Você está na página 1de 230

Natureza & Conservação

Revista Brasileira de Conservação da

The Brazilian Journal of Nature Conservation

Natureza

Abril, 2009 - vol. 7 - nº1 -

Apil, 2009 - vol. 7 - n.1

ISSN 1679-0073

Natureza Abril, 2009 - vol. 7 - nº1 - Apil, 2009 - vol. 7 - n.1
Natureza Abril, 2009 - vol. 7 - nº1 - Apil, 2009 - vol. 7 - n.1
FULL ENGLISH VERSION INCLUDED
FULL ENGLISH
VERSION
INCLUDED
Conservar a natureza é a nossa missão A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza
Conservar a natureza é a nossa missão A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza
Conservar a natureza é a nossa missão A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza

Conservar a natureza é a nossa missão

A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza é uma

organização sem fins lucrativos, com sede em Curitiba e atuação em todo o território nacional. Foi criada em 1990, pela empresa O Boticário, para promover e realizar ações de conservação da natureza. Desde então, a Fundação O Boticário produziu resultados efetivos e expressivos não só em favor da proteção e preservação das espécies e patrimônios naturais ameaçados de extinção, mas da natureza como um todo.

Atuação em todo o Brasil

As ações da Fundação O Boticário são definidas e planejadas de

forma integrada. Com isto, são otimizados recursos e obtidos resultados cada vez mais efetivos para a conservação da natureza no Brasil, garantindo condições de vida para esta e para as futuras gerações.

A Fundação cria e mantém Reservas Naturais em locais de

relevante importância ambiental para proteger amostras dos diferentes biomas brasileiros, com suas características próprias e fundamentais para a manutenção da vida de todas as espécies. Assim, também contribui com o esforço público para a conservação da natureza.

Por acreditar que é fundamental disseminar conhecimentos, valores e atitudes conservacionistas, a Fundação realiza o Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, considerado um dos mais relevantes eventos regulares sobre conservação da natureza na América Latina.

A Fundação O Boticário prioriza sua atividades nas regiões

onde estão implantadas suas reservas naturais e estações naturezas. Mas, por seu compromisso com a geração de conhecimento e para viabilizar projetos consistentes de proteção à natureza, também fomenta a atividade de outras organizações, por meio do apoio a projetos de conservação, que financia

iniciativas em todas as regiões do Brasil.

Natureza & Conservação Abril 2009. Vol.7. nº 1. Fundação O Boticário de Proteção à Natureza

Natureza & Conservação

Natureza & Conservação Abril 2009. Vol.7. nº 1. Fundação O Boticário de Proteção à Natureza Natureza
Natureza & Conservação Abril 2009. Vol.7. nº 1. Fundação O Boticário de Proteção à Natureza Natureza

Abril 2009. Vol.7. nº 1. Fundação O Boticário de Proteção à Natureza Natureza & Conservação. Curitiba-PR. V.7 nº1. pp 1-227. Abril 2009

ISSN 1679-0073

Expediente Revisão de idioma (português) Jan Gerd Schöenfelder Revisão de idioma (inglês) Maísa Guapyassú

Expediente

Revisão de idioma (português)

Jan Gerd Schöenfelder

Revisão de idioma (inglês)

Maísa Guapyassú

Tradução Português/Inglês e Inglês/Português

Paulo Roberto Maciel Santos

Supervisão gráfica

Daniélle Carazzai

Editoração:

SK Editora Ltda. (Saulo Kozel Teixeira)

Impressão:

Oficina do Impresso

Tiragem

1.200 exemplares

A Revista Natureza & Conservação é totalmente impressa em papel 100% reciclado off set alcalino com 25% de aparas pós-consumo, nas gramaturas 90 e 150 g/m 2 . Esta é uma opção da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza que está diretamente relacionada com o compromisso da organização em proteger a natureza.

Fotos capa:

Haroldo Palo Jr da organização em proteger a natureza. Fotos capa: Haroldo Palo Jr Fotos internas: Haroldo Palo Jr.,

Haroldo Palo Jr em proteger a natureza. Fotos capa: Haroldo Palo Jr Fotos internas: Haroldo Palo Jr., G. Gatti,

Fotos internas:

Haroldo Palo Jr., G. Gatti, José Sabino, Paulo Chaves Camargo e Lucas Pontes

Fundação O Boticário de Proteção à Natureza

Rua Gonçalves Dias, 225. Batel. Curitiba – Paraná – CEP 80240-340 Fone: +55 41 3340-2636 Fax: +55 41 3340-2635 e-mail: contato@fundacaoboticario.org.br http://www.fundacaoboticario.org.br

Corpo Editorial de Natureza & Conservação SECRETARIA EXECUTIVA Fundação O Boticário de Proteção à Natureza:

Corpo Editorial de Natureza & Conservação

SECRETARIA EXECUTIVA Fundação O Boticário de Proteção à Natureza: Maísa Guapyassú; Maria de Lourdes Nunes, Laurenz Pinder

CONSELHO EDITORIAL Leide Yassuco Takahashi – Editor-Responsável Alfred Runte – Pesquisador Autônomo – EUA; Carlos Firkowski – Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Brasil; Fabio Olmos Pesquisador Autônomo – Brasil; Fernando Fernandez - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – Brasil; George Wallace – Colorado State University – EUA; Glenn Haas – Colorado State University – EUA; Gustavo Fonseca - Conservation International – EUA; Ibsen de Gusmão Câmara – Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação – Brasil; John Terborgh – Duke University – EUA; Katrina Brandon - Conservation International – EUA; Kent H. Redford – The Wildlife Conservation Society – EUA; Kenton R. Miller – World Resources Institute- EUA; Marc Douroujeanni – Fundação Pro-Naturaleza – Peru; Mauro Galetti – Universidade Estadual Paulista – (UNESP-Rio Claro) – Brasil; Miguel Serediuk Milano – Fundação Avina – Brasil; Patrick Tierney – San Francisco State University – EUA; Paulo Kageyama – Universidade de São Paulo (ESALQ) Brasil; Peter Grandsen Crawshaw Jr – IBAMA – Brasil; Richard Primack – Boston University - EUA

GRUPO DE REVISORES Ademir Reis – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Brasil; Adriana Maria Zalla Catojo Rodrigues Pires - Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) – Brasil; Anthony Brome Rylands - Conservation International – EUA; Antonio Solé Cava - Universidade Federal

do Rio de Janeiro (UFRJ)– Brasil; Armando Cervi - Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Brasil; Carlos Peres – University of East Anglia

– Reino Unido; Carlos Ramón Ruiz-Miranda – Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) – Brasil; Efraim Rodrigues

Universidade Estadual de Londrina (UEL) – Brasil; Emygdio Leite de Araújo Monteiro Filho - Universidade Federal do Paraná (UFPR) –

Brasil; Érica P. Caramaschi - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)– Brasil; Everton Passos – Universidade Federal do Paraná (UFPR)

– Brasil; Francisco Manuel de Souza Braga - Universidade Estadual Paulista (UNESP-Rio Claro) – Brasil ; Frederico Pereira Brandini

Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Brasil; Gunars Hauff Platais – Banco Mundial – EUA; James J. Roper – Pesquisador autônomo – EUA; Jane Maria Vasconcellos – Pesquisadora Autônoma – Brasil; Jaqueline Maria Goerck - SaveBrasil – Brasil; Jean Paul Metzger Universidade de São Paulo (USP) – Brasil; José Marcelo Domingues Torezan – Universidade Estadual de Londrina (UEL)– Paraná; José Salatiel Rodrigues Pires – Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) – Brasil; Letícia Peret Antunes Hardt – Pontifícia Universidade

Católica do Paraná (PUC-PR); Luciano M. Verdade - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) – USP – Brasil; Luiz dos Anjos

– Universidade Estadual de Londrina (UEL) – Brasil; Luiz Carlos de Miranda Joels – Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) – Brasil;

Marcos Rodrigues – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – Brasil; Marcelo Tabarelli – Universidade Federal de Pernambuco (UF- PE) – Brasil; Márcia Cristina Mendes Marques - Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Brasil; Maria Cecília Martins Kierulff – Fundação

Parque Zoológico de São Paulo – Brasil; Maria Inez Pagani – Universidade Estadual Paulista – (UNESP-Rio Claro) – Brasil; Milton Kanashiro

– Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) – Brasil; Paulo dos Santos Pires – Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) –

Brasil; Pedro F. Develey - SaveBrasil – Brasil; Sandro Menezes Silva – Conservation International do Brasil – Brasil; Sérgio Lucena Mendes Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) – Brasil; Sérgius Gandolfi - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) – USP

– Brasil; Stuart Marsden – Manchester Metropolitan University – Inglaterra; Teresa Cristina Magro – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) – USP – Brasil; Vania Regina Pivelo – Universidade de São Paulo (USP) – Brasil; Wesley R. Silva - Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Brasil; William E. Magnusson – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) Brasil; William Laurance

– Smithsonian Tropical Research Institute - EUA

Objetivos Em sintonia com sua missão de conservação da natureza, a Fundação O Boticário de
Objetivos Em sintonia com sua missão de conservação da natureza, a Fundação O Boticário de
Objetivos Em sintonia com sua missão de conservação da natureza, a Fundação O Boticário de
Objetivos Em sintonia com sua missão de conservação da natureza, a Fundação O Boticário de
Objetivos Em sintonia com sua missão de conservação da natureza, a Fundação O Boticário de

Objetivos

Em sintonia com sua missão de conservação da natureza, a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza publica Natureza & Conservação, que apresenta textos de caráter científico, filosófico e técnico, abordando temas relacionados à biologia da conservação, manejo de áreas naturais protegidas e ética ambiental, entre outros. Natureza & Conservação é um periódico se- mestral bilíngüe (português e inglês) que tem por objetivo promover dis- cussões, disseminar idéias e apresentar resultados de pesquisas voltadas à conservação da natureza com enfoques locais, regionais, nacionais e globais. Não existem restrições com relação aos potenciais autores a serem publica- dos em Natureza & Conservação; no entanto, os artigos devem estar dire- tamente relacionados com a conservação da natureza.

Envio de artigos

Todas as contribuições, incluindo artigos, livros para resenha e informações para a seção de notas devem ser enviados em meio digital à Secretaria Executiva de Natureza & Conservação, preferencialmente em inglês e por- tuguês, para natureza&conservacao@fundacaoboticario.org.br, ou via cor- reio para Rua Gonçalves Dias, 225. Batel, Curitiba, Paraná, 80240-340, Brasil.

O Conselho Editorial se reserva o direito aceitar os artigos para a publica-

ção, após a revisão por especialistas que compõem o Comitê Editorial da Revista. A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza detém os direitos do material publicado.

Direitos autorais

Todas as informações e opiniões expressas nos artigos publicados são de in- teira responsabilidade de seus autores. Os artigos aceitos se tornam copy- right da Revista (© 2009 Fundação O Boticário de Proteção à Natureza).

A reprodução total ou parcial dos artigos só pode ser feita citada a fonte,

não sendo permitido seu uso para fins comerciais, sem autorização expres-

sa da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.

Indexações e base de dados

Natureza & Conservação está nos seguintes indexadores e bases de dados:

ISI

Periodica

CABI International

Latindex

Qualis B2 na área de Ecologia e Meio Ambiente da CAPES Qualis B na área de Ciências Agrárias da CAPES Qualis B na área Multidisciplinar da CAPES

Ponto de Vista

8

O mapa das UCs será o mapa da inclusão so- cial? José Augusto Drummond José Luiz de Andrade Franco

17

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas sub- urbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil Demétrio Luis Guadagnin Isabel Cristina Ferreira Gravato

Artigos Técnico-Científicos

30

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado Kátia Torres Ribeiro Jaqueline Serafim do Nascimento João Augusto Madeira Leonardo Cotta Ribeiro

50

Representatividade de Ecossistemas no Sistema de Unidades de Conservação no Estado do Paraná, Brasil Raquel Fila Vicente André Luís Laforga Vanzela José Marcelo D. Torezan

67

Perfil de atores sociais como ferramenta para definição de unidade de conservação marinha: caso da Ilha dos Franceses, litoral sul do Espírito Santo, Brasil Hudson T. Pinheiro Arthur L. Ferreira, Rodrigo P. Molina Ligia M.C. Protti Sarah C. Zanardo Jean-Christophe Joyeux. PhD Jaime R. Doxsey

81

Atropelamentos de mamíferos silvestres na região do município de Telêmaco Borba, Paraná, Brasil Tânia Zaleski Vlamir Rocha Sérgio Adão Filipaki Emygdio Leite de Araujo Monteiro-Filho

95

Efetividade de gestão das unidades de conser- vação de uso sustentável do estado do Tocantins Frederico Bonatto Mariana Napolitano Ferreira Fernán Enrique Vergara Figueroa

105

Comportamento de corte em onças-pintadas no pantanal do Mato Grosso do Sul Caroline Leuchtenberger Peter Crawshaw Guilherme Mourão Carlos Rodrigo Lehn

110

Agenda

Point of View

124

Will the map of PAs be one of social inclu- sion? José Augusto Drummond José Luiz de Andrade Franco

133

Value of Brazilian environmental legislation to conserve biodiversity in suburban areas a case study in Porto Alegre, Brazil Demétrio Luis Guadagnin Isabel Cristina Ferreira Gravat

Technical – Scientific Articles

146

Survey of the boundaries of the Atlantic Forest in the Serra do Cipó, Minas Gerais, Brazil, aiming at a better understanding and protection of a strongly threatened vegetation mosaic Kátia Torres Ribeiro Jaqueline Serafim do Nascimento João Augusto Madeira Leonardo Cotta Ribeiro

166

Ecosystem Representation in the Protected Areas System of the State of Paraná, Brazil Raquel Fila Vicente André Luís Laforga Vanzela José Marcelo D. Torezan

181

Profile of social actors as a tool the definition of marine protected areas: the case of the Ilha dos Franceses, southern coast of Espírito Santo, Brazil Hudson T. Pinheiro Arthur L. Ferreira, Rodrigo P. Molina Ligia M.C. Protti Sarah C. Zanardo Jean-Christophe Joyeux. PhD Jaime R. Doxsey

195

Run-over of wild mammals in the area of Telêmaco Borba, Paraná, Brazil Tânia Zaleski Vlamir Rocha, Dr. Sérgio Adão Filipaki Emygdio Leite de Araujo Monteiro-Filho

208

Management effectiveness of protected areas of sustainable use in the state of Tocantins Frederico Bonatto Mariana Napolitano Ferreira Fernán Enrique Vergara Figueroa

218

Courtship behavior by Jaguars in the Pantanal of Mato Grosso do Sul Caroline Leuchtenberger Peter Crawshaw Guilherme Mourão Carlos Rodrigo Lehn

223

Datebook

224

General Guidelines to Contribuitors

Caro leitor O décimo-terceiro número da Revista Natureza & Conservação chega a público quase que

Caro leitor

O décimo-terceiro número da Revista

Natureza & Conservação chega a público quase que inteiramente dedicado a unidades de conservação.

Sua leitura servirá como reflexão para as confe-

rências, mesas-redondas, seminários e debates que ocorrerão durante o VI Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação e II Simpósio Internacional de Conservação da Natureza que será realizado entre 20 a 24 de se- tembro de 2009, em Curitiba, PR.

Diante de um cenário de grandes mudanças, tanto climáticas quanto políticas e econômicas, é essencial analisar os principais fatores que impactarão diretamente na proteção da biodi-

versidade e discutir as melhores estratégias de conservação dos recursos naturais. Desta for-

ma, com o tema “Conservação das áreas natu-

rais num mundo em transformação”, o evento citado anteriormente tem o desafio de inspirar e motivar àqueles que trabalham nas unidades,

facilitar a troca de experiências e ser palco de discussões sobre os mais inovadores estudos

em políticas, planejamento e gestão de áreas protegidas no Brasil e em outros países.

Reserve sua agenda inscreva-se o quanto an- tes para ampliar seus conhecimentos com os maiores especialistas sobre a temática que os organizadores tradicionalmente trazem ao evento. Os artigos apresentados a seguir esti- mularão sua curiosidade e a necessidade de aprofundamento.

Editorial

6
6

Abre a revista o artigo de opinião de dois pes- quisadores do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, José Augusto Drummond e José Luiz de Andrade Franco, com o instigante título “O mapa das UCs será o mapa da inclusão social?”. Nesse ar- tigo, os autores analisam a real política de cria- ção e gestão de unidades de conservação no Brasil, destacando a falta de conexão entre po- líticas dos diversos ministérios federais, a pou- ca atenção que as unidades de conservação brasileiras vem recebendo, a imensa pressão social que sofrem e, consequentemente, a difi- culdade em garantir a proteção da biodiversi- dade brasileira. Esta discussão traz questões cruciais para a sobrevivência das unidades de conservação brasileiras.

Segue-se a esse outro artigo de opinião, que analisa se a legislação brasileira ordinária, rela- tiva a questões ambientais, está protegendo de fato a biodiversidade, usando como estudo de caso as áreas verdes urbanas de Porto Alegre. Em “O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas su- burbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil”, Demétrio Luis Guadagnin e Isabel Cristina Ferreira Gravato avaliam o grau em que áreas protegidas como “Áreas de Preservação Permanente” (APP) se ajustam a áreas-chave para a conservação da biodiversi- dade nos subúrbios de Porto Alegre, com base na estrutura e contexto espacial dos biótopos naturais e na distribuição de hábitats potenciais das espécies ameaçadas. Lamentavelmente, concluem que as regras para utilização de ter- ras na legislação ambiental brasileira não fo- ram explicitamente criadas para proteger áreas-chave para a biodiversidade.

Dentre os artigos técnicos, Kátia Torres Ribeiro, Jaqueline Serafim do Nascimento, João Augusto Madeira e Leonardo Cotta Ribeiro tra- zem uma proposta de ampliação dos até então considerados limites da Mata Atlântica brasi- leira, de modo a proteger um mosaico de ve- getação que ocorre na Serra do Cipó, em Minas Gerais. No artigo “Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado” são analisadas as características únicas da re- gião em estudo, famosa pela riqueza e ende- mismo dos seus campos rupestres. Com base

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 6-7

em testemunhos científicos antigos e recentes, mapeamento em campo da distribuição das es- pécies arbóreas indicadoras de Mata Atlântica, da contigüidade das matas e posicionamento de frentes estacionárias, o bioma Mata Atlântica na região foi re-delimitado em escala 1:100.000, propondo o acréscimo de quase 50 mil hectares a unidades de conservação como o Parque Nacional da Serra do Cipó e a APA Morro da Pedreira.

Discutindo a ”Representatividade de Ecossis- temas no Sistema de Unidades de Conservação no Estado do Paraná, Brasil”, Raquel Fila Vicente, André Luís Laforga Vanzela e José Marcelo D. Torezan concluem que as diferentes formações vegetacionais paranaenses não estão adequadamente representadas no Sistema Estadual de Unidades de Conservação do Paraná, por meio de análise de lacunas. O tra- balho mostra que as formações mais ameaça- das, como o Cerrado, a Estepe, as Florestas Ombrófilas Mistas Montana e Aluvial e as Florestas Estacionais Semideciduais Montana e Aluvial, apresentam poucas áreas protegidas e escassos remanescentes.

No artigo “Perfil de atores sociais como ferra- menta para definição de unidade de conserva- ção marinha: caso da Ilha dos Franceses, litoral sul do Espírito Santo, Brasil”, Hudson T. Pinheiro, Arthur L. Ferreira, Rodrigo P. Molina, Ligia M.C. Protti, Sarah C. Zanardo, Jean- Christophe Joyeux e Jaime R. Doxsey avaliam o que pensam e desejam as pessoas que moram ou utilizam para lazer ou economicamente a área, destinada desde 2003 à criação de um par- que nacional marinho. Concluíram que apesar da proposta de criação da unidade de conser- vação seja desconhecida de um modo geral, ela é bem vista pela maioria dos entrevistados, de- vido à preservação cênica e ecológica do local, embora os mesmos entrevistados mostrem re- ceio quanto a restrições à visitação e à pesca. Os autores sugerem categorias e estratégias de im- plementação da unidade que melhor se enqua- dram à realidade socioambiental local.

Uma das questões que vem preocupando con- servacionistas brasileiros e de todo o mundo, diz respeito à perda de biodiversidade por atropelamentos em rodovias que cruzam ou cercam áreas naturais. Foi essa questão que le- vou Tânia Zaleski, Vlamir Rocha, Sérgio Adão

Editorial

Editorial

7
7

Filipaki e Emygdio Leite de Araujo Monteiro- Filho a avaliar “Atropelamentos de mamíferos silvestres na região do município de Telêmaco Borba, Paraná, Brasil”. O trabalho aponta as épocas do ano de maior incidência de acidentes com animais silvestres, as espécies mais afeta- das e destacam como causa principal o excesso de velocidade dos veículos. Sugerem medidas que contribuiriam para a redução dos números encontrados, e que podem ser reproduzidas em outras regiões.

Assunto que também está na pauta de discus- são dos conservacionistas é abordado por Frederico Bonatto, Mariana Napolitano Ferreira e Fernán Enrique Vergara Figueroa no artigo “Efetividade de gestão das unidades de conservação de uso sustentável do estado do Tocantins”. Os autores, com base em dezessete critérios, agrupados em seis grandes âmbitos concluíram que a efetividade de gestão das APAs do Tocantins variou entre 26 e 60%, sen- do que a média da efetividade de todas as uni- dades foi de 40,69%. Um ponto bastante inte- ressante apontado foi que as três Áreas de Proteção Ambiental com melhores resultados estão situadas no entorno de unidades de con- servação de proteção integral.

Fechando esta edição, na nota técnica “Comportamento de corte em onças-pintadas no pantanal do Mato Grosso do Sul”, Caroline Leuchtenberger, Peter Crawshaw, Guilherme Mourão e Carlos Rodrigo Lehn relatam o com- portamento de corte observado entre um casal de onças-pintadas (Panthera onca) nas margens do Rio Vermelho, Pantanal, Mato Grosso do Sul, que ao contrário da maioria das informa- ções sobre a reprodução dessa espécie, que são de animais em cativeiro ou de relatos de caça- dores, pode trazer contribuições importantes sobre o comportamento reprodutivo desta es- pécie na natureza.

Enfim, esse número da Revista, recentemente qualificada como B2 pela área de Ecologia da CAPES, é, mais uma vez, um convite à reflexão e discussão sobre como estamos – ou não – con- servando a natureza.

Boa leitura a todos!

Leide Takahashi

Editor-chefe

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 6-7

José Augusto Drummond – José Luiz de Andrade Franco

O mapa das UCs será o mapa da inclusão social?

Franco O mapa das UCs será o mapa da inclusão social? José Augusto Drummond, Ph. D.
Franco O mapa das UCs será o mapa da inclusão social? José Augusto Drummond, Ph. D.

José Augusto Drummond, Ph. D. 1

• Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília

José Luiz de Andrade Franco, Dr 2

• Pesquisador Associado Adjunto do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS-UnB)

A política brasileira de criação e gestão de

UCs precisa alcançar efetividade muito maior e em muitas dimensões. Os avanços dos anos recentes não bastaram para neutralizar anti-

gas e graves pendências, nem para evitar a re- corrência dessas pendências em novas UCs, nem para fazer com que elas cumpram a con- tento a sua função primordial de proteger a biodiversidade. A tentação e mesmo a neces- sidade de criar novas UCs continuam a pre- valecer sobre a igualmente necessária melho-

ra da gestão das UCs existentes. Isso tem co- mo virtude manter o ímpeto de superar os

notórios déficits de áreas colocadas legalmen-

te sob proteção e de fazer com que novas UCs

“cheguem antes” das atividades que mais ra- dicalmente alteram os ecossistemas, mas per- mite também que velhos problemas sobrevi- vam nas UCs antigas e se reproduzam nas UCs novas (Drummond et al, 2006; Araújo, 2007; Davenport e Rao, 2002).

1 jaldrummond@uol.com.br

2 jldafranco@terra.com.br

Ponto de Vista

8
8

Porém, esses problemas não retiram o valor e a importância da missão fundamental das nossas UCs, nem significam que elas fracas- saram. Ao contrário, as nossas UCs ainda são, de longe, a forma mais antiga, mais dissemi- nada, mais conhecida e mais eficaz de prote- ção de nossa biodiversidade. No que toca à proteção da biodiversidade, as UCs são mais eficazes, no seu conjunto, do que quaisquer outras políticas conservacionistas tomadas isoladamente: as políticas “punitivas” ou de “comando e controle” de limitação do uso destrutivo dos recursos naturais, as políticas “positivas” de estímulo ao uso previdente dos recursos naturais, as políticas de recupe- ração de áreas e recursos degradados, os pro- gramas de educação ambiental, o controle so- bre o uso dos recursos em propriedades ru- rais privadas (APPs e RLs), o licenciamento ambiental rural, as iniciativas privadas de preservação etc. O estímulo à continuidade de atividades extrativistas no seio de algumas categorias de UCs, apesar de sua elevada vi- sibilidade e possível relevância socioeconô- mica, talvez tenha contribuído para a melho- ria dos padrões de bem-estar de certos grupos

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

O mapa das UCs será o mapa da inclusão social?

sociais, mas isso teria se dado à custa de sub- sídios de legitimidade política duvidosa e da ampliação das áreas convertidas/desmatadas dentro dessas UCs. Ou seja, esses possíveis avanços são sociais, e não de proteção da bio- diversidade (Drummond et al, 2006; Câmara, 2004; Dourojeani e Pádua, 2001).

Bem que as UCs precisariam de maior ajuda dessas políticas sociais correlatas, que têm os seus próprios déficits, comumente grandes e por vezes enormes. A relativa “solidão” das UCs no campo das políticas de conservação abre os seus flancos para muitas críticas in- justas e mesmo infundadas e para exigências de que cumpram missões que não são suas. Mesmo assim, não adianta tapar os proble- mas das UCs com a peneira dos déficits des- sas outras políticas. Permanece relevante, as- sim, a constatação de que a proteção ofereci- da pelas UCs à biodiversidade ainda está lon- ge de alcançar um grau satisfatório (Drummond et al, 2006; Dourojeani e Pádua, 2001; Morsello, 2001).

Vale mencionar também os esforços recentes para a conservação da biodiversidade em ter- ras indígenas e terras de quilombolas. Embora bem intencionados e oportunos, tais esforços são ainda incipientes e o seu sucesso depende de vários fatores ainda mal enquadrados ou mal compreendidos: melhor conhecimento sobre o estado da conservação da natureza nessas terras; melhor conhecimento sobre as atividades produtivas e os projetos de vida dos seus ocupantes; o estado de suas relações com outros grupos da sociedade; e, tal como ocorre nas próprias UCs, a disposição de se fa- zer os investimentos públicos adequados (Drummond et al, 2006; Diegues, 2000).

Por tudo isso, entendemos que a política de proteção da biodiversidade com o emprego de UCs merece um foco específico (e não ge- nérico), uma atenção maior (e não menor) e uma execução mais sistemática (e não aleató- ria) do que os recebidos ao longo do conjunto de sua trajetória de 70 anos no Brasil. Por is- so, consideramos equivocada a forte tendên- cia atual de misturá-la ou subordiná-la a ou-

Artigos Técnico-Científicos

9
9

tras políticas públicas de cunho “social” ou “desenvolvimentista”. Usamos estes termos com aspas de propósito, para evidenciar as nossas reservas, pois consideramos que a pro- teção da biodiversidade em si mesma tam- bém serve a importantes objetivos sociais e de desenvolvimento, de interesse local, nacional, continental e planetário (Câmara, 2002; Magnanini, 2002; Terborgh e Schaik, 2002).

Em termos institucionais, a Lei do SNUC con- templa adequadamente a desejável associa- ção entre (1) a eficácia estritamente “preser- vacionista” ou “naturalista” das UCs e (2) os seus possíveis efeitos positivos sobre o bem- estar e o desenvolvimento das populações que residem nelas ou nas suas imediações. Isso está presente, entre outros pontos da lei:

na criação de sete categorias de UCs de uso sustentável (que permitem atividades produtivas, inclusive de comunidades re- sidentes ou vizinhas);

na previsão de conselhos de gestão das UCs que incluam integrantes das comuni- dades locais;

na obrigatoriedade da adoção de planos de manejo redigidos em parte com inputs da população local; e

na possibilidade de adotar formatos de gestão compartilhada ou de co-gestão.

Esses quatro pontos da lei garantem um con- siderável grau de “abertura” das UCs aos in- teresses e às necessidades não estritamente “preservacionistas”. Por serem dispositivos ainda recentes e inovadores, merecem aten- ção especial, para que sejam implementadas com conhecimento adequado das variáveis envolvidas e em associação com mecanismos eficazes de execução (Drummond et al, 2006; Mercadante, 2001).

Outro fator que neutraliza – ou neutralizaria – um viés “excessivamente” preservacionista emergiu em anos recentes, mesmo que timi- damente, no âmbito do governo federal.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

José Augusto Drummond – José Luiz de Andrade Franco

Trata-se do conceito de “transversalidade”

(infelizmente, já em desuso

públicas. Esta noção defende, acertadamente, que as variáveis ambientais devem ser leva- das em conta nas mais diferentes políticas go- vernamentais (construção de infra-estrutura, expansão da agricultura e pecuária de grande porte, gestão de substâncias de risco, minera- ção, gestão de recursos hídricos, zoneamento etc). Nesta perspectiva, os órgãos gestores de UCs e das demais políticas ambientais não es- tão – ou não deveriam estar – “sozinhos” na intricada missão de ajustar a proteção da bio- diversidade ao desenvolvimento socioeconô- mico. No entanto, infelizmente a verdade é que os órgãos ambientais continuam basica- mente sozinhos, nas esferas governamentais, na missão de proteger a biodiversidade. Por isso é mais pragmático – mesmo que muito difícil – continuar o esforço de envolver os demais órgãos setoriais e atores nessa missão do que apostar todas as fichas na possibilida- de de que as UCs venham, por si sós, a ser pó- los, vetores ou executores de políticas “so- ciais” e “desenvolvimentistas” (Drummond et al, 2006; Araújo, 2007).

das políticas

)

Dentro da coalizão política atualmente no po- der, não há, porém, margem para otimismo quanto à consolidação de uma transversali- dade hegemonicamente ambiental, pelo me- nos no âmbito federal. O MMA tem sido ulti- mamente (desde 2003 até pelo menos meados de 2008) não apenas o ministério mais fraco em termos gerais, mas o mais fraco que se po- deria conceber para propor/impor a trans- versalidade aos demais ministérios e agentes públicos federais. Há várias explicações para essa fraqueza aguda. Primeiro, a coalizão no poder desde 2003 é a mais francamente de- senvolvimentista (“desenvolvimento a qual- quer custo”) dos últimos 50 anos, inspirando- se nos modelos de JK e da ditadura militar. Retrocedemos inclusive à hegemonia daquela visão que parecia definitivamente superada, prevalecente na década de 1970 – a de que existe oposição entre proteção ao meio am- biente e desenvolvimento.

Em segundo lugar, não apenas cada ministé-

Artigos Técnico-Científicos

10
10

rio (e todos em conjunto) é muito mais pode- roso que o MMA, mas cada um tem a sua pró- pria pauta de transversalidade, buscando su- bordinar o MMA a ela e, ao mesmo tempo, lu- tando ativamente (com fácil sucesso, aliás) contra a sua própria subordinação à pauta da transversalidade do anêmico MMA. Mais im- portante do que isso, no entanto, é que, na atual estrutura de poder, a Casa Civil da Presidência da República define a sua versão própria da transversalidade, versão esta que, no fim das contas, é a adotada no conjunto das ações governamentais. Nesta versão “ver- dadeira”, a preocupação ambiental é fraquís- sima – o que interessa mais, ou a única coisa que interessa, é manter ou ampliar a percen- tagem do crescimento anual do PIB.

Em terceiro lugar, a gestão Marina Silva fez do MMA um ministério particularmente vul- nerável em sua fraqueza. O MMA foi jocosa- mente – mas acertadamente – chamado de “ministério não-governamental” por inte- grantes mais lúcidos de seus próprios qua- dros. Essa gestão preferiu dialogar consigo mesma, com as ONGs que a apóiam desde sempre e com escasso pessoal de outros mi- nistérios simpático às causas ambientais, a entrar na arena política propriamente dita e lidar com firmeza com os “musculosos” mi- nistérios cujas ações mais agressivamente afe- tam o meio ambiente. Escolheu “dar as mãos” àqueles que estavam no seu campo. Além dis- so, o MMA tornou visível a sua fraqueza ao adotar táticas típicas de movimentos sociais (“empates” burocráticos, abraços simbólicos ao prédio do MMA, e conferências nacionais de meio ambiente cuja abrangência excessiva só foi superada pela sua irrelevância política).

Há que considerar ainda os efeitos “neutrali- zadores” sobre o “preservacionismo puro” do fato de que os usos produtivos de componen- tes da biodiversidade – inclusive os que ocor- rem fora de UCs – tendem a obedecer cada vez mais ao princípio da CDB de repartição eqüitativa dos benefícios gerados. Isso tam- bém poderia ajudar as UCs a assumir uma modesta parcela dos superdimensionados pa- péis “sociais” ou “desenvolvimentistas” que

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

O mapa das UCs será o mapa da inclusão social?

os ambientalistas atualmente no poder que- rem atribuir a elas (Wittemyer et al, 2008).

Evidentemente, as UCs não devem ser indife- rentes ao bem-estar e ao desenvolvimento das comunidades locais, sob o risco de estagna- rem ou de se auto-anularem. No entanto, exis- tem graves riscos embutidos na tendência de inserir a política de criação e gestão de UCs num quadro maior e mais complexo de políti- cas “sociais”, “desenvolvimentistas” ou “in- clusivas”. O risco maior e óbvio é diluir a po- lítica de criação e de gestão de UCs (que já conta com entraves mais do que suficientes e com recursos financeiros e humanos mais do que insuficientes) numa matriz de políticas que, apesar de necessárias e altamente desejá- veis, são complexas e caras e cuja efetivação tem sido notoriamente difícil em nosso país (Drummond et al, 2006; Wittemyer et al, 2008).

A ladeira do sucesso das políticas sociais é ín-

greme. Esse sucesso é difícil de alcançar e é facilmente revertido. Temos na sociedade bra- sileira uma dívida social enorme, sem dúvi- da, que só será abatida, ao longo de muitas décadas, por alguma combinação de ativida- des produtivas de mercado com políticas pú- blicas eficazes. Tão grande é a dívida e tão

forte é o ímpeto saudável de abatê-la que es-

se ímpeto, quando aplicado às UCs, é bem ca-

paz de aniquilar qualquer ganho em termos

de proteção da biodiversidade e – o que é pior

– sem sequer diminuir significativamente o

estoque da dívida e sem enfraquecer os pro- cessos que a perpetuam. Se promover o de- senvolvimento ou reduzir a pobreza fossem coisas fáceis de fazer, não haveria tanta po- breza no Brasil depois de sete ou oito décadas em que todas as coalizões políticas que ocu- param o poder no nível nacional – inclusive as da ditadura militar – se declararam explici- tamente a favor do desenvolvimento e da eli- minação da pobreza (Drummond et al, 2006; Terborgh e Schaik, 2002).

É preciso atentar para o fato adicional de que

a relação dessas políticas de desenvolvimen- to, de redução de pobreza e de inclusão etc com a proteção da biodiversidade é frequen-

Artigos Técnico-Científicos

11
11

temente fraca ou mesmo inexistente. O esta- do da saúde, educação e segurança públicas, por exemplo, pode variar de sofrível a ótimo sem guardar qualquer relação direta ou es- treita com a proteção da biodiversidade.

Consideremos um exemplo hipotético e corri- queiro no campo da saúde pública ou do sa- neamento básico. Se é certo atribuir a uma re- serva biológica (categoria escolhida de propó- sito para essa ilustração, pois se trata da mais “preservacionista” de nossas categorias de UCs) o papel “social” ou “desenvolvimentis- ta” de proteger mananciais que fornecem água de qualidade para o consumo humano em comunidades vizinhas ou mesmo distan- tes, de outro lado a mesma reserva tem pou- co ou nada a fazer quanto à coleta, ao trata- mento e à disposição do esgoto doméstico. Ora, isso significa deixar a política de sanea- mento a meio caminho. A problemática do es- goto exige procedimentos técnicos, trabalha- dores e técnicos especializados, obras físicas de grande porte, instalações e equipamentos caros, de grande extensão e de relativa com- plexidade tecnológica. Tudo isso foge inteira- mente do âmbito de uma reserva biológica e de qualquer outro tipo de UC. No entanto, nenhuma política de saneamento básico esta- rá completa apenas com o fornecimento de água de qualidade. Que adianta uma comu- nidade captar a montante a água limpa oriun- da da reserva e despejar água poluída sobre outras comunidades a jusante? E mais: os funcionários de uma UC têm obrigação de sa- ber como preservar uma nascente, mas em princípio não saberão sequer operar uma es- tação de tratamento de esgoto pronta e em funcionamento, mesmo porque esta não é a sua missão. É missão de companhias, secreta- rias ou departamentos de saneamento.

Um exemplo não-hipotético da fraca conexão entre UCs e certas políticas públicas pode ser dado com uma referência ao campo da edu- cação pública. Testemunhamos pressões da comunidade local para que uma determinada reserva biológica recebesse visitas eventuais de escolares locais. Tais visitas eram suposta- mente para fins de educação ambiental, mas a

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

José Augusto Drummond – José Luiz de Andrade Franco

finalidade real era realizar atividades de lazer de fim de ano – jogos esportivos, gincanas, churrascos, banhos de rio etc. Visitas planeja- das e proveitosas de escolares a UCs depen- dem de que as UCs estejam adequadamente equipadas para recebê-los. No entanto, de- pendem acima de tudo de que as escolas es- tejam bem estruturadas – professores fixos, motivados e bem pagos, aulas em horário in- tegral e regularmente ministradas, alunos matriculados em percentagens elevadas, pou- ca ou nenhuma evasão, merenda escolar re- gular, prédios e instalações adequadas, exis- tência de bibliotecas, disponibilidade de meios seguros de transporte e assim por dian- te. De que adianta burlar as limitações impos- tas à visitação a uma reserva biológica para permitir a visitação eventual de alunos matri- culados em escolas públicas precárias? De ou- tro lado, uma reserva biológica per se pouco ou nada tem a contribuir para as complexas providências necessárias para melhorar a qualidade das escolas públicas vizinhas.

Em um país cujas políticas públicas de caráter “social” ainda apresentam resultados em ge- ral insatisfatórios, atribuir às UCs missões “substitutivas” ou mesmo “estimuladoras” dessas políticas levará mais provavelmente à deterioração das UCs do que à melhoria des- sas políticas. Saúde, educação e segurança públicas (para citar apenas três) são políticas tão ou mais complexas que a de UCs e muito mais relevantes à desejada “inclusão social”. O pior de tudo, como sugerido acima, é que a deterioração das UCs pode ocorrer sem que isso seja compensado por qualquer efeito po- sitivo sobre as políticas sociais. Manter a sin- gularidade das políticas de UCs, prestando atenção às suas possibilidades (quase sempre muito limitadas) de integração com outras políticas nos parece mais aconselhável do que colocar a priori ambiciosas missões “sociais” e “desenvolvimentistas” sobre os ombros com- balidos das UCs e diluir a importância da proteção da biodiversidade. Essas missões são mais bem atribuídas a outras políticas pú- blicas – educação, saúde, previdência, trans- porte, segurança, justiça – e aos órgãos por elas responsáveis –, mesmo que as políticas

Artigos Técnico-Científicos

12
12

que concretizam essas missões estejam secu- larmente atrasadas e deficitárias e mesmo que os órgãos responsáveis estejam tão combali- dos quanto as UCs. Num quadro de entraves, déficits e omissões, os responsáveis por essas políticas públicas deficitárias aceitarão de bom grado que se atribuam responsabilida- des “sociais” e “desenvolvimentistas” às UCs, na esperança de melhorar o desempe- nho dessas políticas ou até de diluir a sua própria responsabilidade pelo déficit (Drummond et al, 2006; Milano, 2001; Dourojeani e Pádua, 2001).

Há outro ponto a considerar na nossa crítica a esse equivocado imperativo de atribuir uma missão “social” e “desenvolvimentista” às UCs. Ele se refere menos aos resultados duvi- dosos a serem alcançados por políticas públi- cas “sociais” executadas via UCs e mais à fal- ta de universalidade da sua incidência e dos seus efeitos. Se, por hipótese, a melhoria das políticas sociais e desenvolvimentistas de fato se atrelasse ao mapa de distribuição das UCs no território nacional, teríamos um resultado esdrúxulo: os modernos direitos sociais, que são, por definição, universais, ficariam restri- tos aos residentes de UCs e dos entornos de UCs. Assim, haveria alguns cidadãos benefi- ciados pelo fato de morarem junto a UCs e muitos outros cidadãos negligenciados ou ex- cluídos pelo fato de morarem longe delas. Quem aceitaria hoje em dia uma divisão si- milar que condicionasse, por exemplo, o di- reito de votar e ser votado à residência nas imediações de uma UC? Isso é tão absurdo quanto exigir que UCs executem políticas pú- blicas que elevem o nível de vida dos seus vi- zinhos, mas não o de outras pessoas (Drummond et al, 2006; Milano, 2001; Dourojeani e Pádua, 2001).

Além de improvável e mesmo canhestra, essa divisão nos parece indesejável e mesmo in- defensável, por vários motivos, mesmo como uma hipótese remota. Mencionamos apenas dois desses motivos. Em primeiro lugar, no campo da ética, tendo em vista o quadro ge- neralizado de carências entre a população brasileira, não se sustentam argumentos a fa-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

O mapa das UCs será o mapa da inclusão social?

vor de políticas públicas seletivas, ainda mais se a seletividade tem base tão frágil quanto o local de moradia ser perto ou longe de UCs. Operacionalmente, em segundo lugar, o ca- ráter remoto ou de difícil acesso de grande parte das UCs é uma barreira (pré-existente às próprias UCs, aliás) para a efetivação de políticas que, muitas vezes, são deficientes ou inoperantes mesmo nas áreas mais acessíveis, mais bem equipadas e mais populosas do país (Drummond et al, 2006; Milano, 2002).

De outro lado, é preciso dar a mão à palmató- ria do “realismo político” mais elementar. Considerando a escassez dos recursos e o jo- go de pressões legítimas pelo atendimento dos interesses diferenciados de uma grande população nacional, dificilmente os residen- tes em torno de UCs, esparsos e historica- mente mal organizados e mal representados, conseguiriam levar vantagem sobre os inte- resses das populações de áreas rurais estabili- zadas e integradas ao mercado e de periferias urbanas e áreas metropolitanas. Eles não têm densidade político-eleitoral nem capital social acumulado para concorrer com sucesso nesse jogo, e por isso mesmo são vítimas especiais de tantos déficits históricos.

Ou seja, tanto na UCs quanto em outras polí- ticas públicas, é melhor manter a definição dessas políticas como universais e conviver com e lutar para reverter os eventuais déficits na sua aplicação universal do que criar seleti- vidades esdrúxulas.

Por tudo isso, não nos parece que o mapa das UCs virá a ser, a curto e médio prazos, con- gruente com o de políticas sociais e desenvol- vimentistas bem desenhadas e bem sucedidas. Na verdade, repetimos que, mesmo que isso pudesse acontecer, não seria desejável. O de- sejável é que o mapa do bem-estar e do de- senvolvimento seja congruente com o mapa social integral do país, e não com o mapa das UCs ou o mapa da biodiversidade protegida.

Assim, a nossa posição quanto à continuidade da política de criação e de gestão de UCs no Brasil difere marcadamente das duas posições

Artigos Técnico-Científicos

13
13

que vêm polarizando esse campo de discus- são, pelo menos desde o início da longa trami- tação da Lei do SNUC no Congresso Nacional. Preservacionistas/conservacionistas, de um lado, e socioambientalistas, de outro, deba- tem entre si há quase 20 anos. O debate foi fru- tífero durante algum tempo. A mais clara ex- pressão disso é a própria Lei do SNUC, que al- cançou um equilíbrio, mesmo que tenso, entre as duas posições, especialmente no que se re- fere à definição dos dois grupos de UCs – o de uso sustentável e o de proteção integral. No entanto, parece ter se esgotado o rendimento desta polêmica em termos de balizar melho- rias da política de UCs. Todos os argumentos já foram colocados e repisados e parecem ago- ra ter virado artigos de fé. Com isso, perdem a sua capacidade de convencimento, de esclare- cimento e de melhora da política de UCs e as- sumem um papel de perpetuação de cisões e de empobrecimento das análises e dos diag- nósticos.

Além disso, houve aproximações e conver- gências – raramente admitidas abertamente - entre os dois lados. Muitos preservacionis- tas/conservacionistas, de um lado, desenvol- veram ou ampliaram a sua sensibilidade quanto a questões “sociais”. Em certos casos, agora propõem e viabilizam e até executam ações francamente “sociais” em conexão com a criação e a gestão de UCs (Drummond et al; Araújo, 2007).

De outro lado, os socioambientalistas vão des- cobrindo vários percalços na sua inclinação a subordinar a proteção da biodiversidade aos imperativos do bem-estar social, da participa- ção e da politização da questão ambiental. Aprendem, por exemplo, que a apropriação extrativista dos recursos naturais pelas popu- lações que eles pretendem defender com UCs de uso sustentável raramente leva a padrões duráveis de bem-estar. Descobrem também que a chamada gestão participativa das UCs sofre com os riscos da cooptação ou da indife- rença. Dão-se conta ainda de que essa gestão tem que incluir, por definição, todos os setores sociais (inclusive empresas madeireiras e mi- neradoras, agricultores capitalizados, garim-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

José Augusto Drummond – José Luiz de Andrade Franco

peiros etc), para quem os apelos em prol da proteção da biodiversidade e mesmo dos mo- dos de vida dos extrativistas são de difícil acei- tação, quando não absurdos. Descobrem tam- bém que pode existir amplo consenso social (incluindo a população mais pobre) a favor do uso imediatista, destrutivo e imprevidente dos recursos naturais e, consequentemente, da li- quidação da biodiversidade (Milano, 2001; Milano, 2002; Magnanini, 2002).

É instrutivo, nesse sentido, que a ex-Ministra

do Meio Ambiente Marina Silva, expoente maior do socioambientalismo, depois de mais de cinco anos no cargo, tenha incluído em sua tortuosa carta de demissão (de maio de 2008) o plano de reassumir o seu mandato no Senado Federal com a finalidade expressa de ajudar a “reconstruir o apoio político à questão am-

biental”. Ela não diz quem destruiu essa agen- da, nem como essa destruição seria compatível com o seu longo período no poder e com os su- cessos que alega ter alcançado na sua gestão. Ela não admite a possibilidade de que os pró- prios socioambientalistas tenham sido os maiores responsáveis por essa desconstrução, ao diluírem a questão propriamente ambiental (proteção da biodiversidade) no torvelinho dos numerosos e complexos problemas so- ciais. Como os socioambientalistas defendem

o atrelamento das questões da proteção da bio-

diversidade ao imperativo do resgate da dívi- da social, e como virtualmente todos os indica- dores sociais do país vêm melhorando sensi- velmente desde 1995, os inimigos da política (sócio) ambiental da ex-ministra, em vez de aplacarem o seu ímpeto “desenvolvimentista- a-qualquer-custo, insistem agora, ainda mais fortemente, nas virtudes do modelo vigente. Insistem em apontar as limitações que a prote- ção da biodiversidade criaria para o desenvol- vimento. À sua moda, esses atores são também socioambientalistas – primeiro e acima de tudo vem o “social”, muito depois vem o “ambien- tal” (Dourojeani e Pádua, 2001).

De outro lado, as complexidades da execução

e do sucesso das políticas sociais e de desen-

volvimento local são hoje muito mais bem en- tendidas do que há 15 ou 20 anos atrás. A po-

Artigos Técnico-Científicos

14
14

breza é teimosa e não recua perante boas in- tenções e praticas participativas ocas. Isso en- fraquece a visão otimista – ou ingênua? – de que as UCs tenham alguma importância espe- cial (ou sejam agentes ou vetores) na execução de políticas sociais e do desenvolvimento lo- cal. Muito mais está em jogo do que a política de UCs. Desenvolvimento social, mitigação da pobreza, inclusão etc dependem de escolas pú- blicas (inclusive as técnicas), postos de saúde e hospitais, campanhas curativas, preventivas e informativas de saúde pública, justiça, docu- mentação pessoal e de propriedade, habitação popular, saneamento, transporte, segurança pública, previdência social, direitos trabalhis- tas e sindicais, crédito bancário e muito mais. Nem diretores ou funcionários de UCs, nem conselhos de UCs, nem os ambientalistas de um ou outro campo sabem fazer nada disso, mesmo porque não cabe a eles fazer isso (Drummond et al, 2006; Milano, 2002).

Não mencionamos ainda outra constelação de fatores complexos e imprescindíveis ao de- senvolvimento e à inclusão. Ela pode ser re- sumida nos investimentos produtivos priva- dos, ou nos estímulos às unidades produtivas instaladas e a instalar, nos estudos de merca- do, na montagem de APLs, no treinamento de mão-de-obra, no apoio ao empreendedoris- mo e assim por diante. Sem produção conti- nuada e empreendimentos produtivos sóli- dos e interconectados, não existe possibilida- de de nenhum tipo de desenvolvimento ou inclusão duradouros. Por si sós, serviços e po- líticas públicas eficientes não criam desenvol- vimento, inclusão ou bem-estar. De novo, funcionários de órgãos ambientais e ambien- talistas nada sabem nem têm obrigação de sa- ber como estimular os negócios (Drummond et al, 2006; Araújo, 2007).

Em suma, pensamos que, para melhor alcan- çar a efetividade das nossas UCs, o momento agora é o de um “retorno” aos – ou uma “reenfatização” – dos princípios da ecologia, da biologia e da biologia da conservação, da geologia, da biogeografia e da pesquisa, pro- teção e gestão da biodiversidade. Essas direti- vas “naturalistas” podem e devem ser com-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

O mapa das UCs será o mapa da inclusão social?

plementadas, em clave de “transversalida- de”, por outras diretivas (desenvolvimentis- tas ou sociais) ligadas ao contexto social e his- tórico de cada unidade, mas dentro da com- preensão de que essas outras diretivas quase invariavelmente escapam da competência e da missão principal das UCs. É preciso cobrar essas diretivas a quem de direito. As UCs não são o alvo certo de tais cobranças (Drummond et al, 2006; Milano, 2002; Fernandez, 2000; Wilson, 2002).

Para esse “retorno”, é importante manter um clima de diálogo entre as ciências da natureza e as ciências humanas, o só poderá ocorrer se houver um esforço de compreensão mútua dos conceitos característicos dos dois campos. Isso não pode ser, porém, um exercício restri- to à vida acadêmica, o que já é suficientemen- te difícil. Tem que se traduzir na autêntica “transversalidade” do desenho e da execução das políticas públicas, algo que infelizmente não ocorrerá enquanto a atual coalizão estiver no poder. Assim, ainda que possam contri- buir para os melhores resultados de políticas sociais, para o desenvolvimento local e para a inclusão social, as UCs precisam, antes, ter bases sólidas naquilo que é o cerne de sua identidade – a proteção da biodiversidade (Drummond et al, 2006; Câmara, 2004; Milano, 2002; Fernandez, 2000; Wilson, 2002).

Câmara, 2004; Milano, 2002; Fernandez, 2000; Wilson, 2002). Artigos Técnico-Científicos 15 REFERÊNCIAS ARAÚJO,

Artigos Técnico-Científicos

15
15

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Marcos Antônio Reis. Unidades de

Conservação no Brasil – Da República à Gestão de Classe Mundial. Belo Horizonte: Segrac,

2007.

CÂMARA, Ibsen de Gusmão. As unidades de conservação e o paradigma de Durban. Revista Natureza & Conservação. 2004 . vol 2 . nº 2 . Fundação O Boticário de Proteção à Natureza. Curitiba-PR .

CÂMARA, Ibsen de Gusmão. “A política de unidades de conservação – uma visão pes- soal.” In: MILANO, Miguel S. (org.). Unidades de Conservação: atualidades e tendências. Curitiba, Fundação O Boticário de Proteção a Natureza, 2002.

DAVENPORT, Lisa & RAO, Madhu. A histó- ria da proteção: paradoxos do passado e de- safios do futuro. In: TERBORGH, John; SCHAIK, Carel van; DAVENPORT, Lisa; RAO, Madhu (orgs.). Tornando os parques efi- cientes: estratégias para a conservação da nature- za nos trópicos. Cutitiba: UFPR/Fundação O Boticário, 2002.

DIEGUES, Antônio Carlos (org.). Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos. 2 ed. São Paulo:

Annablume/ NUPAUB-USP/Hucitec, 2000.

DOUROJEANNI, Marc J. & Pádua, Maria Tereza Jorge. Biodiversidade: a hora decisiva. Curitiba: UFPR/Fundação O Boticário, 2001.

DRUMMOND, José Augusto; FRANCO, José Luiz de Andrade; NINIS, Alessandra Bortoni. O Estado das Áreas Protegidas no Brasil – 2005. Brasília: CDS, agosto de 2006.

http://www.unbcds.pro.br/conteudo_arqui

vo/150607_2F62A6.pdf

FERNANDEZ, Fernando. O Poema Imperfeito:

Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis. Curitiba: UFPR/Fundação O Boticário, 2000.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

José Augusto Drummond – José Luiz de Andrade Franco

MAGNANINI, Alceo. “Política sobre as uni- dades de conservação – dificuldades e suces- sos do pensamento de Alceo Magnanini.” In:

MILANO, Miguel S. (org.), Unidades de Conservação: atualidades e tendências. Curitiba:

Fundação O Boticário de Proteção a Natureza, 2002.

MERCADANTE, Maurício. Uma década de debate e negociação: a história da elaboração do SNUC. In: BENJAMIN, Antônio Herman (coord.), Direito ambiental das áreas protegidas: o regime jurídico das unidades de conservação. Rio de Janeiro, Forense Universitária. 2001.

MILANO, Miguel S. Unidades de Conser-va- ção – técnica, lei e ética para a conservação da biodiversidade. In: BENJAMIN, Antônio Herman (coord.), Direito ambiental das áreas protegidas: o regime jurídico das unidades de con- servação. Rio de Janeiro, Forense Universitá- ria. 2001.

MILANO, Miguel S. Porque existem as uni- dades de conservação? In: MILANO, Miguel

S. (org.). Unidades de Conservação: atualidades e tendências. Curitiba: Fundação O Boticário,

2002.

MORSELLO, Carla. Áreas protegidas públicas e privadas: seleção e manejo. São Paulo:

Annablume / FAPESP, 2001.

TERBORGH, John e SCHAIK, Carel van. Por que o mundo necessita de parques. In: TER- BORGH, John; SCHAIK, Carel van; DAVEN- PORT, Lisa; RAO, Madhu (orgs). Tornando os parques eficientes: estratégias para a conservação da natureza nos trópicos. Cutitiba, Editora da UFPR e Fundação O Boticário, 2002.

WILSON, Edward. The Future of Life. New York: Vintage, 2002.

WITTEMYER, George; ELSEN, Paul; BEAN, William T. A.; BURTON, Coleman O.; BRASHARES, Justin S. Accelerated Human Population Growth at Protected Area Edges. Science, Vol. 321, 4 JULY 2008. www. sciencemag.org

Artigos Técnico-Científicos

16
16

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 8-16

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas:

um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil Demétrio Luis Guadagnin , Dr 1
áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil Demétrio Luis Guadagnin , Dr 1

Demétrio Luis Guadagnin, Dr 1

UNISINOS, Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas Aquáticos.

Isabel Cristina Ferreira Gravato, MsC

IPA, Curso de Ciências Biológicas .

RESUMO. As regras para utilização de terras na legislação ambiental brasileira não foram explicita- mente criadas para proteger áreas-chave para a biodiversidade. Neste trabalho, nós avaliamos o grau em que áreas protegidas como “Áreas de Preservação Permanente” (APP) se ajustam a áreas-chave para a conservação da biodiversidade nos subúrbios de Porto Alegre, no Sul do Brasil. A análise foi baseada na estrutura e contexto espacial dos biótopos naturais e na distribuição de hábitats poten- ciais de espécies ameaçadas. Áreas urbanas cobrem 22% da área estudada, enquanto APPs cobrem 25,8%. Da área total, 21,5% e 28% foram, respectivamente, consideradas importantes para a biodi- versidade, de acordo com as abordagens de filtro não refinado e filtro refinado. 40% das APPs coin- cidem com áreas importantes para a biodiversidade, protegendo 27,5% delas. As margens de corpos de água contribuíram mais do que o esperado para a proteção de áreas importantes. Concluiu-se que a legislação brasileira atual sobre o uso da terra não é suficiente para proteger as áreas-chave para a biodiversidade. Foram também discutidas abordagens complementares e os desafios para satisfazer as necessidades de conservação.

Palavras-chave: planejamento de conservação, legislação ambiental, habitat, área, isolamento, co- nectividade, efeito borda, paisagem urbana.

As paisagens urbanas, o extremo da variação da influência humana na dinâmica de ecossis- temas (Forman & Gordon, 1986), se expandi- ram de forma dramática recentemente, particu-

1 dlg@unisinos.br

Ponto de Vista

17
17

larmente nos países em desenvolvimento (Cohen, 2004). Nos últimos 40 anos, a popula- ção mundial aumentou em 65%, enquanto a população urbana aumentou em 115% (Organização das Nações Unidas, 2003). Durante o mesmo período, a população brasi-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Demétrio Luis Guadagnin - Isabel Cristina Ferreira Gravato

leira aumentou em 82%, e sua fração urbana em 165% (IBGE, 2000). Um padrão comum da expansão urbana mundial é o crescimento de subúrbios de baixa densidade habitacional, tra- zendo conseqüências socioambientais impor- tantes (Zipperer et al., 2000).

A conservação da biodiversidade em ambien-

tes urbanos é um desafio. Áreas verdes ofere- cem hábitats e recursos para a biodiversidade, mas o crescimento urbano também apresenta ameaças. Enquanto aumenta a complexidade das áreas urbanas, incluindo novas combina- ções de uma ampla e refinada mistura de bió- topos (Yli-Pelkonen & Niemelä, 2005; Zipperer

et al., 2000; Wintle et al., 2005), os subúrbios em

crescimento os rearranjam em um padrão de- sintegrado, perturbam as trajetórias sucessio- nais nas áreas verdes remanescentes (Rebele, 1994; Trepl, 1995), e favorecem o domínio por espécies exóticas (Yli-Pelkonen & Niemelä, 2005). Enquanto os valores estéticos e serviços ecossistêmicos das áreas verdes são reconheci- dos economicamente, afetando os valores de terras e propriedades (Tyrväinen, 1997; Breuste, 2004; Li, 2005), seu papel na proteção da biodiversidade raramente é reconhecido ou levado em consideração no planejamento urba- no (Battisti & Gippoliti, 2004).

Há uma gama considerável de conhecimento teórico e empírico demonstrando que o valor dos biótopos para a conservação da biodiversi- dade pode ser deduzido pelo arranjo e atribu- tos espaciais (O’Neill et al., 1999; Dale et al., 2000; Metzger, 2001). Áreas grandes e bem co- nectadas, livres de ameaças externas em seus li- mites, favorecem a ocorrência de espécies de interesse em conservar e uma rica biota. Adicionalmente, biótopos são unidades fáceis de se planejar. Essas unidades representam a distribuição e estado de conservação da maio- ria dos componentes da biodiversidade (Rouget, 2003; Löfvenhaft, Runborg & Sjogren- Gulve, 2004) e são facilmente mapeados e ex- pressos (Löfvenhaft et al. 2002). Esses princí- pios e diretrizes estão refletidos nas aborda- gens atuais para identificação de áreas de inte- resse em conservação. Análises em duplo nível, como as propostas por Noss (1987) e Rouget

Ponto de Vista

18
18

(2003), levam em consideração um filtro não re- finado que avalia o estado de conservação de cada hábitat e biótopo, e um filtro fino que identifica as espécies e combinações de interes- se particular.

No Brasil há uma falta de legislações espacial- mente explícitas para a proteção de áreas im- portantes para a biodiversidade. Regras espa- cialmente explícitas podem ser encontradas apenas na legislação nacional para as unidades de conservação (Sistema Nacional de Unidades de Conservação, 2000) e na Resolução 13/1990 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Ambas as legislações impõem restrições na uti- lização de terras nas cercanias das unidades de conservação. Apolítica ambiental brasileira tem um histórico de tender para a proteção de re- cursos aquáticos (Código das Águas, 1934), flo- restas (Código Florestal, 1965) e animais (Lei de Proteção à Fauna, 1967). Sua influência ainda está presente nas legislações (Santos, 2004). De grande importância, e que estão atualmente sendo debatidas, são as legislações que regulam o planejamento e utilização de terras e águas, baseadas nos conceitos de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Áreas de Reserva Legal (ARLs). As APPs são espacialmente explícitas e fixas, correspondendo a áreas impróprias para a agricultura ou expansão imobiliária, tais como encostas de morros, margens de corpos de água, e alguns hábitats específicos que são con- siderados importantes ou vulneráveis, tais co- mo banhados, dunas, manguezais, e outros. ARLs, por outro lado, são porções de proprie- dades que devem ser reservadas ou usadas em baixa intensidade, e cuja localização é arbitra- riamente decidida pelo proprietário. Aproteção da biodiversidade pode ser outro serviço forne- cido por essas legislações-chave, mas sua efi- ciência ainda não foi avaliada.

Neste estudo, identificamos áreas sob proteção legal e áreas que são importantes para a con- servação da biodiversidade em um setor da ci- dade de Porto Alegre que está vivendo um crescimento rápido. Essas áreas foram sobre- postas para avaliar em que extensão a aplica- ção da legislação ambiental inclui as áreas mais importantes para a biodiversidade.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

MÉTODOS

Área de estudo

Analisamos uma seção de 5.280 ha da Macrozona 8 (FIGURA 1) do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA – Porto Alegre, 1999; Menegat et al., 1998), chamado de “cidade rural-urba- na.” Essa macrozona corresponde a 60% da área municipal e é caracterizada por um mosaico de áreas residenciais, comerciais, rurais e naturais. Recentemente, a especula- ção imobiliária e pressões para construção de residências vem criando conflitos com o principal fator atrativo da macrozona – a qualidade ambiental. Terrenos elevados, de até 300 metros de altura dominam a porção noroeste, enquanto planícies apresentando colinas baixas e isoladas predominam a su-

deste. A área de estudo é importante local e regionalmente para a conservação –está in- cluída nas zonas principal e de amorteci- mento da Reserva de Biosfera da Mata Atlântica (Lino, 2002), e o PDDUA prevê uma “Área para Proteção do Ambiente Natural,” se estendendo na direção Sudeste- Noroeste desta seção da cidade.

Porto Alegre está localizada em uma zona de transição entre os biomas do cerrado e das flo- restas decíduas (IBGE, 2004). Apaisagem origi- nal era um mosaico contendo cinco grande ti- pos de hábitat (Brack, 1998) – florestas mésicas para úmidas seguindo um gradiente de altitu- de, principalmente em planícies e encostas vol- tadas para o sul; cerrados com palmeiras; ar- bustos e arbustos entre cerrados e florestas e em encostas voltadas para o norte; campos ru- pestres em colinas; e banhados.

(b) -51º 11’ -51º 09’ (a) ZN -30º 06’ N ZA ZT 5 km ■
(b) -51º 11’
-51º 09’
(a)
ZN
-30º 06’
N ZA
ZT
5 km
Área de Proteção
Ambiental (PPDUA)
ZN
Por Zona (RBMA)
-30º 08’
ZT
Zona de Transição (RBMA)
ZA
Zona-Tampão (RBMA)

FIGURA 1: (a) Zoneamento ambiental de Porto Alegre, no Sul do Brasil, mostrando o local de estudo. As áreas em cinza-es- curo foram indicadas como de valor especial de conservação pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre (PDDUA). As linhas circunscrevem as zonas da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e Ecossistemas Associados (RBMA). (b) Setor de estudo, apresentando áreas urbanas (preto), estradas principais (linhas grossas) e relevo (linhas finas).

Ponto de Vista

19
19

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Demétrio Luis Guadagnin - Isabel Cristina Ferreira Gravato

Mapeamento de base e análises

Todas as análises são baseadas em mapas te- máticos de topografia, drenagem e cobertu- ra da terra (biótopos), digitalizados ou atua- lizados a partir do banco de dados do Projeto Pró-Guaíba (escala 1:50.000; Rio Grande do Sul, 1992) e imagens do satélite Quickbird adquiridas em 18 de março de 2003. A interpretação das imagens foi feita visualmente na tela, ajudada pelas rotinas supervisionadas de classificação do aplicati- vo Idrisi 32 (Eastman, 1999). Várias rotinas e módulos do aplicativo Idrisi 32 foram em- pregados para derivar os mapas temáticos (FIGURA 2).

Mapeamento de áreas sob proteção legal

Analisou-se a legislação ambiental, procuran- do diretrizes espacialmente explícitas do plane- jamento ambiental e conservação da biodiver- sidade (proteção de hábitats e espécies). Três níveis legais foram levados em consideração:

(1) Nacional – Constituição Federal (promulga- da em 5 de outubro de 1988), Código Florestal (Lei 4.771/1965) e resoluções 9/1996, 302/2002 e 303/2002 do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente); (2) Estadual – Código Ambiental Estadual (Lei 11.520/2000); e (3) municipal – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre (Lei

434/1999).

ÁREA PROPORCIONAL (Grupo, área) PROXIMIDADE (“Custo”da distância, grupo, área) PERMEABILIDADE (“Custo”da
ÁREA PROPORCIONAL
(Grupo, área)
PROXIMIDADE
(“Custo”da distância,
grupo, área)
PERMEABILIDADE
(“Custo”da distância,
localização)
VULNERABILIDADE AO
EFEITO DE BORDA
(“Custo”da distância,
calculador de imegem)

LISTAS VERMELHAS E REQUIRIMENTOS DE HÁBITATS DE ESPÉCIES AMEAÇADAS

E REQUIRIMENTOS DE HÁBITATS DE ESPÉCIES AMEAÇADAS LEGISLAÇÃO AMBIENTAL MAPAS BÁSICOS: RELEVO,

LEGISLAÇÃO

AMBIENTAL

MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)

MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)

MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
MAPAS BÁSICOS: RELEVO, HIDROGRAFIA, RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana)
RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana) ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES
RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana) ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES
RODOVIAS, BIÓTOPOS (Vegetação e área urbana) ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES
ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES (Várias rotinas e módulos)

ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES (Várias rotinas e módulos)

ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES (Várias rotinas e módulos)
ÍNDICES DE ADEQUALIBILIDADE DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES (Várias rotinas e módulos)
DE HÁBITATS PARA 13 ESPÉCIES (Várias rotinas e módulos) NORMAS EXPLÍCITAS DE PROTEÇÃO DO ESPAÇO IMPORTÂNCIA
NORMAS EXPLÍCITAS DE PROTEÇÃO DO ESPAÇO

NORMAS EXPLÍCITAS DE PROTEÇÃO DO ESPAÇO

NORMAS EXPLÍCITAS DE PROTEÇÃO DO ESPAÇO
NORMAS EXPLÍCITAS DE PROTEÇÃO DO ESPAÇO
e módulos) NORMAS EXPLÍCITAS DE PROTEÇÃO DO ESPAÇO IMPORTÂNCIA – FILTRO NÃO REFINADO: QUALIDADE DO

IMPORTÂNCIA – FILTRO NÃO REFINADO:

QUALIDADE DO FRAGMENTO E CONTEXTO (Média dos quatro atributos)

IMPORTÂNCIA – FILTRO REFINADO: HÁBITATS POTENCIAIS PARA ESPÉCIES SELECIONADAS (Valores máximos de sobreposição)

ÁREAS LEGALMENTE PROTEGIDAS (Calculador de imegem)

ÁREAS LEGALMENTE PROTEGIDAS (Calculador de imegem) SOBREPOSIÇÃO DA IMPORTÂNCIA DA BIODIVERSIDADE E DE

SOBREPOSIÇÃO DA IMPORTÂNCIA DA BIODIVERSIDADE E DE PROTEÇÃO LEGAL (Calculador de imagem)

FIGURA 2: Rotinas utilizadas para mapeamento e sobreposição de áreas sob proteção legal e áreas importantes para a conserva- ção da biodiversidade nos limites urbanos de Porto Alegre, Sul do Brasil.

Ponto de Vista

20
20

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

   

A

análise através de filtro refinado levou em

Mapeamento de áreas importantes para a con- servação da biodiversidade

Adotamos uma estratégia em dois níveis – um filtro menos refinado identificando as porções mais importantes de cada biótopo de acordo com atributos espaciais; e um filtro refinado avaliando a importância dos pixels como hábi- tats para espécies de interesse especial de con- servação. Nós definimos biótopo como uma porção de área apresentando condições am- bientais uniformes, pertencendo a um tipo de hábitat em particular. Todos os critérios foram padronizados para valores de zero (sem im- portância), a 1 (importância máxima) na área.

consideração a extensão e qualidade do hábitat para espécies ameaçadas de plantas e vertebra- dos (Decreto Estadual 42.099/2003; Marques et al., 2002). Já que não existem pesquisas de cam- po na área de estudos, compilamos uma lista de espécies raras, ameaçadas de extinção e en- dêmicas que potencialmente ocorrem na área de estudos, conferindo as listas oficiais de es- pécies ameaçadas com as listas de espécies dis- poníveis na região de Porto Alegre (Brack, 1998; Porto Alegre, 2004). Utilizamos as infor- mações disponíveis sobre exigências e prefe- rências de hábitat dessas espécies (Brack, 1998; Marques, 2002; Fontana, 2003; Porto Alegre, 2004) e os mapas temáticos para desenvolver índices de adequação de hábitat (HSI) (Wintle

Levamos em consideração quatro atributos es- paciais no filtro não refinado – área do biótopo, isolamento, conectividade e vulnerabilidade a impactos dos arredores. A área proporcional foi calculada ponderando-se a área absoluta de cada biótopo pela área maior desse biótopo. Utilizamos uma medida de isolamento basea- da na área (Tishendorf et al., 2003) – a quanti- dade média de hábitat disponível dentro de quatro comprimentos a partir da borda de uma seção (50, 100, 150, e 200 metros). A co- nectividade foi definida como uma área contí- gua de hábitats semi-naturais em redor de um biótopo (Whited et al., 2000), uma medida no contexto da matriz na qual um biótopo está embutido. A vulnerabilidade de um pixel de um biótopo semi-natural foi considerada uma função logística da distância da borda de um biótopo urbano ou uma estrada, até um limite de 200 metros. Essa função simula a expectati- va que os efeitos de borda têm limites, abaixo e acima dos quais as reações da comunidade biológica são de variabilidade mínima (Ewers & Didham, 2006). A vulnerabilidade de um biótopo foi definida como a vulnerabilidade média de seus pixels. O mapa de filtro não re- finado das áreas importantes para a conserva- ção da biodiversidade foi uma média dos va- lores de quatro atributos para cada biótopo, sendo a área considerada duplamente mais importante do que os outros atributos. Todos os biótopos com valores maiores que ou igual a 0,5 foram considerados como de importância primária para a conservação.

 

et

al., 2005). Espera-se que eles prevejam a dis-

tribuição espacial e qualidade dos hábitats pa-

ra

as espécies selecionadas. Nós classificamos

os

índices de zero (impróprio) a 1 (o melhor há-

bitat disponível na área de estudo), em uma es- cala ordinal. Os modelos não foram validados em campo. Consideramos como hábitat de alta qualidade pixels com valores de HSI iguais a ou acima de 0,5. O mapa de filtro refinado de importância para a conservação da biodiversi- dade foi obtido pela sobreposição dos mapas para cada espécie. Essa abordagem considera como sendo importantes todos os setores que correspondam ao melhor hábitat disponível para pelo menos uma espécie classificada como de interesse especial, assegurando assim que todas elas estejam incluídas no mapeamento de filtro refinado.

O

mapa final das áreas importantes para a con-

servação da biodiversidade foi obtido sobre- pondo-se os mapas com filtro não refinado e re- finado. Essa abordagem, ao contrário daquelas que utilizam médias, produz uma solução não- otimizada, mas garante que o mapa final con- tenha tanto as parcelas mais importantes de ca- da biótopo como os hábitats mais importantes para cada espécie importante.

Os mapas das áreas sob proteção legal e das áreas importantes para a biodiversidade, de acordo com os filtros não refinados e refina- dos, foram sobrepostos para localizar e quan-

Ponto de Vista

21
21
 

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Demétrio Luis Guadagnin - Isabel Cristina Ferreira Gravato

tificar suas coincidências e as lacunas na pro- teção de hábitats e espécies.

RESULTADOS

Foram identificados e mapeados oito tipos de biótopos (FIGURA 3) – quatro hábitats natu- rais ou semi-naturais (florestas, cerrados, co- bertura arbustiva e campos rupestres), e qua- tro dominados por seres humanos – reflores- tamentos com espécies exóticas (Pinus spp ou Eucalyptus spp.), agricultura, áreas urbanas e estradas. A matriz da paisagem é composta de áreas urbanas (1.214 ha, 23% da área de es- tudo), florestas nativas (1.430 ha, 27% da área) e reflorestamento com árvores exóticas (913 ha, 17% da área). Três bairros densamen- te habitados (Glória/Cascata, Restinga e Lomba do Pinheiro) ocorrem na área de estu- do, com orientação noroeste-sudeste e são li- gados por um eixo de uma estrada principal.

Subúrbios menores estão espalhados pelo se- tor sul, intercalados com agricultura e cerra- dos. Nove porcento da área são ocupados por agricultura (458 ha) e 10% por cerrados (542 ha), a maioria destes na forma de peque- nos setores (máximo de 15 ha) na divisa com florestas, cerrados e áreas urbanas. Grandes áreas de remanescentes florestais nativos (máximo de 203 ha), cobrindo menos de 1% da área de estudo (35,5 ha), estão concentra- das em dois setores separados no nordeste e no sudeste. Pequenas porções de cerrado (máximo de 22 ha) estão dispersos por toda a área, cobrindo 13% do território (688 ha).

A análise da legislação ambiental revelou a

existência de 16 artigos e três outros argumen- tos legais governando a utilização e zoneamen-

to da terra (TABELA 1). Apenas um é espacial-

mente explícito e estabelecido – as Áreas de Preservação Permanente (APP), enquanto ou- tros são arbitrariamente redigidos, como as re-

Floresta nativa Reflorestamento com exóticas Agricultura Formações rochosas Campos Cobertura arbustiva Áreas urbanas

Floresta nativa Reflorestamento com exóticas Agricultura Formações rochosas Campos Cobertura arbustiva Áreas urbanas

FIGURA 3: Biótopos de um subúrbio de Porto Alegre, Sul do Brasil, enfrentando um rápido crescimento, 2003

Ponto de Vista

22
22

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

gras para reclamação de posse, exploração de florestas ou recuperação de áreas de reserva le- gal, que é compulsória. As regras para a desig- nação de APPs são reproduzidas em várias de- cisões Estaduais e Federais com pequenas dife- renças. Na área de estudo, 1.336 ha (26%) são APPs de acordo com a resolução 303/2002 do CONAMA (FIGURA 5). Os topos de morros perfazem 66% (901 ha) das APPs, as margens de corpos de água respondem por 30% e as en- costas íngremes por 4%. Cerca de 28% da área urbana localizam-se em APPs – 75,5% em topos de colinas, 21,5% em margens de corpos de água e 3% em encostas íngremes.

Um total de 1.115 ha (21,1% da área estudo) foi mapeado como importante para a conser- vação da biodiversidade, de acordo com a análise de filtro não refinado (TABELA 1; FI- GURA 4). Áreas extensas de biótopos natu- rais, a sua maioria no setor central, perderam sua condição devido à vulnerabilidade aos efeitos de borda resultantes da ocupação ur- bana desordenada.

A área de estudo inclui hábitats em potencial para 13 das 18 espécies que ocorrem em Porto Alegre e cercanias (dez de plantas vasculares, três de aves e cinco de mamíferos; TABELA 2).

TABELA 1. Comparação das áreas protegidas pela legislação ambiental brasileira e áreas importantes para a conservação da biodiversidade em um setor da borda urbana de Porto Alegre, Sul do Brasil, sob rápida expansão urbana. Os valores corres- pondem a hectares superpostos.

Tipo de área

Total

Total

Filtro não

Filtro

Áreas importantes

 

urbanizado

refinado

refinado

para a biodiversidade

Áreas legalmente protegidas

1.366

339

291

406

550

• Encostas íngremes (45º)

54

10

16

25

29

• Topos de Colinas

901

256

193

164

296

• Margens de corpos de água

411

73

82

226

226

Áreas não protegidas

3.914

875

824

1.083

1.449

Total

5.280

1.214

1.115

1.489

1.999

TABELA 2. Resumo do hábitat disponível (em hectares) para espécies ameaçadas em um setor da borda urbana de Porto Alegre, Sul do Brasil

Espécie

Categoria*

Hábitat Ideal

Hábitat Bom

Hábitat Mínimo

Aves

Euphonia violacea

VU

1.293

1.136

0

Xanthopsar flavus

VU

0

723

458

Mamíferos

Alouatta guariba clamitans

VU

1.431

0

0

Herpailurus yaguarondi

VU

55

4.011

0

Leopardus tigrinus

VU

1.431

2.635

0

Oncifelis geoffroyi

VU

55

4.011

0

Plantas vasculares

Butia capitata

EN

3

1.064

197

Apuleia leiocarpa

VU

0

1.460

511

Ocotea catharinensis

VU

0

1.142

829

Chionanthus filiformis

EN

0

1.142

829

Cattleya intermedia

VU

128

1.303

0

Picramnia parvifolia

VU

0

1.142

829

Urera nitida

VU

0

1.142

829

* VU = vulnerável; AM = ameaçada.

Ponto de Vista

23
23

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Demétrio Luis Guadagnin - Isabel Cristina Ferreira Gravato

A área fornece um extenso hábitat potencial pa- ra Allouata fusca e Leopardus tigrinus, enquanto nenhum hábitat preferido está disponível para cinco espécies de plantas (Apuleia leiocarpa, Ocotea catharinensis, Chionanthus filiformis, Picramnia parvifolia, Urera nitida) e uma espécie de ave (Xanthopsar flavus). Não há hábitat, na área de estudo, para Lontra longicaudis (VU) e Ephedra tweediana (AM). Não há informação disponível suficiente para se fazer um modelo para Clibanornis dendrocolaptoides (VU), Tillandsia aeranthos var. aemula (VU) e Tibouchina asperior (AM). A maioria das espé- cies prefere hábitats florestais. Oito espécies (Cattleya intermedia, Ocotea catharinensis, Chionanthus filiformis, Picramnia parvifolia, Urera nitida, Butia capitata, Oncifelis geoffroyi, Herpailurus yaguarondi) estão em áreas associa-

das a hábitats ribeirinhos; três outras (Butia capitata, Herpailurus yaguarondi, Oncifelis geoffroyi) preferem hábitats abertos. Um total de 1.489 ha (28% da área de estudos) corres- ponde a hábitats potenciais de alta qualidade para pelo menos uma espécie com interesse de preservação (TABELA 1; FIGURA 4).

A sobreposição dos mapas de filtros não refina- do e refinado resultou em 1.999 ha (25,4% da área de estudo) de áreas importantes para a conservação da biodiversidade (TABELA 1; FI- GURA 5). Desta área, 550 ha são protegidos co- mo APPs – 27,5% das áreas mapeadas como importante para a biodiversidade, ou 40% das áreas mapeadas como APPs. Topos de morros contribuíram menos do que o esperado para a conservação da biodiversidade (53% das áreas

■ Filtro refinado ■ Filtro não refinado ■ Áreas sobrepostas

Filtro refinado

Filtro não refinado

Áreas sobrepostas

FIGURA 4: Áreas importantes para a conservação da biodiversidade na borda urbana de Porto Alegre, Sul do Brasil, de acor- do com as abordagens de filtros não refinado (cinza claro, total de 510 ha; 25% da área de estudo) e refinado (cinza escuro, total de 884 ha; 44% da área de estudo). Áreas sobrepostas (640 ha; 30% da área de estudo) são mostradas em preto. O filtro não refinado é baseado em atributos espaciais dos biótopos (área, isolamento, conectividade e vulnerabilidade a impactos das redondezas). O filtro refinado baseia-se em distribuição prevista de hábitat em potencial para 13 espécies ameaçadas de ex- tinção de plantas vasculares e vertebrados.

Ponto de Vista

24
24

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

■ Legalmente protegida ■ Importante para a Biodiversidade ■ Áreas sobrepostas
■ Legalmente protegida
■ Importante para a
Biodiversidade
■ Áreas sobrepostas

FIGURA 5. Equivalência das áreas protegidas pela legislação ambiental brasileira (1.336 ha; 26% da área de estudo) e áreas importantes para a conservação da biodiversidade (1.999ha; 38% da área de estudo) em uma borda urbana de Porto Alegre, Sul do Brasil. As áreas equivalentes somam 550 ha.

importantes protegidas), enquanto as margens de corpos de água (41%) e encostas íngremes (5%) contribuíram em um grau maior.

DISCUSSÃO

Este estudo mostra que as regras espacialmen-

te explícitas na legislação ambiental brasileira –

a criação de Áreas de Preservação Permanente

(APP), não são suficientes para a proteção de

áreas importantes para a conservação da biodi- versidade nos subúrbios de Porto Alegre. Na área de estudo, como é de conhecimento geral,

a ocupação humana não é aleatória, expandin-

do-se primariamente sobre as planícies baixas e produzindo um arranjo desintegrado de bióto- pos. Isso provavelmente se aplica todas as pai-

Ponto de Vista

25
25

sagens dominadas por seres humanos, rurais ou urbanas, cuja cobertura original inclui um mosaico de hábitats.

Documentos legais que se concentram em pro- cessos ecossistêmicos e na proteção de flores- tas, como é o caso da criação das APPs brasilei- ras (Santos, 2004), são comuns no mundo in- teiro (Tjallingii, 2000; Sutherland, 2002; Battisti & Gippoliti, 2004).

Entre as áreas legalmente protegidas, as mar- gens de corpos de água foram particularmente importantes para a conservação da biodiversi- dade na área estudada. Esses hábitats ribeiri- nhos fornecem boas oportunidades para a im- plementação de corredores de biodiversidade (Rouget et al., 2006), assim como áreas verdes de alto valor social e para o ecossistema (Li,

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Demétrio Luis Guadagnin - Isabel Cristina Ferreira Gravato

2005). No entanto, sua proteção e recuperação são um desafio no Brasil, devido a pressões de especuladores imobiliários para suavizar a le- gislação sobre APPs e reservas legais (Araújo, 2002), como as que vem provocando os debates atuais em torno de um novo documento legal (Lei 6.514), relativo à aplicação da Lei dos Crimes Ambientais.

A abordagem desse trabalho, ou seja, a identifi-

cação de áreas importantes, é o primeiro passo para um processo de estabelecimento de priori- dades de conservação (Margules & Pressey,

2000).

Não se abordou a otimização da superfície ne- cessária para a conservação da biodiversidade. Idealmente, os filtros refinados utilizam a dis- tribuição real das populações importantes, o que não foi possível em nosso caso, devido à falta de informações, uma limitação provavel- mente comum a muitos exercícios de planeja- mento no mundo inteiro (Tucker et al., 1997; Sanderson et al., 2002; Wintle et al., 2005).

No entanto, o presente trabalho não tinha como finalidade o planejamento sistemático, mas lo- calizar todas as áreas consideradas importantes

para a biodiversidade e avaliar o quanto são re- presentadas no Brasil pela legislação espacial- mente explícita. Os mapas produzidos estabe- lecem um suporte para o planejamento urbano

e para a negociação entre as demandas compe- tidoras por áreas verdes (Marzluff, 2002).

As paisagens humanas e os cenários de conser- vação da biodiversidade em áreas urbanas se transformarão de acordo com a abordagem adotada. Abordagens ecossistêmicas são fre- qüentemente aplicadas em planejamentos ur- banos. Elas normalmente dão preferência a áreas protegidas que satisfaçam as exigências humanas, em função da falta de espaços verdes

e abertos, das fortes pressões imobiliárias e da

ausência de reconhecimento público com rela- ção à biodiversidade escondida das cidades (Marzluff, 2002; Miller & Hobbs, 2002; Breuste,

2004).

Essas condições podem levar a um aumento na

Ponto de Vista

26
26

fragmentação e complexidade espacial (Swenson & Franklin 2000; Robinson et al., 2005), como constatado na área estudada. Além disso, as áreas verdes resultantes tenderão a ser dominadas por espécies ruderais e exóticas e jardins muito elaborados (Dale, 2000; Yli- Pelkonen & Niemelä, 2005).

A abordagem de biodiversidade, por outro la-

do, requer a proteção de grandes e contíguas áreas de remanescentes florestais e mosaicos de hábitats selvagens (Sharpe et al., 1981; Zipperer et al., 2000). A integração dessas abordagens conflitantes nas áreas urbanas em expansão é um desafio de planejamento que ainda não foi

devidamente enfrentado (Löfvenhaft et al., 2004; Radeloff et al., 2005).

A proteção legal de áreas importantes para a

biodiversidade no Brasil claramente requer ins- trumentos outros que não as APPs, especifica- mente criados e usados para essa finalidade. Oportunidades flexíveis para complementar es-

sa proteção são a criação apropriada de Áreas

de Reserva Legal (ARLs) e a implementação de planos de zoneamento. Ambos não são espa- cialmente explícitos na legislação atual. Eles também podem contribuir para superar as limi- tações da implementação de corredores de bio- diversidade através apenas de hábitats ribeiri- nhos (Rouget et al., 2006). Atualmente, as ARLs são arbitrariamente localizadas, seguindo nego- ciações entre proprietários de terras e autorida- des. Planos de zoneamento são, tanto legal co- mo politicamente, menos poderosos do que as APPs e as ARLs, e não há regras explícitas sobre como satisfazer as necessidades da biodiversi- dade em tais exercícios.

O mundo está se tornando progressivamente

urbano e os impactos associados a esse tipo de uso da terra estão aumentando (Li et al., 2005; Löfvenhaft et al., 2002; McGranahan. & Satterthwaite, 2003). A legislação brasileira atual tende mais à proteção de processos ecos- sistêmicos e apenas para alguns tipos de hábi- tats, particularmente de florestas. Portanto, ela não é adequada para a conservação de amostras representativas de todos os hábitats e espécies importantes. Por outro lado, as estratégias

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

atuais de identificação de áreas prioritárias para

   

countries: a review of current trends and a cau-

a

biodiversidade não levam em consideração os

tion

regarding

existing

forecasts.

World

valores humanos e as exigências por áreas ver-

 

Development 32: 23-51.

 

des. Para ir ao encontro da meta de conservação da biodiversidade neste contexto, é necessário compreender os padrões e processos da expan- são urbana e desenvolver abordagens sensatas

Dale, V. H.; Brown, S.; Haeuber, R. A.; Hobbs,

N.

T.; Huntly, N.; Naiman, R. J.; Riebsame, W.

E.;

Turner, M. G.; Valone, T. J. 2000. Ecological

e

novas de legislação e planejamento.

novas de legislação e planejamento.

principles and guidelines for managing the use of land. Ecological Applications 10: 639-670.

 

Eastman, R. J. 1999. IDRISI32: Guide to GIS and Image Processing. Vol 1. Worcester: Clark Labs

AGRADECIMENTOS

 

Ewers, R. M.; Didham, R. K. 2006. Continuous response functions for quantifying the strength of edge effects. Journal of Applied Ecology 43:

 

527-536.

 

Agradecemos a Edward Benya, Eduardo Velez

   

Emerson Vieira, que gentilmente revisaram o manuscrito.

e

 

Fontana, C. S.; Benke, G. A.; Reis, R. E. (eds.). 2003. Livro vermelho da fauna ameaçada de extin- ção no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPU- CRS.

Forman, R. T. T.; Godron, M. 1986. Landscape ecology. New York: John Wiley & Sons.

REFERÊNCIAS

Araújo, S. M. V. G. de. As áreas de preservação permanente e a questão urbana. Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, Brasília, ago. 2002. Disponível em:

Ferrier, S.; Pressey, R. L.; Barrett, T. W. 2000. A new predictor of the irreplaceability of areas for achieving a conservation goal, its application to real-world planning, and a research agenda for further refinement. Biological Conservation 93:

www2.camara.gov.br/publicacoes/estnottec/

303-325.

 

tema14/pdf/207730.pdf. Acesso em: 27 ago.

 
 

2006.

 

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 2000. Censo Demográfico. Rio de Janeiro:

Battisti, C.; Gippoliti, S. 2004. Conservation in the urban-countryside interface: a cautionary note fromItaly. Conservation Biology 18: 581-583.

Brack, P.; Rodrigues, R. S.; Sobral, M. ; Leite, S. L. C. 1998. Árvores e arbustos na vegetação na- tural de Porto Alegre, RS. Iheringia, Série Botânica 51: 139 -166.

 

IBGE.

 

Li, F.; Wang, R. S.; Paulussen, J.; Liu, X. S. 2005. Comprehensive concept planning of urban greening based on ecological principles: a case study in Beijing, China. Landscape and Urban Planning 72: 325-336.

Breuste, J. H. 2004. Decision making, planning and design for the conservation of indigenous vegetation within urban development. Landscape and Urban Planning 68: 439-452.

Lino, C. 2002. Estratégias e instrumentos para a conservação, recuperação e desenvolvimento susten- tável na Mata Atlântica. São Paulo: Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica; Fundação SOS Mata Atlântica.

Cohen, B. 2003. Urban growth in developing

Löfvenhaft, K.; Bjorn, C.; Ihse, M. 2002. Biotope

 

Ponto de Vista

27
27

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Demétrio Luis Guadagnin - Isabel Cristina Ferreira Gravato

patterns in urban areas: a conceptual model in- tegrating biodiversity issues in spatial plan- ning. Landscape and Urban Planning 58: 223-240.

Löfvenhaft, K; Runborg, S.; Sjogren-Gulve, P. 2004. Biotope patterns and amphibian distribu- tion as assessment tools in urban landscape

planning. Landscape and Urban Planning 68: 403-

427.

Margules, C.R.; Pressey, R.L. 2000. Systematic Conservation Planning. Nature 405: 243-253.

Marques, A. (org.). 2002. Lista das espécies da fau- na ameaçadas de extinção no Rio Grande do Sul. Decreto nº 41.672, de 11 de junho de 2002. Porto Alegre: FZB/MCTPUCRS/PANGEA. (Publicações Avulsas FZB, nº11).

Marzluff, J. M. 2002. Fringe conservation: a call to action. Conservation Biology 16: 1175-1176.

McGranahan, G.; Satterthwaite, D. 2003. Urban centers: an assessment of sustainability. Annual Review of Environment and Resources 28: 243-274.

Menegat, R.; Porto, M. L.; Carraro, C. C.; Fernandes, L. A. D. (orgs.). 1998. Atlas Ambiental de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS.

Metzger, J. P. 2001. Effects of deforestation pat- tern and private nature reserves on the forest conservation in settlement areas of the Brazilian Amazon. Biota Neotropica 1: 1-14.

Miller, J. R.; Hobbs, R. J. 2002. Conservation where people live and work. Conservation Biology 16: 330-337.

Niemelä, J. 1999. Ecology and urban planning. Biodiversity and Conservation 8: 119-131.

Noss, R. F. 1987. From plant-communities to landscapes in conservation inventories - a look at the Nature Conservancy (USA). Biological Conservation 41: 11-37.

Noss, R. F. 1996. Conservation of biodiversity at the landscape scale. In: R C Szaro; D.W.

Ponto de Vista

28
28

Johnston (eds.). Biodiversity in managed land- scapes: theory and practice. Pp. 574-592. Oxford:

Oxford Univ. Press.

O’Neill, R. V.; Riitters, K. H.; Wickham, J. D.; Jones, K. B. 1999. Landscape pattern metrics and regional assessment. Ecosystem Health 5:

225-233.

Porto, M. L. 1998. As formações vegetais: evo- lução e dinâmica da conquista. In: Menegat, R. et al. Atlas Ambiental. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS.

Porto Alegre. 2004. Plano de Manejo Participativo do Parque Natural Morro do Osso. Porto Alegre:

Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAM).

Radeloff, V. C.; Hammer, R. B.; Stewart, S. I.; Fried, J. S.; Holcomb, S. S.; Mckeefry, J. F. 2005. The wildland-urban interface in the United States. Ecological Applications 15: 799-805.

Rebele, F. 1994. Urban ecology and special fea- tures of urban ecosystems. Global Ecology and Biogeography Letters 4: 173-187.

Robinson, L.; Newell, J. P.; Marzluff, J. A. 2005. Twenty-five years of sprawl in The Seattle re- gion: growth management responses and im- plications for conservation. Landscape and Urban Planning 71: 51-72.

Rouget, M. 2003. Measuring conservation val- ue at fine and broad scales: implications for a diverse and fragmented region, the Agulhas Plain. Biological Conservation 112: 217-232.

Rouget M.; Cowling, R. M.; Lombard A. T.; Knight A. T.; Graham I. H. K. 2006. Designing large-scale conservation corridors for pattern and process. Conservation Biology 20: 549-61.

Sanderson, E. W.; Redford, K. H.; Vedder, A.; Coppolillo, P. B.; Ward, S.E. 2002. A conceptual model for conservation planning based on landscape species requirements. Landscape and Urban Planning 58: 41-56.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

O valor da legislação ambiental brasileira na conservação da biodiversidade em áreas suburbanas: um estudo de caso em Porto Alegre, Brasil

Santos, R. F. 2004. Planejamento ambiental: teoria e prática. São Paulo: Oficina de textos.

Sharpe, D. M.; Stearns, F. W.; Burgess, R. L.; Johnson, W. C. 1981. Spatio-temporal patterns of forest ecosystems in man-dominated land- scape. In: S P Tjallingii; A.A. De Veers (eds.). Perspectives In Landscape Ecology. Pp.109-116. Wageningen: The Netherlands Pudoc.

Sutherland, W. J. 2002. Restoring a sustainable countryside. Trends in Ecology & Evolution 17:

148-150.

Swenson, J. J.; Franklin, J. 2000. The effects of future urban development on habitat fragmen- tation in the Santa Monica Mountains. Landscape Ecology 8: 713-730.

Theobald, D. M. 2003. Targeting conservation action through assessment of protection and

exurban threats. Conservation Biology 17: 1624-

1637.

Tischendorf L.; Bender D. J.; Fahrig L. 2003. Evaluation of patch isolation metrics in mosaic landscapes for specialist vs. generalist dis- persers. Landscape Ecology 18: 41-50.

Tjallingii, S. P. 2000. Ecology on the edge: land- scape and ecology between town and country. Landscape and Urban Planning 48: 103-119.

Trepl L. 1995. Towards a theory of urban bio- coenoses. In: Sukopp H., Numata M.; Huber A. (eds.). Urban Ecology as the basis for Urban Planning. Pp. 3-21. The Hague: SPB Academic Publishing.

Tyrväinen, L. 1997. The amenity value of the urban forest: an application of the hedonic pric- ing method. Landscape and Urban Planning 37:

211-222.

Tucker, K.; Rushton, S. P.; Sanderson, R. A.; Martin, E. B.; Blaiklock, J. 1997. Modelling bird distributions - a combined GIS and bayesian rule-based approach. Landscape Ecology 12: 77-93.

Ponto de Vista

29
29

United Nations 2003. World urbanization prospects: the 2003 revision. New York: United Nations.

Wintle, B. A.; Elith, J.; Potts, J. M. 2005. Fauna habitat modelling and mapping: a review and case study in the Lower Hunter Central Coast Region of NSW. Austral Ecology 30: 719-738.

Whited D.; Galatowitsch S.; Tester J. R.; Schik K.; Lehtinen R.; Husveth J. 2000. The impor- tance of local and regional factors in predicting effective conservation planning strategies for wetland bird communities in agricultural and urban landscapes. Landscape and Urban Planning 49: 49-65.

Yli-Pelkonen, V.; Niemelä, J. 2005. Linking eco- logical and social systems in cities: urban plan- ning in Finland as a case. Biodiversity and Conservation 14: 1947-1967.

Zipperer, W. C.; Wu, J. G.; Pouyat, R. V.; Pickett, S. T. A. 2000. The application of ecological prin- ciples to urban and urbanizing landscapes. Ecological Applications 10: 685-688.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 17-29

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

Kátia Torres Ribeiro 1

ICMBio

Jaqueline Serafim do Nascimento

Conservação Internacional do Brasil

João Augusto Madeira

ICMBio

Leonardo Cotta Ribeiro

Instituto Guaicuy / SOS Rio das Velhas

RESUMO. A Serra do Cipó (Cadeira do Espinhaço, MG) é famosa pela riqueza e endemismo dos campos rupestres, complexo vegetacional sobre solos quartzosos, incluídos oficialmente no Bioma Cerrado. Forte contraste climático é imposto pelo maciço montanhoso – fitofisionomias de Cerrado predominam nas partes baixas a oeste, e as vertentes orientais sustentam fragmentos de Mata

Atlântica, antes contínua em todo o vale do rio Doce, com embaúbas-brancas (Cecropia hololeuca), pal- mitos-juçara (Euterpe edulis) e indaiás (Attalea oleifera). Mesmo sem espécies características do Cerrado, mapas oficiais consideram essas encostas como campos limpos ou sujos, erro devido, pos- sivelmente, ao difícil discernimento em imagens de satélite de fisionomias abertas sobre solos are- nosos, à degradação das matas ou à escala empregada na delimitação dos biomas. Com base em tes- temunhos científicos antigos e recentes, mapeamento em campo da distribuição das espécies arbó- reas citadas acima, indicadoras de Mata Atlântica, de fácil visualização, da contigüidade das matas e posicionamento de frentes estacionárias, redelimitamos o bioma Mata Atlântica na região em esca-

la 1:100.000, com acréscimo de 49.856 ha (Parque Nacional da Serra do Cipó: 8.067 ha; APA Morro da

Pedreira, que o circunda: 41.789 ha), ainda sob forte pressão de desmatamento, recomendando sua inclusão nas ações e planejamentos dirigidos à Mata Atlântica e subsidiando o zoneamento e gestão das duas UCs. Enxergar os campos rupestres, já considerados como fitocória autônoma, como inse- ridos entre dois biomas ricos e dinâmicos auxilia, ainda, na compreensão da sua evolução.

Palavras-chave: Biogeografia, Campos Rupestres, Legislação Ambiental, Mata de Neblina, Sensoriamento remoto.

INTRODUÇÃO

A

classificação do mundo natural é uma tare-

fa

essencial e básica para a construção do co-

nhecimento, seja ele científico ou não. A defi-

1 katia.torresribeiro@gmail.com

Artigos Técnico-Científicos

30
30

nição de categorias e a distribuição dos ele- mentos nas categorias criadas é uma atividade complexa e com forte componente de subjeti- vidade, o que a torna sujeita a debates e dis- cordâncias recorrentes (Durkhein & Mauss, 1981). Tal consideração não é nenhuma novi- dade, mas freqüentemente as categorias e suas delimitações são entendidas como verdades

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

em si, e não como tentativas humanas de or- ganizar sua compreensão do mundo natural, problema agravado quando estas classifica- ções precisam servir de base para leis. Mas os componentes do mundo natural não costu- mam respeitar fronteiras por nós criadas, de modo que as revisões com base em novas in- formações são sempre necessárias.

No caso da Mata Atlântica, bioma extrema- mente diverso e dos mais ameaçados do mundo (Myers et al., 2000), tema deste traba- lho, afirma Câmara (2005) que se trata de “um termo popular sem significado científico pre- ciso”. O nome faz alusão à sua proximidade com o Oceano Atlântico, em toda a costa bra- sileira, mas não é suficiente para contemplar toda a variedade de situações encontradas. Para fins legais e conservacionistas, desde a década de 1980 são muitos os esforços em busca de consensos quanto à delimitação da Mata Atlântica, processo este dificultado por sua característica diversidade de composi- ções e fisionomias, por sua devastação, que dificulta ou impede a reconstituição da conti- nuidade florestal ou das fisionomias origi- nais, e pelas pressões políticas pela restrição da abrangência da denominação.

Em 1990, foi realizado um workshop com 40 especialistas que concordaram que a expres- são ‘mata atlântica’ deveria designar as “flo- restas pluviais do litoral, as matas sulinas mis- tas com araucária e lauráceas, as florestas es- tacionais decíduas e semidecíduas interiora- nas; e os ecossistemas associados ( )” (Câmara, 2005). A definição ampla de Mata Atlântica foi incorporada à legislação, e o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CO- NAMA) incluiu em 1993, através da Resolução 010/93, todas as referidas forma- ções no Domínio da Mata Atlântica. Esta com- preensão, que se apoiava em dados consisten- tes de flora e fauna, foi posteriormente corro- borada de forma ainda mais sólida pelo traba- lho analítico de Oliveira-Filho & Fontes (2000) que, comparando no âmbito de espécies, gê- neros e famílias a composição florística de 125 levantamentos fitossociológicos realizados na Amazônia, no domínio dos Cerrados e em to-

Artigos Técnico-Científicos

31
31

do o domínio acima referido da Mata

Atlântica, confirmaram a afinidade florística de todas as matas atlânticas – montanas, inte- rioranas, litorâneas; do sul ao nordeste – dis- tanciadas das amostras de floresta amazônica e cerradão, fosse no conjunto de espécies, de gêneros ou de famílias de plantas arbóreas. Não foram encontrados argumentos para dei- xar as matas estacionais fora dos limites do domínio da Mata Atlântica, uma vez que elas constituem um continuum na distribuição das espécies em direção ao interior do continente (Oliveira-Filho & Fontes, 2000). Em Minas Gerais, esta posição foi reiterada em 2005 no workshop “Definição e delimitação dos domí- nios e subdomínios das paisagens naturais do estado de Minas Gerais” (Oliveira-Filho et al., 2006). Apesar de aceitarem, de forma pragmá- tica, os limites propostos no mapa de biomas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os autores defenderam claramen-

te que as disjunções florestais nos domínios

do Cerrado e da Caatinga deveriam ser consi- derados como partes integrantes da Mata Atlântica devido à afinidade florística e estru- tural e à alta relevância destas formações dis- juntas para a conservação da biodiversidade (Oliveira-Filho et al., 2006).

Muitos pesquisadores concordam que por- ções expressivas da Mata Atlântica ficaram fora dos limites oficiais do bioma, como se de- preende de Hirota (2005), quando diz que “é importante destacar os esforços da Fundação SOS Mata Atlântica e do INPE no sentido de mapear os remanescentes florestais das áreas anteriormente não avaliadas, como as matas secas, especialmente os encraves e as florestas estacionais decíduas e semidecíduas, nos es- tados do Piauí, Bahia e Minas Gerais”.

Como enfatiza Sutherland (2000), o conheci- mento da abundância e distribuição dos dife- rentes tipos de hábitat e seu grau de conser- vação, em diferentes escalas, é uma das ferra- mentas essenciais de gestão e definição de prioridades. Tal tarefa exige definição precisa de cada hábitat, o que não é tarefa tão banal,

e requer o reconhecimento em campo na

maior quantidade possível de áreas, de modo

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

a se conhecer a gama de ambientes e sua cor- respondência em imagens.

As matas estacionais são muito diversifica- das, e agrupadas em um único conjunto em

esti-

mados de cobertura original (ou 48,65% da área total de Mata Atlântica), restam apenas 3%, que recobrem desde as ricas terras roxas até solos quartzosos extremamente pobres e arenosos (Câmara, 2005), como é o caso da vertente oriental do Espinhaço. Esta antiga cadeia montanhosa se estende por 1.000 km na direção N-S, desde a porção central de Minas Gerais até o estado da Bahia, na Chapada Diamantina. Nela predominam so- los arenosos originados de rochas quartzosas. Ao longo destas montanhas, de composição geológica heterogênea e complexa (Almeida- Abreu, 1995), a distinção de fisionomias vege- tacionais é uma tarefa árdua, tanto pela hete- rogeneidade em si, com amplas variações em pequenos espaços, como pelo fato de a reflec- tância observada nas imagens de satélite combinar os efeitos de um amplo conjunto de tipos de solos e formações vegetacionais, cuja rarefação dos elementos lenhosos pode ser re- lacionada tanto a fatores antrópicos quanto a influências edáficas, e combinações destas. As formações abertas de toda a região foram in- cluídas no Domínio do Cerrado, seja como ‘campos’, ‘campos rupestres’ ou ‘cerrado típi- co’ no recente mapeamento apresentado por Scolforo & Carvalho (2006), independente- mente da composição florística, imprecisão relacionada ao fato deste mapeamento ter re- coberto todo o estado, de grandes dimensões, utilizando sensoriamento remoto.

função da devastação – dos 635.552 Km

2

Na Serra do Cipó, ao sul da Serra do Espinhaço, a delimitação oficial dos biomas começou a ser questionada e revista a partir dos primeiros estudos para elaboração dos planos de manejo do Parque Nacional da Serra do Cipó e da Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira, as duas unida- des de conservação federais da região. As ver- tentes orientais, a barlavento, que englobam vales integrantes da bacia hidrográfica do Rio Doce bem como alguns vales integrantes da

Artigos Técnico-Científicos

32
32

bacia do São Francisco, recebem a umidade proveniente do oceano Atlântico, umidade esta que permite o crescimento de florestas e florestas anãs até mesmo sobre superfícies ro- chosas no estado de Minas Gerais (Oliveira-

Filho et al., 2006). A América do Sul como um todo se destaca pela riqueza de epífitas da ve- getação, e justamente na faixa nebular há grande diversificação, mesmo em locais com baixa precipitação (Sugden & Robins, 1979), uma vez que a contribuição da nebulosidade para o balanço geral de umidade da vegeta- ção é muito elevada (Cavelier & Goldstein, 1989), principalmente para formas de vida com maior capacidade de absorver a umida- de atmosférica (Smith, 1972; Lüttge, 1997).

A importância da umidade como explicadora de limites até certo ponto abruptos entre Cerrado e Mata Atlântica se depreende do tre- cho a seguir, extraído de Rizzini (1997):

Cerrado e Mata Atlântica vegetam sob o mesmo clima geral dominado por uma estação seca. Por is-

so, tão freqüentemente ocorrem juntos, em mosaico. No segundo, porém, o ambiente aéreo é muito mais

úmido. (

uma formação climática nas serras litorâneas; no Planalto Central, as suas porções são formações edáficas – porque, sendo o ambiente mais seco, ela aí subsiste nos pontos onde o solo é favorável: neste ca- so o solo compensa o clima”. Na Serra do Cipó en- contram-se os dois tipos de contraste – seja pe- la variação abrupta em umidade, seja pela dis- tribuição em mosaico dos tipos de solo, geran- do um mosaico vegetacional.

)

A floresta atlântica é indiscutivelmente

Toda a região é afetada por incêndios (Ribeiro, 2007), mas os remanescentes florestais, além do fogo, estão sob forte pressão de desmata- mento para produção de carvão para indústria siderúrgica e conversão da vegetação nativa em pastos de capim-braquiária e outras gramí- neas africanas, bem como plantios de eucalip- to, transformações observadas até mesmo em áreas onde antes predominava a exploração de candeia (Eremanthus erythropappa e E. incanus), espécie nativa comum nos solos pedregosos e alvo de planos de manejo florestal (Scolforo et al., 2006). Tais explorações são facilitadas por se considerar esta região como bioma

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

Cerrado, mas os programas de fomento para o Cerrado não são adequados, por outro lado, a esta região.

Neste estudo propõe-se uma revisão da fron- teira entre a Mata Atlântica e o Cerrado na re- gião da Serra do Cipó. Não existe neste caso um conflito entre conceitos e definições cor- rentes e aceitas, mas sim a possibilidade de trabalhar localmente com maior nível de pre- cisão, visando melhor conhecimento da vege- tação, subsídios à expansão da pesquisa e fer- ramentas mais adequadas para proteção de uma porção surpreendentemente pouco co- nhecida da famosa Serra do Cipó. Os seguin- tes indicadores e ferramentas foram utilizados como base para a redelimitação: A. relatos an- tigos sobre a cobertura vegetal original e épo- cas de destruição; B. testemunhos de pesqui- sadores contemporâneos; C. localização de es- pécies indicadoras da Mata Atlântica que se- jam facilmente observáveis a distância; D. dis- tribuição da canela-de-ema gigante (Vellozia gigantea), indicadora de região diretamente afetada pela condensação da umidade; E. pre- sença de remanescentes de matas; F. formação de nebulosidade estacionária ao longo da ver- tente oriental do maciço montanhoso.

MATERIAIS E MÉTODOS

Área de estudo

O nome Serra do Cipó vem sendo apropriado por crescente número de localidades por ra-

zões turísticas e de mercado, daí a necessida- de de se delimitar a área aqui enfocada. Considerou-se como Serra do Cipó toda a re- gião abrangida pelo Parque Nacional da Serra do Cipó, com 31.632 ha, e pela Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira, com

100.107 ha (coordenadas: 19 o 03’-36’S;

42’W), que circunda inteiramente o Parque Nacional, funcionando como sua “zona-tam- pão”, como já previsto em seu decreto de cria- ção. Inclui as partes mais elevadas dos muni- cípios de Jaboticatubas, Santana do Riacho, Morro do Pilar, Itambé do Mato Dentro,

43 o 22’-

Artigos Técnico-Científicos

33
33

Itabira, Nova União e Taquaraçu de Minas (FIGURA 1). O Parque abarca partes dos qua- tro primeiros municípios e sua sede, em Jaboticatubas, dista apenas 100 Km do centro da capital do estado, Belo Horizonte, cuja re- gião metropolitana tem cinco milhões de habi- tantes. Aregião montanhosa é bem delimitada ao sul por um breve hiato nas elevações, se- guido pelas montanhas da Serra do Caraça, e ao norte o maciço montanhoso se estende con- tinuamente até a região de Diamantina (18 o S).

A complexidade geológica da região (Almeida-Abreu, 1995) se reflete na heteroge- neidade de solos e tipos vegetacionais. Latossolos são comuns sobre as formações cársticas a oeste do maciço montanhoso (Formação Bambuí), entremeados com solos rasos e inférteis, que sustentam campos sujos e outras formações abertas. As montanhas são edificadas principalmente por rochas do Supergrupo Espinhaço, com preponderância de quartzitos, que geram solos arenosos e de baixíssima fertilidade, e com padrões de dre- nagem bastante variáveis conforme a existên- cia de diques rochosos e conforme a declivi- dade. Exceções nos planaltos são os solos mais férteis e desenvolvidos formados sobre dispersas intrusões de rochas metabásicas (Almeida-Abreu, 1995). A leste do maciço montanhoso, cambissolos e latossolos se de- senvolvem sobre rochas do embasamento cristalino. Não há estações meteorológicas oficiais na região, mas o clima é classificado de forma genérica como tropical de altitude (Cwb de acordo com Köppen), com verões muito chuvosos e invernos secos, com preci- pitação concentrada entre os meses de no- vembro e março, e média anual em torno de 1.500 mm (Madeira & Fernandes, 1999). No entanto, situações muito contrastantes são en- contradas ao longo da região, considerando as diferenças entre vertentes a barlavento e a sotavento do maciço e o efeito da variação al- titudinal de 800 a 1670 m a.s.l. Nebulosidade quase constante prevalece nas vertentes orientais (FIGURA 2), enquanto as vertentes ocidentais enfrentam até sete meses de seca. Da Serra do Cipó, à altura do paralelo 19 o S, em direção ao norte, o relevo montanhoso di-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

Rodovia MG 010 Limite de Municípios Limite PARNA Limite APA Vegetação-GEOMINAS Classificação Caatinga Campo
Rodovia MG 010
Limite de Municípios
Limite PARNA
Limite APA
Vegetação-GEOMINAS
Classificação
Caatinga
Campo Rupestre
Cerrado
Floresta Atlântica
Bimas IBGE
Classificação
Cerrado
Caatinga
Floresta Atlântica
Fonte: Limite Municípios e UC’s – IBAMA
Proteção UTMSAD69: Fuso 23K
Limites Biomas: IBGE

FIGURA 1: Localização da região da Serra do Cipó, com limites dos municípios e das duas unidades de conservação federais:

Parque Nacional da Serra do Cipó e APA Morro da Pedreira. Representa-se ainda o limite oficial atual entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado na região conforme o IBGE (zonas hachuradas) e limites vegetacionais conforme GEOMINAS (em cores). No mapa menor, no canto superior esquerdo, apresentam-se as duas unidades de conservação em relação aos biomas Cerrado (verde-claro), Mata Atlântica (verde-escuro) e Caatinga (laranja), no estado de Minas Gerais.

Artigos Técnico-Científicos

34
34

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

A B C
A
B
C
D E F
D
E
F

FIGURA 2: Prancha de fotografias – A. Fragmento florestal cercado por pastagens de capim-braquiária, em Cabeça de Boi, no município de Itambé do Mato Dentro, porção leste da APA Morro da Pedreira; B,C. Epífitas sobre a canela-de-ema gigante (Vellozia gigantea), ilustrando a alta umidade comumente verificada – musgos no alto dos ramos e um exemplar de Sophronites brevipedunculata, característica de Mata Atlântica, indicada pela seta preta; D. Fragmento de mata a 1200 metros de altitude no município de Morro do Pilar com Cecropia hololeuca (embaúba-branca), indicada pela seta branca e Attalea oleifera (in- daiá) despontando no dossel. E. Árvore queimada, junto a indivíduo de candeia, testemunhando conversão da paisagem de mata para candeial, sobre solos arenosos. F. Visão do Travessão, no fundo do Vale da Bocaina (Parque Nacional da Serra do Cipó), que divide as drenagens do Rio das Velhas e Rio Doce. Podem-se ver as nuvens provenientes da vertente leste, que se rarefazem na vertente oeste, de onde se tirou a fotografia (fotos de K.T. Ribeiro)

vide a Mata Atlântica, para leste, dos Cerrados, para oeste. Os municípios de Itabira, Itambé do Mato Dentro, Morro do Pilar e Conceição do Mato Dentro são parcial- mente incluídos nos limites oficiais da Mata Atlântica (de acordo com critérios do Ministério do Meio Ambiente, baseados em dados do IBGE e Fundação SOS Mata Atlântica), mas todo o território incluído na APA Morro da Pedreira ficou fora desta deli- mitação, sendo justamente a região com maior porcentagem de vegetação preservada na vertente leste.

As análises e mapas foram feitos em ambien- te ArcGIS® 9.0 (ESRI). A base vetorial para al- timetria, hidrografia, sistema viário e divisão política foi obtida a partir das cartas topográ- ficas do IBGE em escala 1:100.000, digitaliza-

Artigos Técnico-Científicos

35
35

das e corrigidas com informações de campo.

Relatos antigos e testemunhos contemporâneos

Procedeu-se a um levantamento de relatos de naturalistas que percorreram a região, sobre- tudo no século XIX, que contivessem infor- mações de interesse para uma tentativa de re- constituir um quadro da paisagem original da região, sobretudo da vertente leste da Serra do Cipó. Da mesma forma, procurou-se le- vantar informações científicas atuais, seja na literatura ou em contatos pessoais.

Mapeamento de espécies indicadoras

Utilizou-se um conjunto pequeno de espécies indicadoras da Mata Atlântica, mas que, por

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

serem conspícuas, permitiram uma varredura extensa e suficientemente homogênea da re- gião de estudo. Foram elas o palmito-juçara (Euterpe edulis), a embaúba-branca (Cecropia hololeuca), e a palmeira indaiá (Attalea oleifera), esta última comum nas matas semidecíduas. A palmeira macaúba (Acrocomia aculeata), as- sociada a solos férteis (Motta et al., 2002), po- rém não claramente afetada pela variação em precipitação dentro da área de estudo, e co- mum nas formações mesofíticas nos domí- nios da Mata Atlântica e do Cerrado, também foi incluída no mapeamento como uma com- paração com as duas outras palmeiras, indi- cativas de mata atlântica, mas sem associação exclusiva com solos férteis.

Todas as trilhas e estradas no interior do Parque, bem como trilhas e estradas que co- nectam o Parque a vilas no sopé da monta- nha, foram percorridas e mapeadas entre ja- neiro de 2003 e julho de 2006, durante os es- tudos para os planos de manejo ou em ações cotidianas de gestão das unidades de conser- vação. A ocorrência das espécies indicadoras ao longo de cada pequena drenagem cortada pelas trilhas foi registrada com uso de GPS, sendo os pontos marcados no leito da própria trilha, no ponto de onde a planta foi avistada. A precisão é razoável, uma vez que o terreno é bastante acidentado, e os pontos marcados não são muito distantes da localização mes- ma das plantas. A partir destes dados fez-se um mapeamento da região de ocorrência de cada espécie, considerando as drenagens aci- ma referidas, inventariando todos os vales em torno do parque nacional.

Proporção de remanescentes florestais

Para caracterizar a distribuição espacial dos remanescentes florestais na região da Serra do Cipó, e avaliar a importância e urgência de conservação dos remanescentes inseridos nas duas unidades de conservação em estudo, calculou-se a área absoluta e a proporção dos remanescentes dentro de uma área de 501.333 há, correspondente à faixa de 20 km em torno da APA Morro da Pedreira.

Artigos Técnico-Científicos

36
36

Esta área foi por sua vez subdividida em qua- tro porções, de acordo com delimitação deri- vada da proposta do GEOMINAS (SEA, 1980; ver FIGURA 1): Mata Atlântica (64.218,8 ha), faixa de Cerrado a leste dos campos rupestres (Cerrado Leste: 61.334,9 ha), Campos Rupestres (217.638,7 ha) e faixa de Cerrado a oeste (Cerrado Oeste: 158.141,2 ha).

Não se trata de uma divisão de biomas, e sim uma proposta de divisão de grandes conjun- tos vegetacionais. Utilizou-se a classificação da vegetação de Scolforo & Carvalho (2006; Mapa de Vegetação do estado de Minas Gerais), e calculou-se a proporção de cobertu- ra florestal em cada uma destas faixas. Para as análises, considerando a baixa acurácia da classificação, foi feito o agrupamento de to- das as feições florestais - matas secas, semide- cíduas e mesmo matas que podem vir a ser consideradas como ombrófilas, após estudos pertinentes.

Distribuição geográfica de Vellozia gigantea

Acanela-de-ema gigante (Vellozia gigantea) é a maior dentre as Velloziaceae (Menezes & Mello-Silva, 1999), família com grande núme- ro de espécies endêmicas dos campos rupes- tres e estreitamente associada a ambientes ro- chosos (Ayensu, 1973). V. gigantea tem hábito dracenóide e sustenta grande densidade de epífitas em seus muitos ramos, inclusive or- quídeas de gêneros característicos da Mata Atlântica como Grobya (Barros & Lourenço, 2004) e Sophronites, ausentes ou escassas na vertente ocidental. Era conhecida até recente- mente por uma única população, ocupando área de cerca de 1 ha, em afloramentos rocho- sos próximos à rodovia MG-010, dentro do Parque Nacional da Serra do Cipó (Menezes & Mello-Silva, 1999), em drenagem já inserida na bacia do Rio Doce. Mapeamento detalhado desta espécie ao longo das vertentes orientais da Serra do Cipó começou em 2004 (L.C. Ribeiro et al., em preparação), e os resultados elevaram sua distribuição conhecida para cer- ca de 2.200 ha, em áreas descontínuas de difí- cil acesso. Consideramos esta espécie, endê- mica da Serra do Cipó, como indicadora de

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

vegetação associada à neblina na região (FI- GURA 2), e sua ocorrência ajuda a localizar a área diretamente afetada pela condensação da umidade.

Frente de nebulosidade estacionária

Linhas delimitadoras da nebulosidade estacio- nária foram definidas para 10 imagens Landsat 7, sensor TM (Thematic Mapper), ob- tidas entre 2000-2003, disponíveis em formato .jpg na internet (http://www.engesat.com.br), escolhidas por apresentarem elevada cobertu- ra por nuvens. Extraiu-se uma linha represen- tando a posição média no limite de nebulosi- dade, para subsidiar a definição do limite en- tre biomas.

Para verificar o limite proposto com uso de outra técnica, a cobertura por nuvens foi ex- traída de três imagens CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), sensor CCD (Charge-Coupled Device), dos anos de 2003, 2004 e 2005 (http://www.cbers.inpe.br). Elas foram modeladas com uso do algoritmo NDVI (normalized difference vegetation index), com a intenção de amplificar o contraste entre os elementos vegetacionais, as nuvens e ou- tros elementos físicos (técnica em Chuvieco, 1996). Com uso do programa Multispec as nuvens foram extraídas da imagem por meio de classificação não supervisionada, e nestas imagens fez-se outra delimitação da linha de nebulosidade estacionária, bastante coinci- dente com a anterior.

RESULTADOS

Relatos antigos sobre as formações florestais e sua destruição

Em artigo que trata da ocupação histórica da região de Santana do Riacho, como parte da contextualização das pesquisas arqueológicas realizadas na região, Guimarães (1991), resga- tou informações sobre a ocupação do territó- rio a partir principalmente dos relatos de na- turalistas e viajantes do século XIX. Estes via-

Artigos Técnico-Científicos

37
37

jantes dirigiam-se em sua maioria ao Arraial do Tejuco, atual Diamantina, seja pelo cami- nho a oeste, cruzando os cerrados, seja pela vertente leste da Serra, passando pelos atuais municípios de Itambé do Mato Dentro e Morro do Pilar, chegando então a Conceição do Mato Dentro (FIGURA 1).

A cidade de Morro do Pilar, sede do municí- pio de mesmo nome, era então conhecida co- mo Gaspar Soares, ou Morro do Gaspar. Auguste de Saint-Hilaire, em seu trajeto de Itambé à vila do Príncipe, diz que: “Toda a re- gião que se estende até Vila do Príncipe é ain- da montanhosa, e as florestas, que a cobriam outrora, deram lugar, em muitos pontos, a imensas pastagens de capim-gordura. Não se vislumbra, por assim dizer, o menor sinal de cultura”. Entre a localidade de Ponte Alta e o

) não

Morro do Gaspar Soares, diz ainda: “ (

se avistam senão imensas campinas de ca- pim-gordura com alguns feixes de bosques. Por estas pastagens vêem-se, de um lado, al- guns indaiás, cujas folhas largas se agitam à menor aragem. Esse lugar não apresenta o menor vestígio de lavagens, e, pelo que me disseram, foi outrora cultivado; a aparição, porém, do capim-gordura decidiu os proprie- tários a procurar alhures matos ainda por destruir”.

Seguindo o mesmo caminho de Saint-Hilaire,

Spix e Martius, que visitaram o Brasil entre

1817 e 1820, informam que “há quarenta anos

passados [toda a região de montanhas entre

Gaspar Soares e a referida Vila] era revestida de densa mata virgem sem interrupções, con- tinuando as matas do Rio Doce”, mas que àquela altura, grandes trechos já haviam sido abatidos. Gardner, que viajou pelo Brasil de

1836 a 1841, ao se dirigir a Gaspar Soares a

partir de Conceição do Mato Dentro, diz ter atravessado uma região “de densas florestas virgens semelhantes às da Serra dos Órgãos e, como nesta, abundantes em fetos arborescen- tes, pequenas palmeiras e grandes bambus”. Ao passar pelo Arraial de Gaspar Soares, Gardner registra que “não havia sinal de plantações, embora ao que me informam, to- dos estes campos nus tivessem sido cultiva-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

dos até que o capim gordura os invadiu. Derrubando florestas virgens, fizeram-se a al- guma distância novas plantações, que por sua vez terão de ser abandonadas pela mesma causa” (textos citados em Guimarães, 1991).

Fortes transformações da paisagem (FIGURA 2) também podem ser depreendidas do de- poimento de Georg von Langsdorff ao passar pela Serra do Cipó em 1824: “No inverno, ou seja, julho e agosto, as matas se congelam; ár- vores, gramíneas e folhas mortas e secas estão prontas para serem queimadas, como prepa- ração para futuras plantações. O fogo, no en- tanto, atinge proporções terríveis e acaba ar- rasando e destruindo matas, campos e terras.

) (

Era até perigoso sair de casa. O fogo ardia

em toda a região, espalhando-se até mesmo sobre o Rio Cipó, que tem 20 braças de largu- ra, e sobre outros menores. Não há canais, água, leis, nada que proteja a região contra as queimadas” (Silva, 1997).

Testemunhos recentes

Do amplo conjunto de pesquisadores que tra- balharam na Serra do Cipó, alguns se dirigi- ram aos vales que drenam para a bacia do Rio Doce, distanciando-se um pouco da estrada principal (MG-010), ou estudaram os capões de mata em elevada altitude, dispersos na matriz graminóide, e reconheceram a afinida- de florística e faunística destes com a Mata Atlântica. Giulietti et al. (1987), ao sintetiza- rem e apresentarem os levantamentos florísti- cos realizados durante décadas na região, ca- racterizaram explicitamente as vertentes orientais como afins à Mata Atlântica. Melo- Junior et al. (2001) realizaram um amplo le- vantamento ornitológico na Serra do Cipó, e nas matas com grande predominância de can- deias, que consideraram como transição entre campos rupestres e mata atlântica, encontra- ram 14 espécies de aves endêmicas da Mata Atlântica, representando 5,1% das espécies registradas, e enfatizaram o elevado grau de destruição das formações florestais na região. Oliveira et al. (2003) encontraram o sagüi Callithrix geoffroyi nos capões de mata alti- montanos e conjecturaram que a Serra do

Artigos Técnico-Científicos

38
38

Cipó poderia ser considerada como um divi-

sor biogeográfico de espécies de Callithrix, com C. penicilata a oeste e C. geoffroyi a leste. Recentemente, no I Seminário Interdisciplinar de Pesquisadores da Serra do Cipó (maio de 2007), organizado para estruturar a consulta à comunidade científica acerca das propostas dos planos de manejo do Parque Nacional da Serra do Cipó e da APA Morro da Pedreira, os pesquisadores presentes, muitos com dados inéditos, ratificaram unanimemente a pro- posta de considerar a vertente leste como Mata Atlântica, incluindo os vales de Nova União e Taquaraçu de Minas, que drenam pa-

ra a bacia do rio das Velhas, mas são voltados para sul/ sudeste (ICMBio, 2007).

Mapeamento de espécies indicadoras e dos remanescentes florestais

O palmito-juçara (Euterpe edulis), pode ser en-

contrado, de forma esparsa, em toda a verten-

te oriental da Serra do Cipó, principalmente

junto aos cursos d’água que drenam as ver- tentes de Conceição do Mato Dentro, Morro do Pilar e Itambé do Mato Dentro. Nas encos- tas de Itabira torna-se mais raro. A embaúba- branca (Cecropia hololeuca) é encontrada em to- dos os vales voltados para leste, inclusive aqueles cujos rios drenam para a bacia do Rio das Velhas, afluente do São Francisco. É o ca- so dos vales de Altamira (município de Nova União) e do Sete (município de Taquaraçu de Minas), totalmente recobertos por mata semi- decídua ou capoeiras destas, ou ainda por ex- tensos bananais que evidenciam a maior umi- dade nestes vales em comparação com a ban- da ocidental. A palmeira indaiá (Attalea oleifera) é encontrada apenas na região do Município de Morro do Pilar e parte setentrio- nal do município de Itambé do Mato Dentro, e é bastante conspícua em locais onde a cober- tura florestal foi claramente removida, terre- nos em grande parte ocupados por pastagens de braquiária (Urochloa spp.). Já a palmeira macaúba (Acrocomia aculeata) tem ampla ocor- rência em todas as porções mais baixas da área de estudo, sempre associada a solos mais férteis, como apontado por Motta et al. (2002), em avaliação das preferências da espécie no

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

Estado. Na direção oeste, está sempre presen-

   

anãs, um correspondente da mata de neblina associado aos afloramentos rochosos e solos

te

sobre solos associados às formações calcá-

rias do Grupo Bambuí, que bordejam o maci- ço montanhoso; na direção leste, associa-se aos solos mais ricos oriundos de rochas do embasamento cristalino (FIGURA 3).

Em relação à distribuição dos remanescentes florestais ao longo das faixas de vegetação conforme a classificação do GEOMINAS (Mata Atlântica, Cerrado Leste, Campo

 

quartzosos, ou nas palavras de Oliveira-Filho

et

al. (2006) para ambientes comparáveis em

Minas Gerais, “representam uma transição dinâmica [dos campos rupestres ou de altitu- de] para as florestas Ombrófila Densa, Ombrófila Mista e Estacional Semidecidual”. Ocorre em todos os municípios a leste, com exceção daqueles com drenagem para o rio das Velhas.

Rupestre e Cerrado Oeste), tem-se respectiva- mente as seguintes porcentagens de leste pa-

Limite estacionário de nuvens

oeste: 46%; 35%, 20% e 1%, e 19% da área total analisada (FIGURA 4).

ra

Aanálise das imagens com maior nebulosida-

 

de

mostrou uma constância na região de con-

Evidencia-se a concentração dos remanescen- tes a leste e o contraste entre as faixas conside- radas como de cerrado a leste e a oeste da fai-

 

densação de umidade na porção leste da Serra do Espinhaço. O efeito orográfico resul-

ta

em uma linha de disposição de nebulosida-

xa

classificada como de campo rupestre (35% e

de

a barlavento da Serra (FIGURA 3), desde o

1% respectivamente). Esta comparação ficaria

 

município de Itabira, seguindo sempre o con- torno do maciço até o município de Diamantina. O acúmulo de nuvens se deve à influência da massa tropical atlântica, com expressão variável ao longo do ano. A menor ou maior atuação da massa tropical atlântica leva a maior ou menor incidência de nebulo- sidade, no decorrer das estações do ano. No entanto, a umidade permanece estacionária com condensação de nebulosidade, mesmo nos períodos secos, com registro de chuvis- cos, evidenciando um caráter totalmente oro- gráfico do clima na região, em intenso con- traste com a região melhor estudada, que fica na sombra das chuvas, com menor precipita- ção que a capital Belo Horizonte.

Proposição de novos limites entre biomas

ainda mais enfática se não houvesse equívocos no mapa de vegetação elaborado por Scolforo

&

Carvalho (2006), em função da abrangência

do estudo (todo o estado). Em vistorias em campo do referido mapa e a partir de compa- rações com mapa de vegetação elaborado es- pecificamente para o plano de manejo das uni-

 

dades de conservação a partir de classificação não supervisionada de imagem ICONOS (agosto de 2005) e verificações em campo (ICMBio, 2008), pode-se constatar que no ma-

pa

para o estado, diversas áreas de floresta se-

midecidual em regeneração foram classifica- das como cerrado típico, e as áreas invadidas por samambaia (Pteridium aquilinum), caracte- rísticas de solos anteriormente sob mata, não foram classificadas, ou foram interpretadas co- mo áreas de campo, genéricas. Os capões de mata sobre solos férteis no seio dos campos ru- pestres também foram interpretados como en- craves de vegetação de cerrado.

Mapeamento de Vellozia gigantea

 

A

proposta de novo limite entre os biomas

considera conjuntamente a série de fatores e indicadores analisados. A linha de condensa- ção de umidade localizou-se ligeiramente a oeste da linha de cumeada que divide as duas grandes bacias hidrográficas da região – São Francisco a oeste e Doce a leste. O posiciona- mento de linha de nebulosidade, que corres- ponde a uma média entre várias imagens, po- de variar dependendo das imagens usadas para compô-la. Já a linha de cumeada apre-

A

ocorrência de V. gigantea está associada a

afloramentos rochosos quartzíticos entre 1200 e 1400m de altitude, faixa em que há a con- densação da umidade proveniente de leste (FIGURA 3). Podem ser vistas como florestas

 
 

Artigos Técnico-Científicos

39
39

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

INDICADORES Embaúba Indaiá Macaúba Palmito INDAIÁ PALMITO MACAÚBA EMBAÚBA VELLOZIAS PARMA Cipó Limite
INDICADORES
Embaúba
Indaiá
Macaúba
Palmito
INDAIÁ
PALMITO
MACAÚBA
EMBAÚBA
VELLOZIAS
PARMA Cipó
Limite APA
Neb. Estacionária
MA - Limite proposto
Projeção UTMASD69 - Fuso 23K

FIGURA 3: Apresentação do novo limite entre os Biomas Mata Atlântica e Cerrado na região da Serra do Cipó, Minas Gerais, baseado nos divisores de águas, e o conjunto de variáveis que apoiaram a delimitação. Representa-se a distribuição das es- pécies indicadoras de Mata Atlântica na região de estudo conforme mapeamento: palmito: Euterpe edulis, embaúba: Cecropia hololeuca, indaiá: Attalea oleifera, bem como a macaúba: Acrocomia aculeata, esta indicadora de fisionomias florestais sobre solos mesotróficos, na região da Serra do Cipó. As manchas sólidas indicam as populações mapeadas de Vellozia gigantea e pode-se ver sua associação com a nebulosidade. Os hachurados em diferentes padrões referem-se às áreas de ocorrência das espécies indicadoras tendo como referência os vales visitados. A oeste só se registra a ocorrência da macaúba. A mancha em tom de cinza indica o limite da nebulosidade estacionária proveniente de leste, que foi usada com auxílio, mas não como úni- ca base para delimitação entre biomas, uma vez que o limite por bacias não é fluido como as nuvens, e mais facilmente reco- nhecível em campo e em mapas.

Artigos Técnico-Científicos

40
40

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

Limite PARNA Limite APA Vellozias Divisor de Bacias VEGETAÇÃO-IEF Classificação Cerrado Denso Cerrado Ralo
Limite PARNA
Limite APA
Vellozias
Divisor de Bacias
VEGETAÇÃO-IEF
Classificação
Cerrado Denso
Cerrado Ralo
Cerrado Típico
Floresta Semidecídua
Source: Instituto Estadual de florestas _ IEF/2005
Protection UTMSAD69: Fuso 23K

FIGURA 4: Apresentação do novo limite entre Mata Atlântica e Cerrado na região da Serra do Cipó, Minas Gerais, e sua relação com a distribuição de remanescentes florestais. A figura apresenta os limites do Parque Nacional da Serra do Cipó, da APA Morro da Pedreira além de uma ampla zona no entorno das duas unidades de conservação para permitir sua contextualização. Vê-se a distri- buição dos remanescentes de acordo com classificação de Scolforo & Carvalho (2006), e as manchas em cor-de-rosa mostram a área de ocorrência da Vellozia gigantea. A linha em azul limita as duas grandes bacias hidrográficas – dos rios Doce e São Francisco. A área marcada em cinza, na porção direita da figura, refere-se à área total a ser considerada como Mata Atlântica na cena visualizada, con- forme presente proposta. Observação: na bacia do Rio São Francisco, a oeste, vêem-se áreas de vegetação de cerrado. O mesmo pa- drão a leste, na bacia do Rio Doce, embora classificado como cerrado, corresponde na verdade a áreas com dominância de candeia, possivelmente antigas áreas de mata atlântica. As grandes áreas brancas no centro do mapa correspondem à região de predomínio dos campos rupestres, pontuados por capões de mata com freqüência classificados erroneamente como cerrado – há enclaves de cer- rado, mas geralmente as áreas assim classificadas naquela porção do território são matas em estágios iniciais de regeneração.

Artigos Técnico-Científicos

41
41

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

senta maior facilidade de identificação em campo e não tem o problema da fluidez das nuvens (ver TABELA 1). Já os demais fatores (ocorrência de espécies indicadoras) coincidi- ram perfeitamente com este limite por gran- des bacias hidrográficas. As exceções são os vales do Sete e de Altamira (municípios de Taquaraçu de Minas e Nova União, respecti- vamente), ambos na bacia do São Francisco, porém voltados para leste, também sob forte influência da massa de umidade verificada.

12.055 ha no Parque Nacional da Serra do Cipó e 46.574 ha na APA Morro da Pedreira.

O

cálculo da área a ser inserida na Mata

Atlântica a partir de nova delimitação foi fei-

to,

a título de exercício, para a região da Serra

do

Cipó, até o município de Diamantina (pa-

ralelo 18 o S). Na porção analisada, a Mata Atlântica passaria de 810,9 mil para 914,1 mil ha, constituindo um acréscimo de 12,7%, utilizando-se os divisores de águas co- mo limites entre os biomas, e passaria para

Assim, optou-se por delimitação definida pe- las cumeadas, sendo que nos vales do Sete e de Altamira foram usadas as cumeadas de seus respectivos vales, o que concorda tanto com a linha de condensação de umidade quanto com a fitofisionomia florestal ali veri- ficada (FIGURA 3). Apresenta-se a área de bioma Mata Atlântica a ser acrescida às duas Unidades de Conservação conforme as duas formas de delimitação (TABELA 1).

949,5 mil ha, se fosse utilizada a frente esta- cionária de nebulosidade como referência pa-

ra

a delimitação dos biomas.

DISCUSSÃO

Fortes contrastes vegetacionais entre verten-

tes

montanhosas é fenômeno comum, como é

 

o

caso emblemático das Ilhas Canárias

Com a divisão dos biomas, tendo como base as drenagens, o Parque Nacional da Serra do Cipó conteria 8.067 hectares de Mata Atlântica (25% da área da UC) e a APA Morro da Pedreira conteria 41.722 hectares (41,7%). Uma eventual delimitação com base na nebu- losidade estacionária resultaria em valores maiores, uma vez que a umidade avança so- bre os extensos planaltos, não se limitando exatamente às vertentes orientais: seriam

(Fernández-Palacios & de Nicolás, 1995), mas também de tantas outras regiões como as montanhas andinas (Smith, 1972; Lüttge, 1997), as ilhas do Havaí (Nogushi, 1992), flo- restas subtropicais asiáticas (e.g. Chen et al., 1997), dentre outras. Em geral, as vertentes a barlavento, que recebem maior umidade, apresentam vegetação de maior porte, e com maior diversidade. Em outros casos, a inten- sidade do vento, como nas altas montanhas,

Tabela 1. Área a ser acrescida ao bioma Mata Atlântica na porção sul da Serra do Espinhaço de acordo com a nova delimita- ção proposta, apresentando separadamente os cálculos para o Parque Nacional da Serra do Cipó, Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira e Região desde a Serra do Cipó até a altura da cidade de Diamantina.

 

Proposta formalizada por este estudo:

Limites de acordo com a nebulosidade como base par ao limite entre biomas (ha); (% da unidade de conservação)

Região

limites de acordo com divisão entre bacias (ha); (% da unidade de conservação)

A.

Parque Nacional

   

da Serra do Cipó (31.632 ha)

0

8.067 ha (25,5%)

0

12.055 ha (38,5%)

B.

Área de Proteção

   

Ambiental Morro da Pedreira (100.007 ha)

968

41.722 ha (41,7%)

968

46.574 ha (46,5%)

C.

Serra do Cipó

   

até Diamantina

810.869

914.119 ha

810.869

949.448 ha

Artigos Técnico-Científicos

42
42

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

que causam estresse mecânico e dessecação, ou o efeito da salinidade em ambientes a bei- ra-mar, levam à situação oposta - formações mais complexas e estruturadas são encontra- das em locais mais protegidos (Crawford, 1989; Nogushi, 1992; Lüttge, 1997). Ao longo de uma mesma vertente podem ocorrer fortes contrastes vegetacionais/ climáticos entre a faixa diretamente afetada pela condensação de umidade (faixa nebular) e a faixa acima desta, em geral caracterizada por forte desse- cação (e.g., Fernández-Palacios & de Nicolás,

1995).

Na Serra do Espinhaço, e especificamente na Serra do Cipó, é bem claro que formações flo- restais, arbustivas e campestres são favoreci- das pela umidade proveniente do atlântico, a leste. O padrão torna-se um pouco mais com- plexo em função da influência edáfica, resul- tando por vezes no desenvolvimento de cam- pos a leste, mesmo onde há maior umidade, e de florestas estacionais a oeste, associadas a latossolos. Contribui para o mosaico a eleva- da degradação das formações florestais.

A Vellozia gigantea e sua comunidade de epífi- tas, com espécies características da Mata Atlântica, parcialmente protegida do fogo por crescer em afloramentos rochosos diferencial- mente alcançados pelos incêndios, e não afe- tada diretamente pela demanda por carvão e lenha, persiste como testemunho da vegeta- ção potencial associada à faixa nebular, com espécies capazes de absorver a umidade at- mosférica, favorecidas pelas chuvas orográfi- cas. Nesta faixa podem ser encontradas varia- das fisionomias, conforme condições edáficas e climáticas (Sugden & Robins, 1979).

Tais formações na faixa nebular e as matas montanas na Serra do Cipó permanecem bas- tante desconhecidas pela comunidade cientí- fica, lacuna alarmante considerando o grau de devastação das vertentes orientais em fun- ção da exploração mineral e carvão. É com- preensível que em país das dimensões do Brasil persistam lacunas imensas no conheci- mento, mas é inaceitável que décadas de ex- ploração mineral pela Cia Vale do Rio Doce,

Artigos Técnico-Científicos

43
43

no município de Itabira, resultem em tão pou- co conhecimento biológico na região direta- mente afetada.

Os caminhos a leste utilizados pelos antigos naturalistas não são mais usados com fre- qüência pelos pesquisadores contemporâ- neos, o que também explica a concentração das pesquisas a oeste. Nas últimas décadas, o acesso mais utilizado para a Serra do Cipó, a partir de Belo Horizonte, é o que segue pela rodovia MG-010, atravessa a região cárstica de Lagoa Santa em meio à mais famosa vege- tação de cerrado, estudada por Eugene Warming (Warming, 1973), até a borda da ser- ra, quando então uma estrada sinuosa e es- treita segue até Diamantina, passando por ex- tensas áreas de campos rupestres, e pelas ci- dades de Conceição do Mato Dentro e Serro. Esta é a região mais conhecida e estudada da Serra do Cipó, que concentrou levantamentos botânicos (ver Giulietti et al., 1987, 1997 e Pirani et al., 2003), bem como diversos estu- dos de fauna (e.g., Câmara & Murta, 2003; Eterovick & Sazima, 2004, Rodrigues et al., 2005). A estrada margeia os limites ocidentais do Parque Nacional da Serra do Cipó e atra- vessa toda a porção ocidental da APA Morro da Pedreira (FIGURA 1). O levantamento e georreferenciamento de dados de pesquisa da Serra do Cipó (Madeira et al., 2008) mostram que das coletas listadas por 513 publicações, com pontos que puderam ser georreferencia- dos, 75% foram realizadas nas proximidades de estradas, principalmente a MG-010, que cruza o cerrado e os campos rupestres a oes- te, o que resulta em grande lacuna na verten- te oriental, e apenas 17% dos pontos no inte- rior do Parque Nacional.

As vertentes orientais da Serra do Cipó, es- tendendo-se em grande parte até Diamantina, sempre foram incluídas no Bioma Cerrado (SEA, 1980, SOS Mata Atlântica, 1990, SOS Mata Atlântica/ISA/INPE, 1998, SOS Mata Atlântica/INPE, 2002, IBGE 1988, 1993, Scolforo & Carvalho, 2006). De acordo com os mapas acima referidos, a cobertura por flores- ta atlântica deveria começar aproximadamen- te no ponto de inflexão entre o fim das ver-

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

tentes montanhosas e as porções mais planas deste território. Mas esta suposta linha não tem qualquer correspondência com uma eventual mudança na geologia, na tipologia dos solos, no clima ou qualquer outro parâ- metro objetivo. Não há tampouco desconti- nuidade vegetacional a leste ou a oeste desta linha delimitadora que a justifique.

Na região da Serra do Cipó, a fronteira entre o Cerrado e a Mata Atlântica pode ser, em al- guns trechos, bastante abrupta, e coincide em geral com o divisor de águas entre as bacias dos rios Doce e das Velhas, como reconhecem de modo trivial os moradores dos diversos vales, por exemplo, ao mostrar saudades de frutos que existem em apenas uma das ver- tentes (K.T. Ribeiro, obs. pess.). Nas cumeei- ras das vertentes orientais, mesmo nas partes mais altas da serra, vêem-se esparsos indiví- duos remanescentes de palmito-juçara (Euterpe edulis) junto aos pequenos córregos, inteiramente ausentes do lado ocidental (ca- pões florestais a oeste inventariados por Meguro et al., 1996), atestando a mudança drástica nas condições ambientais. Nas encos- tas orientais não são encontradas quaisquer das espécies mais características do Cerrado, como pequi (Caryocar brasiliense) ou cagaiteira (Eugenia dysentherica), abundantes a oeste.

Já nos locais com planaltos mais extensos, as

descontinuidades verificadas já não se dão na forma de transição abrupta e visível entre Cerrado e Mata Atlântica. Na ampla faixa de Campos Rupestres, constituídos por um con- junto de fisionomias que variam de campos graminóides a feições arbustivas, com pon- tuações de capões de mata, fisionomias estas determinadas por fatores predominantemen-

te edáficos e muito afetadas por incêndios há

mais de 200 anos (Warming, 1973; Silva, 1997;

Ribeiro, 2007), tem-se uma gradação florística de leste para oeste ainda não documentada de forma sistemática – por exemplo, arbustos

de Myrsine spp. a leste e de Sthryphnodendrum

adstringens a oeste, pontuando os campos abertos (K.T.Ribeiro, obs. pess.).

A nova delimitação da Mata Atlântica aqui

Artigos Técnico-Científicos

44
44

proposta, que se pauta na linha de cumeada da serra, levaria a um acréscimo de 41.722 ha na área considerada como Mata Atlântica na APA Morro da Pedreira e 8.067 ha no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó. Aumenta-se a área do bioma Mata Atlântica dos municípios de Itabira, Itambé do Mato

Dentro e Morro do Pilar e dois municípios an- tes não incluídos no Bioma – Nova União e Taquaraçu de Minas – passariam a ter exten-

sa representatividade deste em seus territó-

rios. O exercício feito para toda a vertente les-

te da Serra do Espinhaço meridional, desde a

Serra do Cipó até o paralelo 18 o S, à altura de Diamantina, com base na nebulosidade e di- visores de bacias, aponta um incremento de ca. 100.000 hectares ao bioma Mata Atlântica (TABELA 1) nesta região. Aferições em cam- po, detalhadas, com informações sobre espé- cies indicadoras e solos em toda esta extensão podem levar a ajustes mais finos na área até Diamantina. O presente estudo mostra que o uso do palmito-juçara e da palmeira indaiá como indicadores de Mata Atlântica mostra-

se uma opção efetiva de balizamento, porém

mais conservadora do que o uso da embaúba- branca, que ocorre de forma também abun- dante nas áreas mais transicionais. Na pre- sente proposta consideramos as áreas vasta- mente ocupadas pela embaúba-branca como parte do domínio da Mata Atlântica em fun- ção, inclusive, da total continuidade com áreas nele já oficialmente incluídas.

O Decreto N o 750 de 1993, conhecido como

Decreto da Mata Atlântica, trouxe indiscutí- veis avanços em termos de conservação do bioma ao reduzir amplamente as possibilida- des de uso direto, remoção da floresta e das formações sucessionais. Levantamentos sub- seqüentes dos remanescentes florestais, reali- zados a cada cinco anos, que utilizaram tec- nologia progressivamente melhor, permiti- ram detalhar o mapeamento e o reconheci- mento de remanescentes (SOS Mata Atlântica/ INPE: 1991 – 1:250.000; 1995 –

1:50.000), mas manteve-se sempre a delimita- ção originalmente proposta entre os biomas, delineada em escala de 1:1.000.000 (Hirota, 2005). Nesta escala, uma linha já representa

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

grande imprecisão, e ampliações de cartas de- veriam idealmente ser acompanhadas por es- tudos e amostragens em campo, ou pelo me- nos, interpretadas com parcimônia. Na ação cotidiana em campo, para a aplicação da lei, estas linhas, corretas ou não, acabam se con- sagrando.

Do ponto de vista conservacionista, a delimi- tação atual entre os biomas já representa um ganho imenso em contraste a situação ante- rior (Pinto et al., 1996), uma vez que inclui as florestas estacionais, as florestas mistas de araucária e diversos ambientes ‘marginais’ da Mata Atlântica (sensu Scarano, 2002), como os costões rochosos, vegetação de restingas e campos de altitude. Mas na Serra do Cipó es- ta imprecisão na delimitação resulta em omis- são e falta de instrumentos adequados para se lidar com o intenso processo de desmatamen- to de matas montanas e matas de neblina ain- da não inventariadas, de diversidade sequer estimada (Madeira et al., 2008), vizinha aos ri- cos campos rupestres do Parque Nacional da Serra do Cipó.

As limitações existentes na interpretação de imagens de satélite sem a verificação detalha- da das verdades de campo e as dificuldades impostas pelas escalas de trabalho, e que se justificam muitas pela falta de recursos e di- mensão do território, devem ser explicitadas ao se publicarem mapas de vegetação, para que o leitor tenha noção do grau de incerteza envolvido no mapeamento. Neste ponto, sur- ge a questão de como foram classificadas e de como tratar as áreas recobertas pela candeia (Eremanthus spp. ). As candeias são plantas heliófitas, pioneiras, que tendem a crescer em formações densas nas áreas desmatadas, principalmente em regiões de solos com pou- ca umidade e menor fertilidade (Perez et al., 2004). Nas imagens de satélite, a textura dos candeais se assemelha à encontrada para fi- sionomias de Cerrado, tendo sido classifica- das no mapeamento de Scolforo & Carvalho (2006) em grande parte como campos (FIGU- RA 4). Os candeais ocupam quase toda a en- costa oriental da Serra do Cipó, e são intensa- mente explorados para fornecimento de ma-

Artigos Técnico-Científicos

45
45

deira e para extração de óleo. Dada a intensi- dade da exploração e os incêndios freqüentes, é muito provável que esta seja uma formação não-climácica, e que na ausência de distúr- bios uma formação florestal mais diversa a suceda.

O esquecimento de que esta região era reco-

berta por mata atlântica pode ser entendido pelo que Jared Diamond (2005) chamou de ‘amnésia de paisagem’, para denominar a acomodação com a degradação e com a mo- dificação contínua dos locais que habitamos. Como visto nos relatos dos naturalistas do sé- culo XIX, o capim-gordura ou meloso (Mellinis minutiflora), de origem africana, foi um problema grave na região, porque ocupa- va as áreas de lavoura e os sitiantes não dis- punham de ferramentas para combatê-lo. Por outro lado, ainda havia muita mata a derru- bar e terra a ocupar com gado - o que era con- dição para se pleitear sua posse - alimentan- do-se assim o desmatamento. Atualmente, no

início do século XXI, o capim-gordura já é vis-

to como espécie nativa por toda a população

rural e novos processos de invasão biológica extremamente agressivos estão ocorrendo. Os campos nativos antropizados estão sendo ocupados por capim-braquiária (Urochloa spp.) e outras forrageiras de origem africana. Esse processo é alimentado pelo imenso êxo-

do rural que leva à substituição da agricultu-

ra pela pecuária, de baixo rendimento, mas menos trabalhosa que a lavoura.

Campos rupestres ou campos de altitude?

Um fator que dificulta discussão sobre a in- clusão da vertente leste da Serra do Cipó no bioma Mata Atlântica é o entendimento, com respaldo na legislação, de que os Campos Rupestres estão inseridos no Cerrado e os Campos de Altitude na Mata Atlântica, estes associados a topos de morro e temperaturas baixas. Neste caso, teríamos na Serra do Cipó uma situação peculiar, que não pode ser en- tendida por estes conceitos – na bacia do Rio Doce teríamos campos de altitude que, viran- do a linha divisória, se transformariam em campos rupestres. Outro exemplo de que as

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

categorias e suas definições são tantas vezes insuficientes para abarcar as situações reais. A terminologia proposta por Semir (1991) au- xilia a tarefa de classificação - propõe que os campos rupestres sejam chamados de ‘com- plexos vegetacionais sobre quartzito’, vegeta- ção sob forte influência edáfica, composta pe- las mais diversas fitofisionomias – campos graminóides, vegetação arbustiva, capões de mata; cuja fisionomia varia de acordo com a qualidade e profundidade do solo, a disposi- ção das rochas, padrões de drenagem, clima e intrusões de rochas distintas, que favorecem o desenvolvimento de encraves de cerrado ou de mata. A influência do clima sobre esta ve- getação e sobre a distinção das fitofisiono- mias é secundária em relação aos efeitos edá- ficos, mas também pode ser mensurada e re- fletida na composição florística.

Por fim, têm-se já fortes evidências de que os campos rupestres devem ser vistos como uma vegetação bem individualizada tanto pela fi- sionomia como pelas características florísticas de elevada riqueza de espécies e, principal- mente de elevada especificidade e endemis- mo, mas que incorpora influências múltiplas, sendo transição entre Cerrado e Mata Atlântica e afetada por forte variação altitudi- nal, que lhe confere por vezes características de vegetação tropical e também traços de ve- getação com características temperadas. Tamanha variação climática, aliada à diversi- dade topográfica e edáfica, pode explicar em parte a destacada riqueza dos campos rupes- tres, sem considerar os mecanismos evoluti- vos subjacentes à forte especiação simpátrica, ainda pouco compreendidos.

Mesmo nesta gradação é possível uma deli- mitação mais precisa entre Mata Atlântica e Cerrado, como a aqui proposta. Tal aumento de precisão pode e deve resultar em ações mais adequadas para cada um dos biomas que compõem a Serra do Cipó, sejam de fis- calização e adequação da legislação, sejam de estímulo de práticas sustentáveis consideran- do as especificidades biológicas e culturais. No plano de manejo das duas unidades de conservação, propõe-se a aplicação da legisla-

Artigos Técnico-Científicos

46
46

ção específica da mata atlântica em toda a borda leste.

Existe ainda uma especificidade na região – o decreto de criação da APA Morro da Pedreira, de 1990, estabelece que os campos rupestres sejam considerados como Zona de Vida Silvestre, não sendo permitidas construções a não ser com caráter de proteção. Para o ma- nejo das unidades de conservação tornou-se fundamental também, portanto, a delimita- ção dos campos rupestres, e em consulta à co- munidade científica referendou-se o limite tendo como referência a cota de 900 m de al- titude a oeste e de 1200 m a leste (ICMBio, 2007). Com base nestes limites, tem-se que apenas 12,5% da área de 130 mil hectares das duas unidades de conservação corresponde- riam a fisionomias de Cerrado propriamente. Apesar de toda a preocupação, justificada, com a Mata Atlântica, percebe-se, mais uma vez, que a proteção do Cerrado é negligencia- da, e mesmo sem se ter consciência, a Mata Atlântica foi favorecida na delimitação das unidades de conservação no mosaico vegeta- cional da Serra do Cipó.

conservação no mosaico vegeta- cional da Serra do Cipó. Agradecimentos: Este trabalho é parte dos estudos

Agradecimentos:

Este trabalho é parte dos estudos para elabo- ração dos planos de manejo do Parque Nacional da Serra do Cipó e da Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira, con- duzidos pelo ICMBio/IBAMA em parceria com Conservação Internacional do Brasil, Instituto Guaicuy / SOS Rio das Velhas (Projeto Manuelzão) e Fundação O Boticário de Proteção à Natureza (projeto n o 0624 - 20042). As discussões com Carlos Schaefer, Mauro Ribeiro, Marcos Rodrigues e Paulo T. Sano em muito enriqueceram a compreensão do sistema estudado, e as contribuições de três revisores anônimos foram importantes para maior clareza do trabalho.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

REFERÊNCIAS

Almeida-Abreu, P.A. 1995. O Supergrupo Espinhaço na Serra do Espinhaço Meridional (Minas Gerais): O rifte, a bacia e o orógeno. Geonomos 3 (1): 1-18.

Ayensu, E.S. 1973. Biological and morpholog- ical aspects of the Velloziaceae. Biotropica 5:

135-149.

Barros, F. de; Lourenço, R.A. 2004. Synopsis of the Brazilian orchid genus Grobya, with the description of two new species. Botanical Journal of the Linnean Society 145: 119-127.

Câmara, E.M.V., Murta, R. 2003. Mamíferos da Serra do Cipó. Editora PUCMinas, Belo Horizonte.

Câmara, I.G. 2005. Status do hot-spot da Mata Atlântica, uma síntese. In: Galindo-Leal, C.; Câmara, I. G. (eds.) Mata Atlântica – Biodiversidade, Ameaças e Perspectivas. Pp. 3-11. Fundação SOS Mata Atlântica/ Conservação Internacional. Belo Horizonte.

Cavelier, J.; Goldstein, G. 1989. Mist and fog interception in elfin cloud forest in Colombia and Venezuela. Journal of Tropical Ecology 5:

309-322.

Chen, Z.; Hsieh, C; Jiang, F., Hsieh, T.; Sun, I. 1997. Relations of soil properties to topogra- phy and vegetation in a subtropical rain forest in southern Taiwan. Plant Ecology 132: 229-241

Chuvieco, E. 1996. Fundamentos de Teledetección Espacial. Ediciones RIALP S.A. Madrid.

Crawford, R.M.M. 1989. Studies in Plant Survival. Blackwell, Oxford.

Diamond, J. 2005. Colapso. Editora Record. Rio de Janeiro.

Durkhein, E.; Mauss, M. 1981. Algumas for- mas primitivas de classificação: contribuição para o estudo das representações coleti-

Artigos Técnico-Científicos

47
47

vas.[or. fr. 1903]. In: Mauss, M. Ensaios de Sociologia. Perspectiva. São Paulo.

Eterovick, P.C., Sazima, I. 2004. Anfíbios da

Serra do Cipó Minas Gerais, PUCMinas, Belo Horizonte.

Brasil. Editora

Fernández-Palacios, J.M.; de Nicolas, J.P.

1995. Altitudinal pattern of vegetation varia-

tion on Tenerife. Journal of Vegetation Science 6:

183-190.

Giulietti, A.M., Menezes, N.L., Pirani, J.R., Meguro, M.; Wanderley, M.G.L. 1987. Flora da Serra do Cipó: Caracterização e lista de es- pécies. Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo 9: 1-151.

Giulietti, A.M., Pirani, J.R.; Harley, R.M. 1997. Espinhaço range. In: Davis, S.D.; Heywood, V.H.; Herrera-MacBryde, O; Villa-Lobos, J. (eds.) Centres of Plant Diversity, Vol. 3. The Americas. Pp. 397-404. National Museum of Natural History, Smithsonian Institution. Washington.

Guimarães, C.M. 1991. A ocupação histórica da região de Santana do Riacho. Arquivos do Museu de História Natural 23: 13-32.

Hirota, M.M. 2005. Monitoramento da cober-

tura da Mata Atlântica brasileira. In: Galindo- Leal, C.; Câmara, I. G. (eds.) Mata Atlântica – Biodiversidade, Ameaças e Perspectivas. Pp. 60-

65. Fundação

Conservação Internacional. Belo Horizonte.

SOS

Mata

Atlântica/

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 2007. Texto base para a oficina de pesquisadores do plano de manejo do Parque Nacional da Serra do Cipó e zoneamento da APA Morro da Pedreira. Madeira, J.A.; Ribeiro, K.T. (orgs.). I Seminário Interdisciplinar de Pesquisadores da Serra do Cipó, 11 a 14 de junho de 2007. Jaboticatubas.

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 2008. Plano de Manejo do Parque Nacional da Serra do Cipó. Madeira, J.A. (coord.). Em preparação.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Kátia Torres Ribeiro - Jaqueline Serafim do Nascimento - João Augusto Madeira - Leonardo Cotta Ribeiro

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 1988. Mapa de Vegetação do Brasil. Escala 1:5.000.000. IBGE. Rio de Janeiro.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 1993. Mapa de Vegetação do Brasil. Escala 1:1.000.000. IBGE. Rio de Janeiro.

Lüttge, U. 1997. Physiological Ecology of Tropical Plants. Springer, Berlin.

Madeira, J.A.; Fernandes, G.W. 1999. Reproductive phenology of sympatric taxa of Chamaecrista (Leguminosae) in Serra do Cipo, Brazil. Journal of Tropical Ecology 15: 463-479.

Madeira, J.A., Ribeiro, K.T., Oliveira, M.J.R., Nascimento, J.S.; Paiva, C.L. 2008. Espacialização da Informação Biológica sobre a Serra do Cipó, Minas Gerais: Subsídios ao Manejo das Unidades de Conservação da Região. Megadiversidade (submetido).

Meguro, M., Pirani, J.R., Mello-Silva, R., Giulietti, A.M. 1996. Caracterização florística e estrutural de matas ripárias e capões de altitu- de da Serra do Cipó, Minas Gerais. Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo 15: 13-29.

Melo-Junior, T.A.; Vasconcelos, M.F; Fernandes, G.W.; Marini, M.A. 2001. Bird species distribution and conservation in Serra do Cipó, Minas Gerais. Bird Conservation International 11: 189-204.

Menezes, N. L.; Mello-Silva, R. 1999. Two new Brazilian Velloziaceae, Vellozia auriculata and Vellozia gigantea and key to the related dra- cenoid species of Vellozia. Novon 9: 536-4541.

Motta, P.E.F da, Curi, N., Oliveira-Filho, A.T.; Gomes, J.B.V. 2002. Ocorrência da macaúba em Minas Gerais: relação com atributos cli- máticos, pedológicos e vegetacionais. Pesquisa Agropecuária Brasileira 37 (7): 1023-1031.

Myers, N., Mittermeier, R.A., Mittermeier, C.G., Fonseca, GAB; Kent, J. 2000. Biodiversity Hotspots for Conservation Priorities. Nature 403:853–858.

Artigos Técnico-Científicos

48
48

Nogushi, Y. (1992) Vegetation asymmetry in Hawaii under the trade wind regime. Journal of Vegetation Science, 3: 223-230.

Oliveira, L.C., Câmara, E.M.V.C., Belarmino, M.G.; Hirsh, A. 2003. Callithrix geoffroyi (Primates: callithrichidae) and Alouatta caraya (Primates: Atelidae) in the Serra do Cipó National Park, Minas Gerais, Brazil. Neotropical Primates 11(2): 86-89.

Oliveira-Filho, A.T.; Fontes, M.A.L. 2000. Patterns of Floristic differentiation among Atlantic Forests in Southeastern Brazil, and the influence of climate. Biotropica 32 (4b):

793-810.

Oliveira-Filho, A.T., Scolforo, J.R.S., Oliveira, A.D.; Carvalho, L.M.T. 2006. Workshop para definição e delimitação de domínios e subdo- mínios das paisagens naturais do estado de Minas Gerais. In: Scolforo, J.R.; Carvalho, L.M.T. (eds.) Mapeamento e Inventário da Flora Nativa e dos Reflorestamentos de Minas Gerais. Pp. 21-35. UFLA. Lavras.

Perez, J.F.M., Scolforo, J.R.S., Oliveira, A.D., Mello, J.M., Borges, L.F.R.; Camolesi, J.F. 2004. Sistema de manejo para a candeia – Eremanthus erythropappus (DC.) MacLeish – a opção do sistema de corte seletivo. Cerne, Lavras 10 (2): 257-273.

Pinto, L.P., Costa, J.P.O.; Fonseca, G.A.B. 1996. Workshop científico sobre a Mata Atlântica. Belo Horizonte. Disponível em http//:www.aliancamataatlantica.org.br/lim ites.thml. Acesso em 28/12/2006.

Pirani, J.R., Mello-Silva, R.; Giulietti, A.M. 2003. Flora de Grão-Mogol, Minas Gerais. Boletim de Botânica da Universidade de São Paulo 21 (1): 1-24.

Ribeiro, L.C., Filippo, D.C.; Madeira, J.A., Nascimento, J.S. e Ribeiro, K.T. Distribuição Geográfica e comunidade epifítica de Vellozia gigantea (Velloziaceae): espécie endêmica res- trita à faixa nebular oriental da Serra do Cipó, MG. Em preparação.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Aferição dos limites da Mata Atlântica na Serra do Cipó, MG, Brasil, visando maior compreensão e proteção de um mosaico vegetacional fortemente ameaçado

Ribeiro, K.T. 2007. História de Sísifo ou de Odisseu? Aspectos biológicos, sociais, ideoló- gicos e estratégicos do combate ao fogo na Serra do Cipó, Minas Gerais, Brasil. Palestra. Anais do IV Simpósio Sul-Americano de Incêndios sobre Prevenção e Combate a Incêndios Florestais. UFV. Belo Horizonte.

Rizzini, C.T. 1997. Tratado de Fitogeografia do Brasil: aspectos ecológicos, sociológicos e florísti- cos. Âmbito Cultural Edições LTDA. Rio de Janeiro.

Rodrigues, M.; Carrara, L.A.; Faria, L.P.; Gomes, H.B. 2005. Aves do Parque Nacional da Serra do Cipó: o Vale do Rio Cipó, Minas Gerais, Brasil. Revista Brasileira de Zoologia 22 (2): 326–338.

SEA. 1980. Atlas de zoneamento agroclimático do estado de Minas Gerais. Digitalizado pela EMATER, compilado pela PRODEMGE 1996 (www.geominas.mg.gov.br).

Scarano, F.R. 2002. Structure, function and

floristic relationships of plant communities in stressful hábitats marginal to the brazilian Atlantic Rainforest. Annals of Botany 90: 517-

524.

Scolforo, J.R.; Carvalho, L.M.T. (eds.) 2006. Mapeamento e inventário da flora nativa e dos re- florestamentos de Minas Gerais. UFLA. Lavras.

Scolforo, J.R., Oliveira, A.D.; Davide, A.C. 2006. Manejo sustentado das candeias Eremanthus erythropappus (DC.) e Eremanthus incanus (Less.) Less. Disponível em http://www.nucleoestudos.ufla.br/manual_ simplificado.pdf, consultado em 21/12/2006.

de

Lychnophora Mart. (Vernoniaceae: Compositae). Tese de Doutorado. UNICAMP, Campinas.

Semir,

J.

1991.

Revisão

taxonômica

Silva, D.G.B. da (org.). 1997. Os diários de Langsdorff, Vol. 1. In: Komissarov, B. et al. (eds.). Associação Internacional de Estudos Langsdorf. Campinas. Fiocruz. Rio de Janeiro.

Artigos Técnico-Científicos

49
49

SOS Mata Atlântica. 1990. Atlas dos Remanescentes Florestais e Ecossistemas Associados da Mata Atlântica.

SOS Mata Atlântica; Instituto Sócio Ambien- tal (ISA); Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). 1998. Atlas da Evolução dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica:

1990-1995.

SOS Mata Atlântica; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). 2002. Atlas da Evolução dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica: 1995-2000.

Sugden, A.M.; Robins, R.J. 1979. Aspects of the ecology of vascular epiphytes in Colombian cloud forests, I. The distribution of the epiphytic flora. Biotropica 11: 173-188.

Sutherland, W.J. 2000. The Conservation Handbook – Research, Management and Policy. Blackwell Science Ltda, Oxford.

Warming, E. 1973. Lagoa Santa. EDUSP/ Itatiaia. São Paulo.

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 30-49

Raquel Fila Vicente - André Luís Laforga Vanzela - José Marcelo D. Torezan

Representatividade de Ecossistemas no Sistema de Unidades de Conservação no Estado do Paraná, Brasil

Raquel Fila Vicente 1

Instituto Ambiental do Paraná, Escritório Regional de Londrina

André Luís Laforga Vanzela

Universidade Estadual de Londrina. UEL

José Marcelo D. Torezan, Dr. 1

Universidade Estadual de Londrina. UEL

RESUMO. O estado do Paraná tem uma vegetação diversificada, fruto de variadas condições ecoló- gicas. Apesar disso, somente 2% do seu território estão incluídos em unidades de conservação de proteção integral. Visando fornecer subsídios para um planejamento de conservação, analisamos ma- pas de vegetação original, de vegetação remanescente, de unidades de conservação estaduais e fe- derais e de áreas prioritárias para conservação, e concluímos que as diferentes formações vegetacio- nais não estão adequadamente representadas no Sistema Estadual de Unidades de Conservação do Paraná. Enquanto as formações associadas à Floresta Ombrófila Densa têm elevada representação (13,2%), as outras têm pouca, com exceção da Várzea Estacional, uma das formações da Floresta Estacional Semidecidual. A Floresta Ombrófila Mista tem apenas 0,4% de sua área de ocorrência na- tural protegida, a Floresta Estacional Semidecidual 3,3%, o Cerrado 0,8% e a Estepe Gramíneo-le- nhosa têm 0,4%. A análise de lacunas confirmou que as Unidades de Conservação no Paraná apre- sentam uma fraca representação das formações vegetacionais que ocorriam originalmente, em espe- cial as formações mais ameaçadas, que possuem alta percentagem de áreas prioritárias, poucas áreas protegidas e escassos remanescentes, tais como o Cerrado, a Estepe, as Florestas Ombrófilas Mistas Montana e Aluvial e as Florestas Estacionais Semideciduais Montana e Aluvial.

Palavras-chave: Análise de Lacunas; Áreas Protegidas; Biodiversidade; Prioridades para conserva- ção; Representatividade.

INTRODUÇÃO

Na década de 70 houve uma intensificação na destruição de hábitats naturais no estado do Paraná devido à mecanização agrícola, ocor- rendo intensa fragmentação e conseqüente perda da biodiversidade. Em 1965, época da aprovação do Código Florestal Brasileiro (Lei 4.771/65), o qual previa a permanência de no mínimo 20% do total das propriedades rurais

1 torezan@uel.br

Artigos Técnico-Científicos

50
50

como reserva, restavam 23,92% da cobertura florestal original no Paraná (Campos, 2006). De toda a Mata Atlântica que existia no Brasil, incluindo a cobertura florestal do Paraná, res- tam 7,3%. Ela foi identificada como a quinta área mais ameaçada e rica em espécies endê- micas do mundo. Como comprovado em si- tuações semelhantes, existe um grande núme- ro de espécies em perigo ou vulneráveis, ameaçadas pela alta taxa de hábitats perdidos devido à ação humana (Melbourne et al., 2004; Warman et al., 2004; Tabarelli et al., 2005).

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 50-66

Representatividade de Ecossistemas no Sistema de Unidades de Conservação no Estado do Paraná, Brasil

No Paraná, informações a respeito do rema- nescente florestal (Fundação SOS Mata

Atlântica et al., 1998) indicavam, em 1995, a existência de apenas 8,89% da cobertura flo- restal original, representada por formações arbóreas primárias ou secundárias em estágio avançado de regeneração com padrão que su- geria biomassa compatível com as formações primárias e com mínimo grau de alteração (43 % dos remanescentes). Essa redução, somada

ao quadro de isolamento, fruto da fragmenta-

ção, sugere que a perda da diversidade bioló- gica foi muito grande. Estima-se que 70% das aproximadamente 7.000 espécies vegetais do estado já tinham seus ambientes depaupera- dos, colocando em risco a sua existência (Paraná, 1995). Dados mais recentes da Fundação SOS Mata Atlântica e INPE (2002), incluindo agora também formações secundá- rias em estágio médio e avançado de regene- ração, que por força do Decreto 750/93, com- plementado pela Resolução Conama 002/94, são imunes de corte, informam a existência de 20,24% de cobertura florestal.

Vale lembrar que para assegurar a sobrevi- vência de populações da fauna e flora nativas, especialmente as mais vulneráveis à extinção, as formações secundárias contribuem de for- ma complementar, pois a composição e estru- tura diferem bastante da vegetação madura e isso afeta significativamente as interações das espécies (Crumpacker et al., 1988).

Os remanescentes estão concentrados no cen-

tro-sul e sudeste do Estado, principalmente

na Serra do Mar e litoral (Carpanezzi et al.,

2006), enquanto as regiões Norte e Noroeste possuem índices de cobertura muito baixos.

A microrregião de Maringá apresentava

0,93% de florestas nativas, a de Paranavaí 3,68% e a de Londrina 3,38% (IPARDES, 1993). Os remanescentes na região de Londrina são compostos por fragmentos que

na sua maioria (82%) têm entre 0,01 e 0,1 km² (Torezan, 2004).

A representação adequada é um pré-requisito

para preservar o máximo da diversidade bio-

lógica

biológico

em

um

dado

domínio

Artigos Técnico-Científicos

51
51

(Margules & Nicholls, 1988; Pressey et al., 1993; Arruda, 2003). No Paraná, até agora não foi desenvolvida uma política de conservação e restauração que reconheça a variedade de hábitats e sua interdependência (Torezan, 2002) e a distribuição de Unidades de Conservação (UCs) por região fitogeográfica não é equilibrada conforme também detecta- do por Milano et al. (1985) que observou que as áreas estaduais de conservação no Paraná eram, além de insignificantes, concentradas na região de ocorrência da Floresta Ombrófila Densa (FOD), porém, ocupando apenas 0,06% da superfície do Estado. Também cons- tatou que havia defasagem de proteção em re- lação ao 3º Planalto. Campos (1996) observou que havia priorização da região da FOD em detrimento de outras e Savi (1997) considera que a localização das UCs deixa grandes la- cunas especialmente em relação à representa- tividade dos ecossistemas. Jacobs (1999) cons- tatou que as UCs de proteção integral (PI) re- presentavam 1,79% da superfície do Estado e que da Floresta Ombrófila Mista (FOM) ape- nas 0,99% da superfície ocupada original- mente eram cobertas por UCs de PI, sendo es- ta menos representada que as demais e Auer (1995) constatou grande disparidade de pro- teção entre a ocorrência original da FOD (38,78% da área) e da Estepe (0,28%) e Cerrado (0,22%).

Um sistema representativo deve capturar to- do o espectro de variações biológicas e am- bientais levando em conta que essas variações são dinâmicas e não facilmente classificáveis. Programas conservacionistas deveriam repre- sentar todos os genótipos, espécies, ecossiste- mas e paisagens em áreas protegidas. Ainda assim, alguns grupos geralmente pouco in- ventariados, como os invertebrados, podem não ser bem representados (Noss & Cooperrider, 1994).

Se todos os ecossistemas nativos forem ade- quadamente representados em uma rede de áreas protegidas o objetivo principal da con- servação poderá ser alcançado (Bruner et al., 2001). No entanto, em todo o planeta, as opor- tunidades para adequada representação dos

Natureza & Conservação - vol. 7 - nº1 - Abril 2009 - pp. 50-66

Raquel Fila Vicente - André Luís Laforga Vanzela - José Marcelo D. Torezan

ecossistemas têm diminuído rapidamente à medida que os tipos de vegetação nativa têm sido reduzidos em área e degradados em qua- lidade. Programas de conservação também deveriam ser direcionados a manter ecossis- temas naturais e biodiversidade através de toda a extensão de gradientes ambientais (e.g. variações altitudinais). Embora o ideal seja uma avaliação que ultrapasse as fronteiras políticas e, portanto, a avaliação da represen- tação por estado da Federação não seja a mais adequada, ela se presta para nortear políticas públicas na esfera estadual (Noss & Cooperrider, 1994; Miller & Hamilton, 1999; Pfab, 2002).