores cavalos pelos quais o seu país
era famoso e acrescentou-lhes uma recompensa generosa para o mercador, pelos seus
serviços.
Como da outra vez, o mercador chegou finalmente a casa e, logo no dia seguinte, foi
levar os doze cavalos ao Velho. Quando os viu aproximarem-se, ao longe, o velho disse
para consigo: -- Que sorte, vem aí uma manada de cavalos! Com certeza precisarão de
muita erva e, assim, venderei toda a que tenho sem ser obrigado a levá-la ao mercado.
E, sem perda de tempo, começou a segar erva o mais depressa que podia. Grande foi o
seu espanto, porém, ao verificar que, afinal, os cavalos eram todos seus. Ao princípio
não soube que fazer deles, mas passados momentos teve uma ideia brilhante: deu dois
ao mercador e pediu-lhe que levasse os restantes à princesa, sem dúvida a pessoa
mais indicada para possuir tão belos animais.
O mercador abalou a rir, mas, fiel ao pedido do seu velho amigo, levou os cavalos consigo na próxima viagem e ofereceu-os, a seu tempo, à princesa. Desta vez a princesa
mandou-o chamar e interrogou-o acerca do ofertante. Habitualmente verdadeiro, o
mercador não se atreveu a descrever o Velho como ele era, um pobre velho cujo rendimento se resumia a cinco meios-dinheiros por dia e que mal tinha roupas com que se
cobrir. Disse, por isso, à princesa que o amigo ouvira falar da sua beleza e bondade e

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que ambicionava depor a seus pés o melhor que possuía. A princesa contou ao pai o
que se passava e rogou-lhe que a aconselhasse acerca da forma como devia retribuir a
cortesia do homem que persistia em fazer-lhe semelhantes presentes.
-- Bem-- -- respondeu-lhe o rei-- --, não podes recusá-los. O melhor que tens a fazer é
enviar a esse amigo desconhecido uma prenda tão majestosa que não lhe seja possível
superá-la, mandando-te outra melhor. Envergonhado, não te mandará mais nada.
Ordenou então que, em troca de cada um dos dez cavalos, a princesa oferecesse duas
mulas carregadas de prata. Assim, em poucas horas, o mercador encontrou-se com a
responsabilidade de uma caravana tão esplêndida que teve de contratar um grupo de
homens armados, para a protegerem dos ladrões, e foi com prazer que se viu de novo
na cabana do Velho.
-- Outra vez!-- -- exclamou o velho, ao ver toda aquela riqueza à sua porta. -- Embora
possa retribuir ao generoso príncipe o seu magnificente presente de cavalos, devo
lembrar-me de que incorreste em grandes despesas por minha causa. Por isso, se aceitares seis mulas e a sua carga e levares o resto direito às Ilhas dos Cantos
enC(o)ant(r)ados, agradecer-te-ei de todo o coração.
O mercador sentiu-se generosamente recompensado pelo seu TRABALHO e, embora
perguntasse a si mesmo o que aconteceria a seguir, não levantou dificuldades. Preparou tudo e partiu para a nova viagem, com aquela nova e principesca dádiva.
Desta vez o príncipe sentiu-se também embaraçado e interrogou muito o mercador.
Este pensou que o seu bom nome estava em jogo e, apesar de não ser intenção sua levar a brincadeira mais longe, não resistiu à tentação de descrever o Velho em termos
tão entusiásticos que o velho jamais se reconheceria, se os ouvisse. O príncipe, como
acontecera ao rei daquele país longínquo, resolveu mandar-lhe um presente genuinamente real e talvez susceptível de impedir o ofertante desconhecido de lho retribuir.
Formou, por isso, uma caravana de vinte esplêndidos cavalos ajaezados com xairéis
bordados a ouro, belas selas de marroquim, rédeas e estribos de prata; vinte camelos
da melhor raça, velozes como cavalos de corrida e capazes de trotarem todo o dia sem
se cansarem, e vinte elefantes com enfeites de prata e coberturas de seda bordada a
pérolas. O mercador contratou um grupo de homens para tomarem conta dos animais
e a caravana partiu e despertou grande curiosidade ao viajar pelas estradas da Índia.
Quando o Velho viu a nuvem de poeira que a caravana levantava, ao longe, e o brilho
do seu equipamento, disse para consigo:
-- Por Alá, aproxima-se uma grande multidão! E traz elefantes, também! Hoje venderse-á muita erva!
E correu para a floresta, onde segou quanta erva pôde e o mais depressa possível. Ao
regressar, verificou que a caravana parara à sua porta e que o mercador o esperava,
com certa ansiedade, a fim de lhe comunicar o que acontecera e de o felicitar pelas
suas riquezas.
-- Riquezas--! -- exclamou o Velho -- Para que quer riquezas um homem que, como eu,
está com os pés para a cova-- A bela princesa é que vai gozar todas estas bonitas coisas! Guarda para ti dois cavalos, dois camelos e dois elefantes, com todos os seus arreios e ornamentos e oferece-lhe o resto da minha parte.
Ao princípio o mercador protestou, afirmando-lhe que começava a achar aquelas embaixadas um pouco desagradáveis. Recompensavam-no prodigamente, sem dúvida,
mas mesmo assim não gostava de viajar com tanta frequência e sentia-se apreensivo.

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No fim, porém, consentiu em ir mais uma vez, mas jurou a si mesmo que seria a última
e que não se meteria noutra aventura daquelas.
Passados alguns dias de repouso a caravana pôs-se novamente a caminho. Ao ver entrar no pátio do seu palácio o maravilhoso cortejo, o rei sentiu-se tão surpreendido
que correu a informar-se pessoalmente do que se passava e ficou assombrado quando
lhe disseram tratar-se de outro presente do opulento Velho Desconhecido para a princesa sua filha. Dirigiu-se sem perda de tempo aos aposentos da jovem e disse-lhe:
-- Quanto a mim, minha querida, esse homem deseja desposar-vos. É esse o significado
de tantos presentes! Acho melhor irmos visitá-lo em pessoa. Deve ser imensamente rico e como parece ser-te muito devotado, talvez pudesses ver por ti própria se queres
casar com ele!
A princesa concordou com as palavras do pai e mandaram preparar sem demora inúmeros elefantes e camelos, bonitas tendas e bandeiras, liteiras para as senhoras e cavalos para os homens, pois o rei e a princesa iam visitar o grande e munificente príncipe. O mercador conduziria a caravana, por ordem do rei.
É impossível imaginar os sentimentos do pobre mercador ao ver-se perante tão cruel
dilema. De boa vontade fugiria, mas tratavam-no com tanta hospitalidade, como representante do Velho desconhecido, que raro tinha um momento de descanso e nunca
se lhe apresentava OPORTUNIDADE de se escapar.
Partiram no sétimo dia, entre ruidosas salvas disparadas das muralhas da cidade, muita poeira, muitos vivas e toques de trompa. Os dias passavam, um a um, e o pobre
mercador sentia-se cada vez mais desesperado.
Por fim encontraram-se apenas a um dia de marcha da cabanazinha de barro do Velho.
Armaram aí um grande acampamento e o mercador foi incumbido de ir informar o Velho de que o rei e a princesa daquele Reino de Longe tinham chegado e lhe solicitavam
audiência. O mercador encontrou o amigo a comer o seu jantar de cebolas e pão seco
e, quando lhe disse o que acontecera, o velho não teve coragem de o censurar. Transtornado de aflição e vergonha por si, pelo seu amigo e pelo bom nome da princesa, o
Velho chorou, puxou barba e gemeu comovedoramente. Com as lágrimas nos olhos,
suplicou ao amigo que os detivesse por um dia, inventando para isso qualquer desculpa, e que voltasse na manhã seguinte, a fim de estudarem o que deviam fazer.
Mal o mercador partiu, o Velho convenceu-se de que havia uma única maneira honrosa de se libertar da vergonha provocada pela sua leviandade: fugir, desaparecer. Pegou
na foice e num bastão e, com uma velha sacola, partiu de noite rumo ao desconhecido.
Quando se sentiu seguro e longe suficiente para o encontrarem, deitou-se a dormir de
baixo de umas árvores...
A certa altura sentiu que acordava e teve consciência de um suave resplendor, perto
de si.
-- Querem ver que me descobriram! Por certo a manhã nascera já, para apressar e revelar a minha desgraça! -- Tentou abrir os olhos e perceber donde vinham os algozes
para o levarem e condenarem diante do rei e da princesa. Levou as mãos ao rosto para
limpar o olhos e, quando as tirou, viu dois seres maravilhosos, que percebeu instintivamente não serem humanos, mas, sim, Génios do Paraíso.
-- Porque choras, Velho-- -- perguntou-lhe um deles, em voz tão clara e musical como a
do rouxinol do Oriente.
-- Choro de vergonha! -- respondeu-lhe.
-- Que fazes aqui-- -- quis saber o outro.

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-- Vim aqui para morrer.
E, instado pelas suas perguntas, contou-lhes toda a história.
Chegado ao fim, o primeiro Génio aproximou-se, colocou-lhe uma das mãos num ombro e o Velho começou a sentir que algo de estranho, não sabia o quê, lhe acontecia.
Os seus velhos farrapos de algodão transformaram-se em belo linho e tecido bordado,
os seus pés calejados experimentaram o conforto de uns sapatos macios, a sua cabeça
ostentava um grande turbante cravejado de pedras preciosas, do pescoço pendia-lhe
grossa cadeia de ouro e a pequena foice de segar erva que usava na faixa da cintura
transformara-se em deslumbrante cimitarra, cujo punho de marfim brilhava como neve ao luar.
Enquanto se olhava, maravilhado, como se sonhasse, o outro Génio acenou-lhe com a
mão e mandou-o virar a cabeça. Na sua frente abria-se um portão nobre, do qual partia uma alameda de gigantescos plátanos, por onde os Génios o conduziram, atordoado de espanto. No fim dela, exactamente no lugar em que se erguera a sua cabana de
barro, erguia-se agora um maravilhoso palácio, cheio de luzes, de criados azafamados
que ocupavam os alpendres e as varandas e de guardas que andavam de um lado para
o outro e o saudaram respeitosamente ao verem-no acercar-se ao longo dos passeios
musgosos e dos grandes relvados verdes, onde murmuravam fontes e as flores perfumavam o ar. Por fim, o Velho parou diante do palácio, aturdido e confuso.
-- Nada temas -- disse-lhe um dos Génios. -- Entra na tua casa e aprende que Deus recompensa os simples de coração.
Após estas palavras, desapareceram ambos e deixaram-no.
O Velho entrou no palácio, ainda convencido de que devia estar a sonhar, e retirou-se,
para descansar, num quarto esplêndido, muito mais grandioso do que jamais julgara
possível.
Quando acordou, de madrugada, verificou que o palácio e os servos eram reais e que,
afinal, não sonhara!
Se o Velho estava aturdido, o mercador, levado à sua presença pouco depois de nascer
o Sol, ficou ainda mais...
Contou ao Velho que não dormira toda a noite e que começara a procurá-lo de madrugada. E enquanto o procurava, de repente, uma grande extensão de terra árida transformara-se, da noite para o dia, em parques e jardins. Se alguns dos novos criados não
o houvessem encontrado e trazido para o palácio teria fugido, julgando que a ansiedade o enlouquecera e tinha tido perigosas alucinações.
O Velho contou então ao mercador tudo o que acontecera. Por conselho deste, mandou convidar o rei e a princesa do País de Longe, assim como toda a sua comitiva, até
ao mais humilde servidor, e durante três noites e três dias ofereceu um grande festim
em honra dos seus reais convidados. Todas as noites o rei e os nobres eram servidos
em pratos e taças de ouro e os convidados de menor categoria em pratos e taças de
prata, recomendando-se sempre a todos que guardassem uns e outras como recordação. Nunca se vira nada tão sumptuoso. Além do banquete, havia desportos e jogos,
danças e divertimentos de toda a espécie.
No quarto dia o rei chamou o Velho de parte e perguntou-lhe se era verdade que, como suspeitava, desejava desposar a princesa. O velho agradeceu-lhe muito a distinção,
mas afirmou-lhe que jamais ousara esperar tão grande honra, pois era demasiado idoso e feio para desposar tão bela dama. Além disso era, afinal, mesmo muito pobre...
Aquilo que eles agora viam era uma espécie de Conto de Fadas... Um dia contaria...

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Mas rogou ao rei que ficasse mais um pouco em sua casa, pois aguardava visitas... Tinha mandado velozes mensageiros com um irrecusável convite, ao príncipe das Ilhas
dos Cantos enC(o)ant(r)ados... Apesar do Longe e da Distância o Príncipe apareceu... e
deparou com os ricos festejos que decorriam...
O príncipe encontrou o Velho, deram-se a conhecer e o Velho fez-lhe saber que era
sem dúvida um jovem excelente, corajoso e digno, e ficaria encantado por conquistar a
mão de tão excelsa donzela.
O príncipe, sem perda de tempo, apaixonou-se loucamente pela princesa e desposou-a
no palácio do Velho, no meio de grande regozijo.
Depois o rei daquele Reino de Longe e o Príncipe e a Princesa regressaram aos seus países. Quanto ao Velho, viveu ainda muitos, muitos anos, ajudando todos aqueles que
precisavam de auxílio e conservando na prosperidade o carácter simples e generoso
que o caracterizara quando era apenas o segador de erva...
Este TRABALHO foi acabado de realizar e imprimir, @ JORAGA - Pentium 200 WinWord, Hewlett Packard Desk Jet 550C - Corroios, Janeiro de 2000 - com todos os
direitos reservados por: joraga.net

Há ainda a tentação de seguir a pisadas de Giovanni Boccaccio e da sua obra -- DECAMERON - «ONDE ESTÃO CONTIDAS CEM NOVELAS EM DEZ DIAS (10 JORNADAS), ontadas por sete Damas e três Mancebos…
«A estrutura do Decamerão, obra-prima de Boccaccio, é formada por um conjunto de
cem novelas, divididas em dez "jornadas" - onde dez jovens narradores se revezam em
torno de um tema no qual cada um deve expor uma história que seja com este relacionada.
A primeira jornada começa por uma descrição dos efeitos da peste negra nas cidades,
e assim justifica a razão para o encontro casual, em pleno campo, dos dez rapazes e
moças de Florença, que darão voz às histórias.
Eles se dirigem para um local, a duas milhas da cidade, onde encontram um palácio curiosamente vazio e arrumado, dotado de excelente adega. Ali será o palco de o Decamerão.

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Eleita Pampineia para dirigi-los na primeira noite de histórias, esta principia dando ordens aos criados de cada um, dividindo as tarefas para o bom andamento das jornadas.
O "papel" principal de cada Rei ou Rainha é o de determinar a temática das histórias a
serem narradas.»

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AS FALAS DO VELHO ContaOuvidor de ISTÓRIAS...
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/7falas.htm

O-VELHO-JOVEM-CONTAOUVIDOR-DE-HISTÓRIAS era um jovem muito velho andarilho
das sete partidas viajante caminhante que se tinha farto de correr mundo e o muito
que tinha ouvido e visto, “o muito que tinha ouVisto” como ele dizia… e onde é que eu
já ouvi ou já vi isto-- ia jurar que tinha dito o mesmo já no capítulo anterior..., sentia-se
no direito de contar as histórias dele e dos outros como se fossem dele e às tantas,
acontecia que já não era ele a contar porque as pessoas que o ouviam não ouviam o
jovem-velho contar nada porque eram eles jovens e velhos que se punham a contar
ouvindo ou vindo-viajando as histórias deles que não eram deles, eram doutros, e assim não se sabia quem contava ou quem ouvia porque cada um contava as histórias
dos outros como se fossem deles e as histórias deles como se fossem dos outros de tal
maneira que nunca se sabia quem contava e quem ouvia daí ter de se inventar uma
palavra nova - CONTAOUVIDOR - que ninguém conhecia mas toda a gente sabia que
era para explicar aquilo que acontece a toda a gente que quando está a ouvir e não está a ouvir nada mas está a contar a sua própria história e quando está a contar não está a contar nada mas está a ouvir aquilo que aconteceu aos outros...

…e era assim. o velho jovem menino mulher pessoa já madura emigrante de férias em
regresso condicionado se... lá estava em ameno baloiçar na varanda alevantada aberta
sobre o vale conversando de ouvir os velhos sábios magos da montanha desde há milhares de anos esculpidos nos contornos dos cimos que rodeiam aquela terra na serra
contando as suas histórias de encantar...
então o sonho imaginado que era a realidade que eu vivia vestiu-se de nuvens e o velho jovem contaouvidor de histórias começou a falar a falar calado sem mexer os lábios, sem nexo, misturando tudo, os tempos e os espaços e as histórias e as personagens, confundindo as palavras que não dizia porque só as imaginava com as letras escritas que ficavam a cintilar como as estrelas que como é evidente ali estão à disposi-

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ção de serem lidas por todos mas que poucos lêem porque não sabem ou porque não
querem ou nem sequer têm tempo de erguer o olhar para as estrelas ou porque a luz
da civilização é demasiado forte para permitir que se vejam as estrelas ou pelo simples
facto de não se poderem ver porque o céu está coberto de nuvens exactamente naquela noite em que tinham tempo e disposição para as olhar... ou então havia ainda
outro fenómeno estranho quando o velho-jovem-figura-de-mulher contaouvidor de istórias começava a falar sem falar e sem ser ouvido: as palavras expiradas ao ritmo da
respiração já um tanto arfante não se ouviam mas ficavam desenhadas como balões
de um código mágico no ar frio que transformava em vapor o ar quente expirado pelo
contador e ficávamos a assistir como se estivéssemos num cinema mudo... tal e qual
como nos acontece na Serra quando vemos ao longe dois personagens a conversar...
um pastor a dar e um caçador a pedir informações... o pastor a agradecer o inesperado
cigarro oferecido já todo enrolado e com uma ponta para entalar nos beiços... e o caçador a agradecer as informações por ode teriam passado as perdizes e as lebres...
"olhe qu'ainda o ano passado por'í andavam…"
...se aqui a gente sabe ler-- ah! ah! ah! ria-se o velho. sabe sim senhor. sobretudo os
mais velhos que não sabem ler essas coisas da escola e dos padres e dos doutores esses sabem ler nas nuvens e na cor do céu e na forma e movimento das estrelas o rumo
do tempo e dos tempos... mas são coisas muito complicadas e simples em que ninguém agora acredita porque dizem que já vem tudo nos livros e toda a gente já mandou estudar os filhos por mor disso e os jornais e o rádio já dizem as coisas todas que
as pessoas querem saber e não lhes interessa para nada aquilo que nós sabemos e lemos nas cores e nas formas do céu...
-- atão o menino zué nuo suabe-- nu uouviu faluar-- um dos puoucos que acredituou
nuessas cuousas foi o ruei o sunhuor duom Cuarlos e a rainha senhuora duona Amélia
que nuos primueiros anos do século estava este século a amanhecer vieram aqui para
ver o aurora boreal3 aquela luz fortíssima vermelha e cor de rosa de muitas cores que
ali esteve dias e dias e ele e a rainha vieram até cá e eu e muitos como a sua avó e o
seu avô pudémos ver os reis ainda uma vez na vida e vieram cá para ver o que anunciava aquela luz especial que só acontece uma vez em cada cem anos e o rei dizem que
era um homem com estudos e muito sabedor destas coisas e cá vieram para ver mais
de perto aquela luz e o que podia anunciar e veja o que lhes aconteceu... mataram-nos
a ele e ao filho para ficarem a mandar aí os da república e andarmos por aí mandados
pior de que se fosse o rei a mandar que isto nunca se sabe mas é o que parece... se os
que nasceram para mandar no dão avego, os outros que vão aprender à nossa custa
vão-nos fazer penar muito até acertarem... é o que eu lhe digo e eu não sei nada disso
que é a política... a política para mim é mourejar aí por esses carreiros da serra com a

3

1 -- No século XX, a Aurora de 25 de Setembro de 1909 associada a uma tempestade solar que causou muitos problemas nos telégrafos na Europa e EUA, também deve ter sido vista em Portugal.
2 -- A tempestade solar de 25 Janeiro de 1938 (ciclo 17) terá provocado provavelmente das aurora mais espectaculares desde há
décadas em Portugal (talvez desde 1909), gerando pânico em Portugal bem como noutros países europeus menos habituados a
elas. O evento foi muito associado às aparições marianas nas comunidades religiosas nacional e internacional, fazendo supostamente parte do 2º segredo de Fátima (revelado posteriormente em 41), «Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo dos seus crimes», sobre a guerra mundial que se
iniciaria no ano seguinte, em 1939.
http://www.meteopt.com/forum/topico/auroras-em-portugal.5505/

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

ajuda das alimárias que têm de ser muito bem tratados para aguentarem tanta lida e
tão pesada...
…mas enquanto o velho jovem contava as suas histórias que eu já não ouvia, ouvia subitamente outra história que não percebia quem a contava ou para quem…
-- olha, zé da serra! olha-me bem o que digo zé da serra do vale do zêzere que eu não
tenho tempo para estar aqui a falar para o ar e não vou repetir aquilo que te digo!... isto, descobri depois mas nunca tive a certeza porque não tinha nada a ver comigo!
…isto era a maga da estrela a falar com o velho menino jovem com cara de mulher sedutora que estava sentado na cadeira de baloiço que não estava lá na varanda mas estava lá no espaço do tempo muito alto e muito longe dali a falar com os magos da
montanha... olha-me bem, ó zé ninguém, olha bem para mim que eu vou contar-te a
minha história:
a HISTÓRIA VERDADEIRA DA SERRA DA ESTRELA!
…já tantos contaram a história e a lenda que tu te pões para aí a rir porque todos pensam que aquilo que contaram é a minha história e a lenda do meu nome que se escreve com as letras da estrela e antes até lhe chamavam hermínios ou montes ermos
porque pensavam que isto aqui era tudo uma ermidade, uma solidão onde não havia
nada nem ninguém e depois de lhe chamarem da estrela, e não é que acertaram porque ela é mesmo minha, ficaram tão vaidosos de o terem inventado e de terem inventado as lendas e as histórias e até as descobertas científicas que nunca se lembraram
de me vir perguntar se era verdade e se por acaso eu sabia a minha história verdadeira!-- ...São assim as pessoas quando sabem tudo. Até arranjaram para aí uns guardas
da verdade da serra para a guardarem e não a deixarem estragar! deixa-os...
… é a ti, hoje, eu a decidi contar…
… como te vi aí sisudo pensativo meditabundo calado de olhar atento perscrutando a
serra da varanda da tua terra aberta sobre o vale glaciar do zêzere rodeado de verdes
azereiros daqueles que dão umas drupas muito amargas acres aceradas como o fel
mas que dão umas flores muito bonitas na primavera e como te vi aí há longos anos
sentado à procura das minas de oiro que eu criei como anunciou o mestre Gil Vicente
não que ele o tivesse encontrado para fazer as suas obras de arte como a custódia de
Belém que dizem que foi ele mas parece que foi um mestre Gil que também era Vicente mas porque já o propagandeava Estrabão que só nasceu quase um século depois de
Viriato mas como bom geógrafo e historiador já dizia que estas terras da serra eram ricas em oiro e prata e outros metais como em frutos e gados animais que dão leite e
outros produtos, até há aquela que chamam manteigas por assim guardarem o melhor
dos vários leites! ...acendendo mais a cobiça dos romanos que aqui se instalaram uns
anos antes do nascimento de Cristo depois de tanta luta e tanta guerra e tanta morte e
de terem sido enxovalhados e envergonhados pelo Viriato que de pastor se fez chefe
de pastores e tendo escapado à chacina da Galba que até o senado romano condenou
como vergonhosa e indigna da civilização romana se tornou chefe dos heróis ou das
ordas lusitanas e destroçava legiões com artes e estratégias dignas de um génio militar... parece que se impunha igualmente aos outros lusitanos e povos da Ibéria que

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não gostavam muito dele e o traíram e mataram e preferiram a paz e o progresso dos
invasores até lhe assimilarem a língua e o modo de pensar... herói hermínio intratável
áspero rude selvagem que queria defender o direito à diferença e à liberdade de cada
povo ser o que é--... ou bandido autoritário que só queria ser caudilho e impor a sua
vontade a sua lei e os seus interesses--... é bom que as pessoas o vejam como herói. as
pessoas precisam de heróis e vão-nos inventando quando e onde precisam deles. como os deuses. como a minha lenda!...
… pois eu como te vi aí mudo e salamurdo, nessa varanda aberta sobre o vale, olhando
observando divagando tentando adivinhar os mistérios da serra gritando calado o nome destes montes destes moios4 destes colossos destes povos destas gentes que tu
tão bem tão pouco conheces também misturando tudo e trocando tudo misturando
nomes antigos com os novos e chamando as pessoas pelos nomes que têm e pelos outros que lhe deram, bem, apesar disso tudo, olhei bem para ti e decidi-me contar-te. ...
…contar-te só a ti que é segredo.
ai de ti se a divulgares! livra-te de a contar aos donos do poder e do saber. eles já podem tudo! já sabem tudo! se ficam a saber esta história vão conhecer os segredos desta serra desta terra e destas gentes e assim ficaria maior o seu poder e o seu saber! se
fosse o saber saber dos sábios-- não havia perigo! também os outros-- não há grande
perigo porque os que pensam que sabem tudo não vão entender patavina destas coisas que te vou contar. os sabelivros vão-te ridicularizar... olha o parvo! esta não vem
nos livros, portanto não pode ser verdade. diga lá senhor autor deste livro onde é que
vem isso nos livros. se já vem nos livros escusava de o ter escrito, se não vem não pode
ser verdade e por isso escusava de ter perdido tempo a escrevê-lo. parvoíces! ora esta,
que não vem nos livros, digo-to eu, não pode ser verdadeira. é verdade. bem, com os
sabelivros estás feito. os poderricos vão tentar destruir-te. os ricardos não podem suportar que os outros tenham tanto como eles, como os mandapoder não podem suportar que haja outros que mandem como eles. que mandem executar o que eles
mandam-- está bem. mandar outra coisa-- não. então onde é que íamos parar-- era a
anarquia! era a bagunça completa! porque é que te vão odiar-- por ensinares aos pobres os segredos das cavernas e os mistérios da serra que só eles pensavam conhecer
e guardavam muito bem guardados... às vezes deixavam escapar assim umas pistas e
umas dicas para as pessoas se entreterem e arranjarem umas guerras uns com os outros e eles poderem mandar mais tranquilos. mas o certo é que, felizmente para ti e
para mim, nem uns nem outros são de temer. a uns e aos outros e a todos eu hei-de
engolir e depois, os que sabem ler, talvez não saibam ler ou nem acreditem naquilo
que lêem ou se calhar nem se vão dar ao trabalho de ler. então não querias mais nada
senão arranjar uns dinheiritos com a venda do livro e ficares aí rico como eles! e depois acontece também que a verdade como a luz do sol é demasiado brilhante e assim
as pessoas não olham para o sol, cuidado que até pode cegar! e usam-se para evitar isso uns óculos escuros para proteger a vista e até há quem arranje assim uns panos ou
umas peneiras como os guarda-sóis ou os guarda-chuvas para a luz e o sol não fazerem
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Medida do que a mó pode moer num dia (= 60 alqueires). -- "moios", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha],
2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/moios [consultado em 22-04-2015].

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mal aos olhos das pessoas e com a verdade passa-se a mesma coisa. dá-se só aos bocadinhos quando se tem que é para não fazer mal à vista!...
… bem, não percas tempo com eles que já estamos a perder muito tempo. mas atenção, só mais uma coisa. homem prevenido vale por dois e mais vale estar prevenido do
que remediar! olha que os podenovos são mais ou menos como os podevelhos ou para
lá caminham. mesmo os podeeleitos pelo povo duma coisa que chamaram democracia
que é poder do povo e depois o povo como é povo dá o poder aos poderepresentantes
que depois de estarem no poder e poderem, de repente, passam a saber tudo, a ter a
experiência de saber o que o povo sabe e o que o povo pode e depois passam eles a
dizer ao povo o que pode saber e pode poder e daí a trocarem a primeira letra do poder com um efe é um saltinho que nem chega a ser de gafanhoto!
… esta história, zé da serra do vale do zêzere ou lá como te chamas ou te chamam,
compenetra-te bem do que eu te digo e vê lá se penetras bem nos segredos que te
confio... conta-a só aos pobres. conta-a aos pastores. às crianças. aos poetas. esses sim
vão gostar de ouvir-te. verdade seja que é uma perca de tempo. pobres já não há ou
há muito poucos! pastores-- estão a acabar! as crianças não sabem ler! poetas-- ...!
mas a esses também não precisam muito que tu lha contes porque esses sabem-na
contada por mim directamente que sou a fonte e falo com eles e enquanto falo os vou
fecundando embora muitos não acreditem muito nos frutos que vão nascendo nos
seus ventres! pensam que são histórias fabulosas como os sonhos para se evadirem da
sua grande miséria e solidão que os impede de serem aquilo que podiam porque os valores e as leis e os princípios dos mundos em que vivem são outros muito diferentes e
não é muito fácil viver com outros... os verdadeiros.
… dou-te mais uma pista. … como esta história é de facto um segredo fabuloso, contaia só assim em segredo uns aos outros de boca em boca de fala em fala, assim à maneira de quem mergulha nas águas sem fundo da lagoa escura! já lá mergulhaste-- medricas! naquelas águas perdidas em cavernas de mistério que rasgam o ventre da serra da
terra da sterra até ao mar... não pode ser-- … fugia toda que está muito alta--! isso é o
que pensam os que pensam que sabem tudo das leis da natureza como se fossem eles
que as fizeram! … aqueles que lá mergulham sentem-se perdidos fascinados deslumbrados e depois não têm palavras para contar ao tentarem recordar os segredos comunicados pelas águas as minhas entranhas e pelo fogo a cada fímbria do seu ser...
… cuidado com as fantasias! … que é o que acontece com as pessoas a quem se revelam coisas inacreditáveis inacessíveis e depois as tentam contar com conceitos e ideias
verdades que não têm palavras nem cabeça para as apreender e comunicar!... alguns
até já leram muitos livros e ouviram muitas doutrinas e depois tentaram ser bem educados modestos e vão dizer que ouviram de mim aquilo que ouviram doutros doutos e
sabidos e até lhes pagam bem e lhes dão confortáveis espaços e papéis e escaparates
onde muita gente os pode ouvir e ver e ler e então me(n)tem muita erudição e informação e deformação nessas revelações que lhes são ditas para ver e sentir para cheirar saborear digerir recrear sonhar e recriar e aí estão a comunicá-las como algo que se
não pode comunicar porque só usam um ou dois meios de comunicação e esquecemse que temos pelo menos cinco ou sete para ser mais preciso e que afinal é só um as

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pessoas é que precisam de os separar e contar... e isto não são coisas só para ouvir
com os olhos e ver com o nariz ou saborear com os ouvidos ou cheirar com as mãos ou
palpar com a boca ou comunicar com SIGNOS símbolos ou enigmas... repara que as
vossas palavras de falar de ler e de escrever, mesmo poderosas, são muito pobres para
dizerem coisas destas!
… até tu já ouviste tantas vezes esta lenda. lembras-te-… a tua avó contava-ta a ti e aos teus irmãos à volta daquela velha lareira, aquela da
pedra grande a grande lajem
da cozinha do primeiro andar
que os construtores perante a
teimosia do teu avô que ia lá
ficando esmagado por ela elevaram através duma rampa
em prodígios de inusitado engenho e com graves riscos e ali
ficou, dizem, a segurar a casa
toda donde nasceu a lenda
temerária de que se um dia
fosse partida seria o fim...
…tudo correu bem e não houve discussões mesmo quando a comida deixou de ser feita no lume do chão da lareira e passou a fazer-se no fogão de lenha que era outra limpeza e tinha forno e assadeira e depósito de água quente e foi um melhoramento e
uma limpeza que nos permitia ombrear com as melhores famílias da terra. nos dias de
matança, tirava-se a longa chaminé que ia até ao telhado por dentro da outra e a lareira funcionava com aquela panfernália de caldeiras e correntes e panelas de ferro e durante uns tempos ali se regressava ao princípio com os varais carregados dos chouriços
paios sempre poucos e em destaque e as morcelas e as farnheiras e os farnhotes até
que já meias secas iam para o sobrado. o pior foi quando a lenha começou a escassear
e a ser mais cara e a higiene e a competição exigiam outra limpeza e apareceram os
fogões a gás e electricidade. a cozinha não podia continuar assim. a lareira iria para o
quintal ou para o sótão. ganhou o sótão. subiu para o sobrado. e então a pedra da lareira-- encravada na parede chegava a um terço da grande cozinha-- deita-se abaixo!
corta-se rente à parede! deixa-se só um pequeno degrau para os cântaros e o resto da
cozinha fica em ladrilhos mas ao nível de todo o primeiro andar. pois sim! foi o carmo
e a trindade. antes das obras começarem o meu pai e a minha avó deixaram de se falar. não adianta discutir com teimosos... tem lá algum jeito nos tempos que se correm
até a segunda guerra já tinha acabado acreditar em crendices e reviver os pesadelos
daquela construção com grandes blocos de granito mas aquela pedra escolhida a dedo
e transportada com incríveis trabalhos até ali tinham tido o atrevimento de a erguer
até ao nível do primeiro andar porque a lareira do rés-do-chão era para o mata-bicho e
a janta dos jornaleiros e assalariados... a casa da família tem de ter a sua independência e privacidade!!! ...e a minha mãe aflita a fazer de bombo e apara-raios entre os
dois... durante o dia a ouvir a avó... porque não metes o teu homem na ordem... mas
em casa quem manda é o homem... mas enquanto eu for viva quem manda aqui sou
eu que o teu pai já morreu e eu quase o vi morto debaixo daquela maldita que ia sen-

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do a nossa perdição ...os homens são uns casmurros e pronto naquela pedra não se
mexe nem que eu me meta lá debaixo se a forem partir... e à noite depois do TRABALHO... lá ouvia mais... porque estamos noutros tempos... porque mais vale sair desta
casa e termos a nossa casa sem estar a aturar isto... mas o dinheiro mal dá para as
obras e tu queres que dê para uma casa... e os filhos... e os que já estão a estudar e os
que estão para ir... e luta e as intrigas que foram para nós aqui ficarmos que era a irmã
mais nova e as outras manas tinham mais direito que os irmãos foram todos para o
brasil... aquilo ainda meteu compadres e comadres e o resto dos parentes e até a opinião respeitável das autoridades e do senhor vigário... e por fim lá teve que se resolver. enche-se o resto da cozinha de burgau brita e areão e faz-se um degrau... é preciso cortar a porta. mas agora o soalho velho e os caibros não vão aguentar o peso das
pedras e mais o cimento. vamos refazer o soalho e ver em que estado estão os caibros.
mais uma despesa extra por causa daquela teimosia... e lá ficou a cozinha cimentada
com a porta cortada e um degrau respeitável em relação ao primeiro andar... nos primeiros tempos sucederam-se os tropeções e a louça partida... eu bem dizia que era
um disparate! isto as mulheres a mandar!...
… casa de granito aparelhado do princípio do século das primeiras que se construíram
com tal engenho e arte. iguais ou talvez uma ou outra melhor só as dos industriais que
o tinham à custa dos operários! aquela não, era fruto de muita lida e de muito mourejar pelas tapadas uma em cada lado, os lameiros o souto as vinhas... enfim! muita gente por conta e a dar por conta a quem dispensava jornaleiros e carradas e bois e bestas... aquela lareira de pedra grande feita duma lage alevantada até ao primeiro andar
foi, durante a vida do meu avô e depois até à segunda grande guerra até passar para o
fogão de lenha serrada a serrote enorme de meia lua com os pinheiros deitados no cavalete cortada a malho e machado e empilhada ao sol e no telheiro, aquela lareira foi
durante duas gerações o lar o centro onde o fogo ardia praticamente todo o dia cheia
de trempes e panelas de ferro e onde subiam e desciam as caldeiras guindadas pela
cadeia de ferro que se travava a diversas alturas com ganchos que muitas vezes ficavam ao rubro por cima do lume trepidante de labaredas mágicas para depois os panelões com água ou com os restos que iam para a vianda ou para as galinhas a aproveitarem a aproveitarem o calor das brasas que se juntavam as tenazes e as pás e até o calor morno do borralho e da cinza quente que se mantinha durante todo o inverno até o
enchido ficar curado..., oh! os tormentos daqueles primeiros dias em que o enchido
ainda pingava... tu sai-me daí debaixo que um pingo desses na cabeça põe-te careca
que nem um santo antónio com o menino ao colo! as mulheres podiam arriscar-se que
não havia mulheres carecas e usavam lenços por mor dos lutos e dos cabelos na comida...e ali ficava até o enchido ficar curado e a casa e as pessoas precisarem de calor e
as braseiras precisarem de cinza de moinha das castanhas e carvões e os tijolos aquecidos para se levarem para as camas embrulhados em panos ou papéis... e isto tudo
visto nas noites geladas e intermináveis do inverno à luz fantasmagórica e fantástica
das candeias de azeite e dos candeeiros e lanternas de petróleo... enfim, aquela lareira
marcava toda a vida da casa ao ritmo e ao sabor da vida daquele tempo em que tudo
nascia da terra e ia para a terra passando pelos animais e por nós!
… depois, como já disse, quando a família precisou de uma cozinha ao ritmo dos tempos que evoluíam de acordo com a electricidade que chegou, o gás e a pressa dos

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tempos modernos, a lareira das correntes que vinham de lá pretas e tisnadas do meio
do escuro da grande chaminé com as caldeiras e panelões de ferro ainda mudou para o
sobrado já povoado de recordações e tradições que ainda se usavam como as balanças
de pratos e as decimais e a romana com seus braços ganchos e pilões de pesar arráteis
e arrobas as braseiras que competiram muito tempo com as eléctricas as caldeiras as
masseiras as peneiras e cirandas bailarinas que punham tudo a cirandar desde a escolha dos grãos dos cereais até às farinhas mais diversas, o farelo para as viandas, a de
centeio para o pão, a mais fina para os bolos e doces nas mãos ágeis e incansáveis das
mulheres caiadas de branco que depois continuavam na masseira onde ficava a fintar e
a tomar o ponto sobre um pano branco e depois das respectivas rezas até que era outra vez amassada e transformada pouco a pouco em bolas que se rebolavam outra vez
em farinha para serem encarreiradas nos tabuleiros cobertos com um pano imaculadamente branco... para ir para a vez para o forno da quelha e vir transformado em
pão.
… mesmo assim, para ser despromovida com um pontapé pelas escadas acima, aquela
lareira que passou do meio da casa para o canto do sótão em chão de tijolo burro e
barro foi isolada do resto com uns taipais a prevenir faúlhas e fogo, e teve de obedecer
a certas exigências para compensar os hábitos e os quereres da minha avó que afinal
era o dona dos teres e haveres e a guardiã das tradições e da maneira de viver da minha terra na serra. quando as coisas assim evoluíram afinal ela era a dona da casa mas
dos haveres...--! só quando a grande laje foi coberta é que talvez ela se tenha apercebido que afinal a vida e a economia familiar tinham mudado e o mundo do tempo em
que a tinham construído ficava ali sepultado com o cimento e o ladrilho. então, para
aliviar o choque desta morte, aquela lareira despromovida para cima foi aprimorada
com mais alguns requintes extra. os varões para os enchidos tinham apoios de madeira
recortados de forma caprichosa que a habilidade dos carpinteiros engendrou e teve de
levar uma grande trave para lá se montaram as cadeias sobe e desce com os ganchos
para os caldeirões, sim que a matança do porco sempre tinha sido e foi a base da economia familiar para todo o ano... com os enchidos e presuntos e a banha guardados na
salgadeira havia pelo menos sempre qualquer coisa para comer com o pão mesmo que
viesse outra guerra e viessem as carências e as carestias...
… tinha ainda uma vantagem esta nova lareira que não se podia comparar nunca com
a força o peso e o lugar que ocupava a outra. foi coberta por um caniço para secar as
castanhas, ora aí estava mais uma vantagem que a outra não tinha. depois dos dias enregelados da apanha das castanhas e das picadas dos ouriços e de encher a barriga enquanto se procedia à escolha e lá vinham os piolhos que as castanhas cruas têm aquele
biquinho na ponta que em um apanhando o piolho era um viveiro multiplicado por
aquelas cabeças da miudagem toda... eram ensacadas as que davam para vender.
guardavam-se uns punhados para ir roendo e levar no bolso... e as outras, antes que o
bicho tomasse conta delas, eram espalhadas no caniço e o mesmo calor e o fumo que
ia secando o enchido ia secando as castanhas e o fumo lá ia saindo pelas telhas quando
não era uma fumarada por todo aquele sobrado... e lá iam ficando até secarem e a
casca saltar... mais uns serões a pilar as castanhas e as festas quando aparecia uma
daquelas que ficavam moles... e as cascas secas calcadas ou batidas com um pilão
transformavam-se em buinha que depois servia para misturar com as brasas e a cinza

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das braseiras sim que depois da lareira subir eram precisas mais braseiras e o calor das
braseiras não pode ser só o carvão com lume tinha de ser a cinza e o calor guardado e
reavivado com as folhas de estanho que sobravam dos chocolates quando os havia para o carvão durar mais tempo e o calor se manter... sim porque era preciso poupar e
no poupar é que está o ganho... e os tempos eram maus e as bocas muitas... e a fome
era negra e a guerra com o seu cortejo de calamidades mesmo longe estendia até ali
as suas garras em senhas de racionamento para tudo o que havia e era muito pouco...
e só se conseguia à custa de longas bichas de espera e nós que éramos muitos lá nos
íamos revezando para não passar tanto frio e suportar as dores nas pernas... ele era
bichas para o pão e para tudo o que fosse de comer que o vestir e a roupa ia-se resolvendo com o deitado e o ditado que dizia que deus dava o frio conforme a roupa mas
sempre era preciso uma roupa mais lavada e apresentável para a missa dos domingos
e dias santos... também quando a fome apertava era melhor ir mais cedo para a cama
que se poupava no lume e na luz e um bom sono é meia mantença e com o sono se
enganava a fome... o pior era se vinham as doenças!... e sempre era uma verdade mais
aceitável que quem não comia por ter comido não tem doença de perigo... e todo o
cuidado era pouco.
pois aí nessa lareira, como na outra a primeira, ainda o velho jovem contaouvidor de
histórias contava e ouvia histórias que saíam misturadas com o fumo e povoadas de
sombras das correntes e dos objectos pendurados nas paredes iluminadas com as cores e as formas das labaredas caprichosas e fantásticas ou, a maioria das vezes já só à
luz do borralho que ia ficando cinza dominando então as sombras irrequietas e fantasmagóricas criadas pela luz mortiça e bruxuleante das candeias que toda se abanava
à menor aragem... quem contava mais-- além da avó e dos da casa, todos nos íamos
deixando por ali ficar a dar uma ajuda para ouvir as mulheres de fora que lá iam por
conta e tinham sempre histórias de bruxas, lobishomens e encontros com o diabo ou
com ladrões ou com lobos que aconteciam por aqueles caminhos escalavrados da serra... creio que ainda me lembro da tia rosa pelada e de tá zuefa pica enquanto migavam as carnes e as apimentavam em grandes alguidares de barro para toda a qualidade de enchidos... e depois enquanto iam enchendo as tripas com aqueles funis de cano
curto boca da largura das tripas e se iam transformando em chouriços, chouriças, paios
que era de ficar com a boca aguada tanta carninha ali a ser guardada e outros com tão
pouco!, e em morcelas e farnheiras e farnhotes que depois eram pendurados e ali ficavam como sinal de abastança discreta como reserva para quando faltasse outro mantimento ou para mandar de presente àqueles que gostavam mas já não tinham casa
nem vida para isso de matanças que era muita maçada e muita lida e muito lixo... ou
para pagar um TRABALHO ou um favor... ou até dar quando se não contava como
aquela que aconteceu à minha avó... iam-se chegando as horas de fazer o almoço que
a minha mãe tinha saído e ia-se demorar um migalho e aquela vizinha que até era muito simples e simpática a senhora e era viúva e não tinha muito que fazer a ali aparecia
umas vezes para dar uma mão mas daquela vez só para dar duas de conversa e lembrar os nossos que nosso senhor levou na sua infinita sabedoria e ele lá sabe mas que
muita falta nos fazem cá mais valia ter ido com eles e os filhos por lá já a tratar das vidas, mas que sem a ajuda do homem muito trabalho e muita canseira teve de sair deste corpinho... e pronto... logo conversamos doutra vez... olhe que devem ser horas de
ir pelo almoço... oh! para uma pessoa sozinha e quais sem nada ele qualquer coisa ar-

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remedeia... e a mulher nunca mais se ia embora. precisava de conversar a mulher e em
vez de ir para a má língua com as comadres a dizer mal deste e daquele e daquelas que
ainda cavava a sua perdição... bom a minha avó lá teve de se decidir e subir aquelas
escadas que eram um inferno para ir lá em cima à lareira do sobrado e trazer um ou
dois enchidos para meter na panela como estava destinado naquele dia e as panelas já
estavam a ferver... enquanto subia e descia lá iam conversando... ou espere aí que
aqui em cima não a ouço que o ouvido já não é como dantes! os anos não perdoam... e
quando vinha a descer... Aí minha santa senhora os favores que eu já devo esta casa...
e não queria que se estivesse a incomodar... eu até cá vim sem interesse nenhum que
embora não tenha não ando aí a pedir esmola... mas que seja tudo pelas alminhas de
quem lá têm... da próxima vez eu hei-de trazer um coelhinho branco de olhos vermelhos que lá tenho para o seu netinho e até umas couves e uns agriões que o mê genro
arrebanhou lá na ribeira... que seja tudo por amor de deus e pelas alminhas... com esta
me vou mas não era preciso estar-se a incomodar. muito bem-haja e com esta me
vou...
a senhora saíu. a minha avó sentou-se cansada da conversa e de ter subido e descido
aquelas escadas que era o meu calvário como ela dizia que em vez de me levarem para
o céu ainda me levam para o inferno e, meio a rir, meio a sério, vira-se para os meus
seis ou sete anos... olha, não me sinto com forças de tornar a subir aquelas escadas.
leva essa faca com muito cuidado, sobes a um banquinho e traz aquela e aquela pendura e se não souberes qual é pergunta lá de cima que eu te explico. a tua mãe está
por aí a chegar e aquelas morcelas eram para o nosso almoço e como viste tive de as
dar àquela santa que veio aqui para me ajudar a ganhar o céu! claro que eu não tinha
percebido nada, nem sei como me desempenhei daquela tremenda responsabilidade
com os gritos e ordens e os toma cuidado da minha avó mais vale esperar que a tua
mãe chegue que deve estar mesmo aí a vir... e só depois de muitos anos quando a minha mãe contou esta anedota é que eu me fartei de rir daquela da oferta dos enchidos...
… mas as noites das histórias eram sobretudo aquelas noites de borralho manso para
que o calor morno e o fumo acabassem de curar os enchidos e os presuntos e as castanhas fossem secando secando lentamente... dava para de vez em quando pilhar uma
ou outra a ver se estavam boas... pilá-la e ficar ali remoendo remoendo... depois de
bem secas davam para guardar para serões e serões até que já fartavam e então
quando o pessoal andava assim com cara de enfezado e era preciso um alimento de
sustância a minha mãe, de vez em quando, muito de vez em quando, lá se decidia ir ao
saco das castanhas piladas e saía aquele abominável caldudo recurso mágico que os
charopes e remédios eram caros e quem gasta o que tem não deve a quem... e uma
pratada daquele precioso elixir dava para matar a fome durante o dia todo e para sentir no estômago durante a semana inteira e até mais enquanto durasse na pituitária e
na barriga a recordação de tão pestilenta beberagem cujos efeitos se difundiam em
misteriosos perfumes por toda a casa... foste tu... foste tu... bem podias ter mais respeito e ir fazer essas coisas lá para o quintal ou para longe dos outros... mas era difícil
porque aquilo não era doença e todos tinham tomado o mesmo remédio que era para
prevenir as doenças que um corpinho bem alimentado está mais livre de outros males... era tal e qual como o das apetitosas sempre detestadas feijoadas domingueiras
que era para se livrarem de trabalhos pesados as donas de casa pois guardar domingos

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

e dias santificados também devia ser na medida do possível para as donas de casa que
tinham de trabalhar para dar de comer à família inteira e então como a feijoada era
mandada para o forno no sábado à tardinha para cozerem durante a noite toda e só se
iam buscar domingo de manhã sempre era uma maneira de não passarem todo o dia
na cozinha porque aos domingos estavam todos em casa e sempre vinha uma ou mais
visitas... mas aih! quando os efeitos se começavam a produzir e aqueles perfumes se
volatilizavam como incenso e logo em dia tremendamente delicado por ser dia de
obrigações tanto religiosas como sociais... como até de ir ao cinema ao menos uma vez
por ano como quando o rei faz anos e a modos como a desobriga em que os cristãos se
têm de confessar e comungar... e até depois das missas se tinha que ir aprender as difíceis e inefáveis doutrinas sobre a santíssima trindade em que um era igual a três ao
contrário do que se aprendia na escola e os outros mistérios da santa religião como a
doutrina do deus omnipotente que podia com tudo até com uma pedra muito grande
com que não se pode e omnisciente que já sabia tudo e assim estava dispensado da
grande maçada de ir à escola... enfim, imensas coisas que ajudavam a desenvolver à
maravilha as nossas capacidades para perceber as contradições e os azares da vida que
por fatalidade e embora esse nosso senhor fosse o pai de todos nós íamos vendo que
por fatalidade ou destino a maior parte das vezes os males maiores lá calhavam sempre aos mais pobres que não conseguiam nunca sair da cepa torta mesmo quando faziam por isso...
… o inverno caminhava para o fim. já não apetecia ir tão cedo para a cama... então depois do terço e das avé marias e santa marias por alma de todos e por toda a família
que andava por longe... lá nasciam as histórias... não havia até a história do ti manel da
benvinda--!.. fumava que nem um desalmado o demoncre do homem aquela alma de
um cântaro benzó deus nosso senhor... e vai daí, quando se meteram a fazer a casa lá
se convenceu a deixar de fumar!... sempre dava para mais uns materiais que o mais do
trabalho era dele depois da lida a tratar das terras dele e dos outros onde ia dar dias
por troca para o ajudarem a ele nas terras e ali na casa ou para arranjar algum a doze
ou a quinze mil réis por dia... quando, depois da guerra, a jorna passou para vinte mil
réis! oh! diabo! aquilo ia sendo uma revolução. isto nem dá para a onça do tabaco e
para as mortalhas, diziam os da enxada, quanto mais para comer mai-la família... isto
assim com o preço das sementes mai-lo trabalho e a rega, ficam as batatas num dinheirão que nem paga a pena! mais vale comprá-las no mercado se as houvesse!, diziam os que traziam jornaleiros por conta... e foi assim que o Manel da Benvinda passou
o tempo todo das obras sem fumar a não ser uma que outra pirisca ou uma beata encontrada na rua e fumada muito às escondidas só para matar a sapeira que isto um
homem não é de pau e não pode contrariar a natureza!, que não havia de ser por causa do vício que a casa não se houvera de fazer pois com certeza! e passado uns tempo,
aquilo as obras já estavam mesmo prontas até da arte de carpintaria e já só faltava os
últimos retoques que sempre faltam, quando, foram todos uns dias para a serra a malhar e acarear o centeio, aconteceu mesmo no dia em que vinham já com os sacos aviados... encontraram a vila toda com baldes e cântaros a acudir ao fogo... e como no
havia lá ninguém foi o cabo dos trabalhos para deitar as portas abaixo e poder acudir!... só ficaram as paredes. ...ê nu dzjia cu dinheirinho do tabuaco era pr'arder! dizia
o ti Manel da Benvinda inconsolável a quem no queria ouvir. ...tantos anos de sofrimento e de martírios a ver os outros fumar e ê ali a poupuá-lo cum o vuício cá puor

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duentro a remuoer a remuer que nem um danado p'ró ver arder assim tuodo numa
nuoite a defazuer-se em fumo! antes o tivera fumuado!... mas era assim a vida dos pobres. o que tem de ser tem muita força e o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. nosso senhor lá sabe. é o destino. há os que nascem logo para ser ricos e os outros
para pobres. no há nada a fazer!
… e assim continuava a vida sem nada de novo nem de diferente com as estações atrás
das estações. sempre tudo na mesma, tão diferente.
só quando na rua soava o pregão:
15. 185.

PELES DE CHIBO

A.Tomás Pires, Elvas, 1906 (--)

229

PELES DE CHIBO, COELHO, LEBRE, OU DE BORREGO.
quem tem castanhas piladas p'ra vender...
peles de coelho... peles de cabra...
ou cornicão ou cornacho... lenticão!
ferro velho p'ra vendeeeeer--! ...
ou soava só um som quase ininteligível:
cooooompra farrapos ferro velho peeeeeles...
ou então já de um modo mais refinado a acompanhar a evolução dos plásticos e espelhos e dos jogos miniaturas de paciência chinesa e esperteza desastrosa para os cobres
escondidos na cantareira onde a miudagem sabia que estavam... quando soava o pregão provocante:
comprem meninas coooomprem...
pentes para pentear os cabelos daaaaa...
comprem meninas comprem...
… logo ali se juntava um poviléu imenso e a canalha que andava na retouça parava a
comentar e a dar traduções obcenas para desvendar as insinuantes reticências do pregoeiro que muito sério e compenetrado abria o saco das suas maravilhas... era um
acontecimento novo a que todos acorriam com um misto de desconfiança e esperança
36

uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

mas que, até pela provocação inatacável mesmo pelo senhor vigário que se defendia:
não são contas do meu rosário ou pelas outras autoridades que não encontravam nada
de mal nas palavras apregoadas..., mexia com as pessoas todas daquela terra. era como a fenda da muralha que os mercadores abriam na montanha naquela terra isolada
rodeada de altos montes por todos os lados que a fechavam até ao céu... a não ser
aquela saída por onde corria o rio e aquela, aquela além do lado oposto de onde nascia
o rio, ao lado do cântaro magro e assinalava a rua dos mercadores!!! era a esperança
de uns tostões extra! era o gozo secreto de ficarem aliviados de uns trastes que já não
tinham préstimo para nada e estavam ali a ocupar espaço na loja ou no sobrado... era
a ocasião de venderem umas tantas sacas de castanhas piladas e trocarem umas pratadas de caldudo por uns lombinhos enfartados num barranhão de batatas fritas e comida de rico ao menos uma vez na vida... e até por aqueles bocados de pau negro que
apareciam na escolha do centeio, o cornacho, aqueles farrapeiros davam DINHEIRO!...
para o que seria-- a gente até os deitava fora! diziam que era para coisas secretas lá
das armas dos militares... bom!--, desde que desse dinheiro! ao diabo o que eles faziam com aquilo.
era então aí nessa lareira que durante noites e noites a fio, entre terços e ladainhas
sem fim..., e agora depois das intermináveis avé-marias santa-marias mais um padre
nosso pelas benditas almas do purgatório para que mais depressa se libertem daquelas
terríveis chamas infernais que as purificam de todas as imperfeições e para que se libertem daquelas terríveis cadeias mais negras que estas aqui das caldeiras sobe e desce e as não deixam gozar da eterna glória na corte celestial à direita de deus pai todo
poderoso que está em toda a parte, amén. ...era aí nessa lareira que a tua avó, a tua
mãe vos contava... avé maria cheia de graça... entre orações e sermões... no estejas
p'raí sempre a mexer com as tenazas mafarrico que esborralhas o lume todo... santa
maria mãe de deus... ora pró nós... hoje que já cumprimos os nossos deveres e já encomendámos a alma de todos o que lá temos e todas as alminhas das nossas obrigações... hoje podíamos contar uma história... qual há-de ser hoije! qual! quem sabe uma
história nuova-hoje podia ser a do pastor da serra da estrela. aquela...

… stá bem, hoje podemos contar essa outra vez, mas no fim eu gosto mais daquela
parte no fim como nos contou o catrâmbias, muito em segredo, ali à porta da rua no
canto da quelha, a uma roda de garotos que tinham interrompido as brincadeiras e o
retouço para ali estarem muito juntinhos e calados... mas estavam sempre a mexer e
ás bicadas uns aos outros como na escola e como havia sempre muita gente a passar e
a dar a salvação e a dar piadas ao catrâmbias que nunca os deixava sem resposta, e
como ele contava assim a modos com palavras que no se entendiam muito bem... isto
de histórias e lendas não são coisas para se andarem a abocanhar ali na rua porque
aquilo tem muitas coisas que são segredos e mistérios... coisas que no se entendem
muito bem... mas no fim, quando acaba, a mãe no na conta assim como a ele...
… quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. … cada doido com a sua mania. e …
de poeta e de louco todos temos um pouco... e assim cada um dá-lhe as voltas que

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quer conforme o sítio e a ocasião e aqueles que estão a ouvir e esse tal do catrâmbias
é fresco que nem uma alface e dizem que é doido e ficou gazeado da guerra mas ele é
esperto que nem um alho e ele é que a leva direita... esse deve-as contar das boas a
julgar pelas que vai deitando da boca pra fora quando se pranta ali no fim da tarde no
poial da nossa casa a dar conta de quem passa e a meter-se com toda a gente... e ali
ainda se vai contendo que sabe que aqui mora gente de respeito... mas olha as que ele
vomita quando já vem tocado com uns copitos e desata numa ladainha enquanto vem
descendo além as escaleiras de S. Pedro agarrando-se às paredes e correndo de atravessado... homem dum raio que nem à igreja e aos santos tem respeito... e quando isso acontecer que nem o senhor prior nem a guarda o mete na ordem, não se ponham
ali atrás da varanda a ouvir e a rir que nem uns malcriados... fechem as portas das janelas e da varanda para não ouvirem as asneiras que ele vai vomitando por aquelas escaleiras abaixo e rezem umas jaculatórias para desagravo das asneiras que ele diz...
bem mas da história, atão como é que ele conta-- vamos lá ouvir essa do catrâmbias.
as istórias são istórias e mais ponto menos ponto são todas iguais e têm de ser mais ou
menos para serem as mesmas senão, não são as mesmas...
… a mãe, depois de contar que o pastor ainda muito novo vem de lá de muito longe e
depois de passar muitos TRABALHOS quando chega perto todos o chamam louco mas
ele atreve-se a passar sozinho a porta dos hermínios e conquista sozinho a serra... e
depois quando ele já é sozinho o dono daquela serra toda, aparece um rei daquelas
redondezas que ouviu falar do pastor que vivia sozinho lá no alto da serra e falava todas as noites com uma estrela que aparecia no céu por cima da serra que era dele e
assim aquele pastor podia ser um rei ainda mais poderoso que o outro rei daquelas redondezas e... esse rei mandou então uns emissários para que o levassem à sua presença... e quando eles o levam e o rei lhe diz: ouve lá, ó pobre velho pastor, conta-me lá
essas coisas da tua serra e da tua estrela com que dizem tu podes falar... conta-me esses segredos e eu te darei tantas riquezas e até metade do meu reino que ficarás o
homem mais rico e poderoso como não há nenhum além de mim... e isto já era contado por mim e pela minha irmã em cima do mocho enegrecido pela lareira e já em equilíbrio instável por causa das travessas que já a despregar-se ameaçavam a cada momento precipitar-nos naquelas chamas ardentes da lareira que por sorte não eram da
mesma natureza que as chamas do inferno porque as do inferno não se consumiam
nem precisavam de lenha como dizia o catecismo o que não deixava de nos causar
uma certa inveja apesar do medo porque escusávamos de andar a acarretar e a rachar
lenha e andar com ela aos braçados por aquelas escadas a cima que eram um inferno
para as pernas já muito pesadas da minha avó... mas aquela fala do rei e do pastor, ali
em cima do mocho, com as nossas cabeças já no meio das chouriças e das morcelas
quase a bater no caniço e em equilíbrio instável ainda mais tétrico e instável devido às
sombras provocadas pela luz dançarina da candeia e pelas chamas que ainda crepitavam não deixava de dar uns ares de circunstância como se fosse um palco de verdade
nem que fosse um teatro de categoria ou um filme em que fazem aquelas coisas tão a
sério que parecem mesmo verdade e põem as pessoas aos gritos e com o medo... ouve
lá, ó pobre homem, dizia o rei, dar-te-ei tudo o que me pedires, em troca do segredo
da tua estrela com quem podes falar... e aí o pastor não respondia... e aí, eu que estava empinado no mocho, atirava-me para o chão, de joelho em terra, como aquelas figuras do livro de história que punham os nobres de joelho em terra diante do seu rei...

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

e com os olhos e os braços revirados estendidos para os enchidos como nos santinhos
que mostram os pastores do presépio a olharem estarrecidos e assombrados para os
anjinhos que cantavam a glória a deus nas alturas e paz na terra aos homens a quem
ele quer bem... ide, hoje nasceu para vós um salvador... e eles aí iam para o presépio
onde se tornavam a ajoelhar e ofereciam os presentes... então, o pastor respondia: é
impossível majestade. a estrela não é minha mas do céu... e o rei furioso: pois é precisamente por isso... e aqui era preciso já estar outra vez em cima do mocho balouçante
porque não tínhamos combinado bem quem é que fazia o quê e ela era mais para fazer de ponto e emendar o que eu não me lembrava bem... com um manto de rei nos
ombros que podia ser o cobertor que ali estava para depois levar quentinho para a
cama... e com uma coroa na cabeça que podia ser o tacho de alumínio ou o passador...
as tenazes podiam ser o ceptro ou se fosse um tição ainda meio aceso dava muito mais
ares e fazia mais impressão... pois é por isso mesmo, dizia furioso o rei, mas eu sei que
essa estrela te faz tudo aquilo que ordenas e se tu quiseres ela será minha que já não
precisas dela para nada que és sozinho e tens a serra toda e eu, olha pra mim, tenho
de governar estes reinos todos e fazer o melhor para todos os meus súbditos que esperam de mim a justiça e a sabedoria e a paz que às vezes não lhe posso dar... e o pastor respondia, … e aí o personagem já devia estar no chão de joelho em terra que era o
degrau de tijolos enfarruscados da lareira... prefiro continuar pobre e ignorado do que
receber tudo em troca da minha estrela que me fala mas no fala com os que têm o coração cheio de riquezas deste mundo...

ora iaquiéque o catrâmbias no na contava assim...
… mas quem é que vos dá autorização para i andar a ouvir as histórias do catrâmbias
que no tem tino nenhum como já vos disse e no vai à igreja parece que nem para a desobriga e diz mal dos ricos de deus da igreja e dos santos todos que ele no tem juízo
nenhum e é fraco da cabeça à conta dos copos que bebe e depois dizem que é dos gazes da guerra e ó mais ali na venda da ti marizué dos trigos já nem lá vai que ninguém
lho dá fiado e vejam bem a filha a teresinha das ondas que é uma estampa de mulher
nem parece filha de tal home e já lho pediu pelas alminhas que nem fiado nem pago
que não lhe servisse nem sequer um copo que ele já tem a sua conta e com o que já
bebeu e os gases da guerra, coitado, até a i água já lhe sobe á cabeça!...
… ah! mas a maneira como ele conta é tão diferente, mnha mãe!
… atão conta lá, como ele na conta mê filho!
… eu na na sei contar bem como ele na conta que aquilo no se percebe muito bem
porque ele na conta assim a modos que em segredo e com as palavras todas enroladas, mas quando o pastor no fim de muitos muitos anos chegou ao cimo da serra já
muito velho, contra tudo e contra todos, viveu ali ainda muito tempo sempre jovem e
forte até conhecer todos os segredos da serra que eram os da estrela... mas isto ninguém sabia porque desde que o viram passar a porta dos hermínios toda a gente abanou a cabeça e o deu como perdido e morto para sempre e nunca mais ninguém teve
notícias dele... até que se começou a ouvir falar de coisas que para uns eram lendas e

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para outros eram verdade e a verdade ninguém a sabia porque ninguém se atrevia a ir
àqueles montes ermos e selvagens inacessíveis... e então quando o rei do mundo o
mandou chamar a ele que tantos anos levara para conquistar e conhecer a serra... ele
não foi... como é que os emissários se atreviam a entrar por meio daquela serra à procura dele-- qual o quê-- que caminhos e coragem tinham eles-- mas se ele lá vive e
conseguiu, ou mo trazem à minha presença ou pagarão com a vida... ameaçava o rei os
seus emissários que já diziam mal da sua vida. mas um dia uns pastores dali perto disseram que o pastor algumas vezes vinha até cá mais abaixo no tempo dos grandes nevões e gelos e um dia, por sorte, chegaram á fala com o pastor... e foram eles os emissários que lhe deram o recado do rei e lhe ofereciam mil riquezas em nome do rei... ou
mil presentes para ir com eles para falar com o rei que era o rei do mundo e lhe daria o
que ele quisesse em troca do segredo da estrela... e ele, o pastor, olhando os emissários do rei e olhando em volta as gargantas as ravinas os medonhos desfiladeiros os
penedos os altos as fragas e os fragões as rochas as fontes e as lagoas os rios e os vales
os covões… lá do cimo do lugar onde se encontraram que ninguém sabe onde foi mas
podia ser a varanda dos carquejais ou o mirante de alfátema ou a varanda dos pastores mas donde se via tudo muito longe e o pastor, olhando lá do cimo da serra aquilo
tudo e até o reino daquele rei que lhe diziam que era o rei do mundo!... e olhando outra vez para os criados daquele rei... levantado ali em cima de um penedo grande como a serra... abanou lentamente a cabeça... nenhuma riqueza o vosso rei me pode dar
em troca da minha estrela que levei anos e anos a conquistar... toda a vida... até que
ela me conquistou e eu é que tenho todo o mundo a meus pés porque todo o mundo
está abaixo das estrelas e ela é que é a rainha... e eles, os emissários, tinham de se ir
embora cheios de pressa e de medo, cheios de medo do rei deles e do pastor que ali
em cima dum penedo, sozinho, lhes metia mais medo que um exército... e quando ele
estendeu o braço para que se fossem embora, eles lá iam recuando e vociferando
ameaças e pragas... que viria o exército... que viriam milhares de soldados e ele teria
de se render... mas quando o pastor olhava para o alto, para aqueles penhascos e ravinas e desfiladeiros que podiam engolir exércitos inteiros, eles lá iam recuando até que
as ameaças se deixavam de ouvir... era mais ou menos assim que a história se contava
minha mãe que a gente não conseguia ouvir muito bem como ele, o catrâmbias a contava, e olhe que ele é um homem da serra, senhora mãe, que conhece as veredas e os
barrancos da serra mesmo naqueles sítios onde já não há veredas nem sinais... pois é.
afinal as histórias são muito diferentes mnha mãe. já não me lembro bem como é que
a avó a contava mas o certo é que as coisas mudam! e aqui era A MUDANÇA DAS HISTÓRIAS... contadas pelo velho contador... o velho jovem figura de mulher que era um
contaouvidor de istórias... e como ele nunca tinha havido nem tornará a haver...
Daqui, AGORA, pode se quiser voltar então às LENDAS DA MINHA STerra passando pelo Ceifeiro e as Mil e uma Noites
ou para as LENDAS DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
In http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/521pastor7.htm
José da Serra do Vale do Zêzere
Viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana através do Maravilhoso...
CONTOS e CANTOS e LENDAS de enC(o)ANT(r)AR...
IIª Jornada
A VERDADEIRA HISTÓRIA do PASTOR da SERRA DA ESTRELA - contada do alto dos 2.000 anos...
Penedo GORDO, Beja - Amora, Seixal – Corroios - 1981 -1991 - 1999 – 2000…
A HISTÓRIA VERDADEIRA DA SERRA DA ESTRELA CONTADA POR MIM PRÓPRIA DO CIMO dos 2000 ANOS de Altitude ‚ uma história em que evidentemente poucos ou ninguém vai acreditar...
… também já foram ditas muita verdades nas quais muito poucos acreditaram e não
deixaram de ser verdade por causa disso.
olha, Zé da Serra, Zé Ninguém,...
ouve bem a minha história. a história da ESTRELA...
a história da serra que tem o meu nome.
… sai dessa varanda aberta sobre o vale. não olhes de baixo para cima. ergue-te acima
do vale. deixa essa posição cómoda, intermédia de interlocutor dos cântaros, esses intrometidos que tanto contam quando há tanto e tanto mais para contar.
abre os olhos mais para cima. o cimo. o Alto.
ergue-te acima da Serra... Terra.
baixa daí desse trono de senhor privilegiado de observador que tudo quer saber sem
se comprometer
e vem palpar com as tuas mãos as nervuras e as entranhas do meu corpo.
a poucos é dado esse privilégio.
ama-me.
Eu, a Estrela,
Eu é que sou a Cabeça da Serra.
o Centro.
o Resumo.
o Cerne.
o Ponto culminante.
os homens são demasiado pequenos para me verem e entenderem... andarilham por
aí demasiado e só enxergam para a frente e para o lado e às vezes para trás mas a curta distância... olham pouco para o chão onde põem os pés e ainda menos para o alto.

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… andam muito ocupados com coisas importantes. ...com aquilo que eles consideram
importante. poucos têm OPORTUNIDADE de olhar do alto. só os que sabem voar... nas
asas do sonho...
… são muito distraídos os homens de hoje. os antigos muito antigos não tinham os
vossos aviões, os vossos engenhos de voar e já sabiam ver melhor do que vós. do Alto.
olhavam. e depois fechavam os olhos mesmo abertos para VER. tinham mais tempo!
sabiam ver por dentro. mais além.
… então tu não vês essas gargantas profundas e horrendas!-… esses declives ciclópicos tremendos!-… pousa aí na Torre no Malhão da Estrela a mil novecentos e noventa e um metros dizem uns a mil novecentos e noventa e três dizem outros que com a torre que lhe fizeram de uns nove metros te põem a dois mil ou a dois mil metros e dois mais ou menos
como a história das mil noites e uma... vai rodando agora por todo esse planalto essa
imensa esplanada num raio de cerca de um quilómetro e vai rodando sempre... tens o
mundo a teus pés. é o horizonte mais vasto que podes ambicionar no teu torrão natal!
… se limpares esses olhos e a neblina que pode toldar o olhar podes olhar sobre a Beira
Alta e a Beira Baixa andando de Norte para Nascente e para Sul podes olhar até ao
Alentejo e a Poente até à Estremadura... para o lado donde nasce o sol vê-se até Espanha a Serra da Gata que forma com a Serra dos Gredos e Guadarrama o Sistema Central Divisório estudado pelos vossos geógrafos... a Serra da Gata vem pela serranias das
Mesas na fronteira ligar-se à Serra da Gardunha que não se vê aqui do Alto e que o
Zêzere foi separando separando até abrir a fértil e feliz Cova da Beira. caminhando
agora do Sul para Poente podes ver aa serras do Açor que o rio Alva separa de mim a
Estrela, Colcorinho, a Lousã separada do Açor pelo vale do Ceira. podes ver quase
mesmo na direcção exacta do Poente a terra de Buarcos junto à Figueira da Foz, há até
quem diga que foram as gentes da serra, de Manteigas que terão posto este nome a
esta terra de barcos devido à sua maneira pesada e própria de falar... e caminhando
um pouco para Norte até o Buçaco se pode divisar!... nesse triângulo a Poente entre o
Noroeste e o Sudoeste pode descortinar-se em dias de excepcional transparência uma
linha de mar que começa em Espinho abaixo do Porto até ao morro da Nazaré do lendário Fuas Roupinho... no ângulo para Norte entre o Noroeste e o Nordeste podem-se
ver os cerros do Alto Douro e para os lados de Espanha a Guarda com as suas muralhas
e castelo!...
… é um panorama deslumbrante!
… mas não precisas de olhar tão longe e tão distante.
… ali bem perto podes ir localizando barrancos e ondulações na direcção da PENHA DO
GATO, sim um pouco para Noroeste e se ergue a mais de mil e setecentos metros e estende a sua sombra do poente sobre a Lagoa Comprida e a Lagoa Escura aquela das
lendas que dizem que tem ligação com o Mar. … será com a Mar-- Amar--

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

… agora, um pouco mais para Poente a PENHA DOS ABUTRES a mil e oitocentos metros
de altura como um gigante de mil e cem metros acima de Loriga abrindo sobre esta
terra serrana gargantas medonhas de pasmar!
… a partir do MALHÃO GROSSO quase a mil e novecentos metros de altitude adivinha
os precipícios e abismos que se precipitam sobre Alvoco da Serra que evoca um chamamento um grito um eco!...
… mais ao lado para Sul tens o TERROEIRO e o ALTO DA TORRE entre os mil e oitocentos e os mil e novecentos metros e no fundo dos seus terríveis despenhadeiros atiramse as ribeiras de Alforfa e da Estrela sobre Unhais da Serra. Bastava voar um pouco para a ver entre a verdura do vale!
… na direcção dos CÂNTAROS agora para Nascente donde vem o Sol que se erguem pelos mil e novecentos metros tens a SERRA DA CANDEEIRA com a sua ribeira e espinhaço, alinhar a Rua dos Mercadores ao lado do CÂNTARO MAGRO para o RASO, o Espinhaço do Cão que verias do ar entre o Covão do Boi e a Nave de S. António da Argenteira e daí do Poio do Judeu ver correr o ZÊZERE pelo vale glaciar até Manteigas seguir
para Sameiro, Vale de Amoreira, Valhelhas e Belmonte sempre para Nordeste como se
andasse perdido sem tino nem sentido do mar, para logo fazer uma brusca inversão e
voltar para Poente, Sudoeste e regar toda a Cova da Beira da Covilhã e Fundão e da
Gardunha à procura enfim do Mar, de A Mar que só irá encontrar depois de se perder
no Tejo...
… podes ir traçando linhas e mais linhas a partir da Estrela e seguir a Norte a linha do
GORGULÃO e do Vale do Conde até lá longe à Fraga da Varanda e ao Coruto de Alfátima que apontam para Gouveia e Folgosinho e encontrar pelo caminho as ribeiras do
Vale do Conde e do Vale do Urso que vão dar vida ou já são o Rio Alva...
… podemos completar as sete pontas duma ESTRELA e seguir a linha do CUME sobre a
Lagoa dos Cântaros a mais de 1800 metros de altitude seguir sobre o Curral do Martins
e a Fraga das Penas para o Vale do Rossim e adivinhar as nascentes do Alva e do Mondego. Aquele que se despenha pelos desfiladeiros do Sabugueiro e o Mondego que
depois de aparecer à luz do dia e à flor da Serra na Fonte do Mondeguinho, logo desaparece no Sumo e vai aparecer Rio depois da curva do Jejuo e vai abraçar a Guarda,
perdido como o Zêzere, e quase que encontrando-se com ele, e logo voltar por Celorico e Fornos de Algodres a caminho de Coimbra e da Figueira da Foz... para a foz... para
o mar... para a mar-- para amar-… há um destino irresistível em todos os rios. o Mar que em muitas línguas é palavra
feminina e então será A MAR! … parece ser um destino irrecusável em todos os seres,
mesmo quando aparecem montanhas e acidentes de terreno pelo caminho!... é o de
pouco a pouco irem caminhando para o mar... não será que este planeta Terra não é
afinal essencial e predominantemente MAR-- … qual será então o destino dos seres
humanos que habitam A TERRA-- talvez AMAR!!!

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… há ainda um desenho interessante de sete linhas que podemos desenhar a partir do
maciço central da ESTRELA e que ficou desenhado profundamente desde tempos muito antigos no corpo rugoso da SERRA e foi marcado pelos mestres geógrafos como Orlando Ribeiro e de tão claros e profundos talvez só os mestres atentos e profundos os
conseguem divisar... são os que foram marcados pelos antiquíssimos glaciares que se
formaram na Serra e deixaram as suas marcas bem visíveis...

OS GLACIARES:

http://floradaserradaboaviagem.blogspot.pt/2013/11/2132d1-aspectos-glaciarios-serra-da.html

… o maior, o do ZÊZERE, conhecido de todos, com mais de treze quilómetros de extensão e partiu da base dos Cântaros para deixar os últimos blocos erráticos de granito
perto das Caldas de Manteigas na Várzea do Castro...
… o da Ribeira da ESTRELA com mais de setecentos metros que a certa altura se foi
juntar com
… o da Ribeira de Alforfa com mais ou menos a mesma extensão e vão ambos terminar junto das termas de Unhais...
… o que forma a GARGANTA DE LORIGA e partiu da base da Penha dos Abutres.
… o do COVÃO GRANDE...
… o do COVÃO DO URSO...
… e o do VALE DE ALVOCO onde terá ficado apenas um pequeno covão suspenso!
… podes se quiseres ir riscando uma ESTRELA de sete vezes sete raios, de mil braços a
partir do Centro, do Cerne, do Cimo, do mais Alto ali a mil novecentos e noventa e um

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

ou a mil novecentos e noventa e três mil metros de altitude que com a Torre perfazem
os dois mil ou os dois mil e dois metros que simbolizam o fim que não tem fim!!!
… já viste uma ESTRELA de mil raios--! mil cintilações--! uma ESTRELA desenhada em
mil gargantas e vales e covões e espinhaços e precipícios e fragas e penhas e rios e ribeiras e fontes--!!!
… eis aí o mapa da SERRA. da TERRA. do MUNDO. do UNIVERSO. do COSMOS!-… quem já desenhou o mapa do Cosmos infinito-… aí tens talvez, na SERRA, na ESTRELA a maqueta. o resumo. o modelo. o exemplo...
… e a partir desta ESTRELA tão pequena neste planeta que é A/MAR--! e tão ínfima
nesta galáxia que chamamos do Sistema Solar tu podes vê-la agora engrenada em mil
de mil galáxias, que ginástica de representações têm de fazer os homens sábios para
perceber o Universo!, e vê-las todas no Espaço, o que é o espaço--, em movimento
constante estonteante de VIDA sempre em crescimento sempre em movimento em
mudança em criação que os homens grandes sábios tentam desvendar e perceber!!!
… não vês tu, tudo isto, aí na SERRA, aí na TERRA, na tua Serra Terra, ó Zé da STerra do
Vale do Zêzere-----tu não podes só olhar o vale.
… ergue a tua varanda acima desse vale. vem conversar comigo. olha a Serra. olha a
Serra toda... a Terra... o Universo... o Cosmos... o que Não Começa nem Acaba...
essa SERRA sou eu e eis a minha história...
ERA UMA VEZ...
ERA UMA VEZ... há muitos muitos... muitos anos, vivia eu aqui sozinha. Só. nos Montes
ermos. nos Hermínios.
Era assim que os homens de longe, tímidos, medrosos, distantes, temerosos, me chamavam.
Cansada de estar só,
Um dia,
Lancei os meus olhos sobre o Mundo...
e descobri para os lados do mar sem fim mais para os lados do meio dia para os lados
de uma planície imensa que parecia o mar...
descobri um PASTOR.
um pastor que quase ainda era menino e já era homem.
Seduzi-o.
Acenei-lhe cá de longe com o meu encanto, canto-conto-lenda,

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manto branco
de princesa inacessível e distante...
e ele passou a fitar-me lá de longe...
Sonhador.
A olhar. A olhar...!
Deixei-o olhar, a sonhar, algum tempo. A enamorar-se...
Enamorou-se.
Já não podia deixar de me fitar, de me olhar, de pensar em mim...
Ora um dia... Uma noite que estes encontros de amantes têm de ser discretos clandestinos...
Uma noite em que o Pastor se deixou ficar
sem dormir
ao luar
a sonhar sem dormir
numa noite de lua cheia... feiticeira!
Apareci-lhe.
Como é que eu havia de cativar um homem-- Um Pastor-- Criança ainda! Um Poeta-Jovem. Enamorado!-Apareci-lhe sob a forma de mulher.
O meu manto era branco de neve. Era neve.
Recamado de rendas argentinas. Da Argenteira.
Debruado de guarnições douradas. Das Penhas Douradas.
O meu vestido era tecido da branca espuma das fontes e dos rios.
Do Zêzere do Alva e do Mondego
e salpicado de oiro fino que corria pelas suas águas...
Tinha sido tecido pelas mãos prodigiosas das feiticeiras da Cova da Lã. Da Covilhã.
As minhas formas de mulher deixavam-se adivinhar por debaixo das rendas e do manto em belas formas indefinidas. Definidas...
Era um deslumbramento!
O pobre homem pensava que sonhava. Que dormia.
Jovem, temia uma aparição que desejava...
Criança ainda, olhou para mim humana, simples, candidamente...
Levava no braço um Cântaro de água cristalina e pura. Viva.
Uma água como ele nunca bebera.
Cântaro MAGRO.
Levava no outro braço um cesto de pão negro. Cor Torrado.
O centeio.
Arcas do Pão.
Nas mãos, a ferrada do leite. Leite de vaca de cabra e de ovelha.
Da Serra.
Num pano branco, no cesto do pão, uns cremes de gosto raro e esquisito que nem ele
nem ninguém nunca provara e que eram de força sobrehumana... as Manteigas, os
cremes, as natas desses leites para se conservarem e durarem...
Toma e come, Pastor.
Olhou-me aterrado!!!
Toma e bebe, Pastor.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Passou as mãos pelos olhos a certificar-se de que não estava a dormir ou a sonhar!, ou
se tinha acordado por dentro do seu sonho!...
Não és tu que me olhas todas as noites-Espantado!!! de se ver surpreendido nos seus sonhos secretos, acordou do seu sonho!
Não és tu que sonhas com a brancura de neve do meu manto e com a espuma transparente dourada do meu vestido que deixa adivinhar o meu corpo pleno de mistérios e
tesouros com promessas de delícias mil-Quase confiante, rendido por se ver descoberto, desperto, no mais íntimo dos seus segredos só sonhados, olhou-me como se fosse um sonho que era realidade!
Toma.
Come.
Bebe.
Levanta-te.
Caminha.
Venho-te chamar...
Incrédulo de novo.
Não. Não me venho entregar rendida.
Não te venho buscar.
Conquista-me.
Tens de me conquistar.
Atónito. Acobardado. Tímido. Confiante. Sonhou acordado...
Oh! como eu desejaria partir!...
Desde que te vi ao longe sempre te desejei alcançar!
Era o meu sonho!
Tão longe!
Era isso que estava a sonhar aqui sentado esta noite olhando a Lua Cheia. Acordado.
Há tanto tempo!
A minha tristeza e a minha felicidade era sonhar que um dia te poderia alcançar e conformar-me por seres inacessível e distante!...
Desfalecido. Conformado. Acordou do seu sonho. Mais sonhador acordado!
QUEM É SONHADOR!-- QUEM É, SONHA A DOR!
QUEM SONHA ACORDADO! E SONHA A COR DADA!
SONHA SEMPRE A DOR SONHA SONHADOR
COM A COR QUE LHE É DADA. A DOR QUE LHE É DADA.
...
Aceitou o meu pão. Barrou com os cremes manteigas. Comeu.
Bebeu da água e do leite que lhe dei...
Ficou absorvido comendo e bebendo como quem sonha e não precisa de comer ou de
beber!
Quando lhe pareceu que se tinha recomposto e depois de pensar talvez então pudesse
tomar uma decisão... de me seguir... Já não estava lá.
Olhou desconfiado em volta. Olhou o chão. Olhou as alturas... Não me viu.
Sonhara-Não dormi.
O luar encanta!
Olhou de novo o alto e o longe... e... viu-me.

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Acenei-lhe.
Cintilei.
Luz...
Morto de sono, cansado, adormeceu.
Quando acordou, era dia. Viu-me ao longe.
Neve.
Brilhei...
Eram mais que horas. Por certo já tinham dado pela sua falta. Meteu-se ao TRABALHO
sem olhar. A vida é dura e os pastores da aldeia e os pais que eram pastores não podem permitir que a falta de sono ou uma noite mal dormida lhes roube braços para o
trabalho que é duro e nunca acaba. Dor. Não podem olhar com bons olhos um Pastor,
um Poeta, Sonhador que descobre a DOR no SONHO e pode descobrir a pureza na dureza mudando só o d em p e acordado pode ver a COR que lhe é dada pelo sonho e dar
à DOR a dimensão do SONHO... uma dimensão nova, um universo de sentimemtos que
podem encher uma vida como a comida e o trabalho enche a vida dos demais que trabalham para comer e têm de comer para trabalhar... só...quase mais nada... quando
afinal cavando a terra, descobrindo o seu ventre, há sempre minas de mistério carregadas de tesouros e seguindo a gado pode-se empreender uma viagem sem fim que
não tem volta...
Mas não vale a pena sonhar! que já há os donos da poesia e do sonho. Os que sabem o
que é. O gozo prazer que deve ter e dar a poesia e o sonho! A necessidade de a comunicar. De a vender para viver. E já inventaram definiram determinaram as regras as
normas as leis que é preciso respeitar...
Os outros-- Proibidos de inventar. Obrigados a seguir o inventado já determinado. Mas
como se o sonho é invenção... Se a poesia é criar-Têm de deixar sair os seus versos da alma como o mestre Caeiro guardador de rebanhos e, um dia, deixá-los partir de si acenando-lhes com um lenço branco da varanda
aberta sobre o imenso vale... e deixá-los ir... voar entre o céu e a terra como as aves...
como as nuvens... quem sabe-- em chegando o tempo esperar que se abram em chuva
fecunda sobre a terra, a serra... que sejam semente a germinar na terra, na serra... talvez que se dêem só na serra como a campânula dos hermínios que só se dá naquela
serra da Estrela e quase ninguém conhece... nunca viu. Desgraça ou sorte será mesmo
se aquelas nuvens se desfazem em tempestade avassaladora e tremenda que tudo
destrói à sua passagem... Mas pode ser que caia de improviso em chuva suave e fecundante num dia qualquer de primavera e que os homens desprevenidos se tenham
esquecido dos guarda-chuvas e dos impermeáveis...!
mas o pastor--!... um pastor tem a vida dura. o TRABALHO aperta. os outros! que vêem
e comentam... o pastor que não tem vida para a poesia... para essa poesia... essa já feita que tem mercado certo. é só promovê-la, dar-lhe algum reclame, umas medalhas
umas promoções!... o pastor atirou-se ao TRABALHO.
Mas o meu manto ao longe prendia-lhe o olhar.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

No tem tino o demoncre do home! Toma tento! Olha o que fazes! Tonto! Trapalhão!...
Eram os outros.
Dormia acordado.
Angustiado esperou a noite e foi dormir para velar sentado numa pedra ao luar. Ao
menos a noite era dele. deixavam-no em paz... o luar encanta!
Olhou o céu todo para ter a certeza que sonhara. Iludido!
São todas iguais estas estrelas!
Não existe essa estrela mulher que veio ver-me!...
Quando corria com o olhar a Estrada de Santiago a Via Láctea seguiu o Sete Estrelo o
Ofioco serpente a Cassiopeia descobriu as Ursas em forma de carroças...
Viu-me.
Disfarçou.
Seguiu olhando o brilho das estrelas do lado do poente. Procurou o Boieiro o Capricórnio o Touro e o Carneiro e miríades de outras que não conhecia ou não tinha nome e
voltou atrás...
Viu-me de novo.
...E foram noites e noites a ver-me branca azul vermelha a cintilar...
...E foram dias e dias a sonhar-me luz de mil cores a luzir...
...Tentava iludir-se. Atirava-se ao trabalho. Procurava ter tento no rebanho e no trabalho. Não sonhar.
As pessoas do povo abanavam a cabeça. Eram sérias. Honestas. Trabalhadoras. Eram
crentes religiosas cumpridoras respeitadoras... compreensivas até!
Anda variado o rapaz! Dorme de dia! Passa noites acordado! ...!-O corpo doía-lhe. Ardia em febre...
Ah! um pouco daquela água!...
Andava fraco. Mole. Descorçoado!...
Ah! um pouco daqueles cremes manteigas naquele pão negro!...
Mas eu sonhei. Não vi. Não comi. Não bebi. ...
Vou partir. Decidiu. Vou partir à procura daquilo que não existe. Vou partir em busca
daquela que não existe e me seduziu.
Não existe. Mulher encantadora! Fartura que sacia a fome! Frescura que sacia a sede!
Riquezas sem par que matam o desejo! Beleza sedutora que sacia a alma! Corpo esbelto de virgem que sacia o corpo!...
Chamou o cão e partiu.
O cão hesitou. Olhou. Ia ficar-se enroscado no ninho mas foi. Afinal já não estranhava
o dono. Ladrou a despedir-se. Deu sinal. Acordou a aldeia. Adivinhou.
Os homens sérios viraram-se na cama. O TRABALHO. O descanso merecido. A família.
O governo da casa. As responsabilidades...
Não é coisa de monta. Viu-se pelo ladrar. ... Nem abriram o olho.
As mulheres fingiram que dormiam. As mais novas deram voltas e reviravoltas com o
travesseiro. Afinal nem o conheciam! Nunca lhe falaram! Poeta!-- Pff.!!! Louco.
Os velhos espertaram e ficaram de olhos abertos a olhar o escuro. Parados. A sonhar a
juventude que tiveram e a vida que levaram. Louco! Depois de serras e serras aquela é
sempre mais longe. É sempre a outra. Distante. Também eles tinham sonhado. Tam-

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bém a tinham visto. Alguns deles até tinham arriscado. Mais longe, já longe, tiveram
que voltar. ...
As crianças deram voltas na enxerga e falaram alto. Estão a sonhar. Os pais mandaramnas calar. Dormir que são horas. Há horas para tudo...
Ele vai voltar. Deixá-lo ir. Experimentar. Não adianta explicar...
Não voltou.
Caminhou. Caminhou dias e dias sem parar. Meses. Parava. Trabalhava onde pernoitava. Havia sempre falta de braços por onde passava para aqueles TRABALHOS que ninguém queria e ele sabia fazer. Ganhava o seu sustento e caminhava. Pouco descansava. Só o suficiente e necessário. Não se prendia. A viagem não sabia bem o que durava
e quando terminava mas sabia que não era ali. Não se podia deixar prender. A montanha ao longe. Sempre ao longe. Será que teria andado para trás--! Aquela montanha
entre montanhas ao longe obcecava-o cada vez mais longe. Era melhor voltar. Todos
afinal esperavam por isso. Não podia. Podia ao menos ficar pelo caminho. Ninguém
sabia dos seus sonhos. Podia deixar-se seduzir. Houve trabalhos e terras e gentes e
gente que até eram agradáveis. Se ficasse--! Um dia até houve uns olhos donos de um
sorriso encantador que tudo pareciam perceber compreensivo que o seduziram... Não.
Tenho de caminhar. Ao longe a serra. Aquela. Ao longe a estrela. Aquela.
Uns dias aparecia-lhe resplandecente e difusa vestida de um esplendoroso manto
branco. Depois mudava Aparecia-lhe de manto verde e florida de mil pequenas cores...
A seguir ficava de um amarelo-torrado e negro com grandes manchas verdes. Logo ficava despida. Aparecia-lhe nua ainda com o ténue manto verde mais sedutor e caprichoso ostentando provocante as curvas do corpo sinuoso. Vestida de branco outra vez
ou perdida envolta em negro, de noite... Piscava-lhe a estrela. Umas vezes com brilho
agressivo, gélido, faiscante... Apagado repentinamente por cortinas negras. Brilhava
outras vezes suave, luminosa, doce, através de rendas esbranquiçadas. Logo o brilho
se tornava rival da lua mas quente, chamejante. Aparecia de novo mais ténue, romântica, quase triste, para logo aparecer luminosa, desaparecer negra, reaparecer em clarão intenso que se estendia por um mar de brancura...
Era a estrela que lhe acenava de longe, se escondia, lhe piscava os olhos cintilante...
lhe sorria... chorava... fugia... se eclipsava... lhe acenava outra vez.
Ele caminhava. Desesperava. Cansava-se. Tornava a caminhar. Desistia. Caminhava.
De tanto caminhar o cão ficou velho e morreu. O pastor fez-lhe uma sepultura. Assinalou-a com pedras e com paus em forma de cruz. Chorou. Era o seu único companheiro,
cúmplice da sua loucura! Hesitou uns momentos. Dias. Agora só--! Se custou tanto! ...
E ela longe, mas lá estava sempre... ora branca florida morena nua de dia ora fria luminosa chamejante doce durante a noite...
O manto branco, o mais belo e raro!--... Encantava-o.
Florida de mil cores!--... Seduzia-o.
Morena de manchas negras, sinais--!, quente!--... Atraía-o.
nua, lânguida, de cabelos soltos!--... Arrebatava-o.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

E caminhou. Caminhou, tantos anos, que chegou perto. Parou às portas dos montes
ermos... Era assim que os homens lhe chamavam, tímidos medrosos receosos respeitosos e se escusavam de ir mais além... Parou e mostraram-se exemplo. Para além--! …
caminheiro, não há caminho. Acaba aqui o mundo. Informaram-no os homens que
olhavam os montes ao longe agora para ele já muito perto que viera de tão longe ali
mesmo às portas da estrela que o chamara... Aquilo é outro mundo. E contaram-lhe
horrores de estarrecer como aquilo que se conta por nunca se ter visto...
Parou. Dormiu. Estava exausto. Trabalhou para arranjar farnel. Não tinha vindo para ficar ali. Para além das portas não vou encontrar ninguém que precise de braços para o
meu trabalho!... O que haverá para além--... Vai voltar a casa pensaram os homens sérios e sensatos que eram dali e o viam arranjar farnel para a viagem e alguns também
tinham vindo de longe mas tinham o condão de ser sensatos razoáveis apesar da loucura de terem chegado ali... Mas há limites para tudo! Partiu. Quando descobriram incrédulos a direcção que ele seguia os homens de longe que eram dali perto ainda lhe
gritaram. Acenaram. Injuriaram. Abanaram a cabeça. Desistiram. A maior parte nem
deu conta. Que sabia aquele estrangeiro para além das portas do fim do mundo, dos
montes ermos povoados quem sabe de outros seres coisas estranhas diferentes das
humanas conhecidas sensatas razoáveis... Alguns ainda ficaram a olhar até desaparecer a pensar talvez que também eles deviam ter ousado! Mas o facto é que eles tinham ousado. Deixai-o ir. É um estrangeiro. Louco. Caminhante. De longe. Nunca mais
saberemos dele!!!
Intrépido, o pastor, enamorado, corajoso, atrevido, temerário, transpõe as portas dos
montes ermos, os hermínios como lhe chamavam os de longe mesmo ali de perto temerosos sérios ocupados insatisfeitos razoáveis azedos sensatos responsáveis compreensivos intolerantes correctos bem comportados conformados com os limites do
seu mundo..., transpõe as portas dos montes ermos... Só. Fica embevecido. Deslumbrado! Fascinado! Seduzido e abalado por um imenso temor. Toca com as mãos a tremer a fímbria do manto branco da sua amada, apanha-a com as mãos fortes e calosas.
Sente-as quentes ao contacto com aquela matéria mole branca fria gelada que se lhe
escapa em gotas de água por entre os dedos derretida... Ainda mal refeito da surpresa
fica estarrecido. Sempre eram verdade os perigos e fantasmas de que o tinham avisado. Larga a neve branca e arma-se com o cajado. Põe-se em guarda. Eram novelos
brancos em movimento rolando... que o atacavam-- Fora de facto imprudente não ter
dado ouvidos a tantos avisos sensatos que lhe tinham feito. Defende-se do que pensa
ser um ataque. Não era. Eram simples ovelhas simplesmente mais felpudas de lã branca puríssima como as que já conhecia muito bem da sua vida de pastor mas mais protegidas para viverem ali para lá nos montes ermos na neve. Come da sua carne e veste-se da sua pele. Encontra abrigo nas cavernas da montanha. Repousa. Esta será a Cova da lã que me deu Refúgio...
Mas a estrela que o seduzira é lá no alto. Tem ainda muito que caminhar. Tocara só ao
de leve na fímbria do seu manto. Que faltará ainda para a conquistar--!
Quando vai empreender de novo a viagem estaca de súbito. Agora é um monstro negro cinzento acastanhado que investe direito a ele. Ia defender-se. Parou em guarda
enfrentando-o. O monstro ou o que parecia um monstro parou. Olhou. Olharam-se.
Observou. Observaram-se. Mediu-o de alto abaixo, abanou a cabeça, pareceu compre-

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ender. Não adiantava armar em papão a meter medo. Estava ali alguém que não ia fugir de medo espavorido só por o ver... Voltou-se. Voltou pelo caminho que trouxera e
parou. Tornou a voltar-se. Voltou-se e tornou a andar ou a fingir que andava. O pastor
quedo, mudo, a tremer sem medo, parado, decidido... O monstro parou de novo, tornou a voltar-se, olhou o pastor, esperou, tornou a andar, tornou a olhar o pastor virando só a cabeça... Chamava-o sem dúvida. Decidiu-se. Avançou. Caminhou depois de
ver que era seguido. Continuou a caminhar e levou-o a um vale onde se travava uma
violenta batalha. Um rebanho de novelos brancos que ele já sabia ovelhas mais felpudas que as que ele conhecia desde há muito lutavam vencidas com uns monstros ferozes acinzentados castanhos terríveis em tudo semelhantes ao monstro negro castanho
acinzentado que parecera que o ia atacar mas não atacou... o convidou... e a luta era
tão feroz que metade do rebanho estava dizimado. Pastor como era percebeu. O
monstro escuro investia já em grande correria trovejando depois de o ter olhado atacando o flanco onde a luta era mais renhida... Volteando o cajado e armado de pedras
o pastor voou em sua ajuda. Lutaram bravamente. Lutaram até que aquelas feras acinzentadas largaram as presas e fugiram... No final tinham muito que comer e leite para
beber e peles para se vestir e cobrir... O pastor estava estupefacto! De repente voltava
ao seu mundo depois de tanto ter corrido e depois de ter arriscado entrar num mundo
novo tão longínquo e completamente desconhecido! A Estrela fada feiticeira dera-lhe
um novo companheiro em troca daquele que lhe fora fiel até à morte mas que não poderia enfrentar os frios e as ferezas da serra... e ali tinha outro que, em combate de
morte, lhe oferecia um tesouro imenso... Seria, com ele, o dono de todos os rebanhos
que não tinham quem os protegesse! Selaram logo ali um pacto de sangue. O pastor, o
Cão da Serra da Estrela, o Rebanho, formariam a trilogia tríade trindade triângulo que
dariam feição imagem SIGNO voz significante e significado à Serra da Estrela!...
Passou tempo. O manto branco feiticeiro de neve foi-se desfazendo e começou a surgir
o manto verde fascinante que ele já adivinhara de longe... O pastor comeu dos frutos
silvestres e abrigou-se nas lajes... Caminhou rodeado de um imenso rebanho que se
acolheu à sua guarda e do seu companheiro e aí continuavam inseparáveis o pastor, o
cão da serra da estrela e os seus imensos rebanhos... à medida que o manto branco se
desfazia podiam agora caminhar melhor mais para o alto. O cão era agora mais o seu
guia. As pastagens verdes e suculentas marcavam o ritmo da subida. Quando os lobos
e os linces atacavam onde o cajado e as pedras não chegavam chegava a fúria e o urro
aterrador... as armas retorcidas dos carneiros de olhar enviesado, ainda assim, faziam
uma razia considerável naquela luta de feras pela sobrevivência, atirando em arco ao
ar os lobos mais afoitos que abocanhavam as ovelhas indefesas...
Agora o pastor assim com um companheiro amigo e guia era já dono e senhor de todos
os rebanhos dos montes ermos nunca descobertos e chegou ao cimo triunfante. Tinha
um dote de rei para oferecer à sua amada finalmente conquistada! Um dote que ela
própria lhe permitira conquistar e era seu!
Chegou ao alto. Deslumbramento! Do ponto mais alto, do cimo dos montes ermos
nunca pisados por pés humanos, olhou o mundo a seus pés. Fascinante! O manto
branco da sua amada amante desfazia-se. Aqui e além ainda fiapos remendos que se
derretiam. Desnudava-se a Serra. Esperou a noite. Seria esta a mulher que o seduzira--

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Ou seria a outra-- A que brilhava sorria piscava chorava luzia lá no alto-- Ficou sentado,
expectante, parado, esperando, cansado, descansando...
Ao começo da noite apareceu ela, a Estrela. Olhou-a. Hesitou olhar fingindo que não
via. Ela sorria a Estrela. Brilhou de um modo estranho. Piscava os olhos. Ele, não sabia
se era ele que os piscava, se era ela. Encantou-o. Ela já o encantara desde que o seduzira lá de longe e o arrancara da sua terra de menino e o obrigara a percorrer sem o
querer os caminhos que os velhos e os sensatos diziam não ter caminho... Encantado,
ficou seduzido. Seduzido, perdeu o siso. E nessa noite, o pastor, quando foi para se
abrigar, perdeu o medo e caminhou para o mais profundo das cavernas que encontrou
e abraçou-se à terra, à serra, e em espasmos, convulsões, aos gritos incontrolados incontidos, amou a terra, a serra, entregou-se, serenou, adormeceu confundido no seu
corpo mergulhado na terra, fundido com a serra... sonhou... e viu-se astro brilhante
como estrela!
...Não mais soube se acordara se sonhava! Ela enternecida correspondia aos seus amores... dava-lhe cada dia daquela água abundante e viva que lhe dera um dia... num sonho--... comia da carne das ovelhas, bebia do seu leite... aprendeu a transformá-lo e a
guardá-lo em cremes de manteigas, em soro azedo e forte com ervas e com flores que
aprendera a seleccionar... cedo conheceu aqueles grãos negros que triturados entre
duas pedras que rodavam davam aquele pão negro inesquecível que um dia ela lhe levara... em sonho--... ou era agora que sonhava-- De noite, a estrela que luzia e que brilhava, revelava-lhe segredos que, de dia, ele procurava... as nascentes... os cântaros...
as fontes... os rios... os lagos... os fraguedos... as penhas... os tesouros... a argenteira...
a cova da moura... E ele, assim, sonhando, dono de tudo, começou a nomeá-los, a darlhes sentido como os conhecia... Tu aí ficas a Penha dos Abutres onde eles me vêem e
vêm espiar para depois comerem os restos que eu lhes deixo... Aquela é a Penha do
Gato... Talvez seja um lince que lá aparece, mas a esta distância de respeito distante
mais parece um gato matreiro e atrevido... Essas gargantas como que protegidas por
couraças ficam Gargantas de Loriga como se fossem os escudos da Serra... As outras
onde soam as vozes como ecos ficam a chamar-se de Alvoco como se fossem o chamamento da Serra... Essa ribeira aí vai ficar a da Estrela por ser aquela onde melhor se
reflecte a minha estrela quando a procuro no chão, na terra, na serra... A outra ao lado
rodeado de plantas que servem para alimentar os meus rebanhos fica a da Alforfa...
Vós picos soberbos que quase dominais o ponto mais alto ficais o Terroeiro a desfazerse em terrões e o outro em forma mais de arpão fica o Taloeiro... Ao fundo desses precipícios escarpados lá muito ao fundo como que rodeados de garras afiadas vão ficar
os Unhais da Serra... Esta cova aqui mais perto fica o Covão do Boi como redil do cobridor mais potente que cobriu a serra de novos e ricos rebanhos que se reproduziram
em toda a largueza da serra em manadas que deram outros leites e cremes e manteigas... Mesmo ao lado, esses penedos redondos, ficam a chamar-se as Queijeiras que
me ensinaram a forma e o modo de fazer e empilhar os queijos fabricados pelas minhas mãos para os guardar quando o leite escasseia e para os amigos da serra... Vós
colossos de pedra onde nascem as águas glaciares sereis os Cântaros... o do meio mais
majestoso e imponente será o Cântaro MAGRO... o outro ao lado onde mais brilha o
reflexo das estrelas e se chama Candeeira, ficará a chamar-se Cântaro Gordo, pesado,
impressionante... Este a estender-se espreguiçando-se até à Argenteira das minas de

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prata encimada pelo Poio do Judeu errante devoto e prodigioso, fica o Cântaro Raso
como rasa para medir tesouros fabulosos de nunca imaginados que todos sonham poder um dia ver e procuram em todo o lado... Aí entre os dois passará a Rua dos Mercadores como fenda aberta na muralha para os mercadores dos sonhos verdadeiros que
nunca serão realidade... e vai dar a esse rio que nasce destes cântaros a desfazerem-se
em água rodeado de azereiros e ele será Zêzere ziguezagueando como serpente pelo
vale do glaciar que abriu a Serra enchendo-a de zumbidos e zunidos criando uma estranha melodia que dá cor e cheiro e gosto e rugas e som e um sortilégio ímpar e sedutoramente irresistível a esta Terra Serra...
Depois o pastor caminhou para mais longe e foi nomeando os vales as lagoas e as fontes... Esta será a Fonte dos Perus onde eles andaram misturados com os meus rebanhos e canta glu-glu como eles... Essa outra larga e bela como fonte de rico palácio será o Chafariz Del'Rei... Essa que brota a gorgolejar do chão será do Gorgolão... Essa lagoa perdida escondida ficará a Lagoa Escura dos mistérios e das lendas que talvez até
tenha ligação com o mar pelos restos de naufrágios e fantasmas que lá se podem ver...
A outra será a Lagoa da Caldeira... A outra da Candeeira... A outra as Salgadeiras... A
outra do Pachão por dar nas suas margens pastagens imensas... A maior essa será a
Lagoa Comprida... Esse vale o Vale do Urso que mais se regala com o mel das abelhas
que com os meus rebanhos... Aquele será o Vale das Éguas onde elas pascem e correm
à desfilada... Aqueles fragões onde bate a luz do sol poente serão as Penhas Douradas... E o vale aos seus pés será o Vale do Rocim dos cavalos pequenos como o rocinante quixotesco de aventuras cavaleirescas mais sonhadas que realizadas... ou será o
recinto como um templo a céu aberto onde se pode adorar o sol que morre para logo
no outro dia ressurgir esplendoroso do outro lado do mundo e, à alva, fazer brilhar a
lagoa do vale que vai fazer correr o Rio que se chamará Alva que (me) acordou cantando as albas que um dia hão-de ser cantadas acompanhadas pelo alaúde pelo rei lavrador: "Levantou-(se) a velida, Levantou-se (a) alva, E vai lavar camisas En no alto. Vailas lavar (à) alva..." ou pelo Pêro Meogo que cantava(rá): “Levou-s(e) a louçana, levouse a velida; Vai lavar cabelos na fontana fria, Leda dos amores, dos amores leda..."
...rio que vai desfazer as suas raivas irrequietas lá longe na Raiva no rio que lhe nasce
ali no mistério ali ao lado desaparecendo no Sumo e aparecendo logo como Mondego
por levar o eco do meu ego ao mundo da cidade dos sábios e doutores que estudam e
que cantam se encantam e encantam sem deixar de estar eternamente enamorados
do rio e das plantas do choupal e das flores e das tricanas e das fadas magas sábias
como eles enamoradas e onde há-de nascer a Fonte das Lágrimas da linda Inês do Pedro o Justiceiro... e esta pedra onde me assento e vejo o vasto mundo por onde correm os rios será a Fraga da Varanda, a Varanda dos Pastores senhores desta serra...
E assim viajando caminhando andando vai o pastor correndo a serra toda dando nomes a todos os lugares à medida e na medida em que o impressionavam lhe agradavam ou o aterrorizavam ou lhe lembravam bons ou maus momentos porque, como dizia o filósofo escravo que até os centuriões romanos reconheciam como sábio, não são
as coisas e os seres que aterrorizam as pessoas mas os nomes que as pessoas dão às
coisas e aos seres e até à outras pessoas é que lhes dão a elas a ideia de medo ou de
terror, de alegria ou de prazer... de dor... e assim vão nomeando e fazendo com que as
coisas e os seres que não têm nome, existam para eles, passem a fazer parte do seu

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

mundo, esquecendo-se por vezes que eles, pessoas, sem nome, também fazem parte
do mundo, do universo, do cosmos e nele estão integrados sem cuidarem de saber que
nome porventura lhes será dado pelas coisas!-- ou pelos seres a quem eles tão superiormente deram nomes para se apossarem deles!!!
Foi assim com certeza que nasceu a NOMINÁLIA, a festa dos nomes, o canto dos nomes da Serra e da Terra recebendo cada canto, cada pedra, cada vale, cada recanto,
cada forma recortada desenhada ou esculpida pelo tempo e pelos elementos... um
nome imagem do encanto ou desencanto da magia qual harpia cabeça de mulher corpo de abutre ou do aspecto ou halo ou impressão ou fantasia sentida pelos sete sentidos do pastor, dos pastores de todos os tempos e lugares, impressões registadas pelos
sentidos de fora e de dentro que se repercutem no seu íntimo e logo se formam em
significantes palavras quase insigificantes a traduzir as sensações de fora que a vista o
cheiro o ouvido o gosto o tacto lhe faziam chegar de mistura com as sensações de dentro que a imaginação e a criação transformam em sentimentos dores que não doem
em sensações que não se sentem sentindo mas se sentem sentindo e por isso são sentimentos vividos ou fingidos e assim o pastor, os pastores, o homem aprendeu a ser o
artista fingidor eternamente insatisfeito a dar o nome às coisas e aos seres e às outras
pessoas e aos seus sentimentos fingindo que se torna dono delas quando é ele que
lhes pertence e assim fica encalhado nas calhas da roda talvez só por não saber o nome que as coisas e os outros seres lhe dão a ele...
Aquelas portas por onde entrei ficarão as Portas dos Hermínios por me terem aberto
este mundo de mistérios dos montes ermos logo a seguir à Cova da Lã que foi o meu
último Refúgio donde saí ao Cantar-Galo para passar à terra do Carvalho e chegar às
Penhas da Saúde onde renasci como homem novo para a conquista da montanha que
afinal era a minha amada Serra a Estrela que de longe lá do fundo me chamava e chama para continuar esta grande viagem peregrinação a toda a roda da serra e do mundo à procura do que está sempre tão longe tão perto... à procura de mim este universo
imenso... e assim vou viajando peregrinando...
...Esses precipícios aí ficaram a chamar-se Calçada do Inferno onde precipitei os inimigos que me atacaram e à serra, à terra sua mãe e suas raízes... essa rua escondida ao
abrigo dos Cântaros, os magos da Montanha, essa rua bem perto da Rua dos Mercadores por onde chegaram os primeiros viajantes sedentos de longe famintos rotos desabrigados à procura do que precisavam da lã do leite e das manteigas e descobriram esta fenda na muralha intransponível entre os colossos que guardam os tesouros secretos da serra só visíveis para os olhos atrevidos dos eleitos para os pastores sonhadores
poetas artistas ladrões aventureiros que se arriscam a conquistá-los a qualquer preço..., essa é a Rua das Roseiras... e aquele outro espinhaço é o Espinhaço do Cão da
Candeeira... e lá mais além são as Arcas do Pão onde todos os famintos se podem saciar e todos os pastores podiam acorrer... e lá ao fundo será Manteigas onde podem encontrar todos os leites transformados para barrar o pão das arcas e do centeio... E mais
além aquela cascata há-de ser o Poço do Inferno tão abrigado e fresco e de águas tão
límpidas refrescantes capazes de apagar todo o fogo dos infernos... E do outro lado ao
alto é o Tornáqua que torna todos os anos com as neves derretidas a encher o Zêzere
e a encher as fontes onde podem beber todos os que têm sede e até curar as doenças
nas águas da Fonte Santa e nas águas que nascem quentes e sulfurosas para banhar o

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corpo e o tornar são... para seguir a toda a roda da Serra e encontrar as Sarnadas, Verdelhos, Sameice; Sameiro, Valhelhas, Vale de Amoreira; Vale Formoso ou Aldeia de
Mato; Belmonte, Trinta, Videmonte; Corujeira, Maçainhas; Chãos, Mizerela, Prados;
Rapa, Cadafaz, Fonte Arcada; Soutinho, Vale de Azares; Lageosa, Vide entre vinhas, Celorico; Galisteus, Cortiçô, Salgueirais; Qiuntãs, Assanhadas; Figueiró, Freixo, Linhares;
Minados, Azimbrais; Folgosinho, Melo, Nabais; Nabainhos, Nespereira, Vinhó, Gouveia;
Moimenta, Aldeias, Mangualde; Paços, Eirô, Arrifana; Vodra, Póvoa, Sabugueiro, Lagarinhos; Quintela, Maceira, Assamassa, Desterro, Cova, Lapa dos Dinheiros; Valezim, Sazes, Furtado, Sandomil; Cabeço, Cabeça, Corga, Queiroz; Loriga, Casal do Rei, Muro,
Vide; Fontão, Alvoco, Esteves, Unhais, Bouça; Borralheira, Canhoso, Teixoso; Tortosendo, Peso, Vales, Barco, Casegas; Minas da Panasqueira, Erada, Dominguiso; Boidobra,
Terlamonte, Orjais, Souto, Sarzedo... tudo nome de terras e lugares da Serra que fui e
foram e se foram nomeando e que depois alguns vieram renomear com nomes de outras religiões que diziam mais verdadeira que esta natural da deusa natureza, e rodearam a serra de uma corte celestial com nomes de santos e santas como São Pedro,
Santa Maria, Senhora dos Verdes, São Martinho, São Romão, São Paio, São Sebastião,
Senhora do Desterro, Senhora de Fátima... tudo ao sabor da fé e crenças e crendices
daqueles que os nomeavam pretendendo mudar a serra porque aquilo que impressiona os homens são os nomes que os homens dão às coisas e assim os nomes vão mudando ao sabor da imaginação e da fantasia ou da visão que os homens vão tendo das
coisas... Quem terá dado nome à maior parte das terras e dos lugares da Serra-- Que
sonhos e fantasmas acendiam a sua imaginação-- Talvez este Pastor SIGNO símbolo
das gentes da Serra...
...E assim, depois desta nominália que se estendeu sem fim a toda a Serra e seria impossível transplantar para aqui em letras transformando a Serra numa montanha de
palavras escritas para serem lidas tal é a loucura desta viagem que pretende semear
letras como estrelas criando uma nova Serra... o Pastor da Serra da Estrela sentiu-se
dono e senhor de toda a Serra ou assim constava por ter dado nome a tudo... e por isso chegou notícia do Pastor a outro Rei do Mundo, grande senhor de muitas terras daquelas redondezas muito longe dali perto daquele tempo e lugar...
Era já velho o Pastor jovem de tantos anos e tantas caminhadas e viagens que conquistou a Serra e a percorria e nela se fixava sem parar, sempre velho e novo em cada espaço e tempo sem tempo nem lugar...
Mandou-lhe esse tal rei emissários dizendo que dele ouvira falar e do seu grande poder que dava nomes a tudo e dos seus tesouros e sabedoria, oferecendo em troca outras riquezas diferentes mas muito correntes e rentáveis no mundo que era do seu reino, tudo lhe daria, mesmo metade do seu reino, em troca da fama que corria de ser
ele grande senhor de mil tesouros secretos desconhecidos sem valor no mercado dos
outros reinos e constavam que havia mil segredos que uma estrela misteriosa lhe contava e cantava e eram de encantar...
O velho pastor jovem recebeu os emissários. Ouviu-os. Lá no alto da Serra onde permitiu que o encontrassem o Pastor ouviu os emissários do grande rei do mundo e olhava
em roda. Olhou as gargantas e os precipícios e os vales e os covões abertos pelos glaci-

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ares... olhava a sua estrela de sete raios..., de setenta vezes sete raios que brilhavam
cintilando... olhava a sua estrela enquanto os emissários do rei do mundo falavam e o
olhavam boquiabertos para o pastor e para o céu à espera que o Pastor se denunciasse
e denunciasse a sua Estrela e, espantados de o verem só olhar a terra, ouviram a resposta do Pastor...
Ide, e dizei ao vosso rei do mundo que sou um velho muito jovem que vim de muito
longe daqui ao pé e desde há muitos anos que são hoje, não conheço reis nas redondezas nem no mundo que vislumbro das alturas destes montes ermos... Não tem o
vosso rei, seja rei já que assim ele o quer e vós o creis e quereis, não tem o vosso rei,
que eu saiba, riquezas que valham um pouco, os imensos tesouros desta Serra... Tesouros que pouco ou nada valem para os vossos Poderricos que alguns chamam de Ricardos... Nunca estes imensos tesouros se abrirão a reis cobardes e ambiciosos que
tudo governam com DINHEIRO e exércitos como os que vos governam ou vós vos deixeis governar... Se isso pudesse vir a acontecer, por fatalidade, nem vós nem eles os
chegariam a possuir... seriam destruídos antes de os poderem saborear... desfazer-seiam como a neve desta serra se derrete quando chega o calor e as mãos impuras e se
perde sumindo-se na terra para criar independente do vosso poder e corre das fontes
e dos rios para a mar... assim tudo se desfará se um dia estas riquezas forem conquistadas à força por reis e súbditos que tenham outros valores e outros preços que não os
desta terra e desta serra de pastores e cães, de rebanhos e penedos, de vales de cabeços e de rios e de fontes, de fragas e fragões e de montes e ... Ide. Parti. O vosso rei até
pode mandar matar-me e atrever-se a mandar conquistar a Serra... Ide. Parti enquanto
é tempo...
Era tempo. A serra começava a ficar nua e preparava-se para vestir o seu manto branco da solidão e da intimidade que não admite estranhos e curiosos e só permite a presença dos verdadeiros amantes... Um vento gelado varreu a Serra... As palavras do
pastor aos emissários dos rei que eram imateriais e distantes brilhantes como estrelas
luminosas incompreensíveis e inaudíveis para os olhos e ouvidos e entendimento daqueles emissários, materializavam-se por instantes pelo bafo quente na aragem fria
como que em pequenas nuvens de formas caprichosas que eram SIGNOS sinais susceptíveis de serem captados por sentidos que soubessem sentir transformando-se em
mensagens que o vento correio transportava nas suas asas para longe... Parti enquanto é tempo deste reino que é a Serra! Tendes uma resposta para o vosso rei. Parti antes que o não possais fazer. Não sou eu quem vos vai impedir. Não preciso. É mais um
segredo tesouro mistério desta Serra este condão de prender e fazer desaparecer no
seu seio aqueles que atrevidamente se aventuram a profaná-la, como por vezes acontece também com aqueles que a amam de tal maneira nela se perdem e nela se transformam... é algo de muito misterioso e secreto para o poder/des entender... e aquelas
palavras que apareciam e desapareciam em breves e quase imperceptíveis sinais de
fumo impressionaram finalmente os emissários do rei...
Partiram apressados os ministros que olhavam inquietos os morros e ravinas que os
rodeavam tentando ler os sinais das nuvens e da luz no céu que não entendiam e levavam ao rei as palavras fala do Pastor que momentaneamente tinham sido nuvens que
desapareciam com o vento correio que já as tinha feito chegar para serem lidas pelos

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sábios distantes... Aflitos, não sabiam o que mais temer... Se a fúria do seu rei, se a
mensagem sibilina e hermética do Pastor que não adregavam de entender! Era louco
sem dúvida aquele homem que se encontrava lá no alto da montanha perdido entre
fraguedos, noutro reino, a viver muito perto da terra muito distante de todas as outras
terras e muito mais distante da maneira de ser e de pensar e dos hábitos e dos valores
e das crenças e dos costumes e das artes e da vida e do modo de viver e de falar da vida de todos os outros homens, das outras pessoas, das pessoas normais e sensatas e
decentes e correctas e negociáveis e negociantes que sabiam viver e pensar e falar das
coisas comuns e dos interesses e que encolhiam os ombros aos caprichos arrogantes
dos tiranos... que queres tu-- é assim a vida... todos fazem assim... é preciso é a gente
fazer o que eles querem para fazermos o que podemos e queremos com as mesmas
artes e meios que podermos o que alguns até conseguiam mais ou menos como que
fingindo ignorar que os tiranos nunca dão tempo nem espaço para os outros fazerem o
que eles não crêem ou não querem antes usam todos os meios e o tempo e o espaço e
até a dependência de sobreviver para todos moldar e de/formar com grandiosos programas de de/formação e de des/educação em que todos têm de atingir objectivos
muito objectivos como aprender a ler e a escrever e a contar as coisas importantes para a sua pátria e valores deles...! Era louco sem dúvida aquele homem perdido nas
montanhas que se atrevia a enfrentar um império tão poderoso e total com rei e com
ministros e emissários e leis e servos e criados e polícias e exércitos e... encarregados
de fazer cumprir essas leis inventadas para o Bem de toda a Humanidade que eram só
o bem e a humanidade dele... Vejam a desfaçatez insensatez o atrevimento a pouca
vergonha! esta loucura!... Mas também qual é o problema para um reino todo poderoso eliminar pura e simplesmente aquele louco perigoso e tomar-lhe pela força aquilo
que tão delicada e habilmente lhe foi mandado pedir com tanta correcção e respeito e
até tanta consideração e deferência!!! Como é que o nosso rei e o nosso reino vão tolerar esta diferença granítica imoldável indómito impermeável à boa educação e às
conveniências inconveniente selvagem mal-educado indomesticável... E ainda lhe
manda mensagens o nosso rei-----O rei daqueles mensageiros correctos e delicados agora apavorados porque a mensagem do Pastor tinha chegado no correio do vento nas formas caprichosas e indecifráveis das nuvens que iam formando mensagens fantásticas ao sabor do vento e das correntes e dos olhos e dos ouvidos dos que as olhavam e tentavam ler e que ora se esfiapavam em nuvens de algodão branco que corriam entre o azul do céu e o escuro da
terra ora se tornavam cinzentas e negras preanunciadoras de tempestades e borrascas
aterradoras... e o rei daqueles mensageiros ficou furioso que era uma maneira de ficar
amedrontado mais próprio de pessoas importantes que não podia ali ficar a tremer
amedrontado como os seus criados mas antes tremia de raiva e de medo mais profundo... e tanto mais furioso e ofendido quanto não tolerava a insolência do outro ainda
por cima um reles pastor... ainda se fosse uma provocação resposta digna da parte de
um outro rei poderoso que lhe pudesse fazer frente... agora um insolente daqueles!...
e de furioso e justiceiro que não admitia insolências e faltas de respeito dentro e fora
do seu reino, aquele rei poderoso mandou organizar um numeroso exército para castigar aquele atrevido a quem mandara pedir e pagar uma coisa tão simples: só o segredo sabedoria de toda a sua vida vivida na serra!!! Ora de pobres e mal-agradecidos está o inferno cheio!... Não se podia admitir um insolente um atrevido um malcriado um

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mal-agradecido daqueles naquele reino nem naquelas redondezas nem no resto do
mundo conhecido!... Era o que faltava! Seria o fim do respeito e da ordem e do progresso já tão desenvolvido e organizado!!! Seria o fim do reino e dos reinados dos tiranos que tanto se sacrificam e trabalham para o bem-estar e prosperidade dos seus
súbditos!!! Seria a desordem! A guerra! A anarquia! Estava em causa a salvação de
uma civilização! A salvação da humanidade! Ia porventura deixar cair o poder na rua-Não faltariam outros atrevidos e insolentes a apanhá-lo a toda a pressa e que seria do
povo coitado! sem os seus reis e os seus mestres o orientá-lo e sem a polícia a guardálo e sem os ministros e outros iluminados a governá-lo a encaminharem-no a ensiná-lo
a administrar os seus bens e o seu TRABALHO através de sisas e contribuições e impostos impostos de uma maneira sábia e suave! Todos impostos sobretudo muito suaves
que às vezes só pediam tudo mas só quando os cofres do reino e do rei corriam o risco
de ficar pouco cheios e que às vezes era preciso impor pela força das circunstâncias
àqueles que não entendiam a suavidade e grandeza daquele benefício imerecido fruto
da indiscutível clarividência de tais governantes reis e senhores que tão sacrificadamente governavam e se governavam com guardas e polícias e soldados e generais e juízes e doutores só por causa dos malvados que não entendiam porque eles até explicavam delicadamente ao povo as vantagens irrecusáveis daqueles impostos e sacrifícios distribuídos em décimas e dízimas e sisas e côngruas tão de acordo com as suas
necessidades e tão sabiamente estudados para o bem deles! para o bem de todos pois
onde todos pagam nada é caro e os poucos bens de muitos podem dar um Grande
Bem desde que muito bem orientado e governado por quem sabe!!! Não! Não se podia tolerar!
Era preciso uma lição. Um exemplo! Uma execução exemplar não fosse aquele exemplo sem exemplo e quase sem importância proliferar e dar resultados imprevisíveis!
Era preciso, urgentemente, prevenir possíveis abusos e atrevimentos contra a ordem e
o bem e a paz estabelecidas! Não se podia admitir um mau exemplo daqueles! Intolerável! Tinha de ser castigado e apontado como traidor dos superiores interesses de todo o povo e de toda a humanidade!!!
Tinha de ser assim. Perante algo de insólito e profundamente diferente! contra a ordem estabelecida--! por quem-- aonde-- Só havia uma decisão a tomar. Os exércitos do
rei do Mundo atacaram a serra de todos os lados e em todos os sentidos. Não imaginavam que uma serra tão pequena fosse tão grande! Nunca o encontraram. Mas também não fazia mal, pensavam eles, porque iam isolá-lo pela fome e pelo frio. Iam destruí-lo pela solidão! Bastava manter o cerco. A pressão. O medo. O terror discreto e
distante mantido por um exército de proporções desmedidas para um perigo tamanho
representado por um Pastor sozinho! Entretanto, o manto branco da neve crescera
alimentado dia e noite por pequenos flocos brancos quase imponderáveis e minúsculos que caíam ora mansamente sobre a terra, dia e noite, ora batidos por violentos
temporais que parecia os ia atirar para longe... Parecia não haver perigo para tão poderoso exército! Mantiveram o cerco. Ordens superiores. Quando o cerco já durava
bastante e quiseram retirar para mais longe, para os flancos da serra, uns foram atacados pelas feras, essas sim esfomeadas que também procuravam refúgio nas faldas das
montanhas e tiveram assim um banquete inesperado...; outros, muitos deles, amedrontados já desesperados destroçados, tanta guerra por tão pouco diziam eles furio-

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sos! ou pensavam-no só porque não o podiam dizer nem aos mais amigos!, numa retirada que já era fuga desordenada precipitaram-se nas gargantas e barrancos e barroqueiras e formaram com a neve avalanches que se iam desfazer destruidoras nos vales
e nas naves longínquas e nos covões... A maioria precipitou-se do Poio da Morte... Veio
então o imenso manto branco que vestiu a Serra toda até aos vales já na planície e os
exércitos do rei tinham desaparecido cobertos pela neve! Isto não fez mais que redobrar a sua fúria incontida e cega e a sua violência absurda!... Havia sempre outros
exércitos que, mais tarde, haviam de erigir, ao lado, a Fraga da Cruz e dar o nome de
Vale dos Murtórios ao vale onde aconteceu aquela mortandade inútil e insensata...!
Quando enfim a Serra vestiu o seu manto verde ainda matizado de milhares de manchas brancas as águias e os abutres, os milhafres e os peneireiros, os lobos em grandes
alcateias e os linces... tiveram um banquete inesperado e limparam a Serra! Os rebanhos com os seus cães e o Pastor que tinham os seus refúgios secretos para passarem
o longo inverno, regressaram e encheram a Serra de sons, de movimento e de vida...
Passaram anos e anos... Os temores daquele rei louco tinham fundamento... As palavras do Pastor transformadas em bandeiras de liberdade correram com a fama das suas vitórias retumbantes... Corriam por todo o lado estas palavras que ficavam a pairar
no ar ou caiam no chão como sementes atrás dos peregrinos e dos mercadores e dos
viandantes e caminhantes mendigos e cegos com os seus guias... que passavam por ali
a abastecer-se de peles, de queijos e manteigas e depois corriam o mundo sempre à
procura de alguma coisa que nunca encontravam... e, sem o saberem, ao contarem as
suas viagens, ao cantarem o que tinham visto e ouvido e tinham ouvido cantar... difundiam a boa nova de que era possível viver em liberdade sem tiranos nem escravos,
e em harmonia com a terra e com a serra, sem a agredir e deixar agredir ou profanar
pelos insensatos que só vêem os seus interesses imediatos... Assim de todos vieram
mais pastores e jovens seduzidos de longe para procurarem como ele, o velho jovem
Pastor, os mistérios segredos e tesouros dos montes ermos e conquistarem o direito
de ser livres das ambições generosas e sacrificadas de reis imperadores senhores e ditadores que impõem as leis e a ordem que lhes convém a ferro e fogo se necessário for
e continuam a distribuir os benefícios irrecusáveis da sua iluminada e superior orientação espalhando generosamente os seus impostos impostos até pela força se necessário, exigindo as décimas do produzido mesmo quando as décimas exigidas era tudo o
que era produzido ou até mais do que era produzido, recolhendo as dízimas que dizimavam entre o povo todas as esperanças de uma razoável colheita... Tudo para bem
de todo povo e de toda a humanidade que eles, os senhores, guardavam e protegiam
como rebanhos de ovelhas cegas e bem comportadas...!
E foi assim que uma onda de juventude generosa e empreendedora invadiu a Serra e
aprendeu com aquele velho jovem Pastor... aprenderam a percorrê-la em todos os
sentidos até às suas cavernas mais secretas... aprenderam a distribuir entre si os TRABALHOS e os proveitos, os rebanhos e os alimentos... Juntavam-se em grupos que deram origem a dezenas e dezenas de povoações... sustentavam-se... socorriam-se... defendiam-se... raramente precisavam de atacar... E foi assim que uma onda de juventude generosa e empreendedora invadiu a Serra e aprendeu com aquele velho jovem
Pastor a respeitá-la e a amá-la para a conquistar...

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Passaram muitos anos. Ali viviam aqueles povos isolados habitando as cavernas e morando em casas que nasciam das pedras e do que a serra dava plenamente integrados
irmanados com a terra a serra! Quase ninguém os conhecia. Os raros que ouviam falar
deles empreendiam então a longa viagem e, como peregrinos viandantes e mercadores iam à procura do que aqueles povos lhes podiam dar... as peles que lhe sobravam,
a lã, o leite dos seus animais, os queijos e as manteigas de sabor tão raro, as carnes, as
plantas misteriosas que curavam tantas doenças, as águas que purificavam e faziam
andar os coxos... os ares que quase ressuscitavam os mortos pois rejuvenesciam os
doentes já desenganados por todos os médicos e curandeiros... e o esplendor de um
firmamento sem fronteiras nem limites para olhar os astros as estrelas e as constelações e enfim aprender a lê-las... a ver a olhar o sol e receber a sua luz!. No meio daquela vida simples de gente simples profundamente ligada à Serra à Terra, aqueles que
os procuravam de coração puro, podiam dizer com verdade as palavras da Bíblia: os
coxos andam, os cegos vêem, os mortos ressuscitam... parecia que ali tinha chegado o
sinal dos tempos anunciado pelos profetas!!! Um dia, quando uns viandantes perguntaram por curiosidade pelo velho pastor jovem de que ouviam falar em toda a parte e
se por acaso o poderiam encontrar para o verem, falarem com ele e poder dizer em
toda a parte que o tinham visto tão lendário e famoso se tornara, foram-se apercebendo de que todos praticamente o conheciam mas ninguém sabia ao certo onde se
encontrava e em que lugar vivia. A sua presença estava em todos os lugares e os próprios habitantes da Serra deram conta que há muito o não viam pessoalmente nem
sabiam para onde tinha ido. Havia de aparecer um dia como sempre acontecia, mas há
muito muito tempo que isso não acontecia e isto verificava-se em todos os lugares por
onde passavam esses peregrinos... O Pastor que conquistara a Serra porque eu a Serra
o seduzira e conquistara e possuía todos os segredos dos meus tesouros, de todos os
meus mistérios e encantos de todas as lendas e nomes de todos os meus cantos vales
cabeços covões penhas poios penedos fragas e figuras e formas que as pedras e os
montes formam... Quando finalmente ele me possuiu toda e recebeu dentro de si tudo
tudo o que eu, a Estrela lhe comunicara, multiplicou-se nesses povos que enchem a
Serra e assim se tinha entregue totalmente de tal modo que se transformou em mim, a
Serra, a Estrela!!! Transformado em Estrela brilhante, ele aponta com seus raios e sua
luz os lugares secretos das imensas riquezas que eu, a Serra, guardo no meu ventre!
Quase terminava aqui a minha história. A do Pastor da Serra da Estrela. Mas não termina. Aquele Pastor agora multiplicado em mil por mil lugares ali vivia em comunhão
com a Serra a Terra e as Estrelas...

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Afinal a História Continua... -- (ou a possível LENDA DE VIRIATO que se impôs a Roma…)

... inesperadamente, um dia, mesmo sabendo que eram gente pacífica e sem armas,
mas fortes e valentes que sabiam manejar as pedras e os cajados com que pasciam os
seus rebanhos e habituados à vida dura e agreste no meio das florestas e crestados ao
rigor das estações aguentando como filhos da terra as intempéries do inverno como os
rigores do verão, chegou àqueles povos um pedido de socorro de povos seus irmãos
do norte da Ibéria. nessa altura, os filhos de Luso ou Lisa que terão sido filhos de Baco
ou companheiros como diz o poeta maior, já se espalhavam entre o Douro e Tejo e se
estendiam por terras de Castela. as gentes da Galiza estavam a ser alvo da cobiça dos
Fenícios e Cartagineses que até aí tinham sido pacatos mercadores e viajantes amigos... começara a guerra. era no ano duzentos antes de Cristo e como os cartagineses
andavam em guerra com os romanos estes povos fizeram-se seus aliados para os combater. em má hora. soava a hora de se acabar a paz na Serra... esta aliança acendeu a
cobiça dos romanos senhores do grande império que ali viram uma OPORTUNIDADE
de se estenderem ainda mais.
tendo destruído Cartago os romanos ambiciosos foram alargando as suas fronteiras e
ciosos da sua superioridade pelo poder das suas legiões e pela sua cultura foram alargando as suas fronteiras. muitos povos da Ibéria submeteram-se sem luta. recebiam
como dádiva generosa os benefícios da sua poderosa protecção contra outros povos e
as vantagens da sua civilização avançada, do seu poder de organização e administração
com as promessas de um progresso e desenvolvimento que muitos desejavam... tarde
davam conta que tinham perdido a sua independência e liberdade.

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avançaram até às fronteiras da Lusitânia até onde já chegava a influência dos montanheses herdeiros da rebeldia, independência e liberdade do velho pastor jovem que
conquistara a Serra. hei-los de novo em armas. quando viram que os seus povos corriam perigo de ceder aos romanos, da mesma maneira que tinham socorrido os povos
de Cádis, vários chefes juntavam os seus pastores que se transformavam em guerreiros e assim iam mantendo os romanos nos limites que lhes convinham... não queriam
a guerra! queriam tão só que os deixassem em paz com a sua terra, os seus rebanhos a
sua Serra... não contavam com tal resistência o orgulho e a arrogância dos romanos...
povos pequenos e incultos organizados muito desorganizadamente em clãs e tribo dispersas! como se atreviam a enfrentar um império que lhes oferecia uma cultura e uma
civilização mais desenvolvida-- consta que um chefe, de nome Púnio, conseguia manter uma defesa eficaz e suficiente. nos acampamentos onde os seus pastores guerreiros se agrupavam para preparar as suas incursões e onde se reagrupavam depois dos
combates por vezes ferozes, acendiam-se fogueiras monumentais, e um velho de barbas brancas chamado Alípio era o melhor contador de histórias um velho contaouvidor
de histórias... e contava as histórias do velho pastor jovem que conquistara os montes
ermos e como tinha vencido, sozinho, o tal rei do mundo, e como tinham corrido em
socorro dos povos amigos do norte, eles que eram gente pacífica em paz com a terra e
com a serra... de entre os seus ouvintes, um dos mais jovens pastores que por vezes
fora guerreiro era um sonhador audaz corajoso e destemido que se chamava Viriato...
os seus olhos brilhavam como estrelas com o reflexo das grandes fogueiras que iluminavam a noite e as histórias do velho Alípio acendiam-lhe os olhos na escuridão quando nas longas noites sem dormir contemplava o firmamento iluminado por milhares de
estrelas... se um pastor sozinho venceu a insolência de um grande rei do mundo! ... e
sonhava, sonhava, mas quem era ele para realizar o sonho!-um dia correu a notícia de que Roma enviava finalmente um poderoso exército nunca
visto! quedaram-se nos limites dos povos que se lhes tinham submetido. como senhores de um grande império civilizado e civilizador não queriam conquistar os povos insubmissos pela violência bruta e pela guerra cruel! as suas legiões eram só para manter a ordem!!! convocavam os povos da Lusitânia mais indómitos e resistentes para
uma reunião pacífica onde lhes seria exaustiva e convincentemente explicadas as vantagens de uma tal civilização. cansados de tanta guerra que os impedia de viver em paz
na Serra, estes povos rebeldes da montanha desceram a um grande vale. iam como se
fossem para uma grande festa e afinal iam como ovelhas para um matadouro. homens
velhos mulheres e crianças foram-se juntando na margens do Tejo onde se tinha combinado a grande reunião com os poderosos e compreensivos chefes das legiões de
Roma. quando souberam que os principais chefes que eram contra a dominação romana se encontravam entre a multidão Galba mandou avançar as suas legiões fortemente armadas e apoiadas por numerosa cavalaria reforçada com elefantes que eles
tinham integrado nos seus exércitos desde a vitória sobre Cartago...ali foram milhares
de Lusitanos brutalmente atacados e chacinados como faria o conquistador Cortês aos
Astecas e Pizarro com os Incas indefesos... ali estava a traição, o embustes, as promessas de paz e prosperidade para todos que aqueles montanheses desconfiados não entendiam nem queriam entender nem aceitar! o vale ficou cheio de mortos! era um
exército como nunca fora visto naquelas paragens para difundir os benefícios da cultura e da civilização!!! vinham à procura de oiro e de poder para aumentar a imensidão

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de oiro e de poder e de cobiça do seu imperador que já não se contentava com os limites quase sem limite do seu império!!! não era para isto que os montanheses tinham
saído da sua paz e tinham corrido a combater fenícios e cartagineses. era para poderem continuar em paz, com a sua independência e liberdade.
parecia tudo perdido. Púnio que reunia o consenso da maioria dos chefes lusitanos ficara entre os mortos. Viriato que o viu cair ao seu lado, atacado por um elefante, derruba o guia que conduzia aquele animal que tudo esmagava à sua frente e cavalgandoo derruba aquele monstro com a sua faca de pastor como aprendera a matar de um
golpe os grandes touros bravos e os ursos que eram preciso matar para comer e para
se servirem das suas peles... junta-se aos descontentes e revoltados que se refugiam
na Serra e assume o comando dos que estavam dispostos a não tolerar o domínio a arrogância de Roma e nunca acreditaram na salvação e nas promessas dos invasores. à
volta do pastor mais arrojado que conhecia melhor que todos os segredos da serra organizaram então numerosos e repentinos ataques às legiões romanas que nem tempo
tinham para organizar as suas invencíveis estratégias de guerra! atraíam-nos a emboscadas... esmagavam-nos nos vales onde acampavam... precipitavam-nos nas gargantas
temerosas quando se atreviam a procurá-los mais nas alturas... com tácticas imprevisíveis para a pesada máquina de guerra dos orgulhosos romanos, os lusitanos de Viriato
tornavam-se desesperadamente invencíveis. combatiam todos, homens e mulheres. as
próprias crianças com as suas fundas de manter os lobos à distância dos seus rebanhos
chegavam onde as lanças dos inimigos se tornavam terrivelmente inúteis... era um povo em luta pela sobrevivência que recusava uma ordem e uma paz imposta por reis e
imperadores... contam os povos da Serra que o rico Astolfas era dos homens mais influentes e poderosos que apoiava Viriato e lhe dava guarida e protecção quando precisava de refúgio. Vanídia a sua filha apaixonara-se por ele e requisitava-o nos breves intervalos entre um e outro combate. mas conta-se também que era Lízia, a filha de Idevor que lutava lado a lado com o seu herói e animava aquela força indómita que parecia renascer depois de repousar profundamente no ventre de uma caverna secreta da
serra que lhe servia de abrigo. mas Lízia ou Lízias nunca apareceu como mulher. era o
guerreiro mais audaz e temerário que seguia Viriato como a sua sombra!
depois de Galba que é denunciado em Roma como traidor pelo velho Catão perante os
trezentos membros do Senado Romano, mesmo assim Roma não desiste e envia Caio
Vetílio ou Marco Vitélio que encontrando os povos ainda mal organizados e divididos
consegue vitórias fáceis e faz recuar as fronteiras dos Lusitanos. é perante esta ameaça
que os novos chefes das tribos e dos clãs que escaparam à chacina de Galba decidem
confiar a bracelete de oiro símbolo da força indomável ao pastor mais audaz que já dera provas de saber lidar com tão poderosos exécitos e lhe impõem o colar com a víria
símbolo do comando. Agora era Viriato o chefe incontestado com a sua víria o que de
imediato lhe granjeou poderosos e mortais inimigos que se afastaram para o manto
protector dos invasores... confiante nas suas vitórias, fáceis até aí, Vitélio organiza a
sua poderosa cavalaria e resolve atacar em fúria um numerosos grupo de cavaleiros lusitanos industriados por Viriato que dias a fio, de longe, faziam negaças ao inatacável
campo romano... era uma planície imensa. movimentar legiões, pensa o convencido
Vitélio pensando o que o estúpido Viriato queria que ele pensasse, não dariam caça
eficaz àqueles atrevidos. os elefantes, seriam pesados demais quando os velozes lusi-

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tanos se embrenhassem pela montanha... a cavalaria é disparada em fúria cega para os
surpreender em velocidade... era exactamente o que Viriato tinha previsto. a planície
terminava num pantanal coberto de alta vegetação e à aproximação dos romanos os
velozes lusitanos abrem-se pelos flancos em dois largos arcos e enquanto os primeiros
caem no atoleiro já Viriato e os seus homens estão na rectaguarda do inimigo empurrando-os sobre os seus companheiros... derrotado e humilhado este general, Roma
envia Plâncio que outros chamam Pláucio com dez mil soldados! sua cavalaria e pesados elefantes. foram completamente dizimados na passagem de um desfiladeiro que
eles julgavam seguro e protegido! para vingar esta afronta Cláudio Unimano que já
tentara aprender as inesperadas surpresas inventadas por Viriato organiza uma investida poderosa para forçar os lusitanos a cair, em retirada, no vale onde o confiante
Caio Nigídio os aguardava com um exército ainda mais poderoso. no momento em que
Unimano se prepara para a investida os sagazes zagais e zagalas soltos do corpo principal dos guerreiros lusitanos caem de todos os lados sobre as suas legiões logo atacados pelo grosso da coluna comandada por Viriato... e no mesmo momento o acampamento das legiões de Nigídio são esmagados e pulverizados por uma orda de touros
selvagens que os experimentados pastores assolaram sobre eles em correria desenfreada que semeava a morte... vem ainda Caio Lélio, mais prudente, que procura fomentar intrigas e divisões entre as tribos e clãs já cansadas da guerra e invejosos do poder
que fora confiado a Viriato. sem êxito. Quinto Fábio, outro experimentado general,
fortemente prevenido e preparado para todas as surpresas vem afinal a cair nas mãos
dos pastores sem luta. vem ainda Quíncio e depois Serviliano. novas artimanhas e
inesperadas manobras do infatigável e imbatível Viriato batem todas as estratégias sabiamente estudadas e poderosamente postas em prática pelas invencíveis legiões romanas. Serviliano, ainda que vencido, tenta uma cartada que porventura daria satisfação a Roma e domaria aquela imbatível fúria lusitana. envia os seus mensageiros com
propostas para um tratado de paz e manda oferecer a Viriato um cinto de oiro que o
tornaria rei da Lusitânia por vontade e às ordens do imperador de Roma! tantos anos
de Guerra!-- não seria preferível a paz-- os anos de luta e de chefia não lhe granjeavam
já o direito de acender às vantagens do mando sem guerras! o poder corrompe! não
estaria já a produzir os seus efeitos-- entretanto Roma mandara já Pompílio e Pompeu
em socorro do enfraquecido Serviliano para reforçar o seu poder no terreno já conquistado e fazer avançar os seus exércitos o mais possível e finalmente Roma que criticou e retirou Galba por ter posto em causa os princípios da civilização romana por causa da traiçoeira chacina envia o prejuro e intriguista Quinto Cipião com um imenso e
vingativo exército! Mesmo assim não ataca. envia mensageiros à Serra propondo um
encontro em que se possa discutir e rever o tratado feito por Serviliano. Viriato, o portador da víria garante da honra e da fidelidade à palavra dada e símbolo do comando e
da independência não vai. envia os três homens da sua maior confiança experimentados conhecedores das artes de guerra dos romanos e da sua cultura. são Minouro (Minuro), Ditallon (Dictaleão) e Aulaces (Andaca). levam a incumbência de exigir que o tratado de paz seja respeitado por Quinto Cipião e pelos seus poderosos exércitos. que
eles vivam na sua Pax Julia e o deixem a ele Viriato e aos lusitanos viver em paz nos
seus TRABALHOS e nas suas choupanas que cobertas de colmo da cor dos campos tão
bem os defendem do frio e do calor e dos olhos cobiçosos dos estranhos... a viagem
dos três mensageiros é demorada. são homens evoluídos e ambiciosos que podem ser
trabalhados por um intriguista refinado como é Cipião. tinham sido escolhidos preci-

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samente por terem uma educação e um nível intelectual superior ao da maioria dos
guerreiros e assim estarem mais ao nível dos romanos. convinha dar a ideia àqueles civilizados de que os montanheses também tinham gente evoluída. são recebidos com
todas as honras. passam em revista as legiões mais vistosas do exército romano com
seus pendões e luzidias fardas... visitam cidades e povoações que prosperaram sob a
influência e orientação dos pretores cônsules e administradores romanos!!! que diferença! valia a pena continuar naquele atraso e desconforto lusitano agravado ainda
pelo desgaste de uma guerra que parece não ter fim!--... estavam perdidos. ali estava
na prática muito do que eles tinham sonhado poder proporcionar a todos os habitantes da serra. sabiamente seduzidos por Cipião e seus generais com promessas de avultada recompensa em ouro e notáveis cargos no exército ou na administração das conquistas futuras... insistentemente trabalhadas as divergências e a inveja que tinham a
Viriato, um pastor inculto meio selvagem autoritário e indomável... recebem ouro e
partem para cumprir a sua missão. não se fazem anunciar. chegam de noite onde sabem que Viriato pernoitou. a confiança é tanta e a ansiedade pela resposta que possa
trazer alguma esperança de paz é tamanha que têm acesso imediato aos aposentos de
Viriato que dorme. saem ainda pela calada da noite. no outro dia se saberiam as grandes novas e o acontecimento que mudaria toda a história! só uma traição tão hedionda podia por fim àquele chefe providencial e genial que dava aos lusitanos a oportunidade de manterem a sua liberdade e independência perante uma guerra sem quartel a
que eram submetidos pela ambição desmedida dum imperialismo desenfreado... era
uma fatalidade! quando a traição é descoberta os traidores estão prudentemente longe. melhor do que ninguém eles sabiam como. mas nem chegam ao acampamento
principal. Cipião mandara assassinar miseravelmente os três mercenários quando aterrorizados vinham receber o prémio do seu horrível triunfo. intriguista e perjuro, Cipião
sabia bem que quem trai os seus não será certamente fiel a estranhos que lhes pagam
para trair. quem sabe se não lhes pagariam para o atraiçoar a ele--!
quando a notícia correu a Serra como um raio seguido de trovão levanta-se um coro
imenso e uníssono de dor e de vingança. morte aos traidores! honra ao grande chefe!
e logo chega a notícia de que estão mortos. Vingança! clamam desvairados os que se
querem atirar sobre as legiões romanas em gesto suicida. como--! se nem Viriato se
atrevia a combater sem hábil preparação um tão poderoso exército ainda por cima em
estado de alerta e prevenido... revoltados desanimados e clamando vingança é em
multidão que se junta para celebrar os funerais de Viriato. é erguida uma enorme pira
no alto da montanha. os guerreiros revezam-se para o transportar o chefe adorado até
ao alto e o barulho das armas a bater nos escudos e os gritos de vingança enchem os
vales... Durante dias e dias os druidas celebram-se as cerimónias rituais em honra do
deus Endovélico e quando o fogo é lançado a enorme pira transforma-se numa fogueira abrasadora que transforma a serra em estrela cintilante e as danças guerreiras atingem o delírio misturado com os gritos de dor e luto de ódio e de vingança... que deus e
os manes nos protejam agora que nos enviou um grande chefe e agora permitiu que
morresse à traição!
no meio da confusão dos gritos dos coros e dos choros e no meio dos cantos de guerra
e de festa que se iam desenrolando à roda da pira ardente agora num imenso braseiro
os pastores guerreiros querem eleger um chefe que conceba uma pronta e adequada

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vingança. quem vingaria melhor o chefe morto senão o belo Suldório aquele valente
guerreiro duma beleza estranha e triste que viera do sul logo que Viriato assumira o
comando e que se tinha tornado o seu maior amigo e companheiro inseparável e que
o tinha salvo em tantos perigos e emboscadas-- Vingança! Vingança! a víria ao belo
Suldório que assuma o comando. Mas Suldório, o belo Suldório como era conhecido,
estava junto à pira chorando incontroladamente olhando o corpo do amigo que se
transformava em cinza. surpreendido pelo clamor geral que o aclamava, para surpresa
geral, o intrépido guerreiro rasga as vestes e precipita-se naquele braseiro abraçando o
corpo quase consumido pelas chamas. era uma bela e formosa mulher dizem os que a
viram atirar-se ao fogo para ali consumir a sua paixão que a trouxera de longe para o
lado de Viriato mas que sempre se vira suplantada por Vanídia que tinha os seus favores e lhos podia retribuir! era Lízias o seu companheiro inseparável que o acompanhava por todo o lado como uma sombra e chorava desesperado, agora desesperada, por
não ter podido evitar a traição. contam ainda aqueles que assistiram que os dois corpos finalmente unidos a arder levantaram uma grande faúlha incandescente que se ergueu acima do braseiro, ergueu-se mais, voou ao céu e quando a tentaram seguir com
o olhar eram uma estrela brilhante faiscante que naquela noite brilhou mais ali sobre a
serra e lá continua a brilhar no céu distante ali tão perto do alto da Serra da Estrela!
é Tântalo o Lusitano que vai herdar a víria e comandar a vingança contra Cipião. perante tanta baixeza e iniquidade dos romanos aparece Sertório, romano que se oferece
aos lusitanos para combaterem mais eficazmente os inimigos. sucedem-se ainda outros chefes que durante mais de um século conseguiram resistir aos sucessivos exércitos romanos e seus aliados... estávamos no ano cento e trinta e oito antes de Cristo e
só no ano dezanove antes de Cristo se dá a rendição da Península que é ocupada pelos
romanos até ao século sétimo da nossa era em que os árabes vão subindo até às Astúrias onde se refugiam os resistentes...
quantos anos séculos correram até hoje! quem somos e donde vimos os que hoje habitamos estes montes-- dos romanos restam castros e vias empedradas ainda visíveis
nalguns pontos da Serra e muitos outros vestígios. há um Campo Romão a caminho
das Penhas Douradas, mas em muitos lugares ermos, não há sinal da sua passagem.
houve sempre os que se bateram pela sua independência e liberdade dispensando o
brilho da civilização romana tentando manter a Serra como esteio estrela para todos
os povos da península. da passagem dos árabes, teria para te contar a lenda dramática
da moura Alfátima que fugiu à perseguição dos cristãos refugiando-se no monte que
tem o seu nome e onde espera o regresso dos que a virão salvar!
aí tens Zé da Serra a história da minha serra a minha história. sempre longínqua e distante, foi sempre terra de pastores e dos que trabalharam as lãs e o leite quase esquecida e ignorada por todos. apareceram em mil oitocentos e oitenta e um os cientistas
que vieram para desvendar os mistérios e desvelar os segredos! honra ao seu TRABALHO pioneiro, mas ficaram-se muito pelos dados científicos e pelos números e explicações superficiais que para eles eram muito profundos! de resto, desapareceram florestas, replantaram florestas. quase desapareceram as pastagens para os imensos rebanhos... interesses obtusos e ínvios têm desfigurado a minha Serra!

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como os Maias, Incas, Azetecas, os Índios da América e os da imponente Amazónia
também os indomáveis Lusitanos foram dizimados e dispersos... que aconteceu a estes
povos-- todos vencidos à força de traição, da ambição, da ganância, da cegueira, arrogância, temeridade e prepotência dos grandes povos civilizados - civilizadores que se
encarregaram de DAR, oh! DOR!, a todos os povos que chamaram atrasados, selvagens, incultos, terroristas..., os benefícios! da sua civilização, da sua religião, da sua
verdade, da sua política, da sua democracia, dos seus valores, das suas crenças... dos
seus defeitos e crimes... em nome de deus e de deuses e do diabo... em nome do direito e da justiça... e do direito de conquista... em nome da ciência e da cultura... sobretudo em nome de uma civilização apoiada num deus criador do universo e detentora
de uma única verdade para todos, em nome do respeito pela pessoa humana... em
nome da família... quantos crimes cometidos em nome das coisas mais sagradas que
foram profanadas e tornadas obscenas até à náusea e ao nojo pelo modo irracional e
vergonhoso como foram impostas e que, em vez de encherem de vergonha e repúdio
público os que cometeram tais monstruosidades, são exaltados e promovidos a heróis
pela imortalidade da história, na história que tem sido oficialmente divulgada, considerando grandes conquistadores e heróis os que podiam ter descoberto a grandeza variedade e unidade deste vasto mundo tão pequeno!!! como é que é feita a história-quem faz a história-- como é que é contada a história-- quem conta a História-- qual é a
versão da história que é oficializada-- por quem-- porquê-- para quê-- até agora foram
consagrados como grandes heróis da humanidade os grandes descobridores e conquistadores como modelos de uma humanidade civilizada que se erigiu como modelo dominado pela sede de conquista pela ambição loucura e insensatez humana que parece
não querer parar enquanto não conquistar tudo o que lhe foi dado, mas à sua maneira
de conquista sem conquistar, sem aceitar as diferenças, sem respeitar, sem admitir
que há outras verdades, outras crenças, outros valores, outros costumes, tradições, direitos... sem tolerar os defeitos... sem aceitar o direito ao lazer e à preguiça... Uma sociedade desenvolvida que sonha atingir um nível económico que permita aos privilegiados o lazer, o direito à preguiça, o direito a consagrar o seu tempo ao que mais gostam ao que lhes dá prazer àquilo que os realiza como pessoas humanas, não suportou
ter encontrado clãs tribos povos que tachou de selvagens, atrasados, incultos que já
realizavam este ideal!... vemos uma sociedade modelo que se desprendeu das sua raízes, cortou as suas ligações vitais, não respeita mais a sua mãe natureza e a sua integração intrínseca no cosmos... que confundiu o corte do cordão umbilical vital, com a
irrecusável e fundamental ligação às suas raízes, às suas fontes... é ver como ainda
agora as grandes nações civilizadas que não souberam respeitar e guardar as suas raízes primitivas das suas gentes, da sua mãe terra, que destruíram as suas florestas, que
poluíram os seus rios, se impuseram como modelos, andam agora por aí a gritar aos
povos que chamam atrasados que não poluam... que não agridam... que não destruam... que não esqueçam as suas raízes... que copiem a suas democracias, os seus modelos, a sua liberdade, o seu progresso, o seu desenvolvimento... que combatam a fome e a miséria que a sua interferência civilizacional as suas leis, os seus crimes, as suas
imposições e o seu modelo lhes impuseram!... ver como as sociedades desenvolvidas
estão a permitir o aparecimento de grupos e movimentos que agora, passados séculos,
se lançam à descoberta das ruínas, dos vestígios, dos valores que eles próprios varreram e destruíram como retrógrados, como selvagens, como indignos da sociedade
humana!!!

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afinal por onde caminha a humanidade-- por onde e para onde quer caminhar-- quais
são afinal as forças dominantes-- as elites que dominam pela força pela economia e
pela cultura institucionalizada-- ou as maiorias herdeiras duma tradição milenar-- sem
poder senão o da força das águas que as barragens podem travar e rentabilizar mas
não podem parar--! sem poder económico--! sem voz e meios que dêem voz à sua voz-!
estávamos, estamos numa encruzilhada! era, é a confusão! os que se sentem filhos da
terra... os povos com uma cultura ligada às suas raízes, à terra que os pariu... entram
em confronto com os que já não se sentem filhos da terra... se envergonham dela como os que singraram na vida se envergonham dos seus pais pobres e analfabetos que
permaneceram rurais, atrasados, ligados à terra... sonho querido e possibilitado por
esses próprios pais que se sentiram marginalizados pela sociedade... e produziram o
tipo híbrido de desenraizados sempre saudosos das suas raízes!... contradição! cruzamento de conflitos! Quando é que o progresso e o desenvolvimento vão crescer respeitando as suas raízes mais profundas--...
era a confusão! que fazer nas horas graves em que a loucura e a insensatez e a arrogância dominam sobre os amantes da paz e da terra--! os lusos, como os maias os incas os azetecas os índios os amantes da independência e da liberdade ligados às suas
raízes com a natureza e com a terra que os pariu, os indomáveis... agora mortos... desaparecidos... os sobreviventes agora dispersos e em fuga que haviam de fazer-- na
confusão da dispersão, consciente uns, inconscientes outros, trocaram os nomes dos
espaços e lugares lançando ainda mais confusão sobre os inimigos que invadiam a sua
terra e a sua serra abandonando-os aos mistérios da terra e da serra para subverterem
e inverterem a seu bel-prazer e imporem os seus modelos e as suas soluções... passaram fenícios cartagineses romanos conquistadores mouros faustosos e fanáticos com
suas lendas e lindas mouras de encantar, vieram visigodos celtas celtiberos alanos suevos hunos e todos partiram vencidos e frustrados deixando raízes vestígios palavras
usos costumes... à frente dos últimos conquistadores os resistentes das astúrias que se
lançam na luta da reconquista os cruzados da terra santa e do condado potucalense e
da tomada de lisboa aos mouros e de santarém e de évora e de ourique e dos algarves... do in hoc SIGNO vinces... com verdades valores e certezas, com uma civilização
para impor... e como os outros encheram a terra e a serra e as gentes com os nomes e
os fantasmas e as ligações que eles tinham com a serra e a terra e as gentes e as fontes
e os rios e as plantas e os astros... baptizaram tudo e todos! tentaram apagar os nomes
sagrados profundos e verdadeiros nascidos de culturas mais ligadas à natureza-- profanaram os nomes sagrados das coisas dos tempos dos espaços dos lugares das formas
que as coisas formam profanaram os nomes das estrelas e constelações que brilham
no espaço-- quem profanou o quê-- quem mudou o quê-- que sentido têm os nomes
das coisas e das pessoas-- que sentido tiveram-- quem lhes deu os nomes-- como se foram mudando os nomes-- lenta ou bruscamente-- porquê-- uma mentalidade que se ia
mudando e evoluindo ou fruto de rompimentos bruscos provocados por uma revolução que pretendia tudo mudar e deixava tudo mais ou menos na mesma--!

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a confusão. o caos. o caos normal do universo que afinal não se rege pelas leis que nós
supomos ou determinamos mas sim pelas leis que é preciso descobrir e ver... ou o caos
provocado pela falta de lucidez de CLARIVIDÊNCIA de verdade de justiça de respeito...- E onde está a lucidez e a verdade-antes chamaram-me serra erma. Montes ermos ou Hermínios. talvez nunca o tenha sido como agora! Serra avara, ciosa, estrela, terra erma, guardo em mim os mistérios
dos meus segredos e tesouros e valores que tantos a todo o custo tentam desvendar
escavando sulcando rasgando desfigurando salvaguardando construindo destruindo
limpando arranjando emporcalhando sujando ornamentando civilizando enturismando... até um dia... só no dia em que a ganância e a ambição e a cegueira deixarem de
dominar os homens e mulheres e as mulheres e os homens deixarem de dominar e espezinhar homens e mulheres e crianças e os animais e os seres e as pedras e as coisas... então, é que o meu segredo se revelará. quando souberem ver ouvir e ler, então
a estrela que brilha tão longe aqui tão perto falará e a estrela serra terra se abrirá
àqueles que tendo olhos querem ver ouvidos querem ouvir nariz querem cheirar e boca querem saborear e cantar e membros e pele querem sentir e sentindo e cantando e
cheirando e ouvindo e vendo querem perceber e entender o sentido profundo das coisas que eu revelo com as formas que têm as pessoas e as coisas e os seres e as flores e
as fontes e os montes e os vales... e as estrelas... e entendendo as amem. porque tal
como toda a água das nascentes e das fontes e cascatas e corgos e ribeiros e ribeiras e
rios... corre para o mar, assim tudo o que é fonte de água vida corre para Amar.
é esta a minha história Zé da Serra, Zé Ninguém. é esta a minha história verdadeira para ti, para tu leres o universo infindo, para te leres, que eu te contei em segredo do alto do ano de dois mil metros com os pés assentes no chão a nove ou sete metros anos
de distância do dois mil. conta-a, Zé da Serra. divulga a minha história secreta que cada
um terá de descobrir e inventar chamando-me pelo nome e, inventando procurando
descobrindo achando adivinhando, encontre de novo o nome das coisas e das pedras e
das pessoas e dos sítios e dos lugares e tempos em cada tempo e lugar redescobrindo
e recriando as lendas que se perdem e renascem cada vez que são contadas... aprendendo afinal a ler as letras de um alfabeto secreto aberto às escancaras nas alturas aos
olhos de todos para todos poderem ler desde que eu existo serra-terra... faz-te ouvir
por todos nesse mundo de homens loucos que só pensam em guerras e conquistas e
pensam que sabem tudo mas não fazem, e se não fazem é porque não sabem ou fazem sem pensar e então fazem mal porque não pensam e então passam a vida em
conflitos e intrigas sem fazer e sem deixar fazer os que pensam e sabem e querem
tempo para pensar e para fazer porque enredados em redes de rendas labirintos sem
saída que provocam o cansaço o desgaste a morte sem sentido, sem prazer, sem a felicidade de se tornar vida! é essa a tua responsabilidade Zé da Serra do Vale do Zêzere
nesta viagem única à minha Serra Terra Sterra, viagem súmula das mil viagens dos milhares de viajantes, que só eu posso proporcionar a cada um colectivamente, de cada
vez ao mesmo tempo, a um lugar a todos os lugares, à sua serra à sua terra que é a
Terra toda o Mar A mar o espaço.
tu és louca serra terra. deixa-me falar assim já que passado tanto tempo tanta história
chegámos a esta intimidade... afinal tu és ainda mais louca do que eu e do que me ti-

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nham contado. quem sou eu para me fazer ouvir-- já não estamos no tempo das histórias da Carochinha ou da Gata Borralheira ou da Bela Adormecida! os homens de hoje
já não acreditam que é o menino Jesus que põe a pedra no sapatinho na noite de Natal. já não acreditam em estrelas que falam e têm segredos e mistérios. não há mais
mistérios para os homens que são também mulheres. têm livros, enciclopédias, ciências, têm a Ciência e centros de saber. têm máquinas e até fabricam estrelas de um
firmamento fabricado por máquinas... e têm jornais e revistas e rádios e cinemas e televisões e meios de comunicação cada vez mais avançados em que uns comunicam e
os outros são comunicados... e inventam estrelas que falam e até dizem os sabonetes
ou os sabões que dizem que usam para serem belas e assim se tornaram estrelas... e
têm jogos que dão prémios a qualquer hora do dia ou da noite e lotarias e totobolalotos que resolvem escondem os problemas dos que não têm salários de miséria... e têm
salvadores e ministros e ministras e presidentes e eleições e deputados e santos e
messias e até aparições e salvam a humanidade todos os dias... e param inflações e
sobem inflações... até mandam jogar na bolsa... e com duas penadas o que ontem era
insucesso hoje é sucesso e vice-versa sem nexo ou sem sexo... e até ensinam e oferecem a cultura aos incultos tudo já em caixinhas muito enfeitadinhas e prontas a servir
e irresistíveis... deite a sua cultura fora como os móveis velhos e adquira esta ao melhor preço!!! ...e têm máquinas para escreverem as falas de alguns que podem falar
em nome de milhões porque têm milhões e os milhões que não têm milhões não precisam de falar porque não têm nada de importante para dizer... e para salvarem a civilização e os milhões matam ou mandam matar ou deixam que morram milhões dizendo que salvam milhões... e têm até máquinas que voam a caminho das estrelas e as lêem e ficam finalmente a saber do que são feitas o que têm e o que não têm porque
elas coitadas! não sabem nem há ninguém que saiba... eles já sabem tudo, estrela. têm
até sábios e escolas se aprende tudo sem precisar de ir à tua realidade de terra ou serra porque já vem tudo nos livros e nas máquinas que inventaram e fabricaram e ali resolvem tudo e tudo decidem... e como há muitos que já sabem tudo embora não saibam as mesmas coisas já pouco falam uns com os outros... tentam falar uns para os
outros a ver quem fala mais alto e quem fala mais alto é quem tem as melhores máquinas... não vale a pena perder tempo porque já têm tudo... têm ciência e cientistas...
têm religiões... têm partidos... inteiros ou íntegros parece que já não há ou há muito
poucos... têm até democracia... Democracia--! não se sabe bem!... têm revoluções
quando não têm democracia e ficam cansados de não a ter e depois e depois fazem
outras revoluções quando já estão cansados de a ter... têm nações poderosas que
mandam nas outras e lhes dizem o que podem e não podem fazer e depois e depois
vão libertar os povos oprimidos pelas nações que querem ser grandes e ter poder como elas e depois podem-lha tirar outra vez se não sabem usar a liberdade que lhes foi
tão prodigamente oferecida como deve ser... e têm exércitos e armas infernais em
quantidades infernais prontas para intervir em qualquer lado e a qualquer momento
mas quando começam a ser demais e o que é demasiado é perdido vão negociando a
redução dessas quantidades para ver se ficam só com o suficiente para poderem mandar... depois de negociar ou para negociar viajam visitam-se abraçam-se... depois zangam-se depois fazem as pazes... juntam-se aos molhos em sociedades economicosociopoliticoculturais e in/dependentes ... têm tudo serra-terra! e tu mesmo terra-serra
um dia destes apareces aí civilizada e defendida e enfeitada pelos defensores de todos
os valores e ainda te vais rir quando vires o que restar de ti SERRA-TERRA... então pode

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lá ser-- Assim agreste rústica tortuosa!... com tantos pedregulhos... selvagem... com
tantos precipícios onde as criancinhas podem cair coitadinhas! com uns montes mais
pequenos do que outros... uns pedregulhos maiores outros mais pequenos!... uns rios
que são rios outros que não são!... mas que bagunça!... que desordem!... que caos!...
mas então a ordem e a democracia e a organização tudo como deve ser-- Sabes uma
coisa-- Estou mesmo a ver-te, SERRA-TERRA, transplantada para este inconcebível
inadmissível incrível imaginoso fantasioso perigoso tortuoso desorganizado indecente
revoltado intrigante sedutor prodigioso livro que chamei VIAGEM · MINHA STERRA
dum miserável zé da serra do vale do zêzere, louco que quis meter a tua grandeza e
beleza numas páginas em branco cobertas de palavras!
têm tudo os homens de hoje! quase tudo! menos o essencial. donde vimos-- que estamos cá a fazer-- para onde vamos-- que há para além da morte-- os mistérios da vida
e da morte, da liberdade e da felicidade, do Amor! a felicidade alegre contagiante criadora geradora de felicidade e liberdade em criação!
vai, zé da serra. eu te ordeno, zé da serra, zé ninguém, zé da serra do vale do zêzere de
lado nenhum de todo o lado e de toda a terra nenhuma e de todas e nenhuma estrela... fala as minhas falas que são deles a todos os homens que são homens e mulheres
e crianças de todos os géneros e números e casos de todas as idades e tempos... agride
se for preciso... claro que não podes agredir. ...grita, insulta, pragueja, ruge... claro que
não podes insultar e ser malcriado. ...fala doce como o canto das fontes e duro e forte
como o trovão... corre manso como o regato de água pequenino e discreto que ninguém pode parar, ou em fúria avassaladora como as cascatas e os rios caudalosos que
arrastam tudo à sua frente, ou como a chuva! miudinha-- ou em tromba de água-- fica
manso como as águas de um lago, ou como as ondas do mar calmo, ou como ondas alterosas vagalhões destruidores--... sopra suave como a brisa ou leve manso e constante como o vento que por vezes ataca em vendaval desfeito estonteante soprando de
todos os lados ao mesmo tempo e destrói em furacão feroz... ninguém pode construir
insensata e irreflectidamente uma barragem prisão sem nexo nem juízo para ali aprisionar as águas sem lhe dar saída! ... ninguém, ouviste bem, ninguém pode parar a força
impetuosa de um pequeno fio de voz de água corrente que corre sempre sempre para
a foz... fala. não te vão ouvir. hão-de te ouvir. hão-de me ouvir... pelo menos os amantes da serra, os amantes da terra...
para eles, a(qu)í fica toda uma história verdadeira por inventar para inventar e
EN/C/A/O/N/T/R/AR!-- porque eu é que existo, zé da serra. tu e o teu prodigioso livro
de viagem à sterra que nem é viagem nem é serra nem é terra, não existe. eu a prodigiosa serra/terra/estrela é que existo e sou a mãe a fonte o ventre a madre e posso
permitir que se criem livros contos lendas que prodigiosamente podem criar uma viagem através dos tempos e espaço do ventre da serra terra estrelas galáxias universo...

à 2ª parte desta versão, decidi chamar também a LENDA DE VIRIATO

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LENDA DA SERRA DA ESTRELA – Maria Antonieta Garcia (pub. Paulo Jesus)
http://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/ - publicado por Paulo Jesus

por Paulo Alexandre Ramos de Jesus
Email: pj1966@sapo.pt

IN "Velhas Lendas" de Maria Antonieta Garcia, Edição Centro Cultural da Beira Interior
Olhar o céu todas as noites, decifrar linguagens das estrelas, lua, nuvens e ventos era
momento de prazer sempre renovado.
Quando se está só, as coisas que nos rodeiam ganham outra importância. Temos tempo para elas, entendemo-las, deixamos que entrem connosco na nossa vida. E à noitinha, no veludo negro do céu, via estrelas lindas, lindas que não sabe por que loucura
ouvia falar. Aquele barulho e o tremeluzir ritmavam melodias, conversas, confidencias... E os jogos que faziam-- Fugiam para um lado e para o outro, escorregavam sabese lá para onde, dançavam... Escondiam-se!
Era então que o José desdobrava recordações, passeando pelo Largo da sua Infância
com acenos de felicidade... E lembrava-se das histórias com estrelas. Todos tínhamos
uma no céu, dizia-se. Boa ou má... Ah! Se um dia descobrisse a sua Estrela!!!
Noite após noite, procurava um sinal, um sussurro... A Lua olhava-o divertida e aguardava serenamente poder assistir ao encontro de José e da sua Estrela.
Era nas noites sem sono que o som da flauta subia mais alto no silêncio.
O brilho da minha estrela
Aquece o negro do céu;
Espreito-a pela janela,
Marco encontro: ela e eu.
Sou jovem enamorado
À noite mato a saudade,
Desce no sopro da Estrela
Um sol de Felicidade.
- José, sou a tua Estrela! José sou a tua Estrela! - ouviu-se.
Era lá possível! Cantigas, são cantigas! Não queria acreditar! Esfregou os ouvidos, os
olhos. E ouviu de novo:
- José, sou a tua Estrela!
E tremeluzia rindo em brilho de poeta e paz. O José teve receio. Beliscou-se até doer
para sentir que estava acordado. E estava mesmo... Porque a Estrela continuava:
- Que linda a tua serenata! Diz-me os teus anseios, mas pensa bem, antes de decidires.
Traçado o Caminho da Vontade, partiremos juntos, e não voltaremos atrás. Quando
quiseres, chama-me! Sou a tua Estrela.
E afastou-se devagarinho.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Prisioneiro daquela voz que lhe oferecia viagens, deixou fugir as ideias para paraísos
sumarentos. Abandonou-se a uma loucura saborosa e teceu aventuras que acariciou
com o desejo semeado pela espera. Queria partir, conhecer serranias altas, coroadas
de branco...
Numa noite luminosa olhou o céu:
- Estrela, minha Estrela. Sou eu que te chamo! Vem comigo!
O cheiro das lareiras da aldeia entranhava-se no ar e bafos tépidos, conhecidos, aconchegavam e prendiam as gentes. Mas o José tinha de seu apenas a solidão e uma vontade que recusava resignação e bolores. Vizinho de um mundo de sonho, partiu com a
Estrela mais brilhante. Marcou os caminhos que percorreu com a alegria. Irrequieto e
insubmisso, em cada terra, um sonho novo subia-lhe à cabeça e reinventava o gosto de
viver. Fascinava-o uma criança, um regato de cantilenas, uma romã aberta... Eram
imagens que soldava ao corpo, para construir pilares capazes de exorcizar tristezas, hipocrisias, azedumes.
O José tinha escolhido uma Boa Estrela.
Os anos passaram. Os caminhos da montanha rendilhados de branco estavam próximos. No céu, a Estrela brilhava cada vez mais intensamente. Entrava-lhe todas as noites nas palheiras que lhe serviam de abrigo. Desafiava-o feliz para todos os percursos
até ao local do seu encantamento. Do alto da Serra, dominaria horizontes mais largos e
maior seria o seu prazer franciscano de se emocionar, admirar e acariciar ternamente
o que o rodeava.
- José, sou a tua Estrela! Estamos perto. - confidenciava-lhe.
Flautas mágicas cantavam com o sopro do vento. O José cansava-se, subia... A Estrela à
sua frente, corria, corria, corria em fúria de chegar.
- Tão bonita a Serra!
- Tão bonita a Serra! Ecoavam as vozes voando longe, longe, longe.
José mergulhou o olhar nos rumores e espaços marcados por pedras e lagoas, plantas
e bichos a quem ouviria histórias... para contar.
Ali ficaria. Com a Estrela sua companheira, Amiga e conselheira, durante uma vida. Esperavam que a noite descesse para as longas conversas e confidências...
Diz-se que o Rei cioso das maravilhas do seu reino, teve conhecimento desta Amizade.
E quis a Estrela. Coleccionador de raridades aspirava possuí-la.
- Dou-te o que pedires. Ofereço-te poder e privilégios que nunca conheceste em troca
da tua Estrela.
No rosto do pastor desenhou-se a admiração:
- Não posso dá-la! - elucidou - É a minha Estrela e ficará comigo para sempre. Vossa
Majestade pode escolher uma no Céu.
O Rei não acreditava no que ouvia:
- Recusas as riquezas, o bem-estar, poderios-- Não sabes o que fazes. Para que te serve
uma estrela se não tens mais nada-- Eu tenho um dom digno de deuses. Conheço meu caminho. Tracei-o com as minhas
mãos; povoei a vida com alegrias - e algumas tristezas! - que não posso oferecer, nem
trocar, nem esquecer... Fizeram de mim o que sou...
A Estrela ouviu o José. Na noite de veludo brilhou com maior fulgor.

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Ainda hoje, todas as noites se vê na Serra uma Estrela linda, estranha, diferente de todas as outras. Acompanha o José sempre... ternamente apaixonada pelos pastores e
pela Serra a que deu o nome: -- A Serra da Estrela.
IN "Velhas Lendas" de Maria Antonieta Garcia, Edição Centro Cultural da Beira Interior
http://pj1966.wix.com/cidadedacovilha

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LENDA DA SERRA DA ESTRELA -- in LENDAS DE PORTUGAL, Vol. 3, Fernanda Frazão
LENDA DA SERRA DA ESTRELA

ERA uma vez um jovem pastor que vivia numa longínqua aldeia. Por único amigo tinha um cachorrinho,
que nas longas noites de solidão se deitava a seus pés sem esperar nenhum gesto, nenhuma palavra. Sofria este pastor de uma estranha inquietação: cismava alcançar uma serra enorme que via muito ao longe, ver as terras que existiriam para lá da muralha rochosa que constituía o seu horizonte desde que
nascera. E muitas noites passava em claro, meditando nesse seu desejo infindável.
Certa noite em que se julgava acordado, sonhou que uma estrela descia até si e lhe segredava que o
guiaria até ao objecto dos seus desejos. Acordou o pastor mais inquieto e angustiado que nunca, e procurou no céu a verdade do que sonhara. Lá estavam todas as estrelas iguais a si mesmas, imutáveis e
eternas aparentemente. Mas estava também uma que lhe pareceu diferente e mais sua.
Passavam-se os dias e o desejo do pastor aumentava, fazia doer-lhe o corpo, ardia-lhe febril na cabeça.
De noite, todas, todas as noites, procurava no céu a sua estrela diferente. E em sonhos ela aparecia-lhe
muitas vezes desafiando-o, desafiando-lhe sempre a vontade. Mas a vontade por vezes é tão difícil!!
Uma noite, num ímpeto, decidiu-se. Arrumou tudo o que tinha e era nada, chamou o cão e partiu. Ao
passar pela aldeia o cão ladrou e os velhos souberam que ele ia partir. Abanaram a cabeça ante a loucura do que assim partia à procura da fome, do frio, da morte. Mas o pastor levava consigo toda a riqueza
que tinha: a fé, a vida e uma estrela.
E o pastor caminhou tantos anos que o cão envelheceu e não aguentou a caminhada. Morreu uma noite, nos caminhos, e foi enterrado à beira da estrada que fora de ambos. Só com a sua estrela, agora, o
pastor continuou a caminhar, sempre com a serra adiante. E à medida que caminhava a serra ia estando
sempre ali, no mesmo sítio e à mesma distância.
Passou todas as fomes e frios que os velhos lhe tinham vaticinado. Atravessou rios, galgou campos verdes e campos ressequidos, caminhou sobre rochedos escarpados, passou dentro de cidades cheias de
muros e gente, mas a montanha dos seus desejos nunca a baniu do coração.
Por fim, já velho, alcançou a muralha escarpada que desde a infância o chamava. Subiu, subiu até ao
mais alto da serra e ali pôde então largar o desejo do seu coração, agora em paz e sem desejo.
O horizonte era tão vasto e maravilhoso, a impressão de liberdade tão avassaladora que o pastor, sem
falar, gritava dentro de si um hino de louvor que mais parecia o vento uivando por entre os penhascos
rochosos de silêncio.
Instalou-se o velho pastor e a sua estrela ficou com ele, no céu.
O rei do mundo, porém, ouviu falar naquele velho pastor e na sua estrela fantástica. Mandou emissários
à serra: todas as riquezas do mundo daria ao pastor em troca da sua pequena estrela.
O pastor ouviu com atenção o que lhe mandava dizer o rei. Depois, olhou em volta. Tudo eram pedras e
rochedos. Uma pequena cabana de rocha coberta de colmo era a sua morada. Uma côdea de pão negro
e uma gamela de leite as suas refeições. A sua distracção a paisagem infindamente igual e diferente do
mundo de lá em cima. A sua única amiga, a estrela.
Suavemente, como quem sabe o segredo das palavras e o valor de todos os bens possíveis, virou-se para
os emissários do rei do mundo e rejeitou todos os tesouros da terra, escolhendo a pequenez da sua estrela.

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Passaram os anos e o velho morreu. Enterraram-no debaixo de uma fraga e nessa noite, estranhamente,
a estrela brilhou com uma luz mais intensa. Os pastores da serra notaram essa diferença porque a reconheciam também entre as outras, pelo que o velho lhes contava em certas noites.
E em memória desta lenda, a serra passou a chamar-se, para sempre, Serra da Estrela.

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A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA - por GENTIL MARQUES
A LENDA DA SERRA DA ESTRELA
In: LENDAS DA NOSSA TERRA, de Gentil Marques, Editorial Lavores, Avenida da Igreja,
15A e 15B, Lisboa, Maio de 1955
ESTA É uma história simples e ingénua como a própria alma do povo. Uma história em
que os verdadeiros protagonistas são apenas, um pastor e uma estrela. Perde-se a sua
tradição na poeira do tempo, contada e recontada de geração em geração. Talvez par
isso, fica bem aqui - a propósito do simbolismo humano e poético que se contem na
essência lendária - lembrar o belo soneto de Eugénio de Castro que apropriadamente
intitulou: "O Conselho da Estrela":
Antes de me deitar, fecho a janela
Habituado a dormir sempre às escuras.
Mas ao fechá-la, diz-me das alturas
Uma doirada e pequenina estrela:
-- Vais dormir com uma noite assim tão bela-Pois não vês como nós brilhamos puras-Terás na morte a treva que procuras
E tanta... que hás-de aborrecer-te dela!
Se é de lágrimas só o teu fadário
Dorme para esquecer... mas de contrário
Vela e mira-nos bem com os olhos ternos.
Dormir o que é, senão morrer um pouco-Vive! Aproveita a vida, pobre louco!
Olha que em breve deixarás de ver-nos!
O que vamos contar, é precisamente a história de um homem, que ouviu, um dia, a
sua estrela! Era um pobre pastor! Vivia numa aldeia triste e tinha como seu único amigo o seu cão fiel. Mas o homem era novo e tinha esperanças. Às vezes, fitava os horizontes e perguntava-se a si próprio:
-- Porque razão não poderei atravessar aquelas serras-- Ir ver o mundo que fica do outro lado-- Ah! Hei-de ir um dia! Hei-de ir! Isto aqui é pequeno para mim... E aquelas
serras são tão grandes e tão altas!...Oh! Que haverá para além das montanhas-Ora aconteceu, segundo conta a lenda, que, certa noite, o pastor enamorado do luar e
da aragem fresca que corria de mansinho, nem sequer pensou em deitar-se. Ficou-se
ali, sentado, sonhando de olhos abertos... E, a determinada altura - fosse realidade ou
sonho - ... teve a nítida impressão de que uma pequenina estrela descia até ele. Nessa
estrela havia um rosto de criança. E a estrela falou-lhe, numa voz meiga e infantil:
-- Pastor! É verdade que desejas ir conhecer o Mudo-- Não tens medo do desconhecido--

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O homem estremeceu surpreendido:
- Meu Deus! Pois será possível que as estrelas tenham voz-A vozinha meiga e infantil fez-se ouvir de novo:
- Sim... sou eu que te falo... mas foi Deus que me enviou para te guiar! Quando quiseres... poderemos partir!
Uma alegria imensa tomou de assalto o jovem pastor:
- Partir--! Disseste que poderíamos partir-- Oh... quem me dera, realmente, deixar tudo
e correr aventuras, descobrindo novas terras!... Quem me dera!...
O pastor ficou-se estático, ouvindo o seu próprio desejo, mas a vozinha da estrela brilhante que descera do Alto, interrompeu-lhe o êxtase, lembrando-lhe com vivacidade:
- Meu bom amigo! Já te disse que tudo depende apenas da tua vontade! Quando estiveres disposto a partir basta que chames por mim.! Eu ficarei à tua espera, lá em cima... junto das minhas irmãs. Adeus, pastor!
E, correndo, ligeira, foi juntar-se às outras estrelas!
O pastor Seguiu-a com o olhar. Mal podia acreditar no que via e ouvia. Porém, a verdade, é que a estrelinha brilhante não mais abandonou aquele local.
Surpreendido , mal podendo acreditar, o pastor todas as noites a via, mais luminosa do
que as outras, parecendo até sorrir-lhe. E ele acabou por se resolver à grande aventura.
Certa noite, em que o luar não tinha ainda chegado, o pastor olhou o céu e falou assim:
- Oh, minha pequena estrela! Tenha sido loucura ou verdade, eu ouvi a tua voz! Pois
estou decidido! Que se faça a vontade do Senhor!... Irei à aventura até alcançar aquela
grande Serra que vejo além... a maior de todas! Oh, minha boa estrela! Desce do céu e
vem para me guiares!
Então o pastor ouviu uma espécie de estranha melodia descendo sobre ele e quando
tal melodia chegou à terra, de novo o pastor escutou aquela vozita cheia de ternura
que já tanto o encantava:
- Aqui estou! Sabes que cheguei a pensar que não acreditavas em mim-- Mas ainda
bem que te resolveste!
- Então... a caminho... seguir-te-ei para onde tu quiseres!
E, assim dizendo, o pastor dispunha-se já a dar início à jornada, quando um obstáculo
surgiu. O cão, fiel companheiro do pastor, sentiu, decerto, uma presença estranha junto dele. Era a estrela! E o cão ladrou na noite escura, pondo em sobressalto toda a aldeia!
Aflito pela irreverência, o pastor apressou-se a impor-lhe silêncio:
- Quieto! Quieto... aqui! Para que ladras tu-- A estrela é nossa amiga... Vai levar-nos
àquela serra. Vês-- Vamos, acalma-te! Ninguém te faz mal!...
Aos poucos, o cão acalmou e seguiu, então, mansamente o seu dono pelos caminhos
do desconhecido.
Na aldeia, os velhos ficaram abanando as sábias cabeças! Era um louco o que partia!
Fora dali, só poderia encontrar a fome, a miséria e a morte!
De facto, eles quase tinham razão. Durante tempos e tempos, o pastor andou como
que ao acaso sem alcançar o seu destino. Foi uma caminhada longa e dura. O alto da
serra ficava sempre mais além e o caminho que parecia curto, tornava-se inacessível.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Eram voltas e voltas sem conto. Eram dias e meses passando como fantasmas, sem
que o pastor alcançasse o almejado cimo da serra.
O cão, seu fiel companheiro, não conseguiu aguentar a jornada. Ficou no caminho,
marcado por tosco sinal de pedra. O pastor, antes de o abandonar, olhou a terra fria
enquanto algumas quentes lágrimas tentavam aquecê-la:
- Deixo-te aqui... tu que foste o meu fiel e único amigo! Onde me levarão os meus passos-- Não sei! Conseguirei eu alcançar aquela serra-- Só Deus sabe! Adeus, meu amigo!
O Teu destino parou. O meu tem de continuar!...
- E silenciosamente, seguiu rumo ao alto da serra, o pastor que um dia sonhara abraçar
de lá todo o horizonte!...
Muitos anos passaram. O pastor envelheceu e a própria estrela, também, segundo nos
conta a lenda!
Porém, um dia - esse dia havia de chegar! - o pastor pôs o pé no alto da serra! A alegria
que sentiu foi quase de loucura. Olhava em redor o vasto e belo horizonte e a cabeça
parecia estalar-lhe. Chorava e ria ao mesmo tempo. Gritava por entre o vento o seu
hino de louvor
- Bendito seja Deus! Bendita sejas tu, minha boa estrela!... Chegámos!...
E o vento, rodeando as palavras do velho tão cheias de sinceridade, resolveu subir com
elas, cheio de cuidado não fosse perder-se alguma, até lá onde os pés do homem não
podem chegar!
Ouvindo-o, a estrela sorriu-lhe:
- Meu bom pastor! Passaste, na verdade, muitos tormentos... envelhecemos ambos...
mas Deus fez-te a vontade!
Então. dominando o espaço, a voz do pastor soou potente e convicta:
- Aqui ficarei para sempre na tua companhia. Para sempre!
E o pastor instalou-se ali, mergulhando, deliciado, o seu olhar na amplitude vasta do
horizonte.
Ora aconteceu que o rei daquelas redondezas ouviu falar num célebre pastor, que habitava no alto da serra e que possuía uma estrela única no mundo, com quem falava
todas as noites. Sem hesitar mandou emissários para que o trouxessem à sua presença.
Quando o velho pastor, um tanto surpreendido chegou ao palácio do rei, este elucidou-o sobre o seu intento:
- Ouve, pobre velho! Dar-te-ei todas as riquezas que quiseres... farei de ti um homem
poderoso para o resto da vida! Em troca, quero apenas que me dês a tua estrela!
O velho pastor olhou o rei com desespero:
- Pedis o impossível, senhor! A estrela não é minha, é do céu!
Furioso, o rei gritou-lhe:
- Que importa-- Eu sei que ela faz o que tu ordenas... se tu quiseres ela será minha!
Com uma dignidade que assombrou o monarca. o velho pastor replicou:
- Senhor! Prefiro continuar pobre, desprezado, mas sempre com a minha estrela!
E no mesmo assomo de energia, o velho pastor voltou as costas ao rei poderoso e abalou., de novo, a caminho da serra!

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Quando lá chegou, a noite já ia alta. Ele atirou-se para cima da enxerga e mordiscou
uma côdea de pão negro. Então, a tal estranha melodia já muito sua conhecida desceu
do alto e veio sussurrar-lhe aos ouvidos:
- Ainda bem que as riquezas não te tentaram... Ficaria mais triste! Deixei-te passar miséria para te expor ainda mais à tentação mas confesso que receei muito! O rei ofereceu-te verdadeiros tesouros...
Erguendo-se da enxerga para onde o cansaço do corpo o tinha atirado, o velho respondeu com lágrimas na voz:
- Ouve, minha boa estrela! Já perdi a conta dos anos. Nem sei desde quando nos conhecemos! Mas quero que fiques sabendo que não poderei viver sem ti, sem a tua luz,
sem o teu brilho, sem a tua presença!...
A estrela explicou-lhe num sussurro, fazendo amainar o vento que corria célere...
- Pois quando morreres, meu bom pastor... podes morrer descansado! Eu aqui te prometo que jamais te abandonarei!
Num êxtase, o pastor encarou a sua estrela. O seu brilho intenso salpicava-lhe os cabelos encanecidos e o velho numa voz de profeta proclamou do alto das montanhas:
- Eu te agradeço o que fizeste por mim! De hoje em diante esta serra há-de chamar-se
para sempre - a Serro da Estrela!
E diz finalmente a lenda que no alto da serra existe sempre; todas as noites, entre as
suas irmãs, uma estrela que brilha ainda hoje duma maneira estranha e diferente. Ela
possui um brilho que derrama reflexos de saudade e amor sobre a campa desconhecida daquele que foi e continuará a ser o seu Pastor!

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A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA -- por Gentil Marques (2ª versão)
In: LENDAS DE PORTUGAL - IV Volume - LENDAS RELIGIOSAS, de Gentil Marques, Editorial Universus, Porto, 1965.

SIM, o que vamos contar é precisamente a história dum homem que ouviu, um dia, a
sua estrela! (1) Era um pobre pastor. (2) Vivia numa aldeia triste e tinha como único
amigo o seu cão. (3) Mas o homem era novo e tinha esperanças. Às vezes, fitava os horizontes e perguntava a si próprio:
- Porque razão não poderei atravessar aquelas serras--... Ir ver o mundo que fica do
outro lado-- .Ah! Hei-de ir um dia... hei-de ir! Isto aqui é pequeno para mim e aquelas
serras são tão grandes... tão altas!... Que haverá para além das montanhas--...
Ora aconteceu, segundo conta a lenda, que certa noite o pastor, enamorado do luar
(4) e da aragem fresca que corria de mansinho, nem sequer pensou em deitar-se. Ficou-se para ali, sentado, sonhando de olhos abertos... E, a determinada altura - fosse
realidade ou sonho - teve a nítida impressão de que uma pequenina estrela descia até
ele. Nessa estrela havia um rosto de criança. E a estrela falou-lhe, numa voz meiga e
infantil:
- Pastor! É verdade que desejas ir conhecer o mundo-- Não tens medo do desconhecido-Surpreendido. o homem estremeceu.
- Meu Deus! Pois será possível que as .estrelas tenham voz-A vozinha meiga e 'infantil fez-se ouvir de novo:
- Sim, sou eu que te falo.... Mas foi Deus que me enviou para te guiar! Quando quiseres, poderemos partir!
Uma alegria imensa tomou de assalto o jovem pastor.
- Partir--! Disseste que podemos partir--... Ah! Quem me dera, realmente, deixar tudo
isto e correr aventuras, descobrir novas terras!... Quem me dera!...O pastor ficou-se
extático, ouvindo o seu próprio desejo, mas a vozinha da estrela brilhante que descera
do Alto interrompeu-lhe o êxtase. Lembrando-lhe com vivacidade:
- Meu bom amigo! Já te disse que tudo depende apenas da tua vontade. Quando estiveres disposto a partir, basta que chames por mim. Eu ficarei à tua espera, lá em cima... junto das minhas irmãs. Adeus, pastor!
E correndo, ligeira, a estrelinha foi juntar se às outras estrelas.
O pastor seguia a com o olhar. Mal podia acreditar no que vira e ouvira. A verdade, porém, é que a estrelinha brilhante não mais o abandonou. O pastor todas as noites a via,
mais luminosa do que as outras, parecendo até sorrir-lhe. E ele acabou por se resolver
à grande aventura.
Uma noite em que o luar não tinha ainda chegado, o pastor olhou o céu e falou assim:
- Oh, minha pequenina estrela! Fosse loucura ou verdade, eu ouvi a tua voz. Pois estou
decidido! Que se faça a vontade do Senhor!... Irei à aventura até alcançar aquela gran-

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de serra que vejo além, (5) a maior de todas! Oh, minha boa estrela! Desce do céu e
vem para me guiares!...
Então o pastor ouviu uma espécie de estranha melodia descendo sobre ele. E de novo
o pastor escutou aquela vozita cheia de ternura que já ouvira uma vez:
- Aqui estou! Sabes que cheguei a pensar que não acreditavas em mim-- Mas ainda
bem que te resolveste!
- Então a caminho! Seguir-te-ei para onde tu quiseres!
E, assim dizendo, o pastor dispunha-se já a dar início à sua jornada, quando um obstáculo surgiu. O cão, fiel companheiro do pastor, sentiu decerto uma presença estranha
junto dele. Era a estrela! E o cão ladrou na noite escura, pondo em sobressalto toda a
aldeia!
Aflito com tamanha irreverência, o pastor apressou se a impor-lhe silêncio:
- Quieto! Quieto... aqui! Para que ladras tu-- A estrela é nossa amiga... Vai levar-nos
àquela serra. Vês-- Vamos, acalma-te! Ninguém te faz mal!...
Aos poucos, o cão acalmou, e seguiu mansamente o seu dono pelos caminhos do desconhecido.
Na aldeia, os velhos ficaram abanando as sábias cabeças. Era um louco que partia! Fora dali, só poderia encontrar a fome, a miséria e a morte!
De facto, eles quase tinham razão. Durante tempos e tempos o pastor andou como
que ao acaso, sem alcançar o seu destino. (6) Foi uma caminhada longa e dura. O alto
da serra ficava sempre mais além, e o caminho, que julgara curto, parecia não ter fim.
Eram voltas e voltas sem conto. Eram dias e meses passando como fantasmas, sem
que o pastor alcançasse o almejado cimo da serra.
O cão, seu fiel companheiro, não conseguiu aguentar a jornada. Ficou no caminho,
marcado por tosco sinal de pedra. O pastor, antes de o abandonar, olhou a terra fria,
enquanto algumas quentes lágrimas tentavam aquecê-la, e disse:
- Deixo-te aqui... Tu foste o meu fiel e único amigo! Onde me levarão os meus passos-Não sei! Conseguirei eu alcançar aquela serra-- Só Deus o sabe! Adeus, meu amigo! O
teu destino parou. O meu tem de continuar!...
E silenciosamente seguiu rumo ao alto da serra, o pastor que um dia sonhara abraçar
de lá todo o horizonte.
Muitos anos passaram. O pastor envelheceu - e a própria estrela também, segundo
nos conta a lenda...
Porém, um dia - esse dia havia de chegar! - o pastor pôs o pé no alto da serra! A alegria
que sentiu foi quase de loucura. Olhava em redor o vasto e belo horizonte, e a cabeça
parecia estalar-lhe. Chorava e ria ao mesmo tempo. Gritava por entre o vento o seu
hino de louvor:
- Bendito seja Deus! (7) Bendita sejas tu, minha boa estrela!... Chegámos!...
E o vento, rodeando as palavras do velho, resolveu subir com elas, cheio de cuidado,
não fosse perder-se alguma, até lá onde os pés do homem não podem chegar...
Ouvindo-o, a estrela sorriu-lhe e disse:
- Meu bom pastor! Passaste, na verdade, muitos tormentos... Envelhecemos ambos...
Mas Deus fez-te a vontade!
Então, dominando o espaço, a voz do pastor soou potente e convicta:
- Aqui ficarei para sempre na tua companhia! Para sempre! E o pastor instalou-se ali,
mergulhando, deliciado, o seu olhar na amplitude vasta do horizonte.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Então aconteceu que o rei daquelas redondezas ouviu falar num pastor que habitava
no alto da serra e que possuía uma estrela única no mundo com quem falava todas as
noites. Sem hesitar, mandou emissários para que o trouxessem à sua presença. Quando o velho pastor, um tanto surpreendido, chegou ao palácio do rei, este elucidou-o
sobre o seu intento:
- Ouve, pobre velho! Dar-te-ei todas as riquezas que quiseres... farei de ti um homem
poderoso para o resto da vida! Em troca, quero apenas que me dês a tua estrela!
O velho pastor olhou o rei com desespero.
- Pedis o impossível, Senhor! A estrela não é minha, é do Céu!
Furioso. o rei gritou lhe:
- Que importa-- Eu sei que ela faz o que tu ordenas... Se tu quiseres, ela será minha!
Com uma dignidade que assombrou o monarca, o velho pastor replicou:
- Senhor, prefiro continuar pobre, desprezado, mas sempre com a minha estrela!
E no mesmo assomo de energia, o velho pastor voltou as costas ao rei poderoso, e
abalou de novo a caminho da serra. Quando lá chegou, a noite ia já alta. Ele atirou-se
para cima da enxerga e mordiscou uma côdea de pão negro. (8) Então, a tal estranha
melodia já muito sua conhecida desceu do alto e veio sussurrar-lhe aos ouvidos:
- Ainda bem que as riquezas não te tentaram! Ficaria tão triste! Deixei-te passar misérias para te expor ainda mais à tentação, mas confesso que receei muito! O rei ofereceu-te verdadeiros tesouros...
Erguendo-se da enxerga para onde o cansaço do corpo o tinha atirado, o velho respondeu com lágrimas na voz:
- Ouve, minha boa estrela! Já perdi a conta dos anos. Nem sei desde quando nos conhecemos... Mas quero que fiques sabendo que não poderei viver sem ti, sem a tua
luz, sem o teu brilho, sem a tua presença!...
A estrela explicou lhe. num sussurro, fazendo amainar o vento que corria célere:
- Pois quando morreres, meu bom pastor, podes morrer descansado! Eu aqui te prometo que jamais te abandonarei!
Num êxtase, o pastor encarou a sua estrela. O seu brilho intenso salpicava-lhe de luz
os cabelos encanecidos. E o velho, numa voz de profeta, proclamou do alto das montanhas:
- Eu te agradeço o que fizeste por mim! De hoje em diante esta serra há-de chamar-se,
e para sempre - a serra da Estrela! (9)
E diz a Lenda que no alto da serra desse nome pode ver se todas as noites, entre as suas irmãs, uma estrela que brilha ainda hoje duma maneira estranha e diferente. (10) O
seu brilho derrama reflexos de saudade e de amor sobre a campa desconhecida daquele que foi e continuará a ser - o seu pastor!
NOTAS E COMENTARIOS:
(l)- OUVIR E FALAR COM AS ESTRELAS - A imagem não existe somente na imaginação
popular, mas também na inspiração dos poetas. É caso até para inquirir: qual das fontes teria influenciado a outra-- Teria sido o povo a levantar sugestões na alma dos poetas, ou teriam sido os poetas a tocar o coração do povo--

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De qualquer modo lembro que para lá desta lenda de autêntica concepção popular
(nunca a li em parte alguma e creio, portanto, ser esta a primeira versão escrita que
dela se faz) dois grandes poetas, um deles nascido em Portugal e outro no Brasil (ambos, pois, de alma portuguesa e em língua portuguesa) glosaram esse tema singular de
ouvir e falar com as estrelas.
Confessa nos Eugénio de Castro num dos seus admiráveis sonetos:
Antes de me deitar, fecho a janela
Habituado a dormir sempre às escuras.
Mas ao fechá-la, diz-me das alturas
Uma doirada e pequenina estrela:
-- Vais dormir com uma noite assim tão bela-Pois não vês como nós brilhamos puras-Terás na morte a treva que procuras
E tanta... que hás-de aborrecer-te dela!
Se é de lágrimas só o teu fadário
Dorme para esquecer... mas de contrário
Vela e mira-nos bem com os olhos ternos.
Dormir o que é, senão morrer um pouco-Vive! Aproveita a vida, pobre louco!
Olha que em breve deixarás de ver-nos!
Por seu turno, o brasileiro Olavo Bilac (a quem chamaram precisamente "o Poeta das
Estrelas") inicia deste modo aliciante um poema que ficou imortal na história do lirismo lusíada:
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos' direi no entanto
Que, paro ouvi-las, muita vez desperto,
E abro a janela, pálido de espanto.
E remata o mesmo soneto, maravilhosamente:
E eu vos direi: - Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas!
(2) - PASTOR. - No livro "Os Avós dos Nossos Avós", Aquilino Ribeiro definiu assim o
pastor de antanho. - A significação do termo pastor associado à ideia de potentado ou
herói das sociedades primitivas, é esta: "... dono de gado... e porque. segundo os costumes, o senhorio se acompanhava do mester: homem de cajado e de lança."
Mais especificamente ainda, a propósito dos próprios pastores da serra da Estrela, escreveu 0liveira Martins no I tomo da sua "História de Portugal": "O pastor quasebárbaro dessas cumeadas da Serra a tapetar com as nuvens ( 1800 a 2000 metros de

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

altitude), abordoado ao seu cajado, vestido de peles, seguindo o rebanho de ovelhas, é
talvez o descendente dos companheiros de Viriato."
(3) - O CAO DO PASTOR - Já entre os antigos Gregos e Romanos, os pastores se faziam
acompanhar por cães, para melhor guardar os seus rebanhos, molossos e mastins, que
foram os primeiros cães-de-pastor. Destes, uma das raças mais afamadas é justamente
a dos cães da serra da Estrela.
(4) - O LUAR - O sortilégio do luar encontra grande ressonância na alma romântica do
povo português, pelo que muitas das nossas lendas, como se tem visto o evocam com
especial predilecção.
(5)-A GRANDE SERRA - É curioso verificar o contraste flagrante que existe entre a linguagem popular e a linguagem erudita. O povo, de facto, às grandes elevações de terreno dá sempre o nome de serras. E às maiores chama lhes grandes serras. Os eruditos, porém, dão á palavra serra, como acidente geográfico, definições assaz diversas.
Assim, enquanto para H. Pacheco "serra é uma cordilheira de montes ou penhascos
cortados", para o professor Gonçalves Guimarães "uma serra abrange ordinariamente
algumas rugas de terreno, paralelas e ligadas umas ás outras"; para C. Monteiro "serra
é uma cordilheira de pouca extensão"; e para R Botelho "serra é uma cadeia cheia de
cumes agudos". A analogia entre o perfil da serra orográfica e o do instrumento que
serve para serrar é típico da língua portuguesa.
(6) DESTtNO - Ver as notas referentes ao destino insertas nos volumes anteriores desta
obra.
(7) BENDITO SEJA DEUS! - Nalgumas versões que ouvi desta lenda, percebi que os narradores ingenuamente confundiam a ideia do louvor a Deus com a ideia da benção de
Deus. Elas são contudo bem diferentes, pois se manifestam em sentidos inversos: o
louvor, do homem para Deus; a benção, de Deus para o homem.
(8) - PAO NEGRO - Além de se referir naturalmente a pão de farinha escura e mal fabricado, neste caso a imagem exprime ainda a dureza do pão, a tragédia do pão duro e
negro, símbolo de trabalho penoso e mal recompensado. Tal como já tive ocasião de
divulgar no meu livro "O Pão, as Padeiras e os Padeiros", o povo usa múltiplas imagens,
muito pitorescas, que ligam o pão às mais variadas passagens e aos mais diversos conceitos da vida. Pão negro é uma delas.
(9) - A SERRA DA ESTRELA - No romance "A Lã e a Neve", Ferreira de Castro dá-nos esta
magnifica visão da serra da Estrela: "Belo monstro de xisto e de granito, com a terra
encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá,
abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse
morder o Sol. Ao distender-se, forma altivos promontórios, dos quais se pode interrogar o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando, entre as suas
pernas, trágicos despenhadeiros ou tortuosas ravinas, onde nascem rios e as águas
rumorejam eternamente."
Já o muito remoto Estrabão, no livro III da sua "Geografia", apontava o facto de ser
bastante valiosa a região da serra da Estrela, dizendo: Esta região é naturalmente rica
de frutos e de gados, assim como de ouro, prata e muitos outros metais".

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E Gil Vicente, na famosa "Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela", ao descrever os
presentes para a rainha Dona Catarina que acaba de ser mãe (leite, queijos, ovelhas,
castanhas e panos finos), acrescenta ainda enfaticamente:
Eu heilhe de presentar
Minas d'ouro que eu sei,
ContanO que ela ou EI Rei
O mandem cá apanhar
Abasta que lho criei.
E evoco de novo a "História de Portugal" de Oliveira Martins: "A serra da Estrela é a
mais elevada das cordilheiras portuguesas; é o prolongamento da espinha dorsal da
Península; é a divisória das duas metades de Portugal, tão diversas de fisionomia e de
temperamento; e finalmente como que o coração do País - e acaso nas suas quebradas
e declives, pelos seus vales e encostas, demora ainda o genuíno representante do Lusitano antigo. Se há um tipo propriamente português; se através dos acasos da História
permaneceu puro algum exemplar de uma raça ante-histórica onde possamos filiarnos, é aí que o havemos de procurar...
(10) - A ESTRELA DO PASTOR - Dá se esse nome (e suponho que haverá uma certa analogia com a nossa história, nos caminhos da tradição popular) ao planeta Vénus, também chamado Estrela da Alva e Estrela da Tarde. Diz-se que se denomina Estrela do
Pastor porque nasce à tarde muito cedo e desaparece de manhã muito tarde, servindo
assim de orientação aos hábitos especiais dos pastores serranos.
(11) - LENDAS DA SERRA DA ESTRELA - Nos volumes anteriores inclui várias lendas localizadas na Serra da Estrela: Lenda da Lagoa Escura, Lenda da Campainha de Bronze,
Lenda da Moura Alfátema. Quanto à origem do seu nome, existem outras lendas além
da que acabei de contar. Há uma povoação chamada Estrela no concelho de Moura,
distrito de Beja, que tem por orago Nossa Senhora da Estrela.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

A SERRA DA ESTRELA -- João Pedro S. e Vasco Silva
João Pedro S. e Vasco Silva
Escola EB 1 nº 29 de Lisboa
Há muitos anos havia um pastor que todas as noites se encontrava com uma estrela no
alto da serra.
Um certo dia chegou aos ouvidos do Rei que o pastor falava com essa estrela e o Rei
mandou chamar o pastor e propôs-lhe que trocasse a sua estrela por uma grande riqueza.
O pastor disse-lhe que não trocaria a sua amiga, e que antes queria continuar a ser pobre do que perder a sua querida estrela.
O pastor voltou à sua cabana no alto da serra e ouviu a estrela dizer que já sentia receio do pastor se entusiasmar pelo dinheiro e deixar a estrela ir para as mãos do poderoso Rei.
O pastor disse-lhe que vale mais uma amiga do que muito dinheiro e disse-lhe também
com voz de profeta que daí em diante aquela serra se chamaria "Serra da Estrela".
E até agora diz-se que no alto da serra há uma estrela que brilha de maneira diferente,
ainda à procura do velho pastor.
João Pedro S. & André
Escola Escola EB 1 nº 29 de Lisboa
(Recolhida da Internet em setembro de 2001)

Lenda da serra da Estrela - Pedro Brito e Luís Carrondo
Curiosidades da Serra da Estrela de Pedro Brito e Luís Carrondo
In Uma Aventura na Serra da Estrela, de Ana Maria Magalhães e Isabel alçada, Editorial
Caminho, nº 32, 1993
Lenda da serra da Estrela
Em tempos que já lá vão vagueava por estes montes um humilde pastor. Durante o dia
passeava o rebanho pelos prados verdejantes que serviam de alimento aos seus animais. Mas ao anoitecer encaminhava-se para uma rocha e sentava-se a olhar as estrelas. Aí encontrava a única amiga - uma estrela a quem noite após noite segredava
amarguras. pois sentia se infeliz e muito sozinho. Nem o vento, nem a chuva. nem a
neve o detinham. Mesmo que rebentasse a maior das tempestades ele não faltava ao
encontro. Esta história chegou aos ouvidos do rei. que ficou pasmado. Então havia um
pastor que possuía uma estrela-- Tinha que lha comprar...
Bem ofereceu riquezas, que de nada lhe serviu.- Há coisas que não têm preço - disse o
rapaz. - Não vendo. Os anos passaram e um dia o pastor morreu.
Diz-se que a estrela nunca mais voltou a brilhar no firmamento. Mas também há quem
garanta que ela volta sempre à noitinha. em busca do pastor...

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ALFÁTIMA – UM REINO DE OUTRO este MUNDO – por JRG
UM REINO SUBTERRÂNEO DE SONHO E DE FANTASIA
À ESPERA DE SER DESCOBERTO PELA REALIDADE
ou
A VIAGEM PRODIGIOSA DE UM REGRESSO AO FUTURO...
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/522alfat10.htm
X - A LENDA DE ALFÁTIMA
a minha / a sua LENDA
FÁTIMA -- a minha LENDA (in)ventada a partir das NOVE versões...

Onde, além do mais, se pode ver, também, a origem do nome de MANTIGAS
(ver outra terra Manteigas no Sul do Alentejo já quase no Algarve...)
... nasce, a reCRIAÇÃO desta LENDA DO CORUTO DE ALFATIMA, da necessidade de POVOAR A SERRA de FANTASIAS e de SONHOS que possam ser um saudável confronto
com a dura e insossa realidade... do final do segundo milénio e dos alvores do terceiro
milénio do nosso calendário guia...
... quer mostrar talvez, como quis provar o historiador Alexandre Herculano, que o reinado e a ocupação da Ibéria pelos mouros durante mais de sete séculos, (desde 711
com Tárik a 19 de Julho, vence o exército visigodo de Rodrigo na batalha de Guadalete
- A reconquista iniciada logo desde 778, só entre 1055-1064, chega às faldas da Serra
da Estrela, Viseu, Seia e ao longo do curso do Mondego, até Coimbra... até 1250 à reconquista do Algarve, com D. Afonso III - até 1492, reconquista de Granada o último
reduto árabe na Península) terá sido uma época de desenvolvimento cultural com a introdução de novas técnicas e espécimes na agricultura, contribuindo com os valiosos
conhecimentos nas ciências, como a matemática, astronomia e ciência náutica, enfim
um reino de tolerância quanto à religião, ideias e modos de estar na Vida... até nem
mudaram a língua, nem destruíram as divisões administrativas, mas enriqueceramna... Sevilha primeiro e Córdova depois até Silves, tornaram-se num dos centros mais
notáveis da cultura mediterrânea e pode falar-se de três séculos de progressos notáveis em todos os sectores - artes, indústrias, progresso científico, arquitectura civil e
militar e requinte de vida... houve progresso nas ciências, nas artes, nas letras e num
opulento estilo de vida requintada, que se difundia em Granada, Sevilha, Valência, Silves, todo o sul até Toledo, até mesmo ao Sul de França... (in Cultura Portuguesa de
Hernani Cidade e Carlos Selvagem, Iº vol. De XVII, Empresa Nacional de Publicidade,
1967 e História de Portugal de Alexandre Herculano, I vol. Reedição Ulmeiro, 1980... e,
ver ainda, outros manuais de História, dispersos...).
isto,
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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

... em oposição à fúria intolerante dos cristãos que matavam não só por ambição e poderio, mas pura e simplesmente por ódio religioso e pura intolerância... em nome de
um Deus Criador, Todo Poderoso, Omnisciente, Pai de Toda a Humanidade!!! impondo
leis e jugos,
insuportáveis, a escravidão, as leis morais, os princípios de Honra!!!, ...os preconceitos
que ainda hoje perduram... (Ver citações referidas e outras fontes de informação, onde
talvez a História nos ensine a VER, ao longo dos tempos, quem eram - são - os BONS...
e os MAUS...
Nesta LENDA... a libertação preconizada para daí a milénios, segundo a LENDA, da
MOURA ENCANTADA - AL-FÁTIMA - será o regresso da TOLERÂNCIA, da LIBERDADE da
FELICIDADE... ao REINO DO AMOR possível nesta TERRA... nesta SERRA...!!! ou à inevitável CONVIVÊNCIA entre o BEM e o MAL... como à COEXISTÊNCIA, num simples DIA,
entre o DIA e a NOITE... como podemos observar numa PLANTA, numa FLOR, que dum
lado tem LUZ, no outro SOMBRA...
... coisas que as LENDAS contam--!!! Coisas que se sugerem, lendo as lendas!!!...
...
Era no dia de Natal... Estava frio na Serra, mas não havia muita neve naqueles caminhos que me interessava percorrer... Faltavam dois anos para começar a última década
do século XX... A grande festa da Família tinha sido na Noite anterior, com a Ceia da
Consoada e com a Missa do Galo e a abertura dos Presentes na manhã... Não havia
mais nada que me prendesse ali... Quando a meio da tarde desse dia, me sentei no café da cidade, que ficava depois da Serra que decidi atravessar, onde ansiosamente procurava o meu Amor sem o poder encontrar... nem queria acreditar que era eu que ali
estava sentado a pedir uma imperial e um maço do tabaco... as pernas ainda me tremiam... não sentia as mãos e não era só do frio... o peito ainda estava cheio de ar e
emanações da montanha, que acabara de atravessar... a cabeça estalava-me por dentro sem poder acreditar, que era eu que ali estava... Estava ali agora, ou estava a reviver as vezes que ali me tinha sentado há dezenas de anos atrás--... ou estava pura e
simplesmente noutra dimensão--...
É certo que a cerveja borbulhava com uma coroa de espuma a transvasar do copo e as
bolhas fervilhavam no líquido dourado... o Café estava cheio de gente que parecia feliz
e festejava, vinha ou ia festejar o Natal...
...mas o certo é que, inesperadamente, eu acabava de chegar duma prodigiosa VIAGEM DE REGRESSO AO FUTURO e não podia acreditar no que os meus olhos viam os
ouvidos ouviam o nariz percebia a boca saboreava, nem nas sensações que o meu corpo detectava através da pele que me cobria, com o sangue a palpitar e o coração a bater quase a acreditar que a felicidade era possível...
Naquele dia, a meio da tarde atrevera-me a tentar a viagem há tanto desejada e sempre adiada... Apesar de nevar lá nas amuras..., apesar da chuva..., apesar do nevoeiro...
apesar do perigo de algumas derrocadas nas estradas... arrisquei subir à Montanha e

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ver se era verdade tudo o que ouvira dizer que se ouvia contar do Monte Alfátima e do
que se passara no Cocuruto de Alfátima... Teria sido pelo ano 1064--... na fuga precipitada do Emir (Amir) de Manteigas do tempo dos Mouros e Mouras encantadas, belas
como não é possível descrever... e de como a fada madrinha de Fátima, a filha estremada daquele Emir, que se via obrigado a fugir perante a fúria assassina dos cristãos
decididos a tudo dominar e subjugar, lhe valeu, no último instante, abrindo a porta secreta daquele monte agreste, terroso, agora semeado de pedras somas e cascalho,
salpicado de tições de arbustos queimados de algum incêndio do último verão, e assim
deu entrada num palácio de sonho e de fantasia, que, por túneis secretos estava ligado
aos canais que põem a Lagoa Escura em contacto com o grande Mar... a Mar... e daí
entra em comunicação com as Estrelas até ao infinito...
Eram fantasias inacreditáveis..., Coisas de pastores que passam muito tempo sozinhos
sem contacto com o Mundo Real, e a solidão, a lua e as estrelas, dão-lhes com certeza
volta ao miolo. Não podia ser... E como não podia ser e o dia que escolhera era dos
mais curtos do ano, o mais inadequado e inoportuno possível, viajei penosamente pelo
meio do nevoeiro e, depois das Penhas Douradas, passei a Nascente do Munda, bebi
na Fonte Discreta que fica mais à frente no Planalto, passei a Ponte da Ribeira de Cabaços e comecei a descer sem poder perceber bem em que amura me encontrava...
Caía uma chuva miudinha e persistente e o nevoeiro ora se adensava ora abria pequenas clareiras...
Pude descortinar, ainda que quase por puro instinto, a Cabeça do Velho, que de barbas
longas e olhos fundos me fitava olhando o infinito... e, seguindo o seu olhar, depois de
um declive na encosta da montanha adornada de figuras escultóricas feéricas provocantes, desenhando grupos fantásticos indizíveis... até mesmo a Cabeça do Velho, agora não era um, mas vários em diversas posições e gestos... por fim... apareceu-me...
Era o Monte. Era Alfátima. Parei ao pé da ponte, na curva, e, logo em baixo, outro arco
de uma ponte antiga, deixava passar a água que corria em torrentes cantantes de espuma branca...
Isto é uma loucura pensei eu! Estou a ver coisas!... Tantas vezes que tenho passado
aqui e nunca vi nada disto!!! Que se passa-- Pense... E tentava ouvir a voz do senso comum, mas antes de acabar de pensar já estava a meio do monte, descortinando um
vasto panorama para Norte e para Poente com imensas terras e montes que se estendiam sem fim salpicados aqui e ali de manchas de nuvens de algodão ou de nevoeiro
quase transparente... e, aos meus pés, a estrada que serpenteava preta luzidia, quase
repelente, a reprovar a minha loucura...
Subir, dizia eu... Voltar, avisava-me o senso comum e normal. Onde será o Coruto de
Alfátima de que falam as Lendas-- perguntava eu. Mais acima, claro! Sempre mais acima... Desce, repetia o aviso. Vens noutro dia, no Verão, como os turistas... Mas eu não
sou turista e venho à procura de um segredo, de um mistério, talvez de um tesouro
fantástico, desses que a Serra guarda ciosamente... A Serra, ciosa, por vezes como que
se sente agredida por tantas vilanias que lhe fazem e pelo desprezo e fama de atenção
que lhe votam... e oculta os seus mistérios e oculta-se repentina, breve ou longamente

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

cobrindo-se com um manto subtil ou denso de nevoeiro que desorienta os incautos,
ou acolhe-se por baixo de um deslumbrante manto de neve esplendorosa e espessa e
barra a passagem aos forasteiros...
Enquanto pensava sem pensar e me debatia, estava quase no cimo, mas a ventania
que embravecia à medida que subia empurrara-me para fora da vereda que tinha descoberto e, de repente, estava numa espécie de pátio empedrado que destoava de toda
aquela encosta de terra mole salpicada de cascalho e restos negros de tojos e giestas
que se erguiam como mãos negras a barrar a passagem nesta viagem para o desconhecido... É ali o CORUTO... Afinal tinha chegado ao cimo! Estava assinalado por um
marco geodésico... Tentei caminhar à roda... A vegetação queimada acabara, abria-se
agora um tapete de erva fofa e macia que provavelmente nunca fora pisada... O vento
agreste redobrou de fúria e, quase sem fôlego, tentei caminhar mas fui derrubado...
Chovia agora mais... O nevoeiro fechava-se e abria-se agudizando os sinais de perigo...
Levantei-me. Insisti. Lembro-me vagamente de encostar a mão a um muro salvador
que me daria uma protecção contra a fúria do vento e da chuva que redobrava... Seguindo o muro, pensei que me ajudaria a orientar através do nevoeiro que se adensara... e bastaria encontrar a encosta correcta para descer e pronto... Tinha de desistir...
e... não me lembro de mais nada... Escorreguei--... Desmaiei com o susto--... o que sei
é que o Monte esfumou-se e desapareceu...
Sem saber como, no instante seguinte, estava num palácio de maravilha... era uma galeria infindável com uma luz difusa como se fosse de cristal irreal ou talvez real que dava para esplêndidos salões com candelabros cintilantes duma luz suavíssima com majestosas mesas de mármore róseo de manchas esbranquiçadas, uns divãs de alabastro
com ricas almofadas de seda com desenhos e cores de maravilha, reposteiros sumptuosos que davam para janelas que eu não podia acreditar que existissem, tapetes tão
suaves que o pisá-los era esvoaçar por aquele reino de maravilha e deslumbramento...
Em cada canto subiam colunas de fumo que impregnavam tudo de um suave perfume
estonteante que produzia uma extasiante embriaguez... e logo apareciam longos pátios e ruas calcetados de prodigiosas figuras feitas de jogos fantásticos de mármore
preto e branco que sugeriam símbolos, signos, mitos, cenas, danças, dramas, vida
amor... e essas ruas serpenteavam por impressionantes Jardins cheios de canteiros de
flores raras e incomparáveis misturadas com árvores odoríferas das mais variadas e raras e outras árvores de frutos de sabor capitoso e reconfortante... e logo apareciam
verdejantes campos de relva aveludada que envolviam pequenos e grandes lagos com
repuxos caprichosos e outros de água corrente límpida e sempre em movimento que
iam terminar em cascatas marulhantes que desapareciam em música que me enchia
todo por dentro num Mundo de sonho nunca esperado!!!
Ainda não estava refeito de tanta surpresa e esplendor, quando ela apareceu esplendorosa no seu vestido branco, comprido, arrastando uma longa curta cauda pelo chão,
recamado de brilhantes pérolas, esmeraldas, pequenos cristais cintilantes com bordados que desenhavam arabescos de maravilha, mas que eu não percebia... e quando ia
a dizer: - Não tenhas medo! Sou eu a princesa, a Fátima da lenda que dizem sepultada
nas entranhas deste Monte a que chamam de Alfátima!... Eu ouvi ou percebi claramente o que ela ia a dizer mas sei que não o disse porque não mexeu os lábios... só me

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olhou muito fundo nos seus olhos negros e brilhantes... e não precisou de o dizer porque todo o meu estado de encanto deslumbrado já mo tinha deixado adivinhar...
Ela sentou-se naturalmente como se me esperasse e tivesse sido anunciado pelos servos, e antes do seu sinal para fazer o mesmo, eu já estava instalado num esplendoroso
divã na sua frente, e quando me olhei sentado e surpreso do meu à-vontade, vi-me
com umas roupas de seda com que nunca me vira vestido... quase não se sentia sobre
a pele... Logo a seguir, sem ter sido preciso nenhum gesto ou som, chegou um cortejo
imenso de gente discreta e sorridente que nos serviu um vinho perfumado que por
certo não existe em nenhuma região da terra conhecida e começou a ouvir-se uma
música suavíssima fascinante até ao embevecimento enquanto grupos e 'grupos de
gente e mais gente circulavam e passeavam, riam cantavam, conversavam e contavam,
e não sei se andavam ou dançavam, mas enchiam tudo de Vida, Movimento, Alegria e
de Felicidade...
Não te espantes, ó poeta pastor dos finais do segundo milénio dos anos que contais!
Estávamos, claro, à tua espera! Tudo isto é verdade. Não sonhas. Este é o meu reino
donde espero regressar ao futuro que já aconteceu há quase mil anos... Os loucos humanos não viverão mais mil, se não perceberem rapidamente os caminhos da felicidade que perderam... se não terminarem os reinos do ódio, da morte e da intolerância
que fabricaram contra tudo e contra todos... Nós que não pudemos suportar os tempos de guerra e de ódio que vivemos, fomos arrancados a esse mundo para regressar,
quando for possível, ao futuro de paz, de tolerância, de felicidade e de AMOR que estávamos a construir... Nós já o construímos aqui... UM REINO DE OUTRO MUNDO... esse que a que todos aspiram... Pensas que estás enterrado num monte inóspito e agreste das Montanhas dos Hermínios, mas vocês esquecem-se que deram a esses montes o
Nome de Montes Hermínios e de Serra da Estrela, e que as lendas que se contam do
Monte Alfátima e da Lagoa Escura e do Pastor da Serra da Estrela, são mais verdadeiros e reais do que aquilo que chamais a verdadeira realidade!!! Loucos que são os humanos! Por mais que lhes queiramos falar, eles não entendem! Alguns, que nos acreditam, são logo rotulados de poetas e de loucos! Antes acreditassem na Loucura! Nós
não vivemos enterrados num monte como vês! Vivemos neste Reino! Nesta Estrela!
Vós não conheceis as entranhas do Ventre da Terra e as suas ligações e derivações que
a põem em contacto com todo o Universo e com o Cosmos infindável... Esta é talvez a
Estrela d'Alva, a Estrela dos Pastores, a Estrela da Tarde, a Vénus, a Deusa do Amor...
os nomes esquisitos que vós chamais, mas em que não acreditais!... Aqui vivemos,
amamos e criamos... Os dias e as noites sucedem-se num contínuo desafio à criatividade sempre empolgante fascinante... Com o primado do Amor... Neste doce e suave
ambiente de requinte e de repouso que tu vês e onde estás, o Trabalho, a Música, a
Arte, a Poesia, o Canto, o Conto, a Dança, a Representação, as Lendas... são o nosso
segredo para nos livrarmos do mal..., da intolerância..., da Guerra..., e da Morte...
Aí tens o segredo deste Monte e dessa Lenda esquecida em que ninguém acredita!...
Sei que estás ansioso por saber como tudo aconteceu... Põe-te à-vontade. Descontrai...
Goza feliz o momento que te é dado... Come! Bebe! Deixa-te inebriar pela Música e
por Tudo quanto vês em teu redor...

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Saiu do seu assento. Sentou-se delicada e deliciosamente no meu, mesmo ao pé de
mim. Obrigou-me, com um doce sorriso e um gesto suave da mão, a reclinar a cabeça
nas almofadas macias onde me afundei. Acariciou-me os cabelos e olhou-me bem no
fundo dos olhos onde me perdi... nos dela, claro...Quando estendi a mão tremente para lhe acariciar a face, a mão perdeu-se num mar emaranhado de longos cabelos pretos que já me cobriam todo, os seus lábios aproximaram-se da minha testa... e os eflúvios que emanavam de todo o seu ser eram tão envolventes, tão profundamente s
inebriantes que fui inundado por um estado de felicidade indizível, num encantamento
de sonho consciente que se transformou num êxtase que mais parecia uma morte deliciosa... Sinto, ainda. Não posso mais esquecê-lo, o sabor dos seus lábios nos meus,
que tremiam de prazer e a partir daí, a lenda que não sei se a contou se ma comunicou
ou se me apareceu contada como por encanto é esta que vou tentar contar, com a
consciência perfeita de não possível reproduzi-la tal como me apareceu! Não há palavras, ouvi ainda em sonhos, muito menos escritas, para contar uma Lenda de enCantar!!! Também não tem importância, ouvi ainda, porque aqueles que a quiserem perceber, mal vão precisar de a ler... Como aconteceu contigo, basta olharem-me bem nos
olhos, para se perderem... e depois...ao sentirem o meu beijo de magia... fecham os
olhos, claro e podem ver a Lenda em todo o seu enCanto!!! E aí, só me lembro dum
sorriso seu, inesquecível, indelével... Creio que em toda a sua doçura indescritível, pude ver um certo ar de malícia... ou seria de piedade pelos preconceitos tão próprios da
nossa raça!!!

Conta uma lenda muito muito antiga, que há muitos muitos anos, muitos séculos, nos
anos mil ou mil e cem ou mais do modo como vós contais o tempo mas que pala nós
são outros bem diferentes... conta a lenda que ali no meio da Serra que eram' os Montes Ermos e depois Hermínios e depois ainda a Serra da Estrela, havia um Reino de Tolerância, de Paz e de Amor, onde havia um Rei Mouro que tinha uma filha encantadora, que se chamava Fátima. Era eu a Fátima - Al-Fátima como nós dizíamos. Do rei meu
pai, que me amava ao extremo, as pessoas esqueceram o nome, mas ele era o Vali - o
Emir ou Amir - mais amado de uma pequena terra de pastores, que viviam em cabanas
no meio da Serra. Como símbolo de tudo o que fazia e desejava para si e para mim e
para todos os seus súbditos, mouros e Cristãos e adoradores dos deuses da Natureza,
havia uns, mais guerreiros e fortes que adoravam o Hendovélico e falavam de um herói
belo e invencível que conseguiu parar a ocupação romana, mas para a memória dos
povos, o meu pai ficou conhecido como al-Mut'Amant. Era este o Emir de Manteigas
uma terra de pastores escondida e defendida num recanto do vale do Zêzere e rodeada por todo o lado de altas montanhas, intransponíveis, pensávamos nós, que lá tínhamos chegado como que por milagre e ali nos tínhamos refugiado, fugidos das ondas bárbaras de irmãos nossos que só queriam guerras e carnificinas!... Também os
havia e há... Mas como te contei, ali escondidos, tínhamos fundado o nosso reino em
sã convivência com todos os habitantes que nos acolheram e, tendo escolhido o meu
pai como Emir, pela Cultura e Sabedoria que mostrara, ali passou a reinar a Tolerância
e o Amor, tanto, que a dureza do clima e da terra eram coisa de pouca monta para a
vida de felicidade e entreajuda em que todos vivíamos... Como podes ver, quando voltares a Manteigas, os romanos só passaram por aqui, muitos anos depois de terem assassinado Viriato à traição, mas só lhes interessou o ouro que encontraram por entre

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os azereiros do rio... de resto, nem uma calçada ou uma pedra de inscrição... talvez
uma que se perdeu... O meu pai, como podes ainda ver, ensinou as gentes deste povo
a descobrir a água, o verdadeiro ouro do rio que dava para todos comerem, sem ser só
por cobiça e riqueza fácil... É ver os pegos, as presas, os açudes, todo um sistema de
dragagem, barragem e comportas e o sistema de rega, com suas aduas, o quinhão de
águas regadias reguladas por um aduaneiro, que era supervisionado pelo almotacel...
as alpondras ou as poldras como vocês agora dizem... e serviam como pontes para
passar dum lado para o outro do rio, dos ribeiros e ribeiras... É ver a rede de levadas e
regos com o seu sistema de aquedutos rodízios e rodas dentadas... as noras com seus
alcatruzes a rodar na vertical numa engrenagem horizontal, que poupava as forças,
puxadas pelas pessoas ou a tracção animal, que giravam à roda e até lhes vendavam os
olhos para não entontecerem... e as cegonhas, ou as picotas ou shadufs, para tirar a
água das poças... as rodas de água, as azenhas que moviam os moinhos e deram origem às fábricas de lanifícios... que levam a água a cada lameiro, a cada horta, a cada
pomar, a cada jardim... que no verão e nas secas dava tantas lutas que a distribuição
teve de ser gerida pelo Almotacel, que governava desde as tomadas de água até à
construção e limpeza dos aquedutos e as embocaduras e tornadouros, onde por vezes
havia lutas com os aduaneiros, por causa do caudal de água que era mais abundante
para um lado do que para o outro... É ver ainda os sinais das lojas por debaixo das casas para aproveitar para o gado e para armazém das colheitas... Isto e muito mais todos aprenderam com meu pai e seus seguidores... Ninguém se lembra dele! O que faz
a ingratidão e a falta de memória das pessoas que não sabem respeitar o passado!!!
A minha madrinha, como consta, como conta a Lenda, era uma Fada, que tinha sobre a
cabeça uma brilhante estrela, ela era uma Estrela, que dia e noite velava e vigiava, mas
só à tardinha e de madrugada, naquelas tardes e noites que não eram de nuvens e
tempestades medonhas, é que aparecia e se via e, quando aparecia, era sempre a primeira a aparecer quando caia a tarde, e era sempre a última a desaparecer quando o
sol rompia com a aurora. Ela ficou a ser minha Madrinha, mas já antes ela era a Estrela
dos Pastores, pois nas noites da Primavera e do Verão era vê-la todos os dias a girar no
céu encantando os pastores que vinham dos lados da Idanha e desde o Alentejo até
Ourique... Eles chegavam com seus grandes rebanhos... Era uma festa, antes de subirem para a serra, em que todo o povo se juntava numa noite sem dormir ao som dos
adufas e das flautas de cana... e Ela encantada, espiava os amantes que se refugiavam
atrás de uns penedos ou pelos campos cultivados e, depois de subirem... solitários...
era Ela que conversava com eles nas longas noites da serra, desde o entardecer até ao
romper da aurora... ou eram eles que conversavam com Ela-- O certo é que, só depois
de todas as outras estrelas terem ido dormir, fugindo à luz do sol, é que ela se apagava
discreta e silenciosa, como se continuasse ali a velar e a vigiar...
Depois, quando as noites começavam a crescer e os dias iam encurtando cada vez
mais, os pastores desciam da Serra a caminho das planícies para Sul, para as margens
do Zêzere, do Tejo, do Ana e do Mira... Ode é o nome que nós damos aos rios... e era
outra grande festa! Era a festa da Alegria e da Abundância... Tanta que os homens e
mulheres transformavam todo aquele leite que sobrava em queijos e manteigas e assim, durante os invernos de fome todos tínhamos o que comer... e de longe, às vezes
de muito longe, vinham gentes à procura do pão e das manteigas para não morrerem

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de fome... e foi talvez isso que nos perdeu... Foi assim que o nossa terra ficou conhecida em todo o lado como a terra das Manteigas e passou a ser cobiçada por alguns e
chegou aos ouvidos dos conquistadores a fama do seu pão e dos seus sabores...
A partir daí, nas noites de Outono e rigoroso Inverno... sim é certo, só eu, os pastores e
os poetas enamorados A adivinhavam, porque as nuvens negras e as tremendas noites
de tempestade e neve não permitiam que ela aparecesse... mas nós sabíamos que ela
estava lá vigilante e amante... Os outros também sabiam, mas é como se não o soubessem... Não se lembravam!... Não tinham tempo para se lembra!... A vida!...O TRABALHO!... Os afazeres!... como se a vida e o trabalho, e os afazeres pudessem ser vida
e trabalho e afazeres sem o Amor... Mas há sempre pessoas assim distraídas a passar
ao lado da Vida e do Amor!...
Ainda há mais um grande segredo para te contar... Nesse reino de tolerância onde reinava o primado do Amor, fiquei enamorada dum valente guerreiro cristão... Foi na altura em que os Godos cristãos tinham decidido reconquistar as terras e os povos que
diziam lhes pertenciam e donde tinham sido expulsos por romanos e por nós depois de
muitos outros povoarem estas terras... Apaixonei-me!... O meu pai que me adorava
nem o chegou a saber... Pensava eu, no ambiente e educação que sempre tivera, que
era a melhor maneira de vencer o ódio e a intolerância de que vinham eivadas essas
hordas de cristãos que reconquistavam a Lusitânia a ferro e fogo submetendo e subjugando tudo e todos... O meu pai não precisava de saber... Ele sabia... Além de toda a
sabedoria e mestria na arte de bem governar, ele, como o mais notável dos Califas de
Bagdade, o Harun al-Rachid, - o das Mil e Uma Noites - ele ouvia encantado as Lendas
dos pastores, e aquelas de que mais gostava, mandava-as gravar em letras de oiro aos
seus escribas, para depois as guardar juntamente com os seus tesouros!!! Vieram numa das Arcas mais bem guardadas que transportámos na fuga para o Coruto salvador... Nunca ninguém as vai encontrar, senão no fim... Tu tiveste o privilégio de ter delas um breve sinal...
No jardim da casa de meu pai adornado e protegido por frondosas e odoríferas árvores
verdejantes, oliveiras, macieiras, laranjeiras e atapetada de flores e plantas como a alfazema, o alecrim e o rosmaninho, que enchiam o ar de perfumes inebriantes, quantas
tardes e noites eu sonhei, quando não podia estar com ele, com esse meu amante, que
eu amava e pensava que ele me amava, ouvindo o murmúrio a música celestial das
águas que corriam nas fontes e catavam correndo nos regatos e ribeiras e cascatas
cantantes e ouvindo e contando, com as minhas aias e amigas lendas de encantar e
cantos e danças que nos abriam o coração e o espírito para além das nuvens e das estrelas... Dedique-lhe o meu afecto porque esse valente cavaleiro cristão, que por ali
apareceu antes da chegada das hordas inimigas, logo me fascinou ao primeiro olhar,
por ver nele um irmão da minha raça... Vim a saber, logo depois que ele era, afinal, fruto de amores proibidos de seu pai, que era fidalgo e par dos grandes senhores que
constituíam a corte dos reis que desde as Astúrias tentavam reconquistar as suas terras perdidas, nas guiados pelo ódio em nome de um deus vingativo e intolerante, mas
esse fidalgo não resistira aos encantos de uma bela moura princesa como eu, mas que
logo abandonou quando soaram os gritos de guerra e de ódio... Tinha assim sangue
mouro, do meu sangue, mas fora educado, logo separado da mãe, no ódio contra os

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invasores, como descendente dos antigos Lusitanos desde Púnico e Viriato e Lisa e Alípio o velho contador de histórias, e como herdeiro de Tântalo e Sertório que deram
continuidade à luta do grande herói Viriato, e ali ficou, subitamente, dividido e angustiado entre o seu dever de soldado e o amor que subitamente nos fulminara como
uma luz resplandecente e irrecusável!... O sangue falou mais alto e quase acreditámos
que ali ficaríamos a salvo da reconquista, pois os cristãos que por ali passaram, como
ele, tinham ido em busca de pão e de manteigas para os seus exércitos... Os grandes
senhores talvez não ligassem importância a um povoado tão perdido e insignificante
no meio da Serra... Talvez nem se atrevessem a arrostar com os perigos da Montanha... mas logo que os primeiros fornecimentos chegaram, logo falou mais alto a cobiça e o ódio...
Foi precisamente nessa altura que os chefes cristãos já poderosos e firmemente estabelecidos em tudo o que era povoações importantes em toda a roda da Serra, devido
às taifas, as províncias que se tornaram independentes e desorganizaram o nosso império centrado em Córdova que chegou a rivalizar em Cultura e Esplendor, com Bagdade e Cairo... decidiram assaltar este recanto de Paz e sã convivência, que era o nosso
pequeno reino (mini-taifa) encravado e escondido na Montanha! Um Reino de Outro
Mundo!!!
O meu pai' resistiu firmemente em Manteigas, enquanto e como pôde. Eu temia pelo
meu amado amante... Mas a fúria e o Número dos exércitos que nos combatiam era
cada vez maior e mais atrevido e, o meu pai não teve outro remédio senão ordenar a
retirada para tentar salvar tudo e todos os que pudesse. Organizaram-se assim, vagas e
vagas de mulheres e crianças protegidas por guerreiros que buscaram refúgio nos castros mais isolados e protegidos no alto da Serra e eu fui destinada àquele que ficava
entre o Alva e o Munda no cimo de um monte que parecia poder dar mais protecção a
um possível e teimoso ataque dos cristãos godos que não nos davam descanso...
Foi afinal ali que a luta se tornou, mais encarniçada e desesperada... No fim de uma
tarde, quando os raios do sol poente douravam já as Penhas sobranceiras que dominam o Vale dos Rocins, as Penhas Douradas e a nossa clara Estrela d'Alva aparecia no
Céu... fomos atacados de tal maneira que parecia não haver salvação para nenhum de
nós que acreditava na tolerância e no Amor e por isso tivémos de combater feroz e incansavelmente... até à morte se fosse preciso...
Ainda hoje não sei se não teria sido por uma imprudência fogosa do meu amante que
tudo isto aconteceu, quando meu pai tentava enviar-me protegida para mais longe da
fúria dos guerreiros inimigos que, afinal, ali, nos assaltavam e dominavam por todos os
lados... Subitamente, eis que vejo sorrir a Estrela, a nossa Estrela, que depois, também
subitamente desapareceu... porque logo uma onda de nevoeiro denso varreu a Serra
toda e rebentou uma repentina tempestade fragorosa... Parecia o fim... estávamos
perdidos... Mas não era. A tempestade serviu para parar e desorientar os guerreiros
que surpreendidos nos perderam... Nesse instante, a Fada, descendo pelo último raio
de Sol, pegou-me na mão, bateu com a sua varinha num determinado sítio da Montanha e o clarão que de súbito explodiu, foi tão inesperado e repentino que combatentes
Mouros e Cristãos ficaram aturdidos e o combate parou... Eu vi-me arrastada por estas
galerias, salões e jardins de espanto sem poder acreditar no que os meus olhos viam,

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como aconteceu contigo, sem saber se tinha sido morta ou salva pelo meu amante que
se distinguia em fúria e heroicidade talvez na ânsia de me não perder... e logo atrás de
mim, sem poder tomar disso consciência, apareceram o meu pai e todo o seu exército
e gente do povo, mulheres, homens e crianças que tinham fugido connosco...
Passados momentos que pareciam nunca mais acabar para nós, mas foram apenas
breves minutos infinitos, a fenda da Serra fechou-se... Todos os nossos estavam a salvo
, Através desta glande bola de vidro que aqui vês em cima desta mesa, nós pudemos
ver. a reacção dos guerreiros que ficaram 1á fora... Passada aquela súbita tempestade
e o formidável clarão que se desabou sobre a Serra, os guerreiros recompuseram-se e,
quando se aprestavam de novo para a luta... Mas não encontraram nada nem ninguém... Sem perceberem o que tinha acontecido, ergueram então um imenso grito de
Vitória!!! Dos nossos nem rasto! Nada que lhes pudesse oferecer resistência ou combate ou cair nas suas mãos. Mortos e Vivos, todos tínhamos desaparecido por obra e
arte da nossa Fada Madrinha, a Estrela d'Alva... Eles bem procuraram restos e rastos
por todos os lados! Calcorrearam todos os recantos do monte desde o cocuruto até ao
sopé... Mesmo sem cadáveres nem despojos, cantaram Vitória... Nos olhos do meu
amado amante ainda vi relampejar um brilho de espanto e de esperança... Era talvez o
único que podia ter percebido algo do que se tinha passado...
Já sabes o que aconteceu! A Fada madrinha, a mando dos Deuses da Montanha, abriu
a porta secreta do Palácio Encantado que aqui vês e nos dá acesso através dos rios que
correm nas entranhas da Terra e das Lagoas para o Espaço Infinito e Infindável do
Cosmos... e deixou, por uns tempos, a terra e a serra entregue ao ódio e à fúria dos
que acreditam no ódio e nas guerras até se cansarem e destruírem, porque não têm
olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, nem coração para amar!!! É isso. O pior de
TUDO é ISSO: não acreditarem no AMOR!
... e essa porta secreta ainda lá se encontra para os que forem capazes e dignos de a
encontrar, Foi por ela, por condescendência especial, que tu entraste, quando exausto,
e cheio de medo pensavas que tinhas desfalecido, no cocuruto do Monte Alfátima...
Pareceu-me, quando te vi ali perdido através desta bola de cristal, pareceu-me a mim e
às minhas aias, que davas um ar desse meu cavaleiro cristão, de que até o nome me
esqueceu! Ataúlfo! Sim era o meu Ataúlfo das lendas, mas tu não tens nada o ar de corajoso e atrevido guerreiro invencível!!! Os tempos estão a mudar!!!
Não sabemos quantos milénios vão passar até os humanos perceberem e decidirem
acabar com os reinos de ódios, guerras, muros e fronteiras... entretanto, enquanto os
anos passam, em noites de Lua Cheia, os pastores e os poetas que adregam passar por
aqui, vão depois contar à luz trémula da primeira fogueira que encontram rodeada de
pastores a de poetas, porque os outros nem os ouvem, que 1á no alto do Monte Alfátima, sentada num rochedo, vêem uma figura branca de Mulher morena, a pentear os
seus cabelos negros com um pente que brilha como ouro, e dos seus olhos negros e
profundos, correm pelas suas faces lágrimas que brilham como diamantes!!! ... até que
as guerras e os ódios acabem, dizem eles que disse o Encanto... parece que nunca
aqueles olhos cessarão de chorar!!! - E onde estão os figos secos que se transformam
em pepitas de oiro e as lágrimas que se transformam em diamantes--... - perguntam os

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incrédulos... Mas os pastores-poetas que trazem esses tesouros, por dentro, no coração, abrem as mãos e só podem mostrar os calos e os nós dos dedos que são as marcas visíveis das dores de dentro por tanta incredulidade e têm de se calar e guardar o
oiro puro e os diamantes no segredo do seu silêncio gritado em poemas que ninguém
entende...
São loucos esses pastores e esses poetas, dizem, os mais assisados que já viram muito
Mundo e viram muitas guerras nos muitos anos que viveram...
Não vás agora acreditar que vão acreditar em ti!!! É assim Zé da Serra... e enquanto
não chegar o cavaleiro encantado paladino da Tolerância e da Convivência Fraterna
entre todos os Povos da Terra, de todas as Raças e Credos, e dos Astros, enquanto não
for implantado o Reinado do Amor, ninguém, ninguém no Mundo terá acesso à porta
secreta deste Reino de Maravilha que se esconde no VENTRE DESTA SERRA, no VENTRE DA TERRA...!
Mas eu... ia a dizer... consegui en...
E quando, pasmado e mal crendo nos meus olhos e ouvidos e sentidos ia a responder
que afinal eu tinha entrado, mesmo sem saber por onde... ansioso por saber como ia
ser a minha Vida feliz, à espera dos Milénios futuros... acordei desperto pelo marulhar
da fonte que existe junto à ponte, escondida num recanto, e aberta na pedra, uma cova funda que porventura a liga ao VENTRE DA TERRA...
Deixem. Foi possivelmente um SONHO...
Para voltar à realidade chamada realidade, Bebi da Água dessa fonte... depois Bati na
pedra donde a Água corria... Depois olhei em volta a ver se sabia aonde estava... Depois ainda, como não se via ninguém e eu não acredito nessas coisas, Experimentei várias PALAVRAS, como ABACADRABA e OUTRAS que me ocorreram dos CONTOS e LENDAS que ouvira da minha Avó e da minha Mãe, que pudessem ter a Magia que lhe é
dada nos Contos e nas Lendas!... Tudo em vão!!!
Por sorte o carro estava ali, parado na berma da estrada... Sem querer, ou quase sem
pensar, deixei-o seguir pela Serra abaixo... à procura do significado do que me tinha
acontecido... teria mesmo acontecido alguma coisa--!... à procura da Felicidade do
Amor que procuro por toda a parte, e ainda AGORA me encontro VIAJANDO, à procura... para, quem sabe--, descobrir que não é preciso ir muito longe... basta a coragem--,
a vontade - fogo interior--, a sabedoria--, de conseguir EMPREENDER a GRANDE VIAGEM de me descobrir a MIM PRÓPRIO... e o Oiro e os Diamantes lá escondidos no segredo...
FIM a que se seguem... AS MOURAS ENCANTADAS

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Fátima -- Texto de Eduardo Noronha. Foi publicada com o título «Fátima-Lenda de S.
João na Beira-Baixa.»
CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem da Universidade, 1969
IV CICLO: LENDAS DE MOURAS E MOUROS (p. 725) -- (c. 290 - p. 775)

Manteigas, vila da Beira Baixa (Alta), é uma das mais antigas povoações do País.
Rodeada pelas montanhas alcantiladas da Serra da Estrela só tem uma saída.
Pode comparar-se a um monte de pedras, agrupadas no fundo dum poço seco.
Sucede que, no Inverno, vários ribeiros, que se despenham dos cerros vizinhos, atravessam o povoado com um fragor temeroso e arrastam consigo fragas enormes, de algumas toneladas de peso, que ameaçam, com frequência arrasar a vila.
Um pouco arredada das manifestações da civilização, a gente de Manteigas
conserva ainda a pureza dos costumes primitivos, -- é sã e de bons instintos. Dentro
dos sem gabões com capuz, que raras vezes largam, encontram-se ainda as amigas virtudes dos velhos Lusitanos.
Manteigas foi, em tempo dos Agarenos, terra de importância, pois teve o seu
alcaide ou emir, autoridades a quem os cronistas menos eruditos chamavam reis.
É dessas épocas que data a lenda que as avós beiroas contam, assentadas à lareira, nas noites longas de Inverno, a fiar o linho ou a lã, em redor da fogueira vivificadora, às netinhas de olhos arregalados.
A duas léguas da vila, ergue-se altivo, e a miúdo revestido de alvíssimo manto
de arminhos, o píncaro de Alfátema, o cabeço mais elevado da Serra da Estrela. O panorama que de lá se descobre, em dias claros, é coisa assombrosa. Muita gente que
tem visitado a Suíça talvez nunca se lembrasse de fazer uma ascensão até esse ponto,
onde com certeza ficaria maravilhado com a vista soberba que dali se goza. Sucede isso
frequentemente: irmos procurar fora aquilo que possuímos em casa.
Então, quando a neve envolve como numa túnica de linho branco todos aqueles cerros, vertentes e vales; quando o olhar se prolonga até à faixa azul do oceano,
dum lado, galgando por cima das aldeias, dos rios, dos lacetes angulosos das estradas,
da mata do Buçaco, dos campos escuros sulcados de fresco pela charrua; e do outro,
até às planícies extensíssimas da Estremadura espanhola, demorando-se um instante a
profundar as quebradas, a analisar a torre alvarrã da cidade da Guarda, o terreno penhascoso próximo da raia e os extensos olivedos até Ciudad Rodrigo, a alma dilata-se
como na contemplação duma maravilha, que é, da Natureza.
Mas vamos à lenda.
O montante cristão não dava repouso à cimitarra muçulmana. Mais fortes os
Nazarenos, ou mais felizes, levaram de roldão os sequazes de Mafoma. Repelidos de
combate em combate, perseguidos sem mercê, era-lhes impossível transportar todas
as riquezas adquiridas durante séculos. Recorriam então ao expediente de as ocultar
nos sítios, que julgavam mais adequados.
Principia aqui a dar largas à sua expansibilidade a imaginação popular. Esses tesouros eram, no dizer do povo, guardados por mouras encantadas.
O rei agareno de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima. Era formosa como
uma visão do paraíso prometido por Maomé e o pai estremecia-a como a fibra mais
sensível da sua alma. Os cavaleiros cristãos das vizinhanças empregavam os maiores

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esforços para se apoderarem dos seus estados, cativarem a filha e assenhorarem-se
dos seus bens e jóias.
O rei quis resistir, abrigado com as muralhas da cidade, mas como as hostes assaltantes eram em número descomedido e a resistência seria uma loucura, resolveu
fugir pelos carreiros mais escusos da serra, levando a filha e o resto das riquezas, que
ainda não tinham sido postas em lugar seguro.
Andaram, andaram durante todo o dia, mas ao anoitecer Fátima não podia dar
mais passada, morria de cansaço. A conjuntura era temível. Como socorrê-la naquele
descampado, no sítio mais agreste da serra? De súbito, na sua frente, abre-se um esplêndido caminho todo florido, calçado de pedras finíssimas, e ao cabo dele, um foco
de luz que iluminava tudo como se o Sol brilhasse no Zénite.
Era como um milagre operado pelo Profeta, a salvação que surgia a alguns passos. Então o rei, a filha e a comitiva sentiram a esperança renascer-lhes no coração.
Seguiram a estrada que se lhes abria na frente e entraram num palácio resplandecente, tão cheio de coisas magníficas que todos se quedaram deslumbrados.
O que depois se passou nunca ninguém o soube, mas nos dias imediatos viram
os serranos subir e descer pelas encostas diversos pastores, que ninguém conhecia na
localidade. Demoraram-se algum tempo por aqueles sítios e faziam repetidas visitas ao
Coruto de Alfátema, nome por que se designava o cabeço. Um belo dia desapareceram
e nunca mais ninguém lhes tornou a pôr a vista em cima.
Esses pastores eram mouros disfarçados, e foi por indiscrição deles que se soube que uma boa fada, madrinha de Fátima, a prometera guardar na sua vivenda encantada, sempre jovem e formosa até que os fiéis sectários do Alcorão conquistassem de
novo Portugal.
Esta crença estava arreigadíssima no ânimo dos camponeses, e durante os séculos XII e XIII era enorme o pânico, na persuasão de ver chegar os esquadrões mouriscos em busca da linda Fátima.
A lenda ainda tomou mais corpo no espírito crédulo dos simples aldeões quando, poucos anos depois de os Cristãos tomarem Manteigas, se deu o acontecimento
que vamos narrar.
Uma pobre mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar, de madrugada, no dia de S. João, pelo Coruto de Alfátema. Sentindo-se fatigada, sentou-se
num dos muitos penhascos que por ali abundam para descansar e comer algumas côdeas de pão que trazia.
A boroa, dura de muitos dias, quase não se podia tragar. Quando a desventurada dizia mal à sua vida por ter de ingerir um tão pouco alimento, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.
Comeu alguns, e, lembrando-se dos filhos que choravam longe, encheu deles
uma cesta que levava.
Dirigiu-se lépida para a choupana, gozando antecipadamente da alegria que ia
proporcionar às crianças. Qual não foi, porém, o seu pasmo, quando, ao destapar a
cesta, em vez de figos se lhe deparam diamantes e reluzentes moedas de ouro.
Estava rica. Mas a mendiga que minutos antes dera graças a Deus por ter só
pão para saciar a sua fome e a dos seus, sentiu mordedura da ambição. Um cabaz de
pedras preciosas e de boas dobras de ouro já era pouco para ela! Queria ser riquíssima.

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Volta apressurada ao Coruto. Mas o Sol, que subira de todo no horizonte e que
refulgia agora no imenso céu sem nuvens, arrancava da superfície polida dos fraguedos miríades de cintilações ofuscantes. O encanto quebrara-se, os figos tinham-se sumido.
Presa de uma grande aflição e desespero, arrepelando os cabelos, ia para blasfemar, quando ouviu uma voz suavíssima cantar:
Era teu, tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.5
[De A Federação Escolar, 3-VII-1909, Porto. Texto de Eduardo Noronha. Foi publicada com o título «Fátima-Lenda de S. João na Beira-Baixa.»]

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Reproduzimos a sextilha tal como a canta o povo de Manteigas.

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Fátima -- Escrito por Branca de Cameira
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/522alfat02.htm

Fátima - in Contos Populares e Lendas, coligidas por José Leite de Vasconcelos, coordenação de Alda da
Silva Soromenho e Paulo Caratão Soromenho, edição Por Ordem da Universidade - Coimbra, 1966, II vol.
Pp. 775 - 782
(Escrito por Branca de Cameira. Oferecido por D. Ana de Castro Osório. Fátima nas lendas de mouros:
também em Wolf, Primavera, nº. 84-a, p. 67).

Houve uma vez um rei moiro que vivia e governava em Manteigas. Possuía muitos e
valiosos tesouros, e tinha uma filha muito bonita, chamada Fátima, a quem ele estremecia e amava loucamente.
Os Cristãos odiavam o rei moiro. e por isso faziam todas as diligências e empregavam
todos os meios para cativarem a bela princesa, para conquistarem os seus domínios e
para se apoderarem das suas riquezas, que eram enormes.
O rei, entrincheirado na vila, defendia-se das correrias e ataques dos seus inimigos, e
neste sentido empregava todos os meios de resistência. Pensando, porém, que mais
tarde ou mais cedo seria vencido e cairia no poder dos Cristãos, tratou de arranjar as
suas malas, onde meteu os seus tesouros e todas as jóias e valores que tinha no seu
palácio.
Num certo dia foi atacado por um poderoso exército de Cristãos, e ele, vendo que não
poderia resistir por muito tempo, resolveu fugir e abandonar Manteigas. Numa noite
muito escura, a fim de não poder ser visto nem pressentido pelos Cristãos, fugiu pelas
mais ocultas e intransitáveis veredas da Serra da Estrela, levando consigo a sua querida
e formosa filha, os seus vassalos e os seus tesouros.
Andaram e andaram muito, tropeçando aqui, caindo além, e quando estava prestes a
romper a manhã, a linda e encantadora Fátima, de cansada, tinha desfalecido. Imagine-se o desgosto de D. Kalibab, que assim se chamava o rei moiro! Via a sua filha, tão
amada e de tão surpreendente formosura e beleza, descalça, com os pés feridos a gotejarem sangue, e desfalecida e dominada por um invencível cansaço! Todos estiveram
parados, durante algum tempo, sem saberem o que haviam de fazer, e a pensarem na
sua triste sorte, quando esta, ainda havia bem poucas horas, tinha sido tão feliz.
O rei, apesar de guerreiro e austero, chorava como uma criança, e suplicava ao seu Alá,
que era o seu Deus, que o protegesse naquela crítica situação, e que reanimasse sua
idolatrada filha para continuarem a fuga.
Os passos dos lobos e das raposas que, a pequena distância deles, eram muitos, o sibilo do vento, que se quebrava e dividia nas anfractuosidades da gigantesca serra, pareciam-lhes os passos dos Cristãos que os perseguiam e os vinham roubar e matar.
D Kalibab, desvairado, passeava de um para outro lado neste sítio pedregoso e cheio
de mato, e viu que na sua frente se abria uma formosa estrada, orlada de árvores e
jardins, calcetada de pedras muito finas. Deu um ai, cheio de alegria, olhou pela estrada fora e viu que a distância não grande oscilava uma luz muito clara que iluminava tão
bem construído quão formoso caminho. O Deus dos Moiros, que realmente é o mesmo
que o Deus das Cristãos, porque Deus é um só, tinha ouvido as súplicas de um pai
amantíssimo e atribulado.

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Aquela estrada e aquela luz foram, para todos, um sinal de salvação. A esperança de se
ver livre de perigos e de uma morte certa reanimou Fátima, que chamou a si todas as
energias e que, com a rapidez do relâmpago, se levantou e se pôs a caminho.
O rei, Fátima e o seu séquito, mal tinham dado alguns passos, começaram a reconhecer que a luz provinha de um palácio que ficava no fim da estrada. Chegaram a este
edifício, que era belo na forma e sumptuoso no seu interior. Estava todo iluminado, e
tinha vastos salões, ricamente alcatifados e luxuosamente mobilados. Ali havia tudo,
tudo quanto a imaginação mais caprichosa e exigente fosse capaz de apetecer.
Todos ficaram deslumbrados com tantas riquezas, tanto luxo e tão boa disposição de
todas as cousas.
Chegaram a uma sala espaçosa e bem iluminada pelos primeiros raios do Sol, que nestas paragens são mais doirados que o mais puro e fino oiro, e deparou-se-lhes uma
grande mesa coberta das mais delicadas e apetitosas iguarias que, em baixela de oiro
lavrado, poisavam numa toalha de fino e alvíssimo linho beirão, fiado e tecido por
mãos de fadas. Os guardanapos eram da mesma qualidade, os talheres eram de oiro,
incrustados de brilhantes, e as garrafas e copos eram do mais fino cristal da Boémia.
D. Kalibab, Fátima e vassalos olharam uns para os outros profundamente impressionados e mudos com tanta riqueza e com a surpresa de um saboroso e opíparo almoço.
Almoçaram. O rei, satisfeitíssimo com este encontro, chegou a uma janela e viu, com
assombro, um extenso e bem cuidado jardim, em que se admiravam as mais delicadas
e formosas flores. Chamou Fátima e séquito, que ficaram maravilhados e estonteados
com tão surpreendente espectáculo, num dos montes mais elevados da cordilheira.
Saíram da sala, desceram por uma escadaria de mármore alvíssimo com corrimãos de
polido e finíssimo marfim, e chegaram ao jardim. As fontes, os repuxos e os arbustos e
árvores floríferas de inúmeras variedades tornavam verdadeiramente celestial aquela
estância de fadas.
Numa das placas, feita com arte e primoroso gosto, via-se um arbusto, de folhagem
larga, escura e carnosa, do qual se elevava uma haste, que terminava na extremidade
livre por uma flor de extraordinária beleza. Era esta, sem dúvida alguma, a flor mais
bela e mais encantadora do vastíssimo e bem cuidado jardim.
D. Kalibab, fascinado pelo surpreendente aspecto de flor tão rara e de cores tão variadas, tão magistralmente combinadas e de tão irresistível atracção, lembrou-se de a colher e de a oferecer à sua formosa e querida Fátima. Sem mais demora e sem mais reflexão, precipitou-se sobre o arbusto, curvou a haste, que era bastante elevada, e cortou a flor mimosa que sobressaia em todo o jardim e que o dominava como soberana,
como rainha. Cortada a flor, saiu imediatamente de uma espessa mouta de arbustos
uma grande e horrenda serpente, com a boca escancarada a mostrar os pontiagudos
dentes e a língua bifurcada e seca, e com os olhos muito abertos e injectados, a traduzirem ira e vingança. Contorcendo o feio e escamoso corpo, e batendo com vigor, que
metia medo, com a cauda nos arbustos, que esmagava, disse, em tom áspero e horrendo:
-- Ingrato! Pagas com um roubo quase sacrílego e com a mais infame vilania a recepção
e hospedagem principescas que a minha ama e senhora te proporcionou no seu palácio. Este sumptuoso edifício e vastíssimos jardins pertencem à fada Al-Fátima, madrinha de tua filha, a princesa Fátima, e tua comadre. É o que te vale, porque, se não fosse isto, matava-te já, bem como a tua filha e aos teus vassalos. Minha ama e senhora, a
fada Al-Fátima, está ausente e a ela tenho de prestar contas pelo roubo feito no seu

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jardim. Para me justificar de tão criminosa ocorrência, fica em meu poder tua filha, e
tu e teus vassalos saiam imediatamente destes domínios.
O rei moiro estava como que petrificado, ao ouvir as últimas palavras da serpente. Um
gélido calafrio lhe percorreu o corpo.
A tremer e com a voz entrecortada, disse à serpente.
-- Perdoai, Senhor, a minha ousadia. Da melhor vontade nos ausentamos destes lugares, mas permiti, Senhor, que leve em minha companhia a minha querida filha, que é a
luz dos meus olhos e da minha vida. Sem ela prefiro a morte, por mais horrorosa que
seja, porque viver sem a minha Fátima é milhões de vezes pior que morrer.
-- Nem te deixo levar Fátima nem vais morrer. Sai imediatamente, com os teus, deste
jardim e, para que os Cristãos vos não conheçam e matem, eu vos transformo em pastores.
Ditas estas palavras, o rei e seus vassalos representavam uns verdadeiros pastores da
Serra da Estrela. Assim disfarçados, saíram do jardim e do palácio, onde ficou Fátima
com sua madrinha Al-Fátima. A princesa ficou encantada neste palácio até que os Moiros voltem a Portugal.
O rei moiro e os seus vassalos, vestidos de pastores, ainda foram muitas vezes ao cabeço de Alfátema com o fim de verem a princesa, mas nem Fátima nem palácio tornaram a ver. Tudo estava encantado. O cabeço chama-se ainda hoje Alfátema, do nome
de Fátima ou da fada Al-Fátima. Tudo isto aconteceu como fica dito e não há por aquele sítio pessoa alguma que duvide do acontecimento, que é comprovado pelo seguinte
facto.
Há anos passou pelo cabeço de Alfátema, e na manhã do S. João, uma pobre mulher
de Manteigas. Vinha de Mangualde e vinha muito cansada e com alguma fome. Sentou-se, tirou um bocado de pão de uma cesta e começou a comer. Olhou para o lado e
viu uma grande porção de figos secos estendidos em tolhos. Encheu a cesta e partiu,
para que não fosse vista.
Quando chegou a Manteigas já tinha nascido o Sol, e viu então que os figos se tinham
transformado em valiosas peças de oiro, e em finíssimos brilhantes! Pegou num saco e
foi a correr ao cabeço de Alfátema para o encher de figos, mas não encontrou nenhum.
Tinha-se quebrado o encanto, por já ter nascido o Sol. Tendo ficado com cara de parva,
ouviu a seguinte voz que lhe dizia, debaixo de um enorme barroco:
Era teu, tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.
A mulherzinha lá foi a chorar para Manteigas, onde foi a mais rica da vila, em virtude
da transformação dos figos em riquezas.
Tudo isto foi verdade.
(Escrito por Branca de Cameira. Oferecido por D. Ana de Castro Osório. Fátima nas lendas de mouros:
também em Wolf, Primavera, nº. 84-a, p. 67).

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LENDA DA MOURA ALFÁTIMA, por Gentil Marques
In: Lendas de Portugal, Gentil Marques, Editorial Universus, Porto, 1964, III vol. (de 5) pp. 265 - 272.
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/522alfat03.htm

LENDA DA MOURA ALFÁTIMA
O manto da noite estendera-se, sobre a serra. Suavemente. Lentamente. Agora havia
apenas uma moldura de céu. Mas o jovem Ataúlfo6 não se importava. Combinara encontrar-se com a bela princesa Fátima7, a mais linda moura daquelas redondezas, e
nada o poderia impedir. Nem a noite. Nem os mouros. Ele sentia se forte e feliz!
E quanto tempo fora necessário para convencer a formosa Fátima!... De princípio, ela
escusara se por completo. Que não! Nunca faria isso a seu pai, o poderoso emir de
Manteigas.8 Dar ouvidos às falas aliciantes de Ataúlfo, um cavaleiro ousado, já era muito. Porém, fugir com ele, isso nunca!
Mas Ataúlfo insistiu. Nos fins de tarde, quando a apanhava solitária e se podia acercar
ele cantava-lhe o seu amor, prometendo-lhe um futuro risonho e maravilhoso. Um futuro de felicidade plena.
Fátima escutava o e amolecia a pouco e pouco. Ficava imaginando o que seria essa vida alegre e graciosa, lá longe, nas terras dos cristãos, entre cantigas e danças de prazer. E um dia, quando seu pai, o emir de Manteigas a descobriu em pleno idílio, e a arrastou pelos cabelos9, fazendo a sofrer e gritar, -- a bela Fátima pensou que talvez Ataúlfo tivesse razão.
No entanto, levou ainda longo tempo a reflectir e não cedeu logo. Todavia, perante a
insistência de Ataúlfo, cada vez mais enamorado e também cada vez mais destemido
para a ver, ela acabou por concordar:
-- Irei contigo, sim!... Na primeira noite em que a Lua se esconder, podes vir buscar
me!10
-- Assim farei, minha bem-amada! -- gritou Ataúlfo, radiante de alegria -- Mas porque
tens tu de esperar, que a Lua se esconda-Ela hesitou ainda. Mas logo confessou, ingenuamente:
-- Porque a Lua é a minha madrinha... e eu não a quero envergonhar.11
6

1- ATAÚLFO - Embora decerto não se trate de Ataúlfo, primeiro rei godo que dominou a Península em princípios do século V, todas as versões que conheço desta lenda, orais e escritas, se referem a Ataúlfo, cavaleiro cristão.
7
2 - FÁTIMA -- A primeira lenda do primeiro volume desta obra intitula-se Lenda da Princesa Fátima. Mas o nome de Fátima era
muito vulgar entre as princesas mouras e, portanto não admira que apareça a identificar outra bela protagonista.
8
3 - MANTEIGAS - Vila da comarca de Gouveia, (nota: Vila e Concelho do Distrito da Guarda) da qual dista uns 42 kms. Situa-se
num dos locais privilegiados da Serra da Estrela e possui um esplêndido estabelecimento termal. Diz se que Manteigas é povoação
muito antiga -- e assim o parecem demonstrar os vestígios arqueológicos encontrados na região. Sabe-se que foi conquistada aos
Mouros, no tempo de D. Afonso Henriques, e que D. Sancho I, lhe deu o primeiro foral em 1188. No concelho de Manteigas fica a
Torre, que marca o ponto mais alto da Serra da Estrela.
9
4- A cólera DO EMIR -- A este respeito as versões que conheço diferem bastante. Na opinião de alguns, o emir de Manteigas, ao
descobrir o idílio da filha, matou o jovem Ataúlfo e encantou imediatamente a bela princesa Fátima. Para outros, o emir mandou
perseguir Ataúlfo até que o matassem. Finalmente, ainda para outros (entre os quais eu me incluo), o emir apenas ameaçou sua filha de morte e passou a votar maior ódio aos cristãos, que tudo lhe queriam roubar: o castelo, os tesouros. o poderio e a filha...
10
5 - A LUA ESCONDIDA -- Não é a primeira vez que encontro, em histórias lendárias, este curioso simbolismo. Quanto a mim, representa um instinto nativo de esconder as fraquezas humanas ao domínio sentimental da Lua. Porém, com a continuação do
tempo (e talvez devido em grande parte à infelicidade dos casos, como o que se conta nesta lenda) a Lua escondida ou velada passou a valer como mau presságio.
11
6 - A MADRINHA LUA -- Desde sempre, a afinidade entre a Lua e o sexo feminino foi evidente -- e basta repararmos nas coincidências existentes entre os meses lunares e os ciclos menstruais. Não admira portanto que, nas histórias antigas, a Lua desempenhe o papel de madrinha e de fada.

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Ataúlfo não soube que responder. Partiu, pois, levando na alma a esperança de uma
próxima noite com a Lua escondida...
Assim acontecera nessa noite. Logo que deu pelo facto, Ataúlfo montou ligeiro e meteu-se a caminho. Todo ele ardia em ansiedade. Aquilo representava para ele uma dupla vitória: conquistava a mulher amada e simultaneamente convertida à fé de Cristo
mais uma linda princesa agarena.
Aliás, ela deixava raptar-se na melhor altura. Ataúlfo bem sabia que as hostes lusitanas
estavam prestes a conquistar toda a serra. Manteigas não podia resistir 12.
Ataúlfo esporeou a sua montada. Não podia haver demoras. A ideia de Fátima ser raptada numa noite sem Lua tinha, afinal, muitas vantagens. Assim, estaria mais à vontade, tudo se passaria em plena escuridão, sem possibilidade de qualquer alarme. Mas
não poderia haver a mínima demora....
Pressentindo que a bela Fátima já o esperava, preparada para a fuga, o jovem Ataúfo
espicaçou o cavalo ainda mais, correndo à desfilada pelo caminho que bem conhecia,
agradecendo à Lua a sua protecção.
Porém, Ataúlfo enganava-se por completo, ao pensar que a Lua escondida o estava a
proteger. Mal podia ele adivinhar que se tratava apenas de uma emboscada.
A Fada da Lua, madrinha da princesa Fátima, descobrira tudo facilmente. Vira as tentativas de aproximação do jovem Ataúlfo. Compreendera que Fátima não ia resistir muito tempo aos galanteios do cavaleiro cristão. E acertara! Depois, seguira passo a passo
o idílio vivido entre Fátima e Ataúlfo, ambos sedentos de amor. Assistira também à violenta intervenção do poderoso emir de Manteigas, pai de Fátima, e ouvira esta aceder
ao seu rapto... mas só numa noite em que a Lua estivesse escondida.
A fada sorrira... E logo preparara também o seu plano. Descera à montanha e convocara o conselho dos Velhos Deuses13.
-- Preciso mais uma vez da vossa ajuda... A minha afilhada Fátima, a princesa de Manteigas, quer fugir com um jovem cavaleiro cristão. Que devemos fazer?
Os velhos deuses entreolharam-se. Com espanto. Com mágoa. Com desalento.
-- Que podemos nós fazer, querida fada?
-- Os Lusitanos estão a escorraçar todos os mouros destas terras... Depois será a nossa
vez.
-- Nada nem ninguém se pode opor à fúria dos invasores!
-- Eles são protegidos pelo Deus verdadeiro, contra o qual somos impotentes.
E trazem à frente um rei invencível! Nada há a fazer, boa fada! -- Mas ela não se de por
vencida nem convencida.
-- Pois se vós, velhos deuses, já não sabeis pensar... eu pensei por vós!
Mais espanto. Mais mágoa. Mais desalento.
-- E que podereis vós pensar?
Ela inclinou-se para diante e obrigou-os a fazer um círculo em seu redor.
12

7 - A CONQUISTA DE MANTEIGAS - O escritor Dr José Crespo, nos seus "Contos da Lagoa Azul (Escura)", escreve que, em face
dos ataques insistentes dos Lusitanos com toda a serra, "o emir abandonou Manteigas Não se achava ali seguro Fugiu através da
serra, com os seus homens de armas, e foi refugiar-se no crasto de Alfátema.
13
8 - OS VELHOS DEUSES DA MONTANHA - Também o mesmo escritor, no livro já citado, descreve assim graciosamente a chegada
da fada ao recinto onde se reune o conselho. "Os deuses da montanha esperavam-na sentados nas varandas de granito. Desceram
das rochas e vieram recebê-la. Estenderam um tapete de servum macio para a Fada passar. Pequeninas joaninhas de vestidos
vermelhos abriram alas. Tocou a orquestra dos ralos e dos grilos."

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-- Escutai, então! Fazei com que dois dos mais fortes guerreiros mouros saiam ao caminho de Ataúlfo... Ele poderá vencer um... mas dois ser-lhe-ão sempre superiores. É
necessário que Ataúlfo fique no caminho!... Compreendeis-- Depois eu me encarregarei de castigar a pérfida Fátima.
Os velhos deuses entreolharam-se mais uma vez e encolheram os ombros Já que não
havia outro remédio, pois que se fizesse a vontade à irmã fada... Mas eles não acreditavam no resultado. Já não acreditavam em coisa alguma, depois de tudo o que se estava a passar. Só um deles, o mais feio e o mais triste, conseguiu sorrir. Um sorriso
enigmático Um sorriso amoroso...
E foi assim que o jovem Ataúlfo, correndo vertiginosamente ao encontro da sua bemamada, viu de súbito na sua frente dois fortes guerreiros mouros que o obrigaram a
parar14.
-- Onde ides, miserável cão cristão?
-- Que tendes com isso-- Este caminho já não é vosso, porcos sarracenos!
-- Enganais-vos, imbecil! Tudo isto ainda é nosso!
Deixai-me passar, se tendes amor à vida!
Os dois mouros riram estrepitosamente. Depois um deles falou, continuando a rir.
-- Isso, dizemos nós, abjecto cristão...
E o outro rematou logo num tom duro e desagradável:
-- Se tens amor à pele, desaparece... enquanto nós nos preparamos para te esfolar!
Mas Ataúlfo não era homem que cedesse perante quaisquer ameaças. Num instante,
desceu a viseira, empunhou a espada e atirou-se como um leão sobre os adversários,
que mal tiveram tempo para segurar as adagas.
No silêncio da noite escura, o com bate ganhou proporções dramáticas. Brutais. De vida ou de morte!
Do seu recanto, escondidos aos olhos do mundo, os velhos deuses e a Fada da Lua seguiam a luta que se desenrolava. Luta sem tréguas. Luta sem piedade.
-- Vede, irmã fada... O lusitano parece levar a melhor!
-- É verdade, que força tamanha a dele!
E que valentia sem par!
-- Já derrubou um dos guerreiros agarenos... Olhai... Está a escorrer sangue e o cavalo
arrasta-o!
-- Resta o outro... mas o cavaleiro cristão começa a dominá-lo.
-- Não é possível! Não é possível!
-- Infelizmente vai vencê-lo, querida irmã... Nada mais, podemos fazer!
Foi então que o mais feio e o mais triste dos deuses da montanha se ergueu e avançou
para a Fada da Lua.
-- Sim, ainda podemos fazer alguma coisa... Eu, pelo menos, posso fazer alguma coisa!
Os outros olharam-no espantados.
-- Se me permitis, boa fada que eu sempre adorei... vou sacrificar me vós!

14

9 - OS GUERREIROS MOUROS - Algumas das versões indicam cinco e seis valentes mouros como adversários inesperados do jovem Ataúlfo. Outras (a maioria) reduzem o número de inimigos apenas a dois. E uma outra, como já referi anteriormente, dá a
morte de Ataúlfo às mãos do próprio emir de Manteigas.

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Ela suspirou profundamente e estendeu as suas mãozinhas diáfanas, como que a tentar impedir o gesto. Mas o mais feio e o mais triste, dos deuses da montanha, continuou imperturbavelmente:
-- Não há tempo a perder... Vede como o jovem Ataúlfo domina o adversário... Vai
matá-lo de um momento para o outro... Tenho de intervir imediatamente! ... Adeus,
companheiros! Adeus, minha querida fada!
E, num milésimo de segundo, à vista de todos eles, o mais feio, o mais triste dos deuses da montanha transformou se num penhasco horrível. Penhasco que rolou pela
montanha e foi cair com estrondo enorme sobre o jovem cavaleiro Ataúlfo, fazendo-o
rolar com o seu cavalo pela ribanceira abrupta...15
Em vão, Fátima, a bela Fátima, esperou pelo seu enamorado. Ele não mais apareceu. A
Lua deixou de estar escondida e revelou-se de novo aos olhos de toda a gente, enchendo a noite de claridade. E quando a Lua reapareceu -- foi a fada que surgiu junto
de Fátima.
-- Vós... aqui... minha madrinha?
-- Sim... Venho buscar-te!
Fátima olhou-a, sem compreender.
-- Buscar-me-- Mas... para onde? Meu pai não quer que eu saia de Manteigas...
-- Enganas te... Sais tu... e sai ele também, com todos os seus homens... Os cristãos já
estão perto!16
Um grito abafado morreu na garganta da princesa moura.
-- Eu não posso . não quero... sair daqui!
-- Esperas alguém?
Fitaram se. Intensamente. Profundamente. Por fim, a bela Fátima ousou responder:
-- Sim Espero alguém!
-- Pois escusas de esperar. Esse alguém nunca mais chegará!
Desta vez foi um grito que se ouviu. Grito de dor lancinante.
-- Que dizeis?
Calma, a Fada da Lua retorquiu:
-- Isso mesmo! O jovem Ataúlfo já não é deste mundo.
As lágrimas inundaram o lindo rosto de Fátima.
-- Como... Como o sabeis?
Sempre serenamente, veio a explicação.
-- Assisti à sua morte. Morreu como um valente, mas morreu. Os deuses da montanha
não o deixaram passar. Quero dizer: um dos deuses, por amor de mim, não o deixou
passar!
Fátima nada mais disse. Chorou apenas. E foi num silêncio molhado de lágrimas que
ela escutou o resto da explicação.
-- Já falei com o teu pai, Fátima. Ele ficou muito pesaroso, acredita. Pesaroso e doente.
Pediu-me para te castigar, por pretenderes fugir com um cavaleiro cristão. Já não quer
15

10 - MORTE DE ATAÚLFO - Igualmente neste pormenor as várias versões divergem. Fundamentalmente as orais e as escritas.
Aquelas defendem a ideia do jovem Ataúlfo ter sido morto, ou por ódio do emir, ou por sacrifício de amor do "mais feio e triste
deus da montanha...". As versões escritas aventam a hipótese dos deuses da montanha terem precipitado um penhasco sobre o
cavaleiro cristão e chegam a atribuir a morte aos malefícios da própria fada.
16
11 - A APROXIMAÇÃO DOS CRISTÃOS - Segundo regista a história, desde a fulgurante vitória do almirante D. Fuas Roupinho sobre a esquadra moura, que deu aos cristãos a possibilidade de invadirem o território a partir do litoral, os sarracenos não mais tiveram um momento de descanso.

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saber de ti. Vai fugir agora para o alto de Alfátema17, mas sabe que não poderá resistir
muito mais. Os cristãos, fortes e ousados como são, apossar-se-ão de tudo isto, como
já se apossaram do resto. Ainda possuímos Al Gharb 18, mas fica muito longe... Nós teremos de ficar por aqui. Vem comigo!
E saíram silenciosamente, por caminhos que só a fada conhecia. A luta estava no auge
e até elas chegavam os gritos dos combatentes. Misturavam se os berros de vitória dos
cristãos com os queixumes desalentados dos mouros, e com os gemidos dos moribundos, e com o tropel dos que fugiam em debandada.
-- Ouves, Fátima-- Os cristãos já estão a assaltar o cimo de Alfátema... Temos de andar
mais depressa!
E andaram até chegar a um recanto do monte, junto do qual pararam, a um sinal da
fada. Esta bateu com a sua varinha mágica na rocha e logo uma porta se abriu misteriosamente, dando-lhes passagem19.
-- Eis onde ficarás encantada para sempre, princesa Fátima... É um palácio construído
de propósito para ti.
Só então a bela princesa reagiu, perante o castigo de ficar ali enterrada, para sempre.
-- Oh, minha madrinha! Eu não quero... Eu não posso!...
Mas de repente notou que estava falar sozinha. A fada desaparecera. Fátima caiu de
joelhos, soluçando. E teve a impressão de que escutava ainda uma voz no espaço que
lhe dizia:
-- Ficarás aqui até que algum guerreiro da tua raça tenha coragem para te vir libertar...
E uma noite em cada ano poderás subir ao penhasco e chorar a morte do teu bemamado Ataúlfo, por amor do qual sofres tamanho castigo: Nada mais...
E talvez por isso mesmo os pastores da Serra da Estrela dizem ainda hoje que em certa
noite do ano se pode ver nos penhascos de Alfátema uma visão estranha, muito bela,
vestida de branco, cantando e chorando...20

17

12 - ALFÁTEMA - Há também quem escreva Alfátima. Consta que o velho castelo (ou castro) de Alfátema, no alto da Serra da Estrela, fora construído pelos Túrdulos e servira de baluarte a Júlio César.
18
13 - ALGHARB - Ouvi em várias versões, que o emir de Manteigas pensava na verdade fugir com a sua filha para Al-Gharg, logo
que se intensificaram os ataques dos cristãos. Porém, a traição amorosa da bela Fátima fê-lo, possivelmente, mudar de ideias.
19
14 - A PASSAGEM DA ROCHA - Tal como aconteceu na Lenda do Almocreve de Estói, inserta neste mesmo volume, também aqui
há uma passagem na rocha que se abre com as pancadinhas de uma varinha mágica. Porém, neste caso nada tenho a opor, porque se trata de facto de uma fada e as varinhas de condão são atributos clássicos das fadas.
20
15 - A MOURA ENCANTADA DE ALFÁTEMA - Há quem diga que ela se inclina sempre num determinado sentido, e que esse sentido indica o local, onde deve ter caído o jovem Ataúlfo. Outros garantem que já a viram pentear-se, com um lindo pente de ouro
que brilha à distância... (Ver neste mesmo volume a Lenda da Moura que Chora). De qualquer modo, para as bandas da Serra da
Estrela, muita gente acredita no Moura de Alfátema ou Afátima...

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

FÁTIMA -- in LENDAS PORTUGUESAS - de Fernanda Frazão
-- Amigos do Livro Editores L.da, 3º vol de 6, pp. 85-90
MANTEIGAS, na serra da Estrela, é uma vetusta povoação que já no tempo da romanização possuía uma
certa importância. Na época da dominação muçulmana, teve direito a alcaide ou emir, autoridades que
a tradição popularizou sob a designação de reis.
A cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro de Alfátema, o cabeço mais elevado da serra da
Estrela, amiúde revestido de alvo manto de neve. De Alfátema falará a nossa lenda, que se passa nessa
época em que o montante cristão não dava descanso ao alfange muçulmano. Os mouros iam perdendo
terreno de combate em combate, e a perseguição que os cavaleiros cristãos lhes moviam era tão rápida
e implacável que se lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas que tinham acumulado ao
longo dos séculos. Assim, escondiam os seus tesouros nos sítios que julgavam mais adequados, ocultando-os muitas vezes por artes mágicas, o que levava o povo a dizer que eles estavam guardados por
mouras encantadas.
Conta a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima, e que era formosa como
uma visão magnífica do Paraíso de Alá. Os cristãos das vizinhanças empregavam todos os seus esforços
para se apoderarem do território do Rei, da sua Fátima tão linda e de todas as suas jóias e bens.
Ainda quis resistir, o Rei, abrigado como estava dentro do seu castelo. Mas o número dos assaltantes
era tal que lhe pareceu loucura ficar e resolveu fugir pelos carreiros escusos da serra, levando a filha e o
que das riquezas ainda não pusera a salvo.
Era madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada nas muralhas. Andaram, andaram todo o dia por entre penedos e escarpas e, ao anoitecer, Fátima morria de cansaço e não
conseguia dar nem mais um passo porque os seus pés estavam em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da serra-- A quem pedir socorro naquele mo mento terrível-Subitamente, abre-se-lhes em frente um caminho esplêndido, todo ele florido, calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá no fundo, por um foco de luz tão intenso que mais parecia provir de uma estrela
particular. Alá fizera o milagre! A esperança renasceu em todos os corações e, num inesperado alento,
entraram na senda que se lhes abrira como se nesse momento tivessem começado a caminhada. Ao
fundo da estrada, a luz que haviam divisado revelou-se-lhes um palácio resplandecente, tão cheio de
magnitude que se quedaram estarrecidos.
O que depois se passou ninguém o soube, mas, nos dias imediatos, os serranos viram subir e descer a
encosta vários pastores totalmente desconhecidos na localidade. Duraram algum tempo aquelas idas e
vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam àquele sítio, e um belo dia os pastores desapareceram
sem deixar rasto.
Os pastores desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por indiscrição de um deles que se soube que
uma fada boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio encantado do Coruto, sempre jovem e
formosa, até ao dia em que os fiéis sectários do Corão reconquistassem PORTUGAL.
Tão arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos que, durante os séculos XII e XIII, as pessoas várias vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao longe, os esquadrões mouriscos em busca
da bela Fátima. E a lenda tomou ainda mais corpo no espírito crédulo dos aldeões quando, alguns anos
depois de os cristãos terem tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.
Um dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar na madrugada deS., João no Coruto de Alfátema. Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo uma côdea de
broa que trazia. O pão era duro de muitos dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida,

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viu a seu lado um vasto estendal de figos secos. Comeu uns quantos, feliz por poder quebrar inesperadamente a sua pobre DIETA, e, 1embrando-se dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.
E, rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando a alegria das crianças ao comerem os figos.
Mas, uma vez chegada a casa, ao destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo,
Estava rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com o naco de pão duro, sentiu a mordedura
da ambição. Não lhe bastando o que já tinha, quis tudo o que ficara no Coruto e voltou a correr ao local
onde deixara os restantes figos.
Entretanto, o Sol subira no horizonte e estava agora no meio de um céu sem nuvens. Passara a hora dos
encantos e, dos figos, a mulher encontrou apenas o lugar. Desesperada, começou a arrancar os cabelos
e ia blasfemar quando uma voz suavíssima ‑ a de Fátima, sem dúvida ‑ caiu sobre si cantando:
Era teu tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S, João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!

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A MOURA DO ALFÁTEMA -- por José Crespo
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/522alfat05.htm
In Contos da Lagoa Escura, José Crespo, Coimbra Editora Ldª, 1957, pp. 9 - 16.

A pouco e pouco, as sombras do crepúsculo aproximaram as coisas umas das outras
até as diluírem nas trevas e no silêncio. A lua assomou à janela do Oriente para tomar
o fresco da noite. Abeirou-se do lago. seduzida pela enganadora transparência das suas águas. Quis ver-se nelas, mas as águas ondularam ao Impulso inquieto da brisa nocturna. A lua desgostou-se, porque o espelho lhe pareceu estalado e os cacos oscilavam. Pesarosa, escondeu-se atrás duma nuvem. As águas cobriram-se de tristeza e de
rugas sombrias.
O barco que vogava solitário no lago encostou à margem rochosa. A Fada que o conduzia, de alvas vestes roçagantes recamadas de conchas e da nívea espuma dos mares,
desembarcou.
A nuvem desfez-se. para que o luar lhe iluminasse o caminho.
Os Deuses da Montanha esperavam-na sentados nas varandas de granito. Desceram
das rochas e vieram recebê-la. Estenderam um tapete de servum macio para a Fada
passar. Pequeninas joaninhas, de vestidos vermelhos, abriram alas. Tocou a orquestra
das ralas e dos grilos.
Os bancos das varandas tinham almofadas de musgo fofo. Depois dos cumprimentos, a
Fada sentou-se. Os Deuses sentaram-se à sua volta. O mais velho disse então, num
tom solene de carinhosa majestade:
-- Sê bem vinda, Fada mensageira...
A Fada falou, por sua vez:
-- O aviso que, em tempestades e enxurradas, me mandaste pelo Tagus e pelo Munda
levaram a inquietação ao seio das vagas. Compreendi que algo de novo se passava
aqui.
-- Tua afilhada, a princesa Fátima, corre grande perigo e nós já não podemos valer-lhe -- redarguiu o Deus da Montanha.
-- Eu confiei-a à vossa protecção? -- suspirou a recém-vinda, entre surpreendida e desalentada.
-- Sim... e nós sempre procurámos merecer a tua confiança. Mas o nosso poder extinguiu-se. Os filhos de Alah vão ser expulsos desta serra, pois todas as behetrias hermínias já foram conquistadas aos mouros...
-- O Deus do Oceano, meu tutor -- interrompeu a Fada -- pediu-me para vos avisar de
que D. Fuas Roupinho, bravo condutor da frota dos barões portucalenses, está a investir a Lusitânia pelo litoral.
-- É que chegou a vez de ser atacado o poderoso e rico Emir de Manteigas.
A Fada sobressaltou-se. Torceu as mãos, num gesto de desespero, e exclamou:
-- Mais do que o seu reino e do que as suas riquezas, cobiçam-lhe os cristãos a linda
princesa Fátima, sua filha, a mais bela de todas as mouras nascidas na lbéria. Querem
convertê-la à fé de Cristo.
-- Sabedor disso, o Emir abandonou Manteigas. -- prosseguiu o Deus, numa voz triste e
comovida. -- Não se achava ali seguro. Fugiu através da serra, com os seus homens de
armas, e foi refugiar-se no Crasto do Alfátema, a fortaleza dos túrdulos que domina o
vale do Munda. É um baluarte poderoso, onde se entrincheirou Júlio César na sua úl-

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tima investida contra os aguerridos lusitanos. O Vali quer a todo o custo salvar sua filha. Vai resistir-lhes aqui e tentar depois escapar-se com ela para o Sul, para o que ainda resta do reino da heresia na Península.
-- Mas se vocês já nada podem contra os Nazarenos e se eles, com o auxílio que lhes
trouxe D. Fuas Roupinho, descobrem e investem o esconderijo do Emir, este depressa
sucumbirá e Fátima cai-lhes nas mãos. Os Nazarenos são persistentes, bravos e insubmissos.
-- Nós já lhe valemos uma vez, quando o cristão Ataulfo a quis raptar, com o consentimento dela própria, A perjura prometeu desposá-lo e converter-se ao cristianismo.
Soubemo-lo por denúncia da sua aia e confidente. Mas antes que o lusitano pudesse
cumprir o seu intento, armámos-lhe uma cilada. Saíram-lhe de noite ao caminho,
quando se dirigia para Manteigas, dois dos mais bravos guerreiros árabes. A luta foi
terrível e o cristão pereceu.
Mas teria vencido se não se desse um acidente imprevisto para ele. Quando os mouros
o surpreenderam próximo das nascentes do Munda, enfrentou-os com ardor indómito.
Os Árabes estremeceram. Tiveram um momento de hesitação, de receio. Mas já não
podiam recuar. Os três aprestaram-se para o combate. Afastaram as montadas. Mediram as distâncias, O cristão desceu a viseira e empunhou a aduna, enquanto os filhos
de Alah, atirando os albornozes para as costas, desembainharam as adagas. Envolveram-se numa pugna feroz, inclemente. O ruído da luta acordava o silêncio espectral da
noite serrana.
As montadas, cobertas de espuma e de suor, faziam esforços inauditos para se equilibrarem no terreno íngreme, pedregoso. Trocaram vários golpes sangrentos. Ataulfo
parecia levar a melhor sobre os infiéis. Valeu-lhes o nosso auxílio, que decidiu a seu favor o desfecho da luta. Um dos génios da Montanha, transformado em penhasco, despertou sob a nossa invocação e enroscou-se nas patas do cavalo, que caiu e rolou com
o cavaleiro pela encosta abaixo.
Os nossos Irmãos desmontaram, desceram a lombada aspérrima e aproximaram-se do
cristão a fim de o liquidarem antes que ele se levantasse. Não foi preciso. Este jazia
imóvel, com o crânio fracturado imerso numa poça de sangue.
A Fada escutava em silêncio. O Deus deteve-se, perscrutando com ansiedade os longes
montanhosos, mergulhados na escuridão. Depois, como que acordando dum sonho,
acrescentou:
-- A estas horas já os cristãos investem o cocuruto do Alfátema. O Vali não pode escapar. Todos os Árabes serão mortos ou aprisionados.
-- E Fátima? -- inquiriu a Fada, num tom de voz consternado. Trémulo, implorativo.
O Deus da Montanha olhou-a com tristeza, encolhendo os ombros, num gesto vago de
incerteza e de impotência. Ela insistiu, com a voz alterada pelo desgosto e pela comoção.
-- Não quero que Fátima caia nas mãos dos Nazarenos. Devo também castigá-la por ter
querido trair, amando um infiel, a sua raça e a sua religião.
E, decidida, levantou-se e ajuntou, virando-se para o Deus da Montanha:
-- Dá-me um dos génios desta serra que me leve sem demora ao Alfátema.
O Deus conduziu-a até junto dum penhasco e, depois de proferir algumas palavras mágicas, tocou-lhe com a mão e este transformou-se num gigante alado. A Fada sentouse-lhe no dorso e os dois partiram através da serra.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Quando a Fada chegou ao Alfátema era noite cerrada. A refrega estava no auge e
acordava nos montes ecos sinistros, apavorantes. Os cristãos, através de ravinas e algares fragosos, num assalto impetuoso, “quasi per latrocinium”, aproximavam-se do
coruto do Crasto. Aqui e além, nos urgueirais espessos, erguiam-se labaredas de incêndios atiçados pelos contendores. Os lobos fugiam espavoridos, enchendo de uivos
lamentosos as encostas abruptas.
Um sopro de fé e de liberdade abrasava as almas bravias dos assaltantes. Estes iam a
pé, em grupos isolados, dispersos. Quando se reuniam, mandavam alguns adiante
sondar o caminho, escolher o local do ataque. E enquanto a vanguarda dominava as
sentinelas, a hoste avançava, trepando os combatentes uns por cima dos outros para
atingirem os tesos mais altos e escalarem os hirtos penedões. Os Árabes que resistiam
eram liquidados sem piedade. Nos alcantis do Crasto, transformados em cubelos e
adarves, as almenaras alumiavam a estarrecida e dizimada guarnição moura, a qual,
em torno do Emir, debalde se opunha à mortífera escalada dos guerreiros hermínios.
A entrevista da Fada com o Vali, à luz trémula dos archotes e no meio do fragor do
combate, foi curta. Quando se despediram, o mouro recomendou-lhe:
-- Vai. Salva minha filha. Cumpre o teu desígnio. Nós não podemos escapar. Eu venderei cara a vida e, se Alah me poupar, duro cativeiro me espera.
E voltou para junto dos combatentes. A Fada foi ao encontro de Fátima, que aguardava
placidamente o desfecho da luta.
-- Vem comigo - disse-lhe.
Levou-a para um recesso escuro do monte e bateu numa fraga com a sua varinha de
condão. A rocha abriu-se, descobrindo um caminho atapetado de musgo. Desceram
por ele e entraram num palácio encantado, verdadeira mansão de fadas, onde nada
faltava para tornar uma solidão agradável e confortável.
Magníficas galerias de cristal ligavam salas sumptuosas, com tapetes de seda, reposteiros de brocado, divãs de alabastro cobertos de estofos de Meca, pisos de mármore
preto e branco, estuques de oiro e prata incrustados de diamantes resplandecentes.
Artísticos candelabros de cristal espargiam uma luz deslumbrante. Nos cantos, perfumadores de oiro lavrado aromatizavam o ambiente. Nos jardins interiores, por entre
tabuleiros de flores raras e canteiros de relva setinosa, sombreados de plantas odoríferas e de árvores com frutos capitosos, havia cascatas marulhantes, cujos repuxos se
desfaziam em pérolas e esmeraldas.
Fátima, sem compreender, deixava-se conduzir, atónita e deslumbrada. Por fim, perguntou numa voz alterada pela curiosidade e pelo receio:
-- A quem destinas, minha madrinha, todas estas maravilhas?
-- Ergui este palácio encantado para ti -- respondeu a Fada. -- E pela força dos meus
encantos te ordeno que fiques aqui isolada do mundo e das gentes até que um guerreiro da tua raça e da tua fé tenha a coragem de vir libertar-te.
Fátima compreendeu então o destino amargo que lhe era destinado e quedou-se triste
e lacrimosa nos seus vestidos brancos...

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*
A Fada regressou à Lagoa Escura por veredas desconhecidas, já os Lusitanos ocupavam
toda a fortaleza. Embarcou de novo e partiu para o Oceano.
A aurora ergueu a sua foice luminosa e ceifou as estrelas. Mas, da estrela matutina,
vendo-a tão linda e tão pura teve pena e deixou-a ficar. Veio o Sol, encheu-se de ciúmes e correu sobre ela uma cortina de fogo.
Os Deuses abandonaram a Montanha e deixaram-na entregue aos cristãos.
Estes procuraram Fátima por toda a parte e nunca a encontraram. Mas, durante muitos anos, pastor que se transviasse nos caminhos do monte, vinha contar, ao fogo da
lareira, que vira, à luz pálida do luar, uma figura de mulher toda vestida de branco,
sentada nos penhascos, penteando os longos cabelos negros com um pente de ouro e
pedrarias refulgentes...
E assim nasceu a lenda da moura encantada do Alfátema.

José Crespo – CONTOS DA LAGOA ESCURA - 1957

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CORUTO DE ALFATEMA por José Avelino de Almeida e outros... -- In Expedição Científica – Serra da Estrela -- 1881
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/522alfat07.htm
CORUTO DE ALFATEMA21
In Expedição Científica - Serra da Estrela, em 1881, - SECÇÃO DE ETHNOGRAPHIA, Relatório do Sr. Luiz
Feliciano Marrecas Ferreira, Lisboa - Imprensa Nacional, 1883
1. in Dicionário de José Avelino de Almeida e outros...
2. in Distrito da Guarda, N.º 246, por Barbosa Colen

"Os mouros, quando se foram embora, não poderam levar as muitas riquezas que tinham, por isso as esconderam em sitios onde ninguem podesse chegar, a não ser que
por acaso ou de proposito por ali passassem. Pozeram-lhe guardas encantadas, que
eram sempre lindas mouras.
"Por esses tempos o rei mouro de Manteigas tinha uma filha chamada Fatima, muito
formosa e a quem sobretudo estimava. Os christãos vizinhança porfiavam em lhe conquistar os estados, para lhe roubarem a filha; o rei fez-se forte na sua villa, mas cresceu tanto o poder d'aquelles que teve de fugir pelas mais occultas veredas da serra, levando a sua Fatima e as suas riquezas.
"Sobreveiu a noite, Fatima tinha desfallecido de cançasso, quando em frente d'elles se
abre um caminho enxuto, calçado de pedras finas, e no fim uma luz que o alumiava todo; foi para elles um signal de salvação; voltaram as forças com a esperança, e em
poucos minutos o rei, a filha e os que o acompanhavam entram em um magnifico palacio, onde tudo era tão grandioso que o mesmo ri ficou deslumbrado.
"O que .lá se passou ninguem o sabe, mas o certo foi que no outro dia desceram da
serra uns pastores que ninguem conhecia, demoraram-se algum tempo no paiz, fazendo repetidas romarias, quando a estação o permittia, ao cabeço que elles chamaram a
primeira vez Coruto de Alfatema, e por fim desappareceram sem haver mais noticia
delles.
"Eram mouros disfarçados de pastores, e por elles se soube que uma fada, madrinha
de Fatima, a guardára no seu palacio encantado, até que viessem tempos de paz para
os mouros.
"Disto houve sempre memoria por aquelles sitios e ninguem duvidava do acontecido,
quando succedeu passar pelo Coruto de Alfatema, antes do sol nado, em madrugada
de S. João uma pobre mulher.
"Cansada de ter atravessado a serra, sentou-se um pedaço no tal Coruto, e emquanto
comia um bocado de pão viu a seu lado um grande estendal de figos seccos, que pare21

Esta designação é applicada a um pequeno trato de planicie que forma a cumiada da serra, situado a pouca distancia de Manteigas. Quer o sr. Pinho Leal que fosse applicada a um templo romano dedicado a Lucifer, perto de Manteigas, templo mencionado
em diversas obras a que já me referi; mas parece não ser esta a mais exacta indicação, porque a palavra coruto deve ser entendida
como um logar culminante, e Alfatema, nome evidentemente árabe, trivial até nesta lingua, nunca podia ser posto pelos romanos
a um templo seu, e igualmente não parece acertado o admitir-se que elle fosse posto pelos arabes a um templo romano.
Em Manteigas ha a crença de ter passado Júlio Cesar pelo Alfatema, de que nos falla o sr. J. A. F., a pag. 87 do volume do Almanach de Lembranças, correspondente a 1863:
"É tradição que Julio Cesar, à frente das suas cohortes, atravessando a serra pelo Alfatma, pernoitára n'esta vill e aqui deixára uma
lapide commemorativa da sua jornada. Esta lapide, diz-se tambem, é a que está servindo de limiar à entrada da igreja de Santa
Maria. Percebem-se-lhe apenas algumas letras da inscripção."
Esta lenda tem ainda sido apresentada por outros escriptores.
O sr. José Avelino de Almeida, no seu dicionário, e outros auctores fazem derivar a designação da seguinte lenda.

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ciam ter esquecido a alguem de vespera; guardou no seu cestinho alguns para hora de
menos fortuna, depois partiu.
"Indo seu caminho veiu-lhe a vontade dos figos, e quando retirou a mão do cesto viu,
com grande espanto, que trazia umas poucas de peças de oiro de muito grande tamanho e peso. Veiu em seguida a malvada cubiça.
"A mulher, que horas antes se contentava de poder matar a fome com figos seccos, já
se não satisfazia com um bom cento de peças, voltou atraz, já a tempo que os primeiros raios do sol douravam aquelles pincaros, não encontrou figos alguns, e ao mesmo
tempo ouviu uma voz que lhe fallava assim:
Tudo era teu quanto viste;
Agora tornaste em vão,
Não passes mais n'estes sitios
Na manhã de S. João:
Não te perdeu a pobresa
Póde perder-te a ambição.
"A mulher, com o bom peculio que tinha trazido, começou a prosperar, e só passados
alguns annos e que se soube do caso.
(Nota de JRG) Como se sabe, na Expedição Scientifica à Serra da Estrela - 1881, a Secção de ETHNOGRAPHIA, teve como Chefe Luiz Feliciano Marrecas Ferreira, S. S. G., capitão de engenharia, professor da
escola do exercito; e Antonio Lopes Mendes, S. S. G. Agronomo. Ora como se diz na apresentação do trabalho desta Secção: "Este relatório foi recebido na Secretaria da Comissão Administrativa da Expedição
em 19 de Novembro de 1882." Logo a seguir, o "auctor" dedica este trabalho a Luciano Cordeiro, Presidente da Sociedade de Geographia de Lisboa. Logo a seguir vem uma advertência importante que vamos
transcrever. É bom ter presente que uma das finalidades da Expedição, talvez a principal, era dar uma
resposta aos muitos boatos e lendas que se contavam sobre a Serra, exactamente por ser mal conhecida
e não haver dados científicos sobre os mais variados aspectos, como se pode ver pelo número das Secções que foram organizadas: Agronomia e Sylvicultura, Anthropologia (chefiada por dois médicos), Botanica, Chimica, Ethnographia (que não esteve no terreno), Geologia, Hydrographia (com uma subsecção para - Levantamento e sondagem das Lagoas), Medicina (com uma sub-secção para Hydrologia
Minero-medicinal e outra de Ophtalmologia, de Meteorologia, Photogrphia, Zoologia, Zootechnia, com
uma secção auxiliar de Topografia... Pela ADVERTÊNCIA a seguir verificamos que se perdeu uma oportunidade única de se ter realizado no terreno a recolha dos contos e Lendas da tradição Oral! Entretanto
temos de reconhecer a oportunidade e o valor do trabalho realizado por esta secção e parece no Relatório com o título: AS LENDAS DA SERRA DA ESTRELA NA TRADIÇÃO ESCRIPTA - com 11 divisões: I Communicação das lagoas com o mar, fluxo e refluxo, bramidos quando ha tempestade. II - Profundidade indefinida das lagoas. III - Olhos marinhos. IV - Qualidades maravilhosas das aguas. V - Exageradas
dimensões da Serra. VI - Teshouros encantados. VII - Crusta do terreno. VIII - Cavernas. IX - Opiniões de
estrangeiros ácerca da serra. X - Connexão das lendas - Viriato. XI - Interpretações locativas.
"ADVERTENCIA: Quando a expedição partiu para a serra da Estrella, ninguem ia inscripto na secção de
ethnographia, de sorte que bem poucos foram os apontamentos, que ácerca de tão interessante assumpto poderam tomar os membros das outras secções os quaes deviam occupar-se dos serviços especiaes que lhes foram commettidos.
N'estas condições era impossivel o elaborar um trabalho. fructo de uma dletida exploração, que se não
fez; congreguei, porém, as minhas escassas forças, ara reunir alguns materiaes, que possam num dia.
talvez proximo servir para a descrição do meio em que a lenda se conserva, como por muitos muitos annos a neve, ou onde se fórma e avulta como a torrente das montanhas.
Na impossibilidade de obter dos meus apontamentos uma indicação dos thesouros, que andam na tradição oral, fui pedir à tradição escripta os materiaes de que neste trabalho me servi.
A tradição escripta ha de nortear, de certo, algumas das minhas explorações ethnographicas a que a serra tão singularmente se presta.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

No estudo das lendas se deve cifrar, segundo julgo, o ambicioso empenho dos que quizerem lançar os
primeiros lineamentos da historia do pensamento."
Conclusão, desafio para JRG - Possivelmente um PROJECTO? Procurei manter, nas lendas e nas transcrições do Relatório a ortografia original e empreender uma reescrita das LENDAS, destas e outras, para
assim, no início de III Milenium, tentar descobrir a forma de pensar, os medos e as fantasias dos Lusitanos e dos Povos que nos precederam e formaram a nossa identidade cultural e assim contribuir de alguma maneira para melhor sabermos quem somos - nós os povos da Serra, nós os Lusitanos portugueses,
nós os Habitantes desta aldeia Global que é a Humanidade de Hoje - a caminho das Estrelas depois de
termos aberto - descoberto os Caminhos do MAR, ou, como diz o Poeta, os Caminhos de A MAR. É porventura um Projecto demasiado ambicioso, mas que será gratificante, ao menos, para mim.
O sr. J. A. F. apresenta, no seu interessante artigo, a seguinte indicação relativa a Manteigas: "Os seus
habitantes, leaes, hospitaleiros, e singelos no seu modo de viver, trajam calção e rabene (especie de jaqueta comprida). Homens e mulheres usam de gabão com capuz." ... "Como não ha vias de communicação para esta villa, todos os transportes se fazem em cavalgaduras muares, das quaes ha ali para cima
de setecentas." ... "Possue quatro fabricas de lanificios com motor de agua, que produzem saragoças e
borlinas bastante ordinarias."

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LENDA DE FÁTIMA – por Barbosa Colen -- in Expedição Científica de 1881
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/522alfat08.htm
In Expedição Científica - Serra da Estrela, em 1881, - SECÇÃO DE ETHNOGRAPHIA, Relatório do SR. Luiz
Feliciano Marrecas Ferreira, Lisboa - Imprensa Nacional, 1883
1. in Dicionário de José Avelino de Almeida22 e outros...

"...
Do Herminio, a alterosa serra, que n'esse dia occultava a cabeça orgulhosa entro as
pardacentas nuvens, mosqueadas de pontos escuros como um dorso de panthera -vinham lufadas asperas, de um frio intenso, agudo, penetrante, causando uma sensação simultaneamente dolorosa e arrepiante, como, a que motivaria o espicaçar insistente de innumeros alfinetes feitos de gelo. A neve, que cahira por muitas horas seguidas, em grossos flocos alvíssimos, estendia-se como um immenso tapete de arminho
virginal, ao longo das quebradas, e, mascarando traiçoeiramente os abysmos e nivelando em baixo, na planicie, os mais salientes relevos orographicos, dava a tudo -- desde a pedra musgosa até ao telhado esfumado -- o tom forte da sua alvura intensa,
ophtalmica. Algumas raras avesinhas, d'essas que nos dias invernosos saltitam graciosamente em voos baixos e rapidos, bicavam aqui e alem, os montões da neve; e, a espaços, era bonito vel-as, empoleiradas n'alguns dos ramos crystalisados que rompiam
das sarças soterradas, fazendo a toilette das suas pequeninas azas graciosíssimas, agitando-as nervosamente, entre pipilos sibillantes d'impaciemcia. De resto havia por toda a parte um silencio profundissimo. Dir-se-hia que alem, no povoado, tinha adormecido tudo n'uma funda lethargia fatal, se das chaminés do casario, agrupado em volta
do alcaçar do emir, não rompesse o fumo em negros e espessos rolos, que a densidade
da atmosphera não deixava erguer em phantasiosas espiraes, e impellia para a terra,
onde rastejavam e corriam como enormes reptis fabulosos.
De subito, porém, todo aquelle silencio acordou ao grito de alarma tão temido: Nazarenos! Nazarenos!
O esculca, que de uma das roldas do palacio sarraceno de Mantcigas, vigiava cuidadoso, vira subitamente desembocar no valle do Zezere, unica saida d'essa cova gigantesca formada por montanhas cyclopicas, um numeroso e luzido bando de cavalleiros
christãos que avançavam n'uma corrida vertiginosa para não dar tempo á defeza dos
descuidados almoravides.
Foi rapida a peleja e pouco demorada a resistencia. A curto trecho o pendão agareno
abatia-se humilhado ante o estandarte triumphante da cruz. Os gritos de "Allah-buAcbar! dos guerreiros de lslam, eram abafados por os de "Christo, e ávante! dos destemidos invasores, e formando côro a este hymno da victoria, ouviam-se os gemidos
22

O meu illustre amigo o sr. Barbosa Colen, cavalheiro que ha muitos annos é conhecedor das localidades circumvizinhas da Guarda, em folhetim inserto no n.º 246 do Distrito da Guarda sob a epigraphe de Manteigas, refere-se tambem á Lenda de Fátima, da
qual faz a seguinte elegante descripcão, que não ouso mutilar, preferindo repetir conhecidos episodios a fazer soluções de continuidade n'este bello trecho…

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

lancinantes dos feridos e moribundos, cahidos por toda a parte em montões confnsos
e informes!...
Foi enorme a carnificina n'essa lucta de instantes, mas, o que é ainda mais desolador, é
que aquelles dos mauritanos, que escaparam ao fio dos montantes dos batalhadores
christãos, e procuraram na fuga, desordenada e doida, a salvação das vidas, foram deixal-as nos abysmos da serra, occultos então por a neve traiçoeira!...
Horrível!
...
Entretanto, por uma mysteriosa porta do Alcaçar escapava-se o vencido emir de Manteigas, levando alguns creados fieis com a parte mais importante dos seus immensos
thesouros; e conduzindo elle proprio, a joia mais cubiçada por os conquistadores do
seu poderio; -- a sua encantadora filha, a formosissima Fatima.
Effectivamente, nada mais gracioso, mais sublimemente ideal, que essa doce creança,
que principiava a revelar-se mulher na exuberancia dos seios, e que ia ali, tiritando de
frio e medo, encostada ao braço tremulo do pae.
Os cabellos escuros tufavam-lhe n'uma opulencia irrequieta sob um bournós alvadio
listrado de côres vivas; ~ os olhos negros, rasgados, luminosos, dir-se-ia que nadavam
em effluvios de uma ternura, de um sentimento intraduzivel em palavras; a tez de uma
suavidade opalina, tinha, como as perolas de Ceylão, essa rara transparencia baça; os
labios breves, finos, rosados, encrespados n'um sorriso meiguissimo, resignado e bom,
pareciam pincelados com amor por um pintor de genio; o collo de uma curva ideal ia
morrer em linhas brandas entre encantos que se sonhavam, por o desenho enlouquecedor esboçado nas graciosas roupas lentejoladas.
Tal era Fatima, a princesa moura, que o wali guiava, em busca de um recanto desconhecido da serra que lhes servisse de abrigo e esconderijo.
A violencia da carreira, porém, prostrou por fim desfallecida e palpitante a gentil agarena. Gotejavam-lhe sangue os pequeninos pés, e as lagrimas, retidas com esforço para não exacerbar a immensa afflicção do pae, cahiam agora, abundantes e silenciosas,
ao longo das faces arroxeadas por o frio. Pobre Fatima!
A noite vinha cahindo, rapidamente, cheia de ameaças mysteriosas. A pequena caravana fugitiva olhou em volta, e, n'uma enorme afflicção desesperadora, viu só, aos ultimos clarões do dia que se extinguia, a vastidão interminavel d'esse lençol de neve,
que seria talvez em breve a mortalha que os envolveria n'alguma das suas gelidas pregas!
Então, aquelle desoladissimo pae, apertou a filha estremecida de encontro ao peito,
n'um amplexo febril e louco, e quedaram-se assim os dois, enlaçados por largo tempo,
na convicção de que chegára para elles a hora da eterna e irremediavel despedida!...
...
A serra, porém, toma de subito um aspecto estranhamente bisarro. As trevas já densas
dissipam-se; a neve funde-se; o caminho apparece calçado de finas pedras preciosas; e

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ao longe uma luz forte illumina completamente essa senda salvadora, servindo de seguro fanal aos fugitivos.
Reanimados por a esperança caminham rapidamente para o luzeiro providencial, e,
dentro de pouco transpõem o peristylo de um palacio inimitavel, formado por clumnnas de ouro puro com os capiteis ornados de grossos diamantes.
Ha nos vastos salões riquezas incontaveis. Vê-se por toda a parte luxo deslumbrador,
de que não podem dar pallida idéa as mais faustuosas habitações da Asia. Explendido,
como um sonho! Era o encantado palacio do Coruto de Alfatema, que ainda hoje la
existe, mas que ninguem mais encontrou...
...
Depois d'essa noite ali ficou vivendo a linda moura Fatima, a filha do emir. Ás vezes,
quando a lua illumina a serra com reflexos pallidos, os pastores vêem-na vaguear por
sobre as mais altas penedias, cantando uma estranha canção soluçante, aonde se expressa a saudade do seu povo, que ainda não voltou a reconquistar-lhe o reino usurpado a seu pae. E em noutes de S. João, é certa no coruto da serra, deixando fluctuar
as longas roupagens brancas ao sabor do vento, emquanto dedilha n'uma harpa melodias suavisssimas que fazem enlouquecer d'amor quem tem logrado ouvil-as.
D'uma vez -- há que tempos que isto já foi! -- passava perto do palacio da moura, na
noite dos mysterios, uma rapariga da villa, muito pobre, muito honesta e muito recatada. Tinha no coração uma funda idolatria por um moço pegureiro, na serra, mas não
tinha siquér uma vara de linho na arca do bragal.
A pobresinha caminhava chorando a miseria que lhe não consentia a realisação do sonho da sua alma, quando junto de uma pedra do caminho que leva ao Alfatema, apercebeu um grande estendal de figos seccos. Recolheu os que podia levar na sua cesta e
seguiu triste por os pensamentos que a affligiam. Quando chegou abaixo, à pobre casinha em que habitava, viu com alvoraçada alegria, que a ventura não era já para ella
um sonho irrealisavel. Os figos que recolhera transformara-os a boa fada em preciosos
brilhantes e grandes peças de ouro.
Espicaçada por a insaciabilidade da ambição, corre a pobre de novo à serra, mas debalde se afadiga e procura. Então uma voz simultaneamente meiga e reprehensiva,
cantou-lhe este conselho amigo:
(Segue a estrophe que precedentemente foi apresentada).
Era Fatima, a encantada moura, filha do emir de Manteigas. Foi ella quem déra o ouro
e o conselho à rapariga enamorada de um dos pegureiros da sua serra.
Apertado o emir (e não o rei mourisco, como a lenda diz), que era o chefe dos arabes
em Manteigas, pelo exercito christão, qne subia o valle, tendo á sua retaguarda o
enorme escarpado que n'aquelle sitio apresenta a serra da Estrella, com 800 metros de
altura, não podendo prolongar por muito tempo a defeza, por mais aguerridas que
fossem as suas tropas, depois de caírem os campos d'onde se aprovisionava a praça

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

em poder do inimigo, é claro que lhe restavam como unicos recursos o bater-se até á
morte ou fugir, ganhando a serra, embrenhando-se no mais aspero das penedias.
O illuslre general Povoas, apertado n'um d'aquelles valles, no de Alvoco, como em outras eras o foram os arabes, em virtude do grande conhecimento do terreno que possuia desde a intancia, porque tinha nascido n'uma das faldas da serra, conseguiu tomar
por veredas de pouco trilho e ganhar outro valle, sem dar um tiro, sempre a coberto
das vistas do inimigo, e, o que mais é ainda, sem despertar desconfianças, favorecendo-o muitissimo n'este empenho de evitar ao seu exercito uma derrota certa, o grande
relevo do terreno, que lhe mascarou os movimentos com as suas dobras, e o ter escolhido a noite para levar a effeito o projecto.
Não havia a mesma estrella propicia para os arabes; era-lhes completamente impossivel o lograrem o melhor exito de uma tentativa analoga; expulsos de Manteigas e occupado pelos christãos todo o terreno ao norte da serra, que elles disputaram, palmo a
palmo, n'uma guerra sem treguas nem quartel, toda a retirada possivel só se poderia
effectuar trepando ao mais alto da serra e d'ali seguindo para a região ainda vasta da
bacia hydrographica do Tejo, sujeita ao crescente, vedada como se achava a melhor
passagem, valle abaixo, que agora só atravez das hostes inimigas se poderia realisar.
Devia de ser o Zezere a primeira das bacias secundarias do Tejo occupada pelos christãos e o theatro de uma das mais renhidas luctas de conquista, em consequencia de
ser esta bacia a de origem mais septentrional das que possuem os affluentes do Tejo, e
das difficuldades que o terreno apresentava aos conquistadores.
Segundo assevera Santa Rosa de Viterbo, derrotados os mouros em Coimbra, Vizeu,
Lamego e Chaves, por D. Affonso III das Asturias, mandou este monarcha erguer um
forte padrasto no Tintinolho, proximo do local onde se fundou a cidade da Guarda, para o oppor ás correrias dos mouros da Idanha.
A camara municipal da Guarda auxiliou a expedição scientifica mandando executar escavações no Tintinolho, d'onde se retirou varios objectos antigos, que foram presentes
á secção de archeologia do corpo expedicionario. Não ha a minima duvida ácerca de
ter ali existido uma povoação.
Refere a lenda que o emir ganhou a serra, o que, segundo deixo dito, parece quasi certo, levando familia e os bens que pôde conduzir; a imaginação popular, excitada vivamente pelo grande e primeiro revez que o exercito mourisco experimentava n'aquelle
valle, architectou uma lenda ácerca da fuga do emir, que subtrahia uma filha de peregrina belleza ás garras dos inimigos.
Aquelles para os quaes as lendas, longe de serem um frivolo passatempo, constituem,
pelo contrario, um interessante objecto de estudo, reconhecerão n'esta um episodio,
palpitante de interesse, da longa historia de sangue e de lucto que teve sobre o nosso
solo a pugna ferida entre as raças e as religiões que ali se digladiaram.

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É interessante a analogia que a lenda nos apresenta com muitas outras germanicas.
Em varias lendas da D. Branca convertiam-se em oiro os presentes que fazia este ser
phantastico; no regaço da rainha Santa Izabel transformava-se, pelo contrario, em flores o oiro da esmola.

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Fátima – Maria Antonieta Garcia
IN "Velhas Lendas" de Maria Antonieta Garcia, Edição Centro Cultural da Beira Interior
http://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/ - publicado por Paulo Jesus

Maria Antonieta Garcia

Manteigas, na Serra da Estrela, é uma vetusta população que já no tempo da romanização possuía uma certa importância. Na época da dominação Muçulmana, teve
direito a alcaide ou emir, autoridades que a tradição popularizou sobre designação de
reis.
A cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro de Alfátema, o cabeço
mais elevado da Serra da Estrela, amiúde revestido de alvo manto de neve. De Alfátema falará a nossa lenda, que se passa nessa época em que o montante cristão não dava descanso ao alfange muçulmano. Os mouros iam perdendo terreno de combate em
combate e a perseguição que os cavaleiros cristãos lhes moviam era tão rápida e implacável que lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas que tinham acumulado ao longo dos séculos. Assim escondiam os tesouros nos sítios que achavam mais
adequados, ocultando-os muitas vezes por artes mágicas, o que levava o povo a dizer
que ele estava guardado por mouras encantadas.
Conta a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima, e
que era formosa como uma visão magnífica do paraíso de Alá. Os cristãos das vizinhanças empregavam todos os seus esforços para se apoderar do território do rei, da
sua Fátima tão linda e de todas as suas jóias e bens.
Ainda quis resistir, o rei, abrigado como estava dentro do seu castelo. Mas o número de assaltantes era tal que lhe pareceu loucura ficar e resolveu fugir pelos correios escusos da serra, levando a filha e o que das riquezas ainda não puseram a salvo.
Era madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada nas muralhas. Andaram, andaram todo o dia por entre penedos e escarpas e, ao
anoitecer, Fátima morria de cansaço e não conseguia dar nem mais um passo porque
os seus pés estavam em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da serra-Subitamente, abre-se-lhes em frente o caminho esplêndido, todo ele florido, calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá no fundo, por um foco de luz intenso que
mais provir de estrela particular. Alá fizera o milagre! A esperança renasceu em todos
os corações e, num inesperado alento, entraram na senda que se lhes abrira como se
nesse momento tivesse começado a caminhada. Ao fundo da entrada, a luz que havia
divisado revelou-se-lhes um palácio resplandecente, tão cheio de magnitude que se
quedaram estarrecidos.
O que depois se passou ninguém o soube, mas, nos dias imediatos, os serranos viram subir e descer a encosta vários pastores totalmente conhecidos na localidade. Duraram algum tempo aquelas idas e vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam
àquele sítio, e um belo dia os pastores desapareceram sem deixar rasto. Os pastores
desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por indiscrição de um deles que se sou127

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be que uma fada boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio encantado do
Coruto, sempre jovem e formosa, até ao dia que os fiéis sectários do Corão reconquistassem Portugal.
Tão arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos que, durante os séculos
XII e XIII, as pessoas várias vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao
longe, os esquadrões mouriscos em busca da bela Fátima. E a lenda tomou ainda mais
corpo no espírito crédulo dos aldeões quando, alguns anos depois dos cristãos terem
tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.
Um dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar na madrugada de S. João no Coruto de Alfátema. Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo uma côdea de broa que trazia. O pão era duro de muitos
dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos. Comeu uns quantos, feliz por poder quebrar inesperadamente a
sua pobre dieta e, lembrando-se dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.
E, rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando a alegria das crianças
ao comerem os figos, mas, uma vez chegada a casa, ao destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo.
Estava rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com um naco de pão
duro sentiu a mordedura da ambição. Não lhe bastando o que já tinha, quis o que ficara no Coruto e voltou a correr ao local onde deixaram os restantes figos.
Entretanto, o sol subira no horizonte e estava no meio de um céu sem nuvens.
Passara a hora dos encantos e, dos figos, a mulher encontrou apenas o lugar. Desesperada, começou a arrancar os cabelos e ia blasfemar quando uma voz suavíssima – a de
Fátima, sem dúvida – caiu sobre si cantando:
Era teu, tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de São João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

LENDA DE ALFATEMA - in CONTOS TRADICIONAIS PORTUGUESES - Vol. II (de IV), pp. 323/4
in Tesoiros da Nossa Literatura - Escolhidos e Comentados por Carlos de Oliveira e José
Gomes Ferreira - Iniciativas Editoriais - Lisboa - Edição Especial para a Livraria Figueirinhas - Porto, s/d -- LENDAS E CRENDICES, MISTÉRIOS E PRODÍGIOS
Quando os mouros foram daqui expulsos, deixaram ali ficar escondidas as suas riquezas e puseram-lhe guardas encantadas, que eram formosas mouras. Por esse tempo o
rei mouro de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima, muito linda e a quem em extremo queria. Os cristãos das vizinhanças faziam todas as diligências para lhe conquistarem o Estado e cativarem a filha e as riquezas: o rei fez-se forte na vila, mas não podendo resistir, fugiu pelas mais ocultas veredas da serra, levando a filha e o tesouro
que não tinha ainda escondido. Quando chegou a noite, tinha Fátima desfalecido de
cansaço; mas na sua frente se abre um formoso caminho, calçado de pedras finas, e no
fim uma luz que o iluminava todo. Foi isto para os mouros sinal de salvamento, e tomando todos por esse caminho foram dar a um magnífico palácio, onde tudo era de tal
esplendor que o próprio rei ficou deslumbrado. O que aí se passou ninguém o soube;
mas no dia seguinte desceram da serra uns pastores que ninguém conhecia, e que se
demoraram algum tempo no país, fazendo ao Coruto de Alfatema (nome que eles deram ao cabeço) repetidas visitas, e por fim desapareceram sem que ninguém mais tivesse novas deles. Eram os mouros disfarçados em pastores e por eles se soube que
uma fada, madrinha de Fátima, a guardara no seu palácio encantado, até a volta dos
mouros a Portugal.
Continua a lenda: Daí a muitos anos, passando por Alfatema, numa madrugada de S.
João Baptista, uma pobre mulher, sentou-se ali a descansar e a comer um bocado de
pão que trazia. Viu então a seu lado um grande estendal de figos secos. Encheu deles
uma cesta que levava e partiu. Chegando a casa, e ao ver a cesta, ficou pasmada, porque os figos se haviam transformado em brilhantes e grandes moedas de ouro. A mulher ambiciosa, voltou ao corucho, na esperança de encontrar mais valores. O sol dourava os píncaros da serra, e o encanto tinha-se quebrado, e os figos desaparecido. Ouviu então uma voz que lhe dizia:
Era teu tudo o que viste
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.
A mulher voltou, e contentou-se com o que tinha; comprou muitos bens, e só tarde
declarou a origem da riqueza.
(J. Leite de Vasconcelos)

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UMA LENDA DE MANTEIGAS - por José da Serra
- diz Lucas Batista que diz Barjona de Freitas...... passou um touro que lhe arrebatou a criança..." ..."e só parou onde está edificada a vila..."

- Lenda de Manteigas - o refúgio de Hermes, que explica o nome e as características...
- As referências à Mitologia Greco Latina - Hope Moncieff e Edith
Hamilton

UMA LENDA de como foi descoberto o lugar onde hoje é MANTEIGAS e do
PORQUÊ de ser este nome usado, contrariamente ao uso corrente, no plural - manteigas... & o que são os ribeiros e ribeiras que serpenteiam pela
Serra...
vide: In Manteigas, llogar metido no meio da Serra da Estrela honde as
gentes areceavam acentar vivenda Uma resenha histórica de José David
Lucas Batista, investigador de História local
In Boletim Municipal, Nº 5, 1996.
"Em face deste quase vácuo documental não admira que o aparecimento
de Manteigas tenha passado a constituir matéria mítica, dela tratando A.
Sanches Barjona de Freitas (3).
Assim ele escreve que a lenda conta a fundação desta povoação do seguinte modo.
«O povo mais antigo das proximidades desta região era o povo Cimeiro,
hoje freguesia de Sameiro, do Concelho de Manteigas. Numa ocasião em
que estava à porta de casa uma mulher daquele, tendo consigo uma filhinha, passou um touro que lhe arrebatou a criança e fugiu. A mulher perseguiu o animal e só onde está edificada a vila é que pôde reaver a criança,...
Em perseguição do touro vieram também outras pessoas, e reconhecendo
que o sítio era azado para viver, construíram algumas cabanas onde habitaram...»
«Deixando de lado a sugestão mitológica clássica contida na criança arrebatada por um touro, cujo paralelismo com o rapto de Europa perpetrado
por Júpiter que tomou a forma desse animal como disfarce, e ainda a menção, sem dúvida de influência literária, dos "férteis prados do vale do Zêzere", onde apascentavam cabras, ovelhas e vacas, um aspecto muito relevante, do ponto de vista do isolamento há a considerar, e tenho em mente
a passagem, por etimologia popular, talvez intencional, de Sameiro a Ci-

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar
meiro. Esta evolução justifica-se pela circunstância de tal agregado ser realmente o último e o de maior altitude antes de Manteigas, no vale do
Zêzere, de jusante para montante. Esta notação de fim do mundo encontra-se reforçada pelo reconhecimento de ser o sítio azado para viver "e
com a afirmação de que" construíram algumas cabanas onde habitaram (4)
consentânea com o surto espontâneo de povoamento inicialmente registado. O carácter bucólico de "locus amoenus", que aqui se nos depara, revela-se único, porquanto ao longo de vários séculos os dados documentais
que apontam Manteigas como "locus horrendus" são em número bastante
maior.»
Ora, neste meu humilde árduo e feliz ofício de servidor das azeréirides - as deliciosas brincalhonas ninfas desse vale glaciar do zêzere coube-me em sorte ir apanhar
o que o ilustre escriba deixou de lado... «Deixando de lado a sugestão mitológica clássica contida na criança arrebatada por um touro, cujo paralelismo
com o rapto de Europa perpetrado por Júpiter que tomou a forma desse
animal como disfarce...» e contar-vos de novo aquilo que muitas vezes já haveis
ouvido desde tempos imemoriais, para de novo encontrar as ligações do nascimento de Manteigas ao nascimento da Europa e à fundação de Tebas...
Cantam assim a LENDAS ANTIGAS:

UMA LENDA DE MANTEIGAS – a possível origem desta terra…
Ora, exactamente no ponto em que o ilustre investigador da história local deixa de lado a sugestão mitológica do engenheiro sivicultor, é exactamente aí
que o pobre poeta contador de petas e istórias decide interessar-se pelo assunto.
O velho jovem figura de mulher, sentado na sua
centenária cadeira de baloiço na sua varanda aberta
sobre o vale do zêzere, deixou pender a cabeça
branca de neve sobre o peito arfante e, de olhos velados pelo cansaço dos anos, começou a divisar a
azeréirides, que em forma de libelinhas - teresinhas,
borboletas e tira-olhos lhe apareciam a zunir aos
ouvidos como a centenas de crianças do tempo da
sua meninice, em que as nossas avós nos contavam
deliciosas istórias à lareira, donde pendiam os apetitosos enchidos...
Como Ovídio, o poeta latino do tempo de Augusto,
que era "um autêntico compêndio de mitologia" ele
sabia que "os mitos não passavam de meros disparates", mas, como ele percebeu que "Não importa
serem absurdos..."se forem servidos ao povo com
aqueles artifícios apropriados que o levem a gostar
deles como se se tratasse de um irrecusável manjar
acompanhado de uma inebriante e preciosa bebida
irresistível a paladar...
As azeréirides, ninfas zoomórficas do rio que corria
ali ao pé, zuniram ao seu redor vezes sem conta e
mostraram-lhe a velha istória do Zeus, que do seu
trono lobrigou a jovem Europa a acordar descuidada
naquela manhã junto à praia e, apanhando a sua
ciumenta Hera - Juno distraída a vingar os seus ciúmes numa outra qualquer das suas amantes anteriores, decide tomar a forma de um enorme belo e

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manso toiro... deixa-se acariciar e enfeitar pelas belas companheiras da jovem Europa que se divertiam
e mal apanha a jovem sentada no seu dorso, voa
sobre o mar e leva-a até ao "locus amoenus" onde
havia de nascer o novo agora velho continente... Era
Creta.
Mas, naquele sonho verdadeiro, que, agora, o velho
jovem, figura de mulher via nitidamente diante dos
seus olhos, não se tratava decididamente de Zeus,
do pai dos deuses, mas do seu astuto rebento, filho
dele e de Maya, que era filha de Atlas, o titã que suporta o mundo nos seus ombros... Era, nem mais
nem menos que Hermes - o Mercúrio dos romanos o ágil e arguto mensageiro e arauto dos deuses do
Olimpo, que executava as suas ordens mais veloz
que o pensamento... com sandálias aladas nos pés...
um chapéu mágico com asas... um caduceu como
bastão encimado, também por duas asas... ele era o
deus dos rebanhos... dos pastores... e "no tempo em
que o gado era o padrão dos preços"... era, sem
contestação ou reparo, o deus dos comerciantes e
ladrões... aliás, era um dote nato, já que "Nasceu ao
despontar do dia / E, antes da noite cair, já tinha
roubado / Os rebanhos de Apolo."
Zeus irritado e orgulhoso por aquele desplante, do
seu filho, que tivera de Maya, sobre o seu filho que
tivera de Leto juntamente Artemisa, a temível Diana, obrigou-o a restituir tudo ao seu legítimo proprietário, que furioso, estava disposto a liquidar o
importuno irmão, mas logo fazem as pazes perante
uma prenda inesperada... Hermes presenteia Apolo
"com a lira que acabara de inventar e fizera com
uma concha de tartaruga..." Também, mais tarde,
havia de ensinar os pastores dos Hermínios a fazer
sonoras flautas a partir de uma simples cana...
Ora Hermes - o Mercúrio alado dos romanos - contaram as azeréirides, desgostoso com as invejas dos
seus companheiros da Corte do Olimpo e conhecedor das artimanhas do seu poderoso pai Zeus - o Júpiter do raio fulminante - que de uma vez fora cisne
para enganar a sua fiel esposa Hera ou Juno e cativar Leda... e depois tomou a forma de toiro para
conquistar Europa... além de outros disfarces infantis e menos dignos do senhor de todos os deuses...
Hermes, como diziam as azeréirides, decidiu esconder-se no local mais ermo e inacessível aos homens
e aos deuses e escolheu como sua morada preferida
os Montes Hermínios lá para os lados do grande
Mar, onde não chegavam as intrigas dos senhores
da civilização da bacia mediterrânica... Para ele não
era qualquer problema. Como se deslocava mais veloz que o pensamento as suas ausências nem sequer
eram notadas pelos seus divinos consócios...
Um dia, Hermes acordou desgostoso... Tinha assistido ao lento deslizar do glaciar que abriu o profundo
vale dos Hermínios e ao fundo, o "locus amoenus"
mais belo que imaginar se podia... muito mais belo e

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

sedutor do que a ilha encantada - Creta - onde as
Horas receberam o par amoroso e o toiro tomando
a sua forma confessou seu amor à encantadora jovem..., esse lugar permanecia desabitado... Ora, é
aqui mesmo que eu quero fundar a terra dos meus
seguidores mais fiéis...
Mas aí Hermes lembrou-se das aventuras de Cadmo,
o irmão da jovem que, para consolar o choroso pai,
Agenor, rei de Tiro, decidiu procurara irmã por todo
o lado...
«... o rei de Tiro nunca deixou de chorar a filha perdida. Então, com alguns servos fiéis, Cadmo, seu filho, atravessou o mar e chegou à Grécia; mas aí
também não lhe deram notícias da irmã, de maneira
que, por fim, perdeu toda a esperança de a encontrar com vida. Sem ela, ele não conseguiria encarar
o pai, e não sabia onde poderia instalar-se. Visitando o famoso oráculo délfico de Apolo, pediu-lhe conselho e foi-lhe dito que seguisse uma vaca que encontraria a pastar sozinha num prado ali perto: no
primeiro sítio onde a vaca se deitasse, ele deveria
construir uma cidade e chamar-lhe Tebas. Depressa
encontrou a vaca que caminhava à sua frente, conduzindo-o e aos seus homens por muitas léguas
através de campos e vales até uma terra de montanhas e planícies que veio a chamar-se Beócia. Aí a
vaca, mugindo aos céus, deitou-se finalmente na
relva, como sinal para Cadmo de que a sua longa viagem terminara. Agradecido, ajoelhou-se para beijar a terra estranha que parecia ter-lhe sido dada
por um deus para ser sua."
Foi então que o nosso herói Hermes, o senhor solitário dos Montes mais secretos até desconhecidos
dos deuses, desgostoso da sua solidão, decidiu atrair para o seu recanto secreto os pastores mais destemidos e ousados que havia à face da terra conhecida...
Descobriu no povo Cimeiro uma jovem ainda criança
que a mãe embalava no seu colo... Como deus dos
rebanhos, mandou que um dos seus toiros apanhasse a mãe desprevenida e lhe arrebatasse a criança
levando-a à desfilada sem ser alcançado até que a
deixou à beira de uns azereiros e outras espécies de
salgueiros, juncos e flores que bordejavam o rio,
onde, depois da fúria que trazia desde os Cântaros
onde nascia até depois do vale entre os mais altos
montes, se começava a transformar em serpente coleante e a transformar as margens em terras fecundas de prados verdejantes ricas paraos pastos de
todos os seus rebanhos e flores das mais variegadas
cores...
Foi aí que acorreram os mais valentes vizinhos da
desesperada mãe que vira a filha arrebatada por um
toiro, o que parecia o mais feroz daquela manada de
castanhos reluzentes.. e, ao verem aquele toiro feroz, depositar carinhosamente a criança que se
chamava Hermínia, entre tufos de ervas e de flores,

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Organização – digitalização / escrita – montagem – joraga.net – 2015 04 -- José Rabaça Gaspar

e aquecê-la com o seu bafo, decidiram ali criar toda
a espécie de gados e rebanhos nas mais abundantes
e nutritivas pastagens que imaginar se pode...
... e, passado pouco tempo, vinham legiões de gentes dos mais variados lugares e povos à procura de
animais e do leite que as reluzentes vacas e luzidias
cabras e ovelhas produziam...
... e como o leite corria abundante, quase como a
água do rio e ribeiras que o alimentavam... passaram a guardá-lo em forma de creme para que chegasse abundante para todos e durante todo o tempo, passaram a fazer outra espécie de creme delicioso e a um chamaram queijo e a outro manteiga... e
como havia creme delicioso, transformado em queijo e manteiga de todos aqueles variados leites, cada
um com o seu sabor mais requintado e saboroso, foi
daí que as Hermínias e Hermínios que se seguiram
passaram a ser procurados como os fornecedores
dos mais deliciosos manjares que só tinham comparação com o néctar e a ambrosia a comida só conhecida dos deuses do Olimpo e chamaram-lhe então:
MANTEIGAS!
E foi assim que "Em face deste quase vácuo documental não admira que o aparecimento de Manteigas tenha passado a constituir matéria mítica..."
Mas não se ficaram por aqui os encantamentos e os
mistérios daquela terra na serra a que se ergue mais
alto a seguir ao grande mar...
As azeréirides e o arguto Hermes conheciam bem o
resto da istória de Cadmo o irmão da bela Europa.
«Mas o local (onde Cadmo, agradecido ajoelhou
como terra dada pelos deuses para ser sua e dos
seus descendentes) tinha um senhor temível com
quem Cadmo teve de ajustar contas. Propondo-se
oferecer um sacrifício a Palas-Ateneia para que ela
lhe fosse favorável, mandou os servos tirar água de
um riacho que brotava de uma caverna escura e cuja foz se escondia num bosque de carvalhos musgosos nunca tocados por um machado. Os homens entraram no bosque mas não voltaram; e ele ouviu o
som de um assobio vindo de dentro, lá de longe, e
viu rolos de fumo malcheiroso espalhando-se por
entre as árvores. Avançou e encontrou os servos
mortos à frente da caverna, queimados pelo bafo de
um enorme dragão que estendia para ele as suas
três cabeças de fogo, cada uma com três filas de
dentes que rangiam, e através dos quais exalava
vapores venenosos, com os olhos brilhando como
fogo e a crina vermelha faiscando na sombra da
abertura da caverna, à medida que avançava o pescoço comprido para lamber os corpos dos mortos.
Destemido, o herói enterrou nele a espada tão directa e fortemente que do peito do dragão jorrou sangue negro, que se misturava com a espuma da sua
fúria. Agora ele desenrolava todo o seu monstruoso
corpanzil e, saindo da caverna, levantava as horríveis cabeças, como árvores que iam cair sobre o

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

homem que ousara enfrentar a sua fúria. Mas Cadmo aguentou a investida batendo com toda a força
nas fauces de fogo, até que lhe enterrou a espada
pela garganta cheia de veneno, pregando-o ao tronco de um carvalho. O monstro torceu os pescoços e
agitou o rabo como se quisesse dobrar a grande árvore, mas as raízes não cederam e a espada ficou
firme; assim, ali ficou ele contorcendo-se em desespero, enquanto o bafo de fogo era apagado pelo seu
próprio sangue.
Ileso, Cadmo ficou em cima do corpo sem vida,
quando reparou que Palas estava a seu lado, vinda
do Olimpo para fundar uma cidade que iria desenvolver-se sob a sua égide.
"Planta os dentes do dragão na terra", mandou ela.
"Deles nascerá uma raça de guerreiros que ficarão
às tuas ordens."
Muito admirado com este conselho, Cadmo não lhe
desobedeceu. Cavou sulcos profundos com a espada;
arrancou os dentes do dragão morto e plantou-os na
terra ensopada de sangue. Logo a terra começou a
mexer, a inchar e a eriçar-se de pontas de espadas; e
então, de repente, surgiu uma seara de homens armados cujas espadas se entrechocavam como trigo
batido pelo vento. Mal os guerreiros recém-nascidos
estavam completamente crescidos e fora dos sulcos,
atiraram-se uns aos outros na sua ânsia de pelejar. E
tão ferozmente se bateram que, antes do pôr do Sol,
todos tinham morrido excepto cinco. Estes cinco,
cansados de derramar sangue, puseram de lado as
armas e ofereceram-se para servir Cadmo no lugar
dos seus companheiros mortos pelo dragão.Com o
seu auxílio, ele construiu a cidadela que veio a chamar-se Tebas. A nova cidade prosperou, mas o seu
primeiro senhor teve de sofrer por causa dos inimigos, tanto no céu como na terra. O dragão-serpente
que ele matou era sagrado para o deus Ares que,
durante muito tempo, teve má vontade contra
Cadmo por causa dessa morte. Sobre a sua casa foi
lançada uma maldição. Os filhos e os filhos dos filhos tiveram tristes fins, e entre eles Ino, que se afogou depois de o marido, num ataque de loucura, ter
assassinado o filho de ambos e Sémele, consumida
pela feroz glória de Zeus, quando se tornou mãe de
Dioniso. O próprio Cadmo, diz-se, foi destronado pelo neto Penteu. Quando velho, o rei que tantos infortúnios sofrera, teve mais uma vez de partir, apátrida
mas não sozinho, pois com ele foi a sua fiel esposa
Harmonia. Vaguearam pelas florestas setentrionais,
até que este outrora destemido herói, derrotado pelas doenças e esmagado pela praga do sangue do
dragão, murmurou resignado:
"Se uma serpente é tão querida dos deuses, quem
me dera ser serpente em vez de homem!"
E imediatamente caiu sobre o peito com a pele
transformada em escamas e o corpo em anéis pintalgados. Quando Harmonia viu como o marido se

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Organização – digitalização / escrita – montagem – joraga.net – 2015 04 -- José Rabaça Gaspar

transformara, rezou para que também ela passasse
a ser uma serpente; e a sua prece também teve resposta. E ali vivem ainda sem fazer mal a ninguém, e
sem se esconder da vista dos homens seus antigos
companheiros.»
Aqui não foi Cadmo e Harmonia que se transformaram em serpentes... foram as Hermínias e Hermínios
que sofreram tormentos para erguer esta Terra e se
transformaram em serpentes que aí se estendem
desde os altos montes até ao rio grande, ora correndo mansos e cantantes alimentando os campos
verdejantes que depois os árabes ensinaram a multiplicar em açudes poços e levadas... ora correm furiosas e imparáveis arrastando tudo... mas para tornar tudo de novo limpo e belo e fecundo... de outras
vezes, nas estações mais amenas, quase desaparecem tornando-se invisíveis ou passando despercebidas como a garganta do Tornáqua que oculta mil
mistérios e segredos... e onde os "sonhadores" já
puderam assistir a rituais fantásticos de fantasmas
que olhados por desconhecidos mais parecem orgias
idescritíveis...
E é assim a istória mítica de uma terra, a minha terra
na serra, que se chama Manteigas, ligada pelas lendas, à cultura mais antiga e rica, que enche a Terra
de poesia, encanto e fantasia...
José da Serra do Vale Glaciar do Zêzere
Ano - dois mil e três metros de altitude...
Lugar - onde CORRem arrOIOIS para A MAR...
... a remeter para ontras lendas e "falas", contos,
cantos e encantos que se apresentam noutros "espaços" desta TEIA que se tece e desfaz sucessivamente... ao sabor dos artesãos, poetas e contadores
que, no seu deslumbramento, as vão tecendo e desfazendo ao sabor dos tempos e do fascínio dos conta/ouvidores de istórias...

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

A LENDA NA BOCA DO NOSSO POVO - José Lucas Baptista Duarte
in ANTOLOGIA - I, Depoimentos Histórico - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
de José Lucas Baptista Duarte -- CAPÍTULO DÉCIMO - pp. 253 - 279

Câmara Municipal de Manteigas, 1985

http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/520manteigas0.htm
«A Lenda é, por assim dizer, o pão de que se alimenta e vive, sonhando sempre, a fantasia poética de
um Povo, a sua sensibilidade sonhadora no que a tradição tem de mais puro e arreigado à memória do
seu passado remoto.
Nem toda a Lenda é pura ficção, tendo algumas a enformá-las factos concretos cuja história a fantasia
popular ampliou, compôs e moldou a seu modo, ao gosto dos costumes tradicionais das suas gentes, ao
sabor das suas crenças religiosas e pagãs, e, porque não dizê-lo (?) ao modo simples e deleitoso das suas
crendices, das que constituem o encanto da criança e o passatempo predilecto do velho avô que as conta, mais ou menos convencido da sua veracidade, aos netos queridos que o rodeiam fazendo-lhe perguntas, amenizando-lhe o viver cansado dos invernos já passados... de muitas dezenas de invernos de
que até ele perdeu o conto, a desabar para a centena - um quase fenómeno que cada vez mais vai rareando, o que até nos faz sentir certa forma de saudade...
Para gosto de muitos e para que não se perca a tradição, aqui se repõem, para os vindouros, tantas dessas Lendas quantas foi possível recolher para este trabalho. Elas nos falam da nossa Terra e da Serra, das
suas fadas e pastores, dos Milagres dos seus Santos, dos seus Rios e das Estrelas que parecem poisar no
pináculo destas mais que famosas penedias em eterno desafio ao Infinito deste imaculado azul-celeste.»

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LENDA DA PRINCESA ESTRELA --Extraída da "Monografia da Vila de Seia" De P. José
Quelhas Bigotte

"Nos tempos recuados da Idade Média, vivia junto dos Montes Hermínios, numa vasta planície, um rei
godo, do povo muito amado. Houvera de sua mulher uma linda menina, branca como luar de Janeiro,
cintilante como as estrelas douradas a luzir no firmamento nas noites límpidas e puras.
- É branca como as estrelas - diziam as aias que a vestiam. E os pais da princezinha sorriam de contentamento e diziam um para o outro: - Pois há-de chamar-se Estrela.
Este lindo nome recebeu no Baptismo e, quanto mais crescia, mais as estrelinhas, suas irmãs, invejavam
a sua beleza.
Na côrte havia um cavaleiro esbelto chamado D. Diego (ou Diogo - já se não sabe ao certo) que gostava
muito da princezinha. Muito se amavam, e passavam juntos, em alegria, horas infindáveis...
Veio um dia a guerra contra os árabes, em terras distantes, e D. Diego partiu com o Rei. A linda Estrela
ficou desolada, cheia de saudades, a chorar seu cavaleiro ausente.
O coração não suportava essa separação já longa, e resolveu subir aos altos montes das redondezas a
ver se avistava D. Diego no seu regresso. Foi com as aias até ao cimo dos mais altos penhascos onde trepava todos os dias na esperança de ver, ao longe, o cavaleiro ousado, o seu querido D. Diego, no seu cavalo branco em que fôra pelejar contra os mouros.
Dos cerros íngremes, tão altos que quase o céu se tocava com a mão, a linda princesa espraiava o olhar
na distância infinda, mas, do seu cavaleiro ausente, não divisava nada. Triste, muito triste, mais triste
que a noite, clamava em alta voz:
-- Mom-Diego! Mom-Diego! porque não vens? Só as rochas negras repercutiam o eco: - Mom-Diego!
Mom-Diego!...
Assim passaram os dias, assim correram as noites de infindável angústia durante os quais os olhos da
princezinha eram duas fontes de lágrimas de água pura a correr...
Água tanta seus olhos derramaram, que ela foi correndo serra a
baixo...
Os pastores e as gentes da serra ouviram ainda, durante muito
tempo, o eco das cavernas repetindo as exclamações da princesa
que ali morreu de pena: - Mom-Diego! Mom-Diego!...
E, por isso, deram o nome ao rio que ali se formou das lágrimas da
princezinha e que é, nem mais nem menos, que o nosso Mondego.
E à Serra alta que, até então, se chamava Montes Hermínios, deram o nome da formosa Estrela, tão linda, esbelta e formosa como as estrelas do céu!... "
Extraída da "Monografia da Vila de Seia"
De P. José Quelhas Bigotte

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

LENDA DOS TRÊS RIOS (Mondego, Alva e Zêzere) -- VISCONDE DE SANCHES DE FRIAS
"Estrela da Beira" Nº 97 (11-2-1934)

Nascente do Rio Zêzere Cascata da Caniça
http://papyruseditor.com/web/11920/Maravilhosas-Paisagens

-- http://pt.slideshare.net/naliniram/o-rio-mondego-sofia

Rio Alva, perto de vila Cova de Alva
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Alva

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"O Mondego, o Alva e o Zêzere, nascidos da mesma mãe serpeando pelas vertentes da Serra da Estrela,
em santa irmandade, amigos e camaradas, viviam tranquilos e alegres, mirando-se cada qual na limpidez das suas águas, e escondendo-se nas gargantas, furnas e sorvedoiros da gigantesca Serra.
Uma tarde, já quase boca da noite, envolveram-se em azeda conversa porque se arrogaram valentias, ao
que parece, prometeram romper as prisões que os detinham, trovejavam rivalidades, e acabaram por
desafiar-se para corrida vertiginosa, cuja meta seria o corpo enormíssimo do mar.
Era o que ia ver-se.
O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou a correr brandamente para não
fazer barulho e não levantar suspeitas, é de crer, desde as vizinhanças da Guarda, nos territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim, e dirigiu-se, depois de se ter robustecido com a ajuda
dos colegas que vieram cumprimentá-lo à "Raiva", na direcção de Coimbra, depois de ter atravessado,
ofegante, as duas Beiras.
O Zêzere, que também estava alerta, entrou de mover-se ao mesmo tempo que o Mondego, ocultandose até certa distância nas anfractuosidades do seu leito penhascoso. Foi direito propriamente a Manteigas, onde perdeu de vista o colega, passou também os terrenos da Guarda, correu para o Fundão, desnorteou obliquando para Pedrógão Grande e, finalmente, depois de ter atravessado três províncias, deu
consigo em Constância, na Extremadura, abraçando-se ao Tejo, a quem ofereceu as suas águas, já cansado de caminhar umas 40 léguas, e desesperançado de alcançar o mar.
O Alva, dorminhoco e poeta, embora esses atributos não sejam sinónimos, entreteve-se a contemplar as
estrelas, mais do que era prudente, adormeceu confiado no seu génio insofrido e nervoso, e quando
despertou, alto dia, estremunhado, em sobressalto, avistou os colegas a correr sobre distâncias a perder
de vista!
Um desastre, não havia que ver! Uma imprevidência que era forçoso remediar.
O Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou
despenhadeiros, bradou vingança temerosa, rugiu, e, quando julgou que estava a dois passos do triunfo,
foi esbarrar com o seu principal antagonista, o Mondego, que lá ia, havia horas, campos de Coimbra fora, em cata da Figueira, onde se lançaria, jubiloso, no seio do Oceano, ao ganhar a porfiada contenda. O
Alva esbravejou, como atleta sanhudo, atirou-se ao adversário a ver se o lançava fora do leito, espumou
de "raiva" mas o outro, que deslizava sereno e forte, riu-se, e... enguliu-o de um trago!
Ao lugar da contenda e foz do Alva, chama-se propositadamente "RAIVA" em memória da sua atitude e
do caso tremebundo."
VISCONDE DE SANCHES DE FRIAS
Do "Estrela da Beira" Nº 97 (11-2-1934)

David Correia Sanches de Frias,
1º visconde de Sanches de Frias

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

O MISTÉRIO DO CRASTO E A LENDA DE ALFÁTIMA (ou ALFÁTEMA ) -- MANUEL FERREIRA DA SILVA
"Ecos de Manteigas" Nº 71 de 5-2-956
"Já por várias vezes temos dito que, subir à
Serra da Estrela, não é apenas escalar um
ponto geográfico da nossa terra: é, mais do
que tudo, peregrinar no tempo e na lenda,
juntando na mesma devoção à Serra os nomes mais interessantes da nossa História antiga e moderna - Viriato e Fátima.
Viriato aqui nasceu e dominou, percorrendo
a Estrela, os belos Montes Hermínios, de cabelos soltos ao vento, medindo a passos largos a Serra em todas as direcções.
Fátima aqui viveu, igualmente, no doce enleio de um amor que não passou de um sonho, a cuja realização se opôs, ao tempo o
orgulho de seu pai e, mormente, a diferença
rácica e religiosa entre ela, moura de sangue
e de fé, e o guerreiro cristão.
O tempo encheu-se de neblina, e a história
do facto revestiu-se de lenda, comunicandonos o belo maravilhoso que, agora, nos sabe
tão bem recordar.
“... Ora, vivia ao tempo, como senhor absoluto destes domínios (Manteigas e seus limites) um EMIR, possuidor de seu castelo e detentor avaro da
enorme riqueza de sua filha Fátima a, mais que todas, formosa Moura."
"Sorriso como nunca deparara,
Tão belo corpo e mui formosa cara.
diz um poeta.
"Não dormiam os cristãos da vizinhança que, hora a hora, esperavam o momento oportuno de escalar a
serra a toda a altura e conquistar, para seu rei, todos os redutos mouros dos Montes Hermínios.
Um dia descobriram a riqueza misteriosa dessa formosura mourisca, verdadeira "huri" do paraíso do
amor.
Não tardou que a moura e o cristão se fizessem entender de longe, na linguagem silenciosa e apaixonada dos olhares esquivos. E, pouco a pouco, se organizava já, nos arraiais cristãos, o assalto ao castelo
dos Mouros (nome por que ainda hoje é conhecido certo lugar do Vale do Zêzere, em Manteigas), para o
rapto daquela que eles consideravam já a formosa cativa que vinha, às escondidas do pai, alta noite, pelo luar, que na serra tem um mistério singular, sobre as ameias do castelo, debruçar levemente o seu
busto, no doce enleio do seu próprio susto."
Mas cedo compreendeu o Emir
que um fogo lento,
mistério ignorado, íntimo tormento,
mistério de amor, nascido num momento",
começava a invadir-lhe a fortaleza,
sem que suas armas o pudessem suster.

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E, certa noite, depois de ter escondido todo o seu oiro nos subterrâneos do Castelo, foge com sua filha,
em difícil e perigosa jornada, pela serra.
A "Barroca da Moura", a "Serrana", são nomes e sítios que nos legaram, com o tempo, os segredos dessa fuga, em que a formosa agarena sucumbiu de tristeza e cansaço.
A serra é alta e longa. Para lá de um monte, outro monte... e o fim parece nunca mais chegar...
Mas, de súbito, um enorme clarão rasga o espaço. O caminho parece agora mais breve. É que, às ordens
do Emir, alguns emissários tinham partido adiante, anunciando a sua fuga ao palácio do Cabeço, (Coruto
ou Crasto) onde uma fada, madrinha da Moura, os esperava agora, para os envolver nos seus encantos e
os defender de quantos os perseguissem.
O que lá se passou ninguém sabe, mas o que se sabe é que, no dia seguinte, marcado para o assalto e
para o rapto, acordam os arraiais cristãos alvoroçados pela estranha novidade da fuga do Emir e da sua
filha Fátima.
Pastores desconhecidos percorriam, desde a hora da fuga, a serra em todas as direcções, encantando-a
todos com a magia das suas flautas.
E, a partir de então, toda a serra se encheu de maior mistério ainda.
Nunca mais o povo de Manteigas esqueceu os caminhos de Alfátima onde, durante muito tempo, foi,
em jornada de encanto, visitar esse Cabeço, hoje apenas com restos de ruínas, esperando que não esqueçam sua lenda e seu maravilhoso.
E, logo em volta do Coruto ou Cabeço de Alfátima, outras lendas surgiram.
Conta-se de uma rapariga encantada que por ali passou em manhã de S. João, antes de o sol nascer.
Cansada da jornada, longa e difícil, que já tinha feito, sentou-se a donzela a descansar, e adormeceu... e
sonhou. E viu a seu lado as gotas de orvalho transformadas em estranha fruta, que ela apanhou e meteu
para seu bornal e, levando-a consigo para as horas de menos fartura... partiu.
Já longe, sentiu despertar-se-lhe um estranho apetite e, metendo a mão no bornal para comer algumas
dessas frutas, semelhantes a figos secos, verificou e com espanto, que toda a fruta se transformara em
ouro, de muita valia e peso.
E vai logo dali, de alma ambiciosa, caminho do Cabeço, para apanhar o resto que lá tinha deixado.
Começavam já os primeiros raios de sol a doirar os cimos da Estrela, quando a rapariga chegou a Alfátima. Procura... procura... mas em vão.
E logo uma voz lhe canta:
"Tudo era teu quanto viste,
Agora tornaste em vão.
Não passes mais neste sitio,
Na manhã de São João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode perder-te a ambição."
E nunca mais a lenda se perdeu, e aqui se reproduz em sinal e testemunho da
sua perpetuidade."
MANUEL FERREIRA DA SILVA - Do "Ecos de Manteigas" Nº 71 de 5-2-956

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Manuel Ferreira da Silva

uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

SENHORA DO ROSÁRIO - LENDA POPULAR DE MANTEIGAS -- Viriato Zêzere - ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO
"Ecos de Manteigas" Nº 78 de 27-5-956

LENDA POPULAR DE MANTEIGAS
"Existia na antiga Igreja Paroquial de Santa Maria, ao lado da Capela das Fidalgas, um altar em estilo gótico-romano, ao qual se atribuía uma idade respeitável, adivinhada nos rendilhados da sua construção,
na cor dourada dos seus dourados e, além disso, na corrupção das suas madeiras.
Do alto, uma imagem de mulher deveras formosa, contemplava, num sorriso de virgem, acolhedor, os
lábios dos fiéis, balbuciando o seu nome, ao ser invocado nas horas de aflição.
Então, os olhos, da Virgem, tinham não sei que estranho brilho a destacar na penumbra carregada do
templo. Outras vezes, a capa, semeada de ondas verde-mar, agitava-se repentinamente e dava a impressão de que a Virgem, envolvia no cimo das ondas encapeladas de algum mar traiçoeiro, a deitar o
cabo de salvamento, que era o terço, a algum náufrago em agonia. Depois, retomava o sorriso de sempre, a olhar o Menino Jesus sentado no seu braço direito, que estendia o bracito nu para a frente, a segurar na palma da mão uma embarcação de velas desfraldadas.
Hoje já não existe nem o altar nem a Virgem. Era a Senhora dos Mareantes, a Virgem Senhora do Rosário.
Por muito tempo habitou a casa de uma velhinha, cujas mãos trémulas a vestia e enfeitava, dando-lhe o
tratamento significativo de Mãe.
A lenda popular, que gostosamente restauro, fazendo-a ressurgir do esquecimento em que caiu, foi-me
contada por uma venerável anciã, acrescida com o pormenor rústico de que, muitas vezes, iam encontrar as vestes, de tão milagrosa santa, molhadas em água salgada, tendo nas fímbrias do seu manto conchas do mar e areia.
Sorri, não desfazendo afirmação tão ingénua, porque sei que o povo tem uma religião sua, pouco em
harmonia com os textos sagrados, mas curiosa como documento étnico.
A lenda da Senhora do Rosário foi, em tempos idos, motivo de orgulho, comenda de que se ufanavam
todos os Manteiguenses. Jóia preciosa que eles mostravam aos de fora com estas simbólicas palavras:
- "É a nossa Santa! Aquela que salvou os marinheiros!"
Como poderia isso acontecer?
É uma velhinha de cabelos alvos, fios de prata a coroar-lhe a fronte, a voz a tremer-lhe de comoção e
respeito, que nos conta:
"Foi em Mil quatrocentos e... Portugal desvendara ao Mundo, Novos Mundos. As naus, em cujos mastros tremulava o lábaro sagrado das quinas, sulcavam os mares em todas as direcções a firmar, com padrões encimados pela cruz de Cristo, as balizas dum grande Império.

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Uma esquadra que partia, e logo a notícia de novas descobertas, Novos Mundos, colossal desbravamento dos cabouqueiros portugueses!
Pela Pátria corria o frémito dos grandes dias, das grandes datas.
Realizavam-se as mais importantes descobertas e soavam, como clarins de fama eterna, os nomes nunca esquecidos de Dias, Gama e Cabral.
Vergavam-se ante o ardoroso e audaz lusitano os mais temíveis potentados estrangeiros, que se vêem
obrigados pelos imorredouros Albuquerque, Pacheco e Almeida a pagar tributo ao "Rei de Portugal e
dos Algarves, d'Aquém e d' Além-Mar em África, Arábia, Pérsia e Índia".
Foi nesse tempo!... (era de Glórias a levantar bem alto uma Nação pequenina) que um capitão regressava de longínquas paragens, com a nau carregada de especearias, que valiam riquezas fabulosas. Já há
muito que tinham largado da sua procedência, e poucos dias faltavam para chegar ao seu destino.
A ânsia de abraçar os seus, que por muito tempo já não via, levava-o a olhar ao longe o céu e a água, a
ver se descobria a Terra da Saudade, a Terra bendita de Portugal...
Olhava o mar azul, contemplando as suas águas que a proa da nau abria, com reprimível ansiedade,
agarrado à amurada da coberta... Mas em vão!
A noite fechava-se para, na manhã seguinte, aparecer o cenário grandioso de sempre, de todos os dias:
Céu e água!
Numa tarde, tarde de Agosto a queimar, encontrava-se ele no mesmo posto a observar o sol a esconder-se, vermelho-vivo, cujas reflexões punha nas ondas cintilantes dourados fantásticos. Dir-se-ia que o
mar era de ouro e prata, na distância a perder de vista.
A aragem, que enfunava as velas, fazia levantar ondas de espuma a luzir como palhetas de ouro, que vinham desfazer-se, mansamente, nos costados da embarcação.
Pouco a pouco, porém, começou o tempo a arrefecer, o vento a soprar com mais força, fazendo gemer
os cabos das enxárcias.
As águas turvavam-se e nas cristas das ondas apareciam algas e plantas marinhas, que os albatrozes e
gaivotas, em rápidos voos, procuravam sofregamente.
Ao capitão não agradou aquela mudança brusca do tempo. Contemplava o mar com atenção, a querer
sondar o abismo do gigante, quando um marinheiro, familiarmente, lhe perguntou: - Quantos dias faltam para chegarmos a Portugal, meu capitão?
- Dia e meio, se a Virgem do Rosário nos levar a porto de salvamento, mas com o andamento que levamos, devemos ancorar amanhã por estas horas. Receio, contudo, um contratempo, nada agradável. Vês
aquelas nuvens escuras, o mar revolto e as algas ao cimo das ondas? Não reparaste como o vento assobia por entre o velame? Tudo isto indica próxima tempestade, talvez ainda para esta noite. Amaina a vela grande, arreia o traquete, colhe a bujarrona e prepara a marinhagem para a borrasca.
... ... ... ... ...
Anoitecia!
O mar cada vez se picava mais, e bem depressa se viu que as previsões do capitão não eram infundadas.
A nau, impelida com a força prodigiosa do tufão, corria veloz sobre vagas alterosas, que ora a elevava
como frágil brinquedo na crista espumante das ondas, ora a sepultava com temerosos ruídos nas profundezas do abismo.
Estranhos rumores se elevavam no espaço ao entrechocar das enormes massa líquidas, cujo desfazer
semelhava o desmoronar ciclópico de gigantes serras.
O vento atingia velocidades desconhecidas e a mastreação rangia em dilacerantes gemidos, fazendo
embrenhar a nau numa carreira vertiginosa e desordenada. Um solavanco mais forte partiu o quadrante, e outro fez paralisar o leme. O relógio do sol e a bússola também ficaram avariados.
Daí para diante, a embarcação deixou de ter governo, estava entregue à sorte, à mercê do destino.
Os relâmpagos iluminavam sinistramente o espaço e o mar revolto; os trovões juntavam ao bramido das
ondas o estrépito do seu ribombo. A nau, agitada por forças ocultas, inclinava-se assustadoramente para todos os lados, não deixando sequer manter de pé a tripulação, que se agarrava desesperadamente a
todas as saliências, para cumprir as ordens do capitão que, na coberta, encharcado, mal podia resistir ao
embate das ondas. A água, que em grandes rajadas varria o convés, tinha arrastado para o Oceano, de
mistura com o cordame, alguns utensílios valiosos, tais como: âncoras, amarras, velas, cabos, gramos,
etc. Tudo era presa do terrível furacão. Uma lufada devastadora galgou a ponte, arrancou a amurada, e
foi ter, em grande jacto, ao outro lado.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

A marinhagem corria o risco de ser arremessada ao seio do mar e tragada pelo remoinho das águas em
torvelinho devorador.
Parecia que os elementos se conjugavam na destruição da nau.
Quem lhe poderia valer, sem governo, quase despedaçada, agonizante naquele grande sepulcro, que
era o Oceano?
Ninguém, a não ser a Providência.
Foi na Providência Divina que o capitão pôs as suas esperanças.
Fazendo reunir os homens na tolda e expondo-lhes o perigo que os rodeava, disse-lhes:
- Meus amigos, queridos marinheiros, que muito tempo servistes debaixo do meu comando:
Nas tristes circunstâncias que nos rodeiam, tendo por caixão este barco desmantelado pelo temporal, e
por cemitério a voragem das águas que nos cercam, eu não sou o capitão a cuja guarda estava confiada
a direcção da nau, nem aquele no qual depositáveis todas as esperanças nas horas de maior perigo. Não
sou o destemido que lutou a vosso lado na ocupação de Java. Não sou o capitão cujas ordens e planos
de batalha tornaram possível a conquista de Sumatra. Não sou o caudilho cujo entusiasmo vos levou a
ocupar Bornéu. Em todas as partes vencemos. Homens do mar, vivendo nele, falando e segredando-lhe
as confidências, habituados aos seus bramidos de revolta, devassando-lhe a incógnita que o torna misterioso aos olhos da Europa, sendo nós, portugueses, os primeiros a sulcar, temerariamente, estes mares que nunca por ninguém foram navegados, vede como somos ínfimos perante a sua força indomável.
Este mar que nós conhecemos e que nos conhece, o mesmo que vai suavemente beijar o litoral português, é o mesmo que hoje nos ameaça sepultar para sempre no insondável das suas águas.
Que poderei eu fazer como capitão? Nada, absolutamente nada.
Nas circunstâncias em que nos encontramos, repito, não sou o capitão, mas sim um homem como vós.
Capitão é Deus. Estamos entregues à sua vontade soberana. Que ele se amercie de nós nesta hora trágica que passa, e que a Senhora do Rosário ouça a súplica destes náufragos no meio da tormenta.
Nada nos pode valer, a não ser a sua milagrosa interferência.
Prometo oferecer-lhe um vaso sagrado e uma custódia para o seu altar, se nos levar sem novidade a
porto de salvamento. Ajoelhai e orai, nada há a fazer, senão que Ela nos salve.
A escuridão era intensa, apenas iluminada pela luz vítrea dos relâmpagos, que punham no negrume da
noite riscos incandescentes de milhares de faíscas.
Quantas horas seriam?
Que caminho teriam andado nas trevas da noite?
Para onde os teria levado a borrasca naquele andamento fantástico?
Qual a distância percorrida?
Um relâmpago mais forte iluminou, por momentos, a imensidade do mar, e imediatamente uma voz gritou:
- Terra à vista!
Era o gajeiro.
Todos se precipitaram a esquadrilhar as trevas, mas o temporal redobrava de violência cada vez mais.
Com a terra já assim tão perto, mais iminente era o naufrágio.
A desolação lia-se naqueles rostos habituados a suportar com verdadeira coragem os reveses do destino, e num instinto colectivo, todos se tornam a ajoelhar invocando: "Senhora do Rosário nos acuda, Senhora do Rosário, salvai-nos"! No mesmo instante, inundou-se a atmosfera de luz e fogo, e um raio
enorme veio esfacelar, pelo meio, o mastro do traquete. O vulto escuro da terra aumentava rapidamente, enquanto a tripulação continuava ajoelhada a balbuciar: "Senhora do Rosário, salvai-nos"!
É nesse momento de opressão angustiosa, quando todos julgavam despedaçar-se de encontro à costa,
que o Céu se abre de estranha claridade, e a Virgem, tendo no seu braço direito Jesus que sorri, indica
com a mão esquerda o litoral aos navegantes.
Por momentos, todos embevecidos, contemplavam as feições de tão formosa Senhora; depois, sentemse elevados a uma altura prodigiosa e arremessados por uma onda gigantesca a uma praia de areia que
prende a nau, enquanto as águas se escapam produzindo enorme ruído. O cavername estala sob a pressão e a embarcação parece desconjuntar-se.
Estamos salvos!
Dos seus peitos oprimidos sai, como desabafo, o grito de gratidão para com a Virgem.
Milagre! Milagre! A Senhora do Rosário salvou-nos!

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Amanhecia, surgindo os primeiros alvores da madrugada. Com a primeira claridade surgia a bonança, as
nuvens eram varridas em últimas rajadas, deixando a atmosfera limpa de uma côr azul, do azul de Portugal.
Rompia o Sol a dourar as encostas e os campos. As avezinhas chilreavam madrigais sonoros na terra entre as ramarias; as gaivotas, em voos graciosos, poisavam na crista das ondas, que eram mais pequenas,
cada vez mais limpas, a espraiarem-se na areia e a deixarem, no seu rápido estar, os indícios do medonho vendaval. Eram as plantas aquáticas, algas, cordame e tábuas velhas, lodo, conchas, pequenos moluscos mortos e uma série de pequenas coisas a atestar a violência do furacão.
Passou um mês.
O capitão desejava saldar a promessa que fizera à Virgem.
Mas como, se em todas as igrejas se adorava tão venerada imagem?
Era este um problema de difícil solução. Como achar nas diversas imagens, que de certo encontraria, o
retrato fiel da que lhe aparecera e à qual entregaria, então, a sua oferta?
Obra bastante difícil, senão impossível.
Resolveu, por isso, peregrinar até achar a imagem verdadeira da aparição.
Percorreu igrejas e mosteiros, catedrais e simples capelinhas, nichos, ermidas. Tudo infrutífero, já desanimava, sem resultados satisfatórios.
Té que um dia... dia de honra para Manteigas e de glória para os seus habitantes, aqui chegou.
Foi à Igreja Matriz de Santa Maria, e qual não foi o seu espanto, ao deparar-se-lhe uma Senhora, sorridente, a Virgem que lhe aparecera!!!
Cai de joelhos, a chorar de alegria e a exclamar: "É esta, foi esta que nos salvou"!
Depôs a seus pés, no altar, a custódia e o vaso sagrado, que desde os tempos gloriosos das descobertas
ficará, para sempre, a pertencer à Igreja Matriz de Santa Maria, pela milagrosa aparição da Virgem aos
navegantes."
Hoje, somente o vaso e a custódia existem. O altar, em estilo gótico-romano e a Virgem a sorrir, acolhedoramente, tendo nos olhos um estranho brilho a destacar-se na penumbra carregada do templo, e o
seu manto a agitar-se com invisível brisa, tudo desapareceu no rodar inclemente do tempo"..
Viriato Zêzere
ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO
Do "Ecos de Manteigas" Nº 78 de 27-5-956

(Em vez do "vaso e da custódia" oferecidas pelo agradecido "Capitão" - uma "Adoração do Magos")

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LENDA DA NOSSA SENHORA DOS VERDES -- por VIRIATO DE ZÊZERE
Do "Ecos de Manteigas" Nº 52, de 10 de Abril de 1955. Subscrito por VIRIATO DE ZÊZERE,
do livro "A Fraga da Cruz" que tencionava publicar, o que a morte prematura não lhe permitiu.
LENDA DE NOSSA SENHORA DOS VERDES
Viriato do Zêzere
In ANTOLOGIA – I MANTEIGAS SAMEIRO
de José Lucas Baptista Duarte, 2ª Edição C M Manteigas
"Debaixo de uma carvalha secular, onde ao Sol-pôr, coada pela ramaria, uma luz fresca e irisada ia envolver a Virgem no seu doirado altar, ficava a Capela da Senhora dos Verdes. O ambiente era doce e perfumado...
O Sol estivera de abrasar naquele mês de Julho. As fontes secaram com o estio, e nos ribeiros, nem mais
ténue fio de água escorria. Os magros e famintos passarinhos poisavam a miúdo nas eiras com os biquitos abertos da língua ressequida.
As hortas e pomares vergavam torcidas pelo calor, cheias de lagartas esverdeadas e repugnantes.
Era uma tristeza ver como se elevavam os arbustos - paus ressequidos, desfolhados pela seca que lhe
mirrava as folhas, e pela lagarta que roía os ramos tenros.
Sentada no balcão da sua casa branca e alegre, a Maria Clara - a Clara do Gaspar, como lhe chamavam -,
chorava a soluçar, cabeça entre as mãos, a olhar ao longe os campos devorados e a desfazerem-se em
pó as últimas folhas.
- Nossa Senhora dos Verdes nos acuda; que Ela tenha piedade de nós, murmurava baixinho.
Todos os anos, pelas Festas da Senhora, nenhuma oferta se podia igualar à do Gaspar que, à sua custa e
pelas mãos da Maria Clara, lhe enfeitava o andor e vestia a formosa Imagem, sempre com um manto
novo. E era tão grande a sua fé na Senhora dos Verdes, que fizera colocar na cabeceira do seu leito Imagem igual à da Capela.
Mas um dia que fora às suas propriedades e que viu as culturas devastadas, julgou ter enlouquecido;
não podia acreditar na verdade.
Prometeu construir um andor novo à Senhora dos Verdes se a lagarta lhe poupasse as suas sementeiras,
e guardava sempre a certeza de que a Virgem lhe acudiria. Por fim, convencido pela evidência, a sua dor
foi enorme. Não se lamentou.
Na sua desgraça de homem a quem roubam os seus haveres, abandonou o trabalho, esqueceu a mulher
e renegou a própria Senhora dos Verdes.
Ela que não ouviu a sua prece, Ela que conservava a mesma expressão sorridente quando tamanha desgraça o aniquilava, Ela não podia ter erguido em seu peito de rude, mas fervoroso cristão, o Altar de
respeito e confiança em que A colocara.
Apesar das súplicas da mulher, dos rogos do Abade, das ameaças, até, da gente do campo, nesse dia em
que se realizava a Festa da Senhora, abalou alta madrugada para o Pomar, sem ter rezado à Santa Padroeira das culturas.
Decorreu todo o dia sem voltar a casa.
- Porque chorava a Clara, sentada no balcão? Que desgostos tamanhos para dos seus olhos castanhos
correr o pranto sem fim? ...
É que temia que a Virgem, desamparando o homem, os lançasse por completo na desgraça.
Pobre Maria Clara... Era a hora em que os rebanhos desciam para os redis. Ouviam-se, de espaço a espaço, os gritos dos pastores:"
- Eh! laranja... Volta, lagarta... Uma pedrada certeira fazia regressar de pronto ao rebanho a rês que fugira.
A mulher do Gaspar olhava, com os seus olhos lacrimosos, algumas nuvens que forravam o horizonte de
uma côr cinzento-escuro, e o voo assustado da passarada procurando abrigo para passar a noite. Súbito
bateram Trindades... e a Clara benzeu-se e devotada- mente foi rezando:
- Avé Maria cheia de Graça...

Era assim a primitiva e primeira Capela de Nossa senhora dos Verdes à sombra da carvalha secular

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Lá em cima, no caminho do pomar, era um formigar de gente a acompanhar, em procissão, a imagem da
Virgem. O Gaspar, quando a Senhora dos Verdes passou, apesar de toda a sua valentia, sentiu o remorso
revolver-lhe o coração e os seus lábios, a medo, entreabriram-se numa prece:
- Senhora dos Verdes, valei-nos...
Pareceu-lhe que a Imagem lhe sorria cheia de bondade e durante largo tempo contemplou a Virgem a
quem o povo seguia, rezando. E só saiu do devaneio em que estava quando qualquer coisa lhe caiu em
cima da cabeça descoberta.
Olhou, e reparando na oliveira sob a qual se encontrava sentado, um - Oh que milagre!... - de espanto e
admiração lhe saiu dos lábios! A lagarta, como se oculto vendaval abanasse as plantas, os arbustos e as
ervas, caiu ao chão produzindo um roído semelhante ao da chuva. Depois, reunia-se em filas que, a breve trecho, desaparecia, enterrando-se.
- Ai que milagre!... que grande milagre! dizia consigo.
Já quando a Virgem entrava na Capela, surgiu no caminho, ofegante chapéu na mão, casaco ao ombro.
- Milagre!... Milagre!... vede como a lagarta se afasta dos nossos campos - bradava ele endoidecido à
turba ajoelhada. Milagre!... Milagre !... E o povo repetia: Milagre! Milagre!... Senhora dos Verdes! Senhora dos Verdes!
A Maria Clara que viera numa corrida, caiu desmaiada nos braços possantes do Gaspar.
Nesse instante, incendiou-se toda a atmosfera, e um trovão fez estremecer a Terra.
A chuva, aquela chuva pela qual se cantavam preces à Virgem, começou a cair em grossa bátega.
E a turba, num delírio de esperanças realizadas, gritava sempre: - Milagre!... Salvé, Senhora dos Verdes...
Senhora dos Verdes...
Do "Ecos de Manteigas" N.o 52, de 10 de Abril de 1955.
Subscrito por VIRIATO DE ZÊZERE, do livro
"A Fraga da Cruz" que tencionava publicar,
o que a morte prematura não lhe permitiu.

http://museu.cm-manteigas.pt/2014/09/capela-de-nossa-senhora-dos-verdes/

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

LENDA DA CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DA ARGENTEIRA -- ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica)
(1) - Assim escrevia nos primeiros anos da década de 40 o compilador desta lenda - ANTÓNIO DE JESUS
DE CARVALHO (Bica), num precioso livro manuscrito que legou à posteridade.

"No alto da Serra da Estrela (Nave de Santo António ou Argenteira) erguia-se, ainda não há muito tempo, donairosa e simples, a encantadora capelinha de Santo António da Argenteira que, infelizmente, hoje está abandonada, em ruínas. (1)
O Povo não sabe a razão erudita porque foi construída a capela naquele ermo, mas tece-lhe imediatamente a lenda de que o asceta Santo António ali aparecera, no tempo em que havia veados e javalis na
Serra, a salvar um rebanho de gado da voracidade das feras.
Seria verdade?... Como seria?...
Quando isto aconteceu, Santo António não tinha ido ainda para Pádua.
Veio um dia de longada à Estrela fazer umas pregações por estes sítios. Já de volta, seguiu Serra fora em
direcção à Covilhã e, ao passar na Argenteira, parou a descansar, cheio de fome e fadiga.
Não muito distante, um rebanho roía mansamente e cervum, enquanto o pastor se ocupava a armar o
bardo.
O sol apagava-se ao longe. Sobre os píncaros mais altos voavam pombos bravos duma cor acinzentada,
que recolhiam aos ninhos, a rezar, baixinho, a saudade da tarde a morrer.
Dispôs-se o Santo a continuar a jornada, apoiado num grosso pau nodoso.
- O Senhor seja convosco - disse o Santo.
- Com Deus venha - volveu o pastor. Para onde segue, santinho?
- Para a Covilhã, se Deus mo deixar.
- Já é tarde... Faz mal... Sabe o caminho?
- Não sei.
- Então fique aqui comigo e, de manhã, continua a jornada.
Aceitou o Santo a oferta e bem depressa comia, regaladamente, reconfortante miga de leite. Acabada a
refeição e depois de terem o gado dentro do bardo, apressaram-se a arranjar abrigo para passar a noite.
Dentro do bardo comprimiam-se as pacientes ovelhas, denunciadas pelo ruído constante dos enormes
chocalhos, enquanto cá fora ladravam, no escuro da noite, três corpulentos cães. O mais era o sossego
naquela amplidão imensa.
Já a noite ia longa quando o silêncio foi cortado por um uivo que fez agitar desesperadamente o gado
dentro do bardo e ladrar os cães furiosamente. Passados poucos instantes tornou a repetir-se, mas, desta vez, mais perto, e logo como se o primeiro uivo fosse um sinal, outros, noutros pontos, se fizeram ouvir. O pastor levantou- se rapidamente, esquadrinhou com a vista o escuro da noite e verificou que certos vultos escuros se moviam perto, em todas as direcções. Não havia dúvidas de que estavam cercados
por uma grande alcateia de lobos. Os uivos cada vez se ouviam mais e mais perto.
Entretanto, o peregrino continuava a dormir indiferente ao perigo que o cercava, pelo que o pastor tomou a resolução de o acordar.
- Oiça, amigo... tenho o gado perdido! Se Deus Nosso Senhor não me acode, os lobos vão-me assaltar o
rebanho!...
- Que fazem os cães?
- São tantos lobos, que eles fugiram para dentro do bardo.
- Então que tenciona fazer?
- Nada.

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- Quantos lobos, calcula, que temos perto de nós?
- Nada menos de vinte!...
- E pensa que eles se afastarão se lhes bradarmos?
- Isso é temerário, mesmo arriscado, porque podemos ser atacados...
- Mas não haveria um meio de salvarmos o gado?
- Nenhum. Nestas circunstâncias, só um milagre...
- Bem; então, se só um milagre lhe pode salvar o gado, ajoelhe comigo e reze.
Viam-se no escuro da noite brilhar, como pirilampos, os olhos das feras que cada vez se aproximavam
mais, só contidas com o desesperado latido dos cães. De vez em quando, envolviam-se em desordem e
misturavam com os uivos o rosnar e o matraquear das suas temíveis presas, agitavam com fustigadas no
ar as caudas compridas e volteavam, erguendo as cabeças, a farejar em volta do bardo.
Um mais atrevido empinou-se, esteve alguns instantes com as patas apoiadas nas cancelas, de boca escancarada, tomou impulso e galgou para dentro. No mesmo instante, os outros seguiram-lhe o exemplo.
O pastor rezava, mas, ao mesmo tempo, não deixava de observar os mais pequenos movimentos das feras e, assim viu distintamente saltar os primeiros lobos e todos os outros.
Não quis ver mais nada. Tapou a cara com as mãos, a chorar a sua desgraça, enquanto a seu lado, Santo
António, muito recolhido, continuava a rezar.
Quanto tempo esteve assim? O que seria do gado desde que tinha tapado a cara? Não poderia dizer.
Ao tornar a si, reparou que estava só.
Vinha rompendo a manhã.
No cimo de dois penedos os cães ladravam, olhando a figura do Santo que se afastava cada vez mais, lá
ao longe, envolvido numa auréola brilhante de luz que cada vez era maior, a inundar os cerros dum Sol
bendito no mês de Junho...
No bardo, as ovelhas, intactas, balavam sacudindo os enormes chocalhos e, cá fora, encostados às cancelas, mortos por estranho mal, contava-se a matilha inteira dos lobos!
Só mais tarde se soube que aquilo fora obra do Santo, quando de Pádua vinha a fama dos seus milagres.
Então erigiram-lhe uma capelinha, modesta, no alto da Estrela. que o tempo vai tornando num montão
de escombros.
Por muitos anos ali se realizaram festas que eram a confraternização de todos os pastores dos Montes
Hermínios.
Foi esta encantadora história contada de avós a netos durante muitos anos, mas em nossos dias é quase
desconhecida".
(1) - Assim escrevia nos primeiros anos da década de 40 o compilador desta lenda - ANTÓNIO DE JESUS
DE CARVALHO (Bica), num precioso livro manuscrito que legou à posteridade.
Do mesmo livro se transcreve, também, a curiosa lenda que se segue, que nos narra a origem da capela
de São Lourenço.
A transcrição textual destas duas lendas só foi possível por gentil assentimento e boa vontade dos Herdeiros e detentores do livro manuscrito.

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LENDA DA CAPELA DE SÃO LOURENÇO --ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica)

http://museu.cm-manteigas.pt/2014/09/capela-de-sao-lourenco/
(Do mesmo livro se transcreve, também, a curiosa lenda que se segue, que nos narra a origem da capela
de São Lourenço. A transcrição textual destas duas lendas só foi possível por gentil assentimento e boa
vontade dos Herdeiros e detentores do livro manuscrito.
"Na encosta do Souto do Concelho, que se ergue esguia e altiva como a querer impor vassalagem às suas congéneres, manifestou-se, em tempos remotos, um vulcão (1) que, pela violência da sua erupção,
prometia ser de consequências tão nefastas como foram as do Vesúvio no ano 79, soterrando as cidades
de Herculano e Pompeia.
A lava gigantesca e tremenda ameaçava soterrar não só a vila de Manteigas mas até os povos circunvizinhos, parecendo que Deus decidira a ruína deste povo como outrora fizera a Sodoma e Gomorra.
O dragão iniciou a sua marcha triunfal devastando tudo na sua passagem. A perda de Manteigas era
inevitável. Os seus habitantes, que viam próximo o seu fim, correm de roldão à Igreja e, de joelhos, ao
pé do altar, imploram, num grito de angústia, em prece orvalhada de lágrimas e incensada com o perfume da sua dor, e fazem voto de erigir uma capela a S. Lourenço no local onde as fúrias do leão tivessem o seu término. E não foi debalde que imploraram o auxílio do Altíssimo.
Quando parecia que tudo se ia soterrar no pedregulho que a cratera do monstro vomitava sem dó nem
piedade, repentinamente, no alto da Montanha que hoje conserva o nome do Santo, como se uma ordem sobre-humana a intimasse, a lava cessou o seu avanço. É que Deus, sempre Bom e Misericordioso,
ouviu a oração saída do peito de milhares de crentes e assim, ordenou à corrente furiosa que parasse a
carreira satânica. Esta, ainda que sobranceira a todos os obstáculos e orgulhosa de alguns quilómetros
de domínio, já percorridos, não deixou, no entanto, de reconhecer a obediência que devia ao Senhor do
Universo, e conservou-se submissa à Sua Divina Vontade. A tormenta tinha passado.
O Povo, em face do milagre que acabava de salvá-lo da ruína, fica embriagado de alegria e vai dar cumprimento ao voto prometido. Mas, vendo que o local era impróprio e de difícil ascensão, dificultando a
romagem a muitas pessoas que, pela sua avançada idade, não tinham forças para subirem a íngreme
vertente da Montanha, fá-la no sopé desta, lugar acessível a todos os devotos e abrigada das fúrias dos
elementos de que a nossa Terra é açoutada com frequência. (Esta capela foi, mais tarde, votada ao culto
de São Gabriel. O seu alpendre foi demolido há bem pouco tempo).

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Conta a lenda que o Santo desaparecia da capela e era encontrado no ponto onde o Povo prometera a
sua edificação. Era novamente colocado na ermida e, no dia seguinte, tornavam a encontrá-lo no referido lugar. O facto repetiu-se várias vezes, sendo, por fim, a capela transferida para onde (no dizer do Povo) o "Santo fugia".
São Lourenço foi levado em triunfo para a nova capela e lá se conserva ainda como sentinela vigilante,
velando pela paz e segurança de Manteigas.
...
A capela foi reedificada em 1612, sendo ermitão Domingos Dias, segundo uma inscrição que se conserva
dentro da dita capela.
Quando a tempestade surpreendia em plena Serra os caçadores e outros viandantes, era ele quem lhes
dava abrigo.
Os pastores, vagueando de Serra em Serra, de colina em colina, sempre solitários e meditabundos, sem
outra companhia senão os rebanhos que apascentavam e os morros a cuja sombra descansavam algumas horas nos dias calmosos do estio, passavam na Montanha de S. Lourenço, momentos de alegria e
distracção. Após longos dias de solidão, encontravam um amigo que os ensinava a rezar e a elevar os
seus pensamentos para Deus naquele lugar privilegiado.
Quando (o ermitão) baixava à vila a implorar das almas caridosas o sustento para a existência e para socorrer os que dele se acercavam, agradecia sempre o óbolo recebido com estas significativas palavras:
"Quem bem faz, para si é".
Havia então uma casa que achava esse agradecimento um tanto desagradável e conceberam, um dia, a
malfadada ideia de envenenar o ermitão.
O macabro projecto foi executado, envenenando um bofo que ele, ao recebe-lo, agradeceu com as referidas palavras: "Quem bem faz, para si é",
Porém, ao voltar à sua guarida, encontra-se com um filho da dita casa, que andava à caça e que foi surpreendido por uma violenta trovoada e se acerca da capela na esperança de se acolher debaixo de seu
tecto.
Cheio de fadiga e de fome, pede comer ao ermitão. Este dá-lhe o bolo que recebera em casa dos pais,
dizendo:
- Não tenha receio de comê-lo, pois o recebi das mãos da vossa mãe.
Sentindo-se então, depois de comer o bolo, um tanto incomodado, regressa rapidamente a casa. A mãe,
ao vê-lo lívido e desfigurado, abraça-o, interrogando-o sobre a causa do seu mal-estar. O filho conta o
sucedido. Ao ouvir-lhe a revelação, que lhe dilacera o coração, cai de joelhos a seus pés, exclamando:
- Perdão, meu filho; sou eu que, albergando a malévola intenção de assassinar o ermitão, te assassino a
ti. Deus castiga a minha maldade no que de mais caro tenho no mundo.
Passados três dias, o cadáver do desditoso caçador baixava à sepultura e sobre aquela mãe ficou pesando sempre o remorso de um crime, cumprindo-se a predição do venerável ermitão quando agradecia a
esmola recebida:
"Quem bem faz, para si é".
ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica)
(1) Para provar a veracidade deste facto, ainda hoje se vêem as ladeiras das montanhas de S. Lourenço e
Souto do Concelho completamente cobertas de pedras negras e queimadas, que provam bem terem saído da cratera de um vulcão.
NOTAS COMPLEMENTARES
Não se sabe de quando data a Capela de S. Lourenço, construída no cimo do monte que tem também o
seu nome e donde se desfruta um dos mais belos panoramas que a Serra oferece.
No velho e carcomido tecto da capela podem ler-se as seguintes inscrições:
"FOI REEDIFICADA ESTA CAPELA EM 1612 SENDO ERMITA DOMINGOS DIAS"
"COM A DIRECÇÃO DE MANOEL DA CRUS FILIPE, FOI REFORMADA EM 1875"
"DEVOÇÃO DE MARIA JOSÉ LEITÃO, POR ÚLTIMA VONTADE DE SEU IRMÃO ANTÓNIO JOSÉ LEITÃO".

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Do lado direito da mesa do altar ficou também inscrita esta interessante informação:
"TEM A LADEIRA DO PENDIL A S. LOURENÇO 2620 PASSOS E FOI ACABADA A TORRE DE SANTA MARIA
NO MESMO DIA DESTA CAPELA A 4 DE 12 DE 1875"
Mais se arquiva neste livro, à data da sua publicação, (1985) que esta preciosa relíquia do nosso património cultural e religioso, bastante degradada por acção do tempo e das intempéries, vai ser submetida
a obras de restauro que a respeitarão na sua rusticidade típica.
Muito louvavelmente, a Câmara Municipal tomou a seu cargo a elaboração e execução do projecto de
obras.
O COORDENADOR (José Lucas Baptista Duarte, 1985)

Panorama sobre Manteigas (AC)
http://beira.pt/turismo/serra-da-estrela/circuitos-turisticos/circuito-6-a-mae-dagua-da-estrela/circuito-6-percurso-pedestre/

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LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE SANTA MARIA – MANTEIGAS (in recorte de jornal /st. sd)
NOTA - Este é o texto integral recolhido de um recorte do jornal de que não foi possível extrair o título
nem a data. A publicação inseria-se num concurso que tinha por título "LENDAS DE PORTUGAL"
LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE
SANTA MARIA - MANTEIGAS
in ANTOLOGIA - I, Depoimentos Histórico - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
de José Lucas Baptista Duarte
Câmara Municipal de Manteigas, 1985, pp. 277 - 279
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/520manteigas8.htm

Créditos de Diogo M F - Manteigas

"Na antiquíssima vila de Manteigas, que já existia no tempo dos Romanos, muito há que nos deixa encantados, como uma das mais curiosas e pitorescas terras da região maravilhosa da Serra da Estrela.
Uma modesta igreja ali foi erguida há muitos anos: a de SANTA MARIA.
Na soleira da porta, isso demonstrando que é um templo velhíssimo, notam-se os restos de uma inscrição em latim, ilegível, pois lhe faltam bastantes letras. Segundo a tradição, é uma lápide mandada fazer
pelo imperador romano Júlio César, para deixar assinalada a sua estadia ali, à frente das suas tropas, pelos anos 3954 - cinquenta anos antes de Cristo.
Na bonita igreja avulta um Senhor do Esquife que o povo sempre venera e tem como inigualável tesouro
da Vila de Manteigas. Todos, e com as mais justificadas razões, consideram essa muito antiga escultura
como admirável. É perfeita e bela, de traços magníficos, apontados como impecáveis de verdade. Tem
uma cabeça caprichosamente trabalhada, rosto mostrando-se amargurado, e lábios entreabertos. Tudo
a revela como uma obra escultural de excepcionais aspectos, e que teria sido executada por um artista
de grandes méritos.
Perante o Senhor do Esquife o povo faz, constantemente desde sempre, as suas orações e promessas.
Anotando a sua existência nessa Igreja de Santa Maria, há que pôr em evidência que, sendo uma obra
maravilhosa que merece a maior admiração, é um trabalho feito por um homem habitante de Manteigas, um tanto rude e da maior simplicidade, mas de fé profunda e da mais expressiva sinceridade.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Pacientemente e animado pelos melhores pensamentos e sentimentos religiosos, conseguiu, com extraordinária habilidade e, porque não dizer (?), com espírito artístico invulgar e notável, transformar um
velho tronco de árvore nessa obra em tudo digna de apreço.
A devoção com que homens, mulheres e jovens, fazem as suas preces perante o Senhor do Esquife, dá
ao encantador trabalho um significado muito especial, recordando-se, inúmeras vezes, que o tal homem
do povo, logo que concluiu a obra, constantemente e com fé a fitava repetidamente, possivelmente
com a ideia de lhe dar ainda maior perfeição.
Aconteceu, então, no dizer da lenda e das falas populares, que viu, em dado momento, o Senhor erguer
um pouco a cabeça, olhando-o com grande ternura, após o que se lhe dirigiu com estas palavras:
"Onde me miraste, que tão bem me retrataste, homem? Dentro de três dias, estarás comigo no Paraíso".
Confundido, espantado e sentindo fortalecida a sua fé, afastou-se, pouco depois, e contou a várias pessoas o que se tinha passado. Muita gente entrou, depois, na sua casa, com a ideia de ouvir também o
Senhor. Quando o humilde homem lhe pediu para falar de novo, os que ali estavam notaram, espantados, que o Cristo abriu ligeiramente os olhos e principiou a sorrir. Perante isso, logo se ajoelharam, e o
modestíssimo artista, abraçando-se ao seu Senhor, cai morto, debruçado sobre a sua mesa de trabalho.
A casa lá está ainda hoje, em Manteigas, na chamada Rua da Praça".
NOTA - Este é o texto integral recolhido de um recorte do jornal de que não foi possível extrair o título
nem a data. A publicação inseria-se num concurso que tinha por título "LENDAS DE PORTUGAL".
Há que fazer algumas rectificações e actualizações relativamente a este original.
Assim:
a) -- Já não existe a "modesta igreja" que na lenda é referida, pois, entretanto, foi reconstruída e totalmente remodelada entre os anos 1935/1937;
b) -- Em consequência de tais obras, e por manifesta incúria e desprezo por um importante documento
histórico em pedra, foi lançada nos alicerces a lápide que, segundo a tradição, foi mandada executar pelo imperador romano Júlio César pelos anos 395, isto é, 50 anos antes de Cristo;
c) -- Já não existe a casa do milagre do Senhor do Esquife, por, entretanto, ter sido demolida e sacrificada pelo moderno plano de urbanização da Vila.
Todavia, existe ainda a mesa de trabalho onde o artista trabalhou a imagem milagrosa, fazendo actualmente parte do recheio da casa pertencente aos herdeiros de Dr. José Correia Tanganho (Granjas), sita
na rua do mesmo nome.
Não cabe aqui afirmar categoricamente, nem ninguém o poderá atestar, onde acaba a lenda e começa a
"vaga verdade baseada na tradição local".
Seja como for, aqui fica reproduzida, para as gerações futuras, a que pode, entre várias outras, ser considerada a lenda mais comovente de Manteigas, que até nós chegou através de muitas gerações passadas, ficou e será sempre conhecida pela "LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE SANTA MARIA DE MANTEIGAS".

Capela do Divino Senhor do Calvário

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OUTROS CONTOS – CONTOS TRADICIONAES do POVO PORTUGUÊS
LOBA-MULHER 1 - In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos
(In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1964 – c. 259, p. 452 – 454)

Esta história é da Serra da Estrela, em Portugal.
Era uma vez um homem ainda novo, que trabalhava numa quinta. Havia dois ou três homens
no mesmo sitio, mas nenhuma mulher, a não ser a mulher do lavrador. Ora ela ia em breve ter um filho
e precisava de outra mulher, que a ajudasse na lida da casa. Mas, embora o lavrador andasse pela região
para contratar uma, nada conseguia.
Um dia mandaram o criado também à procura. Ainda não tinha andado uma légua, quando viu
uma rapariga, de aspecto muito estranho, sentada à beira do caminho. O vestido que trazia não era como os daqueles sítios. Estendia as mãos para o sol, como se quisesse aquecê-las. Usava 0 cabelo curto, o
que era um costume nunca visto nas raparigas dessas bandas. Quando ela reparou que o rapaz a estava
observando, falou-lhe, contando-lhe que tinha frio e estava cansada, pois que tinha andado toda a noite, e disse que se chamava Joana e que andava à procura duma casa para servir. Ele disse-lhe que a conduziria a uma e voltaram juntos à quinta, e a dona da quinta imediatamente a contratou.
O menino nasceu pouco depois, e toda a gente, com excepção duma velha, disse que ele era
forte e saudável. Mas, quando esta velha o viu, disse que ele estava embruxado e que, ou ela estava
muito enganada, ou que havia de haver um sinal do Diabo em algum ponto da pele do menino. E assim
era, pois que na pele do ombro lá estava um sinal, semelhante a uma pequenina meia-lua, traçado com
um alfinete. A velha disse que não havia causa para sustos, a não ser por alturas da Lua Nova, que então
o menino devia ser Vigiado toda a noite.
Quando dizia isto, a criada estava sentada no chão com o manto castanho sobre a cabeça e,
quando a velha deu as boas-noites para se despedir, ela não respondeu.
Os donos da casa estavam muito contentes com a nova criada. Os criados, porém, não gostavam dela. Tinha muito má-língua e era de carácter violento. Um dia, já quando ela e a patroa se tinham
tornado muito íntimas, a patroa contou-lhe o que a velha tinha dito sobre o menino. E ela respondeu
que soubera isso, mas receava falar em tal, e que as crianças assim se tornavam lobos, a não ser que se
fizesse alguma coisa para o evitar.
Disse então à patroa que o sinal do Diabo devia ser coberto com sangue de pomba e que se devia despir o menino e colocá-lo numa manta na encosta, no próprio momento em que a Lua surgisse
depois da meia-noite, porque então a Lua suga estes sinais, exactamente como faz às águas do mar na
maré-cheia, e isso salvaria o menino.
E assim, quando chegou a tal noite, fizeram-se todos os preparativos e deixaram a criança na
encosta, pois que a rapariga dizia que era essencial que nenhuns olhos humanos estivessem ali, enquanto se fazia o desencantamento. O pai estava muito inquieto, pensando que houvesse lobos por ali, embora desde há muitos anos não fosse visto nenhum nas vizinhanças, e carregou a uma com pregos ferrugentos, por falta de melhores munições, e sentou-se em casa à espera.
Pouco depois a criança começou a gritar, e o lavrador e a sua gente saíram de casa precipitadamente e, ah!, lá estava um grande lobo sobre a criança. Quando o lobo viu os homens, escapou-se,
mas o lavrador fez fogo sobre ele, antes que alcançasse a floresta, e ele caiu, e o criado, pensando que o
acabava, deu-lhe uma forte pancada com um cajado. Atingiu-o na pata anterior direita, mas o animal
continuou vivo e conseguiu fugir, gemendo e coxeando, para a floresta.
E então, de repente, reconheceram todos que a Joana não estava ao pé deles. Não estava em
casa, quando eles tinham saído, e não estava lá, quando voltaram.
A pobre criança estava morta, dilacerada pelos dentes do lobo, e a manta estava ensopada em
sangue.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Começaram a suspeitar que Joana teria alguma relação com isto.
No outro dia de manhã, seguiram as marcas do lobo até à floresta e, onde estas acabaram, aí
acharam a Joana coberta de sangue. Ela disse que tinha ido para o bosque, antes de as outras pessoas
terem saído de casa, receando que pudesse acontecer algum mal ao menino, que acorrera da floresta,
quando ouviu os gritos, que vira o lobo caminhar na sua direcção e depois sentira o tiro e caíra. A gente
da quinta considerou esta história cheia de diabólicas falsidades. Contudo, como viam que ela estava a
morrer, mandaram chamar um padre, mas ela morreu antes de ele lá chegar. Enterraram-na onde ela se
encontrava, e no braço direito do cadáver havia o sinal duma forte pancada, tal como o criado fizera na
pata direita do lobo.
[Stories and Sayings of Southern Europe: Old Stories and Sayings from Many Lands, compiled by Isa Fyvie Mayo, Booklet No. III, pp. 35-37, C. W. Daniel, Londres. Tradução de Paulo Caratão Soromenho, de um exemplar pertencente
ao A. e que se encontrava junto do original dos Contos.
No original diz-se que a história é da Serra de Estricca, o que o Doutor Leite admite ser a Estrela. O título original é
The Wolf Woman. Pareceu conveniente traduzi-lo por Loba-mulher, composto usado por Camilo Castelo Branco nos
Mistérios de Lisboa, III, p. 64, 6ª ed.; também emprega lobisomem-fêmea; popularmente diz-se, conforme os casos,
um lobisomem, uma lobisomem.]

OS TRÊS RIOS -- In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos
(In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1964 – c. 332-333, p. 663 – 665)
a) Havia três rios irmãos: o Tejo, o Guadiana e o Douro, que combinaram deitar-se a dormir, dizendo
que o que primeiro acordasse partiria primeiro para o mar. O Guadiana foi o primeiro que acordou: escolheu lindos sítios e partiu de seu vagar. O Tejo acordou depois e, como queria chegar ao mar antes do
Guadiana, largou mais depressa, e já as suas margens não são tão belas como as daquele. O Douro foi o
último que acordou; por isso rompeu por onde pôde, sem se importar com a escolha do sítio, e eis por
que as suas margens são tristes e pedregosas (Mondim da Beira; Porto).
Numa versão que recebi do lugar de Loiros (c. de Famalicão) diz-se que é o Tâmega um dos rios: e que o
Douro, por castigo, ficara com as águas barrentas.
Noutra versão do Porto diz-se que é o Minho um dos três rios.
Numa versão da Serra da Estrela (in Diário de Notícias, de 29 de Ag. de 81, n° 5594), que concorda com
as antecedentes, que foram publicadas por mim muito primeiro, entram o Mondego, o Zêzere e o Alva;
o Mondego foi o primeiro que acordou e por tanto escolheu melhores sítios; o Alva foi o último.
Noutra versão, que eu ouvi a um homem da Serra da Estrela, e na qual fiuram igualmente o Mondego, o
Zêzere e o Alva, conta-se que marcaram (quem?) o caminho ao Mondego com o dedo, dizendo-lhe:
Vá o Mondego
Pelo risco deste dedo.
Por isso ele dá mais voltas do que os outros23 (1).
[Tradições Populares de Portugal, p. 78-79.
b) Há dois rios ao pé de Mirandela, chamados Tudela e Robaçal. No tempo em que os rios falavam, dizia
o rio Tudela:
23

(1) Esta lenda do sono dos rios foi pela primeira vez publicada por mim nas Tradições das Águas, 7. Conta-se uma lenda igual na
Rússia a respeito do Volga, do Vazura, do Sozh, do Dniepre, etc. (apud Myth. Comparée, de G. de Rialle, p. 37). Numa interessante
carta publicada pelo sr. Adolfo Coelho no Diário de Notícias (nº 5617) e reproduzida no Jornal de Viagens, explica-se esta lenda pela ideia de os rios gelarem. A imobilidade do gelo é um verdadeiro sono. Em Portugal, na Beira Alta, também acontece ver-se um
rio gelado, e até passarem sobre ele os gados; mas não é no facto português que se deve buscar a explicação do mito.

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Arreda, arreda,
Rio Tudela:
Se não quiseres arredar,
Aí vem o Robaçal
Que ele te fará arredar.
Porque o rio Robaçal levazrnais águas do que o Tudela (Torre de D. Chama).
[T. P. P., p. 77. Segundo o critério do coordenador, incluíram-se nesta colectânea de Contos, ainda que o
Doutor Leite lhes chame lendas.
Recorde-se que para lenda, conforme esse critério, é necessário um fundamento histórico, ou real, que
no caso presente não pode existir. Será antes um como etiológico, pois pretende explicar a causa das
feições tomadas pelas margens dos rios.
Em verbetes manuscritos do A.: «O sono dos rios Guadiana, Tejo e Douro vem poetizado com o
título de «O Sono dos Rios» no Romper de Alva, versos de Alberto de Monsarás, Lx.ª, 1909 (Teixeira),
pp. 171 e ss. A lenda dos três rios Mondego, Alva e Zêzere vem no Pombeiro da Beira, de V. Sanches de
Frias, onde cita versos inéditos de Luís de Campos, que a contam: ap. Alm. de Lembr., de 1902, pp. 187190. Quanto a rios vid. E. E., ll, 46 e ss., e 141; III, 102-103, onde se lêem com levíssimas alterações os
textos agora reproduzidos, acrescidos das seguintes notas: Tradição da Beira, Douro e Minho. Noutras
versões, conforme as localidades, os nomes dos rios variam.
Em Die Lichtung, revista mensal alemã, de Lipsia, n.° 9, de 1907, pp. 405-407, editada por Hans
Ludw. Linkenbach e Georg Ludw. Reutlinger, publicou D. Luísa Ey «Die drei Brüder. Nach einem Motiv
aus dem portugiesischen Folklore erzählt», que é a lenda do Tejo, do Douro e do Guadiana, com comentários.]

RIO ZÊZERE – In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos,
(In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1964 – c. 334 p. 665)
Deitaram-se a dormir três rios: O Zêzere, o Mondego e outro, cujo nome não me disseram24 (1). O primeiro que acordou foi o Mondego e foi direito ao mar por bons terrenos. Depois acordou o Alva. O último que acordou foi o Zêzere e disse:
Fui o último que acordei:
Por vales e outeiros irei,
Muita pedra lumbarei,
Muito peixe criarei,
Muita gente comerei.
(Ouvi em Ferreira do Zêzere, em i8g5).

O MONDEGO, 0 ZÊZERE E O ALVA - in CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J.
Leite de Vasconcellos
(In CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1964 – c. 335, p. 666)
Havia três rios muito amigos e leais, o Mondego, o Zêzere e o Alva, que dormiam na Serra da
Estrela.
Numa tarde de Abril travaram-se de razões, acabando o seu viver amigo como bons irmãos.
24

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(1) Parece que foi o Alva, como se vê do que se diz adiante.

uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Cada um deles queria ser o mais forte. Combinaram então que seria mais forte o que, sem perda do seu nome e da sua dignidade, entrasse primeiro no mar. Cansados, os três rios adormeceram.
O Mondego, astuto e vigilante, acordou primeiro e mansamente partiu, sempre por escolhidos
e amenos vales, serpeou a velha Guarda, o castelo de Celorico, as duas Beiras, e foi espraiar-se suavemente no mar, junto à Figueira da Foz.
O Zêzere, que acordou quando ao Mondego, seguiu-lhe as pisadas; mas perto do Sameiro, oh!
ambição! volta ao sul, fugindo com a velocidade da águia. Mas... infelizl... perdeu o seu nome nas águas
do Tejo, junto a Constança.
O Alva, ainda na contemplação das estrelas, sonhando, acordou espavorido e, vendo-se logrado, corre precipitadamente por montes e vales na direcção da Estrela de Alva que lhe dá o nome. Mas...
infeliz também! Avista-se novamente com o Mondego e, depois de várias refregas, confunde, raivoso, o
seu nome e as suas areias de ouro com o Mondego, no lugar (povoação) que desde então tomou o nome de Raiva.
(Adaptado, por A. Rodrigues da Silva, de Serra da Estrela, de Adelino de Abreu)[Vid. os contos ns. 332, 333, 334 e 336.]

A MÃE do DIABO -- CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos
(CONTOS POPULARES e LENDAS, I, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem da
Universidade, 1964 – c. 258, p. 451)
Uma menina muito linda apareceu a um homem e disse-lhe que, se lhe tirasse
o encanto, o faria feliz; mas logo o preveniu de que ela havia de lhe aparecer de outra
forma [com outro aspecto] e que não tivesse medo e a picasse25.
No mesmo instante apareceu uma serpente, dirigida a ele para o picar. O homem espantou-se, fugiu, queria-a matar e disse-lhe:
-- Ó Tafolho!
Tafolho26 (2) é a mãe do Diabo.
Ela desapareceu.
Isto foi na Serra da Estrela, de que dizem:
Val' mais Serra d'Estrela
Com seus penocais27
Do que Campo d'Ourique
Com seus ol'vais!
(Cortes, Covilhã, 1934).
[Num comentário que escreveu datado do Porto, em 15 de Janeiro de 1885, sobre Mélusine, revue de mythologie,
littérature populair, traditions et usages, dirigida por H. Gaidoz e E. Rolland (Paris, 1885, nº 10, 5 de Janeiro, vol. II),
o A. disse: «Eis aqui um dos órgãos mais importantes, que há actualmente para o estudo das tradições populares. A
Mélusíne, cujo primeiro volume saiu à luz em 1878, esteve interrompida até o ano passado, em que, cheia de vigor,
recomeçou a sua existência. Talvez nem todos os leitores portugueses saibam quem era Melusine. Era uma fada ou
mágica das lendas da França, a qual todos os sábados se metamorfoseava em serpente por ter morto o pai. Os srs.
Gaidoz e Rolland entenderam que estava aqui um belo nome para uma revista da índole desta, e dito e feito. Mélusine transformada também agora, não em hediondo réptil, mas em gracioso génio da Ciência, principiou de correr
25

É a primeira vez que observo que é preciso fazer sangue à moura para desfazer o encanto. Cf. Lobisomem. [Vide adiante a nota
da p. 455].
26
(1) Leia-se Tafólho.
27
Variante de pedregais.

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mundo. Os seus gritos não indicam já, como na lenda do Poitou, desgraças e mortes; pelo contrário, cada vez que
reaparece traz consigo rico tesouro de factos e de ideias, que constituem o encanto dos que trabalham.» Com levíssimas alterações este comentário foi publicado no Tirocínío, de Barcelos, em 1885, e em Opúsculos, VII, pp. 14031404.
Noutro verbete o A. anotou: «Donzelas ocultas em forma de animais, serpentes transformadas em mulheres: vid.
Zs.ƒ. R. Phil., XXVII, 289 n., 290o, n., e ss. Cf. p. 291: Um homem mudado em serpe só retoma a forma humana encontrando alguém que se lhe mostre benigno. O A. do art.° julga todas estas crenças de origem oriental (p. 292), já
porque o Oriente nos oferece a cultura mais antiga, já porque tal género de transformação se coaduna com as crenças religiosas dos povos orientais» Vid., por ex., a «História de Zobeida», do Livro das Mil e uma Noites, e na mesma
obra a «História do Mercador e do Génio» (respectivamente pp. 177 e 53-65, da tradução portuguesa, com introdução de Aquilino Ribeiro, Editorial Estúdios Cor): casos de metamorfose. Vid. neste volume os contos n.ºs 128 e 129.]

Lagoas da Serra da Estrela -- (CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite
de Vasconcellos
(CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1969 (c. 154 – 157, p. 616)
As tradições que vamos referir pertencem todas â Serra da Estrela. Estas lagoas
gozam de um grande prestígio no Pais, devido, em parte, à lenda do lusitano Viriato, ali
localizada. Não há ninguém que não tenha ouvido que elas comunicam com o mar e
que lá aparecem às vezes fragmentos de navios. Tudo fantástico, porque as sondagens
pouca profundidade lhes deram.
a) Na Lagoa Escura existe um palácio, onde se guarda a capa de um rei coberta
de diamantes e para a feitura da qual foi preciso vender sete cidades. Quem quiser entrar no palácio, tem de fazer com que uma cabra preta atravesse a água-e esperar que
o Sol esteja a pino para dar numa fisga que é a única entrada. Um aventureiro que lá
entrou nunca saiu apesar de ter recitado as treze palavras do Anjo Custódio28.
b) Na Lagoa Escura nenhum pastor da Estrela vai nadar, porque dizem eles que
lá no meio os puxam para baixo, e que existem nela bichos que comem a gente29.
c) Na Lagoa Comprida ouvem-se às vezes como que carpinteiros a martelar30.
d) Na Lagoa Escura há o palácio de um mouro encantado, guardado por um gato selvagem, que se desencanta com as treze palavras sagradas, ou Oração do Anjo
Custódio31.

28

Vid. «Tradições Populares da Serra da Estrela», in Justiça Portuguesa, n.° nº 112.
Diário de Notícias, n.° 5595.
30
ibidem, ibidem.
31
lbidem, ibidem. Vid. Adelino de Abreu, A Serra da Estrela; Luís Feliciano Marrecas Ferreira, Expedição Científica à Serra da Estrela em 1881 Secção de Etnografia. I. Relatório. Lx.ª, Imprensa Nacional, 1883.
29

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

A Torre de Centocelas -- CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de
Vasconcellos
(CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1969 -- 295. p. 785)
Ao pé de Belmonte, Beira Baixa, há uma torre de que se conta o seguinte:
Havia um rei ali, no tempo dos Mouros, que tinha uma filha que era pretendida
por dois. O rei disse que a daria àquele que primeiro fizesse, um uma torre com tantas
janelas como de dias tem o ano, o outro um encanamento de água, que tinha que vir
da Guarda.
A filha gostava mais do do castelo. Estava um e outro a chegar ao fim da obra.
Vem então a princesa e atirou com um queijo ao castelo e tapou o buraco, que faltava
na obra.
Ela casou com ele.
Já lá passei defronte. Diz-se que tem tantas janelas como de dias tem o ano.
[Vid. EP, II, pp. 346-347 e 477-478; nestas últimas pp. o A., na anota 9, faz uma
exposição, com muita bibliografia, sobre o topónimo.
Mais recentemente publicou-se na Revista de Guimarães, nova informação sobre a Torre de Centum Cellae: vol. LXX, pp. 27 ss., 1960; e n.ºs 3-4, Julho-Dezembro de
1962 (Dr. Adriano V. Rodrigues).
Dum artigo sobre «A Actividade Arqueológica de Aurélio Ricardo Belo, do Dr.
Fernando Castelo-Branco, in Novidades.
Letras e Artes, de 26-II-1962, transcreve-se:
«Últimamente, Ricardo Belo fizera incidir a sua atenção sobre a torre chamada
de Centum Cellae, perto de Belmonte. Estudou numa comunicação apresentada em
Junho de 1958 ao Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia (Ver as Novidades de13) e noutra lida no I Congresso Nacional de Arqueologia na manhã de 16 de
Dezembro de 1958 (Ver por ex. Diário da Manhã de 17 e Bib. Arq. R. B. n° 42). Depois
em comunicação apresentada ao Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia em Maio de 1960 (Ver o Diário de Notícias de 11), e em artigo publicado nesse
mesmo ano (Bib. Arq. R. B., n.° 43) estuda a estrada romana Mérida-Viseu-Braga nas
cercanias de Belmonte, baseando-se especialmente nos marcos miliários, alguns dos
quais inéditos e que estuda cuidadosamente. Este trabalho liga-se intimamente com a
torre de Centum Cellae, pois Ricardo Belo interpretava-a como tendo sido uma pousada, das que os Romanos costumavam construir ao longo das suas estradas.
No sentido de esclarecer os problemas que esta torre suscita, efectuou em seu
redor algumas escavações, que foram os seus derradeiros trabalhos de campo. E pouco tempo antes de falecer ainda compôs o relatório acerca destas pesquisas»
Em Trás-os-Montes ouviu o A. falar de certo palácio que tinha tantas janelas
como de dias tem o ano. A mesma comparação se faz noutros locais, aqui em Portugal
e no estrangeiro, como se pode ler por exemplo, na Biblioteca de A. A. españoles, Libros de Caballerias, de Gayanger, 1857, p. VII, nota 6, até noutras circunstâncias e tal é
o caso:

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«… célebre... como antre los Arabes españoles la mesa de Salomon, hecha toda
de esmeralda pura, con tantos piés como dias tenia el año; la que dicen fue hallada en
Toledo por Taric, y llevada después por Muza en la corte del califa de Damasco».
Os eruditos ou pseudo-eruditos locais, e às vezes o povo, tendem para atribuir
esses monumentos a personagens que se relacionam com as localidades: arco de Paradela e o conde D. Pedro, torre à entrada do Carvalhal de Óbidos, que foi construida
por D. Dinis, quando ia para Leiria. Às vezes as lendas têm sorte: túmulo de Santiago
de Compostela (Apontamento do A.).
De igual modo o povo atribui aos Moiros força e capacidade de realização muito acima das possibilidades humanas:
Em Briteiros levavam as grandes pedras à cabeça; e em Prazins, ao pé de Guimarães, as mouras levavam as pedras e fiavam, ao mesmo tempo, na roca; e a construção duma anta no Carvalhal de Vermilhas (Caramulo) foi feita com o auxílio das
moiras aos moiros, e levavam as pedras à cabeça, um filho num braço, fiavam e iam
cantando:
Dias de Maio,
Dias de Amargura,
Mal é manhã
Já é noite escura.32
O Calhau de Eirões é um grande penedo avulso em meio de um plano, na freguesia de São Cristóvão, concelho de Cinfães. Foi trazido à cabeça de uma moira, que
ia a fiar quando o levou.
(Vi-o em 3-X-1909).
Também vi um penedo enorme -- o do Chão do Brinco-na freguesia da Nespereira, concelho de Cinfães, igualmente transportado à cabeça por uma moira.
Corre que a igreja velha da Ponta e a de Coucieiro foram feitas pelos Mouros
(Caldelas, 1918, informação do Doutor Vitor Fontes).
Nos Opúsculos, V, pp. 501-502, escreve o Dr. Leite:
«Na ocasião de se fundar o convento de Vila da Feira, segundo me informou
uma velha de noventa anos, andavam moiras a acarretar para ele pedras à cabeça, indo ao mesmo tempo com a roca à cinta a fiar. Foram as moiras em iguais circunstâncias (pedras à cabeça e roca à cinta) que edificaram a torre de Leça do Balio. A pedra
formosa da Citânia de Briteiros foi por uma moura levada à cabeça, desde o alto de
São Romão até Santo Estêvão, enquanto fiava na roca.» O artigo segue. Vid. Também
EE, II, pp. 63-64.
«Dans tous les pays où subsistent de grands monuments de date inconnue,
mais certainement très anciens, la légende s'en empare et en attribue la construction
soit à des géants, soit à des hommes doués d' une puissance magique ou d' une intelligence supérieure. En Grèce, les ruines de l'e'poque mycénienne étaient considérées
comme l’oeuvre des Cyclopes et des Pélasges…

32

Recolhido no local em Setembro de 1918, por Paulo Cantão Soromenho. Cf. Sébillot, Lég. loc. de Ia H. R, p. 83. Vid. o como 503
no presente volume.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

S. Reinach, Rev. Arch., 1903, 170, aplica estas ideias à lenda de Sísifo, que conduz um grande rochedo para a construção da sua fortaleza e palácio, o Sysipheion,
numa colina sobranceira a Corinto.
Este poder extraordinário de edificar as grandes construções, atribuídas aos
Mouros, documenta-se na toponimia: Tourais dos Mouros é um castro (AP, V, 16); Tijelas de Moiros é um sítio entre Loivos do Monte e Gestaçô (Baião): rochedo granitico
com escavações dispostas simètricamente (Pela Beira); Penedo da Moira, nas Caldas
das Taipas, com a inscrição de Trajano; rochas naturais em Coura, a que se ligam lendas de mouras (P°. Narciso, Coura, p. 67): Agro dos Mouros, que aparece na Inquirição
de 1258, Guimarães. O Doutor Joaquim R. dos Santos Júnior cita, em O Castro de Carvalhelhos (Porto, 1957): casal, castelo, cerca, couto, feira, toural dos Mouros. A um
cerro fronteiro a Mantel chamam o Couto dos Mouros.
Aos monumentos pré-históricos são aplicadas lendas, com frequência relacionadas com os Mouros: Vid. AP, IV, 157-158, e V, 107-110; Religiões da Lusitânia, I, 225,
289 e ss., 362, 373-377, 379, 381, 383, 386, 388 e 400.
Para as lendas em geral aproveita-se ainda um apontamento do Doutor Leite:
Magazin Für die Literatur des Auslandes, n.° 138, p. 551, de 1883 («Caracteres e Lendas dos Portugueses», resumo em alemão dum artigo inglês); Revista Brasileira, X, pp.
24-47, J. Barbosa Rodrigues, «Lendas, Crenças e Superstições».
Da grandeza dos Mouros são inúmeras as recordações: Em Paderne dizem que
os Moiros mediam o ouro com mós (Pela Beira).
Ao pé de Braga, em Nogueira, há um penedo chamado da Moura, no qual se
vêem as pegadas dela. Pelo S. João aparece lá uma moura com ouro (vid. a lenda de
São Gonçalo).
Dentro da porta do castelo de Belver, na parede da esquerda, há duas depressões nos silhares, as quais serviam para firmar as trancas das portas (decerto em épocas recentes); uma dessas depressões é comprida e constitui uma espécie de sulco horizontal. Diz-se que foi um mouro, que se pôs ali a urinar e o jacto ficou marcado (Ouvido em 1910 pelo Dr. Félix Pereira).
No Monte do Anjo São Miguel, na freguesia de Delães, há um penedo com uma
ferradura e um chapéu embicado, pedras com letras e muitos cacos (informação de
Rodrigo Carpinteiro). No Penedo da Pegadinha há uma pegada de uma ferradura. Não
tem lenda especial. Diz-se em geral que são sinais que os Moiros deixaram, quando fugiram (Chão de Lamas, concelho de Coura).

Alfátema -- in CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos
(CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem da Universidade,
1969 -- 385. p. 856)
VI Ciclo LENDAS DE POVOAÇÕES DESAPARECIDAS

O castro assim designado, na freguesia de Paços, Beira Baixa, foi destruído por
invasão de insectos (Vid. M. Sarmento, Relatório da Serra da Estrela, p. 10).
Não apenas insectos, mas também coelhos, como na Madeira, e ratos podem
ser causa de flagelos para as povoações.

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Estrabão, Ill, II, 6. fala de uma espécie de lebre nova (pequena) que escava a
terra. Epifânio da S. Dias, numa nota do Dicionário Grego de Bailly, dá-lhe a tradução
de coelho e no indice da edição de Müller vem a palavra cuniculus.
O animal a que Estrabão se refere causa muito dano na vegetação, especialmente na Turdetânia, mas acrescenta que isso acontece por toda a Ibéria até Massília,
e às ilhas. Os habitantes das Gimnérias (Baleares) viram-se tão perseguidos que pediram aos Romanos que os mudassem de lugar de habitação.
Na mesma obra, III, V, 2, Estrabão fala especialmente das ilhas da Ibéria e torna
a ocupar-se do mesmo flagelo das Baleares, dizendo que o coelho mina as casas e as
árvores, por baixo, fazendo-as ruir.
Plínio, VIII, 31, diz igualmente que os cuniculi, destruindo as searas nas Baleares, causam fome aos moradores.
É ainda Estrabão, III, IV, 18, que alude à abundância de ratos próprios da lbéria,
que muitas vezes causam epidemias, e especifica neste caso a Cantábria, onde os Romanos tiveram de aliciar pessoas que matassem esses animais, dando recompensas a
quem matasse um certo número deles.
Na mesma obra, XIII, I, 48, fala também da invasão de ratos, uma noite, em
Hamaxito, e Plinio, NH, X, 85, recorda essas mesmas invasões de ratos na Tróada, donde às vezes chegam a expulsar os habitantes.
Além deste apontamento o A. deixou o seguinte verbete:
«Nos lecteurs se souviennent que l'Australie fut, il y a quelques années, envahie
de lapins, à tel point qu'on dut organiser un concours universel pour trouver le moyen
de les faire disparaítre, L’illustre Pasteur fut même un des lauréats de ce concours. Aujourd'hui c'est la Californie qui soufl`re de la même calamite» -(Article «Une épidémie de lapins -- Californie», de la revue Le Globe Trotter -n.° 12 -- Jeudi, le 24 Avril 1902).

Serra da Estrela -- (CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos
(CONTOS POPULARES e LENDAS, II, coligidos por J. Leite de Vasconcellos, Por Ordem
da Universidade, 1969 418--. p. 869)
A respeito do nome da Serra da Estrela, na Beira Baixa, conta-se a seguinte lenda: «Anda em livros antigos memória de ter havido uma cidade perto da Lagoa Escura
e que aí viveu um pastor muito afortunado, que viajou por muitas terras, guiado por
uma estrela, que foi o que deu nome à serra, e que o pastor, voltando, foi aí rei, e deu
grandes festas com cavalhadas e jogos de canas, e andaram embarcados nas lagoas e
vieram aí muitos príncipes estrangeiros» (Eduardo Coelho, «Quinze Dias na Serra da
Estrela, no Diário de Notícias, n.° 5595, de 30 de Agosto de 1881).
[TPP, pp. 29-30. Sobre o lendário da Estrela vid. Luís Feliciano Marrecas Ferreira, Expedição Científica à Serra da Estrela em 1881. Secção de Etnografia. Relatório,
Lisboa, Imprensa Nacional, i883; Arquivo Piloresco, III, 309; Fonseca Henriques, Aquilégío (1726), p. 28: Lagoa de Sapelos, em Montalegre; cf. Pidal, Leyendas de los Infantes,
pp. 190-191, onde cita casos de se ouvir um animal bramar dentro de um lago.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Há uma espécie de encanto em estarem certas cidades sepultadas por castigo,
e verem-se em certas ocasiões as suas antigas habitantes lavando, fiando, penteandose (como as nossas Moiras). dançam (vid. nota 90): Franz Schmarsel, Die Sage von der
Untergangene Stadt, p. 58 (Berlim, 1913). As mulheres têm a esperança de serem desencantadas dali, porque lhes digam certas palavras, ou que alguém beije tudo quanto
possa aparecer-lhe. (lbidem, p. 65).
Há uma espécie de desencantamento: um anão pede a um passageiro que passados três dias volte e diga certas palavras, a uma cidade que está afundada num lago
(p. 64).
O A. não diz qual é a origem, nem como se relacionam com a lenda de Philemon & Baucis e a Sodoma (p. 13: diz que talvez sejam originariamente tradições populares de uma mesma lenda).
Cita numerosissimas variantes alemãs. Põe a tradição moderna dependente da tradição literária (p. 1, mas não diz como). Adaptação da lenda antiga às tradições populares alemãs, onde ele encontrou motivos semelhantes (p. 71). Há, porém, variantes que
não vêm desta, p. 49.
Vid. Sébillot, Folklore de la France, ll, 388, ss., e Mëlusine e Revue des Tradilions
Populaires: tesouros encantados no sítio, onde desapareceram cidades.
A p. 67 refere-se a sinos que se ouvem nessas cidades submersas. Ainda
Sébillot, Légendes locales de la Haute Bretagne, pp. 22-23 e 152.
Cf.: Um homem de Mênfis disse que habitara debaixo da terra 23 anos e fora ai
instruído nas artes mágicas por Ísis.
[Vid. TPP, 18o, p. 81.]

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A CABRA PERDIDA – A CABRA E O LOBO -- Fred WACHSMANN
http://accorsijc.blogspot.pt/2010_03_01_archive.html
In - Fred WACHSMANN – COMO EU VI A SERRA DA ESTRELA, Lisboa, 1949. pp. 33-34
Os pastores também têm o seu orgulho.
Contemos uma história verdadeira:
Uma cabra pastava nas agulhas dos Cântaros, contente da sua vida, tinindo o seu chocalho, cujo som se
dispersava com o vento. De-repente sente sede e, não pensando no zagal nem nas outras do rebanho,
pateia seguindo um regato. Perdeu-se!
Nada mais se soube dela. No ano seguinte, quando os maiorais conduziam novamente as cabras à Serra,
encontraram a estraviada mas casada com um bode de apreciável formosura e com um cabrito a berrar
nos picotos.

http://accorsijc.blogspot.pt/2010_03_01_archive.html
Conta-se também outra história de uma cabra, namorada dum lobo. E tal influência exercia a fêmea na
fera, que o noivo, desempenhando o papel dum cão, chegou a proteger as outras rezes da mesma tribo,
enquanto aos chibatos de outras famílias, se atirava com furor que fazia honra ä sua espécie. O dono da
cúpida cabra conquistadora, foi intimado a matar o lobo, mas recusou-se. Dias depois, a sua cabra foi
encontrada envenenada e o apaixonado infeliz sumiu-se para sempre nas fragas da Serra.
Deixemos o pastor que, levando dois dedos à boca, chama o cão por um assobio estridente que ecoa
nos barrocais fragosos…

http://imgs.sapo.pt/jornaldeangola/img/file5517cfa545083Recr29_de_03.pdf

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Os três rios da Serra, Mondego, Zêzere e Alva -- in - Fred WACHSMANN – COMO EU VI
A SERRA DA ESTRELA, Lisboa, 1949. p. 43
«A respeito dos três rios da Serra, Mondego, Zêzere e Alva contemos uma lenda curiosa:
Nos tempos em que rios ainda falavam, estes três, companheiros leais, deslisavam harmoniosamente pela Serra. Um dia, uma nuvem, escurcceu o horizonte, ameaçando de borrifar a sua água sobre os rios. O pômo da discórdia estava semeado.
-- Qual de vós será o mais caudaloso? -- perguntou o anjo da discórdia… e lá se foi a amizade…
Concertaram um duelo: Quem primeiro se espraiasse no oceano, seria o mais caudaloso.
No dia seguinte, o Zêzere, arremessando-se, como de costume, até ao Sameiro, retrocede ao
Sul, e-retumbante, indómito, já parecendo ir ganhar a partida… pouco feliz, cai nas águas do Tejo.
O Alva, não reparando no “bruxolear da sua estrela, acordou tarde” e, precipitando-se com impetuosidade desmedida, sem calcular bem, “confunde o seu nome e a sua dignidade com a do Mondego”, correndo ao desafio.
O Mondego, «astuto e vigilante, serpenteou a dobrar mansamente por amenos vales até à velha Guarda, o castelo feudal de Celorico, as duas Beiras até morrer no Oceano».

A Raiva do Alva – in Lendas de Portugal -- Coimbra
In http://lendasdeportugal.no.sapo.pt/distritos/coimbra.htm
A localidade de Pombeiro da Beira tem na sua história uma disputa entre três rios, o Mondego, o Alva e
o Zêzere, todos nascidos na Serra da Estrela. Estes três rios envolveram-se um dia numa grande discussão sobre quem seria o mais valente e acertaram numa corrida que esclareceria a questão: quem chegasse primeiro ao mar seria o vencedor. O Mondego levantou-se cedo e começou a deslizar silenciosamente para não atrair as atenções. Passou pela Guarda e pelas regiões de Celorico, Gouveia, Manteigas,
Canas de Senhorim e pela Raiva, onde se fortaleceu junto dos ribeiros seus primos, chegando por fim a
Coimbra. O Zêzere, que estava atento, saiu ao mesmo tempo que o seu irmão. Oculto, por entre os penhascos, foi direito a Manteigas, passou a Guarda e o Fundão, mas logo depois se desnorteou e, cansado, veio a perder-se nas águas do Tejo. O Alva passou a noite a contar as estrelas, perdido em divagações de sonhador e poeta. Quando acordou, era já muito tarde mas ainda a tempo de avistar os seus
irmãos ao longe. Tempestuoso, rompeu montes e rochedos, atravessou penhascos e vales, mas quando
pensava que tinha vencido deparou com o Mondego, no momento que este já adiantado chegava ao
mar. O Alva ainda tentou expulsar o seu irmão do leito, debatendo-se com fúria e espumando de raiva,
mas o Mondego engoliu-o com o seu ar altivo e irónico. Este lugar onde os dois rios lutaram ficou para
sempre conhecido como Raiva, em memória da contenda entre os dois irmãos.
(Pode ver a mesma versão in: A Raiva do Alva – in fontedeluz - http://www.fontedeluz.com/?ver=8&id=92 2008-06-15

A Raiva do Alva – in folclore-online/lendas/balta (Beira Alta)
http://www.folclore-online.com/lendas/balta/raiva_alva.html#.VT5vy9JViko
Corre em Pombeiro da Beira uma velha história sobre uma disputa entre três rios portugueses nascidos
na serra da Estrela: O Mondego, o Alva e o Zêzere.
Nascidos da mesma mãe, viviam os três irmãos, serpenteando pelas vertentes, tranquilos e alegres,
amigos e companheiros. Passavam os seus dias mirando-se cada um na limpidez das águas dos outros e
jogando às escondidas nas gargantas, furnas e sorvedouros da gigantesca mãe.
Certa tarde, porém pela noitinha, envolveram-se em azeda discussão, ao que parece motivada por arrogância de valentias.
Trovejaram rivalidades e prometeram-se romper as prisões de infância, acabando por desafiar-se para
uma corrida cuja meta seria o corpo enormíssimo do mar: o primeiro que lá esbarrasse seria o melhor
de todos os três!

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Qual deles descobriria melhor o caminho? Qual conseguiria desenvolver maior barulho e força? Qual
dos três seria o primeiro a oferecer as suas doces águas às salgadas águas do mar-- Era o que iria ver-se!
O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou a correr brandamente para não
fazer barulho. E sem levantar suspeita foi escorrendo desde as vizinhanças da Guarda, pelos territórios
de Celorico, Gouveia, Manteigas, canas de Senhorim. Na Raiva, onde os primos vieram cumprimentá-lo,
robusteceu-se com eles e dali partiu na direcção de Coimbra, depois de ter atravessado ofegante as duas Beiras.
O Zêzere, porém, estava alerta, e, ao mesmo tempo que o Mondego o fez, começou a mover-se oculto
no seu leito de penhascos, enquanto pôde. Foi direito a Manteigas, onde perdeu de vista o irmão. Passou também perto da Guarda, desceu correndo até ao Fundão e, de repente, desnorteou, obliquando
para Pedrógão Grande. Quando deu por si, no meio daquela louca correria, tinha atravessado três regiões e estava ainda em Constância. Aí, cansado e desesperado, vendo-se perdido e sem hipótese de alcançar o ma, abraçou o Tejo e ofereceu-lhe as suas águas.
O Alva, poeta sonhador, entreteve a sua noite contemplando as estrelas. Adormeceu por fim, placidamente, confiado no seu génio, e quando acordou, estremunhado, era manhã alta. Olhou em volta e viu
os irmãos correndo por lonjuras a perder de vista. Que fazer agora-- Que imprevidente fora! Mas… remediar-se o desastre!!! E o Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou vinganças temerosas. E quando julgou estar a dois
passos do triunfo… foi esbarrar com o Mondego, que há horas já lá ia, campos de Coimbra fora, em cata
da Figueira, onde lançaria no seio maternal do oceano, ganhado assim a tão discutida corrida.
O Alva esbravejou e com a sua furiosa zanga atirou-se ao irmão, a ver se o lançava fora do leito. Quando
se sentiu impotente ante a serenidade majestosa do outro, espumou de raiva. E o Mondego, rindo, engoliu-o de um trago.
Ao memorável local de encontro, a foz do Alva, passaram as gentes a chamar-lhe Raiva em memória
deste caso «tremebundo».

FREI JOÃO SEM CUIDADOS (71) – in Tradições do Povo Português
http://pt.wikisource.org/wiki/Contos_Tradicionaes_do_Povo_Portuguez/Frei_Jo%C3%A3o_sem_cuidad
os
O rei ouvia sempre fallar em Frei João Sem Cuidados como um homem que não se affligia com coisa nenhuma d’este mundo.
— Deixa-te estar, que eu é que te heide metter em trabalhos.
Mandou-o chamar á sua presença, e disse-lhe:
— Vou dar-te uma adivinha, e se dentro em trez dias me não souberes responder, mando-te matar.
Quero que me digas:
Quanto pesa a lua?
Quanta agua tem o mar?
O que é que eu penso?
Frei João Sem Cuidados saiu do palacio bastante atrapalhado, pensando na resposta que havia de dar
áquellas perguntas. O seu moleiro encontrou-o no caminho, e lá estranhou de vêr Frei João Sem Cuidados, de cabeça baixa e macambuzio.
— Olá, senhor Frei João Sem Cuidados, então o que é isso, que o vejo tão triste?
— É que o rei disse-me que me mandava matar, se dentro em trez dias eu lhe não respondesse a estas
perguntas: — Quanto pesa a lua? Quanta agua tem o mar? E o que é que elle pensa?

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

O moleiro pôz-se a rir, e disse-lhe que não tivesse cuidado, que lhe emprestasse o habito de frade, que
elle iria disfarçado e havia de dar boas respostas ao rei.
Passados os trez dias, o moleiro vestido de frade, foi pedir audiencia ao rei. O rei perguntou-lhe:
— Então, quanto pesa a lua?
— Saberá vossa magestade que não póde pesar mais do que um arratel, porque todos dizem que ella
tem quatro quartos.
— É verdade. E agora: Quanta agua tem o mar?
Respondeu o moleiro:
— Isso é muito facil de saber; mas como vossa magestade só quiz saber da agua do mar, é preciso que
primeiro mande tapar todos os rios, porque sem isso nada feito.
O rei achou bem respondido; mas zangado por vêr que Frei João se escapava das difficuldades, tornou:
— Agora, se não souberes o que é que eu penso, mando-te matar!
O moleiro respondeu:
— Ora, vossa magestade pensa que está fallando com Frei João Sem Cuidados, e está mas é fallando
com o seu moleiro.
Deixou cair o habito de frade e o rei ficou pasmado com a esperteza do ladino.
(Coimbra.)
Notas
71. Frei João Sem Cuidados. — Merece comparar-se a versão oral com a redacção litteraria de Gonçalo
Fernandes Trancoso, do seculo XVI, em que figura um fidalgo Dom Simão. Ha uma fórma hespanhola
tambem do seculo XVI, no Patrañuelo de Timoneda, n.º XV. (Coll. de Auctores españoles, de Ribadaneyra, p. 154.) A fórma mais antiga que conhecemos é a italiana de Franco Sacchetti, contemporaneo de
Dante, nas Novellas, t. I, n.º IV. A primeira versão oral portugueza foi publicada no Almanach de Lembranças, para 1861, p. 323. (Vid. n.º 160.)

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AS ORELHAS DO ABBADE (117) -- in Tradições do Povo Português
http://pt.wikisource.org/wiki/Contos_Tradicionaes_do_Povo_Portuguez/As_orelhas_do_abbade
Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga - 117. As orelhas do abbade
Um sujeito bom caçador convidou o abbade da sua freguezia para ir comer com elle duas perdizes guisadas, e deu-as á mulher para as cosinhar. A mulher, raivosa por não contarem com ella, cosinhou as
perdizes e comeu-as. N'isto chega o abbade muito contente, e diz-lhe a mulher:
— Fuja, senhor abbade, que o meu homem jurou que lhe havia de cortar as orelhas, e isto das perdizes
foi um pretexto para cá o pilhar.
O abbade não quiz ouvir mais, e elle, por aqui me sirvo.
O marido chega, e diz-lhe a mulher:
— O abbade ahi veiu, viu as perdizes, e não querendo esperar mais por ti, pegou n'ellas ambas e foi-se
embora.
O homem vem á porta da rua, e ainda vê o abbade fugindo, e começa de cá a gritar:
— Oh, senhor abbade! Pelo menos deixe-me uma.
— Nem uma, nem duas! Respondeu elle lá de longe.
(Ilha de S. Miguel.)

O LOBO E A OVELHA (249) -- in Tradições do Povo Português
http://pt.wikisource.org/wiki/Contos_Tradicionaes_do_Povo_Portuguez/O_lobo_e_a_ovelha
Uma vez um lobo encontrou uma ovelha, que andava a pascer, e disse-lhe:
— Oh ovelha! eu como-te.
Respondeu a ovelha:
— Pois sobe alli para cima, que eu entretanto vou pascendo, e depois entro-te lá mesmo pela bocca
dentro.
O lobo subiu para o alto do monte e esperou. A ovelha assim que viu o lobo longe, fugiu. O lobo começou a correr atraz d’ella, e como a não pudesse agarrar, disse:
Eu, que sou lobinho-cão,
Nunca corri tanto em vão.
Respondeu a ovelha:
Eu, que sou ovelhinha ruça
Nunca corri tanto de escaramuça.
(Villa Cova, Leite de Vasconcellos, Trad., p. 183.

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O SACCO DAS NOZES - in Tradições do Povo Português (101)
http://pt.wikisource.org/wiki/Contos_Tradicionaes_do_Povo_Portuguez/O_sacco_das_nozes
O abbade de uma freguezia costumava fazer a sua pratica aos domingos, e reprehendia os costumes do
povo conforme lhe dava geito. De uma vez disse:
— Eu sei que cá na freguezia anda o costume de obedecerem os homens ás mulheres, o que é contra os
mandados da escriptura, e como diz o outro, vivem como em casa de Gonçalo onde póde mais a gallinha
do que o gallo. Ora eu tive este anno muitas nozes no passal, e aqui declaro que dou um sacco cheio
d'ellas ao homem que me mostrar que não anda ao dedo da mulher. Depois da missa quem se achar em
sua consciencia sem este máo costume, póde ir ao passal buscar as nozes.
Estava na egreja um homem casado que era muito ralhão, e que tratava a mulher de máo modo, e em
casa ninguem abria bico diante d'elle; disse para um que estava á sua beira:
— Nozes, já eu tenho, e é que ninguem m'as tira; pelo menos ninguem cá na freguezia m'as tira.
Chegado o fim da missa apresentou-se em casa do abbade:
— Aqui estou, senhor; não ha ninguem ahi pela freguezia que seja capaz de dizer que a minha casa é
como a de Gonçalo.
— Eu bem sei o teu viver. E pelo que me teem dito, levas as nozes. Anda cá encher o sacco.
O homem entrou, e puchou de um sacco meão; diz-lhe o abbade:
— Ó homem, tu não tinhas lá outro sacco maior do que isso?
— Tinha, sim senhor.
— Então porque não trouxeste um sacco bem grande?
— Oh senhor, eu trazia; mas lá a companheira começou a dizer que era vergonha, teimou que trouxesse
um mais maneirinho…
— Ah, grande tratante, despeja-me já essas nozes, que não levas d'aqui nada. Anda, tudo, tudo e põe-te
já no olho da rua.
O homem foi-se arrepellando, por lhe ter fugido a lingua para a verdade.
(Porto).

Lenda de Folgosinho de Ar – por Gentil Marques
-- Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , Volume I, pp. 223-228
http://www.lendarium.org/narrative/lenda-de-folgosinho-de-ar/

APL 2717
Não sei se conhece Folgosinho, bom amigo leitor… se sabe onde fica Folgosinho... Há
quem lhe chame Folgosinho da Serra, pela sua situação privilegiada, no alto dos Montes Hermínios... De qualquer modo, trata-se de uma terra portuguesa com fortes e
fundas raízes na nossa História.

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E, segundo rezam velhas crónicas, foi aí que nasceu precisamente esse gigante semilendário que se chamou Viriato.
Depois de Viriato ter deixado ali gravada a sua passagem, o monte continuou a ser o
mesmo que dantes era. E só muito tempo decorrido — dizem uns, com D. Afonso Henriques; opinam outros, com D. Sancho I — o monte se tornou terra habitável como povoação de certa importância, impondo aos visitantes esta legenda bem significativa:
«Água da serra, soldado para a guerra»...
E agora vou contar-lhes a história que me contaram...
Naquele dia, el-rei de Portugal, na sua tarefa insana de conquistar novas terras aos
Mouros, sentia-se satisfeito e extenuado, simultaneamente. Satisfeito, porque as presas tinham sido boas. Extenuado, porque as corridas pela serra sempre obrigavam a
grande esforço.
Assim, deu uma ordem que imediatamente se espalhou em redor:
— Parai!... Parai por uma vez!... Eles já fogem de mais para que os possamos agarrar!
E sorrindo, orgulhoso do seu feito e dos resultados alcançados, acentuou:
— Bem nos bastam os que ficaram aqui...
Porém um dos seus homens de confiança adiantou-se e disse com entusiasmo:
— Meu senhor, há ainda muita moirama viva!... Permiti, senhor meu rei, que a persiga!
El-rei de Portugal fitou-o de sobrecenho carregado.
— Não! Já disse que não!... Não me ouvistes, Pêro Vasques?
Depois passou o olhar sereno e altivo sobre os que escutavam. Lentamente. Autoritariamente.
— Loucuras, não as quero!... Preciso de todos os homens valentes, como vós sois!
Pêro Vasques, embora de má vontade, desceu da sua montada, devagar, e exclamou
numa voz indefinida:
— Graças, senhor meu rei... Farei o que me ordenares.
E, num sorriso meio de troça meio de despeito, ajuntou:
— Descansarei... como se precisasse de descanso!
El-rei de Portugal olhou-o numa expressão de soberana altivez.
— Pois se não precisais... preciso eu!
Ali, no sopé da serra, enquanto a noite se estendia sobre os homens acampados que
rodeavam el-rei D. Afonso, o calor ensombrava-os também, roubando-lhes energias e
vontades.
Parecia até que o Sol se prolongava na própria Lua — pois nem uma brisa corria, nem
as trevas serviam de refúgio.
D. Afonso Henriques e os homens que o acompanhavam mal conseguiram dormir.
De repente, as gargalhadas de D. Pêro Vasques cortaram o silêncio da noite.
— Quieta!... Quietinha, minha cabrita montesa!... Com que então querias fugir-me a
tempo?
De seguida, abriu-se todo numa gargalhada sem fim.
— De mim, ninguém foge… Quieta, já te disse!

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Porque o silêncio da noite fora cortado, destruído, logo apareceu el-rei, sempre atento
e pronto para todos os acontecimentos inesperados.
E perguntou, num tom áspero:
— Pêro Vasques, que barulho é este? ... Achais ainda pouco o inferno do calor, para
sermos obrigados a suportar as vossas brincadeiras?
Pêro Vasques adiantou-se. Solene. Resoluto.
— Senhor, perdoai, mas capturei para vós, uma boa presa!
E empurrou uma rapariga para a frente. El-rei mirou-a. Surpreendido. Preocupado.
— Uma rapariga a estas horas? ... Onde a encontrastes, Pêro Vasques?
O cavaleiro aproximou-se mais.
— É uma espia da maldita moirama, senhor meu rei. Andava aqui mui cerca do acampamento. Eu descobri-a… e quando ela quis fugir... já era tarde!
Pêro Vasques fechou o seu depoimento com uma gargalhada. Mas D. Afonso Henriques, olhando a frágil figura encolhida a seus pés, ainda pretendeu encontrar uma justificação.
— Que fazias tu aqui, a estas horas da noite?
Ela baixou a cabeça. Com raiva. Com destemor.
— Não direi nem uma palavra a nenhum dos dois... Quero falar com el-rei!
Houve um momento de perturbação. Eles entreolharam-se. Depois, Pêro Vasques não
conseguiu manter a calma.
— Ouvistes, Senhor? ... Somente quer falar com el-rei.
E, apontando-a, quase estiraçada no solo, o nobre cavaleiro português comentou:
— Voz de víbora em corpo de gazela... Cuidado com ela, Senhor!
O monarca português obrigou a rapariga a erguer-se.
— Que queres tu dizer ao rei?
Ela olhou-o, numa expressão de ódio e de desconfiança.
— Levai-me diante dele... Depois o sabereis!
Então D. Afonso perdeu a paciência, segundo conta a lenda antiga.
— Pois falai, e falai depressa... porque o rei sou eu!
Embora segura, fortemente segura, a rapariga recuou num sincero movimento de
pasmo.
— Vós, Senhor!... Sois vós?
Logo Pêro Vasques a atirou de novo para a frente, num impulso de violência. E disse,
numa nova mistura de riso e gritaria:
— Vede como ela se espanta, senhor meu rei!... Agora já não sabe que dizer, nem como explicar o que se passa.
Mas a prisioneira teve um gesto de brio. Libertou-se das mãos que a seguravam. Avançou num ar de revolta e de confiança em si própria. E disse com voz firme:
— Enganais-vos!... O que tenho a dizer é bem simples.
E logo, sem qualquer espécie de hesitação, voltou-se para D. Afonso e explicou:
— Senhor meu rei... Sou uma pobre rapariga do alto da serra... Soube que o meu rei
precisava de bom ar, de ar puro... Por isso, Senhor, venho buscar-vos. Na minha terra,
lá bem no alto, tereis o que procurais.
Pêro Vasques não se conseguiu conter. O seu génio impulsivo tinha de desabafar. E desabafou:
— Cala-te!... O que tu queres é atrair o nosso rei a uma cilada!

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Porém, el-rei de Portugal fingiu que nada ouvira. E perguntou apenas à pobre rapariga
que continuava ajoelhada a seus pés:
— Bem. Vamos lá a saber: onde é o sítio que tu dizes?
Ela apontou para o alto da serra da Estrela.
— É ali... Naquela terra quase junto ao céu, como nós costumamos dizer.
E, sempre de braço estendido, ela ajuntou ainda:
— Contavam meu pai... e o pai de meu pai... que aquela terra, além fora do grande Viriato!
El-rei levantou o olhar até aos contrafortes da serra.
— Pois também quero conhecer a terra de Viriato!
Pêro Vasques tornou a avançar. Agora sem rir.
— Senhor, pensai bem!... Talvez seja uma imprudência... Eu penso que…
Mas D. Afonso interrompeu-o:
— Que se cumprem as minhas ordens! Dai abrigo a esta rapariga. É assim que romper
a alva, ela nos guiará à sua terra… a terra de Viriato!
Tal como ele ordenara, mal despontaram no horizonte os primeiros raios de sol, os
homens d’el-rei de Portugal voltaram a pôr-se em marcha, serra acima.
A viagem foi longa e penosa. Pelos atalhos ásperos da serra, os soldados, já violentados pelo calor, cada vez mais forte, rogavam pragas surdas de revolta. Ai deles, se não
fosse a chefiá-los o próprio rei de Portugal, com o seu pulso de ferro e a sua vontade
indomável!...
A certa altura, o próprio monarca chegou a hesitar.
— Diz-me, rapariga… falta ainda muito?
E ela, fresca, saltitante, como se tivesse começado a jornada nesse mesmo momento,
respondeu, solícita e sorridente:
— Senhor meu rei... é já ali… no voltar daquela curva...
Pêro Vasques resmungou, olhando-a de soslaio:
— Ah, pérfida cabrita montesa!... Já disseste isso pelo menos vinte vezes… e nós ainda
não chegámos!
E rematou com raiva:
— Se o meu rei me deixasse, eu te obrigaria a falar verdade asinha...
Ela ripostou prontamente:
— Falando verdade estou eu, Senhor. Vinde comigo e vereis como é certo.
Então, o outro perdeu a paciência.
— Senhor meu rei, permiti que vos rogue mais uma vez: tende cuidado!... Tudo isto
pode ser uma cilada miserável, armada por esta diabólica rapariga!
D. Afonso sorriu, apesar do cansaço. Sorriu e comentou:
— Vós chamais-lhe diabólica, Pêro Vasques... Eu acho-a angelical... Até me parece que
foi enviada por Nossa Senhora, padroeira do Reino.
E, num tom sem réplica, acrescentou ainda:
— Acho que a devemos seguir sem temor!
O outro limitou-se a BAIXAR a cabeça.
— Sois vós o rei... Fazei o que achardes melhor!
A marcha recomeçou, agora com redobrada vontade de chegar depressa.
— Vamos, donzela da serra... Oxalá que falte pouco, na verdade!
A rapariga estendeu o braço, a apontar o horizonte.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

— Já vos disse, senhor meu rei... É para além daquela última curva do caminho... Repito-vos, Senhor: vinde comigo e vereis como é certo!
E el-rei de Portugal lá foi acompanhando a rapariga, quase lado a lado.
E dessa vez foi mesmo certo, conta-nos a história de antanho... Para além da última
curva da ladeira, abrupta e difícil, erguia-se o monte de pedras onde a rapariga vivia...
D. Afonso Henriques foi, como sempre, o primeiro a chegar ao alto, logo seguido pelo
valente e fiel Pêro Vasques.
— Meu Deus, que paisagem deslumbrante! Que ar magnífico! Vedes, Pêro Vasques?
Vedes, com os vossos próprios olhos?...
O outro aquiesceu. Mas continuou desconfiado e atento, apesar de tudo.
— Vejo, sim, meu senhor... porém o sítio parece-me próprio para uma cilada... Voltemos para trás, senhor meu rei, e quanto mais depressa melhor!
— Calai-vos, por Deus, Pêro Vasques!... Isto é um presente do Céu!
E Pêro Vasques calou-se. Compreendia que nada faria demover el-rei. Nada, a não ser
a sede...
— Ah, se houvesse aqui também um pouco de água!...
Num instante, a rapariga reapareceu junto dele.
— Meu rei, água também haverá, já que a desejais... Fazei das vossas mãos uma concha e acercai-vos deste penedo...
El-rei assim fez. Mas também duvidoso...
De súbito, a rapariga caiu de joelhos. Parecia em êxtase. Murmurou misticamente, de
mãos postas em jeito de oração, de olhos fitos na rocha dura da serra:
— Aqui viveu o grande Viriato... Aqui matará a sede el-rei de Portugal!
E logo, como que por milagre, do penedo começou a correr água... Água boa, cristalina, fresca, apetitosa, pura e saudável. Água da Serra!
Todos beberam sofregamente. Até o próprio Pêro Vasques, que parecia agora convertido ao poder maravilhoso da estranha rapariga.
E foi então que el-rei de Portugal, abrindo os braços e espraiando o olhar sobre os
montes, disse a frase que ficou eternizada pelos séculos:
— Descansemos aqui... e vamos todos tomar um folgosinho de ar!
Conta-se que D. Afonso Henriques e os seus homens, depois de tomarem esse folgosinho de ar abençoado, abalaram por aí fora, com novas forças, limpando as terras da
maldita moirama...
Atrás, no alto da serra, ficou apenas uma rapariguita, figura da Terra ou do Céu, murmurando com voz de profecia:
— Água da serra, soldado para a guerra... Folgosinho! Folgosinho! Folgosinho!
E assim nasceu, a doze quilómetros de Gouveia e nas abas da serra da Estrela, a freguesia de Folgosinho, que ainda hoje lá tem a sua celebrada fonte do Gorgulhão,
emoldurada por versos dos Lusíadas.
Fonte Biblio MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume I,
pp. 223-228
Place of collectionFolgosinho, GOUVEIA, GUARDA

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Lenda da Fonte da Pedra - (Alvoco da Serra)
http://web.educom.pt/~pr1305/natal26.htm

Reza a História que, quando Herodes perseguiu São José, Nossa Senhora e o
Menino Jesus, eles fugiram para o Egipto. No seu percurso, passaram pela Serra da
Avoaça e N. Senhora quis descansar porque estava muito cansada. Todos tinham sede
mas não se via nenhuma nascente por perto. S. José, vendo uma pedra ao pé deles, virou-se para o burro e ordenou:
-- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu mas a pedra não tugiu!
S. José ordenou novamente:
--Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e desta vez a pedra gemeu!
S. José ordenou pela terceira vez:
-- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e a pedra chorou!
E desta forma puderam os três matar a sede. A partir daí, a nascente passou a
chamar-se Fonte da Pedra e possui propriedades terapêuticas; nomeadamente, a água
cura os cravos, isto é, as verrugas das mãos.
Ainda lá estão as três marcas na pedra:
A primeira está seca (não tugiu).
A segunda deita um fio de água (gemeu).
A terceira é a nascente (chorou).
Enquanto descansavam, Nossa Senhora resolveu estender a toalha sobre uma
pedra para comerem algo, que a fome apertava. Pois desde então nunca mais o musgo
cresceu nessa pedra, como ainda hoje se pode comprovar!
Porém, chegou a hora de continuarem a viagem e arrumaram tudo. Quando
começaram a andar, Nossa Senhora prendeu o manto no mato que crescia na zona e
rasgou-o. Como castigo de tal atitude, decidiu que nunca o mato cresceria, seria sempre pequeno. E assim é, visto que ainda hoje se diz que o mato é como o da Fonte da
Pedra, quando se pretende explicar que é de pequena estatura.
Tinha a Sagrada Família retomado a sua marcha, quando chegaram a um terreno onde várias pessoas semeavam a terra. E pergunta S. José:
-- Então que semeais aqui?
-- Semeamos pão (leia-se centeio)!
-- Pois voltai amanhã, que pão colhereis!!
E assim aconteceu: no dia seguinte, as pessoas voltaram e encontraram o terreno repleto de centeio maduro, pronto para a ceifa.
Mais à frente, Nossa Senhora e S. José encontraram outro grupo de pessoas
que semeavam igualmente um terreno. E, de igual forma, pergunta S. José:
-- Então, que semeais vós aqui?
Sendo estas pessoas de má índole, responderam:
-- Semeamos pedras!
-- Pois voltai amanhã, que pedras colhereis!

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

E no dia seguinte, quando as pessoas tornaram ao terreno, encontraram-no
cheio de pedregulhos. Diz-se que foi na Pedriça de Unhais, onde ainda se podem ver as
pedras.
Entretanto, o rei Herodes não se conformou com a fuga da Sagrada Família e
mandou soldados no seu encalço. Estes seguiram o mesmo percurso da Fonte da Pedra
e chegaram ao local onde o primeiro grupo de homens ceifava o terreno de centeio.
Os soldados resolveram informar-se e perguntaram às pessoas:
-- Viram passar um homem a conduzir um burro, onde ia uma mulher com um
menino ao colo?
-- Vimos, sim senhor! -- responderam os ceifeiros. -- Passaram aqui quando estavámos a semear este terreno!
Ao ouvir tal, exclamaram os soldados:
-- Oh! Estavam a semear?! Então já passaram há muito tempo! Já não os vamos
conseguir apanhar!
E voltaram para trás, desistindo da perseguição.
Webmaster: Prof. Vaz Nunes (correio) - OVAR*
*Correio: digite vaz, seguido de ponto e nunes; termine com @sapo.pt
(Retirado de: Página não oficial de Alvoco da Serra) - Clique em "PASSEIOS".
http://web.educom.pt/~pr1305/natal26.htm

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Um FINAL com mais TRÊS / QUATRO extras… um CONVITE para voltar ao princípio…
ou antes: um ESPAÇO para CONTAR a sua/s (Hhis)estórias…
«… um tesoiro do tempo da moirama…» -- José Manuel Custódia Biscaia
«NA SOCIEDADE HÁ VALORES QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA» -- José Manuel Custódia Biscaia
“MANTEIGAS MUNICIPAL” ANO III Nº5 - Maio/Setembro 1996

Era menino e moço e, como os da minha idade, gostava de ouvir aquelas histórias de mouras e tesouros encantados. Bom contador era o meu tio Joaquim Sabugueiro, homem lhano, de grande afectividade e de uma graciosidade que comovia e encantava.

Eram tempos de vizinhança, amizade, dignidade e família. Rádios não havia. Televisão nem sequer era palavra do nosso vocabulário...

… “Uma ocasião contava ele, sonhei que na minha vinhita do Ribeiro de São
Lourenço, encostada à parede que dá para o ribeiro, havia uma panela de barro cheia
de moedas de ouro.
Na noite a seguir sonhei a mesma coisa. Era um tesoiro do tempo da moirama...
Eu sabia que era necessário sonhar três vezes e não contar nada a ninguém,
mas estava tão contente que falei do caso à tia Rosairinha (era a sua mulher). A tia
zangou-se comigo ralhou os três ralhados, porque assim tinha “quebrado o encanto” e
já não havia terceiro sonho e, se houvesse, o tesoiro ficava encantado. Mas não foi assim. Uma semana depois voltei a sonhar com a púcara das moedas de ouro, lá na vinhita de São Lourenço.
Na noite a seguir à do último sonho, já passava um migalho da meia-noite,
acordei o meu Tonito e lá fomos nós. Estava escuro e um frio, que com o diacho do
medo que estas coisas sempre fazem, me arrepiavam todo lá pela estrada acima. Lá
íamos calados, no escuro, para que ninguém desse por nós.
Entrámos na vinhita. Cavámos, um bocadito atrapalhados e o meu António não
percebia nada do que se estava a passar, porque não o queria amedrontar. Entrementes, eu ia-lhe dizendo que cavasse com jeito. Às tantas, a enxada bateu em qualquer
coisa que parecia o raça da panela. Esgravatei com as mãos e lá estava ela. Tirámo-la

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com muito jeitinho, limpámos-lhe a boca, meti as mãos e lá estavam as moedas. Estávamos ricos...
Não se via quase nada. A lua estava encoberta, mas o dia começava a aclarar.
Estávamos contentes, muito contentes, pois p’ra gente dava um jeitão aquele dinheiro.
Arreganhados de frio, encolhidos ao pé da parede, lá despontou o dia. Foi a desilusão:
afinal, as moedas eram “patacos” velhos-essas moedas antigas que já não se usavam.
Eu é que tive a culpa, por ter contado à Ti Rosairinha: o dinheiro ficou “encantado” e
transformou-se em “patacos”...
O meu avô dizia que quando assim era, a gente devia cortar um dedo e deitar
um bocado do nosso sangue, que era sangue cristão e logo “aquilo” se transformava
em ouro... Mas que importava o ouro e a gente ficarmos ricos se depois a gente ficava
moiro?
Pegámos no pote dos patacos e deitámo-los para o ribeiro. Sempre era melhor
a gente ficar cristão.
Eu ficava sempre deliciado e triste com a história. Achava a atitude do Ti Joaquim pouco sensata e queria saber como eram os patacos, como era o pote, porque
que ele não os tinha guardado e a resposta era sempre a mesma: sabe menino isto
mais vale a gente ser pobre do que ficar moiros”.
Que lição, digo eu hoje, o Tio nos sabia transmitir: nem tudo o que luz é ouro,
nem o ouro é o mais importante na vida. Há valores que o dinheiro não pode comprar.
Preserve-se a dignidade. Pratiquemos a solidariedade.
FICHA TÉCNICA: “MANTEIGAS MUNICIPAL” ANO III Nº5 - Maio/Setembro 1996
Director - José Manuel Custódia Biscaia; Propriedade - Câmara Municipal de Manteigas; Redacção, Coordenação e, Paginação - Câmara Municipal de Manteigas; Impressão - Casa Véritas - Editora, Lda. - Guarda; Depósito Legal: 84048/94; Periodicidade Quadrimestral; Tiragem - 2.500 exemplares; Distribuição gratuita

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«Dinossauros em Manteigas» - José Manuel Custódia Biscaia
In Boletim Municipal – Revista da CMManteigas – Dezembro 1996 – Nº 6
Os mais velhos certamente já ouviram falar que (há mais de 50 anos) havia uma grande “COBRA” coberta com pêlos da grossura de arame farpado e com asas que se escondia num grande silvado no Ribeiro por baixo da Capela de São Lourenço.
Essa grande “COBRA” alada e peluda, com patas curtas, tinha o “mau” gosto de apanhar uma rês cada vez que por ali passava um rebanho de cabras e ovelhas. Muitos diziam tê-la visto e consta das memórias contemporâneas que houve mesmo caçadores que munidos de arma e zagalotes foram à procura do
medonho e disforme animal que tanto atormentava os pastores.
Nesta, como noutras circunstâncias sempre existem os cépticos e mesmo os que não
acreditavam na existência da besta de corpulência superior à dum burro. O que é certo, é que os
pastores foram deixando de por ali passar, pois
“...mais vale prevenir do que remediar”.
Museu Manteigas http://www.travelplanet.info/museum/Portugal/museu-Manteigas.php

A história já envolvia duas ou três gerações (“...já dizia o meu pai que lhe tinha
contado o avô que tinha sido vista num dia quente de Verão...”), mas com o abandono
da pastorícia muito poucos continuaram a lembrar-se e a falar do assunto. De assunto
do dia -- a -- dia que foi, passou a ser conversa das noites frias e invernosas, junto à lareira, para encanto de alguns e alerta para outros.
Certo, certo é que numa dada altura houve uma daquelas trovoadas de cairo
Carmo e a Trindade que pelas encostas abaixo arrancou e arrasou tudo. Rio, ribeiros e
barrocas mostravam “o que é a Força Divina...” e o respeito que é preciso ter pelos
elementos.
Foram três dias de raminhos bentos e
preces a Santa Bárbara. Depois, veio a bonança e por baixo da ponte do Ribeiro de São
Lourenço, na Estrada Nacional 232 lá estavam “uns costados maiores que os dum burro e pertenciam aquele animal que foi apanhado a dormir -- era inverno -- lá nas profundezas da terra”.
Dinossauro, cobra, ou história? Eu não acredito em bruxas, mas... será que ainda haverá dinossauros cá pela nossa terra?
Por mim, se os há devem estar escondidos ou disfarçados. Como cabras e carneiros já há poucos não sei o que comem nem se metem medo.»
O Presidente da Câmara
José Manuel Custódia Biscaia

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A Visão de Cuco - Germano Cleto
In Zimbro, revista da ASE (Associação Cultural “Amigos da Serra da Estrela” – ano X – Nº 13 – 2ª Série –
Out. Nov. Dez, de 1991, pp. 14 e 15

«Já há muito caíra o Inverno sobre o vale. Este sofrera já os primeiros nevões, mas mostrava-se agora livre de neve, com o códão bem visível.
Pela montanha abaixo, Joaquim Cuco e o pai, traziam cada um, um valente
molho de chamiços. Aproveitavam a aberta de chuvas e nevões para diariamente
irem reforçando o reservatório de mato que ia contribuindo para que a pilheira não
ficasse vazia. Miraram ao longe a Capela de S. Sebastião e, nas Porqueiras, decidiram descansar um pouco. É que a tarefa era diária. Refeitos com a paragem, reergueram-se para prosseguir a descida. Mas eis que, num relance, Cuco enxerga, a escassos metros, um vulto soerguendo-se em folhagem ruidosa. Em tom baixo, Cuco
alerta o pai e uma palavra sai-lhe da boca: “É ele, é ele emplegado. Mato-o eu ou
vossemecê, pai?”
-- "Matamo-jo os dois."
Era o diabo. Cuco fitara-o bem, no sábado de Aleluia, em que o Sr. João, sacristão de S. Pedro, puxando a corda do pano do altar, a enrolou nas pontas do maligno e o fizera estatelar-se no chão, mesmo a seu lado.
-- Já o"cozeste"-- advertira Cuco ao Sr. João.
Mas o Sr. João, que lhe tinha respeito, (o demo coabitava dia e noite com
os santos, pertencia à mesma família) reparara-lhe os cornos e ei-lo, de cornos consertados impante, na procissão da Senhora da Graça, fazendo estadão da sua forma.
Claro que S. Miguel o humilhava, pondo-lhe as solas em cima. Mas isso merecia a
boleia em andor, suportado por quatro mancebos. Que sabiam aliás os mirones das
almas rateadas entre ele e o S. Miguel que ostentava a balança?

Era ele. E num ápice, Cuco pai atirara-lhe a roçadoura ao cachaço enquanto Cuco filho o tentara
deter pelos pés. Mas o maganão fugira-lhe das mãos. Lesto que nem uma lebre, deixara atrás de si um
rasto de sangue.

Donde viria ele? Talvez do Tornágua, da adoração das bruxas que vindos da vila o preiteavam, beijando-lhe o esfíncter, ao ritmo bem cadenciado do bater de palmas: "Passa tu, beija cu... Passa tu, beija cu..." Cuco avançara para o local em que o diabo se soerguera. Vira
então que o diabo lá deixara o endres. Que tendo assumido a humana figura, o demo decidira compartilhar com os mortais os humanos prazeres da carne. E ali estavam as fezes, sabe-se lá se dos mimos dos bácoros que as mulheres da vila, acautelando a imunidade do
enchido, decidiam levar a casa das bruxas da rua, em ocasião de matança.

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"Fugiu, o maganão!"-- disse Cuco filho, satisfeito com o ferimento que lhe infligira, pesaroso que ele não
tenha sido mortal. E lá prosseguiram
a marcha. Malazengo, Cuco pai maldizia a sua sorte: "Bem bonda o reumático que me derreia as pernas,
quanto mais esta derrancada bronquite que me caiu em cima". E lembrava a última ida ao médico que o
pusera a ração mínima em matéria de mata-ratos que fumava. E lá ia, descendo a encosta, qual novo
Sísifo, carregando sobre os ombros doridos o molho de lenha. Na vila, à chegada de ambos, Tia Carriça
velha, catando os piolhos à filha, comentava:
-- "Crescem os reboleiros, minguam os castanheiros".
Cuco, pai e filho, guardaram cúmplice silêncio sobre a aparição, que tiveram. Mas um dia, Joaquim Cuco, já morto o pai, quando afinava os foles guturais para os pregões da vila com copos de três,
etilizou-se e deu conta do segredo.
Foi a voz soante pela vila fora que o diabo lhe aparecera. E a voz chegou aos ouvidos do Zé da
Cleta que a contou ao filho a história que aqui exara por escrito.
Cuco envelheceu e um dia a roçadoura
que enfrentara o diabo tornou-se inútil diante
da roçadoura da morte que o levou. E em campa rasa repousa usufruindo dos méritos do seu
afrontamento com o diabo. Desceu à campa na
ignorância. É que, ao descer a encosta, não ligara ao esterco que o demo deixara. Moscas varejeiras o cobriram e foram pousar nos Iameiros
do vale. E quando, lançando a enxada à terra,
esta lhes devolvia batatas com malmurcho e os
homens exclamavam "Raios partam o diabo",
mal sabiam da génese da doença da batata.
Quando ainda vivo, ao ver sair da igreja, em dias de baptizado, crianças purificadas com a água benta, Cuco sorria pensando que o diabo rondava longe. lgnorava porém que das fezes secas que o diabo foi deixando pela serra fora miasmas voaram para longe. Transformaram-se em cocaína, heroína, haxixe. Outras foram inaladas por narinas humanas e alojaram-se em corações humanos que se degradaram. Mas o pior é que o demo se metamorfoseara em várias figuras: foi prestando atenção à ralé, mas meteu-se na alta roda dos negócios de armas, das manobras de corrupção e diz-se mesmo que conseguiu ascender a conselheiro de Pedro Escobar, barão da droga, procurado por milhões de dólares. Há mesmo quem diga que, insinuando-se junto
de visitantes do Jardim Zoológico convencera o bicho homem de que os animais visitados o apreciavam,
levando-o a ter nostalgia do antropóide de que procedera, a procurar a selva e aí copular com símios.
Daí dizem que teria derivado a sida. Sofrendo a mossa de baptistérios, confessionários e predicas, o demo sentia-se no entanto de rédea larga.
Na campa rasa, Cuco ignora tudo. E não sabemos se, transportado na barca de Caronte, pelo
Letes (rio do esquecimento) fóra, perdera a memória ou se, mantendo-a hibernada, a recuperará no juízo final levando-o a tentar descobrir se a roçadoura levara sumiço e se a ferida no cachaço do demo já
cicatrizara.
Pobre Cuco. Que a terra lhe seja leve!
GLOSSÁRIO
Códão = terra gretada pelo frio e gelo
Pilheira = buraco junto à lareira, onde se guarda a cinza
emplegado = sinal decalcado
endres = ovo que se deixa para a galinha se afazer ao ninho. Deixar o endres, por extensão ao homem,
significa deixar as fezes
bácoro = porco
bonda = chega
reboIeiro = rebento espontâneo do castanheiro. A expressão quer dizer: crescem os novos ajonjam-se
os velhos
malazengo = adoentado

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TI MALATÃO (O Malato – Pastor de Manteigas…) -- J. S.

A Serra (O Vale), e todos quantos a amam, ficaram mais pobres.
A simplicidade rude e meiga do seu rosto era a perfeita sintonia da vida quotidiana que "nos"
preencheram momentos de profunda ligação ao mundo natural das coisas simples.
“Fomos” alunos da sua simplicidade!
“Fomos” protagonistas de alegrias e tristezas. Pudemos sonhar e viver no tempo, antepassado,
e no desejo de que o futuro se perspectivasse de gente assim.
“Quisemos ou queremos" amar a Serra tanto como ele amou! E a melhor maneira de o fazer é
senti-la como ele a sentiu e viveu, intrinsecamente.
"Sabíamos" que só a morte o arrancaria dali.
Foi melhor assim. Mereceram-se mutuamente.
Cumpriram-se os desígnios da vida e da sua "teimosia".
Sim porque para se querer o que se ama é necessário alguma "teimosia".
E ele foi, talvez, dos últimos "teimosos" do Vale.

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anexos para se ter uma ideia do que são os “mitos”… os Contas… as lendas…
Para que não haja confusão a respeito dos MITOS e das LENDAS, ou antes pelo contrário, para que que essa confusão seja alimentada de um modo criativo e provocador e
para que cada um as possa LER e reinventar à sua maneira, eis
Alguns dados sobre A MITOLOGIA:
In MITOLOGIA CLÁSSICA - Guia Ilustrado - A. R. Hope Moncrieff - editorial Estampa /
Círculo de Leitores, Lisboa, 1992
uma INTRODUÇÃO de A. R. Hope Moncrieff
«Este volume é uma versão abreviada da obra de A. R. Hope Moncrieff Classic Myth
and Legend. Como afirma o autor no prefácio original, "trata das célebres ficções lendárias da Grécia Antiga que tantos temas e alusões proporcionaram aos autores modernos".
Transmitidas por via oral de geração em geração durante milhares de anos, estas antigas histórias foram eventualmente postas por escrito e depois aproveitadas pelos poetas e dramaturgos gregos do último período, e assim transmitidas através dos séculos
até nós.
Hope Moncrieff declara que a sua tarefa foi "reproduzir as características principais
desta mitologia, geralmente segundo a versão mais conhecida, mas por vezes tendo
em conta o gosto dos leitores que não digeririam facilmente as grosserias que não
ofendiam os ouvintes de outros tempos. Uma certa selecção ou supressão praticadas
justificam-se pelo exemplo clássico; mas a intenção é, na medida do possível, apresentar o espírito grego tal como se revela nas suas famosas fábulas, e tornar familiares os
nomes e caracteres tantas vezes citados em poesia, em oratória e na história".
Não há dúvida de que a mitologia grega, com o seu vasto elenco de deuses e semideuses, heróis e mortais, ninfas dos bosques e das águas, monstros da terra e do mar, as
alturas do Olimpo e as profundezas do Hades, muito deve ao génio e à imaginação dos
Gregos. A própria tradição destas histórias remonta ao tempo em que ainda não tinham sido contadas pela primeira vez, isto é, a um passado pré-helénico.
Os dois grandes feitos épicos da mitologia grega são evidentemente os relatados por
Homero na sua Ilíada, onde descreve a guerra de Tróia, e na Odisseia, que conta as
aventuras de Ulisses na sua perigosa viagem de regresso à pátria. Homero escreveu estas histórias no ano 800 a. C. - quatrocentos anos depois da guerra de Tróia. Extraídos
de Homero e do seu contemporâneo Hesíodo, estes temas e muitos outros mitos clássicos de fontes desconhecidas foram relatados nas peças de Ésquilo e Sófocles, nas Metamorfoses de Ovídio, nas Vidas Paralelas de Plutarco, nas Odes de Píndaro e nas Descrições da Grécia de Pausânias, entre outras.

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

O resultado, escreve Hope Moncrieff, foi que "podemos encontrar feitos semelhantes
atribuídos a personagens diferentes e versões diversas, por vezes contraditórias, do que
parece ser a, mesma história. Claro que isto não é novo em mitologia. Os escritores
clássicos que tinham de lidar com esta confusão de tradições eram mais ou menos livres para as "deturpar" segundo os seus próprios gostos e preconceitos...Hércules
aparece como contemporâneo de muitos heróis, alguns dos quais deviam ser demasiado velhos ou demasiado jovens para terem alguma utilidade entre os Argonautas, de
quem ele era companheiro de bordo".
O estilo lírico de Hope Moncrieff nestas histórias faz-se eco do próprio lirismo e da poesia com que os mitos épicos eram originariamente tratados. Com toda a sua natureza
fantástica e a ausência de incrudelidade que a sua leitura requer, são histórias cujos
temas ainda hoje dizem muito - o esforço, a perseverança e o espírito aventureiro dos
homens, o amor e o ódio, a bravura e a cobardia, o ciúme, a tentação, a vingança e até
o mérito.»

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OS MITÓGRAFOS GREGOS E ROMANOS – “Mitologia” Edith Hamilton
in A MITOLOGIA, Edith HAMILTON, Publicações Dom Quixote, 2ª ed. Lisboa, 1979
pp. 22 a 26
«A maioria das obras referentes aos mitos clássicos fundamenta-se principalmente no
poeta latino Ovídio, que escreveu durante o reinado de Augusto. Ovídio é um autêntico
compêndio de mitologia. Deste ponto de vista, nenhum escritor antigo pode equiparar-se a ele. Contou quase todas as histórias e de modo bastante desenvolvido. Ocasionalmente, algumas das mais conhecidas, nos campos da literatura e da arte, chegaram
até nós apenas através da sua pena. Evitámos, no caso presente, recorrer a ele tanto
quanto possível. Não há dúvida de que foi um bom poeta e um fabulista seguro, capaz
de apreciar devidamente os mitos, compreendendo, portanto, o material de qualidade
que lhe ofereciam; Ovídio, no entanto, estava realmente muito afastado deles, mais do
que nós hoje. Para ele os mitos eram meros disparates e, segundo esta linha de pensamento, escreveu:
Eu canto as monstruosas mentiras dos poetas antigos
Nunca vistas, quer agora quer então, por olhos humanos.
Com efeito, dirigindo-se ao leitor, afirma: "Não importa serem absurdos; apresentarvo-los-ei com tão belos artifícios que haveis de gostar." E, na realidade, fá-lo frequentemente muito bem; nas suas mãos, contudo, os assuntos que eram verdade de facto e
verdade solene para os poetas primitivos, Hesíodo e Píndaro, e veículos de autênticos
dogmas religiosos para os tragediógrafos gregos, tornam-se contos fúteis, algumas vezes espirituosos e divertidos até, outras sentimentais e desoladoramente retóricos, e
mantêm-se notável e perfeitamente alheios a qualquer forma de sentimentalismo.
Não é longa a lista dos principais escritores através de quem os mitos chegaram até
nós. Homero surge em primeiro lugar, naturalmente. A Ilíada e a Odisseia são, ou melhor, contêm os escritos gregos mais antigos, muito embora não haja possibilidade de
se datar com exactidão qualquer passagem desses poemas. Os eruditos têm opiniões
muito díspares quanto a esse ponto; no entanto uma das datas a que não se levantam
muitas objecções é o ano 100 a. C. - no que respeita à Ilíada, que é o mais antigo.
A partir deste momento, todas as datas da presente obra devem entender-se como anteriores ao nascimento de Cristo, a não ser que se faça qualquer referência em contrário.
Hesíodo, o segundo escritor, logo depois de Homero, é algumas vezes situado entre os
séculos IX e VIII; levava uma vida dura e amarga de camponês. Não pode haver maior
contraste do que aquele que se verifica entre o seu poema "Os TRABALHOS e os Dias"
(mediante o qual pretende mostrar ao homem o processo de se conseguir ter uma vida
razoável num mundo inóspito) e o esplendor cortês que transparece da Ilíada; e da
Odisseia. Mas Hesíodo tem muito que dizer sobre os deuses e, por isso, dedica à mitologia todo um segundo poema, que habitualmente lhe é atribuído, a "Teogonia". Se
Hesíodo é realmente o seu autor, então podemos afirmar que esse camponês humilde,

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vivendo numa quinta solitária, longe da cidade, foi o primeiro homem na Grécia que
ponderou sobre o modo como tudo aconteceu, o Mundo, o Céu, os deuses, a humanidade, e foi também o primeiro que tentou elaborar uma explicação adequada. Homero
nunca se debruçou sobre tal problema. A "Teogonia", uma narrativa da criação do Universo e das gerações de deuses, assume, pois, grande importância para o estudo da mitologia.
A seguir aparecem os "Hinos Homéricos", poemas escritos em honra de vários deuses.
Não podem ser datados com carácter definitivo, mas os mais antigos são considerados
pela maioria dos especialistas como pertencendo aos fins do século VIII, princípios do
século VII. Aquele que se considera menos importante (são trinta e três ao todo) referese à Atenas do século V, ou provavelmente do século IV.
Píndaro, o maior poeta lírico da Grécia, começou a escrever por volta dos fins do século
VI. Compôs odes homenageando os vencedores dos jogos realizados por ocasião dos
grandes festivais nacionais gregos e, em todos os seus poemas, surgem narrativas ou
meras alusões aos mitos; é, portanto, um autor tão importante para o conhecimento
da mitologia como Hesíodo.
Ésquilo, o mais antigo dos três poetas trágicos, foi contemporâneo de Píndaro. Os outros dois, Sófocles e Eurípides, eram um pouco mais novos. Eurípides, o mais jovem,
morreu nos fins do século V. À excepção de Os Persas, de Ésquilo, escrita para celebrar
a vitória dos Gregos sobre os Persas em Salamina, todas as peças versam temas mitológicos. Juntamente com a obra de Homero constituem a fonte mais importante dos
estudos desses temas.
O grande comediógrafo Aristófanes, que viveu durante os últimos anos do século V e
começos do IV, faz muitas vezes referências aos mitos, bem como dois outros grandes
prosadores, Heródoto, o primeiro historiador da Europa, que foi contemporâneo de Eurípides, e Platão, o filósofo, que pertenceu à geração seguinte.
Os poetas alexandrinos viveram por volta do ano 250. Esta designação provém do facto
de, na altura, o centro da literatura grega ter sido transferido para Alexandria, no Egipto. Apolónio de Rodes contou pormenorizadamente a Demanda do Velo de Oiro e uma
série de outros mitos relacionados com essa história. Juntamente com outros três poetas alexandrinos, que também se debruçaram sobre os temas da mitologia, os poetas
pastoris Teócrito, Bíon e Mosco perderam a simplicidade da crença nos deuses, que caracteriza Hesíodo e Píndaro, e apresentam-se, pois, já muito afastados da profundidade e da gravidade das ideias religiosas dos poetas trágicos; ainda não tocam, porém, a
frivolidade de Ovídio.
Dois escritores já do fim dessa época, Apuleio, latino, e Luciano, grego, ambos do século II da era cristã, vêm trazer um contributo bastante notável. A célebre história de Cupido e Psique é contada por Apuleio, que escreve bastante à maneira de Ovídio. Luciano, por seu turno, tem um estilo muito pessoal, muito sui generis: satirizou os deuses,
que, na sua época, se tinham tornado já assunto jocoso. Não obstante, dá, a propósito,
muitas indicações úteis.

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Apolodoro, grego também, é, depois de Ovídio, o mitógrafo antigo de produção mais
vasta; no entanto, ao contrário do que acontece com Ovídio, é muito terra a terra, chegando a ser, por vezes, um tanto enfadonho. A data em que viveu tem sido fixada diferentemente ao longo do período que medeia entre o século I a. C. e o século IX da era
cristã. Segundo a opinião do erudito inglês Sir J. G. Frazer, as suas obras terão sido escritas muito provavelmente no século I ou no Século II da nossa era.
O grego Pausânias, viandante entusiasta, autor do primeiro guia escrito, tem muito
que dizer sobre os acontecimentos mitológicos que constava terem ocorrido nos locais
que visitou. Viveu já nos derradeiros anos do século II d. C., mas não põe em discussão
quaisquer dos argumentos das histórias relatadas, e a sua obra tem um carácter de absoluta seriedade.
Virgílio ocupa posição proeminente em relação a todos os escritores romanos, não que
acreditasse mais nos mitos do que Ovídio, de quem foi contemporâneo, mas achou que
havia neles algo característico da natureza humana e, por isso, deu vida a determinadas personagens mitológicas como ninguém antes dele conseguira, desde os tragediógrafos gregos.
Outros poetas romanos versaram o tema dos mitos. Catulo narra várias histórias e Horácio alude com frequência a esta ou àquela, mas nem um nem outro tem grande importância para o estudo da mitologia. Para todos os romanos as histórias eram infinitamente remotas, meras sombras. Os melhores guias para o conhecimento da mitologia grega são, pois, os autores gregos, que acreditavam no que escreveram.»
p. 29 "Os gregos não acreditavam que os deuses tivessem criado o Universo; pensavam
precisamente o contrário - o universo criara os deuses..."

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Manteigas – CONTOS & LENDAS – LIGAÇÕES à INTERNET
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/520manteigas0.htm
A LENDA NA BOCA DO NOSSO POVO
LENDA DA PRINCESA ESTRELA - Extraída da "Monografia da Vila de Seia" De P. José Quelhas Bigotte
LENDA DOS TRÊS RIOS - (Mondego, Alva e Zêzere) - VISCONDE DE SANCHES DE FRIAS Do "Estrela da Beira" N.o 97 (11-2-1934)
O MISTÉRIO DO CRASTO E A LENDA DE ALFÁTIMA (ou ALFÁTEMA) - MANUEL FERREIRA DA SILVA Do
"Ecos de Manteigas" N.o 71 de 5-2-956
SENHORA DO ROSÁRIO - LENDA POPULAR DE MANTEIGAS - Viriato Zêzere - ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO - Do "Ecos de Manteigas" N.o 78 de 27-5-956
LENDA DA NOSSA SENHORA DOS VERDES - Do "Ecos de Manteigas" N.o 52, de 10 de Abril de 1955.
Subscrito por VIRIATO DE ZÊZERE, do livro "A Fraga da Cruz" que tencionava publicar, o que a morte
prematura não lhe permitiu.
LENDA DA CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DA ARGENTEIRA - (1) - Assim escrevia nos primeiros anos da década de 40 o compilador desta lenda - ANTÓNIO DE JESUS DE CARVALHO (Bica), num precioso livro manuscrito que legou à posteridade.
LENDA DA CAPELA DE SÃO LOURENÇO - Do mesmo livro se transcreve, também, a curiosa lenda que se
segue, que nos narra a origem da capela de São Lourenço. A transcrição textual destas duas lendas só foi
possível por gentil assentimento e boa vontade dos Herdeiros e detentores do livro manuscrito.
LENDA DO SENHOR DO ESQUIFE DE SANTA MARIA - MANTEIGAS - NOTA - Este é o texto integral recolhido de um recorte do jornal de que não foi possível extrair o título nem a data. A publicação inseria-se
num concurso que tinha por título "LENDAS DE PORTUGAL"
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/520manteigas.htm
A LENDA DE MANTEIGAS
por José da Serra
- diz Lucas Batista que diz Barjona de Freitas... "... passou um touro que lhe arrebatou a criança..." ..."e
só parou onde está edificada a vila..."
- Lenda de Manteigas - o refúgio de Hermes, que explica o nome e as características...
- As referências à Mitologia Greco Latina - Hope Moncieff e Edith Hamilton
http://www.joraga.net/serradaestrela/pags/520lendas.htm
1.a/s Lenda do Pastor da Serra da Estrela...
2. a/s Lenda de Alfátima...
e outras...
3. a Pedra de Ver A Mar,
4. Viriato,

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5. Lagoa Escura,
6. as Mouras enCantadas...
7. o Coro dos Cântaros
... as Magas e as Fadas por detrás das Fragas... os medos, mistérios e segredos por detrás dos Penedos...
Além desta introdução com
1. o poema do tio Zé Moleiro, e
2. a LENDA O PASTOR da SERRA DA ESTRELA, versão curta, e um resumo para exercício oral
3. de algumas sugestões a partir da FALA do ÍNDIO...
Veja também (embora muitas PÁGINAS ainda estejam em construção):
UMA LENDA DE MANTEIGAS
LENDAS DE MANTEIGAS - in ANTOLOGIA - I de JLBaptista Duarte - 1985
http://www.joraga.net/serradaestrela/index.htm%20
o ARCAZ de CONTOS & LENDAS de MANTEIGAS... da minha STerra...
http://www.lendarium.org/narrative/fatima-lenda-de-s-joao-na-beira-baixa/--category=4
Fátima-Lenda de S. João na Beira-Baixa - APL 2280
http://www.lendarium.org/narrative/manteigas/--tag=108
Manteigas - APL 3314
https://books.google.pt/books-id=VfagYGxwjGAC&pg=PA43&lpg=PA43&dq=Manteigas+contos+e+lendas&source=bl&ots=o2QU7w14U
u&sig=BosiWvUUu8LGYM9rM69veYyvCBw&hl=ptPT&sa=X&ei=1mMmVYvZA4rpUoHsg8AD&ved=0CEIQ6AEwBg#v=onepage&q=Manteigas%20contos%20
e%20lendas&f=false
nome errado DO LIVRO MANTEIGAS… - Envejecimiento Activo de la Población Chilena - Por Marcelo Villagrán Abarzúa
https://pt.scribd.com/doc/105239127/ALFATIMA-uma-LENDA-de-Manteigas-Serra-da-Estrela-UmReino-de-Outro-este-Mundo
ALFÁTIMA - uma LENDA de Manteigas - Serra da Estrela - Um Reino de Outro (este) Mundo
http://www.fontedeluz.com/--ver=8&id=92
A Raiva do Alva
A localidade de Pombeiro da Beira tem na sua história uma disputa entre três rios, o Mondego, o Alva e
o Zêzere, todos nascidos na Serra da Estrela. Estes três rios envolveram-se um dia numa grande discussão sobre quem seria o mais valente e acertaram numa corrida que esclareceria a questão: quem chegasse primeiro ao mar seria o vencedor. O Mondego levantou-se cedo e começou a deslizar silenciosamente para não atrair as atenções. Passou pela Guarda e pelas regiões de Celorico, Gouveia, Manteigas,
Canas de Senhorim e pela Raiva, onde se fortaleceu junto dos ribeiros seus primos, chegando por fim a
Coimbra. O Zêzere, que estava atento, saiu ao mesmo tempo que o seu irmão. Oculto, por entre os penhascos, foi direito a Manteigas, passou a Guarda e o Fundão, mas logo depois se desnorteou e, cansado, veio a perder-se nas águas do Tejo. O Alva passou a noite a contar as estrelas, perdido em divagações de sonhador e poeta. Quando acordou, era já muito tarde mas ainda a tempo de avistar os seus
irmãos ao longe. Tempestuoso, rompeu montes e rochedos, atravessou penhascos e vales, mas quando
pensava que tinha vencido deparou com o Mondego, no momento que este já adiantado chegava ao

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

mar. O Alva ainda tentou expulsar o seu irmão do leito, debatendo-se com fúria e espumando de raiva,
mas o Mondego engoliu-o com o seu ar altivo e irónico. Este lugar onde os dois rios lutaram ficou para
sempre conhecido como Raiva, em memória da contenda entre os dois irmãos.
http://www.folclore-online.com/lendas/balta/nossa_senhora_espinheiro.html#.VSZo1PnF8Xs
Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro (Seia)
http://www.folclore-online.com/lendas/balta/truta_celerico.html#.VSZpRPnF8Xs
A truta de Celorico
http://www.folclore-online.com/lendas/balta/serra_estrela.html#.VSZpofnF8Xs
Lenda da Serra da Estrela
http://www.folclore-online.com/lendas/balta/acor_principe.html#.VSZqB_nF8Xs
O Açor e o Príncipe

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trabalho realizado
por @ JORAGA
Vale de Milhaços, Corroios, Seixal
2015 ABRIL / MAIO

JORAGA

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

Algumas OBRAS com Contos e Lendas de Manteigas
ALFÁTIMA
NOMINALIA
José da Serra do Vale do Zêzere (José Rabaça Gaspar)
http://www.e-libro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1966

Herminia Herminii (Jo´s Rabaça Gaspar)
http://www.e-libro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1987

O PASTOR

MANTEIGAS

Viriato dos Hermínios (José Rabaça Gaspar)
http://www.e-libro.net/libros/libro.aspx?idlibro=2009

Hermes do Zêzere (José Rabaça Gaspar)
http://www.e-libro.net/libros/libro.aspx?idlibro=2021

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CONTOS SERRANOS
João Isabel

POIOS E PROSA
António Leitão

http://www.cmmanteigas.pt/municipio/publicacoes/Documents/Contos%20Serranos.pdf

http://www.cmmanteigas.pt/municipio/publicacoes/Documents/poios%20e%20prosas.pdf

ANTOLOGIA – Depoimentos Histórico Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro
José Lucas Baptista Duarte

CONTOS DA LAGOA ESCURA
José Crespo

uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

…para não perder o fio da meada da interminável fiada de CONTOS & de LENDAS pode ver os anteriores… (OBRAS organizadas / escritas por JRG)

5

6

ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 5
ALMODÔVAR

(Este que está a ler…)
ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 6
LENDAS do ALÉM-TEJO

3

4
ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 4
MÉRTOLA

ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 3
C. Gonçalves de Serpa
https://pt.scribd.com/doc/254565656/ALEN
TEJO-CONTOS-LENDAS-3-de-C-Goncalves-deSerpa-SERPINEA-3

https://pt.scribd.com/doc/255007485/ALEN
TEJO-um-CELEIRO-de-CONTOS-LENDAS-4Mertola-Contos-e-Lendas

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1

2

ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 1–
TRADIÇÃO DE SERPA

ALENTEJO – CONTOS & LENDAS 2 –
in CANCIONEIRO DE SERPA
de MRita OPCortez

https://pt.scribd.com/doc/251714770/ALENTEJO-CONTOSLENDAS-in-Tradicao-Serpa

https://pt.scribd.com/doc/252489809/ALENTEJO-CONTOSLENDAS-2-MRitaOPCortez-Cancioneiro-de-Serpa

Pode ser transferido para poder ser lido pelos diversos meios técnicos actuais
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outros relacionados:

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Lendas de Beja

A Serpe

http://www.bubok.pt/livros/5206/Lendas-de-Beja-O-Touro-e-a-Cobra-e-outras-LENDAS

http://www.elibro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1942

uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

A Cobra

A Moura

http://www.elibro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1936

http://www.elibro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1952

A Ilha

Lendas da Moura Salúquia

http://www.elibro.net/libros/libro.aspx?idlibro=1922

Ed. AMCM – 2005
MOURA SALÚQUIA
Associação das Mulheres do Concelho de Moura

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uma CASCATA de CONTOS & LENDAS - JRGaspar

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