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II - separação na profissão = separação na educação

II - separação na profissão = separação na Alguns colegas já deram continuidade a esse debate, caracterizados por Paulo Freire, dotados de consciência critica8 ,
desenvolvendo tfg´s que revisam e complementam o tema3 , é limitada. O esperado e pregado processo de transformação
educação
trabalhando em mutirões autogestionários4 e alterando algumas social, endereçado às universidades, dificilmente ocorrerá se
partes, as conjunturalmente possíveis, do processo de aguardarmos o mexer-se de teses e antíteses através de nossas
como juntar siameses quando já cortados? concepção e construção de utensílios diversos5 . limitadas atividades acadêmicas, e teremos de aguardar mais
quinhentos anos para sairmos todos de casa com tranqüilidade
“Ao dividir o trabalho, divide-se igualmente o A Fau não tem contribuído muito para avanços no debate, pois (os que hoje não tem casa, e aqueles que têm).
homem, sendo todas as outras
potencialidades intelectuais e físicas da forma que se relaciona com essas questões do mundo
sacrificadas ao aperfeiçoamento de uma profissional, respostas tendem a se colocar como impossíveis. Antes de seguir com o apontamento de questões específicas da
atividade única”1 Fau sobre o ensino, vejamos brevemente o início da separação
A relação de mimese com o mundo-mercadoria não contribui. O dos ofícios do desenho e da construção, ao menos no Brasil.
Como era de se esperar, o mimetismo e a falta de crítica mecanismo básico instituído nos estatutos da universidade:
identificada na universidade como um todo também ocorre na indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, não ocorre a Antes da chegada dos portugueses no Brasil a separação entre
Fau, segundo as especificidades de nosso campo de atuação. contento. concepção e execução era algo difícil de ser aceita pelos
habitantes da terra, e passou a ser paulatinamente aprendida, a
As contradições e limites da profissão do arquiteto e urbanista Se nos relacionássemos com essas questões “via mão dupla”, ou pauladas mesmo, e foi institucionalizada enquanto formação
são mimeticamente reproduzidas em nossas salas de aula. de forma mediada, como já mencionado, ou através dos profissional regulamentada apenas com a chegada da imperiosa
Vivemos cópia e reafirmação. Não há um “engolir” o mundo e métodos da “pesquisa-ação” 6 , seríamos impregnados pela família de Dom Pedro. Em 1816, inicia-se o debate com a visita da
responder com novas saídas realmente críticas, radicais, das barbárie e teríamos de nos sujeitar a encontrar meios de resposta, missão francesa ao Brasil, já ela própria dividida em duas partes
raízes, de fato. Grande parte de nossos projetos e tfg´s reafirmam de explosão criativa e crítica, para um avançar sobre o aparente distintas: “quadro superior artístico, com um chefe, seus
a natureza, por exemplo, do não debate sobre a mais gritante impossível. professores e três assistentes; e quadro complementar ou de artes
contradição de nossa profissão: a separação do canteiro e do mecânicas, com seus mestres de artes e ofícios”.9
desenho, ou a divisão social do trabalho praticada pela Mas não, vive-se trancado, vem a demanda por um desenho de
sociedade compartimentada. arquitetura, através de disciplina, fazemos a crítica funcional do Manuscritos do francês Lê Breton, integrante da missão, tentam
traço, do tema, e não nos é dada a chance da aplicação, da justificar a necessidade da criação de duas escolas distintas,
Mesmo que atualmente as críticas de Sérgio Ferro sejam experimentação construtiva. Ficamos com a crítica, e o mundo como em sua missão, em vez de apenas uma, afirmando que
comemoradas na Fau, em suas mais que bem vindas visitas ao com as questões intactas. Resultado: nossa prática acaba “criando simultaneamente uma Escola de Belas Artes, los nobles
Brasil2 , participando de conversas diversas, unindo professores, mimética, mas com diversas questões na cabeça, virgens, artes, e uma escola de desenho para as artes e ofícios, se possa
estudantes e arquitetos (há até corrida por autógrafos), sempre maravilhosas, super complicadas, nunca aplicadas. preservar a primeira pela segunda, classificando e mantendo
que terminadas, é ovacionado, mas das portas da palestra para nesta, que não poderia chegar a ser demasiado freqüentada,
fora: quase nada muda. Há sim exceções, a essa prática, sejamos justos, há sim méritos a todos que não conviessem à outra”.10
diversos estudantes e professores da Fau, mas é marginal. O
Mas como mudar? Como fazer diferente se a grande maioria das curso vivenciado por alguns poucos colegas, com atividades Le Breton justifica essa atitude segundo a experiência francesa,
disciplinas de projeto requerem desenhos, maquetes... apenas. extra-curriculares e optativas menos elementares permitiu contato que tinha o ensino superior já gratuito na época. Na França, “a
com a possibilidade de vislumbres outros, que nos últimos anos pobreza ali [universidade de belas artes] envia seus filhos, em vez
Que fazer? têm dado um bom caldo, como veremos mais adiante. de colocar em oficinas de artesões, onde teriam de pagar pela
aprendizagem”. E mais adiante: “Imagine, Sr. Conde, a quantidade
Reprimir nossos colegas alunos e professores, nos jogando uns Estranho a Fau não ter algo que institucionalmente desempenhe de fermento grosseiro e falta de liberdade que, desta maneira,
contra os outros, de modo a impossibilitar, enterrar para sempre a papel análogo à escola de aplicação da Escola de Educação, pode penetrar e realmente penetra nas belas artes. È de se desejar
possibilidade de qualquer superação desta questão que deve ser Hospital Universitário, Hospital Veterinário... nosso curso também que esta má semente não se introduza no berço de nossa escola;
resolvida de forma essencialmente coletiva? é profissionalizante, guardadas as especificidades do universo da que, pelo contrário, a profissão de artista fique, em geral numa
arquitetura e do urbanismo, enquadradas nas “ciências humanas região média da sociedade”.11
Aparentemente o pó das questões levantadas na obra de Sérgio aplicadas”.
Ferro, “O Canteiro e o Desenho” parecem assentar-se num beco Apesar disso, o que veio a ocorrer foi a criação de uma única
sem saída: sou aluno da FAU, fiz vestibular, difícil, passei, quero Artigas, ainda que sob seus objetivos comunistas de “desenvolver escola que lecionava as artes como um todo, a Academia
me formar, ganhar um diploma, e sustentar minha vida com um as forças produtivas”7 propôs um local na Fau para a aplicação Imperial de Belas Artes, “com o ensino centralizado e total. isto é,
salário médio, ainda, já que o “mercado não está para peixe”. do projeto, ainda que em escala desenvolvimentista: o AI, atelier cabendo a cada professor o ensino completo de sua arte desde o
interdepartamental, que cumpriria tal função... hoje vazio. os elementos mais simples até a alta composição. Assim,
Aparentemente não há alternativas, parece não haver saídas que Grandjean de Montigny teria de transmitir a seus discípulos todos
se apresentem possíveis. O caminho está dado. Trabalharemos Há um sério buraco em nossa formação. Pensa-se o “o quê”, os conhecimentos necessários na época, à formação do
em nossos Cad´s, mas conscientes: sabemos que há operários não se aplica, e daí não se vivencia e se questiona “o como”. arquiteto...”. Nota-se que Flávio Motta tem uma apreensão do
alienados e explorados nas obras, mas continuamos apenas a arquiteto mais ampla que a atual, bastante próxima da que
trabalhar com nossos traços, mas só que agora conscientes ! Diante disso, dessa mimese submersa diante da prática pretendemos aqui debater o seu devido resgate.
profissional, a autonomia universitária na Fau de fato não ocorre.
De novo, que fazer? A possibilidade de formação de sujeitos históricos, como Se não estivermos enganados, o ensino “total” das artes, que

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unifica as “mecânicas” às “belas”, já teve ensaios anteriores em praticantes”, “não propositores”, portanto não há saída: “Eles 2
nossos chãos! criticaram tanto que deixaram de ser arquitetos”.

Mas se ocorreu, foi por pouco tempo, pois em 1854, com a Nota-se que este estado de “torpor” é também alimentado por
chegada de Manoel de Araújo Porto Alegre, encarregado de uma desconexão com o todo. A partir de constantes passeios
reformar a escola, o ensino das artes foi definitivamente separado por outras unidades da universidade, fica latente a célebre frase:
em belas artes e artes mecânicas: “Assim foi descentralizado “separar para reinar faz da separação a essência do reino”15 . Os
totalmente o regime pedagógico (...)”. Desta forma, “o Brasil iria estudantes e professores de outros departamentos enfrentam as
também neoclassizar-se, povoando-se de visões de beleza ideal mesmas questões da separação entre concepção e realização.
grega (...). O neoclassicismo correspondia assim à organização A casa grande e senzala se espalham e se intensificam a cada
social daquele período, marcado pelas distâncias entre o pensar e dia, a cada formação de profissional liberal e a cada formação de
o fazer.”12 profissional mecânico.

Daí em diante, a separação entre o canteiro e o desenho nas Até aí sem novidades, novamente. Pairamos sob a falta de
escolas de arquitetura torna-se um movimento constante, com visualização de que todos bailamos sob o mesmo ritmo, que
alguns episódios de tentativa de reunificação, mas no geral impede qualquer mobilização anti-sistêmica. A separação em
distanciam-se a cada nova “reforma”, em busca de maior grande escala (20 milhões de pessoas) é sem precedentes na
perfeição e eficiência no ofício do arquiteto: história da humanidade. Que fazer?

“Se o distanciamento da construção ensejava uma maior Certamente ações diferentes de 1917, 1959...
concentração no ato de projetar e ansiava por sínteses mais
perfeitas e consistentes, infelizmente, atrapalhou o arquiteto no A caminhada de uma tarde, uma cerveja com um colega de
reconhecimento social de sua profissão, como construtor de seu outro curso gera choque:
projeto. Criou-se uma imagem para o exercício profissional,
distanciando desnecessariamente o pensar do fazer”.13 Como puderam separar as artes plásticas da arquitetura, da Poli,
das Fatecs, dos Senais?
Um momento certamente didático para o debate da
(re)unificação das artes ocorreu na própria Fau, no Fórum de Quem fez isso deveria ser morto!
1968, durante o período militar, quando se opõe mais claramente
dois caminhos para a faculdade. Há propostas de radicalização Seria fácil agir assim. Não podemos encarar os fatos com
da questão, através de uma ruptura, e enfrentamento das simplismo e apontar superficial “maldade” nos homens,
contradições de classe na arquitetura e a de “dar uma segurada polarizando as coisas de modo maniqueísta.
nas coisas”. 14
Essas separações surgiram segundo um movimento sistemático
Recentemente, Sérgio Ferro retomou algumas questões do de práticas analíticas, parciais, que visam dar eficiência e controle
Fórum de 68, em conferência na Fau Maranhão, refletindo sobre dos processos para gerar mais produção, mais valia, e dar direito
o rumo tomado pela faculdade: de “segurar as coisas”, e afirma a todos os homens de consumir os bens produzidos. Mais
que possivelmente, se a Fau tivesse tomado o caminho da adiante trataremos da questão abordando a diferença entre
ruptura, da crítica mais radical, certamente teria sido fechada pelo divisão social do trabalho e divisão do trabalho social.
regime.
Voltando à Fau, e às faculdades de arquitetura em geral, reafirma-
Para uma melhor apreensão do debate ocorrido na época, se a separação em foco. De todas as faculdades de arquitetura
recomendamos visita a publicação de Pedro Arantes: “Arquitetura do Brasil, de um total de 132 pesquisadas, apenas 11 possuem
Nova - Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefévre, de Artigas canteiro experimental de obras, espaço elementar para abrigar a
aos Mutirões” que o aborda de modo mais cuidadoso, segundo percepção e a leitura do apartamento dos fazeres16
rica articulação de documentos e posições.
Observando edital do MEC de 1997, que regulamenta o currículo
Atualmente o tema existe, todavia está “travado” pela falta de mínimo das Instituições de Ensino Superior de Arquitetura e
aplicação crítica mediada com a cadeia produtiva, como Urbanismo, encontramos apenas a “recomendação” de que os
mencionado mais acima. A aparente “ausência de saídas”, dá canteiros experimentais façam-se presentes no ambiente de
ares de cristalização da questão, que é velada por um discurso formação dos arquitetos. Não se trata de exigência qualquer,
ideológico avassalador: é piegas e chato dizer tais coisas no trata-se de um espaço a “auxiliar” nossa formação. Já a situação
estúdio, ou nas salas de aula. A possibilidade de levantar essas da separação dos fazeres, que constitui nosso ensino
lebres fica reservada apenas para os livros, e para “os críticos”, profissional, não é sequer mencionada, como tema mínimo a ser
que segundo uma visão limitada são taxados de “não abordado. De fato, não era de se esperar outra coisa, pois se

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assim fosse exigido estariam a atear fogo nas faculdades de Nem é mencionada a possibilidade de atuação numa cooperativa As mãos de quem faz, de como se faz, o erguer da obra não são
arquitetura, sepultando a profissão do arquiteto alienado, o que de construção, por exemplo, ou alguma forma outra de atuação sequer visualizados a olhos nus.
certamente passaria longe das vontades dos formados arquitetos no ambiente profissional. É mencionada a saída pelo poder
que controlam tais processos de reprodução da sua profissão. público, sim, mas ainda hoje limitada pelo “Estado Mínimo”, Pouco sabemos do que ocorre por detrás dos tapumes-
apesar das constantes promessas de contratação pela PMSP e paliçadas17 das obras, seria importantíssimo termos mais contato
Mas por quê não exigir uma abordagem da cadeia produtiva no recente amplo concurso. com o ambiente de trabalho que mata 2.503 operários por ano e
como um todo nas faculdades? fere 326.071, em todo Brasil.18 Nossa postura seria outra frente ao
Seríamos injustos em dizer que não há, na Fau, crítica alguma ao desenho.
Não seria interessante, para não dizer vital, o reconhecimento de modelo de produção vigente, faz-se a crítica, porém limitada ao
que somos uma peça, chave, para a produção das mercadorias desenho, e enquanto nos mantemos arquitetos alienados do Mas o que fazer para que os filhos da elite paulistana se
habitáveis e úteis em geral? canteiro. Produzimos “revolucionárias” formas: projetamos casas, interessem por tais coisas, se “consideram o trabalho manual
escolas, hospitais... para “todos os homens”, para “toda degradante; os intelectuais são dignos e os que trabalham com as
Há o empreendedor, há o construtor, há o incorporador... se for o sociedade” (será que a edificação de Brasília foi em vão? Assim mãos são indignos. Por isso as escolas técnicas se enchem de
arquiteto desde o início de sua formação consciente dos parece). filhos das classes populares e não das elites”.19
interesses em jogo, dizem alguns, “o que restaria à liberdade
criativa do desenhista sonhador”? Deixamos de lado a experiência mais gratificante e Vivemos separados, guardados em vidrinhos blindados, a sorrir a
transformadora de ver germinar as idéias no ideal desenhado, de cada traço belo e leve riscado.
ver o pensar virar coisa, matéria, para gerar repensar, para um
novo fazer, um novo desenho, por que paramos? nas escolas a reprodução da morte da arte na cidade

Por quê não permitir o afloramento da contradição primeira e “(...) nos tempos de desigualdade, a condição
transformadora estabelecida entre a idéia e a matéria, essencial da vida dos ricos era o fato de não
produzirem eles próprios as coisas que
desalienando canteiro e desenho? usavam de adorno de suas vidas, mas o de
serem aqueles que forçavam quem fabricava a
Tivemos poucas visitas a obras... Quanto pesa um tijolo? Qual a viver numa vida sórdida e miserável, e que a
possibilidade de um parafuso furar determinada superfície se esta conseqüência necessária da sordidez e da
aridez dessa vida se reproduzia nos adornos da
superfície é apenas um conto de fadas?
vida dos ricos, e a arte morreu entre os
homens”.20
Há o Lame, mas subutilizado; há o canteiro, mas subutilizado,
compartimentado, distante, não apenas fisicamente, mas mental Nossas atividades de projeto nos estúdios quase sempre
Se as coisas fossem discutidas, de fato, em sala de aula, não e culturalmente, principalmente. A maior parte de nossa terminam em lindas pranchas apresentadas em solenes
estariam os recém formados a enfrentar essa forma piramidal de formação se dá sob paredes espessas de concreto opaco. Como seminários. Nossa “grande tarefa social” é abortada em seu
mandos e decisões de modo tão infrutífero. Poderiam melhor tatear na vida o chão se, desde o início de nossa formação, momento mais frágil, em seu nascedouro mais elementar,
dialogar, e propor alternativas de comunicação entre os estamos cegos na escuridão? quando ainda papel, em cores distantes dos volumes e sombras
patameres do que mais parece uma torre de babel, cada qual vivas de um real edifício.
com sua língua, incomunicáveis. Apenas com slides para exemplificar gruas, desenhos de “bob-
cats” nas lousas e cortes esquemático de caixilhos? Se o estudante de arquitetura não compreender “na pele” essas
Se virarmos essa forma piramidal, estaremos a fazer uma separações, passará a erguer obras pelas cidades, a pensar
revolução. Não é assim que se chama, em matemática, quando “fazer um bem”, e ainda as chamarão alegremente de “obra de
viramos um sólido geométrico? Por que não virá-la? Achatá-la? arte”.
Intervir... mas como intervir ?
Arquitetos formam-se, recebem canudos das universidades e
Poderíamos pensar, elocubrar, de forma libertária, caminhos para champanhes de nossas famílias, pensando todos: “lá se forma
esse ‘virar do sólido’. O que não remeteria certamente em idéias mais um artista da construção”!
de carnificina, conspiração. Não podemos matar nossos colegas,
Mao Tsé Tung já o fez e a China passa por transformações Será que poderíamos chamar os edifícios “bem resolvidos” e
capitalistas. O período histórico recentemente vivido gera diversas “bonitos”, apenas projetados por estes arquitetos, de “obras de
incertezas de como atuar sobre o futuro, mas sabemos que será arte” ?
através da construção da autonomia do ser humano, e não o
contrário. Dificilmente.

Realmente, como avançar se na matéria última de nosso curso - Para brevemente rechear o difícil debate sobre a leitura da
legislação - é apresentada como o melhor meio de atuação arquitetura como produção artística, vejamos alguns trechos
profissional para os arquitetos, os alienantes escritórios de organizados por Ruskin21 em meados do século dezenove,
arquitetura? período em que as atividades fabris da revolução industrial já

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apontavam suas mazelas, mas ainda antes da composição da informes, aquelas estátuas austeras, rígidas e sem anatomia; mas Parece que se quisermos chamar de obra de arte os imóveis de
“crítica da economia política” e de William Morris encampar a luta não zombe delas por que são sinais da vida e da liberdade de arquitetura, e a nós arquitetos de artistas, teremos de por as mãos
contra o processo de alienação do artesão frente à frenética cada trabalhador que golpeou aquelas pedras; de uma liberdade na massa.
alegoria da transformação dos utensílios em mercadoria de pensamento, em tal grau na escala dos seres, que nenhuma lei,
industrializada. nenhum título, nenhuma caridade seria capaz de assegurar, mas Mas e se ficaremos apenas com o que fazemos: maquetas,
que deveria ser o objetivo primeiro da Europa atual reconquistar pranchetas e mouses virtuais, ainda ali podemos chamar de arte,
Ruskin, de modo didático e sensível, ao analisar os ornamentos para as suas crianças”. (§ XIV). feita com as mãos, enquanto que só lá no canteiro, lá longe, na
das obras arquitetônicas, classifica-os a partir de seu modo de cidade, é manufatura22 ... tudo bem! Ainda somos artistas, de
produção. Observa como foram produzidos, o processo como Olhando por esse ângulo, extremamente diverso do usual, o escritório, estúdio, atelier.
se desenham as relações sociais na obra e como isso se conceito de beleza poderia até seguir outros parâmetros se
materializa em formas. Trata-se de um olhar processual. Algo que inserirmos em nossos julgamentos estéticos o processo de Um momento. Não confundamos as coisas, denovo, Sérgio
pouco se faz na Fau. produção das coisas. Ferro já deflagrou e, sejamos coerentes: como fazemos os
desenhos e maquetes para serem construídos, não nos
Ele classifica: “1. O ornamento servil, no qual a execução ou o Depois voltaremos ao tema particular da beleza. Antes, vejamos enganemos, a arte nos passa longe. Somos peça de
poder do trabalhador inferior é inteiramente submetido ao intelecto como também pode ser observado através de outro prisma a engrenagem, de reprodução do capital.
do superior; 2. O ornamento constitucional, no qual o poder formação dos construtores das obras arquitetônicas, nossos
inferior executivo é até certo ponto emancipado e independente, e companheiros de cadeia produtiva, os operários. Ruskin afirma Até aí, sem novidades.
tem vontade própria, ainda que confesse a sua inferioridade e que o que ocorreu nas catedrais, “(...) devemos fazer com todos
preste obediência a poderes mais elevados; 3. ornamento que entre nós labutam: procurar a sua parte pensante e fazê-la Mas não desistamos assim da conversa, vejamos a alegoria
revolucionário, no qual nenhuma inferioridade executiva é desabrochar não importando o que se perca com isso, nem com abaixo, e como está feliz o homem a pintar... e o operário, a
admitida.” (§ IX). que faltas e erros sejamos obrigados a arcar. Pois o que de operar.
melhor há neles não poderá se manifestar senão acompanhado de
Mais adiante Ruskin dá exemplos de onde esses ornamentos muito erro. Que se entenda isso claramente: pode-se ensinar um
podem ser encontrados. Ao abordar a escola grega, classifica-a homem a traçar uma linha reta e a cortá-la, a lançar uma linha
como praticante do “ornamento servil”: “Na Grécia, o artífice curva e cinzelá-la e a copiar e cinzelar, com admirável rapidez e
mestre era muito mais adiantado em conhecimento e em poder perfeita precisão, um número infinito de linhas e formas, a partir de
que o assírio ou o egípcio. Nem ele, nem aqueles para quem modelos dados, e você achará o trabalho perfeito em sua espécie.
trabalhava, podiam suportar qualquer aparência de imperfeição, e, Mas se pedir-lhe que pense a respeito de qualquer uma destas
portanto, o ornamento que agregava à execução de seus formas, que considere se não poderá inventar uma melhor por sua
subordinados era composto de meras formas geométricas - bolas, própria conta, ele simplesmente irá parar, a sua execução
sulcos e folhagem perfeitamente simétricas - que podiam ser tornarse-á hesitante, ele pensará, e aposto que pensará errado;
executadas com absoluta precisão em régua e linha, e, quando aposto que este ser pensante cometerá um erro no primeiro toque
terminadas, eram ao seu modo tão perfeitas quanto as figuras que aplicar em seu trabalho. E, apesar de tudo, você terá feito dele
esculpidas pelo próprio mestre.”(§ IX) um homem, pois até então era apenas uma máquina, uma
ferramenta animada”. (§ XI).
Tal modo de produção está representado na maior parte das
obras da arquitetura moderna paulistana. Coisas para se pensar... A ação pensante é condição primeira na produção artística. Se
quisermos considerar arquitetura como arte, “a regra a seguir é
Ainda que mergulhado em crenças mais etéreas da cristandade bastante simples: considere em primeiro lugar a invenção, isto é,
medieval, ao citar as obras Góticas, com “ornamentos sem custar ao inventor qualquer esforço doloroso, e nada além
revolucionários”, Ruskin nos dá pistas sobre o gérmem de disso. Acima de tudo, não exija qualquer refinamento de execução
questões que depois seriam trabalhadas por William Morris, ali onde o pensamento está ausente, pois isto é trabalho escravo,
Sérgio Ferro e outros: sem qualquer compensação. Ao invés disso, prefira o trabalho
áspero ao polimento cuidadoso, em que apenas o propósito
“Mas no sistema medieval, ou especialmente cristão, de prático é atendido, e nunca acredite ser possível orgulhar-se Assim, tão descaradamente, parece tão absurdo... parece
ornamento, essa escravidão [das obras gregas] é inteiramente daquilo que se realiza à base de paciência e lixa”. (§ XV). escandaloso isso.
abolida, uma vez que a Cristandade reconhece o valor individual
da cada alma tanto nas pequenas como nas grandes coisas” (§ X). E ainda: Estaria a produção de edifícios, erguidos coletivamente, então
Este “valor individual” dos construtores das catedrais góticas para sempre fadados à manufatura de uma cadeia produtiva
revela a possibilidade de existência de um outro valor estético, “os pensamentos de um homem jamais podem ser expressos por exploratória? Por que não podemos voltar a edificar, com arte,
denominado por Ruskin de “selvatiqueza”, presente nas obras um outro: e a diferença que existe entre o dom do toque daquele coisas “maiores”, além de “pequenas” coisas?
medievais se observadas através do seguinte prisma: “(...) retorne que inventa e do homem que obedece as instruções é, com
à contemplação da fachada da velha catedral que tantas vezes lhe freqüência, tudo o que diferencia o trabalho artístico grandioso do Mesmo que não optemos em colocar a mão na massa de nossas
fez sorrir da espantosa ignorância de seus velhos escultores: comum”. (§ XXI). obras, paremos então de considerar arquitetos como artistas.
examine uma vez mais a feiúra daqueles diabretes e monstros Tenhamos consciência, ao menos, do que fazemos.

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Agora, aos arquitetos que querem ainda lutar e produzir “arte 1


Engels, Anti-Duhring, in Werke, 20, pp.271-272, em Crítica da Educação e do Ensino,
Karl Marx e Friedrich Engels: 10.
contra a barbárie” de nossas cidades há alternativas, há
caminhos (considerados duros) de serem trilhados, que segundo 2
Sérgio Ferro esteve no Brasil diversas vezes nos últimos anos, dando entrevistas,
Ruskin, resultaram na arquitetura gótica: “na medida que o conferências na Fau, a convite do Gfau, IAB, Fau Maranhão. Que bão!
arquiteto, que supomos capaz de fazer tudo com perfeição, não 3
O TFG de Pedro Arantes é um deles, intitulado “Arquitetura Nova: sérgio ferro, Flávio
pode executar o todo com suas próprias mãos, ou bem haverá de Império e Rodrigo Lefévre, de Artigas aos mutirões”, que muito contribui para nossa
escravizar os seus trabalhadores à velha moda grega, e geração em formação, tecendo uma possível linha que estebeleça conexões desejadas.

atualmente Inglesa, e nivelar seu trabalho às capacidades de um 4


Vive-se hoje uma “segunda geração” de arquitetos mutirantes nas assessorias técnicas,
escravo, o que é degradá-lo; ou bem aceitar os seus buscando reinventar um fazer ainda em pesquisa-ação.
trabalhadores tal qual os encontra, deixando-os revelar as suas 5 Por exemplo, dos que tenho conhecimento, o coletivo de arquitetos recém formados:
franquezas ao mesmo tempo que sua força, o que provará a atelier “colectivo” e “fábrica da Bijari”.
imperfeição do gótico, mas enobrecerá o trabalho tanto quanto o
6 “é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em
intelecto da época permite”.(§ XXII) estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo no qual
os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão
A construção por cooperativas, a exemplo das construções envolvidos de modo cooperativo ou participativo.” Thiolent:14.

góticas poderia ainda ser viável, se sua lógica mais feliz fosse 7 Há diversas versões para as intensões que aqui dispenasamos às intenções de Artigas
considerada, de modo a ser aplicada: São Paulo, 2004, questões e do Partido Comunista, em “desenvolver as forças produtivas”. Ao menos, a mais
difundida, e que chegou mais bem estruturada em nossos ouvidos, é de que primeiro
atuais e respostas atuais, lógico que sem mimetismos deveriamos incentivar o desenvolvimento do capitalismo, com suas contradições internas,
desfigurantes. deixando-as mais críticas, a fim de gerar uma re-ação do proletariado contra as classes
opressoras. Tratar-se ia de uma compreensão “etapista” da história, ou pré-programada,
com objetivos a longo prazo.
A arte voltaria às cidades?
8 Paulo Freire, de modo didático busca organizar as diferentes “consciências e seus
Se as respostas dos professores de arquitetura a seus alunos estados” em cosciência Ingênua, Crítica e Fanática, em Educação e Mudança: 39.

continuarem a seguir a seguinte cena: 9


Motta:03.

10
Idem,grifo nosso.

11
Idem:4, grifo nosso.

“ 12
Idem:8.

13
Ronconi:152.

14
Arantes, parafresando Artigas.
A: professor, eu fiz alguns desenhos e queria te mostrar.
P: Legal, deixa eu ver, senta aí. 15
Aqui retomada por Sérgio Ferro:30.
A: (deixa prof. olhar um pouco, e fala timidamente) Aqui é um... 16
Levantamento realizado por Ronconi, 2001: “Com os dados recolhidos pudemos
P: (interrompe aluno e diz) mas, e esses pilares? constatar que das 132 (cento e trinta e duas) faculdades de arquitetura e urbanismo
não precisa, tira esses aqui e deixa dois, só. existentes, 11 (onze) declaram possuir um Canteiro Experimental. Por outro lado, 27 (vinte
e essa viga? e sete) delas afirmaram trabalhar com laboratórios de construção. Existindo uma
intersecção composta por 5 (cinco) faculdades que possuem ambos os equipamentos.
por que você não faz ela... Ou seja, apenas 28,79% das nossas faculdades demonstram um interesse mais
vazar essa parede? pragmático por esse tipo de atividade”.
A: (silencio por algum tempo, pensa) mas... 17
A expressão é utilizada por Sérgio Ferro: “Se o tapume-paliçada protege o vazamento
P: é. (firme e confiantemente) das “perverções”, determinando um espaço carceral (ver M. Foucault, Vigiar e Punir,
A: mas professor, mas como? 1975) apóia o controle”.
P: é... ué? (silêncio, impasse). um cemnúmero de questões ainda restam
18
Ministério do Trabalho, 2000.
A: (silêncio, segura, e irrompe novamente envergonhado) mas...
mas como?
19
PF, Educação e Mudança, 35. De modo a não chatear demais os leitores, causando cansaço e
P: ah ! não importa ! é belo ! (gesticula bravamente furando a possível dispersão em tantas conversas, restando aí pouca
20
William Morris, Notícias de Lugar Nenhuem:285. Trata-se de uma ficção que nos conta o
matéria etérea com as mãos) percurso de um inglês, que realiza uma viagem ao futuro, quando pode vivenciar os energia para o debate sobre a proposta-pergunta em causa,
resultados de uma revolução comunista mundial. Esta frase conta sobre o passado passemos adiante. Lá trataremos das mesmas questões,
longínquo pré-revolucionário, ou seja: Hoje. simultaneamente ao caminhar.
21
John Ruskin, “A Natureza do Gótico”, 1851, no prelo, tradução de José Tavares Correia
de Lira. Adiante.
” 22
De modo a melhor compreender o que pretendemos dizer aqui com manufatura, nos
apoiaremos em Artantes (:113), a partir de Sérgio Ferro e Adam Smith, onde manufatura Não nos afobemos, pois essas contradições têm emergido desde
trata-se de “Uma transição entre o trabalho artesanal e a forma industrial [de produção. que resolvemos sair das matas e erguer cidades, e ainda vão
(...) Na manufatura o Capital fratura o trabalho e se para as ações em pedaços, numa
decomposição forçada dos ofícios. As equipes são organizadas para tarefas limitadas nas continuar a nos espezinhar por algum tempo, em debates
Podemos dizer que não tão cedo. quais a compreensão da totalidade do processo, presente no artesão, é dispensada”. futuros, leituras restantes.

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