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ECOPEDAGOGIA: UM MODISMO OU UMA NOVA TEORIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL?

PEREIRA * , Franciele Guedes S.

Apresentação Como se trata de um tema novo na educação, que surgiu na década de noventa, a Ecopedagogia 1 ainda é um tema pouco explorado e discutido no meio educacional, por isto é necessário fazer um diagnóstico de sua relevância social neste momento, para tanto, cabe investigar se tal movimento, como a Ecopedagogia é mais conhecida no Brasil seria apenas mais um modismo, sem intenções claras e objetivas com as sérias questões ambientais que perturbam nosso Planeta, assemelhando-se a outros discursos obsoletos na realidade educacional, criticados por Kuhlmann (1998, p.6) os quais produzem idéias vazias que não levam a nada 2 ou por outro lado, é preciso indagar a fala de que a Ecopedagogia compreende uma nova visão de educação ambiental, a qual vê a Terra como um novo paradigma e o seu morador, como um cidadão planetário conforme define sua abordagem teórica, para então apurar sua concepção como sendo de caráter prático ou indiferentemente contrário para a educação ambiental do nosso tempo. Logo, é importante uma análise reflexiva deste movimento no universo educacional, em que a Ecopedagogia surge com promessas de uma educação ambiental transformadora, que pretende impregnar toda a sociedade (GADOTTI, 2000, p.93), e saber se sua relevância se restringe somente enquanto um movimento na sociedade ou na escola enquanto teoria educacional, pois a princípio sabe-se que o movimento pela ecopedagogia tem acontecido muito mais fora da escola do que dentro dela (GADOTTI, 2000, p.88). Em meio a estes debates, surgem outros questionamentos a respeito da Pedagogia da Terra, sobre a forma como ela está ganhando espaço no meio acadêmico, escolar e social, importa saber, qual sua diferenciação da educação ambiental, ou indagar sobre a perspectiva de serem diferentes visões acerca de um mesmo tema. Se o desenvolvimento sustentável é uma idéia contraditória numa sociedade insustentável, como a Ecopedagogia poderá

* Possui graduação em Pedagogia pela Faculdade Internacional de Curitiba, atualmente aluna do curso de Pós- graduação do IBPEX, “Educação Infantil e Séries Iniciais”. Plataforma lattes:

http://lattes.cnpq.br/8513666916663941

1 1 Também pode ser conceituado: Pedagogia do Desenvolvimento Sustentável ou Pedagogia da

Terra.(GADOTTI,2000)

2 KUHLMANN,1998,p. 6 apud ARCE,Alessandra. Revista Educação &Sociedade abr/2001,p.251

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contribuir de uma maneira inédita a essas questões? No entanto, não existem respostas simples, as inquietações são maiores e a busca por um novo modelo de pensamento que ultrapasse os limites de um paradigma denominado cartesiano-newtoniano faz parte das perspectivas de uma educação do futuro, da qual a ecopedagogia faz parte, instalando-se no reencontro da sabedoria com a ciência, num contexto de uma visão holística, pois ao num aprofundamento quanto a sua filiação ideológica, observa-se que a Pedagogia do Desenvolvimento Sustentável está baseada nos ideais de Paulo Freire, de uma pedagogia transformadora – pedagogia da práxis que leva também as tendências do holismo na educação

e tem compromisso com a visão utópica de uma realidade possível. Por outro lado, a Pedagogia da Terra, não tem o objetivo de se opor a Educação Ambiental, pelo contrário, pretende encontrar nela os seus pressupostos (GADOTTI, 2000, p. 96). considerando suas teorias para uma nova maneira de olhar o mundo e sua complexidade.

Como se trata de uma pesquisa estritamente bibliográfica, esse trabalho teve como principal fonte de fundamentação teórica os autores Gutiérrez 3 e Rojas 4 os quais trouxeram uma ampla contribuição para o tema, ao escreverem: “Ecopedagogia e cidadania planetária” (1999), escrito em espanhol em 1997 e publicado em português em 1999, livro que aborda a ecopedagogia minuciosamente, em suas várias abordagens, desde a esfera social até a pessoal. Os autores apresentam nesse livro, uma pedagogia fundamentada num novo Paradigma 5 , a Ecopedagogia. Gadotti 6 trouxe grande contribuição ao escrever “Pedagogia da Terra” (2000), no qual faz uma relação da Ecopedagogia em seus vários aspectos. Outro livro do mesmo autor, que enriqueceu a pesquisa foi “Perspectivas Atuais da Educação” (2000) no qual a Ecopedagogia

é tratada concomitantemente a outros assuntos de importância vital no contexto escolar. Freire trouxe, em seu argumento de que “queria ser lembrado como alguém que ama a Terra”, deixou um importante legado, pois é no Instituto Paulo Freire em São Paulo, que

3 Doutor em Educação, direto do Instituto Paulo Freire e presidente do Instituto Latino-Americano de Pedagogia da Comunicação(ILPEC), San José, Costa Rica.

4 Mestre em comunicação e diretora do Instituto Latino-Americano de Pedagogia da Comunicação(ILPEC), San José, Costa Rica.

5 Segundo Gutierrez e Rojas (1999 p.29), passou-se de uma concepção mecanicista para uma visão holística e ecológica, de uma ciência mecânica que concebia o mundo linearmente, para uma dimensão quântica e complexa da realidade” 6 Graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira (1971), mestrado em Educação:História,Política,Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(1973) e doutorado em Educação – Universite de Geneve(1977). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo e Diretor Geral do Instituto Paulo Freire.Tem experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas:Educação, Paulo Freire,Filosofia da Educação, Educação de Jovens e Adultos e Sustentabilidade.(fonte:http://lattes.cnpq.br/0393558289378220 acessado em 18/06/2006).

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acontecem as pesquisas em torno desse tema de maneira a contribuir à produção de pesquisas sobre a Ecopedagogia hoje. Desse modo, já existe também a Carta da Ecopedagogia redigida nesse mesmo Instituto, com os preceitos e fundamentos que envolvem desde o desenvolvimento sustentável até as práticas pedagógicas coerentes com a realidade social de uma sociedade não- sustentável. Este documento se constitui numa importante ferramenta de pesquisa sobre a Ecopedagogia, pois elenca suas características primordiais da sua condição no panorama atual, o qual ajudou nesse trabalho de uma forma enriquecedora. Sendo assim, o objetivo deste artigo, está em fazer uma análise sobre a Ecopedagogia, suas abordagens e propostas para então apontar sua relação com a educação ambiental. Respectivamente, trazer de forma breve o que esta acontecendo hoje em termos de ecopedagogia no Brasil e finalmente, fazer uma reflexão sobre a possibilidade de tal proposta estar alicerçada em bases teóricas aleivosas trazendo subsídios teóricos para o questionamento que iniciou esta reflexão, porém sem a intenção de esgotar o assunto, mas sim em provocar novos debates no meio acadêmico.

Sobre a ecopedagogia Antes de se falar em Ecopedagogia é necessário que, primeiramente, se deixe claro o significado da palavra Pedagogia. Ela é reconhecida em suas origens como a ciência da educação, nasceu na Grécia Antiga, era a atividade do escravo que conduzia as crianças aos locais de estudo, onde deveriam receber instrução de seus mestres, cabia ao escravo levar o jovem até o local do conhecimento. Segundo Santoro (2003, p. 20) a definição de Pedagogia pode instigar discussões como se observa:

A princípio, essa questão de considerar a pedagogia, ora como ciência da educação ora como ciência e arte concomitantemente, ora ainda como ciência da arte educativa, parece uma questão de menor importância. Mas não é tão simples assim. Tenho a convicção de que se essa triplicidade conceitual, nem sempre bem articulada historicamente, carrega as indefinições do campo de conhecimento dessa ciência, desde a sua origem do termo, até a estruturação de seu campo cientifico.

Quando observado os livros clássicos de pedagogia 7 , pode-se perceber que há pouca divergência entre os autores: quase todos a consideram a especificidade da Pedagogia como sendo a ciência da educação.

7 Bouchon 1964: Compayré 1911;Debess e Mialaret 1974; Hubert 1959; Leif e Rustin 1956; Luzuriaga 1969; Monroe 1972; Patrascoiu 1930 entre outros.

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Dessa forma nota-se que pedagogia e educação aparecem relacionadas, estando ligadas ao ato da condução do saber, hoje ainda percebe-se que esta é sua função, encontrando meios, estratégias e meios de guiar o indivíduo adulto ou criança ao conhecimento. Ainda nas palavras da autora citada acima:

o essencial para a pedagogia é finalidade educativa, seu específico, o que lhe dá

o objeto da pedagogia é o homem em formação,

portanto um objeto complexo que requer do pedagogo uma formação diferenciada, para saber buscar, sem se perder em seu objeto, elementos auxiliares, em ciências pedagógicas. (SANTORO, 2003, p.22).

um forte caráter ético-social (

[ ]

)

No livro de Gutiérrez e Prieto sobre a “Mediação Pedagógica” (1994), os autores definem Pedagogia como o trabalho de promoção de aprendizagem através de recursos necessários ao processo educativo no cotidiano das pessoas. Para eles, a vida cotidiana é o lugar do sentido da Pedagogia. Da mesma forma, a palavra ecologia, assim como o conceito de pedagogia necessita ser mencionada, para que em breve se fale no tema Ecopedagogia de uma maneira mais ampla. Para o dicionário Melhoramentos a palavra ecologia define-se da seguinte maneira:

Parte da biologia que estuda as relações dos organismos vivos com o meio ambiente. No entanto, a ecologia é um conceito de mais fácil entendimento, por ser mais difundido, ou seja, sabe-se que nenhum organismo vivo seja ele uma bactéria, um vírus, um verme, um animal, uma alga marinha, uma planta, uma ave, uma árvore e o homem podem existir sem interagir ou existir sem a existência do outro. Fazendo-se um resgate histórico nota-se que a ecologia ao longo dos tempos tem o mesmo significado:

Pela palavra ecologia, queremos designar o conjunto de conhecimentos relacionados com a economia da natureza - a investigação de todas as relações entre o animal e seu ambiente orgânico e inorgânico, incluindo suas relações, amistosas ou não, com as plantas e animais que tenham com ele contato direto ou indireto, - numa palavra, ecologia é o estudo das complexas inter-relações, chamadas por Darwin de condições da luta pela vida. (GADOTTI, APUD HAECKEL 1870, p. 20)

A partir da definição e da compreensão da importância dos dois termos estudados acima sendo eles, Pedagogia e Ecologia, é possível fazer uma análise mais pontual do conceito chamado Ecopedagogia. Criado por Francisco Gutiérrez, na década de noventa, então diretor do Instituto Paulo Freire e presidente do Instituto Latino-Americano de Pedagogia da Comunicação – ILPEC em San José na Costa Rica, o termo Ecopedagogia, está relacionado à questão ambiental e a

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prática pedagógica, como a pedagogia que promove a aprendizagem e nasceu da preocupação com o sentido da vida cotidiana, a necessidade de uma ecoformação 8 em nossa sociedade, ou seja, defende a necessidade em estabelecer um equilíbrio dinâmico e harmônico entre o ser humano e o meio ambiente. Para entender o sentido da Ecopedagogia em todas as instâncias, apresentam-se resumidamente suas abordagens:

Movimento Pedagógico: (como a ecologia) quanto como; -Abordagem Curricular (reorientação dos currículos, PCN´s, sistemas de ensino, escola cidadã, pedagogia da práxis) e como; - Teoria e Práticas Educacionais: sem uma ação pedagógica efetiva, de nada adiantarão os grandes projetos de despoluição ou de prevenção do meio ambiente.(GADOTTI, 2000, p. 80)

Gadotti enfatiza que a Ecopedagogia pode ser entendida como um movimento social e político - pensamento freireano - que está em processo de formação, por isto também pode ser entendida como um movimento pela ecopedagogia, termo criado em agosto de 1999 durante o I Encontro Internacional da Carta da Terra na Perspectiva da Educação e hoje é coordenado pelo Instituto Paulo Freire.

De acordo com o mesmo autor: “A ecopedagogia como movimento social e político surge no seio na sociedade civil, nas organizações tanto de educadores quanto de ecologistas e de trabalhadores e empresários, preocupados com o meio ambiente” (GADOTTI, 2000 p.91). O movimento pela Ecopedagogia está atrelado ao movimento histórico-social, “fundamentada na ética, numa visão política do ser humano, numa visão sustentável da educação e da sociedade”. (GADOTTI, 1999, p.183).Além do mais, a questão ambiental passou a ter uma conotação social, de acordo com GADOTTI, 2000 “Os problemas de que trata a ecologia não afetam apenas o meio ambiente. Afetam o ser mais complexo da natureza, que é o ser humano.” Ou seja, o ser humano, ao agredir o meio ambiente tem agredido a si mesmo, a sua própria existência a sua cultura, e ao futuro de sua geração.

Constitui-se como base das discussões acerca da Ecopedagogia a Carta da Terra, um documento tão importante quanto á Declaração Universal dos Direitos Humanos, que tem como objetivo propor um código de ética planetário aos habitantes da Terra, baseando-se em

8 Tese defendida por Eric Beaudout, um dos colaboradores de Gaston Pineau, do Gref - Grupo de Pesquisa sobre a Ecoformação – da Universidade François Rablais de Tours (França),num texto apresentado num colóquio em 1997,sustentou que a ecoformação é ao mesmo tempo um conceito heurístico e operatório, cuja finalidade é compreender as relações formadoras entre o homem e o meio ambiente.

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princípios e valores fundamentais, especialmente no que se refere à noção de sustentabilidade para o Planeta.

Partindo desse documento, já foi elaborada também a Carta da Terra na Perspectiva da Educação, e mais recentemente já é possível falar em Carta da Ecopedagogia, como um documento aberto, um instrumento de trabalho para a construção de uma Pedagogia da Terra.

Segundo

Gadotti

ecopedagogia :

(2000,

p.

175,

176)

pode-se

apontar

como

os

princípios

da

I

- O planeta como uma única comunidade. II – A Terra como mãe, organismo vivo

e

em evolução. III – Uma nova consciência que sabe o que é sustentável, apropriado,

faz sentido para a nossa existência. IV – A ternura para com essa casa. Nosso endereço é a Terra.V – A justiça sociocósmica: a Terra é um grande pobre, o maior de todos os pobres. VI – Uma pedagogia biófila (que promove a vida): envolver-se, comunicar-se, compartilhar, problematizar, relacionar-se, entusiasmar-se. VII – Uma concepção do conhecimento que admite só ser integral quando compartilhado. VIII – O caminhar com sentido (vida cotidiana). IX – Uma racionalidade intuitiva e

comunicativa: afetiva, não instrumental.X – Novas atitudes: reeducar o olhar, o coração. XI – Cultura da sustentabilidade: ecoformação. Ampliar nosso ponto de vista. (GADOTI, 1999, p. 176)

Tais princípios remetem à Pedagogia do Desenvolvimento Sustentável, a qual discute

a dimensão de uma visão econômica e mais abrangente do desenvolvimento sustentável,

longe de um ambientalismo superficial (Gutierrez e Prado, 1999 p.33), que desconsidera o conceito de “valor” na contextualização atual, que tem se limitado ao valor do econômico e

político, que em nome da globalização atrai a perspectiva destrutiva de dominação sobre a natureza num mercado “naturalmente” capitalista.

Dimas Floriani e Maria do Rosário Knechtel, no livro “Educação Ambiental:

Epistemologia e metodologias” fazem uma observação clara da atual conjuntura comparando-

a, (2003, P.128) “A palavra mágica agora é desenvolvimento sustentável. Esta palavra era

Modernização nos idos dos 50 e 60”.Em nome do desenvolvimento muito se saqueou da natureza, hoje ao se constatar os efeitos negativos dessa relação, surge uma nova nomenclatura, que está em alta, num discurso eloqüente da atualidade, Desenvolvimento Sustentável que de forma resumida busca ajustar a defasagem causada por tais ações.

O desafio da sociedade sustentável de hoje é criar novas formas de ser e de estar neste mundo (Gutierrez e Prado, 1999, p.34) para que isto se torne factível em nosso meio torna-se mister uma nova postura do professor em sala de aula neste novo cenário, além de nova postura do aluno ao compreender a relação entre o Meio Ambiente e o sistema social e

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político da nossa sociedade, relacionando ao conceito de Desenvolvimento Sustentável na Educação do futuro e fazer uma analogia ao meio ambiente.

De acordo com a pedagogia do desenvolvimento sustentável, para existir um desenvolvimento sustentável, é preciso que haja uma educação para o desenvolvimento sustentável, mas “para isso, é preciso superar os falsos valores que estão na gênese e no crescimento da sociedade ocidental e sua cultura”.(Gutierrez e Prado, 1999, p.34), nesse aspecto, de acordo com a ecopedagogia torna-se relevante uma educação que considera o modelo de desenvolvimento vigente, por outro lado à mediação pedagógica torna-se intencionalmente, uma ferramenta que pode propor ao aluno fazer relações como:

o imediato e o mediato, o próximo e o distante, o mais sentido e o menos sentido, o privado e o público ,o pessoal-familiar e o público, o individual e o organizado, a dispersão e a presença na sociedade civil, um horizonte de compreensão e outros, um eu , um você e um nós, o micro e o macro. (GUTIERREZ E PRADO, 1999, p.

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Para Gutiérrez e Prado, (1999 p.61) o desenvolvimento sustentável requer quatro condições fundamentais que devem ser: “economicamente factível ecologicamente apropriado, socialmente justo, culturalmente: eqüitativo, respeitoso e sem discriminação de gênero”. Tais conceitos trazem uma concepção abrangente de desenvolvimento sustentável que transcorre nos pilares da justiça e da igualdade, propondo suas condições de transformação social.

Cidadania Planetária

Falar em cidadania planetária torna-se um desafio que se faz necessário na visão da ecopedagogia. De forma ampla, é preciso retomar as características essenciais do termo cidadania, para então um aprofundamento maior do segundo termo: planetária.

De acordo com GadottI, (2000) pode-se definir cidadania como sendo essencialmente, consciência de direitos e deveres. Porém não basta somente ao conhecer tais conceitos, mas sim vivenciar na prática cotidiana seus direitos e deveres para então conceber a prática de cidadania ativa. O autor também defende que atualmente este conceito está bastante amplo, pois a sociedade do consumismo sustentada na competitividade capitalista acaba delimitando novos caminhos para o conceito de cidadania, como defende o autor:

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Existe hoje uma concepção consumista de cidadania sustentada na competitividade capitalista. Ela se restringe ao direito do cidadão exigir a qualidade anunciada dos produtos que compra. Seria uma cidadania de mercado. Em oposição a essa concepção restrita existe uma concepção plena de cidadania. Ela não se limita aos direitos individuais. É uma cidadania que visa também à conquista e construção de novos direitos”. (GADOTTI, 2000, p. 134)

Concretamente, entende-se que a verdadeira cidadania implica em instituições e regras justas, não sendo totalmente possível usufruir dessa verdade numa sociedade como esta, pois viver numa sociedade dita democrática não traz a garantia do exercício de uma cidadania plena.

Rios (2001) traz o conceito de cidadania de uma forma clara e defende o fato de que a verdadeira cidadania só ganha sentido quando construída coletivamente, nas palavras da autora, “ela ganha seu sentido mais pleno na coletividade.” A construção desta concepção, ainda precisa ser bastante explorada na sociedade, a começar pela escola que deve dar conta dessa necessidade de resgatar o pleno significado da palavra cidadania, e apontar para o seu valor e sentido mobilizador na sociedade atual. Pois assim estará preparada para incorporar princípios de uma cidadania planetária em suas propostas curriculares, e os alunos terão a clareza do significado da cidadania em sua totalidade.

A Cidadania planetária por sua vez é uma expressão adotada para definir um conjunto

de ações, princípios, valores, atitudes e comportamentos, que cada cidadão, habitante da Terra, deve ter para contribuir à sua manutenção, o seu cuidado constante, segundo Gadotti (2000,

sustenta-se na visão unificadora do planeta e de uma

p.135) a cidadania planetária “[

sociedade mundial. Ela se manifesta em diferentes expressões, “nossa humanidade comum”, “unidade de diversidade”, “nosso futuro comum”, “nossa prática comum”, “cidadania

planetária”.”

]

Segundo a Ecopedagogia, a cidadania planetária é uma característica necessária ao cidadão do nosso tempo, pois somente assim a preocupação ambiental passará a ser um compromisso efetivo, e não apenas momentâneo como afirma Gutiérrez e Prado, 1999 “Um aspecto básico da planetariedade é sentir e viver o fato de que fazemos parte constitutiva da Terra: esse ser vivo e inteligente que pede de nós relações planetárias, dinâmicas e sinérgicas”. Nesse sentido, a noção de cidadania planetária é baseada numa “visão unificadora do planeta e de uma sociedade mundial” (GADOTTI, 2000, p.135).

A criança, ao aprender as noções de cidadania e ética na escola, deve associar tais idéias ao relacionamento do ser humano e a natureza, já que tal reflexão contribui para o entendimento do ser humano como um ser planetário, pois de acordo com a Carta da Ecopedagogia em seu capítulo IX, “Uma educação para a cidadania planetária tem por

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finalidade a construção de uma cultura da sustentabilidade, isto é, uma biocultura, uma cultura da vida, da convivência harmônica entre os seres humanos e entre estes e a natureza”. Assim, precisa sentir-se um pequeno cidadão do planeta, que possui direitos e deveres com relação ao ambiente do qual ela faz parte, e principalmente com relação ao seu Planeta, nessa dimensão, discorre Gadotti;

Educar para a cidadania planetária implica muito mais do que uma filosofia educacional, do que o enunciado de seus princípios. A educação para a cidadania planetária implica uma revisão dos nossos currículos, uma reorientação de nossa visão de mundo da educação como espaço de inserção do indivíduo não numa comunidade local, mas numa comunidade que é local e global ao mesmo tempo. (GADOTTI,2000, p.142)

Como se vê, existe uma complexidade maior quanto a consolidação da cidadania planetária no âmbito escolar, pois a aprendizagem aparece resultante de uma série de fatores correlacionados entre si, além de reorientar currículos e a visão de mundo, insiste a necessidade do pensamento global e local ao mesmo tempo.

Quando se trata de Consciência planetária é preciso entender que para manter um planeta vivo é necessário que se tenha solidariedade, reconhecer que todos fazem parte da Terra e que se é capaz de viver em harmonia com ela. Segundo Gutiérrez e Prado (2000, p.120) a consciência planetária é assim como a cidadania planetária: “Um planeta vivo requer de nós uma consciência e uma cidadania planetárias, isto é, reconhecermos que somos parte da Terra e que podemos viver com ela em harmonia – participando do seu devir – ou podemos perecer com a sua destruição”. Percebe-se que a consciência planetária constitui-se como uma condição para o entendimento real da cidadania planetária, o reflexo desta é o entendimento e compreensão do primeiro termo.

Ecopedagogia e Educação Ambiental

A Educação Ambiental de uma forma simples e resumida considera-se como mudança de comportamento 9 que visa à combinação de elementos teóricos e práticos redundantes em conhecimentos significativos tanto a escola como fora dela. Através da Educação Ambiental, procura-se sensibilizar e formar cidadãos críticos e conscientes em relação ao meio ambiente, com relação a isto Gadotti (2000, p. 88), faz uma excelente crítica “A educação ambiental muitas vezes limitou-se ao ambiente externo sem se confrontar com os valores, sociais, com os outros”.De acordo com Loureiro (2002, p.36), a educação ambiental pode ser entendida como:

9 MINC, Carlos “Ecologia e Cidadania”,1997, p.63

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Uma práxis educativa e social que tem por finalidade a construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o entendimento da realidade de vida e a atuação lúcida e responsável de atores sociais individuais e coletivos no

Dessa forma, para a real transformação do quadro e crise estrutural e

ambiente (

conjuntural em que vivemos a Educação Ambiental, por definição é elemento estratégico na formação de ampla consciência crítica das relações sociais e de

produção que situam a inserção humana na natureza.

)

Percebe-se uma aproximação conceitual entre os pressupostos da educação ambiental e a ecopedagogia, entendidos nos termos: práxis educativa, a qual remete a pedagogia de Paulo Freire, atuação lúcida, transformação, consciência crítica, que coincide com a consciência planetária, inserção, relações sociais.

Outro autor que infere na questão da Educação Ambiental crítica traz os objetivos da desta na sociedade, de acordo com Reigota (1994 p. 10) “A educação ambiental deve ser entendida como educação política, no sentido de que ela reinvidica e prepara os cidadãos para exigir justiça social, cidadania nacional e planetária, autogestão e ética nas relações sociais e com a natureza.”

Enrique Leff, fala de uma pedagogia da complexidade, com dimensões epistemológicas próximas daquelas defendidas pela Ecopedagogia, em sua visão de educação dialógica;

A pedagogia da complexidade ambiental reconhece que o ato de aprender o mundo parte do próprio ser de cada sujeito; que se trata de um processo dialógico que desborda toda racionalidade comunicativa construída sobre a base de um possível consenso de sentidos e verdades. Para além de uma pedagogia do meio – na qual o indivíduo concentra o olhar no seu entorno, na sua cultura e na sua história para se reapropriar do seu mundo a partir de suas realidades empíricas - , a pedagogia da complexidade ambiental reconhece o conhecimento, contempla o mundo como potência e possibilidade, entende a realidade como construção social mobilizada por valores, interesses e utopias. (LEFF, 2002, p. 219)

Paulo Freire é considerado um inspirador das idéias ecopedagógicas, com seu método de aprendizagem, baseada na vivência cotidiana dos alunos, na relação dialógica entre professor-aluno, na idéia de Educação como produção do conhecimento, e a Educação para a liberdade.

A Ecopedagogia baseia-se numa visão progressista de educação ambiental, que encontra na pedagogia da práxis 10 , seu real sentido, conforme vemos: “Críticos seremos, verdadeiros, se vivermos a plenitude da práxis. Isto é, se nossa ação invólucro uma crítica reflexão que,

10 O referencial maior dessa pedagogia é a práxis, a ação transformadora. Práxis em grego, significa literalmente ação.”(GADOTTI,Moacir 1998 p.30)

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organizando cada vez o pensar, nos leva a superar um conhecimento estritamente ingênuo da realidade.” (FREIRE, 1987, p.128)

A ecopedagogia entende o processo educativo como sendo um processo dialógico, o qual trabalha um espaço ético, promove a vida a partir da cotidianidade e percebe que apenas um cidadão planetário dotado de uma consciência planetária é capaz de: envolver-se, comunicar-se, compartilhar, problematizar, relacionar-se, entusiasmar-se pelo seu espaço natural e viver a “era planetária, com uma identidade e consciência terrenas”.(MORIN, 2004), nesse sentido, trazer um senso de cidadania planetária, a qual remete a esta nova dimensão de pensamento, o novo paradigma, chamado: Ecopedagogia.

Cabe aqui, uma crítica reflexão oportuna à importância daquilo que Paulo Freire defende em suas idéias, em refletir e indagar do quanto de Freire temos em nossas escolas, do seu discurso a favor da classe oprimida, contra os opressores, na realidade como um discurso pode-se afirmar que temos várias vertentes na sociedade, discursos vazios e medíocres são o que não faltam, contudo a realidade pede uma prática num método abrangente, em resgatar clássicos como Freire concebendo a idéia pelo qual a palavra ajuda o homem a tornar-se homem, assim a linguagem passa a ser cultura, esta é a essência da pedagogia do oprimido.

Pedagogicamente, pode-se afirmar que a Ecopedagogia se opõe às práticas educativas tradicionais, que sobrevivem ainda hoje num panorama que demanda uma nova postura da escola em relação as suas práticas, pois a sociedade passa pela mudança extrema de paradigmas, a era das incertezas ·, a escola do futuro é aquela que parte de uma visão reducionista para uma análise holística, que pensa o todo, sem desconsiderar as partes, conforme MORIN (2004, p.48), “o novo saber, por não ter sido religado, não é assimilado nem integrado”.

Paradoxalmente assiste-se ao agravamento da ignorância do todo, enquanto avança o conhecimento das partes. “ A fragmentação do conhecimento perdurou por muito tempo através de uma Pedagogia denominada tradicional, concomitantemente a esta a Educação ambiental teve suas raízes nessas teorias, por isto não há mais espaço para respostas simples, num momento em que a incerteza é companheira inseparável do homem”.

A visão holística consiste num dos pilares sobre os quais a ecopedagogia está alicerçada, dentro desta concepção, a atual configuração mundial, demanda um novo tipo de olhar sobre a educação, que supere as imposições do pensamento moderno, dos argumentos

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da falácia do progresso 11 que dominou e refletiu na catástrofe vivida em nosso momento. A visão holística foi postulada desde 1980, pela psicóloga francesa Monique-Thoenig, de uma forma resumida, pode-se considerar como:

Paradigma, que surge como uma resposta à crise global da consciência humana, dividida e exilada de Holos, sustenta o substrato de uma verdadeira mutação de consciência que transcorre, atualmente, nas mais diversas localidades do globo terrestre. Representa, em última instância, o surpreendente encontro entre ciência e consciência. (CREMA, 1989, p.15)

Como resposta a esta demanda de uma concepção da fragmentação do pensamento surge o termo interdisciplinaridade, o qual “visa a garantir a construção de um conhecimento globalizante, rompendo com as fronteiras das disciplinas”(PONTUSCHKA, apud Gadotti,2000). Trata-se de uma vertente de suma importância na concepção da ecopedagogia, concernente ao seu caráter holístico e abrangente. Contudo, a interdisciplinaridade tem sido considerada um termo “gasto” no universo educacional, com relação a isto Ademar Heemann 12 , faz uma análise elucidativa, ao considerar sobre a falácia informal da interdisciplinaridade e sua banalização. A ecopedagogia insiste na prática da interdisciplinaridade como ferramenta de uma mediação pedagógica

A Ecopedagogia está pautada nos princípios de uma Pedagogia diferente da tradicional, mas aquela que está comprometida com as questões do seu tempo, nas palavras de Terezinha Rios, “Parece esgotar-se, portanto, o modelo de pensamento baseado na razão iluminista, na crença de que o homem podia, apenas com o saber científico, dominar o mundo, tornar-se seu senhor”. As questões que afligem a sociedade devem configurar a prática pedagógica da Escola, a qual precisa assumir o conflito do seu contexto, para então de alguma forma agir sobre o mesmo, é o que defende Gadotti, (2000, p.94). “A ecopedagogia se movimenta da necessidade real analisada, interpretada, refletida, organizada, codificada e decodificada para ação coletiva e individual transformadora, para o vivido na cotidianidade”.

Para Francisco Gutierrez, educar é impregnar de sentido as práticas, o ato cotidiano, temos uma reorientação das aprendizagens apurando os ideais da Ecopedagogia, os quais encontram-se na Carta da Ecopedagogia. Parafraseando Jackes Delors (1998), a ecopedagogia insiste na necessidade de um compromisso real com a educação e seus os objetivos no processo

11 CREMA,Roberto. Introdução a visão holística. São Paulo,1989.

12 HEEMAAN, Ademar. “Considerações sobre alguns obstáculos à interdisciplinaridade na pós graduação”. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 10, p. 47-51, jul./dez. 2004. Editora UFPR

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de ensino e aprendizagem, considerando o cotidiano como o lugar em que o conhecimento faz sentido;.

- Aprender a conhecer: “O planeta como uma única comunidade. A terra como uma mãe, organismo vivo e em evolução”.

- Aprender a fazer: “Uma nova consciência que sabe o que sustentável, apropriado, que faz sentido para a nossa existência. Uma pedagogia biófila(que promove a vida):envolver-se, comunicar-se, compartilhar, problematizar, entusiasmar-se.

- Aprender a conviver – com ternura na Terra, considerando esta a sua casa, com novas atitudes: reeducar o olhar e o coração.

- Aprender a ser: Presente na cultura da sustentabilidade, afetivo, sensível.

Ao tratar da Ecopedagogia na Escola, corre-se o risco de confundir tal nomenclatura com Educação Ambiental, porém é necessário deixar claro que a Pedagogia da Terra se distingue pela sua abordagem mais ampla – visão holística - pois não se dirige apenas aos educadores e educandos, mas aos habitantes da Terra, conforme vemos:

A ecopedagogia pretende desenvolver um novo olhar sobre a educação, um olhar global, uma nova maneira de ser e de estar no mundo, um jeito de pensar a partir da vida cotidiana, que busca sentido a cada momento, em cada ato, que pensa a prática

Paulo Freire, em cada instante de nossas vidas, evitando a burocratização do olhar

e

do comportamento. (GADOTTI 1999, p. 82).

A ecopedagogia não pretende começar de novo, inventar novas idéias, mas partir dos pressupostos de uma educação ambiental, que valoriza a racionalidade dos acontecimentos existentes e contempla possibilidades de mudanças, a começar na Escola.

Para ser considerada uma teoria da educação propriamente dita, a Pedagogia da Terra, precisa ainda trilhar um longo caminho, pois como ela precisa antes ser experimentada e vivida na realidade, conforme esclarece o autor;

Não se pode dizer que a ecopedagogia representa já uma tendência concreta e notável na prática da educação brasileira. Se ela já tivesse suas categorias definidas e elaboradas, ela estaria totalmente equivocada, pois uma perspectiva pedagógica não pode nascer de um discurso elaborado por especialistas. Ao contrário, o discurso pedagógico elaborado é que nasce de uma prática concreta, testada e comprovada. (GADOTTI, 2000,p.177)

Interessante observar que em momento nenhum os autores citados ousam chamar a Ecopedagogia de uma nova tendência da educação, nova teoria ou um novo método, mas apresentam seus aspectos, consideram que esta enquanto movimento tem tido uma presença

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mais forte, porém a proposta futuramente é que a Pedagogia ganhe espaço em suas outras abordagens, que é a de proposta curricular e teoria e prática educacional.

No Brasil, temos muitos fatos acontecendo simultaneamente em termos de Ecopedagogia, feita uma pesquisa através do site de busca na internet, o google 13 é possível perceber como este movimento está ganhando espaço além do meio educacional e nas instituições não governamentais de forma abrangente. A Universidade Regional de Blumenau – FURB, atualmente desenvolve pesquisas em torno de uma perspectiva ontológica/existencial, com alguns projetos vinculados, tais como: cultura indígena, ecopedagogia, autonomia e envelhecimento humano. A universidade federal de santa Catarina – UFSC, mantém o núcleo de Ecopedagogia - Mongaru 14 além de possuir em seu banco de teses, alguns trabalhos relacionados a ecopedagogia 15 . Já a secretaria do estado do meio ambiente de São Paulo, preocupou-se numa formação de professores numa perspectiva ambiental ecopedagógica organizado pelo departamento de educação ambiental da coordenadoria de planejamento estratégico e educação ambiental, em 12/05/2005 no Parque Água Branca em São Paulo, oferecendo cursos e oficinas sob os títulos: “Educação Ambiental e suas abordagens ecopedagogia”, no ciclo de cursos de educação ambiental, outra palestra oferecida neste mesmo evento foi ministrada pelo sociólogo Aloísio Ruscheisnky professor do curso de pós-graduação em Ciências Aplicadas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS do Rio Grande do Sul, que faz uma abordagem da Ecopedagogia sob uma análise sociológica. 16 Da mesma forma, professores da rede pública de Joinville / SC também recebem atualizações em torno da Ecopedagogia, promovido pelo Instituto Harmonia da Terra 17 , uma organização da sociedade com sede em Santa Catarina, que oferece gratuitamente cursos, palestras e até materiais didáticos que tratam da educação ambiental, sob uma perspectiva ecopedagógica. É importante lembrar também do trabalho promovido pela Fundação Orsa – criança e vida, em São Paulo outra organização não-governametal, que implementou o Projeto Ecopedagogia numa proposta prática de conservação e ações efetivas com crianças e adolescentes 18 .

13 Disponível em : http://www.google.com.br -

14 O e-mail de contato com o Núcleo de Ecopedagogia - Mongaru é ecologizando@yahoogrupos.com.br

15 ver teses.eps.ufsc.br

16 disponível em http://www.cetesb.sp.gov.br/noticentro/2005/05/13_curso.htm acesso em 12/08/2007.

17 Disponível em http://www.harmonianaterra.org.br/projetos_txt.htm acesso em 12/08/2007

18 Disponível em http://www.fundacaoorsa.org.br/web/pt/atuacao/educacao/ecopedagogia.htm acesso em

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Além dos eventos relacionados, vários outros que acontecem no Brasil inteiro, os quais impulsionam a Ecopedagogia para um debate coletivo, pois é nesses movimentos que ela se fortalece e se consolida, conforme vemos, novamente em GADOTTI (2000, p.95) “para se firmar como Pedagogia da Terra , como ecopedagogia, precisa morder realmente a realidade, com proposta e estratégias metodológicas.”. Além disto, pessoas como Flávio Boleiz Junior 19 , Claudemiro Godoy do Nascimento 20 , Moacir Gadotti, Francisco Gutierrez , Cruz Prado, Gilson Sérgio Tessaro 21 , entre outros, promovem o discurso da ecopedagogia em seu discurso ambiental.

Considerações Finais

A Ecopedagogia se choca com as idéias que sustentaram a sociedade por muito tempo e a trouxeram para este momento do pensamento complexo que se vê hoje, juntamente com esta característica do nosso tempo, nascem novos rumos de pensamento que põe em cheque toda a certeza que o homem tinha até então, nesse sentido, surge à pedagogia da Terra, como uma idéia nova, que nasceu na década de 90, a ecopedagogia, consegue espaço devido a sua aproximação com a Pedagogia do Oprimido, é nesse sentido que o Instituto Paulo Freire, considera a Ecopedagogia como um carro-chefe de suas pesquisas.

Pensar na ecopedagogia como um modismo, seria uma incoerência, pois Paulo Freire, ainda tem um longo caminho a percorrer no seu próprio país de origem, suas idéias, seus métodos foram pensados com base na classe dominada, sufocada pelas injustiças de um mundo excludente e seletivo. Paulo Freire defende o oprimido, a Ecopedagogia, também conhecida como uma “pedagogia dos direitos”, que associa os direitos humanos aos direitos da Terra “(GADOTTI, 2000, p94)”, porém é preciso firmar as bases desse pensamento, para que não se

19 possui graduação em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (2003). Está cursando Mestrado em Educação na mesma instituição. Atualmente é Orientador Pedagógico e Educacional do Colégio Rainha da Paz - em São Paulo - e atua como colaborador do Instituto Paulo Freire - SP. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Orientação Pedagógica e Educacional e Docência Universitária de disciplinas pedagógicas (Professor de Pedagogia), atuando principalmente nos seguintes temas: Educação, Pedagogia, Cidadania, Ecopedagogia, Democracia e Carta da Terra (é filiado à Iniciativa da Carta da Terra). Disponível em http://lattes.cnpq.br/1725795784961836, acesso em 12/08/2007

20 Possui graduação em Filosofia pela Universidade Católica de Goiás (1999), graduação em Teologia pela Universidade Santa Úrsula (2005) e mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2005). Atualmente é Doutorando em Educação pela Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação do Campo, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, sociedade civil, movimentos sociais, participação social e política. Disponível em http://lattes.cnpq.br/8831979222815892 , acesso em 12/08/2007.

21 possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná (2000) e mestrado em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2005) . Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Popular. Disponível em http://lattes.cnpq.br/9452575181746198, acesso em 12/08/2007.

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perca nesse sentido a preocupação do autor; “Como todo movimento novo, em processo, em

evolução, a Ecopedagogia é complexa e pode tomar diferentes direções, até

contraditórias”.(GADOTTI, 2000, p. 90) “.

Contudo, há que se atentar para o fato de que a base científica na qual a Ecopedagogia

apóia-se, sua concretude ideológica freireana é lhe dá sustento como uma proposta consistente

de educação ambiental, que percebe o ambiente sob um olhar sóbrio, o qual não considera a

ação do sujeito somente como suficiente para salvar o meio ambiente, mas que traz os fortes

traços de Paulo Freire o qual considera que há uma realidade social que precisa ser trabalhada

em sala de aula, no sentido de proporcionar uma autonomia ao aluno e dar-lhe condições de

fazer uma leitura por completo das relações que permeiam a sociedade e compreender a ação

de interesses antagônicos (LEFF, 2002, p.112) existentes nessa sociedade.

A questão que se instaura nesse sentido, não é o de fazer uma crítica às ações isoladas

do sujeito enquanto um cidadão planetário, mas sim apontar a importância de sua atuação

enquanto uma pessoa que decodifica a realidade e sabe qual o papel que lhe cabe e onde há

omissões atitudinais dentro de uma perspectiva sócio, econômica, política e globalizada.

Percebe-se que ainda há muito que se aprofundar com relação à Ecopedagogia, fazer

relações lógicas com outras linhas de pensamento e apurar resultados próximos da realidade da

qual a Pedagogia da Terra se compromete, é um futuro caminho exploratório subjacente a esta

proposta.

Considerando sua abordagem progressista, a ecopedagogia pode ser vista como um

movimento positivo, com vistas a uma educação ambiental emancipatória que defende uma

pedagogia do oprimido e vê na pedagogia da esperança uma alavanca para uma educação

ambiental transformadora, que consegue transpor e sobrepor muito da falácia naturalista 22

existente por aí.

REFERÊNCIAS

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22 HEEMANN,Ademar. Natureza e ética. 2001,p.35

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