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Um repórter na China

Flávio Alcaraz Gomes

A longa espera

Levei quatro anos para conseguir um visto de entrada para China - e à última hora quase não embarco devido à sabotagem russa. De onde se depreende que a guerra fria entre as duas superpotências comunistas chega a diabólicas e tentaculares minúcias, como essa de uma delas tentar impedir que um simples jornalista de uma Província do Brasil conheça o território da outra. Mas comecemos pelo princípio: em novembro de 1971, pouco depois de Nixon ter anunciado sua visita à República Federal da China, e levando como garantia a palavra e o telex do representante da France Press no Rio, monsieur François Lara, de que a sua

Agência em Paris me obteria em 24 horas a autorização de viajar para Pequim - me toquei para a França. Ali, o diretor da F.P., para assuntos da Ásia, riu na, minha cara, disse que monsieur Lara estava completement fou, completamente louco, que a China continuava hermeticamente fechada por sua Cortina de Bambu - e que nem eles, jornalistas franceses, cujo governo vivia bajulando Mao e Chou, podiam lá entrar - quanto mais eu, que além de sul-americano, possuía o agravante de ser brasileiro. Assim aconselhou-me que não perdesse tempo e voltasse para o Brasil onde, na melhor das hipóteses, poderia ainda tentar cobrar as despesas da viagem do maluco do Lara. Não desisti. Naquela mesma tarde entrei na Embaixada da China, à avenue George V com minha application para Pequim. Um chinês gordinho, vestido com um traje cinza, tipo Mao, me recebeu numa sala escura, anotou minhas pretensões e endereço e me disse que estava bem, que eu esperasse.

- Onde?

- Onde quiser.

- Quanto tempo?

E ele, sem me olhar nos olhos, e muito lentamente:

- Três dias, três semanas, três meses ou três

Ainda não desisti. No outro dia estava em Londres, também na Embaixada da China, não me lembro do nome da rua, mas sei ir lá, porque fica entre a BBC e a Oxford Street. Ali havia mais luz na sala e o (também) chinês que me atendeu, mais magro e mais simpático do que o outro, mas vestindo idêntica roupa, perguntou se aceitava um chá, enquanto me estendia um cigarro, de evidente origem chinesa. Depois disse que estava um lovely day, isn't indeed, que Londres era uma cidade muito bonita, imaginava que Porto

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Alegre também deveria ser - e sempre desconversando com relação ao pedido que, devidamente preenchido, desde o princípio, insistentemente, eu lhe estendia. Por fim, com alguma repugnância consentiu em agarrá-lo; e continuou a falar sobre o clima da Inglaterra, ah! como seria bom se um dia Brasil e China estabelecessem relações diplomáticas e ele fosse trabalhar em

- Mas e a application? Quando terei a resposta?

Aí ele repetiu o mesmo que o de Paris, só que em inglês e me fixando o olhar:

- Daqui a três dias, três semanas, três meses ou três

Esfriei. Ele sorriu, disse que eu não desesperasse, que as coisas eram assim mesmo, pediu que aguardasse só um momentinho, cruzou uma cortina através da qual em seguida voltou, com um pequeno objeto na mão:

- Tome, leve, é o livro vermelho com os pensamentos de nosso grande presidente e

líder Mao-Tsé-Tung. Não deixe de o ler sempre, que ele só lhe trará felicidade.

- Mas e a application camarada?

- Já lhe disse:

Apertei-lhe a mão mole e suada e dei o fora. No hotel, meti o livro vermelho no meio das cuecas sujas, com medo da Polícia no Rio - e no outro dia voltei para o Brasil, via Varig, naturalmente. Aqui, então, chegamos ao fim do primeiro capítulo de minha, por enquanto, desventurosa novela.

Já no Segundo Capítulo, ao voltar do México, em maio de 1972, resolvi interromper a viagem no Chile, para ver como iam as coisas com o camarada Allende. Encontrei Santiago, outrora uma bela, limpa, rica e pacífica cidade, virada do avesso - tal qual, aliás, vem acontecendo com Lisboa nos últimos tempos. Num bairro perdido nos confins, localizei a embaixada da China. Mandei que o táxi ficasse esperando, bati na porta, espiaram pelo olho mágico, levaram um tempão para me atender e, para encurtar o episódio, a conversa foi exatamente a mesma de Paris e Londres.

- Mas companheiro, acontece que já cruzei os tais três dias, três semanas e três meses que os camaradas E o chinês muito sério, pausado e em espanhol:

- Pero le hace falta aún esperar los tres años,

Aí, sim - desisti. Decididamente, não tinha condições para enfrentar a paciência

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oriental. E Porto Alegre, outra vez.

Terceiro Capitulo. Estando eu inocentemente na Rádio Guaíba, recebo a visita de Hans Müller, representante da Air France em Porto Alegre:

- Tenho uma surpresa para você!

Partindo tal frase do Müller, já me imaginei sem transição tomando meu kir na gaiola envidraçada de um café do Boul' Mich’ fazendo hora para comer uns certos escargots e um determinado cordeiro, que só naquele bistrozinho ao lado da Notre Dame

sabem

- Viagem a Paris à vista, Müller?

- Que nada, chê. Convite para visitar a China no vôo inaugural da Air France!

Um estalo explodiu em minha cabeça e tudo se fez claro e ofuscante como um meio-dia de verão em pleno sol: eu havia superado a última das provações chinesas. Os três anos tinham Isso é o que eu pensava. O pior estava por acontecer.

Quarto Capítulo. Na embaixada da China, em Brasília, foram todos muito cordiais

e amistosos. O mesmo chá, o mesmo cigarro, só que desta feita dois eram meus

interlocutores, ambos falando um português quase perfeito. Entreguei-lhes alguns exemplares do Correio do Povo, da Folha da Tarde e da Folha da Manhã, todos sorríamos, afinal era maio, o dia em Brasília estava Tomaram umas quantas notas a meu respeito, aceitaram o passaporte, pediram mais fotos e pouco tempo depois o documento me era remetido para Porto Alegre, com o sofrido visto. Com um pequeno detalhe apenas: eu não poderia embarcar no vôo inicial da Air France, pois o grupo já estava preenchido, mas somente em fins de setembro, o que seria melhor ainda, conforme me esclareceu o prestativo Müller, pois eu pegaria em Pequim as comemorações do l º de outubro, data máxima chinesa - o fino em matéria de reportagem.

Disse duas ou três vezes obrigado, Müller, acompanhei-o até a porta do elevador e comecei

a me preparar para a aventura. Por descargo de consciência e para me atualizar na

geografia, olhei o mapa. Lá estava, até então impenetrável e misteriosa para mim, a China Vermelha. Mas, bem ali ao seu lado, a não menos enigmática Rússia, aliás, União

Soviética, como dizem ser seu verdadeiro nome. E, no caminho entre Paris e Pequim - Moscou.

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Então, quem sabe - e por que não? Na mesma hora telefonei para o Müller:

- Posso interromper o vôo em Moscou e ficar ali uns três-quatro dias?

- Não tem problema. Só que precisas o visto soviético.

- Bom, quanto a isso não vejo dificuldades. Os russos andam tão

- Ok. Então pede. Pedi. E nesse momento tem início o

Quinto Capítulo. Pelo malote da Caldas Júnior e com uma linda carta de recomendação de amigos comuns, os diplomatas soviéticos em Brasília receberam meu passaporte. Isto foi a 5 de setembro, me lembro bem, porque é o dia do aniversário da minha filha. Acontece - e é ali

que começa o drama - que o passaporte já estava carimbado com o visto da China e sua data única e autorizada para cruzar a fronteira: 26 de setembro. Com vinte dias pela frente, nunca imaginei que pudesse haver qualquer complicação; e comecei a me preparar para uma viagem que me proporcionaria uma visão das duas mães do comunismo internacional. Pura ingenuidade, santa boa fé. Os dias foram passando, e nada. Já estava na antevéspera da data fatídica - e os russos, moita. Foi então que, assustado com a demora, telefonei para o Aldo Magalhães, nosso representante em Brasília, para que ele informasse à embaixada soviética que eu tinha desistido de visitar a Rússia e que, pelo primeiro malote, mandasse de volta meu passaporte. No dia seguinte o telex da Caldas Júnior taquetaqueou o seguinte:

- Aqui Aldo. Quero falar com Flávio.

- OK, pode falar.

- Olha, a coisa está difícil. Depois que comuniquei a decisão de não visitares a Rússia, o Valentim não me permitiu mais contato com ele. Não atende telefone e não me recebeu em duas visitas que fiz à embaixada, onde inclusive deixei um bilhete pessoal para ele. Hoje enviei mensagem pelo telex e continuo insistindo pelo telefone. Estou apreensivo

com isso, pois entendo que deveria mandar-te o passaporte hoje.

- Tenho que viajar sexta-feira. Se não, perco o avião. Que diabo! Eles não têm o

direito de reter o meu passaporte!

- Eu também acho. Penso que seria interessante tu chamares agora o telex e reforçar

meu pedido. Eu marquei, inclusive, quatro horas como limite para me colocarem o passaporte à disposição, e estou vendo a coisa preta.

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- Ok. Vou passar o telex. Como é, afinal, todo o nome desse Valentim?

- É Valentim Aleshim. Olha, ele me disse que sexta-feira estaria aí em Porto

Alegre, mas ponderei-lhe que não poderíamos esperar até lá. E nunca mais consegui falar com o homem.

- Grato, Aldo. Vou agir.

Agi. Em seguida, desci para o telex e liguei para Brasília:

- Atenção, Aldo. Acabei de falar com o senhor Valentim pelo telefone. Ele me

prometeu que vai devolver o passaporte. É bom que fiques de olho nisso, caso contrário é capaz de haver extravio ou coisa que o valha, tu sabes como são esses caras, o peito deles, tentarem fazer isso com um brasileiro; e no Brasil. Imagina só o que não praticam lá na democracia deles. Vou ficar aguardando o resultado das tuas gestões aqui mesmo no telex. Passam cinco minutos. Dez. Uma hora. Tudo mais longo, arrastado e agoniante do que os «três dias, etc.» dos chineses. Mas, de repente, a máquina estala e começa a escrever o - uff! - happy end desta edificante novela de paciência asiática, suspense, emoção, persistência, ódio entre as grandes potências comunistas e, afinal, triunfo do mocinho:

- Amigo Flávio, mais uma vitória da democracia! O Valentim recuou em sua

pérfida atitude e teu passaporte acaba de ser posto em nosso malote, seguindo hoje à noite

para Porto Alegre. Boa viagem! E foi assim que, apesar de toda a solerte obstaculização do social-comunismo revi sionista da União Soviética, estou agora apertando os cintos e não fumando, enquanto o Boeing da Companhia de Aviação Civil da China se prepara para aterrar no aeroporto deserto de Shangai, nesta noite crivada de estrelas vermelhas de 26 de setembro de

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Shangai

No último degrau da escada do avião, bem naquele que fica junto ao solo, faço uma operação de troca-de-passo e acabo pisando com o pé direito em território chinês. São sete e meia da noite e um calor opressivo me agride, enquanto sigo para a Polícia e para a Alfândega. Olho em todas as direções e, na pista do aeroporto, além do nosso, só vejo um outro avião - um Trident de fabricação inglesa. Minha primeira impressão da China é de que estou numa terra quente, muito pouco iluminada e num aeroporto interditado.

Entro no saguão do prédio, cujas características, do lado de fora, mal posso distinguir. A direita, por detrás de um balcão alto, de quase dois metros, sobressaem as cabeças - apenas - de dois rapazes. De seus trajes, só percebo os bonés verdes, com uma desproporcional estrela de plástico vermelho ao centro. Entrego- lhes a declaração especificada de todo o dinheiro que levo, uma relação dos gravadores e máquina fotográfica, número de fitas e filmes, e o passaporte. Este somente me seria devolvido em Kwelin quase duas semanas mais tarde, já às vésperas de deixarmos a China. Na Alfândega o exame da bagagem é rápido, cortês e sumários. Ê nesse momento que somos apresentados a dois dos scorts que nos acompanhariam durante todo o tempo: o senhor Li, que mais tarde concluimos ser uma espécie de comissário do povo, e o senhor Mi, este falando um português quase perfeito só que com indisfarçável sotaque alemão. O senhor Li se manifestava apenas em chinês mas irradiava bonomia, dentro dos seus setenta quilos, socados em metro e sessenta de altura. Já o senhorr Mi era alto e esguio, e nas maneiras, na postura das mãos e no ar encabulado, com que coçava os cabelos, quando se via embaraçado com alguma pergunta - dava a perfeita impressão de um seminarista dos bons tempos.

Ê ele quem traduz as primeiras palavras - formuladas através de discurso solene e secundadas por palmas dos viajantes - que o senhor Li nos desfere textualmente: «- Somos representantes da Luching-She, que é a Agência Geral de Turismo na China e queremos dar boas vindas aos amigos brasileiros. Entre os povos do Brasil e da China existe uma amizade tradicional, sobretudo depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre nossos países, o que abriu uma nova página em nossa história. Os amigos atravessaram oceanos e montanhas e percorreram uma longa distância para chegar à China e por isso nos sentimos muito felizes e alegres com sua presença. Estamos convencidos de que a vossa visita vai contribuir desta feita para a promoção da amizade entre o povo brasileiro e o chinês. A cidade de Shangai que é a primeira que visitarão, se localiza na zona subtropical. Em agosto faz calor e em janeiro frio. A temperatura média anual é de 15 graus. Shangai é

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o centro da indústria pesada chinesa, fica na confluência dos rios Huang-Pu e Su-Zhov e tem 11 milhões de habitantes, numa área de 145 quilômetros quadrados. Em qualquer momento, se tiverem alguma critica a nos fazer, que a formulem, pois nosso objetivo é vê- los felizes». Nossas malas já foram embarcadas no porta-bagagem de um ônibus cinza e dentro dele, com o motorista a buzinar incessantemente, percorremos os vinte mal iluminados quilômetros que separam o Aeroporto de Shangai do Grande Hotel, onde ficaremos hospedados. O calor aumenta à medida em que nos aproximamos da cidade. Ao cruzarmos os primeiros subúrbios, ele se torna gelatinoso, úmido, gosmento. Diante de casas pobres e cinzentas, gente pobre e cinzenta senta em cadeiras de vime, as mulheres com túnica e calças compridas e os homens, em sua maioria, de short e camiseta de física. Carroças transbordando de verdura e puxadas por magros cavalos desfilam à nossa frente, o motorista do ônibus a buzinar cada vez mais freneticamente. Ciclistas, às centenas, e logo aos milhares, apenas com muita relutância, cedem passagem ao carro, que meia hora depois nos despeja no pátio interno e despersonificado do Hotel Shangai. Um imponente prédio de tijolos vitorianos e aparentes, construído pelos ingleses no início do século e que foi um dos mais famosos da China, servindo de motivos a românticas histórias de Vicki Baun.

Shangai, desde meados do século passado, quando submetida à força de canhonaços pelo imperialismo britânico, foi a grande cidade portuária e cosmopolita da China e ainda hoje guarda traços desse seu status. Já no dia seguinte, à luz do sol, vamos concluir que ela possui muito mais características européias do que propriamente chinesa. Mas por enquanto estamos no velho hotel, os quartos são distribuídos no saguão, nós subimos primeiro, as malas vão depois. Não nos dão chaves. Estas ficam em mãos de vigias, um em cada andar. O meu é o oitavo, apartamento 820, com as janelas da direita para o rio Huang-Pu e as da esquerda para a Chuan Lu, uma das mais movimentadas ruas da cidade. É um quarto enorme e obsoleto, o pé direito com cerca de quatro metros de altura e com uma área de pelo mínimo trinta

metros quadrados, o mau gosto megalômano inglês até hoje pre-Hente na

As

janelas são protegidas por telas e vidro e este, mesmo fechado, não consegue deter a infernal barulheira que vem lá de baixo, seja a da buzina dos ônibus (pois automóveis até

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então não vira nenhum), seja a dos alto-falantes dos barcos que sobem e descem o rio num desfilar intermitente de procissão. Um descomunal radiador de calefação revela que deve fazer frio no inverno, mas em compensação, contra o calor só posso contar com um pequeno ventilador de fabricação chinesa, sobre a mesinha de cabeceira, entre as duas camas de solteiro postadas no quarto. Além destas, o parco mobiliário se constitui de uma cômoda, tão fora de moda quanto os britânicos que a utilizaram; e uma secretaria. Sobre ela, dois vidros de tinta e - o que faz com que me transporte em transição para os distantes tempos do ginásio do Rosário «<oh! guri relaxado, vives com os dedos sempre sujos de tinta» - reclamava sempre o irmão Faustino) - duas canetas com pena de No lado oposto às janelas da esquerda, um quarto de banho com pia, banheiro e chuveiro. Não há bidê. O vaso é também de louça branca, encardida como todo o conjunto. Sua caixa d'água é aparente - e está vazando. Com meus conhecimentos de hidráulica, levanto-lhe a tampa, dou uma torção na bóia e faço o instrumento silenciar. Chego, mesmo, a anotar o fato em meu diário. Mal imaginava que deveria repetir essa cena em todos os quartos dos vários hotéis em que me hospedei na China. Porque se há algo de positivo que já posso escrever sem temor de ser desmentido a respeito da terra de Mao-Tse-Tung é precisamente este: Na China, todas as patentes de todos os hotéis - vazam. Dito o que, e ducha devidamente tomada, mas assim mesmo transpirando muito, pois o calor não diminui, entrego a chave ao zelador do andar e desço para ver se encontro comida.

São nove e meia da noite e no saguão o senhor Li e o senhorr Mi começam a transmitir as suas instruções. Enquanto Li fala seu chinês e Mi ainda não o traduz, olho em volta e vislumbro um que outro resquício da presença inglêsa, inclusive uma sala de bilhar, com um enorme ventilador de pá sobre a mesa, cercada em seus dois lados por sofás com porta-copos, onde os britânicos, vestindo seus smokings, charuto numa mão a cálice de uísque na outra (ou quem sabe gin-tônica?) assistiam às carambolas de seus patrícios, solenes, tranqüilos e despreocupados já que, à entrada do hotel, a placa deixava bem claro que (e isso todos que escreveram sobre a China já o disseram, mas não vejo razão por que não repeti-lo, pois serve para dar aos leitores uma maior compreensão do que ali

aconteceu) -

porque no ambiente «é proibida a entra_ da de cães e chineses.»

Entrementes, Mi traduz:

- Hoje jantarr e descanso. Amanhã cedo, e como há muitos médicos entre os amigos, visita ao hospital pela manhã, a uma comuna popular pela tarde e à Ópera de

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Pequim à noite. Pela amostra, e se os dias subseqüentes forem mantidos nesse ritmo, tenho a impressão de que acabarei desistindo pelo caminho, à falta de resistência física, ou então tomando um verdadeiro cursilho de China. Como se verá mais adiante, temo ter sido a segunda hipótese a que O jantar é simples, mas chinês e abundante: arroz sem sal em tigelas, naturalmente, camarão ensopado, uma espécie suspeita de nabo cozido, galinha com pimentão e porco com abacaxi. A cozinha de Shangai não é das mais reputadas na China, cuja tradição de gourmandise se concentra em Pequim e em Cantão, conforme o guloso leitor terá a oportunidade de degustar mais tarde, ao longo dessas andanças que recém iniciamos. A ceia termina com seu prato de encerramento que, na China, sempre é constituído por uma sopa de massa ou legumes. Sobremesas, sentiam muito mas «estavam em falta», café não se aprecia na China, em compensação nos servem chá verde, o primeiro de uma série intermitente que só se encerraria ao final da viagem. Aí então, mesmo os que fumam se levantam apressadamente para conhecer a Loja da Amizade, que fica logo ali, cruzando a ponte e o Parque e onde se vendem artigos exclusivamente para os amigos visitantes estrangeiros, como nós.

São onze da noite e estamos voltando da Loja da Amizade, um prédio de três andares, sem elevador, tipo grande magazine, só que em termos modestos e chineses. Ali há o essencial em matéria de vestuário, algo de sapatos e sandálias e muito de quinquilharias, todas de mau gosto. As antigüidades dos Ming ficam para mais tarde e são vendidas em casas especializadas, tudo sempre controlado pelo estado. É na Loja da Amizade que trocamos nossos primeiros dólares, na base de um dólar = 1,90 yuans. O yuan, por sua vez, é dividido em 100 jiaos. Um jovem operário em início de carreira ganha 35 yuans mensais, que é o menor dos oito níveis de salário, dentro dos quais se enquadram todos os chineses. Importante salientar que o que mais ganha não pode ultrapassar em oito e no máximo dez vezes o nível do menor salário. Não há, assim, diferenças flagrantes entre ricos (que não existem) e os pobres (que não são miseráveis). A revolução de Mao realizou, de fato, uma igualdade que, em parte alguma do mundo, o socialismo conseguiu. Só que o nivelamento é muito por baixo. Em compensação, como se verá mais adiante, quando nos embrenharmos nos caminhos da economia chinesa, não há desemprego, ninguém passa fome e mesmo quem percebe o

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salário mínimo de 35 yuans (que equivale a mais ou menos Cr$ 150,00 pelo câmbio atual) pode levar uma vida modesta, mas decente, comendo três vezes por dia, comprando dois traje mao por ano e indo ao seu cineminha ou à sua operazinha. Nesses, bem como através de todo e qualquer meio de comunicação por ele tentacularmente controlado, o governo lhe aplica sua doutrinação política, subliminar ou escancaradamente. Embolso os 190 yuans que me deram pelos cem dólares que troquei e compro por 16 um mao azul acompanhado do respectivo boné, duas camisas e dois pares de meia de algodão. Alpargatas ou tênis (que eu precisava, pois só tinha levado roupas e calçados de inverno) é que não consigo. Os chineses, inclusive os homens e mesmo depois da revolução cultural, continuam com pés incrivelmente pequenos, e números acima de 40 são fabricados quase que exclusivamente para os amigos visitantes estrangeiros, cujo último grupo, constituído de hordas búlgaras, havia levado justamente o meu número. Entre o Parque da Loja da Amizade e o Hotel há uma ponte de ferro sobre o Huang-Pu. São quase onze da noite, mas apesar do chinês, de uma maneira geral dormir cedo, há ainda muito movimento, principalmente de ciclistas. Sobre o balaustre da ponte, à esquerda de quem vai para o hotel, vislumbro, em meio ao escurinho, três casais jovens, mais agarrados um ao outro do que em suas bicicletas, postas ao lado. Mi e Li desviam abruptamente os olhos da terrível cena. É que o sexo é uma das coisas mais proibidas na China. Ele deve ser refreado pela mulher até os 25 anos e, pelo homem até os 30, sob pena de um ou outro ser considerado revisionista e, como tal, sofrer as respectivas sanções. Todos os autores que eu li, todos os estrangeiros que visitaram ou que moram na China, com os quais conversei são unânimes a esse respeito. O chinês, tanto o homem como a mulher, aparenta guardar a castidade até o casamento; e só se casa com licença das autoridades competentes - no caso o Comitê Revolucionário - depois de ter cruzado a idade mínima limite. Até lá, deve manter-se assexuado. Isso é motivado pelo verdadeiro pavor do governo ante a explosão demográfica, pavor tão flagrante que o obriga a uma (também aparente) política de avestruz, a ponto de ter realizado o último recenseamento do país em 1953 e de não saber (pelo menos oficialmente) quantos habitantes tem a China. Sinólogos criteriosos, contudo, estimam que a população da nação chinesa, neste quase final de 1975 anda por volta dos 860-940 milhões de habitantes e que, apesar de todos os empecilhos interpostos entre os sexos ditos opostos, o índice de crescimento demo gráfico se mantém na assustadora ordem dos 2% anuais. A pílula anticoncepcional é fabricada e distribuída maciça e gratuitamente. Rádio, TV, jornais impressos ou murais, alto-falantes e Comitês

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Revolucionários pregam violentamente o controle da natalidade (que eufemisticamente denominam planejamento familiar). Mas assim mesmo inúmeros casos de rebeldia se verificam não só nas cidades como, principalmente, nos campos.

- O camponês é o principal problema - me confiou ao longo da viagem um dos

amigos chineses. E explicou:

- Ê que eles, por uma tradição instilada pelo maldito Confúcio, não param de

procriar enquanto não lhes vem um filho varão. E há casos de encontrarmos nas comunas famílias com oito, dez e até mesmo doze filhos. O aborto é livre, estimulado e praticado gratuitamente e com anestesia acupuntural. Apesar de tudo isso (e esta é observação pessoal minha), nunca vi tanta criança em parte alguma do mundo como na China - seja nas cidade, seja nos campos. O governo insiste e muitas vezes apela para sanções mais ou menos violentas. Nas universidades, quando se manifesta algum caso de amor (ou mesmo tentativa de namoro) entre dois jovens, eles são denunciados ao Comitê Revolucionário (porque ali como em toda a China reina o regime da vigilância recíproca - ou do dedo-duro, para falarmos bem claro) e os responsáveis, seja por mãozinhas-dadas, seja por olhares furtivos, são levados ao Conselho de Disciplina, diante do qual, se não se retratarem e prometerem nunca mais olhar um para o outro (e muito menos se tocarem) até completar (ele) 30 anos e (ela) 25 - serão punidos com a expulsão e imediata transferência para longínquas e separadas

Sob o ponto de vista sexual, a China vive sob um verdadeiro regime de terror, iniciado com a reeducação das prostitutas e dos homossexuais, que ou se converteram ou foram eliminados fisicamente; e que prossegue ainda hoje, com interferências, até na vida do casal já legitimamente constituído dentro dos mais rígidos pensamentos de Mao-Tsé-Tung. Este, para ter um terceiro filho deve pedir licença ao Comitê Revolucionário, o qual normalmente nega sua autorização. Se o casal desobedecer a ordem, o aborto é sugerido e se não for realizado e a criança nascer, a mulher ou o homem são automaticamente separados, um ou outro transferido para um local distante e inacessível, somente lhes sendo concedida autorização para se visitarem de ano em ano, assim mesmo com a específica e determinante ordem de não procriar.

No sexo, como em muitas coisas mais, a China contraria a natureza humana. Mas, apesar de todo o terror repressivo, casaizinhos se tocam e se amam nessa noite cálida de Shangai, sobre a ponte de ferro do Huang-Pu, à luz do

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Acupuntura

De repente, me dou conta e começo rir sozinho: há quanto tempo eu não vivia essa

situação - começar a engatinhar numa terra

27 de setembro e cansei de me revirar na cama molhada de suor. Mesmo com o ventilador virado em minha direção, sinto muito calor. Há ainda o toe-toe-toe incessante dos barcos subindo e descendo o Huang-Pu, os seus condutores berrando pelos alto-falantes portáteis presumíveis ordens de «afastem-se do caminho». Meto-me debaixo da ducha fria, cuidando para não escorregar dentro da banheira suja e encardida, esfrego-me violentamente com a toalha também suspeita, visto minhas blue-jeans e uma camisa de algodão que comprei ontem por dois dólares na Loja da Amizade, em cuja frente está escrito despudoradamente Shangai, em vermelho. Sento numa das duas poltronas do quarto, ao lado de uma mesinha, onde abro a térmica azul decorada com motivos florais horrorosos e despejo a água quente num cilindro de louça, dentro do qual botei antes duas colheres de chá de jasmim que à véspera o camareiro ali havia deixado numa caixinha de lata. Enquanto as folhas de chá vão decantando, começa a clarear. E em seguida tudo é inundado por uma das constante infernais que deveria me acompanhar por quase toda a China: o buzinar dos ônibus. Chego até um dos janelões do quarto e, o sol já despontando, vislumbro uma cena inacreditável. Por toda a parte, à minha frente, desde a calçada defronte ao hotel até o parque do outro lado do rio, centenas, senão milhares de criaturas - homens, mulheres e crianças - postam-se nas mais variadas posições, praticando bizarros movimentos com as mãos, os pés e os troncos. Ê a calistenia chinesa, a ginástica praticada diariamente - e durante um período que vai de meia a uma hora - pela imensa maioria da população, seguindo, naturalmente, os pensamentos de Mao-Tsé-Tung. O curioso é que ninguém os comanda, cada um improvisa ou cria seus próprios gestos - o que não deixa de ser confortador entre um povo altamente disciplinado e certo, que não deve fazer outra coisa senão cumprir a rigidez física e moral programada por seus chefes. Fico mais de hora a assistir ao fenômeno, até telefonarem que o café está na mesa. E quando pego o elevador para o refeitório do primeiro andar, não chego ainda a concluir se estou vivendo em Esparta ou num disciplinado Colégio Jesuíta dos inquisitoriais O café é tipo ocidental, composto do propriamente dito ou de chá, acompanhado de

São cinco da madrugada de sábado,

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torradas, geléias e ovos de pato fritos com fatias de «bacon». Sorvo-o sem muita gana, pois já havia tomado três xícaras de chá de jasmim, mas, nesse começo de dia, não deixo de

sentir-me feliz, contente, e de certo modo integrado no país que tão gentilmente me recebe. Ê que poucos minutos antes, quando me preparava para descer, uma mosca (evidentemente revisionista) entrou pela janela, fez várias piruetas e pousou em meu nariz. Não tive a menor hesitação nem a mínima dúvida me assaltou, em minha consciente e convicta determinação - e com violenta bofetada esfacelei o repugnante inseto contra a própria epiderme. Ora, eu sabia que, de acordo com a severa instrução do presidente Mao, cada chinês tinha a obrigação de matar pelo menos dez deles por dia. Assim eu, mesmo como amigo estrangeiro começava bem o dia, com aquela morte modesta, mas sincera homenagem à Revolução Cultural. Cheguei mesmo a revelar o episódio a Mi, que com amplo (e amarelo) sorriso aprovou minha colaboração e, até mesmo, a comunicou ao comissário Li, o qual fez-me (e

Mi pressurosamente traduziu) um pequeno, porém belo, discurso de agradecimento. Dito o

que, pegamos o ônibus e - ousados navegantes em meio a um mar de ciclistas rumamos

para o Hospital Hu-Chan, anexo n.º 1 do Instituto de Medicina de Shangai. Depois do chá inicial, na sala de visitas e das explicações que sempre muito gentilmente nos ministraram genericamente - «em Shangai há 430 hospitais, com 50.000 leitos, atendidos por 13.000 médicos» - passaram a particularizar sua situação. O Hu-Chan é uma das casas de saúde mais sofisticadas da cidade, especializada em neurologia, cirurgia em geral, endocrinologia, dermatologia, além de praticar a medicina tradicional chinesa, seja pura seja em combinação com a ocidental. 200 médicos e 700 funcionários ali trabalham, mas não em caráter permanente, já que, devido a outro pensamento do presidente Mao, o centro

de gravidade da medicina deve situar-se no campo. Assim sendo, o Hospital mantém

permanentemente cerca de 25% de seu efetivo fora dos centros urbanos, atendendo os camponeses e, inclusive, cultivando ervas que a medicina tradicional chinesa emprega com tanta abundância e, ao que parece, com muito bons resultados. Como há cinco médicos

brasileiros em nosso grupo, as perguntas descem a minúcias, mas quando se tornam incômodas, geralmente são respondidas por um «ah! isso nós não sabemos». Não sabiam, pois, qual a doença que mais afeta a população, ignoravam o índice de enfermidades mentais, desconheciam o grau de anemia da população e as endemias mais presentes no país.

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Mas a respeito de acupuntura, sabiam quase tudo, menos, é claro - e isso ninguém sabe - como funcionava, qual seu embasamento científico. Mas que ela agia com eficiência pragmática, isso logo em seguida pudemos ver, ao alto de um salão de cujo piso sobressaiam, a uma distância de dez metros e separadas por uma porta aberta, duas cúpulas de vidro. Lá em baixo, duas operações se desenrolavam. Uma de extirpação de tumor na tireóide de uma moça de 25 anos de idade e, na outra sala, a de extração de outro tumor, só que no cérebro de um homem gordo, cuja fisionomia não vimos, percebemos apenas sua cabeça raspada, britada por brocas e serras, até o tampão ósseo cerebral ser retirado. A menina tinha duas agulhas cravadas nas mãos e era tudo. Estava descontraída, olhava para cima, para nós; e sorria. O homem parecia um porco em matadouro, branco e flácido - e tal impressão se acentuou ainda mais, quando, retirada parte de sua caixa craniana, uma sangüeira medonha cobriu suas feições. Não pude (e muito menos os médicos brasileiros), perceber se ele estava dormindo ou acordado. Alguns, os mais céticos, disseram que forçosamente estava anestesiado à ocidental. Mas, a não ser a pequena caixinha que transmite uma corrente de eletricidade às agulhas acupunturais, nenhuma engenhoca anestésica estava presente nas imediações. Não me lembro bem com quantas agulhas o operado-cerebral ora insensibilizado, parece-me que com cinco. Ficamos ali por volta mais de hora e não pudemos assistir o resultado das operações. Mas, segundo nos afirmaram os médicos chineses (e muitos autores ocidentais confirmam), o êxito da anestesia acupuntural é pelo menos igual - e em muitos casos superior - ao obtido pela anestesia clássica praticada no Ocidente. E há, sobretudo, a grande vantagem da eliminação completa dos acidentes operatórios e pós-operatórios provocados pela ingestão de drogas insensibilizantes. A acupuntura, que os chineses já praticavam há mais de 4.000 anos, foi desenvolvida depois que os comunistas tomaram conta do poder na China e tem sido um dos fatores que mais contribuíram para o desenvolvimento da medicina num país pobre que, graças a ela, pode mandar seus médicos realizar operações nas regiões mais desprovidas de recursos, usando apenas um punhado de agulhas pouco diferentes das que os ocidentais empregam para aplicar injeção. Como esse assunto sempre me fascinou e como já tinha lido muita coisa a respeito, crivei os médicos chineses com o mesmo número de perguntas que lhes formularam seus colegas brasileiros. De suas respostas, os leitores poderão, certamente, tirar suas próprias e- quem sabe? - definitivas conclusões.

Dizem que nos confins da história, um guerreiro que sofria de dores atrozes nas

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costas, levou um flechaço na perna e ficou com a ponta da arma ali cravada sem poder retirá-la. Quando voltou para o acampamento, a perna doía, sim, mas a dor lombar que há tantos anos o atormentava, havia desaparecido por completo. Especulação vai, especulação vem, século chega, século passa (nunca nos esquecendo que estamos na China, onde o tempo não conta) e os curandeiros da época acabaram por concluir que uma picada, numa determinada parte do corpo podia fazer eliminar a dor em outra região. E assim, sempre numa evolução muito lenta e paciente, foram substituindo as agulhas de sílex pelas de osso, mais tarde pelas de bronze, ferro - até chegarmos ao estágio atual das de aço. As quais, mais recentemente ainda, passaram a ter a cabeça cobreada. Ê que as agulhas de acupuntura para anestesiar, devem ser constantemente viradas, durante todo o tempo da operação. Para evitar tal trabalheira, os modernos cientistas chineses decidiram aplicar em cada agulha uma diminuta corrente elétrica contínua, fornecida por quatro pilhas comuns, dessas que se usam em rádios transistores, passando a eletricidade a fazer o mesmo efeito da anterior manipulação. Assim, com um custo praticamente zero, a medicina chinesa anestesia pacientes das mais melindrosas operações, inclusive as de coração extra corpóreas. Para um país pobre e doente, fácil é depreender-se o benefício que tal proporcionou. Desde a Revolução de 1949 para cá (e essa estatística, sim, eles sabem e revelam), mais de um milhão de operações por acupuntura foram realizadas com sucesso superior a 90%. Quase todas as partes do corpo humano podem ser insensibilizadas, com exceção de algumas zonas no ventre profundo. Assim mesmo todas as intervenções ginecológicas são realizadas com acupuntura, sem que a paciente sinta qualquer espécie de dor. A acupuntura (do latim acus = agulha; punctura = picada) - que como quase toda a medicina tradicional foi semi-esquecida desde que os ocidentais começaram a dominar a China - foi revivida por Mao-Tsé-Tung e seus companheiros, durante a guerra que moveram a Chiang Kai-Shek, por razões principalmente objetivas e pragmáticas. Escondendo-se nas montanhas, sem recursos, sem medicamentos e sem anestésicos, e com centenas e às vezes milhares de soldados feridos, Mao vislumbrou na acupuntura e nas ervas o único remédio para os males físicos de seus guerreiros. E a ciência (ou arte? ou mistério? ou bruxaria?) da acupuntura, juntamente com o também ressuscitado emprego das ervas medicinais para a cura de doenças e de feridas, desempenhou um papel muito mais importante do que se possa imaginar para a vitória militar do comunismo na China. Atualmente (e sempre por ordem do governo) a acupuntura é uma das pesquisas

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médicas prioritárias na China. Só que até agora, ninguém sabe como funciona. Mas funciona.

Por enquanto (e sabe lá Deus até quando) há apenas teorias sobre a maneira como

as agulhas inibem a dor no corpo humano. Dessas, a em maior voga é de que o homem (como de resto todo o universo) é regido por dois princípios, um passivo e outro ativo. O ativo é o Yang, que representa o dia, a luz, o verão, o calor, o seco, o exterior, o homem e o trabalho. O outro, o passivo, é o Yin, que traduz a noite, a escuridão, o inverno, o frio, a

umidade, o interior, a mulher e o descanso. O rompimento do equilíbrio entre o Yang e o Yin, no caso específico do corpo humano, é que provoca as doenças. Essas, sempre segundo os filósofos acupunturistas chineses, podem ser combatidas (como a medicina ocidental o faz), com drogas; mas aí os médicos apenas estarão destruindo momentaneamente um hóspede indesejável (no caso um vírus, um micróbio ou um bacilo), ao passo que a porta de entrada para tais inimigos - com o rompimento entre nossos princípios ativos e passivos - continua aberta e qualquer um deles,- mais cedo ou mais

Ora, a acupuntura restabelece (eles não sabem como) o tão

desejado equilíbrio, fazendo com que novamente o Yang e o Yin se reconciliem e o ser

humano se livre de seus - Isso não está parecendo um pouco demais conto da Carochinha, Mi?

Mi não sabe traduzir a Carochinha, mas transmite ao médico- o significado da

pergunta. Saímos agora da sala das cúpulas sob as quais as operações prosseguem e estamos tomando chá (de jasmim), fumando cigarros chineses conversando com três

médicos, mais dois membros do Comitê Revolucionário do Hospital, tudo supervisionado pelo delegado do Comitê do Partido Comunista.

Os médicos respondem que, incrementado como foi pelo governo, o estudo da

acupuntura progrediu muito, mas sempre no terreno empírico. Atualmente já foram detectados, catalogados e são manipulados 361 pontos nevrálgicos, cada um insensibilizando uma região do organismo. Em casos de emergência (como o é o da preparação dos médicos de pés-descalços - que por sinal, juntamente com a medicina tradicional chinesa, merecerão um capítulo à parte nessas histórias) pode-se formar um acupunturista em até cem dias, em cujo período ele chega a conhecer os pontos elementares. Como regra geral, o estudo e a preparação de um acupunturista competente pode estender-se de um a dez anos. As primeiras lições são de anatomia-neurológica em

tarde, por ali poderá

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bonecos, onde os pontos são assinalados em preto e vermelho, dependendo de sua importância. Depois, nas experiências práticas, o manequim é coberto de cera e o estudante deve aplicar as agulhas exatamente nos locais que lhe forem sendo indicados. A perícia dos acupunturistas é diabólica e dificilmente erram a pontaria. Uma vez espetadas as agulhas, quinze minutos mais tarde, a área dolorida (ou a ser insensibilizada) está completamente isolada. A prova disso eu fui ter mais tarde quando, no Hospital da cidade de Chang-Sha, juntamente com um médico brasileiro fui crivado de agulhas, as quais, se bem que doessem em sua aplicação, eliminaram por completo não só as dores que me afligiam (ah! quase todas!) bem como uma insônia que me perseguia desde que desembarquei na China.

- Mas isso não se trata de sugestão, doutor? - quer saber um dos Santos Tomés brasileiros. Ou, quem sabe, de hipnose?

A pergunta é feita em francês que o chinês entende e responde sem hesitar:

- Não acredito. É verdade que o paciente é preparado psicologicamente antes da

operação, ficando convicto de que todo o receio de dor do qual ele possa ser tomado (e que no fundo não passa de mero sentimento burguês) não o deve perturbar. Que ele deve confiar nos pensamentos do nosso grande presidente Mao-Tsé-Tung e que não sentirá absolutamente nada.

- Eu não te disse que era coisa de chinês; e de chinês comunista? - me sussurra um médico do grupo, do qual já começo a aprender o nome e a ciência.

- Olha, não sei não. Pelo que eu estou informado, eles operam criancinhas com

meses de idade e até mesmo animais - e ambos pelo que me consta (e até prova em

contrário) ainda não estão influenciados pelo livrinho vermelho do grande

O médico brasileiro não se conforma:

- Doutor, a partir de que idade um ser humano pode ser sensibilizado pela

acupuntura? Há, na China, casos de realizarem operações com agulhas em animais sem que esses sintam dor?

- Em princípio, temos operado crianças com apenas três meses sem nenhuma

manifestação dolorosa por parte delas. E em laboratórios, cães e gatos são acupunturados e

depois até mesmo dissecados sem que demonstrem qualquer sensação.

O chá termina, a conversa também.

À saída, o médico carioca pede a Mi que o leve a uma farmácia e ali compra por

menos de 30 dólares, um equipamento completo de acupuntura, inclusive a caixa elétrica e

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dez jogos com os nove tipos de agulha empregados na anestesia chinesa. Eu, mais modesto e menos médico, compro apenas um boneco com os 361 pontos, mais um jogo de nove agulhas. Total, nunca vi feitiçaria sem feiticeiro - nem feiticeiro sem

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Ópera de Pequim

Durante os quinze dias em que visitei a China, não tive um único período de descanso nem de intimidade comigo mesmo - ou um dia livre para compras, como as agências de turismo fazem constar em seus tentadores, mas nem sempre realistas, prospectos de viagem. De manhãzinha cedo até à noite o bate-bate era incessante e ininterrupto - e a ordem de nosso programa, determinada com antecedência, foi rigorosamente cumprida. Assim, sem percebermos, fomos sendo sub-repticiamente minados pela mesma espécie de lavagem cerebral que dia e noite é transmitida a novecentos milhões de chineses, por todos os meios de comunicação existentes e que, sem exceção, são manipulados pelo governo. Os veículos empregados para nos ministrar esse verdadeiro cursilho de China eram constituídos por nosso guias, primordialmente, e em poções menos maciças, pelos livretos, catálogos e revistas que nos forneciam. Havia, também, uma certa dose de áudio-visual, esta felizmente de curta duração, como foi o caso da Ópera de Pequim, a que assistimos na noite imediata à nossa chegada no principal Teatro de Shangai. Nenhum de nosso grupo se surpreendeu, portanto, quando à certa altura da viagem passamos a nos referir a Mao-Tsé-Tung como «o presidente Mao» (alguns, mais sensíveis chegaram a dizer «o nosso grande presidente Mao») e a Chou-en-Lai como «o camarada Chou», ou então «o glorioso Primeiro Ministro Passamos a abominar os soviéticos como «membros da camarilha revisionista chefiada pelo abjecto Brejnev»; Kruchev se tornou sinônimo de «traidor abominável da causa das massas socialistas», o «social imperialismo russo» nos pareceu muito mais solerte e perigoso do que o imperialismo americano, este afinal em melancólico recuo no mundo inteiro, desde que foi aplastado pelo «heróico povo do Vietnã do Norte, nosso amigo e nosso irmão». Ao fim da primeira semana de viagem, muitos achavam até agradável o zurrar dos alto-falantes que subiam aos nossos quartos, outros acreditavam cômodo, espartano e edificante não ter nenhuma bebida gelada ou ar condicionado e dormir imersos em nuvens de mosquito. Mas vi a coisa ficar feia mesmo e que estava na hora de acordar quando, depois de uma visita a uma fábrica, e sabedor que os chefes de serviço pediam que seus salários fossem rebaixados e se igualassem aos dos subalternos «para apressarmos o

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socialismo e diminuirmos a diferença entre as classes» - um bem sucedido corretor de imóveis no Rio de Janeiro, tido até então como o mais reacionário dentre nós, disse que estava certo, que era aquilo mesmo e que, quando chegássemos ao Brasil, deveríamos proceder da mesma forma. - Mas qual é a tua Michel? estás ficando louco? - atirei-lhe com veemência e cheio de medo que sua argumentação alucinada chegasse aos ouvidos do meu patrão, lá na longínqua Porto - Louco nada, seu. Vê só quem é mais feliz: eles ou nós? Todos certinhos,

vestidinhos iguais, comendo a mesma coisa, lendo o mesmo livrinho vermelhinho, ganhando parelho, dormindo e acordando à hora exata, sem ter que gastar com psicanalista (que aqui não há), sem se preocupar em pagar imposto de renda (que aqui não existe), sem se importar com o aumento da gasolina (que todos andam de bicicleta), sem temer resfriado (que aqui não tem gelo), sem ter ressaca (que não se encontra uísque nem de

contrabando), sem ter que fazer dieta (que a comida é toda contadinha),

A esta

altura e já cercado por um considerável grupo de patrícios, felizmente ofendidos e despertados de sua própria lavagem cerebral pela súbita catarse do companheiro, Michel é salvo seguramente de um linchamento (ou tentativa de) por Mi, que se embrenhou em nosso meio para dizer-nos, com seu inconfundível sotaque sino-germânico, que senhorres está na horra de irr para a óperra de Pequim.

A Ópera de Pequim, bem como todas as representações teatrais e televisionadas, faz parte da bateria de instrumentos de que o governo se vale para lavar o cérebro do povo. Todas as exibições, todos os temas, todas as canções são de fundo político. De um lado, os bandidos, representados pelos imperialistas, que ora tiram o pêlo dos japoneses, ora dos americanos e ultimamente muito mais dos russos; e do outro os mocinhos, tendo à frente um herói legendário do exército vermelho, no caso o camarada-soldado Ta-Chun, que acaba salvando os aldeões ou a mocinha, perseguidos e espoliados, matando os inimigos das massas ou, na melhor ou mais caridosa das hipóteses, aplicando-lhes um tratamento de reeducação anti-revisionista. Entramos no recinto com o espetáculo já começado, justamente numa dessas partes críticas. Nosso ônibus tinha atrasado, tão grande a multidão que o cercara momentos antes para ver os amigos estrangeiros. A custo abrimos alas e entramos numa platéia formada por mais de duas mil pessoas, em sua quase totalidade chineses. As únicas exceções

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éramos nós, um grupo de búlgaros e outro que me pareceu de escandinavos. Aquela noite, como reforço para ajudar a Mi e Li, tinha chegado de Pequim uma nova intérprete: Lu, moça baixinha e gordinha que falava português quase tão bem como nós (e, para ser franco, melhor do que muitos do grupo) e que sentada em nosso meio ia traduzindo as cantorias. Lá no palco, a mocinha, vítima das perseguições imperialista chorava, cantava e contava em tons agudos a sua história:

_ Sou filha de um caçador que fugiu diante da perseguição dos bandidos imperialistas e espoliadores (choro). Papai jogou-se num abismo e mamãe e eu nos escondemos nessas matas. Desde então fingi de muda e só ando com roupas de rapaz. (choro e gestos). Espero que agora com tua presença e a do Exército Libertador, oh! Ta- Chun, o sol ilumine de novo nossas montanhas, os bandidos revisionistas (e imperialistas) sejam eliminados e eu possa me vestir de moça outra vez e voar para o alto, afim de ver o extermínio dos inimigos das massas. (A platéia explode em aplausos. Nós também). Ta-Chun responde em cantos e gestos heróicos, o fuzil na mão:

(Novos e histéricos aplausos no princípio, meio e fim) - Oh! pequena e desamparada Tchau-Pao! Cada uma de tuas palavras me despertou grande indignação. Neste mundo os oprimidos têm um registro com dívidas e com saldo (positivo). Devemos nos vingar! A dívida de sangue deve ser eliminada com sangue! Vamos matar esses abutres e o povo se libertará, levantará a cabeça e o sol aparecerá por sobre essa montanha encoberta. (hurras chineses entre os assistentes). Daqui em diante sigamos o salvador, que é o nosso grande presidente Mao, seu Livro Vermelho e o invencível Partido Comunista da China, esmagando os vermes sócio- imperial-capitalistas e mudando a fisionomia desses lugares. Então os bonitos dias serão mais bonitos ainda. Dito o que, Ta-Chun e seus soldados saem em perseguição da camarilha revisionista inimiga que debanda desordenadamente, deixando mortos e feridos a estertorar pelo palco inteiro. Não deu para ver se Ta-Chun chegou a casar com Tchau-Pao porque o entusiasmo foi tão grande na platéia, toda ela de pé, batendo palmas e vibrando gritos de aplauso - que perdi a visão do palco e dos acontecimentos. Mas tudo me leva a crer que sim, que se casaram e que foram felizes para sempre, mesmo porque Tchau-Pao aparentava muito mais do que vinte e cinco anos e Ta-Chun tinha ares de quarentão, o que, de acordo com o pensamento do grande presidente Mao autorizaria o enlace. Desde que, é claro,

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prometessem não procriar mais do que dois filhos.

Aquela noite assistimos a um pot-pourri dos principais trechos das sete óperas, balés e representações teatrais exibidas na China. Sim, porque todo o repertório de balé, ópera e teatro chinês se resume a este número: sete. Assim, a China que, antes da Revolução Cultural possuía um repertório autorizado de 50.000 títulos de obras de teatro, balé e ópera, viu esse número reduzido para 35 em 1964 e posteriormente para sete. Apenas sete. Esses dados são confirmados pelo parlamentar e escritor francês Alain Peyrefitte em seu livro Quand la Chine S'Éveillera, aos quais acrescenta que «em Shangai não são oferecidos ao Público mais do que cinco peças, interpretadas ou filmadas, nos

últimos três anos. A assistência aos espetáculos é tida como ato político, portanto como uma obrigação. A quase totalidade dos filmes anteriores à Revolução Cultural foi proibida.

A criação pessoal foi abolida, pois denotava a busca de renome. As únicas sete peças de

teatro, balé ou ópera admitidas na China são obras de equipe, sob a direção da camarada

Chian Ching, mulher do presidente Mao.

O povo reeducou os líderes do trabalho literário e artístico e reorganizou os quadros

de escritores e de artistas. O número total desses, antes da Revolução Cultural, se elevava a

duzentos mil. De onde se depreende que, de fato, se tratou de uma revolução cultural. Sem dúvida nenhuma.

O que acontece na Ópera, se repete na televisão (que opera geralmente apenas três

horas por dia, das 18,30 às 21,30h), com exceção dos domingos, quando há um horário infantil matutino. Os mesmos temas, as mesmas histórias, as mesmas mensagens. Há casos de certos filmes ou tapes que são repetidos, durante mais de ano, semanalmente e no mesmo horário - e que, por incrível que pareça, continuam atraindo os telespectadores que se concentram diante dos 250.000 aparelhos de TV, que existem em todo o território

chinês. A quase totalidade desses televisores pertence a organizações, cooperativas ou grupos de famílias que moram no mesmo edifício e que os postam em sala comum. Noticiário não há, o que existe é apenas um que outro documentário sobre os fatos do governo. TV a cores não vi nenhuma, a não ser na Feira Permanente de Shangai, onde alguns protótipos nos foram exibidos. Comecei a falar sobre os temas das Óperas e quase me perco no meio do assunto,

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mas podem crer que há fundadas razões para tal. É que depois da pequena e desamparada Tchau-Pao ter sido salva pelo heróico e intimorato Ta-Chau, representaram ainda a Engenhosa Conquista da Montanha do Tigre, Nas Comunas, Graças ao Pensamento de

Bem, para ser absolutamente veraz, devo

confessar que a essa altura adormeci profundamente (numa imperdoável e típica atitude de

pequeno burguês-revisionista) e somente fui acordado pelo barulho obsceno de meus próprios roncos, conforme está documentado em gravação que simultaneamente eu ia fazendo, mas que de jeito nenhum botarei no ar para não ofender os amigos chineses. Os quais, como se viu, têm grande consideração por sua Ópera e um enorme respeito e obediência pelas mensagens que ela, tão artística e engenhosamente pode, deve e sabe transmitir.

Mao a Primavera Chega Mais Cedo,

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Crítica e Autocrítica

Pela primeira vez, nessa madrugada de domingo, 28 de setembro, começo a sentir que, de fato, estou na China - e ignoro por quê. Shangai, tirando sua população (mas o que seria de uma cidade sem seus habitantes?) não tem muitas características asiáticas. No máximo poderia ser uma cópia amarela de muito mau gosto de uma Londres, como a quiseram e em grande parte a construíram os britânicos em fins do século passado e no começo deste. Acordei, como na véspera, às cinco, quando o dia já se ia desenhando em meio a cúmulos cor-de-cinza. Tomei meu chá, assisti à ginástica do povo lá em baixo nas calçadas, jardins e no próprio leito da rua semi deserta de ônibus e fiquei percorrendo o dial de meu radiozinho de pilha, na vã esperança de captar algo em inglês. A maioria dos broadcastings emitia palavras, das quais volta e meia - e única e exclusivamente - eu pescava apenas um que outro som semelhante a Mao-Tsé-Tung. As emissões de música eram raras, e ou orquestradas ou cantadas dentro do monótono ritmo chinês. Numa rádio captei algo parecido com um som de ginástica, comandada ao piano, e foi tudo. Perto das

seis o sol venceu as nuvens e apareceu, e fiquei fazendo hora para o café que abria somente às sete. Foi aí que me senti não em Shangai, mas na China; e não na China como outro país

a conhecer, mas como uma concepção de vida e de filosofia completamente estranhas a

tudo o que eu poderia imaginar por mais que tivesse lido e ouvido falar a respeito. E passei

a imaginar que emoções não me aguardariam ainda nos quatorze dias restantes quando, aí

então, mergulharia no miolo e nas profundezas do país. Hoje, por exemplo, devemos seguir para Pequim, logo depois de visitarmos a Feira Industrial da Cidade, da qual iremos direto

para o aeroporto. E em Pequim, tão logo desembarcarmos já nos aguarda um novo e, pelo jeito, mais intensivo programa. Às 6h30min ponho a mala no corredor, defronte à porta do quarto, como me haviam mandado, e, diante da chatice da programação das rádios, não tenho outro recurso do que me quedar sentado a ler o Livrinho Vermelho, numa edificante

e chinesa atitude de fazer o tempo passar proveitosa e

Num megatério construído pelos russos que o denominaram (antes da briga) Palácio da Amizade Sino-Soviético e que (depois da briga) foi rebatizado como Feira

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Industrial Permanente de Shangai, os chineses exibem o que de melhor produzem o artesanato e as indústrias leves e pesadas instaladas na região. Na verdade, e pelo que vi- mos durante quase três horas de caminhada por seus pavilhões, há ali quase tudo que a moderna técnica produz, desde aparelhos eletrônicos altamente miniaturizados, até gigantescas turbinas hidráulicas ou térmicas. Em salas que se sucedem, num crescendo de valorização do material apresentado, vimos trabalhos incrivelmente meticulosos em enormes peças de marfim e de jade, brinquedos que não perdem para os japoneses e bonecas não menos belas e perfeitas do que as espanholas. Há uma seção dedicada à medicina com especial ênfase à acupuntura (e ali) projetam uma operação extracorpórea de coração, com anestesia feita exclusivamente pelas agulhas); outra à aparelhagem cirúrgica e odontológica, outra ainda ao equipamento pesado de rádio e TV (muito semelhante - senão cópia - dos modelos RCA), além de exposição de tratores, caminhões e dos dois modelos de automóvel fabricados no país: o Shangai, calcado no Cadillac, modelo dos anos 50 e o Bandeira Vermelha, híbrido do nosso Opala com o Dodge. Pela manhã a Feira permanece aberta só para os estrangeiros, cabendo a parte da tarde ao povo. O recinto é limpo, arejado e muito claro. Estátuas em corpo inteiro de Mao (algumas com mais de três metros de altura e quase todas brancas) nos acenam por toda a parte, com seu braço direito levantado, inclusive na sala final, dedicada como sempre ao chá e aos cigarros, onde em companhia do Mi e do comissário Li me sento agora para a indefectível sessão de crítica e auto crítica. Espiando Mao (e com certeza nos espionando), retratos de Stalin e Lenin se alçam ao alto das paredes.

Como fiz durante todas as visitas que realizei na China, levei o gravador comigo. E registrei não só a maioria das explicações de nossos guias, durante a caminhada pela Exposição, como também a conversa que, naquele momento, tive com Mi e com Li. Duas semanas mais tarde, já às vésperas de deixar a China, quando voltávamos os três de uma visita à principal comuna de Cantão, Li disse para Mi e este me traduziu o pensamento do

chefe: o de que eu não deveria utilizar a conversa que tivéramos ao final da nossa recorrida pela Feira de Shangai. - Pode dizer a ele que não tem perigo, Mi. Só a usarei para apontamentos. Precisa e literariamente como passo a fazer agora:

- Aceita chá? - pergunta Mi.

- Obrigado. Aceito. Ê de jasmim?

- É. E cigarros?

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Em todos os recintos de conversa há, sobre as mesas, latinhas redondas contendo cigarros de fabricação chinesa, seja de fumo claro, seja de tabaco negro. Não são maus, apenas um pouco doces e meio enjoativos, semelhantes aos ingleses.

- Não. Obrigado, Mi. Prefiro os meus, são americanos. Li, pressuroso acende o meu e depois o seu.

- Olhe - digo eu, iniciando a crítica e autocrítica - sabe que eu acho que vocês fumam demais? Sorrisos de ambos (depois da tradução). Ainda eu:

- Quantos cigarros fumam por dia? Quarenta? Sessenta?

- Nem tanto. Mas bastante.

- O presidente Mao fuma?

Mi hesita, consulta Li e depois responde bem baixinho:

- Sim.

- Onde vocês cultivam o tabaco?

- Em quase todas as províncias.

- Quanto custa o maço?

- Mais ou menos 50 centavos. (Ê caro, se levarmos em conta o baixo nível salarial

da China, cujo mínimo não ultrapassa 35 yuans). Há inúmeras marcas de cigarro chinês, todas elas produzidas e comercializadas pelo Estado. Mas voltemos à conversa:

- A Revolução Cultural foi em 1966, não foi?

- Foi.

- Quantos anos durou?

Mi traduz para Li, ambos riem:

- Ainda

- Mas aquela história dos guardas-vermelhos ainda não acabou?

- Não. Até hoje existe. Só que os guardas-vermelhos continuam a exercer suas atividades nas escolas.

Ainda há revisionistas na China? Sim. Mas agora nós realizamos campanhas de crítica para prevenir o

- revisionismo, pois como o presidente Mao falou, temos que lutar não uma vez, não algumas vezes, mas dezenas de vezes para manter a revolução proletária na China. No

passado

conseguimos algum progresso, mas na verdade estamos ainda na via do

desenvolvimento. Conquistamos o princípio de autonomia e de independência, mas ao

-

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mesmo tempo precisamos aproveitar as técnicas avançadas do mundo.

-

Ainda existem classes na sociedade?

-

Existem classes.

-

Que espécie de classes?

-

Existe ainda a burguesia proletária.

E

eu, em sincero tom de surpresa:

-

Ainda existe?

-

Burgueses ainda existem. Vivem.

-

Burgueses do passado, com

-

Mas também nascem novos burgueses.

Aí o que é que vocês fazem?

- Fortalecemos a ditadura do proletariado, efetuando a sua reeducação. A luta entre

o proletariado e a burguesia vai durar longo tempo, estendendo-se por todo o período do socialismo. Já estamos no terceiro cilindro de chá (e como deveria eu denominar algo que não é xícara nem caneca?) e minha inquisição segue firme, Mi só respondendo depois de consultar Li.

- Como encaram vocês a União Soviética?

- Hoje em dia a União Soviética já é um país social-imperialista. Antigamente era

socialista sob a direção de Lenin. Quando o elemento revi sionista e traidor Kruchev subiu ao palco do poder, ele a transformou em uma nação imperialista e revisionista.

- E Brejnev também?

- Tem razão.

- Quem é o mais perigoso para a China: o imperialismo dos Estados Unidos ou o imperialismo da Rússia?

- Nós encaramos o problema não apenas da posição da China. Qualquer país

imperialista sempre oprime e explora outros países do terceiro mundo. Por isso, uma

nação, seja social-imperialista ou imperialista, é sempre perigosa para os outros povos. Encaro o comissário Li e digo-lhe em português:

- Muito inteligente a sua resposta.

Ele ri, dando-me a perfeita impressão de que compreendeu o que eu disse. Tempos depois, ouvindo várias vezes a gravação, passei a desconfiar de que Li (o qual, segundo fui informado mais tarde, tinha já acompanhado cinco visitas de grupos estrangeiros à China)

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era bem capaz de entender ou até mesmo falar algo de português e, por conveniência,

fazia-se de sonso. Sabe-se lá, enfim, o que passa pela cabeça de um

risada ele fala com Mi e este prossegue:

- Sem dúvida, na etapa atual o social imperialismo da União Soviética estende mais

as mãos para todo o mundo, com mais ambição de ocupar e de explorar os outros povos.

Por isso, nos dias de hoje é mais perigoso do que o norte-americano.

- Por que vocês permitem a existência de colônias estrangeiras como Hong Kong e

Macau?

- Esse problema foi produzido no passado, quando o povo não tinha direitos e era

dominado pelos senhores feudais que assinaram tratados desiguais. Tanto Hong Kong como Macau constituem territórios inalienáveis da China. Quando e de que maneira vão ser libertados isso depende da O chá termina e, momentaneamente, o assunto também. Os amigos brasileiros aproximam-se de nós e Li diz que está na hora de seguirmos para o aeroporto.

Depois da

Em hora e meia e num Boeing da CACC trocamos o calor pegajoso de Shangai pelo friozinho seco, temperado e reconfortante de Pequim. Fazia muito calor quando embarcamos e as aeromoças (todas de tranças, blusas brancas, com colarinho fechado e calças azuis de boca larga) nos entregaram um objeto preto, retilíneo e não identificado. Os mais inteligentes descobriram, depois de meticuloso exame, que não era nada de comer, mas sim uma ventarola, para fazer às vezes de ar condicionado que o avião não Campos quadriculados, áreas cobertas de verde até o limite do horizonte, água por toda a parte, depois são as nuvens a encobrir o caminho e então já o aeroporto de Pequim. Esse sim moderno e movimentado, com indicadores de chegada e partida e enormes fotos e estátuas de Mao, além de suas citações em vermelho sobre fundo branco, de um lado em chinês, do outro em inglês. Embarcamos num ônibus, as malas vão mais tarde em outro. Nosso objetivo é largar a bagagem de mão no Hotel e seguir imediatamente para o Estádio Operário, onde deveremos assistir a um desfile e o final do campeonato de futebol (!) da China. Por uma alameda asfaltada, com árvores de sentinela ao longo de todos os seus trinta quilômetros, rumamos para o centro de Pequim, que desde o primeiro momento nos parece ser simpática e acolhedora. Ampla, ela de fato é. Somente sua praça principal - a Tien An Men - comportaria em seu interior e juntas, a Praça Vermelha de Moscou e a Concorde de Paris.

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Flávio Alcaraz Gomes

Suas avenidas sofrem (ou são beneficiadas) pelo mesmo gigantismo. São todas concretadas e, à diferença de Shangai, os ciclistas não são os únicos donos das ruas, estas também compartilhadas por automóveis.

O movimento é enorme - e todo em sentido contrário ao que seguimos. Ê gente que

vai para o Estádio; e já vi que vamos chegar atrasados, o que de fato acaba por acontecer.

Quando ali entramos uma hora mais tarde, o desfile das bandas, que é o que nos interessava, já tinha terminado. Estavam em campo duas equipes de futebol, uma de blusa amarela, como a da seleção do Brasil, a outra vermelha, como a do meu Internacional. A primeira representando Cantão e o colorado, Pequim Mas o espetáculo valeu sobretudo pelo colorido da platéia, em grande parte tomada por militares e, também, pela visão do estádio - tão grande quanto o do Internacional - completamente tomado por uma gente de fisionomia tão estranha, mas naquele momento, tão parecida com a nossa, em seu entusiasmo e fanatismo.

E naquele fim de tarde de Pequim cheguei a me convencer de que na terra, bem no

fundo mesmo, todos os homens do mundo, se quisessem, poderiam ser amigos e - quem sabe? - até mesmo ser irmãos. Pelo menos em seu interesse pelo

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A nobre arte da tortura

Depois do calor amazônico de Shangai, é bom caminhar, agora que são quase dez horas da noite e o frio é ameno e amigo, pela avenida Fusin Men Wai, em direção à praça Tien An Men, ciclópico centro geográfico de Pequim e do mundo chinês. O movimento é discreto e silencioso. Mesmo os ônibus são mais discretos e mais silenciosos que os de

Shangai, isto é, não são tomados por aquela psicose da buzina, que desde a madrugada até

à noite atordoa a cidade, que deixáramos no princípio da tarde. Pequim, pelo menos em seu

centro, é ampla, desafogada e limpa. Ciclistas deslizam, ora isolados, ora em grupos compactos, ora aos casais. Todos vestem a mesma roupa à Mao, diferente apenas na cor: o azul, em Pequim, é o mais presente do que o cinza. Não somos olhados com a mesma curiosidade de que éramos alvo em Shangai. Pequim é muito mais cosmopolita e ali o estrangeiro deixou de ser o bicho raro e escasso no mercado. Há dezenas de embaixadas dos mais desencontrados países do mundo e uma média mensal de mil turistas visita a capital. Não vemos bares nem bêbados. Nunca, nesses quinze dias de China, vimos bêbados. Mais tarde, descobrimos um que outro barzinho, o povo bebendo discretamente sua cerveja morna - e foi só. Um par de tendas abertas, vendem frutas e sementes tostadas. A avenida está profusamente iluminada, os gigantescos retratos de Mao, Stalin, Lenin, e do Dr. Sun Yat-Sen, proclamador da República (em 1912) e Pai da Pátria (até segunda ordem), cercados de lampadazinhas multicores, como aquelas que antigamente iluminavam Igrejas do Brasil por ocasião das festas de seus santos. Às dez horas, certamente desligadas por um comando único, todas as luzes se apagam, menos as das luminárias da avenida. Os ciclistas aceleram o pedal, os transeuntes escasseiam - e voltamos à proteção e ao abrigo do Hotel das Nacionalidades.

Administrativamente a China se divide em 21 províncias, cinco regiões autônomas

e dois Distritos Federais: Pequim e Shangai. A raça predominante é a han (ou seja, os chineses), cujo nome é oriundo da dinastia do mesmo nome que existiu do século II Antes de Cristo ao século II de nossa era. Os han falam o idioma oficial do país, que é o mandarim, e se constituem aproximadamente 95% da população. Apesar dessa esmagadora predominância, a China é um país de minorias

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nacionais, cujo Instituto - um prédio cinza claro, localizado no meio de um parque todo arborizado, começamos agora a visitar. Depois das clássicas apresentações, a clássica sala de chá. Este, ao contrário do que nos serviam em Shangai não é de jasmim, mas de folhas e coloração verde. Ê nessa ocasião que aprendo minha segunda palavra em chinês (ou han):

tchá) ou seja, o nosso chá. A primeira foi ontem, ainda no aeroporto, quando descobri não sem surpresa que obrigado é chí-chi, com acento agudíssimo no i, para evitar qualquer mal-entendido. O Sr. Rô e a Senhora Rô, representando o Comitê Revolucionário e o Comitê do Partido, nos recebem muito amáveis, cercados por um grupo de gente moça fantasiada de trajes regionais. Uns representam a Mongólia, outros o Tibet, a Coréia, o Miao - num total de 54 minorias, que somam em toda China cerca de 50 milhões de habitantes. Eles se espalham por aproximadamente 60% do território chinês e, diferentemente dos governos anteriores, que sistematicamente os perseguiam, os minoritários hoje são estimulados a falar sua própria língua, preservar seus costumes e usar os trajes típicos de cada uma de suas regiões. O Instituto das Nacionalidades procura ser uma demonstração viva e prática dessas intenções. Estudam ali 1.500 alunos e alunas representando todas as minorias, desde a de maior população, que é a T'chouang, que conta dez milhões de almas até a Razakh, com menos de mil integrantes. A primeira se localiza na região autônoma de Guang Xi, nas imediações do Vietnã e a última na Manchúria. Ao contrário do que estabelece para a maioria do povo chinês, que por bem ou por mal é obrigado a limitar a natalidade, a política de Mao com relação às minorias é oposta: elas são estimuladas a ter mais filhos, afim de não correr o perigo de extinção. Tal política parece que já funcionou, tanto que a nacionalidade de Razakh, que em 1949 estava em vias de extinção, praticamente dobrou sua população desde que os comunistas tomaram o poder. Por esse detalhe bem podemos deduzir quão assustador seria ou será o número de chineses, caso não sejam mantidas enérgicas medidas governamentais de planejamento familiar. Escoltados pelos camaradas Rô-Rô e cercados por um grupo colorido de rapazes e moças trajando as mais bizarras vestes, começamos a caminhar pelas dependências do Instituto. Ali, inteiramente subvencionados pelo governo, os jovens das minorias (escolhidos e designados por suas coletividades no caso pelo Comitê Revolucionário e pelo do Partido) cumprem um curso universitário no qual especializam-se no idioma han, em música, belas artes ou balé, em história e formação de lideranças. Em todo o momento e por toda a parte os professores do Instituto lhes acenam com a tenebrosa lembrança do

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passado pré-revolucionário, quando as minorias eram massacradas pelos senhores feudais e pelos imperialistas estrangeiros. Há um Museu no Instituto, o qual passamos a visitar, que pouco fica a dever (e talvez até mesmo supere) o pior dos filmes de horror. Ali estão, cuidadosamente preservados dentro de vitrinas, crânios humanos de minorias perseguidas, que seus opressores faziam com que elas (escravizadas) usassem como tigela, juntamente com flautas feitas de ossos e tambores de pele humana. Há a múmia enegrecida de um escravo, localizada no Tibet, juntamente com milhares de outras e a explicação para sua preservação é simples: os Lamas empregavam os corpos (muitas vezes vivos) da minoria

tibetiana, para servir de alicerce a seus

nossos intérpretes, foi mantido pelo Dalai Lama até bem recentemente - até 1959. Há mais ainda: a fotografia de integrantes de minorias com o nariz, as orelhas e os dedos cortados, a cena sendo impassivelmente assistida por um circunspecto cidadão inglês, ao lado dos mandarins detentores do poder - e há, sobretudo, uma certa tortura (os detalhes e as imagens reproduzidas), que a todos apavorou. A vítima do castigo era amarrada diante de um caldeirão com óleo fervente. Aí então comprimiam-lhe a parte superior da cabeça com um pesadíssimo capacete de pedra, cuja pressão fazia com que os olhos do infeliz saltassem fora das órbitas. Os carrascos recolhiam numa espécie de colherão de sopa os dois globos oculares, mergulhavam-nos imediatamente no azeite em ebulição e com uma perícia digna do melhor acupunturista, tornavam a botar os olhos fritos em suas respectivas cavidades, para deter a hemorragia que havia

Tal sistema, segundo nos traduzem

Assim sendo não é de se estranhar que nós, no Ocidente, aliemos o termo tortura aos seus mais habilidosos e tradicionais cultores: os chineses. Chegaram eles a tal requinte que a transformaram em nobre e cultivada arte. Segundo Jacques Lavier *, professor do Instituto de Acupuntura de Formosa, «em todos os tempos, a tortura foi considerada uma necessidade na China. As inquietudes sociais contínuas obrigaram os reis a praticá-la para manter uma paz relativa em seus estados. Os carrascos se transformavam em verdadeiros artistas e transmitiam seus segredos de pai para filho, professor a aluno. A arte atingiu a tal estágio de perfeição, que a vítima a ser supliciada, quando se apresentava diante de seu carrasco, fazia questão de agradecer com antecedência (e com toda a etiqueta e cerimonial da época), pelos processos artísticos a que iria ser submetida, e cujo justo valor ela iria certamente apreciar, se bem que fosse indigna de tamanha honra. O carrasco protestava: não, muito pelo contrário, ele é que estava envergonhado de

(*) JACQUES LAVIER – Lácunpucture chinoise – Veyser, paris, 1974

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possuir tão escassa ciência a colocar à disposição de tão distinto cliente) ao qual pedia perdão por suas possíveis insuficiência. Naturalmente, ele se esforçaria ao máximo para propiciar ao seu paciente os sofrimentos os mais atrozes e o mais demoradamente possível, mas a ilustre condenado ficaria por certo decepcionado por seus miseráveis talentos. Cumpridas essas formalidades, passava-se aos atos - e o infeliz era minuciosamente esfolada, eventrado e estripado: literalmente, era dissecado vivo, ele sempre agradecendo - aos berros lancinantes - e o carrasco sempre se desculpando, com voz bondosa e humilde. Médicos assistiam à cerimônia, seus bons cuidados eram requisitados, não para a diminuição das dores do suplicado, mas para que esse permanecesse vivo; e bem consciente. Não era raro ver-se um infeliz ser submetida à tortura durante várias dias seguidos antes de conseguir deixar este baixo mundo, as carrascos se superando em seus »

Depois da almoço (que quase ninguém tocou, por óbvias razões), fomos ao Zoológico ver o símbolo animal vivo da China, o urso panda, espécie em extinção, que os chineses tratam com um conforto que não é tributado nem ao mais importante amigo estrangeiro. Em enormes gaiolas de vidro, dotadas de ar condicionado (que não vi em nenhuma parte do país, a não ser em residências de diplomatas estrangeiros, e em alguns hospitais e museus) os pandas, que são de pêlo branco com patas pretas, parecidos com

botas e uma espécie de máscara, também negra, cercando seus olhos, dormitavam sua sesta. Eram indiferentes as centenas de visitantes, especialmente soldados e crianças que, de tão entusiasmados ante sua visão, chegavam a aplaudi-los. Volto para o hotel. É segunda-feira, 29 de setembro, são 4 h da tarde. Depois de complicados cálculos, chego à conclusão de são 5 h da madrugada no Brasil: está, pois, na hora de confirmar o circuita que havia pedido ontem à noite para realizar o primeiro broadcasting para a Rádio Guaíba. Será a primeira vez que uma emissora do Brasil falará da China - e não nego que me sinto assustado diante da responsabilidade. Toca para a telefonista (que não entende nem sequer inglês) e depois de quase uma hora de agonia, acaba ligando para o Mi.

- Que deseja senhorr Gomes?

- Ora, Mi: falar para o Brasil, como já te pedi

- Sem dúvida.

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Os minutos, logo os quartos-de-hora e então as horas vão passando, eu dependurado na linha, suando frio.

- Como é Mi?

- Sem dúvida.

Eram seis da tarde (já às 7 da manhã no Brasil) - e ainda nada.

-

Pô Mi: não agüento mais essa agonia. Vai dar para falar ou não?

-

Sem dúvida, confie nos pensamentos do presidente Mao.

E

desliga de novo.

E foi assim, tal qual fazem certos fanáticas americanos e tal qual fazia o carismático Sinhô Badaró da Jorge Amado, os quais para inspirar qualquer decisão (ou

para dela saberem antecipadamente o resultado), abriam ao acaso uma página da Bíblia - foi assim, que também ao acaso abri o maldito Livrinho Vermelho. Caí no pensamento final do Capítulo XXI:

«Na China antiga, havia uma fábula intitulada O Velho Bobo que removia montanhas. Conta que, faz muito tempo, vivia no norte da país um ancião conhecido como

o Velho Bobo das montanhas da norte. Sua casa dava para o sul, e à sua frente, obstruindo

a vista, se elevavam grandes montanhas. O Velho Bobo resolveu levar seus filhos para lá e remover a montanha com enxadas. Outro ancião, conhecido como Velho Sábio, ao vê-los trabalhando, riu e disse:

- Que loucura! Ê absolutamente impossível que vocês, tão pouca gente, consigam remover montanhas tão grandes!

O Velho Bobo respondeu:.

- Depois que eu morrer, meus filhos continuarão. Quando eles morrerem, meus

netos continuarão; e depois seus filhos, os filhos de seus filhos e assim indefinidamente.

Embora muito altas, essas montanhas não crescem; e cada pedaço que delas tiramos as torna mais pequenas. Por que, pois, não poderemos removê-las? Tendo refutado a idéia errônea do Velho Sábio, o Velho Bobo continuou escavando, dia após dia, sem desistir de sua intenção. Deus, comovido, enviou a terra dois anjos, que botaram as montanhas nas costas e as removeram. Hoje, sobre o povo chinês, pesam também duas grandes montanhas, uma que se chama imperialismo e a outra feudalismo. Devemos eliminá-las, e preservar em nossa decisão e trabalhar sem cessar:

também comoveremos a Deus. Nosso Deus não é outro senão as massas populares e o Partido Comunista da China. Se eles se levantam e cavam junto conosco - por que não

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poderemos eliminar essas montanhas?» Fecho o Livrinho Vermelho, intrigado. No mesmo momento toca o telefone:

- Alô Pequim? Alô Pequim?

E de novo, mais alto e mais forte:

- Alô Pequim? Alô Pequim? Fala rapaz! Estamos ouvindo!

Bendito Livro Vermelho! Sábio e heróico Velho Bobo! Grande Presidente Mao! Nobre e forte e positivo seu pensamento, que removeu montanhas de obstáculos e oceanos de empecilhos entre meu quarto de hotel em Pequim e nossos transmissores de Porto

Alegre.

No outro lado do mundo, a Rádio Guaíba me ouvia com som local.

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Revisionismo

Pequim, embandeirada e enretratada, aguarda a grande data nacional, que transcorre amanhã, 19 de outubro de 1975, assinalando o 269 aniversário da vitória comunista e instalação da República Popular da China. Delegações de todas as províncias e dos mais longínquos pontos do mundo - especialmente do terceiro mundo - lotam as ruas,

os parques, as praças e os museus, com o colorido de seus trajes típicos e a alegria, muitas vezes espalhafatosa (como é o caso das delegações da Itália e do México), de seus gestos e das suas discussões. Para decepção de muitos, não consta no programa nenhum desfile armado, seja de máquinas, seja de homens. Apesar disso, Pequim está literalmente tomada por soldados do Exército Vermelho, todos de aspecto saudável, todos vestindo o mesmo uniforme verde, com duas pequenas faixas encarnadas na gola. Raríssimo o que usa sapatos. Nenhum com botas. Em sua imensa e quase inteira totalidade, calçam tênis verdes com bicos pretos. Nenhum usa galões ou qualquer coisa que possa distinguir o soldado do oficial e este do do general. São quase todos jovens e não tem aparência bélica. - Não te iludas com a aparência - me diz o dr. René. Foi por acreditar na mesma aparência abúlica dos vietnamitas, que os americanos perderam a guerra na Indochina.

A despeito da presença militar maciça, não há qualquer vestígio de opressão

militar, como sentem aqueles que já estiveram na Rússia. Ali, segundo conclusão de todos os meus amigos, o ambiente é quase irrespirável, não só devido à grosseria dos militar, como à sua prepotência. Na China não percebi nada disso - muito pelo contrário. O soldado parece brotar diretamente da massa popular; e, como ela, é amável, gentil e atencioso para com o amigo estrangeiro. Em todo o caso, lá como cá, aparências

Já disse em outro capítulo, que minha primeira (porém sincera) homenagem à

Revolução Cultural chinesa aconteceu em Shangai, quando ali trucidei uma mosca que escapara dos pensamentos de Mao-Tsé-Tung. Pois, em Pequim aconteceu coisa semelhante, só que em dimensões (e colaboração) mais avantajadas. Como devêssemos permanecer quatro dias na capital, resolvi despejar o conteúdo de minha mala e mandar lavar a roupa suja. Que por sinal pouco adiantou, pois voltou da lavanderia quase nas

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mesmas condições. Ao efetuar tal operação - oh! surpresa eis que emerge, do fundo da valise, furiosa e tonta barata, de coloração visivelmente russa, que imediatamente ruma para o banheiro. No meio do caminho, um certeiro e valente sapataço gaúcho cortou a sua execrável carreira, aplastando-a com um estalo. Orgulhoso da façanha acomodei o cadáver dentro de um maço de cigarros vazio e, pleno de júbilo, telefonei para Mi:

- Vem cá que tenho uma surpresa para ti, camarada.

Asiático e comunista convicto, mas nem por isso menos curioso do que qualquer

vivente burguês, minutos depois Mi batia delicadamente à porta:

- O senhorr Gomes me disse que tinha uma

- Tenho sim, olha: acabei com um elemento revisionista soviético no Hotel.

Mi olhou surpreso a barata, que em sua rigidez cadavérica dava ares do traidor do Brejnev, e sentenciou:

- São atitudes anti-social-imperialistas assim que agradam ao presidente Mao. E, com uma mesura, e de barata em punho, agarrada pelo rabo (certamente para mostrá-la a seus companheiros na sessão diária de auto crítica), meu guia retirou-se feliz, grato e com os olhos iluminados.

Apresentam-me Jaime à hora do almoço. Logo sinto uma enorme simpatia por ele. Jaime Martins é um dos seis integrantes da colônia brasileira em Pequim, que talvez seja a

única de toda China. Nossa Embaixada naturalmente à parte. Jornalista da Ultima Hora de São Paulo, ele foi designado, em 1962, para cobrir a visita que uma delegação de jornalistas chineses fazia ao Brasil. Estávamos nos áureos tempos da quase-implantação do quase-comunismo em nosso país, o ambiente era de lua-de-mel com a Rússia, a China e até mesmo Cuba. Daí que, ao final da visita, Jaime foi convidado pela delegação para trabalhar na Rádio Pequim. A proposta era tentadora, não só em termos ideológicos, como materiais e aventurescos. Mesmo sendo noivo em Taubaté, aceitou e se instalou como locutor do programa para o Brasil da poderosa emissora da capital chinesa, onde trabalhou até princípios de março de 1964. Aí, como a situação não podia estar melhor no Brasil, voltou para casar-se. Uma semana depois de ter desembarcado em Taubaté, estourou a Revolução (a nossa) de 1964. Resultado: no dia seguinte Jaime era preso por inimizade pessoal do delegado - e preso ficou durante seis meses.

- Me trataram muito bem, nada de torturas, como os soviéticos revisionistas dizem

que se pratica no Brasil assegurou. Libertado voltou para a China, desta feita acompanhado

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por Angelina, sua noiva, com quem se casou em Pequim. Daí em diante ambos ali ficaram trabalhando, ele como locutor, ela como professora de português.

Quando estava para ser mãe, Angelina voltou para Taubaté, onde teve uma menina, com a qual voltou novamente para a China. Moraram durante muito tempo num hotel destinado especialmente aos estrangeiros que trabalham em Pequim e hoje vivem num pequeno apartamento (enorme para os padrões normais chineses), localizado a dois passos da avenida principal.

- Minha segunda filha nasceu aqui - conta ele. Quis registrá-la brasileira, mas como

não havia relações diplomáticas, viajei para a Suíça, onde em Berna fui ao nosso Consulado. Lá então apreenderam o meu passaporte. E o único país que me acolheu de volta foi a Ele fala manso, pausado, sem emoções. Quase como um chinês. Veste roupa Mao, prefere seus cigarros chineses «estou acostumado com eles» aos que lhe ofereço

- E como é a vida de vocês aqui, Jaime?

- Olha: a gente se levanta às seis, faz ginástica, as meninas a tradicional calistenia

chinesa, eu e a Angelina o ioga. Depois tomamos café, nós dois o ocidental, as gurias o

chinês (sopa, macarrão, verduras, bolachas etc.) e então vamos cultivar nossa hortinha. Plantamos milho-pipoca e girassol.

- Girassol?

- É que as meninas adoram a sua semente torradinha. E o milho-pipoca é útil a

todos: além de o comermos, aproveito a palha para fazer meu cigarrinho, com o fumo que

de vez em quando recebo de São

- E depois da horta, o que fazem?

- Ah! não é só coisas para comer que plantamos. Cultivamos flores e até mesmo Bem, depois Angelina e eu vamos para a Rádio e as gurias para o Colégio, onde elas têm nome chinês e já são guardinhas-vermelhas. Almoçamos em casa, com a comida

que na véspera encomendamos - dois pratos: ou carne ou peixe e verduras e voltamos para o trabalho e as garotas para a escola. Pelas seis-sete da tarde (que é noite fechada no inverno) já estamos de novo no apartamento.

- Falas chinês?

- Não, não consegui aprender. É muito difícil. E para escrever há 30.000 caracteres, embora quem conheça de 300 a 800 já possa ler coisas mais comuns inclusive os

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pensamentos do presidente Mao. A Angelina fala bem. E as meninas (nove e sete anos) se expressam melhor em chinês do que em

- E divertimentos?

- Bem, nos encontramos com o outro casal brasileiro que também trabalha na Rádio e de vez em quando vamos ao teatro e aos parques. Há parques lindos em Pequim, conforme vocês verão amanhã nas festas do 19 de

- Tens aparelho de TV?

- Não. Mas há uma sala coletiva no edifício, onde podemos todos assistir aos

programas. Meu maior entretenimento é ouvir rádio. Consigo captar emissoras de quase todo o mundo. Pode gravar (e anotar) que das brasileiras a que melhor se ouve aqui, especialmente quando o sol está nascendo ou morrendo - é a Rádio Guaíba, de Porto Alegre.

Nossa conversa se prolonga horas a fio, primeiro ainda à mesa do hotel, logo em meu quarto. Mais tarde nos encontraríamos várias vezes, sempre tendo ambos o cuidado de

não deixar o assunto enveredar pelo terreno político, a não ser o das relações China-URSS, a respeito das quais ele pensa exatamente como qualquer chinês - ou seja, que a Rússia se constituí o maior inimigo não só da China, como de todo o mundo. Duas perguntas ainda:

- Não pretendes voltar para o Brasil, Jaime?

- Já que agüentamos a mão tanto tempo, agora vamos esperar um pouco mais, até

que as garotas aprendam bem o idioma e aí tentaremos regressar. Com esse aprendizado, o futuro delas estará garantido: serão as duas únicas brasileiras a dominar completamente o chinês.

- Desculpa o pieguismo, mas só para concluir nossa conversa: vocês são felizes

aqui?

- Olha, se não fosse a saudade, sim: seríamos completamente felizes. Mas, em

compensação, todos os sábados, cozinhamos lá em casa uma feijoada à brasileira. Se

ficares até lá, és nosso Jaime se despede, com a sua solidão e a sua saudade.

Botei a roupa e os apontamentos em ordem, são quase sete da tarde-noite, começa a chover fininho. Uma multidão de ciclistas de capa plástica azul-celeste desfila pela avenida, nas calçadas, multidão maior ainda, as sombrinhas também são azul-celeste.

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Flávio Alcaraz Gomes

Será

Toca o telefone.

- Senharr Gomes?

- Sim, Mi?

- Pode nos receberr agorra? Temos uma surrprresa parra a senhorr.

Sinto um calafrio. O que teria feito de errado? Logo me lembro das torturas chinesas mas procuro manter a calma:

- Claro, Mi. Podem vir.

Visto-me e fico esperando, apavorado. Entram ele e o Li. Ele fala demoradamente, ora olhando para mim, ora para o Mi que finalmente traduz:

- Sabemos do interesse que há quatro anos vem demonstrando em visitar a China.

Por razões que não podíamos superar (já que não dispúnhamos de um número suficiente de guias que falassem o português), somente agora pudemos autorizar a sua viagem - e esperamos que ela contribua para a amizade entre a China e o Brasil. Até agora o senhor

tem tido liberdade total para fotografar, gravar e transmitir pelo rádio tudo o que quis. Mas a maior prova de nossa. consideração aqui está, não é camarada Li? O camarada Li puxa do bolso um envelope e me entrega. Nele está subscrito meu nome em português e em caracteres chineses. Não sei o que pensar. Cadeia? Torturas, Deportação?

- Abra, abra - diz Mi, enquanto Li me olha todo sorrisos.

Abro e não entendo o conteúdo, todo em ideogramas vermelhos. Tudo está ficando vermelho para mim. Olho para Li e olho para Mi com todas as minhas interrogações. Li responde e Mi traduz:

- Temos a honra de ser portadores de um convite de nosso grande presidente Mao

para o senhor participar amanhã do banquete comemorativo do 26º aniversário da

revolução popular proletária no Palácio da Assembléia do Povo Suspiro sofregamente:

.

- Bah, Mi. Diga ao Li que nem sei o que falar; nem como agradecer.

Mi diz ao Li que não sei o que falar, nem como agradecer ao nosso estimado Presidente Mao. Li aprecia. Apertamos firmemente as mãos e ambos saem. Antes de cruzar a porta, Mi vira-se e com um senso de humor que não lhe suspeitava:

- O convite é por seus méritos, senharr Gomes e não por sua contribuição à Revolução

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Cidade Proibida

Amanhece chovendo nesta terça-feira 30 de setembro de 1975 e Pequim está coalhada de chineses de todas as províncias e de centenas de delegações estrangeiras, que vieram assistir aos festejos do dia 1º de outubro. Uma ênfase especial foi dada aos países do terceiro mundo, sobre os quais - hoje muito mais através de ações do que de palavras- a China busca a liderança em detrimento da Rússia. Pequim, pois, está lotada de negros de todos os matizes, desde os angolanos, a pele muito mais para o ébano do que para o marrom, até nigerianos de faces marcadas a pontaços de flecha e epiderme preto-azulada. Há, também, muitos árabes e não raros delegados de países satélites da União Soviética: uma delegação composta por mais de cinqüenta búlgaros, terminou por completar ontem a lotação do Hotel das Nacionalidades e, segundo consta, a partir de Pequim deverão cumprir o mesmo itinerário que o nosso. Há, também, uma excursão da Argentina, em meio a qual localizo dois gaúchos, cujo nome não lembro e se lembrasse não mencionaria para evitar-lhes encrencas futuras. É na companhia deles, escoltados agora por um novo guia - o señor Ho - que fala um espanhol perfeito e

que vem assessorar Mi, Li e Liu, que começamos a visitar a Cidade Proibida. Proibida porque, sendo residência das dinastias Ming e Ching, permaneceu interditada ao povo, escondida por detrás de seus muros de 10 metros de altura, protegidos ainda por um fosso profundo e cheio d'água, com 52 metros de largura. Perdoem os números, logo por parte de quem, como eu, que sempre fui muito fraco em matemática, mas eles me foram ditados pelo señor Ho, que depois veio conferi-los em meu caderno. Fez uma correçãozinha aqui, outra ali e acabou me dizendo que «ahora si, está correcto, señor Alcaraz». Pois bem, os Ming mandaram construir a Cidade Proibida em 1406, quarto ano do reinado de um certo imperador chamado Yung Lo. As obras se estenderam por quatorze anos e duzentos mil coolies nelas trabalharam. As pedras vieram das vizinhanças de

Pequim e suas preciosas madeiras das distantes e impenetráveis florestas do

O

resultado foi a construção de um palácio que ainda hoje ocupa um retângulo de 750 por 960 metros o que nos dá - sempre segundo a aritmética do señor Ho - uma área de 720.000

metros

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Durante cinco séculos, 24 imperadores ocuparam as dependências da Cidade

Proibida) entrincheirados dentro de suas muralhas purpúreas e nadando em ouro, enquanto

o povo chinês morria de fome. Diversas tentativas de invasão do populacho, rebelado nas

épocas de maior fome, (quando chegavam até a praticar a antropofagia) foram repelidas pela guarda imperial, mas assim mesmo o palácio sofreu alguns incêndios - daí a existência até hoje em seus pátio internos de enormes recipientes de bronze cheios d'água, espécie de precursores primitivos de nossos extintores modernos. Ê difícil para mim, medíocre que sou em matéria de turismo, descrever esse que é, hoje, o maior museu da China e um dos mais assustadoramente imponentes do mundo. Em princípio, a Cidade Proibida é constituída por uma seqüência de pavilhões, aos quais se tem acesso por portas postadas nos quatro pontos cardeais dos muros que a circundam. Basicamente a zona murada se divide em três partes, isoladas uma da outra por amplos pátios. Entrando pela porta Wu Men, ao sul, e seguindo em sentido norte, o turista (e outrora os imperadores) cruza os salões (em forma de pagodes) destinados à vida oficial, atravessando respectivamente - prestem atenção aos nomes, que eles refletem toda uma época e toda uma filosofia - a Sala da Harmonia Suprema, a Sala da Harmonia Perfeita e a Sala da Preservação da Mas vamos adiante, que vale a pena: agora a gente vence a Porta da Pureza Celeste

e é então a parte íntima do palácio e da vida dos Ming e dos Ching, em três conjuntos diferentes - o Palácio da Pureza Celeste, a Sala da União e, finalmente, o Palácio da Tranqüilidade Terrestre. Tranqüilidade que foi abruptamente quebrada com a proclamação da República da China, em 1912, pelo dr. Sun Yat-Sen, que redundou na abdicação do regente-menino Chun, derradeiro membro da dinastia Ching, que há muito era fantoche dos ocidentais e dos russos, que por diversas ocasiões pilharam o palácio. Mais tarde as tropas do Kuomitang (Chiang-Kai-Shek) igualmente saquearam a Cidade Proibida que, em 1949, com a vitória de Mao-Tsé-Tung, foi transformada em museu franqueado ao povo, deixando, finalmente, de merecer seu título. Apesar de todos os saques e de todos os vandalismos que sofreu, é impressionante a visão dos tesouros ali mantidos. Todo o conjunto arquitetônico compõe-se de 9.000 peças, que ocupam uma área útil de 150.000 metros quadrados, em meio de suas hoje apenas históricas muralhas. Somente a incomensurável riqueza de uma nação, habitada por um povo de celestial, escrava e dócil paciência, poderia ter permitido a construção e manutenção

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durante quinhentos anos de uma aberração de tal espécie. Ao vermos os salões da Cidade:

Proibida) ao nos espantarmos com as riquezas ainda hoje ali conservadas, podemos sem dificuldades imaginar o tipo de vida que levaram seus donos e justificar a revolta de ódios acumulados que culminou com a implantação do comunismo na China.

Mas agora são seis da tarde e, pela primeira vez desde que pisei em terras asiáticas, aqui estou vestindo terno e gravata, sem gravador e sem câmara - as ordens foram severas nesse sentido - esperando a condução que vai me levar à versão moderna e simplista da Cidade Proibida: a Assembléia do Palácio do Povo, obra arquitetônica que mais orgulha os comunistas chineses, não só pela perfeição de seu acabamento como por ter sido construída em apenas dez meses. Em Pequim, ao contrário de Shangai e Cantão, o automóvel não é um elemento estranho à paisagem. Ele aqui é visto em grande número e pertence não só às delegações estrangeiras, como às repartições públicas. Há, ainda muitos táxis integrantes de uma cooperativa manobrada pelo estado. Invariavelmente todos os carros chineses, sejam os quase luxuosos Shangai sejam os mais modestos Bandeira Vermelha têm suas janelas traseiras e os seus vidros laterais emoldurados por cortinas brancas, que não permitem a visão de quem neles está Às seis e meia, a condução nos apanha, a senhora Germana Travassos e eu, únicos brasileiros (além do Jaime e da Angelina, como fiquei sabendo mais tarde) presentes ao banquete comemorativo da fundação da República Popular Comunista. A senhora Travassos é uma espécie de Marco Polo moderno e de saias, que desbravou os caminhos turísticos da China aos brasileiros. Já organizou seis excursões, participou de todas elas e pretende continuar no ramo ainda por muito tempo. Confessou-me à certa altura que a Polícia Federal a tinha chamado, perguntando-lhe por que não promovia excursões à Disneylândia em vez de Pequim e sua resposta, como não poderia deixar de ser (devido, é claro, a seus cabelos brancos), foi a de que:

- «Afinal de contas, vocês pensam que eu sou criança? E em companhia de nossa guia brasileira, de uma intérprete chinês-inglês, de seis jornalistas do Guardian, jornal esquerdista de Nova Yorque, e de um alto funcionário do Departamento de Turismo de Pequim, que nos sentamos agora numa das quinhentas mesas redondas de dez assentos cada uma, que não chegam a lotar completamente a gigantesca sala da Assembléia do povo

.

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Toca algo que deve ser .o hino chinês e todos se levantam, enquanto uma comitiva, tendo à frente o Vice-Primeiro Ministro Teng Hsiao Ping, escoltado por um grupo de dignatários, assume a presidência do banquete, numa mesa retangular e elevada. A multidão saúda a comitiva, batendo ritmicamente palmas cadenciadas. Simultaneamente, garçons levantam as toalhas de plástico transparente que cobriam as iguarias, todas frias, e na base do camarão, carnes (como sempre misteriosas e não identificadas) e legumes. Não servem arroz. De bebida, laranjada e cerveja (morna), além de um líquido vermelho, com um gosto que se situa entre o vermute e o Porto, e uma aguardente branca, extraída do sorgo, que se chama mao-tai e que goza de grande popularidade na Nosso anfitrião, depois de conversar sobre generalidades, nos pergunta o nome e profissão de cada um. Os americanos, babam-se de prazer e êxtase «ah! que salão mais bonito:», «ah! quantos amigos, todos juntos», «oh! que pena que o camarada Chou não pôde vir este ano», e assim por diante. Além da baboseira dos gringos (um deles me diz que há cem mil americanos com pedidos de visto para a China) e da comida ruim, o que resta é apreciar o espetáculo humano e começar a ler o discurso, que nos distribuíram traduzido para o inglês e que vai ser pronunciado pelo anfitrião. Nele Teng Hsiao Ping afirma como peroração e grand final que «devemos seguir os pensamentos do Presidente Mao e continuar cavando túneis mais profundos e armazenando grãos, sem buscar a hegemonia».

O banquete dura exatamente duas horas e a única oração, menos de dez minutos. Ao longo de seu percurso, o camarada comissário ergueu doze brindes à amizade com seu cálice de mao-tai e não tivemos outro remédio senão acompanhá-lo. Ele emborcava o copo de uma vez só e o virava de boca para baixo sobre a toalha, dando-nos a entender que deveríamos imitá-lo, senão não éramos amigos. No primeiro fiz um fiasco, me engasguei e tossi até a alma, depois fui me acostumando, achando o ambiente melhorzinho, a companhia dos americanos mais agradável - para um deles cheguei a dizer what beautiful dinner comrade, everybody is amigo, isn’t it true? And what about our dear amigo Nixon?- mas apesar de todo o mao-tai senti alívio quando a festa acabou. Há muitas e modernas maneiras ainda de praticar a tortura chinesa sobre gaúcho xucro como eu - e o banquete dos 26 anos da República Popular da China foi uma delas.

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Sucessão

O inteligente leitor e a perspicaz leitora que têm me dado a honra de acompanhar essas histórias sobre a China perceberam que ainda não me detive sobre vários aspectos de fundamental importância para avaliar a situação daquele país, dentre os quais um ressalta - o da sucessão de Mao-Tsé-Tung. Confesso que não me sinto apto para dissecar tal tema, mas por outro lado, posso esclarecer algo a respeito, não só devido às leituras que fiz, como às conversas que mantive e as observações que realizei. Em primeiro lugar, consta que Mao-Tsé-Tung está muito enfermo, atingido por esclerose e pelo mal de Parkinson. Mais doente ainda se encontra Chou-En-Lai, este sim, há vinte meses hospitalizado e que desde 7 de setembro de 1975 não recebe nenhum visitante estrangeiro. Chou estaria tomado por um câncer generalizado, oriundo do pâncreas e seu período de vida não deverá ultrapassar os próximos meses. Na China de pós-revolução cultural, seu cargo e seu papel tem assumido maior importância do que o do próprio Mao, que afinal, e para simplificarmos as coisas, se situou na posição de deus vivo do regime, sendo Chou o seu arauto. As funções de Chou-En-Lai vem sendo exercidas ultimamente e em quase toda a sua totalidade por Teng Hsiao Ping, que presidiu o banquete comemorativo ao aniversário da revolução, ato que tradicionalmente cabia a Chou, o qual, ainda no ano passado saiu do hospital especialmente para a solenidade. Teng foi uma das vítimas do expurgo nos meios dirigentes em 1966, quando foi destituído de todas as suas funções. Mais tarde e após várias humilhações que caracterizam a autocrítica e a retratação determinadas pela doutrina socialista, foi reabilitado na primavera de 1973, passando, para surpresa geral, a exercer um dos mais altos cargos da República Popular da China. Os sinólogos duvidam possa ele vir a ser o novo timoneiro da nau comunista chinesa após a morte de seus dois principais líderes. Fala-se muito de uns tempos para cá em Wang Hung Wen (38 anos), operário oriundo das tecelagens de Shangai e que por muitos é apontado como um dos mais prováveis delfins da China. Na verdade, tudo o que se disser a respeito da sucessão chinesa será especulativo e vão. O regime é tão palaciano e impenetrável como o de seus antecessores Ming e Ching e seu sistema, entrincheirado na Cidade Proibida de seus pensamentos, é capaz de surpresas que podem abalar a China - e com ela o mundo. Uma coisa é certa: Mao (82 anos) e Chou (77) estão doentes. O regime me parece que não.

A última e definitiva prova da inteligência de Mao-Tsé-Tung, que além de ser guerreiro e político é filósofo e lírico poeta, foi o desencadeamento - por ele exclusivamente ordenado - da revolução cultural, que, de 1966 a fins de 1968, realizou um verdadeiro expurgo em todas as camadas dirigentes chinesas, desde a política até a militar e social. Passando por cima da geração, que normalmente o deveria suceder, Mao entregou a tarefa de limpeza à novíssima geração, nascida, criada e lavada cerebralmente desde o triunfo dos comunistas em 1949. Essa a origem da verdadeira guerra civil (que foi sobretudo um conflito de gerações) que abalou a China nos fins dos anos 60 e cujas repercussões ainda persistem. Ninguém foi poupado e sob o título de revisionistas, figuras obscuras e figuras importantes foram varridas literalmente da face da terra política

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chinesa, não escapando nem sequer o marechal Lin Piao (apontado oficialmente como sucessor de Mao), nem o próprio presidente da República, Liu Shao-Shi. O golpe branco desencadeado por Mao-Tsé-Tung (e segundo sua doutrina, tais limpezas devem ser realizadas periodicamente) teve por mérito revitalizar a revolução que estava-se aburguesando e tomando os perigosos rumos seguidos pela Rússia, desde que Kruschev assumiu o poder. Hoje em dia, o maior cuidado do chinês é não se tornar revisionista e há um regime de verdadeiro terror a perseguir seus pensamentos e suas atitudes. Qualquer deslize no sentido de escorregar para o que possa ser burguês lhe é imediatamente apontado por seu companheiro de trabalho, seja no campo, seja na fábrica ou em sua própria família. Caso a atitude burguesa persista, o pretenso faltoso é denunciado ao comitê revolucionário, ao qual é subordinado, e submetido ao Comitê do Partido e às massas, por quem é reeducado, punido e até mesmo eliminado. Os mais pessimistas afirmam que a China é uma imensa prisão com 900 milhões de encarcerados, sujeitos à vigilância recíproca. Os mais otimistas a encaram como um laboratório experimental, do qual pode surgir uma filosofia que venha em benefício de toda a humanidade. Eu a vejo apenas como uma república totalitária, dentro da qual todo o individualismo foi ou procura ser abolido, onde o coletivo é muito mais importante do que o privado e o homem, completamente despersonalizado, é apenas, um tijolo num muro formado por novecentos milhões de outros, indiferençados na cor, na forma e na essência. Se erguendo esse muro que em quase tudo separa o povo chinês do homem e da natureza humana, eles estariam conseguindo ou conseguirão construir um mundo perfeito - ótimo. ótimo para eles. Porque para nós, em hipótese alguma, a experiência chinesa, em seu todo serve ou tem condições de ser adaptada.

Falando em muro, estamos seguindo para a Grande Muralha. O percurso é de setenta e cinco quilômetros por uma estrada estreita, península de asfalto negro em meio a um mar verde e imenso de hortaliças, de milho e de sorgo, cujas ondas saem daqui e vão desdobrar-se ao longe, nas montanhas que bordam o Sobre as montanhas, vestígios de uma antiga construção: é a Grande Muralha. Ho, sentado ao meu lado, vai informando o que a Muralha revela, o tradicional espírito não belicoso e apenas defensivo que sempre caracterizou o povo chinês. A ciclópica construção teve origem em pequenos muros isolados, erguidos pelos senhores feudais por volta do século II Antes de Cristo, emendados finalmente numa única e monolítica defesa por um certo general Meng Tien, por ordem de um incerto Shi-Hoang-Ti, que se intitula entre outras coisas primeiro chefe da humanidade. A ligação dos muros isolados teria custado quatorze anos de trabalhos (de 221 a 207 A. C.) e nela teriam trabalhado trezentos mil homens. Naquela época, toda a China não contava mais de vinte milhões de habitantes. A rigor, a grande muralha nunca deteve invasão de importância ao longo de seus 4.000 quilômetros de extensão. Serviu mais para impedir que os nômades cruzassem as fronteiras do país, como proteção às plantas contra os ventos das estepes - e basicamente como via de transporte entre um núcleo populacional e outro. Séculos mais tarde, já sob a dinastia Ming, foi reconstruída e então atingiu seu esplendor, com quinze mil postos de guarda e vinte e cinco mil torres, distanciadas vários quilômetros umas das outras. Sua comunicação era feita através de fumaça durante o dia e fogueiras durante a noite. Apesar de todo o esforço, os tártaros a cruzaram, derrubando primeiro alguns

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trechos da muralha e logo a dinastia Ming inteira.

O ônibus pára na encosta da montanha e a galgamos até o pé do muro. Ele está quase todo em ruínas

no resto de seu percurso (que outrora subia e descia as montanhas mais escarpadas), mas ali foi reconstituído naqueles que deveriam ser seus termos e dimensões iniciais. Sua altura vai de sete a oito metros, a base tem

seis e o cimo cinco metros e meio. Seu entulho é de saibro e terra socada e o revestimento de tijolos marrom escuro. A cada 200 metros se ergue uma torre (na parte reconstruída há meia dúzia delas) que se alinham em seus dois lados que controlavam a fronteira exterior.

A obra não me causa a mesma impressão que tive quando vi pela primeira vez as pirâmides do Egito

nem o grande dique da Holanda. Creio que, principalmente, por tratar-se apenas de reconstituição destituída

de sua autenticidade milenar. O mesmo efeito não se observa nos milhares de chineses (especialmente soldados), que não escondem seu deslumbramento. Os mais ricos (e felizes proprietários de uma máquina fotográfica, que devido ao seu preço não está ao alcance da maioria) fazem questão de se fotografarem para ilustrar o grande momento. Entre o grupo brasileiro, as impressões se dividem. Michel lidera os mais

entusiasmados. Mas, capitalista-reacionário prático que é, faz logo sua crítica, que Ho meticulosamente anota para divulgar na primeira sessão de autocrítica dos guias:

- Já que a China está em política de distensão com os americanos, já que os seus hotéis são horríveis, por que vocês não mandam os Estados Unidos construir um grande motel aqui?

E olhando, sonhador, para as montanhas e já com respeitável platéia em volta:

- Imaginem só, que beleza, um Muralha Hilton ou um Sheraton Great Wall com piscina, ar

condicionado e sobretudo! - gelo para o

Pode Crer, Ho, é sucesso garantido.

Depois, muito sério e ante a impassibilidade de señor Ho:

- Olha, se tiver algum problema, o hotel pode ser instalado do outro lado da muralha. Para os americanos não haverá dificuldade, Kissinger é o maior especialista do mundo em pular

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A ordem de Érico Veríssimo

Não sei como um jornalista chinês descreveria os festejos do 7 de setembro no Brasil. Só posso dizer que ele sentiria uma grande diferença das comemorações da grande data de seu país: o lº de outubro. Nesta quarta-feira de primavera-verão de lº de outubro de 1975, por exemplo, encontro toda Pequim e seus sete milhões de habitantes vestidos com cores e espírito de uma grande quermesse. Há muitos anos que os desfiles militares foram abolidos, o que há agora é uma gigantesca manifestação de cantos e de danças a esparramar-se da Tien An Men que eles, não sem orgulho e não sem razão, afirmam ser a maior praça existente no mundo, para todos os bairros e parques da cidade. Os festejos principais se concentram no Parque Peijai e no Palácio de Verão. Ê para este que seguimos agora, quando são apenas oito horas da manhã. Nosso ônibus atravessa multidões compactas de pedestres e de ciclistas, quase todos trajando roupas semelhantes, feitios idênticos na estatura e na fisionomia. A única discrepância na uniformização geral é constituída pelas crianças - e como há crianças em Pequim! Meninos e meninas, bandeirinhas vermelha na mão, caminham apressadamente junto aos pais rumo ao local dos festejos. Somente no Palácio de Verão, onde a muito custo acabamos de chegar, devem estar concentradas várias centenas de milhares de criaturas. O policiamento de trânsito é quase invisível, mas assim mesmo suficiente para mandar que todos abram alas à passagem dos amigos estrangeiros. O Palácio de Verão, na verdade, é um imenso parque a circundar um lago não menos imenso onde certa vez uma imperatriz maluca que adorava o mar, mas enjoava com o balanço das ondas - da qual a nossa Chica da Silva não passou de modesta, porém convicta réplica crioula - mandou ali construir um barco inteiramente de mármore. Não é lenda, pois a nau ainda se encontra, escarrapachada com seu peso às margens do lago, este sim verdadeiro. Como apesar de suas dimensões, embora despropositadas para o tamanho do parque, o lago não produzisse ondas, a Chica chinesa mandou que colocassem um espelho balanceado sobre o tombadilho do mármore, o qual, agitado por escravos competentes, simulava estar a imperial embarcação enfrentado a mais feroz das procelas. Aí a imperatriz se divinizava, com os poderes de fazer cessar a tempestade, enjoava apenas um bocadinho, dando rápida vomitada em seu lencinho de pura seda e ia fazer cafuné no imperador, enxotando os nobres e as concubinas que o Isso aconteceu lá pelo século XII de nossa era, mas hoje, neste 1º de outubro, a visão do barco serve apenas para Ho tirar mais uma lição de moral e concluir sobre os malefícios que a Revolução eliminou, não permitindo mais que o povo fosse oprimido, por imperatrizes desvairadas ou imperadores cruéis, isto sem mencionar o abjeto social-imperialismo soviético e o não menos pernicioso imperialismo A multidão se comprime em volta de centenas de clareiras, onde meninos e meninas cantam e dançam peças populares exaltando sucessivamente o presidente Mao, o Glorioso Partido Comunista da China, os operários das fábricas, as heróicas comunas populares, cuja produção agrícola vem batendo todos os recordes, o invencível Exército Popular Vermelho, o triunfo do presidente Mao e da Revolução Cultural sobre os revisionistas (mas cuidado! eles são como o cruel dragão que tem mil vidas e pode botar as garras

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para fora a qualquer momento. Por isso, a qualquer suspeita que ninguém hesite em informar o Comitê Revolucionário), a Gloriosa Bandeira Vermelha e a amizade entre os povos de todo o mundo. As meninas vestem saias curtas cor de rosa e blusa branca e tem o rosto empapado de rouge e os lábios vermelhos de batom. Foi exclusivamente entre as garotinhas, e por ocasião de suas demonstrações de canto e balé, que vi o emprego de cosméticos na China. Nenhuma moça, nenhuma senhora se pinta, o que representaria uma atitude burguesa e como tal revisionista. Durante as três horas em que percorremos o Palácio de Verão e com ligeiras variações as músicas e as danças não teceram outra temática nem outra coreografia do que tínhamos visto em suas primeiras demonstrações. Havia também; em outros círculos orquestrações de temas revolucionários, cantores ou cantoras interpretando trechos de Óperas de Pequim, tudo dentro do mesmo diapasão e dos mesmos motivos doutrinários. O povo demonstrava adorar tudo o que via e ouvia, mas para nós, burgueses ocidentais, o espetáculo, depois de seus primeiros momentos, começou a tornar-se cansativo. O único que não nos cansou foi a visão do público, os pais de mãos dadas com os filhos, as mães com as filhas, os quais tomando sorvete

ou comendo balas pareciam estar todos irradiando felicidade. Aliás, os festejos de 1º de outubro - que se prolongam por quatro dias - são os únicos dias de férias de que gozam os operários e trabalhadores chineses, além de um dia de repouso semanal, mas para merecê-los, devem dobrar quatro folgas anteriores.

- Só quatro dias por ano Ho? Não é muito pouco.

- Mesmo se fosse não poderíamos adotar uma atitude burguesa a respeito, pois estamos construindo um mundo socialista e não há tempo a perder com desviacionismos capitalistas. Dito o que, embarcamos no ônibus e voltamos para o Hotel. Sem comentários, é claro.

No começo da noite, quando Pequim toda parecia um parque de diversões, com sua iluminação, música e colorido característico, consegui enfim estabelecer minha segunda comunicação-rádio com o Brasil. Era o dia em que o Correio do Povo completava seu 80º aniversário - o que prova que nós outros também não deixamos de ter o nosso 1º de outubro em Porto Alegre - e depois de contar o que vi e lembrar lá do meio da Cortina de Bambu, as vetustas glórias do jornal de Caldas Júnior, tive uma surpresa que me embasbacou: do outro lado do circuito, estava a voz calma, pausada e simpática de Érico Veríssimo, ele falando de sua casa à rua Felipe de Oliveira, 1415 em Petrópolis, Porto Alegre, Brasil e eu do quarto 722 do Hotel das Nacionalidades, à avenida Chang Han s/n em Pequim, Ao final do diálogo, uma recomendação dramática:

- Olha, não deixa de comer um pato laqueado de Pequim em meu

O pato laqueado de Pequim, que falta imperdoável, meu Deus! Há quantos dias já estava eu na

. Imediatamente tomei as providências devidas, mobilizando, simultaneamente Mi, Ho e Li e Liu para

que, num trabalho de mutirão - tipo comuna popular - dessem um jeito de me colocar diante do pato àquela noite mesmo. Era pedido do Érico Veríssimo e tais coisas devem ser levadas muito a sério, sob pena do faltoso virar bandido em seus romances (ou em suas memórias).

capital da China e nem sequer havia me lembrado do capitoso animal!

telefone.

- Mas é muito tarrde, senhorr Gomes – protestou o Mi.

- Que muito tarde ou muito

O Érico mandou, o pato tem que ser trinchado hoje. E bati o

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Paralelamente comecei a desferir uma série de telefonemas. Primeiro convocando a senhora Travassos, que com seis viagens à China já devia estar a par da anatomia do pato e logo, ao ser informado pela referida dama de que se tratava de alimento um tanto caro e pesado, contatei com os elementos representantes das altas finanças e da medicina que integravam o grupo, os quais se babando antecipadamente de gozo (além do pato ser laqueado e de Pequim era sugestão do Érico Veríssimo que culto, que chique), acorreram pressurosos ao saguão do Hotel das Nacionalidades, rumo ao Pato. Antes de embarcar num ônibus especial, obtido graças à eficiência do pressuroso Mi, foi feito um acordo proibindo trocadilhos sobre pato, patas etc. - um pacto entre cavalheiros, enfim.

O nome do restaurante é Pequim Kao Ya Tien, que se traduz exatamente como Pato Laqueado de

Pequim. Já se vê que não há engano algum quanto ao objetivo. Somos quinze pessoas, inclusive o Jaime e

mulher, nossos convidados e a conta total (acertada antecipadamente) será de 35 yuans por pessoa, que equivale a cerca de cento e sessenta cruzeiros - o que ganha por mês um operário na China viu só, Érico?

É que a senhora Travassos escolheu o menu mais caro - qualquer coisa como um jantar de

mandarim, dos tempos anteriores à revolução. Sentamos numa sala exclusiva para estrangeiros, no 19 andar, pois a parte térrea é reservada aos chineses e ali os preços são infinitamente mais baixos. Há vários deles em mesas ocupadas tão somente por homens. Me pareceu ali que a igualdade absoluta entre sexos pregada por Mao não atingiu ainda os seus restaurantes. O preço estipulado incluía não só o pato, como uma série de hors d'oeuvre além de pratos anteriores e posteriores, de refrigerantes, vinhos e aguardentes. Sobremesas não se usam na China nem gorjeta. A gorjeta não é proibida, mas simplesmente desprezada pelo chinês, que a toma como uma ofensa e em hipótese alguma a aceita. Mas vamos ao pato, é ordem do Érico. Primeiro servem os aperitivos: o wei mei si (vinho meio vermute, meio Porto), duas garrafas de gan bai pu tao jiu (vinho branco seco) duas outras de zhang yu hong pu taojiu (vinho tinto, meio adocicado), fora uma bateria de mao-tai, que é a tal aguardente de sorgo. É realizada uma conferência urgente a respeito das disponibilidades de engov de cada um - e com amor febril pelo Brasil vamos ao ataque.

A louça é toda de porcelana, composta de pratinhos pouco maiores do que os nossos pires e de

tigelinhas. Garçons vestidos de branco começam o desfile, cada um trazendo um prato. Por ordem nos servem:

1 - song hua: ovos de pato de cor preta, aspecto gelatinoso repugnante que permaneceram cem dias enterrados, envoltos em palha de milho e numa mistura de argila e cal;

2 - ou: raizes de lótus, com gosto de cebola adocicada;

3 - mo-gu: cogumelos ensopados, pretos;

4 - xia: mãe-d'água seca (! ) acompanhada de camarões anões;

5 - ge-li: espécie de ostra, ao que parece, secada ao sol e regada a molho de soja;

6 - su yu: peixe não identificado dissolvido numa mistura de vinagre com açúcar;

7 - bao yu: lesmas do mar, cruas;

8 - zha ya gan: figado de pato frito;

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O décimo primeiro prato foi uma yan wo tang ou seja, sopa de ninho de andorinha, o qual como se sabe é tecido com a baba do próprio pássaro e que se glorifica como um dos pratos mais reputados da cozinha chinesa. Ai então pensei que ia morrer sem ver o pato. Pura ilusão. O pior ainda estava para vir. É que mal provados (e às vezes totalmente dizimados) os pratos iniciais, enquanto esperávamos a entrada de nosso

personagem principal, eis que nos servem ainda - hao you niu rou: bife com molho de ostra, esclarecendo-se que o bife é de carne de búfalo; sha yu: enguia ensopada; tang pai gu: costeletas de porco açucaradas; xang chang: tigela inteira, com uma enorme variedade de salsichas e lingüiças, sei lá; e – she, a popular e apreciadissima sopa de serpente, com a dita boiando em apetitoso caldo verde. Aí mudamos de assunto, antes que entrassem com um macaco para que lhe comêssemos o cérebro, o bicho vivo ainda, é claro - ou que ele,

aproveitando nosso empanturramento àquela altura generalizado, tentasse fazer o mesmo

A

verdade é que depois de tantas entradas e saídas, o pato parece não mais caber nestas linhas sob pena de causar indigestão no leitor. Assim sendo, fica ele para o próximo capítulo destas emocionantes memórias, nas quais o autor, com prudente habilidade, procura conciliar a sutileza da política com o requinte da gastronomia, ambas chinesas. O Érico que me perdoe, mas amanhã comeremos o pato. É um pacto.

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O pato e o ciclista

Conforme havíamos prometido ao Érico Veríssimo e a nossos impacientes e

gastronômicos leitores, vamos hoje trinchar juntos o famoso pato laqueado de Pequim em seu reduto celestial e definitivo: o restaurante Pekim Kao Ya Tien. Já ligeiramente refeitos do princípio de indigestão que nos afligiu depois da comilança de 15 (quinze) pratos de entrada, passamos a arrotar (o que é considerado muito fino e de muita educação na China)

e a aguardar o importante e presumido personagem. Entrementes e sempre seguindo os

cânones da cozinha mais velha, mais tradicional e para muitos mais requintada do mundo, os garçons serviram-nos num grande prato xiang gua (melão), li (peras), pu tao (uvas), li zi (ameixas), wu hua guo (figos) além de duas dúzias de ju zi, (tangerinas) que na França, Espanha e em algumas zonas do Rio Grande do Sul são chamadas de mandarinas, por

Esse sábio interregno,

terem sido, outrora, as frutas prediletas dos

interrompendo o sabor xian (salgado) com uma ingestão de tian (doce) sempre fez parte do inteligente ritual gastronômico chinês - preparando o gourmand para a segunda e principal

parte da refeição. E eis que ela chega, trazida pelo triunfal cozinheiro, numa bandeja de prata. À primeira vista tem-se a impressão de tratar-se apenas de um pato, um pouco lustroso e corado, porém pato.

- Mas repare só os detalhes - aponta-nos Jaime. Tudo nele é diferente. Veja a

coloração brilhante, as formas perfeitas, o aroma Vejo a coloração, a forma, o aroma, me preparo para o combate, mas estranho:

- Um pato apenas para tanta gente? Por incrível que pareça o intermezzo das frutas

já tinha feito com que eu (e a maioria) tivesse esquecido o pantagruelismo anterior. Fraca e

venal é a memória, a gratidão e o estômago dos homens! Mas Jaime com treze anos de China nos tranqüiliza:

- Não te preocupes que tem toda uma criação lá dentro

.

Depois de seu desfile de toureiro em dia de glória em arena ensolarada o cozinheiro se retira, voltando dez minutos depois com o pato devidamente trinchado. Nova explosão de aplausos - e mãos à obra! Era um bom e honrado pato, além de pecaminosamente apetitoso. Dele hoje nada mais sobra a não ser a lembrança gloriosa, que procuro nesta

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obra eternizar. Não saberia como descrever as nuances de seu sabor nem as sutilezas de seu tempero, muito menos a tenrice de suas carnes. Mas para não ficar em débito com os nossos leitores (e muito menos com o Érico e seu dileto e enfastiado filho Luiz Fernando) fiz questão de ir à cozinha em companhia de Mi e saber das coisas:

- O eminente camarada cozinheiro pode fazer o favor de contar-me como se

prepara esse maravilhoso pato? Seria uma imensa gentileza que o senhor prestaria a um amigo meu, e que é também um grande amigo da China, que está longe, no Brasil e que ficará encantado com a sua

O cozinheiro (afinal todos são humanos, inclusive e até mesmo os cozinheiros chineses) apreciou o elogio, começou a falar, Mi a traduzir e eu a anotar:

- Esse pato é criação da comuna a qual se integra o restaurante. Normalmente é

alimentado com sorgo, milho e soja. Entre três e seis meses está pronto para o supremo sacrifício. É supliciado pelos meios tradicionais (pescoço torcido) e dependendo a vapor. Suas vísceras são extraídas por um orifício praticado sob sua asa direita e todas aproveitadas, menos os intestinos. Então, com uma bomba (dessas de bicicleta) lhe é

inflado ar sob a pele. Em seu interior injetamos água até a metade através do traseiro, que imediatamente é tapado com um sabugo de sorgo para não vazar. O pato então é suspenso pela cabeça sobre o forno, que deve manter uma temperatura entre 300 a 325 graus. O calor faz com que a água se transforme em vapor e o cozinhe lentamente por dentro, ao passo que o fogo do forno (que como o amigo brasileiro pode ver, é aberto) vai assando sua pele. Esta é pincelada com a própria graxa, o que lhe confere o brilho característico. Não usamos nem mel nem qualquer outro condimento, além de sal como fazem maus cozinheiros (quase todos capitulacionistas) que fugiram para as terras dos

- Só isso? Não tem nenhum segredinho especial?

Sem relutar ele revela:

- Tem sim, o do material empregado para queimar: usamos apenas lenha de pereira, pessegueiro ou de palmeira.

- Por quê?

- Porque não fazem chama, produzem quase nenhuma fumaça e conferem-lhe seu

sabor

Essa, pois, a história do pato. Qualquer outra versão não passará de mera e insidiosa manobra revisionista. Na volta ao Hotel, quase na confluência da Fuyou com a avenida Chang An, o

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Flávio Alcaraz Gomes

tráfego está interrompido. Já passa das dez horas, mas como o dia seguinte é de festas, há uma compacta multidão nas ruas. Buzinando intermitentemente nosso motorista avança para seu rumo, o caminho aberto por guardas vestidos de branco. O povo se afasta e podemos vislumbrar os vestígios do primeiro acidente de trânsito que vimos na China, uma bicicleta reduzida a sucata e ao seu lado uma grande poça de sangue. Cinco guardas efetuam, com trenas, o levantamento do local. Silencioso e com os olhos muito abertos, o povo assiste a seu trabalho. Com duzentos e cinqüenta milhões de bicicletas e com a recente invasão das grandes cidades, especialmente Pequim, por automóveis e ônibus, é de estranhar-se que não haja maior número de desastres. O ciclista chinês é altamente imprudente (isso nós constatamos por toda a parte) e julga-se o único dono da rua. Essa uma das razões que motivam o buzinar sem fim de todos os veículos a motor. A bicicleta constituía um dos mais altos degraus no estágio da ambição do chinês, mas agora, com a superprodução de petróleo, as motos começam aparecer. E é de imaginar-se o que não há de ser o trânsito de Shangai, Cantão e Pequim daqui a um par de anos, caso, naturalmente, o processo de desenvolvimento chinês não seja interrompido por guerras internas ou externas. A visão daquela bicicleta esfacelada e do sangue de seu dono (teria morrido na hora? Ou quem sabe, devidamente acupunturado, está sendo agora submetido a uma

.) me faz lembrar uma história, igualmente triste que li há pouco na obra

insuspeita e muito atualizada de Alain Peyrefitte* sobre a China e que nessa noite, em que

operação?

tudo nos parecia tão feliz e tão farto, deve ser lembrado para que tenhas presente que a realidade chinesa não se constitui apenas de patos laqueados, sorrisos amáveis e liberdade absoluta de encomiar o presidente Mao. Ei-la:

O agente que controla o cruzamento apita. Um ciclista de Pequim acaba de

ultrapassar o sinal vermelho: ele se volta furtivamente e torna a pisar no pedal. Segundo apito. Antes que o ciclista possa percorrer um metro, os pedestres correm da calçada ao seu encontro, obrigando-o a apear e o cercando com hostilidade, enquanto esperam o policial.

Este diz apenas uma palavra em tom moderado, manda a multidão afastar-se e convida o ciclista a partir. Nem multa, nem repreensão. A cena se desfaz como por encanto, tão rapidamente como havia se originado. O policial-militar volta às suas funções. Apenas anota uma breve indicação.

Na manhã seguinte, no momento de partir para a fábrica de tecidos onde trabalha, o

(*) - Alain Peyrefitte - "Quand la Chine

." Ed. Fayard. Paris.

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ciclista imprudente vê entrar em seu pequeno alojamento um membro do Comitê Revolucionário do bloco do quarteirão. Sob um tom severo ele o repreende por sua atitude da véspera e lhe dá longa lição de moral. É grave ter ultrapassado o sinal vermelho. É grave não ter parado ao primeiro sinal de apito. É grave ter desencadeado a cólera das massas populares, animadas pelo sopro revolucionário do pensamento de Mao-Tsé-Tung. É mais grave ainda não ter-se dado conta da gravidade de sua conduta.

O ciclista sente-se torturado. Ele vai atrasar-se. Seu atraso aumenta e ele mede as

conseqüências. Quando o responsável do Comitê Revolucionário permite-lhe enfim partir, nosso ciclista, cada vez que vai ter de enfrentar. Chegando à fábrica meia hora depois do fechamento do ponto, é interpelado pelo contra-mestre. Ele dá a sua explicação e é

obrigado a expor sua conduta diante dos responsáveis pelo Comitê Revolucionário da Fábrica. Ali ele é repreendido pelo atraso, pelo prejuízo que ele dá à produção da fábrica, pela sombra que ele fez cair sobre a boa reputação da fábrica, etc. Nos dias seguintes o pesadelo se amplifica. Um membro do Comitê Revolucionário de seu bairro, um responsável do Partido, vão a seu trabalho e o advertem a domicílio. Diante de seus companheiros de trabalho, diante de seus vizinhos de apartamento, ele deve entregar-se a uma autocrítica, na qual ele é energicamente ajudado.

E conclui Peyrefitte: «Essa história verdadeira, que se assemelha a um conto de

Kafka e que aconteceu em Pequim em 1967, foi-me contada por uma testemunha direta. Milhares de casos semelhantes provavelmente acontecem todos os dias. Todos os chineses são identificados, enquadrados, seguidos de perto. Os cativos, quando são libertados, continuam a ser controlados tão estreitamente como quando estavam encarcerados. Da prisão fechada à prisão aberta, da prisão aberta à liberdade vigiada, não há outra coisa senão nuances. Ninguém na China pode escapar ao sistema».

Na esquina da principal avenida de Pequim, a poça de sangue e a bicicleta esfacelada, na noite de 19 de outubro de

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A novela da múmia

Às cinco da manhã de sábado, 3 de outubro, o telefone me acorda, do outro lado é

Mi:

- Está na horra de levantarr, senhorr Gomes!

- Mas, Mi, digo eu, esbugalhado de sono, o avião só sai às nove e

- E o amigo não vai fazerr ginástica? Não vai aprontarr a mala?

- Tá bem, Mi. Vou fazer ginástica, vou aprontar a mala.

A ginástica que eu faço é precisamente aprontando a mala, isto é, jogando em seu interior tudo o que andava esparramado em meio à sujeira encardida que caracteriza todos os quartos de todos os hotéis da China, em cujos banheiros, como já foi dito, todas as caixas d'água das latrinas vazam, sem exceção. Nos dias ou às vésperas de todos os cinco deslocamentos para cinco cidades diferentes, que realizamos durante as nossas duas semanas de China, o ritual foi sempre aquele: as malas na frente, numa condução especial todas elas devidamente identificadas com o nome de cada um - e nós, horas mais tarde noutro ônibus. O encontro entre nós e nossos pertences acontecia sempre uma hora antes do avião decolar, ocasião em que quase todos pagavam excesso, já que a CACC (Companhia de Aviação Civil da China) permite o máximo de quinze quilos de bagagem. Àquela manhã, efetuaríamos o nosso segundo vôo dentro do país, desta feita rumo à Chang Sha, em cuja província de Hu Nan, Mao-Tsé- Tung nasceu em 1893. A viagem fora programada não só para conhecermos a aldeia natal do deus vivo da China, mas para visitarmos o famoso Museu da múmia, no caso a marquesa de Tai, da Dinastia Han do Oeste, ali morta alguns milênios antes de Mao ter nascido ou seja por volta do século II Antes de Cristo. Dentro da inteligente Política Chinesa de conservar os achados arqueológicos nos lugares onde são encontrados, a marqueza jazia onde tinha sido sepultada, isto é, em Chang Sha. Essa descoberta se constitui um dos acontecimentos arqueológicos mais fascinantes de toda a história da humanidade, superior ao das mais famosas múmias do Egito, exceto Tutankamon. Ê que ao contrário dos faraós, cujos corpos foram encontrados secos e desvicerados, a múmia da marquesa ficou durante 2.100 anos preservada úmida, com praticamente todas as vísceras intactas. A bem da justiça, deve-se dizer que a arqueologia chinesa, depois da revolução de

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1949 (ou libertação, como eles dizem), fez progressos fabulosos.

Não seria essa a minha primeira observação arqueológica na China. Dias antes, pouco depois de termos chegado a Pequim e quando voltávamos da visita à Grande Muralha, havíamos percorrido demoradamente a tumba de um dos treze reis da dinastia Ming. Para lá chegarmos, andamos primeiro por uma estrada única no mundo – ao longo da qual e. por dezenas de quilômetros, enormes camelos, leões, cavalos, dragões de pedra e outros animais desconhecidos, postados em ambos os lados do caminho dão passagem ao visitante. Ê a via sagrada que leva a uma colina onde se situam treze túmulos de antigos imperadores chineses. Assim como os egípcios, depois do saque inicial de suas pirâmides, passaram a ser enterrados em sítios secretos no Vale dos Reis, assim também procederam os imperadores da antiguidade chinesa. Com a diferença que a sorte ou a prudência lhes proporcionou. Ao passo que praticamente todos os túmulos egípcios foram pilhados, menos o de Tutankamon, as tumbas dos chineses permaneceram intactas até a revolução comunista. Embora o povo tivesse uma vaga lembrança oral de que ali se encontravam enterrados treze imperadores (muitos dos quais com boa parte da corte), ninguém tinha conseguido localizá-los. Até hoje apenas dois mausoléus foram descobertos: o do imperador Yong Le e do imperador Wan Li. Dos dois, este foi o único completamente escavado. Num verdadeiro palácio subterrâneo, composto de várias dependências estanques, cada uma isolada da outra por gigantescas portas de mármore, jaziam os restos de Wan Li e das duas imperatrizes com quem casou e que ali tinham sido sepultadas antes dele. Os corpos estavam reduzidos praticamente a nada, mas as riquezas - em sua grande parte ouro, jade e pedras preciosas, foram encontradas intactas. Pela abundância do que acompanhou Wan Li na morte, bem podemos supor como não - Semprre explorrando o povo- acrescenta Mi e das maravilhas que ainda aguardam os pesquisadores chineses quando conseguirem dar à luz os outros doze túmulos-palácios, dos quais o segundo (o de Yong Le) começa a ser desenterrado.

Enquanto isso não acontece, embarcamos numa espécie de Dart Herald e começamos a voar para o sul, rumo ao coração de uma das principais zonas arrozeiras da China: Chang Sha. Ali chegamos depois de pouco mais de hora e meia de vôo, seguindo direto para o hotel isolado no meio de um parque, onde pela primeira vez nos livramos da

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onipresença das buzinas que caracteriza as grandes cidades chinesas. Chang Sha não merece esse qualificativo, pois não ultrapassa 800.000 habitantes, que se dedicam a

centenas de indústrias de porte médio, especialmente as de beneficiamento de arroz, chá, madeira e têxteis. No Hotel há a primeira confissão pública do governo relativo ao fracasso de uma de suas metas: mosquiteiros, não só contra pernilongos, mas também contra as moscas que, pelo menos ali conseguiram triunfar sobre o pensamento de Mao. Em compensação, os colchões, a respeito de cuja fofisse todos se queixavam e que já haviam causado estragos em diversas colunas vertebrais da expedição, não constituem problema, simplesmente por não existirem. Em seu lugar, tábua. E sobre a tábua, em vez de lençóis ou cobertores, toalhas. No banheiro (sem ducha, só imersão), a patente, como sempre, vaza. Mas na sala de recepção, a conversa é muito boa, o chá verde, o orgulho dos anfitriões enorme, não só por receberem gente de geografia tão distante, como por representarem a província natal do grande presidente Mao

- e a múmia, quando é que vamos ver? - pergunta já irritada com tanto oba oba ao

grande líder, uma velha senhora, natural do Rio de Janeiro e que na hora do almoço havia ficado de mal comigo pois eu a contrariara (com muitos modos e boa educação), afirmando que ela estava errada e que não era goma-laca que passavam no pato de Pequim para que ficasse laqueado; e sim sua própria gordura. E antes que Mi ou Liu traduzissem e respondessem, acrescentou:

- Eu tenho verdadeira adoração por múmias!

Cogitei tratar-se de manifestação de puro narcicismo, mas nada disse, enquanto os presidente dos Comitês Revolucionário e do Partido de Hu Nan continuavam narrando as peripécias do velho Mao desde que, jovem ainda, deixara sua aldeia para libertar a China da mão dos feudalistas e imperialistas que a

Num Museu de linhas modernas, todo dotado de perfeito ar condicionado, jaz a marqueza de Tai, da dinastia Han do Oeste. Ela foi encontrada faz apenas dois anos, numa colina, a três quilômetros do centro de Chang Sha e sua descoberta deixou perplexo o mundo científico. Dias antes, em Pequim, nos fora exibido um filme colorido a respeito da exploração, localização dos ataúdes, autópsia e exames médico-laboratoriais procedidos no cadáver. Este, para ser preservado, obedeceu a processos pela primeira vez observados pelos pesquisadores do passado. O corpo foi completamente comprimido por cinco

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vestidos e faixas, que expulsaram o oxigênio das entranhas. Feito o que, colocado dentro do primeiro de uma série de três esquifes, um encaixado dentro do outro. Os caixões foram

depositados dentro de um gigantesco ataúde de cedro e este enterrado a uma profundidade de vinte metros e meio, protegido em todas as faces por camadas alternadas de carvão vegetal e argila branca. Quando o túmulo, por acaso como quase todo achado arqueológico, foi descoberto, chamaram a Chang Sha os maiores especialistas chineses que procederam como verdadeiros cientistas tanto na inumação como no exame da múmia. Esta foi levada a laboratórios especiais e ali alvo dos mais sofisticados exames. Tudo isso o documentário que tínhamos visto mostrou em minúcias, inclusive, o exame dos restos contidos no estômago do cadáver, nada menos de cento e cinqüenta caroços de melão. - Cento e cinqüenta e meio - corrige Liu. Quase todos os órgãos estavam conservados, tanto os internos como grande parte do cérebro e as vísceras, tudo devido à absoluta ausência de oxigênio durante os 2.100 anos em que a marquesa permaneceu enterrada. Tinha 50 anos de idade, era calva (foi sepultada com peruca, que já naquela época era conhecida), mantinha apenas 16 dentes e tinha tido vários processos de tuberculose que seu próprio organismo havia curado. Todos os despojos da múmia estão conservados em líquido especial dentro de caixões de vidro e expostos ao público, bem como milhares de objetos preciosos encontrados nos sarcófagos. A realidade é que em 1973 foi encontrada em Chung Sha a múmia úmida mais bem preservada da história da humanidade - e seu estômago continha cento e cinqüenta e meio caroços de melão - fruta desconhecida na região e somente consumida pela Corte de Pequim. Investigações posteriores de documentos dignos de fé revelaram que o marquês de Tai, marido da múmia tinha sido vendedor de queijo na região, repentinamente promovido

a

marquês. Como? Por quê? De que maneira? Àquela noite depois do jantar, sentado no pátio do hotel o médico René Fernandes,

o

bacharel Roberto Machado de Campos e eu tentamos dar asas à nossa imaginação e aos

nossos conhecimentos de ficção científica arqueológica e reconstituir uma história plausível para a vida e a morte da Marquesa. O resultado a que chegamos foi esse: Era uma vez uma jovem concubina do Celestial Imperador que teve a ventura de dar-lhe um filho.

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Morta de ciúmes, a legítima Imperatriz (que era estéril) mandou que sicários fiéis transportassem a moça para a mais longínqua região sul do império e ali a matassem. A ordem foi quase cumprida, após dois meses de viagem, quando a sinistra caravana chegou a Chang Sha. Ali, à beira de um despenhadeiro, atiraram-na ao abismo. Por um desses felizes acasos tão comuns na China do passado como nas novelas de televisão do presente, um providencial galho aparou a desgraçada em meio caminho para a morte, salvando-a de terrível destino. Ali ficou a pobrezinha gemendo e penando durante dois dias, ainda mais devido ao fato de ter fraturado o braço (detalhe revelado na radiografia da múmia). Foi então que o proletário Tai passou pelas imediações, afim de arrebanhar as cabras das quais tirava leite para fazer queijo. Ouvindo os gemidos (cada vez mais débeis) da dependurada criatura, Tai dirigiu-se ao local onde deparou com a horrível cena. Bondoso por índole e convicção, o queijeiro recolheu a moça deixou de fazer queijo durante uma semana até que ela se recuperasse e, aturdido por tão grande beleza, pediu-a em casamento. Embora relutante, lembrando-se ainda dos confortos da corte – mas morta de medo da imperatriz - ela acabou por concordar.

Casaram-se e foram felizes. Ela se tornou uma queijeira de mão cheia, mas nas noites de verão acordava com suspiros:

- Ah, que saudades daqueles melõezinhos lá da

- Melão? O que é isso? – despertava interrogativo o queijeiro. Ela explicava que era

uma fruta assim e que só os nobres comiam, etc. No outro dia, madrugada ainda, o pobre o Tai preparava um queijo em forma de melão e o apresentava à amada tão logo ela se levantava do catre encardido onde dormiam. Ela sorria, fazia-lhe um bilu-bilu e murmurava:

- Perfeitinho, perfeitinho, só faltam-lhe o gosto e as

Passaram-se os anos. Um belo dia o Império Celestial é abalado pela espantosa nova: o Imperador tinha morrido!

- Viva o novo Imperador! - bradou Tai, saltando da cama. E devidamente instruído

pela mulher, com uma provisão de queijos para três meses, rumou a pé para Pequim. Por todas as informações que ambos haviam recebido o novo imperador seria o filho da mulher de Tai com o velho imperador morto. Na realidade era isso mesmo. Bem, aí o Tai, depois de mil e uma peripécias (e aqui poderíamos encher trinta e quatro capítulos de novelas em TV) acabou por chegar a Pequim onde depois de um mês de chá de cadeira, acabou por ser

.

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recebido pelo filho de sua mulher, aliás o novo Imperador.

- O que desejas, oh! vil queijeiro de Chang Sha?

- Majestade, vou contar uma história que vos proporcionará felicidade, mas antes o

Celestial Imperador vai assinar um documento prometendo que não me matará se nela não acreditar.

O

Imperador, que naquele dia estava de particular bom humor, resolveu ouvir o

queijeiro:

- Está bem, desembucha. Mas ligeiro que devo cuidar dos negócios do Império.

O indigitado (porém persistente) Tai contou então todo o drama, desde os gemidos

da moça dependurada até a sua revelação final de que era mãe do novo Imperador.

O Imperador ficou lívido e bateu palmas:

- Guardas! Matem-no!

O queijeiro então mostrou-lhe o documento:

- Não se esqueça que Vossa Celestial Alteza assinou antecipadamente meu perdão.

Visivelmente mal humorado o Imperador concordou com o perdão. Aí, num desses

ímpetos de coragem que caracterizam os grandes queijeiros, Tai subiu os degraus em cima dos quais o Imperador estava empoleirado em seu trono, chegou-lhe ao ouvido e cochichou-lhe algo que fez o Senhor da China estremecer. Mais ou menos o seguinte:

- Vossa Majestade tem dois sinaizinhos assim, um em cada lado da protuberância glútea, o da direita em forma de coração e o da esquerda parecido com uma

-

Imediatamente promoveu o queijeiro a Marquês cumulou-o de presentes e mandou- o de volta a Chang-Sha, com lembrança à mamãe juntamente com uma caravana carregada de carretas de melões. Estes nunca mais faltaram à nova (e finalmente feliz) marquesa, que morreu com as sementes de um dos quais no bucho - onde as conservou (como prova de gratidão ao filho) exatamente por dois mil e cem

Depois de tanta coisa incrível que já vimos na China é bem possível que a Verdadeira História da Marquesa de Tai seja essa mesmo. Pelo menos na televisão todos nela acreditariam e, certamente, verteriam sentidas e honestas lágrimas.

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A Meca chinesa

A Província aqui se chama Hu Nam. Tem 24.000 quilômetros quadrados e quarenta milhões de habitantes. Estamos no sudoeste e quase no miolo da China. A região é subtropical e o arroz sua principal fonte de produção. Desses quarenta milhões de homens, mulheres e crianças que se concentram numa superfície doze vezes menor do que o Rio Grande do Sul - vejo muitíssimos nessa viagem à vila de Shao Shan, a 104 quilômetros de ônibus de Chang Sha. Por todo o trajeto, um formigueiro humano, muitas vezes numericamente assustador. Tanto na ida como na volta desfila uma paisagem social que até então não tinha visto nem nos cartazes nem nas ruas de Pequim nem nas fotos coloridas da revista China Reconstrói. É aqui que se localiza a alma e o gens deste país de agricultores:

em seu interior. Pela primeira vez vejo gente descalça - mas ninguém esfarrapado, ninguém pedindo esmola em qualquer das inúmeras aldeias que atravessamos. Como sempre, não me fazem restrições: posso bater fotos e gravar o que quiser. O que gravo mais, porém, está aqui ainda em minhas retinas: homens e mulheres, com uma espécie de canga no pescoço, puxando carroças com cargas pesadíssimas; um enterro de camponês, o féretro numa carrocinha conduzida por um homem e uma criança, o caixão de madeira tosca e crua; um carrinho de mão empurrado por um rapaz, contendo duas gaiolas cheias de serpentes - e o arrozal. Arroz brotando à beira da estrada e se estendendo até o infinito que meus olhos alcançam. Arroz sendo tratado como se fosse uma haste de ouro, com diamantes incrustados na ponta, talo carinho com que muda por muda é cuidada. Consta, até, que, à falta de inseticidas, certas pragas que o assaltam são exterminadas à unha - do que não duvido. Como não duvido que os arrozais, concentrados nestes cento e poucos quilômetros e com suas duas colheitas anuais, sejam capazes de matar a fome e fornecer energia não só para os quarenta milhões de habitantes de Hu Nam como para grande parte da China.

Esse mérito a revolução de Mão-Tse-Tung teve: desde que os comunistas se apossaram do poder, a China não mais passou fome como aconteria atualmente na União Soviética, não fossem as importações maciças de grão que os russos vem efetuando dos países do mundo ocidental, notadamente Estados Unidos, Canadá e Austrália.

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Na China, a agricultura até agora tem funcionado e, se bem que de maneira modesta, alimentando uma população que soma cerca de 25% do total dos habitantes da terra. Por isso, mesmo apesar de toda a despersonalização a que foi submetido, o povo não deixa de ser grato a alguém que não permitiu até agora que se repetissem cenas como essa narrada por Jack Belden *:

«As estradas estavam cheias de corpos. Na primavera de 1942, os brotos das árvores foram comidos pelo povo esfamiado. As cascas de cada árvore foram devoradas e seus troncos tinham uma estranha aparência branca, como se fossem gente despojada de suas vestes. Em alguns lugares, o povo comia excrementos do bicho da seda. Em outros, uma estranha argila branca. Mas essa alimentação somente constituía uma ilusão para o seu sofrimento e em poucos dias as vítimas Os que sobreviviam foram-se tornando cada vez mais fracos e, mesmo nas áreas onde havia água e chovia, estavam débeis demais para poder arar ou plantar. Essa espécie de fome é comum na China, onde é conhecida como fome sucessiva,». E acentua o repórter americano em seu dramático relato:

«Eu ficava envergonhado de ver o contraste entre essas cenas e as dos generais do Kuomitang (liderados por Chiang Kai Shek), saboreando delicatesses em suas abundantes mesas, enquanto os camponeses escavavam a terra à procura de qualquer raiz que pudesse ser digerida por seus miseráveis estômagos. Mas eu fiquei mais envergonhado - e dominado por um sentimento de repugnância quando soube que esses mesmos generais do Kuomitang estavam comprando as terras dos camponeses moribundos, que não podiam pagar seus impostos para então explorá-las mais Não há dúvidas que o povo chinês teve muitos e muitos motivos para rebelar-se contra seus compatriotas ou estrangeiros que durante séculos o exploraram; mas a fome foi o principal. O caldo de cultura, pois, estava preparado. Faltava apenas alguém que o agitasse para que seu fermento atingisse a explosão, esparramando-se por toda a China e, em sua enxurrada, afogasse ou corresse para fora de seu território aqueles que, impunemente, vinham explorando o país em proveito próprio. Esse alguém nasceu em 1893 naquela casinha ali embaixo, no meio do vale de Shao Shan, onde chegamos agora, e que os chineses reverenciam mais do que os cristãos a Belém ou os maometanos a Meca. Filho de camponês que possui sua boa casa própria e que se dedicava à lavoura e à comercialização de grãos (sendo, portanto, considerado como quase rico em seu meio), o jovem Mao,

(*) - Jack Belden - China Shakes the World (New York: Monthly Review Press, 1971)

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apesar disso, rebelou-se contra o que viu em sua volta e buscou inspiração no marxismo. Bolou um comunismo à chinesa, fundamentado nas massas camponesas que ele tão bem

conhecia (e que passou a manipular) e não no operariado fabril das grandes cidades, por sinal pouco expressivo na China de então ante o número assustador dos homens do campo. O ônibus pára diante de um hotel e daí, a pé, até a casa térrea, de tijolos aparentes e telhas marrom-escuro três dormitórios, uma sala, banheiro e dependências anexas para os animais domésticos - onde Mao nasceu e que desde sua ascensão ao poder foi transformada em museu. Nossos guias, todos no mais exaltado estado de graça, extasiam-se ante a visão do

templo máximo do comunismo chinês. Em Liu, as lágrimas chegam a correr dos olhos

. Mi não nos acompanhou na excursão: suas delicadas coronárias vermelhas talvez não resistissem a tamanha emoção. Filas de centenas e centenas de chineses abrem alas para que os amigos estrangeiros possam percorrer, uma a uma, as dependências do presépio do homem que,

segundo eles, livrou a China da fome e da opressão. Com o que concordo. Especialmente com a primeira assertiva. Quanto à segunda, guardo, prudentemente as minhas dúvidas. Enquanto isso, Liu começa a traduzir as explicações da guarda da casa-museu.

durante a guerra civil os reacionários do Kuomitang incendiaram a casa do

- presidente Mao, mas o povo de Shao Shan a reconstruiu e a preservará para

Voltamos ao cair da tarde, a paisagem humana é a mesma, os arrozais ainda infestados de camponeses, muitos dos quais se dedicam à tarefa de sua irrigação. Um homem ou uma mulher, com um travessão às costas, na ponta do qual estão dependurados dois baldes de madeira cheios d'água aproxima-se de um grupo que logo o cerca. Então, cada um com uma haste, em cuja ponta está fixada uma espécie de cuia de madeira, mergulha-a no balde e vai despejá-la na área mais próxima. Mais adiante, meninos e meninas fazem girar com seus pés uma roda de madeira que puxa a água de um açude, despejando-a no arrozal de hastes curtas, mas já dobrando ao peso dos seus grãos. Volta e meia, ao lado da estrada cruza um homem de traços e aparência fina, com o mesmo travessão às costas, os mesmos baldes dependurados, só que, em vez de água, transporta fezes humanas mergulhadas em palha, destinadas à adubação. Geralmente - pelo menos foi o que me afirmaram - os destinados a tal trabalho são intelectuais da cidade, transferidos para o campo a fim de se reeducarem e aprenderem a ser humildes como o povo o é

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Tanto na volta como na ida, milhares de árvores chegam a obstruir a visão dos campos, tão grande a sua quantidade. A China, desde a revolução, empenhou-se num tremendo plano de reflorestamento e consta que cinqüenta milhões de hectares já foram arborizados. Agora uma aldeia, casas todas de taipa, uma de tijolo queimado, um mini-trator com o motor Apesar da propalada mecanização da agricultura chinesa, 99% da força que vi dedicada à lavoura nessa viagem a Shao Shan - foi a humana. De mais a mais, aqui a pergunta que se impõe: se, por acaso, a China conseguir mecanizar totalmente a sua lavoura, o que fazer com a mão de obra substituída pelas máquinas?

Jantamos ao começo da noite, mas o programa não prevê folga. Meia hora mais tarde, já estamos no principal teatro da cidade, onde vamos conhecer uma das maiores especialidades da Chang Sha, que a torna famosa em toda a China: o seu teatro de marionetes. Diante de uma platéia deslumbrada, dividida mais ou menos em partes iguais entre adultos e crianças, o espetáculo se desenrola dentro de uma nova técnica que até então eu desconhecia: marionetes superpostos a slides que de tão perfeitos parecem paisagens naturais. No intervalo (o espetáculo dura duas horas), as crianças vão ao saguão tomar sorvete ou beber refresco, acompanhadas pelos pais ou avós. Como em toda a China, todos vestem da mesma maneira, o homem só é distinguido da mulher pela altura do corte do cabelo ou pelas feições mais ou menos delicadas. Mas em Chang Sha, o que me chama mais atenção - principalmente por estarmos no coração da China - é a quantidade de senhoras de mais de cinqüenta anos a caminhar sobre seus pés deformados que não medem mais do que oito ou dez centímetros. Por quantas coisas já passou esse povo, meu Deus! Quanto preconceito, quanto sofrimento e não apenas impostos pelos que os oprimiram, mas também por seus próprios costumes que obrigavam as mães a enfaixar suas filhinhas, inflingindo-lhes durante anos a fio dores que nem sequer podemos imaginar, para que quando ficassem moças tivessem os pés pequenos que agradassem aos mandarins e inspirassem seu erotismo e sua

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O último quadro da representação é, talvez mais do que todos os anteriores, uma fábula altamente ilustrativa. Uma cegonha procura, por todas as maneiras, bicar uma tartaruga e, possivelmente, matá-la para comer. A tartaruga ora se refugia dentro d'água, ora galga uma pedra, com o inimigo sempre no encalço. A cegonha bica atrás, a tartaruga esconde o rabo. Bica na frente, ela recolhe a cabeça. Finalmente cansa e olha para o alto para ver um bando de andorinhas passar. Ê nesse momento que a tartaruga voa literalmente para cima da pedra onde está o pernalta distraído, salta-lhe ao pescoço; e o mata. Moral da história projetada simultaneamente na tela em caracteres chineses e que Liu se apressa exultante em traduzir:

Humilha-te sempre que for preciso, mas tem paciência - que acabarás pegando o inimigo desprevenido. As crianças chinesas adoraram a história. Seus pais e avós, muito mais.

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Flávio Alcaraz Gomes

Um repórter acupunturado

Em companhia de ilustre médico da melhor sociedade carioca, cujo nome (como

diria Cervantes e atendendo a seus insistentes pedidos) não devo lembrar, «nem brinca, rapaz: a Associação Médica desabaria em cima de mim» estou me dirigindo ao Hospital do Povo de Changa Shan para sermos acupunturados.

O doutor em questão padecia de pertinaz torcicolo, o pescoço, nos últimos dias

inclinado fortemente para o lado e para a direita, como galo velho em posição de dormir, e eu, além de estar com a coluna e a ciática totalmente doloridas, devido à moleza dos colchões de Shangai e de Pequim, fazia quase uma semana que padecia de insônia, não conseguindo dormir mais de duas horas por noite. Como havíamos lido e sido informados que a acupuntura poderia resolver tais males e, também, imbuídos da curiosidade, a qual, como se sabe, é a mãe de todas as ciências e de toda a sabedoria, conversamos demoradamente o Mi e obtivemos sua aquiescência para a operação. São oito horas da noite, terminamos de jantar - «não tem importância, vocês podem comer à vontade, que não faz mal nenhum» - e lá vamos pelas ruas mal iluminadas da capital de Hu Nam, rumo à Grande Experiência. Viajamos num táxi com as cortinas das janelas como sempre brancas e como sempre fechadas, nós dois no banco de trás e Mi ao lado do motorista, na frente. Pelo trajeto, desfilam as casas e a população pobre de Chang Sha. Faz calor e, como acontece também nas cidades do interior do Brasil, há muita gente sentada diante da porta de suas casas, todas térreas, tomando a fresca, ouvindo rádios portáteis e fazendo hora para dormir.

O hospital é pobre e de aspecto sujo como o meio que o circunda. É térreo,

cinzento, e se situa isolado em meio a um parque de olmos e ciprestes. Seu saguão de entrada é mal iluminado, não há balcões de recepção, apenas uma dúzia de cadeiras na sala retangular, da qual saem dois corredores, um para a direita outro para esquerda. Alto- falantes invisíveis alternam música chinesa com palavras monótonas, entre as quais, eventualmente, se destaca o nome de Mao-Tsé-Tung. Mi pede que sentemos só um momentinho e em seguida volta acompanhado de um cavalheiro de aspecto simpático, aparentando seus cinqüenta anos, calças azuis, tênis e avental branco três quartos. Ele entra

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Flávio Alcaraz Gomes

de mãos dadas com um menininho e saúda os amigos brasileiros, à disposição dos quais ali está. É o médico acupunturista «homem de muita ciência», segundo nos fala Mi e que saiu

de casa, trazendo consigo o filho, especialmente para nos atender. Convida-nos para a clássica sala de chá e ali, enquanto fumamos e bebemos a infusão, ele, o Mi e logo mais uma doutora, passam a nos ouvir atentamente. Primeiro o nosso médico (tendo se certificado antes de que eu estava com o gravador desligado) expõe as suas mazelas e as suas esperanças. Depois é a minha vez: e, mais com vistas aos ensinamentos que dela poderão colher os pósteros - ligo o gravador e desabafo:

- Não consigo dormir, e não é só apenas devido ao barulho e aos mosquitos. Já tenho dificuldades em caminhar, tanto me doe a O médico e a médica, atentos à tradução que Mi vai fazendo crivam-me de perguntas:

- Há quanto tempo tem dores? Que idade tem? Já realizou algum tratamento? Qual foi? Já fez radiografia? Elas não acusaram cariticação?

- O que, Mi?

- Carificação, Senhorr Gomes: umas pequenas adesões cárcio.

- Ah! calcificação. " Sim, diz a eles que sim.

- Pressão tem?

- Tenho. Sete por doze.

Há uma grande discussão entre o tradutor e os médicos. Mi resume as suas conclusões:

- Não é possível!

- É sim, Mi, pode perguntar ao dr. João Fernandes, em Porto Alegre, Brasil:

mínima se-te e máxima do-ze. Nova conferência, depois uma risada geral:

- o senhorr Gomes quer dizer 70 por 120.

- Bem. Acho que botando um zero à direita dá isso mesmo

- Ótimo. vamos passar para a outra sala.

.

Passamos para a outra sala, idêntica à primeira, com a diferença de possuir uma cama para exame clínico e, à esquerda, uma mesinha sobre a qual há uma caixa de metal cheia de agulhas. São elas. Sentamos em duas cadeiras de vime e os médicos perguntaram se estamos prontos.

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- Tem que tirar a roupa e se deitar?

- Não. Assim como estão, sentados como estão. Quem quer primeiro? E eu sem esperar segunda pergunta:

- Primeiro o doutor ali, que é colega de

O médico chinês, aproxima-se de meu companheiro, examina o músculo

engorgitado, duro e entumecido que obriga o pescoço a torcer-se, baixa ligeiramente o colarinho de sua camisa e volta para a caixa das agulhas, onde pinça três delas, agarrando- as pelo cabo cobreado com o polegar e o indicador.

Volta para o paciente, pincela a região que vai ser perfurada com algodão embebido em álcool e - zás num questão de segundos meu amigo está com três agulhas profundamente cravadas em três pontos diferentes da parte posterior do pescoço. Desligo o gravador:

- Que tal; doeu, doutor?

- Você está com o gravador desligado?

- Estou.

- Então vou te dizer: sujeito pusilânime não agüenta isso. Não se sente nada quando a agulha entra, mas

- e a máscara de dor

estampada em seu rosto se encarrega de dizer o resto. Olho, preocupado e esperançoso, para meu relógio: quem sabe se eu sair bem ligeiro agora ainda pego o fim do primeiro ato do Teatro de Marionetes? Mas crio coragem, afinal sou gaúcho do Rio Grande do

- Pode dizer aos doutores que estou pronto, Mi.

A partir daquele momento, começo a servir de palco para a dança das agulhas acupunturais. A exemplo daquele louco americano que se suicidou com veneno e com gravador ligado narrou seus momentos finais até a morte, assim faço eu, registrando na cassete o que vejo e o que sinto. Em minha própria carne.

Os dois médicos se põem a minha frente e começam a falar:

- Você não deve ter medo, pois não vai sentir nada, apenas um ligeiro formigueiro e

uma sensação de inchaço e de calor. Depois ficará completamente aliviado. Mas não se esqueça: para curar-se do que tem, uma só aplicação não vai adiantar. Poderá aliviar-lhe as

dores e eliminar-lhe a insônia por um curto período mas, para ficar completamente bom, deverá continuar o tratamento.

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- Mi, pergunta para eles se essas agulhas estão desinfetadas, se não tem perigo de se pegar uma hepatite?

- Uma quê?

- Uma doença que dá no fígado e que deixa a gente todo amarelo como

Mi custa a compreender, mas finalmente traduz e já responde.

- Eles dizem que não. As agulhas são autoclavadas.

- OK. Estou à disposição da

Não sinto absolutamente nada quando ele me aplica primeiro uma agulha de cada lado do pescoço, depois a terceira em meio a duas vértebras cervicais. Em seguida, o

doutor manda que eu levante o punho da camisa do braço direito e baixe a meia do pé esquerdo e, respectivamente, num ponto a quatro ou cinco centímetros acima do pulso e noutro, na metade do músculo interior da perna, crava mais duas agulhas. Essas (eu as vejo), entram profundamente na epiderme, creio que mais de uma polegada.

- Doeu?

- Nada.

Mal tinha concluído minha negativa, quando os cinco pontos começaram a latejar, a

formigar, a me dar a impressão de que estavam enormemente inchados - e a doer.

- Quanto tempo tenho de ficar assim, Mi?

- Quinze minutos.

Os doutores saíram com Mi, a criança ficou na sala brincando com um revólver de

plástico, eu comecei a ver tudo encarnado. Uns cinco minutos depois, voltaram e começaram a torcer, manualmente, uma a uma, todas as agulhas. A perna esquerda doía muito, quase que de maneira insuportável. Nós estávamos sendo acupunturados da maneira mais primitiva, já que atualmente as torções (que outra coisa não fazem do que transmitir impulsos aos nervos) são substituídas por uma corrente elétrica contínua de fraca voltagem, conforme tínhamos visto

nas operações a que assistíramos em Shangai.

- Mi, diz a ele que não dá mais para agüentar a dor na perna

O médico ouve a reclamação e, imediatamente, retira a agulha. Imediatamente, também, aplica-a com a mesma profundidade em ponto idêntico da perna E ali ficamos, o médico brasileiro e eu, vítimas voluntárias de uma das incontáveis experiências (e elas não se desenvolvem apenas na medicina) que estão sendo realizadas

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nesse fabuloso laboratório humano que é a China. Vinte minutos depois (não foram quinze, ah, não!) nos tiram as agulhas. A dor passa por completo, resta apenas um formigamento que logo se desvaneceu enquanto tomávamos o chá de despedida e pagávamos a consulta: meio yuan para cada um, ou seja três cruzeiros e cinqüenta centavos, isso porque o médico tinha saído de casa especialmente para nos

à nossa volta ao hotel, todos queriam saber como foi, doeu, não doeu, vocês são mesmo é dois malucos - mas a verdade é que o torcicolo do médico tinha desaparecido quase que inteiramente. Por outro lado, minhas dores na coluna (e dos pontos de acupuntura que, para falar a verdade, chegaram a me causar mais mal do que o que originara sua aplicação) também tinham cessado. Quanto à insônia, bem já são nove da noite, os amigos não vão me levar a mal (bocejo), mas hoje eu levantei muito cedo (novo e mais longo bocejo) e não agüento mais de Subo para o quarto, a muito custo me dispo e visto o pijama, me enrolo na toalha que serve de lençol e cobertor ao mesmo tempo - e fecho o mosquiteiro. Ao longe, bem ao longe, além do bosque que cerca o hotel, ouço o som de um

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Sexo

Na tarde de domingo, 5 de outubro, nos embrenhamos ainda mais dentro da China. Desta feita, viajamos num bimotor ligeiramente caquético, em direção da fronteira com o Vietnã do Norte. Uma hora de vôo e no meio do caminha descemos. O aeroporto, muito modesto, mas sempre com o retrato gigantesco do presidente Mao a saudar os que chegam e a despedir-se das que partem, é o Kwelin, cidadezinha de 320.000 habitantes, centro da região autônoma de Tchouang. Cidade histórica, com sua origem remontando a mais de dois séculos antes da nossa era, Kwelin foi uma das bases de resistência durante a invasão japonesa, mas seu maior mérito reside na beleza natural que a envolve. Na sala de chá da hotel onde nos alojam (e que é um dos melhores em que até então nos tínhamos hospedado), os representantes do Comitê da Partido e do Comitê Revolucionário louvam os encantos com que a natureza dotou a região, mas aos quais somente foi dada a devida importância depois da ascensão do presidente Mao ao poder. Dizem eles que há trezentos e sessenta milhões de anos, tudo aquilo era fundo lio mar, o qual, ao recuar, deixou uma camada calcárea de centenas de metros. Esta após séculos de erosão, fez com que Kwelin se transformasse num cenário fascinante, crivado de montanhas degoladas e que constituem uma das paisagens mais bonitas que eu jamais tinha visto. Àquela altura havíamos ultrapassado a primeira metade de nosso programa de viagens pela China. Na verdade, já nos encontramos na curva descendente. A escala (e a longa permanência em Kwelin, onde iríamos ficar durante três dias) nos seria dada como férias a escolares que se comportaram bem durante os exaustivos itinerários anteriores, durante os quais cumprimos, rigorosamente, visitas todas as manhãs, todas as tardes e todas as noites.

Pura ilusão. Tão logo a lavagem cerebral de boas vindas e os primeiros tubos de chá são absorvidos, e nem tendo as malas ainda chegado, já nos determinaram um programa obrigatório - o de visitar uma das milhares de cavernas que existem respectivamente sob cada uma das montanhas de Kwelin.

Embora eu não seja muito aficionado em matéria de cavernas (cuja visão pensei tinha completado com a visita que, anos atrás, fiz às Grutas de Han na Bélgica), lá vou eu,

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numerado, rotulado e despersonalizado graças ao aliciante mimetismo chinês, junto com o grupo, para percorrer um dos orgulhos da região: a caverna das sete estrelas. O ônibus nos deixa no sopé da montanha, galgamos duzentos e tantos degraus e depois mergulhamos nas entranhas da terra, a guia e tradutora desta feita é a Liu. Devemos andar sempre em bando, para não nos perdermos e, à entrada, procedem minuciosamente a nossa contagem, que deverá coincidir com o número dos que saírem lá do outro lado, a um quilômetro de distância. Faz frio, é úmido, a gruta é imensa, mas não tem nem estalactites nem estalagmites, o que não deixa de demonstrar sua relativa juventude. Liu nos explica que se trata do antigo leito do mar e mais tarde de um rio, a prova é que a rocha está recheada de vestígios de ostras e de toda a sorte de conchas. Seus recantos de maior beleza são iluminados por luzes verdes, azuis e vermelhas. Motivos, figuras e cenas os mais diversos nos são taxativamente apontados pelos exegetas da caverna que nos acompanham. Qualquer coisa assim como o teste de Rorschach. Ora é aquela rocha que parece um abacaxi (e que na verdade não se assemelha a coisa nenhuma), ora uma protuberância que parece um foguete e, lá ao alto, todo

- Ah! que presépio tão bonito - exclama a velha senhora que adora múmias. Reparem só a perfeição: os três Reis Magos, José, Maria, o Menino, os boizinhos, as

- Nada disso - atalha a guia, devidamente inteirada da interpretação. E esclarece: a cena representa três latifundiários feudais e impiedosos tirando os animais do casal camponês e de seu filhinho que não tinham dinheiro para pagar impostos. Aliás, a respeito nosso grande presidente Mao Desligo o gravador, para mim por hoje chega de gruta.

Exclusivamente agrícola até a revolução, Kwelin começou ultimamente a industrializar-se. O que mais orgulha seus habitantes é a fábrica de seda da cidade, que emprega 2.400 operários e que está produzindo 240.000 metros de tecido por dia. Durante mais de duas horas percorremos suas instalações, desde o pátio de entrada, onde se empilham pirâmides de sacos, contendo os casulos do bicho da seda e empestando o ar com cheiro de peixe em decomposição - até a fase final de tecelagem, estamparia e acabamento do produto. A maioria da produção se destina (segundo eles) ao consumo interno do país, não restando mais de 20% para a exportação. Na sala de chá-e-de-crítica-e-

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autocrítica de despedida, explicam-nos que a Fábrica, como tudo na China, é administrada, orientada e dirigida pelo Comitê do Partido Comunista, ao qual está subordinado o Comitê

Revolucionário. Este é integrado por operários, técnicos e dirigentes e mantém entre si um equilíbrio numérico entre jovens, homens de meia idade e trabalhadores veteranos, eleitos por seus companheiros de fábrica. Eles somente podem integrar o Comitê Revolucionário depois de terem tido seus nomes aprovados pelo Comitê do Partido Comunista, que é quem manda na China.

- Quantos membros tem o Partido Comunista Chinês?

- Trinta milhões.

- Não é pouco, numa população de novecentos milhões ?

- Talvez, mas não é fácil ingressar em suas fileiras. Só aqueles que conhecem profundamente o marxismo e passaram por todas as provas. Não posso imaginar (nem acho que ficaria bem perguntar) que espécie de provas seriam aquelas, mas tenho interesse em mais duas informações:

- Dos 2.400 operários, quantos são escolhidos anualmente pelos Comitês respectivos para poder estudar nas Universidades?

- Cinco.

- Quantos dias de férias os operários têm por ano?

- Um dia por semana, mais os festejos do 19 de outubro (de 3 a 4 dias). Se, porém,

o trabalhador viver numa cidade e sua mulher noutra, ele poderá ser beneficiado com 12 dias. Se trabalhar extra mais dez domingos ficará, então, com vinte e dois dias. Ao meu lado, um engenheiro paulista me segreda:

- É pena que muita gente boa no Brasil não possa ouvir essa

À noite, apesar dos mosquitos, sentamos ao lado de um chafariz (inativo) diante da porta de entrada do hotel. Seu hall e demais dependências estão tomados por búlgaros que, como nós (e dentro da quota mensal de 1.000 turistas estrangeiros autorizada pelo governo), estão descobrindo os misteriosos caminhos da China. Depois de tantos dias de viagem em comum, já somos como que uma grande família, segundo há pouco sentenciou

o dr. René Fernandes, que com a cabeça encostada num pilar e o corpo estirado sobre as

bordas da fonte, filosofa asiática e descansadamente. Já jantamos, são apenas oito horas e

não há absolutamente o que fazer. É quando chega Michel, que se aproxima por trás de Liu

e a tenta abraçar. Liu se esgueira como enguia e, depois de ligeira escaramuça, consegue

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escapar de nosso Dom Juan:

- Não é nada, não, Liu. Apenas uma demonstração de amizade carioca, para com os

amigos

- Nós, em nosso país não admitimos essas liberdades - diz ela, furiosa. E se retira

lacrimejante. A conversa, daí em diante, gira sobre a questão do sexo na China, algo que (pelo menos na aparência) é absolutamente inexistente antes do matrimônio. A propósito, lembro de um trecho do livro de Harrison Salisbury* que há pouco li e vou buscá-lo no quarto e traduzo para os amigos brasileiro. Diz o seguinte, contando a experiência de um grupo de estudantes sino-americano que visitaram a China:

«John colocou seu braço sobre meus ombros conta uma moça da Universidade da Califórnia. Aquilo não queria dizer nada, era apenas o jeito de John. Foi então que ouvi um chinês que por nós passava dizer:

- Olhem aquele casal! Vejam que barbaridade estão fazendo! Candy (outra estudante) observou que os chineses são completamente assexuados no que diz respeito a relações entre moços e moças. John concluiu que os chineses sublimaram tanto o sexo, que não pode haver comparação entre eles e os ocidentais. Eles se mantém ocupados durante todo o tempo e desde a madrugada até a noite, se dedicam a exercícios e atividades exaustivas. Nas horas vagas, entregam-se a trabalhos em grupo, leituras e competições atléticas. Eles não têm tempo nem energia para o sexo. Quando perguntamos aos nossos colegas da Universidade de Pequim sobre o homossexualismo na China eles se mostraram extremamente chocados - ofendidos é o termo melhor. Eles simplesmente não sabiam que tal coisa existia e não admitiam falar a respeito». Ao que o jornalista do New York Times acrescenta suas próprias conclusões (com as quais, modesta, porém integralmente concordo) :

«Nem decreto nem insistência ao conformismo podem eliminar as profundas tendências fisiológicas inerentes ao ser humano. Uma atitude universal de que não podei existir o homossexualismo não o elimina. Especialmente em um país como a China. Basta percorrer os clássicos da literatura chinesa, para perceber que o amor entre homens e entre mulheres foi um elemento constante na sociedade desde as turvas origens de sua história. Os clássicos chineses fazem pouca ou nenhuma distinção entre o amor de um homem por outro homem - ou, com mais freqüência, entre o amor de um homem adulto e um rapaz bonito - e o amor entre um homem e uma bela mulher. De fato, julgando por tais descrições, esse relacionamento dá a impressão de ter sido muito comum, não. merecendo o opróbrio social. Na verdade, tal literatura era largamente ligada às classes ricas ou nobres, mas não há evidências de que o homossexualismo não fosse reconhecido e praticado entre todas as classes da China. Para ser honesto, eu não poderia outra coisa fazer, senão imaginar quão duradoura há de ser essa atitude de espanto, horror e repulsão que aparentam contra o homossexualismo.

(*) - Harrison E. Salisbury - To Peking and Beyond - Arrow Books - Londres, 1973.

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Ela me dá a impressão de ser mais cosmético do que base. Isso obviamente não significa que não exista homossexualismo na China. Significa simplesmente que - no presente- não há homossexualismo aberto, porque a sociedade chinesa não só não permite nenhuma de suas manifestações, como se nega a admitir a possibilidade de sua ocorrência». E conclui Salisbury:

As autoridades chinesas com as quais falei a respeito, disseram admitir sem reservas o fato da pureza dos jovens de ambos os sexos, no caso, sua virgindade física. Na realidade, acredito que a sociedade chinesa professe um código moral que é precisamente o que Mao-Tsé-Tung proclamou para suas tropas durante sua Longa Marcha. E a evidência é de que tanto Mao como a revolução cultural inundaram a China com uma maré de moralidade». Ao que - e só para terminar de ilustrar o assunto acrescenta Robert Guillain* que:

«o bom comunista chinês coloca o amor após as necessidade da produção e sabe, mesmo que os dois são inconciliáveis. O amor é importuno, pois perturba a produção, faz com que o trabalhador seja irregular, solapa sua. energia e o faz perder seu zelo político. De qualquer maneira, o registro de vigilância mútua torna as infrações difíceis. O despiste às vezes acontece, mas logo é detectado e denunciado, num clima de repressão anti-sexual que, em certos casos, provoca dramas e mesmo suicídios».

São pouco mais do que nove horas; e vamos dormir. Quando cruzo o corredor não capto nenhuma música ao longe. Mas, do quarto de Liu, me parecem partir

* - Robert Gnillain "Dans 30 ans Ia Chine" - Ed. Senil - Paris, 1965.

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A longa descida pelo rio

Puxada por um rebocador, uma chata desce lentamente o Li Jiang, que deixa suas águas límpidas correrem em direção à fronteira do Vietnã do Norte. A água é tão transparente que se enxerga o leito, composto de seixos e o rio se espreme entre cadeias de montanhas que o escoltam em todo seu caminho. Ê uma das paisagens mais bonitas da China e talvez do mundo inteiro, o planeta ainda quase em seu primitivismo, como que brotando da infância, os seres humanos que vemos no percurso como que se situando no mesmo estágio. Nem para eles nem para o rio Li Jiang, a revolução de 1949 e muito menos sua sucessora, a revolução cultural de 1966, parece ainda ter chegado. Homens e mulheres rudes e velhos encarquilhados como raízes singelamente nos saúdam, batendo palmas entusiasmados quando passamos; o que quase não vemos são crianças. Casas de taipa, de tijolo cru ou de pedra se agacham às margens, em cuja parte fronteira ancoram ou partem ou chegam curiosas embarcações. Elas se assemelham às jangadas do nordeste brasileiro, construídas com cinco varas de um bambu gordo, com mais de quinze centímetros de diâmetro, fortemente ligadas entre si, com uns cinco ou seis metros de comprimento. Só permitem montaria para um homem, o qual, com pequeno remo ou simplesmente com uma vara, consegue manobrá-las, com extrema perícia. Em todo o itinerário o rio não dá a impressão de ter mais de dois metros de profundidade e, em certos trechos, o casco da chata raspa seu fundo. A embarcação tem três andares, o de baixo destinado à cozinha e depósito e os dois superiores, o primeiro com cadeiras de vime e o último com bancos paralelos, servem para transportar os a1mrigos' 6straingeriros) que desde a descoberta da paisagem de Kwelin visitam incessantemente a cidade. Hoje, por exemplo, compartilhamos a excursão com um grupo de búlgaros que, contrariando o que deles se poderia supor - sentam-se à direita, deixando a esquerda para os

A uns cento e cinqüenta metros à frente e nos puxando com um cabo de aço, lá vai o rebocador, apitando nas curvas e batendo seu sino à medida que cruza por outras embarcações. Essas, em sua maioria são constituídas por comboios formados por três, quatro, cinco e às vezes seis chatas, carregadas de produtos da terra - arroz, bambu, sorgo - que sobem o correntoso rio movidas exclusivamente à força humana. Jamais poderia

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imaginar que existisse maneira semelhante de propulsão aquática, na qual o homem faz mais força e se sacrifica muito mais do que qualquer besta de carga. É assim: num pequeno caíque, dois homens, um remando e outro segurando um cabo ligado ao primeiro dos barcos da flotilha, navegam rio acima. Chegando a uma distância de aproximadamente quinhentos metros, fixam a sirga firmemente numa pedra ou a ancoram e fazem sinal para

a chata inicial. Então, em seu tombadilho, um grupo de dez a doze homens, mulheres e

crianças, vão fazendo girar o cilindro - o cabrestante, colocado em posição horizontal -

uma espécie de bobina gigante, em torno do qual vão enrolando a corda de aço fazendo com que a embarcação, muito penosamente, vá vencendo a correnteza e subindo o rio. Paralelamente, à margem esquerda, outro grupo, constituído por idêntico número de criaturas, como se fossem animais de tração, puxa outro cabo, preso a seus pescoços como Não é uma cena isolada. Durante todas as oito horas de viagem que gastamos descendo o Li Jiang a mesma visão se repetiu dezenas, centenas de vezes, chegando a identificar-se com a própria paisagem física do rio de Kwelin, uma das mais dramáticas que jamais vi.

Aproveito uma pausa entre as cantorias com que os brasileiros patrioticamente

homenageavam os búlgaros (Mamãe eu quero; Lig-Li-Lé, etc.) e me sento ao lado de Liu. Falta-me recolher, ainda, alguns dados sobre a China e ela bem que poderia fornecê-los. Assim, por exemplo:

- Como é que funcionam os salários aqui na China, hein Liu?

Ela fala como se tivesse a lição de cor na ponta da língua e explica:

- Há oito níveis salariais dos quais o mais alto não pode ultrapassar em oito ou, em

alguns casos, dez vezes o menor de todos. Um operário, por exemplo, começa a trabalhar

ganhando de 20 a 35 yuans (repetindo: um dólar = 1,90 yuans), ao passo que os veteranos podem chegar a atingir até 200 yuans por mês.

- De que dependem os oito níveis?

- De técnica, da capacidade de trabalho e do tempo de serviço de cada um.

- Mas dá para viver com um salário de 35 yuans? (ou seja, cerca de Cr$ 160,00 no câmbio atual do Brasil). Dá mesmo, Liu?

- Esse salário é geralmente ganho por um jovem, que mora em dormitórios comuns

e come em cantinas coletivas. Se for casado, soma o salário com o da mulher. O governo o subvenciona com muita coisa, como assistência médica, medicamentos, barbeiro, papel

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higiênico,

- E, você, quanto ganha, Liu?

- Ganho 60 e meu marido 72 yuans. O aluguel de nosso apartamento é de 6 yuans

(o aluguel não pode nunca ultrapassar 5% do salário da família). A comida, como você viu, é muito barata, a roupa também. Esses trajes que todos nós usamos e que vocês chamam de Mao em homenagem ao nosso Grande Presidente podem ser comprados a partir de 12 yuans) que custam os confeccionados de algodão. Há alguns de tergal que chegam valer até o dobro. Nós dificilmente compramos mais de duas roupas por ano. Um par de sapatos

custa quatro yuans, tem radinho de pilha que a gente encontra até por 16 yuans. Os rádios maiores e fixos chegam a 130 yuans, quase o preço de uma bicicleta. Destas, as mais baratas valem 140. Um relógio de pulso sai por 140, uma máquina de retrato 60, uma camisa de boa qualidade 5

- E televisor, alguém tem, Liu?

- Poucos. Os pequenininhos custam 350 yuans. Mas quase todos os edifícios tem uma sala coletiva com um aparelho até mesmo em

- Não há nada que seja particular? Tudo pertence mesmo ao estado?

- Sim. Mas nos campos os comuneiros costumam ser donos de suas casas. Meu

sogro, por exemplo, faz parte de uma comuna e a casa onde mora é dele, bem como uma

pequena área onde pode plantar e criar. Esses desvisionismos capitalistas, porém, deverão acabar com o tempo.

- E essa gente que se vê vendendo sorvete em carrocinha ou balas e doces?.

- Todos cooperativados, sob o controle do estado.

- Até mesmo esses pobres homens pedalando tríciclos-táxis, que se vê muito em

Chang Sha e Kwelin? - Claro. Entre nós todos os trabalhos são considerados dignos e iguais. Antigamente, recolher para adubo estrume humano era visto com desprezo, hoje não. Há

muitos homens, formados até em Universidades, que se dedicam a essa tarefa. Tudo que é feito para servir o povo é nobre.

- Por falar em Universidade, como é que o aluno tem acesso? Aliás, por que vocês não nos proporcionaram nenhuma visita às Universidades?

E ela, sem a mínima hesitação, a lição totalmente bem decorada:

- Porque estão em

Mas, respondendo à sua primeira pergunta, o processo é

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o seguinte: Primeiro o operário ou o camponês pede registro para a Universidade no local onde trabalha. O registro é levado então às massas, que fazem ou não fazem sua recomendação. Em sendo feita, deve ser submetida ao Comitê do Partido Comunista que a aprova ou não.

O barco apita numa curva mais acentuada e não sei por que me lembro do decreto

Ou na

477 instituído pelo governo da revolução no Brasil. Seria ele criticado na China? Rússia?

- E as vagas, Liu?

- As vagas são atribuídas anualmente por comuna ou por fábrica. Temos progredido

bastante no setor do ensino, aqui na República Popular da China. Antes da libertação, havia apenas 15% de alfabetizados, agora é o contrário: 85% sabem ler e escrever e só 15% (quase todos homens e mulheres velhos) é que continuam iletrados. O primário foi universalizado e o secundário ainda não, temos falta de locais e de professores. Mas em algumas cidades, como Pequim e Shangai, todos os alunos que saem do primário já podem cursar o secundário.

- Escuta, Liu, esse negócio dos intelectuais terem que passar temporadas

obrigatórias no campo, pegando na enxada, puxando carroça ou carregando estrume humano, é verdade ou é lenda?

- Claro que é verdade. E é muito bom para eles, que aprendem a não ser

revisionistas. Eu mesmo, uma ocasião, servi três anos inteiros numa comuna popular, fazendo todo o serviço.

- Mas como é o processo?

- Dependendo do intelectual, deve ele (ou ela), passar de uma semana a três meses

por ano entre os camponeses, além de convocações extra por ocasião das colheitas de trigo

e de arroz, quando muitas vezes há falta de mão-de-obra.

- Tem advogados na China?

- Sei que há Universidades de

(Aliás, a Administração da Justiça de acordo com a última Constituição chinesa, promulgada este ano, é algo de estarrecer). Mas voltemos ao barco, que já estamos chegando ao fim da viagem:

- Ô Liu, como é que funciona essa história de crítica e de autocrítica?

- Olhe: se achamos que um companheiro está procedendo mal em qualquer coisa - e

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como somos amigos e humanos - nós o chamamos à parte e lhe dizemos « Você está agindo errado. Corrija sua atitude ou seu pensamento». Aí ficamos observando-o durante algum tempo; e se achamos que ele persiste no erro nós o denunciamos ao Comitê do Partido Comunista que determina sua autocrítica e, conforme o caso, sua reeducação.

- Há presos políticos?

- Há. Eles exercem trabalhos forçados.

- Mais uma pergunta só, Liu: vocês podem viajar de uma cidade a outra?

- Só com licença do Comitê Revolucionário ou do Comitê do Partido da comuna ou da fábrica ou repartição a que pertencemos.

Como disse há pouco, a paisagem física e humana e, agora, também mental que captei em minha viagem pelo rio Li Jiang foi uma das mais impressionantes que jamais registrei. Sob todo e qualquer aspecto.

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Incidente em Kwelin

Na aldeia de Luch Hai, onde nosso barco atracou, depois de oito horas de navegação pelo rio Li Jiang, já nos esperava um ônibus da Luxing-She, órgão estatal do turismo chinês. E. o percurso, por terra até Kwelin não ultrapassou uma hora e meia de duração. Mas apesar da paisagem, não menos bela do que a do rio, não podia esquecer as

cenas que vira, os lentos barcos subindo contra a corrente à força de músculos humanos. Quantos dias, quantas semanas, quantos meses não transcorreriam até que chegassem a

Kwelin?

caiquezinho avançando com o cabo de aço a ser fixado numa pedra e os homens, as

mulheres, as criancinhas, no tombadilho, e à margem a fazê-la galgar o rio

Há quantos e quantos milênios esse povo, oprimido e massacrado viveu e sofreu assim,

Vejo milhões de defeitos no

regime comunista chinês - como de resto em qualquer outro semelhante - mas um mérito indiscutível ele tem: mesmo privando seu povo da liberdade ele tornou digno o outrora

mísero ser, talvez mais bicho do que homem (os russos chamavam e ainda chamam os

chineses de macacos), humilhado permanentemente sob o tacão estrangeiro, fosse japonês, soviético ou ocidental. Mas, filosofia ou doutrinações à parte, ali está escondido em meio da floresta, um enorme radar, a poucos quilômetros de Kwelin. Os guias são discretos, mas positivos: nada de fotos. O resto da cena é mais ou menos semelhante a que percorremos dias atrás, quando visitamos a aldeia de Mao-Tsé-Tung. Arrozais a perder-se e a encher a vista, alguns algodoais, e o que me causa um bruta surpresa: grandes plantações de mandioca. Chego a duvidar do que vejo, sabendo a mandioca típica cultura indígena sul- americana, mas Liu me desfaz as dúvidas:

Os pés são

esperando que um dia o vento leste soprasse a seu favor?

Ê bem possível que, mesmo no momento em que você me lê, lá estejam eles, o

Ê mandioca, sim. Foi trazida há anos do Paraguai, via

muito mais altos que os nossos e, segundo me informa a guia, o povo da região de Kwelin consome sua farinha como pirão no café da manhã, que em toda a China é constituído

basicamente por sopa de arroz ou macarrão, verduras, saladas e, quando dá, um pouco de lingüiça ou de carne de porco, cão, pato ou

Só sei que às oito da noite já estamos jantados como na véspera, fazendo hora para

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Flávio Alcaraz Gomes

dormir, junto à fonte seca do pátio do hotel. Há um movimento desusado no outro bloco do edifício onde, por sinal, tínhamos vislumbrado quando de nossa chegada um muito bem montado teatro. Doutor Orval, um dos líderes do grupo se dirige para o local e desaparece. Pouco tempo depois, volta bufando de raiva:

- Fui desconsiderado! Quero voltar para a civilização! Não agüento mais isso! Não agüento mais isso! Não acreditem vocês na fala mansa e nos sorrisos deles: são todos uns hipócritas! O desabafo do até então circunspecto senhor abala profundamente os amigos brasileiros. Afinal o que teria acontecido? Mas deixemos ele mesmo prosseguir:

- Estavam fazendo uma exibição de acrobacia e mágica para os búlgaros e eu ingênua e inocentemente fui entrando. O Mi e a Liu me viram e me convidaram para sentar. A exibição até que estava interessante quando de repente chegou-se para mim uma sujeita (com certeza a comissária do partido) e com gestos estúpidos e enérgicos mandou que eu me retirasse. E explodindo mais ainda Foi um insulto! E não o tomo só contra mim, mas contra o Sagrado Pavilhão Nacional e o Brasil inteiro! Ora, aquela ofensa a totalidade de nossa Pátria, tão distante e tão querida a todos nos atingiu. Grupos patrioticamente exaltados passaram a conferenciar em volta à fonte, esquecendo até a mosquitama infernal que nos atacava, e uma decisão foi tomada por unanimidade: ou o doutor Orval, teria sua honra (e a do Brasil) reparada ou pediríamos para ir embora para Hong Kong no dia seguinte, apesar dos chineses continuarem retendo os nossos passaportes. Para muitos a disposição veio a calhar, mesmo porque, para falar a verdadeira verdade, a China já começava a nos saturar depois de doze dias de viagem, sem conforto, sem gelo, sem ar condicionado, muito mosquito, outro tanto de sujeira, sem falar na tradicional comida da tradicional cozinha chinesa que poucos ainda conseguiam suportar. Uma delegação foi eleita pelas massas, os doutores Roberto e René à frente - e Michel designado como pombo-correio para tentar penetrar no fortim dos búlgaros e manter o primeiro contato com o inimigo. Entrementes o doutor Orval subiu para seu quarto de onde voltou com o Livrinho Vermelho de Mao, e com o livro não tão vermelho de Peyrefitte para provar, lendo alguns de seus trechos que estávamos de fato em meio a bandidos: Ouçam, ouçam só esta passagem, aqui no Peyrefitte: «As técnicas do regime maoista são piores do que as de Stalin para submeter os russos e as com que Hitler esmagou os alemães». Ou esta aqui: «Ninguém mais dissimulado do que o chinês. Seu gosto pela comédia é proverbial».

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A maioria concordou. E o exaltado (e ofendido) compatriota prosseguiu:

- E olhem só este pensamento do Mao, aqui no tal Livrinho, capítulo II, página 40:

Entra no raio de ação de nossa ditadura, prender, julgar e condenar certo número de

elementos contra-revolucionários

das massas, é necessário igualmente exercer a ditadura sobre ladrões, vagabundos, incendiários, assassinos, bandos de mal-feitores e outros elementos perniciosos que alterarem a ordem pública» . Aplastados pelos pensamentos de Mao (e um tanto assustados, antecipadamente, com as conseqüências do nosso movimento de rebeldia), passamos a aguardar ansiosos, a volta de Michel. Como este demorasse, algumas defecções começaram a se registrar aqui e

para manter a ordem pública e defender os interesses

ali, aos sussurros «eles afinal tinham razão; o que é que o doutor tinha que se meter no

. capitulacionista. E, afinal, por que não? Quem éramos nós para nos rebelarmos contra o pensamento do Grande Presidente Mao? O doutor, afinal, era apenas nosso amigo

circunstancial, e olhe lá. O próprio Pedro, por acaso não tinha achado mais prudente negar o Senhor e entrar vivo na segunda parte do Novo Testamento? Nisto chegou Michel:

- Olha gente, negócio seguinte, foi logo falando com sua gíria carioca. O silêncio

era total, perturbado apenas pelo zumbido de esquadrilhas de mosquitos em vôo de piquê.

O negócio é que tinha havido um tremendo mal-entendido (e aí ele não soube

explicar por que), mas que tudo estava bem. A tal mulher que expulsara o doutor era, de fato, um alta patente do Partido Comunista, só que de outra jurisdição e, segundo tudo indicava, tinha tomado a entrada do brasileiro na platéia búlgara como provocação revisionista. Mi, Liu e o próprio Li (todos a ela subordinados) estavam muito constrangidos, sabe como é, mas que tudo estava bem, estava.

meio dos búlgaros?

.» - e outras argumentações mais ou menos no mesmo diapasão

- Bem como, Michel?

- Não sei. Mas que está, está.

- Afinal, o que é que tu dissestes para eles durante todo esse tempo?

- Bem, eu disse que o doutor estava muito ofendido, ainda mais que adorava

mágicas e acrobatas. Assegurei também que ele não era revisionista e

- E aí o quê?

- Aí eles foram para um canto, ficaram discutindo, enquanto eu assisti à peça sentado numa ótima poltrona. Olhem: tem um mágico que vale a

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Bastante aliviados com as muito convincentes explicações de nosso eficiente pombo da paz, decidimos, patriótica e prudentemente, aguardar o fim do espetáculo e, com

ele, talvez, uma reparação à altura da ofensa. Na realidade, a exaltação geral diminuíra muito, se bem que o ataque dos mosquitos muito aumentasse. Alguns chegaram até a esboçar intenção de retirar-se, «amanhã as coisas se acomodam, total não vamos estragar a amizade entre o Brasil e a China por uma bobagem dessas, o travesseiro é o maior conselheiro», etc. - Mas por muito menos o Brasil rompeu relações com a Rússia no governo . - espumava o doutor, ainda ofendido, e de literatura em punho. Foi aí que apareceram Li, Mi, Liu e a comissária fatídica:

- falaram Liu e Mi monocórdia e

simultaneamente. Ê que a Camarada Comissária pensou que o amigo brasileiro fosse russo.

Quando conseguimos explicar-lhe que se tratava de um amigo brasileiro ela imediatamente fez a sua autocrítica e quer repeti-la para que todos A mulher começou a falar. Era alta, aparência enérgica e torcia constantemente as

mãos:

- Sou culpada de uma grave falta que poderia ter abalado a amizade entre dois

países líderes do terceiro mundo. Amanhã vou apresentar-me ao meu superior no Comitê do Partido Comunista e pedir que me mandem para o trabalho nos esgotos a fim de me

reeducar. Prometo antecipadamente, porém, que jamais voltarei a ter atitudes imprudentes

A lamuriosa e patética cena prolongou-se ainda

e revisionistas como as que tive

por infindáveis e constrangedores minutos. Mas no fim todos apertamos a mão e erguemos nossas palavras à Grande Amizade entre os amigos brasileiros e os amigos chineses. E como, segundo o Michel, o ex-ofendido doutor era louco por mágica e acrobacias, no outro dia a representação do teatro foi dedicada exclusivamente ao nosso grupo, proibida a entrada de qualquer búlgaro.

- Queremos pedir desculpas,

Numa coisa o Michel estava certo: na representação, tinha um mágico que valia a

pena.

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Flávio Alcaraz Gomes

China, potência atômica

Chegamos a Cantão ao cair da tarde de 4_ feira, 8 de outubro. Na véspera, um furacão havia açoitado a cidade o pior desde a libertação) segundo nos informaram - e tivemos que ficar horas e horas, aguardando no pequeno aeroporto de Kwelin, até que a pista onde iríamos aterrar ficasse em condições. Os pilotos chineses são de uma prudência desconhecida entre seus colegas ocidentais e muito dificilmente decolam com mau tempo ou se atrevem a cruzar outro céu que não seja o de brigadeiro. Enquanto esperávamos a decolagem, observávamos o grande número de jatos de guerra estacionados em Kwelin. Havia várias dezenas, quase todos cercados por operários debruçados sobre suas turbinas. Alguns eram Migs antigos, mas a maioria se constituía de aparelhos mais sofisticados.

Embora não construa aeronaves comerciais (que importa dos Estados Unidos, Inglaterra e, pretende inclusive, introduzir em suas linhas civis o Concorde franco-britânico), a China

há anos que vem fabricando caças e bombardeiros a jato e helicópteros, cujos modelos são

copiados das mais modernas versões soviéticas e americanas. Segundo o coronel francês Claude Arnould * , a indústria aeronáutica bélica da China expandiu-se incrivelmente a partir de 1961, quando suas fábricas de Chenyang, construídas pelas japoneses em Maukden, às vésperas da 2ª guerra mundial, começaram produzir o F-6, cópia chinesa do

Mig-19 soviético. Progressos tornaram-se mais rápidos, e a partir de 1965 o país começou a exportar aviões, inclusive para a Paquistão, que em março de 1965 comprou dos chineses vinte Migs-21, capazes de desenvolver a velocidade de Mach 2, com um reator de 4,5 toneladas. Acrescenta ainda o militar e sinólogo francês que a China conhece as segredos

do Phanton II, pois recebeu vários, abatidos pelos norte-vietnamitas e que seus engenheiros

ou já instalaram ou pretendem instalar em carcaças copiadas do Mig 21 reatores do Phanton II - a que dará à sua força aérea um caça com velocidade de Mach 2,5 (duas vezes

e meia a velocidade do som) aproximando-o assim dos mais modernos modelos

americanos e soviéticos. Sendo verídicas tais .observações, a China seria hoje não apenas uma potência atômica como também senhora de uma força aérea digna de respeito - e de temor.

Mas a maior surpresa que um país pobre e subdesenvolvido coma a China poderia