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ÍNDICE

Prefácio

004

"Filosofia é coisa de louco"

005

Anaximandro

007

Heráclito

007

Parmênides de Eléia

007

Sócrates

008

Platão

010

Aristóteles

012

Sêneca

015

Marco Aurélio

017

Epicuro

018

Pirro

020

Plotino

021

Agostinho

022

Abelardo, Pedro

025

Maimônides, Moisés

026

Aquino, Tomás de

027

Maquiavel, Niccolò

031

Montaigne, Michel Eyquem de

033

Bacon, Francis

034

Galileu Galilei

036

Hobbes, Thomas

038

Descartes, René

039

Pascal, Blaise

043

Espinosa, Baruch

045

Löcke, John

049

Malebranche, Nicolas

051

Leibniz, Gottfried Wilhelm

052

Voltaire, (Arouet, Francois Marie)

053

Hume, David

056

Rousseau, Jean-Jacques

059

Kant, Immanuel

061

Hegel, Georg Wilhelm Friedrich

066

Schopenhauer, Arthur

072

Comte, Augusto

074

Feuerbach, Ludwig

077

3

Kierkegaard, Sören

084

Marx, Karl

086

Engels, Friedrich

088

Nietzsche, Friedrich

090

Durkheim, Émile

094

Gramsci, Antônio

106

Husserl, Edmund

115

Freud, Sigmund

118

Bergson, Henri

129

Wittgenstein, Ludwig

132

Bachelard, Gaston

133

Arendt, Hannah

138

Sartre, Jean-Paul

145

Mounier, Emmanuel

149

Beauvoir, Simone de

151

Ricouer, Paul

153

Schaff, Adam

155

Badiou, Alain

180

Feyereband, Paul

183

Deleuze, Gilles & Guattari, Félix

186

Horkheimer, Max & Adorno, Theodor Wiesegrund

191

Debord, Guy

193

João Paulo II

196

Kuhn, Thomas

206

Foucault, Michel

211

Merleau-Ponty, Maurice

229

Heidegger, Martin

237

Ayer, Alfred Jules

245

Popper, Karl

250

Kosík, Karel

262

Lévi-Strauss, Claude

268

Morin, Edgar

271

Saviani, Dermeval

283

Bernardo, João

290

Rorty, Richard

294

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

306

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PREFÁCIO

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Os textos que compõem esta coletânea, alinhavados de modo a possibilitar consulta prática e aplicação em sala de aula ou fora dela, têm em comum a densidade, a consistência e o fato de representarem a herança mais significativa do pensamento gerado no Ocidente.

Ao coletar manifestações de homens e mulheres que ao longo de dois mil e quinhentos anos vêm encontrando na filosofia o caminho para perenizar o pensamento livre e autônomo, o professor Márcio Antonio Cardoso Lima desenvolveu o trabalho paciente do garimpo. Como quem garimpa preciosidades, o Márcio, ao longo dos últimos dez anos, tem sido muitas vezes voz solitária neste nosso Rio Doce, a lançar o convite da filosofia para as novas gerações. No entanto, nunca fez da filosofia um segredo, coisa de iniciados. Ao contrário encarnou a filosofia em suas aulas, em suas relações, na amizade com quem busca o conhecimento, no convívio curioso e aberto com quem é e pensa diferente. Esta coletânea é mais uma prova disto: facilita o acesso aos clássicos e oferece, mesmo a quem é apenas curioso (ser curioso não é pouca coisa!) a possibilidade de estabelecer amizade com o saber. Não há nada mais livre, menos condicionada que a amizade. Ao contrário da sabedoria

ancestral de todos os povos, com guias, pajés e gurus cheios de certezas, a exigirem lealdade,

a filosofia é apresentada aqui como atitude de construção da autonomia humana frente a todos os medos e superstições a que os indivíduos e as gentes já foram submetidos. O que se tem daqui para a frente são textos-testemunhos a nos convidarem para

a organização do conhecimento que tem origem na vontade humana de obter sentido para a própria vida e para a vida do mundo.

Jaider Batista da Silva

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"FILOSOFIA É COISA DE LOUCO"

"Com efeito, foi pela admiração que os homens começaram a filosofar tanto no

princípio como agora; perplexos, de início, ante as dificuldades mais óbvias,

avançaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito das maiores,

como os fenômenos da Lua, do Sol e das estrelas, assim como a gênese do

universo. E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se

ignorante (por isso o amigo dos mitos é, em certo sentido, um fílósofo, pois

também o mito é tecido de maravilhas); portanto, como filosofavam para fugir à

ignorância, é evidente que buscavam a ciência a fim de saber, e não com uma

finalidade utilitária." Aristóteles, Metafísica, Livro I, 982 b, p. 40.)

Sempre que inicio o ensino de Filosofia, com os alunos e as alunas, das séries iniciais, dos cursos

de ciências humanas, ciências agrárias ou ciências biológicas na Univale, tenho a preocupação de

perguntar a quem irá trabalhar comigo qual inteligibilidade os participantes têm sobre o termo filosofia.

Faz-se lugar-comum que a filosofia seja vista como "coisa de louco".

Pergunto-me sobre o significado de tal assertiva: ei-la eivada de caráter depreciativo, pois procura

dicotomizar a própria realidade vivida pelos homens entre os que são "sãos" e aqueles que são

"loucos".

Será que tal afirmativa não tem a pretensão de fazer-nos acreditar que a filosofia é um

conhecimento para iluminados? Tal crença, fazendo-se senso comum, tornando-se corriqueira, esconde

de maneira latente a pretensão de corroborar o "status quo" entre aqueles que se dizem "sábios" e,

aqueles que se dizem "ignorantes". Novamente a realidade sendo pressuposta intencionalmente como

dicotômica.

Será que também não escamoteia o não-engajamento, o compromisso fazendo-pensando-sendo?

Apropriar-se do imediato como "locus" de posicionamento, exige que arquemos com porvir do próprio

assumir, desenfastiando da mesmice; porém, angustiando-nos. Quem se dispõe a ser o que se é,

afirmando que não quer mudar, arcará com o advir da própria mudança. Quem se dispõe a ser o que

não-é, sentir-se-á no compromisso de ser sempre mais, mesmo não-sendo nunca. Portanto, "se correr o

bico pega, se ficar o bicho come".

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Filosofamos sempre: nos atos mais corriqueiros de nosso dia-a-dia há a impregnação do próprio

agir/pensar. Basta uma simples rememorização das nossas perguntas quando éramos crianças: "Mãe,

quem é Deus?"; "Por que cadeira é cadeira e não é mesa?"; "Por que aqui em casa eu também não

posso

mandar"?; "Por que você é pai e eu sou filho?". E, aqui, desde já, algo sapiente, saboroso:

perguntar se faz mais importante do que responder; e que mesmo se houver resposta, uma nova

pergunta se faz necessário, como presença viva na cotidianidade.

Por que um "Filotextos"? Trabalhando nos anos 90 com o ensino de Filosofia na Univale, sempre

houve preocupação de minha parte de não fazer da Filosofia um conhecimento entendiante, mas

prazeroso; um conhecimento onde não houvesse separação entre o fazer e o pensar, apropriando

sempre da fala de quem trabalha comigo em sala de aula, para que houvesse um compromisso mútuo.

Porém, as dificuldades sempre estavam presentes,

Trabalhando com um livro-texto, sempre era citado um determinado filósofo, com a interpretação

feita pelo(a) autor(a) do livro, sem nenhum esforço por parte do leitor. Portanto, repetição de uma

leitura, e não o desempenho na busca do(s) sentido(s).

De vez em quando aparecia uma fotocópia de um texto de algum filósofo que se está estudando;

distribuia-se o texto e no final era novamente recolhido para se poder trabalhar com uma outra turma.

Apropriava-se do texto momentaneamente, distanciando-se dele em seguida.

Já que o estudo da Filosofia é inseparável do estudo dos textos dos filósofos, tenho a pretensão

de sanar esta dificuldade, nas séries iniciais, dos cursos citados acima; e se houver uma outra utilidade

fora do campus universitário, o meu esforço foi válido, e porque não dizer, gratificante.

A minha pretensão inicial era um material pequeno de aproximadamente cem folhas, porém aos

poucos uma formiga virou um elefante. Para alguns filósofos pequenos textos; para outros, um capítulo

inteiro. Não esqueça que o professor de filosofia tem também as suas preferências, não se fazendo

neutro em nenhum momento.

Governador Valadares, 15 de janeiro de 1998.

Márcio Antônio Cardoso Lima

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ANAXIMANDRO (610-524 a.C.)

Filósofo da escola jônica, o grego (natural de Mileto e discípulo de Tales) Anaximandro estabeleceu que o princípio de todas as coisas é o ilimitado (o apeiron). Para ele, tudo provém dessa substância eterna e indestrutível, infinita e invisível que é

o apeiron, o ilimitado, o indeterminado: "o infinito é o princípio" (arché); e o princípio é o fundamento da geração das coisas, fundamento que as constitui e as abarca pelo indiferenciado, pelo indeterminado. A ordem do mundo surgiu do caos em virtude desse princípio, dessa substância a única que é o apeiron.

TEXTO ele disse (que era) o Ilimitado

Pois donde a geração é para os seres, é

para onde também a corrupção se gera segundo o necessário; pois concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a ordenação do tempo." ( In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7.

ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 24.)

"(Em discurso direto:)

Princípio dos seres

HERÁCLITO DE ÉFESO (545?-meados do séc. V))

Considerado o filósofo do devir, do vir-a-ser, do movimento, o grego (nascido em Éfeso) Heráclito é o mais importante pré-socrático. Filósofo melancólico e obscuro, de estilo oracular, ele se contenta com a representação: o sol é novo cada dia. O universo muda e se transforma infinitamente a cada instante. Um dinamismo eterno o anima. A substância única do cosmos é um poder espontâneo de mudança e se manifesta pelo movimento. Tudo é movimento: "panta rei", i.é, "tudo flui", nada permanece o mesmo. As coisas estão numa incessante mobilidade. E a verdade se encontra no devir, não no ser: "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". E a unidade da variedade infinita dos fenômenos é feita pela "tensão oposta dos contrários". "Tudo se faz por contraste", declara. "Da luta dos contrários é que nasce a harmonia." Se nossos sentidos fossem bastante poderosos, veríamos a universal agitação. Tudo o que é fixo é ilusão. A imortalidade consiste em nos ressituarmos no fluxo universal. O pensamento humano deve participar do pensamento universal imanente ao universo. E o princípio unificador que governa o mundo é o logos.

TEXTOS

2.1. "O sol não apenas, como Heráclito diz, é novo cada dia, mas sempre novo, continuamente." (Fg 6, Aristóteles,

Meteorologia, II, 2.355 a 13)

2.2. "Este mundo, o mesmo de todos os (seres), nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo

sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas." (Fg. 30, ap. Clemente de Alexandria, Tapeçarias, V,

105)

2.3. "O combate é de todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros, homens; de uns fez

escravos, de outro, homens livres." (Fg. 53, ap. Hipólito, Refutação, IX, 9,4)

2.4. "Vive fogo a morte de terra, ar vive a morte de fogo, água vive a morte de ar, a terra a de água." (Fg. 76, ap.

Máximo de Tiro, Philosophoúmena, XII, 4)

2.5. "Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo, segundo Heráclito, nem substância mortal tocar duas vez na

mesma condição (

introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 24-25)

)"

(Fg. 91, ap. Plutarco, O E de Delfos, 18, 392 B) (In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições

PARMÊNIDES DE ELÉIA (510-470 a.C.)

Filósofo grego da escola eleática (nascido em Eléia), Parmênides representa, face a Heráclito, o outro pólo do pensamento humano. Para ele, é a mudança e o movimento que são ilusões. O devir não passa de uma aparência. São nossos sentidos que nos levam a crer no fluxo incessante dos fenômenos. O que é real é o Ser único, imóvel, imutável, eterno

e oculto sob o véu das aparências múltiplas. "O Ser é , o não-ser não é", quer dizer: o ser eterno, substância permanente das

coisas, por conseguinte, imutável e imóvel, é o único que existe. O "não-ser" é a mudança, pois mudar é justamente não mais ser aquilo que era e tornar-se aquilo que não é ainda. Foi para defender essa tese que discípulo de Parmênides, Zenão de

Eléia, criou uma série de argumentos chamados "paradoxos de Zenão". O mais conhecido é o de Aquiles e a tartaruga.

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TEXTOS 3.1. "Pois bem, eu te direi, e tu recebe a palavra que ouviste, os únicos caminhos de inquérito que são a pensar: o primeiro, que é e portanto que não é não ser, de Persuasão é caminho (pois à verdade acompanha); o outro, que não é e

portanto que preciso não ser, este então, eu te digo, é atalho de todo incrível, pois nem conhecerias o que não é (pois não é

exeqüível), nem o dirias (

3.2. "O mesmo é pensar e em vista de que é pensamento. Pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra,

acharás o pensar; pois nem era ou é ou será outro fora do que é, pois Moira o encadeou a ser inteiro e imóvel; (

Então, pois limite é extremo, bem terminado é, de todo lado, semelhante a volume de esfera bem redonda, do centro

(42-45). (In: CHAUI, Marilena et

)

)"

(Fig. 2, ap. Proclo, Comentário sobre o Timeu, I, 345, 18)

)

(34-38) (

equilibrado em tudo; pois ele nem algo maior nem algo menor é necessário ser aqui ou ali; ( al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.25.)

)

SÓCRATES (479-399 a.C.)

A vida de Sócrates nos é contada por Xenofonte (em suas Memorabilia) e por Platão, que faz dele o personagem central de seus diálogos, sobretudo Apologia de Sócrates e Fédon. Ele nasceu em Atenas. Sua mãe era parteira, seu pai escultor. Recebeu uma educação tradicional: aprendizagem da leitura e da escrita a partir da obra de Homero. Conhecedor das doutrinas filosóficas anteriores e contemporâneas (Parmênides, Zenão, Heráclito), participou do movimento de renovação da cultura empreendido pelos sofistas, mas se revelou um inimigo destes. Consolidador da filosofia, nada deixou escrito. Participou ativamente da vida da cidade, dominada pela desordem intelectual e social, submetida à demagogia dos que sabiam falar bem. Convidado a fazer parte do Conselho dos 500, manifestou sua liberdade de espírito combatendo as medidas que julgava injustas. Permaneceu independente em relação às lutas travadas entre os partidários da democracia e da aristocracia. Acreditando obedecer a uma voz interior, realizou uma tarefa de educador público e gratuito. Colocou os homens em face da seguinte evidência oculta: as opiniões não são verdades, pois não resistem ao diálogo crítico. São contraditórias. Acreditamos saber, mas precisamos descobrir que não sabemos. A verdade, escondida em cada um de nós, só é visível aos olhos da razão. Acusado de introduzir novos deuses em Atenas e de corromper método, sua arte de interrogar, sua "maiêutica", que consiste em forçar o interlocutor a desenvolver seu pensamento sobre uma questão que ele pensa conhecer, para conduzi-lo, de conseqüência em conseqüência, a contradizer-se, e, portanto, a confessar que nada sabe. As etapas do saber são: a) ignorar sua ignorância; b) conhecer sua ignorância; c) ignorar seu saber; d) conhecer seu saber. Sua famosa expressão "conhece-te a ti mesmo" não é uma investigação psicológica, mas um método de se adquirir a ciência dos valores que o homem traz em si. "O homem mais justo de seu tempo", diz Platão, foi condenado à morte sob a acusação de impiedade e de corrupção da juventude. Seria sua morte o fracasso da filosofia diante da violência dos homens? Ou não indicaria ela que o filósofo é um servidor da razão, e não da violência, acreditando mais na força das idéias do que na força das armas? CIÊNCIA E MISSÃO DE SÓCRATES “Um de vós poderia intervir: 'Afinal, Sócrates, qual é a tua ocupação? Donde procedem as calúnias a teu respeito? Naturalmente, se não tivesses uma ocupação muito fora do comum, não haveria esse falatório, a menos que praticasses alguma extravagância. Dize-nos, pois, qual é ela, para que não façamos nós um juízo precipitado.' Teria razão quem assim falasse; tentarei explicar-vos a procedência dessa reputação caluniosa. Ouvi, pois. Alguns de vós achareis, talvez, que estou gracejando, mas não tenhais dúvida: eu vos contarei toda a verdade. Pois eu, atenienses, devo essa reputação exclusivamente a uma ciência. Qual vem a ser a ciência? A que é, talvez, a ciência humana. É provável que eu a possua realmente, os mestres mencionados há pouco possuem, quiçá, uma sobre-humana, ou não sei o que diga, porque essa eu não aprendi, e quem disser o contrário me estará caluniando. Por favor, Atenienses, não vos amotineis, mesmo que eu vos pareça dizer uma enormidade; a alegação que vou apresentar nem é minha; citarei o autor, que considerais idôneo. Para testemunhar a minha ciência, se é uma ciência, e qual é ela, vos trarei o deus de Delfos. Conhecestes Querefonte, decerto. Era meu amigo de infância e também amigo do partido do povo e seu companheiro naquele exílio de que voltou conosco. Sabeis o temperamento de Querefonte, quão tenaz nos seus empreendimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao oráculo - repito, senhores; não vos amotineis - ele perguntou se havia alguém mais sábio que eu; respondeu a Pítia que não havia ninguém mais sábio. Para testemunhar isso, tendes aí o irmão dele, porque ele já morreu. Examinai por que vos conto eu esse fato; é para explicar a procedência da calúnia. Quando soube daquele oráculo, pus-me a refletir assim: 'Que quererá dizer o deus? Que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não tenho consciência de ser

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nem muito sábio nem pouco; quer quererá ele, então, significar declarando-me o mais sábio? Naturalmente, não está mentindo, por que isso lhe é impossível.' Por longo tempo fiquei nessa incerteza sobre o sentido; por fim, muito contra meu gosto, decidi-me por uma investigação, que passo a expor. Fui ter com um dos que passam por sábios, porquanto, se havia lugar, era ali que, para rebater o oráculo, mostraria ao deus: 'Eis aqui um mais sábio que eu, quando tu disseste que eu o era!' Submeti a exame essa pessoa - é escusado dizer o seu nome; era um dos políticos. Eis, Atenienses, a impressão que me ficou do exame e da conversa que tive com ele; achei que passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não o era. Meti-me, então, a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. A conseqüência foi tornar-me odiado dele e de muitos circunstantes. Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: 'Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, também suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exatamente em não supor que saiba o que não sei.' Daí fui ter com outro, um dos que passam por ainda mais sábios e tive a mesmíssima impressão; também ali me tornei odiado dele e de muitos outros. Depois disso, não parei, embora sentisse, com mágoa e apreensões, que me ia tornando odiado; não obstante, parecia- me imperioso dar a máxima importância ao serviço do deus. Cumpria-me, portanto, para averiguar o sentido do oráculo, ir ter com todos os que passavam por senhores de algum saber. Pelo Cão, Atenienses! Já vos devo a verdade, juro que se deu comigo mais ou menos isto: investigando de acordo com o deus, achei que aos mais reputados pouco faltava para serem os mais desprovidos, enquanto outros, tidos como inferiores, eram os que mais visos tinham de ser homens de senso. Devo narrar-vos os meus vaivéns nessa faina de averiguar o oráculo. Depois dos políticos, fui ter com os poetas, tanto os autores de tragédias como os de ditirambos e outros, na esperança de aí me apanhar em flagrante inferioridade cultural. Levando em mãos as obras em que pareciam ter posto o máximo de sua capacidade, interrogava-os minuciosamente sobre o que diziam, para ir, ao mesmo tempo, aprendendo deles alguma coisa. Pois bem, senhores, coro de vos dizer a verdade, mas é preciso. A bem dizer, quase todos os circunstantes poderiam falar melhor que eles próprios sobre as obras que eles compuseram. Assim, logo acabei compreendendo que tampouco os poetas compunham suas obras por sabedoria, mas por dom natural, em estado de inspiração, como os adivinhos e profetas. Estes também dizem muitas belezas, sem nada saber do que dizem; o mesmo, apurei, se dá com os poetas; ao mesmo tempo, notei que, por causa da poesia, eles supõem ser os mais sábios dos homens em outros campos, em que não o são. Saí, pois, acreditando superá-los na mesma particularidade que aos políticos. Por fim, fui ter com os artífices; tinha consciência de não saber, a bem dizer, nada, e certeza de neles descobrir muitos belos conhecimentos. Nisso não me enganava; eles tinham conhecimentos que me faltavam; eram, assim, mais sábios que eu. Contudo, Atenienses, achei que os bons artesãos têm o mesmo defeito dos poetas; por praticar a sua arte, cada qual imaginava ser sapientíssimo nos demais assuntos, os mais difíceis, e esse engano toldava-lhes aquela sabedoria. De sorte que perguntei a mim mesmo, em nome do oráculo, se preferia ser como sou, sem a sabedoria deles nem sua ignorância, ou possuir, como eles, uma e outra; e respondi, a mim mesmo e ao oráculo, que me convinha mais ser como sou. Dessa investigação é que procedem, Atenienses, de um lado, tantas inimizades, tão acirradas e maléficas, que deram nascimento a tantas calúnias, e, de outro, essa reputação de sábio. É que, toda vez, os circunstantes supõem que eu seja um sábio na matéria em que confundo a outrem. O provável, senhores, é que, na realidade, o sábio seja o deus e queira dizer, no seu oráculo, que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana; evidentemente se terá servido deste nome de Sócrates para me dar como exemplo, como se dissesse: 'O mais sábio dentre vós, homens, é que, como Sócrates, compreendeu que sua sabedoria é verdadeiramente desprovida do mínimo valor.' Por isso não parei essa investigação até hoje, vagueando e interrogando, de acordo com o deus, a quem, seja cidadão, seja forasteiro, eu tiver na conta de sábio, e, quando julgar que não

o é, coopero com o deus, provando-lhe que não é sábio. Essa ocupação não me permitiu lazeres para qualquer atividade digna de menção nos negócios públicos nem nos particulares; vivo numa pobreza extrema, por estar ao serviço do deus. Além disso, os moços que espontaneamente me acompanham - e são os que dispõem de mais tempo, os das famílias mais ricas - sentem prazer em ouvir o exame dos homens; eles próprios imitam-me muitas vezes; nessas ocasiões, metem-se

a interrogar os outros; suponho que descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber alguma coisa, mas pouco sabem, quiçá nada. Em conseqüência, os que eles examinam se exasperam contra mim e não contra si mesmos, e propalam que existe um tal Sócrates, um grande miserável, que corrompe a mocidade. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, não têm o que responder; não sabem, mas, para não mostrar seu embaraço, aduzem aquelas acusações

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contra todo filósofo, sempre à mão: 'os fenômenos celestes - o que há sob a terra - a descrença dos deuses - o prevalecimento da razão mais fraca'. Porque, suponho, não estariam dispostos a confessar a verdade: terem dado prova de que fingem saber, mas nada sabem. Como são ciosos de honrarias, tenazes, e numerosos, persuasivos no que dizem de mim por se confirmarem uns aos outros, não é de hoje que eles têm enchido vossos ouvidos de calúnias assanhadas. Daí a razão de me atacarem Meleto, Ânito e Licão - tomando Meleto as dores dos poetas; Ânito, as dos artesãos e políticos; e Licão, as dos oradores. Dessarte, como dizia aos começar, eu ficaria surpreso se lograsse, em tão curto prazo, delir em vós os efeitos dessa calúnia assim avolumada. Aí tendes, Atenienses, a verdade; em meu discurso não vos oculto nada que tenha alguma importância, nada vos dissimulo. Sem embargo, sei que me estou tornando odioso por mais ou menos os mesmos motivos, o que comprova a verdade do que digo, que é mesmo essa a calúnia contra mim e são mesmo essas as suas causas. É o que haveis de descobrir, se investigardes agora ou mais tarde." (PLATÃO. Defesa de Sócrates. Trad. Jaime Bruna. São Paulo:

Abril Cultural, l987. p. 8-l0. ( Col. "Os Pensadores").)

PLATÃO (420-348 a.C.)

Filósofo grego, discípulo de Sócrates, Platão deixou Atenas depois da condenação e morte de seu mestre (399 a.C.). Peregrinou doze anos. Conheceu, entre outros, os pitagóricos. Retornou a Atenas em 387a.C.) com 40 anos, procurando reabilitar Sócrates, de quem guardava a memória e o ensinamento. Retomou a teoria de seu mestre sobre a idéia, e deu-lhe um sentido novo: a idéia é mais do que um conhecimento verdadeiro: ela é o ser mesmo, a realidade verdadeira, absoluta e eterna, existindo fora e além de nós, cujos objetos visíveis são apenas reflexos. A doutrina central de Platão é a distinção de dois mundos: o mundo visível, sensível ou mundo dos reflexos, e o mundo invisível, inteligível ou mundo das idéias. A essa concepção dos dois mundos se ligam as outras partes de seu sistema: a) o método é a dialética, consistindo em que o espírito se eleve do mundo sensível ao mundo verdadeiro, o mundo inteligível, o mundo das idéias; ele se eleva por etapas, passando das simples aparências aos objetos, em seguida dos objetos às idéias abstratas e, enfim, dessas idéias às idéias verdadeiras que são seres reais que existem fora de nosso espírito; b) teoria da reminiscência: vivemos no mundo das idéias antes de nossa encarnação em nosso corpo atual e contemplamos face a face as idéias em sua pureza; dessa visão, guardamos uma mudança confusa; nós a reencontramos, pelo trabalho da inteligência, a partir dos dados sensíveis, por "reminiscência"; c) a doutrina da imortalidade da alma, demonstrada no Fédon. Das obras de Platão, as mais importantes são: Apologia de Sócrates (trata-se do discurso que Sócrates poderia ter pronunciado diante de seus juízes; descreve seu itinerário, seu método e sua ação); Hippias Maior (o que é o belo?); Eutifron (o que é a piedade?); Menon (o que é a virtude? Pode ser ensinada? São os diálogos constituindo o exemplo perfeito da maiêutica; são aporéticos: a questão colocada não é resolvida, o leitor é convidado a prosseguir a pesquisa após ter purificado seu falso saber); Teeteto (o que é a ciência? Expõe e faz a crítica da tese que faz derivar a ciência da sensação e que afirma ser o homem a medida de todas as coisas); Fédon (sobre a imortalidade da alma; diálogo que relata os últimos dias de Sócrates e trata da atitude do filósofo diante da morte); Crátilo (quais as relações entre as coisas e os nomes que lhes são dados? Há denominações naturais ou elas dependem da convenção?); O banquete (do amor das belas coisas ao amor do belo em si. Papel pedagógico do amor); Górgias (sobre a retórica; estuda a forma particular de violência que pode ser exercida pelo domínio da retórica e opõe a sofística à filosofia); A república ( da justiça; definição do homem justo a partir do estudo da cidade justa; a cidade ideal, papel da educação, lugar do filósofo na cidade; como o regime ideal é levado a degenerar-se). Na República, no Político e nas Leis, Platão enuncia as condições da cidade harmoniosa, governada pelo filósofo-rei, personalidade que governa com autoridade mas com abnegação de si, com os olhos fixos na idéia do bem. A virtude suprema consiste no "desapego" do mundo sensível e dos bens exteriores a fim de orientar-se para a contemplação das idéias, notadamente da idéia do bem, e realizar esse ideal de perfeição que é o bem. Abaixo dessa virtude quase divina situa-se a virtude propriamente humana: a justiça, que consiste na harmonia interior da alma. - Outros livros ou diálogos: Críton, Fedro, Parmênides, Timeu e Filebo. Toda a doutrina de Platão pode ser interpretada como uma crítica em relação ao dado sensível, social ou político, e com uma exortação e transformá-lo se inspirando nas idéias, cuja ação (cognitiva, moral e política) de reproduzir, o mais fielmente possível, a ordem perfeita no mundo do futuro. Para realizar seu "projeto" filosófico, Platão funda a Academia, assim chamada por situar-se nos jardins do herói ateniense Academos.

O MITO DA CAVERNA

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“- E agora - disse eu - compara com a seguinte situação o estado de nossa alma com respeito à educação ou à falta desta. Imagina uma caverna subterrânea provida de uma vasta entrada aberta para a luz e que se estende ao largo de toda a caverna, e uns homens que lá dentro se acham desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço. Por essa razão eles têm de permanecer imóveis e olhar tão-só para a frente, pois as ligaduras não lhes permitem voltar a cabeça. Atrás deles, num plano superior, arde um fogo a certa distância, e entre o fogo e os acorrentados há um caminho elevado, ao longo do qual faz de conta que tenha sido construído um pequeno muro semelhante a esses tabiques que os titeriteiros colocam entre si e público para exibir por cima deles as suas maravilhas.

- Vejo daqui a cena - disse Glauco.

- Imagine, então, como ao longo desse pequeno muro passam homens carregando toda espécie de objetos, cuja altura

ultrapassa a da parede, e estátuas de homens e figuras de animais feitas de pedra, de madeira e outros materiais variados. Alguns desses carregadores conversam entre si, outros se calam.

- Que estranha situação descreves, e que estranhos prisioneiros!

- Eles se parecem conosco - disse eu. - Em primeiro lugar, crês que os que estão assim tenham visto outra coisa de si mesmos ou de seus companheiros senão as sombras projetadas pelo fogo sobre a parede da caverna que está à frente?

- Como seria possível, se durante toda a sua vida foram obrigados a manter imóveis as cabeças?

- E dos objetos transportados, não veriam igualmente apenas as sombras?

- Sim.

- E se pudessem falar uns com os outros, não julgariam estar se referindo ao que se passava diante deles?

- Forçosamente.

- Supõe ainda que a prisão tivesse um eco vindo da parte da frente. Cada vez que falasse um dos passantes, não

creriam eles que quem falava era a sombra que viam passar?

- É indubitável.

- Eles, - disse eu - só tomariam por verdade as sombras dos objetos fabricados.

- Também é forçoso.

- Examina, agora, o que naturalmente aconteceria se os prisioneiros fossem libertados de suas cadeias e curados da

sua ignorância. Que se separe um desses prisioneiros, que o forcem a levantar-se imediatamente, a volver o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos à luz: ao efetuar todos esses movimentos sofrerá, e o ofuscamento o impedirá de distinguir os objetos cuja sombra enxergava há pouco. O que achas, pois, que ele responderá se alguém lhe vier dizer que tudo quanto vira até então era vãos fantasmas, mas que presentemente, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê de maneira mais justa? Imagina ainda que se lhe fosse mostrando os objetos à medida que passassem e obrigando-o a nomeá-

los: não crês que ficaria perplexo, e o que antes havia contemplado lhe pareceria mais verdadeiro do que os objetos que agora se lhe mostram?

- Muito mais - disse ele.

- E se o obrigassem a fixar a vista na própria luz, não lhe doeriam os olhos e não se escaparia, voltando-se para os objetos que pode contemplar, e que consideraria que eles são realmente mais claros, do que aqueles que lhe eram mostrados?

- Assim é - respondeu.

- E se o levassem dali à força, obrigando-o a galgar a áspera e escarpada subida, e não o largassem antes de tê-lo

arrastado à luz do próprio sol, não crês que sofreria e se irritaria, e uma vez chegado à luz teria os olhos tão ofuscados por ela que não conseguiria enxergar um só das coisas que agora chamamos verdadeiras?

- Não, não seria capaz - disse ele - ao menos no primeiro momento.

- Precisaria acostumar-se, creio eu, para poder chegar a ver as coisas lá de cima. O que veria mais facilmente seriam,

antes de tudo, as sombras; depois, as imagens de homens e outros objetos refletidos na água; e tarde os próprios objetos. E depois disto seria mais fácil contemplar a lua e as estrelas, e veria o céu noturno muito melhor que o sol ou a sua luz durante o

dia.

- Como não?

- E por fim, creio eu, estaria em condições de ver o Sol - não suas imagens refletidas na água nem em outro lugar estranho, mas o próprio Sol em seu próprio domínio e tal qual é em si mesmo.

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- Necessariamente - disse ele.

- Mais tarde, passaria a tirar conclusões a respeito do Sol, compreendendo que ele produz as estações e os anos,

governa toda a região visível e é, de certo modo, o autor de tudo aquilo que eles (os prisioneiros) viam.

- É evidente - disse - que veria primeiro o Sol e depois pensaria sobre ele.

- E quando se lembrasse de sua habitação anterior, da ciência da caverna e de seus amigos companheiros do cárcere,

não crês que se consideraria feliz por haver mudado e teria compaixão deles?

- Com efeito.

- E se entre os prisioneiros vigorasse o hábito de conferir honras, louvores e recompensas àqueles que por distinguirem

com maior penetração as sombras que passavam e observassem melhor quais delas costumavam passar antes, depois ou junto com outras, fossem mais capazes de profetizar, pensas que aquele sentiria saudades de tais honras e glórias e invejaria os que as possuíssem? Não diria ele, com Homero, que era preferível "lavrar a terra a serviço de um homem sem patrimônio" ou sofrer qualquer outro destino a viver no mundo das sombras?

- Sim, creio que preferiria qualquer outro destino a ter uma existência tão miserável.

- Atenta agora no seguinte: se esse homem voltasse lá para baixo e fosse colocado no seu lugar de antes, não crês que seus olhos se encheriam de trevas com os de quem deixa subitamente a luz do sol?

- Por certo que sim.

- E se tivesse de competir de novo com os que ali permaneceram acorrentados, opinando a respeito de tais sombras,

que, por não se lhe ter ainda acomodado a vista, enxergaria com dificuldade (e não seria curto o tempo necessário para acostumar-se), não te parece que esse homem faria papel ridículo? Diriam os outros que voltará lá de cima sem olhos e que

não valia a pena pensar sequer em semelhante escalada. E não matariam, a quem tentasse desatá-los e conduzi-los para a luz, se pudessem deitar-lhe a mão?

- Não há dúvida - disse ele.

- Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicares com toda exatidão essa imagem da caverna e tudo que antes havíamos

dito. A caverna subterrânea é o mundo visível. O fogo que ilumina é a luz do sol. O acorrentado que se eleva à região superior

e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes já que o queres saber, é este pelo menos meu modo de pensar, que só a divindade pode saber se é verdadeiro. Quanto a mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nas últimas fronteiras do mundo inteligível está a idéia do bem, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da Inteligência e da Verdade no mundo invisível e, sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos levantados para agir com sabedoria nos negócios individuais e públicos.” (PLATÃO. República. Livro VII, capítulo VII. In: HÜHNE, Leda Miranda (Org.). Metodologia científica:

caderno de textos e técnicas. 3. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1989. p. 95-98.)

ARISTÓTELES (384-322 a.C)

Filósofo grego nascido em Estagira, Macedônia. Discípulo de Platão na Academia. Preceptor de Alexandre Magno. Construiu um grande laboratório, graças à amizade cm Felipe e seu filho Alexandre. Aos cinqüenta anos, funda sua própria escola, o Liceu, perto de um bosque dedicado a Apolo Lício. Daí o nome de seus alunos: peripatéticos. Seus últimos anos são entremeados de lutas políticas. O partido nacional retoma o poder em Atenas. Aristóteles se exila na Eubéia, onde morre. Sua obra aborda todos os ramos do saber: lógica, física, filosofia, botânica, zoologia, metafísica etc. Seus livros fundamentais:

Retórica, Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo, Órganon: conjunto de tratados da Lógica, Física, Política e Metafísica. Para Aristóteles, contrariamente a Platão, que ele critica, a idéia não possui uma existência separada. Só são reais os indivíduos concretos. A idéia só existe nos seres individuais: ele a chama de "forma". Preocupado com as primeiras causas e com os primeiros princípios de tudo, dessacraliza o "ideal" platônico, realizando as idéias nas coisas. O primado é o da experiência. Os caminhos do conhecimento são os da vida. Sua teoria capital é a distinção entre potência e ato. O que leva à segunda distinção básica, entre matéria e forma: "a substância é a forma". Daí sua concepção de Deus como Ato puro, Primeiro Motor do mundo, motor imóvel, Inteligência, Pensamento que ignora o mundo e só pensa a si mesmo. Quanto ao homem, é um "animal político" submetido ao Estado que, pela educação, obriga-o a realizar a vida moral, pela prática das virtudes: a vida social é um meio, não o fim da vida moral. A felicidade suprema consiste na contemplação da realização de nossa forma essencial. A política aparece como prolongamento da moral. A virtude não se confunde com o heroísmo, mas é uma atividade

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racional por excelência. O equilíbrio da conduta só se realiza na vida social: a verdadeira humanidade só é adquirida na sociabilidade.

TEXTOS

I

A FILOSOFIA E A SABEDORIA SEGUNDO A METAFÍSICA DE ARISTÓTELES

"A filosofia, pelo fato de ser ciência do universal, e dos fins últimos, é o conhecimento por excelência. As outras ciências lhe são subordinadas. De início, concebemos o sábio como possuindo o conhecimento de todas as coisas, na medida em que isso é possível, isto é, sem ter a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, aquele que é capaz de conhecer as coisas difíceis e penosamente acessíveis ao conhecimento humano, também admitimos como sábio (pois o conhecimento sensível, sendo comum a todos os homens, é fácil e nada tem a ver com a sabedoria). Por outro lado, aquele que conhece as causas com maior exatidão e aquele que é capaz de ensiná-las são, em qualquer espécie de ciência, mais sábios. Ademais, dentre as ciências, aquela que se escolhe por si mesma e com apenas o objetivo de saber, é considerada como sendo mais verdadeiramente Sabedoria do que aquela que é escolhida em vista de seus resultados. Finalmente, uma ciência dominadora e, a nossos olhos, mais sabedoria do que a ciência que lhe é subordinada; na realidade, não cabe ao sábio receber leis, mas formulá-las; não lhe cabe obedecer a outrem, mas, ao contrário, ser obedecido por quem é menos sábio. Tais são, portanto, em natureza e em número, os juízos que comumente se emite sobre a Sabedoria e os sábios. Ora, dentre os caracteres que acabamos de assinalar, o conhecimento de todas as coisas pertence necessariamente àquele que possui em maior grau a ciência do universal, uma vez que ele conhece, de certo modo, todos os casos particulares abrangidos pelo universal. Em seguida, esses conhecimentos, isto é, os mais universais, são em suma os mais difíceis de adquirir pelos homens, uma vez que são os mais afastados da percepção sensível. Por outro lado, as ciências mais exatas são aquelas que mais tratam dos princípios, uma vez que aquelas que partem de princípios mais abstratos são mais exatas do que as que se apóiam em princípios mais complexos: a Aritmética, por exemplo, é mais exata que a Geometria. Digamos ainda que uma ciência é tanto mais próprias ao ensino quanto mais aprofunda as causas, pois ensinar é assinalar as causas para cada coisa. Além disso, conhecer e saber por conhecer e saber é a característica principal da ciência que tem o supremo cognoscível por objeto: de fato, aquele que prefere conhecer por conhecer escolherá antes de tudo a ciência por excelência que é a ciência do supremo cognoscível; ora o supremo cognoscível são os primeiros princípios e as primeiras causas, pois é graças aos princípios, e a partir deles, que todo o resto é conhecido e não o inverso, isto é, os princípios serem conhecidos pelas outras coisas que deles dependem. Enfim, a ciência mestra, superior a toda ciência subordinada, é aquela que conhece em vista de que fim cada coisa deve ser feita, fim que é, em cada ser, o seu bem e, de maneira geral, o supremos Bem no conjunto da natureza." (Excertos de ARISTÓTELES. Physique. In: VERGEZ, André, HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. Trad. Lélia de Almeida Gonzales. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1988. p. 51-52.)

II

A FELICIDADE DA CONTEMPLAÇÃO "A independência caracteriza, de maneira muito particular, a vida contemplativa. É certo que o sábio, o justo, como todos os outros homens, têm necessidade do que é indispensável à vida; todavia, por mais munidos que estejam desses bens exteriores, de maneira suficiente, falta-lhes outra coisa ainda: o justo necessita do contato com outras pessoas para manifestar-lhes o seu senso de justiça; o mesmo ocorre com o homem temperante, o homem corajoso e todos os representantes das virtudes morais. Mas o sábio, mesmo que entregue a si mesmo, ainda pode se entregar à contemplação, pois sua sabedoria é maior quanto mais ele se lhe dedica. É certo que ele o faria de maneira mais superior se associasse outras pessoas à sua contemplação; de qualquer modo, está num grau supremo o homem que só depende de si mesmo. Por outro lado, essa existência é a única que pode ser amada por si própria: ela não tem outro resultado que a contemplação, ao passo que pela existência prática, fora da própria ação, sempre chegamos a um resultado mais ou menos importante. Acrescentemos ainda que a felicidade perfeita consiste igualmente no lazer. Só nos privamos dos lazeres, visando à sua obtenção e é para viver em paz que fazemos a guerra. Pois ninguém faz nem prepara a guerra com a única intenção de fazer a guerra. De fato, se alguém semeasse o ódio entre amigos a fim de provocar combates e massacres, seria considerado um criminoso completo. Por outro lado, a vida do homem político também se acha desprovida de lazeres, e além das exigências da administração, lhe é necessário conseguir o poder, as honras e, para ele ao menos e para seus concidadãos, uma felicidade diferente da felicidade do conjunto da sociedade política e que todos nós, evidentemente, buscamos como tal. Se,

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portanto, dentre as ações de conformidade com a virtude, aquelas que consagramos à política e à guerra se destacam por seu esplendor e sua importância; se, em compensação, elas supõem a ausência de lazeres, se elas visam a um fim diferente e não são buscadas por elas mesmas, a atividade do espírito, ao contrário, parece levar vantagem sobre as precedentes, em virtude do seu caráter contemplativo. Além disso, ela não visa a nenhum fim exterior a si mesma; comporta um prazer que lhe é próprio e que é perfeito, visto que aumenta mais sua atividade. Por outro lado, a possibilidade de se autobastar, o lazer, a ausência de fadiga na medida em que é realizável pelo homem, em suma, todos os bens reservados ao homem, com o máximo de felicidade, parecem resultar dessa atividade. Ela realmente constituirá a felicidade perfeita, na medida em que se prolonga por toda a vida. Pois nada poderia ser imperfeito na condição de felicidade. Tal existência, no entanto, poderia estar acima da condição humana. O homem não vive mais somente enquanto, mas enquanto possui algo de divino; e, quanto mais essa característica divina fá-lo ultrapassar o que é composto, tanto mais essa atividade será superior com relação àquela que resulta de todas as outras virtudes. Se o espírito, portanto, é um atributo divino com relação ao homem, uma vida de acordo com o espírito será, com relação à vida humana, verdadeiramente divina. Não será necessário, portanto, ouvir as pessoas que, sob pretexto de sermos homens, nos aconselham a apenas sonhar com coisas humanas e que sob pretexto de sermos mortais, nos aconselham a renunciar às coisas imortais. Mas, na medida do possível, devemos tornar-nos imortais e tudo fazer para viver de acordo com o que de mais excelente há em nós mesmos, pois o princípio divino, por menores que sejam suas dimensões, supera, e de muito, todas as outras coisas por sua potência e seu valor." (ARISTÓTELES. Ethique à Nicomaque. In: VERGEZ, André, HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. Trad. Lélia de Almeida Gonzales. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1988. p. 53-54.)

III

As Categorias. “ São as expressões que sem qualquer ligação significam a substância, a quantidade, a qualidade, a relação, o lugar, o tempo, a posição, o costume, a ação, a passividade. É substância, dita numa palavra, por exemplo, o homem, o cavalo; quantidade, por exemplo, o comprimento de dois côvados, comprimento de três côvados; qualidade: branco, gramático; relação: dobro, metade, maior; lugar: no Liceu, no Forum; tempo: ontem, no ano passado; posição: deitado, sentado; costume: calçado, armado; ação: corta, queima; passividade: é cortado, é queimado. Nenhum desses termos afirma ou nega qualquer coisa, em si mesmo; é somente pela ligação destes termos que surge

a afirmação ou a negação. Com efeito, toda afirmação e toda negação é, parece-nos, verdadeira ou falsa, entretanto nessas expressões sem qualquer ligação nada há de verdadeiro ou de falso: por exemplo, homem, branco, curto, vencedor.”

A substância. “A substância na sua significação mais fundamental, primeira e principal da palavra, é aquilo que não é

afirmado de um sujeito e nem em um sujeito: por exemplo, o homem indivíduo ou o cavalo indivíduo. Chamam-se substâncias segundas as espécies, nas quais estão contidas as substâncias tomadas na sua primeira significação, e a tais espécies devem ser anexados os gêneros dessas espécies: por exemplo, o homem indivíduo pertence a uma espécie, que é o homem, e o gênero desta espécie é o animal. Assim, essas últimas substâncias são ditas segundas, a saber o homem e o animal.” (Organon. Categorias, no início).

O Silogismo. “O silogismo é o raciocínio no qual, colocadas certas premissas, se conclui necessariamente uma

proposição diferente das dadas, por meio delas. Há demonstração quando o silogismo conclui de premissas verdadeiras e primeiras, ou de premissas onde o conhecimento baseia-se em conhecimentos de proposições primeiras e verdadeiras. O silogismo dialético é aquele em que a conclusão segue de premissas prováveis.” (Organon. Os Tópicos. Livro I, início).

“Todos os homens têm, por natureza, o desejo de conhecer; o prazer causado pelas sensações é uma

prova, pois que, mesmo deixando de lado sua utilidade, elas nos agradam por elas mesmas, e, mais do que todas, as

sensações

que têm arte sabem ao mesmo tempo o porquê e a

certas e dos princípios certos.” Ato e Potência. “O ato é a existência de uma coisa, não porém da mesma forma que nós falamos da potência. Dizemos, por exemplo, que Hermes está no mato, em potência, e meia linha na linha inteira, porque pode ser dela tirada. Da mesma maneira chamamos de sábio em potência mesmo àquele que nada pesquisa, se tem a capacidade de pesquisas; a situação contrária, em cada um destes casos, existe em ato. O conceito de ato que apresentamos pode ser conhecido por

É, pois, coisa evidente que a Filosofia é ciência das causas

Os homens que possuem experiência conhecem que uma coisa é, mas não sabem por quê; os homens

A Filosofia.

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indução, servindo-nos de alguns exemplos particulares; não é necessário procurar definir tudo, basta saber se contentar com entender a semelhança; o ato será pois como o ser que constrói em relação ao ser que pode construir, o ser que vigia em relação ao que dorme, o ser que vê em relação àquele que tem os olhos fechados, muito embora possua vista, aquilo que foi separado da matéria em relação à matéria, aquilo que foi trabalhado em relação ao que não o foi. Damos o nome de ato ao primeiro termo dessas relações várias, ao outro termo chamamos de potência. Não dizemos, porém, de todas as coisas existir em ato no mesmo sentido, e sim por analogia; assim como tal coisa está em tal outra, ou em relação a esta; pois o ato é tomado quase como o movimento em relação à potência, quase como a substância formal em relação a qualquer matéria.”

O Primeiro Motor. “É possível que seja assim, pois caso contrário seríamos obrigados a dizer que tudo provém da

noite, da confusão primitiva, do não-ser; tais dificuldades podem ser, assim, resolvidas. Há qualquer coisa que se move em movimento contínuo, movimento este que é circular. Não é uma questão que se prova só pelo raciocínio, é um fato mesmo. Há pois, assim, qualquer coisa que move eternamente; e como há três espécies de seres, o que é movido, o que se move e o termo médio entre o que é movido e o que se move, existe um ser que move sem ser movido, o ser eterno, a essência pura e atualidade pura.” (Metafísica)

em nossa opinião, a felicidade, sendo a mais bela e a melhor de todas as coisas, é ao mesmo tempo

a mais doce e agradável. Dentre as muitas considerações que cada espécie e natureza das coisas podem nos provocar e que exigem sério exame, umas só procuram o conhecimento do objeto e outras visam, além disso, sua posse e as utilidades possíveis do mesmo. No que diz respeito a questões puramente teóricas destes estudos filosóficos, estudá-las-emos na medida em que forem surgindo, sob o ponto de vista especial desta obra. Antes de mais nada pesquisamos em consiste a felicidade e por que meios ela pode ser atingida. Pergunta-nos-emos se todos aqueles que se dizem felizes o são por efeito simples da natureza, da mesma maneira que são grandes ou pequenos, ou como se distinguem pelo semblante ou pelo rosto; ou se são felizes por causa da lições de certa ciência, que seria a ciência da felicidade; ou se devem essa felicidade à prática de determinados exercícios, pois que há inúmeras qualidades que os homens não adquirem nem por natureza, nem pelo estudo, mas só pelo hábito simplesmente; qualidades estas que são más quando procedem de maus hábitos e boas quando de bons hábitos. Pesquisamos, finalmente, se, na hipótese de serem falsas todas essas explicações, a felicidade resulta exclusivamente de uma das seguintes causas: ou do favor dos deuses, que a outorgam movidos de maneira parecida a como agem os homens, por uma paixão divina, entusiasmados sob a influência de algum gênio; ou acontece por simples acaso, pois são muitos os que confundem a felicidade com a fortuna.” (Ética de Eudemo, c.I) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 54-57.)

A Felicidade. “

SÊNECA (4 a.C.- 65d.C)

O romano Sêneca (nascido em Córdoba, Espanha) é conhecido como filósofo estóico e pensador político. Em seus livros De Clementia, De Beneficiis, De otio, etc. faz reflexões sobre a liberdade, a justiça, a tirania e a participação dos cidadãos na vida pública. Sua doutrina é coerente com a moral estóica: os homens são iguais (contra a escravidão), os males são devidos às paixões humanas (ambição, crueldade, sede de glória, etc.) e o papel do soberano é o de encarnar a sabedoria realizando a ordem. Escreveu também tragédias e sátiras inspiradas no modelo grego, bem como vasta correspondência, destacando-se as 124 Epístolas morais a Lucílio.

TEXTOS A boa preparação do espírito “3. Eles (os sábios) mandaram-me estar sempre pronto e em guarda, de maneira a me prevenir de longe contra os ataques da fortuna. Ela só é pesada para os desprevenidos; para os que sabem esperá-la é leve. Da mesma maneira que a chegada do inimigo prosterna àqueles que pega de surpresa e facilmente o repelem os que se preparam para uma possível guerra. 4. Nunca acreditei na fortuna, mesmo quando parecia estar de bem comigo; todas as coisas que me concedia largamente, como dinheiro, honrarias, favores, coloquei-as em lugar onde poderia retomá-las sem grande esforço. Guardei sempre distância com relação a ela: assim tirava-me os favores, não mos arrancava. A adversidade só quebranta os homens que se deixaram enganar pela prosperidade. 5. Aqueles que se agarram aos seus bens como a coisa própria e perpétua e

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porque querem ser objeto de admiração dos outros, caem na prostração e no desespero quando se vêem privados desses deleites tão falsos e fugazes, porque seu espírito vão e pueril não soube o que é um prazer sólido. Aquele que não se envaidece na prosperidade, também não se abala na adversidade. Contra ambas as situações seu espírito está firme, pois na mesma felicidade experimentou o que lhe valeria na hora da infelicidade. 6. Assim, nas coisas que todos desejam, sempre achei que nada havia de verdadeiro bem, antes eram vazias e cobertas de uma camada aparente e ilusória, nada contendo no seu interior que se parecesse ao bem; pelo contrário, nas coisas que chamam de más, nada encontro de tão terrível ou duro, que nos ameace, como a opinião do vulgo costuma julgar. É mais a palavra que chega aos ouvidos, dos que têm o preconceito de se tratar de algo triste e execrável, do que outra coisa. Assim o povo se impõe, mas o sábio rejeita grande parte dos ditos populares.” (Consolação a Hélvia, V)

A Filosofia “3. A Filosofia não é um artifício popular, nem uma encenação: não está nas palavras, mas nas coisas. Nem se usa para encher o tempo com alguma satisfação, tirando a náusea do ócio. Ela conforma e forja o espírito, ordena a vida, dirige nossos atos, ensina o que se deve ou não deve fazer, senta-se ao leme e, no meio da agitação das ondas, mantêm o roteiro certo. Sem ela ninguém pode viver corajosamente nem com segurança, pois a toda hora acontecem coisas que reclamam um bom conselho, a ser dela solicitado.” (Carta a Lucílio, nº 16) Superioridade do sábio e desprezo da morte “Aos espíritos imperfeitos, aos medíocres e aos tolos, convêm minhas considerações (precedentes), não ao sábio. Este não caminha tímido ou vacilante, pois ele tem grande confiança em si mesmo e não duvida de enfrentar a fortuna, perante a qual jamais recua. Nunca a temeu, pois coloca entre as coisas contingentes seus escravos, suas propriedades, sua dignidade e até seu corpo, seus olhos e suas mãos e tudo o que faz a vida ser mais cara, e vive como se tudo lhe fosse emprestado e o devolverá sem pesar quando lho exigirem. 2. Nem por isso procede de maneira menos louvável, mas tudo faz com tanta

diligência e circunspeção como um homem religioso e santo a cujos cuidados foi tudo confiado. 3. Quando algo lhe é tirado não

4. Retornar para onde viemos é algo mau? Mal vive quem não sabe bem morrer.” (Da

Tranqüilidade do Espírito, XI)

reclama contra a

A prática da simplicidade “Outro gênero de inquietação, nada desprezível, é aquele que procede da preocupação de aparentar o que não somos, como muitos que fazem da própria vida hipocrisia e teatro. É-nos um tormento a autocrítica, e a descoberta do que realmente somos causa-nos pavor. E nunca nos liberamos dessa preocupação, sempre achando que nos julgam tal qual nos vêem. Pois acontecem muitas coisas que, contra vontade, nos descobrem. Enquanto não nos resolvermos a nos reconhecer sem ilusões, como poderemos viver com alegria e tranqüilidade sempre debaixo daquela máscara? 2. Que enlevo produz, pelo contrário, a simplicidade sincera e sem adornos, que não tenta encobrir seus hábitos! Não está isenta de inconveniente esta maneira de agir, se tudo é descoberto a todos; pois não falta nunca quem despreze o que pode facilmente alcançar. Não faz mal que seja desprezada a virtude pelo fato de ser a todos descoberta, pois é melhor ser desprezado pela simplicidade do que torturado pela constante hipocrisia. Sejamos, entretanto, moderados: é bom ser simples, mas não relaxados.” (Ibidem, XVII) (In:

CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 64-66.)

MARCO AURÉLIO (121-180)

Imperador e filósofo romano; reinou de 161 a 180; reformou a administração do império, principalmente no que diz respeito às finanças e ao judiciário, e derrotou os partos, germanos e sármatas em prolongadas guerras. É considerado um dos mais importantes filósofos estóicos da terceira fase, o chamado estoicismo romano, imperial ou novo, tendo deixado uma coletânea de preceitos e máximas, intitulada Pensamentos, ou Meditações, escrita em grego, no fim de sua vida, e que bem reflete a doutrina da escola estóica. Apesar de sua formação estóica e de seu humanismo, nada fez para melhorar a situação dos cristãos nas terras sob o seu domínio.

TEXTOS Da reflexão e da tolerância

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“Para descansar, procuram-se agradáveis recantos no campo, à beira-mar, nas montanhas. Também tu tens constantemente este desejo no fundo coração. Mas isto é um devaneio dos mais comuns: experimenta a te recolheres a toda hora dentro de ti mesmo. Em nenhuma parte poderás encontrar um retiro mais doce, mais tranqüilo do que na intimidade da tua alma, mormente se possuíres em ti mesmo aqueles dons preciosos que não se podem considerar sem usufruir imediatamente uma perfeita serenidade, e por serenidade entendo a tranqüilidade de uma alma onde tudo está em ordem e no seu lugar. Desfruta, pois, constantemente dessa solidão e nela encontrarás novas forças. Também nela encontrarás máximas de condutas breves e fundamentais, que te ajudem a dissipar tuas inquietações e te predisponham a suportar, sem revolta, tudo aquilo que te acontecer. Por que te revoltas, de fato? Pela maldade dos homens? Pois bem, inicialmente lembra-te de que todos os seres racionais foram feitos para suportarem uns aos outros, que esta paciência faz parte da justiça, que eles não fazem o mal porque querem fazer o mal; lembra-te, também, de quantos homens que tiveram inimizades, desconfianças, ódios, brigas, e hoje estão mortos, reduzidos a cinzas, e deixa de te atormentares. Pode acontecer que tu estejas descontente com a parcela que te coube na distribuição dos destinos; pois bem, sonha ainda uma vez que, na alternativa do mundo ser obra de uma Providência, ou uma reunião de átomos, prova-se claramente que é uma verdadeira moradia. És importunado por sensações do corpo? Sonha que nosso entendimento não se subjuga às impressões doces ou rudes que a alma sensitiva experimenta, uma vez que ele se fecha em si mesmo e lá reconhece suas próprias forças. De resto, lembra-te ainda de tudo o que te foi ensinado sobre o prazer e a dor, doutrina que mereceu o teu consentimento.” (Pensamentos, IV, 3)

Das ações supérfluas '”Se queres viver tranqüilo - foi dito - despreza os acontecimentos'. Não seria melhor dizer, faz aquilo que é necessário, aquilo que a razão de um ser naturalmente social exige, e da maneira que o exige? Eis o meio mais seguro para desfrutar a tranqüilidade, não só a que se procura no cumprimento das boas obras, mas também aquela que se encontra ao desprezar os acontecimentos. Com efeito, a maior parte das nossas palavras e das nossas ações não são necessárias. Suprimindo-as teremos mais tempo para o descanso e menos confusão. É necessário repetir-se a toda hora: 'Não é isto algo desnecessário?' E devem ser impedidas as ações, e até os pensamentos, desnecessários; pois desta forma eles não serão ocasião de ações supérfluas.” (Ibidem, IV, 24)

A morte é um dos acontecimentos da vida “Quando cumpres teu dever, não perguntes se tens frio ou calor, se tens necessidade de dormir ou não, se és repreendido ou aplaudido, se vais morrer ou correr algum perigo. O fato de morrer é um dos acontecimentos da vida, e na morte, como em tudo o mais, o essencial é fazer bem aquilo que se faz no momento presente.”(Ibidem, VI, 2) A Filosofia é uma mãe “Se tens uma madrasta e com ela tua mãe, poderás testemunhar à primeira o teu respeito, irás porém constantemente ao encontra de tua mãe. Isto exemplifica o que é para ti a corte e a filosofia: procura amiúde esta última e descansa nos seus braços, que ela far-te-á suportável a corte, e te faz suportável à corte.” (Ibidem, VI, 12) Amor aos homens “Dobra-te aos acontecimentos que a sorte te destinar e, sejam quais forem os homens com quem és chamado a viver, ama-os de verdade.” (Ibidem, VI, 39)

Da beleza do mundo “Todas as coisas, entrelaçadas umas às outras, formam uma corrente divina; não há qualquer coisa que independente de uma outra. Todas são subordinadas e seu encadeamento constitui a beleza do mesmo mundo. Pois existe um único mundo que abraça tudo, um único Deus que está em toda parte, uma única matéria elementar, uma única lei que é a razão comum de todos os seres inteligentes e uma única verdade, da mesma forma que há um único estado de perfeição para as criaturas do mesmo gênero e para os seres que participam da mesma razão.” (Ibidem, VII, 9) Da sociedade humana “A relação de união que existe entre os membros de um mesmo e único corpo, existe também entre os seres racionais, por mais distantes que estejam um dos outros, pois eles foram organizados para cooperarem na mesma obra. Compenetra-te

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do alcance deste pensamento, repetindo-te constantemente: 'sou um membro do corpo formado pelos seres racionais'. Se porém disseres, simplesmente, que fazes parte da sociedade humana, isto significa que não amas ainda, do fundo coração, todos os homens; e que não experimentas ainda uma verdadeira alegria ao fazer-lhes bem; e que fazes isto ainda por pura benevolência; e que não consideras ainda cada um deles como se fosses tu mesmo.” (Ibidem, VII, 13) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 70-72)

EPICURO (341-270 a.C)

Filósofo grego nascido em Samos, atomista, fundador do epicurismo. Começa a filosofar aos 14 anos sob a influência de Demócrito. Em 323 a.C., instala-se em Atenas. Devido à hostilidade dos macedônios, parte para a Ásia Menor. Retorna a Atenas em 306 a.C., onde funda uma escola filosófica composta de homens e mulheres, dando origem a anedotas escandalosas. Paralítico, morre em Atenas. A base de seu sistema é uma física fundada nos átomos, como em Demócrito. Pontos últimos se deslocando no vazio, os átomos constituem a explicação última do mundo: nada existe a não ser os átomos materiais; tudo o que acontece no mundo é devido às ações e interações mecânicas dos átomos. Sua moral é comandada pelo primeiro princípio: o bem é o prazer. Trata-se de uma moral hedonista. Mas, sob o pretexto de que sua moral se funda no prazer, quiseram fazer de Epicuro um defensor da volúpia. Para ele, o prazer é o soberano bem, enquanto a dor é o soberano mal. O prazer consiste na eliminação de toda dor; o estado estável do prazer é a ausência de dor, a ataraxia. É o prazer estável que garante a felicidade. O critério do bem e do mal reside na sensação: "o prazer é o começo e o fim da vida feliz". E o sábio despreza a morte. Aprender a bem viver é aprender a melhor gerir seus prazeres, afastando aqueles que não são nem naturais nem necessários e fomentando aqueles que se encontram nos limites da natureza. O cume dessa moral será a beatitude da ataraxia: a total imperturbabilidade diante da dor. TEXTOS

I

CARTA A MENECEU (traduzida por Solovine)

“ Em primeiro lugar, concebe a divindade como um ser imortal e feliz, o que indica a maneira comum de concebê-la.

Não lhe atribuas nada que esteja em oposição com sua imortalidade ou incompatível com sua beatitude. É necessário que a idéia que faças dela contenha tudo o que é capaz de lhe conservar a imortalidade e a felicidade. Pois os deuses existem e o conhecimento que deles se tem é evidente, mas não existem da maneira como o vulgo os representa. Essa representação vulgar jamais coloca, no que a eles se refere, a mesma concepção. Ímpio não é aquele que rejeita os deuses da multidão, mas aquele que lhes atribui as ficções do vulgo. De fato, as afirmações do vulgo não se apóiam em noções evidentes, mas em conjecturas enganosas. Daí provém a opinião de que os deuses causam os maiores males aos maus e concebem aos bons os maiores bens. Sempre prevenidos em favor de suas próprias virtudes, os homens aprovam os que se lhes assemelham e consideram como estranho tudo aquilo que difere de sua maneira de agir. Familiariza-te com a idéia de que a morte nada tem a ver conosco, uma vez que todo bem e todo mal residem na sensação; ora, a morte é a privação completa desta última. O conhecimento certo de que a morte nada tem a ver conosco tem por conseqüência o fato de melhor apreciarmos as alegrias que nos oferece essa vida efêmera, uma vez que tal idéia não lhe acrescenta uma duração ilimitada, mas, ao contrário, afasta o desejo de imortalidade. Com efeito, não existe mais o terror na vida de quem realmente tenha compreendido que a morte nada tem de aterrorizante. Desse modo, será considerado como idiota aquele que disser que tememos a morte, não porque ela nos aflija quando chegar, mas porque já sofremos com a idéia de que ela ocorrerá um dia. Pois, se uma coisa não nos perturba com sua presença, a inquietação ligada à sua espera não tem fundamento. Assim, dentre os males existentes, aquele que mais nos faz tremer nada tem a ver conosco, visto que enquanto somos, a morte não existe e, quando ela existe, nós já não mais somos. A morte, conseqüentemente, não possui qualquer relação com os vivos nem com os mortos, dado que ela nada é para os primeiros e que os últimos nada são para ela. O vulgo ora foge da morte como o maior dos males, ora a deseja como o termo das misérias da vida. O sábio, ao contrário, não suplica para que o deixem viver, assim como não considera a não-existência como um mal. Com efeito, do mesmo modo que não escolhemos, de preferência, o alimento mais abundante, mas o mais agradável, não nos apegamos a viver a vida mais longa, mas a mais agradável. Aquele que proclama que cabe ao jovem bem viver e ao velho bem morrer é passavelmente idiota, não

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só porque a vida é tão amada por um quanto por outro, mas sobretudo porque a aplicação ao bem viver não se distingue da do bem bem morrer. Mais idiota, ainda, é aquele que diz:

‘É certo que vale mais não ter nascido, mas se já partilhamos da existência, o melhor é atravessar os umbrais do Hades

o mais depressa possível’. Se ele fala assim por convicção, por que não se retira da vida? Pois se lhe será fácil, se se decidir firmemente a fazê-lo.

Mas se o diz por mero gracejo, demonstra frivolidade num assunto que não comporta falta de seriedade. Convém lembrar que

o futuro não está inteiramente em nosso poder nem inteiramente fora dele, de maneira a não contarmos com ele como algo

que devesse acontecer necessariamente nem nos privarmos de qualquer esperança, como se estivéssemos certos de que ele não ocorreria.” (EPICURO. Carta a Meneceu. In: VERGEZ, André, HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. Trad. Lélia de Almeida Gonzales. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1988. p. 70-71)

II

O UNIVERSO “O universo está formado de corpos. Sua existência fica abundantemente provada pela sensações, pois elas, repito, são as que servem de base ao razoamento sobre as coisas invisíveis. Se aquilo que chamamos vácuo, entendido como "essência intangível" não existe, então não haverá lugar onde os corpos possam se locomover, como nós vemos que de fato se movem. Afora essas duas coisas, nada se pode compreender, nem por intuição, nem por analogia com os dados da intuição, de

tudo o que existe como natureza completa, pois eu não falo dos acontecimentos fortuitos ou acidentais. Dentre os corpos uns são compostos, os outros são os elementos que servem para fazer os compostos. Esses últimos são os átomos indivisíveis e imutáveis, pois nada pode voltar ao nada e é necessário que tais realidades subsistam, quando os compostos desagregam-se. Estes corpos são compactos por natureza e não há neles lugar por onde, nem meio pelo qual possam ser destruídos. Daí resulta que tais elementos devem, por absoluta necessidade, ser as partes indivisíveis dos corpos. De resto, o universo é infinito. Com efeito, tudo o que é finito tem alguma extremidade e a extremidade descobre-se por comparação. Assim, não existindo extremidade, não há termo, e não tendo termo é necessariamente infinito e não finito.

O universo é infinito sob dois aspectos: pelo número de corpos que contém, e pela imensidade de espaço que encerra.

Se o espaço fosse infinito e o número de corpos limitado, estes dispersar-se-iam em desordem no espaço infinito, pois nada haveria que os sustentasse, e nada que os fizesse unir-se formando coisas. E se o espaço fosse limitado e os corpos infinitos em número, então não haveria lugar onde se colocarem.” (Carta a Heródoto, nos começos) DO BOM VIVER

“Quando se é jovem, não é necessário duvidar de filosofar, e quando se é velho, não é necessário deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para tomar conta da própria alma. Aquele que diz que não é ainda tempo ou não é mais tempo para filosofar, assemelha-se àquele que diz que ainda não é tempo ou não mais tempo de cuidar da felicidade. Deve-se, pois, filosofar quando se é jovem e quando se é velho; no segundo caso para retomar o contato com o bem, ao lembrar os dias passados, e no primeiro para ser, embora jovem, tão forte quanto um velho perante o porvir. É preciso, pois, estudar os meios de atingir a felicidade, já que com ela nós temos tudo e quando ela está ausente fazemos tudo para consegui-la. Observa, então, e aplica os princípios que constantemente te ensinei, e convence-te que são os elementos necessários

para o bom viver. Pensa, além disso, que o deus é um ser imortal e bem-aventurado, como se segue da noção comum de divindade, e jamais atribui qualquer coisa que se oponha à sua imortalidade e à sua felicidade. Acredita, mesmo contrariando tudo, naquilo que pode conservar-lhe essa felicidade e essa imortalidade. Os deuses existem e nós temos disso um conhecimento evidente. Sua natureza, porém, não é nada disso que o povo leviano pensa. Aquele que nega os deuses da chusma não é ímpio; ímpio é aquele que atribui aos deuses as características que lhes atribui a chusma. Pois suas opiniões não são intuições, mas imaginações mentirosas.

A chusma, acostumada a uma idéia particular que tem de virtude, não aceita que os deuses tenham aquela virtude, e

rejeita como falso tudo aquilo que dela difere. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada significa para nós, pois o bem o mal só existem nas sensações.” (Carta a Meneceu, no início) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix,

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PIRRO (c.365-275 a.C.)

O filósofo grego Pirro de Élida foi o verdadeiro fundador do ceticismo propriamente dito. Sua doutrina, eminentemente

prática, pode-se resumir nas seguintes proposições: a) sobre todas as coisas, devemos suspender nosso juízo, nada devemos afirmar ou negar (é a dúvida universal dos sofistas); b) tudo o que se apresenta como verdade não passa de hábito e convenção; c) precisamos distinguir entre os fenômenos e as causas incognoscíveis: é indiscutível que sinto o gosto do mel, mas não posso apreender a relação entre minha sensação e a natureza do mel; d) conseqüência prática: a indiferença absoluta em relação a tudo; uma vez que nada é bom ou mau em si, não há lugar para preferir uma coisa à outra; tudo é indiferente, eis o segredo da felicidade.

TEXTO VIDA E OPINIÃO DE PIRRO, SEGUNDO DIÓGENES LAÉRCIO (Tradução Robert Genaille, Garnier)

“Pirro de Elis era filho de Peistarco, segundo a tradição de Diocles. De início, ele foi pintor e discípulo de Bryson, filho de Estilpon; depois, acompanhou Anaxarco por toda parte, a ponto de segui-lo aos sábios iogues da Índia e aos magos, de onde tirou sua filosofia tão notável, introduzindo a idéia de que não podemos conhecer nenhuma verdade e que é preciso suspender todo juízo, como nos ensina Ascânio de Abdera. Sustentava que não havia o belo nem feio, nem o justo, nem o injusto; que nada existe realmente e de maneira verdadeira, mas que em todas as coisas os homens se governam segundo o costume e a

Sua vida justificava suas teorias. Ele nada evitava, de nada fugia, suportava tudo, a ponto de ser atropelado por um carro,

lei

de cair num buraco, de ser mordido por cães, não confiando, de um modo geral, nos seus sentidos Foi tão estimado em seu país, que chegaram a nomeá-lo chefe dos sacerdotes e, por sua causa, concedeu-se a todos os filósofos a isenção de pagamento de impostos. Teve muitos discípulos que se esforçaram por imitar seu ceticismo Todos esses filósofos foram chamados pirrônicos, em virtude de seu mestre, assim como ignorantes, céticos, duvidadores, pesquisadores em virtude de suas idéias filosóficas: procuradores porque buscavam a verdade em toda parte;

céticos porque observavam tudo, sem jamais encontrar algo de certo; duvidadores porque o resultado de suas buscas era a dúvida; ignorantes porque, segundo eles os próprios dogmáticos são ignorantes e pirrônicos (do nome de Pirro). Teodósio recusa à escola o nome de pirrônica, argumentando que, na medida em que o pensamento de outrem nos é inapreensível, não podemos conhecer o pensamento de Pirro. Por conseguinte não podemos nos denominar pirrônicos. Quanto às razões para duvidar das sensações ou das idéias, eles as classificavam segundo dez tipos:

O primeiro se refere às diferentes maneiras com os seres vivos consideram o prazer e a dor, o bem e o mal. Daí resulta,

com efeito, que os seres não possuem a mesma maneira de representar as coisas e que essas contradições levam, necessariamente, à duvida

O segundo se refere às formar da natureza humana e à diversidade dos temperamentos. Enquanto uns encontram

prazer na medicina, outros o encontram na agricultura, outros no comércio. O que é nocivo a uns, é útil a outros. Portanto, é necessário duvidar.

O terceiro se refere à diferença das sensações. Assim é que a maçã é pálida para a visão, doce para o gosto, mas de

um vivo perfume para o olfato. A mesma coisa é vista de maneiras diferentes, segundo a apreciemos em diferentes ângulos. Daí resulta que ela não possui forma exata.

O quarto tipo refere-se à perpétua mudança de afecções. Por exemplo: a saúde, a enfermidade, a vigília, a alegria, a

tristeza, a juventude, a velhice, a coragem, o medo, a necessidade, a riqueza, o ódio, a amizade, o quente, o frio, a respiração, a expiração. Com efeito, as coisas nos parecem diferentes, segundo estejamos em diferentes disposições quando as

percebemos.

O quinto tipo se refere às instituições, às leis, às fábulas, aos tratados e aos dogmas. Colocam-se aí discussões sobre o

belo e o feio, o bem e o mal, os deuses, o nascimento e a morte de todos os fenômenos. Pois o que a uns parece justo, a

outros parece feio, o que parece bem a uns, a outros parece mal. Os povos não crêem nos mesmos deuses. Uns crêem na providência, outros não. Os egípcios mumificam seus mortos antes de os enterrar, os romanos os incineram e as gentes de Peônia os lançam nos rios. Desse modo, há que duvidar da verdade.

O sexto tipo refere-se à mistura e à confusão em que se encontram as coisas; o que faz com que não percebamos

distintamente a coisa alguma, mas que tudo se nos apresenta misturado ao ar, à luz, à água, à terra, ao quente, ao frio, ao

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movimento, à evaporação ou a tantas outras coisas. Assim é que a púrpura varia segundo a vejamos ao sol, ao luar ou sob

a luz de uma lâmpada.

O sétimo tipo se refere às distâncias, às posições, aos lugares. O sol, pelo fato de estar longe, parece pequeno; as

montanhas, vistas de longe, parecem leves e transparentes como o ar.

O oitavo tipo se refere às diferenças de qualidade e de quantidade das coisas, do grau de calor ou de frio, de velocidade

ou de lentidão, de palidez ou de coloração. Assim é que o vinho tomado comedidamente fortalece, tomado em excesso enfraquece.

O nono tipo se refere ao contínuo, ao estranho ou raro. Assim é que os tremores de terra não espantam aqueles que

vivem em lugares onde os tremores se produzem com freqüência, do mesmo modo com que não nos admiramos com a presença do sol, já que o vemos diariamente

O

décimo tipo se refere às comparações entre as coisas. Por exemplo: o pesado e o leve, o forte e o fraco, o grande e o

pequeno

Pai

e irmão, igualmente, são pensados com relação a alguém

Por

conseguinte, ignoramos o que uma coisa seja

em si porque só a conhecemos com relação a outra coisa

efeito, dizem eles que toda demonstração se faz de acordo com

coisas demonstradas ou não. Se se trata das primeiras, elas próprias terão necessidade de demonstração e assim ao infinito.

E se se trata de coisas tão demonstradas (quer estejam todas, algumas ou apenas uma colocadas nesse caso), o conjunto não será demonstrado. Quanto ao que persuade, não é importante acreditar que seja uma verdade necessariamente. A mesma coisa não persuade a todos, nem às mesmas pessoas invariavelmente. A persuasão, aliás, provém de coisas estranhas ao objeto em questão: da reputação de quem fala, de sua seriedade, de seu tom insinuante, do que lhe conhecemos bem, daquilo que nos agrada nessa pessoa.” (In: VERGEZ, André, HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. Trad. Lélia de Almeida Gonzales. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1988. 76-78.)

Os céticos, ainda, suprimiam toda demonstração

Com

PLOTINO (205-270)

Filósofo neoplatônico, oriundo de família romana, Plotino nasceu no Egito. Descobre o neoplatonismo em Alexandria, onde permanece 11 anos antes de fixar-se em Roma. Aí ele abre sua própria escola na qual acolhe adeptos entusiastas, entre os quais vários filósofos de profissão, senadores e até o imperador Galieno. O objetivo dessa escola era a renovação do platonismo. Somente em 255, por insistência de seus discípulos, resolve ditar e escrever seu pensamento. Esse trabalho foi

realizado pelo fervoroso discípulo Porfírio. São 54 tratados reagrupados em seis Enéades, i.é, "grupo de nove". A filosofia de Plotino é a mais célebre do conjunto do neoplatonismo. No fundo, trata-se de um puro misticismo, calcado na doutrina das idéias de Platão, mas acrescentando-lhe uma teoria do Uno. Hipóstase suprema, o Uno é o Todo, a fonte do universo, a unidade do universo, seu ser último e primeiro, superior mesmo ao bem. O caminho para se atingir esse princípio abstrato, que

é o Uno, não é o da dialética de Platão, porque o conhecimento do Uno implica um êxtase religioso, o que conduz ao

misticismo. Boa parte de sua obra é dedicada à luta contra os cristãos e os gnósticos, embora sua interpretação espiritualista

do platonismo venha a influenciar fortemente o desenvolvimento do pensamento cristão medieval, sendo, por vezes, as três hipóstases aproximadas da Santíssima Trindade.

TEXTO DO BEM OU DO UNO “É pelo Uno que todos os seres têm existência, tanto as substâncias que são seres no primeiro sentido da palavra, quanto os atributos que, como se diz, estão nos seres. Que ser existiria se não fosse um? Separados da unidade, os seres não existem. O exército, o coro, o rebanho não existirão se não forem um exército, um coro, um rebanho. A casa e o navio, eles próprios, não seriam se não possuíssem unidade; pois a casa é uma casa e o navio um navio, e se perdessem a unidade não mais haveria casa nem navio. Também as grandezas contínuas não existiriam se a unidade não lhes pertencesse; divide-se uma grandeza? No momento em que perde esse atributo de unidade, ela muda de ser. O mesmo ocorre com as plantas e os animais; cada um deles é um só corpo; mas, se se lhe escapa a unidade e se fragmenta em partes múltiplas, ele perde o ser que possuía e não é mais o que era; transforma em outras seres que, quantos o sejam, são, cada, cada um, um ser. Há saúde, quando há unidade de coordenação (1) no corpo, beleza, quando a unidade mantém unidas as partes, virtude, quando a união das partes, na alma, atinge a unidade e a concordância. Que é, então, a alma que, fabricando o corpo, modelando-o, dando-

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lhe a forma e a ordem, tudo reduz à unidade? Será preciso remontar até ela e dizer que é ela que é o Uno? Ou então, do mesmo modo que ela fornece aos corpos outras propriedades, sem ser ela própria aquilo que dá (ela lhes fornece a forma e a idéia, por exemplo, que são diferentes dela), se ela lhes dá unidade, será preciso crer que essa unidade por ela fornecida é diferente dela e que ela faz de cada ser um ser, contemplando o Uno, do mesmo modo que faz um homem que contempla o homem ideal e que nessa contemplação recolhe o que nele há de unidade? Pois cada um dos seres do qual se diz que é um ser, é um na medida em que ser o ser o comporta; quanto menos for, menos unidade terá e quanto mais for, tanto maior sua unidade. É certo que a alma, que é diferente do uno, tem mais unidade na medida em que tem mais ser, mas ela própria não é o uno. A alma é una; mas o uno é, num certo sentido, um acidente da alma; alma e uno são duas, assim como corpo e uno. A grandeza descontínua, como um coro, está muito longe do uno; a grandeza contínua está mais próxima dele; a alma participa dele muito mais ainda. Poder-se-á reduzir a alma e o uno no mesmo plano, sob pretexto de que a alma não poderia existir sem ser una? Mas, de início, todos os seres só existem com a unidade e, no entanto, o uno é diferente deles; o corpo não é o mesmo que o uno, mas participa dele. Em seguida, essa alma única é múltipla, embora não seja feita de partes; mas há nela várias faculdades como a de raciocinar, a de desejar, a de perceber, unidas pelo uno como se fora um elo. Por conseguinte, a alma, ser uno, introduz a unidade nos seres, mas ela própria a recebe da ação de um outro ser.” (PLOTINO. Énnéades. In:

VERGEZ, André, HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. Trad. Lélia de Almeida Gonzales. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1988. 88-89.) (1) Hipocrátes dizia: "Se o homem fosse uno, jamais ficaria enfermo".

AGOSTINHO (354-430)

Aurélio Agostinho, bispo de Hipona, nasceu em Tagaste, hoje Souk-Ahras, na Argélia, e é um dos mais importantes iniciadores da tradição platônica no surgimento da filosofia cristã, sendo um dos principais responsáveis pela síntese entre o pensamento filosófico clássico e o cristianismo. Estudou em Cartago, e depois em Roma e Milão, tendo sido professor de retórica. Reconverteu-se ao cristianismo, que fora a religião de sua infância, em 386, após ter passado pelo maniqueísmo e pelo ceticismo. Regressou então à África (388), fundando uma comunidade religiosa. Suas obras mais conhecidas são As Confissões (400), de caráter autobiográfico, e A Cidade de Deus, composta entre 412 e 427. Santo Agostinho sofreu grande influência do pensamento grego, sobretudo da tradição platônica, através da escola de Alexandria e do neoplatonismo, com sua interpretação espiritualista de Platão. Sua filosofia tem como preocupação central a relação entre a fé e a razão, mostrando que sem a fé a razão é incapaz de promover a salvação do homem de trazer-lhe felicidade. A razão funciona assim como auxiliar da fé, permitindo esclarecer, tornar inteligível, aquilo que a fé revela de forma intuitiva. Este o sentido da célebre fórmula agostiniana "Credo ut intelligam" (Creio para que possa entender). Na Cidade de Deus, Sto. Agostinho interpreta a história da humanidade como conflito entre a Cidade de Deus, inspirada no amor a Deus e nos valores cristãos, e a Cidade Humana, baseada exclusivamente nos fins e interesses mundanos e imediatistas. Ao final do processo histórico, a Cidade de Deus deveria triunfar. Devido a esse tipo de análise, Sto. Agostinho é considerado um dos primeiros filósofos da história, um precursor da formulação dos conceitos de historicidade e de tempo histórico. A influência do pensamento agostiniano foi decisiva na formação e no desenvolvimento da filosofia cristã no período medieval, sobretudo na linha do platonismo. Tanto suas Confissões suas Retratações (escritas no final de sua vida) fazem dele um precursor de Descartes, de Rousseau e do existencialismo: "Se eu me engano, eu existo".

TEXTOS Capítulo VI - Necessidade de um auxílio divino para conhecer a verdade “Quem pode mostrar-nos a verdade a não ser tu, Alípio, como foi dito, de quem farei todo o possível para não me afastar. Pois disseste, com tanta brevidade como religiosidade, que só uma luz divina pode manifestar ao homem o que seja a verdade. Nesta nossa conversa nada ouvi tão agradável, tão ponderado, tão provável, nem tão verdadeiro, se, como espero, esta luz divina está nos ajudando. Pois aquele Proteu, que com tanta elevação de espírito recordaste, assim como no melhor estilo filosófico; aquele Proteu é apresentado como uma imagem da verdade para que vocês jovens não penseis que a filosofia despreza os poetas. Proteu nos seus versos ostenta e sustenta a verdade que ninguém pode conseguir se não se libertar dos laços com as falsas imaginações o prendem e enganam. São estas imaginações que, pelo hábito de usar as coisas corpóreas para as nossas necessidades da vida, através dos sentidos, mesmo quando temos e quase tocamos a verdade com as mãos, nos iludem e enganam.” (Contra os Acadêmicos)

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Capítulo XX - Conclusão da obra. O divino Platão é caminho para Cristo

“Para ninguém é duvidoso que uma dupla força nos impele para aprender: a autoridade e a razão. Para mim é coisa certa que jamais deverei afastar-me da autoridade de Cristo; não encontro outra mais firme. Naqueles assuntos que exigem sutis raciocínios (já estou acostumado a não só acreditar naquilo que é verdadeiro, mas a procurar impacientemente entendê- lo) encontro nos Platônicos o pensamento mais conforme o da nossa religião.” (Ibidem) Livro I - Capítulo I - É Deus o autor do mal? “Evódio - Peço-te que me respondas: Pode ser Deus o autor do mal? Agostinho - Responder-te-ei com a condição de antes me dizeres sobre que mal perguntas. Pois que de duas maneiras acostumamos chamar algo de mal: uma quando alguém faz algo mau; outra quando dizemos que alguém sofreu um mal.

- Desejo saber de ambas.

- Sendo Deus bom, como tu sabes e acreditas, nem é possível ser de outra forma, não pode fazer o mal. Mais ainda, se

declararmos que Deus é justo, e o contrário seria blasfêmia, de tal maneira que assim como premia os bons condena os maus; condenação que para os que a sofrem é um mal. Entretanto, se ninguém e castigado injustamente, como necessariamente devemos crer, uma vez que acreditamos ser a Providência quem governa o mundo, de nenhuma forma poderá ser Deus o

autor da primeira espécie de mal, muito embora o seja da segunda.

- Há, então, outro autor daquela espécie de mal, que Deus, evidentemente, não faz?

- Certamente, uma vez que tem de ser causado por alguém. Se me perguntas, entretanto, quem seja, não poderei dizer;

pois não é um único autor determinado, mas cada um é o malfeitor de si mesmo. Se ainda duvidas, lembra-te do que dissemos antes, que Deus é o vingador justo das más ações. E não haveria vingança justa se elas não fossem feitas voluntariamente.” (Sobre o Livre Arbítrio)

Capítulo XIII - Vivemos uma vida feliz ou miserável por nossa própria vontade.

“Agostinho - Observa outra coisa, pois creio estarás lembrado do que falamos a respeito do que era boa vontade: acho que dissemos que ela era aquela com a qual desejamos viver reta e honestamente. Evódio - Lembro-me

- Se com a mesma boa vontade amarmos e abraçarmos esta vontade e a antepusermos a todas as outras coisas que

podemos ter, não porque as quisermos, seguir-se-á que morarão em nossa alma aquelas virtudes, possuídas as quais é o mesmo que viver reta e honestamente, como ensina a razão. Donde segue-se que aquele que quer viver reta e honestamente, se preferir isto aos bens fugidios da vida, conseguí-lo-á com tanta facilidade, que não haverá diferença entre querer e ter o que quer.

- Em verdade te digo que quase não consigo me conter sem gritar de alegria ao encontrar-me repentinamente com um bem tão grande e tão fácil.

- Exatamente esta mesma alegria que nasce da consecução deste bem e que eleva o espírito suave, sossegada e

constantemente, é o que se chama de vida feliz; a não ser que penses que a vida feliz é outra coisa do que gozar dos bens verdadeiros e certos.

- Eu penso da mesma maneira.” (Ibidem)

Livro II - Capítulo I - Por que Deus nos deu a liberdade com a qual pecamos? “Agostinho - Evidentemente se as coisas são assim, já esta resolvida a questão proposta. Pois que se o homem é alguma coisa boa e não pode agir corretamente a não ser quando quer, deve ter uma vontade livre, pois sem ela não poderia agir corretamente. Isto não significa que, pecando com ela, Deus a tenha dado para isso. É suficiente razão para justificar por que deveria dar a liberdade, o fato de sem ela o homem não poder viver corretamente. Deu-se-nos a liberdade, como se pode bem entender, para tal fim e de tal maneira que, se alguém a usar para pecar, será vingado por Deus. Isto seria uma injustiça se a vontade livre nos fosse dada não só para viver bem, como também para pecar. Como poderia ser castigado justamente aquele que usasse a vontade para aquilo que lhe foi dada? Ora, quando Deus castiga o pecador, não te parece que está dizendo: por que não usaste tua vontade livre para aquilo para o que Eu te a dei, i.é,

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para agir corretamente? Ainda mais, como poderia ser bom o ato pelo qual a justiça condena os pecados e louva as boas ações, se o homem carecesse de livre arbítrio? Não seria pecado ou boa ação aquilo que não se fizesse voluntariamente. E por isto, tão injusto seria o castigo quanto o prêmio, se o homem não tivesse vontade livre. É necessário entretanto que haja justiça, assim no castigo como no prêmio; pois ela é um dos bens que emanam de Deus. Por conseguinte, Deus teve que dar necessariamente ao homem uma vontade livre.” (Ibidem) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 82-85.)

QUEM É DEUS? “A minha consciência, Senhor, não duvida, antes tem a certeza de que Vos amo. Feriste-me o coração com a Vossa

Palavra e amei-Vos. O céu, a terra e tudo que neles existe, dizem-me por toda a parte que Vos ame. Não cessam de o repetir

a todos os homens, para que sejam inescusáveis. Compadecer-Vos-eis mais profundamente daquele de que já Vos

compadecestes, e concedereis misericórdia àquele para quem já fostes misericordioso. De outro modo, o céu e a terra só a surdos cantariam os Vossos louvores. Que amo eu, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias de canções de todo o gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disso amo, quando amo meu Deus. E contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus. Quem é Deus? Perguntei-o à terra e disse-me: “Eu não sou”. E tudo o que nela existe respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: “Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com os seus habitantes, respondeu-me: “Anaxímenes1 está enganado; eu não sou o teu Deus”. Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas e disseram-me: “Nós também não somos o Deus que procuras”. Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: “Já que não sois meus Deus, falai-me de meu Deus, dizei-me ao menos alguma coisa d’Ele”. E exclamaram com alarido: “Foi Ele quem nos criou”2. A minha pergunta consistia em contemplá-las; a sua resposta era a sua beleza. Dirigi-me, então, a mim mesmo, e perguntei-me: “E tu quem és?” “Um homem”, respondi. Servem-me um corpo e uma alma; o primeiro é exterior, a outra interior. Destas duas substâncias, a qual deveria eu perguntar quem é o meu Deus, que já tinha procurado com o corpo, desde a terra ao céu, até onde pude enviar, como mensageiros, os raios dos meus olhos? À parte interior, que é a melhor. Na verdade, a ela é que os mensageiros do corpo remetiam como a um presidente ou juiz as

respostas do céu, da terra e de todas as coisas que neles existem, que diziam: “Não somos Deus; mas foi Ele quem nos criou”.

O homem interior conheceu esta verdade pelo ministério do homem exterior. Ora eu, homem interior – alma – eu conhecia-a

também pelos sentidos do corpo. Perguntei pelo meu Deus à massa do Universo, e respondeu-me: “Não sou eu; mas foi Ele que me criou”.

Mas, não se manifesta esta beleza a todos os que possuem sentidos perfeitos? Por que não fala a todos do mesmo modo? Os animais, pequenos ou grandes, vêem a beleza mas não a podem interrogar. Não lhes foi dada a razão – juiz que julga o que os sentidos lhe anunciam. Os homens, pelo contrário, podem interrogá-la, para verem as perfeições invisíveis de Deus, considerando-as nas obras criadas. Submetem-se todavia a estas pelo amor, e assim já não as podem julgar. Nem a todos os que as interrogam, respondem as criaturas, mas só aos que as julgam. Não mudam a voz, isto é, a beleza, se um a

vê simplesmente, enquanto outra a vê e a interroga. Não aparecem a um de uma maneira e a outro de outra

Mas

aparecendo a ambos do mesmo modo, para um é muda e para outra fala. Ou antes, fala a todos, mas somente a entendem aqueles que comparam a voz vinda de fora com a verdade interior. Ora, a verdade diz-me: “O teu Deus não é o céu, nem a terra, nem corpo algum”. E a natureza deles exclama: “repara que a matéria é menor na parte que no todo”. Por isso, te digo, ó minha alma, que és superior ao corpo, porque vivificas a matéria do teu corpo, dando-lhe vida, o que nenhum corpo pode fazer a outro corpo. Além disso, teu Deus é também para ti vida da tua vida.” (SANTO AGOSTINHO. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos & A. Ambrósio de Pina. 9. ed. Petrópolis:

Vozes, 1988. Parte II – Livro XX : Quem é Deus, p.217-218.)

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1 Filósofo do século VI antes de Cristo. Era natural de Mileto, na Jônia, província da Ásia Menor. Supunha ele que a matéria era dotada essencialmente de vida. Por isso, não admitia um ser supremo que estivesse para além do mundo. Vendo a evolução constante a que estavam sujeitos os seres, procurou indagar qual o princípio que presidia a estas transformações. Notando que o ar restaurava, pela expiração, a vida animal, e que o espírito, há hora derradeira, era exalada como um sopro, escolheu o ar como princípio de tudo. Do ar vivo e infinito, por dilatações e contrações, provinham todos os seres. A água era, para Anaxímenes, o ar condensado; e o fogo era o ar rarefeito. Anaxímenes, Tales, Anaximandro, Empédocles e Anáxagoras constituem, na História da Filosofia Grega, a Escola Jônica. 2 Sl 99, 3.

ABELARDO, PEDRO (1079-1142)

Filósofo medieval francês, destacou-se sobretudo nos campos da lógica e da teologia. É autor de diversos tratados de lógica, dentre os quais a Dialética e a Lógica "ingredientibus", de grande influência em sua época. Escreveu também obras de teologia como o Sic et non (Pró e contra), em que sistematiza uma série de controvérsias religiosas na forma característica do método escolástico, e a Introdução à teologia, depois condenada pela Igreja. Em relação ao problema dos universais, manteve uma posição conhecida como conceitualismo. Foi discípulo de Roscelino, um dos principais defensores do nominalismo nesse período, e de Guilherme de Champeaux, defensor do realismo, contra o qual polemizou posteriormente. Para Abelardo, os universais são conceitos, "concepções do espírito", realidades mentais que dão significado aos termos gerais que designam propriedades de classes de objetos. É importante também a contribuição de Abelardo à lógica e à teoria da linguagem - a ciência sermocinalis - sobretudo quanto à sua discussão da noção de significado; bem como à ética, considera a intenção do agente fundamental na avaliação de um ato como bom ou mau. Abelardo foi uma personagem controvertida, que se envolveu em inúmeras polêmicas durante sua vida, as quais narrou em sua História de minhas calamidades, sendo célebres suas desventuras amorosas com Heloísa.

TEXTO DEFESA DA DIALÉTICA “Há uma fábula alegórica sobre a raposa, a qual se tornou proverbial entre o povo. Conta-se que certo dia a raposa avistou uma cerejeira e procurou subi-la para regalar-se com os frutos. Como não pudesse alcançar as cerejas e caísse no chão, despeitou-se e disse: Não me interessam as cerejas, pois têm um sabor abominável. Do mesmo modo certos doutores de hoje, incapazes de perceber o valor dos argumentos dialéticos, desprezam-nos ao ponto de considerarem todas as suas doutrinas como sofismas e de as refutarem por decepções ao invés de razões. Estes guias cegos de cegos, como já dizia o Apóstolo, não sabem do que falam, nem têm idéia daquilo que afirmam; condenam o que ignoram e censuram o que desconhecem. Cuidam ser mortal um sabor que jamais provaram. Chamam de estultície tudo aquilo que não entendem, e de loucura o que são incapazes de compreender. Visto ser impossível refutar com a razão a quem carece de razão, trataremos, pelo menos, de sopear-lhes a presunção pelos testemunhos das santas Escrituras em que pretendem apoiar-se A diversidade de opiniões na dialética, e também muitos erros na fé cristã se originam do fato de os hereges, com sua loquacidade e com as armadilhas de suas afirmações, aliciarem muitas pessoas simples para as diversas seitas; é que tais pessoas, destituídas de todo treino na arte da argumentação, confundem a aparência com a verdade, e o erro com o argumento. Para debelar esta peste é necessário que nos adestremos na disputação, consoante a advertência dos próprios doutores eclesiásticos; não é suficiente implorar no Senhor, pela oração, a inteligência daquilo que não compreendemos nas Escrituras, senão que devemos pesquisar, disputando uns com os outros. Por isso, ao expor as palavras do Senhor: "Pedi e recebereis; procurai e achareis; batei e abrir-se-vós-á", Santo Agostinho diz (no Tratado sobre a Misericórdia): pedi rezando, procurai disputando, batei rogando, i.é, perguntando. Com efeito, não seremos capazes de rebater as investidas dos hereges ou de quaisquer infiéis, se não soubermos refutar suas argumentações e invalidar seus sofismas com argumentos verdadeiros, para que o erro ceda à verdade e os sofismas recuem perante os dialéticos: sempre prontos, segundo a exortação de São Pedro, a satisfazer a quem quer que nos peça razões da esperança ou da fé que nos anima. Se no curso dessas disputações conseguirmos vencer aqueles sofistas, apareceremos como verdadeiros dialéticos; e como bons discípulos, tanto mais nos lembraremos de Cristo, que é a própria verdade, quanto mais fortes nos mostrarmos na verdade das argumentações. Enfim, quem desconhece a própria arte de disputar (texto provavelmente corrupto), da qual, se

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sabe que tanto estes como aqueles derivam indiferentemente a sua denominação? Pois o próprio Filho de Deus, a quem chamamos de Verbo, é pelos gregos chamado de logos, i.é, conceito da mente divina, ou sabedoria de Deus, ou razão Sendo pois que o Verbo do Pai, Nosso Senhor Jesus Cristo, é chamado, em grego de logos, como também de sofia, do Pai, aquela ciência parece referir-se sobretudo a Ele, a quem também está ligada por seu próprio nome, pois foi por derivação logos, que ela tomou o nome de lógica. Como os cristãos derivam seu nome de Cristo, assim a lógica parece derivar o seu de logos. E com tanto mais verdade os seus amantes se chamam de filósofos, quanto maior amor tiverem àquela sabedoria excelente.” (In: BOEHNER, Philotheus, GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã: desde as origens até Nicolau de Cusa. Trad. Raimundo Vier. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 316-317.)

MAIMÔNIDES, MOISÉS (1135-1204)

Filósofo e médico judeu (nascido em Córdoba, Espanha) que viveu no Cairo, sendo o principal representante da filosofia judaica no período medieval. Admirador de Aristóteles, contribuiu para que a filosofia grega marcasse racionalmente o pensamento judeu de seu tempo. Sua obra mais importante é O guia dos indecisos (1190), em que procura conciliar ensinamentos da tradição judaica com a filosofia aristotélica, visando estabelecer a harmonia entre a razão e a fé. Trata-se de obra para iniciados, de estilo bastante obscuro, porém, de influência muito grande no pensamento cristão do final da Idade Média, tendo sido lida por Sto. Alberto Magno, Tomás de Aquino e outros escolásticos. TEXTOS ETERNIDADE OU CRIAÇÃO DO MUNDO “Sobre a questão de saber se o mundo é eterno ou criado, aqueles que admitem a existência de Deus sustentam três opiniões diferentes:

A primeira opinião, abraçada por todos os que seguem a Lei de Moisés, nosso mestre é esta: Que o universo na sua

totalidade, i.é, tudo o que é afora Deus, foi produzido pelo mesmo Deus do mais puro e absoluto nada; que nada existiu antes de Deus a não Ele mesmo e mais nada fora dEle, nem anjo, nem esfera, nem qualquer coisa contida na esfera celeste; que logo Ele produziu todos estes seres, tais como são, livremente e não de alguma coisa; enfim, que o próprio tempo faz parte das coisas criadas, pois que é função do movimento que, por sua vez, foi criado e nasceu depois, sem ter antes existido.

A segunda opinião é a de todos os filósofos que conseguimos ouvir ou ler. É inadmissível, dizem, que Deus produza

qualquer coisa do nada, tão impossível é isto como, segundo eles, o é reduzir qualquer coisa ao nada absoluto; isto quer dizer que é impossível que um ser qualquer, tendo matéria e forma, exista sem ter nunca existido a matéria, nem que pereça de maneira a ficar reduzida ao nada absoluto a própria matéria.

A terceira opinião é a de Aristóteles, dos seus seguidores e dos comentadores das suas obras. Defende ele, com os

adeptos do grupo de que falei, que nenhuma coisa material pode ser produzida sem a preexistência da matéria, e mais, que o céu não é objeto de geração e corrupção.

Aquilo que desejo fazer, para mim, é mostrar que o fato do mundo ser coisa recente, conforme a opinião já exposta da nossa Lei, não é impossível, e que todas as argumentações filosóficas, das quais parece resultar uma conclusão diferente da nossa, todas têm um ponto fraco por onde podem ser destruídas e obstadas quando usadas como argumentos contra nós.” (Guia dos Extraviados, II, 104-112 e 129). O CONHECIMENTO DE DEUS PELOS SEUS ATRIBUTOS NEGATIVOS “Cada um de nós terá compreendido que, mesmo tendo recebido de Deus a faculdade de conhecer, não há como possamos conhecê-Lo senão pelas negações, e não fazendo as negações que conheçamos algo da realidade da coisa à qual as aplicamos, todos, antigos e modernos, são contestes ao declarar que as inteligências não poderão conhecer Deus, e que só Ele se conhece como Ele é, e que o nosso conhecimento dEle já é reconhecimento da impossibilidade de conhecê-lo de forma plena. Todos os filósofos dizem: nós ficamos deslumbrados pela sua perfeição e Ele esconde-se para nós pela força mesma de sua manifestação, como o Sol se esconde aos olhos fracos para enxergá-lo.” (Guia dos Extraviados, I, 252) (In:

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AQUINO, TOMÁS DE (1227-1274)

Nasceu na Itália, de família nobre, e entrou cedo na Ordem dos Dominicanos. Percorreu toda a Europa medieval. Depois dos estudos em Nápoles, Paris e Colônia (onde teve por mestre Alberto Magno), ensina em Paris e nos Estados do papa. Morre quando se dirigia ao Concílio de Lyon. Sua imensa obra compreende duas Sumas: Suma contra os Gentios e Suma teológica, vários tratados e comentários sobre Aristóteles, a Bíblica, Boécio, etc., além das Questões disputadas. O pensamento de Sto. Tomás está profundamente ligado ao de Aristóteles, que ele, por assim dizer, "cristianiza". Seu papel principal foi o de organizar as verdades da religião e de harmonizá-las com a síntese filosófica de Aristóteles. Ele demonstra que não há nenhum ponto de conflito entre fé e razão. Sua teoria do conhecimento pretende, ser, ao mesmo tempo, universal (estende-se a todos os conhecimentos) e crítica (determina os limites e as condições do conhecimento humano). Para ele, o conhecimento verdadeiro é uma "adequação da inteligência com a coisa". Retomando a física e a metafísica de Aristóteles, estabelece as cinco "vias" que nos conduzem a afirmar racionalmente a existência de Deus: a partir dos "efeitos", afirmamos a causa. Estabelece sua concepção de natureza como ordem do mundo, ordem decifrável nas coisas e que permite fixar fins particulares a cada uma delas. Deus é a causa de tudo, mas não age diretamente nos fatos da criação: Ele instaurou um sistema de leis, causas segundas, ordenando cada um dos domínios naturais segundo sua especificidade própria. Deus é o

primeiro motor imóvel, é a primeira causa eficiente, é o único Ser necessário, é o Ser absoluto, o Ser cuja Providência governa

o mundo. Sto. Tomás mostra que há, na filosofia aristotélica, uma filosofia verdadeiramente autônoma e independente do

dogma, mas está em harmonia com ele. Assim, Sto. Tomás introduz no teísmo cristão o rigor do naturalismo peripatético. Mas distingue o Estado e a Igreja, o direito e a moral, a filosofia e a teologia, a natureza e o sobrenatural. "A última felicidade do homem não se encontra nos bens exteriores, nem nos bens corpo, nem nos da alma: só pode encontrar-se na contemplação da verdade."

TEXTOS Capítulo I: O ofício do sábio

‘Minha boca meditará sobre a verdade; meus lábios maldirão ao ímpio.’ “O uso comum que, no entender do Filósofo, deve ser seguido quando se trata de dar nome às coisas (Tópicos, II, l,5), manda que se chamem sábios aqueles que organizam diretamente as coisas e presidem ao seu reto governo. Entre outras idéias, o Filósofo afirma que "o ofício do sábio é colocar ordem nas coisas" (I Metafísica, II, 3). Ora, todos quantos têm o ofício de ordenar as coisas em função de uma meta devem haurir dessa meta a regra do seu governo e da ordem que criam, uma vez que todo ser só ocupa o seu devido lugar quando é devidamente ordenado ao seu fim, já que o fim constitui o bem de todas as coisas. Assim também acontece no setor das artes. Constatamos, efetivamente, que uma arte, detentora de um fim, desempenha em relação a uma outra arte o papel de reguladora e, por assim dizer, de princípio. A medicina, por exemplo, preside à farmacologia e a regula, pelo fato de que a saúde, que é o objeto da medicina, constitui a meta ou o objetivo de todos os remédios cuja composição compete à farmacologia. O mesmo acontece com a arte de pilotar, com respeito à arte de construir navios, e com a arte da guerra, com respeito

à cavalaria e aos fornecimentos militares. Estas artes, que presidem a outras, chamamo-las arquitetônicas ou artes principais,

e os que se dedicam a elas, e que denominamos arquitetos, fazem jus ao nome de sábios. Todavia, sendo que tais profissionais tratam dos fins em áreas particulares, e não atingem o fim último e universal de todas as coisas, denominamo-los sábios nesta ou naquela área, do mesmo modo como São Paulo Apóstolo afirma "ter colocado os fundamentos como um sábio arquiteto" (1Cor 3,12). O nome de sábio, pura e simplesmente, i.é, no sentido estrito do termo, está reservado àqueles que tomam por objeto de sua reflexão o fim ou a meta do universo, que constitui ao mesmo tempo o princípio de tudo. É neste sentido que, para o Filósofo, o ofício do sábio é o estudo das causas mais altas (Metafísica,

I, 12).

Ora, o fim último de cada coisa é o que é visado pelo seu primeiro Autor e causa motora. E o primeiro Autor e causa motora do universo é uma inteligência como veremos mais adiante. Por conseguinte, o fim supremo do universo é o bem da inteligência. Este bem consiste na verdade. Conseqüentemente, a verdade será o fim último de todo o universo, e a grande preocupação primária da sabedoria consistirá no estudo desta verdade. Aliás, foi para manifestar a verdade que a divina Sabedoria, depois de ter revestido a nossa carne humana, declara ter vindo a este mundo: "Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade" (Evangelho de São João, capítulo 18, versículo 37). A seu turno, o Filósofo declara que a Primeira

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Filosofia é a ciência da verdade: não de qualquer verdade, mas daquela verdade que constitui a fonte de toda verdade e propriedade do princípio primário do ser de todas as coisas que existem. Esta verdade é o princípio de toda verdade, já que o estabelecimento dos seres na verdade vai de par em par com o seu estabelecimento no ser (primeiro livro da Metafísica, I, 4,

5).

Ora, é próprio de um e mesmo sujeito cultivar um dos elementos contrários e refutar ou rejeitar o outro. Assim, por exemplo, a medicina, que é a arte de restaurar a saúde, é também a arte de combater as enfermidades. Por conseguinte, assim como o ofício do sábio é meditar sobre a verdade, sobretudo a partir do primeiro princípio, e dissertar sobre as outras coisas, da mesma forma compete-lhe combater contra os erros contrários à verdade. Este duplo ofício do sábio está exposto com perfeição pela Sabedoria, nas palavras que citamos ao início deste capítulo: o sentido do mencionado versículo é dizer a verdade divina, que a verdade por excelência e por antonomásia: "Minha boca meditará sobre a verdade". E o sentido do outro versículo ("Meus lábios maldirão o ímpio") é: combater contra o erro que se opõe à verdade divina, erro que é contrário à religião, sendo que esta última recebe também o nome de piedade, o que explica por que o erro contrário recebe o nome de impiedade.” Capítulo II: O plano do autor “Dentre todos os estudos aos quais se dedicam os homens, o estudo da sabedoria supera a todos em perfeição, em sublimidade, em utilidade e em alegria que proporciona.

Supera em perfeição, pois, quanto mais o homem se dedica à sabedoria, tanto mais participa da verdadeira felicidade. Com efeito, o Sábio afirma: "Feliz o homem que se aplicar ao estudo da sabedoria" (Livro do Eclesiástico, capítulo 14, versículo 22). Em sublimidade, pois é sobretudo em virtude do estudo da sabedoria que o homem se aproxima da semelhança com Deus, o qual "tudo fez com sabedoria" (Salmo 103, versículo 24); e, uma vez que a semelhança com alguém causa o amor, o estudo da sabedoria une de maneira especial a Deus na amizade, o que faz com que o livro da Sabedoria diga que a sabedoria constitui para todos os homens "um tesouro inesgotável, um tesouro tal, que os que dele hauriram participaram da amizade de Deus" (Livro da Sabedoria, capítulo 7, versículo 14).

O estudo da sabedoria ultrapassa todos os outros também em utilidade, pois a própria sabedoria conduz ao reino da

imortalidade, como declara o Livro da Sabedoria: "O desejo da sabedoria conduzirá ao reino eterno"(capítulo 6, versículo 21). Supera , finalmente, em alegria que proporciona, pois o "contato e a comunhão com a sabedoria não comportam nem amargura nem tristeza, mas só prazer e alegria" (Livro da Sabedoria, cap. 8, vers. 16). Haurindo, portanto, da misericórdia de Deus a audácia de assumir o ofício de sábio, ofício que ultrapassa as nossas forças, propusemo-nos, na medida de nossas possibilidades, expor a verdade confessada pela fé católica e refutar os erros contrários. Para retomar as palavras de Santo Hilário, "o ofício primário da minha vida, ofício ao qual me sinto vinculado em consciência diante de Deus, é que todas as minhas palavras e todo os meus sentimentos falem dEle (Sobre a Trindade, I, 37).

É difícil refutar todos os erros, e isto por duas razões. A primeira está em que as afirmações sacrílegas de cada um

daqueles que caíram no erro não nos são conhecidas a tal ponto que possamos extrair delas argumentos para confundi-los.

Aliás, era assim que procediam os antigos doutores para destruir os erros dos pagãos, cujas posições podiam conhecer, ou porque eles mesmos haviam sidos pagãos, ou porque pelo menos viviam entre os pagãos e conheciam os seus ensinamentos.

A segunda razão que nos impede de refutar todos os erros contrários à fé católica é que alguns dos autores desses

erros, como os maometanos e os pagãos, não concordam conosco no reconhecimento da autoridade das Sagradas Escrituras, mediante as quais poderíamos convencê-los, ao passo que, com respeito aos judeus, podemos discutir à base do Antigo Testamento, e, com respeito aos cristãos heréticos, podemos discutir com base nos escritos do Novo Testamento. Assim, sendo, somos obrigados a recorrer à razão natural, à qual todos devem necessariamente aderir. Acontece, porém, que a razão natural pode enganar-se nas coisas de Deus. No estudo atento que faremos de uma determinada verdade particular, mostraremos quais sãos os erros que esta verdade exclui, e ao mesmo tempo exporemos como esta verdade, estabelecida pela via demonstrativa, concorda com a fé da religião cristã.” (AQUINO, Tomás. Suma Contra os gentios) (In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias.

7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 47-50.) AS CINCO VIAS DA PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS “Três questões podem ser formuladas sobre a existência de Deus:

1. A existência de Deus é uma verdade evidente?

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2. A existência de Deus pode ser demonstrada?

3. Deus existe?

1. Parece-nos que a existência de Deus é evidente. Com efeito, denominamos verdades evidentes aquelas cujo

conhecimento está em nós naturalmente, como é o caso dos primeiros princípios. Ora, segundo diz Damasceno: “O conhecimento da existência de Deus é inato a todos os homens.” Portanto, a existência de Deus é evidente.

2. Por outro lado, denominamos evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos o significado dos

termos que as exprimem. É o que o Filósofo (Segundos analíticos, I, 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. De fato, quando entendemos o significado do todo e o significado da parte, entendemos, de imediato, que o todo é maior que a

parte. Ora, desde que tenhamos compreendido o significado da palavra “Deus”, sabemos, de imediato, que Deus existe. Com efeito, esta palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber nada que lhe seja maior. Ora, o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento. Donde se segue que o objeto designado pela palavra “Deus”, que existe no pensamento, desde que se entenda esta palavra, também existe na realidade. Por conseguinte,

a existência de Deus é evidente.

3. Além disso, a existência da verdade é evidente, pois aquele que nega a existência da verdade concorda que a

verdade não existe. Mas, se a verdade não existe, a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. E se alguma coisa

é verdadeira, então a verdade existe. Ora, Deus é a própria verdade, segundo São João, 14, 6: “Eu sou o caminho, a verdade

e a vida.” Por conseguinte, a existência de Deus é evidente. Por outro lado, ninguém pode pensar o oposto do que é evidente, conforme mostra o Filósofo (Metafísica, IV; Segundos analíticos, I, 10) a propósito dos primeiros princípios da demonstração. Ora, o oposto da existência de Deus pode ser pensado,

conforme diz o Salmo 52, 1: “Os insensatos dizem a si mesmos: Deus não há.” Logo, a existência de Deus não é evidente. Resposta: Temos duas maneiras de dizer que uma coisa é evidente. Esta pode ser evidente em si mesma e não por nós; ou pode ser evidente em si mesma e por nós. Com efeito, uma proposição é evidente quando o atributo está contido no sujeito, por exemplo: o homem é um animal. Animal, realmente, pertence à noção de homem. Se, portanto, todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição, esta proposição será conhecida por todos. É verdadeiro, pelos princípios das

demonstrações, que o termo são coisas gerais que todos conhecem como o ser e o não-ser, o todo e a parte etc. Mas se alguns desconhecem o atributo e o sujeito de uma proposição, então a proposição será evidente em si mesma, mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. É neste sentido que Boécio afirma: “Certos juízos só são conhecidos pelos sábios; por exemplo, aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão em um mesmo lugar.” Por conseguinte, afirmo que

a proposição “Deus é”, considerada em si mesma, é evidente por si mesma, já que o atributo é idêntico ao sujeito. Como

veremos mais adiante, Deus, de fato, é o seu ser. Mas como não sabemos o que Deus é, esta proposição não é evidente para

nós; precisa ser demonstrada por aquilo que é menos conhecido na realidade, mas mais conhecido por nós, isto é, pelos efeitos.

À primeira objeção devemos responder que, estado vago e confuso, o conhecimento da existência é naturalmente inato

em nós, uma vez que Deus é a felicidade do homem. De fato, o homem deseja naturalmente a felicidade, e, o que ele deseja naturalmente, ele conhece naturalmente. Mas, isto não é, propriamente, conhecer a existência de Deus; da mesma maneira que não podemos saber quem chega sem conhecer Pedro, quando é o próprio Pedro que chega. Muitos, de fato, consideram o supremo bem para o ser humano a riqueza, outros os prazeres, e outros várias outras coisas.

À segunda, podemos responder que aqueles que ouvem a palavra “Deus” podem ignorar que essa palavra designa algo

de que não se pode conceber nada que lhe seja maior. Alguns, com efeito, acreditaram que Deus fosse um corpo. Mesmo que defendamos que todos entendem a palavra “Deus” neste sentido, isto não significa que representem a existência desta coisa como real e não como apenas uma representação mental. E não se pode concluir que existe realmente, exceto caso se admita que essa coisa realmente existe. Ora, mas isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus.

À terceira devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma, mas que a

existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. Respondo dizendo que a existência de Deus pode ser demonstrada por cinco vias. A primeira e mais evidente é a que toma por base o movimento. É certo, e está de acordo com nossa experiência, que algo se move no mundo. Tudo que se move é movido por outra coisa, pois nada se move se não estiver em potência para aquilo para o se move; porém, o que move deve estar em ato para aquilo que move, já que mover não é senão fazer algo passar de potência para ato; ora mas nada pode

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passar de potência para ato senão por meio de um ser que já está em ato; por exemplo, o quente em ato, como o fogo, torna

a madeira, que é quente em potência, em quente em ato, movendo-a e alterando-a. É impossível que no mesmo sentido e do mesmo modo algo seja movente e movido, ou que se mova a si mesmo. Tudo o que se move deve, portanto, ser movido, ou que se mova a si mesmo. Tudo que se move deve, portanto, ser movido por outra coisa. Mas, se aquilo pelo qual algo é movido também se move, é indispensável que seja movido por outra coisa e assim sucessivamente. Se não houvesse um

primeiro movente cairíamos então em um processo indefinido ou, caso contrário, chegaríamos a algo que não seria movido, já que os segundos moventes só movem se forem movido pelo primeiro movente, assim como uma bengala nada move, se não for ela própria movida pela mão. Portanto, é necessário chegar a um primeiro movente que não seja movido por nenhum outro:

e este todos entendem ser Deus.

A segunda via baseia-se na causa eficiente. Encontramos nas coisas sensíveis uma ordem de causas eficientes, já que nada

pode ser causa eficiente de si mesmo, pois se assim o fosse existiria antes de si mesmo, o que é impossível. Também não é possível proceder indefinidamente nas causas eficientes. Em todas as causas eficientes ordenadas, em primeiro lugar está a causa do que se encontra no meio, e o que se encontra no meio é causa do que está em último lugar, tanto se os

intermediários forem muitos, quanto se for um só; tiradas as causas, tira-se o efeito; logo, se não for primeiro nas causas eficientes, não será nem em último, nem no meio. Se, porém, procedermos de forma indefinida nas causas eficientes, não haverá primeira causa eficiente, e portanto não haverá também nem efeito último nem causas intermediárias, o que é evidentemente falso. Logo é necessário admitir alguma causa eficiente primeira, à qual todos chamam de Deus.

A terceira via é baseada no possível e no necessário. Encontramos dentre as coisas algumas que podem ser ou não ser, já

que encontramos algumas que são geradas e se corrompem, e por isso mesmo podem ser ou não ser. É impossível que todas

essas coisas existam sempre, pois o que não pode ser alguma vez não é. Se todas as coisas podem não ser, alguma vez nada existiu. Se assim fosse na verdade, também agora nada existiria, pois o que não existe não começa a existir senão a partir de algo que existe; se, entretanto, nada existia, seria impossível que algo começasse a existir, e assim nada absolutamente existiria, o que é evidentemente falso. Portanto, nem todos os seres são possíveis, mas é indispensável que algum ser seja necessário. Todo ser necessário ou tem a causa de sua necessidade como externa ou não. É impossível, porém, que procedamos indefinidamente em relação aos seres necessários, que têm uma causa de sua necessidade, como também nas causas eficientes, da forma como provamos. Logo, é necessário admitir algo que seja necessário por si, não tendo fora dele a causa de sua necessidade, antes pelo contrário, que seja ele mesmo a causa da necessidade dos outros: a estes todos chamam de Deus.

A quarta via tem por base os graus que se encontram nas coisas. Encontramos, com efeito, nas coisas, algo mais ou menos

bom, verdadeiro, nobre, e assim, por diante. O “mais” ou “menos” é dito acerca dos diversos seres conforme se aproximam de

forma diferente daquilo que é o máximo, como o mais quente é aquilo que se aproxima do quentíssimo. Existe algo que é o verdadeiríssimo, ótimo, nobilíssimo e, por conseguinte, o ser máximo, pois as coisas que são verdadeiras ao máximo são os maiores seres, como é dito no livro II da Metafísica. O que é máximo em algum gênero é causa de tudo o que é daquele

gênero, como o fogo, que é o máximo do quente, é a causa de todos os quentes, como é dito do mesmo livro. Logo, existe algo que é a causa da existência de todos os seres, e da bondade e de qualquer perfeição, e a este chamamos Deus.

A quinta via é derivada do governo das coisas. Vemos que as coisas que não têm inteligência, como, por exemplo, os corpos

naturais, agem para uma finalidade, o que se mostra pelo fato de sempre ou freqüentemente agirem da mesma forma, para conseguirem o máximo, donde se segue que não é por acaso, mas intencionalmente, que atingem seu objetivo. As coisas, entretanto, que não têm inteligência só podem procurar um objetivo dirigidas por alguém que conhece e é inteligente, com a flecha dirigida pelo arqueiro. Logo, existem algum ser inteligente que ordena todas as coisas da natureza para se corresponde objetivo: a este chamamos Deus.” (In: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de filosofia: dos pré-socráticos a

Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 68-71.)

MAQUIAVEL, NICOLLÒ (1469-1527)

Homem solitário e revoltado, o italiano Maquiavel (nascido em Florença) se torna, aos 29 anos, secretário do governo republicano de Florença. Empreende várias missões diplomáticas. Os Medicis, porém, sustentados pelo papa Júlio II, apoderam-se de Florença e dos Estados vizinhos. O republicano Maquiavel organiza, em vão, a resistência. É preso, torturado, banido e exilado. Em San Casciano, onde se refugia e passa dez anos, escreve dois livros: O discurso sobre a primeira década

31

de Tito Lívio e O Príncipe. Em 1520, escreve A arte da guerra, no qual reivindica a substituição dos mercenários por milícias nacionais. Tenta reaproximar-se dos Medicis, mas continua sob suspeita. Sua obra mais célebre, O Príncipe, não é, como pretendia Frederico II em seu Antimaquiavel, um manual de técnica política de um realismo satânico, sem se preocupar com as questões de justiça, de direito, da autoridade legítima e da moral. No contexto em que foi escrito, a Itália era um país dividido em vários principados, além dos Estados do papa. A problemática de Maquiavel era: como chegar ao poder? Como exercê-lo? Como conservá-lo? Ele rompe com todas as teorias da legitimação do poder, deixando o domínio do direito pelo domínio do fato, que é o da força. Ele imagina uma Itália unificada, desembaraçada das pilhagens e dos chefes de bandos, uma Itália regenerada numa nova república. Para a realização desse sonho, não se precisava de um profeta falador nem de um novo tirano, mas de um libertador inspirado e realista, de um profeta armado: o príncipe. O príncipe deveria ter uma tríplice missão:

a) tomar o poder; b) assegurar a estabilidade política; c) construir a República unificada. Maquiavel viu em Lourenço de Medicis a figura desse príncipe. Deveria ser um herói trágico, agindo em conseqüência, impiedoso e astucioso, resoluto e frio, porque esta era a única maneira de controlar a instabilidade política e a perversão dos homens, a fim de que fosse instaurada a cidade justa. O termo maquiavelismo é utilizado para designar a doutrina política realista de Maquiavel, procurando, a partir da experiência e da história, instaurar as leis e as técnicas eficazes do poder pessoal. TEXTO

1

“Os príncipes prudentes repeliram sempre tais forças (as mercenárias e as auxiliares), para valer-se das suas próprias vitórias, preferindo antes perder com estas a vencer com auxílio das outras, considerando falsa a vitória conquistada com

forças alheias. (

ter começado a ter a soldo mercenários godos.

Se se considerar o começo da decadência do Império Romano, achar-se-á que foi motivada somente por

)

2

Um príncipe deve, pois, não deixar nunca de se preocupar com a arte da guerra e praticá-la na paz ainda mais mesmo que na guerra, e isto pode ser conseguido por duas formas: pela ação ou apenas pelo pensamento. Quanto à ação, além de

manter os soldados disciplinados e constantemente em exercício, deve estar sempre em grandes caçadas, onde deverá habituar o corpo aos incômodos naturais da vida em campanha e aprender a natureza dos lugares, saber como surgem os montes, como afundam os vales, como jazem as planícies, e saber da natureza dos rios e dos pântanos, empregando nesse

Agora, quanto ao exercício do pensamento, o príncipe deve ler histórias de países e

considerar as ações dos grandes homens, observar como se conduziram nas guerras, examinar as razões de suas vitórias e derrotas, para poder fugir destas e imitar aquelas.

3

Destarte todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram. Porque, além do que já se disse, a natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadi-los de uma coisa, mas sendo difícil firmá-los na persuasão. Convém, pois, providenciar para que, quando não acreditarem mais, se possa fazê-los crer à força. Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo não teriam conseguido fazer observar por muito tempo suas constituições se estivessem desarmados. É o que, nos tempos que correm, aconteceu a frei Girolamo Savonarola, o qual fracassou na sua tentativa de reforma quando o povo começou a não lhe dar crédito. E ele não tinha meios para manter firmes aqueles que haviam acreditado, nem para fazer com os incrédulos acreditassem.

4

cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: apesar disso, deve cuidar de empregar convenientemente essa piedade. César Borgia era considerado cruel, e, contudo, sua crueldade havia reerguido a Romanha e conseguido uni-la e conduzi-la à paz e à fé. O que, bem considerado, mostrará que ele foi muito mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para evitar a pecha de cruel, deixou que Pistóia fosse destruída. Não deve, portanto, importar ao príncipe a qualificação de cruel para manter os seus súditos unidos e com fé, porque, com raras exceções, é ele mais piedoso do que aqueles que por muita clemência deixam acontecer desordens, das quais podem nascer assassínios ou rapinagem. É que estas conseqüências prejudicam todo um povo, e as execuções que provêm do príncipe ofendem apenas um indivíduo. E, entre todos os príncipes, os novos são os que menos podem fugir à fama de cruéis, pois os Estados novos são cheios de perigo.

trabalho os melhores cuidados. (

)

32

5

Nasce daí esta questão debatida: se será melhor ser amado que temido ou vice-versa. Responder-se-á que se deseja

ser uma e outra coisa; mas como é difícil reunir ao mesmo tempo as qualidades que dão aqueles resultados, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se tenha que falhar numa das duas.

6

um príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determinaram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, este preceito seria mau. Mas, dado que são pérfidos e que não a observariam a teu respeito, também não és obrigado a cumpri-la para com eles.

7

Quem se torna senhor de uma cidade tradicionalmente livre e não a destrói, será destruído por ela. Tais cidades

têm sempre por bandeira, nas rebeliões, a liberdade e suas antigas leis, que não esquecem nunca, nem com o correr do

tempo, nem por influência dos benefícios recebidos. ( seguro é destruí-la ou habitá-la pessoalmente.

8

como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar. E muita gente imaginou repúblicas e principados que

nunca se viram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros. Vai tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar; e um homem que quiser fazer profissão de bondade é natural que se arruíne entre tantos que são maus.

Assim, para conservar uma república conquistada, o caminho mais

) (

)

Assim é necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade. (MAQUIAVEL. O príncipe) (In: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: uma introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. p. 207-209.)

MONTAIGNE, MICHEL EYQUEM DE (1533-1592)

O pensador francês Michel de Montaigne é conhecido por ter tomado, em relação as certezas e aos valores da Idade Média, uma posição nitidamente cética. Em seus Ensaios, não somente modernizou e enriqueceu a argumentação do

ceticismo, mas mostrou a influência que os fatores pessoais, sociais e culturais exercem sobre as idéias. Com bastante argúcia

e ironia, procura demolir as superstições, os erros e o fanatismo das opiniões que queriam impor-se como verdades. Constrói

uma filosofia que, partindo do estoicismo, chega ao ceticismo e, em seguida, a uma forma de epicurismo. E conclui que só existem opiniões. Seu ceticismo é simbolizado pela questão: O que sei? Não podemos nem mesmo saber se nosso estado de vigília não é um estado de sonho. Toda a ciência, construída sobre nossas ilusões sensíveis, não tem maior valor do que essas ilusões. Toda verdade é relativa. Fica reduzida a zero a pretensão da criatura humana de atingi-la. Em pleno período das guerras de religião, Montaigne procura desacreditar a intolerância da razão e de seus juízos para dar maior lugar à fé, caminho que nos conduziria à idéia de tolerância e de uma sabedoria pacíficista. Prega uma moral da eficácia tranqüila, pois as paixões são fontes de violências e de fanatismos, i.é, de ruínas e de intemperança. Sua moral não é da indiferença, mas a do domínio de si na paz da alma e no desejo de ser útil.

TEXTOS FILOSOFAR É APRENDER A MORRER “Cícero diz que filosofar não é outra coisa do que se preparar para morte. E é mesmo, pois de alguma forma o estudo e

a contemplação tiram nossa alma de nós e separam-na do corpo, o que constitui um aprendizado para a morte e é algo a ela

semelhante; ou dito de outra maneira, toda a sabedoria e raciocínio do mundo desemboca, no fim, neste ponto: aprendermos a não temer a morte. Em verdade, ou nossa razão falha, ou ela não deve procurar nosso desprezo, e todo seu trabalho deve ser

para bem vivermos e para nossa alegria, como diz a Sagrada Escritura. Todas as opiniões do mundo coincidem em dizer que

o prazer é o nosso objetivo, muito embora sejam diversos os meios que sugerem. Se assim não fosse, não as escutaríamos. Quem dará ouvidos àqueles que nos propõem a dor e o sofrimento como objetivo da nossa existência?

33

As discrepâncias das escolas filosóficas, neste particular, são apenas verbais. Trancurramus solertissimas nugas (Passemos por cima dessas miudezas). Nelas há muito de teimosia e picuinha, coisas que não condizem com uma profissão tão respeitável. Muito embora seja inevitável que o homem ponha algo de si em qualquer papel que pretenda representar. Digam o que disseram, a verdade é que, na própria virtude, nosso último objetivo é a volúpia. Agrada-me repetir esta palavra que para eles é forte e constrangedora. Se ela significa uma espécie de prazer supremo ou de excessiva satisfação, é muito mais devido à própria virtude do que a qualquer outra coisa. Essa volúpia por ser mais ousada, nervosa, forte e viril, é só mais seriamente voluptuosa. Deveríamos chamá-la de prazer, que é uma expressão mais agradável, mais doce e natural, e não como a designamos de maneira mais enérgica. Quanto à outra volúpia inferior, se merecer tão belo nome, dê-se-lhe não como direito, mas como um favor. Considero-a menos livre de inconvenientes e de obstáculos do que a própria virtude. E ainda mais, o agrado que traz é mais momentâneo, mais frágil e caduco, e ainda exige suas vigílias, seus jejuns, seus esforços e suor e sangue. Paixões incômodas de toda espécie acompanham-na tornando sua saciedade tão pesada, que eqüivale a uma penitência.

A meta da nossa corrida é a morte; alvo inevitável da nossa mira. Se ela nos apavorar, como poderemos dar um passo

para a frente sem temor? A saída dos simples é não pensar nisto. De que brutal estupidez lhes pode vir cegueira tão ordinária?

É

necessário frear o asno pelo rabo. Nada há de estranho se tais pessoas caem com facilidade nas armadilhas. Apavora-as só

o

fato de falar em morte, e a maior parte das pessoas santiguam-se como se se nomeasse o diabo. E como ela é mencionada

nos testamentos, eles não se atrevem a fazê-los senão quando o médico os condena; e Deus sabe, então, em que estado

mental se encontram, entre a dor e o pavor.

A morte nos espreita, e não sabemos quando chegará; aguardemo-la em todo lugar. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer, aprendeu a não mais ser escravo. Nada atingirá a quem soube compreender que morrer não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e constrangimento.” ( MONTAIGNE, Ensaios) (In:

CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 116-117.)

BACON, FRANCIS (1561-1626)

Nasceu na Inglaterra. Estudou no Trinity College de Cambridge, onde demonstrou profunda antipatia pelo programa de ensino escolástico. Tornou-se hostil a Aristóteles. Queria libertar a filosofia das garras da escolástica e lançá-la no caminho da luzes, fazendo crescer o bem-estar da humanidade. Depois de uma adolescência órfã e pobre, galgou os postos mais importantes. Em 1583, foi eleito membro do Parlamento. Tornou-se chanceler em 1618. O Parlamento o acusa de corrupção e

o condena em 1621. Doente e arruinado, morre cinco anos mais tarde. Sonhou sempre com a reforma da filosofia, cujo plano

de conjunto está em sua obra Instauratio magna, da qual o Novum Organum constitui o prefácio. Entre 1597 e 1623, publica os Essays (Ensaios), tratando de todas as questões com uma exuberância própria ao estilo renascentista. Contra as disputas estéreis da escolástica, declara que "a ciência não é um conhecimento especulativo, nem uma opinião a ser sustentada, mas um trabalho a ser feito" a serviço da utilidade do homem e de seu poder. Para dominar a natureza, precisamos antes conhecer suas leis por métodos comprovados. O novo método deve consistir na observação da natureza. Contudo, para se ver claro, é necessário, antes, fazer uma classificação das ciências: as ciências da memória (ou história), as ciências da razão (filosofia) e as ciências da imaginação (poesia). Em seguida, Bacon estabelece o método experimental de pesquisa das causas naturais dos fatos: em primeiro lugar, devemos acumular os fatos, em seguida, classificá-los, finalmente, determinar sua causa. Contudo, a formulação desse método experimental e indutivo exige, como condição, a eliminação de falsas noções, que Bacon denomina "ídolos", fantasmas de verdade, imagens tomadas por realidade: a) os idolos da tribo, i.é, as falsas noções da espécie humana; b) os ídolos da caverna, as falsas noções provenientes de nossa psicologia individual; c) os ídolos do mercado, as falsas noções provenientes da psicologia social; d) os ídolos do teatro, as falsas noções provenientes das doutrinas em voga. Assim, o projeto de Bacon, para quem "saber é poder", consiste, primeiramente, em aperfeiçoar a ciência, em seguida, em aperfeiçoar a ordem social, finalmente, em conferir a soberania aos homens de ciência. Ele defende essa idéia na New Atlantis (Nova Atlântida), cidade ideal na qual fixa um objetivo humano para a ciência: lutar contra a ignorância, o sofrimento e a miséria, e permitir ao império humano realizar tudo o que é possível, propagando a ciência e a cultura. TEXTO

34

AFORISMOS

I

“O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais.

II

Nem a mão nua nem o intelecto, deixados a si mesmos, logram muito. Todos os feitos se cumprem com instrumentos e recursos auxiliares, de que dependem, em igual medida, tanto o intelecto quanto as mãos. Assim, como os instrumentos mecânicos regulam e a ampliam o movimento das mãos, os da mente aguçam o intelecto e o precavêm.

III

Ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, senão quando se lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é a regra na prática.

IV

No trabalho da natureza o homem não pode mais que unir e apartar os corpos. O restante realiza-o a própria natureza,

em si mesma.

XVIII

Os descobrimentos até agora feitos de tal modo são que, quase só se apóiam nas nações vulgares. Para se penetre nos estratos mais profundos e distantes da natureza, é necessário que tanto as noções quantos os axiomas sejam abstraídos

das coisas por um método mais adequado e seguro, e que o trabalho do intelecto se torne melhor e mais correto.

XIX

Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a descoberta da verdade. Uma, que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamovível verdade. Esta é a que ora se segue. A outra, que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Este é o verdadeiro caminho, porém não ainda instaurado.

XXI

O intelecto, deixado a si mesmo, na mente sóbria, paciente e grave, sobretudo se não está impedida pelas doutrinas recebidas, tenta algo na outra via, na verdadeira, mas com escasso proveito. Porque o intelecto não regulado e sem apoio é

irregular e de todo inábil para superar a obscuridade das coisas.

XXII

Tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e terminam nas formulações da mais elevada generalidade. Mas é imenso aquilo em que discrepam. Enquanto que uma perpassa na carreira pela experiência e pelo particular, a outra aí se detém de forma ordenada, como cumpre. Aquela, desde o início, estabelece certas generalizações abstratas e inúteis; esta se eleva gradualmente àquelas coisas que são realmente as mais comuns na natureza.

XXXVIII

Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados não somente o obstruem a ponto de ser difícil o acesso da verdade, como, mesmo depois de seu pórtico logrado e descerrado, poderão ressurgir como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam.

XXXIX

São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro; e Ídolos do Teatro.

XLI

35

Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. É falsa a

asserção de que os sentidos do homem são a medida das coisas. Muito ao contrário, todas as percepções, tantos dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o universo. O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe.

XLII

Os ídolos da caverna são os dos homens enquanto indivíduos. Pois, cada um - além das aberrações própria da

natureza humana em geral - tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza; seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos livros pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em ânimo preocupado

e predisposto ou em ânimo equânime e tranqüilo; de tal forma que o espírito humano - tal como se acha disposto em cada um -

é coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso. Por isso, bem proclamou Heráclito que os homem buscam em seus pequenos mundos e não no grande ou universal.

XLIII

Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si, a que chamamos de ídolos do foro devido ao comércio e consórcio entre os homens. Com efeito, os homens se associam graças ao discurso, e as palavras são cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e

inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem

e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias.

XLIV

Há, por fim, ídolos que imigraram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas dos antigos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, porque as causas dos erros mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais, não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na sua universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor, mercê da tradição, da credulidade e da negligência. Contudo, falaremos de forma mais ampla e precisa de cada gênero de ídolo, para que o intelecto humano esteja acautelado.” (BACON, Francis. Novum Organum) (In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia:

lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 91-94.)

GALILEU GALILEI (1564-1642)

Considerado um dos criadores da ciência moderna, Galileo Galilei, geralmente conhecido como Galileu, nasceu em Pisa, Itália, tendo sido professor em diversas universidades italianas como Pisa e Pádua, bem como servido a vários Estados italianos como Veneza e Florença. Sua crítica ao sistema geocêntrico e sua defesa da astronomia de Copérnico abriram caminho para o desenvolvimento da moderna física e da astronomia. Galileu defendeu o uso da matemática como linguagem da física, estabelecendo assim um novo método para a ciência natural e afirmando que "o livro da Natureza é escrito em linguagem matemática". O uso do telescópio que fez em suas observações astronômicas deu nova base para a comprovação das hipóteses de Copérnico. A principal contribuição de Galileu ao desenvolvimento da ciência moderna está precisamente na combinação do uso da linguagem matemática na construção das teorias, o que lhes dá maior rigor e precisão, com o recurso aos experimentos que permitem comprovar empiricamente as hipóteses científicas. Em 1633, Galileu foi preso pela Inquisição, já que suas teorias contradiziam a visão tradicional do universo mantida pela escolástica e iam contra a doutrina cristã. Forçado a retratar-se, continuou, entretanto, suas pesquisas em silêncio. Obras principais: O mensageiro das estrelas (1610), Il Saggiatore (1623), Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo (1632) e Discurso sobre as duas novas ciências (1638). TEXTOS

I

36

“São grandes coisas as que, neste curso tratado, proponho aos olhares e à observação de todos os estudiosos da natureza. Grandes em razão de sua excelência intrínseca, como também de sua absoluta mobilidade, e também devido ao instrumento com ajuda do qual elas se tornaram acessíveis a nossos sentidos. É certamente importante acrescentar ao grande número de estrelas fixas que os homens puderam, até hoje, observar

a olho nu, outras estrelas inumeráveis, e oferecer ao olhar seu espetáculo, anteriormente oculto: seu número ultrapassa em mais de dez vezes o das estrelas dantes conhecidas. E coisa magnífica e agradável à vista é contemplar o corpo da Lua, distante de nós quase sessenta semidiâmetros da Terra, próximo como se estivesse a uma distância de apenas duas vezes e meia essa medida. ( ) Qualquer pessoa pode dar-se conta, com a certeza dos sentidos, de que a Lua é dotada de uma superfície não lisa e polida, mas feita de asperezas e rugosidade, que, tanto como a face da própria Terra, é por toda parte cheia de enormes ondulações, abismos profundos e sinuosidades. Em minha opinião, não é resultado modesto haver posto termo às controvérsias relativas à Galáxia ou Via Láctea, e ter tornado sua essência manifesta, não somente aos sentidos, porém mais ainda ao intelecto; e além disso, demonstrar diretamente a substância daquelas estrelas que todos os astrônomos até esta data têm chamado de nebulosas, e demonstrar que ela é muito diferente do que até agora se acreditou, será muito agradável e belo. Mas o que supera toda capacidade de admiração, e que um primeiro lugar me faz chamar a atenção dos astrônomos e filósofos, é isto: que descobrimos quatro planetas, nem conhecidos nem observados por ninguém antes de nós, os quais têm seus períodos em torno de uma certa grande estrela conhecida, tal como Vênus e Mercúrio fazem evoluções em torno do Sol,

e que às vezes avançam, às vezes se retardam em relação a ela, sem que sua digressão jamais ultrapasse certos limites.

Tudo isso foi observado por mim e descoberto há alguns dias, por meio dos perspicilli inventado por mim, através da graça divina, que previamente iluminou meus espírito.”

II

“Parece-me também perceber em Sarsi sólida crença que, para filosofar, seja necessário apoiar-se nas opiniões de algum célebre autor, de tal forma que o nosso raciocínio, quando não concordasse com as demonstrações de outro, tivesse que permanecer estéril e infecundo. Talvez considere a filosofia como um livro e fantasia de um homem, como a Ilíada e Orlando Furioso, livros em que a coisa menos importante é a verdade daquilo que apresentam escrito. Sr. Sarsi, a coisa não é assim. A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (i.é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.” (In: ANDERY, Maria Amália et al. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1992. p. 177-178,

186.)

III

“Voltando ao assunto anterior, veja V.E. como novamente ele quer que eu tenha considerado como grande falta do Pe Grassi ter aderido às teorias de Tycho, e, com reprovação, pergunta: a que devia ele seguir? Por acaso Ptolomeu, cuja teoria das novas observações, com respeito à Marte, é claramente falsa? Ou talvez Copérnico, do qual todo mundo se há de afastar

o mais rápido possível, por causa de suas teorias ultimamente condenadas? Aqui eu percebo várias coisas: primeiramente,

rejeito como falso eu ter reprovado o Pe. Grassi de seguir Tycho, mesmo que eu tivesse tido razões para fazê-lo, como ficará bem claro a seus adeptos por causa do Antitycho do Cavaleiro Chiaramonte. Aquilo que Sarsis relata aqui está fora do assunto, e muito mais fora do assunto é a introdução de Ptolomeu e Copérnico, dos quais nunca soubemos existirem obras atinentes a distâncias, grandezas, movimentos e teorias relativas a cometas, somente das quais estamos tratando e não de outras coisas, porque da mesma forma podiam ser introduzidos Sófocles, Bartolomeu ou Lívio. Parece-me também perceber em Sarsi sólida crença que, para filosofar, seja necessário apoiar-se nas opiniões de algum célebre autor, de tal forma que o nosso raciocínio, quando não concordasse com as demonstrações de outro, tivesse de permanecer estéril e infecundo. Talvez considere a filosofia como um livro e fantasia de um homem, como a Ilíada e Orlando Furioso, livros em que a coisa menos importante é a verdade daquilo que apresentam escrito. Sr. Sarsi, a coisa não é assim. A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres

37

são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto. Porém, admitindo igualmente, segundo o parecer de Sarsi, que o nosso intelecto deve tornar-se escravo do intelecto de outro homem (deixo a ele, transformando todos nós em copiadores, louvar a si mesmo aquilo que reprovou no Sr. Mário) e que nas contemplações dos movimentos a Ptolomeu e a Copérnico, de ambos os quais possuímos os sistemas inteiros do mundo, com grande habilidade construídos e finalizados. Isto

parece-me não ter sido feito por Tycho, se já não é suficiente para Sarsi ter renegado os outros dois e ter-nos prometido um outro, se bem que depois não cumpriu. Nem gostaria que alguém atribuísse a Tycho haver convencido os outros dois de falsidade, porque, quanto ao sistema ptolemaico, nem Tycho nem os outros astrônomos nem o próprio Copérnico mesmo podiam abertamente convencê-lo, sendo que a principal razão deduzida dos movimentos de Marte e Vênus contrariava o sentido. Pois, demonstrando-se o disco de Vênus nas duas conjunções e separações do Sol muito pouco diferente em grandeza em relação a si mesmo e o disco de Marte no perigeu apenas três ou quatro vezes maior que quando no apogeu, nunca Sarsi teria se persuadido de mostrar verdadeiramente este quarenta e este sessenta vezes maior num estado do que o outro, como teria sido realizadas ao redor do Sol, segundo o sistema copernicano. Todavia, que essa teoria é verdadeira e clara para os sentidos, eu mesmo o demonstrei e o fiz com um telescópio perfeito testar com mão a quem quer que quisesse ter visto. Depois, em relação à hipótese de Copérnico, mesmo que para benefício de nós católicos da mais soberana sabedoria não tivéssemos sidos esclarecidos em nossos erros e iluminada a nossa cegueira, não acredito que uma tal graça e benefício tivessem podido obter-se pelos raciocínios e pelas experiências expostas por Tycho. Sendo, então, certamente falsos os dois sistemas e nulo o de Tycho, não deveria Sarsi reprovar-me se com Sêneca desejo a verdadeira constituição do universo. E mesmo que o desejo seja grande e muito querido por mim, não deploro, porém, entre lágrimas e tristezas, como escreve Sarsi,

a miséria e a calamidade deste século, nem há o mínimo vestígio de tais lamentações em todo o texto do Sr. Mário. Sarsi,

contudo, necessitando encobrir e sustentar algum pensamento que ele deseja explicar, vai remanejando ele mesmo e fazendo

a si aquelas acusações que não lhe foram atribuídas por outros. E mesmo que eu lamentasse este nosso infortúnio, não vejo

como exatamente possa Sarsi afirmar que minhas lamentações formaram vãs, não possuindo eu nem modo nem faculdade de destruir tal miséria, porque parece-me que justamente por isto eu teria razão de me queixar, e, pelo contrário, as lamentações então não teriam lugar, uma vez que eu pudesse afastar este infortúnio.” (GALILEI, Galileu. O ensaiador. Argumento número 6. In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 89-91.)

HOBBES, THOMAS (1588-1679)

Thomas Hobbes, filósofo materialista inglês, é um empirista inglês mas, na história da filosofia, é sobretudo um pensador político. Estudou em Oxford. Viajou muito. Em 1621,encontrou-se com Francis Bacon, com ele indo para a França e

a Itália. Descobre a ciência de Galileu. Estuda os clássicos e se apaixona por Euclides. No início da crise revolucionária de Charles I (decapitado em 1649), exila-se em Paris, onde entra em contato com Mersenne e com as Meditações de Descartes

(às quais faz objeções). Retorna à Inglaterra em 1651, onde é acusado de ateísmo pelo Parlamento. Mantém controvérsias violentas sobre a liberdade e a necessidade. Ganha notoriedade. Suas obras principais são: De Cive (1642), Leviathan (1651), De homine (1658), De corpore (1661). Os temas centrais de sua filosofia giram em torno: a) do estado de natureza, no qual as relações dos homens entre si são deixadas à livre iniciativa de cada um: "o homem é um lobo para o homem"; b) do Estado social: a sociedade política é a obra artificial de um pacto voluntário, de um cálculo; todos os homens são iguais por natureza; do lado do conhecimento, tudo vem da sensação; c) da moralidade, que é o acordo da natureza com a ação; é bem tudo o que favorece e conduz à paz; pela paz e pela razão os homens fazem pactos; d) do papel do soberano: o de garantir a segurança e

a prosperidade de seus súditos; o poder absoluto é legítimo quando assegura a paz civil; o soberano tem todos os direitos; a

justiça é inteiramente dominada pela lei positiva; a lei imposta pelo soberano é justa por definição; a Igreja deve subordinar-se ao Estado; devemos seguir a lei do Estado de preferência a lei divina; a paz civil é o soberano bem, devendo ser mantida a todo preço; o papel do soberano, que Hobbes chama de Leviatã, esse indomável e terrível dragão bíblico, é puramente utilitário. Na guerra de todos contra todos, há a necessidade de um pacto social entre os indivíduos-cidadãos, cada um renunciando à sua liberdade em favor do soberano absoluto. TEXTOS OS UNIVERSAIS

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“Dentre os nomes, alguns são próprios e peculiares de uma única coisa, como Pedro, João, este homem, esta árvore; alguns comuns a diversas coisas, como homem, cavalo, animal. Embora cada um deles seja um nome, é nome de diversas

coisas particulares; consideradas todas no conjunto constituem o que se chama de universal. Não há nada universal no mundo afora os nomes, pois as coisas por eles designadas são individuais e singulares.

O nome universal aplica-se a várias coisas que se assemelham em determinadas qualidades ou acidentes. Enquanto

um nome próprio relembra somente uma coisa, os universais relembram cada uma dessas diversas coisas.” ( HOBBES,

Thomas. Leviatã, Parte I, cap. 4)

O QUE É A RAZÃO “Da mesma maneira que os aritméticos ensinam a somar e subtrair nos números, os geômetras ensinam a mesma coisa com relação às linhas, figuras (sólidas e de superfície), ângulos, proporções, tempos, graus de aceleração, força, potência e outros termos semelhantes; por sua vez, os lógicos ensinam o mesmo com relação às conseqüências das palavras:

somam dois nomes, um com o outro, para compor uma afirmação; duas afirmações, para fazer um silogismo, e vários silogismos, para fazer uma demonstração; e, da soma ou conclusão de um silogismo, subtraem uma proposição para encontrar a outra.

Baseando-nos nisso tudo podemos definir (i.é, determinar) o que é e o que significa a palavra razão, ao incluir esta entre as faculdades mentais. Pois razão, neste sentido, outra coisa não é senão cômputo (i.é, soma e subtração) das conseqüências dos nomes gerais convencionados para caracterização e significação dos nossos pensamentos.” (Ibidem, Cap.

5, no início)

DA IGUALDADE ENTRE OS HOMENS NASCE A LUTA

“Desta igualdade (entre os homens) quanto à capacidade deriva-se a igualdade na esperança com relação à consecução dos nossos objetivos. Esta é a causa pela qual, se dois homens desejam a mesma coisa, e de nenhum jeito podem ambos desfrutá-la, tornam-se inimigos, e no caminhar para atingir seu objetivo (que é, principalmente, sua própria conservação e às vezes somente seu prazer) tratar de aniquilar-se ou de subjugar um ao outro. Daí que um agressor só teme

o poder singular de ou outro homem; se alguém planta, semeia, constrói ou possui um lugar conveniente, cabe-lhe,

provavelmente, esperar que outros venham, com as suas forças reunidas, para despossuí-lo e privá-lo, não só do fruto do seu trabalho mas também da vida e da liberdade. E o invasor, por sua vez, encontra-se no mesmo perigo, com relação a outros.” (Ibidem, Cap. 13, no início)

A LEI FUNDAMENTAL DA NATUREZA

“A condição do homem (tal como foi explicada no capítulo precedente) é uma condição de guerra de todos contra todos,

na qual cada um governa-se pela sua própria razão, nada existindo que não possa fazer, que lhe sirva para proteção de sua vida, contra seus inimigos. Donde se segue que cada homem tem direito a fazer qualquer coisa, inclusive nos corpos dos outros. E assim, enquanto perdure esse direito natural de cada um com relação às demais coisas não há segurança para ninguém (por forte e sábio que seja) de poder sobreviver o tempo que , normalmente, a Natureza permite aos homens viverem. Daí o preceito ou regra geral da razão, pela qual: cada homem deve procurar a paz com esforço, enquanto tiver esperança de consegui-la; e quando não, deve procurar e usar todos os auxílios e vantagens da guerra.” (Ibidem, Cap. 14, no início) O ESTADO “O único caminho para conseguir semelhante poder comum, que os possa defender contra as invasões dos estrangeiros e contra as injúrias dos outros, garantindo-lhes que poderão viver com seu próprio esforço e alimentar-se com os frutos da terra e ficarem satisfeitos, é conferir todo seu poder e força a um homem ou a uma assembléia de homens, onde pelos seus votos reduzem suas vontades a uma única vontade.

Isto é algo mais do que um consentimento ou uma concordância; é uma unidade real numa mesma e única pessoa, instituída pelo convênio de cada homem com os demais, assim como se cada um dissesse aos outros: autorizo e transfiro a este homem ou assembléia de homens meu direito de governar-me a mim mesmo, com a condição de vós fazerdes o mesmo, autorizando seus atos da mesma maneira. Feito isto, a multidão assim unida numa pessoa denomina-se Estado, no latim Civitas. Esta é a geração daquele grande Leviatã, ou melhor (falando com maior respeito) daquele deus mortal, ao qual devemos, sob o Deus imortal, nossa paz e nossa defesa. Pois, em virtude da autoridade que lhe foi conferida, possui e usa

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tamanho poder e força, que pelo terror que inspira é capaz de dobrar as vontades de todos para a paz interna e para a união contra os inimigos do estrangeiro.” (Ibidem, Cap. 17, no meio) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 132-134.)

DESCARTES, RENÉ (1596-1650)

René Descartes nasceu na França, de família nobre. Aos oito anos, órfão de mãe, é enviado para o colégio dos jesuítas de La Flèche, onde se revela um aluno brilhante. Termina o secundário em 1612, contente com seus mestres, mas descontente consigo mesmo, pois não havia descoberto a Verdade que tanto procurava nos livros. Decide procurá-la no mundo. Viaja muito. Alista-se nas tropas holandesas de Maurício de Nassau (1618). Sob a influência de Beeckmann, entra em contato com a física copernicana. Em seguida, alista-se nas tropas do imperador da Baviera. Para receber a herança da mãe,

retorna a Paris, onde freqüenta os meios intelectuais. Aconselhado pelo cardeal Bérulle, dedica-se ao estudo da filosofia, com

o objetivo de conciliara nova ciência com as verdades do Cristianismo. A fim de evitar problemas com a Inquisição, vai para a

Holanda (1629), onde estuda matemática e física. Escreve muitos livros e cartas. Os mais famosos: O discurso do método, As meditações metafísicas, Os princípios de filosofia, O tratado do homem e o Tratado do mundo. Convidado pela rainha Cristina,

vai passar uns tempos em Estocolmo, onde morre de pneumonia um ano depois. Suas frases mais conhecidas: "Toda filosofia

é como uma árvore cujas raízes são a metafísica e as ciências os ramos", "O bom senso (ou razão) é o que existe de mais

bem repartido no mundo", "Jamais devemos admitir alguma coisa como verdadeira a não ser que a conheçamos evidentemente como tal", "A proposição Penso, logo existo é a primeira e mais certa que se apresenta àquele que conduz seus pensamentos com ordem". Toda a obra de Descartes visa mostrar que o conhecimento requer, para ser válido, um fundamento metafísico. Ele parte da dúvida metódica: se eu duvido de tudo o que me vem pelos sentidos, e se duvido até mesmo das verdades matemáticas, não posso duvidar de que tenho consciência de duvidar, portanto, de que existo enquanto tenho essa consciência. O cogito é, pois, a descoberta do espírito por si mesmo, que se percebe que existe como sujeito: eis a primeira verdade descoberta para o fundamento da metafísica e cuja evidência fornece o critério da idéia verdadeira. Assim, a metafísica é fundadora de todo saber verdadeiro.

TEXTOS

I

"Como a multidão das leis fornece freqüentemente desculpas para os vícios, de tal forma que um Estado é bem melhor regido quando, não tendo senão poucas leis, elas são estritamente observadas; assim, em lugar desse grande número de preceitos de que se compõe a lógica, pareceu-me que teria bastante com aos quatro seguintes, contanto que tomasse uma

firme e constante resolução de não deixar de observá-los uma única vez.

O primeira era de jamais aceitar qualquer coisa como verdadeira que não soubesse ser tal com evidência: i.é, evitar

cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e nada compreender nos meus juízos que se não apresentasse tão clara e

distintamente ao meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

O segundo, dividir cada uma das dificuldades que viesse examinar em tantas parcelas quantas possíveis e que fossem

exigíveis para melhor resolvê-las.

O terceiro, conduzir ordenadamente meus pensamentos começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de

conhecer, para subir a pouco e pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais complicados; supondo mesmo uma

ordem entre aqueles que naturalmente não se precedem uns aos outros. E o último, fazer tantas enumerações tão complexas e revisões tão gerais, que estivesse certo de nada omitir. Estas longas cadeias de razões todas simples e fáceis, de que os geômetras costumam se servir para chegar às suas

mais difíceis demonstrações, tinham sido ocasião para eu imaginar que todas as coisas, que podem ser objeto de conhecimento dos homens, sucedem-se da mesma forma e que, cuidando somente de nos abster de aceitar como verdadeira alguma que não o seja, e observando sempre a ordem necessária para deduzir uma de outras, nenhuma pode ser tão distante que a ela não se chegue finalmente, nem tão oculta que não se descubra.

E não me foi muito difícil procurar por quais seria necessário começar, pois que já sabia que deveria ser pelas mais

simples e fáceis de conhecer; e considerando que todos os que anteriormente tinham procurado a verdade nas ciências, só os matemáticos tinham conseguido encontrar algumas demonstrações, i.é, algumas razões certas e evidentes, não podia duvidar que eu deveria começar pelas mesmas que eles tinham examinado; embora eu não esperasse nenhuma outra utilidade, exceto

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que elas habituariam meu espírito a se alimentar de verdades e a não se contentar com falsas razões.” (Discurso do Método, Segunda Parte, no meio)

Após ter-me assim assegurado destas máximas e de tê-las posto à parte com as verdades da fé, que têm sido sempre as primeiras na minha crença, julguei que, quanto ao resto das minhas opiniões, podia livremente tentar delas me desfazer. E como esperasse atingir meu objetivo conversando com homens do que ficando mais tempo naquela estufa onde tivera eu todos estes pensamentos, tornei a viajar quando o inverno ainda não tinha acabado. E em todos os nove anos seguintes, não fiz outra coisa do que rolar de cá para lá pelo mundo, procurando ser mais espectador do que ator em todas as comédias que nele se representam; e, refletindo particularmente em cada matéria que podia tornar-se suspeita e ser ocasião de enganar-nos, erradicava ao mesmo tempo do meus espírito todos os erros que até então tinham podido se infiltrar nele. Não que limitasse

por isso os céticos, que duvidam só por duvidar, e afetam estar sempre irresolutos, pois todo meus propósito era, bem pelo contrário, tendente a me garantir e a rejeitar a terra movediça e a areia para encontrar a rocha ou a argila.” (Ibidem, Terceira

Parte, quase no fim) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos

II

“Não sei se deva falar-vos das primeiras meditações que aí fiz, porque são tão metafísicas e tão pouco comuns que não serão talvez do gosto de toda a gente. E, todavia, vejo-me decerto modo obrigado a delas falar, a fim de que se possa avaliar se os fundamentos que escolhi são bastante firmes. Desde há muito notara eu que, no tocante aos costumes, é necessário às vezes seguir como se fossem indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas, como já atrás foi dito. Mas, porque agora desejava dedicar-me apenas à procura da verdade, pensei que era forçoso que eu fizesse exatamente ao contrário e rejeitasse, como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, depois disso, não ficaria alguma coisa na minha crença, que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, quis supor que não existe coisa alguma que seja tal como eles a fazem imaginar. E porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo a propósito dos mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, ao considerar que eu estava sujeito a enganar-me, como qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões de que anteriormente me servira nas demonstrações. Finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos no estado de vigília nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que, neste caso, algum seja verdadeiro, resolvi supor que todas as coisas que até então tinham entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo a seguir, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, era de todo necessário que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade: penso; logo, existo, era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de abalar, julguei que a podia aceitar, sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava. Depois, examinando atentamente o que era e vendo que podia supor que não tinha corpo algum e que não havia nenhum mundo, nem qual qualquer lugar onde eu existisse; mas que não podia fingir, para isso, que eu não existia; e que, pelo contrário, justamente porque pensava ao duvidar da verdade das outras coisas, seguia-se muito evidentemente e muito certamente que eu existia; ao passo que se deixasse somente de pensar, ainda que tudo o que tinha imaginado fosse verdadeiro, não teria razão alguma para crer que eu existisse: por isso, compreendi que era uma substância, cuja essência ou natureza é unicamente pensar e que, para existir, não precisa de nenhum lugar nem depende de coisa alguma material. De maneira que esse eu, isto, a alma pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, e até mais fácil de conhecer do que ele, e ainda que não existisse, ela não deixaria de ser tudo que é. Depois disso, considerei em geral o que é indispensável a um proposição para ser verdadeira e certa; porque, como acabava de achar uma que conhecia como tal, pensei que devia saber também em que consiste essa natureza. E tendo notado que no Eu penso; logo, existo, não há nada que me garanta que digo a verdade a não ser que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei que podia tomar como regra geral que as coisas que concebemos muita clara e distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente. Depois disso, tendo refletido sobre o que duvidava e que, por conseqüência, o meu ser não era inteiramente perfeito, pois via claramente que conhecer é uma maior perfeição do que duvidar, lembrei-me de procurar de onde me teria vindo o pensamento de alguma coisa de mais perfeito do que eu; e conheci, com evidência, que se devia a alguma natureza que fosse,

São Paulo: Cultrix, 1995. p. 136-138.)

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efetivamente, mais perfeita. Quanto aos pensamentos que tinha de muitas outras coisas a mim exteriores, como do céu, da terra, da luz do calor e de muitíssimas outras, não me preocupava tanto em saber de onde me vinham, porque, não notando nelas algo que me parecesse torná-las superiores a mim, podia crer que, no caso fossem verdadeiras, dependiam da minha natureza, na medida em que tinha alguma perfeição; e se não fossem, que as extraía do nada, i.é, existiam em mim, porque eu tinha defeito. Mas isso já não podia acontecer com a idéia de um ser mais perfeito do que o meu, pois tê-la formado do nada era uma coisa manifestamente impossível; e porque não repugna mais admitir que o mais perfeito seja uma conseqüência e duma dependência do menos perfeito do que admitir que do nada procede alguma coisa, não a podia também receber de mim próprio. De maneira que restava apenas que ela tivesse sido posta em mim por uma natureza que fosse verdadeiramente mais perfeita do que eu, e que até tivesse em si todas as perfeições de que eu podia ter alguma idéia, i.é, para me explicar com um só palavra, que fosse Deus. A isto acrescentei que, visto eu conhecer algumas perfeições que não possuía, não era o único ser que existia (utilizarei aqui, se vos aprouver, livremente termos da Escola), mas que necessariamente devia existir algum outro mais perfeito, do qual eu dependesse e de quem tivesse recebido tudo o que tinha. Pois, se eu fosse o único ser e independente de qualquer outro, de modo que houvesse recebido de mim próprio todo esse pouco pelo qual eu participava do ser perfeito, poderia pela mesma razão, ter tido de mim próprio todo o excedente que reconhecia faltar-me, e ser assim infinito, eterno, imutável, omnisciente, onipotente, em suma, ter todas as perfeições que em Deus podia descobrir. Com efeito, segundo os raciocínios que acabo de fazer para conhecer a natureza de Deus, tanto quanto disso a minha é capaz, bastava- me considerar, acerca de todas as coisas de que em mim encontrava alguma idéia, se era ou não perfeição possuí-las, e estava certo de que as que contêm alguma imperfeição não estavam nele, mas estavam, sim, todas as outras. Via que a dúvida, a inconstância, a tristeza e coisas semelhantes não podiam nele existir, uma vez que a mim próprio seria muito agradável estar delas isento. Além disso, tinha idéias de muitas coisas sensíveis e corporais; pois, embora eu supusesse que sonhava e que tudo o que via ou imaginava era falso, não podia negar, contudo, que suas idéias existiam verdadeiramente no meu pensamento; mas, como já tinha já reconhecido em mim próprio claramente que a natureza inteligente é distinta da corporal, considerando que toda a composição implica dependência, e que a dependência é manifestamente um defeito, julguei, por isso, que em Deus não podia constituir uma perfeição o ser composto dessas duas naturezas e que, por conseqüência, não o era; mas que, se existem no mundo alguns corpos, inteligências ou outras naturezas que não sejam completamente perfeitas, o seu ser devia depender do seu poder, de tal modo que sem Ele não poderiam subsistir um só momento. Quis procurar, depois disso, outras verdades e, tendo escolhido o objeto dos geômetras, que concebia como um corpo contínuo ou um espaço indefinidamente extenso em comprimento, largura e altura ou profundidade, divisível em muitas partes, que podiam ter diversas figuras e grandezas e ser movidas ou transpostas de todas as maneiras, pois os geômetras supõem tudo isto no seu objeto, revi algumas das suas demonstrações mais simples. E, tendo notado que a grande certeza, que todos lhe atribuem, se funda apenas em serem concebidas com evidência, segundo a regra por mim há pouco indicada, notei também que não existia nelas absolutamente nada que me assegurasse da existência do seu objeto. Pois, por exemplo, via bem que, ao supor um triângulo, era necessário que os seus três ângulos fossem iguais e dois retos; mas, apesar disso, nada via que me garantisse que no mundo exterior existisse algum triângulo. Ao passo que, voltando a examinar a idéia que eu tinha de um ser perfeito, descobria que a existência estava nela contida, do mesmo modo, o mais evidentemente ainda, que na de um triângulo está compreendido que os seus três ângulos são iguais a dois retos, ou na de uma esfera, que todos os seus pontos são eqüidistantes do centro; e que, por conseguinte, é pelo menos tão certo como o pode ser qualquer demonstração de geometria que Deus, que é o ser perfeito, é ou existe. Mas o que faz que haja vários que se persuadem de que é difícil conhecê-lo, e até conhecer também o que é a própria alma, provém de nunca elevarem o espírito além das coisas sensíveis e de estarem de tal modo habituados a nada considerar senão com a imaginação, a qual é uma maneira de pensar própria das coisas materiais, que tudo o que não é imaginável lhes parece não ser inteligível. É o que transparece bastante a partir do que os próprios filósofos têm por máxima, nas escolas, que nada existe no entendimento que não tenha primeiro existido nos sentidos, nos quais, é todavia certo que as idéias de Deus e da alma nunca existiram. Parece-me que os querem usar da imaginação para as compreender procedem como se, para ouvirem sons ou sentirem os odores, quisessem servir-se dos seus olhos: com a diferença ainda de que o sentido da vista não nos garante menos do que os do olfato ou da audição a verdade dos seus objetos; ao passo que nem a nossa imaginação nem os nossos sentidos nos poderiam certificar de qualquer coisa, se o nosso entendimento não interviesse. Enfim, se houver ainda

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homens que não estejam bastante persuadidos da existência de Deus e da própria alma, com a razões que apresentei, quero que saibam que são menos certas as outras coisas de que se julgam talvez mais seguros, como ter um corpo, existirem astros e uma Terra e coisas semelhantes. Porque, ainda que dessas coisas se tenha uma tal certeza moral que parece, pelo menos, extravagante delas duvidar, todavia, quando se trata de uma certeza metafísica, não se pode negar, a não ser que sejamos insensatos, que o fato de podermos imaginar, durante o sono, que temos um corpo e que vemos outros astros e uma outra Terra, sem que na realidade assim seja, é motivo suficiente para não estarmos inteiramente seguros da sua certeza. Pois como é que se sabe que os pensamentos que ocorrem em sonhos são mais falsos que os outros, se muitas vezes não são menos vivos e expressos? E por mais que os melhores espíritos estudem isto, tanto quanto lhes agradar, não creio que possam apresentar alguma razão que seja suficiente para eliminar essa dúvida, se não pressupuserem a existência de Deus. Pois, primeiramente, aquilo mesmo que há pouco tomei como regra, i.é, que são inteiramente verdadeiras as coisas que concebemos muito clara e distintamente, só é certo porque Deus é ou existe, e porque é um ser perfeito e tudo o que existe dele nos vem. Donde se segue que as nossas idéias ou noções, sendo coisas reais e que provêm de Deus em tudo aquilo em que são claras e distintas, unicamente podem ser verdadeiras. De maneira que, se muitas vezes temos idéias que contêm falsidade, só poder ser a respeito das que têm algo de confuso e obscuro, porque nisso participam do nada, i.é, são assim confusas porque não somos totalmente perfeitos. E é evidente que não há menor repugnância em admitir que a falsidade ou a imperfeição como tal procede de Deus do que em admitir que a verdade ou a perfeição provém do nada. Mas, se não soubéssemos que tudo o que existe em nós de real e de verdadeiro vem de um ser perfeito e infinito, por claras e distintas que possas ser a nossas idéias, nenhuma razão teríamos que nos certificasse de que elas têm a perfeição de serem verdadeiras. Ora, depois de o conhecimento de Deus e da alma nos terem assim certificada desta regra, é muito fácil compreender que os sonhos por nós imaginado durante o sono não devem de modo algum fazer-nos duvidar da verdade dos pensamentos que temos, quando acordados. Pois se acontecesse que, mesmo a dormir, alguma idéia muita distinta ocorresse, como, por exemplo, que um geômetra inventasse uma nova demonstração, o seu sonho não a impediria de ser verdadeira. E quanto ao erro mais habitual dos nossos sonhos, que consiste em eles nos representarem diversos objetos como fazem os sentidos exteriores, não importa que ele nos leve a desconfiar da verdade de tais idéias, pois estas podem também enganar-nos muitas vezes, sem que estejamos a dormir: como quando os que têm icterícia vêm tudo amarelo, ou quando os astros e outros corpos muitos afastados nos parecem muito mais pequenos do que são. Desde modo, enfim, quer estejamos acordados, quer durmamos, nunca nos devemos deixar persuadir senão pela evidência da nossa razão. Note-se que digo da nossa razão, não da nossa imaginação, nem dos nossos sentidos. Com efeito, embora vejamos o sol muito claramente, não devemos por isso julgar que ele só tem a grandeza que vemos; e podemos à vontade imaginar distintamente uma cabeça de leão unida ao corpo de uma cabra, sem que tenhamos de concluir que no mundo existem quimeras: porque a razão não garante que seja verdadeiro o que assim vemos ou imaginamos. Mas sugere-se que todas as nossas idéias ou noções devem ter alguma fundamento de verdade; porque não seria possível que Deus, que é inteiramente perfeito e completamente verdadeiro, as tivesse posto em nós sem isso. E porque os nossos raciocínios nunca são tão evidentes nem tão inteiros durante o sono como durante a vigília, embora por vezes as nossas imaginações sejam então igualmente ou mais vivas e nítidas, a razão dita-nos também que, não podendo os nossos pensamentos ser todos verdadeiros, porque não somos de todo perfeitos, a verdade que eles têm deve infalivelmente encontrar-se mais nos que temos, quando acordados, do que nossos sonhos.” (DESCARTES, René. Discurso do método. Trad. João Gama. Lisboa: Edições 70, 1979. Quarta Parte: p. 73-82.)

PASCAL, BLAISE (1623-1662)

A notoriedade do filósofo e cientista francês Blaise Pascal (nascido em Clermont-Ferrand) é devida, sobretudo, ao fato de ter inventado, aos 20 anos, a máquina de calcular e de, juntamente com Leibniz, ter criado o cálculo das probabilidades. Aos 23 anos, demonstra a existência do vazio na natureza. Após um período de vida "mundana", na qual freqüenta os "libertinos", torna-se um defensor ardoroso do Cristianismo, notadamente do jansenismo. Com prodigiosa eloqüência, torna-se o defensor dos jansenistas contra os ataques dos jesuítas. São famosas suas Cartas provinciais (1657). Escreveu vários opúsculos filosóficos, científicos e matemáticos. Rejeita a autoridade em matéria de ciência. Mas confia mais na experiência do que na razão. Prefere os "espíritos de finesse" aos "espíritos geométricos". Para ele, "o coração tem razões que a razão desconhece". Gravemente enfermo, escreve o projeto de uma apologia da religião. Não o completa. É publicado após sua morte com o nome de Pensamentos. Para "provar" a verdade do Cristianismo, Pascal usa, uns contra os outros, os

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argumentos do orgulho estóico ou dogmático e os argumentos do ceticismo. Assim, para sua apologia do Cristianismo, ele utiliza a razão, a única arma que reconhecem os ateus para ridicularizar a religião. Usa os argumentos do cético Montaigne para destruir a orgulhosa confiança do homem em suas possibilidades humanas. E coloca seus adversários diante de uma aposta (pari), ou seja, diante de um argumento pelo qual tenta provar a um cético que ele tem todo interesse em crer "numa outra vida": se as chances são iguais, o homem apenas trocaria uma vida transitória por uma salvação eterna, nada perdendo se essa vida não existisse.

TEXTO

PENSAMENTOS

“339. Posso conceber um homem sem mãos, pés, cabeça (pois só a experiência nos ensina que a cabeça é mais necessária do que os pés); mas não posso conceber o homem sem pensamento: seria uma pedra ou um animal.

340. A máquina aritmética produz efeitos que se aproximam mais do pensamento do que tudo o que fazem os animais;

mas não faz nada que possa levar-nos a dizer que tem vontade como os animais.

344. Instinto e razão, marca de duas naturezas.

345. A razão manda em nós muito mais imperativamente do que um amo, pois desobedecendo a um somos infelizes e,

à outra, somos tolos.

346. O pensamento faz a grandeza do homem.

347. O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o

universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre

ele; o universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. Daí é que é preciso nos elevarmos, e não do espaço e da duração, que não poderíamos preencher. Trabalhemos, pois, para bem pensar; eis o princípio da moral.

348. Caniço pensante - Não é no espaço que devo buscar minha dignidade, mas na ordenação de meu pensamento.

Não terei mais, possuindo terras; pelo espaço, o universo me abarca e traga como um ponto; pelo pensamento, eu o abarco.

349. Imaterialidade da alma - Os filósofos que dominaram suas paixões: que matéria pôde fazê-lo?

350. Estóicos - Concluem que podemos sempre o que podemos às vezes, e que, como o desejo da glória leva os que

domina a bem fazer alguma coisa, os outros o poderão igualmente. São movimentos febris que a saúde não pode imitar.

Epicteto conclui, do fato de haver cristãos constantes, que todos o podem ser.

357. Quando se quer levar a virtude até seus extremos, de um lado e de outro, surgem vícios que nela se insinuam

insensivelmente, em suas rotas insensíveis, do lado do pequeno infinito; e multidões de vícios se apresentam do lado do grande infinito, de modo que a gente se perde nos vícios e não vê mais a virtude. Cai-se na armadilha da própria perfeição.

358. O homem não é anjo nem animal; e, por infelicidade, quem quer ser anjo é animal.

359. Não nos sustentamos na virtude pela nossa própria força, mas pelo contrapeso de dois vícios opostos, como

ficamos de pé entre dois ventos contrários; tirai um desses vícios e cairemos no outro.

485. A verdadeira e única virtude consiste, pois, em odiar a si mesmo (porquanto somos odiosos pela concupiscência)

e em buscar um ser realmente amável para amá-lo. Mas, como não podemos amar o que está fora de nós, cumpre-nos amar

um ser que esteja em nós, e isso é certo para todos. Ora, somente o ser universal assim é. O reino de Deus está em nós: o bem universal está em nós, somos nós mesmos e não somos nós.

486. A dignidade do homem consistia, em sua inocência, em usar e dominar as criaturas, mas, hoje, consiste em

separar-se delas e a elas sujeitar-se.

487. É falsa toda religião que, em sua fé, não adore um Deus como princípio de todas as coisas e que, em sua moral,

não ame um só Deus como fim de todas as coisas.

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488. Mas é impossível que Deus seja o fim, se não é o princípio. Voltamos a vista para cima, mas apoiamo-nos na

areia; e a terra firme fundir-se-á e cairemos olhando o céu.

489. Se há um princípio de tudo, um só fim de tudo, tudo por ele, tudo para ele. É preciso, pois, que a verdadeira

religião nos ensine a adorar só a ele e a amar só a ele. Mas, como somos incapazes de adorar o que não conhecemos e de amar outra coisa além de nós, é necessário que a religião, que nos adverte dos deveres, também nos advirta das

incapacidades e que nos ensine os remédios. Ela nos mostra que por um homem tudo se perdeu, rompendo-se a ligação entre Deus e nós, e que por um homem essa ligação se refez. Nascemos tão hostis a esse amor a Deus, e esse amor é tão imprescindível, que devemos ter nascidos culpados, ou Deus seria injusto.

490. Não tendo os homens se habituado a formar o mérito, mas tão-somente a recompensá-lo onde já o encontraram

formado, julgam Deus por si mesmos.

491. A verdadeira religião deve ter por marca obrigar a amar a seu Deus. Isso é bem justo. No entanto, nenhuma outra

o ordenou; a nossa fê-lo. Ela deve ainda ter conhecido a concupiscência e a impotência; a nossa fê-lo. Deve indicar os

remédios para tanto, um dos quais é a prece. Nenhuma religião pediu a Deus que o amasse e o seguisse.

492. Quem não odeia em si o seu amor-próprio, e esse instinto que o leva a fazer-se Deus, é bem cego. Quem não vê

que nada é tão oposto à justiça e à verdade? Porque é falso que mereçamos isso; e é injusto e impossível chegar a isso, uma

vez que todos pedem a mesma coisa. É, pois, em uma manifesta injustiça que nascemos, da qual não podemos desfazer-nos

e da qual devemos desfazer-nos. No entanto, nenhuma religião notou que isso fosse um pecado, nem que nele tenhamos nascido, nem que fôssemos obrigados a resistir-lhe; nem pensou em dar-nos os remédios contra ele.

493. A verdadeira religião ensina nossos deveres, nossas impotências (orgulho e concupiscência); e os remédios

(humildade, mortificação).

494. Fora preciso que a verdadeira religião ensinasse a grandeza, a miséria, impelisse à estima e ao desprezo de si

mesmo, ao amor e ao ódio.” (In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense,

1987. p. 104-105, 274-275.)

ESPINOZA, BARUCH (1632-1677)

De família judia portuguesa, o filósofo Baruch Espinosa nasceu em Amsterdã, Holanda. Estuda o hebreu, o Talmude e a Bíblia. Aprende espanhol, português, holandês e francês. Logo rompe com a ortodoxia judaica, mas sem se aproximar do Cristianismo. Acusado de judeu e de ateu, de ímpio e de fatalista, tenta explicar seu ponto de vista sobre a religião. Em seu Tratado teológico (1670), coloca o problema das relações entre religião e Estado. Reconhece ao Estado, poder soberano, o direito e o dever de fazer reinar a paz interior na comunidade, bem como de organizar as ações exteriores. A ética demonstrada segundo o método geométrico (1677) é sua obra principal. Uma demonstração rigorosa, ordenada numa impecável série de teoremas, revela seu aspecto polêmico: trata-se de uma máquina de guerra contra a filosofia dominante, notadamente contra a teoria do sujeito voluntário, pela qual o homem pretende converter-se em mestre e possuidor da natureza. A essa vontade livre, Espinosa opõe uma única necessidade, vida interna de todo o universo: todas as coisas (inclusive os homens) são modos da substância única que é Deus. A inteligência pode chegar ao saber absoluto; a essência de Deus e das coisas é totalmente inteligível; Deus é a natureza concebida como totalidade; dessa totalidade, o entendimento humano só pode conceber dois atributos: o pensamento e a extensão; mas as coisas singulares existem realmente; todo conhecimento verdadeiro se realiza por uma dedução de tipo geométrico; a idéia não consiste na imagem nem nas palavras, mas no exercício do intelecto que coincide com seu objeto; o homem não é um império num império, mas está submetido às leis comuns da natureza. Precisamos analisar as diferentes instituições em seu funcionamento: que poder as produz? Quais são seus efeitos? Eis o objetivo da obra inacabada Tratado político (1677). A alegria, a tristeza e o desejo são três afeições primitivas das quais nascem todas as outras. O bem, o mal, o belo e o feio não constituem propriedades das coisas, mas modos de imaginar. Como a superstição constitui a grande ameaça do homem, a tarefa do filósofo é eminentemente política:

denunciar os sistemas políticos que só se impõem aos homens inspirando-lhes paixões tristes. É na cidade que o homem realiza sua liberdade: "O sábio é mais livre na cidade onde ele obedece à lei comum que na solidão onde só obedece às suas

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paixões", "Não devemos confundir o sentido de um discurso com a verdade das coisas". Se o "Deus sive Natura" de Espinosa não é um Deus criador, pessoal e juiz, nem por isso pode ser dissolvido no mundo (panteísmo). TEXTOS

I

Ética - Primeira Parte - De Deus - Definições

“I - Entendo por causa de si mesmo aquilo cuja essência inclui a existência; dito de outra maneira: aquilo cuja natureza não se pode conceber a não ser como existente.

II - Chama-se finita no seu gênero a coisa que pode ser limitada por outra da mesma natureza. Por exemplo, chama-se

um corpo de finito, quando pode ser concebido um outro maior. De maneira semelhante uma idéia é limitada por outra idéia. Entretanto, um corpo não é limitado por uma idéia, nem uma idéia limitada por um corpo.

III - Entendo por substância aquilo que é em si e concebe-se por si; i.é, aquilo cujo conceito não precisa de um outro

conceito para formar-se.

IV - Entendo por atributo aquilo que o entendimento percebe numa substância, como constituindo sua essência.

V - Entendo por modo tudo aquilo que afeta a uma substância; ou de outra maneira: tudo o que existe em outra coisa e

por cujo intermédio é também concebida.

VI - Entendo por Deus um ser absolutamente infinito, i.é, uma substância constituída por uma infinidade de atributos dos

quais cada um exprime uma essência eterna e infinita.

VII - Chamar-se-á livre aquela coisa que existe por exclusiva necessidade da sua natureza e é determinada a agir por si só; necessária será, ou até forçada, aquela coisa que é determinada por outra para existir e para produzir qualquer efeito numa condição certa e determinada. VIII - Entendo por eternidade a existência mesma, enquanto se concebe como conseqüência necessária pelo fato de definir uma coisa eterna.” (Ética)

PROPOSIÇÃO XIV "Nenhuma substância pode existir ou ser concebida fora de Deus". DEMONSTRAÇÃO “Deus é um ser absolutamente infinito, do qual não se pode negar qualquer atributo, que exprima uma essência de substância (‘Definição 6’), e existe necessariamente (‘Proposição 11’); por isso, se existisse alguma substância fora de Deus, deveria ser explicada por algum dos atributos de Deus, e então existiriam duas substâncias com o mesmo atributo, o que (‘Proposição 5’) é absurdo; por conseguinte, não pode existir fora de Deus qualquer substância, nem sequer pode ser pensada. Pois que se pudesse ser pensada o deveria ser necessariamente como existente; e isso (segundo a primeira parte desta Demonstração) é absurdo. Logo, fora de Deus não pode ser pensada, nem existir qualquer substância.” COROLÁRIO I “Deduz-se, bem claramente, disso: primeiro que Deus é único, isto é (‘Definição 6’), que há na natureza uma única substância e a mesma é absolutamente infinita, conforme dissemos já no ‘Escólio da Proposição 10’”. COROLÁRIO II “Deduz-se: segundo que a coisa pensante e a coisa extensa são, ou atributos de Deus, ou (‘Axioma 1”) algo que aos mesmos atributos de Deus afeta.” (Ibidem)

ÉTICA - SEGUNDA PARTE DA NATUREZA E DA ORIGEM DA ALMA “Vou explicar agora as coisas que devem ter decorrido necessariamente da essência de Deus, ou do Ser eterno e infinito. Não tratarei, entretanto, de todas, pois que temos demonstrado (Proposição 16 da Primeira Parte) que deviam seguir- se desta essência uma infinidade de coisas numa infinidade de modos; explicarei somente aquilo que nos possa conduzir, como que pela mão, ao conhecimento da alma humana e da sua felicidade suprema.” DEFINIÇÕES

“I - Entendo por corpo um modo que exprime a essência de Deus, enquanto considera-se como coisa extensa de uma certa e determinada maneira: veja-se o Corolário da Proposição 25, da Primeira Parte.

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II - Digo que algo pertence à essência de uma coisa quando é suficiente que exista para que a coisa também exista necessariamente, e é suficiente que seja destruído para que a coisa também o seja necessariamente; ou também, aquilo sem

o que a coisa não pode existir nem ser pensada, e que vice-versa não pode existir sem a coisa, nem ser pensado sem ela. III - Entendo por idéia um conceito de Alma, que a Alma forma por ser uma coisa pensante.” EXPLICAÇÃO “Prefiro dizer conceito do que percepção, pois a palavra percepção parece indicar que a Alma é passiva com relação a um objeto, e o conceito, pelo contrário, parece exprimir uma ação da alma.

IV - Entendo por idéia adequada uma idéia que, considerada em si mesma sem relação ao objeto, tem todas as

propriedades ou denominações intrínsecas de uma idéia verdadeira.

Proposição I - "O pensamento é um atributo de Deus, ou seja: Deus é uma coisa pensante."

Proposição II - "A extensão é um atributo de Deus, ou seja: Deus é uma coisa extensa." (Ibidem) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. 142-145.)

II

POR QUE EMPREENDER A INTERPRETAÇÃO HISTÓRICO-CRÍTICA DAS SAGRADAS ESCRITURAS

“A que ponto o medo ensandece os homens! O medo é a causa que origina, conserva e alimenta a superstição. Se,

depois do que já dissemos, alguém quiser ainda exemplos, veja-se Alexandre, que só se tornou supersticioso e recorreu aos

assim que venceu Dario, desistiu

logo de consultar adivinhos e arúspices. Até o momento em que, uma vez mais aterrado pela adversidade, abandonado pelos

na superstição, esse logro das mentes humanas,

e mandou Aristrandro, em que depositava uma confiança cega, explorar por meio de sacrifícios a evolução futura dos acontecimentos. Poderíamos acrescentar muitos outros exemplos que provam com toda a clareza o mesmo: os homens só se deixam dominar pela superstição enquanto têm medo; todas essas coisas que já alguma vez foram objeto de um fútil culto

religioso não são mais do que fantasmas e delírios de um carácter amedrontado e triste; finalmente, é quando os Estados se encontram em maiores dificuldades que os adivinhos detêm o maior poder sobre a plebe e são mais temidos pelos seus reis. Mas como tudo isto, ao que presumo, é suficientemente conhecido de todos, não insistirei mais no assunto.

Se esta é a causa da superstição, há que concluir, primeiro, que todos os homens lhes são naturalmente sujeitos (digam

o que disserem os que julgam que ela deriva do facto de os mortais terem todos uma qualquer idéia, mais ou menos confusos,

da divindade); em segundo lugar, que ela deve ser extremamente variável e inconstante, como todas as ilusões da mente e os

acessos de furor; e, por último, que só a esperança, o ódio, a cólera e a fraude podem fazer com que subsista, pois não provém da razão, mas unicamente da paixão, e da paixão mais eficiente. Daí que seja tão fácil os homens acabarem vítimas de superstições de toda a espécie quanto é difícil conseguir que eles persistam numa só e na mesma superstição.

Precisamente porque o vulgo persiste na sua miséria é que nunca está por muito tempo tranqüilo e só lhe agrada o que é novidade e o que ainda não o enganou, inconstância esta que tem sido a causa de inumeráveis tumultos e guerras atrozes. Na

verdade (

levadas, sob a capa da religião, ora a adorar os reis como se fossem deuses, ora a execrá-los e a detestá-los como se fossem

uma peste para todo o género humano. Foi, de resto, para prevenir este perigo que houve sempre o cuidado de rodear a religião, fosse ela verdadeira ou falsa, de culto e aparato, de modo a que se revestisse da maior gravidade e fosse escrupulosamente observada por todos. ( ) Reflectindo sobre tudo isto - a saber, que a luz natural é não só desprezada, mas até condenada por muitos como fonte de impiedade; que as invenções humanas passam por documentos divinos e a crendice por fé; que as controvérsias dos filósofos desencadeiam na Igreja e no Estado as mais vivas paixões, originando os ódios e discórdias mais violentos, que facilmente arrastam os homens para sublevações e tantas outras coisas que seria longo descrever aqui - fiquei seriamente decidido a empreender um novo e inteiramente livre exame da Escrituro, recusando-se a afirmar ou a admitir como sua doutrina tudo o que dela não ressalte como toda a clareza. Com esta preocupação, elaborei um método para interpretar os Livros Sagrados e, uma vez na posse dele, comecei por perguntar, antes de mais, o que é a Profecia, como se revelou aos profetas, porque foram estes escolhidos por ele, i.é, se foi por terem pensamentos sublimes acerca da natureza e de Deus ou

nada há mais eficaz do que a superstição para governar as multidões. Por isso é que estas são facilmente

Bactrianos, atacado pelos Citas e imobilizado devido a uma ferida, recaiu (

adivinhos quando, às portas de Susa, começou pela primeira vez a temer pela sua sorte (

);

)

),

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em virtude apenas da sua piedade. Resolvidas estas questões, facilmente pude concluir que a autoridade dos profetas só tem algum peso no que diz respeito à vida prática e à verdadeira virtude. Quanto ao resto, pouco nos interessam as suas opiniões.” (SPINOZA. Tratado teológico- político. Trad. Diogo Pires Aurélio).

III

POR QUE LEIS SOBRE A OPINIÃO SÃO INÚTEISE PERIGOSAS PARA A VIDA POLÍTICA

“Se, finalmente, considerarmos que a fidelidade de cada um ao Estado, assim como a fidelidade a Deus, só se pode reconhecer pelas obras, ou seja, pela caridade para com o próximo, não oferece a menor dúvida que um Estado, para ser bom, deve conceder aos indivíduos a mesma liberdade de filosofar que a fé, tal com vimos, lhes concede. Claro que reconheço que uma tal liberdade traz por vezes certos inconvenientes; mas será que já houve alguma coisa instituída com tanta sabedoria que daí não pudesse surgir depois inconveniente? Quem tudo quer fixar na lei acaba por assanhar os vícios em vez de os corrigir. Aquilo que não se pode proibir tem necessariamente que se permitir, não obstante os danos que muitas vezes daí advêm. Quantos males não derivam da luxúria, da inveja, da avidez, do alcoolismo e doutras coisas parecidas? E, no entanto, elas são toleradas porque não está no poder das leis evitá-las, apesar de realmente se tratar de vícios. Donde, por maioria de razão, deve ser permitida a liberdade de pensamento, que é sem dúvida uma virtude e não pode coarctar-se. Além de que esta não provoca nenhum inconveniente que não possa, com a seguir vou demonstrar, ser evitado pela autoridade dos magistrados. Isto, para já não falar de quanto ela é absolutamente necessária para o avanço das ciências e das artes, as quais só podem ser cultivadas com êxito por aqueles cujo pensamento for livre e inteiramente descomprometido. Mas suponhamos que esta liberdade pode ser reprimida e os homens dominados ao ponto de não se atreverem a murmurar uma palavra que contrarie o prescrito pelos poderes soberanos; mesmo assim, nunca estes hão-de conseguir que não se pense senão o que eles querem: o que iria necessariamente acontecer era os homens pensarem uma coisa e dizerem outra, corrompendo-se, por conseguinte, a fidelidade imprescindível num Estado e fomentando-se a abominável adulação, a perfídia e, daí, os ardis e a completa deterioração dos bons costumes. Longe, porém, de uma coisas dessas poder acontecer, ou seja, de todos se limitarem a dizer o que está prescrito, quanto mais se procura retirar aos homens a liberdade de expressão mais obstinadamente eles resistem. Não, como é óbvio, os avaros, os bajuladores e outros de ânimo impotente, para quem a suprema felicidade consiste em contemplar as moedas no cofre e ter a barriga cheia, mas aqueles a quem uma boa educação, a integridade de costumes e a virtude tornaram ainda mais livres. Os homens, na sua maior parte, são constituídos de tal maneira que não há nada que eles menos suportem do que verem as opiniões que julgam verdadeiras rotuladas de crime e aquilo que os estimula à piedade para com Deus e para com os homens considerado como delito. Por isso acontece, às vezes, detestarem as leis, atreverem-se a recorrer à força contra os magistrados e julgarem que é a coisa mais honesta e não uma vergonha fomentar com tal pretexto sublevações e cometer toda a espécie de crimes. Sendo, portanto, evidente que a natureza é assim constituída, segue-se que as leis em matéria de opinião contemplam não os criminosos, mas os homens livres, e são feitas não tanto para reprimir os maus, como para provocar as pessoas de bem, além de que não podem manter-se sem grave risco para o Estado. A isto acresce que leis destas são de todo inúteis: com efeito, quem acredita que são correctas as opiniões que as leis condenam não pode obedecer a essas mesmas leis; quem, pelo contrário, as rejeita como falsas considera um privilégio as leis que as condenam e sentir-se-á por isso de uma filosofia tal maneira triunfante que o magistrado, mesmo que queira, já não consegue depois revogá-las.” (Ibidem)

IV

A LIBERDADE DE PENSAMENTO E DE EXPRESSÃO É ESSENCIAL PARA A SEGURANÇA E A PAZ POLÍTICAS

“ leis que determinam aquilo que cada um deve acreditar e proibem que se diga ou escreva qualquer coisa contra esta

ou aquela opinião foram freqüentemente instituídas a título de concessão ou até de cedência à ira dos que não podem suportar as naturezas livres, mas que por uma não sei que terrível autoridade, podem facilmente transformar em raiva a devoção da

plebe amotinada e instigá-la contra quem eles quiserem. Quanto mais não valeria conter a ira e o furor do vulgo, em vez de promulgar leis inúteis que só podem ser violadas por aqueles que prezam as virtudes e as artes, leis que reduzem o Estado a uma situação tal que é incapaz de defender os homens livres! Que coisa pior pode imaginar-se para um Estado que serem mandados para o exílio como indesejáveis homens honestos, só porque pensam de maneira diferente e não sabem dissimular- se? Haverá algo mais pernicioso, repito, do que considerar inimigos e condenar à morte homens que não praticaram outro crime ou acção criticável senão o pensarem livremente, e fazer assim do cadafalso, que é o terror dos delinqüentes, um palco belíssimo em que se exibe, para vergonha do soberano, o mais sublime exemplo de tolerância e de virtude? Porque os que

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sabem que são honestos não têm, como criminosos, medo de morrer nem imploram clemência; na medida em que não os angustia o remorso de qualquer feito vergonhoso - pelo contrário, o que fizeram era honesto -, recusam-se a considerar castigo

o morrer por uma causa justa e têm por uma glória o dar a vida pela liberdade. Que exemplo poderá então ter ficado da morte

de pessoas assim, cujo ideal é incompreendido pelos fracos e moralmente impotentes, odiado pelos revoltosos e amado pelos homens de bem? Ninguém, certamente, aí colhe exemplo algum, a não ser para os imitar ou, pelo menos, admirar. Se se quiser, pois, que se aprecie a fidelidade e não a bajulação, se se quiser que as autoridades soberanas mantenham intacto o poder e não sejam obrigadas a fazer cedências aos revoltosos, terá obrigatoriamente de se conceder a liberdade de opinião e governar os homens de modo a que, professando embora publicamente opiniões diversas e até contrárias, vivam apesar disso em concórdia. E não há dúvida que esta maneira de governar é a melhor e a que traz menos inconvenientes, porquanto é a que mais se ajusta à natureza humana. Com efeito, num Estado democrático (que é o que mais se aproxima do estado de natureza), todos, como dissemos, se comprometeram pelo pacto a sujeitar ao que for commumente decidido os seus actos, mas não os seus juízos e raciocínios; quer dizer como é impossível os homens pensarem todos do mesmo modo, acordaram que teria força de lei a opinião que obtivesse o maior número de votos, reservando-se, entretanto, a autoridade de a revogar quando reconhecessem que havia outra melhor. Sendo assim, quanto menos liberdade de opinião se concede aos homens, mais nos afastamos [de nosso estado natural e da mais forma mais natural de governo [a democracia], e, por conseguinte, mais violento é o poder].” (Ibidem).

V

O MORALISMO TORNA OS FILÓSOFOS INEPTOS EM POLÍTICA “Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda a espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efectivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem. Daí, por conseqüência, que quase todos, em vez de um Ética, hajam escrito uma Sátira, e não tinham sobre Política vistas que possam ser postas em prática, devendo a Política, tal como a concebem, ser tomada por Quimera, ou como respeitando ao domínio da Utopia ou da idade do ouro, i.é, a um tempo em que nenhuma instituição era necessária. Portanto, entre todas as ciências que têm aplicação, é a Política o campo em que a teoria passa por diferir mais da prática, e não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos.” (Ibidem). (In:CHAUI, Marilena. Espinosa: uma filosofia da liberdade. São Paulo: Moderna, 1995. p. 98 -103.)

LöCKE, JOHN (1632-1704)

John Locke nasceu perto de Bristol, Inglaterra. Estudou medicina e foi secretário político de vários homens de Estado. Fez várias viagens ao exterior. Até aos 38 anos, não manifestou nenhuma vocação filosófica. Foi somente em 1670/71 que seu pensamento tomou um novo rumo: surgiu-lhe a idéia de sua grande obra: An Essay concerning Human Understanding (Ensaio sobre o entendimento humano, 1690). No mesmo ano, escreveu An Essay concerning Toleration (Ensaio sobre a tolerância). Em 1693, publicou The Reasonableness of Christianity (A razoabilidade do Cristianismo). Sua obra é uma reação contra Descartes e sua doutrina das idéia inatas. Ao descrever a formação de nossas idéias, Locke mostra que todas elas têm por fonte a experiência. Ele defende o empirismo contra o racionalismo cartesiano. O essencial de sua doutrina é sua teoria do conhecimento: a) todo conhecimento humano tem sua origem na sensação: "nada há na inteligência que, antes, não tenha estado nos sentidos"; não há idéias inatas por abstração; b) se o entendimento humano é passivo na origem, pois é tributário dos sentidos, tem um papel ativo, pois pode combinar as idéias simples e formar idéias complexas. Assim, seu empirismo leva-

o a conferir à probabilidade um papel essencial no conhecimento. Quanto ao que pensa da política, parte da seguinte idéia: "os homens são todos, por natureza, livres, iguais e independentes, e ninguém pode ser despossuído de seus bens nem submetido ao poder político sem seu consentimento". A conseqüência de seu empirismo se revela na concepção do Estado social e do poder político: em primeiro lugar, refuta o direito divino e o absolutismo, pois trata-se de renunciar a essas especulações para se voltar às coisas mesmas; em seguida, declara que o poder só é legítimo quando é a emanação da vontade popular, pois a soberania pertence ao povo que a delega a uma assembléia ou a um monarca; finalmente, antecipa Marx declarando que o fundamento da propriedade é o trabalho.

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TEXTOS AS IDÉIAS EM GERAL E SUA ORIGEM “1) Idéia é o objeto do pensamento. Todo homem tem consciência de que pensa, e que quando está pensando sua mente se ocupa de idéias. Por conseguinte, é indubitável que as mentes humanas têm várias idéias, expressas, entre outras, pelos termos brancura, dureza, doçura, pensamento, movimento, homem, elefante, exército, embriaguez. Disso decorre a primeira questão a ser investigada: como elas são apreendidas? Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem idéias inatas e caracteres originais estampados sobre sua mente. Já examinei, em linhas gerais, essa opinião, e suponho que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas idéias, e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente; com este fim solicitarei a cada um recorrer à sua própria observação e experiência. 2) Todas as idéias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer idéias; como ela será suprida? De onde lhe provém este vasto estoque, que a ativa e que a ilimitada fantasia do homem pintou nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos entendimentos com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de conhecimento jorram todas as nossas idéias, ou a que possivelmente teremos. 3) O objeto da sensação é uma fonte das idéias. Primeiro, nossos sentidos, familiarizados com os objetos sensíveis particulares, levam para a mente várias e distintas percepções das coisas, segundo os vários meios pelos quais aqueles objetos os impressionaram. Recebemos, assim, as idéias de amarelo, branco, quente, frio, mole, duro, amargo, doce e todas as idéias que denominamos de qualidades sensíveis. Quando digo que os sentidos levam para a mente, entendo com isso que eles retiram dos objetos externos para a mente o que lhes produziu estas percepções. A esta grande fonte da maioria de nossas idéias, bastante dependente de nossos sentidos, dos quais se encaminham para o entendimento, denomino sensação. 4) As operações de nossas mentes consistem na outra fonte de idéias. Segundo, a outra fonte pela qual a experiência supre o entendimento com idéias é a percepção das operações de nossa própria mente, que se ocupa das idéias que já lhe pertencem. Tais operações, quando a alma começa a refletir e a considerar, suprem o entendimento com outra série de idéias que não poderia ser obtida das coisas externas, tais como a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o raciocinar, o conhecer, o querer e todos os diferentes atos de nossas próprias mentes. Tendo disso consciência, observando esses atos em nós mesmos, nós os incorporamos em nossos entendimentos como idéias distintas, do mesmo modo que fazemos com os corpos que impressionam nossos sentidos. Toda gente tem esta fonte de idéias completamente em si mesma; e, embora não a tenha sentido como relacionada com os objetos externos, provavelmente ela está e deve propriamente se chamada de sentido interno. Mas, como denomino a outra de sensação, denomino esta de reflexão: idéias que se dão ao luxo de serem tais apenas quando a mente reflete observando suas próprias operações. Na parte seguinte deste discurso, quero que se entenda que a reflexão significa a mente observando suas próprias operações, como elas se formam, e como elas se tornam as idéias dessas operações no entendimento. Afirmo que estas duas, a saber, as coisas materiais externas, como objeto da sensação, e as operações de nossas próprias mentes, como objeto da reflexão, são, a meu ver, os únicos dados originais dos quais as idéias derivam. O termo operações é usado aqui em sentido lato, compreendendo não apenas as ações da mente sobre suas idéias, mas também certos tipos de paixões que às vezes nascem delas, tais como a satisfação ou inquietude que nascem de qualquer pensamento. 5) Todas as nossas idéias derivam de um ou de outra fonte. Parece-me que o entendimento não tem o menor vislumbre de quaisquer idéias se não as receber de uma das duas fontes. Os objetos externos suprem a mente com as idéias das qualidades sensíveis, que são todas as diferentes percepções produzidas em nós, e a mente supre o entendimento com idéias através de suas próprias operações. Quando efetuarmos uma investigação completa de ambos, de suas vários modos, combinações e relações, descobriremos que eles contêm todo o nosso estoque de idéias, e que não temos nada em nossas mentes a não ser o

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derivado de um desses dois meios. Se alguém examinar seus próprios pensamentos, dir-me-á, então, se todas as idéias originais que lá estão são algo mais do que os objetos de seus sentidos, ou das operações de sua mente encarada como objeto de sua reflexão; e, por mais ampla que seja a massa de conhecimentos lá localizada, por mais que ele imagine, verá, assumindo um ponto de vista estrito, que não tem idéia alguma em sua mente, a não ser o que foi por uma dessas duas impresso, embora talvez compostas em infinita variedade e ampliadas pelo entendimento, como veremos adiante. (LOCKE, John. Ensaio sobre o entendimento humano). (In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 95-97.)

MALEBRANCHE, NICOLAS (1638-1715)

O filósofo e teólogo francês Nicolas de Malebranche, sacerdote oratoriano, descobre a filosofia lendo as obras de

Descartes. O êxito de sua filosofia é devido às polêmicas teológicas que empreendeu. Sua filosofia pode ser definida como uma cristianização do cartesianismo: tenta fazer uma síntese entre Sto. Agostinho e Descartes. Sua principal obra é A pesquisa da verdade (1674-75). Em seguida, publica as Meditações cristãs (1683). Tratado de Moral (1684), Conversações metafísicas (1688), etc. Ele participa de todas as querelas religiosas de seu tempo. Morre no mesmo ano que Luís XIV. Sua síntese se baseia em três pontos principais: a) a teoria das causas ocasionais; b) a teoria da visão em Deus; c) a noção de ordem, de onde decorre a moral. Essencialmente, sua filosofia consiste em dizer que nada há que, considerado como se deve, não nos conduza a Deus. Trata-se de uma filosofia fundamentalmente religiosa: nela, a vida segundo a razão não é outra coisa senão uma parte da vida religiosa. A teoria das causas ocasionais nos mostra que a única ação eficaz é a de Deus; a teoria da visão em Deus nos mostra que somente Ele é nossa luz: todas as coisas, tornadas transparentes à razão, nos levam a perceber que somente em Deus tudo vive e tudo se move.

TEXTOS NATUREZA DA IDÉIAS “Acredito que todo o mundo esteja de acordo que nós não percebemos absolutamente os objetos que estão fora de nós

por si mesmos. Vemos o sol, as estrelas e uma infinidade de objetos fora de nós, mas é inverossímil que a alma saia do corpo e, voando por assim dizer, passeia pelo céu para contemplar todos esses objetos. Ela não os vê, pois, absolutamente por si mesmos; e o objeto imediato do nosso espírito, quando por exemplo é o Sol, não é o Sol, mas qualquer coisa que está intimamente unida a nossa alma, e a isto é que chamo "idéia". Assim, por esta palavra, idéia, não entendo outra coisa a não ser aquilo que é o objeto imediato, ou o mais próximo, do espírito quando este percebe qualquer objeto.

É preciso notar que no momento em que o espírito percebe qualquer objeto, é absolutamente necessário que a idéia

deste objeto esteja presente naquele momento ao mesmo espírito. Disto não é possível duvidar. Não é necessário porém que ele tenha à sua frente qualquer coisa de semelhante à respectiva idéia, pois freqüentemente o espírito apercebe-se de coisas que não existem mais, e mesmo que jamais existiram. Desta forma há no espírito freqüentemente idéias reais de coisas que jamais existiram. Quando um homem, por exemplo, imagina uma montanha de ouro, é absolutamente necessário que a idéia desta montanha esteja realmente presente ao seu espírito.” (A Procura da Verdade, L. III, Segunda Parte, Cap. I.) A ALMA NÃO TEM CAPACIDADE PARA PRODUZIR IDÉIAS

“A segunda opinião é a daqueles que acreditam que nossas almas têm a capacidade de produzir as idéias das coisas

nas quais eles querem pensar, e que são excitadas a produzi-las por causa da impressão que os objetos provocam no corpo, mesmo que estas impressões não sejam imagens parecidas aos objetos que as causaram. Pretendem que isto acontece porque o homem foi feito à imagem de Deus e participe do seu poder; que da mesma maneira que Deus criou todas as coisas do nada e as pode aniquilar e criar outras totalmente novas, assim o homem pode criar e aniquilar as idéias de todas as coisas conforme lhe agradar. É preciso ter coragem para desconfiar de todas as opiniões que enaltecem o homem; comumente tais pensamentos nascem da vaidade e do orgulho, e o Pai das luzes certamente não lhos deu. Essa participação no poder de Deus que os homens pretendem ter para representar-se os objetos e para fazer muitas outras ações particulares, é uma participação que parece ter qualquer coisa de independência, como se diz comumente; mas é também uma participação quimérica, que a ignorância dos homens lhes faz imaginar. Eles dependem muito mais do que pensam da bondade e da misericórdia de Deus; não é porém aqui o lugar para explicar isto. Cuidemos somente de fazer ver que os homens não têm o poder de formar idéias das coisas que percebem.” (Ibidem, Cap. III.) NÓS VEMOS TODAS AS COISAS EM DEUS

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“Para entender bem isto é preciso lembrar aquilo que dissemos no capítulo anterior, que é absolutamente necessário que Deus tenha em si mesmo as idéias de todos os seres que criou, já que de outra forma não os poderia ter produzido, e desta maneira, também vê todos os seres considerando as perfeições que nEle se encontram e às quais dizem respeito. É preciso ainda saber que Deus está tão estritamente unido às nossas almas pela sua presença, ao ponto que se pode dizer que Ele é o lugar dos espíritos, da mesma forma que os espaços são, em certo sentido, o lugar dos corpos. Isto suposto, é certo que o espírito pode ver o que está em Deus e o que representa os seres criados, pois lá é mais espiritual, mais inteligível e mais presente ao espírito. Não somente isto é mais conforme à razão mas ainda, por um princípio de economia da natureza, Deus não fará nunca por caminhos mais difíceis aquilo que se pode fazer por caminhos mais simples e fáceis; pois Deus não faz nada inutilmente e sem razão. E já que Deus pode fazer ver aos espíritos todas as coisas pelo simples fato de querer que vejam aquilo que está no meio deles mesmos, i.é, aquilo que está nele mesmo e que diz respeito às coisas e que as representa, não há motivo para que o faça de outra maneira, obrigando-se a produzir infinidade de idéias quanto sãos os infinitos espíritos criados.” (Ibidem, Cap. VI) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo:

Cultrix, 1995. p. 151-153.)

LEIBNIZ, GOTTFRIED WILHELM (1646-1716)

O filósofo e matemático alemão (nascido em Leipzig) Gottfried Wilhelm Leibniz, além de filosofia e matemática, interessava-se também por direito, pelas questões religiosas e sobretudo por política. Sonhou com a fundação de uma confederação dos Estados europeus. Descobre, em 1676, ao mesmo tempo que Newton, o cálculo infinitesimal. Trabalhou para a reunião das Igrejas católica e protestante. Suas obras mais importantes: Ensaio filosófico sobre o entendimento (1690), Novos ensaios sobre o entendimento humano (17040, A Teodicéia (1710) e A monadologia (1714). Sua filosofia é influenciada pelo mecanicismo cartesiano e pelas causas finais de Aristóteles. Acreditando na onipotência da razão, ele reintegra no universo a força, o dinamismo e o ponto de vista do individual concreto. Ao grande problema do acesso ao saber, ele responde dizendo que não há um caminho único. Seu sistema é formado de uma pluralidade de cadeias de razões, todas representando uma possibilidade de entrada no sistema. Assim, na Monadologia, começamos pela "mônada", na Teodicéia, por Deus. Para ele, a demonstração matemática permite determinar o possível, mas é importante para provar o real, que nos é revelado pela experiência. Torna-se imprescindível um princípio superior: o da "razão suficiente". As mônadas são os elementos das coisas, os átomos da natureza. O universo é o conjunto das mônadas, diferentes umas das outras e se hierarquizando segundo seu maior ou menor grau de perfeição, numa série crescente cujo cume é Deus. Cada uma das mônadas constitui um espelho representativo de todo o universo. Mas essa representação jamais é inteiramente perceptível, a não ser por Deus. As mônadas são fechadas "sem portas nem janelas", mas podem coexistir segundo uma "harmonia preestabelecida": a série dos estados do universo teria sido regulada de modo ótimo, desde a origem, no ato criador da divindade; cada mônada é um universo do qual está parcialmente consciente, todas sendo como que pontos de vista sobre a mesma paisagem. A combinação das idéias dando origem ao universo é uma combinação entre uma infinidade de possíveis. Mas o possível não é o real. Posto que o mundo existe, é necessário, conforme o princípio de razão suficiente, uma razão suplementar: ele é o melhor dos mundos possíveis.

TEXTO “29. Mas o conhecimento das verdades necessárias e eternas, elevando-nos ao conhecimento de nós próprios e de Deus, é o que nos distingue dos simples animais e nos permite alcançar a Razão e as ciências. É isso o que em nós se denomina Alma racional, ou Espírito. 30. É ainda pelo conhecimento das verdades necessárias e pelas suas abstrações que nos elevamos aos atos de reflexão, que nos fazem pensar no que chama o Eu (moi) e considerar que isto ou aquilo está em nós. E assim é que, pensando em nós, pensamos no Ser, na Substância, no simples e no composto, no imaterial e até mesmo em Deus, concebendo como sem limites nele aquilo que em nós é limitado. Estes atos de reflexão dão-nos os objetos principais dos nossos raciocínios. 31. Os nossos raciocínios fundam-se sobre dois grandes princípios: o da contradição, pelo qual consideramos falso o que ele implica, e verdadeiro o que é oposto ao falso ou lhe é contraditório.

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32. E o da Razão Suficiente, pelo qual entendemos não poder algum fato ser tomado como verdadeiro ou existente,

nem algum enunciado ser considerado verídico, sem que haja uma razão suficiente para ser assim e não de outro modo,

embora freqüentemente tais razões não possam ser conhecidas por nós.

33. Também há duas espécies de verdades: as de Razão e as de Fato. As verdades de Razão são necessárias, e o seu

oposto, impossível; as de Fato, contingentes, e o seu oposto, possível. Quando uma verdade é necessária pode encontrar-se-

lhe a razão por meio da Análise, decompondo-a em idéias e verdades mais simples, até alcançar as primitivas.

34. Assim, entre os matemáticos, os Teoremas de especulação e os Cânones de prática reduzem-se pela análise a

Definições, Axiomas e Postulados.

35. Finalmente há idéias simples, impossíveis de definir; outrossim, Axiomas e Postulados, ou em resumo: princípios

primitivos, insuscetíveis de prova, e aliás, sem necessidade alguma dela. São os Enunciados idênticos, cujos opostos implicam contradição expressa. 36.Mas a razão suficiente deve encontrar-se também nas verdades contingentes ou de fato, i.é, na seqüência das coisas espalhadas pelo universo das criaturas, em que a decomposição em razões particulares poderia atingir uma particularização ilimitada, devido à imensa variedade das coisas da Natureza e à divisão dos corpos até ao infinito. Há uma infinidade de figuras e movimentos presentes e passados entrando na causa eficiente deste meu ato presente de escrever, e uma infinidade de pequenas inclinações e disposições da minha alma presentes e passadas que entram na sua causa final.” (LEIBINIZ. A Monadologia). (In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense,

1987. p. 97-98.)

VOLTAIRE (AROUET, FRANCOIS MARIE) (1694-1778)

O escritor, poeta e filósofo francês (nascido em Paris) Voltaire, cujo nome real era Francois Marie Arouet, é conhecido sobretudo por ter sido o grande promotor da cosmologia newtoniana na França e por ter destruído a crença no poder da encantação sobre o mundo natural. Partidário da Aufklärung e do "despotismo esclarecido", combate as "trevas" da ignorância

e da superstição. Reconhece explicitamente a único agente capaz de libertar o homem da mais cruel das superstições: "Nunca

houve império mais universal do que o do Diabo", declara. "E quem foi que o destronou?" Sua resposta se limita a uma palavra: "a razão". Seus escritos filosóficos e políticos mais importantes são: O ensaio sobre os costumes (1756), no qual apresenta uma filosofia da história, valorizando a idéia de progresso da razão sobre as trevas; O século de Luís XIV (1756), no qual ilustra o movimento precedente, mostra a grandeza do século, exalta Luís XIV como o modelo do "déspota esclarecido" e ataca a religião; A filosofia da história, no qual elabora uma história do espírito humano contra as forças obscurantistas que se resumem na religião e faz uma apologia da razão contra a idiotice e a crença; O dicionário filosófico (1764), no qual, de modo

panfletário, continua sua luta contra "o infame" Cristianismo (nos verbetes "perseguição", "superstição", "milagre", etc.) e se mostra o defensor da liberdade e da monarquia constitucional (nos verbetes "liberdade", "Estado", "leis", etc.). O combate de Voltaire é o da razão e das luzes ("o evangelho da razão"), de modo irônico e causticante, contra todas as intolerâncias. TEXTO Da virtude e do vício “Para que uma sociedade subsista, é preciso que haja leis, como é preciso haver regras para cada jogo. A maioria dessas leis parecem arbitrárias, dependem dos interesses, das paixões, das opiniões dos que as inventaram e da natureza do clima onde os homens se reuniram em sociedade. Num país quente, onde o vinho torna o homem furioso, julgou-se adequado considerar um crime bebê-lo. Em outros climas mais frios é uma honra embebedar-se. Aqui, um homem deve contentar-se com uma mulher, acolá, é-lhe permitido ter tantas quantas puder alimentar. Num lugar, os pais e as mães suplicam aos estrangeiros que aceitem dormir com suas filhas, em todos os outros lugares uma moça que se entregar a um homem estará desonrada. Em Esparta encorajava-se o adultério; em Atenas, era punido com a morte. Entre os romanos, os pais tinham o direito de vida

e de morte sobre seus filhos. Na Normandia, um pai não pode tirar um óbolo sequer dos bens de um filho, mesmo do mais

desobediente. O nome do rei é sagrado em muitas nações e abominado em outras. Mas todos os povos que se conduzem tão diferentemente reúnem-se sob o mesmo ponto: denominam VIRTUOSO o que é conforme as leis estabelecidas e CRIMINOSO

o que lhes é contrário. Assim, um homem que na Holanda se opuser ao poder arbitrário será um homem muito virtuoso; e

aquele que na França quiser estabelecer um governo republicano será condenado aos piores suplícios. O mesmo judeu que, em Metz, seria enviado às galeras se tivesse duas mulheres, terá quatro em Constantinopla e será mais estimado pelos

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muçulmanos.

A maioria das leis contraria-se tão visivelmente que aquelas que governam um Estado importam muito pouco: o que

importa é que, uma vez estabelecidas, sejam executadas. Assim, não há maiores conseqüências em que as regras para os jogos de dados ou de cartas sejam estas ou aquelas, mas ninguém poderá julgar um só momento se não seguir rigorosamente as regras arbitrárias convencionadas. 1 A virtude e o vício, o bem e o mal moral são, portanto, em todos os países aquilo que é útil ou daninho à sociedade; e,

em todos os lugares e em todos os tempos, aquele que mais se sacrifica ao público será considerado o mais virtuoso. Parece, portanto, que as boas ações são apenas aquelas de que retiramos alguma vantagem, e os crimes, as ações

que nos são contrárias. A virtude é o hábito de fazer coisas que agradam aos homens, e o vício as que lhes desagradam. Embora o que chamamos virtude em um clima seja precisamente o que chamamos vício em outro, e a maior parte das regras do bem e do mal difiram como as línguas e o vestuário, entretanto, parece-me certo que há leis naturais que os homens são obrigados a respeitar em todo o universo, malgrado as demais leis que possuam. Na verdade, Deus não disse aos homens: ‘Eis as leis que de minha boca vos dou, para que vos governeis por elas’. Mas, fez no homem o que fez em muitos outros animais: deu às abelhas um instinto poderoso graças ao qual trabalham e alimentam-se juntas, e deu ao homem certos sentimentos dos quais jamais poderá desfazer-se, vínculos eternos e primeiras leis da sociedade, prevista por Ele como forma da convivência humana. A benevolência por nossa espécie, por exemplo, nasceu conosco e age sempre em nós, a menos que seja combatida pelo amor-próprio, que deve sempre vencê-la. Assim, um homem é sempre levado a auxiliar um outro quando nada lhe custa fazê-lo. O selvagem mais bárbaro, voltando da carnificina e saboreando o sangue do inimigo que comeu, se enternecerá vendo os sofrimentos de um seu companheiro, dando-lhe todos os socorros que dele dependerem.

O adultério e a pederastia serão permitidos a muitos em muitas nações, mas não encontrareis nenhuma onde seja

permitido faltar à palavra, pois a sociedade pode subsistir entre adultérios e rapazes que se amam, mas não entre pessoas glorificadas por enganarem umas às outras.

O latrocínio era honrado em Esparta porque todos os bens era comuns; mas desde que tenhais estabelecido o teu e o

meu, ser-vos-á, então, impossível não encarar o roubo como contrário à sociedade e, por conseguinte, como injusto.

É tão verdadeiro que o bem da sociedade é a única medida do bem e do mal moral, que somos forçados a modificar,

conforme a necessidade, todas as idéias do justo e do injusto que formáramos. Temos horror do pai que dorme com sua filha, e consideramos infame, com o nome de incestuoso, o irmão que abusa da irmã. Mas numa colônia nascente, onde somente sobrasse um pai com o filho e duas filhas, o cuidado tomado por esta família para não deixar parecer a espécie seria encarado por nós como uma ótima ação. Um irmão que mata seu irmão é um monstro, mas um irmão cujo único meio para salvar sua pátria fosse sacrificar seu irmão seria um homem divino. Todos amamos a verdade e dela fazemos uma virtude, porque é de nosso interesse não sermos enganados. Atribuímos mais infâmia à mentira do que a todas as outras más ações, porque é a mais fácil de esconder e a que menos custa a cometer. Porém, em quantas ocasiões a mentira não se torna uma ação heróica! Quando se trata, por exemplo, de salvar um amigo, aquele que dissesse a verdade seria coberto de opróbrio; e não se faça diferença entre um homem que caluniasse um inocente e um irmão que, podendo conservar a vida de seu irmão por uma mentira, preferisse abandoná-lo, dizendo a verdade. A memória do Sr. de Thou, cujo pescoço foi cortado por não ter revelado a conspiração de Cinq-Mars, é uma bênção para os franceses. Se não tivesse mentido, seria abominado por eles. Mas, dir-me-ão, não será, portanto, com relação a nós mesmos que haverá crime e virtude, bem e mal moral, de sorte que não haverá bem em si, independente do homem? Perguntarei aos que me propõem tal questão se há quente ou frio, doce ou amargo, bom ou mau odor, a não ser com relação a nós. Um homem que pretendesse que o calor existe sozinho não seria um raciocinador muito ridículo? Por que, então, aquele que pretende que o bem moral existe independente de nós raciocinaria melhor? Nosso bem e nosso mal físico só têm existência com relação a nós; por que nosso bem moral e nosso mal moral estariam em outro caso? As intenções do Criador, que desejou os homens vivendo em sociedade não foram suficientemente cumpridas? Se houvesse alguma lei, caída do céu, que tivesse ensinado aos seres humanos bem claramente a vontade de Deus, então o bem moral seria apenas a conformidade a essa lei. Se Deus tivesse dito aos homens: ‘Quero que haja muitos reinos sobre a terra e nenhuma república; quero que os caçulas tenham todos os bens dos pais e que se puna com a morte qualquer um que coma

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perus ou porcos’, então essas leis se tornariam certamente a regra imutável do bem e do mal. Mas com Deus não se dignou, que eu saiba, imiscuir-se assim em nossa conduta, é preciso que nos atenhamos às dádivas que nos deu: a razão, o amor- próprio, a benevolência para com a nossa espécie, as carências, as paixões, todos os meios pelos quais estabelecemos a sociedade. Muita gente estará prestes a dizer-me: ‘Caso meu bem-estar esteja em desorganizar vossa sociedade, em matar, roubar, caluniar, acaso não deveria eu ser detido? Acaso poderia abandonar-me sem escrúpulos a todas as minhas paixões?’ Nada tenho a dizer a essa gente senão que provavelmente será enforcada, assim como mandarei matar os lobos que quiserem roubar minhas ovelhas. As leis foram feitas precisamente para tal gente, como as telhas foram inventadas contra o granizo e a chuva. No tocante aos príncipes, que têm a força nas mãos e que abusam dela para desolar o mundo; que enviam uma parte dos homens que sofrem esses estragos abomináveis, freqüentemente chegando mesmo a honrá-los com o nome de virtude. Só devem culpar a si mesmos pelas más leis que fizeram, ou pela pouca coragem para exigir a execução das boas. Todos os príncipes que tanto mal fizeram aos homens são os primeiros a gritar que Deus deu as regras do bem e do mal. Não há um desses flagelos da terra que não faça atos solenes de religião, mas não vejo que se ganhe muito tendo tais regras. É uma infelicidade ligada à condição humana que, malgrado todo nosso desejo de autoconservação, nos destruamos mutuamente com furor e com loucura. Quase todos os animais comem-se uns aos outros, e na espécie humana os machos se exterminam pela guerra. Parece que Deus previu essa calamidade, fazendo nascer entre nós mais machos do que fêmeas. Com efeito, os povos que parecem ter chegado mais perto dos interesses da humanidade e que têm registros exatos dos nascimentos e das mortes, aperceberam-se de que, um pelo outro, nascem todos os anos um doze avos de machos mais do que de fêmeas. Será muito razoável notar como todos esses assassinatos e banditismo são funestos à sociedade e sem nenhum interesse para a Divindade. Deus colocou os homens e os animais sobre a terra, deixando-lhes a tarefa de conduzirem-se o melhor possível. Infeliz a mosca que cair na teia da aranha; infeliz o touro que for atacado por leão, e infelizes os carneiros que forem encontrados pelos lobos! Porém, se um carneiro dissesse a um lobo: ‘Faltas ao bem moral, Deus te punirá", o lobo lhe responderia: ‘Faço meu bem físico, e parece que Deus não se preocupa muito de que eu te coma ou não’. O melhor que o carneiro poderia fazer seria não se afastar do pastor e do cão, capazes de defendê-lo. Prouvera aos céus, que um Ser Supremo nos tivesse dado leis e propostos penas e recompensas! Que nos tivesse dito:

"Isto é vício em si, isto é virtude em si". Mas estamos tão longe de possuir as regras do bem e do mal que, de todos aqueles que ousaram dar leis aos homens da parte de Deus, não houve um que tenha dado a décima milésima parte das regras de que precisamos na conduta da vida. Se alguém inferir disso tudo que só resta abandonar-se sem reservas a todos os furores dos seus desejos desenfreados, e que, não havendo nem vício nem virtude em si, possa fazer tudo impunemente, primeiro esse homem precisará verificar se possui um exército de cem mil soldados bem afeiçoados ao seu serviço; ainda assim arriscar-se-á muito declarando-se inimigo do gênero humano. Mas se tal homem for somente um simples particular, por pouca razão que tenha, verá que escolheu um partido mau e que será punido infalivelmente, seja por meio dos castigos, tão sabiamente inventados pelos homens contra os inimigos da sociedade, seja tão-somente pelo temos do castigo, suplício bastante cruel em si mesmo. Verá que a vida daqueles que desafiam as leis geralmente é a mais miserável. Moralmente é impossível que um homem perverso não seja reconhecido, e tão logo seja somente suspeitado, perceberá que é objeto de desprezo e de horror. Ora, Deus dotou-nos sabiamente de um orgulho incapaz de suportar que os outros homens nos odeiem e nos desprezem. Ser desprezado por aqueles com quem se vive é coisa que ninguém pôde e jamais poderá suportar. Talvez seja esse o maior freio que a natureza tenha posto nas injustiças dos homens. Foi pelo temor mútuo que Deus julgou de bom alvitre vinculá-los. Assim, todo homem razoável concluirá que obviamente é do seu interesse ser honesto. O conhecimento que terá do coração humano irá persuadi-lo de que, embora não exista nem virtude em si nem vício em si, nada o impedirá de ser bom cidadão e de cumprir todos os deveres da vida. Também observamos que os filósofos (batizados com o nome de incrédulos e libertinos), em todos os tempos, foram as pessoas mais honestas do mundo. Deixando de fazer aqui uma lista de todos os grandes homens da Antigüidade, sabemos que La Mothe Le Vayer, preceptor do irmão de Luís XIII, Bayle, Locke, Spinoza, Milorde Shaftesbury, Collins e outros foram homens de virtude rígida. Não foi apenas o temor do desprezo dos homens que os fez virtuosos, mas o gosto pela própria virtude. Um espírito reto é um homem honesto pela mesma razão que aquele que não

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tendo o gosto depravado prefere o excelente vinho de Nuits ao de Brie, e as perdizes de Mans à carne de cavalo. Uma educação sadia perpetua esses sentimentos em todos os homens, vindo com ela o sentimento universal que chamamos honra, do qual mesmo os mais correspondidos não podem desfazer-se, e que é o eixo da sociedade. Aqueles que necessitassem do socorro da religião para serem pessoas honestas s seriam lastimáveis, e monstros da sociedade, se não encontrassem em si próprios os sentimentos necessários a essa sociedade, obrigados a buscar alhures o que deve ser encontrado em nossa natureza.” (VOLTAIRE. Tratado de Metafísica.) In: CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 276-281.) 1 Cremos, aos contrário, que não deve haver quase nada arbitrário nas leis. 1.º) A razão é suficiente para nos fazer conhecer os direitos dos homens, direitos que derivam todos dessa máxima simples:

entre dois seres sensíveis, iguais por natureza, é contra a ordem que um faça sua felicidade à custa do outro. 2.º) A razão mostra igualmente que, em geral, é útil para o bem de muitas sociedades que os direitos de cada um sejam respeitados. Assegurando tais direitos de uma maneira inviolável, pode-se conseguir ou proporcionar à espécie humana toda a felicidade de que seja suscetível, ou dividi-la entre indivíduos de maior eqüidade possível. Se examinarmos, em seguida, as diferentes leis veremos que umas tendem a manter esses direitos e que outras atentam contra eles, que umas são conformes ao interesse geral e que outras são contrárias a ele. São, portanto, justas ou injustas por si mesmas. Assim, não é suficiente que a sociedade seja regida por leis, é preciso que estas sejam justas. Não é suficiente que os indivíduos se conformem às leis estabelecidas, é preciso que as próprias leis sejam conformes ao que exige a manutenção do direito de cada um. Dizer que é arbitrário tal lei ou uma contrária, ou nenhuma, é unicamente confessar que se ignora se tal lei é conforme ou contraria à justiça. Um médico pode dizer: é indiferente dar a este doente um emético ou uma ipecacuanha; mas isto significa que é preciso dar-lhe um vomitório e ignoro qual dos dois remédios há de convir mais a seu estado. Na legislação, como na medicina, como nos trabalhos das artes físicas, o arbitrário só existe porque ignoramos as conseqüências de dois meios que de imediato nos parecem diferentes. O arbitrário nasce da nossa ignorância e não da natureza das coisas. (N. A.)

HUME, DAVID (1711-1776)

O filósofo e historiador escocês David Hume nasceu em Edimburgo. Estuda Filosofia e se interessa pelas letras. Abandona o curso de direito e dedica-se ao comércio, passando três anos na França (1734-1737). Retorna à Inglaterra, torna- se secretário do general Saint Clair e o acompanha a Viena e Turim. Em 1744, candidata-se a uma cadeira de filosofia em Edimburgo, é acusado de ateísmo e não é nomeado. Posteriormente, candidata-se à cadeira de lógica em Glasgow, para substituir Adam Smith, e fracassa novamente. Consegue ser nomeado bibliotecário da faculdade de direito, onde se dedica a uma grande atividade literária. Em 1763, retorna à França como secretário da embaixada, onde conhece Rousseau. Volta à Inglaterra e é subsecretário de Estado (1767-1768). No ano seguinte (1769), regressa a Edimburgo, onde permanece até sua morte. A filosofia de David Hume se caracteriza como um fenomenismo que procede ao mesmo tempo do empirismo de Locke e do idealismo de Berkeley; também é conhecida por ser um ceticismo, na medida em que reduz os princípios racionais a ligações de idéias fortificadas pelo hábito e o eu a uma coleção de estados de consciência. Suas obras principais são: A Treatise of Human Nature (1739), Essays Moral and Political (1741), Na Enquiry Concerning Human Understanding, (inicialmente intitulado Philosophical Essays Concerning Human Understanding), (1748), Political Discourses (1752), History of England during the Reigns of James I and Charles (1754 ss.), Dialogues on Natural Religion (1779), póstuma. Abordam os seguintes temas fundamentais: a) não é possível nenhuma teoria geral da realidade: o homem não pode criar idéias, pois está inteiramente submetido aos sentidos; todos os nossos conhecimentos vêm dos sentidos; b) a ciência só consegue atingir certezas morais: suas verdades são da ordem da probabilidade; c) não há causalidade objetiva, pois nem sempre as mesmas causas produzem os mesmos efeitos; d) convém que substituamos toda certeza pela probabilidade. Eis seu ceticismo, a condição da tolerância e da coexistência pacífica entre os homens. Trata-se de um ceticismo teórico, não válido na vida prática.

TEXTOS

I

“35. Suponha-se que uma pessoa, embora dotada das mais vigorosas faculdades de razão e reflexão seja trazida repentinamente a este mundo. É certo que tal pessoa observaria de imediato uma sucessão contínua de objetos e um fato sucedendo-se a outro; não seria porém capaz de descobrir nada mais. A princípio, não haverá raciocínio que a conduzisse à

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idéia de causa e efeito, já que os poderes particulares graças aos quais se realizam todas as operações naturais não se manifestam aos sentidos; nem é razoável concluir, simplesmente porque um acontecimento em determinado caso precede um outro, que o primeiro é a causa e o segundo é o efeito. A conjunção dos dois pode ser arbitrária e casual. Talvez não haja razão para inferir a existência de um do aparecimento do outro. Numa palavra: sem mais experiências, tal pessoa não poderia fazer uso de conjetura ou de raciocínio a respeito de qualquer questão de fato ou de ter certeza de qualquer coisa além do que estivesse imediatamente presente à suma memória e aos seus sentidos. Suponha-se, agora, que esse homem adquiriu mais experiência e viveu no mundo o tempo suficiente para ter observado uma conjunção constante entre objetos ou acontecimentos familiares: qual o resultado dessa experiência? Ele infere imediatamente a existência de um objeto do aparecimento do outro. E, sem embargo, nem toda a sua experiência lhe deu qualquer idéia ou conhecimento do poder secreto pelo qual um objeto produz o outro; e tampouco é levado a fazer essa inferência por qualquer processo de raciocínio. No entanto, é levado a fazê-la; e, ainda que esteja convencido de que o seu raciocínio nada tem que ver com essa operação, persiste na mesma linha de pensamento. Há algum outro princípio que o determina a tirar essa conclusão. 36. Esse princípio é o costume ou hábito. Com efeito, sempre que a repetição de algum ato ou operação particular produz uma propensão de renovar o mesmo ato ou operação sem que sejamos impelidos por qualquer raciocínio ou processo do entendimento, dizemos que essa propensão é um efeito do hábito. Ao empregar esta palavra, não pretendemos dar a razão primária de uma tal propensão. Limitamo-nos a apontar um princípio da natureza humana, que é universalmente admitido e bem conhecido pelos seus efeitos. Talvez não seja possível levar mais avante as nossas indagações ou pretender indicar a causa dessa causa; talvez devamos contentar-nos com ela como o princípio básico deduzido de todas as nossas conclusões da experiência. Demo-nos por satisfeitos em ter chegado até aí e não nos queixemos da estreiteza de nossas faculdades, que não nos podem levar mais longe. E é certo que aqui avançamos uma proposição muito inteligível, pelo menos, se não verdadeira, ao afirmar que após a conjunção constante de dois objetos - por exemplo, calor e chama, peso e solidez - somos levados tão somente pelo costume a esperar, após um deles, o aparecimento do outro. Esta hipótese parece ser, mesmo, a única que resolve a dificuldade: por que tiramos de mil exemplos uma inferência que não podemos tirar de um só exemplo, a todos os respeitos igual aos outros? A razão é incapaz de variar desse modo. As conclusões que tira da consideração de um círculo são as mesmas que tiraria da observação de todos os círculos do universo. Mas ninguém, ao ver um único corpo mover-se depois de ser impelido por outro, poderia inferir que todos os corpos se moverão sob um impulso semelhante. Todas as inferências derivadas da experiência, por conseguinte, são efeitos do costume e não do raciocínio. O hábito é, pois, o grande guia da vida humana. É aquele princípio único que faz com que nossa experiência nos seja útil e nos leve a esperar, no futuro, uma seqüência de acontecimentos semelhante às que se verificaram no passado. Sem a ação do hábito, ignoraríamos completamente toda questão de fato além do que está imediatamente presente à memória ou aos sentidos. Jamais saberíamos como adequar os meios ou como utilizar os nossos poderes naturais na produção de um efeito qualquer. Seria o fim imediato de toda ação, assim como da maior parte da especulação." (HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano.) (In: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: uma introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. p. 110-111.)

II

Seção II Da origem das idéias “11. Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e quando relembra mais tarde essa sensação ou a antecipa pela imaginação. Essas faculdades podem remedar ou copiar as percepções dos sentidos, mas jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento original. O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando operam com todo o seu vigor, é que representam o seu objeto de maneira tão viva que quase se poderia dizer que os vemos ou sentimos. Mas, a não ser que a mente esteja afetada por uma doença ou pela loucura, nunca podem chegar a um tal diapasão de vivacidade que seja completamente impossível distinguir entre essas percepções. Todas as cores da poesia, por mais esplêndidas, jamais poderão pintar os objetos naturais de tal modo que a descrição seja tomada por uma verdadeira paisagem. O mais vivo pensamento é ainda inferior à mais embotada das sensações.

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Podemos observar que uma distinção semelhante vale para todas as demais percepções da mente. Um homem preso de um acesso de cólera é atuado de maneira diversa daquele que apenas pensa nessa emoção. Se me disserem que tal ou tal pessoa está enamorada, eu compreenderei facilmente o que isso significa, e farei uma idéia justa da sua situação, mas nunca poderei confundir essa idéia com as agitações e desordens reais da paixão. Quando refletimos sobre os nossos sentimentos e afeições passados, o nosso pensamento é um espelho fiel e copia com exatidão os objetos; mas as cores que emprega são opacas e esmaecidas em comparação com as de que se revestiam as nossas percepções originais. Não se faz mister um discernimento sutil nem uma cabeça metafísica para marcar a distinção entre eles.

12. Podemos, pois, dividir aqui todas as percepções da mente em duas classes ou espécies, as quais se distinguem

pelos seus diferentes graus de força ou vivacidade. A menos fortes ou vivazes são comumente denominadas pensamentos ou idéias. A outra espécie não tem nome em nossa língua, como em muitas outras, suponho que por não ser necessário para nenhum fim que não fosse filosófico o incluí-las sob um termo ou designação geral. Tomemos, pois, uma pequena liberdade e chamemo-las impressões, usando a palavra num sentido algo diferente do usual. Pelo termo impressão entendo todas as nossas percepções mais vivazes, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos. E as impressões distinguem-se das idéias, que são as impressões menos vivazes das quais temos consciência quando refletimos sobre qualquer dessas sensações ou movimentos acima mencionados.

13. À primeira vista, nada parece mais ilimitado do que o pensamento humano, que não só escapa a todo poder e

autoridade humana, mas não se restringe sequer aos limites da natureza e da realidade. Formar monstros e ligar formas e aparências incongruentes não custa mais trabalho à imaginação do que perceber os objetos mais naturais e familiares. E, embora o corpo esteja preso a um planeta sobre o qual se arrasta com dor e dificuldade, o pensamento nos pode transportar

no espaço de um instante às mais longínquas regiões do universo - e mesmo além do universo, no caos sem fronteiras, em que se diz que a natureza jaz em total confusão. É possível conceber o que nunca foi visto ou ouvido, e não há nada a que não alcance o poder do pensamento, salvo o que implica uma contradição absoluta. Mas, embora nosso pensamento pareça possuir essa liberdade ilimitada, examinando o assunto mais de perto vemos em que realidade ele se acha encerrado dentro de limites muito estreitos e que todo o poder criador da mente se reduz à simples faculdade de combinar, transpor, aumentar ou diminuir os materiais fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, não fazemos mais do que juntar duas idéias compatíveis entre si, ouro e montanha, que já conhecíamos anteriormente. Podemos conceber um cavalo virtuoso, pois os nossos sentimentos nos levam à concepção de virtude, e esta pode unir-se à figura e forma de um cavalo, animal que nos é familiar. Em resumo, todos os materiais do pensamento derivam da sensação interna ou externa; só a mistura e composição destas dependem da mente e da vontade. Ou, para expressar-se em linguagem filosófica, todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões, ou percepções mais vivas.

14. Creio que os dois argumentos que seguem bastarão para provar isso. Em primeiro lugar, sempre que analisamos

nossos pensamentos ou idéias, por mais complexos e sublimes que sejam, descobrimos que eles se resolvem em idéias

simples, que são as cópias de uma sensação ou percepção anterior. Mesmo que idéias que à primeira vista mais parecem afastar-se dessa origem mostram, a um exame mais atento, derivar dela. A idéia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, bom e sábio, surge das reflexões que fazemos sobre as operações de nossa mente, aumentando num grau ilimitado essas qualidades de bondade e sabedoria. Podemos prosseguir este exame até onde nos aprouver; sempre veremos que todas as idéias que examinamos derivam de um impressão semelhante. Os que desejam negar que esta proposição seja universalmente verdadeira e mostrar que ela comporta exceções, só têm um método, aliás bastante fácil, de refutá-la: basta apresentarem uma idéia que, na sua opinião, não derive desta fonte. Caberá então a nós, se quisermos sustentar a nossa doutrina, apontar a impressão ou percepção que lhe corresponde.

15. Segundo: se sucede que, por um defeito do órgão, um homem não é suscetível de determinada espécie de

sensação, verificamos sempre que ele é igualmente incapaz de formar as idéias correspondentes. Um cego não pode fazer idéia das cores, nem um surdo dos sons. Que a cada um deles se restitua o sentido de que carece e, abrindo-se essa porta a

novas sensações, ter-se-á aberto também uma porta às idéias, e ele não terá dificuldades em conceber esses objetos. O mesmo acontece quando o objeto próprio para excitar um certa sensação nunca foi aplicado ao órgão. Um lapão ou um negro não tem nenhuma noção do gosto do vinho. E, conquanto sejam raros ou inexistentes os exemplos de uma deficiência desse gênero na mente, exemplos de pessoas que nunca experimentaram ou que sejam completamente incapazes de experimentar

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um sentimento ou paixão próprios de sua espécie, não obstante vemos que a mesma observação ocorre em grau mais atenuado. Um homem de hábitos pacíficos não pode fazer idéia de um inveterado espírito de vingança ou crueldade, nem é fácil a um coração egoísta conceber os extremos da amizade e da generosidade. Admite-se facilmente que outros possam ser dotados de muitos sentidos que nós nem sequer imaginamos, porque as idéias de tais coisas nunca foram introduzidas em nós da única maneira pela qual uma idéia pode ter acesso ao intelecto, i.é, a sensação efetivamente presente.” (Ibidem) (In:

CHAUI, Marilena et al. Primeira filosofia: lições introdutórias. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 189-191.)

ROUSSEAU, JEAN-JACQUES (1712-1778)

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, Suiça, de uma família de origem francesa. Em 1742, instala-se em Paris

e se liga ao movimento enciclopedista, especialmente a Diderot, tendo uma vida mundana. Mantém uma longa ligação com

Thérèse Le Vasseur, de que tem cinco filhos que entrega à assistência pública. Em 1750, publica 0 Discurso sobre as ciências e as artes, rompendo com o otimismo do Século das Luzes. Em 1755, publica o Discurso sobre a origem da desigualdade, que lhe dá celebridade e lhe causa problemas: polemiza com Voltaire e outros. Em 1762, publica o Contrato Social, livro que o leva

a exilar-se na Suíça, depois na Inglaterra. Finalmente, retorna à França, onde morre. Dos temos por ele abordados,

destaquemos: a) o homem é, por natureza, bom; é a sociedade que o corrompe; quer dizer: a sociedade não é, por essência, corruptora, mas somente certo tipo de sociedade, i.é, aquela que repousa na afirmação da desigualdade natural dos homens, oprimindo a maioria em proveito de uma minoria privilegiada; b) o estado de natureza é um estado primordial onde o homem vive feliz, em harmonia com o mundo e na inocência, não havendo necessidade de sociedade: o social não tem sua norma na natureza, mas no homem; a passagem da natureza à sociedade é puramente contingente, é uma causalidade puramente externa que o induz; c) o homem difere essencialmente dos outros seres naturais e animais por sua perfectibilidade; o problema, para ele, consiste em encontrar uma forma de sociedade na qual possa preservar sua liberdade natural e garantir sua segurança; d) para solucionar esse problema, Rousseau propõe o contrato social. O soberano é o conjunto dos membros da sociedade. Cada homem é ao mesmo tempo legislador e sujeito. Ele obedece à lei que ele mesmo fez. Isso pressupõe uma vontade geral distinta da soma das vontades particulares. Cada homem possui, como indivíduo, uma vontade particular; mas também possui, como cidadão, uma vontade geral que o conduz a querer o bem do conjunto do qual é membro. Cabe à educação formar essa vontade geral. O regime social ideal é o democrático, mas Rousseau está consciente das dificuldades de tal regime: o governo, mesmo representativo, pode usurpar a soberania: "Um homem livre obedece, mas não serve; tem chefes, e não mestres; obedece às leis mas somente às leis, e é força das leis que não obedece aos homens". TEXTOS I - Assunto deste primeiro livro “O homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros. De tal modo acredita-se senhor dos outros, que não deixa de ser mais escravo que eles. Como é feita essa mudança? Ignoro-o. Que é que a torna legítima? Creio poder resolver esta questão. Se eu considerasse tão-somente a força e o efeito que dela derivam, diria: Enquanto um povo é constrangido a obedecer e obedece, faz bem; tão logo ele possa sacudir o jugo e o sacode, faz ainda melhor; porque, recobrando a liberdade graças ao mesmo direito com o qual lha arrebataram, ou este lhe serve de base para retomá-la, ou não se presta em absoluto para subtraí-la. Mas a ordem social é um direito sagrado que serve de alicerce a todos os outros. Esse direito, todavia, não vem da natureza; está, pois, fundamentado sobre convenções. Mas antes de chegar aí, devo estabelecer o que venho de avançar.”

II - Das primeiras sociedades “A mais antiga de todas as sociedades, e a única natural, é a família. As crianças apenas permanecem ligadas ao pai o tempo necessário que dele necessitam para sua conservação. Assim que cesse tal necessidade, dissolve-se o laço natural. As crianças, eximidas da obediência devida ao pai, o pai isento dos cuidados devidos aos filhos, reentram todos igualmente na independência. Se continuam a permanecer unidos, já não é naturalmente, mas voluntariamente, e a própria família apenas se mantém por convenção. Esta liberdade comum é uma conseqüência da natureza do homem. Sua primeira lei consiste em proteger a própria conservação, seus primeiros cuidados os devidos a si mesmo, e tão logo se encontre o homem na idade da razão, sendo o único juiz dos meios apropriados à sua conservação, torna-se por aí seu próprio senhor.

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É a família, portanto, o primeiro modelo das sociedades políticas; o chefe é a imagem do pai, o povo a imagem dos filhos, e havendo nascido todos livres e iguais, não alienam a liberdade a não ser em troca da sua utilidade. Toda a diferença consiste em que, na família, o amor do pai pelos filhos o compensa dos cuidados que estes lhe dão, ao passo que no Estado, o prazer de comandar substitui o amor que o chefe não sente por seus povos.” (O Contrato Social, Livro I) III - Do pacto social “Eu imagino os homens chegados ao ponto em que obstáculos, prejudiciais à sua conservação no estado natural, os arrastam, por sua resistência, sobre as forças que podem ser empregadas por cada indivíduo a fim de se manter em tal estado. Então esse estado primitivo não mais tem condições de subsistir, e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser.

Ora, como é impossível aos homens engendrar novas forças, mas apenas unir e dirigir as existentes, não lhes resta outro meio, para se conservarem, senão formando, por agregação, uma soma de forças que possa arrastá-los sobre a resistência, pô-los em movimento por um único móbil e fazê-los agir de comum acordo. Essa soma de forças só pode nascer do concurso de diversos; contudo, sendo a força e a liberdade de cada homem os primeiros instrumentos de sua conservação, como as empregará ele, sem se prejudicar, sem negligenciar os cuidados que se deve? Esta dificuldade, reconduzida ao meu assunto, pode ser enunciada nos seguintes termos:

‘Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado, e pela qual, cada um, unido-se ao todo, não obedeça portanto senão a si mesmo, e permaneça tão livre como anteriormente.’ Tal é o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social. As cláusulas deste contrato são de tal modo determinadas pela natureza do ato, que a menor modificação as tornaria vãs de nenhum efeito; de sorte que, conquanto jamais tenham sido formalmente enunciadas, são as mesmas em todas as partes, em todas as partes tacitamente admitidas e reconhecidas, até que, violado o pacto social, reentra cada qual em seus primeiros direitos e retoma a liberdade natural, perdendo a liberdade convencional pela qual ele aqui renunciou. Todas essas cláusulas, bem entendidas, se reduzem a um a única, a saber, a alienação total de cada associado, com todos os seus direitos, em favor de toda a comunidade; porque, primeiramente, cada qual se entregando por completo e sendo a condição igual para todos, a ninguém interessa torná-la onerosa para os outros.” (Ibidem)

O homem é naturalmente bom

“Por grande que seja o número de malfeitores sobre a Terra, são poucos os espíritos raquíticos que sejam insensíveis, fora do seu interesse, para tudo o que é justo e bom. A iniqüidade só agrada enquanto aproveita; em tudo o mais deseja-se que o inocente seja protegido. Se vemos numa rua ou numa estrada qualquer ato de violência ou injustiça, imediatamente surge do fundo do nosso coração um movimento de cólera e indignação, que nos impele a tomar a defesa do oprimido. Um dever mais forte, entretanto, segura-nos e as leis nos tiram o direito de proteger o inocente. Pelo contrário se qualquer ato de clemência ou generosidade fere nossas vistas, quanta admiração e quanto amor nos inspira! Interessa-nos certamente muito pouco que um homem tenha sido malfeitor ou justo faz dois mil anos, e no entanto interessa-nos o que aconteceu na história antiga como se estivesse acontecendo nos nossos dias. Que tenho eu com os crimes de Catilina? Tenho medo de ser sua vítima? Por que então tenho o mesmo horror que se fosse meu contemporâneo? Não odiamos os malfeitores porque eles nos prejudicam, mas porque são malfeitores. Não queremos somente ser felizes, queremos também a felicidade dos outros, e quando esta felicidade nada custa à nossa, aumenta-a.

Olhai para todas as nações do mundo, percorrei todas suas histórias; no meio de tantos cultos desumanos e estranhos, no meio desta prodigiosa diversidade de costumes e caracteres, encontrareis por toda parte as mesmas idéias de justiça e honestidade, por toda parte os mesmos princípios de moral, por parte as mesmas noções do bem e do mal.

As mais desprezíveis divindades foram servidas pelos maiores homens. A santa voz da natureza, mais forte que a daqueles deuses, fazia-se respeitar sobre a Terra, e parecia relegar ao céu o crime com os culpados. Há pois no fundo das almas um princípio inato de justiça e de virtude, com o qual, apesar das nossas próprias normas, julgamos nossas ações e a dos outros como boas ou más, e é a este princípio que dou o nome de consciência.” (Emílio,

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LivroIV, “Profissão de fé de um vigário saboiano, no meio.) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 175-178.)

KANT, IMMANUEL (1724-1804)

Um dos filósofos que mais profundamente influenciou a formação da filosofia contemporânea, Kant nasceu em Königsberg, na Prússia Oriental (Alemanha), onde passou toda a sua vida, tendo chegado a reitor da Universidade de Königsberg, onde foi estudante e professor. O pensamento de Kant é tradicionalmente dividido em duas fases: a pré-crítica (1755-1780) e a crítica (1781 em diante), que se inicia com a publicação da Crítica da razão pura, sua obra principal. Na fase pré-crítica o pensamento kantiano está totalmente inserido na tradição do sistema metafísico de Leibniz e Wolff, então dominante nos meios acadêmicos alemães. Sua principal obra nesse período é a Dissertação de 1770, com a qual Kant tornou-se catedrático da universidade, e que, embora elaborada dentro do quadro conceitual da metafísica tradicional, prenuncia a alguns dos temas centrais da fase crítica, como a questão dos limites da razão e da solução dos problemas metafísicos. A fase crítica se inicia, nas palavras do próprio Kant, por influência de suas leituras dos empiristas ingleses, sobretudo de Hume. É famosa sua afirmação nos Prolegômenos de que "Hume despertou-me de meu sono dogmático". As objeções céticas de Hume ao racionalismo dogmático e à metafísica especulativa levam Kant a questionar e reconsiderar essa tradição, ao mesmo tempo procurando defender a possibilidade da ciência e da moral, contra o ceticismo arrasador de Hume.

A filosofia crítica se resume, portanto, a quatro grandes questões: 1) o que podemos saber? 2) o que devemos fazer 3) o que

temos o direito de esperar e 4) o que é o homem? Em sua Lógica (1800), Kant afirma que "a filosofia (

lado, da relação entre todo conhecimento e todo uso da razão; e, de outro lado, do fim último da razão humana, fim este ao qual todos os outros se encontram subordinados e para o qual devem se unificar? A primeira questão é tratada essencialmente na Crítica da razão pura, em que Kant investiga os limites do emprego da razão na produção de conhecimento, procurando estabelecer as condições da possibilidade do conhecimento e assim distinguir os usos legítimos da razão na produção do conhecimento, dos usos especulativos da razão que, embora inevitáveis , não produzem conhecimento e devem ser distinguidos da ciência. São duas as fontes do conhecimento humano: a sensibilidade e o entendimento. Através da primeira, os objetos nos são dados; através do segundo, são pensados. Só pela conjugação desses dois elementos é possível a experiência do real. Por outro lado, nossa experiência da realidade é condicionada por essa estrutura em que se combinam sensibilidade e entendimento, de tal forma que só conhecemos realmente o mundo dos fenômenos, da experiência, dos objetos enquanto se relacionam a nós, sujeitos, e não a realidade em si, tal qual ela é, independentemente de qualquer relação de conhecimento. O método transcendental, que Kant então formula, caracteriza-se precisamente como análise das condições de possibilidade do conhecimento, ou seja, como reflexão crítica sobre os fundamentos da ciência e da experiência em geral. A Crítica da razão prática (1788) analisa os fundamentos da lei moral, formulando o famoso princípio do imperativo categórico:

) é a ciência, de um

"age de tal forma que a norma de tua ação possa ser tomada como lei universal". Trata-se de um princípio formal e universal, estabelecendo que só devemos basear nossa conduta em valores que todos possam adotar, embora não prescrevendo especificamente quais são esses valores. Na Crítica da faculdade de julgar (1790), Kant procura estabelecer as bases

objetivas para o juízo estético, em um princípio semelhante ao ético. Na verdade, essa obra vai além da questão da estética, envolvendo todo juízo teleológico e o reconhecimento de um fim ou propósito que daria sentido à natureza. Assim, "a beleza é

a forma da finalidade em um objeto, percebida entretanto separadamente da representação de um fim". Kant escreveu ainda

outras obras de grande importância como os Prolegômenos a toda metafísica futura (1783), que pretende ser uma retomada das idéias da Crítica da razão pura de forma mais acessível; os Fundamentos da metafísica dos costumes (1785), que também tratam da questão ética; um tratado sobre a Religião nos limites da simples razão (1793); uma obra política, o Tratado sobre a paz perpétua (1795); a Antropologia de um ponto de vista pragmático (1798); a Lógica (1800); além de vários outros textos dentre os quais se destacam "A idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita" (1784), considerado como origem da filosofia alemã da história; e "O que significa o Iluminismo)?" (1783), em que analisa o racionalismo iluminista e seu projeto filosófico.

TEXTOS

I

O QUE É ILUSTRAÇÃO?

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“A ilustração (Aufklärung) é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele é o próprio responsável. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a condução de um outro. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando sua causa reside não na falta de entendimento, mas na falta de resolução e coragem para usá-lo sem a condução de um outro. Sapere aude! 'Tenha a coragem de usar seu próprio entendimento!' - esse é o lema da ilustração. Preguiça e covardia são as razões pelas quais uma tão grande parcela da humanidade permanece na menoridade

mesmo depois que a natureza a liberou da condução externa (naturaliter maiorennes); e essas são também as razões pelas quais é tão fácil para outros manterem-se como seus guardiões. É cômodo ser menor. Se tenho um livro que substitui meu entendimento, um diretor espiritual que tem uma consciência por mim, um médico que decide sobre a minha dieta e assim por diante, não preciso me esforçar. Não preciso pensar, se puder pagar: outros prontamente assumirão por mim o trabalho penoso. Que a passagem à maioridade seja tida com muito difícil e perigosa pela maior parte da humanidade (e por todo o belo sexo) deve-se a que os guardiões de bom grado se encarregam da sua tutela. Inicialmente os guardiões domesticam seu gado, e certificam-se de que essas criaturas plácidas não ousarão dar um único passo sem seus cabrestos; em seguida, os guardiões lhes mostram o perigo que as ameaça caso elas tentem marchar sozinhas. Na verdade, esses perigo não é tão grande. Após algumas quedas, as pessoas aprendem a andar sozinhas. Mas cair uma vez as intimida e comumente as amedronta para as tentativas ulteriores.

É muito difícil para um indivíduo isolado libertar-se da sua menoridade quando ela tornou-se quase a sua natureza (

).

Mas que o público se esclareça a si mesmo é muito perfeitamente possível; se lhe for assegurada a liberdade, é quase

Sempre haverá alguns pensadores independentes, mesmo entre os guardiões das grandes massas,

que, depois de terem-se libertado da menoridade, disseminarão o espírito de reconhecimento racional tanto de sua própria dignidade quanto da vocação de todo homem para pensar por si mesmo. Mas note-se que o público, que de início foi reduzido à tutela por seus guardiões, obriga-os a permanecer sob jugo, quando é estimulado a se rebelar por guardiões que, eles próprios, são incapazes de qualquer ilustração. Isso mostra quão nocivo é semear preconceitos; mais tarde, voltam-se contra seus autores ou predecessores. Sendo assim, apenas lentamente o público pode a ilustração. Talvez a destruição de um despotismo pessoal ou da opressão gananciosa ou tirânica possa ser realizada pela revolução, mas nunca uma verdadeira reforma nas maneira de pensar. ( Enquanto essa reforma não ocorre), novos preconceitos servirão, tão bem quantos os antigos, para atrelar as grandes massas não-pensantes. Entretanto, nada além da liberdade é necessário à ilustração; na verdade, o que se requer é a mais inofensiva de todas as coisas às quais esse termo pode ser aplicado, ou seja, a liberdade de fazer uso público da própria razão a respeito de tudo (

A pedra de toque para o estabelecimento do que devem ser as leis de um povo está em saber se o próprio povo poderia

ter-se imposto as leis em questão (

O que o povo não pode decretar para si próprio muito menos pode ser decretado por um monarca, pois a autoridade

certo que isso ocorra

legislativa deste último baseia-se em que ele une a vontade pública geral na sua própria. A ele incumbe zelar para que todas as melhorias, verdadeiras ou presumidas, sejam compatíveis com a ordem civil; fazendo isso, ele pode deixar aos súditos que busquem eles próprios o que lhes parece necessário à salvação de suas almas.” ( KANT, I. “O que é ilustração”) (In: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: uma introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna,

1993. p. 114-115.)

II

II - Possuímos certos conhecimentos a priori e o próprio bom senso não pode deles prescindir. “É necessário agora um critério que permita distinguir com segurança um conhecimento puro de um conhecimento empírico. Mostra-nos bem a experiência que uma coisa é desta ou daquela maneira, nada porém nos diz sobre a possibilidade de ser diferente. Em primeiro lugar pois, se encontramos uma proposição onde o pensamento implica a "necessidade", temos um juízo a priori; se, por outro lado, tal proposição não é derivada de qualquer outra que tenha valor, por sua vez, de proposição necessária, então ela é absolutamente a priori. Em segundo lugar, a experiência nunca dá aos seus juízos uma verdadeira e estrita "universalidade", mas somente uma "universalidade" suposta e relativa (por indução), que não tem outro sentido senão este: nossas observações, por mais numerosas que elas sejam até agora jamais encontraram uma exceção a tal ou qual regra. Por conseguinte, um juízo pensado com estrita universalidade, não deriva absolutamente da experiência, é

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porém válido de forma absoluta a priori. A universalidade empírica é só uma supervalorização arbitrária da mesma; faz-se, de uma regra válida na maior parte dos casos, uma lei que se aplica a todos, como, por exemplo, na proposição: Todos os corpos são pesados. Quando, pelo contrário, um juízo possui essencialmente uma universalidade estrita, reconhece-se que ela provém de uma fonte peculiar do conhecimento, de um poder de conhecer a priori. Necessidade e universalidade são, pois, os sinais certos de um conhecimento a priori e estão indissoluvelmente unidos um ao outro. Com, entretanto, na aplicação destes, é às vezes fácil mostrar a limitação empírica do que a contingência dos juízos, e às vezes também faz-se ver de maneira mais convincente em um juízo a universalidade ilimitada que lhe atribuímos do que a sua necessidade, convém empregar separadamente esses dois sinais pois cada um por si é infalível. Ora, juízos desta espécie, necessários e universais no sentido estrito e, por conseguinte, puros, a priori, encontram-se realmente no conhecimento humano e é fácil demonstrar isto. Se quisermos um exemplo tomado das ciências, basta um passar de olhos em todas as proposições da Matemática; se quisermos tomar um exemplo dos mais comuns do conhecimento, pode-se citar a proposição: Toda mudança deve ter uma causa. Temos ainda, neste último exemplo, que a noção de causa contém claramente o conceito de ligação necessária com o efeito e por isso a estrita universalidade da lei, muito embora tal conceito de causa careceria totalmente de valor, se tivéssemos de derivá-lo, como faz Hume, de uma associação freqüente do que segue com o que precede e de um hábito (de uma necessidade, por conseguinte, simplesmente subjetiva) de ligar certas representações.” (Crítica da Razão Pura, Introdução) IV - Diferença entre os juízos analíticos e os juízos sintéticos. “Em todos os juízos onde é relacionado um sujeito a um predicado (considero só os juízos afirmativos; pois o que direi destes será fácil de aplicar aos juízos negativos), esta relação é possível de duas formas: Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido (implicitamente) neste conceito A, ou B é completamente estranho ao conceito A, mesmo que, na verdade, esteja ligado a ele. No primeiro caso, chamo o juízo de "analítico", no segundo de "sintético". Desta maneira os juízos (afirmativos) são analíticos quando a ligação do predicado ao sujeito é concebida por identidade; e devem ser chamados juízos sintéticos aqueles em que esta ligação é concebida sem identidade.” (Ibidem) V - 1 Os juízos matemáticos são todos sintéticos. “Esta proposição parece ter escapado até aqui às observações dos analistas da razão humana e parece mesmo contrário às suas suposições, muito embora seja incontestavelmente certa e de conseqüências muito importantes.

É preciso advertir ainda que as proposições verdadeiramente matemáticas são sempre juízos a priori e não empíricos, pois eles implicam na necessidade que não se pode concluir da experiência.” (Ibidem)

VI - Problema geral da Razão Pura. “Adiantamos bastante ao poder reduzir uma infinidade de questões sob a formulação de um único problema: pois isto não só facilita o próprio trabalho, determinando-o com precisão, como também o faz mais cômodo para todos os que o quiserem examinar, para julgar se atingimos ou não suficientemente nosso objetivo. O verdadeiro problema, pois, da razão pura está contida nesta pergunta: Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” (Ibidem) (In: CABALLERO, Alexandre. A filosofia através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 181-183.)

III

§ 27 “É este o lugar de se minar pela base a dúvida de Hume. Ele afirmava com razão: não vemos de maneira alguma, pelo entendimento, a possibilidade da causalidade, isto é, da relação da existência de uma coisa com a existência de uma outra coisa qualquer, posta necessariamente pela primeira. Eu ainda acrescento que não vemos melhor o conceito de subsistência, isto é, da necessidade de a existência das coisas se fundar num sujeito, que por sua vez não pode ser o predicado de uma outra coisa qualquer, que nem sequer podemos formar um conceito da possibilidade de uma tal coisa (embora possamos mostrar exemplos de seu uso na experiência); esta incompreensibilidade estende-se também à comunidade das coisas, pois não se compreende de modo algum como se possa tirar do estado de uma coisa uma conseqüência sobre o estado de outras coisas além dela e reciprocamente, nem como as substâncias, cada uma dotada da existência própria e particular, devam depender necessariamente umas das outras. Contudo, estou bem longe de considerar estes conceitos como meramente derivados de experiência, e a necessidade, representada neles, como ilusão e simples aparência resultante de longo hábito;

63

muito mais, mostrei suficientemente que eles e os princípios dos mesmos são estabelecidos a priori anteriormente a toda experiência e possuem exatidão objetiva acima de qualquer dúvida, se bem que apenas no que diz respeito à experiência.”

§ 28

“Embora não tenha o mínimo conceito de uma tal conexão das coisas em si mesmas, de como elas existem como substância, ou de como agem como causa, ou como podem estar em comunidade com outras (como partes de um todo real), posso pensar menos ainda semelhantes propriedades nos fenômenos como fenômenos (pois aqueles conceitos não contem nada do que está nos fenômenos, mas apenas o que o entendimento deve pensar), possuímos entretanto, tal conceito de uma conexão desta espécie de representações em nosso entendimento e justamente no julgar em geral, a saber: as representações pertencem a uma classe de juízos, como sujeito em relação a predicados, a outra como causa em relação a um efeito e uma terceira, como partes que constituem todo um conhecimento possível. Além disso, conhecemos a priori: sem considerar a representação de um objeto como determinada em relação a um ou outro destes momentos, não poderíamos obter nenhum conhecimento válido do objeto e, se nos ocupássemos como objeto em si mesmo, não haveria um único indício possível, pelo qual pudesse conhecer, que fosse determinado em relação a um ou outro dos momentos pensados, isto é, que

pertencesse ao conceito de substância, ou ao de causa, ou (em relação com outras substâncias) ao conceito de comunidade; pois, da possibilidade de uma tal conexão da existência não tenho conceito algum. Mas a questão não é como as coisas em si são determinadas, mas como o é o conhecimento de experiência das coisas em relação a momentos pensados de juízos em geral, isto é, de que maneira coisas, como objetos da experiência, podem e devem ser subsumidas sob aquele conceito de entendimento. Então fica claro que compreendo inteiramente não só a possibilidade, mas também a necessidade de subsumir todos os fenômenos sob estes conceitos, ou seja, utilizá-los como princípios da possibilidade da experiência.”

§ 29

“Para pôr à prova o conceito problemático de Hume (esta sua crux metaphysicorum), ou seja, o conceito de causa, é-me dada primeiramente a priori, pela lógica a forma de um juízo condicionado em geral, a saber, um conhecimento dado utilizável como fundamento e um outro como conseqüência. Mas é possível que seja encontrada na percepção uma regra da relação, que afirme: um determinado fenômeno segue regularmente outro (embora não inversamente), e este é um caso para me servir do juízo hipotético e dizer, por exemplo: se um corpo fica exposto ao sol por tempo suficiente, torna-se quente. Aqui há ainda, na verdade, uma necessidade de conexão e nem, por conseguinte, o conceito de causa. Mas continuo e digo: se a proposição anterior, que é apenas uma conexão subjetiva de percepções, deve ser uma proposição de experiência, deve ser considerada necessária e válida universalmente. Tal proposição seria, pois: o sol é, através de sua luz, a causa do calor. A regra empírica anterior é agora considerada lei, e assim não só válida para fenômenos, mas para fenômenos que visam a uma experiência possível, a qual necessita de regras universais e necessariamente válidas. Compreendo, portanto, muito bem o conceito de causa designa uma condição inerente não às coisas, mas à experiência, a saber, que esta só pode ser um conhecimento objetivamente válido dos fenômenos e de sua sucessão no tempo na medida em que o antecedente pode ser ligado ao conseqüente, segundo regras dos juízos hipotéticos.”

§ 30

“Eis por que os conceitos de entendimento puro não têm nenhuma significação, quando se afastam dos objetivos da experiência e querem ser relacionados apenas coisas em si mesmas (noúmena). Servem, de algum modo, apenas para soletrar fenômenos, a fim de que possam ser lidos como experiência; os princípios que brotam de sua relação com o mundo sensível servem apenas ao nosso entendimento para o uso da experiência; além disso, são ligações arbitrárias sem realidade objetiva, cuja possibilidade não se pode conhecer a priori, nem comprovar, ou tornar inteligível sua relação com objetos destes conceitos não podem ser encontrados, a não ser numa experiência possível. Esta solução completa do problema de Hume, apesar de contrária à pressuposição de seu autor, salva, pois, aos conceitos do entendimento puro sua origem a priori e às leis universais da natureza sua validade como leis do entendimento de tal maneira que limita seu uso na experiência, porque sua possibilidade só tem fundamento na relação do entendimento com a experiência; não no sentido que elas derivam da experiência, mas que a experiência deriva delas, uma maneira bem diversa de conexão, da qual Hume nunca suspeitou. Daqui sai o resultado de todas as pesquisas precedentes: ‘Todos os princípios a priori nada mais são que princípios de experiência possível’ e não podem ser nunca relacionados com coisas em si mesmas, mas somente com fenômenos como objetos da experiência. Por isso, tanto a matemática pura como a ciência pura da natureza nunca podem ir além dos meros

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fenômenos e representam apenas aquilo que torna possível uma experiência em geral ou o que, sendo derivado destes princípios, deve poder ser representado, em todo o tempo, em qualquer experiência possível.”

§ 31

“Temos, enfim, algo de determinado em que nos apoiar em todas as tentativas metafísicas, que até agora, suficientemente audazes, mas sempre cegas, foram além de tudo sem distinção. Pensadores dogmáticos nunca se convenceram de que o objetivo de seus esforços devia circunscrever-se em tão estreitos confins; nem mesmo aqueles que, fiando-se em sua razão pretensamente sadia, partindo de conceitos e princípios da razão pura, legítimos e naturais, mas de uso apenas de experiência, pretendiam chegar a conclusões das quais não conheciam nenhum limite determinado, nem podiam conhecer, por nunca haverem pensado ou ousado pensar sobre a natureza e mesmo a possibilidade de tal entendimento puro. Algum naturalista da razão pura (sob este nome entendo aquele que se atreve a decidir, sem nenhuma ciência, sobre

as coisas da metafísica) poderia muito bem opor que tudo que foi exposto aqui com tanto aparato ou, se o agrada mais, com prolixa e pedante solenidade, já desde há muito não só presumiu, através de seu espírito adivinhatório, como soube e viu: ‘que na verdade com toda nossa razão, nunca podemos ir além do campo da experiência’. Todavia, se ele, simplesmente, é pouco a pouco interrogado a respeito de seus princípios da razão, deve confessar que entre eles estão muitos que não tirou da experiência, que, portanto, são independentes desta e válidos a priori, como e com quais motivos quer ele impor limites ao dogmático e a si mesmo, pretendendo servir-se destes conceitos e princípios para além de toda experiência possível, justamente por serem conhecidos independentemente desta. E mesmo ele, este adepto da razão sadia, não obstante sua pretensa sabedoria adquirida a preço baixo, não está seguro de não se desviar dos objetos da experiência, para cair no campo das quimeras. Também aí se encontra, de ordinário, suficientemente envolvido, embora por sua linguagem popular, pois considera tudo meras verossimilhanças, conjecturas racionais ou analogias, dá certo colorido a suas pretensões infundadas.”

§ 32

“Desde os tempos mais remotos da filosofia, os pesquisadores da razão pura conceberam, além dos seres sensíveis ou fenômenos (phaenómena), que constituem o mundo sensível, seres inteligíveis (noúmena), que deveriam constituir o mundo inteligível, e, como confundiam fenômeno com aparência (coisa desculpável numa época ainda inculta), atribuíram realidade apenas aos seres inteligíveis. De fato, quando consideramos os objetos dos sentidos – como é justo – simples fenômenos, então admitimos, ao mesmo tempo, que uma coisa em si mesma lhes serve de fundamento, apesar de não a conhecemos como é constituída em si mesma, mas apenas seu fenômeno, isto é, a maneira como nossos sentidos são afetados por este algo desconhecido. O entendimento, portanto, justamente por admitir fenômenos, aceita também a existência das coisas em si mesmas, donde podemos afirmar que a representação de tais seres, que servem de fundamento aos fenômenos, e, por, conseguinte, a representação de simples seres inteligíveis, não só é admissível como inevitável. Nossa dedução crítica não exclui de maneira alguma tais cousas (noúmena), mas só limita os princípios da estética, de

modo a não se entenderem a todas as coisas, o que transformaria tudo ou meros fenômenos, mas a serem válidos somente como objetos de uma experiência possível. Através disso admitem-se seres inteligíveis, somente com a limitação desta regra, que não admite exceção: que não sabemos, nem podemos saber, nada de determinado destes seres inteligíveis puros, porque nossos conceitos de entendimento puro, bem como intuições puras, referem-se apenas a objetos de uma experiência possível, portanto, a meros seres sensíveis e, tão logo nos desviemos deles, tais conceitos deixam de ter a mínima significação.”

§ 33

“Há, na verdade, algo de capcioso com nossos conceitos de entendimento puro, com respeito à atração que exercem para um uso transcendente; assim denomino aquele que vai além de toda experiência possível. Não apenas enquanto nossos conceitos de substância, de força, de ação, de realidade etc., são totalmente independentes da experiência e, por não conterem nenhum fenômeno dos sentidos, pois parecem na verdade referir-se a coisas em si mesmas (noúmena), mas, o que ainda corrobora esta suposição, encerram em si uma necessidade da determinação, à qual a experiência nunca consegue igualar-se. O conceito de causa contém uma regra segundo a qual a um estado se segue necessariamente um outro; mas a experiência só pode nos mostrar que muitas vezes, ou mais comumente, a um estado das coisas sucede outro, e não pode, portanto, gerar nem universalidade rigorosa, nem necessidade etc.

65

Donde parecem ter os conceitos do entendimento muito mais significado e conteúdo do que poderia exaurir o simples uso da experiência de todas as suas determinações, e assim constrói o entendimento para si, imperceptivelmente, ao lado do edifício da experiência, um anexo muito mais vasto, que é preenchido apenas com seres pensantes, sem ao menos reparar que, com seus conceitos aliás legítimos, foi além dos limites de seu uso.” § 34 “Eram necessárias, portanto, duas investigações importantes, até mesmo indispensáveis, embora sumamente áridas, empreendidas na Crítica, p. 137 etc., e 235 etc. Pelas primeiras ficou provado que os sentidos não fornecem os conceitos de entendimento puro em concreto, mas apenas o esquema para o uso dos mesmos, e que o objeto a ele conforme só se encontra na experiência (como produto do entendimento tirado dos materiais da sensibilidade). Na segunda investigação (Crítica, p. 235), mostra-se: não obstante a independência de nossos conceitos de entendimento puro e princípios de experiência e mesmo o âmbito aparentemente maior de seu uso, todavia, por meio desta nada pode ser pensado fora do campo da experiência, porque nada podem fazer a não ser determinar apenas a forma lógica do juízo em relação a intuições dadas; mas, como não há intuição além do campo da sensibilidade, falta a estes conceitos puros toda e qualquer significação, pois não podem ser representados de maneira nenhuma em concreto, consequentemente, todos os noúmena bem como o conjunto dos mesmos, de um mundo inteligível, nada mais são que representações de um problema, cujo objeto é possível em si, mas cuja solução, de acordo com a natureza de nosso entendimento, é totalmente impossível, visto não ser nosso entendimento um poder da intuição, mas apenas a conexão de intuições dadas numa experiência e que com isto ela deve conter os objetos correspondentes aos nossos conceitos, ao passo que fora dela todos os conceitos são destituídos de significação, já que nenhuma intuição pode lhes servir de fundamento.” (KANT, I. Prolegômenos a toda metafísica futura) (In:

SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992. p. 112-114.)

HEGEL, GEORG WILHELM FRIEDRICH (1770-1831)

O mais importante filósofo do idealismo alemão pós-kantiano e um dos filósofos que mais influenciou o pensamento de sua época e o desenvolvimento posterior da filosofia. Hegel nasceu em Stuttgart, na Alemanha, estudou filosofia na Universidade de Tübingen e foi professor nas Universidade de Iena (1801-1806), Heidelberg (1816-1818) e Berlim (1818- 1831), chegando a reitor desta última (1829). Pode-se considerar a filosofia de Hegel como o último grande sistema da tradição clássica. Seu pensamento, extremamente complexo, desenvolveu-se na tradição do idealismo alemão, devendo ser compreendido sobretudo como uma ruptura com a filosofia transcendental de kantiana, bem como partindo de uma reflexão sobre os grandes eventos históricos como a Revolução Francesa e as guerras napoleônicas, que marcaram a época em que viveu. Hegel considerava que a análise da consciência realizada na perspectiva transcendental ignorava a origem e o processo de formação dessa consciência, tomando-a como dada e analisando-a em abstrato. Sua filosofia parte assim da necessidade de examinar, em primeiro lugar, as etapas de formação da consciência, tanto em seu sentido subjetivo, no indivíduo, quanto

em seu sentido histórico, ou cultural, representado pelo desenvolvimento do espírito (Geist). A Fenomenologia do Espírito (1807), subintitulada "ciência da experiência da consciência", é a obra que dá início a esse pensamento, que será desenvolvido de forma sistemática em suas obras subseqüentes, bem como em seus cursos e conferências. Hegel traça aí o percurso da consciência humana até chegar ao espírito absoluto, ou ainda, as etapas do caminho que espírito percorre através da consciência humana até chegar a si mesmo. Em sua Ciência da lógica (1816), Hegel formula sua "filosofia do conceito", em

que pretende examinar "a natureza das eventualidades puras que formam o conteúdo da lógica (

espírito que pensa, sua essência". A filosofia de Hegel é dialética, porém a dialética não deve ser vista aí como um método, mas como uma concepção do real mesmo, sendo que a contradição é a essência da próprias coisas, "todas as coisas são contraditórias em si". Segundo Hegel, portanto, em suas Lições sobre a história da filosofia (1819-1828), os grandes sistemas filosóficos do passado não devem ser vistos como um conflito em si, mas como antecipando, de alguma forma, uma parcela da verdade sobre o real. O seu sistema representaria assim o fim da filosofia, a superação da oposição entre os diferentes sistemas e síntese das verdades que todos contêm, resultando de sua análise das etapas do desenvolvimento do espírito. Suas principais obras, além das já citadas, são: Propedêutica filosófica (1809-1816), Enciclopédia das ciências filosóficas (1817) e Princípios da filosofia do direito (1821).

os pensamentos puros, o

)

TEXTOS

I

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O SENHOR E O ESCRAVO

(Fenomenologia do Espírito, tradução de Lefebure e Guterman, in Morceaux choisis, número 123)

a) Pág. 175, linhas 33 a 49.

“Buscar a morte do outro implica arriscar a própria vida. Por conseguinte, a luta entre duas consciências de si é determinada do seguinte modo: elas se experimentam a elas próprias e entre si por meio de uma luta de morte. Não podem

evitar essas luta, pois são forçadas a elevar ao nível da verdade sua certeza de si, sua certeza de existir para si; cada uma deve experimentar essa certeza em si mesma e na outra. Só arriscando a própria vida é que se conquista a liberdade. Só assim é que alguém se assegura de que a natureza da consciência de si não é o ser puro, não é a forma imediata de sua manifestação, não é sua imersão no oceano da vida. Essa luta prova que nada existe na consciência que não seja perecível para ela, prova que ela, portanto, não é senão puro ser para-si. O indivíduo que não arriscou sua vida pode certamente ser reconhecido como pessoa, mas não atingiu a verdade desse reconhecimento como consciência de si independente.”

b) Pág. 176, linha 44, à pág. 177, linha 22.

“O senhor é a consciência que é por si mesma, mas essa consciência, aqui, está além de seu puro conceito: ela é consciência para-si que é mediada consigo mesma por outra consciência, notadamente por uma consciência cuja natureza implica no fato de ela estar unida a um ser independente ou às coisas em geral. O senhor está em relação com esses dois momentos: com a coisa enquanto tal, objeto do apetite, e com a consciência cujo caráter essencial é a coisa externa. Um vez que o senhor (a), enquanto conceito da consciência de si, é a relação imediata do ser para-si, mas (b) é simultaneamente mediação, em outras palavras, um ser para-si que só o é por meio de outro, ele se relaciona (a) imediatamente com os dois e (b) imediatamente com cada um por intermédio do outro. O senhor tem, com o escravo, uma relação mediata em virtude da existência independente, pois é precisamente a ela que o escravo está preso, ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta, o que o levou a mostrar-se dependente, posto que possuía sua independência numa coisa externa. Quanto ao senhor, ele é a potência que domina esse ser externo, pois provou na luta que o considera como puramente negativo; uma vez que ele domina esse ser e que esse ser domina o escravo, o senhor também o domina. Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo; este último, enquanto consciência de si, relaciona-se negativamente com a coisa e a ultrapassa; mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode, por meio de sua negação, chegar a suprimi-la; ele só faz trabalhar. Em compensação, para o senhor, graças a essa mediação, a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo; aquilo que o apetite não conseguiu, ele o consegue; domina a coisa e se satisfaz na fruição. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa; mas o senhor, ao colocar o escravo contra ela e si próprio, só entra em contato com o aspecto dependente da coisa, fruindo-a puramente; deixa o aspecto independente a coisa para o escravo que a trabalha.” (Fenomenologia do Espírito) (In: VERGEZ, André & HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. Trad.

Lélia de Almeida Gonzales. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos S.A., 1988. p. 280-281.)

II

“Esse pensamento, que a contradição é essencialmente e necessariamente posta na razão pela determinação do entendimento, assinala o progresso mais importante e mais profundo da filosofia moderna.” “Os Eleatas, e mais particularmente Parmênides, viam no simples pensamento do ser puro o Absoluto e a única verdade: e, nos fragmentos que chegaram até nós, acha-se formulada pela primeira vez, em sua abstração absoluta e com o ardor de um puro entusiasmo intelectual, este pensamento: somente o ser é, o nada não existe. O Nada, o vazio, constitui,

como é sabido, o princípio absoluto dos sistemas orientais, principalmente do budismo. O profundo Heráclito opôs, a essa abstração simples e unilateral, o conceito total e superior do vir-a-ser, dizendo: o ser não é mais do que o nada, ou ainda, tudo corre, o que equivale a dizer que tudo é vir-a-ser, devenir.”“

" nada há no céu e na terra que não contenha, ao mesmo tempo, o ser e o nada.”

“A unidade do ser e do nada tendo sido adotada, de uma vez por todas, como sendo a primeira verdade, a verdade que está na base de tudo aquilo que se segue ” “Um ser definido, um ser finito é um ser que se refere a outra coisa; é um conteúdo que se acha em relações necessárias com outros conteúdos, com o mundo inteiro.” “É no vir-a-ser que existe a distinção entre o ser e o nada, e o vir-a-ser só é possível em virtude dessa distinção. Mas o vir-a-ser, por sua vez, não se confunde nem com o ser nem com o nada; ambos existem nele, o que eqüivale a dizer que não

67

existem para si mesmos. O vir-a-ser compreende tanto o ser quanto o não ser: só existem enquanto estão no Uno e é isso que apaga sua diferença.” “A síntese contém e salienta a não verdade dessas abstrações, em si mesmas, essa abstrações formam uma unidade

com outra coisa, quer dizer, não existem por si mesmas, enquanto absolutas, mas apenas e unicamente enquanto relativas.”

“ a despeito de sua simplicidade, talvez mesmo por causa dela, a proporção de acordo com a qual a negação da

negação corresponderia a algo de positivo, parece uma banalidade, indigna da atenção do orgulhoso entendimento. E no entanto, não exprime apenas uma coisa justa, mas, em virtude da generalidade das determinações desse gênero, essa proposição é susceptível de uma extensão infinita e de uma aplicação universal ” “O raciocínio que acabamos de citar, e que repousa na hipótese da separação absoluta entre o ser e o nada, sem ir além, não é dialético mas sofístico. Pois a sofística é um raciocínio que parte de uma hipótese infundada, aceita sem crítica nem reflexão, ao passo que chamamos de dialética o movimento racional superior, graças ao qual esses termos, aparentemente separados, passam uns nos outros espontaneamente, em virtude mesmo do que são, a hipótese de sua separação achando-se, assim, eliminada. É em virtude da natureza dialética que lhes é imanente, que o ser e o nada

manifestam sua unidade e sua verdade no vir-a-ser.” “O vir-a-ser é, assim, duplamente determinado: uma dessas determinações é constituída diretamente pelo nada, quer dizer, o vir-a-ser começa pelo nada que se refere ao ser ou, mais exatamente, que passa ao ser; a outra é constituída pelo ser, o vir-a-ser começando pelo ser que se refere ao nada, ou, mais exatamente, que passa ao nada: aparecimento e desaparecimento.”

o que é suprimido é, ao mesmo tempo, o que é conservado, tendo perdido somente sua imediatidade, sem ser por ”

isso destruído”

“A determinação é a negação, considerada do pondo de vista afirmativo. É a proposição de Spinoza: ommis ”

determinatio est negatio , de importância infinita

“ a negação em geral deve distinguir-se da segunda negação, que é a negação da negação, negatividade concreta absoluta, assim como a primeira é a negatividade abstrata.”

“Todavia, um exame mais profundo da natureza antinômica, ou, mais exatamente, dialética, da razão mostra que cada conceito constitui uma unidade de momentos opostos aos quais se poderia, consequentemente, dar também a forma de afirmações antinômicas.”

“ queremos falar da contradição, cujo princípio deve ser assim enunciado: todas as coisas são contraditórias em si

mesmas, dando a essa propiciação um sentido tal que seja considerada como expressão, ao contrário das outras, da essência

e da verdade das coisas. A contradição que se afirma na oposição não passa do nada desenvolvido, implícito na identidade e

expresso na proporção segundo a qual o princípio de identidade nada nos ensina. Essa negação, continuando a determinar-se, tornar-se diversidade e oposição, quer dizer, contradição.” “Mas um dos principais preconceitos da Lógica, tal como foi compreendida até hoje, e da representação, consiste em

ver na contradição uma determinação menos essencial e imanente do que a identidade; ora, se fosse o caso de hierarquia e se fosse preciso persistir em manter essas duas determinações isoladas uma da outra, é a contradição que seria a determinação mais profunda e essencial. Porque a identidade, comparada com ela, é a determinação do simples imediato, do ser morto: mas

a contradição é a raiz de todo movimento e de toda manifestação visual; somente na medida em que encerra uma contradição, uma coisa é capaz de movimento, de atividade, de manifestar tendências ou impulsos.”

“A contradição é, geralmente, o que se afasta em primeiro lugar das coisas, do ser e do verdadeiro em geral: diz-se, notadamente, que nada é contraditório. Em segundo lugar, ao inverso, fazem-na refluir para a reflexão subjetiva, dizendo que é essa reflexão que põe a contradição, à força de relacionamentos e de comparações. Mas não se poderia dizer que existe nem mesmo nessa reflexão, pois o contraditório não poderia ser nem representado nem pensado. Quer se trate da realidade ou da reflexão pensante, a contradição é considerada simples acidente, para não dizer anomalia ou paroxismo mórbido passageiro.” “Quanto à afirmação de que não haveria contradição, que a contradição não seria uma coisa existente, não nos deve preocupar. Uma determinação absoluta da essência deve encontrar-se em toda experiência, em que tudo o que é real, em todo

conceito”

“Mas é um fato de experiência quotidiana que há uma multidão de coisas contraditórias, de instituições

contraditórias, etc., cuja contradição não tem origem apenas na reflexão exterior, mas reside nas coisas e nas instituições elas mesmas. A contradição não deve, tampouco, ser considerada simples anomalia, que se observaria aqui e acolá, porque é o

“Só se suprime uma coisa fazendo que essa coisa forme uma unidade com seu contrário

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negativo, segundo sua determinação essencial, é o princípio de todo movimento espontâneo, que não passa da manifestação da contradição. O movimento exterior sensível é o seu ser-aí imediato. Esse movimento não deve ser

compreendido como se a coisa se encontrasse, em dado momento, aqui, e, no momento seguinte, alhures, mas aqui e não- aqui no mesmo momento, e a coisa como sendo e não sendo, ao mesmo tempo, no mesmo agora. Pode-se compreender que

os antigos dialetas tivessem razão, quando denunciavam as contradições que o movimento comporta; disso, porém, não se

segue que o movimento não existe, mas que o movimento é a própria contradição, pelo simples fato de estar-aí.”

“Assim também, o movimento espontâneo intenso, propriamente dito, tendência ou impulso em geral (apetição ou nisus

da mônada, entelechia do ser absolutamente simples), significa, apenas, que em uma única e mesma relação uma coisa existe

em si e é, ao mesmo tempo, sua própria falta (carência) ou seu próprio negativo. A abstrata identidade consigo mesmo não corresponde ainda a nada de vivo, mas, pelo fato do positivo ser por si mesmo negatividade, sai de si mesmo e entra na mudança. Uma coisa só é viva na medida em que encerra uma contradição e tem a força de assumi-la e sustentá-la. Mas,

quando uma existência é incapaz de suportar sua contradição interna, não é uma unidade viva, e sucumbe à sua contradição.

O pensamento especulativo consiste apenas em mostrar-se capaz de conter em si a contradição e não, como se supõe

geralmente, de deixar-se dominar por ela, permitindo somente que suas determinações se transformem em outras ou se aniquilem.” “Se, no movimento, na tendência etc., a contradição está mascarada, para a representação, pela própria simplicidade dessas determinações apresenta-se, nas determinações relacionais, com toda a clareza desejável. Os exemplos mais banais, alto e baixo, esquerda e direita, pai e filho, e assim por diante, ao infinito, contêm os opostos em um só termo. É alto o que não

é

baixo; ser alto significa, apenas, não ser baixo, e o alto só existe enquanto há, e inversamente; o pai é outro do filho, e o filho

o

outro do pai , e o pai e o filho só existem como o outro do outro; e, ao mesmo tempo, cada uma dessas determinações só

existe em relação à outra. Sem dúvida, o pai é também alguma coisa para-si, fora da relação com o filho; mas, então, não é mais o pai, porém, homem em geral; assim também, o alto e o baixo são alguma coisa em-si, coisas refletidas em-si, fora de

qualquer relação, mas então são apenas lugares em geral. Os contrários, ou opostos, contêm a contradição, na medida em que se referem negativamente reciprocamente ou são indiferentes um ao outro. A representação, quando leva em conta a indiferença das determinações, esquece sua unidade negativa e as considera simplesmente como diferenças em geral; adota, consequentemente, uma determinação segundo a qual o alto não é mais o alto, nem o baixo, o baixo etc. Mas, quando volta sua atenção para o alto real e para o baixo real, encontra-se na presença de determinações que se negam, determinações incluídas uma na outra, e que, nessa unidade ao mesmo tempo não se negam, sendo cada uma independente para-si.” “A representação tem sempre por conteúdo a contradição, sem disso ter consciência; permanece no estado de reflexão exterior, que passa da igualdade à desigualdade, ou da relação negativa à reflexão-sobre-si das diferenças. Opõe,

exteriormente, uma à outra, essas duas determinações, vendo-as apenas e não sua transformação, que constitui o essencial e contém a contradição. A reflexão inteligente, ao contrário, é justamente a que aprende e exprime a contradição. Embora não exprima o conceito das coisas e suas condições e não tenha por matéria e conteúdo senão determinações cuja fonte é a representação, estabelece entre essas determinações uma relação que contém sua contradição, e deixa transparecer, através da contradição, seu conceito. Mas a razão pensante aguça, por assim dizer, a diferença esbatida do diverso, a simples variedade tal como é concebida pela representação, dela fazendo uma diferença essencial, uma oposição. Somente quando é levado ao extremo da contradição é que o vário e multiforme desperta e se anima, e as coisas fazendo parte dessa variedade recebem a negatividade que é a pulsação imanente do movimento autônomo, espontâneo e vivo.”

é a fonte interna de toda atividade, de todo movimento espontâneo, vivo e espiritual, a alma dialética

O segundo negativo, o negativo do negativo,

consiste na supressão da contradição, mas, assim como a própria contradição, não é obra de uma reflexão exterior, porém

(HEGEL, G. W. F. Ciência da Lógica –

que extrai toda sua verdade desse ponto, graças ao qual é a única verdade

“A negatividade

constitui o momento mais profundo, mais íntimo e mais objetivo da vida e do espírito

Excertos). (In: SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. São Paulo: Cortez, 1992. p. 140-144.)

III

Filosofia é pensamento que se compreende conceitualmente a si mesmo. O pensamento é concreto e, portanto, a razão que se compreende a si mesmo. Este compreender-se é um compreender-se no que se desenvolve. A primeira forma da razão, da existência do pensamento é, como o germe, inteiramente simples. Porém esta simples existência é o impulso para continuar determinando-se. A primeira compreensão conceitual que o espírito tem de si é universal, abstrata. Porém a razão é

69

concreta em si. Este concreto em si deve ser levado à consciência – o que não pode deixar de suceder para que se destaquem os elementos particulares sucessivamente – que cada determinação por si surja depois das outras, como aconteceu na planta. Porém precisamente é notável que esta sucessão e esta separação dos conceitos se reúnem ao mesmo tempo num conhecimento dos sistemas particulares. Os conceitos concretos da razão se aperfeiçoam sem que os sistemas de pensamento anteriores desapareçam nos posteriores. (HEGEL. Introdução à História da Filosofia (cursos de 1823-25-27)

IV

O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que atinge a completude por meio do seu desenvolvimento.

Deve-se dizer do Absoluto que ele é essencialmente resultado e que é o que na verdade é, apenas no fim. Nisto consiste justamente sua natureza: ser algo efetivo, sujeito ou devir-de-si-mesmo. Por contraditório que pareça conceber o Absoluto essencialmente como resultado, basta no entanto uma pequena reflexão para reduzir a nada essa aparência de contradição. O começo, o princípio ou o Absoluto, tal como é enunciado primeira e imediatamente, é somente o universal. Se digo todos os animais, essa expressão tem pouco valor para uma Zoologia. Do mesmo modo as palavras do divino, do absoluto, do eterno,

, imediato. Aquilo que é mais do que uma palavra desse tipo, a passagem, mesmo que seja apenas a uma proposição, contém um tornar-se-outro que deve ser retomado e é uma mediação. No entanto, é essa mediação que se constitui em objeto de horror como se, ao usá-la para algo mais do que para afirmar que ela nada é de absoluto e não tem lugar no Absoluto, se abandonasse o conhecimento absoluto. Na verdade, porém, esse horror nasce da ignorância da natureza da mediação e do próprio conhecimento absoluto. Com efeito, a mediação e do próprio conhecimento absoluto. Com efeito, a mediação nada mais é do que a igualdade consigo mesmo que a si mesma se move, ou é a reflexão em si mesmo, o momento do Eu existente-para-si, a pura negatividade, ou seja, a negatividade reduzida à sua simples abstração, o simples devir. O Eu ou o devir em geral, esse mediatizar, é justamente, em razão da sua simplicidade, o devir da imediatidade e o próprio imediato. Trata-se, pois, de um desconhecimento da razão quando a reflexão é excluída do verdadeiro e não é apreendida como um momento positivo do Absoluto. É ela que faz com que o verdadeiro seja um resultado, mas, ao mesmo tempo, suprime essa oposição ao seu devir, pois esse devir é igualmente simples não é diferente da forma do verdadeiro que consiste em mostrar-se como simples no resultado. Melhor dito, o resultado é justamente esse ter retornado à simplicidade. Se o embrião é, sem dúvida, homem em si, no entanto ele não o é para si. O homem é para si tão-somente como razão formada, que a si mesma se fez o que já é em si:

não podem exprimir o que nelas está contido; e, na realidade, tais palavras exprimem apenas a intuição como algo

etc

unicamente essa é a sua realidade efetiva. Mas tal resultado é, ele próprio, imediatidade simples, pois é a liberdade consciente-de-si que repousa em si e não pôs de lado a oposição para deixá-la abandonada, mas, ao contrário, reconciliou-se com ela. O que acaba de ser dito pode também exprimir-se da seguinte maneira: a razão é o agir de acordo com um fim. A exaltação do que é tido como natureza sobre o pensamento que é desconhecido e, antes de tudo, o banimento da finalidade exterior lançaram ao descrédito a forma do fim em geral. No entanto, assim como Aristóteles mesmo determina a natureza como agir de acordo com um fim, o fim é o imediato, o que está em repouso, o imóvel que é ele próprio motor e, desta sorte, é

sujeito. Tomada abstratamente, sua força para mover é o ser-para-si ou a pura negatividade. O resultado é idêntico com o começo somente porque o começo é o fim; ou o efetivo é idêntico com seu conceito somente porque o imediato, como fim, tem em si mesmo o Si ou a pura realidade efetiva. O fim atualizado ou o efetivo existente é movimento e devir desenvolvido. Ora, o

Si é justamente essa inquietação. E é igual àquela imediatidade e simplicidade do começo porque é o resultado, o que retornou

a si. Mas o que retornou a si é justamente o Si e o Si é a igualdade e a simplicidade que consigo mesmo se relacionam.

(HEGEL. Fenomenologia do Espírito)

V

Idéia, Realidade, Realidade vivente Vamos agora considerar a idéia em suas outras determinações e, especialmente, a idéia como ideal. A idéia é a unidade do conceito e da realidade; o conceito é a alma, e a realidade é o envoltório corporal. O conceito realizado constitui a idéia. É esta a definição abstrata. Mas enganar-se-ia quem imaginasse que o conceito e a realidade unidos na idéia se neutralizam mutuamente como dois corpos químicos que, ao combinarem-se, perdem as qualidades próprias a cada um deles. Não, o conceito é que decide tudo. Na idéia, é ele que representa a unidade e desempenha, por isso, o papel dominante. Ao

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unir-se-lhe na idéia, o conceito não faz qualquer concessão à realidade porque já é, por si próprio e por força da natureza, uma unidade; de si próprio engendra a realidade pela qual e na qual prossegue o seu desenvolvimento, sem deixar de permanecer idêntico a si próprio, sem nada ceder da sua essência. Ao contrário das combinações químicas nas quais o ácido, por exemplo, perde a acidez ao neutralizar-se, o conceito continua a ser o elemento dominante e permanece invariável.

A idéia, é, pois, o real em geral e só o real. O real começa por aparecer como possuidor de uma existência externa,

como senhor de uma realidade sensível; mas o real sensível só é verídico ou verdadeiramente real quando corresponde ao conceito. E verídico só é então, não no sentido subjetivo, no da correspondência entre as minhas representações e as coisas existentes, mas no sentido objetivo, no da correspondênci