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Confissões
na Bahia
Ronaldo Vainfas

1

INTRODUÇÃO
I
No tempo em que o visitador da Inquisição chegou ao Brasil, o Santo
Ofício Português contava já com mais de meio século de existência. O visitador e sua
comitiva chegaram ao nordeste em 1591 e a Inquisição fora criada em Portugal no ano
de 1536. Muita gente, talvez milhares, já havia sido penitenciada no Reino pelos
tribunais de Lisboa, Évora e Coimbra, ou mesmo pelo longínquo tribunal de Goa, na
Índia, ao qual competia os negócios do Santo Ofício no Oriente, inclusive a costa
oriental da África até o Cabo da Boa Esperança, o ex-cabo das Tormentas.
Entre o vasto rol de sentenciados, não resta dúvida de que, nos primeiros
cinquenta anos de Inquisição Portuguesa, a imensa maioria era composta de cristãos
novos, descendentes dos judeus obrigados à conversão ao catolicismo no reinado de
D.Manuel, em 1497. Parte destes residia já em Portugal havia séculos, mas outra boa
parte vinha fugida da Espanha, vítima de igual medida de expulsão ou conversão
decretada pelos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, no ano de
1492. Gozariam de alguma imunidade os cristãos novos portugueses durante o reinado
de D. Manuel,“o Venturoso”, mas ascendendo D. João III ao trono, em 1521, seu
destino se tornaria cada vez mais sombrio, culminando, após inúmeros percalços, com a
instalação do Santo Ofício. Cum ad nihil magis, assim se chamou a primeira Bula a
instituir, sob o pontificado de Paulo III, o Tribunal da Inquisição em Portugal.
O Brasil esteve, porém, relativamente a salvo do furor persecutório
inquisitorial da segunda metade do século XVI e, não por acaso, muitas famílias cristãs
novas migraram para o Brasil exatamente após 1550, atuando decisivamente para a
ocupação do litoral brasílico. A bem da verdade, os cristãos novos estiveram presentes
desde o início da exploração econômica da Terra de Santa Cruz, bastando lembrar o
arrendamento do comércio de pau-brasil, a preciosa madeira vermelha, a um consórcio
liderado pelo cristão novo Fernão de Noronha ou Loronha. Mas a corrente migratória
data mesmo do meado do século, estimulada, de um lado, pela instalação do Santo
Ofício no Reino, e de outro, pela exploração do açúcar e o povoamento litorâneo
iniciados no reinado de D.João III, “o Colonizador”. À Bahia e a Pernambuco,
principalmente, dirigiram-se os cristãos novos, havendo deles artesãos, lavradores,
mercadores e senhores de engenho, estabelecidos nas mais prósperas capitanias da
América Portuguesa. Os documentos da Visitação do Santo Ofício demonstram à farta a

Antes disso. foi ali que se concentrou a ação inquisitorial do visitador. Anos depois seria a vez de João de Cointa.2 importante presença de cristãos novos no nordeste açucareiro e. portanto. aliás. E outros casos se poderiam citar. o Inquisidor-Geral do reino português. onde seria procesado por culpas de blasfêmias pelo Tribunal de Lisboa. a década de 1590 marcou uma viragem na estratégia das visitações daquela Inquisição que. Mas nenhum deles relacionado a judaizantes. e pouco depois. Jerônimo Teixeira. casos esparsos e mal documentados. Ensaiava-se no Brasil o que a Inquisição Espanhola executava na América há mais de trinta anos. Pero do Campo Tourinho. se até então se concentrara na metrópole. a Inquisição lusitana passaria a atuar no ultramar atlântico do antigo rival. conservando ritos e crenças judaicas em segredo. somente alguns casos singulares de prisões e processos instruídos no tempo em que o poder inquisitorial competia ao Ordinário _ o titular do Bispado da Bahia criado em 1551 _ ou mesmo antes. A vez deles chegaria em 1591. incluindo visitas episcopais na própria Bahia. clérigos e seculares prenderam o donatário de Porto Seguro. Vice-Rei de Portugal. não por acaso. percorreria os Açores e a Madeira. De nada lhe valeria a deserção e o suposto auxílio para a tomada do forte Coligny. em 1596. Mas que se não pense que a visitação ao Brasil possuía o objetivo fundamental ou exclusivo de perseguir os cristãos novos abrigados no trópico. na qual inclusive instalara tribunais do Santo Ofício. bandeando-se depois para o lado português. Em 1546. outro visitador. Não é ocioso. iniciada a Primeira Visitação do Santo Ofício. isto é. apesar de católicos batizados. ficando Portugal sob o domínio dos Habsburgo hispânicos (1588). e o remeteram a ferros para Portugal. doravante se lançaria para o ultramar. pois acabaria preso por blasfêmias e heterodoxias. o grande momento inaugural da ação inquisitorial no Brasil. Tanto é que no mesmo ano em que Heitor Furtado de Mendonça partiu para o nordeste do Brasil. como nos mostram os especialistas no estudo do Santo Ofício Português. tão-somente registrar uma coincidência: recém consumada a União Ibérica. sendo ninguém menos que o Cardeal Arquiduque Alberto de Áustria. nome que se dava aos cristãos novos que apostasiavam. seria o padre Jorge Pereira a visitar Angola por comissão do Inquisidor-Geral. remetido ao Reino e condenado pela Inquisição ao degredo nas partes da Índia. A visitação encabeçada pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça foi. . o senhor de Bolés. vale dizer. Em primeiro lugar porque. retornavam ao judaismo. francês que viera com os huguenotes de Bois le Comte para o Rio de Janeiro.

a bestialidade e outros contatos sexuais assimilados a heresias. entre setembro de 1593 e fevereiro de 1595. Mas neste fim do século XVI. convém repetir. com variadíssima gama de experiências individuais ou coletivas enquadradas ou enquadráveis no território da heresia. as Inquisições passaram a se preocupar com o perigo protestante e a defender a pureza de dogmas e leis da Igreja de Roma: perseguir os que duvidavam da virgindade de Maria. O judaismo secreto dos cristãos novos _ criptojudaismo. no âmbito da Inquisição Portuguesa. continuou a ser a obsessão maior dos inquisidores portugueses. entre julho de 1591 e setembro de 1593. Itamaracá e Paraíba. O leitor do volume deparar-se-á. coisa que em Portugal nunca foi forte. além da heresia judaizante. o campo semântico e penal da heresia se havia ampliado consideravelmente. No limite trariam os inquisidores para o seu foro delitos sexuais como a sodomia. no Arquivo . atos até então adscritos à Justiça secular. reais ou imaginados. do que dá conta a obra que ora se publica. Heitor Furtado de Mendonça visitou a Bahia. Havia ampliado deveras o leque das heresias. e nem poderia. do que resultaram quatro livros de denunciações. e aos mouriscos que secretamente seguiam o Islão. por não haver na Colônia um tribunal inquisitorial específico. os inquisidores acabariam movendo fortíssima campanha moralizante. Um primeiro grande testemunho da vida cotidiana na Colônia imiscuída nos relatos de centenas de indivíduos que confessaram seus erros. Mas o leitor não encontrará neste volume a visitação completa. cidade e recôncavo. Some-se a isto a tradicional perseguição à feitiçaria. Animados por uma política de prevenção contra o avanço da “heresia luterana”. ao atento visitador. e tem-se o novo e vasto quadro das transgressões em matéria de fé sob a guarda da Inquisição Portguesa no final do século XVI. no tempo da Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil. disso não resta dúvida. todos eles depositados. os que negavam existir o Purgatório. portanto _. em manuscrito. processo controlador e adestrador de condutas individuais. e assim seria até a metade do século XVIII. sem dúvida a principal. embora católicos batizados. marco institucional da Contra Reforma. os que afirmavam não haver pecado na fornicação.3 Por outro lado. No caso do Brasil seria mesmo com a Primeira Visitação que os cristãos novos da Colônia passariam a conhecer a desdita dos inquéritos e prisões de que se julgavam até então livres. Mas no rastro do Concílio de Trento (1545-1563). os bígamos. os que questionavam os sacramentos. três de confissões e dois de ratificações. passamdo a perseguir outros erros. portanto. a Inquisição não era mais a mesma. e Pernambuco.

um livro muito curto das confissões de Pernambuco e adjacências. porque os homens fazem a língua e não a língua os homens”. portanto. Trata-se. outro das confissões da Bahia. Afinal. se foi incipiente no gênero. pois. ate hoje não veio à luz na íntegra. antigo diretor da Torre do Tombo. que se vai basear esta nova edição das Confissões.4 Nacional da Torre do Tombo. dos nove livros produzidos pela visitação. sem contudo prejudicar seu estilo “arcaico”. O conjunto do material. cuja reedição há muito se aguarda. . com pequena e precária tiragem. as fórmulas caídas em desuso. julgamos factível publicar somente um dos livros da visitação. publicadas pela primeira vez em 1922. e pelo incansável João Lúcio de Azevedo. mas que talvez não o fossem na altura em que o livro foi escrito. os livros da Bahia só foram publicados. na virada do milênio. e outro mais alentado das denunciações nesta última região. expert no assunto. sem remover até mesmo alguns hoje considerados erros gramaticais. data de 1536 _ por coincidência o ano da criação do Santo Ofício _ a primeira Gramática da linguagem portuguesa. obra que. sem falar nos processos. E dentre o que há disponível. do prefácio original de Capistrano de Abreu. esclarecedor de inúmeros pontos relativos ao traslado. de livro esgotado e raríssimo. Por outro lado. em Lisboa. e muito. vai ler um livro quinhentista sobre os começos do Brasil. ele que nos brindou há décadas com a primeira cópia deste livro. escolhemos um dos que hoje é mais raro e instigante: o das Confissões da Bahia. Ao contrário dos livros da visitação a Pernambuco e arredores. texto suficientemente rico para termos um retrato do Brasil quinhentista. É nas antigas edições. de Fernão de Oliveira. somente quatro foram encontrados e publicados no passado: um livro das denunciações da Bahia. cotejadas com partes do original manuscrito que logramos reproduzir em andanças e pesquisas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.Briguiet e Co. Iremos nos valer. nas décadas de 1920 e 1930. e reeditadas pela Sociedade Capistrano de Abreu em 1935: mil exemplares em papel comum e 150 em papel especial sob a responsabilidade de F. na série “Eduardo Prado”. auxiliado por António Baião. segundo Wilson Martins. com tiragem modesta de 250 exemplares. É o caso das Confissões da Bahia. Éditores. Mas os tempos são outros e algumas modificações se fizeram necessárias para tornar este livro palatável e interessante para quem. continha bom conselho: “E não desconfiemos da nossa língua. Pois bem. Em primeiro lugar assumimos a modernização ortográfica e a introdução da pontuação no texto.

julgamos necessário homogeneizar a onomástica. como já dissemos. sem se diferenciar do “e” conectivo. diria Vieira do amor. procurando-se dar a máxima inteligibilidade ao texto. No caso dos topônimos brasílicos esta foi uma necessidade imperiosa. já pertence ao domínio de uma história antropológica. quer das pessoas. o mesmo sobrenome Pacheco pode surgir como Pachequo ou Pachecu. mestre Capistrano _ são procedimentos que poderão chocar o purismo acadêmico e prejudicar os estudiosos da língua e da filologia. neste pormenor. somou-se. segundo Capistrano. Renúncias. para dizer o mínimo. do que resulta “ho” _ e assim vale para o “é”. compreensivelmente. Em segundo lugar. grafar . Um mar infinito de arcaísmos e imprecisões de que aqui só demos um modestíssimo exemplo. aparece grafado ora como o grafamos hoje. e quando vem sem o “h” mudo. o desconhecimento completo da “língua geral” (o tupi ordenado por Anchieta) _ assunto que. nem é”. “Não há. não havia regra ortográfica no século XVI.5 A gramática portuguesa era incipiente em 1591. bem poderia proclamar-se “fenomenal em fonética”. o notário da visitação. Breatriz ou Breatis. idêntico procedimento foi adotado. perpetrou invenções extraordinárias e variáveis em termos de grafia. por si mesmo. que não raro aparece como “he”. Já as “regras” de abreviatura levariam a grandes enganos se conservássemos a grafia original : o sobrenome Rodrigues ficaria oculto sob a abreviatura Rõiz ou Rois e o próprio Cristo viraria Xpo em algumas passagens. No mesmo texto do mesmo escrivão o artigo definido “o”. pois nosso caro Manoel Francisco. apesar de que. de todo modo. A solução aqui adotada foi. ao “desregramento” da ortografia portuguesa no final do século XVI. Isto porque. sempre que possível. no século XVII. assim como também o era a ortografia. Modernizar a ortografia e introduzir a necessária pontuação _ atos de que se escusou. também dispensa o acento e se grafa “e”.salvará o texto e viabilizará a leitura de um livro antigo que muito nos conta sobre a aurora do Brasil. adotando a fórmula mais atual. o mesmo José pode ser grafado como Joseph ou Josephe. quer dos lugares. Quero crer que. por exemplo. numa só confissão. de sorte que. Mas isto _ estou convencido . a mesma Beatriz pode aparecer como Breatiz. escolhas. embora o assunto permaneça o mesmo. ora com o “h” mudo. trasladar o livro tal qual o escreveu o notário do Santo Ofício levaria o leitor a verdadeiro desconcerto. Quanto à toponomástica. e diríamos nós da ortografia portuguesa nos quinhentos. No caso das pessoas.

então. Mantive-o no traslado da primeira confissão do livro. Seguirei seu conselho. “Muitas notas seriam necessárias ao esclarecimento do texto”. como então se dizia.. recopilado por Antônio de Moraes Silva dicionarista do século das Luzes que também enfrentou problemas com a Inquisição. Licenciado. quando recebeu a comissão inquisitorial. inúmeras vezes. Refiro-me ao intróito “Aos vinte dias do mês de. sem que o seja a informação essencial da data da confissão. a do Padre Frutuoso Álvares. porque são elas realmente imprescindíveis. como ele. mas a maior parte das observações virá oportunamente nas notas. na medida das minhas possibilidades. nosso primeiro visitador. grafar Pernambuco e não Pernão Buco. Inquisidor-Geral que o nomeou para visitar o . ao invés de Peragasu ou Peraguassu. e exercia.6 Paraguaçu. grafar Sergipe no lugar de Ceregipe ou Cerezipe. mouro negro. e as farei adiante. conceituais. II Heitor Furtado de Mendonça. fora Desembargador real e Capelão del rei. gramaticais ou ortográficos far-se-ão ainda necessários ao longo do texto. como na antiga. segundo Capistrano. zeloso de que seus funcionários não tivessem a mais tênue “nódoa de sangue infecto” de judeu. salvo pontualmente. Sua competência nas “letras e sã consciência” para a função de visitador foi atestada pelo próprio Cardeal Alberto. intróito suprimido nesta edição. etc. as confissões dos colonos assustados com a Inquisição. e neste ponto sigo de perto o procedimento adotado por Capistrano: evitei. de sorte que evitarei alongar-me em demasia sobre isto nesta Introdução. muitos esclarecimentos históricos. devia ser homem entre trinta e quarenta anos. Mais adiante voltarei muito brevemente ao assunto. o cargo de Deputado do Santo Ofício.. Valeu-me muitísimo. embora ele mesmo não as tenha feito no livro das Confissões. índio. Seja como for. Homem de foro nobre. procedimento comum no Santo Ofício. a consulta sistemática ao Dicionário da Língua Portuguesa (edição de 1813). Terceira advertência. tratando de certos clichês inquisitoriais ou convenções vocabulares da história colonial quinhentista. para que o leitor tenha conhecimento de como era o cabeçalho da peça processual.”.. as “fórmulas tabelioas” que introduzem em duas ou três linhas. de todo modo. escreveu Capistrano no prefácio original. passara por dezesseis investigações de limpeza de sangue para habilitar-se ao cargo inquisitorial.

sentou-se numa cadeira de veludo trazida incontinenti pelo capelão.7 Bispado do Brasil. e recebeu o juramento do governador. onde estava posto um altar ricamente adornado com uma cruz de prata arvorada. vigários. com velas acesas. As sentenças lavradas na própria Bahia pela visitação . nas palavras de frei Vicente do Salvador. dia 22 de julho. foram assinadas por todos estes dignitários. ouviu renovados votos de louvor à sua pessoa e ao Santo Ofício. após breve escala em Pernambuco. como se vê. Padre Fernão Cardim. após a leitura da constituição de Pio V em favor da Inquisição. adentrando a Sé. e quatro castiçais grandes. nos quais missais jaziam duas cruzes de prata. foi a vez do Paço do Conselho e Câmara de Salvador prestarlhe as devidas homenagens. Dirigiu-se então à capela maior. além de dois missais abertos em cima de almofadas de damasco. Chegou “mui enfermo”. e se “foi curar no colégio dos Padres da Companhia”. Heitor Furtado veio debaixo de um pálio de tela de ouro e. sem falar do povo acotovelado nas ruas de Salvador para acompanhar o cortejo do Santo Ofício. . e os Bispados de São Tomé e Cabo Verde. mas que contou com o auxílio de autoridades eclesiásticas e missionários locais. viajando na companhia de D. recebido o visitador “pelos mui nobres senhores. Desembarcou na Bahia em 9 de junho de 1591. presentes o Bispo e seu cabido. juízes. autor do que seria o Tratado da Terra e da Gente do Brasil. afinal. mormente a dos jesuítas. e o Reitor do colégio inaciano da Bahia. juízes e vereadores” da Bahia. vereadores e mais funcionários. ajudante-de-ordens do visitador. que lhe beijou os pés e prometeu solenemente ajudar a visitação no que fosse necessário. a visitação do Santo Ofício da Inquisição. nas ilhas da costa africana. todos ajoelhados perante o Santo Ofício. No dia 16 de junho. também de prata. o Provincial dos jesuítas. o visitador se apresentou ao Bispo. os funcionários do Governo e Justiça. E no dia 22 de julho iniciou-se a visitação. o visitador rumou para o topo do altar. Em várias sessões de interrogatório estiveram presentes o Bispo Antônio Barreiros. preludiada por grande pompa e cerimonial. palco do que seria. Em meio a todo este luxo. Na semana seguinte. Francisco de Souza. Na comitiva do visitador vieram também o já citado notário Manoel Francisco _ “fenomenal em fonética” _ e o meirinho Francisco Gouvea.nos vários casos em que Heitor Furtado resolveu processar _. inclusive as “capitanias do sul”. Padre Marçal Beliarte. Delegação pequena. clérigos e membros das confraria. Governador Geral recém-nomeado.

É deles que a população colonial iria falar na mesa do Santo Ofício. polvo. se tenha utilizado o Monitório de 1536. diluindo as hierarquias. mantendo-os acesos por toda a noite. assim como no conjunto dos Monitórios da Inquisição até meados do século XVIII. Na prática. É improvável aliás que. O Monitório utilizado foi. qualquer que fosse o “grau. devendo todos confessar ou acusar as heresias e apostasias de que cuidava a Inquisição Em tese. embora também aludisse a outros erros de fé. Que ninguém fosse poupado. após um sem-número de provisões reais. verticalizando em seu único benefício as relações sociais. mancomunava-se o visitador com os “homens bons” do lugar. o Edital da Fé e Monitório da Inquisição. Foi aquele o primeiro Monitório da Inquisição. vê-se que a pretensão do Santo Ofício era mesmo a de colocar-se acima de todos. Pelo Edital. por exemplo. o grande destaque cabia aos indícios de práticas judaizantes presumidamente usadas pelos cristãos novos: 1) guardar o sábado. primeiro Inquisidor-Geral de Portugal. dissolvendo as solidariedades de todo tipo. porém. irmão de D. lebre. o luteranismo e o islamismo. mais variadas. coelho. Monitório muito calcado. reconhecendo o que já era fato desde 1547. elaborados ao tempo em que o Cardeal D. enguia. os fiéis eram convocados a confessar e delatar as culpas atinentes ao Santo Ofício. ao contrário do que diz Capistrano de Abreu. elaborado por D. então. passaram à jurisdição inquisitorial. alguns sabedores de que haviam realmente transgredido os preceitos da fé. o baseado no Regimento de 1552 ou no Edital da Fé de 1571. sob pena de excomunhão maior. em matéria de heresias. limpando a casa na sexta-feira e acendendo candeeiros limpos com mechas novas. Néofitos. .8 Publicou-se.Sebastião. outros que só através do Monitório vieram a constatar não serem tão bons cristãos como pensavam. como a feitiçaria. basicamente preocupado em detalhar os indícios de práticas judaizantes. no de 1536. provelmente.Henrique. é verdade.João III e tio-avô de D. era o Inquisidor-mor do Santo Ofício português. a sodomia. aves afogadas. delito que somente a partir de 1553 começou a ser transeferida ao foro inquisitorial. As culpas relatadas na Visitação são. vestindo-se com roupas e jóias de festa. estado e preeminência” dos indivíduos. 2) abster-se de comer toucinho. com efeito. porém acrescido das culpas que. arraia. documentos que o leitor encontrará mencionados várias vezes nas confissões deste livro. como se viu no sem-número de rituais e protocolos da instalação da visitação. No Monitório da Visitação quinhentista. breves e bulas pontifícias. incluindo. Saber o que era afinal matéria a ser delatada ou confessada ao Santo Ofício era algo que o Monitório informava com razoável detalhe.Diogo da Silva. neste intermezzo. por assim dizer.

Outros. dizendo-lhes “que é para pagar a primeira pousada”. “rapar o óleo e a crisma” neles postos. Noutros casos talvez mentissem. pescados sem escamas em geral. em nota. a exemplo de comer em mesas baixas pescado. ao praticá-los. 8) lançar ferros. por serem de fato criptojudeus. em setembro. quando então comiam e pediam perdão uns aos outros. O leitor encontarará neste livro alguns relatos em que os confitentes admitiam fazer certos ritos previstos no Monitório. a exemplo dos Salmos penitenciais sem dizer Gloria Patri et Filio et Spiritu Sancto. mormente aves. dizendo que aquela água se torna sangue. sem maior conexão com a vivência do judaísmo que deles se suspeitava. da reiteração de certos usos conservados pela tradição familiar. antes. dia em que os judeus jejuavam até sairem as estrelas no céu. ovos e azeitonas quando morre gente na casa de judeus. batizando-os na igreja. aludindo ao luteranismo (nome genérico que se dava ao protestantismo) a . mandar lançar fora a água dos potes e vasos da casa quando alguém morre na casa. 10) circuncidar os recém-nascidos. testando primeiro o cutelo na unha do dedo da mão e cobrindo o sangue derramado com terra. ao modo judaico. a refletir sobre estas narrativas de indivíduos sobremodo assustados. de tratar-se. Nos demais ítens de culpas inquisitoriais o Monitório era. cortar-lhes as unhas para guardá-las. 5) celebrar festas judaicas como a Páscoa do pão ázimo (Pessach). 3) degolar animais. Vários destes indícios não passavam de estereótipos que marcavam a figura dos judeus havia tempos. eram resíduos fragmentários da religiosidade dos judeus ibéricos (os sefaradim). em vários casos e relatos. 6) rezar orações judaicas. 7) utilizar ritos funerários judaicos. além do “jejum da Rainha Esther” e o das segundas e quintas-feiras de cada semana. estivessem a manter o judaísmo secreto de que suspeitava o visitador. pão ou vinho nos cântaros da casa. abaixando-a pelo rosto sem fazer o sinal da cruz. 9) abençoar os filhos pondo-lhes a mão na cabeça. dar-lhes secretamente nomes judeus ou. eventualmente praticados pelos cristãos novos. pondo-lhes na boca uma pérola ou mesmo moeda de ouro ou prata. em regra. sempre que possível.9 congro. amortalhar os defuntos “com camisa comprida”. no dia de São João Batista e do Natal. ao negar seu judaísmo. no entanto. no que auxiliaremos informando. “atravessando-lhes a garganta”. mais superficial. Será o leitor. o destino que lhes reservou o visitador após ouvi-los. porém. Temse mesmo a impressão. a das Cabanas e outras. embora seja duvidoso que. e outras em que oravam contra a parede. a exemplo do “jejum maior dos judeus”. enterrá-los em terra virgem. 4) conservar os jejuns judaicos. abaixando e levantando a cabeça e usando correias atadas nos braços ou postas sobre a cabeça.

contribuía para esta confusão entre as confissões que ouvia na mesa inquisitorial e o sacramento da confissão auricular: mandava indivíduos se confessarem na sacramental após ouvi-los em juízo e perguntava sobre confissões feitas a confessores na Quaresma. O visitador. Nas últimas tratava-se de um sacramento nas quais o fiel narrava seus pecados e recebia a absolvição em troca de penitências espirituais. numa palavra. a confissão inquisitorial. Maomé). isto é. nas primeiras tratava-se de contar erros de fé. à bestialidade. à leitura de livros proibidos pela Igreja. à sodomia. segundo o Index Librorum Prohibitorum. o confitente se esmera em acusar outros indivíduos de culpas semelhantes ou de cumplicidade. tratava de pecados. O leitor também encontrará no livro confissões que mais parecem denúncias. equivalente a uma prova judiciária. Mas o certo é que as confissões da visitação inquisitorial eram completamente distintas da confissão sacramental que se fazia em confessionário. delitos passíveis de pena secular. pois. tratava de heresias. sobre quem ensinara o confitente a errar ou a quem repassara a errônea opinião ou conduta heretical. A confissão sacramental. ora provocados pelo medo de que simples pecados pudessem ser crimes do foro inquisitorial. durante e depois do parto”. enganos conscientes de doutrina ou de comportamento que configuravam crimes. à negação dos Artigos da Fé católica e do poder pontifício. não raro por ingenuidade misturada ao pânico. ao questionamento sobre se a fornicação era pecado. narrando pecadilhos que nada tinham a ver com a Inquisição. dado ser o Monitório muito vago em certas definições das culpas que lhe interessavam. à invocação do diabo na prática de feitiçarias. à descrença no Santíssimo Sacramento. à duvida sobre a pureza da Virgem “antes. por sua vez. Talvez o confessassem por medo. E também neste ponto o visitador soube orquestrar os relatos. Não raro aparecem relatos em que se percebe no confitente uma atitude típica do pecador diante de confessores sacramentais. ora diretamente estimulados pelo rol de culpas do Monitório. . inclusive a morte na fogueira. O leitor encontrará a mais variada gama de relatos. perguntando sobre cúmplices. a despeito dos próprios erros. quando não transfere a outrem a iniciativa ou responsabilidade pelas suas faltas. ao questionamento da confissão sacramental. à bigamia. às vezes para mostrar colaboração e ocultar as verdadeiras culpas.10 alguns indícios de islamismo (então chamado de “seita de Mafamede” . Tudo isto fazia parte dos estilos do Tribunal de que se valeu a nossa visitação. a opiniões heréticas em geral.

morte na fogueira. sem ter autorização para tanto. Casos de cristãos novos judaizantes. pois era mesmo ao arbítrio e juízo do visitador que. realizou. Pânico tanto mais eloquente quanto menos ameçadores seriam os resultados dessas confissões. isentavam o culpado dos piores castigos que a Inquisição soía dar: confiscos. Não é demais lembrar. e só despachando os casos mais simples. as quais lhe investiam do poder de. que Heitor Furtado de Mendonça andou extrapolando as instruções que recebera do Cardeal Alberto. . de todo modo. não só na Bahia como no conjunto das capitanias que percorreu. a propósito. a imensa maioria feita no chamado “período da graça”. processou na colônia réus que deveriam ser julgados na metrópole. às vezes pânico. orgão máximo da Inquisição Portuguesa. remetendo os suspeitos para Lisboa. vale dizer.11 Salta à vista. a julgar pelos relatos que fizeram. dos que aparecem confessando neste livro. o nervosismo. e uma plêiade de blasfemos. enviou a ferros para Lisboa réus com processos mal instruídos. desde que completas e verdadeiras. em última instância. Perturbou bastante o nosso primeiro visitador a enormidade de confissões e denúncias que ouviu. embora não tenha condenado ninguém à fogueira de moto próprio. sentenciou gente que o Conselho considerava inocente. instruir os processos cabíveis. Alguns caíram na teia do visitador porque contaram menos do que deviam e foram denunciados. Heitor Furtado deu trinta dias de graça os moradores de Salvador e arredores em 28 de julho de 1591. detratores do clero. coisa já por ele esperada. Mas é muito difícil ajuizar sobre cada uma dessas situações. o que também em nota procuraremos informar. e depois os mesmos trinta dias para a gente do recôncavo. Mandou prender suspeitos sem licença do Conselho Geral do Santo Ofício. outros porque mentiram deliberadamente ou perjuraram. sobretudo. segundo os inquisidores de Lisboa. E não resta dúvida de que tinham razão para temer. enfim. processados e penitenciados. Nem por isso. sodomitas. verdadeiros autos de fé públicos. coisa que a o registro frio do notário não consegue ocultar do leitor sensível. penas seculares. estavam todos sujeitos. pois não poucos dos confitentes no período da graça acabariam presos. em 11 de fevereiro de 1592. defensores do direito à fornicação. tempo em que as confissões. absolveu indivíduos com grave presunção de culpa. bígamos. ficaram os fiéis sossegados.

ele que. Fernão Cabral de Taíde. ao “teatro dos vícios”. como diria Vilhena. lançara viva na fornalha de seu engenho uma escrava grávida do “gentio do Brasil”. considerando sua fidalquia e foro nobre como atenuante da culpa. no entanto. na qual o líder se intitulava de Papa e nomeava bispos e santos índios. e no mais agregados pelo destino comum de viver nas fronteiras da Europa. por isso. solidariedades vicinais. dos quais se tornou por alguns anos o primus inter pares. marcas profundas. uma tropa de mamelucos praticantes de gentilidades e uma autêntica heresia indígena. parecendo contagiado pela prepotência dos senhores da terra. ao “sentido da colonização” de que fala Caio Prado Jr.12 e sobretudo _ e isto sim o pegou desprevenido _. e sem dúvida foi este caso que fez Heitor Furtado tardar na Bahia mais tempo que devia. Contribuiu a visitação para desfazer amizades. às vezes unidos pelo casamento. os jesuitas e a escravidão. Seita para ele desconcertante porque. como diria Sérgio Buarque. no entanto. conforme o previsto em 1591. e a resistência indígena no sertão. Sentenciou diversos mamelucos a não retornarem mais ao sertão. Acabaria. para depois determinar. que pudessem eles adentrar os matos no caso de terem de combater alguma “santidade” nativa. que chegou a abrigá-la nas suas terras de Jaguaripe. dar reforço de guerra. não obstante hostilizasse os brancos. chegando mesmo a destruir famílias e grupos de convívio. os raros incriminados. descrevendo a Bahia quase duzentos anos depois. e pelas despesas que fez além dos recursos de que dispunha. amores. Poupou Fernão Cabral. de pena mais gravosa. buscar metais preciosos. Sua passagem pelo nordeste brasílico deixou. Vergou-se. a “erva santa”. Seita em tudo surpreendente. entre outros feitos. a certas peculiaridades do “viver em colônias”. peça comparável ao livro das confissões que ora se publica. Heitor Furtado de Mendonça vergou-se. Contribuiu para dissolver as sociabilidades entre cristãos velhos e novos. chamada na Bahia de Santidade. Seita que prognosticava a morte dos brancos e ou a escravização dos portugueses pelos índios. espremidos entre a pirataria de ingleses e franceses no mar. . como norma geral. com exceção de alguns cristãos novos. Poupou os potentados locais. a casa de 200 fólios. fez ouvidos moucos às advertências. Por isso e por tudo. não resta dúvida. descobrir minas de salitre e enxofre. recambiado para o reino sem visitar as capitanias do sul e os bispados de São Tomé e Cabo Verde. embora o fundamental do culto residisse na adoração de um ídolo de pedra e na embriaguez com tabaco. o protetor da heresia indígena. fora incrivelmente protegida por um senhor escravocrata do Recôncavo. o visitador foi diversas vezes advertido pelo Cardeal Alberto mas. O processo que o visitador moveu contra este homem ultrapassa no manuscrito.

era o interior onde se refugiavam os índios. bem como castelhanos no Brasil. chamados na época de negros da terra. a revolta dos índios. Encontrará os degredados. “rua de São Francisco” ou junto de São Bento (alusão aos mosteiros). o leitor encontrará por estes caminhos os colonos do primeiro século. capturados pelos piratas na costa do Brasil. Homens que ora guerreavam contra os lusos. o leitor seguirá de perto. africanos. pólvora. nos modos de morar e dormir. índios. originalmente grafados e chamados de mamalucos. retornando dos oceanos e finisterras à terra brasílica. . a floresta e o mar. Por outro lado. ruas desalinhadas com seus peculiares pontos de referência no lugar de nomes: “atrás da Misericóridia” (da Santa Casa). Encontrará o leitor a ambivalência e a intrepidez dos mamelucos. Um ir-e-vir permanente. salvo quando especificado na expressão “negro da Guiné”. Encontrará. não apenas o modus faciendi inquisitorial no ultramar. palavra que então se grafava degradados. eis o destino dos que viveram naquele tempo. refere-se antes de tudo ao índio. mamelucos. magias. a selva. aos quais davam armas. a vida cotidiana da colônia: os mexericos. por sinal. casas devassadas. brasis. adultérios. na época. enfim. Entre o sertão e o litoral. gentios. bebidas afrodisíacas. e muito. derivada de degradar.”rua de Bastião de Faria” (onde morava um principal da cidade de Salvador). A prepotência dos senhores. Sertão que. homens cujos riscos na pele indicavam sua vivência indígena. não esquecendo que era tempo de União Ibérica. Encontra-los-á mesmo na Inglaterra e França. nada tem a ver com a zona árida e seca do nordeste: sertão era a floresta. na altura das Canárias e até mesmo nas proximidades do reino. amores. em espaços mais longínquos e remotos: em Portugal. baixar de grau. negros brasis. Eram os chamados “resgates” ou “descimento” dos gentios que faziam do sertão. brancos. diversos deles. A palavra negro. na Índia. frestas na porta. termo genérico para aludir ao africano. porém. fora dos quadros do império colonial português. Encontra-los-á também nas Índias de Castela. Encontra-los-á. ferros. quiçá as riquezas tão cobiçadas pelos portugueses. a bravura de guerreiros que aprisionavam inimigos devorados no repasto antropofágico.13 O leitor encontrará neste livro. filhos de português e índia. pintados e nus. e nisto tratavam com outros índios. mostra-nos aliás as confissões. e nisso se era fiel ao étimo. ora os auxiliavam na captura de escravos. portanto. improprérios. na África e disto extrairá a lição de que o Brasil não pode ser entendido. no meio do Atlântico. redes e esteiras. mas o próprio cotidiano do Brasil no primeiro século.

. Pois as confissões são também retratos do que foramos. retratos tão fiéis quanto podem ser os documentos e os monumentos. Caminhos e fronteiras. 1922. Espanha. Companhia das Letras. triste Bahia. e outras muito estranhas. melhor dizendo. de pensar. Itália. Sérgio Buarque de. Incluir as confissões da Bahia. viagem no tempo _ tempo de visitação inquisitorial que também é uma visitação ao Brasil antigo. Lisboa. s/ed. Francisco. Emanuel. um livro de viagem. Viagem a múltiplos lugares. por vezes chulas até hoje. assim. na coleção Retratos do Brasil é. Capistrano de. José Olympio/Edunb.Araújo. meio portuguesas.14 um tipo diferente de memória individual. mais do que justo. porém imprecisa na indicação da própria idade pessoal: “trinta anos pouco mais ou menos”. arcaico. muitas vezes tupis _ sem falar nas que hoje significam algo bem distinto do que no tempo da visitação. O leitor conviverá. 1994. memória capaz de registrar com algum detalhe fatos de vinte ou trinta anos passados.Calasans. Mas o aparentemente estranho é verdadeiramente nosso. . José. por tudo isso.Bethencourt.Holanda. . 1993. . História das Inquisições: Portugal.Abreu. O teatro dos vícios: transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. eis um exemplo comum de as pessoas aludirem à própria idade numa época em que não se usavam documentos individuais de identificação. enfim. Jornal do Comércio. Círculo dos Leitores. Rio de Janeiro. .. Salvador. São Paulo. de falar. na forjadura de nosso primeiro século. Rio de Janeiro. 1995. Fernão Cabral de Taíde e a Santidade de Jaguaripe. 1952. meio galegas. Este livro de confissões é também. com palavras muito familiares. Um visitador do Santo Ofício à cidade de Salvador e ao Recôncavo da Bahia de Todos os Santos. BIBLIOGRAFIA . às vezes castelhanas. Os relatos contidos no livro poderão por vezes causar uma sensação de estranheza quanto ao modo de viver.

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Arrendamento do comércio do pau-brasil ao cristão novo Fernando de Noronha.Henrique II. João III institui o regime de capitanias hereditárias para o povoamento e exploração econômica do litoral do Brasil.Duarte da Costa nomeado para o Governo-geral do Brasil.Pero do Campo Tourinho.Paulo III concede a autorização pontifícia para a criação da Inquisição Portuguesa através da Bula Cum ad nihil magis. 1546 . 1555 . sendo nomeado para o cargo Pero Fernandes Sardinha.Morte de D. Fundada a cidade de Salvador. João III (1495-1557) ao trono português 1532 . a primeira vila da América Portuguesa. à frente dos quais Manoel da Nóbrega. 1536 . numa expedição de cerca de 600 pessoas.D. capturado e devorado pelos índios após o naufrágio da nau N. rei de França. envia Nicolau Durand de Villegaignon à baía da Guanabara.Pedro Álvares Cabral desembarca em Porto Seguro na escala para a Índia. Martim Lutero afixa suas 97 teses na Catedral de Wittemberg.Na Alemanha. 1501 . Funda-se a “França Antártica” no Rio de Janeiro .Após uma série de percalços. Paulo III confirma a autorização para o funcionamento da Inquisição Portuguesa através da Bula Medidatio Cordis. 1545 .16 1500 . Inácio de Loyola funda a Companhia de Jesus.Senhora da Ajuda. e introduz o plantio das primeiras mudas de cana-de-açúcar 1534 . é preso por clérigos e seculares no Brasil e enviado a ferros para a Inquisição de Lisboa. marco da reação papal à reforma protestante.Publicado o primeiro Regimento da Inquisição Portuguesa. 1553 . autorizada pelo Papa Paulo III através da Bula Regimini Militantis Eclesiae. 1551 . Na Espanha. deflagrando o início da Reforma Protestante. Primeiro contato entre portugueses e tupinambás. Faleceu o primeiro bispo no litoral de Alagoas. donatário de Porto Seguro. majoritariamente calvinistas (huguenotes). sob acusações de blasfêmia.Manoel e ascensão de D.Funda-se o Bispado da Bahia. conhecida como Contra Reforma. incluindo a revogação da Bula de 1536. 1552 . 1517 .Martim Afonso de Sousa funda São Vicente.Inicia-se o Concílio de Trento. 1547 . 1549 . 1521 .Tomé de Sousa desembarca na Bahia como primeiro Governador-geral do Brasil e com ele chegam os primeiros missionários jesuítas.

Confissões da Bahia (1591-1592) Na Bahia de Todos os Santos .D. 1568 . 1588 . confiada a Heitor Furtado de Mendonça. Henrique. chefiado pelo Inquisidor Geral. Sebastião.Encerra-se a etapa baiana da visitação do Santo Ofício ao Brasil. D. depois. sem deixar herdeiros. emvia a visitação ao Brasil.Morre o rei D. Sebastião ascende ao trono português. 1595 . pelo Regente Cardeal D. é criado o Tribunal do Santo Ofício de Goa. na menoridade de seu neto e herdeiro. confiada ao Padre Jorge Pereira. 1597 . no Marrocos. 1596 .Mem de Sá substitui Duarte da Costa no Governo-Geral do Brasil. Portugal é governado pela Regente D. Heitor Furtado de Mendonça passa a visitar as capitanias de Pernambuco. que perdurará até 1640. no Rio de Janeiro. Felipe II de Espanha assume o trono português como Felipe I.A Invencível Armada espanhola é derrotada pelos ingleses no Mar do Norte. João III e. Catarina de Aragão e. Ascende ao trono o Cardeal D. confiando-se-a a Jerônimo Teixeira.Morre D. Dá-se a União Ibérica. Henrique. o senhor de Bolés. 1593 . francês que se passou para o lado português no cerco ao forte Coligny. Na Índia. Paraíba e Itamaracá. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir contra o xarifado dos sadidas. 1558 .O Conselho Geral do Santo Ofício. Cardeal Alberto de Áustria.Enviada uma visitação do Santo Ofício para Angola.João de Cointa. 1578 . Combate e derrota os franceses e seus aliados indígenas. Inquisidor-mor de Portugal. 1591 . Henrique. Falece no cargo.Com a morte do Cardeal D. Vice-Rei de Portugal. Condenado ao degredo na Índia.Morre José de Anchieta.17 1557 . é preso e enviado para a Inquisição de Lisboa sob acusação de várias heresias. Outra visitação do Santo Ofício é enviada aos Açores a à Madeira. 1580 . em 1572 1560 .Encerrada a Visitação do Santo Ofício ao Brasil.

nas casas de morada do senhor Visitador Heitor Furtado de Mendonça. estantes e vizinhos até uma légua em seu redor. nem onde ora estejam. cometeu a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos. sem ser chamado. a saber. teve tocamentos com as mãos em suas naturas ajuntando a uma com a outra e havendo polução da parte do dito mancebo duas vezes E assim também tocou no membro desonesto a Antônio. recorrente nas confissões de sodomia. de sorte que “tocamentos desonestos” significavam tocamentos sensuais. e beijando.A palavra desonestidade mantinha.Confissão de Frutuoso Álvares.Fuão é a forma arcaica de fulano. indecentes. a partir de 29 de julho de 1591. E se publicou na Sé de Salvador o édito da dita graça e o alvará de Sua Magestade. termo alusivo ao pênis. confessando-se. E assim com outros muitos moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes. Confissões da Cidade 1 . criado ou sobrinho de um mercador que mora nesta cidade que chamam Fuão de Siqueira e com este moço não houve polução. filho de Pero d’Aguiar. fizerem inteira e verdadeira confissão de suas culpas. perdoando as fazendas e as pessoas que . 3 . E. na época. e tendo ajuntamento por diante e dormindo com alguns algumas 1 2 3 1 .18 Início do período de 30 dias da graça que o visitador concedeu à cidade e a todos os moradores. abraçando. . no dito tempo. sendo feitor do mestre de capela desta cidade. vigario de Matoim. dizendo que tinha que confessar nesta mesa. e isto com este castelhano foi há três ou quatro anos. Pelo que lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que pôs sua mão direita.“Polução” ou “cumprimento” era clichê inquisitorial e eclesiástico que significava ejaculação ou orgasmo sexual. perante ele apareceu em esta mesa o Padre Frutuoso Álvares. em 29 de julho de 1591 Aos vinte e nove dias do mês de julho de mil novecentos e noventa e um anos. de idade de dezoito anos. O mesmo vale para a expressão “membro desonesto”. moço de dezessete anos. mancebo de dezoito anos. 2 . então que era ora a dous ou três anos. vigário de Nossa Senhora da Piedade de Matoim. morador que era na ilha de Maré. e por outra vez com este mesmo teve abraços e beijos e tocamentos nos rostos. sob cargo do qual prometeu dizer verdade. Para as mulheres usava-se muito o termo “deleitação”. com Cristovão de Aguiar. forte conotação de indecência ou sensualidade. morador na dita sua freguesia. beijando. teve tocamentos desonestos e torpes em suas naturas e abraços. haverá um mês ou pouco mais ou menos. E assim também teve congresso por diante ajuntando os membros desonestos um com outro sem haver polução com um mancebo castelhano que chamam Medina. disse que de quinze anos a esta parte que há que está nesta Capitania da Bahia de Todos os Santos. no tempo da graça.

E sendo perguntado. 7 . e assinou aqui com o senhor visitador. que é ora estudante nesta cidade. E foi admoestado que se afaste da conversação destas pessoas e de qualquer outra que lhe possa causar dano em sua alma. E pelo dito juramento declarou que é cristão velho de todos os costados e natural de Braga. 4 5 6 7 4 . e de Maria Gonçalves. respondeu que nenhuma pessoa lhe viu cometer as ditas culpas de que se confessa. 6 .“Posto que” não tinha valor explicativo. filho de Aires Dias.Artesão que fazia vasos de estanho e de folha (lata) de Flandres. e do costume disse nada. É a forma arcaica de designar ativo/passivo no mesmo contexto. lhe lembra que cometeu isto desta maneira algumas dez vezes nesta cidade onde ele ora é vigário com um moço que chamam Gerônimo. mas adversativo: “ainda que”. há vinte e tantos anos. cometendo com seu membro os vasos traseiros deles e fazendo da sua parte por efetuar. metendo seu membro desonesto pelo vaso traseiro. por serem pequenos. e consentindo que eles o cometessem a ele pelo seu vaso traseiro. que então podia ser de idade de doze ou treze ano. houve quem foi denunciar dele. E. nem onde estão. posto que nunca efetuou o pecado de sodomia penetrando. . lançando-se de barriga para baixo e pondo em cima de si os moços e lançando também os moços com a barriga para baixo. dormindo com ele por detrás como um homem dorme por diante com uma mulher pelo vaso natural. “apesar de que”. “agente” era o que penetrava o parceiro (a) e “paciente” era o penetrado (a). e isto poderá haver como dois ou três anos. nem suas confrontações que acaso iam ter com ele. serralheiro. picheleiro . e lhe foi mandado que torne a esta mesa no mês que vem. e deles está muito arrependido e pede perdão. E perguntado se dizia ele a estas pessoas com quem pecava que cometer aquelas torpezas não era pecado. já defuntos. filho de Janaluarez. mas que ele confessante sabe muito bem quão grandes pecados sejam estes que tem cometido. pondo-se ele confessante em cima deles.No jargão inquisitorial e eclesiástico. 5 . cometeu ele e consumou o pecado de sodomia uma vez com um Francisco Dias. sendo ele o paciente. o qual moço é irmão do cônego Manuel Viegas. estudante. na linguagem inquisitorial: ânus.Vaso traseiro. E assim também lhe aconteceu isto com outros muitos moços e mancebos a que não sabe os nomes. acusando-o desta matéria.19 vezes na cama. e que não se procedeu contra ele por não haver prova bastante. o não entenderiam. e tendo cometimentos alguns pelo vaso traseiro com alguns deles. sendo certo que fazendo o contrário será gravemente castigado. sendo ele o agente . respondeu que não. mas que alguns deles entendiam ser pecado. na época. em especial. E declarou que na visitação que fez o provisor o ano passado. E que na dita cidade de Braga. e alguns.

pois disse que é de sessenta e cinco anos pouco mais ou menos. e que ele lhe respondeu que isso eram agouros.Confissão de Nicolau Faleiro de Vasconcelos. os quais ora são mestres de açúcar. nem o consentiu com essa intenção. cristão velho.Frutuoso Álvares. E por não dizer mais o Senhor visitador o admoestou muito que.Ordinário: Bispo. e ele confessante nesta segunda vez consentiu e aprovou o dito derramamento da água dos cântaros. pelo que foi enviado preso para Lisboa. nem sabe deles. 8 E estando nesta cidade foi também acusado pelo mesmo pecado que cometeu com Diogo Martins. haverá obra de sete ou oito meses que lhe faleceu em casa outro seu escravo e então. sua mulher dele denunciante lhe disse que era bom vazar fora a água dos cântaros. nem sabe com que intenção lançava fora a dita água a dita sua mulher. . na qual diz contra sua mulher dona Ana (Alcoforado). e torne a esta mesa no dito tempo que lhe está mandado. foi ao Cabo Verde onde também foi acusado por tocamentos torpes que teve com dois mancebos e por apresentar uma demissória falsa. depois disso. e ela lhe respondeu que sim. e não é lembrado se a deitaram então fora. 8 . perguntara à dita sua mulher se lançara já fora a água dos cântaros. seu irmão. sem cumprir o dito degredo. Manuel Francisco. Antônio Álvares. em 29 de julho de 1591. que ora é casado com a padeira Pinheira. E que. vindo ele de fora. pois era sacerdote e pastor de almas. de que saiu absoluto por não haver culpa. e tão velho. e ele disse que assim o faria e assinou aqui. Disse que haverá ano e meio pouco mais ou menos que. e os mais que não conhece. falecendo-lhe em sua casa seu escravo. que se afaste deles e das ruins ocasiões. e deste caso saiu condenado pela cuniaria que pagou e em suspensação das ordens por certo tempo que já lhe é levantada. E outrossim. onde pelas ditas culpas foi sentenciado e condenado em degredo para sempre nestas partes do Brasil. foi acusado nesta cidade por quatro ou cinco testemunhas com quem teve os ditos tocamentos desonestos. 2 . e ainda há um só mês que os deixou de cometer. Notário do Santo Ofício o escrevi _ Heitor Furtado de Mendonça . que não cresse neles.20 E assim cometeu os tocamentos desonestos com outras pessoas pelo qual foi denunciado pelo Ordinário na dita cidade e foi degredado para as galés e. Manuel Álvares. e tem passado tantos atos torpes em ofensa de Deus Nosso Senhor. cristã nova. porém que ele não entendeu ser isto cerimônia dos judeus. no tempo da graça. moradora nesta cidade junto de Nossa Senhora de Ajuda.

9 .Quando os inquisidores perguntavam “do costume”. e a tem por muito boa cristã e venturosa.Título de um dos livros sagrados dos judeus que conta a história dos sete varões deste nome. e foi-lhe mandado ter segredo sob cargo de juramento que recebeu. a qual Isabel Antunes foi filha de Heitor Antunes. e de sua mulher Leonor. nem fez coisa em que entendesse dela má intenção contra nossa santa fé católica. casaram tão bem. 10 . queriam saber o tipo de relação que o denunciante ou confitente mantinha com o acusado ou cúmplice. e foi-lhe mandado que tornasse a esta mesa por todo esse mês de agosto que vem. se eram amigos ou inimigos. e ele assim o prometeu. e filha de Isabel Antunes. ouviu na sé publicar o édito da fé e ouviu ler nela esta cerimônia. que portanto admoesta com muita caridade que confesse a verdade de sua culpa e a intenção que teve em consentir na dita cerimônia de lei de Moisés. e sendo ele de tão bom entendimento. de idade de trinta e sete anos pouco mais ou menos. morador em Matoim. E por não dizer mais. e jejuando às vesperas de Nossa Senhora e fazendo esmolas e obras de que teme a Deus. natural da Vila real. e por isso a entendeu e se soube. o dito senhor visitador lhe disse que não parece credível que. casado com a dita sua mulher que se chama dona Ana. em 30 de julho de 1591 Disse ele que é cristão novo de pai e de mãe. por elas serem virtuosas. que a dita sua mulher dona Ana nunca lhe disse. E assinou aqui com ele o senhor visitador e declarou mais que a dita sua mulher e as primas e tias delas são casadas com homens fidalgos e principais e cristãos velhos e que. e vem agora a acusar-se nesta mesa e pedir nela misericórdia. sendo tão conhecida a cerimônia de botar a água fora. defunto. morador nesta cidade detrás da Sé.Confissão de Fernão Gomes. de idade de vinte e seis anos pouco mais ou menos.21 E declarou que ele se chama como dito tem e é cristão velho de todas as partes. de idade de sessenta anos pouco mais ou menos. filho de Lançarote Gomes. E declarou. natural da capitania dos Ilhéus neste Brasil. E ele respondeu que tem dito a verdade. . que dizem ser cristã nova da parte de sua mãe. se havia pendência de dívida entre eles. e que está bem casado e amigo com a dita sua mulher. o qual ouviu dizer que tinha um Alvará dos Macabeus . E mais não disse e do costume disse o que dito tem. alfaiate. sendo perguntado. isto é. defunta. casado com Guiomar Lopes Dias. mercador e morador que foi de Matoim. cristão novo. filha de Antônio Alcoforado. receberá larga misericórdia. rezando a nossa senhora e fazendo romarias e devoção. etc. cristã nova. no tempo da graça. que ele não sabia ser aquilo cerimônia de judeus. mas que ontem (28 de julho). consentise nela senão com a intenção da lei de Moisés. porque fazendo-o assim esta em tempo de graça. cristão velho segundo dizem. defuntos. 9 10 3 .

cujo nome lhe não lembra. ele confessante disse “eu sou alfaiate que não furto e neste caso não devo nada a nenhum homem. e foram padrinhos e madrinhas que os acompanharam no dito recebimento Manuel Florença. Disse chamar-se do dito nome e ser cristão velho. No tempo da graça. filha de Francisco Pinto de Sá. e Gonçalo Rodrigues Jardim. confessando-se. nos engenhos coloniais. e que estas são as palavras que ele disse e que delas pedia perdão neste tempo da graça. de se casar duas vezes. cidadão. em 31 de julho de 1591. dizendo ela que recebia a ele por marido como manda a Santa Madre Igreja. filho de Gaspar Martins Preto e de Violante de Florença d’Abreu. e os recebeu o cura que então era na dita Sé. para a qual ele costumava a tirar esmola. disse que haverá vinte e seis anos que ele recebeu por sua mulher.Confissão de Baltazar Martins Florença. cidadão . E mais não disse e lhe foi mandado que muito resguardo em suas palavras e diga sempre palavras de bom e verdadeiro cristão. e achando que no dito tempo da sua falta não se havia tirado a dita esmola. natural da dita cidade. nem se tinha procurado tanto o serviço do altar da dita senhora. 11 12 11 . que logo o dito Besuarte de Andrade lhe disse logo “não sois vós tão cristão velho que digais que não deveis nada a Deus”. na cidade do Funchal da ilha da Madeira. e vindo ele à dita igreja. Isabel Nunes de Grados. quando disse que não devia nada a Deus era com intenção de não furtar em seu ofício. nem à minha alma. ele confessante disse perante algumas pessoas que lhe não lembram estas palavras. nesta cidade. cristão velho. defunto. em casa de Besuarte de Andrade. e que destas palavras pedia perdão dentro neste tempo de graça. de idade de quarenta e dois anos. nem mulher. termo da vila de Calheta. vindo a falar sobre ela. e que declarava que algumas pessoas lhe dizem que ele confessante não disse tal palavra. mas que ele confessante. disse as palavras do matrimônio que recebia a dita Isabel Nunes por sua mulher como manda a Santa Igreja.Mestre de açúcar era um trabalhador especializado. natural das Florenças. E declarou que ele ouviu depois dizer que ele que dissera que não. E confessando-se. digo. nem a Deus”. disse que haverá nove anos pouco mais ou menos que. 4 .Cidadão era palavra usada para designar indivíduos que tinham assento na Cãmara Municipal (Senado da Câmara ou Conselho Municipal) das cidades ou ocupavam cargos na administração das municipalidades. e outrossim. na ilha da Madeira. mestre de açúcar . E outrossim. dentro da Sé da dita cidade.22 Que haverá dois anos e meio pouco mais ou menos que dentro na igreja de Nossa Senhora da Ajuda desta cidade. e ele confessante. 12 . via de regra assalariado. morador em Cotegipe nesta capitania. levando-lhe ele uma obra. . defuntos. onde por suas ocupações havia alguns dias que ele não tinha vindo tirar a dita esmola e administrar o serviço da dita nossa senhora. “coitado do serviço de Nossa Senhora se eu não fosse”.

enfim. em Portugal. e ela fez prender o dito Bento da Veiga e. e depois de assim estar recebido.A Igreja proibia o matrimônio entre parentes até o quarto grau de consaguinidade. comendador da Facha. . em Vila Velha desta capitania com Susana Borges Pereira. e outras muitas testemunhas foram presentes neste segundo casamento. fizeram vida marital de umas portas adentro por espaço de seis meses. na cidade de Tânger. filha de Fernão Borges Pacheco. de que o dito Bento da Veiga apelou e depois não sabe ele confessante que fim houve a apelação. com um Bento da Veiga. se deu sentença por ela em que se mandava ao dito Bento da Veiga fazer vida com ela. moradores nesta cidade. do qual já tinham dispensação do núncio. avós dele confessante. e outros. . ele confessante se havia casado com ela como dito tem.“Fazer mal de si” equivalia a cometer adultério ou manter relações sexuais ilícitas. além do parentesco do quarto grau em que estavam. vindo à sua notícia que. mulher de Francisco Rodrigues Dourens. sendo assim casados. E depois dele confessante estar nestas partes do Brasil seis ou sete anos. como Francisco d’Araújo e Francisco de Barbudo. na forma que se costumam receber. E vindo o sobredito à sua notícia e. 13 14 13 14 . e sua iremã Violante Barbosa. de sua avó dela Isabel Nunes Florença ser prima como irmã de Manuel de Florença. defunta. o dito Bento da Veiga viera à ilha da Madeira.23 moradores na dita cidade. e depois viera aí também ter a dita Isabel Nunes e ambos na dita cidade do Funchal andaram em demanda perante o bispo. esteve com ela como casados alguns seis ou sete anos. digo. já defunto. mulher que foi de Francisco de barbudo. ele se casou nesta vila velha. E depois de assim serem recebidos. veio a notícia. primo com irmão de Constança Anes Preta. de uma porta adentro. veio à sua notícia que a dita sua mulher fazia mal de si . Maria Barbosa. E sem ele confessante saber que o dito Bento da Veiga tinha passado o dito casamento com a dita Isabel Nunes. dele confessante. E que. Viu ele confessante estar na dita cidade o dito Bento da Veiga com uma outra mulher que se chamava fulana Ferreira como casados. e por tais eram tidos. cujos nomes lhe não lembra. todos moradores nesta capitania. tinham mais outro impedimento de parentesco no quarto grau por parte do avô dela Aires Preto de Sá. dizendo as palavras de presente como se ele não tivera a dita sua primeira mulher ainda viva. em Ponte de Lima de Santo Estevão. e sabendo ele bem que ela estava viva. e sendo passados os ditos seis meses. Marçal Rodrigues. e neste segundo casamento foram padrinhos e madrinhas Fernão Cabral de Taíde e Bastião de Faria. outrossim. que a dita Isabel Nunes era casada com palavras de presente em face da igreja. ele confessante se veio para estas partes do Brasil e deixou a sua mulher Isabel Nunes. e assim madrinhas e outras testemunhas foram presentes. e a recebeu na igreja de Vila Velha com ele o vigário que então era. avô dele confessante. havendo dela filhos.

e que fizesse vida com a primeira mulher. e do costume não disse mais do que tem dito. fazendo vida marital. já defunto. pede perdão e misericórdia. pois é tempo de graça. pede perdão e misericórdia. de idade de dezoito anos pouco mais ou menos.Confissão de Pero Teixeira. e que da culpa que tem está muito arrependido. pelo que se tornou a esta cidade e sem fazer. E andando ausente. e os tornou a receber o cura que então era da igreja de Caípe. daí a dois anos. sendo o padrinho Diogo Correa de Sande. . dizendo que algumas testemunhas disseram que ele confessante tinha dito. natural da Touguia. E que toda a culpa que ele confessante neste caso tem cometida. fugiu da cadeia. lhe foi dito que a dita sua primeira mulher era falecida. em Portugal. e se livra perante o bispo nesta cidade. ainda ao tempo do derradeiro casamento. e o repreendeu de palavra e lhe mandou dar quatro cruzados de esmola à confraria do Santíssimo Sacramento. 5 . simplesmente. À margem dos originais lê-se: “Já é sentenciado pelo Bispo e degredado”. mas que como ele era moço as poderia dizer. e por este caso está ora apartado da dita Susana Borges. mais diligência sobre a dita morte. enviou a esta cidade um precatório do bispo pelo qual ele foi mandado sentenciado em dois anos de degredo para galés. no tempo da graça. cristão novo. o mandou soltar e ir perante si. em 2 de agosto de 1591 Disse ser cristão novo. desta capitania. havia dois ou três anos. se tornou receber de novo com a dita Susana Borges Pereira. porém que ele confessante não é lembrado formalmente que tais palavras dissesse. disse que haverá dois meses que o bispo desta cidade o mandou prender e. era viva a dita sua primeira mulher na ilha da Madeira. a dita sua primeira mulher. morador nesta cidade. confessa sua culpa e. foi denunciado dele na visitação que fez o vigário geral o ano passado. e declarou que este segundo recebimento da dita Susana Borges fez com licença do bispo desta cidade por lhe constar por testemunhas que a dita primeira mulher era já morta. mercador. Pelo que. depois de o ter preso três ou quatro dias. Isabel Nunes. antes de cumprir isto. solto sobre fiança. E confessando. caso as tenha dito. antes de vir. E depois de assim estar recebido de novo com a dita Susana Borges. que uma bula que estava em uma igreja com os selos pendentes parecia carta de éditos com chocalhos pendurados. filho de Jorge Rodrigues Navarro e de Catarina Arana. com a qual tornou a estar de umas portas adentro. ele confessante. moradores nazinhagua (sic). e outras testemunhas que lhe não lembram. sapateiro. dizendo-se que. E foi-lhe mandado que tivesse segredo sob cargo de juramento que recebeu.24 E sabendo-se isto na dita ilha da Madeira. pois se veio confessar neste tempo da graça.

atenuadas porém pelo seu foro nobre. feita por Domingos Fernandes Nobre. até que. quando entrou na dita chamada igreja. E confessando. e nela se apresentou o gentio e fez casa a que se chamavam igreja. mameluco que chefiou a tal “gente de armas” mandada por Fernão Cabral ao sertão. casado com Dona Margarida da Costa. sobretudo como a de número 120. 18 . ANTT.Foi Governador Geral do Brasil entre 1583 e 1587. havendo um que se chamava papa e uma gentia que se chamava mãe de Deus. proc.17065. morador na sua fazenda de Jaguaripe nesta capitania. E estando este gentio assim alevantado. confessante. porque não entendessem que lhes havia de fazer mal. fizera reverência e tirara o chapéu ao dito ídolo. e que isto consentiu por espaço de três meses pouco mais ou menos. ouviu sua sentença de público na igreja. IL. E uma vez foi ele confessante à dita chamada igreja e entrou dentro. ao seu modo. Consideradas gravíssimas suas culpas. onde puseram o ídolo e faziam suas cerimônias como atrás fica dito. por mandado do governador Manuel Teles Barreto . de idade de cinquenta anos. nem de outro animal. recebeu penitências espirituais. pagou 1000 cruzados para o Santo Ofício e foi degredado por dois anos para fora da Bahia. que significa “Deus Grande” 17 . filho de Diogo Fernandes Cabral e de sua mulher Dona Ana d’ Almada. em 2 de agosto de 1591 15 Disse ser cristão velho. amimando e honrando aqueles gentios e tratando-os bem.Vale cotejar com outras confissões. onde é morador. o Tomacaúna. ele confessante mandou derrubar a dita chamada igreja e entregou ao dito governador o dito ídolo e a dita gentia que chamavam mãe de Deus. equivalendo ao preço de 20 escravos aricanos na época. mas em que 16 17 18 15 .25 6 . Abjurou de leve suspeita na fé na mesa da visitação. porém que ele confessante em sua memória não se afirma que tal fizesse. O nome do ídolo era Tupanasu. A pena pecuniária foi elevada. 16 . condição de fidalgo e presunção de que seus erros eram exteriores. e ele. ao qual adoravam e rezavam certas coisas per contas e penduravam na casa que chamavam igreja umas táboas com uns riscos que diziam que eram contas bentas e assim.Preso e processado pelo visitador na própria Bahia. defuntos. natural da cidade de Silves no reino do Algarve. e tinham um ídolo a que chamavam Maria que era uma figura de pedra que nem demonstrava ser uma figura de homem nem de mulher. disse que haverá seis anos pouco mais ou menos que se levantou um gentio no sertão com uma nova seita que chamavam Santidade. não implicando em desvio interior de fé. e o sacristão. cristão velho. contrafaziam o culto divino dos cristãos. consentiu que o dito gentio se apresentasse em uma em uma sua aldeia dentro da dita sua fazenda. no tempo da graça. E que à sua notícia veio que algumas pessoas dizem que ele confessante. com seu marido e com todos os mais escravos que na dita companhia desceram.Fernão Cabral mentiu nesta e noutras partes da confissão. ficando lá o que chamavam o Papa.Confissão de Fernão Cabral de Taíde . . bom sangue. ele confessante mandou gente de armas para o fazerem vir do sertão com a qual gente se veio grande parte do gentio.

representava a pessoa do padre. dizendo aquela dianteira do rosto até abaixo do peito.Processado pelo visitador. apresentava ele. Foi somente repreendido na mesa. E por não dizer mais. no tempo da graça. a sua intenção era por lhe pôr medo. . os ditos negros a lançaram na fornalha onde se queimou. o qual prometeu ter pelo juramento que recebeu e assinou com o senhor visitador.2551. E confessando-se. depois dele recolhido. na dita vila de Guimarães. patris. uma certidão do governador Manuel Teles Barreto. capitania dos Ilhéus. letrado e pregador. estava um mestre que ensinava moços gramática que se chamava frei Álvaro de Monção. de idade de setenta e cinco anos. em 3 de agosto de 1591 19 Disse ser cristão velho. 7 . apesar de confessar largamente na graça. morador na vila de São Jorge. e quando no dia seguinte o soube. cavaleiro da casa del Rei nosso senhor. disse que já na dita fazenda não há rastro deste modo de idolatria. em Portugal. e o pediu a ele.Confissão de Jorge Martins . E sendo mais perguntado. descendo só a mão da testa até abaixo do peito. disse que haverá sessenta anos pouco mais ou menos que. natural da vila de Guimarães. pondo a mão no ombro direito. IL.26 caso se ache que o fez pede perdão disso. disse que uma noite. E foi-lhe mandado ter segredo. de idade de quarenta anos então pouco mais ou menos. disse a dois negros seus que a botassem na fornalha e. cristão velho. que o dito mestre ensinou a todos os discípulos na escola que. estando uma sua negra inchada de comer terra e quase para morrer. confessando. senhor visitador a mandasse trasladar. lhe pesou muito. filho de Baltasar Martins e de sua mulher Leonor Vaz. defuntos. em que se reconta o caso. que fora frade da ordem de São Francisco e se saíra da ordem. e assim o pede de toda a mais culpa que neste caso cometeu como dito tem E outrossim. ANTT. E que não se lembra mais se uma. e tudo se apagou como dito tem. mas que trazia vestido sempre o hábito da dita ordem. pois vinha acusar e confessar dentro deste tempo de graça. respondeu que sua intenção era tirá-la e trazê-la do sertão para a extinguir. casado com Catarina Faia. quando se benzessem. dito senhor visitador. então et filli. por fazer medo e terror aos outros que não comessem terra. proc. foi perguntado que intenção teve de trazer e conservar em sua fazenda aquele gentio e aquela seita de idolatria. a ela e aos outros. que para ajuda e prova da sua boa intenção acerca do dito negócio do gentio. em cuja escola ele confessante aprendia gramática. E que quando disse aos escravos que queimassem a dita negra. E disse mais. pedindo-lhe usasse com ele de misericórdia. como de fato extinguiu a parte que veio à dita sua aldeia. se muitas vezes. e não querer que a queimasse. disessem desta maneira In nomine. dizendo que representava o filho estar à destra do 19 .

quando se benzessem. a mandava degolar e. pondo a mão no ombro esquerdo representava o espírito santo.Confissão de Maria Lopes. E confessando-se. nem se lhe havia de dar mais crédito que às sobreditas autoridades. para rechear ou para mandar de presente. E depois que ouviu esta doutrina. quando mandava matar alguma galinha. alfaiate do duque de Bragança. e que ainda que o outro modo de benzer de que os cristãos todos usam. natural de Monssaraz. como Genésio Alfonso em um seu livro ensina. e depois dos ditos padres dizerem isto ele o fez assim sempre. lhe ouviu dizer nela que Deus não tinha mão direita nem esquerda. no ombro direito e não abaixo do peito. e noutros versos da igreja . haviam de nomear o filho à destra. e alegava que no credo dizemos filium ejus. nomeando o filho no ombro direito. e que se lembra que era tido em boa conta. e ouvindo ele isto foi ao mosteiro falar com o dito pregador e outros padres e lhes declarou este escrúpulo. ouvindo uma pregação na vila dos Ilhéus de um padre da Companhia de Jesus. mulher que foi de Afonso Mendes. Pelo que. em 3 de agosto de 1591 Disse ser cristã nova. respondeu que não sabe de certeza se o dito frade é vivo ou morto. cirurgião del Rei. e do costume disse nada. e no símbolo de Atanaseu. qui sedes adexteram patris miserere nobis. E assim lhe ensinava o dito frade seu mestre que. se tem cometido culpa todo aquele tempo em se benzer daquela maneira que o dito frade seu mestre lhe ensinou. disse que em todo o tempo que teve casa até agora. no seu salmo diz dixit dominus domino meo sede adexteris meis. nomeando o padre na testa e o filho no peito. et qui sedet ad dexteram patris. no tempo da graça. sedet ad dexteram dei patris. defuntos.27 padre. contudo melhor era este outro modo que ele ensinava. e que David. segundo sua lembrança. sendo perguntado. e eles lhe ensinaram que deixasse o dito modo de benzer e que se benzesse da maneira que os cristãos todos se benzem. 8 . e que se use com ele de misericórdia. pendurar a escorrer o sangue por ficar mais formosa e . e na boca. ele confessante sempre usou do dito modo de benzer. então et spiritus sancti. de idade de sessenta e cinco anos. pede perdão disso. filha de Fernão Lopes. degolada. dizendo que o dito Genésio Alfonso não era santo. e de sua mulher Branca Rodrigues. nomeando o padre na testa e o filho no peito é bom. viúva. e não sabe de que nação era. nomeando o filho à destra. conforme a este tempo que é de graça. moradora nesta cidade. unus Deus. termo d’Évora em Portugal. até que haverá quatro ou cinco anos. dando-se-lhe penitência saldável. cristã nova. pondo uma cruz com os dedos. E. que.

de sorte que o luto pela morte de um parente ou morador da casa implicava a repugnância pelo cadáver ou pela morte de um ente querido. ela confessante mandou caiar a casa tendo as portas abertas. no qual dia se costuma guardar nesta cidade. E por não dizer mais. Outrossim. em dias das cadeias de São Pedro. moradora nesta cidade. e assim mais. quando em sua casa se cozinha. mas por lhe vir nova que vinha o dito filho. trocando-lhe suas palavras. e depois disto veio à notícia dela confessante que a dita Isabel Correa. E assim. quarto traseiro de carneiro ou porco. por algumas vezes.O único significado de landoa que encontramos para a época é “fruto do carvalho ou azinheira”. 20 21 20 . que se confessava de muitas mentiras e malícias e pecados que nela havia. que ora é viúva. pede perdão e misericórdia e penitência saldável. lhe disse Isabel Correa. foi-lhe dito pelo senhor visitador que algumas das ditas coisas eram conhecidas muito notoriamente serem cerimônias da lei de Moisés e. estando ela confessante no nojo e pranto pela morte do dito seu filho que ainda estava morto em casa. disse que haverá doze ou quinze anos que. saindo ela do confessionário de se confessar no Colégio de Jesus. . pelo que se algumas pessoas que dela sabem isto têm recebido escândalo. disse que tinha nojo e asco às galinhas e qualquer outra ave que morria de doença. por associação. que andava sempre com as contas na mão. que não andasse sempre com as contas na mão que tempo havia de rezar e tempo de comer. e não se ajunta na landoa o sangue evacuado. disse às outras mulheres que aí estavam que aquela água vinha de fora. porém que ela confessante não disse senão como dito tem. neste contexto. 21 . lhe manda tirar a landoa por que se assa melhor e fica mais tenro. que haverá cinco anos. dizia que ela lhe dissera que ia confessar que tudo eram mentiras. e isto mesmo mandou fazer alguma vez à carne de vaca quando era magra. por não acharem a casa suja. defunto. pediu um púcaro de água e que Dona Leonor.Nojo significava também luto. que quando morreu seu filho Manuel Afonso. Gordura retirada no preparo das carnes cozidas e assadas. digo se assa. alguma vez a manda cozinhar lançando-lhe dentro azeite ou grãos na panela com ela. que servia para dar de comer aos porcos. disse mais. quando a carne de porco é magra. e que lembrando-lhe o viria confessar. ela confessante lhe disse. mulher de Simão da Gama. à gordura das carnes. Outrossim. dizendo que lhe não lembrava mais nada. Talvez landoa significasse. moradora nesta cidade que presente estava. e que sempre. e tem cometido (ela) culpa no sobredito da maneira que diz. chamando por um seu sobrinho por nome de Matias Rodrigues. cônego da sé desta cidade. sem má intenção de desprezo. disse que haverá ano e meio que. Disse mais.28 enxuta do sangue. E que todas as ditas coisas tem feito e dito sem malícia e má intenção. E outrossim. estando para comer com a mesa posta. por estar esperando por um seu filho casado de pouco que vinha com sua mulher. e sem saber que eram cerimônias de judeus. mulher que foi de Francisco Álvares Ferreira.

respondeu que entendeu que a dita dona Leonor. o mandar trabalhar no dia santo. natural desta cidade. nem sabe se água lhe veio de fora. e mandar também ao dito seu sobrinho que não rezasse sempre com as contas na mão. maiormente sendo ela mulher de tão bom entendimento como é.Confissão de Jerônimo de Barros. portanto. declarou que disse que. ele confessante. de idade de trinta anos. e que não é de crer que ela não soubesse que fazer as ditas coisas do quarto de carneiro. a um Manuel Ferreira. e dizerem dela que dizia confessar mentiras. da dita terra. Simão Egico. Duarte Angola. disse que haverá três anos pouco mais ou menos que o dito seu padrasto vendeu um pedaço de terra. Cristovão Angola. E por saber assinar. nem de ofender a Deus. um cunhado dele confessante por nome Pero Dias. E que. e que a dita Isabel Correa e ela se não querem bem. nem intenção do desprezo do dia santo. Rodrigo Angola. quiz dar sinal que não havia água em casa. porquanto o dito seu padrasto não tinha ainda feito partilhas com ele e com suas irmãs. lhe disse que se fosse desforçar. Joane Ongico. Pelo que. no tempo da graça. assinou com o senhor visitador e declarou que. com muita caridade admoesta que declare e confesse a verdade de suas culpas e a intenção que teve em fazer as ditas coisas porque. e por mais não dizer lhe foi mandado que tenha segredo e assim o prometeu pelo juramento que tinha recebido. ela e as sobreditas estiveram muito mal e em ódios. Lourenço Ongico. tirando-lhe a landoa e de cozinhar a carne com azeite e grãos eram cerimônias dos judeus. E do costume disse que houve grandes diferenças com a dita dona Leonor. arrancando e danando toda a dita lavoura e obra do dito Manuel Ferreira. levou consigo a Bastião. Antônio Arda. E confessando-se. morador nesta cidade. mas que ela confessante não fez tal. o qual comprador fez na dita terra lavoura de milho e algodão e sete tarefas de lenha. sendo perguntada pelo senhor visitador que mal entendeu ela da intenção de dona Leonor em dizer que o púcaro d’água lhe vinha de fora. e de Catarina Loba. em 4 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho. e não se querem bem. porém que ora já se tratam e conversam. querendo dar a entender que ela confessante guardara a cerimônia dos judeus de lançar toda a água fora quando alguém morre em casa. são coisas que mostram não ser ela boa cristã. e que. 9 . que ora é casada segunda vez com André Monteiro. morador em Passé. cristão velho. todos negros da . mas que é boa cristã. por lhe não ter boa vontade. fazendo-o assim. Pedro Ongico. está em tempo de graça no qual merecerá larga misericórdia da Santa Madre Igreja.29 assim. em algum tempo. em Passé. Antônio Molec. E respondeu que ela nas ditas coisas que tem declarado nunca teve intenção judaica. já defunto. filho de Gaspar de Barros. negro de Guiné e a Gonçalo. lavrador em cuja casa ele agora é morador. se de casa.

E depois disto feito. segundo sua lembrança lhe saiu absoluta. de idade de cinquenta e um anos. mulher de Pero Teixeira. puseram o fogo nas ditas tarefas de lenha e arrancaram e destruiram toda a dita lavoura. negro brasil. Francisco da Terra e Manuel da Terra. mulher que foi de Francisco de Medeiros. todos ao presente vivos. Guiné) ou a etnia presumida (Arda. sogra do mestre da capela. o qual lhe deu sentença no caso e que.Como dissemos na Introdução. estando também presente Paula Serrão. Ao que lhe replicou uma morisca sobredita que não dizia bem. brasil. gentio. com todos os sobreditos. cativo também do dito seu cunhado. alfaiate do duque de Bragança. indo visitar Luisa Correa. natural de Lisboa. casada com Antônio Serrão. disse que o tinha em tanta veneração como a uma hóstia. e uma mourisca que veio degredada a esta terra a que não sabe o nome. e nunca ele confessante nem os ditos ajudadores sairam à dita excomunhão. moradora em Toque Toque desta capitania. ela confessante perante eles disse que um agnus dei que tinha ao pescoço. no tempo de graça. Medalhão de cera benzido pelo Papa e usado ao pescoço como proteção contra males e perigos. o dito Manuel Ferreira tirou uma carta de excomunhão.30 Guiné. e contudo ela confesante tornou a ratificar o seu dito e nele ficou. dizendo ela que um padre de São Francisco lho dera em muita estima e lhe disse que quando o Papa os benzia que era com grande aparato. e que desta culpa pede perdão e remédio saldável. de que ficou depois muito arrependida. Congo. entendendo muito bem e remordendolhe a consciência que o não calasse. e querendo ela confessante encarecer a muita estima em que o tinha. que há mais de dois anos. era usual diferenciar-se o índio do africano reservando-se ao primeiro as designações negro da terra. nunca confessou este pecado de ter feito o dito dano e o calou sempre.Confissão de Catarina Mendes. gabando-lho muito. e nunca declarou a dita excomunhão e se deixou andar excomungado todo este tempo. moradores nesta cidade. e do dito tempo até agora passaram já duas quaresmas. que haverá quatro meses que o mataram.Significa literralmente “cordeiro de Deus”. 23 . em 5 de agosto de 1591 Disse chamar-se do dito nome e ser cristã nova. e contudo ela vem 23 22 . com os cardeais revestidos de pontifical. apondo-lhes como “sobrenome” o lugar de origem na África (Angola. e de sua mulher Branca Rodrigues. cristã nova. e que é já defunta. E confessando-se. E ele confessante. disse que haverá vinte e quatro anos que sendo ela já casada. Os cativos índios aparecem como “da Terra”. e outrossim um negro por nome Antônio de Guiné. a qual se publicou. e nas confissões que ele confessante fez pela obrigação da Igreja. E a dita mourisca a foi acusar perante o bispo passado. filha de Fernão Lopes. . usando-se com ele de misericórdia. já defunto. e que dissera as ditas palavras e as ratificara. à guisa de sobrenome. e ao segundo a expressão negro da Guiné. escravos cativos do dito seu cunhado Pero Dias. Nesta confissão encontramos uma rara especificação quanto aos africanos. simplesmente. por exemplo). 22 10. defuntos.

cinto ou cordão de crina. E depois. respondeu que quando se confessou e comungou no dito dia de Nossa Senhora. no tempo da Graça. de lã áspera. foi perguntada pelo senhor visitador se crê que no Sacramento da Eucaristia. indo para sua casa. com quem pelejara. e ser filha de Pero Fernandes. lhe não alembrou. lhe lembrou seu marido que ela antes de ir para a igreja tinha comido uma talada de ananás. E por não dizer mais.31 pedir perdão à Santa Madre Igreja e que se use com ela de misericórdia neste tempo de graça. e de sua mulher Maria Lopes. pelo que a seu rogo assinou o notário. homem do mar. Sabia ler e não escreve. natural de Estremoz. mas antes o recebeu para salvação de sua alma. e que quando ela o recebeu não duvidou nada. a qual penitência ela cumpriu. e que tem por herege quem o negar. E sendo mais perguntada. casada com Gaspar Rodrigues. e que a isso estava obrigada e que está prestes para receber penitência. de idade de trinta anos. e ela. E que nunca esteve em terra de Luteranos. a seu rogo. e então teve grande arrependimento e se tornou a confessar a um padre da companhia. E confessando-se. conforme a este tempo de graça. assinou o notário. Por não saber escrever. e se quando tomou o Santíssimo Sacramento tendo comido sabia que estava nele o corpo de Cristo Nosso Senhor.Confissão de Catarina Fernandes. e que ora pedia misericórdia nesta mesa. 11 . e que a Igreja Santa condena por hereges os que o negam. está o verdadeiro corpo de Cristo Nosso Senhor. e que sabia muito bem que se há de comungar em jejum. cristã velha. lhe lembrou então que tinha comido uma talada de ananás antes de ir comungar. consagrada a hóstia. e dele recebeu o Santíssimo Sacramento. nem tratou com eles. que veio a esta cidade degredada por cinco anos por ser culpada na morte de um homem a que matou o pai de uma sua filha. se confessou ao capelão do engenho Pantaleão Gonçalves. . costureira. vendo também as cascas no chão. almocreve. não lhe lembrou que tinha comido e que não tinha comido mais que uma talada de ananás. marinheiro. em 9 de agosto de 1591 Disse ser cristã velha. morando ela em Pirajá desta capitania. 24 24 . o qual lhe deu em penitência que trouxesse um cilício quinze dias e rezasse cinco vezes o rosário e outras tantas a coroa de Nossa Senhora. que se vestia diretamente sobre a pele para penitência de pecados. ou se duvidou disso. junto desta cidade. às vezes com farpas de madeira. e respondeu que ela crê que no Sacramento da Eucaristia está o verdadeiro corpo de Cristo. moradora no Monte Calvário. disse que haverá ano e meio em que em dia de Nossa Senhora da Conceição. e que com a cólera e agastamento que levava contra seu marido. e jejuasse três sábados a pão e água.Pequena túnica. pela manhã.

era comum recorrer-se a intérpretes. auricular. Os sacramentos ministrados pelos padres. e lhes foi dado juramento dos Santos Evangelhos em que puseram as mãos direitas. carcereiro. dando esmolas e favores aos próximos. no tempo da graça. filho de gentios pagãos. que tem cuidado de os doutrinar e instruir na fé. natural de Castelo Branco. João Álvares. respondeu que ele crê que na hóstia consagrada está o verdadeiro corpo de Cristo e vida e saúde das almas. e que isto lhe ensina o dito padre. viúva. em 12 de agosto de 1591 Por querer confessar sua culpa nesta mesa e ele ser do gentio desta Bahia que não sabe a língua portuguesa. sabendo isto. 26 . estando por vezes o índio moribundo. 27 . por seu intérprete e declarador que sabe a sua língua. já defuntos. e depois de o ter dito ficou muito arrependido e lhe pesou muito o Diabo lhe fazer dizer tão ruim palavra. foi presente o Padre Francisco de Lemos.Neste contexto. ao que ele confessante satisfez e ora dentro. e que se use com ele de misericórdia. índio do Brasil. eram associados à morte. meia cristã nova. sob cargo do qual prometeram dizer verdade etc. em 14 de agosto de 1591 Disse ser cristã nova meia. o padre superior da dita aldeia. segundo seus feitos merecem. cristão novo. cristão 25 . filha de Antônio Rodrigues Paneiro.32 12. à diferença da confissão sacramental. neste tempo de graça. sem intermediários (razão pela qual os missionários tinham que aprender a língua dos povos catequisados e se valer de manuais de confissào elaborados nas línguas nativas). então ele confessante respondeu ao dito Simão que naquele Sacramento de comunhão estava a morte. E sendo mais perguntado. de idade de cinquenta anos.Quando ouvia confissões ou denunciações de índios ou africanos. 25 26 27 13 . E confessando-se. e de sua mulher Gracia Dias. morador na aldeia de São João. vem pedir perdão à Santa Madre Igreja. pedindo perdão a todos e tomando disciplina . exclusivamente espiritual. no tempo da graça. o prendeu e penitenciou na igreja. e que os homens morrem neste mundo e suas almas vão ou à glória ou ao inferno.Confissão de Clara Fernandes. cujo teor somente o confessor poderia ouvir. sobretudo em função das epidemias que assolaram tais populações. e isto disse a uma só vez.Confissão de Fernão Ribeiro. dizendo-lhe outro gentio por nome Simão que os cristãos que comungam tinham de costume usar de caridade. ela era cristã velha. em Portugal. . Pelo dito intérprete. religioso da Companhia de Jesus.Trata-se de uma crença indígena relativamente difundida após a chegada dos jesuítas. em especial a da varíola (peste das bexigas). disse que é cristão há seis ou sete anos. da Companhia de Jesus. disciplina é sinônimo de castigo. disse que haverá dois anos que. e que quem comungava recebia a morte . mulher que foi de Manuel Fernandes. e que têm eles entre si que os que comungam são os homens mais virtuosos. E que.

estando ela em prática com certas pessoas que lhe não lembra. que haverá dez anos. e que não teve intenção nem malícia. folhas 10 (supra 39). e foi admoestada pelo senhor visitador que faça confissão verdadeira de suas culpas. moradora nesta cidade. e que não sabe que algum parente seu fosse penitenciado ou preso pelo Santo Ofício. respondeu que a sua intenção era entender que se o dito mestre fora queimado teria morte mais desonrada.Confissão de Jerônimo Parada. E confessando-se dentro. neste tempo da graça. no tempo da graça. e assim a veste lavada todos os mais dias da semana em que se lhe oferece tê-la. por limpeza do dito ofício. Maria Lopes. disse que ela veste alguns sábados camisa lavada. cristã nova. dizendo que ela era uma judia e que ajunta panelas de toda semana e as quebra ao sábado. e a isto respondeu ela confessante que lhe parecia que aquela morte fora para ele mais honrada. se degolou ou matou por sua mão. infamando-a. E sendo perguntada. e se nisso tem culpa pede misericórdia. e que isto faz sem ter intenção alguma ruim. estalajadeira que dá de comer em sua casa. que se vestia por baixo das roupas e era usada por homens e mulheres. pois está em tempo da graça para a merecer e alcançar. sem ser chamada. e pelo juramento dos Santos Evangelhos em que tornou a por sua mão direita. Por não saber escrever. 28 14 . e por isso não pede disto perdão nem o confessa. estudante. e tudo isso ela confessante nega e diz serem falsidades que lhe alevanta a dita sua inimiga. e que tem um crucifixo e o açoita. por respeito do serviço de estalajadeira. e a qual já fez confissão neste livro. e que da culpa que nisto tem em dizer esta palavra. E disse que Isabel Rodrigues. pede perdão e misericórdia. simplesmente. e não por cerimônia nem guarda dos sábados.33 velho. mulher que foi de mestre Afonso Mendes. estando preso na Inquisição. de idade de quarenta anos. cristão velho. quando tem a do corpo suja. viúva. por culpa somente confessa vestir alguns sábados camisa lavada como dito tem. na graça. sem ruim intenção. a boca torta. o notário assinou a seu rogo.Confissão de Maria Lopes. respondeu que não tinha mais que dizer do que dito tem. 15 . e ora lhe nega a dívida e trazem demanda. cristão novo d’Évora. somente por limpeza. que. uma delas veio a falar em mestre Roque. fechada em roda. dentro. .Camisa: espécie de vestidura com mangas. em 17 de agosto de 1591 28 . lhe deve mil e oitocentos réis que lhe emprestou sobre um cnhecimento que lhe fez. em 16 de agosto de 1591 Apareceu. declarou que lhe lembrara mais. respondeu que não conhece parente algum seu que fosse preso ou penitenciado pelo Santo Ofício. E por não dizer mais e ser perguntada. no tempo da graça. e é sua inimiga e lhe alevanta falsos testemunhos.

e o dito Frutuoso Álvares o começou a apalpar. e do costume disse nada. e disto disse que pedia perdão e se confessava dentro neste tempo de graça. . então ambos tiraram os calções e se deitaram em cima da cama. porém daquela vez não teve polução nenhum deles. e de sua mulher Leonor Viegas. lhe deu mais outro vintém. foi ele confessante a casa de Frutuoso Álvares. alvoroçando-lha com a mão. palavra que mais se usava no plural. morador nesta cidade. disse que ouviu que o dito Frutuoso Álvares era amigo de fazer estas torpezas com moços e já por isso viera degredado do reino. e por ele se não contentar com um vintém.Vaso natural. 30 . filho de Domingos Lopes. significava. 31 . ficar em casa de alguém. a ter polução. homem velho que tem já a barba branca.Calção. e depois de terem feito por diante como das outras vezes. na época. E confessando-se. o sentido de abrigar. se foi agasalhar em casa do dito Frutuoso Álvares e se lançou na cama com ele. Não se usava roupa de baixo. e lhe tirou os calções fora e o levou à sua cama. e desta segunda vez não houve também mais que ajuntamentos por diante. muitos dias aconteceu que veio o dito Frutuoso Álvares a esta cidade e se agasalhou em casa da avó dele confessante. neste contexto. a parte do vestuário masculino “que cobre desde a cintura até os joelhos”. o qual começou a apalpá-lo também a provocar-lhe e fazer o mesmo como da outra vez. sendo o dito Frutuoso Álvares vigário da igreja de Matoim. e o dito clérigo ajuntou a sua natura com a dele confessante e. carpinteiro da Ribeira. disse que há dois ou três anos. consumando o pecado de sodomia. o dito clérigo se deitou com a barriga para baixo e disse a ele confessante que se pusesse em cima dele. e por eles ficarem ambos sós. e este pecado consumou tendo polução como dito tem uma só vez. e o dito clérigo tirou também os seus e se deitaram ambos sobre a cama. E sendo perguntado se sabia ele confitente que aquilo era pecado. E sendo mais perguntado. por chegar de noite a Matoim. que morava meia légua além de Matoim. e ele então lhe deu um vintém. e que ele confessante respondeu que não queria. respondeu que sabia. em dia de Páscoa à tarde. E depois disto. com a mão solicitava ambas as naturas juntas por diante. foi ele confessante pelas casas de seu pai. (e) ele confessante da mesma maneira apalpava com a mão a natura do dito clérigo. lhe disse o dito Frutuoso Álvares que fizessem como das outras vezes.34 Disse ser cristão velho. metendo seu membro desonesto pelo vaso traseiro do clérigo como um homem faz com sua mulher pelo vaso natural por diante. e lhe meteu as mãos pelos calções e lhe apalpou a sua natura. dizendo-lhe que estava gordo e outras palavras meigas.Agasalhar possui. de idade de dezessete anos. por ter amizade com seu pai e com seu irmão. natural desta Bahia. e assim o fez e dormiu com o dito clérigo carnalmente por detrás. clérigo de missa. na linguagem do Santo Ofício: vagina. hospedar. E depois daquela vez a muito tempo. 29 30 31 29 .

porquanto o dito vigário não dizia missa senão de quinze em quinze dias.35 E foi admoestado pelo senhor visitador que se afaste de conversação de semelhantes pessoas que lhe possam causar dano em sua alma. cozinheiro da rainha. e por dizer que já estava emendado e havia muito tempo que deixara o dito pecado.e que não tinha mais que confessar e que fez as ditas coisas pelas razões que tem dito. 32 17 . se por as fazer com a dita boa intenção ela caiu em alguma culpa. e confessando-se. disse que haverá cinco meses. 16 . cristã nova. E foi perguntada se sabe algum parente seu que fosse preso ou penitenciado pelo Santo Ofício. respondeu que não sabe. estando ele em Sergipe. e estas coisas fez sem ter nelas má intenção. será gravemente castigado. e que já se confessou destes pecados aos padres da Companhia. disse que no tempo em que ela esteve em Peroasu. digo. foi-lhe mandado que se confesse ao Padre guardião de Santo Antônio. E outrossim. toalha era uma peça de linho usada na cabeça pelas mulheres. e cumpriu as penitências e se mostrou arrependido. E pelo senhor visitador foi admoestada com muita caridade que. e que. disse que todas as vezes em que sua casa até agora se assavam quartos trazeiros de res miúda. . sendo certo que. que ainda agora o é. no tempo da graça. ela confessante quatro ou cinco sábados vestiu camisa lavada e beatos lavados. aos sábados. no tempo da graça.Confissão de Roque Garcia.Confissão de Catarina Mendes. neste tempo da graça. lhe mandava tirar a landoa porquanto Antônio Álvarez. que também vigia na época. que presume dela que as fazia por guardar a lei de Moisés e que. disseram uns negros que os gentios tinham mortos os 32 . E declarou que não se quiz confessar ao dito Frutuoso Álvares. lhe ensinou que era isto bom para a carne ser bem assada.Além do significado atual. e ela é da nação dos cristãos novos e mulher de bom entendimento. de São Francisco. e por isso ela também o ensinou a outras pessoas. isto eram cerimônias de judia. portanto. donde é capitão Tomé da Rocha. para alcançar misericórdia e a graça deste tempo. E ela respondeu que é boa cristã e que não fez as ditas coisas com intenção de judia. em 19 de agosto de 1591 Confessando-se. e pôs na cabeça toalhas lavadas para ir à igreja ouvir missa. confessando-se. faça confissão inteira e verdadeira. pois. fazendo o contrário. e que traga escrito a esta mesa. pede perdão e misericórdia com penitência saldável. (de) que foi vigário Marçal Rodrigues. e o abolveram. em 18 de agosto de 1591 Declarou que lhe lembraram mais algumas coisas de que se quer confessar dentro.

E ele confessante não queria senão que se desse crédito a um caderno que mostrava. e que se confesse desta culpa a seu confessor e cumpra a penitência espiritual secreta que ele lhe der. e disse que não deu conta disto a outrem.Magistrado da Justiça Civil de Sua Magestade. e fale palavras de bom cristão que não dêem escândalo e lhe não causem dano em sua alma. ao barco.Margarida da Costa) 33 34 33 . ainda que São João Evangelista lhe dissesse o contrário do que se continha no dito caderno. estando fazendo umas contas com Antônio Nunes Reimão. e por isso pede perdão. e que então sentiu ele que dissera mal nelas sem considerar o que dizia. escrituras e papéis das pessoas falecidas sem herdeiros na terra. E disse aquelas palavras parvamente. casado na ilha Terceira. E por ser dentro no tempo da graça. disse sem deliberação que. disse ser cristão velho.36 quatro ou cinco homens que estavam em um barco em o rio de São Francisco. soldado em Sergipe. disse que ontem à tarde. no colégio da Companhia de Jesus.Confissão do Doutor Ambrósio Peixoto de Carvalho. cristão velho. filho do Doutor Gonçalo Vaz Peixoto. 34 . não lho creria. genro de Fernão Cabral de Taíde e de sua mulher D. acendido em cólera e agastamento na porfia que tinham. casado com Dona Beatriz de Taíde. o qual o repreendeu e ele se calou. de idade de trinta e sete anos. 18 . e que o queimaram.Cargo de provimento real cuja principal atribuição era fazer inventário de todos os bens móveis e de raiz. no tempo da graça. (Era do Desembargo de Sua Magestade e provedor mor dos defuntos e ausentes . . caso houvesse. e de sua mulher Madalena de Carvalho. E depois de acabadas as porfias. e foi-lhe mandado ter segredo e que atente como fala. o Padre Quirício. mercador. trasladando o inventário para o testamento. lhe lembrou que dissera ele aquelas palavras. e se vá confessar a um padre da companhia e traga escrito. natural de Guimarães. morador nesta cidade. quiz o dito mercador que se desse crédito a uns assinados de mestres e feitores de um engenho de açúcar. e sobre isto. e pede delas perdão e penitência saldável com misericórdia. E confessando. e cumprirá a penitência que lhe derem. respondeu ele confessante que tanto cria ele no que diziam aqueles negros como nos Evangelhos de São João. desembargador da casa do cível . sendo presente Antônio Fernandes. em 20 de agosto de 1591 Confessando-se. foi admostado (para que) em suas práticas seja atentado como também convém à qualidade de sua pessoa. E dizendo o capitão que os negros mentiram. que estava presente.

Confissão de João Serrão. defuntos. e as ditas coisas fez sem nenhuma má intenção. assando-se em sua casa quartos de carneiro. e alguns sábados vestiu camisa lavada por limpeza somente. quanto mais que ele é de bom entendimento. natural da cidade do Porto. morador nesta cidade. que tem dúvida se é meio cristão novo. solteiro. E sendo perguntado por ele. uma imagem de Cristo de bulto de barro para se pôr na semana santa em alguma igreja. como costuma a vestir quase todos os dias da semana. mercador (e) Diogo Martins. ele veio um dos dias passados a esta mesa a denunciar. alfaiate.Palavra chula para flatos. estando à mesa comendo com outros. em 20 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho da parte de pai e tem dúvida se é cristão novo da parte de mãe.37 19 .Confissão de Fernão Pires. lhe tirou a landoa para se assar melhor. pela quaresma. 36 35 36 . respondeu que tem dito a verdade e que é muito bom cristão e não teve intenção judaica. às vezes. fala algumas palavras descorteses às suas negras e a outras pessoas.Funcionário fiscal da administração municipal. E por não dizer mais. cristão novo. foi admoestado que faça confissão inteira e verdadeira porque as ditas cerimônias são conhecidas serem de judeus. a saber. ele defunto e ela viva e que. sendo isto. e isto fazia sem má intenção (e) da culpa que tem pede perdão neste tempo da graça. no tempo da graça. em 22 de agosto de 1591 Confessando-se. E disse que. limpa e abastada. e assim se escrevera. sem aprender. e isto fizera por ele estar casado nesta cidade com uma mulher cristã velha de gente nobre. . moradores em Bragança. costuma fazer (a) cada ano. cristã nova. disse que algumas vezes. se era cristão velho ou novo. . cuja denunciação está no primeiro livro das denunciações desta visitação. E outrossim. sob cargo de juramento que tinha recebido. havido em boa conta e de honrado. disse que ele é cristão novo inteiro. mas não as fala em desprezo da imagem. porém que a verdade é como aqui tem confessado ser cristão novo inteiro. E confessando. Manuel Rodrigues Ribeiro. filho de Salvador Pires e de sua mulher Ana Rodrigues. 35 20 . eleito pela Câmara Municipal. cristão novo. senhor visitador. filho de Francisco de Chaves. e ele ser tido de todos por cristão velho e ser cidadão que já foi almotacél desta cidade. por ele ser engenhoso. que está ora jurado para casar com Luisa d’Almeida. os outros lhe dão traques e assim os deu ele algumas vezes ao tempo em que os outros bebiam. de idade de quarenta anos. e de sua mulher Clara Serrão. ao tempo em que um vai com o copo para beber. e quando as está fazendo. ele confessante falsamente respondeu que era cristão velho de todas as partes.

sendo testemunhas presentes o Licenciado Domingos Pires e o meste em artes Julio Pereira.38 E que da culpa que cometeu e perjúrio nesta mesa. e fazer abjuração de leve suspeita na fé após ouvir sentença na igreja. à porta dos estudos. pede perdão neste tempo da graça. . senão o seu confessor a quem se confessou ontem desta culpa. espaço de um mês. dado caso que cá viesse Cristo e me dissesse não ser assim. e que nas outras mais coisas que denunciou na dita denunciação falou verdade. e de sua mulher Vitória Fragosa. no tempo da graça. licenciado em artes.10423. disse que haverá sete ou oito meses pouco mais ou menos que. E saindo ele confessante do curso. 21 . e está muito arrependido e deu mostras de arrependimento. e que ninguém o sabe. de idade de vinte e cinco anos. lhe disse o licenciado Domingos Pires que a dita sua conta estava errada. proc. em 20 de agosto de 1591 37 Disse ser cristão velho. sabia muito bem a verdade. e o licenciado Bartolomeu Madeira. E confessando-se. e ele confessante entendeu consigo que era verdade que falara mal e lhe pesou muito de as ter ditas e. vela acesa na mão.Foi processado e condenado a sair em público. e que não conhece tio nem parente seu que fosse preso nem penitenciado pelo Santo Ofício. moradores na rua nova de Lisboa. morador nesta cidade. E sendo mais perguntado. solteiro.Confissão do Licenciado em Artes Bartolomeu Fragoso . e o dito mestre dizia que ele que errava na dita conta. natural de São Tomé. desbarretado. dizendo ele confessante que a dita conta feita por ele conforme certas opiniões que ele seguia estava certa. depois disto. Degredado para todo sempre da Bahia. ANTT. IL. natural de Lisboa. foi ele confessante confessar esta culpa ao bispo deste estado do Brasil. cuido não não daria crédito a mo dizer”. E sendo perguntado pelo senhor visitador se o induziu alguém a dizer a dita falsidade nesta mesa. havendo umas diferenças no curso das artes entre ele e seu mestre acerca de uma conta da circunferência e diâmetro da terra. com palavras de escândalo. cingido com uma corda. pelo que ele confessante se agastou e agastado disse estas palavras: “tão certo estou nestas contas que. o qual o repreendeu de palavras e nunca mais procedeu em nada que ele saiba sobre isto. descalço. disse que quando ele cometeu a dita culpa nesta mesa. filho de Amador Fernandes. alfaiate. 37 . respondeu que ninguém. que ora vai para o reino. calando a verdade e dizendo a dita falsidade. E logo o dito Domingos Pires o repreendeu.

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E assim mais confessou que, lendo ele por uma Diana, de Monte Maior ,
lhe disseram que era proibido aquele livro e, sem embargo disso, ele o acabou de ler
depois de ouvir que era proibido.
E sendo mais perguntado, disse que uma só vez disse aquelas palavras à
porta do estudo e as disse com cólera, e depois disso as não tornou a repetir nem as
disse mais outra vez, e que quanto ao livro de Diana, já o rompeu, e assim como o ia
lendo o ia rompendo.
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22 - Confissão de Brianda Fernandes, cigana, no tempo da graça, em 20 de agosto de 1591

Disse ser cristã velha, natural de Lisboa, de idade de cinquenta anos pouco
mais ou menos, casada com Rodrigo Solis, cigano, filha de Francisco Álvares e de
Maria Fernandes, ciganos, defuntos, moradora nesta cidade, na rua do Chocalho, que
usa de ser a dela.
E confessando, disse que haverá dez anos que, nesta cidade, na rua do
Barbudo, ela estando agastada não lhe lembra a que propósito, perante gente que lhe
não lembra, disse com muita cólera que arrenegava de Deus.
Da qual blasfêmia logo se arrependeu e foi confessar ao Colégio de Jesus,
e cumpriu a penitência que lhe foi dada, e ora nesta mesa pede perdão e misericórdia da
dita culpa pois a vem confessar dentro neste tempo da graça.
23 - Confissão de Álvaro Sanches, cristão novo, no tempo da graça, em 20 de agosto de 1591

Disse ser cristão novo, natural de Viana, digo, d’Olivença, filho de Bento
Henriques, mercador sem loja, tratante , e de sua mulher Leonor Sanches, cristãos
novos, defuntos, de idade de quarenta anos pouco mais ou menos, mercador de loja,
morador nesta cidade, casado com Maria da Costa, cristã velha.
E confessando, disse que haverá dezoito anos pouco mais ou menos, em
Passé, em casa de Gaspar de Barros, seu sogro, pai de Mécia de Barros, sua primeira
mulher, defunta, sendo presente Catarina Loba, madrasta da dita sua primeira mulher, e
suas filhas dela e do dito seu sogro, ele confessante tomou um Flos Sanctorum e com
um alfinete picou uma figura que estava debuxada no dito Flos Sanctorum de Nossa
Senhora e lhe picou a coroa e parte da cabeça de Nossa Senhora, e picava a dita
imagem para a tirar em debuxo e lhe ser de molde para por eler tirar outros debuxos
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- Trata-se do livro Diana, do espanhol Jorge de Monte Mayor, escrito em 1559, e logo incluído no
rol de livros proibidos pela Inquisição. Era um romance pastoril que narrava os amores de duas
moças.
39 - Tratante significava, na época, o traficante de escravos africanos, tratador.
40 - Livro que narra a vida de santos, hagiográfico portanto.
41 - “Debuxo” é palavra provavelmente de origem galega, próximo do “dibujo” castelhano, e significa
desenho, gravura.

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semelhantes, e isto fez com esta intenção boa, sem ter intenção nenhuma ruim, nem
pensamento dela.
E depois disto, alguns dias lhe disse o vigário geral desta cidade que o dito
seu sogro o acusara que ele confessante picara a dita imagem, e nunca mais o dito
vigário geral lhe falou nisto.
E confessando disse mais, que no dito tempo pouco mais ou menos, indo
ele para dizer o pesar de ante Cristo, disse o pesar de Cristo, não lhe lembra perante
quem, e foi com agastamento e pouco tento, sem má intenção, e logo se foi confessar e
das culpas que nestes casos cometeu pede perdão e se acusa nestes tempo de graça.
24 - Confissão do cônego Jácome de Queiróz, mestiço, no tempo da graça, em 20 de agosto de
1591

Disse ser cristão velho, natural da capitania do Espírito Santo deste Brasil,
mamaluco, filho de Manuel Ramalho e de sua mulher Antônia Paes, de idade de
quarenta e seis anos, sacerdote de missa.
E confessando-se, disse que haverá sete anos pouco mais ou menos, uma
noite nesta cidade, levou à sua casa uma moça mamaluca que então seria de idade de
seis ou sete anos, que andava de noite vendendo peixe pela rua, escrava cativa de Ana
Carneira, mulher do mundo , moradora nesta cidade na rua de Bastião de Faria, a qual
moça não sabe o nome, depois de cear e se encher de vinho, cuidando que corrompia a
dita moça pelo vaso natural, a penetrou pelo vaso traseiro e nele teve penetração sem
polução, e tanto que sentiu que era pelo vaso traseiro se afastou e tirou dela, e isto lhe
aconteceu uma vez por seu desatento, como dito tem.
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Confessou mais, que haverá também sete ou oito anos que, querendo
corromper outra moça por nome de Esperança, sua escrava, de idade de sete anos
pouco mais ou menos no dito tempo, cuidando que a corrompia pelo vaso natural a
penetrou também pelo vaso trazeiro e, sentindo isso, se afastou logo sem polução, e
também estava ceiado e cheio de vinho, e lhe aconteceu isto pelo desatento tal, a qual
escrava ele depois vendeu a Marçal Rodrigues e está ora casada.
25 - Confissão de Paula de Siqueira , cristã velha, no tempo da graça, em 20 de agosto de 1591
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- “Mulher do mundo”, “mulher pública”, “solteira do mundo”, “mulher de má vida” eram as
palavras correntes usadas para aludir às prostitutas.
43- Processada sobretudo por ler Diana, de Monte Mayor. Condenada a sair em público, vela acesa na
mão, para ovir missa de pé, na Sé, penitências espirituais e pagamento de 50 cruzados para o Santo
Ofício. Abjuração de leve suspeita na Mesa. ANTT, IL, proc.3307.

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Disse ser cristã velha, natural de Lisboa, filha de Manuel Pires, ourives de
prata, meio flamengo, e de sua mulher Mécia Rodrigues, defuntos, salvo que não se
afirma se sua mulher é defunta, casada com Antônio de Faria, contador da fazenda del
rei nesta cidade, de idade de quarenta anos, moradora nesta cidade, na rua de São
Francisco.
E confessando suas culpas, disse que haverá três anos pouco mais ou
menos que Felipa de Souza , moradora nesta cidade, casada com Francisco Pires,
pedreiro, junto de Nossa Senhora da Ajuda, a qual ela tem por cristã nova que foi já
casada com outro primeiro marido, defunto, sirgueiro , cristão novo, lhe começou a
escrever muitas cartas de amores e requebros , de maneira que ela confessante
entendeu que a dita Felipa de Souza tinha alguma ruim intenção.
E com estas cartas e semelhantes recados e presentes continuou com ela
por espaço de dois anos pouco mais ou menos, dando-lhe alguns abraços e alguns
beijos, sem lhe descobrir claramente o seu fim e propósito, até que num dia, domingo
ou santo, haverá um ano pouco mais ou menos, estando ela confessante em sua casa
nesta cidade, veio a ela a dita Felipa de Souza.
E porquanto ela confessante, já no decurso do dito tempo atrás suspeitava
e tinha entendido e por certo que a intenção da dita Felipa de Souza era chegar a ter
com ela ajuntamento carnal, a recolheu consigo para dentro de uma sua câmara e se
fechou por dentro, e lhe disse por palavras claras que fizessem o que dela pretendia.
Então, ambas tiveram ajuntamento carnal uma com a outra por diante e,
ajuntando seus vasos naturais um com o outro, tendo deleitação e consumando com
efeito o cumprimento natural de ambas as partes como se propriamente foram homem
com mulher, e isto foi pela manhã, antes de jantar , por duas ou três vezes pouco mais
ou menos, tendo o dito ajuntamento sem algum outro instrumento penetrante .
E depois que jantaram, tornaram a ter outras tantas vezes o mesmo
ajuntamento torpe pela dita maneira, usando ela confessante sempre do modo como se
ela fora homem, pondo-se de cima.
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- Felipa de Souza, muito acusada sem confessar na graça, foi processada e gavemente condenada.
Além de penitências espirituais, foi açoitada publicamente pelas ruas da cidade e degredada
perpetuamente para fora da Bahia. ANTT, IL, proc.1267.
45 - Sirgueiro era o artesão que trabalhava com seda.
46 - Requebro significava, segundo o dicionarista Moraes Silva: “Movimentos lascivos, inflexões
lascivas dos olhos, do corpo, da voz e gestos”.
47 - Jantar era a refeição do meio-dia, ao passo que almoço era a refeição matinal, o desjejum.
48 - Desde o século XIII, no tempo da Escolástica medieval, a Igreja considerava agravante de
relações homoeróticas entre mulheres o uso de instrumentos de vidro, couro, madeira ou qualquer
outra matéria à guisa de falo. Em alguns processos europeus e coloniais envolvendo homoerotismo
feminino, em diversos tribunais, registrou-se, com efeito, o uso de intrumentos de couro, veludo, etc.
Em meados do século XVII, a Inquisição Portuguesa retirou a sodomia feminina de seu foro,
motivada pela dúvida, que permaneceu insolúvel, sobre se as mulheres podiam cometer sodomia sendo
naturalmente desprovidas de falo.

carpinteiro de engenho. e que perseguia muito a uma moça casada com um alcorcovado . onde ela estivera. E confessando mais. depois de terem feito o sobredito. nem falar despropósitos. E disse que sabe que nesta cidade houve muita murmuração da muita conversação e amizade que a dita Felipa de Souza tinha com a dita Paula Antunes. 53 . por lhe darem mais aviso. moradora ora em Pernambuco. E que. um clérigo por nome Gaspar Franco. ela ouviu dizer a uma sua comadre. e que sabendo isto. pedreiro. 54 . neste caso.Refere-se às palavras da consagração ditas em latim: Hoc est enim corpus meum (aqui está o meu corpo). cometendo-a por palavras claras que queria dormir com ela. mulher de Tomás Bibentão. desonesta (siginificando. depois do jantar e antes da ceia noturna.A conotação de “altas e baixas” é social. tendo bebido muito vinho. Por vezes o substantivo vinha qualificado: conversação ilícita. O que diz a confitente era crença muito vulgarizada na época. morando na cidade de Lisboa. moradora em Matoim. usara do dito pecado. em ceros contextos. a dita Felipa de souza. como depois soube em sua confissão. quando ele dormisse. 50 .Conversação era palavra que. sensual. ela se afastou.42 E disse que quando cometeu estas ditas culpas tão torpes ela não cuidava que era pecado tão grave e contra a natura . posto que isto lhe contou depois de merenda . por nome Isabel Fonseca. havendo três anos pouco mais ou menos que era casada com o dito Antônio de Faria. 51 . antes de se ir para sua casa. era casada com João de Magalhães. irmão do dito seu marido. que ela tinha usado o dito pecado com outras muitas e moças altas e baixas . . usada para designar adultérios e relações sexuais ilícitas de modo geral.Alcorcovado ou corcovado era palavra corriqueira para designar o que hoje chamamos de corcundas. neste contexto. morador nesta cidade junto de São Francisco. já defunto. ferreiro. inglês. moradora junto de São Bento. no dito dia à tarde. não tendo a ver com o tipo físico das mulheres.Clichê inquisitorial e eclesiástico para aludir. E sendo perguntada se quando ela lhe contou estas coisas se entendeu dela que lhas falava de verdade ou a fim de lhe facilitar o negócio. e assim lhe disse mais. sobretudo entre as mulheres. o dito alcorcovado. respondeu que não sabe e que não viu fazer desatinos. que foi capelão del rei. e com Maria de Peralta. etc. por lhe dizer a dita moça sua mulher. E disse que. aos atos sexuais de sodomia e bestialidade (cópula com animais). e que ele amansaria e poria toda a sua afeição nela. mulher de Antônio Cardoso. lhe contou que ela tinha pecado no dito modo com Paula Antunes. disse que haverá vinte e três anos pouco mais ou menos. principalmente. lhe ensinou que dissesse ela as palavras da consagração da missa com que consagram a hóstia na boca do dito seu marido. e também dentro de um mosteiro. andou para tomar a dita Felipa de Souza em sua casa por manhã para a espancar e. cristã nova. indecente). que diziam que a dita Felipa de Souza namorava mulheres e tinha damas. antes que lhe acontecesse terem o dito ajuntamento torpe.Merenda era a refeição que por vezes se fazia à tarde. tinha forte conotação reprobatória. já defunta. cuja irmã Mécia de Basto. e para isto o dito 49 50 51 52 53 54 49 . mulher de Simão Pires. 52 .

pegou com os diabos para isso. mulher de Jorge Fernandes Freire. que ela tivera dois maridos e que lhe eram tão obedientes que se algum ora pelejavam. nesta cidade. morador nesta cidade na rua de São Francisco. a boca torta d’alcunha.Pedra sagrada do centro do altar das igrejas. e que primeiro pegara com Deus para isto. das quais palavras ela confessante usou muitas vezes delas. Isabel Rodrigues. Confessou mais. lhe ensinou umas palavras que havia de dizer andando em cruz. E outrossim. que haverá dez ou doze anos que. somente inintenção de usar dela. quando lhas ensinou. que a dita Boca-torta lhe deu uma carta que chamam de tocar. declarando-lhe mais. E sendo perguntada se ainda tem escritas as ditas palavras e a dita carta. Maria Vilela (*). (e) ela confessante usou as ditas palavras.43 clérigo lhe deu em um papel escrito as ditas palavras. nesta cidade. dizendo-lhe mais. atravesando a casa de quanto em quanto. dizendo-as para que o dito seu marido lhe quizesse bem e fosse manso. e ela confessante disse as ditas palavras na boca. dizendo-lhe que faria com elas ao dito seu marido Antônio de Faria que fosse muito seu amigo. porém depois que viu que Deus não quizera melhorar-lhe seu marido. Confessando mais. respondeu que já queimou todos os ditos papéis e os não tem há mais de sete ou oito anos. morador em Matoim. natural do Porto. dizendo-lhe que as disesse na boca dormindo a seu marido e que lhe queria bem. e ela confessante não usou nunca dela. lhe ensinou as ditas palavras da consagração desta maneira hoc est enim. e a dita velha depois lha tornou dizendo-lhe que já tinham dito três evangelhos na cabeça sobre a dita carta. nem usou delas. dizendo-lhe que tinha tanta virtude que em quantas coisas tocasse se iriam após ela. uma mulher por nome Beatriz de Sampaio. das quais palavras lhe não lembra. respondeu que há muito tempo que isso foi. mulher de Jorge de Magalhães. . das quais não é lembrada. dizendo algumas vezes da dita maneira ao dito seu marido. para que fosse a três padres que lhe dissessem três evangelhos. a deu a uma velha por nome Mécia Dias. que ela mandara com muito trabalho buscar na igreja um pedaço de pedra d’ara e que lha 55 55 . disse que haverá oito ou dez anos pouco mais ou menos que. a qual carta ela confessante não leu nem usou dela. segundo sua lembrança. as quais palavras nomeavam as estrelas e os diabos e outras palavras supersticiosas e ruins. lhe quizesse bem e amansasse. ela lhes mandava que lhe viessem beijar o pé e eles lho beijavam e um dos ditos maridos é o que agora tem. a dita Boca-torta lhe ensinou umas palavras para que. moradora nesta cidade. lhe disse que ela usava de muitas coisas para fazer querer-lhe bem seu marido. e ela lha concertou ainda. Jorge de Magalhães. ao dito seu marido dormindo. Confessou mais. para que a levasse na cabeça debaixo do toucado. que não lhe lembra. mulher de Miguel Ribeiro. nela moradora. E perguntada se depois que ela usou as ditas palavras entende que alcançou o efeito para que usou delas de fazer amansar seu marido. Outrossim. dizendo-as a alguma pessoa. algumas vezes.

“quem me a mim houver de emendar há de ser tão purificado como São João Batista. usou destas assim como “sem esta se não pode celebrar assim”. no tempo da graça. e enganai-vos que só Deus me pode tirar o que tiver no coração”.Ter palavras de diferença significava discutir. veio no tempo da graça confessar desta pedra de Ara. d’ alcunha Boca-torta.lê-se: “Ré Maria Vilela. em segredo. Perguntada se a mesma mulher que lhe deu a pedra lhe ensinou também as mesmas palavras. Outrossim. Perguntada se achou o efeito que pretendia de amansar seu marido depois de lhe dar a beber a dita pedra d’ara sagrada. segundo sua lembrança. que há mais de um ano que teve palavras de diferença com Custódia de Faria. se não escreveu no livro. sobre a devoção de Santo Erasmo. ao qual moço não sabe o nome. mas repreendi-a e mandei-a confessar e admoestei não usasse mais destas superstições. E por ser desta matéria. e ela confessante a deu moída em pó em um copo de vinho ao dito seu marido Antônio de Faria uma vez. . mas que lhe parece que lhas tinha ensinado a dita Isabel Rodrigues. etc. ela confessante praticou com Maria Rangel. nos originais . respondeu que sim. respondeu que não sentiu melhoria. e vendo ela confessante isto. E de toda culpa que em todas as ditas coisas. estando doente. cristão velho. falsamente disse dela as ditas palavras de diferente modo e substância do que ela disse. respondeu que lhe parece que não. brigar.44 trouxera um moço que então. veio à notícia dela confessante que a dita Custódia de Faria dissera a algumas pessoas que ela confessante dissera que nem Deus lha podia tirar o que ela tivesse no seu coração. pede perdão e misericórdia neste tempo de graça porque está muito arrependida (**) (*) À margem. Esta R. disse que antes da dita Maria Vilela lhe dar a dita pedra d’ara ou na dita conjunção daquele tempo. não lhe lembra as outras mais palavras que dizia. em 20 de agosto de 1591 56 .Confissão de Antônio Guedes. como dito tem. que a não queria absolver. estava com Cosme Rangel. indo ela confessante visitar a sua casa. a qual lha deu. Disse mais ela confessante. tivera muito trabalho na confissão. entre as quais ela confessante lhe disse estas palavras.. e a dita Maria Rangel lhe disse algumas palavras dela que falavam em sarilhar e dobrar tripas e lhe disse que. porque ela fez por mandado da dita sua mãe. cometeu. e porque a dita Custódia de Faria é sua inimiga capital. E depois (de) alguns dias. filha da dita Maria Vilela. ter altercações. E perguntada se quando lhe deu a dita pedra d’ara para beber usou de mais algumas palavras. e que era tão purificada como São João Batista. nos originais: A esta confitente mandei confessar e dei penitências espirituais com a repreensão e admoestação necessárias na mesa. (**) À margem. lhe pediu uma pequena para dar ao dito seu maridio. porque é verdade como dito tem. 56 26 .

com medo. para aludir aos estrangeiros protestantes. natural de Tarouca. casado com Maria Pires (cristã velha). 58 59 E ele confessante. no tempo da graça. tabelião do público judicial desta cidade. e as orações que rezavam eram na língua inglesa. achando-se presente às ditas suas salvas e rezas. e o troxeram consigo. se ajoelhou também e tirou o chapéu da cabeça. disse que no mês de outubro do ano passado de mil quinhentos e noventa. nem de Nossa Senhora. a qual está escrita no livro primeiro das denunciações. sem terem recebido retábulo de Deus. sua mulher. etc. . uma vez. mármore ou outro material. vindo ele de Lisboa para esta cidade. E perguntado quais eram mais os seus companheiros que. uma vez e às vezes duas vezes cada dia.Confissão de Antônio Gomes. 58 . a ele e a mais companhia. dez ou doze dias. confessou que era papista cristão. E sendo perguntado se andou algum ora por terras de Luteranos ou foi outra vez alguma tomado por eles em que lhe acontecesse este mesmo caso ou outro contra nossa Santa fé. calvinistas holandeses. 60 57 . às folhas setenta e oito. respondeu que nunca. e desta culpa pede perdão e misericórdia dentro neste tempo de graça. de idade de trinta anos pouco mais ou menos.45 Disse ser cristão velho. e nunca creu na dita seita luterana. agente das causas dos padres da Companhia de Jesus . algumas quatro ou cinco vezes. 59 . foram tomados. e sempre teve em seu coração a fé católica. filho de Rodrigues Guedes e de Ana de Lisboa. nos quais os ditos luteranos rezavam e cantavam ao seu modo luterano suas salvas. por metonímia. nem de Santo algum. em 20 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho. era uma espécie de ajudante-de-ordens dos juízes de fora ou dos ouvidores de comarcas. nas igrejas católicas.Cargo criado em 1530. com medo dos ditos ingleses. por ele não querer tirar o chapéu. respondeu que já os tem declarados na denunciação que fez nesta mesa. cristão velho. 60 . juntamente com ele. filho de Roque Gonçalves. que fica por detrás do altar.Os inquisidores usavam o termo genérico luteranos. e de sua mulher Maria Gomes. 27 . contendo um ou mais painéis pintados ou em baixo-relevo com motivos religiosos. mas fez as ditas exterioridades.Peça de madeira. perto de Lisboa.Procurador e advogado dos jesuítas. sim. o tomaram os ingleses luteranos no mar. natural de Lisboa. fossem eles puritanos ou anglicanos ingleses. 57 E confessando. tirando o chapéu e ajoelhando-se. lhe perguntaram os ditos luteranos se era papista e ele. E. nas Berlengas. hugenotes franceses.

irmão do amo do dito culpado. 61 62 63 64 28 .Confissão de Catarina Fróes. cristã nova. Era diferente do Tribunal da Inquisição. E vindo depois ter as ditas culpas à mão dele confessante. 63 . e não se afirma ele confessante se sabia o dito Pero de Vila Nova a razão por que ele recebia os ditos dez cruzados. nenhuma pronunciação.Trata-se da Justiça Eclesiástica. moradora nesta cidade. no Juízo Eclesiástico se tratou um auto de uma denunciação que se fez contra Gaspar Rodrigues. disse que as ditas culpas não estavam ainda em termos de despacho final. negro de Guiné. E sendo mais perguntado. os quais dez cruzados lhe pagou pelo dito culpado Pero de Vila Nova. e de sua mulher Mécia Rodrigues. termo desta cidade. o foro episcopal ou diocesano exercido pelo Vigário da Vara Eclesiástica (o vigário-geral da vigararia ou vigairaria). e quanto é ao negro Matias.Pecado nefando era expressão correntemente usada para designar a sodomia. meia cristã nova.Funcionário do Bispado da Bahia. e desta culpa pede perdão dentro neste tempo da graça. as queimou. E confessando.Para ser ter uma idéia do montante envolvido nesta corrupção. 64 . 62 . escrivão da câmara do bispo desta cidade e nela casado com Antônia de Pina.Funcionário encarregado de auxiliar ouvidores e juízes nas funções da Justiça. um escravo africano de menos de 25 anos (um “molecão”) valia. à época. não sabe onde está mas poderá dar razão dele o dito cônego. morador em Pirajá. Nefando: “o que não pode ser dito”. cerca de 50 cruzados. que foi nesta cidade escrivão do eclesiástico. e poderá dar razão donde ele esteja o dito Pero de Vila Nova. criado que foi de Manuel de Melo por pecar no pecado nefando com Matias. e que o dito culpado poderá ora ser de idade de trinta anos pouco mais ou menos e é homem baixo do corpo e magro. meia cristã velha. da idade de cinquenta anos pouco mais ou menos. os crimes de foro mixto. nem houve. . ora estante nas Índias de Castela.46 defuntos. disse que há quatro ou cinco anos. 65 . e seu irmão Bartolomeu de Vasconcelos. em 20 de de agosto de 1591 Disse ser natural da cidade de Lisboa. nesta cidade. morador em Sergipe. no tempo da graça. que só cuidava de crimes considerados heresias. segundo sua lembrança. e isto negociou com ele o dito Bartolomeu de Vasconcelos. e seu cunhado Manuel de Miranda. cônego da Sé desta cidade. sendo a confusão de competências judiciárias um traço característico do Antigo Regime. francês. filha de Simão Rodrigues Fróes. cristão velho. embora pudesse instruir processos de foro inquisitorial ou mesmo julgá-los. de idade de trinta anos. mulher de Francisco de Morais que serviu nesta cidade de escrivão e de meirinho e outros ofícios. do qual auto de culpas do dito Gaspar Rodrigues foi escrivão Belchior da Costa de Lledesma. no caso de o Bispo dispor de poderes inquisitoriais. Alguns crimes da Justiça secular também estavam na sua alçada. no qual auto foram testemunhas o dito Manuel de Melo. a quem naquele tempo servia o dito culpado. e por isso lhe deram dez cruzados . 65 61 .

nem sabe.47 E confessando. cristão velho. Antônio Dias. porém enfim lhe tornou a dizer que já os não queria. E perguntada se viu mais fazer alguns feitiços à dita Maria Gonçalves ou se sabe onde ela agora está. E confessando. e por isso botou os ditos pós fora e não usaram deles.“acabou” significa acertou. e declarou ela confessante que pretendeu haver os ditos feitiços da dita maneira à instância e rogo da dita sua filha.Confissão do cônego Bartolomeu de Vasconcelos. e de todas estas culpas pede perdão dentro neste tempo da graça. nem veio a haver efeito. E outrossim. filho de Antônio d’Oliveira do Carvalhal e de Dona Luzia de Melo. nem chegou a lhe a dita Maria Gonçalves dar os feitiços. que lhe fizesse uns feitiços para que um seu genro Gaspar Martins. mulher não casada. desistiu disto. tratou uma negociação. natural desta cidade. moradora em Perabesu. na qual então estava. disse que haverá um ano que nesta cidade cometeu e acabou com Maria Gonçalves. de idade de trinta e dois anos. E para isto deu algum dinheiro à dita Maria Gonçalves e a dita Maria lhe dizia que já lhe faria os tais feitiços. pedindo-lhe mais dinheiro. nem efeito. ora ausente. cristão velho. lavrador morador em Tassuapina ou morresse ou o matassem ou não tornasse da guerra de Sergipe. significa tentou. por nome Isabel da Fonseca. . outrossim sua filha. que lho pediu lhe negociasse os tais feitiços. em 20 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho inteiro. para que fizesse tudo o que quizesse sua mulher Catarina de Souza. combinou. nem nisto interveio outra mais pessoa. nela morador. disse que haverá quatro ou cinco anos que nesta capitania serviu a seu irmão Manuel de Melo. procurou . E tudo isto negociou por rogo da dita sua filha Catarina de Souza. 66 29 . sertão desta capitania. no contexto. respondeu que não viu. nem puseram mais nada neste negócio em obra.“Cometeu”. confessou que haverá dois anos que ela rogou à dita Maria Gonçalves que fizesse outros feitiços a outro seu genro. ora estante nas Índias de Castela. carpinteiro de navios. entendendo também e pretendendo que os tais feitiços se haviam de fazer com intervir o diabo e arte sua. vagabunda. dizendo-lhe que os lançasse debaixo dos pés do dito seu genro para fazer quanto sua mulher dele quizesse. e para isto lhe deu um botão e um retalho da capa do dito seu genro e a dita Maria Gonçalves lhe deu uns pós. na graça. d’alcunha Arde-lhe-o-rabo. um homem por 66 . e por ela vir a entender que a dita Maria Gonçalves lhe não havia de fazer coisa que obrasse. e isto entendendo que os ditos feitiços haviam de ser arte do diabo. cônego prebendado na Sé desta cidade. que lho pediu que lhos negociasse por não gostar dele. por não dar boa vida à sua mulher moça. filha dela confessante.

e não se procedeu contra o dito Gaspar Rodrigues. segundo ouviu dizer. seu irmão. disse que não sabe se o dito Pero de Vila Nova. querendo ele forçar a ele dito negro para fazer também este pecado. vem pedir misericórdia e perdão a esta mesa dentro neste tempo da graça. juiz da Vara Eclesiástica. E desta culpa de negociar e tratar que se queimassem e consumissem as ditas culpas. Dona Francisca. com efeito e consumação. que o dito Gaspar Rodrigues o forçara para fazer o dito pecado e o fizera com ele algumas vezes. assim como faz um homem com uma mulher. veio ter à mesma casa o dito Gaspar Rodrigues. E estando o dito Gaspar Rodrigues na fazenda do dito Manuel de Melo. mulher do dito seu irmão. cunhado dele confessante. sabia a causa e razão porque o dito culpado lhos dava. morador em Sergipe desta capitania. que ora está na dita fazenda de Jaguaripe em poder de sua cunhada. E logo sendo mais perguntado.Vigário geral era o juiz do Bispado. tendo ajuntamento carnal com ele. o qual mandou fazer autos. o qual dizem que foi já cativo de mouros ou turcos. que ora poderá ser de trinta anos de idade. que pagou os ditos dez cruzados ao dito escrivão. seu irmão. nem se livrou delas. que então poderia ser de dezoito anos. o paciente. a rogo e instância do dito Gaspar Rodrigues. e que. vindo depois dele. E ele confessante foi denunciar este caso perante o vigário geral desta cidade. e se veio fugindo para Pirajá à casa de Manuel de Miranda. onde o dito Gaspar Rodrigues era feitor. ele confessante. cativo do dito seu irmão Manuel de Melo. deu ao dito escrivão um Pero de Vila Nova. ao qual o dito culpado também serviu. o dito seu irmão despediu e lançou fora da dita fazenda ao dito Gaspar Rodrigues. E que uma vez. por parte do dito Gaspar Rodrigues. e estando depois os ditos autos em poder do escrivão Antônio Gomes. lhe fugiu de noite da fazenda. penetrando com seu membro desonesto no seu vaso traseiro e tendo aí polução e cumprimento. que ora é escrivão da câmara do Bispo deste estado. e o descobrir também e declarar a ele confessante e ao dito seu senhor Manuel de Miranda. E o dito escrivão recebeu os ditos dez cruzados e queimou e rompeu os ditos autos das ditas culpas. e pelo dito negro declarar então ao dito Manuel de Miranda todo o sobredito de como o dito Gaspar Rodrigues pecava com ele e o constrangia a pecar no dito nefando. de nação estrangeiro. um negro de Guiné por nome Matias. Matias negro. .48 nome Gaspar Rodrigues. descobriu e declarou a ele confessante que o dito Gaspar Rodrigues pecava com ele no pecado nefando de sodomia. e lhe disse mais. onde daí a pouco espaço. que então era Sebastião da Luz. negociou e acabou com o dito escrivão Antônio Gomes que queimasse as ditas culpas do dito Gaspar Rodrigues por dez cruzados que. que tem uma mão menos. lhe parece que o dito Gaspar 67 67 . sendo sempre ele.

morador nesta cidade que tem fazenda em Tassuapina. mulher que foi de Lopo de Rebelo. disse que sendo ela moça de quinze anos. em Arzila . entrou em uma esnoga de judeus. Sergipe o Novo foi palco. escrivão da alçada deste Brasil. Cerezipe) faziam parte da Capitania da Bahia. na qual cantareira estavam uns rolos . interveio também Nuno Pereira de Carvalhal. estando um moço com um livro nas costas servindo de estante. É possível que a confitente se tenha enganado quanto à idade que tinha ao entrar na sinagoga. os dois “Sergipes” (Ceregipe.Confissão de Leonor Carvalha. 69 70 71 72 73 68 . Usava-se também como sinônimo de padre secular. parecendo-lhe que dizia uma boa oração. na época também chamado de Sergipe o Novo ou Sergipe de São Cristovão. pois quando era de 15 anos os portugueses ainda estavam em Arzila e provavelmente não permitiam sinagogas. que diziam serem de pergaminhos. contendo os dez mandamentos que Deus entregara a Moisés no Monte Sinai. Mas.Trata-se da futura capitania de Sergipe del Rei. filha de Francisco Carvalho e de Mor Lopes. mulher de Fernão de Matos. ordem militar portuguesa. e que da culpa que disto tem pede perdão nesta mesa neste tempo de graça. moradora nesta cidade. 70 . no século XVI.Provavelmente a Torá (Torah). nem reverência. e estavam alguns judeus assentados num banco falando alto. E acusando-se. entoando entoada em “be. natural de Arzila. 73 . neste primeiro século. 72 . cristã velha. nem de Santos. enfronhados em uns sacos de pano de linho. já defunto. em 20 de agosto de 1591 Disse ser cristã velha. 71 . o futuro Sergipe. be”. ele era clérigo prior de Arzila. senão uma cantareira com um frontal de pano da Índia pintado.49 Rodrigues está ora feito soldado na cidade de São Cristovão de Sergipe desta capitania.Cidade marroquina conquistada pelos portugueses em 1471 e abandonada em 1550.João III. do hábito de Cristo . no reinado de D. e defronte estava dependurado um alampadário de muitas torcidas d’azeite acesas. para diferenciar de Sergipe do Conde (terras do Conde de Linhares). A histórica cidade sergipana de São Cristovão data desta época. por assim lhe ensinar que dissesse a dita Catarina Afonso. na qual não havia cruz. no tempo da graça. de idade de sessenta anos pouco mais ou menos. e de outras que lhe não lembram. nem imagem de Deus.Esnoga designava sinagoga e. viúva. por vezes aludia às cerimônias judaicas: “fazer esnoga”.Alusivo à Ordem de Cristo. cristã velha. E disse mais. que na dita negociação de se queimarem as ditas culpas. 68 30 . moradora em Lisboa não sabe onde.Escrivão de justiça do Governo Geral. nos clichês inquisitoriais. de dramáticas lutas entre os portugueses e os franceses e índios. E entrando na dita esnoga sem fazer mesura. . 69 .”Deus vos salve lei bem escrita e mal entendida”. disse estas palavras. E ela confessante entrou no dito tempo na dita esnoga uma vez somente em companhia de Catarina Afonso.

50 E sendo perguntada mais. morador nesta cidade. e que o sentido que ela tomou das ditas palavras que disse foi entender que a lei era bem escrita por Deus e mal entendida pelos judeus. ANTT. E assim mais. aliás. só ou não acompanhada. 31 .Processada pelo visitador e degredada para fora da cidade. 74 . uma noite. com agastamento. E sendo mais perguntada. e de sua mulher Maria Violante. ama da condessa do Redondo que era de Arzila. porque chovia muito. lhe aconteceu outra coisa semelhante. e que também da culpa pede perdão neste tempo da graça. estando se fazendo umas linguiças ou chouriços. . nem fora dela. nem disse a dita blasfêmia. em casa de seu pai. indo presente com ela. digo dia à tarde. por se ver em trabalhos de passar umas ribeiras de água e se molhar disse que arrenegava de Deus. com Guimar Vieira. disse também com agastamento. disse que sua intenção. filha de Francisco Escudeiro. E acusando-se mais. da idade de quarenta anos pouco mais ou menos.10747. mas não tinha intenção de aquilo ser batismo mais que somente por sujarem e afrontarem judeu. sua inimiga. como dito tem. cigana. cigana. cristã velha já viúva. Violante. que veio degredada do reino por furto de burros para estas partes do Brasil. outra cigana por nome Angelina. tomaram com as mãos daquela calda de chouriços ou linguiças e lançaram sobre um judeu que se agasalhava na mesma casa de seu pai e. ela. Como retornou. na mesma hora e tempo. cigana. cigano. ferreiro. que Deus mijava sobre ela e que a queria afogar. com a qual está ora em grandes ódios. quando entrou na dita esnoga. disse que haverá dois meses que. viúva. cristão velho. proc. no tempo da graça. em Arzila. E confessando. português. ou lhe pareceu bem a ela as cerimônias dos judeus. disse que nunca outra vez nesta cidade. disse que sendo moça de treze ou doze anos. e disso pede perdão e misericórdia. e ela tomou grande aborrecimento às ditas cerimônias dos judeus e lhe pesou de as ter vistas . não foi mais que ver aquilo por curiosidade. em 20 de agosto de 1591 74 Disse ser natural de São Filiçes (sic) dos Gallegos (sic). e esta blasfêmia disse duas vezes naquela mesma hora e tempo. mulher que foi de Francisco Fernandes. teve a pena agravada: açoitada pelas ruas da cidade e degredada com ameaças de piores castigos caso voltasse. indo pelos matos caminho das fazendas destes recôncavos. E sendo perguntada se alguma pessoa lhe ensinou que era boa a dita lei dos judeus ou lhe tratou nisso.Confissão de Maria Fernandes . respondeu que não lhe falou nunca a ninguém. e disto também pediu perdão. nem outra tal mais do que na dita hora. descumprindo o degredo. defunta. que lhe isto ouviu. no tempo em que lá foram ter os judeus que deitaram fora do Reino. IL. lançando-lha diziam “eu te batizo”. no dito caminho.

como dantes tinha dito. natural da cidade de Lisboa. estudante de 1a nesta cidade. E confessando sua culpa dentro. vindo a falar no pecado da carne. 75 . solteiro. meirinho das viagens das naus da Índia. E isto lhe disse o dito Francisco Nunes. de idade de vinte anos. nem tem dele por outra via ruim suspeita. E sendo mais perguntado. moradores no Rio Vermelho. não lhe declarou mais outra qualidade alguma de solteira. disse que o dito Francisco Nunes. cristão velho. respondeu que não fez nenhuma consideração das sobreditas. bestialidade. estando ambos sós. termo desta cidade. que dormir um homem com mulher não era pecado. quando disse as ditas palavras. etc). que é coisa pertencente ao homem e não a Deus. solteiro ou casada . isto mesmo disse a algumas pessoas. neste tempo da graça. não crendo nele e apartando-se da sua crença. morador nesta cidade. e que ela sempre creu e crê em Deus e sabe que Deus não mija. cristão velho. sendo ele de idade de nove ou dez anos. defuntos. o qual é natural dos Ilhéus e ele o tem por cristão velho e é irmão de Gaspar Fernandes. sapateiro. 75 33 . que dormir um homem com mulher não era pecado. na graça. mas só subitamente. mas simplesmente homem com mulher. de idade de trinta e sete anos pouco mais ou menos.Confissão de Guiomar d’Oliveira. 32 . em casa de Cristovão de Barros. na graça. filho de Pero Paiva. até que o dito capelão Gaspar Fernandes emendou a ele confessante deste erro em que estava. com agastamento. e estando neste erro. assim o teve para si por espaço de alguns dias. . casada com Francisco Fernandes. teve intenção consideradamente de arrenegar de Deus. sodomia. nesta cidade. natural desta cidade. e nunca mais disse a ninguém que o não era. E por ele confessante cuidar que o dito Francisco Nunes lhe disse era verdade. que ora mostra ser de idade de vinte e dois anos. capelão desta Sé. quando disse que dormir um homem com uma mulher não era pecado. O monitório da visitação já incluía como heresia o dizer que não havia pecado na fornicação.A Igreja diferenciava a fornicação simples (relações sexuais entre pessoas solteiras) da fornicação qualificada (adultérios. criado do dito Cristovão de Barros. e que desta culpa pede perdão. e lhe declarou como fazer o sobredito era pecado. disse que.51 E foi perguntada se. cristã velha. em 20 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho.Confissão de Domingos de Paiva. em 21 em agosto de 1591 Disse ser cristã velha. concubinatos. relações com freiras. e de sua mulher Leonor de Chaves. ou entendendo que Deus verdadeiramente mija como os outros homens. cidadão desta cidade. disse as ditas palavras. filha de Isabel Jorge e de seu marido Cristovão d’Oliveira. e que não sabe se o dito Francisco Nunes está ainda hoje na dita falsa opinião. e de então por diante entendeu ele ser o sobredito pecado. ouviu dizer a Francisco Nunes.

vendo a dita Antônia Fernandes que ela confessante era mal casada de seu marido. e que assim recheados os ditos pinhões. no caso. os quais pós ela confessante deu a beber em vinho ao dito seu marido Francisco Fernandes para ser seu amigo e serem bem casados. ou em lugar de avelãs. tendo-lhe dito a dita Antônia Fernandes. haverá quinze anos pouco mais ou menos que. para seduzir o senhorio do aluguel (amigá-lo). fazendo com que tolerasse a dívida. e que uma vez lhes mandara matar um homem e eles o mataram. 76 76 . e assim mais com uma unha do dedo pequeno do pé da mesma Antônia Fernandes. e correndo assim esta amizade. os desse. depois de lançados por baixo. furados com um alfinete. mulher que foi de um Foão da Nóbrega. homem que ia por dispenseiro nas armadas de Lisboa. cristã velha. pelo qual aluguel ele então apertava muito . a qual. para o que ela queria. E outrossim. porque também fazia o que eles dela queriam. e que todas estas coisas fez. na Tenuaria. conheceu ser taverneira e morar junto do arco. e outros pós de osso de finado. natural de Guimarães. e que. e a dita Antônia Fernandes mandou lavar os ditos três pinhões. dela confessante. e unhas de seus pés e mãos e rapaduras das solas dos seus pés. disse que haverá quatro anos pouco mais ou menos que a esta terra veio degredada uma mulher por nome Antônia Fernandes. debaixo das casas de Luis César. ela confessante. depois de engulidos e lançados por ela. ensinado e declarado que eram diabólicas e que os diabos lhas ensinavam. e os torou e os fez em pós. tirado o miolo fora. . a qual veio degredada por alcovitar sua própria filha por nome Joana da Nóbrega. O que tudo ela confessante assim fez. dandolhe em sua casa cama e comer por muitas vezes.52 E confessando. em Lisboa. que a não se apertasse muito a ela e a seu marido pela dívida do aluguel das suas casas em que ainda ora moram. lhe faria e ensinaria com feitiços com que fosse bem casada com seu marido. três pinhões dos que nesta terra há que serve de purgas. lhe deu também a dita Antônia Fernandes outros pós não sabe de quê. os quais ela confessante botou em uma tijela de caldo de galinha e os deu a beber a João de Aguiar. e ela confessante consentiu nisto. lhe veio a descobrir que ela falava com os diabos e lhe mandava fazer o que queria. d’alcunha a Nóbrega. em Santarém. tomou amizade com ela confessante pelo conhecimento que tinham em Lisboa. casado e lavrador em IItaparica desta capitania. no qual se lhes entregava. e ela confessante e seu marido a recolheram e agasalharam. e isto lhe deu para o amigar. então recheá-los de cabelos de todo seu corpo. os engulisse e que. morando nos Cobertos. e eles lhe obedeciam. mulher de idade de redor de cinquenta anos. vindo-lhe à sua casa. dera aos diabos um escrito de sangue de um seu dedo. e que eles lhe ensinavam muitas coisas de feitiçarias. viúva. Então lhe ensinou que tomasse três avelãs. E vindo assim.O feitiço era. pelo que. se ela confessante quisesse.

e com o mouro encantador. hoc est enim corpus meum. ela entender que os ditos feitiços eram com pacto do demônio. além de pelo dito da dita Antônia Fernandes. nem tal quis saber nem entender. porque os desejava muito para os dar aos diabos e também para untar os beiços. respondeu que quando fez os ditos feitiços ela expressamente não falou nem chamou pelos diabos. e que em certos dias da semana havia de ter cuidado de pôr cebola e vinagre perto do dito vidro porque aquilo que nele estava era amigo deste comer. porém ela confessante não usou disto. no ato carnal desonesto. e 77 78 77 78 . E também cometeu a ela confessante que tomasse desonesta conversação com um clérigo da Sé desta cidade. “fuão eu te encanto e reencanto com o lenho da vera cruz. e ela confessante não quis consentir em tal. pede perdão e misericórdia nesta mesa. e que isto era certíssimo. que tu te não apartes de mim. E de todas estas culpas de fazer as ditas feitiçarias. e que ela lhe faria feitiços para isto. nem tal fez. que sabia umas palavras com as quais encantava qualquer pessoa. e que depois de serem amigos alcançaria do clérigo que lhe desse os óleos do batismo.Isto é: rosto. sêmen. sendo diabólicas como dito tem. um vidro que ela tinha em que estava uma coisa que falava e respondia quando queriam saber. respondeu que a dita Antônia Fernandes cometeu a ela confessante que aprendesse aquele ofício de feiticeira diabólica. que ela a ensinaria e lhe daria mais. e com eles untados. depois de terem ajuntamento carnal e cair do vaso da mulher.53 E outrossim.Isto é: esperma. e que esta tal semente dada a beber ao mesmo que a lançou fazia lhe tomar grande afeição. E assim lhe disse mais. chamou pelos diabos ou falou com eles. quando se fosse para Portugal. e com os anjos filósofos que são trinta e seis. lhe ensinou também que tinha aprendido dos diabos que a semente do homem dada a beber fazia querer grande bem. e me digas quanto souberes. fez ela também algum pacto com ele ou. E sendo perguntada se. beijar na boca aos homens leigos. porque com isto ficavam tais que não se podiam nunca mais apartar de sua conversação. dizendo-lhas na frontera . que a faziam endoidecer de amor e bem querer àquela a que se diziam por aquela pessoa que lhas dizia. se uma pessoa. quando os fazia. E também lhe dizia a dita Antônia Fernandes que coitada daquela pessoa a que os diabos punham o pé ou a mão. . tendo esperanças que lhe aproveitariam. dissesse na boca da outra as palavras da consagração que eram cinco. e ela confessante não consentiu em tal. e na coroa aos clérigos e religiosos. no ato venéreo. . e isto fez ela também por obra e a deu de beber em vinho ao dito seu marido. E assim também lhe ensinou que. Perguntada que mais coisas lhe ensinou ou disse a dita Antônia Fernandes ou sabe dela. sendo semente do próprio homem do qual se pretendia afeição. face. as quais palavras eram.

e que o diabo vinha falar a ela Antônia Fernandes em figura de homem. que faria com os demônios que lhe falassem em figura de homem. aparece como o mais terrível dos deuses pagãos. E foi logo admoestada pelo senhor visitador que não tivesse crença nas ditas feitiçarias e coisas porque tudo são abusões supersticiosas com que o diabo engana a gente fraca. e ela confessante nunca tal quiz consentir nem aceitar. nem se chegou ao reino. 81 .54 me dês quanto tiveres. e lhe dizia mais. e me ames mais que todas as mulheres”. no Antigo Testamento. e sentiu nele de então por diante. E perguntada se achou que os ditos feitiços ensinados pelos diabos que ela fez. que um diabo chamado Antonim era seu particular servidor e fazia tudo o que lhe ela mandava. ao qual familiar chamava Baul . deus-sol dos cananitas que . dali por diante não molestou pelo alugar das casas. que fizera arribar uma náu da Índia. e a namorava. quando quisesse o pagasse. E lhe disse mais. 79 80 81 79 . podendo derivar de semita e. neste caso. indicar associação popular entre judeus (cristãos novos judaizantes) e sodomitas.Sodomita e somitigo eram sinônimos. termo desta cidade. antes lhe largou palavra que. se benzia e nomeava o nome de Jesus. e também no dito seu marido. que sua filha Joana Nóbrega. também tinha o seu ofício de feiticeira diabólica e tinha um familiar em um anel que trazia no dedo. segundo larga tradição medieval. disse que a dita Antônia Fernandes se embarcou desta terra para o reino. solteira. E que os diabos lhe faziam muitas promessas se acabasse com ela confessante que quisesse ser sua discípula. em Santarém. falando-lhe nestas coisas. moradora da rua de Cataquefarás (sic). E a dita Antônia Fernandes lhe defendia que se não benzesse nem nomeasse Jesus. e que se ela confessante quisesse ser feiticeira como ela. uns e outros estigmatizados e queimados em autos de fé. a que deu os outros pós. E também lhe disse a dita Antônia Fernandes que fora uma noite a Vila Velha. e mestra que lhe ensinara todas estas feitiçarias. e que a dita sua filha dormia com os estrangeiros por detrás. onde está. sentiu nele que lhe tinha amor e afeição. achou melhoria. e disto também pede perdão. por experiência. respondeu que achou. consumando o nefando pecado de somítigos porque lhe pagavam bem. que estava no reino. e que não sabe mais novas dela. acompanhado de muitos cavaleiros. e que Lúcifer lho dera por seu guarda. e ela confessante disse estas palavras muitas vezes pela manhã e às noites defronte de seu marido. cortar uma mão a um negro que lá estava enforcado. Sua etimologia é duvidosa. e que Clara d’Oliveira. era sua amiga e companheira. porque o dito João d’Aguiar a que ela deu os ditos pós. mas antes. sendo a segunda palavra mais vulgarizada. E sendo mais perguntada. Foi depois “demonizado” pela Igreja. que as ditas coisas fizeram obra e aproveitaram para sua intenção.Diabretes domésticos enviados pelo Diabo para servir às feiticeiras. 80 . . que lhe aproveitaram.Provável corruptela de Baal. E lhe disse mais. sempre por não lhe haver medo.

sem ela ter recado nenhum de o dito seu marido ser morto. que se diz Nave-del-Moras (sic). proc. por não saber. e os recebeu o padre da mesma igreja cujo nome lhe não lembra.Confissão de Catarina Morena . que a trouxe consigo a este Brasil. assinou o notário. na graça. com o qual casou por palavras de presente em face da igreja como a Santa Madre Igreja manda. Isabel Fernandes. estalajadeiro de dar de comer e camas aos passageiros. lhe fugiu de casa e o deixou na dita cidade de Málaga e se veio fugida com um homem castelhano chamado Francisco de Burgos. por ela ter grande aborrecimento ao dito seu marido. cônego. onde ele ora está nesta capitania. e foi mais presente ao dito recebimento muita gente. usando o dito o ofício de estalajadeiro. com Francisco Durán. natural de Beira de Prazença (sic). ANTT. recebeu pena leve por se ter apartado do segundo marido com dor na consciência: abjuração na mesa e penitências espirituais.55 E sendo mais perguntada. disse que lhe parece que podem saber algumas coisas da dita Antônia Fernandes as pessoas seguintes. em 21 de agosto de 1591 82 Disse ser cristã velha. E com o dito seu marido ela esteve fazendo vida marital de umas portas adentro a uma cama e mesa como casados que eram. bispado de Granada. e Gonçalo Dias. por ser ele costumado a embebedar-se e ser homem de ruins manhas e lhe dar mau trato. que então dizia ser de idade de trinta anos. que haverá isto dez anos pouco mais ou menos. e Manuel Rodrigues Ribeiro. João Ribeiro. castelhano. E no fim dos ditos seis meses. E confessando. e Maria Pinheira. padeira. IL. mulher de Simão Nunes Dutra. em um dia pela manhã. e foram recebidos dentro da igreja de São João. natural de uma aldeia duas léguas de Toledo. se apartou dele e o deixou. fingindo ser viúva. todos moradores nesta cidade com os quais ela tinha amizade e conversação. sendo ela então de idade de dezoito anos. vendo-se ela muito pobre e desremediada de se casar. de Paripe. véspera da véspera de Santo André. mercador. E assim. e criada em Talavera de la Reina (sic). por espaço de seis meses pouco mais ou menos. fez uma carta falsa fingindo que lhe vinha de Málaga em que se dizia como o dito seu marido Francisco Durán era morto. foi padrinho do dito seu marido Francisco Durán.Processada pelo visitador. 34 . em Castela. também estalajadeira. E depois de estar neste Brasil algum tempo na conversação do dito Francisco de Burgos. e Francisca Pinheira. a qual deu a ler a muitas pessoas.1287 . e foi sua madrinha dela. haverá ora seis anos pouco mais ou menos. A seu rogo. e ela se foi para Pernambuco. ela se casou segunda vez com 82 . e vieram na armada de Dom Diogo Darça. aonde. e entendendo que podia estar vivo. disse que haverá onze anos pouco mais ou menos. Isabel Fernandes. arcebispado de Toledo. e o marido dela. que vinha com quatro náus em socorro da armada de Diogo Flores. casou na cidade de Málaga.

estiveram de umas portas adentro como marido e mulher quinze meses pouco mais ou menos. e sua mulher. eu. primeira oitava do Espírito Santo.56 Antônio Jorge.Confissão de Luisa Barbosa. no fim do qual tempo. lavradores. dizendo o dito Antônio Jorge que recebia a ela confessante por sua mulher como manda a Santa Madre Igreja. e sem ter novas do seu primeiro legítimo marido ser morto. a seu rogo. e por não saber assinar. E ela confessante deixou ao dito Antônio Jorge em Pernambuco. pede misericórdia e perdão neste tempo de graça. e que desta culpa de se casar segunda vez sendo casada. mestre de açúcar na dita vila de Pernambuco. natural desta Bahia. sendo ela moça de doze anos pouco mais ou menos. mas antes. moradora nesta cidade. e dando fiança a mandarem trazer os ditos pregões corridos de Málaga. se foi confessar a um padre da Companhia. castelhana. 35 . e declarou ser ora de idade de trinta anos pouco mais ou menos. notário. natural da Ilha da Madeira. em presença de muito povo. se alevantou uma abusão chamada entre eles a santidade. ou quatro anos e meio. entre os gentios e índios deste Brasil cristãos. disse que. E foi-lhe mandado ter segredo. E confessando. na graça. assinei por ela. como muitas vezes depois disso se alevantou também nesta capitania. e ela se veio para esta Bahia. tendo-o por vivo. já defunto. com que declaravam ao dito Antônio Jorge que se apartasse dela confessante. e foram padrinhos José Ribeiro. . e ser filha de Francisco Moreno e de sua mulher Joana de Sarria. casada com Belchior Dias Porcalho. em 23 de agosto de 1591 Disse ser cristã velha. E depois de assim serem recebidos. porque ela não era sua mulher legítima. cristã velha. filha de Álvaro Gonçalves Ubaca e de sua mulher Maria Barbosa. Blásia Martins. ela. E foram recebidos na igreja matriz de Pernambuco pelo cura dela em uma segunda-feira pela manhã. e se recebeu com o dito Antônio Jorge por palavras de presente. português. de idade de trinta e sete anos pouco mais ou menos. o qual secretamente negociou com o vigário da vara de Pernambuco. que errou como mulher pecadora. Diogo do Couto. como é notório e sabido na dita vila de Pernambuco. haverá cinco anos pouco mais ou menos. e outrossim. dizendo que recebia a ele Antônio Jorge por seu marido como manda a Santa Madre Igreja. se alevantou nesta capitania. movida de sua consciência. onde ora lhe parece que está. donde ela dizia que fora casada e enviuvara.

se contavam e diziam as ditas coisas da dita abusão e outras muitas que lhe não lembram. assim cristãos como gentios. e que a lei dos cristãos. porque os mantimentos por si próprios haviam de nascer e que quem não cresse naquela santidade se havia de converter em paus e em pedras. e assim diziam e tinham outros muitos despropósitos. e se confessou aos padres da Companhia de Jesus. mas desagravada por ter confessado na graça: abjuração na mesa e penitências espirituais. disse que todos os da dita abusão com quem ela tratava e falava são já mortos. se quando ela creu nas ditas coisas da dita abusão. E a induziram e provocaram que cresse nela. mulher que foi de Álvaro Chaveiro. E perguntada. ANTT. filha de Diogo Martins Perdigão. moradora nesta Bahia. e que a gente branca se havia de converter em caça para eles comerem. na graça. cristã velha. e que ora pede perdão nesta mesa e misericórdia. e praticando ela com os seguidores da dita erronia. como moça e de pouca experiência. entendeu ela ser tudo aquilo falso e errôneo. pescador e barqueiro de Benavente para Lisboa. consentia com eles e lhes manifestava crer nela por boa. por adultério de que a acusou o dito seu marido. disse que haverá trinta e dois anos pouco mais ou menos que ela veio do Reino degredada pelas justiças seculares.1279. pelo que ela. E confessando. e de sua mulher Maria de Barros. que aquela sua santidade era um Deus que eles tinham que lhes dizia que não trabalhassem. E perguntada mais. juntamente. se enganou. 36 . e que aquela sua santidade era a santa e boa. tinha para si aqueloutra parvoíce por ser moça. que falavam com ela confessante. de idade de setenta anos pouco mais ou menos. dos da governança da dita vila. em 23 de agosto de 1591 83 Disse sr cristã velha. mas que. mulher de Antônio da Costa. que era boa. para este Brasil. E depois de os ditos seguidores da dita abusão serem extinguidos e castigados aquela vez.57 A qual era. e assim os negros cristãos e gentios do gentio deste Brasil da dita casa de Dona Mécia. 83 . defuntos. por espaço de um ou dois anos meses pouco mais ou menos. e que a lei dos cristãos não prestava. respondeu que sempre teve por boa lei a lei dos cristãos e nunca deixou a fé de Cristo. E logo pelo senhor visitador lhe foi encomendado que se confesse muitas vezes e ouça as pregações. que diziam os ditos brasis. que a absolveram. como da casa do pai dela confessantte e doutras partes. IL.Confissão de Antônia de Barros . se deixou de crer na fé de Cristo. por sua mãe ser morta. e que nenhum sabe vivo. estava a doutrinar em casa de Dona Mécia Pereira. . por cinco anos.Processada pelo visitador. natural de Benavente. parecendo-lhe ser coisa certa e verdadeira. proc. E nesse tempo ela confessante. tendo dito a dita erronia e crendo na dita santidade.

filhos da dita dona Tareja. na igreja matriz de Nossa Senhora da Graça. porquanto quando com ele se casara no dito Porto Seguro era vivo ainda. em Benevente. ainda estava vivo. ela confessante com o dito Henrique Barbas. E assim se afastou dele. e o dito Henrique Barbas. e padrinho dele. o dito seu marido. E. ainda solteiro. sendo isto falsidade e mentira. em Benavente. o dito seu marido Álvaro Chaveiro. e com ele se veio para este Brasil e aportaram na capitania de Porto Seguro. já ora defuntas. e depois vivera dois anos. por ele vir a dar açoites e pancadas e muito má vida a ela confessante. e foram madrinhas dela Dona Tareja da Gama. porque. foram recebidos pelo prior de Benavente. E logo na dita capitania. da gente principal de Vila Franca. na forma que a Santa Madre Igreja manda. E perguntada quem a recebeu com Henrique Barbas em Porto Seguro. de como o dito marido Álvaro Chaveiro. cujo nome lhe não lembra. e assim vieram depois novas e recados certos. como tem declarado. e que viram enterrar e morrer. se casaram ambos. costa deste Brasil. E pereguntada onde foi ela recebida com o primeiro marido. dizendo ela e ele as palavras do matrimônio como a igreja costuma.58 E lá. se amigou ela com um homem cristão velho chamado Henrique Barbas. depois disso. respondeu que já são mortas. irmã do conde de Vidigueira. e os recebeu o vigário Diogo d’Oliveira na igreja de Santo Amaro. e foi madrinha dela Maria Barbosa no dito recebimento do Porto Seguro. poucos dias depois de estarem nela. cuja criada ela confessante foi. ao dito seu marido Álvaro Chaveiro. marido . por razão do dito instrumento de testemunhas falsas. depois de assim casar em face da igreja com o dito segundo marido Henrique Barbas. o seu marido legítimo Álvaro Chaveiro. e Maria Teixeira. Gonçalo Pires. E foi perguntada quais foram as testemunhas. depois de ela confessante estar casada com o dito Henrique Barbas à porta da igreja com licença do Ordinário. e padrinhos dele foram Luis Mendes e Manuel de Vasconcelos. sabendo ela muito bem. ficava vivo em Portugal. também fidalga. viveram ambos como casados em Porto Seguro mais de quinze anos. Álvaro Chaveiro. dizendo ela e ele as palavras costumadas da igreja. que depois foram para a Índia. filho de Vasco Barbas. em Portugal. ela confessante lhe fugiu de casa e se meteu na igreja da vila e começou a declarar e manifestar como o dito Henrique Barbas não era seu legítimo marido. respondeu que ela com o dito seu primeiro marido. sendo ela e ele sabedores que o seu legítimo marido estava vivo. disse que ele deu as ditas testemunhas falsas. daí a dois anos. E que. e assim foram presentes no dito recebimento outras muitas pessoas que ora lhe não lembram. e desta culpa pede perdão e misericórdia nesta mesa. o qual ora está na capitania do Espírito Santo. seu legítimo marido. E o dito Henrique Barbas negociou testemunhas falsas. que juraram que ele Henrique Barbas era solteiro e que ela confessante era viúva. e com isso se lhes deu licença para se receber. dentro no tempo da graça.

com cólera e paixão de não ter que dar de comer a seus filhos que lhe pediam de comer. nem paixão que isso lhe estorve. porém lembra-lhe que estava presente o padre da Companhia Quirício Caxa. é o funcionário da Câmara ou Conselho Municipal encarregado. moradora nesta cidade. disse que se dava aos diabos. Por não saber. assinou a seu rogo o notário. foi o Porteiro “apenar”. agastando-se ele. e outras muitas pessoas foram presentes no dito recebimento que ora lhe não lembram. E confessando. solteiro. E foi logo admoestado pelo senhor visitador com muita caridade. que o foi apenar .Confissão de Bastião d’Aguiar. Confessando mais. casado com Joana Gonçalves. filho de Pero d’Aguiar d’Altero e de sua mulher Custódia de Faria. de apregoar as deliberações da instituição. E das ditas culpas disse que está muito arrependido e que já confessou delas a seus confessores e delas pede ora misericórdia e perdão nesta mesa. dormia com seu irmão maior que ele. natural desta Bahia. 37 . 84 38 . sendo ele de idade de alguns dez ou onze anos. . cristão velho. morador mesmo ora com o dito seu pai e mãe. das quais palavras não lhe lembra se alguém o repreendeu. e por essa causa. e que vá se confessar. de idade de dezessete anos ou dezesseis anos.59 da dita Maria Barbosa. cristã velha. e não lhe lembra que estivesse presente outrem que o repreendesse. homem do mar. e tomando cólera. disse que haverá alguns seis anos que. e assim o porteiro do conselho. estando ele na praia desta cidade. Pero Vaz. disse que haverá cinco anos pouco mais ou menos que. de idade de cinquenta anos pouco mais ou menos. que ele tenha muito tento e resguardo em suas palavras. estando 84 . E confessando. disse que haverá vinte anos pouco mais ou menos. e não haja cólera. disse que tanto lhe fariam que diria que Deus não era Deus. em 26 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho. E por não dizer mais. e de sua mulher Beatriz Rodrigues. chamado Antônio d’Aguiar. na graça. foi-lhe mandado ter segredo pelo juramento que recebeu. trabalhando em um barco dos padres da Companhia de Jesus. defuntos. e mais velho que ele um ano pouco mais ou menos. e que torne a esta mesa quando for chamada. filho de Manuel Faleiro. em 24 de agosto de 1591 Disse ser cristão velho. em Matoim.O Porteiro. na graça. isto é. no caso. Neste contexto. aplicar a pena ao réu.Confissão de Manuel Faleiro. na fonte do Pereira. estando ele em sua casa. estando em casa do dito seu pai e mãe. que sejam sempre católicas e cristãs. natural do Barreiro. morador em casa do dito seu pai e mãe nesta cidade. principalmente. o obrigaram as justiças da terra a ir trabalhar nas obras del rei.

Chamava-se Marcos Tavares e foi duramente sentenciado pelo visitador: saiu no auto público da Sé. cingido com uma corda e vela acesa na mão. . estando ele em a mesma sala onde estava a sua cama. e de seu irmão não lhe lembra se a teve. No dia seguinte foi açoitado pelas ruas da cidade e degredado por dez anos para Sergipe de São Cristovão. não se lembra ele ora. alternadamente. cometeu com seu membro desonesto ao dito Marcos no seu vaso traseiro.É o mesmo que catre. que significava. criado ou pajem. o qual ora não sabe onde está.“Acessos e conatos nefandos” era expressão muito corriqueira no vocabulário inquisitorial para referir tentativas de penetração ou jogos sexuais (conatos. estaria na dita cama com o dito seu irmão tendo o dito ajuntamento nefando. Confessou mais. disse que lhe parece que. consta o fato de ser menor de idade quando delinquiu e “ser mameluco”. com efeito. Como atenuante para suas culpas e pena. leito. a penetrar. tendo nele conatos para penetrar. grafa-se mamaluco. sentiu bolir o cátle da cama onde estava o dito seu irmão. que começou já. ou três vezes. E que também outra vez. tendo nele os ditos acessos e conatos nefandos e torpes. sentiu uma vez aos ditos seu irmão e Marcos estarem fazendo o dito ajuntamento torpe e nefando um por detrás com o outro. um ao outro se cometeram com seus membros viris desonestos por seus vasos traseiros. mamluk. com o membro viril. E perguntado ele confessante pelo senhor visitador. que também ele confessante. maior ainda que o dito seu irmão. nem se afirma se teve o dito Marcos polução de semente alguma das ditas vezes. porém não penetraram. 86 . e uma ou duas vezes o dito Marcos. lhe aconteceu como dito tem duas vezes pouco mais ou menos. um mameluco que em sua casa estava chamado Marcos . e de todas as vezes nunca ele confessante teve polução de semente. de maneira que lhe pareceu e entendeu que o dito Marcos que na dita cama costumava dormir. e ele confessante não tinha idade para ter polução. escravo. proc. e estes acessos nefandos e conatos de querer principiar e penetrar um ao outro. IL. o vaso traseiro de cada um deles. também outras três vezes pouco mais ou menos. que na dita cama estava. começando e querendo penetrar. que no mesmo tempo pouco mais ou menos. e uma ou duas vezes lhe aconteceu que. porém ele confessante não sabe se penetravam eles um ao outro ou não. o dito Marcos teve acessos nefandos a ele confessante com seu membro viril desonesto no vaso traseiro dele confessante. 85 86 87 88 85 . ANTT. não procedeu à penetração. E disse mais. E ele confessante. os sentia.60 ambos sós em uma cama. quando ele com o dito Marcos estavam nos ditos ajuntamentos torpes.11080. que o dito seu irmão Antônio d’Aguiar. e por ele confessante o não consentir . É palavra de origem árabe. estando na cama com os ditos seu irmão e Marcos. contatos)homoeróticos.Conforme vimos na Introdução. 88 . e posto que o dito Marcos seria então de idade de alguns quinze anos pouco mais ou menos. e ainda então não tinha idade para isso. 87 . sem penetrar mais que uma só vez. desbarretado. descalço.

e que se confesse muitas vezes. que depois disto. e que já está apartado destas desonestidades. natural de Deypo .Desbarretar: tirar o barrete da cabeça. casado com Luisa Fernandes. E confessando. e cumpra a penitência que lhe o confessor der. em que não havia portugueses senão todos franceses. 39 . penetrando-o. morador ora em Sergipe. ele confessante se ajoelhava e desbarretava e estava com eles ditos luteranos quando eles faziam as ditas salvas luteranas. porém nunca ele confessante as aprovou em seu 89 90 89 90 . em 27 de agosto de 1591 Disse ser francês de nação. E foi logo admoestado pelo senhor visitador. natural do Rio de Janeiro. de idade de quarenta anos pouco mais ou menos. bacharel em artes. penetrando com seu membro desonesto o vaso traseiro dele confessante. que ora nesta cidade se quer ordenar de clérigo. que ele se afaste de tais torpezas nefandas e de conversação das ditas pessoas. foi dormir algumas vezes na casa dele confessante.Confissão de Nicolau Luis. franceses católicos. mamaluca. e tendo nele polução de semente. Antônio Lopes.Capistrano sugere tratar-se de Dieppe. os quais costumavam fazer suas salvas pela manhã e à tarde lutaranas na nau. na graça. filho de Roberto Cluçe e de sua mulher. . ainda que não perfeitamente. disse que haverá vinte e quatro anos pouco mais ou menos que. com muita caridade. foram tomados no mar pelos franceses luteranos. metendo ele confessante seu membro desonesto pelo vaso traseiro do dito Antônio Lopes. indo ele confessante em uma nau de seu pai de Bordéus para a sua terra. e do costume disse nada mais que é irmão do dito Antônio d’Aguiar. francês. . e espaço do mês e meio que com eles andou. à sua cama. e duas ou três vezes ele confessante teve ajuntamento nefando com o dito Antônio Lopes. e que se vá ora confessar ao Colégio da Companhia de Jesus e traga escrito do confessor a esta mesa. e das mais de que lhe poderá vir dano à sua alma e consciência. E de todas estas culpas disse que está muito arrependido e que pede delas perdão e misericórdia. constrangido e com medo deles. receba o Santíssimo Sacramento de conselho de seus confessores. sendo de quinze anos de idade. e o dito Antônio Lopes teve com ele confessante outras tantas vezes o dito ajuntamento nefando da maneira sobredita. que há vinte e dois anos que está neste Brasil. e tendo no dito seu vaso traseiro polução de semente por detrás como se fora homem com mulher por diante.61 Confessou mais.

de ordinário não é inteiriça. em 28 de agosto de 1591 Disse ser cristã velha.Nas Ordenações Filipinas. e destas culpas exteriores disse que pedia perdão e misericórdia. melhor ainda do que se fora um rufião à sua barregã . mulher de Francisco Pires. quisera a dita Felipa de Souza deitar-se na cama dela confessante para dormir com ela e ela confessante não quis 91 92 93 91 . diz-nos o antigo dicionarista. em algumas partes lhe chamam ceroulas”. Fim dos trinta dias da graça concedida à cidade do Salvador e a uma légua ao redor dela. a dita Felipa de Souza se fechou em uma câmara com ela confessante um dia. e que se vá logo confessar. por vezes. “A fralda da camisa da mulher. E confessando. 40 .62 coração. foi ter com ela confessante à dita roça. enfim. a lançou sobre sua cama. a dita Felipa de Souza se deitou sobre ela de bruços com as fraldas delas ambas arregaçadas. e assim. com seus vasos dianteiros ajuntados. se estiveram ambas deleitando até que a dita Felipa de Souza. e lhe deu muitos abraços e beijos e. a meretrizes. E depois disto.Confissão de Maria Lourenço.Artesão que faz caldeiras. e lhe começou de falar muitos requebros e amores e palavras lascivas. morador nesta cidade. e assim fizeram uma com a outra como se fora homem com mulher. de idade de quarenta anos. e que a penitência que seu confessor lhe der por estas culpas. e estando ela confessante de costas. disse que haverá quatro anos pouco mais ou menos. e lhe encarregou que se confesse muitas vezes e tome o Santíssimo Sacramento de conselho de seus confessores. cristã velha. casada com Antônio Gonçalves. caldeireiro . esta penitência cumpra. cuja é a dita roça. pela sesta. depois do jantar.Fralda era a parte da roupa de “cima para baixo”. estando ela confessante na dita roça com Felipa de Souza. . Popularmente assimilava-se o termo. na noite logo seguinte. barregã é sinônimo de concubina. e de sua mulher Maria Francisca. E ele é bom cristão e sempre o foi em seu coração. nem lhes pareceu bem. mas com medo dos ditos luteranos se punha com eles no tempo que eles as faziam. 93 . 92 . porém não houve nenhum instrumento exterior penetrante entre elas mais que somente seus vasos naturais dianteiros. mulher que coabita com um homem sem ser com ele casado. E foi logo admoestado pelo senhor visitador que ele lhe não aconteça mais cair em semelhantes culpas e que faça coisas exemplares de bom cristão. estando ela confessante em uma roça meia légua desta cidade. tachos e vasos de cobre que vão ao fogo. mas de outra peça de pano. natural do termo de Viseu. Desfixação do Édito da Graça e do Alvará de perdão das fazendas. cumpriu. pedreiro. acolhida por causa dos ingleses que entraram na Bahia deste porto. filha de Antônio Pires. digo. caldeireiro. que de cima estava. como os dos engenhos de açúcar.

estando ela confessante já nesta cidade em sua casa. que a dita Felipa de Souza se lhe gabou que tinha a desonesta e nefanda amizade com Paula de Siqueira. E disse mais. Então. não lhe lembra quais. que é um homem já velho. nem tal lhe fez nunca.Para que se tenha uma idéia da dádiva oferecida por Felipa de Souza. pelejando ela confessante com seu marido. E depois de tudo isto lhe acontecer. ambas ajuntaram seus vasos dianteiros. motejando a ela confessante de esquiva e seca. e que pode ser que algumas pessoas lhe ouviram isto que ela disse com fúria. que a dita Felipa de Souza tornou depois à sua casa e pretendeu dormir uma noite na sua cama. alevantadas as fraldas. o senhor visitador a repreendeu e admoestou com palavras de muita caridade que se afaste de semelhantes culpas e das ocasiões delas e das pessoas de cujas conversações lhe pode vir dano à sua alma. dizendo que não veio no tempo da graça confessá-las porque não lhe lembraramn senão ainda agora .63 consentir isso. com a cólera e agastamento lhe chamou somitigo. apalpando-a e abraçando-a e beijando-a e. em 1590. fingindo que para a curar. e que mais lhe não lembra. e que assim todas lhe faziam muitos mimos. de noite. era em torno de 80 réis) 95 . E assim disse mais. E que destas culpas pede perdão e misericórdia. mulher de um pedreiro. mas disse ao Francisco Pires. E disse que. e despedindo-a ela confessante com dizer que não. nesta hora em que a dita Felipa de Souza chegou à sua casa perguntar-lhe se tinha ela vindo dizer isto a esta mesa. se fechara com Paula de Siqueira e que Paula de Siqueira lhe dera um anel de ouro. de fronte de São Bento.Estar doente da madre significa. veio a ela ter a dita Felipa de Souza um dia. e com Maria Pinheira. e que viva bem com seu marido e seja amiga de Deus e muito devota da Virgem 94 95 94 . que dormissem ambas. até que a dita Felipa de Souza cumpriu. mulher do contador e com Paula Antunes. se fingiu de doente da madre e fez levantar da cama ao dito velho seu marido para que ela confessante se fosse deitar com ela. E depois disto. e que. E por dizer que não lhe lembra mais que confessar. mil réis equivalia à cerca de 1/4 de moeda de ouro(o preço de uma galinha. em uma sesta. . que a dita Felipa de Souza dava mil réis a uma moça casada com um ferreiro alcorcovado. tomou logo o manto e se vem aqui fazer esta confissão. a dita Felipa de Souza. mas ela confessante o não consentiu. que não deixasse sua mulher Felipa de Souza vir-se à cama dela confessante. enfim. no contexto. algumas vezes. sentir cólicas menstruais. mulher de Simão Nunes Dutra. deleitando-se uma com outra como se fora homem com mulher. e depois de acabarem de jantar. dizendo que ele a dormia por detrás. porém que isso é falsidade e o dito seu marido não é tal. daí a cinco ou seis dias. sobre a sua cama se lançou de costas a dita Felipa de Souza e ela confessante se lançou em cima dela de bruços e. se tornaram a fechar na câmara dela confessante e a dita Felipa de Souza a tornou a requestar de amores. ouviu ela confessante dizer a algumas pessoas. porém ela confessante não o quis fazer.

nem beber. e aos Santos do paraíso. costa deste Brasil. defunto. e por ele se haviam de salvar. E que também as tias dela confessante eram mulheres que se confessavam e comungavam. há de ser castigada mui rigorosamente como este pecado de sodomia e contra natura merece. irmã de sua mãe. ele se foi para Portugal. e não comer e fartar-se ao meio-dia. e ela assim prometeu fazer. e que se cumpra a penitência que ele lhe der. “a prima quão pouco sabe que se não há de salvar por aí. eram honradas. de idade de trinta anos pouco mais ou menos. e se confesse muitas vezes e tome o Senhor de conselho de seus confessores. e traga a esta mesa escrito do confessor. nem rezar até noite. seu primo com irmão. filho de Maria Lopes. filha de Gaspar Dias da Vidigueira. e depois de estar com ele alguns dois ou três anos pouco mais ou menos. ANTT. até sair estrela. admoestação e penitências espirituais. cristã nova. que cumpra a penitência espiritual seguinte: que jejue dois dias e que reze nove vezes o rosário de Nossa Senhora. venha cá prima. dizendo-lhe mais. e que este jejum faziam seus antepassados e por ele se salvavam. foi ter a Porto Seguro. Catarina Gomes. e de sua mulher Ana Rodrigues. assada ou cozida. E lhe mandou que se vá logo confessar ao Colégio Jesus ou ao mosteiro de São Bento ao padre abade.64 Sagrada. cristão novo. n. se outra vez cair em semelhante culpa.Foi processada pelo visitador por atos de judaísmo devido a não ter confessado na graça mas. considerando ser nova quando delinquiu. há de cear uma galinha se a tiver bem gorda. que este era o verdadeiro jejum. E confessando-se. e rezando-lhes pelas contas das orações da Santa Madre Igreja. quero a ensinar como se salvaram nossos avós: há de jejuar às segundas e quintas-feiras sem comer. 41 . o dito seu primo lhe disse estas palavras. dizendo-lhe mais. os quais dias ela jejuava encomendando-se a Deus Nosso Senhor e à Virgem Nossa Senhora. mulher de Salvador da Maia. feita na mesa. então. cristão novo. recebeu pena branda: abjuração de leve suspeita na fé. que ora veio com o dito seu marido do dito Porto Seguro para esta cidade. dela. e que este era o verdadeiro jejum e aceito de Deus. 96 . depois de ele ido. e que saiba certo que. cristã nova. natural de Porto Seguro. disse que haverá dezessete anos que é casada com o dito seu marido. solteiro. morador nesta cidade. E assim lhe mandou mais. proc. 15563. I.L. para se salvar. E nessa conjunção. e elas e seus maridos faziam este jejum. depois de sair a estrela. . nem dormir. Por não saber escrever. e ceiará à sua vontade”. Álvaro Pacheco. e ora estão nela moradores em casa de sua irmã. assinou o notário a seu rogo. e vendo que ela confessante jejuava às quartas e sextas-feiras e sábados do carnal. casada com Pero Fernandes. onde ela era moradora. encomendando-lhes também ao dito seu marido ausente.Confissão de Antônia d’Oliveira . em 5 de outubro de 1591 96 Disse ser cristã nova de todos os costados. também cristão novo.

morador no Espírito Santo. por vezes estando sós. e que agora. e se confessou aos padres da Companhia de Jesus. não comendo nem bebendo. nem rezando nem dormindo. e lhe disse que se calasse. já ora defunta. E ela confessante disse uma ou duas vezes à dita sua tia Violante Rodrigues que o dito seu primo. irmã de sua avó Branca Rodrigues. dizendo-lhe mais o dito seu primo.65 que fosse ela confessante ter com sua tia. dizendo-lhe que por que lhe queria bem. depois de se publicar nesta cidade a Santa Inquisição. que seu compadre Miguel Gomes. já defunto. porque os sábados eram os verdadeiros domingos. nem o entendiam. ela jejuou o dito jejum. e neles se não havia de trabalhar. e se veio a esta cidade. ela lhe ensinava a ela como se havia de salvar. mudando a cor do rosto. dizendo-lhe também que. que guardasse os sábados. que lhe lançasse a benção. e a dita sua tia lhe pôs a mão na cabeça. E declarou mais. contando-lhe seu marido em Paripe como todas as pessoas vinham e eram obrigadas vir a esta mesa. Antônio Blasquez e Pero Coelho. e pede pelas chagas de Jesus Cristo se use com ela de misericórdia e se lhe outorgue perdão. não entendendo então que eram judaicas. a saber. estando algumas vezes presentes umas suas irmãs dela mais moças. a manifestar todas as culpas que de si e de quaisquer outras pessoas soubessem. Álvaro Pacheco. e lhe parece que os fez ambos em uma semana. Catarina Gomes e Branca Rodrigues. as quais lhe parece não atentavam nisso. a qual Violante Rodrigues foi mulher de Henrique Mendes. ceiou e comeu o que achou em casa. eram dias de trabalho. respeitando-se que nunca ela teve no entendimento erro algum contra a fé de Cristo. costa deste Brasil. mas parecendo-lhe que assim merecia mais com Deus Nosso Senhor. do Porto Seguro. e a dita sua tia. e neles se haviam de vestir as camisas lavadas. E vendo ela confessante estas coisas que o dito seu primo lhe dizia. por muitas vezes. lhe dissera que ela a ensinaria como se havia de salvar. e vem agora a esta mesa fazer resta confissão e pedir misericórdia. lhe ensinava estas coisas. se a dita sua avó Branca Rodrigues fora viva. fez ela então escrúpulo do sobredito e o começou a contar ao dito seu marido. que então morava também no Espírito Santo. cuidando serem boas. haverá seis anos disse a ela. simplesmente. E este jejum fez duas vezes somente. onde ora está. E disse ela confessante que fez os ditos dois jejuns parecendo-lhe que neles havia uma grande devoção a Nosso Senhor. e ela confessante no dito tempo. sem entender serem judaicos. até sair a estrela à noite. e em cada uma das ditas vezes foi à dita sua tia Violante Rodrigues que tinha a serventia por dentro. se desfigurou. quando ela isto lhe disse. cristãos. porque fora muito santa mulher e morrera uma morte santa. e que os domingos nossos. E que depois de jejuar. e depois das estrelas saídas. também defunta. Violante Rodrigues. e que ela a ensinaria. fosse ela à dita sua tia que lançasse a benção. que era tola e não dissesse aquilo. nomeando Abraham. confessante. cristão novo. vendo-a . mercador. E que todas estas coisas lhe ensinava e dizia o dito seu primo.

ia muitas vezes à sua casa. um Diogo Lopes Ilhoa. estas palavras. haverá ano e meio. tias dela confessante. e Catarina Mendes. dos que adoraram procedem os jejuns daquela nação. Jorge Fernandes. e que todos se salvavam na glória. e isto rindo-se. que falais. mas ora depois de entender estas coisas da Santa Inquisição. e ela confessante não sabe suas tenções. que haverá quatorze anos pouco mais ou menos. E disse ela confessante que ora lhe não lembram mais coisas que estas que tem denunciado e confessado. moradores nesta cidade. mulher de Antônio Serrão. quando os filhos de Israel idolatraram estando Moisés no monte. pede misericórdia. e o dito seu pai jejuavam e rezavam. irmã do dito seu primo Álvaro Pacheco. mãe do dito seu primo Álvaro Pacheco. como dito tem. casada com Francisco Mendes em Pernambuco. viúva. dizendo-lhe mais. e que queriam dizer que. “como reza. E sendo perguntada quais são as suas tias que ela tem. que andais rezando”. e Leonor da Rosa. mesmo em Paripe. por nome Matias. declarou ela confessante queno dito tempo. dela confessante. tomou escrúpulo destas coisas que ouviu à dita sua mãe. E outrossim.“como é devota a senhora Antônia de Oliveira. e Leonor da Rosa. a Peroasu despedir-se de suas irmãs Catarina Mendes. e que a ele só se encomendasse. E que também lhe disse a dita sua mãe que. e lhe disse mais. sabiam como se haviam de salvar. E também o dito seu compadre lhe disse que seu sogro. mas não sabe sua intenção. defunta. em casa de sua prima Ana d’Oliveira. mulher que foi de mestre Afonso. “que rezais. ela confessante. no dito tempo lhe dizia e ensinava a ela confessante que Deus era um só Deus que estava no Céu. sendo casada com o segundo marido Belchior da Costa. dizia sempre a um irmão seu. e que não curasse de imagens. vendo que ela jejuava como se costuma na Santa Madre Igreja. indo ela.66 rezar. e vendo-a rezar. disse que são Maria Lopes. e que se não podia ver livre de lhe elas perguntarem isto. E declarou mais. morador em Peroasu e Beatriz Mendes. que o dito seu primo Álvaro Pacheco lhe disse as ditas coisas em Porto Seguro. declarou ela confessante que haverá mês e meio que. . e que de qualquer culpa que nelas tem incorrido. lhe disse sua mãe Ana Rodrigues que. Ana Rodrigues. cunhado de sua prima Branca de Leão. era deles. mulher de João Vaz Serrão. lhe disse por muitas vezes estas palavras. e então calava-se. viúva. e não sabe como se há de salvar”. a importunavam e lhe diziam que lhes dissesse o que rezava e que devoções. todo o dia. que também o dito Álvaro Pacheco. e que seus avós. o qual Matias é um moço doente que reza sempre per contas. cristão novo. estas palavras. e que nele pusesse os olhos e em Nossa Senhora. dela. do dito seu marido. como é rezadeira e confessadeira”. todas irmãs de sua mãe. pai do dito seu marido Pero Fernandes. ignorantemente. mulher de João Vaz Serrão. que seus avós dela jejuavam doutra maneira. que os seus antepassados. e lhe contou a história do bezerro d’ouro. E outrossim. mulher de Antônio Serrão. que era a casa de sua mãe onde ambas moravam. em Paripe desta capitania.

ela no dito tempo desejava de vir o dito Papa como dizia. e pois faziam grandes reverências às cruzes e traziam contas. por obra de uma hora que aí estiveram. e a choraram ao seu modo gentílico como costumam fazer quando querem reverenciar e festejar alguma pessoa . moradora no seu engenho de Jaguaripe do Recôncavo desta Bahia. E antes de os ditos gentios virem do sertão para a dita sua fazenda. que ora está preso no cárcere do Santo Ofício. Confessou mais. E confessanndo. ao qual ídolo chamavam a Santidade. e ela confessante. mas não houve efeito. senão alguma coisa santa de Deus. que lhe desse licença para isso. abrigar-se. e dizia. mulher de Fernão Cabral de Taíde. cristã velha. o qual. que será distância quase de meia légua . natural de Moura.67 Por não saber. tendo um ídolo de pedra quue não tinha figura humana. que poderia ser de dois meses pouco mais ou menos. filha de Manuel da Costa e de sua mulher Beatriz Lopes de Gouvea. fugiu e não chegou à dita fazenda com os mais e. e assim mais. e faziam suas reverências e suas cerimônias gentílicas. nem lhe pintaram nada. dizendo-lhe que se fosse com elas mais honrada. neste contexto. que não podia ser aquilo demônio.Confissão de Dona Margarida da Costa. tudo dentro da dita sua fazenda. e nomeavam Santa Maria. duas negras e três negros do dito gentio da terra da dita abusão vieram da casa em que estavam aposentados dentro. e a essa deu ela confessante umas fitas. de idade de quarenta anos. por não agravar. lhe disse que sim. no caminho do sertão.Cerca de 3 Km. uns gentios da terra que faziam a abusão chamada Santidade. e ela confessante. dizia ela que desejava já de vir aquele papa e aquela santidade para ver o que aquilo era. porquanto entre o dito gentio vinha também um negro ao qual chamavam papa. . em 30 de outubro de 1591 Disse ser cristã velha. ter às casas do aposento dela confessante.Aposentarar significa. 98 . ela tinha para si. se aposentaram por ordem do dito seu marido. pousar. E dizendo-lhe a dita negra a que chamavam mãe de Deus. manifestação de cortesia indicando que o visitante ou estrangeiro era bem-vindo e estimado. E no dito tempo. 99 . pois traziam cruzes de que o demônio foge. a dita vez que a foi ver. na sua fazenda. disse que haverá cinco anos pouco mais ou menos que. que lhe queria pintar as suas casas como costumavam lá no gentio. na dita sua fazenda de Jaguaripe. assinou a seu rogo o notário.Trata-se da “saudação lacrimosa” dos tupi. ela confessante mandou aos seus negros de casa que não agravassem aos ditos gentios da dita abusão. E assim mais. na verdade. e uma das ditas negras era a que chamavam mãe de Deus na dita abusão. quando os ditos gentios a 97 98 99 97 . 42 . os mandou agasalhar dando-lhes peixe e farinha. que no dito tempo que a dita abusão esteve na dita sua fazenda.

do Monte).S. porquanto não o tinha ainda visto. antes de trazerem o dito ídolo para a cidade. ao fim de tudo. Sergipe de São Cristovão. não incluindo a cidade. dizendo-lhe que era muito bom aquilo. Tamararia (igreja de N. da Purificação). ela confessante. E declarou mais. Oentum (sic. Itaparica (igreja de Vera Cruz). Matoim (igreja de N. por mandado do governador Manuel Teles Barreto.S. ela lhes gabava aquela sua chamada santidade. Jacaracanga (capela na fazenda de Cristovão de Barros). Sergipe do Conde (igreja de N. Tassuapina (igreja de N.68 vinham ver. capela de N.S. Jaguaripe (capela de São Bento). o mandou trazer dentro ao aposento onde ela estava para o ver.da Piedade). Caipe (igreja de São Lourenço). que todas as sobreditas coisas que fez e disse em favor dos ditos gentios e sua abusão foi por contemporizar com eles e não os agravar. nem uma légua ao redor dela. Paripe (igreja de Nossa Senhora do Ó).Nos originais consta a lista de igrejas e capelas abrangidas pela visitação nesta fase do recôncavo (bem como o nome dos curas. do Socorro). Assinou o notário por ela confessante. vigários e capelães respectivos): Pirajá. Japasé (igreja da Madre de Deus).S. e ela confessante o tomou na mão e lhe deu com a mão no rosto e lhe cuspiu. E quando. .dos Prazeres na fazenda do Margalho (também em Tassuapina). Início dos trinta dias de graça concedidos ao Recôncavo.S. se desfez a dita casa da dita abusão e ídolo. Capela de São Jerônimo). capela de Santa Catarina no engenho de Gaspar Dias Barbosa. Peroasu. aos dois dias de janeiro do ano de 1591 100 100 . e por não se levantarem e lhe fazerem mal e fazerem mal à gente branca que estava no sertão para acabarem de os trazer à mais companhia dos ditos gentios.

cristã nova. sendo ele morador então em Peroasu. quando disse estas palavras. sem consideração. significam ordens religiosas. que ele saiba. e de lá veio a este Brasil e não andou outras partes. homem aleijado que já foi porteiro e rendeiro do verde nesta cidade. da Companhia de Jesus. casado com Maria Gonçalves. e de sua mulher Guiomar Fernandes. cristão novo. obreiro de alfaiate. . se agasalhou em Monte Calvário. ou se comunicou e tratou com alguns luteranos. que as religiões não eram boas. a qual disse a ele confessante que ela era neta de um homem cristão velho. alfaiate. ou leu por seus livros. e desta culpa pedia perdão e misericórdia neste tempo da graça. falando neste queixume que ele confessante estava fazendo ao dito Antônio de Melo de o dito padre ter comprado a dita criação que ele determinava comprar. respondeu que a sua intenção não foi falar contra a religião. nem contra o estado sacerdotal. moradora em Pernambuco. dizendo-lhe que não falava bem e ele confessante lhe respondeu que não cuidou que naquelas palavras dizia tanto mal. filha de homem branco e de negra deste Brasil. e que é um bom cristão 101 102 101 102 . contou ele confessante como tinha determinado de ir à aldeia do Espírito Santo para comprar a um mancebo lá morador uma criação de porcos que tinha para vender e como. E foi perguntado se andou em Itália. e que lê e escreve mal e não lê livros danosos. brigou com ele confessante. defunto. cristão novo. vindo uma vez a esta cidade. nem tratou com luteranos.Isto é. em casa de Antônio de Melo.69 Confissões do Recôncavo 43 . mameluca. disse que haverá três anos pouco mais ou menos que. neste caso. naquele dia. praticando-lhe. tinha topado com o dito mancebo à porta de Gonçalo Álvares Girga para a vender. no tempo da graça. de idade de quarenta anos pouco mais ou menos. filho de Sebastião Pires. E logo o dito Antônio de Melo lhe foi à mão . Inglaterra. respondeu que ele é natural de Lisboa e em Lisboa se criou. que a comprara ao dito mancebo. França. . com agastamento disse estas palavras. ambos sós.Religiões. mas que falou estas palavras simplesmente. que lhe mandava o Padre Antônio Dias. alfaiate.Confissão de Bartolomeu Garcez. E estando uma vez à boca da noite na dita casa. E estando assim. a qual ele tem por cristã velha. E confessando. “por clérigos e frades se há de perder o mundo”. E foi perguntado se entendeu ele. morador em Tapagipe nesta capitania. em 13 de janeiro de 1592 Disse ser cristão novo.

estando ele muito agastado contra uns homens que lhe tinham morto naquele comenos a um seu sobrinho. instante. o fez com cólera súbita. disse que só o dito Antônio de Melo lhe ouviu estas palavras. com fúria e agastamento. e ele tem muitos inimigos que lhe poderão arguir mal. um dia.Comenos: momento. todos moradores nesta cidade e seu termo. sem consideração nem deliberação. 105 . guardar as cadeias. escrivão. outrossim. e nas 103 104 105 103 . já defuntos. respondeu que ele crê tudo como a Santa Madre Igreja e que. sem deliberar razão alguma. ou barbas ou tripas. que haverá oito ou dez anos pouco mais ou menos que. e outras pessoas mais que ora lhe não lembram. respondeu que entende pelo corpo de Cristo Nosso Senhor Deus verdadeiro. porquanto ele tem jurado muitas vezes o dito juramento pelo corpo de Deus. os pés. faz esta declaração. e que assim o confessa como o tem a Santa Madre Igreja. filho de Gomes Pacheco e de sua mulher Joana Rodrigues. quando fez o dito juramento.70 E perguntado mais. de idade de sessenta anos. cidadão desta cidade que então era juiz. e Antônio Corelha. arrecadar junto aos presos as despesas de carceragem. . e foilhe mandado tornar a esta mesa no mês que vem. se acusou que é costumado jurar pelo corpo de Deus. solteiro que nunca casou. etc. E. sem declarar o como o entende que é de Cristo.O Alcaide-mor da cidade era nomeado pelo Governador e encarregado de cuidar da segurança das fortalezas. porém da maneira que dito tem. “por estas barbas e pelas barbas de Cristo”. 104 . e que bem sabe que a primeira e a terceira pessoa da Santíssima Trindade não têm corpo.Confissão de Gaspar Pacheco. jurou esta jura. natural da cidade de Lisboa. em 13 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho de todos os costados. E foi logo perguntado se sabe ele e crê que Cristo Nosso Senhor. ele. cristão velho. ele confessante. que foi tesoureiro d’alfândega de Lisboa . nesta cidade. depois de ressucitado e glorioso. segunda pessoa da Santíssima Trindade humanado. em Itaparica. que então era João da Costa. Declarou mais. morador em seu engenho em Itaparica desta capitania. e que destas culpas pede perdão neste tempo da graça. O qual juramento fez estando presentes Antônio Lopes Penela. disse que haverá seis ou sete anos pouco mais ou menos que. seus inimigos capitais o acusaram falsamente. porém que.Cargo de provimento real cuja atribuição era recolher as rendas aduaneiras del rei. ficou seu corpo imortal glorioso com suas partes indivisíveis de maneira que é herético cuidar que se podem apartar as mãos. E confessando. e que assim fica sendo blasfêmia heretical jurar pelas barbas ou por outra parte em particular do corpo de Cristo. e que ele as disse estando em seu siso. E sendo perguntado de que maneira entende ele o dito juramento pelo corpo de Deus se Deus não tem corpo. e o alcaide . ou quaisquer outras partes suas de seu corpo. no tempo da graça. 44 . e isto aconteceu dentro da sua dita fazenda em Itaparica.

ANTT.71 visitações do Ordinário. que o mandou retornar à mesa em 3/9 e 1/10 de 1592. em 13 de janeiro de 1591 106 Confessando. disse ser cristão velho. e tinham um ídolo de pedra a que faziam suas cerimônias e adoravam. de idade de vinte e cinco anos mais ou menos. morador em Paripe nesta capitania. E para certeza disto. porque o vigário geral Bastião da Luz. disse que haverá seis anos pouco mais ou menos que. Reitor do Colégio da Companhia de Jesus desta cidade. E confessando. impondo-lhe mais falsamente outras culpas as quais ele nunca fez nem cometeu. testemunharam falso contra ele. seu inimigo capital. infamando-o e impondo-lhe que era blasfemo. e defumavam-se com fumos e erva que chamam erva santa. usavam de contrafazer as cerimônias da Igreja e fingiam trazer contas de rezar como que rezavam. e que quem não cresse naquela sua abusão e idolatria a que eles chamavam Santidade se havia de converter em pássaro e em bichos do mato. e disto há autos processados no juízo eclesiásico desta cidade. e que os brancos haviam de ficar seus cativos. 107 . como juraram nos ditos autos. e convocar a seus inimigos para neles jurarem falso contra ele. e que dissera que os evangelistas sagrados se encontravam nos Evangelhos. casado com Inocência Nunes. mameluco. herege sodomítico. E claramente se vê que foi tudo falso. apresentou nesta mesa uma certidão feita e assinada pelo Reverendo Padre Fernão Cardim. cristã nova e mameluca. e bebiam o dito fumo até que caíam bêbados com ele. desta cidade.Brasila não é propriamente um sobrenome. deles pagãos e deles cristãos. homem branco. 107 106 . e sim indicação de que é índia. natural desta capitania. filho de Fernão Gonçalves. 17762. no sertão desta capitania para a banda de Jaguaripe. dizendo que vinha já o seu Deus a livrá-los do cativeiro em que estavam e fazê-los senhores da gente branca. se alevantou uma erronia e idolatria gentílica a qual sustentavam e faziam os brasis. 45 . nem é lembrado que nenhuma delas fizesse. lavrador. proc. IL. lavrador e morador no dito lugar de Paripe. Pelo crime de bestialidade não confessado na graça pagou 5 cruzados. Pelo envolvimento com a Santidade fez abjuração de leve na mesa e foi proibido de voltar ao sertão. os quais não são ainda sentenciados finalmente. e deles forros e deles escravos.Confissão de Gonçalo Fernandes . .Foi processado pelo visitador. no tempo da graça. e pediu e requereu a ele senhor visitador mande vir perante si os ditos autos e neles proceda como for justiça. dizendo que com aquele fumo lhe entrava o espírito da santidade. na companhia da dita abusão e idolatria. que fugiam a seus senhores para a dita idolatria e. e falavam certa linguagem por eles inventada. e assim diziam e faziam na dita idolatria outros muitos despropósitos. e de sua escrava Antônia Brasila . cristão velho. Acabou confessando também ter tido relações sexuais com uma burra. pediu perdão a ele confessante de lhe ter alevantado as ditas culpas e de falsamente fabricar contra ele os ditos autos.

se tornou para casa de seu pai. moço que andava na escola. E declarou que. o qual tinha ido por mandado de Fernão Cabral de Taíde para os trazer consigo por ser mameluco e saber bem a língua. geralmente assim forros como cativos. e com outros mais. que quer dizer frio grande. por ser ainda solteiro. E levando consigo um Brasil cristão. . na qual ele então morava. já defunta. E com estes da dita freguesia de Paripe ele denunciante (sic) se ajuntou. e o dito Fernão Cabral de Taíde lhas deu com uma pouca de farinha para o caminho. desejou muito de ir ao dito sertão ajuntar-se com os principais mantedores da dita idolatria. ou fugiam a seus senhores para o dito sertão a juntar-se na companhia dos da dita abusão. já defunto. pela sua língua gentia roigatte (sic) . nome mais correto e adequado ao tupi. e outros muitos que com eles se ajuntavam. E como quer que a fama e nova de todas as ditas coisas da dita chamada Santidade correram e se espalharam por toda esta capitania. tia de sua mulher. E assim o fizeram os brasis cristãos que estavam na dita freguesia de Paripe. que estava no dito lugar chamado Frio Grande. e que isto faziam de noite. a Paripe. parecendo a ele confessante ser esse o verdadeiro Deus. estando ele confessante nesta crença. E que. e na companhia deles andava Domingos Fernandes Nobre. usavam as ditas cerimônias e criam na dita abusão. pediu a Fernão Cabral de Taíde. e de Maria Pinta. abusão e idolatria chamada santidade. mameluco. e todos seus companheiros escravos que ora são do doutor Ambrósio Peixoto e o foram de Francisca da Costa. cujos nomes lhe não lembram. todos escravos e forros. filho de Antônio Pereira.72 E com isto estavam no sertão onde chamam. e por espaço de dois meses pouco mais ou menos fez com eles as ditas cerimônias. ou não fugindo. d’alcunha Tomacaúna. licença e cartas para ele ir ao dito sertão para o dito Domingos Fernandes Tomacaúna. e tornou a dar as cartas ao dito Fernão Cabral. E que. por 108 108 . caminhou pelo mato dois dias. e tendo fé na dita idolatria e abusão. fazendo as ditas cerimônias e usos da dita feitiçaria. parecendo-lhe ser certo e bom o por eles dito daquela sua santidade. tomando os ditos fumos e falando a sua linguagem e crendo que era verdade o que eles diziam e que vinha o seu Deus. no dito tempo. assim como os ditos mantedores dela. lavrador de Matoim.A maioria dos informantes (inclusive nas denunciações) fala em roigaçu. viu ele confessante no dito Paripe a Francisco. para com seus olhos ver a dita chamada santidade onde diziam que estava o Deus. com estes desejos. andar também juntamente com os Brasis de casa de seu pai Antônio Pereira. escondidamente. onde quer que estavam. logo os brasis. homem branco. e enganado nesta falsa fé. seu escravo. filha de Brasila. Simão e Paulo. que estava com os da dita abusão. não sabe que idade. como que também cria nela. e por haver medo dos gentios salteadores.

E confessando. vigário da dita freguesia. foi-lhe mandado ter segredo. conversa. já defunto. e outras pessoas mais que ora lhe não lembram. não há de tornar ao mundo senão no fim dele. que isto que ele diz não tem propósito. disse que poucos dias há. castelhano. morador na dita freguesia de Passé. . Prática era diálogo.73 a gente branca os não ver nem sentir dentro. que como é possível que cuidasse ele confessante que havia de vir na dita abusão a fazer senhores aos brasis e fazer escravos aos brancos? Que. e que não sabe mais do que dito tem. e está Deus glorioso no céu. do Reino de Granada. de idade de vinte e oito anos. e no que crê a igreja católica. e defumando-o. e sempre teve em seu coração a fé católica. no último dia do Juizo. ao redor das oitavas do natal próximo passado pouco mais ou menos. nas casas e agasalhados. lavrador. E sendo perguntado de que maneira teve ele confessante a dita crença e fé na dita idolatria. que ele confesse toda a verdade. pregando-lhe pela língua gentia que ele bem entende. respondeu que ele não deixou de crer em Deus todo poderoso. e se deixou ele de crer em Cristo e na Santíssima Trindade. bons e maus. os Brasis a que chamam negros da terra. e no Espírito Santo. E por não dizer mais. cristão velho. para não haver mais geração no mundo. pois está em tempo de graça e perdão. estando ele confessante em uma boa conversação de prática amigável com Antônio da Costa Castanheira. lavrador tido por cristão velho. mas que cuidava ele que este mesmo verdadeiro Senhor nosso era aquel’outro que na dita abusão e idolatria se dizia que vinha. um só Deus verdadeiro. lavrador. solteiro. e em Jesus Cristo. em 14 de janeiro de Disse ser cristão velho. respondeu que um brasil negro da terra foi o primeiro que o induziu. natural da cidade de Loxa. cristã velha. três pessoas. morador na freguesia de Passé desta capitania. casado com Dona Violante Morgade. e por dizer que a verdade é como tem já dito neste auto.Praticar era muitas vezes usado como sinônimo de conversar. porque se ele é cristão e sabe que depois que Cristo padeceu. o qual se chamava Manuel e era escravo do dito Antônio Pereira. porque não se trata nesta mesa senão da saúde de sua alma. desdenhando 109 109 . 46 1592 Confissão de Miguel de Roxas Moralles. portanto. e de sua mulher Dona Maria de Roxas. porque ninguém outrem o pode absolver senão ele senhor visitador. filho de Antonio Morales. mancebo que parece ser de idade de vinte e oito anos. se lhe pareceu que Cristo Nosso Senhor não era o verdadeiro Deus. e estando mais em prática o Padre Bartolomeu Gonçalves. foi perguntado quem o induziu a ele confessante e o provocou a crer na dita abusão e idolatria. defuntos. E foi logo admoestado pelo senhor visotador. a julgar os vivos e os mortos. se deixou a fé de Cristo Deus verdadeiro. começou o dito Antônio Castanheira a modo de zombaria falar com ele confessante. que era verdade aquela santidade e que vinha seu Deus. seu filho.

quando ele confessante ora queria vir a esta cidade. disse que já ele não era castelhano e era português e arrenegara de ser castelhano. donde ele é natural. lavrador. ele confessante. que então chegava de fora. E que. o repreendeu. respondeu que nunca comunicou com eles nem leu. porque lhe parece que estava divertido falando com outro. dizendo que olhasse como falava. e se tem livros deles. lhas ouviu dizer porque estava junto dele. parecendo-lhe mal as ditas palavras. mameluco. e que tem em boa conta e de bom cristão ao dito Castanheira. só lhe parece que Domingos de Andrade. que é de Cristo e verdadeira. E sendo mais perguntado. lhe parece que também o dito Antônio Castanheira inconsideradamente disse as ditas palavras. lhe parecia pertencerem 110 110 . que o campo dos castelhanos estava de uma banda e o dos cristãos (entendendo pelos portugueses) estava de outra. nem teve seus livros. casado. morador no mesmo Passé. e entre palavras desta sorte disse mais estas. se tornaram a juntar em casa de Manuel Gonçalves. ele confessante respondeu estas palavras. distraído. tratando-se das guerras de Castela com Portugal. e que o dito Antônio Castanheira lhe disse então que ele lera já em uma crônica. mas que deles nem de seus costumes sabe nada. quando disse as ditas palavras. e o dito Antônio da Castanheira. sem agastamento nem paixão. então. E foi logo perguntado de que maneira entendeu ele que dizia as ditas palavras o dito Antônio Castanheira. depois disto. E que. e se mudou então a prática em outro propósito. e que somente em Granada. via muitos mouriscos já cristãos. apontando para ele confessante. as quais ele disse inconsideradamente. nem o ferreiro. e sem ter intenção de querer afirmar ser melhor a seita dos mouros que a fé dos portugueses. e que o dito Antônio Castanheira estava em seu siso. não sabe se lhas ouviu o dito vigário que também presente estava.“antes mouro que português”. ferreiro mesmo em Passé. sem fazer discurso nem deliberação do que dizia. e dessa mesma maneira estava também ele confessante quando disse as suas. sem ter ânimo de afirmar o que elas soavam. e então. . respondeu que o sentido delas era dizer ser melhor ser mouro que castelhano. E sendo mais perguntado se algum tempo andou e comunicou entre mouros ou luteranos. e que quando ele disse também as ditas palavras em casa do ferreiro. em outro dia pouco depois. disse em Passé ao dito Antônio Castanheira que lhe parecia que aquelas palavras que ele dissera no dito alpendre. a esta mesa.74 dos castelhanos que não eram gente. disse que o dito Antônio Castanheira disse as ditas palavras estando no alpendre da ermida da invocação de Todos os Santos e que não sabe se lhas ouviu também o dito padre vigário que presente estava. porque lhe parece que estavam divertidos. E que destas palavras que disse pede perdão e misericórdia. E que. porém que a ele confessante. “antes mouro que castelhano”. de antes ser mouro que castelhano.Divertido.

Processado pelo visitador. que depois caiu em desuso no português.75 ao Santo Ofício. de idade de cinquenta e cinco anos pouco mais ou menos. Monsenhor Thoret de Pont. ele confessante. aonde ouvia aos mestres luteranos ler e ensinar a seita luterana e cerimônias dela. constrangendo e forçando com açoites a todos os moços e mancebos de pouca idade que fossem às ditas escolas e doutrinas. sobrinho de Villegaignon. fazendo escolas públicas de sua seita luterana. franceses católicos. filho de Nicolao de Colheni. e nunca tal aprovou interior nem exteriormente. a quem este incumbiu. O verbo defender também possuía este significado do defendre francês. costa deste Brasil. morador em Sergipe do Conde. 113 . Monsenhor de la Xapella. começaram a espalhar seus livros luteranos e semear sua doutrina luterana. católico. portanto. tratou de fugir para os cristãos portugueses e se foi meter com os negros gentios. e de sua mulher Nicola Simonheta. cavaleiro. IL. e não havia ainda no dito Rio de Janeiro nenhum português. de substitui-lo no governo da “França Antártica”. no tempo da graça. Monsenhor de la Fosilha. em 17 de janeiro de 1592 111 Confessando. capitania povoada já então de cristãos portugueses. Monsenhor de Berit. no qual tempo ele não sabia quando era domingo. os huguenotes.Confissão de Pero da Vila Nova . 47 . mas foi as ditas vezes às ditas escolas com medo de lhe fazerem mal. nem suas cerimônias. a saber. veio de França uma frota de três Naus de que era Monsenhor Debuella Conte (sic) . francês. nem se estavam na quaresma. foi às ditas escolas. 112 113 111 . proc. depois de haver onze meses que estavam na dita terra do Rio de Janeiro. aonde povoaram. casado com Leonor Marques de Mendonça. nove ou dez dias. E enfim. e nunca mais até agora teve conversação nem mistura com luteranos. disse ser francês de nação.Defender significa também proibir. interditar e não apenas proteger. 112 . e por isso comeu carne nos ditos dias em que a igreja a defende . Monsenhor de Bolex. E por isso. que. E como quer que os luteranos eram mais e mais poderosos que os católicos. cristã velha. entre os quais andou nove ou dez meses. mas que primeiro o havia de perguntar a um padre. na qual vinham muitos monsenhores. que então poderia ser de idade de dezoito ou dezenove anos pouco mais ou menos. E que. e chegaram todas ao Rio de Janeiro. Os luteranos a que faz menção o confitente são calvinistas franceses. e outros muitos Monsenhores e outra muita gente francesa. Pelo que. nem em que dia estavam. e nunca lhe pareceu bem a dita seita luterana. dos quais a maior parte eram luteranos e vinham repartidos pelas ditas três naus na capitânia das quais vinha ele confessante. nem seus erros. sendo sentenciado a abjurar de leve na mesa e não contar a ninguém como eram os “costumes luteranos”. natural da cidade de Provins. no Rio de Janeiro. se viesse acusar a esta mesa. na era de mil quinhentos e cinquenta e sete. de sorte que dias defesos eram dias proibidos. . em 1559. e ele respondeu que assim o havia de fazer. foi ter a São Vicente. 2526.Trata-se de Bois le Comte. mas que ele confessante era cristão católico e sempre o foi. ANTT.

pois começou a usar de bom conselho em vir a esta mesa neste tempo da graça. e assim tinham outros muitos erros luteranos de que ora não é lembrado.76 E disse que na dita culpa de ir os ditos dias às ditas escolas luteranas. E que já pode ser que alguma pessoa.Confissão de Rodrigo Martins . que ora dizem estar casado em o Rio de Janeiro. e de uma sua escrava negra deste Brasil 114 . dizendo que estes erros lhes vira ele ter no Rio de Janeiro. . pede perdão e misericórdia. E por ele foi dito que ele tem confessada a verdade e que não lhe lembra mais. respondeu que os ditos luteranos tinham e ensinavam que Deus não fizera a missa. nem imagem alguma. nem de os dizer como coisa boa. no tempo da graça. nem que ele tal sentisse. que ele faça confissão inteira e verdadeira. e negavam haver de se venerar cruz. respondeu que não sabe luteranos senão dois católicos que também fugiram para os cristãos. além de penitências espirituais. exteriormente. como eles luteranos usavam. nem aprovasse. nem outro algum dos mais dos ditos luteranos. e que a missa era feitura dos homens. quando com eles estivera. ANTT. ele confessante lhes contava e referia estes ditos erros luteranos que ora acabou de declarar. e que sua intenção era. IL. e André de Fontes. e diziam que era ela tão pura e limpa que não se havia de pôr boca em a nomearem. e que. Sentenciado a pagar 5 cruzados e a não mais voltar ao sertão. com muita caridade. natural da capitania de Porto Seguro deste Brasil. e que na hóstia consagrada da missa não estava o verdadeiro corpo de Cristo. porém que a verdade de seu ânimo e coração é que nunca teve nem creu os ditos erros. 48 . a saber. homem branco. sendo disso acusado por outrem. proc. cuidaria que ele as afirmava. mameluco de Tamararia. ouvindo-lhe contar algumas das ditas erronias. também ora casado em São Vicente. que não se haviam de confessar a homens pecadores como eles. filho de Francisco Martins. contá-las e dizê-las por modo de referir e enunciar os erros dos luteranos.Processado pelo visitador por não ter confessado na graça que se riscara ao modo gentílico no sertão. quando ele contava estas coisas às pessoas que lho perguntavam. e que o verdadeiro sacramento é receber uma fatia de pão em comemoração do corpo de Cristo. e não faziam comemoração alguma de Nossa Senhora. que ele diga tudo porque assim lhe releva para salvação de sua alma e para seu bom despacho. E foi logo admoestado pelo senhor visitador. e não tinham sacerdotes nem confessores. Perguntado se sabe alguns dos ditos luteranos que ficassem e estejam neste Brasil. salvo que algumas vezes. praticando com pessoas que lhe perguntavam pelo que faziam os ditos luteranos. e não que as contava. e diziam mais. Martim Paris. 12229. mas não por modo de os afirmar. E foi logo perguntado se lhe lembram alguns erros que os ditos luteranos tinham contra nossa Santa Fé Católica. em 17 de janeiro de 1592 114 Disse ser cristão velho. nem de os ensinar.

respondeu que os ditos gentios. ao sertão de Hijuiuiba. E perguntado se sabia ele que ficava excomungado em dar as ditas armas . respondeu que quando as deu já o sabia. comeu carne podendo escusá-la. e assim mais uma espada. em duas quaresmas. Perguntado quantos anos há que deu a derradeira espada.77 chamada Isabel. E perguntado se os ditos gentios eram da casta dos que fazem mal e guerreiam aos cristãos. E confessando. 115 115 . ficou ele só entre os gentios em conversação com eles. respondeu que haverá quatorze anos. e estando são e sem necessidade de comer carne.antes daquele tempo. tinham já brigado com os cristãos e alguns mortos e feridos. respondeu que não se afirma neles. ao longo do mar. E deu mais a outro gentio que descia em sua companhia outra espada. disse que haverá dezesseis anos pouco mais ou menos que foi na companhia de Diogo Leitão. que é sua cerimônia gentílica. mameluco de idade de trinta e oito anos. e outrossim confessou que então deu aos ditos gentios uma espingarda. E foi perguntado pelos companheiros que nest’outras vezes que ele também comeu carne fizeram o mesmo. defuntos. sem ter licença do ordinário. tornou algumas vezes em outras companhias a outros sertões aonde também. podendoa escusar. confessou estes pecados a seu confessor espiritual depois que deu a primeira vez as ditas armas. que em português quer dizer o sertão de ninho de garça. o qual fugiu com ela para o sertão e era dos gentios que fazem dano e guerra aos cristãos. sem pólvora e sem munição. comeu carne sempre como dito tem. respondeu que não se afirma neles. lavrador na freguesia de Tamararia. em Pernão merim. E perguntado que companheiros seus fizeram o mesmo. e nele andou nove ou dez meses. os quatro meses derradeiros (depois de vindos seus companheiros). no qual tempo lá esteve uma quaresma e nela e nos mais dias em que a igreja defende carne. também mameluca. antes de se irem aposentar no dito sertão. e recebia deles os seus fumos de erva que chamam santa. porque tinha outros mantimentos. e disse que destas culpas pedia perdão e misericórdia. E confessou mais que. para os que enviassem armas aos infiéis _ naquele tempo os mouros. Perguntado se confessou em suas confissões sacramentais estes pecados e se o absolveram destas excomunhões e quanto tempo há. Ao qual sertão foram para resgatar e fazer descer gentio. foi estabelecida a pena de excomunhão. que depois de ele vir do dito sertão. E confessou mais. porque já o tinha ouvido. ele. entre outras. .Desde pelo menos o III Concílio de Latrão (1179). já defunto. dos ditos nove ou dez meses. dentro desta capitania. e estas armas lhe deu por os fazer seus amigos. nos mais dias em que a Igreja defende carne. respondeu que sim. filha de branco e de negra. casado com Isabel Rodrigues.

que ia em camisa (segundo o costume deste Brasil) nos braços e lhe levantou a camisa. E confessando. como o homem na cópula”. fez com ela como se fora homem com mulher. os que fazem as vezes de mulher em tais atos”. proc. passados alguns dias.Processado pelo visitador. a dita Quitéria Seca tomou a ela confessante. mas não se interveio nisto nenhum instrumento exterior mais que seus vasos naturais. assinou o notário a seu rogo.Confissão de Manuel Branco . E depois disto assim acontecer. alcaide dos ditos Ilhéus. e de uma sua escrava por nome Vitória Brasila. a exemplo dos “diabos súcubos. disse que. “o que fica por baixo na cópula carnal”. e arregaçando-lhe assim as suas fraldas. apesar de confessar tudo na graça. ajuntando seus vasos. viúva. filha de Antônio Vaz Falcato.Íncubo. levando ela um recado de uma sua tia a uma mulher chamada Quitéria Seca. tendo deleitação por espaço de tempo. mameluca. dos quais enviuvou três vezes. com três homens brancos. um dia. também antes de chegar a um ano. . natural da capitania dos Ilhéus. Repreendido na mesa. costa deste Brasil. moradora em Tamararia desta capitania. sendo ela moça de idade de dezoito anos na vila dos Ilhéus. se à tarde. ANTT. vigário de Tamararia. 11072. Opõe-se a súcubo. penitências espirituais e proibido de voltar ao sertão.Confissão de Guiomar Pinheira. não lhe lembra se pela manhã . Moraes Silva. no tempo da graça. na graça. Pero Madeira. E perguntada mais.78 antes de chegar a um ano se confessou ao padre Belchior de Boim. se mudaram para as capitanias de baixo e nunca mais a viu nem sabe dela. lavrador. em 17 de janeiro de 1592 117 116 . homem branco. 117 . em outro dia chamou a dita Quitéria Seca a ela confessante e tornou a fazer com ela sobre a dita cama outra vez o sobredito pecado. Pero Gonçalves. IL. casada que então era com Pero Madeira. casada já três vezes. casada que foi. e o derradeiro marido se chamava Pero Fernandes. e tendo a dita deleitação por espaço de tempo como da primeira vez. ajuntando seu vaso natural com o vaso natural dela confessante. e este pecado nefando cometeram as ditas duas vezes sendo sempre a dita Quitéria Seca a autora e a íncuba . segundo o dicionarista do século XVIII. se pôs em cima dela confessante e. a dita Quitéria Seca com o dito seu marido. disse que já confessou estes pecados a seu confessor e cumpriu a penitência espiritual que lhe deu. e sempre o absolveram assim dos ditos pecados como das ditas excomunhões. e nunca mais fez o dito pecado Por não saber. mameluco. e depois da segunda vez que deu a dita espada. de idade de trinta e oito anos. se confessou ao vigário que ora é de Tamararia. E depois disto. 116 50 . em 17 de janeiro de 1592 Disse ser cristã velha. 49 . solteiro. “que se deita por cima. palavra muito usada para referir os demônios que copulavam com mulheres.

118 . solteiro de idade de vinte e quatro anos. porém não sabe a intenção com que o fizeram. termo desta cidade. filho de Marçal Ferreira. Confessou mais. e que Domingos Fernandes Tomacaúna lhes deu também uma espada. e isto fez ele confessante parvamente.Lavor: trabalho feito com as mãos. no qual tempo esteve lá uma quaresma e nela. artesanal. correeiro . 119 . 121 Disse ser cristão velho. se riscaram segundo o dito uso gentílico. E confessando. e que da culpa que tem nas ditas coisas pede perdão. E perguntado que pessoas mais viu fazer as ditas coisas ou outras pertencentes a esta mesa.Processado pelo visitador. negra Brasila. E foi logo pelo senhor visitador admoestado que declare verdade de sua intenção porque aqui trata-se da saúde de sua alma somente. vive por sua indústria. correias. os quais se costumam riscar com lavores pelo corpo como ferretes cortados na carne que ficam perpétuos. E outrossim. e nos mais dias em que a Igreja defende carne. e respondeu o que dito tem. defuntos. filho de Estevão Branco.Ferrete: sinal de obrigação. é mestiço. homem branco. respondeu que no dito sertão. em toda a companhia. IL. proc. disse que os ditos gentios de Laripe a quem os sobreditos deram as ditas armas costumam fazer dano e guerra aos cristãos. 121 .Artesão que faz obras de couro. apesar de confessar na graça e não ser delatado. significando que são gentios valentes e cavaleiros. que foram para fazer descer gentio. homem francês de nação. marca feita na pele. segundo o costume dos gentios deste Brasil. e de sua mulher Bárbara Branca. penitências espirituais e proibido de voltar ao sertão. porém com necessidade porque não tinha outra coisa que comer. não tem ofício. em 18 de janeiro de 1592.Confissão de Tomás Ferreira . foi público e fama dito por todos que o dito capitão Cristovão da Rocha deu pólvora e espingarda. no dito sertão se riscou e mandou riscar por um negro. 11635. onde andou ano e meio na companhia de Cristovão da Rocha. 118 119 120 51 . e de sua escrava Brasila por nome Ilena. e Baltasar de Leão. 120 . mameluco do tempo da graça. e bandeira e tambor de guerra aos gentios da serra de Laripe. estando sãos e sem licença do ordinário. Repreendido na mesa. morador em Pirajá. natural desta Bahia. comeu carne e assim toda a companhia comeu. de idade de trinta e seis anos.79 Disse ser cristão velho. que no dito sertão deu uma espada aos gentios selvagens amigos dos cristãos. segundo seu parecer. segundo lhe parece. disse que ele vem ora do sertão de Laripe. sem intenção de gentio. que foram para Pernambuco. e ele confessante os viu riscados. mestre de açúcar. solteiro. . quando acham tempo bom por si. ANTT. mameluco. E perguntado. natural dos Ilhéus deste Brasil. etc. e que Antônio Dias.

irmão de Jácome Branco. e desta culpa pediu perdão. natural de Pernambuco. e de sua escrava Felipa. brasila. no qual tempo teve lá uma quaresma. e depois. vindo-se ele recolhendo do sertão desta Bahia. solteiro. solteiro. dar uma espada e dois arcabuzes. significando serem gentios valentes. e da mesma maneira viu também riscar-se Domingos Dias.Bigorna de ferreiro. disse que ele ora poucos dias há que veio do sertão da Serra de Laripe.80 E confessando. . E perguntado mais. e em muitos dias dela e em outros mais em que a Igreja defende carne. E outrossim. afora os negros flecheiros. E confessando. natural de Pernambuco. E porquanto o dito capitão Cristovão da Rocha levava na companhia cento e tantos homens brancos. mameluco. ANTT. disse que bem sabia que pecava em comer carne nos ditos dias e que não lhe lembra que a visse comer a outrem. proc. de idade de quarenta anos. em 18 de janeiro de 1592 124 Disse ser cristão velho. forja e todos os mais instrumentos de serralheiro . morador em Capanemo. e os outros dois cada um uma espada. lavrador. desbarretado. na graça. E disse mais. os quais gentios tem esta cerimônia que se riscam com lavores abertos na carne a modo de ferretes. mameluco.Confissão de Francisco Afonso Capara . mameluca. e Pedro Álvares. 122 123 52 . casado com Maria Pires. ele a comeu estando são e sem licença do Ordinário. e sem necessidade. Saiu em auto público. segundo o costume gentílico. morador em Pirasahia. sendo delatado por isso. 17813 123 . e tambor e bandeira de guerra. defunta. Cristovão da Rocha. safra . 122 . viu a Domingos Fernandes Nobre Tomacaúna e a André Dias. o Tomacaúna deu pistolete e pólvora. além de proibido de voltar ao sertão e pena pecuniária de dez cruzados. darem armas aos ditos gentios.Processado por não ter confessado na graça que comeu carne em dias proibidos. por isso os gentios do dito Arataca estiveram com ele de paz. e pólvora e munição.Sinônimo de ferreiro. viu riscar-se em um braço Manuel Branco. solteiro. solteiro. e assim lhe deixou mais uma ferraria. morador em Pirasahia de Itaparica. 124 . que viu ao capitão da companhia em que ele estava no dito sertão. os quais gentios de Raripe. E outrossim. antes do dito caso. a um gentio principal dos gentios de Raripe chamado Arataca. IL. mameluco. trazendo consigo. podendo muito bem escusar de a comer porque tinha outros mantimentos com que nos ditos dias se podia manter. e um cavalo e uma égua. e sempre de todo o tempo da memória dos homens. filho de Diogo de Corredeira. a troco de gentios escravos. mameluco. homem branco. onde andou ano e meio. descendo gentios. quando eles se sentem com mais força. mameluco. morador em Capanemo. fazem guerra e são costumados a guerrear aos brancos cristãos e fazer-lhe dano no que podem. disse que haverá quinze anos pouco mais ou menos que. com vela acesa na mão.

Por isso. e de sua mulher Madalena Pimentel. e de sua mulher Joana Barreta. . negou e perjurou. morador em Passé com a dita sua mãe. e a lia. em 18 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. ANTT. o qual ele teve sempre e tem por cristão velho. de Monte Mayor. e que desta culpa vem pedir perdão e misericórdia nesta mesa. como de feito o não fizeram. depois de assim lhe terem dito que era defeso e ele ter para si que o era. contudo. temendo ele que se levantassem com ele os ditos gentios. E confessando. foi sentenciado a sair em auto público. de idade de quarenta anos pouco mais ou menos. e algumas pessoas lhe disseram que o dito livro era defeso. e se se confessou disto. em 18 de janeiro de 1592 125 Disse ser natural desta Bahia. duvida se é cristão novo. de idade de vinte e quatro para vinte e cinco anos. neste tempo da graça. proc. leu muitas vezes pelo dito livro de Diana. casada com Ana Alveloa.Confissão de Gaspar Nunes Barreto . e em especial lhe lembra que lho disse um estudante.Confissão de Domingos Gomes Pimentel. que lhe parece que entendeu o que ele lia e que ele não confessou até agora disto porque nos tempo das confissões lhe não veio isto nunca à memória.81 duzentas almas. solteiro. e foi senhor de engenho. filho de Francisco Nunes. e foi ferreiro nesta Bahia. o qual estudante ora é da Companhia de Jesus. porquanto é cerimônia dos gentios riscarem-se com uns lavores pelo corpo ao modo de ferretes para significar serem gentios valentes e cavaleiros. a qual ele não sabe se era cristã velha.Processado pelo visitador por ter alertado um cristão novo sobre culpa deste no Santo Ofício. desbarretado. defunto. e quem o absolveu. morador na freguesia de Itaparica na terra firme de Paraguaçu. e não pelas culpas que confessou na graça. respondeu que somente lhe disseram que era defeso e que não advertiu a se incorria em excomunhão. E perguntado quem mais o viu ler. E sem embargo de as ditas pessoas lhe dizerem que era defeso. na graça. se mandou riscar no braço direito perante eles para se mostrar ser valente e o temerem. que quem lesse pelo dito livro defeso ficava excomungado. contudo. defuntos. lavrador que tem uma casa de meles. com vela acesa na mão e pagar 50 cruzados ao Santo Ofício. respondeu que ninguém lho viu ler. Várias vezes arguido. disse que haverá seis anos pouco mais ou menos que ele tinha a Diana. filho de Simão Gomes Varella. filho do tabelião Domingos d’Oliveira. 54 . 53 . e depois largou o ofício. se cristã nova. natural desta Bahia. E foi perguntado se lhe disseram a ele. lavrador. Fracisco d’Oliveira. senão por o temerem e não lhe fazerem mal. ou ele entendeu. porém ele o não fez com intenção de gentio. IL.11075. 125 .

Confissão de Cristivão de Sá Betancourt . e desta culpa. proc. Repreendido na mesa. comissário de São Francisco. carpinteiro que estava trabalhando em um barco. cristã velha. abjuração de leve suspeita na fé. que seria de idade de dezesseis anos pouco mais ou menos. estando ele confessante na fazenda de seu sogro Baltasar Barbosa. nem quem o começou. dizendo-lhe que o Padre frei Belchior. vindo a se falar acerca dos estados . na graça. não lhe lembra a que propósito. de simplesmente dizer as ditas palavras. o qual riscado ele consentiu e mandou fazer em si sem nenhuma má intenção gentílica. cristão velho. da banda de fora da cintura até meia coxa. respondeu que não lhe lembra que nunca em algum tempo ele ouvisse 127 126 . e quanto mais valentes se querem mostrar tanto mais junto dos olhos fazem os ditos lavores no rosto. ele confessante disse que lhe parecia que o estado do casado era melhor que o do religioso. neste contexto: em primeiro lugar o dos religiosos (o celibato casto). se mandou riscar por um negro da terra na perna esquerda. dizendo que seguia o que dizia o dito padre comissário. lavrador. segundo as normas da igreja era. e corpo e rosto.Processado por não confessar na graça sua descrença na existência do Inferno. como moço ignorante. em terceiro o dos leigos celibatários (solteiros). E confessando. 55 . E foi perguntado se havia muito tempo que ele tinha ouvido já e aprendido as ditas palavras. .2913. e assim saram as ditas feridas e ficam os lavores como ferretes para sempre. sendo ele mancebo desbarbado que ainda não chegaria à idade de vinte anos. mas simplesmente. para mostrar serem gentios valentes e desforçados. em segundo. disse que. E logo ele confessante então se desdisse. estando em Itaparica. praticando com seu cunhado Antônio de Souza e com Francisco Pires. ANTT. Então o dito seu cunhado Antônio de Souza o emendou.A hierarquia dos estados. filho de Francisco Álvares Ferreira de Batancourt e de sua mulher Isabel Correa de Almeida. 127 . sendo disso acusado. penitências espirituais e pagamento de 10 cruzados para o Santo Ofício. o dos casados.82 E confessando. o qual riscado é que. com um dente agudo de um bicho se fazem uns lavores rasgados na carne. em 19 de janeiro de 1592 126 Disse ser cristão velho. todos moradores em Sergipe. pede perdão e misericórdia. os quais untam com o sumo de certa erva chamada erva moura e uns pequenos de pós de escodado. natural de Lisboa. E isto é costume entre os gentios deste Brasil. IL. os quais. casado com Francisca Barbosa. quando fazem alguns feitos grandes e mortes em guerras se costumam riscar da dita maneira pelos braços e pernas. disse que haverá oito ou dez dias pouco mais ou menos. de idade de trinta anos. dizia que melhor era o dos religiosos que o dos casados.

nem dele tratou no pensamento nem por palavra.83 nem aprendesse as ditas palavras de outrem. depois do natal passado. moradores na dita cidade do Porto. 57 . donde ele é natural. que ela não falasse nem tivesse comunicação pessoal. contudo. respondeu ao dito Fernão Ribeiro. filho de André Nunes e de sua mulher Catarina Rodrigues.Confissão de Antônia Fogaça. cirurgião. com declaração que somente se poderiam mandar recados e escritos sobre a liquidação das contas que entre ele e ela havia acerca do dote que ela e o dito seu marido lhe prometeram em dote quando se casaram com sua irmã. mulher que foi de Antônio Dias Adorno. no tempo da graça. moradora na sua fazenda de Paraguaçu. recôncavo desta capitania. defunto. que ela não respondia a eles porque lhe estava posta a dita pena. filha de Diogo Jorilha. defunto. em 18 de janeiro de 1592 Disse ser cristã velha. no tempo da graça. tecelões de toalhas. E confessando. e de sua mulher Catarina dos Rios. falaria. de idade de quarenta e seis anos pouco mais ou menos. 56 . cristã velha. . e afora outra carta que lhe mandou. lhe foi posta pena de excomunhão ipso facto incurrenda.Confissão de Mateus Nunes. sem lhe mandar declarar o negócio sobre que lhe queria falar. E disse mais. Dom Antônio Barreiros. natural da cidade do Porto. além de muitos escritos e recados que lhe mandou sobre a dita matéria das ditas contas. que não deixasse ela vir à sua fazenda um certo homem. de idade de vinte e oito anos pouco mais ou menos. nem por interposta pessoa com Fernão Ribeiro de Souza. já defuntos. o dito Fernão Ribeiro lhe mandou dizer que lhe falasse que lhe iria falar. e ela confessante lhe mandou dizer que sim. em que lhe dava repreensões e conselhos com palavras de escândalo. pelo menino que lhe trouxera os escritos. casado com Catarina Coelha. mameluca. por cessarem certos escândalos e presunções que de falarem e comunicarem nasciam. depois de ela receber os ditos escritos. dois escritos. cunhado dela confessante. não se afirma se há mais de ano. sem embargo da dita pena posta. morador na freguesia de Tassuapina do recôncavo desta Bahia. cada um por sua vez em dias diferentes. e que nunca tal parecer lhe veio ao sentido. E assim mais. viúva. E que depois de a dita pena ser notificada a ela confessante. depois da dita pena posta. senão então como dito tem. o dito Fernão Ribeiro lhe mandou mais a ela. mas enfim não falaram e não lhe lembra ora que desvio houve para isso. disse que pelo Bispo deste Estado. nem por escritos nem por recados. cirurgião. natural desta cidade. uma vez também. nos quais lhe falava também acerca das ditas contas e juntamente neles usava de palavras afeiçoadas e amorosas que é a matéria sobre que lhe foi posta a dita proibição pelo Bispo sob a dita pena. em 19 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho.

e isto três ou quatro vezes em noites diferentes.Nome de pia: nome de batismo. 128 . em 20 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho inteiro. fazendo como se fora homem com mulher por diante. e que cumpra a penitência espiritual que seu confessor lhe der novamente por estes pecados. lançando-se ele confessante com a barriga para baixo e pondo-se o dito fuão Nogueira em cima dele. estava também na dita casa um moço pouco menor do que ele confessante então era. penetrando com seu membro o vaso traseiro do dito moço e consumando nele o pecado de sodomia três ou quatro vezes em diferentes noites. tornandoos a cometer. e que já os confessou a seus confessores. . há de ser gravissimamente castigado. que lhe parece era forasteiro e já velho. 128 58 . dormiu sempre na sua cama com ele. e cumpriu as penitências que lhe deram. nem donde é. Domingos Jorge. que entremetia na barba de branco. tornando-se ele confessante de Ponte de Lima para a cidade do Porto.84 E confessando. e de sua mulher Joana Batalha.Confissão de Francisco Martins. no mesmo ano. e logo o senhor visitador lhe encarregou muito a virtude da honestidade. e o dito moço com ele confessante dormiam ambos em uma cama. parece-lhe que se chamava Antônio Nogueira. filho de Pero Gomes. mas lembra-lhe que tinha por sobrenome Nogueira e morava junto de Santo Antônio. teve com ele confessante o ajuntamento contra natura sodomítico penetrando com seu membro viril o vaso traseiro dele confessante. lavrador. cristão velho. e aconteceu que o dito fuão Nogueira. E esses dias que em sua casa esteve. disse que sendo ele moço de dezesseis anos pouco mais ou menos. que depois disto acontecer. ao qual não conhece nem sabe o nome. era de boa estatura de corpo e de barba preta e branca. e que se confesse muitas vezes. e aconteceu que ele confessante teve com o dito moço outro ajuntamento nefando. morador em Peroasu deste recôncavo. fugiu de casa do dito seu pai da cidade do Porto para a vila de Ponte de Lima. e não lhe lembra o nome de pia dele. nem confrontação alguma. aonde esteve algum tempo em casa de um homem também tecelão de toalhas. E que ora lhe não lembram mais culpas e que delas está muito arrependido e pede perdão e misericórdia. termo de Lisboa. Confessou mais. nem se será ora ainda vivo. e que se guarde de ocasião de semelhantes pecados porque. e não sabe se o dito homem era casado. sendo ele confessante sempre íncubo agente. começando a ser seu discípulo. e disse que ninguém os viu fazer os ditos pecados. e lhe mandou que se fosse logo confessar. e consumando por detrás o dito pecado de sodomia. e estando em casa de um cirurgião. pedreiro. de idade de quarenta anos. casado com Francisca da Costa. sendo sempre ele confessante paciente. no tempo da graça do Recôncavo. natural de Boçellas.

ANTT. de idade de vinte e cinco anos. no tempo da graça do Recôncavo. tendo outro mantimento com que se podia manter sem carne. mesmo morador em Pernão Merim. os quais por seu nome não conhece. no tempo da graça do Recôncavo. por muitas vezes. e seu genro Diogo da Silveira. cristão velho.Vicente desta costa do Brasil. como dito tem. disse que ele veio ora do sertão de fazer descer índios em companhia de Antônio Rodrigues d’Andrade. porém muitos dos ditos dias ele confessante a comeu podendo escusar de a comer. e então andaram no sertão alguns oito meses em um lugar que chamam as Palmeiras.Fava era. moradores em Peroasu. filho de Inácio de Bulhões. oleiro. IL. em 20 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho inteiro. na época. disse que haverá dez anos que foi ao sertão a fazer descer gentio na companhia de Domingos Fernandes Tomacaúna. no qual andaram dezesseis meses.Confissão de João Gonçalves. e em todo esse tempo nos dias da quaresma e de sextas-feiras e sábados. natural de Outeiro João de Chaves (sic). que veio degredado por vadio para o Brasil. que nasce em vagens grossas”. mameluco. natural da capitania de S.Processado. 60 . E as pessoas que também a comeram são o dito Domingos Fernandes Tomacaúna e Lázaro Aranha e João Sardinha. 130 . lavradores. homem pardo e de Francisca.Confissão de Cristovão de Bulhões . mestiço. Abjuração de leve suspeita na fé na mesa. na fazenda de Fernão Cabral trabalhador. índia desta terra. e assim a comeram outras muitas pessoas da dita companhia. morador em Pernão Merim. comeram carne por falta de mantimentos. E confessando. ele e a companhia comiam carne podendo escusar de a comer por terem favas e outras coisas com que se podiam manter sem comer carne. e outros muitos a que não sabe os nomes. cristão velho. mameluco. 129 59 . apesar da confissão completa na graça.85 E confessando. de idade de vinte e dois anos. mameluco que ora vai para Pernambuco. solteiro. disse que haverá cinco anos pouco mais ou menos que ele foi ao sertão e lá andou na companhia de Domingos Fenandes Tomacaúna. e Álvaro Rodrigues. morador em Jaguaripe. proc. em 20 de janeiro de 1592 130 Disse ser cristão velho. solteiro. em diversos dias da quaresma e sextas-feiras e sábados. trabalhador residente ora em Sergipe de Conde de Linhares. e nesse tempo. 129 . muitos dias. Espécie de vagem. E confessando. os quais todos comeram carne podendo-a escusar. e Manuel da Fonseca. penitências espirituais e proibição de voltar ao sertão. no qual sertão andaram então alguns dezoito meses. defuntos. filho de Diogo Viegas e de sua mulher Beatriz Pires. . ao presente estante em Jaguaripe. o “legume maior que o feijão.7950.

adorações e cerimônias como os ditos gentios. na mesma fazenda de Fernão Cabral. e também com medo de os gentios lhe não fazerem mal e de os matarem. e a outro chamavam vigário. e isso fizeram mesmo outros muitos da dita companhia que se acharam presentes. que foi feitor de Fernão Cabral. porque havia de nascer um fogo novo entre eles. e fez também as cerimônias deles. e ele confessante se ajoelhou por muitas vezes em diversos dias no dito sertão diante do ídolo dos gentios. até que chegaram à fazenda de Fernão Cabral. fazendo como eles faziam. e eles se foram lavar. e havia outro gentio entre eles. o mais grado. que era uma figura de pedra que não representava homem nem mulher. mameluco.86 No meio do sertão. E outrossim. ele confessante também lhe fez as reverências. se rebatizaram pelo dito modo um negro cristão e casado de Fernão Cabral a que chamam “cão grande”. a que chamavam papa. em Caipe. e Brás Dias. fazer as ditas reverências ao dito ídolo. sobrinho de Manuel Teles. e o dito Simão Dias e outros muitos mais se rebatizaram que lhe não lembram. homem branco. e a ele confessante pôs outro nome que lhe não lembra. que foi para as capitanias de baixo. que foi governador deste estado. o qual principal dizia que era Deus e senhor do mundo. e a Domingos Camacho. casado e morador em Tassuapina. e outros ministros que ensinavam a doutrina da dita abusão. ao qual puseram nome “pai Jesu pocu”. onde os ditos gentios estiveram algum tempo com a dita sua chamada Santidade. e as mesmas adorações e cerimônias fizeram o mesmo Domingos Fernandes Tomacaúna. morador em Jaguaripe. E outrossim. e assim vieram. e Simão Dias. e outros mais que lhe não lembram os nomes. morador em Peroasu. mas quimera. que é mudando o nome. homem branco. e no dito sertão andaram fazendo as ditas cerimônias e adorações gentílicas por tempo de quatro meses. morador na fazenda de Diogo Correa de Sande. e a Simão da Silva. pondo o maioral do dito gentio outro nome. E também aí viu a Fernão Cabral de Taíde reverenciar e abaixar a cabeça ao dito ídolo e assim também viu a Francisco d’Abreu. casado. e assim fizeram . que quer dizer “Senhor Jesus comprido”. E dizendo os gentios a eles cristãos que se fossem lavar. o dito Domingos Fernandes Tomacaúna mandou a ele e aos mais companheiros que adorasem o ídolo dos gentios e fizessem todos as cerimônias dos gentios assim como eles faziam na sua abusão chamada Santidade. ele confessante se rebatizou pelo modo que costumavam os ditos gentios naquela abusão chamada Santidade. E todas estas coisas ele confessante fez por o dito Domingos Fernandes mandar que o fizessem. que se foi para o reino. e Pantaleão Ribeiro. E havia entre eles outro gentio a que chamavam Jesus e uma gentia a que chamavam Santa Maria. casado na ilha de Tamoatarandua. E depois de o dito ídolo da chamada Santidade estar já com os gentios na fazenda de Fernão Cabral. e uma gentia mulher do dito Papa a qual dizia ser mãe de todo o mundo. muitas vezes.

a qual espingarda ele confessante levou a consertar a Gonçalo Cardoso acima nomeado. mandando prometer dádivas aos ditos gentios inimigos. podendo escusar de o comer por terem outros mantimentos de farinha. mestiço. que ele vem ora do sertão.87 na fazenda de Fernão Cabral as ditas reverências e idolatrias os mesmos da companhia acima nomeados. comeu sempre carne podendo escusar comê-la. aos quais o dito Cristovão da Rocha deu mais uma tenda de serralharia. E o dito Domingos Fernandes Tomacaúna mandou consertar ao dito gentio. e bandeira e tambor de guerra. apesar de confessar na graça. que foram fazer descer gentio. mameluco. mameluco. cavaleiro inimigo dos cristãos. IL. e ele os viu comer em todo o dito tempo de dezesseis meses que há que para o sertão foram. os quais gentios são inimigos dos brancos e lhes dão guerra quando podem. confessou que nesta última jornada do sertão ele confessante deu dez ou doze cargas de pólvora e seis ou sete pelouros a um principal cavaleiro dos gentios. e a Bastião Madeira. morador em Caipe. 11068. 131 61 . e pólvora e uma espada ao Arataca. uma espingarda e um pistolete. viu a Cristovão da Rocha. bigorna e mais instrumentos de serralheiro. cristão velho. onde há dezesseis meses que andam. . seu capitão. nos dias da quaresma e de sextas-feiras e sábados. favas e pescado com que se podiam manter. em 21 de janeiro de 1592 132 131 . 132 . nos dias proibidos. E assim viu mais comer a Diogo da Fonseca. respondeu que sempre creu e teve a fé de Cristo no seu coração. dar um cavalo e uma égua. e a outros muitos cujos nomes lhe não lembram. e sempre entendeu que o dito ídolo e a dita abusão era falsidade e ofensa de Deus Nosso Senhor.Pelouro: bola de metal para arma de fogo da época. senhor gentio de certas aldeias do sertão. homem branco. no qual tempo todo. a exemplo de arcabuz ou espingarda.Foi processado. E outrossim. criado de Ambrósio Peixoto desta cidade. solteiro. e a Gonçalo Cardoso. além de proibido de voltar ao sertão. E sendo perguntado e admoestado que diga a verdade de sua intenção quando fazia as ditas cerimônias gentílicas e idolatrias. onde foi na companhia de Antônio Rodrigues d’Andrade. no rempo da graça do Recôncavo. onde é morador. morador em Pernambuco. ANTT. que ora se foi do sertão para Pernambuco. forja de foles. os quais todos comeram carne. Recebeu penitências espirituais. e ora nesta jornada não a deram a eles cristãos porque eram muitos e por também eles brancos usarem de manha.Confissão de Lázaro da Cunha . e deu o dito pistolete desconcertado ao dito cavaleiro gentio. E outrossim. proc. e mandar-lhe consertar pelo serralheiro que ia na dita companhia as suas espingardas. E confessou mais.

e conversou carnalmente as gentias. os índios que “venderam” os escravos ficaram com o resgate e com os próprios escravos .88 Disse ser mameluco. porém neste desbarate não ficou nenhum dos cristãos mortos. disse que haverá sete anos pouco mais ou menos que ele foi de Pernambuco na companhia de Manuel Machado para o sertão de Paripe. e em todos os ditos cinco anos e meio pouco mais ou menos que andou no dito sertão. E no dito tempo andava com os ditos gentios nas suas guerras. assaltaram com o dito arraial de brancos e mataram quatorze ou quinze brancos cristãos. porém. mameluca. e o puseram em cerco. pelo que ele os guerreou e desbaratou. natural da capitania do Espírito Santo. e de sua mulher Isabel Pais. como fizeram no dito tempo que ele com eles andou. e entre eles andou vivendo cinco anos pouco mais ou menos. que foram ao dito sertão resgatar. sempre ao modo gentílico e tingido. Neste caso. ainda que ficaram alguns feridos. que são gentios. e uma vez vieram brancos cristãos ter sobre uma aldeia onde ele confessante estava. tomando-lhe as peças e ficando-se com elas e com o resgate delas que já tinham. De maneira que os ditos gentios são inimigos dos brancos cristãos e não costumam ter paz com eles. irmã do Cônego Jácome de Queiróz. fazendo tudo assim e da maneira como se ele fora gentio. solteiro. E sendo perguntado. disse que os ditos gentios em cuja companhia andou são inimigos dos brancos cristãos e os guerreiam. e tratando com feiticeiros como eles fazem . que não tem ora lugar certo de morada. no dito tempo. e mais dias de jejum proibidos pela Igreja. que tendo feito resgate com um arraial de perto de duzentos brancos cristãos. isto é. que depois sararam. sempre nos dias das quaresmas e das sextas-feiras e sábados. e deu mais aos gentios uma espada. e tinha mulheres muitas. . como costumam os gentios. de troca de índios escravos por armas e outros bens. comeu carne sem fazer diferença alguma e sem ter necessidade dela. ajudando-os contra os outros gentios. eles ditos gentios. tomando de assalto o arraial dos portugueses após a negociação. e todos os 133 133 .as mencionadas peças _. e os deu a comer aos gentios em cuja companhia ele andava. e fazendo e usando todas as cerimônias. e por isso se veio então. nas guerras que ele fazia contra outros gentios. homem branco. e sempre em seu coração foi cristão e se encomendou a Deus e a Nossa Senhora e Santos do Paraíso. defunto. E em todos os ditos anos não se confessou nem comungou. estilos e costumes dos ditos gentios. E outrossim. filho de Tristão da Cunha. e neste desbarate ficou ele confessante então desbaratado. de idade de trinta anos. usos ritos. à traição. ele nunca no seu coração deixou a fé de Jesus Cristo. ferrou muitos deles e matou. ainda que fazia tudo isto.É confissão que descreve uma típica operação de resgate. senão enquanto eles não tem força nem posse para lhes dar guerra. e a muitos feriram e os desbarataram. E confessando suas culpas. no qual se deixou ficar na companhia dos tupinambases.

comendo com os ditos gentios. nos dias da quaresma e sextas -feiras e sábados. ele comia a de porco e os gentios a humana. uma vez no dito sertão. depois do dito tempo passado. mas de fora mostrava-lhes que os cria. em 22 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. que de lá vem. 62 . onde andou até agora. já defuntos. cuidando eles que também a de porco que ele comia era humana. porque nesta mesa não se trata mais que da salvação de sua alma. respondeu que sempre teve a fé de Cristo no coração e tem dito a verdade. E foi perguntado que adorações fez ele e a quem adorava. e quando tomam carne humana dos selvagens. respondeu que não. comeu carne sem necessidade (e) não se confessou na quaresma passada que esteve no dito sertão. no tempo da graça do Recôncavo. E foi perguntado se alguma vez em seu coração lhe pareceu que se podia salvar naquela gentilidade e que a lei dos cristãos não era boa para a salvação das almas. pois está no tempo da graça e perdão. E foi-lhe declarado o muito que lhe importa falar verdade. porque não pode ser absoluto senão nesta mesa. E foi logo mandado que se fosse confessar ao Colégio de Jesus e traga escrito de confissão a esta mesa. ainda haverá quinze meses. dormindo carnalmente com uma gentia pelo vaso traseiro como se propriamente fizera por diante. E assim também confessou que. e foi admoestado que desencarregue sua consciência. que é outra casta dos gentios (sic). nem adorem. natural d’Almeirim. E sendo perguntado se nas ditas gentilidades andou outro algum cristão fazendo com ele o mesmo que dito tem. e o que fez fazia por comprazer aos índios. e de tudo disse que pedia perdão. E depois. as quais festas ele confessante se achava presente. nem têm ídolos mais que somente as coisas que os seus feiticeiros lhes dizem. pelo natural. filho de André Rodrigues Loureiro e de sua mulher Catarina Luiz Loureira. se veio a Sergipe desta capitania. comem-na com grandes festas.Confissão de Bento Rodrigues Loureiro. cristão velho. bailes e regozijos. e de todas estas culpas disse que estava arrependido e pedia perdão. pecou no nefando consumadamente. e mais dias proibidos pela Igreja. tornou para o sertão outra vez em companhia de Gonçalo Álvares. e nunca no seu coração creu aos ditos feiticeiros. respondeu que nunca tal lhe pareceu e sempre esperou salvar-se na lei de Cristo. essas crêem. se fez as ditas obras de gentio com intenção de gentio. e sempre neste espaço de tempo. respondeu que os ditos gentios não têm Deus nenhum em que creiam. casado com Esperança . e se com essa intenção fez algumas obras de gentio das que tem dito ou outras algumas mais.89 exteriores de gentio guardou inteiramente e. e assim também ajuntava carne de porco com carne humana e.

(e) tomou o Santíssimo Sacramento. lembrando-se muito bem que tinha naquela manhã almoçado a dita farinha. e foi-lhe mandado que no mês de março torne a esta mesa. deixou de crer em Jesus Cristo. Perguntado se quando almoçado. morador em Itaparica. de idade de vinte e seis anos. respondeu que não. respondeu que nunca deixou de crer em Jesus Cristo. foi-lhe mandado ter segredo e que torne a esta mesa no mês de março primeiro que vem. mulher branca. quando ele disse a dita blasfêmia. E por não dizer mais.Confissão de Rodrigo d’Almeida. e estava em seu siso. duvidou estar nele o corpo de Jesus Cristo. E foi logo perguntado se. e que sua mulher somente o ouviu e o repreendeu. depois de ele ter almoçado uma pouca de farinha da terra. porém disse a dita blasfêmia súbita (e) desatinadamente. crê. respondeu que sim. à missa. indo ele com sua mulher e filhos em um carro para a igreja. . sem ser sua intenção dizê-la. ele se benzeu e querendo dizer o nome de “Jesus em que creio”. foi perguntado se crê que na hóstia consagrada está o verdadeiro corpo de Cristo Nosso Senhor e que o contrário é heresia. na sua freguesia de Itaparica. disse que haverá quinze anos pouco mais ou menos que. casado com Margarida Pereira. e depois que saiu da sua terra não foi a outra senão a esta do Brasil. e ora neste tempo da graça vem pedir misericórdia a esta mesa. disse que não estava bêbado. e logo que a disse deu punhados na boca e se arrependeu muito. e disto pede perdão e misericórdia neste tempo da graça. de idade de quarenta e sete anos pouco mais ou menos. morador em Sergipe do Conde. foi receber o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. E sendo mais perguntado. lavrador. natural da ilha de Palma. vindo a ter certas diferenças com sua mulher sobre ciúmes que lhe ela demandava. E sendo mais perguntado. na graça do Recôncavo. e se veio à cidade confessar. mas agastado. cristão velho.90 Tourinha. filho de Estevão Rodrigues e de sua mulher Felipa Velosa. mas que sem considerar a disse. em uma festa do natal na igreja de Sergipe. disse que haverá sete anos pouco mais ou menos. e que bem sabe que é obrigado a comungar em jejum. e que está muito arrependido. um dia. já defuntos. e nunca tratou com Luteranos nem leu seus livros. disse e pronunciou com a boca “Jesus de que arrenego”. E confessando. E confessando. nesta mesa. digo. em 23 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. 63 . disse que só almoçou farinha da terra e bebeu vinho.

cego. não o tendo.Processado por não fazer confissão completa na graça e ser denunciado por invocar os diabos. e ele desatinado e agastado com as ditas coisas que passa de dezesseis anos a esta parte pouco mais ou menos. brigas e deferenças com sua mulher e com uma sua filha casada. e logo depois que blasfemava se punha a chorar com arrependimento. e com o dito seu filho por lhe não dar o que lhe pede. e a dita sua filha diz que ele que diz que já que ela o esbofeteia que ele se esbofeteara também com Cristo. que por ele ser cego não vê. e das ditas blasfêmias está muito arrependido e pede perdão neste tempo da graça. esbofeteando a ele esbofeteia a Cristo. esbofeteiam e o escalavram.91 64 . e lhe puxam pelas orelhas. E todos os ditos mulher e filhos o espancam. assina a seu rogo o notário. Condenado a sair em auto público. em todo o dito tempo. ANTT. filho de Manuel Luis e de Inês Rodrigues. proc. respondeu que sempre creu em Deus e na Santíssima Trindade e nos Santos do Paraíso. arrenegou de Deus (e) dos Santos do paraíso. disse que haverá dezesseis anos pouco mais ou menos que vive em contínuos desgostos. e que nos ditos tempos em que disse as ditas blasfêmias ele não estava bêbado nem fora de seu juízo. 135 134 . por muitas vezes.16895.Refere-se à obrigação mútua dos esposos de manter relações sexuais. respeitadas as leis da Igreja. E confessando.Confissão de Afonso Luis . além de penitências espirituais. morador na ilha dos Frades da freguesia de Tamararia. com uma verga de pau na boca. que ambas se chamam Isabel Luis. IL. casado com Isabel Luis. em diversos dias e lugares. as quais blasafêmias heréticas disse por grande número de vezes. disse que nunca blasfemou contra Nossa Senhora. porém ele não se afirma que tal dissesse nunca. e lhe fazem outras afrontas e lhe chamam nomes injuriosos. . e por a dita filha não querer ganhar de comer com seu marido. 135 . e pede perdão. ele lhe diz que ela. cingido com uma corda. natural de vila d’Alvito. porém se com agastamento o disse foi não atentando. Isento de açoite e galés por ser velho. E por mais não dizer foi perguntado se quando ele disse as tais blasfêmias deixou de crer em Deus ou em Santos. e foi-lhe mandado ter segredo e que torne a esta mesa no mês de março próximo primeiro que vem. em todo o dito tempo. ou quando disse alguma delas. E também quando a dita sua filha o esbofeteia. cristão velho. e por ele ser pobre. E sendo mais perguntado. cego que não pode ganhar e pede esmolas pelo amor de Deus. fazer abjuração de leve suspeita na fé. no tempo da graça que se concedeu à gente do Recôncavo desta Bahia. por a dita sua mulher lhe negar o débito matrimonial . desbarretado. cego e manco. disse ser cristão velho. vela acesa na mão. Por ser cego. e com um seu filho Afonso Rodrigues. em 23 de janeiro de 1592 134 Confessando. mas estava cheio de ira e agastamento. perante a dita sua mulher e perante os ditos sua filha e filho e perante outras pessoas.

ela. 66 . lavrador. no termo de Braga. cristã velha. sem consideração. se quando fez a dita injúria aos ditos agnus dei. respondeu que tem em muita conta ao agnus dei e que um padre da Companhia de Jesus lhe deu o dito agnus dei de que quebrou a vidraça. no claustro. Pelo que.Confissão de Antônio Correa. assinou a seu rogo o notário. perguntou a ele confessante como se benzia e persignava. tomou os relicários e com fúria os arremessou por uma ladeira abaixo. disse que. Disse que haverá cinco ou seis anos que. respondeu que nunca tal duvidou. abaixo dos . e de sua mulher Isabel Duarte. e naquele tempo era ou havia pouco que fora sacristão no dito mosteiro. e foi-lhe mandado ter segredo e que no mês de março que vem torne a esta mesa. Por não saber. se duvidou ou sentiu mal deles e da veneração que a Igreja Santa manda ter às relíquias. E confessando. mostrando esta ao dito seu marido uns relicários de ouro. dizendo ao dito seu marido que fizera aqueles relicários para suas filhas. fez o dito desacatamento de que logo se arrependeu muito e se confessou a seus confessores. mancebo que então podia ser de idade de trinta anos e já era sacerdote. na testa. haverá quatro ou cinco anos. onde estão as suas mais confrontações. em 23 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. antes pelejou com ela porque gastava o dinheiro. um deles quebrou na vidraça. Foi mais perguntada. em casa de Antônio Botelho. em 23 de janeiro de 1592 Apareceu sem ser chamada Beatriz de Sampaio. cristã velha. mulher de Jorge de Magalhães. a qual denunciou nesta mesa no segundo livro das denunciações. solteiro. morador na Itapoã. agastada com cólera e agastamento. filho de Domingos Pires. um dia. que lhe tivesse muita devoção e veneração. sendo ele frade da ordem de São João Evangelista no mosteiro de Vilar de Frades. termo da cidade de Lamego. onde os relicários. e do filho. no tempo da graça do Recôncavo. termo desta cidade. de idade de vinte e cinco anos pouco mais ou menos. e pediu perdão neste tempo de graça. em nome do padre. 65 . E foi logo perguntada em que conta tem ela o agnus dei e se sabe que é relíquia a que se deva muita veneração. folhas 29. natural de Regalados. dentro dos quais estão uns agnus dei. no dito mosteiro. E logo ele confessante se persignou e benzeu do modo que a Santa Madre Igreja ensina e costuma. e ele lhe não deu boa resposta. natural de Moimenta. no tempo da graça do Recôncavo. dizendo.Confissão de Beatriz de Sampaio. dizendo-lhe que viera de Roma.92 À margem do original manuscrito: “Deixa aqui de confessar outras culpas graves e foi a público”. cristão velho. saltando pelo chão. mas que com cólera. um frade dele por nome Diogo da Conceição.

de idade de quarenta e cinco anos pouco mais ou menos. de então por diante. e os ditos frades lhe parece que ficaram no dito mosteiro e não eram pregadores. neste tempo de graça. juntamente. como o dito frade lhe ensinou. e ele com outros seus companheiros foram tomados pelos franceses luteranos que naquele tempo estavão no dito lugar. também de missa. perdendo-se com o tempo na costa de Sergipe. não estava outrem ninguém presente que lhe lembre. disse que quando os ditos frades o ensinaram. e também disse o mesmo como ela. disse que haverá vinte anos pouco mais ou menos que. fuão do Espírito Santo que presente estava. na barriga. lhe disse que aquela era a verdade e que assim se havia de benzer. E foi-lhe mandado que no mês de março que vem torne a esta mesa. haverá menos de um ano que. viúva. e nomeando o filho em um ombro e o Espírito Santo em outro ombro. e desse usa ora como costuma a Igreja. E um dia. como lhe ensinava o dito Diogo da Conceição. disse aos companheiros. Pelo que. cristão velho. E sendo mais perguntado. E confessando. pois era contra o costume da Igreja. 67 . e do Espírito Santo. porque cuidou que acertava. mulher que foi de Lopo Vieira. e tornou a usar do primeiro modo de benzer como dantes usava. estando um luterano daqueles. eles disseram à dita sua senhora que ele os não ensinava a benzer da maneira que ela os ensinava. natural dos Arcos. e um seu companheiro por nome Antônio Gonçalves lhe respondeu que sim.93 peitos. confessante. que não era aquele bom benzer. poderia perdoar o Papa. se indo a Roma ao Papa pedir-lhe perdão. onde ora é a cidade de São Cristovão desta capitania. E por ele confessante cuidar que aquela era a verdade. deixou o dito modo de benzer que lhe ensinaram os frades. nos ombros. . em 23 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. e que haverá três anos ou quatro que ele confessante se saiu do dito mosteiro. Então a dita Francisca d’Almeida disse a ele. até ora. cinco léguas de Braga. termo desta cidade. dele confessante. do mesmo mosteiro. E outro frade. ensinando ele uns seus negrinhos a benzer da dita maneira. ele confessante. estando ele confessante na Pitanga.Confissão de Baltasar Barbosa. morador em Sergipe do Conde deste Recôncavo. em casa de Francisca d’Almeida. se lhe poderia o Papa perdoar as culpas de luterano para que ele voltasse a viver catolicamente. o novo. lavrador. casado com Catarina Álvares. usou do dito modo de benzer e assim se benzeu sempre. e lhe ensinou que se havia de benzer nomeando o padre na testa até à barriga. por ser doente de gota coral. e da culpa de no dito tempo se benzer do dito modo pede perdão. filho de Gaspar Barbosa e de Violante Gonçalves. de então até ora. no tempo da graça do Recôncavo. e o dito frade Diogo da Conceição lhe disse que era heresia nomear o filho abaixo dos peitos. e perguntou a um clérigo. pouco tempo há.

natural da vila de Guimarães. e o dito luterano falou as ditas coisas em espanhol. E declarou. e contradizendo-lhe isto o dito Antônio Gonçalves. casado com Beatriz Piçarra. e prometeu ter segredo pelo juramento que recebeu. simples e inconsideradamente. morador nesta cidade. morador em Sergipe do Conde. disse que sendo ele moço de dez anos de idade pouco mais ou menos. disse que o dito Antônio Gonçalves é já morto e quando isto aconteceu estava também presente Diogo Dias. com efeito. e que o dito Antônio Gonçalves. e foi-lhe mandado ter segredo. proc.7954. que então poderia ser de idade de vinte anos. dormiu ele confessante com ele na cama. E depois disto. 68 . filho de Jorge Gonçalves. convertendo-se eles à fé católica. e foi-lhe mandado que no mês de março que vem torne a esta mesa. nem tem tal dúvida. e isto fez com teima de sempre contradizer ao dito Antônio Gonçalves. cristão velho. ou tem. e desta culpa pede perdão. que duas ou três vezes. apesar de confessar na graça e não ser denunciado. já defunto. dizendo palavras injuriosas. E sendo ele mais perguntado. genro de Garcia da Vila e cunhado dele confessante. o dito Mateus Nunes. respondeu-lhe que o não podia fazer. e de noite. e uma das noites que aí dormiu. e consumou o pecado de sodomia uma vez somente. . na dita vila de Guimarães. que bem o entendia. por contradizer ao seu companheiro. afirmou ele que o Papa não tinha poder para absolver e perdoar aos luteranos para ficarem cristãos. morador nesta cidade. 136 . até que enfim se calou sem se desdizer. chegou a dormir com ele carnalmente. ele confessante o tornou a afirmar. veio pousar à casa do dito seu pai. E confessando suas culpas. no tempo da graça do Recôncavo. e cumprindo nele assim como se fizera com mulher por diante. em 23 de janeiro de 1592 136 Disse ser cristão velho. tido por cristão novo. Mateus Nunes. Repreendido na mesa e penitências espirituais. o dito luterano blasfemou contra o Papa. de idade de trinta e cinco anos. respondeu que nunca teve. dizendo que o papa não podia. ele confessante.94 Então. IL. cirurgião.Confissão de Belchior da Costa . e que bem creu e sabia que o Papa tem poderes de Deus para poder perdoar aos Luteranos.Processado pelo visitador. sendo perguntado. e não estava bêbado nem fora de seu juízo. E foi logo perguntado se teve ele. tecelão de toalhas e de sua mulher Senhorinha da Costa. repreendeu logo a ele confessante e ele se calou. defuntos. ANTT. e não foi mais presente outrem alguém. por andarem de rixa. mameluco. metendo seu membro desonesto pelo vaso traseiro dele confessante. no dito flagrante. dúvida que o Papa tenha maior poder sobre todos os bispos e prelados do mundo. o começou a solicitar de maneira que.

um dia. em 23 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho.Confissão de Marcos Barroso. natural de Riba do Douro. e que ninguém o viu. de idade de quarenta e cinco anos pouco mais ou menos. o qual servia de moço no dito mosteiro de mandados . morador ora em Paripe com sua mãe viúva. primo de sua mãe. já ele bem sabia ser isso pecado grave. casado com Catarina Colaça. já defuntos. cristão velho. e tinha nele um irmão frade por nome frei Antônio Nogueira. por cuja causa ele continuava muitas vezes nele. que sendo ele confessante de quatorze anos pouco mais ou menos. veio aí ter um moço de idade de nove ou dez anos. estava no dito mosteiro um moço de redor de idade de quatorze ou quinze anos. disse que haverá vinte e oito anos pouco mais ou menos que.Moço de recados. usado com esta conotação sexual. filho de um carpinteiro das ilhas. lavradores. no tempo da graça do Recôncavo. mas logo ao dia seguinte o contou em casa. no manuscrito original: “Este confessante fez muitas mostras de arrependimento. E sendo ele confessante. natural de Barroso. filho de Bastião Pires e de sua mulher Inês Martins. Confessou mais. além da cidade do Porto. e consumou o pecado de sodomia.95 E sendo perguntado. 138 . E mandei-o confessar e trouxe escrito do confessor. por nome Domingos. e disse que destas culpas pedia perdão. que então era prior no dito mosteiro. E confessando. onde ele confessante tinha um tio frade por nome frei Antônio de Rio Douro. nesta cidade. disse que naquele tempo não entendeu ele confessante bem ser isso pecado. lavrador. dei-lhe nesta mesa em segredo penitências espirituais com a admoestação necessária. no engenho de Martim Carvalho. chegaram a ter amizade desonesta de maneira que pecaram no 138 137 . e cumpriu com ele como se o fizera com mulher por diante. 69 . por vezes era verbo transitivo direto: “dormir o” ou “dormir a” significava ter relações sexuais com alguém. morador em Tassuapina. .Dormir. 137 E sendo perguntado. À margem. e nunca mais dormiu com ele. estando ele deitado em uma rede. o qual moço se deitou com ele na rede e ele confessante dormiu com ele carnalmente. e foilhe mandado que torne a esta mesa no mês de abril. em casa de seu pai. com o dito Domingos. companheiros que dormiam em uma cama. disse que neste caso segundo. estando ele no mosteiro de Bustello. da ordem de São Bento. penetrando com seu membro desonesto o vaso traseiro do dito moço cujo nome lhe não lembra. depois de jantar. porque se foi.

cristão velho. e Luiz d’Oliveira. brasilas. e aquela noite de sexta-feira foram seus hóspedes e lhes deu agasalho em sua casa. negra desta terra. em uma sexta-feira à tarde chegaram à sua casa Pero Teixeira. e juntamente com eles comeram dela também ele confessante e mais Domingos de Rebelo. queriam. não lho estorvando ele. dormindo com o dito Domingos carnalmente. alguns domingos e dias santos trabalham fiando e fazendo nastros . e foi mandado que se fosse confessar ao Padre Quirício Caxa e traga escrito a esta mesa.Fitinha com que se entrança o cabelo.96 pecado nefando de sodomia duas ou três vezes em diversas noites. 139 139 . e de sua mulher Ilena de Meira. E foi logo admoestado que lhe não aconteça outro tal porque será gravissimamente punido. sendo ele confessante sempre o agente. E ao sábado seguinte. disse que haverá sete meses pouco mais ou menos que. freguesia de Paripe. se quisessem. homem branco.Confissão de Antônio de Meira. . E sendo mais perguntado. filho de Francisco de Meira. Margarida e Antônia. não tendo ele confessante que lhes dar a almoçar. estando ele na sua fazenda onde é morador. ambos seus amigos que vinham d’aldeia do Espírito Santo e iam para suas casas. consumando o pecado da sodomia as ditas duas ou três vezes. no tempo da graça do Recôncavo. em 23 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. metendo seu membro desonesto pelo vaso traseiro do dito Domingos e cumprindo com ele por detrás como faz um homem com uma mulher por diante. morador e lavrador no Rio de Joane. carpinteiro. querendo-se eles partir. e por eles dizerem que sim. mameluca. e que não sabe onde esteja ora o dito cúmplice e que ele confessante foi o principal provocador. natural desta Bahia. ele confessante matou uma galinha e a assou e eles a almoçaram. lavrador que ele sempre ouviu nomear por cristão novo. pela manhã. morador em Toque Toque. brasila. mameluco seu cunhado. 70 . morador na mesma fazenda dele confessante. confessou que as negras de sua casa cristãs. E confessando. e que bem sabia ele que eram pecados graves e que já se confessou deles em suas confissões passadas. disse que ninguém os viu faazer os ditos pecados. e que nunca mais os cometeu com outra alguma pessoa. lhes mataria uma galinha para almoçarem. E outrossim. casado com Maria Alvernaz. os convidou que. o qual não sabe se é cristão novo também.

Pero Teixeira e Luis d’Oliveira. E sendo perguntado. e foi-lhe mandado ter segredo pelo juramento que recebeu e tornar a esta mesa no mês de março primeiro. de idade de vinte e sete anos. a saber. moradores em Toque Toque. carpinteiro e lavrador. estando em casa de seu cunhado Antônio de Meira. respondeu que são três léguas que caminham em três horas. disse que no mês de fevereiro do ano passado. o qual passaria para o foro inquisitorial a partir de 1599. lhe disse em casa que o dito vigário na confissão a cometera tratando com ela palavras em desprezo dele confessante e em louvor dela.97 E por não dizer mais. cristão velho. morador no Rio de Joane. queriam. na graça do Recôncavo. com quem ele é morador. solteiro. de idade de vinte e sete anos. a dita sua mulher se foi confessar pela obrigação da Igreja ao seu vigário que era então Antônio Fernandes. disse que nenhuma outra pessoa os viu comer a dita galinha senão as ditas suas negras e negros seus que serviam à mesa. que mal empregada era ela nele. E confessando. E depois de a dita sua mulher vir da confissão. e ele confessante e seu cunhado. e de Leonor. e desta culpa pede perdão. e de sua mulher Isabel Luis. foi perguntado quantas léguas são de sua casa para o lugar onde moram os ditos Pero Teixeira e Luis d’Oliveira. e eles disseram que sim. por não terem que almoçar disse o dito seu cunhado que lhes mataria uma galinha. 72 . e Luis d’Oliveira. querendo se partir para a sua. e das ditas culpas pediu perdão neste tempo da graça e do costume disse nada. brasila. através de Breve do Papa Clemente VIII. natural d’Alvito.A atitude do confessor (como se confirma na confissão seguinte da própria Antônia Correia) configura o crime de solicitação ad turpia (seduzir ou tentar seduzir em confessionário ou a propósito da confissão). 140 140 . carreiro. homem branco. e que se ele vigário tivera mulher lhe havia de querer grande bem e a havia de trazer vestida de seda . disse que esta quaresma que ora vem faz dois anos. 71 . em um sábado pela manhã. moradores na ilha dos Frades. sendo ele morador em Sergipe do Conde deste Recôncavo.Confissão de Domingos Rebelo. freguesia de Tamararia. no tempo da graça do Recôncavo. carpinteiro. em 24 de janeiro de 1592 Disse ser mameluco.Confissão de Noitel Pereira. filho de Miguel Martins. em 24 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. natural desta Bahia. defunto. mestiço. disse que os ditos Pero Teixeira e Luis d’Oliveira caminhavam a cavalo e o caminho dali até suas casas é de três para quatro léguas. filho de Afonso Luis. Então se assou uma galinha e todos comeram dela. casada com Antônia Correia. que tinham dormido aquela noite aí em casa. . E confessando. Pero Teixeira. E sendo mais perguntado. freguesia de Paripe.

em 24 de janeiro de 1592 Disse ser cristã velha. e desta culpa pede perdão. respondeu que assim tem e crê como a Santa Madre Igreja tem e ensina. perante seu marido contou o que lhe aconteceu. disse que a gente só a Deus se havia de confessar. lhe disse logo que mal empregada era ela em seu marido e que se ela fora sua mulher. E foi logo perguntado se sabe ele que negar que não se deve fazer a confissão ao sacerdote. respondeu que tudo crê como crê a Santa Madre Igreja. pela obrigação da Igreja. E foi perguntada se crê ela que é bom e necessário confessar-se aos confessores como ordena a Santa Madre Igreja e como Cristo Nosso Senhor instituiu. e não aos clérigos e aos confessores. em sua casa. e depois. senão somente a Deus. cristã velha. e que ela. disse que a dita sua mulher é de idade de dezessete anos e o dito vigário lhe parece ser de quarenta anos pouco mais ou menos. como moça ignorante. mas que com paixão o disse levemente. a Nosso Senhor. . de idade de dezessete ou dezoito anos. com vestidos de seda. e não confessar-se só ao pé de um pau como ela diz. a houvera de trazer. e não aos homens. E confessando. disse aquelas palavras. que doutra maneira. se crê que é obrigado todo cristão confessar-se ao seu pastor e prelado homem. e estando dentro do confessionário. lavrador. respondeu que ela o não entendeu assim. e estas coisas com palavras brandas e de maneira que claramente ela entendeu serem com intenção desonesta. que o vigário dir-lhe-ia aquelas palavras com bom zelo de caridade. natural de Lisboa. disse que na quaresma passada. e desta culpa pede perdão. Perguntado mais.98 E ouvindo ele confessante estas coisas. senão na outra atrás. dele vigário. criados do bispo dom Antônio Barreiros. e que se ela quisesse alguma coisa que lha pedisse que ele faria tudo. que é heresia. Assinou de cruz. E sendo mais perguntada disse que não se lembra bem se seu marido lhe ouviu dizer estas palavras. 73 . Antônio Fernandes. Pelo que se alevantou logo muito envergonhada e se foi. no tempo do Recôncavo. sendo ela moradora na freguesia de Sergipe do Conde. moradora na ilha dos Frades. acabando de a absolver.Confissão de Antônia Correia. pois eles eram tais que na confissão cometiam as mulheres. e que não basta confessar-se a Deus como a Santa Madre Igreja tem e ordena. E sendo mais perguntado. respondeu que ele é idiota e simples e que não entendia isso. E foi-lhe dito pelo senhor visitador que ela podia enganar-se. dizendo que era bom confessar-se uma pessoa ao pé de um pau. filha de Diogo Quadrado e de sua mulher Maria Fernandes. freguesia de Tamararia. e casada com Noitel Pereira. se confessou ao vigário da dita freguesia.

ou depois. e estas palavras dizia nove vezes. respondeu que sim. entendeu. no qual tempo todo ele. 74 . mameluca. e de sua mulher Isabel Dias. disse que haverá seis ou sete anos que ele confessante foi ao sertão do Campo Grande em companhia de Domingos Fernandes Tomacaúna. filho de Mateus Rodrigues e de sua mulher Leonor Rodrigues.99 Por não saber. respondeu que nunca deixou a fé de Jesus Cristo e que o fazia porque. tomava nove pedras do chão e dizia as palavras seguintes. no tempo do Recôncavo. e desta culpa disse que pede perdão. uma ou duas vezes encantou os bichos de certo gado cujo dono lhe não lembra. de idade de sessenta e dois anos. no termo de Moura. disse que haverá cinquenta e dois anos que. assinou a seu rogo o notário. casado com Antônia Luis. filho de Afonso Dias. E andou entre eles no sertão quatro ou cinco meses. . no engenho de Bernardo Pimentel. defuntos. Perguntado se quando usava deste encantamento. casado com Mécia de Lemos. de idade de cinquenta anos. e foi-lhe mandado que tornasse no mês de março. lavrador. disse que não sabe se aproveitou e não lhe lembra afirmadamente quem lho ensinou. O qual encantamento era para os bichos cairem ao gado da maneira seguinte. E foi-lhe mandado que o não use sob pena de ser gravemente castigado. cristão velho. E confessando. brasila. a fazer descer para a fazenda de Fernão Cabral os gentios que traziam a abusão e erronia chamada Santidade. e cada vez que as acabava de dizer lançava uma das ditas pedras para escontra o lugar onde andava o gado. mestiço. ou antes. que aos três dias cairão todos”. 75 . deixou a fé de Jesus Cristo e creu que os demônios lhe podiam valer e aproveitar no dito encantamento. E foi perguntado se entendia ele que nisto havia contrato com o diabo. no tempo do Recôncavo. e com os outros todos. mameluco. fez com os ditos gentios todas as cerimônias e abusos e idolatrias. lavradores. E sendo mais perguntado. confessante. em 25 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho. o viu fazer geralmente a quase todos os pastores daquela terra. natural da vila de Moura. E confessando. e nunca mais o usou. em 24 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho.Confissão de Brás Dias. naquele tempo. lavrador na freguesia de Nossa Senhora da Piedade. cristão velho. homem branco. “encanto bizandos com o diabo maior e com o menor. em Portugal.Confissão de João Rodrigues Palha. morador na freguesia de Jaguaripe deste Recôncavo. natural do termo desta cidade.

bolindo com os beiços. e Agostinho de Medeiros.100 assim como eles mesmos faziam. porém que ele confessante. morador na dita freguesia de Jaguaripe. de maneira que nesta abusão vão arremedando os estilos que nós os cristãos temos nas cruzes. respondeu que um Brasil cristão chamado Antônio. Domingos Camacho. não tendo nomeadamente Deus. gestos de bugios ou ridículos”. e do pé dela para todas as partes em redondo riscam no chão uns riscos. também mameluco. e trazem contas de rezar de pau com suas cruzes e estremos . 142 . morador na mesma fazenda. e nunca creu nas ditas abusões. fugiu para o sertão e lá inventou esta erronia chamada Santidade. Simão Dias. sem nenhuma significação. nem regra mais que uivarem e bugiarem . E sendo perguntado. morador em Pernambuco. mameluco. E foi perguntado que substância e lei era a dita abusão chamada Santidade. com um prato d’água. da mesma maneira. também o dito Domingos Fernandes Tomacaúna.Bugio é sinômino de macaco e bugiar significava “fazer bugiarias. 143 . assim como os ditos gentios.Estremos: contas do rosário. e fazem cruzes metidas no chão em montes de pedra. lança-lha pela cabeça. quer dizer intérprete. homem branco. e Cristovão de Bulhões. cristão velho.Língua. para os enganaram e trazerem consigo parta a dita fazenda de Fernão Cabral. e foi-lhe mandado ter segredo e que torne a esta mesa no mês de março primeiro que vem. em 28 de janeiro de 1592 141 . e deste modo era muito usado no período colonial. e o dito brasil Antônio tem mulher e filhos e ele mesmo batiza os seus filhos com duas candeias acesas. e Pero Álvares. e passeando. interiormente. no tempo do Recôncavo. que era o língua e principal da sua companhia. de maneira que fez e exercitou todos os exteriores dos ditos gentios da dita abusão. mulato. e do costume disse nada. mameluco. filho de Santa Maria virgem. a qual em si não tem ordem nem certeza.Confissão de Antônio Gonçalves. no contexto. mas nisto têm muitas imperfeições e depropósitos como coisa de negros que são de pouco saber. criado nas aldeias da conversão. mulato. vão correndo as contas e falam na Santíssima Trindade com despropósitos e erros heréticos. 141 142 143 76 . . de maneira que vivem assim. homem branco. E põem-se nomes uns aos outros de Jesus e de Santa Maria. benzendo-a. disse que ele e os sobreditos faziam e diziam os ditos despropósitos. sempre teve em seu coração firme a fé de Jesus Cristo e foi sempre no coração cristão. e Pantaleão Ribeiro. e confessando que Cristo é senhor do mundo que dá os mantimentos. e disse estar muito arrependido e pedia misericórdia e perdão. e isso mesmo fizeram. e outros. Diogo da Fonseca. morador na fazenda de Fernão Cabral.

procurador do número desta cidade e de sua mulher Marta Vilela. que era sexta-feira. denunciante. sua vizinha. em 29 de janeiro de 1592 Disse ser cristã velha. termo de Barcelos. de idade de trinta e cinco anos. disse que haverá oito anos pouco mais ou menos que fugiram doze ou quinze escravos índios deste Brasil a Antônio Vieira. e de sua mulher Maria Pires.Confissão de Maria Rangel. natural do Porto. do Procurador do Senado da Câmara da cidade da Bahia de Todos os Santos. oleiro . sendo ela de idade de treze ou quatorze anos. filha de um carpinteiro. E denunciando (sic). sendo donzela.101 Disse ser cristão velho. à qual ainda chegaram no mesmo dia com sol. cujas atribuições deviam ser parecidas com as dos Procuradores dos Concelhos. 144 77 . em cima dela. de idade de vinte e quatro anos. parece-lhe que tinha por nome Francisca. E voltando com eles no mesmo dia. com a qual costumava folgar muitas vezes. e substituir o tesoureiro. lavrador. disse que todos eles sabiam muito bem. e Manuel Machado. mameluca. oleiro. filha de um vaqueiro que foi do bispo por nome Bastião Dias. 145 . sem haver outro nenhum instrumento penetrante mais que somente seus vasos um 145 144 . e eles todos quatro a comeram na dita sexta-feira. mameluca. estando em casa de seu pai nesta cidade. cidade do Porto. possivelmente. que não sabe lugar certo onde mora. mestre de açúcar do engenho de Antônio Francisco do Porto. acharam uns gentios à montaria. no tempo do Recôncavo. lavrador. moradores na freguesia de Tassuapina. e ele. e desta culpa pede perdão e misericórdia. ambas sós em casa. os quais logo acharam. E estando assim. que era dia de sexta-feira e que a não podiam comer. e o dito Antônio Vieira. casado com uma mulher que foi de Duarte Álvares. disse que haverá dez anos pouco mais ou menos. foram todos quatro algumas cinco ou seis léguas pelo sertão após os ditos negros fugidos.Artesão que faz louça de barro. casado com Francisca Pereira. fecharam a porta por dentro e se deitaram sobre uma cama e tiveram ambas o nefando ajuntamento carnal. os quais lhes deram um pedaço de carne de porco assada. podendo escusar de a comer porque tinham perto a aldeia de São João. basicamente cuidar do patrimônio municipal. morador em Jacaracanga. veio ter um dia à sua casa outra moça do seu próprio corpo então. filha de Miguel Ribeiro. e que parecia ser da sua própria idade então. E confessando suas culpas. quando comeram a carne. E sendo perguntado. e ajuntando seus vasos. cerâmica. natural de Darque. morador em Tassuapina. casada com Rafael Teles. deitando-se a dita Francisca de costas e ela confessante de barriga.Trata-se. cristã velha. moravam em uma rua que vai do terreiro de Jesus para a horta do correeiro. quando necessário. . e que era pecado grande comê-la. filho de João Pires. defuntos. onde mora Domingos d’Almeida. a qual ora é casada com Gonçalo Gonçalves.

em um domingo ou dia santo. sem haver outro instrumento penetrante. já mulher que naquele tempo parecia ser de quinze ou dezesseis anos. e se pôs encima dela de barriga. que haverá ano e meio pouco mais ou menos. e de sua 146 . E outrossim. e traga escrito a esta mesa.Trampa: engano. nem o descobriu alguém senão na confissão. E sendo mais perguntada. assinou a seu rogo o notário apostólico. E lembra-lhe que a mãe da dita moça se chamava Saboeira. se cristão velho. indo ela um dia à casa de Felipa Dias. e de então até agora se emendou do dito pecado e disse que nunca mais o fizera. assim se estiveram deleitando por espaço de um quarto de hora. fechando a porta. mas que logo se arrependeu e de todas estas culpas pediu perdão. e ajuntando seus vasos pela dita maneira se deleitavam. Por não saber assinar. ficando ambas sós. ela com outras moças também pequenas e algumas de doze anos. . tramóia. isto segundo sua lembrança. filho de Gaspar Rodrigues. 146 78 . mestre de açúcares. a lançou sobre uma cama. na cidade do Porto.102 com outro. mas como ela confessante era então pequena e esta foi a primeira vez que isto lhe aconteceu. ou mesmo excremento fétido. o sobrenome lhe não lembra. por diversas vezes também umas com as outras se deleitavam. em 29 de janeiro de 1592 Disse ser natural da capitania dos Ilhéus. estando ela doente dos olhos. estando em seu siso. que sendo ela moça de sete ou oito anos. as quais lhe não lembram nem conhece. mulher de um picheleiro morador na porta de cima da Vila. e declarou que não lhe lembra bem qual delas foi a que se pôs de cima e qual debaixo. no mesmo tempo. em diversos tempos e lugares. e não sabe se foram vistas de alguém. Pelo que foi admoestada que se aparte da conversação das ditas pessoas e de quaisquer outras que lhe possam causar dano em sua alma. de costas. disse que fez o dito pecado com a dita Francisca. no mesmo Porto. E disse mais. sem considerar o que dizia. E disse mais. disse que. o não entendia e não sabe dar razão das mais circunstâncias. no tempo do Recôncavo. que nunca mais havia de rezar a Santa Luzia de trampa . e que se confesse ao Padre Quirício Caxa. ajuntando o seu vaso natural com o dela confessante. filha do carpinteiro. disse agastada. e o dito pecado fizeram ambas aquela vez somente e sabiam muito bem ser aquilo pecado grande em ofensa de Deus. e foi-lhe mandado que o faça assim porque. estando lá em casa de seu pai e mãe. uma sua filha por nome Isabel. fazendo o contrário. tomou por força a ela confessante e. não se sabe se é cristão novo. por ter feito muitas devoções a Santa Luzia e não melhorar nos olhos. não lhe lembra se pela manhã. esteve assim com ela deleitando-se um pouco. costa deste Brasil. será gravemente castigada. da Companhia. se com tarde.Confissão de Gaspar Rodrigues. ou se ambas revezadamente o fizeram.

Confissão de João Gonçalves . na qual andou no arraial. cristão velho. entre o cotovelo e o ombro. e mandando Cristovão de Barros a Álvaro Rodrigues. que então morava em Mare. costa deste Brasil. disse que haverá três anos que foi na companhia de Cristovão de Barros à guerra de Sergipe Novo. e nesse tempo. disse que não teve propósito deliberado de se entregar aos diabos para que o levassem. E antes de partir com o dito Álvaro Rodrigues para o dito sertão. no tempo do Recôncavo. ele confessante foi na dita companhia.13098. E foi logo perguntado se deixou ele de crer.Processado pelo visitador. defunta. o qual riscado é uso e costume dos gentios valentes. e que lhe não lembra que em algum tempo dissesse outras semelhantes palavras e foi-lhe mandado ter segredo e que torne a esta mesa no mês de março. de idade de vinte e sete anos pouco mais ou menos. e não se desdisse. solteiro. se fez riscar em um braço e logo mostrou o braço esquerdo. E confessando. podendo ter causas várias. disse as ditas palavras. riscado de lavores cortados na carne. mameluco da Cachoeira. pelo que ora pede misericórdia. mestre de açúcares. filho de Tomé Fernandes e de sua mulher Isabel Gonçalves. foi repreendido na mesa. freguesia de Tamararia deste recôncavo.103 mulher Ana Vieira. respondeu que não deixou nunca de crer ser Deus todo poderoso. e a dita sua irmã o repreendeu e ele se calou. solteiro que nunca casou. morador na ilha dos Frades. na qual andou no dito sertão algum mês e meio. e que seu pai estava também presente. proc. estando no arraial em Sergipe. se fora disso servido. recebeu penitências espirituais e proibição de voltar ao sertão. por capitão de uma companhia de cento e tantos homens pelo sertão adentro a fazer descer gentio com paz. . natural da capitania dos Ilhéus. trabalhadores. curando-se em casa de sua irmã Catarina Rodrigues. viessem os diabos e o levassem. de maneira que riscar-se e ser riscado significa entre os gentios ser gentio cavaleiro e 147 .“Humor que corre para alguma parte do corpo”. em 29 de janeiro de 1592 148 Disse ser cristão velho. alfaiate. ele confessante comeu sempre carne. disse que haverá três ou quatro anos que. E isto disse uma só vez que lhe lembre. E sendo mais perguntado. que lhe parece ser de idade de vinte anos. feitos como ferretes que ficam em sinal para sempre. um dia com as muitas dores disse que já que Deus não tinha poder para lhe tirar as dores. porém que com o desatino das dores que havia muito tempo tinha. 147 79 . ANTT. 148 . E confessando. quando disse a dita blasfêmia. segundo lhe parece. nos sábados e sextas-feiras e dias que não eram de carne. IL. estando ele doente de corrimentos . morador em Sergipe do Conde deste Recôncavo. que Deus Nosso Senhor é todo poderoso e que lhe podia tirar as dores.

sete anos pouco mais ou menos. e alguns trinta escravos cristãos. solteiro. e em todo o dito tempo. no original manuscrito: “Declarou que os do seu rancho são Simão Rodrigues. e de sua mulher Maria de Bustamante.Confissão de Apolônia de Bustamante. 80 . alfaiate. E pelos caminhos do Alentejo e Andaluzia. com ira e agastamento. quando se confessava. ao sertão das Alpariacas.Rancho: “a divisão em que se ajuntam. arrenegava de Deus dizendo “arrenego de Deus”. nos quais quinze meses. dormem e comem os da mesma camarada”. confessante. na qual companhia eram por todos vinte e cinco brancos. e seu filho. moradora nesta cidade. no tempo da graça do Recôncavo. cigano. e alguns sessenta selvagens pagãos. mameluco. filha de Francisco Mendonça. carpinteiro de Tamararia. que haverá ano e meio que ele. e que depois de março torne a esta mesa. com agastamento se entregava aos diabos. e isto por muitas vezes mais que as que arrenegou de Deus. natural d’Évora. ela não se desdizia nem deixava de blasfemar. blasfemando ela a dita blasfêmia. cigana. de idade de trinta anos pouco mais ou menos. e declarou que Estácio Martins. e andaram no sertão quinze meses sem se confessar. os diabos me levem já”. em todos os dias da quaresma e nas sextas-feiras e sábados e mais dias que não eram de carne. nas quaresmas. e andou amancebada com ele alguns sete anos pouco mais ou menos. mas andavam amancebados. 149 À margem. comeu. sendo verdade que eles não eram ainda casados. somente quando o conde dos ciganos a repreendia ela se calava. Francisco Coutinho. morador de Ilhéus. ela. no qual tempo todo. E também no dito tempo. casada com Alonso della Paz. castelhano. E confessando. e com estas confissões falsas recebia o Santo Sacramento. Confessou mais. cigano.104 valente. foi na companhia de Gonçalo Álvares. que veio degredada por furto. contudo. defuntos. em 30 de janeiro de 1592 Disse ser cigana. donde ora poucos dias há que vieram. E de tudo pediu perdão nesta mesa e foi-lhe mandado ter segredo pelo juramento que recebeu e que se vá confessar ao Colégio de Jesus e traga escrito a esta mesa antes de se tornar para sua casa. fazia falsa confissão dizendo na confissão ao confessor que ela era casada com o dito Francisco Coutinho. 149 . . cigana. lhe fez o dito riscado. muitas vezes. por ele lhe dar muito má vida. e assim comia toda a dita companhia do seu rancho . por onde naquele tempo andavam. a conta de casar com ele. dizendo “dou-me aos diabos. disse que haverá quatorze anos que ela se amancebou com um cigano. a qual blasfêmia lhe parece que disse algumas quarenta vezes pouco mais ou menos. era repreendida de quem presente estava e.

muitas vezes que lhe não lembra o número. de maneira que alternadamente fizeram o dito pecado nefando. assim alternadamente. 81 . com agastamento de sua casa. de idade de vinte e sete anos. com agastamento a trabalhos disse “bendito sea el carajo de mi señor Jesu Christo que agora mija sobre mi”. blasfemando as ditas blasfêmias. e também neste tempo.Confissão de Diogo Afonso. E confessou mais. mas que depois que com agastamento blasfemava. e nesta cidade se casou com o dito seu marido Alonso de lla Paz. e isso mesmo fez ele confessante também com o mesmo Fernão do Campo. e que não se saia desta cidade para outra parte sem primeiro se apresentar nesta mesa. e de todas estas culpas disse que pedia perdão. no tempo do Recôncavo. e por serem ambos vizinhos da mesma rua tinham muita comunicação. como se faz um homem com uma mulher por diante. tendo os ditos ajuntamentos sodomíticos consumadamente. haverá seis ou sete anos que veio degredada para estas partes. ora em ribeiras cometeram. e lhe parece também nesta capitania. de Porto Seguro. solteiro. ela consigo se arrependia muito. ora nos matos. veio ter amizade com Fernão do Campo. em diversos tempos e diferentes lugares. natural da capitania de Porto Seguro. E o dito pecado. muitas vezes. ora em casa. se dá ao diabo dizendo “o diabo me leve”. não tem ofício. e às vezes em um dia duas vezes. e chegaram a cometer o pecado nefando de sodomia metendo o dito Fernão do Campo seu membro desonesto pelo vaso traseiro dele confessante. Por não saber. de três em três dias. sendo umas vezes agente e outras paciente. e de tudo disse que pedia perdão. contudo não se afirma de si próprio se também ele tinha polução. deixou de todo a fé de Deus e se apartou da crença de Deus. E foi perguntada quantas vezes no seu coração. e de dois em dois dias. E foi-lhe mandado ter segredo e que se confesse de confissão geral de toda sua vida no Colégio da Companhia de Jesus e traga escrito a esta mesa. E confessando. assinou a seu rogo o notário apostólico. que era mais velho que ele um ano. cristão novo. que então era solteiro e ora está casado com uma filha de Luiz Gomes.105 E depois de isto assim passar. cumprindo nele e consumando com ele. estando em Porto Seguro. ela. e nesta amizade e conversação torpe duraram por espaço de um ano pouco mais ou menos. em 30 de janeiro de 1592 Disse ser cristão novo. respondeu que nunca no seu coração perdeu a fé. que em Portugal e Castela. disse que sendo ele de idade de quinze anos pouco mais ou menos. na capitania do Espírito Santo. e de semana em semana. filho de Gaspar Dias da Vidigueira e de sua mulher Ana Rodrigues. morador nesta cidade. caminhando ela por chuvas e lamas e enxurradas. e esta blasfêmia disse dez ou doze vezes pouco mais ou menos. filho de Pero Furtado. de . depois de casada até agora. e ainda lhe lembra e se afirma que o dito Fernão do Campo cumpria com ele com polução. por detrás.

e desta culpa disse que se acusa e pede perdão nesta mesa. e com sua mão tomou o membro dele confessante e o meteu pelo seu traseiro. cristã nova. agasalhando-se com seus criados e ficou com eles em uma cama na qual aconteceu jazer junto dele um pajem do dito deão. antes se afirma bem. solteiro. e assim por diante se deleitavam. e de noite o dito mulato tentou com seu membro penetrar pelo vaso traseiro dele confessante. parente do dito governador. ele confessante. de idade de dez(ilegível) anos pouco mais ou menos. E sendo perguntado. mas foram muitas e também muitas vezes ajuntavam suas naturas por diante um com outro. cristão velho. mas ele confessante de si não afirma que teve. confesante. 83 . e foi mandado confessar e ter segredo. morador em casa do governador D. do dito mulato. E foi admoestado que se aparte de semelhantes torpezas e conversações ruins. natural da Bobadela. e que se vá confessar ao Colégio da Companhia de Jesus ao padre Pero Coelho e traga escrito a esta mesa.Francisco de Souza deste estado do Brasil. e do costume disse nada. o qual é mulato nascido na dita casa. E confessando. no vaso do dito mulato. neste tempo de graça. e de sua mulher Beatriz Antunes. ficou uma noite. estavam dormindo e não o sentiram. e que lhe parece que o dito mulato tem nome Leonardo. em casa do deão da Sé de Lisboa. natural de Matoim desta capitania. filha de Bastião de Faria. Afonso Furtado. breve espaço com a deleitação de penetrar. E foi admoestado que lhe não aconteçam tais torpezas e se afaste das conversações que lhe podem acontecer. cujo pajem é. disse que lhe parece que os companheiros da cama. E sendo perguntado. em 30 de janeiro de 1592 Disse ser cristão velho.Confissão de Dona Custódia de Faria. cujo nome lhe não lembra. com seu membro desonesto. como de efeito penetrou. 82 . que eram mais dois pajens. de idade de vinte e três anos. filho de Gaspar de Queixada e de sua mulher Maria Figueira. e não se afirma. cristão velho. disse que bem sabiam que era pecado e ofensa grande de Nosso Senhor. e assim esteve ele. disse que haverá um ano pouco mais ou menos que. . casada com Bernardo Pimentel de Almeida. cristã nova. em 31 de janeiro de 1592 Disse ser cristã nova. em Lisboa. que nem dentro nem fora do vaso não teve polução. tendo o dito companheiro polução. não se afirma nisto bem. que ora será de idade de dezoito ou dezenove anos pouco mais ou menos.106 maneira que do número certo não é lembrado de quantas vezes cometeram o dito ajuntamento carnal. e que lhe parece que nenhuma pessoa os viu. moradora no seu engenho de Matoim.Confissão de João Queixada.

e nunca no que dito tem teve intenção de cerimônia judaica nem tal entendeu. e assim tem por certo. e nunca a teve. panela de carne para jantar de vaca e galinhas e leitões assados. e lhe parece. simplesmente. sendo moça. E que ela. Beatriz Antunes. sem intenção interior ruim. E sendo perguntada quanto tempo há que sua mãe lhe começou a ensinar a lei de Moisés e as cerimônias dela. Beatriz Antunes. pede misericórdia e perdão porque ela é muito boa cristã. a fizeram comer e comeu então peixe. porque havia em casa hóspedes. que ela faça confissão inteira e verdadeira de todas suas culpas. E respondeu que ela é boa cristã e não tem a lei de Moisés. respondeu que nada mais lhe ensinou sua mãe e que sua avó não lhe ensinou mais nada. também defunto. e nesse dia veio ter aí sua mãe. que está ora na fazenda dela confessante. sem se saber que a dita sua tia era morta. quase uma légua da dita igreja. Perguntada que coisas mais lhe ensinou a dita sua avó que ela agora entenda serem judaicas. em breve tempo de uma pustema que lhe arrebentou. que portanto declare sua intenção e peça misericórdia. respondeu que sua mãe não lhe nomeou lei de Moisés. E foi admoestada pelo senhor visitador. e têm a lei de Moisés. logo no comenos que ela casou. confessante. declarando tudo o que souber da dita sua mãe e avó e mais parentes. aprendera isto no reino de uma cristã velha. lançou aquela vez e mandou lançar fora toda a água de casa. depois que ouviu . porque estas coisas que ela diz dão mui forte presunção que ela e sua mãe e avó são todas judias e vivem afastadas da lei de Jesus Cristo. nem quis comer nada senão. lhe morreu em casa um escravo seu. morreu sua tia Violante Antunes. senão somente. mulher que fora de Diogo Vaz. e lhe ensinou que lançasse a água fora que havia em casa porque era bom para os parentes do morto que ficavam vivos. disse que haverá dois anos. somente quando queria por-se o sol. sem entender que era cerimônia de judeus e sem má intenção. que a trouxeram a enterrar à igreja de Nossa Senhora. sua mãe. mas que não sabe se lhe declarou logo ser cerimônia judaica. havia em casa de sua mãe. que sua mãe é boa cristã e lhe ensinou a dita coisa de botar água fora também simplesmente. e da culpa que nisto tem de assim fazer a dita cerimônia exterior. e que somente agora. sem lhe declarar mais nada. lhe ensinara também isto. se estava ela confessante presente. respondeu que não sabe mais que dizer-lhe sua mãe que a dita sua avó lhe ensinara isto. dela confessante. antes de ela casar. nem lhes viu fazer nada de que ora tenha suspeita. porque com isso alcançará misericórdia. sem saber que era cerimônia judaica. sendo já casada com o dito seu marido. a qual morreu em casa de Isabel Antunes. senão somente sua avó. não sabe quantos anos há. e somente crê na lei de Jesus Cristo. nem suas cerimônias. Perguntada se quando sua avó Ana Rodrigues ensinou à sua mãe que isto era da lei dos judeus. a qual. com muita caridade. ou isso mesmo sua mãe. nem suspeitou ser. e no dia que ela morreu. não quis comer nada de carne aquele dia ao jantar. e chegada a nova como a traziam morta para a enterrar. Beatriz Antunes.107 E confessando-se.

108

publicar o édito da fé da Santa Inquisição, entendeu que isto era cerimônia judaica, e
por isso se vem acusar do dito exterior que fez, e tem dito a verdade, e do costume, o
que dito tem, e foi-lhe mandado pelo senhor visitador que não se saia desta cidade sem
sua licença.
84 - Confissão de Beatriz Antunes , cristã nova, no tempo da graça, em 31 de janeiro de 1592
150

Disse ser cristã nova, natural de Lisboa, na freguesia de São Gião, filha de
Heitor Antunes, defunto, mercador, e de sua mulher Ana Rodrigues, cristãos novos, de
idade de quarenta e três anos, mulher de Bastião de Faria, cristão velho, morador no seu
engenho de Matoim, que veio para esta terra menina de seis ou sete anos com seu pai.
E confessando-se, disse que haverá vinte e nove anos ou trinta anos que é
casada e que, de então para cá, lhe tem acontecido as coisas seguintes: quando em casa
lhe morria alguém, lançava e mandava lançar fora toda a água de casa e isto lhe
aconteceu por dezessete ou dezoito vezes pouco mais ou menos, e quando lhe morria
parente ou parenta, como filho ou filha, irmão ou irmã, , ou pai, por nojo, nos primeiros
oito dias não comia carne, e isto lhe aconteceu em três ou quatro nojos da morte de seu
pai e de sua filha Inês, e de suas irmãs, Violante Antunes e Isabel Antunes.
E que jura, quando quer afirmar alguma coisa, este modo de juramento
“pelo mundo que tem a alma de meu pai”, e que algumas vezes, quando manda
amortalhar os mortos de sua casa, os manda amortalhar em lençol inteiro, sem lhe tirar
ramo, nem pedaço algum, por grande que o lençol seja, e atá-los amortalhados apenas
com ataduras, e que isto lhe aconteceu por seis ou sete vezes.
E que todas estas coisas lhe ensinou sua mãe Ana Rodrigues, dizendo-lhe
que era bom fazê-las assim, sem lhe declarar mais alguma outra razão, nem causa,
somente que também lha ensinaram, sendo moça em Portugal, na Sertã, uma sua
comadre, parteira cristã velha, por nome Inês Rodrigues.
E que assim também, quando em casa se assava quarto de carneiro, lhe
manda tirar a landoa por ter ouvido que não se assa bem com ela, e também não come
lampreia, e mandando-lhe do reino duas ou três lampreias em conserva, ela não as
comeu, não por outra coisa nenhuma, senão porque lhe tomou nojo, mas come os mais
peixes sem escama, salvo os d’água doce, e não come coelho.
E que fez todas as ditas coisas simplesmente, sem nenhuma má intenção, e
somente porque lhe disse sua mãe que não era bom coser os amortalhados com agulhas,
e que não era bom tirar dos lençóis das mortalhas ramo nem pedaço algum, e que não
era bom deixar água em casa quando alguém morria em casa ou na mesma rua da
mesma parede, e que era bom não comer carne oito dias no nojo, sem mais lhe dar outra
150

- Presa a mando do visitador e mandada para Lisboa, onde permaneceu encarcerada, respondendo
a processo, até 1603. Condenada a sair em auto público celebrado em Lisboa, sexta abjuração em
forma (que presume grave suspeita na fé), cárcere e hábito perpétuo desenhado com fogos, sem
remissão. ANTT, IL, proc.8991.

109

razão, e por isso fez as ditas coisas exteriormente, sem ter nenhuma crença judaica nem
ruim em seu coração, interiormente.
E foi logo admoestada pelo senhor visitador, com muita caridade, que
todas estas coisas são mostras manifestas de ela e sua mãe serem judias e viverem
afastadas da lei de Jesus Cristo, verdadeiro messias, e de terem a lei de Moisés, e que
portanto ela usasse de bom conselho e fizesse confissão verdadeira, declarando sua
intenção judaica, porque isso lhe aproveitava muito para alcançar misericórdia e perdão
de suas culpas, pois está em tempo de graça, porque é coisa muito dificultosa poder se
crer que, sendo ela cristã nova toda, inteira, e fazendo todas as ditas cerimônias tão
conhecidas dos judeus, as fizesse sem intenção de judia, maiormente sendo ela mulher
de bom entendimento como no seu falar se mostra.
E contudo, ela respondeu que nunca teve intenção de judia e nunca soube
nem entendeu que as ditas coisas eram cerimônias judaicas, nem que nelas ofendia a
Jesus Cristo, senão depois que nesta terra entrou a Santa Inquisição.
Por não saber, assinou a seu rogo o notário apostólico.
85 - Confissão de Maria Grega, mestiça, no tempo do Recôncavo, em 31 de janeiro de 1592

Disse ser natural de Itaparica, filha de João Grego, carpinteiro de naus,
grego de nação, e de sua mulher Constança Grega, índia deste Brasil, de idade de
quinze ou dezesseis anos pouco mais ou menos, casada com Pero Domingues, que não
tem ofício.
E confessando, disse que depois que casou com o dito seu marido, com o
qual é moradora na barra de Paraguaçu, nunca até agora o dito seu marido dormiu com
ela pelo seu vaso natural, e com a mão a corrompeu e a deflorou, e muitas vezes com a
mão lhe anda por dentro do dito vaso natural e a deita de costas, e por cima da barriga
lhe alevanta os pés dela até os membros, e assim se põe em cima dela e lhe mete o seu
membro desonesto por baixo, pelo seu vaso traseiro, dela confessante, e dorme daquela
maneira com ela, efetuando e consumando o pecado nefando da sodomia pelo seu vaso
traseiro, como se fizera pelo dianteiro natural, e depois que é casada com ele, todas as
vezes que teve ajuntamento carnal foi sempre desta maneira nefanda sodomítica.
E sendo mais perguntada, disse que o dito seu marido está em seu siso
quando faz os ditos pecados, e sabe muito bem que os faz, e por ela não querer
consentir, ele lhe diz que cale a boca e que lhe cortará a língua com uma faca, e que não
diga isto a ninguém, e que isto não é pecado, e que a há de matar, e contudo ela
confessante consente nos ditos pecados, sabendo que o são, com medo do dito seu
marido, e que ela descobriu isto à sua mãe .
Por não saber, assinou a seu rogo o notário.
151

151

- Isto é: contou para a sua mãe.

110

86 - Confissão de Manuel Antônio, torneiro , cristão novo, no tempo do Recôncavo, em 1 de
fevereiro de 1592
152

Disse ser cristão novo, natural de Vila do Conde, filho de Diogo
Rodrigues, tosador , e de sua mulher Ana Rodrigues, defuntos, casado com Inês de
Brito, de idade de trinta e dois ou trinta e três anos, morador em Paripe deste
Recôncavo.
E confessando suas culpas, disse que haverá quatro anos que, em Paripe,
disse que melhor estado é o de bom casado que as outras ordens dos Religiosos, e isto
disse então uma vez não lhe lembra perante quem.
E que depois disso, haverá ora um ano pouco mais ou menos, em Paripe,
tornou a dizer as mesmas palavras que melhor era o estado do bom casado que o dos
religiosos, e que não lhe lembra perante quem isto tornou a dizer.
E foi logo perguntado se foi alguma das ditas vezes repreendido por
alguém, respondeu que não lhe lembra.
E foi perguntado se andou algumas vezes entre luteranos e se leu por livros
luteranos, e quem lhe ensinou ou onde leu a dita heresia, respondeu que nunca
conversou com luteranos nem saiu de de Portugal senão para este Brasil, nem leu livros
de hereges, mas que ouviu dizer, muito tempo há, estas palavras a uma pessoa, e por
muita diligência que faz lhe não lembra quem foi, e de assim as ouvir, ficou ele
enganado, cuidando sempre que era assim verdade, e que com o Édito da Fé e o
monitório geral da Santa Inquisição que se publicou ora na sua freguesia, se desenganou
e entendeu a verdade, pelo que se vem acusar a esta mesa e pediu misericórdia, e
prometeu ter segredo, e foi-lhe mandado que torne a esta mesa no mês de abril.
153

87 - Confissão de Ana Rodrigues , cristã nova, na graça, em 1 de fevereiro de 1592
154

Disse ser cristã nova, natural de Covilhã e criou-se na Sertã, filha de Diogo
Dias, mercador, cristão novo, e de sua mulher Vilante Lopes, já defuntos, viúva, mulher
que foi de Heitor Antunes, cristão novo, mercador, defunto, de idade de oitenta anos.
E confessando-se, disse que de quatro ou cinco anos a esta parte não come
cação fresco porque lhe faz mal ao estômago, mas que o come salgado, assado, e
outrossim, não come arraia, mas que nos outros tempos atrás comia arraia e cação, e
que de dois anos a esta parte costuma muitas vezes, quando lança a benção a seus

152

- Torneiro: “o que leva obras de pau, marfim ou metal ao torno”.
- Tosador: artesão que “tosa os estofos de lã”.
154 - Presa por Heitor Furtado, em 1593, e mandada para Lisboa. Condenada a ser “relaxada ao braço
secular” (morte na fogueira) após anos de cárcere. Moreu na prisão e foi queimada em efígie por
sentença de 9/5/1604, a qual amaldiçoa sua memória e ordena que seus ossos sejam desenterrados e
feitos em pó. ANTT, IL, proc. 11618.
153

111 netos. e somente lhe ensinou as ditas coisas. e depois que morreu. por acaso. “pelo mundo que tem a alma de meu pai”. parteira. morreu um filho por nome Antão. a qual lhe ensinou isto dizendo ser bom.Tresvaliar ou tresvariar: delirar. nem lhe parece que lho ensinou em ruim intenção. A qual lhe disse também que era bom botar a água fora quando alguém morria. em Portugal. e que haverá sete ou oito anos que esteve muito doente em Matoim. água que estava em casa fora. 155 156 157 155 . não lhe lembra a que propósito. dentro nesta capitania. senão somente a dita parteira. ou de meu marido ou meu filho. respondeu que não lhas via fazer. depois que lhe acaba de lançar a benção. respondeu que não lhe lembra que a dita parteira lhe declarasse mais . por acontecer ficar ali assim ajeito o seu assento. lhes põe a mão estendida sobre a cabeça. ela. E que. cujo marido fora um carpinteiro. lançou e mandou lançar água fora dos potes. 157 . E que haverá quinze anos pouco mais ou menos que morreu o dito seu marido Heitor Antunes. porque lhe via fazer obras de boa cristã. não sabe quem. e por isso o fez. . E que haverá trinta e cinco anos que. em Portugal. 156 . e no dito tempo era muito velha e morava de fronte dela confessante na dita Sertã. mas nunca entendeu ser juramento de judeus. e cuidando ela ser isto bom o ensinou também neste Brasil a suas filhas dona Leonor. e estas coisas não sabe que eram de judia. nem ele sabia disto. e isto faz por desastre . viúva. e perguntada que espada ou que sangue era esse.Isto é: por descuido. a qual ora já é defunta. “ter o cérebro mal ordenado”. onde ela é moradora. ouviu e lhe ensinou. com paixão. estava muitas vezes algum dia sem comer até a véspera. respondeu que lhe não lembra que outra pessoa alguma lhas ensinasse. mulher de Henrique Muniz. este modo de juramento. e Beatriz Antunes.No monitório do Santo Ofício. porque lavavam a espada do sangue nela. Inês Rodrigues. mulher de Bastião de Faria. Perguntada se lhe via fazer estas coisas o dito seu marido. quando lhe ensinou estas coisas. que lhas ensinou na Sertã há mais de trinta e cinco anos. e que no tempo do nojo da sua morte ela esteve assentada detrás da porta. o rito de lançar água fora era presumidamete associado a dizer que naquela água os defuntos se iam lavar ou que o Anjo nela iria lavar sua espada. que dizia ser cristã velha. porque lhas ensinou uma sua comadre cristã velha. haverá três ou quatro anos. Perguntada se lhe declarou a dita parteira. estando seu filho Nuno Fernandes doente. na qual doença chegou a tresvaliar . e dizem que falava desatinos. quem lhas tinha ensinado e como se se lhe veio a descobrir que era judia. e por nojo de sua morte esteve os primeiros oito dias sem comer carne. mas ela não está lembrada se nesse tempo falou ou fez alguma coisa com ofensa de Deus. E que na dita Sertã. também por desastre. e que deste juramento usa ela muitas vezes quando quer afirmar alguma coisa. respondeu que lhe não declarou que era judia nem nada mais. dizendo a “benção de Deus e minha te cubra”. E perguntada quem lhe ensinou as ditas coisas. estando ela na Sertã.

nem era bom tirar ramo nem pedaço fora do lençol em que se amortalhavam. que para ela a alcançar lhe é necessário fazer confissão inteira e verdadeira nesta mesa e confessar a sua intenção judaica. pelo dito senhor visitador lhe foi dito que está mui forte a presunção contra ela que é judia e vive na lei de Moisés. E logo foi admoestada pelo senhor visitador. e nunca cuidou que nas ditas coisas o ofendia. mas parvamente as usava por lhas terem ensinado como dito tem. e logo daí a pouco tempo morreu. Perguntada quanto tempo há que ela começou a ensinar às ditas suas filhas que fossem judias e cressem na lei de Moisés. e pôr a mão na cabeça aos netos quando lhes lançava a benção. tão conhecidas e sabidas serem cerimônias de judeus. como botar água fora quando alguém morre. respondeu que nunca até agora foi judia e sempre até agora teve a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo. e quando punha a mão à cabeça dos netos era por desastre. com muita caridade. E. mas que as fez por ignorância como dito tem. Confessou mais. contudo. que a dita sua comadre. que quando amortalhavam algum finado. não entendendo nem sabendo que eram cerimônias judaicas.112 E perguntada de que idade era ela confessante no dito tempo. Inês Rodrigues lhe ensinou mais. como dito tem. e se afastou da nossa santa fé católica. nem de ofender a Deus. e que a dita parteira seria então de alguns oitenta. e não come o cação nem arraia fresco porque lhe faz mal. ela confessante disse e afirmou que ela nunca fez as ditas coisas com intenção ruim de judia nem de ofensa de Jesus Cristo. tudo isto são cerimônias manifestamente judaicas e que ela não pode negar. e jurar pelo mundo que tem a alma do defunto. respondeu que ela nunca ensinou a suas filhas que fossem judias. nem ela teve nunca essa lei. respondeu que ela confessante seria então de idade de quarenta e cinco anos. e que por isso fica claro que ela é judia e que as fez como judia. respondeu que não. e que confessando ela a sua intenção. não era bom dar agulha para coserem na mortalha. sem ter a dita intenção ruim interior. mas que fez as ditas coisas e cerimônias sem intenção alguma de judia. respondeu que ela tem dito a verdade que nunca fez as ditas coisas com ruim intenção nem com coração de judia. nem a lei de Moisés. E perguntada quanto tempo há que ela confessante começou a ser judia e a deixar a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo. lhe aproveitará muito para alcançar perdão. e que de toda a culpa que tem em fazer as ditas coisas exteriores. . E logo. que ela use de bom conselho e que. E perguntada se ensinou ela às ditas suas filhas outras mais cerimônias judaicas. e não comer cação nem arraia. e toda a verdade interior. pois está em tempo de graça. e que não é possível fazer ela todas as ditas cerimônias de judeus. e não comer oito dias carne no nojo. e a dita parteira que lho ensinou. pede perdão e misericórdia neste tempo de graça.

quando alguém lhe morria. perpetuamente. todas as vezes que em sua casa se assavam quartos semelhantes. das portas adentro. e que ela mandou lançar em cima do sangue que estava derramado no chão um pouco de pó de serradura de madeira que se havia serrado. porque é boa cristã. ela confessante. emprestá-la a nenhuma vizinha para varrer a sua.10716. E que. E que haverá um ano pouco mais ou menos que uma sua escrava degolou sua galinha defronte da sua porta. e sem saber nem entender que eram cerimônias de judeus. na publicação da Santa Inquisição.Era uma das filhas de Ana Rodrigues. veio à sua casa uma lampreia que veio do reino em conserva e ela a não quiz comer por haver nojo dela. IL. mas não entende o que esta jura quer dizer. sem remissão. ficou muito triste por ver que podiam cuidar que ela era judia. encarcerada e processada. Foi presa e enviada para Lisboa. e isto fez porque o porco não ficasse inclinado a lhe comer os pintões. disse que haverá dezoito anos pouco mais ou menos que é casada com o dito seu marido. de idade de trinta e dois anos pouco mais ou manos. morador no Rio de Matoim. se declarou no Édito da Fé que estas coisas eram cerimônias dos judeus. e que come os mais peixes sem escamas e lhe sabem muito bem. Ana Rodrigues. ela confessante. tinha por costume ordinário jurar pelo mundo que tem a alma de seu pai. ANNT. de dezessete anos a esta parte em que seu pai faleceu. e estando em nojo por ela. moradora em Matoim. porque andava aí perto um porco e arremetia a ele para o comer. haverá dois ou três anos. . não o sendo ela. E que tanto que ouviu dizer que. em 1 de fevereiro de 1592 158 Disse ser cristã nova. em 1603. abjurar em forma e a cárcere e hábito com fogos. e prometeu ter segredo e foi-lhe mandado pelo senhor visitador que não se saisse desta cidade sem sua licença. a sair no auto público. E que. como filho ou filha ou escravos. e que ela confessante não se afirma bem se ensinou estas coisas a suas filhas. E confessando-se. quando quer afirmar alguma coisa. Sentenciada. não comeu oito dias carne. na verdade. proc. E que haverá quatro ou cinco anos que lhe morrera uma sua filha. cristã nova. E que de seis ou sete anos a esta parte. cristão velho. 158 . a vassoura com que varriam a casa. e que não era bom.113 mas que havia de ser com o lençol inteiro. e que todas estas coisas fez sem nenhuma má intenção.Confissão de Dona Leonor . no tempo da graça. dentro desta capitania. e vir fedorenta. e desta jura usava pela ouvir jurar à sua mãe. casada com Henrique Muniz. 88 . lhe mandava tirar a landoa para se assarem. por ver que é da nação simplesmente tinha feito estas coisas. por ouvir dizer que é bom tirar as landoas aos quartos traseiros das reses miúdas. e do dito tempo até agora lhe aconteceu muitas vezes lançar e mandar lançar fora de casa toda água dos potes e vasos que havia em casa. e não por outra alguma coisa.

na Sertã. Inês Rodrigues. sendo ela mulher de bom entendimento. em Portugal. moradoras em Matoim. depois de ser casada. mulher de Bastião Cavalo.114 E perguntada quem lhe ensinou botar água fora quando lhe morriam em casa. não comeu carne oito dias pela razão sobredita de lho ter ensinado sua comadre. respondeu que sua mãe Ana Rodrigues lho ensinou. lhe é necessário fazer confissão inteira e verdadeira. sem nenhuma ruim intenção. mas que lhe lembra que esteve doida e falava muitos desatinos. e sendo ela cristã nova. e que por estas razões está mui forte a presunção contra ela que é judia e vive na lei de Moisés. e simplesmente as fez por lhas ensinarem da dita maneira. e a outras muitas pessoas que não lhe lembram os nomes. e que lhe lembra que quando seu pai morreu. e que para que lhe aproveite sua confissão para alcançar graça e perdão e misericórdia. porque não é de crer que. E que a dita sua mãe lhe ensinou também que não comesse carne os ditos oito dias de nojo da morte de sua filha. Perguntada se viu a dita sua mãe fazer ou dizer outras algumas coisas contra nossa Santa Fé Católica. e não tem a lei de Jesus Cristo. respondeu que nunca lhes viu fazer nem dizer outras coisas mais do que dito tem. verdadeiro Messias. por nojo da sua morte. E logo declarou mais. como mostra em sua prática. antes nega. as não fizesse com intenção de judia. lhe aconteceu duas ou três vezes que. respondeu que nunca lhe viu fazer nem dizer tal. E foi admoestada pelo senhor visitador. com muita caridade. e fazendo as ditas cerimônias tão conhecidas de judeus. ela confessante lhes contou que sua mãe Ana Rodrigues lhe dissera que não era bom beber a água que havia em casa quando morria alguém e que era bom lançá-la fora. E que tanto é verdade que ela em todas as ditas coisas que fez nunca teve ruim intenção. dizendo que lho ensinara uma sua comadre. e confessou mais a dita Dona Leonor que. no dito tempo. e a tem por boa cristã. confessando sua intenção judaica. e que não lhes declarou nunca que eram lei judaica. que ella confesse todas suas culpas inteiramente. sem lhe declarar que era cerimônia judaica. morrendo-lhe em . e as fez simplesmente. cristã velha. nem ela tal entendeu nem presumiu de sua mãe. se lhes declarava logo que eram da lei judaica. E sendo perguntada perante quem lhe ensinou as ditas coisas e quando lhas ensinou. Perguntada se no tempo que sua mãe esteve doente e se na sua doença lhe viu fazer ou ouviu dizer alguma coisa contra nossa santa fé católica. E por ela foi respondido que tem dito toda a verdade de suas culpas. e que também ouviu à dita sua mãe o dito modo de jurar pelo mundo que tem a alma de seu pai. cristão velho. respondeu que lhas ensinava perante sua irmã Beatriz Antunes. o que ela não faz. porque nunca nelas teve intenção de judia. que estando ela em conversação com Joana de Sá e suas irmãs e mãe. mulher de Bastião de Faria. a dita sua mãe. e que por isso ela usava também do dito modo de jurar. que lhe ensinara aquilo a dita sua comadre.

ter o discernimento do que é exato. fica sendo grande presunção que ela é judia e que está afastada da fé de Jesus Cristo. mercador. e esta cerimônia que ela fez é muito conhecida por ser dos judeus. o qual dizem que é cristão novo inteiro. e sem entender que era nenhuma cerimônia judaica. faz muita suspeita que ela fez a dita cerimônia com intenção de judia. fundamentalmente. dizendo-lhe que não era bom coser na mortalha os defuntos com agulha e linha com que se cosia em casa. e o sobredito fez ela simplesmente. e por não dizer mais. sem má intenção. mulher de Henrique Nunes. por não lançar mão da dita coisa. onde ora é moradora nesta capitania. sem ter ruim intenção interiormente no coração. cristão velho já defunto. meia cristã nova. de Pernambuco. nenhuma ruim intenção. nunca usou do sobredito mais que a dita vez. usando de boas sentenças e juízo. 89 . que lhe não rasgassem nem tirassem nada fora. maiormente sendo ela discreta como é. disse que haverá quatro anos que na sua fazenda lhe morreu um escravo menino e ela mandou à mãe do dito escravo lançasse fora a água da casa. pede misericórdia e perdão. ela deu um pano de amortalharem e mandou que amortalhassem nelle assim inteiro. e também lhe ouviu dizer à dita sua mãe que não era bom tirar ramo nem pedaço de lençol em que se amortalhasse alguém defunto. Disse mais. o qual não sabe de certo sua nação mais que somente lhe conhece um primo com irmão que é João Nunes. . em 1 de fevereiro de 1592 Disse ser natural de Matoim.Confissão de Isabel Antunes. pede perdão e misericórdia. significava. senhor visitador. e de bom entendimento. porque. mandou amortalhar mandando atar somente com uns fios e mandando que não cosessem com agulha e linha a mortalha do lençol. e que vive na lei de Moisés. haverá ano e meio pouco mais ou menos que. e da culpa que teve em fazer a dita obra exterior. E confessando-se. cristã nova. e também desta obra que fez exterior. e que isto fez por lho ensinar a dita sua mãe Ana Rodrigues. também por lho ensinarem. no tempo da graça do Recôncavo. da culpa que nela tem. morrendo-lhe uma sua filha e outras pessoas. fazendo-a simplesmente. pois ela é cristã nova. morrendo-lhe uma menina de uma sua escrava. e isto fez sem ter nenhuma intenção ruim. sem entender que isso podia ser cerimônia judaica. e que portanto falasse 159 159 . lavrador. filha de Diogo Vaz. casada com Henrique Nunes. à época. cristão novo. foi-lhe mandado ter segredo e que não se saia desta cidade sem licença dele. E entende que também a dita sua mãe. que lhe lembra que uma vez. e de sua mulher Violante Antunes. acusando-se a dita Dona Leonor. e que ela não viu fazer isto à dita sua mãe que ora já e defunta. porquanto tinha ouvido dizer à sua mãe que era bom fazer isto sem lhe declarar mais nada. E foi logo admoestada com muita caridade pelo senhor visitador que faça confissão inteira e verdadeira. de idade de dezoito anos.Discrição. lhe ensinou o sobredito sem malícia . verdadeiro Messias. não tendo dentro.115 casa gentes. no coração. meia cristã nova. simplesmente. E também ela confessante.

em 1 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. disse que haverá quatro anos pouco mais ou menos que. nem imagem de Deus. 161 .116 verdade e descobrisse o seu coração. e somente nelas está no meio no chão um pau. se punham também desbarretados assim como os ditos luteranos. natural do Porto. nem de Santo. moradores ora na barra de Jaguaripe.Confissão de Baltasar André. quando levavam um pote para buscar água fora de casa. e isto faziam parecendo-lhes que lhes contentariam. cristão velho. no mar poderiam andar em sua companhia alguns vinte dias. como moça. desbarretados. indo ele confessante para a dita cidade do Porto. porque lhe aproveitará muito para alcançar graça e misericórdia. e sem intenção disso. tornarem com ele para casa vazio. filho de Cristovão Fernandes. e de sua mulher Maria André. os ditos luteranos.Trata-se de Southampton. cristã velha. não lhe lembra quando. nem cruz. mas não lhe declarou nenhuma má intenção nisto. 160 161 160 . E depois de estarem na cidade de Antona. assentados. nas quais também estão muitos cubículos ao modo de confessionários. E denunciou mais. que ouviu dizer à dita sua mãe já defunta. foram tomados pelos ingleses luteranos na paragem das ilhas e foram levados à cidade de Antona . . dentro dos quais cada um com sua mulher e sua família se fecha. em língua inglesa. todos eles. porque os luteranos obrigavam a fazer isso. pescador. ele e seus companheiros. no tempo da graça do Recôncavo. e em terra. com os mais seus companheiros. porque obviamente não era caso de haver mesquitas inglesas. Respondeu que ela mandou fazer a dita cerimônia de deitar a água fora sem saber que era cerimônia de judeus. E confessando. mercador estante nesta cidade. uma ave como corvo feita de metal. nos quais os luteranos comungam ao seu uso luterano. que não era bom. e do costume disse o que dito tem. casado com Maria dos Reis. de idade de vinte e três anos. muito tempo há. sempre pela manhã e à noite faziam suas orações luteranas. a saber. por seis ou sete vezes foram às mesquitas e igrejas dos luteranos. e ele confessante. 90 . nas quais os ditos luteranos estavam (e faziam) as suas pregações luteranas. e que nunca presumiu da dita sua mãe intenção ruim das ditas coisas. roxos e azuis.O confitente ou o notário do Santo Ofício projetaram a imagem do templo dos mouros infiéis para as igrejas anglicanas ou puritanas. que é comerem umas fatias de pão e beberem a sua cerveja. e está mais nelas unm púlpito donde pregam os luteranos por um livro. mas ignorantemente. e estão mais uns bancos cobertos de panos finos. e na sua companhia os trouxeram alguns dois meses e meio no mar e terra. sempre quando eles faziam as ditas orações luteranas. nas quais igrejas não há retábulo.

e Antônio Carneiro.Confissão de Nuno Fernandes. e assim foram mais Antônio de Freitas. de que é mestre Pedro Velho. e de sua mulher Ana Rodrigues. 91 . cristão novo. filho de Heitor Antunes. de Ovídio (43 a. todos moradores e casados na cidade do Porto e seu arrabalde. fizeram todas estas coisas. E foi mais perguntado a declaração de seus companheiros. defunto. disse que haverá quatro anos que sua irmã Violante Antunes morreu. ele contudo leu por ele muitas vezes. solteiro. na graça. e Domingos Dias. morador em Matoim.c). Foi logo admoestado pelo senhor visitador. disse que os companheiros que no mar e na terra. e que no dia que ela morreu. estando (os luteranos) algumas vezes pregando e outras comungando e outras rezando ao seu uso luterano. e seu cunhado Marcos. morador em Meijão. não quis comer carne e somente à noite comeu peixe. de que havia edição em português proibida pela Inquisição no século XVI. e isso mesmo fizeram também seus companheiros. em 1 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão novo. não 162 162 . desbarretando-se como os ditos luteranos. e ele se punha de joelhos e se desbarretava assim como os luteranos faziam. cristãos novos. mercador. e destas culpas disse que pedia perdão. somente com nojo. nem ele com essa intenção o fez. marinheiro. naturais da cidade do Porto e seu arrabalde. E confessando. não comeu nada todo o dia. não lhe lembra quantas. que haverá quatro ou cinco anos que sabendo ele que o livro chamado Diana era defeso. e Diogo Gonçalves. de idade de trinta anos. e outrossim confessou que tem Ovídio de Metamaforgis em linguagem. respondeu que tem dita a verdade e não teve intenção de judeu e que é bom cristão. com muita caridade. como atrás fica dito. carpinteiro e marinheiro dela.117 E nestas igrejas luteranas entrou ele confessante por curiosidade e seus companheiros.c -18 d. os quais ambos estão nesta cidade. porém ele confessante sempre em seu coração teve firme a fé de Cristo e nunca creu na dita seita luterana. mercador.Trata-se de Metamorphoses. que faça confissão verdadeira e confesse sua intenção. mestre e em parte senhorio que era da nau em que foram tomados. a saber Francisco Pires. . e outros moços cujos nomes lhe não lembram. na qual ele também veio. Confessou mais. pois está em tempo de graça para alcançar perdão. piloto da dita nau. com nojo. porém que não sabia que isto era cerimônia judaica. ele. d’alcunha Moleiro. nas igrejas luteranas. ajoelhando-se. que vieram na nau Fortaleza que há vinte dias que a esta cidade chegou. natural desta Bahia. e sendo domingo o dito dia.

mameluco. disse que haverá doze anos pouco mais ou menos que ele foi para o sertão de Tapioães. que sabendo que Eufrozina é defeso.118 sabendo ser defeso. E confessou mais. com ele morador. e Gonçalo Afonso. em 2 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. vê ele que usam e costumam geralmente nesta capitania todos os senhores e feitores de engenho. Francisco Afonso Capara. e de todas as ditas culpas pede perdão. em que poderia andar. lavrador e cirurgião. respondeu que são os seguintes: Domingos Fernandes Tomacaúna. segundo lhe parece. e outros mais defuntos e pessoas de que ora se não lembra. disse que somente tinha o dito Ovídio. e Manuel da Fonseca. e do costume disse nada. que tão facilmente se pode escusar. filho de Álvaro Martins. juntamente vinte meses pouco mais ou menos. e de sua mulher Catarina Gonçalves. 163 92 . morador no seu engenho na freguesia dePassé. morador em Passé. E sendo perguntado quais são as mais pessoas que também com ele comeram no dito sertão carne podendo-a escusar. mameluco. no Campo do Ourique. morador no Açu. publicada em 1555 e depois proibida pela Inquisição. por duas vezes. que haverá seis anos que reside e governa o dito seu engenho e sempre todos os domingos e santos. defunto. de ambas as vezes. e assim também muitos lavradores. .Confissão de João Remirão. morador e casado em Perabasu. ainda pelas manhãs ante missa.Trata-se da comédia Eufrozina. moendo o engenho depois do sol posto. viúvo. leu por ele uma vez. solteiro. (e) foi-lhe mandado que não se saia desta cidade sem licença do senhor visitador. mandou e consente mandarem seus feitores lançar a moer o engenho e carretar carradas de lenha e canas e fazer o mais serviço pertencente à moenda nos ditos domingos e santos como se foram dias da semana. natural de Castro Verde. de Jorge Ferreira de Vasconcelos. e foi-lhe mandado que o trouxesse a esta mesa. sem exceção. de idade de trinta anos. casado com Esperança Batista. e nas ditas jornadas assim nas quaresmas como nos mais dias que a igreja defende carne ele comeu carne podendo escusar de a comer. e prometeu ter segredo pelo juramento que recebeu. E confessando. mas antes são amigos. manda carretar carradas de açúcar ao porto. pelo menos a maior parte dos ditos dias. (e) confessou mais. e também nos ditos domingos e santos. E foi admoestado que não as cometa mais pois são notável ofensa de Deus. e Domingos de Meira. irmão do dito Capara. 163 . e isto mesmo de moer e carretar nos ditos dias. E sendo perguntado pelos livros. na graça.

Manuel Francisco. fugia da doutrina de sua mãe católica e seguia a seita luterana que o dito seu pai luterano lhe ensinava. 95 . filho de João Dias. 94 . e de Leonor. dizendo-lhes que. disse que. natural da cidade de Rabra Nova (sic) filho de Roberto Luis.Francisco. em Tassuapina. deu um pistolete. em 2 de fevereiro de 1592 Disse ser francês de nação. mestiço. E confessando-se. se novo. na graça. disse que haverá dois meses que veio do sertão de Laripe. índia deste Brasil sua escrava. que não sabe se são vivos. e desembarcando na costa deste Brasil a buscar pau . onde deu uma espada a um gentio infiel e viu que aos ditos gentios davam armas as pessoas seguintes: Diogo da Fonseca. Notário do Santo Ofício nesta visitação. digo. na graça em 2 de fevereiro de 1592 Fez confissão de suas culpas. E viu a Antônio Dias. e Cristovão da Rocha. morador em Perabasu. ele. natural de Pernambuco. E confessando.Confissão de Simão Luis. católica. matam aos brancos. e de sua mulher Margarida Grisel. lavrador e morador no Rio de Perabasu. luterano. se veio em um navio da sua terra. de idade de trinta anos pouco mais ou menos.119 93 . e cavalos e pólvora. na graça. viúvo. mameluco. usando todas as gentilidades como os 164 164 .Refere-se ao pau-brasil. e Domingos Fernandes Tomacaúna uma espingarda. quando foi o tempo da partida no rio de S. dar-lhes uma espada por uma peça. e já os gentios do dito sertão mataram brancos. também é fama certa que lhes deu uma espada e espingarda. e para declaração fiz aqui esta por mandado do dito senhor visitador. mameluco de Pernambuco. que se defendessem deles com aquelas armas. folha 70. . E sendo da dita condição e idade. o qual navio era também de luteranos. quando acham tempo e ocasião. lavrador. e com os ditos gentios esteve dois anos. e bandeira e tambor de guerra. o escrevi.Confissão de André Dias. e que da sua culpa pedia perdão. sendo ele moço de dez anos. na sua terra. e com eles vinha ele guardando a sua seita . a qual vai escrita no segundo livro das denunciações. fugiu e se ficou em terra com os negros gentios deste Brasil. morador em casa de Gaspar Rebelo. que disse que o dito Antônio Dias deu a dita espada ao capitão Cristovão da Rocha e ele a deu ao gentio. solteiro. se defuntos. E sendo perguntado. em 2 de fevereiro de 1592 Disse ser mameluco.Confissão de Baltasar Camelo. filho de luterano. se lá fossem brancos da Bahia. de idade de trinta e cinco anos. homem branco que não sabe se era cristão velho. no sertão. francês. disse que os ditos gentios são infiéis que.

e que traga escrito a esta mesa de como tem satisfeito a isto. pedir e rezar a Deus. cristão velho. vindo da cidade do Porto para estas partes do Brasil no navio de que era mestre e senhorio Francisco Gomes. em 2 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. viúvo. de idade de vinte e sete anos poouco mais ou menos. estante nesta cidade. natural de Guimarães. mercador. na graça. e de então até agora vive catolicamente. e Gonçalo Mendes. dizendo que já é do conhecimento da verdade que os Santos devem ser venerados e honrados. com o Padre Pero Coelho. até ele o instruir bem nas coisas de Nossa Santa Fé e que lhe importam para a salvação de sua alma. e de uma mulher por nome Senhorinha Pires. disse que haverá mais de dois anos que. nem rogar-lhes nada. mercador. natural de Guimarães. E confessando-se. freguesia de Nossa Senhora da . faziam suas orações e salvas luteranas na sua língua. estante nesta cidade. que não era necessário fazer conta dos servos senão do senhor. nem honrá-los. foi tomado na altura de S. lavrador. em Vila Velha. lendo por seus livros em altas vozes. filho de Manuel Gonçalves da Silva. tendo para si que pois os Santos eram servos e Deus é o senhor. e desta culpa pediu misericórdia. e no fim se confesse a ele fazendo confissão geral de toda sua vida.Confissão de Pero Gonçalves. criado do Bispo deste estado e em sua casa morador. porém que sempre teve em seu coração a fé de Cristo e nunca creu na seita luterana. e ele confessante se achou sempre presente com os ditos luteranos nas ditas suas salvas e orações luteranas. a Jesus Cristo e a Nossa Senhora. casado e morador em Miragaia de Porto. sapateiro. casado que foi com Cezilha Gomes. respondeu que são Leonel Mendes Pinto. em todas as manhãs e tardes. E sendo mais perguntado quem eram seus companheiros que fizeram o mesmo que ele fez. de maneira que até ser de idade doze anos pouco mais ou menos ele não teve a lei de Jesus Cristo. E depois de isto passar. porém sempre em seu coração teve até agora uma erronia. 96 . o cura o confessou e os padres do dito Colégio da Companhia de Jesus o doutrinaram. fugiu dos ditos gentios para esta cidade e. Vicente pelos ingleses luteranos e foram trazidos por eles em sua companhia pelo mar alguns dois meses. estes dias seguintes. assentando-se e desbarretando-se como eles. cristão novo. no qual tempo os ditos luteranos. e Simão. casado em Guimarães na rua do Gado. E que isto fazia por constrangimento dos luteranos e com medo de o espancarem. sem terem imagem nem cruz. que foi seu criado e ora o é de Manuel Rodrigues Ribeiro. e que destas culpas pede misericórdia. mas que somente bastava honrar. rogar.120 ditos gentios. a qual é parecer-lhe e ter por certo que não era necessário rezar aos Santos nem às Santas. E foi-lhe mandado que no Colégio de Jesus continuasse cada manhã estar de uma hora. assentados e desbarretados.

disse que haverá quatro anos que nesta cidade. e outras pessoas mais cujos nomes bem lhe não lembram. que ele não conhece.Cutileiro: artesão de facas e assemelhados. filho de Gonçalo Gonçalves. trigueiro. E confessou mais. digo salvam. em 4 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão natural da Torre de Penegate. mestre e senhorio de uma nau que ia de Pernambuco para o Reino. solteiro. E confessando. morador na rua da Ladana. arcebispado de Braga. neto de Rui Vieira ou Fernão Vieira. mercador que então seria de dezoito anos. cujo nome lhe não lembra. e Belchior Rodrigues. comeram carne muitos dias em que a igreja a defende. 165 . freguesia de São Paulo em Guimarães. bochechudo. e de sua mulher Antônia Rodrigues. morador mesmo em Guimarães. E do costume disse nada. moço solteiro que mora na Rua dos Gatos. morador em Itaparica. alvarinho de rosto. e um seu irmão que então parecia ser de idade de dezesseis anos. morador na cidade do Porto.Trigueiro: pouco branco. cutileiro . e Francisco. filho de João Eanes da Costa. de idade de trinta e três anos pouco mais ou menos. e assim o comeu seu pai. salvo que teve já umas diferenças leves com Leonel Mendes. cidade do Porto. alfaiate. e Álvaro Gonçalves de Carvalhal. cristão velho. segundo sua lembrança o nome de pia Inácio. na roça de seu pai. trigueiro do rosto. 165 166 167 97 . que vai e vem de Guimarães. filho de Gaspar Dias. e de Guimarães natural. que na companhia dos ditos luteranos comeu também carne muitos dias de sextas-feiras e sábados em que a igreja a defende. também como os acima nomeados e outros muitos da mesma nau. detrás da igreja de S. solteiro. criado. senhorio da dita nau.Confissão de Duarte da Costa. em casa de seu pai dois ou três sabados comeu fígado de vaca. e André Gonçalves. . 167 . morador na rua das Oliveiras em Guimarães. e Salvador Vieira. mancebo de vinte anos. e que tem dito a verdade.121 Oliveira. que então parecia ser de dezoito anos. piloto da mesma nau. mas é sinônimo de pajem. o Frade d’alcunha. E declarou que Baltasar Ribeiro. e se achavam presentes e desbarretavam como os ditos luteranos nas ditas suas salvas. e Inácio Carvalho. em Guimarães. E foi-lhe mandado ter segredo e que torne a esta mesa no mês de março que vem. escudeiro que não tem ofício. Thiago.Neste caso nada tem a ver com a Cavalaria. morador no Cano dos Gatos de Guimarães Diz que também João Borges. que trata para a Canária. procurador do número desta cidade. 166 . cristão velho. na graça. que também foi tomada pelos mesmos luteranos. e Francisco Gomes. porém já se correm e tratam. porque não tinham outro mantimento senão o que lhe davam os luteranos. quase pardo. e isto sem necessidade e sem licença. morador na rua de Couros.

Por não saber. outrossim. natural desta cidade. e que desta culpa pede perdão. podendo escusar de a comer. morador na banda de Perabasu. em 4 de fevereiro de 1592 Disse ser cristã velha.Confissão de Luzia Cabelos.Confissão de Maria Varella. os quais devem os cristãos de crer muito mais que em nenhuma pessoa pecadora humana. donzela. sem ela considerar o que dizia. que com o dito Lázaro Aranha a estavam já comendo. cristã velha. filha de Luis de Góes. há dois anos pouco mais ou menos que. E foi logo admoestada pelo senhor visitador que não lhe aconteça mais dizer semelhantes blasfêmias porque os Evangelhos são verdades infalíveis que não podem errar. e de sua mulher Maria Gonçalves. . criado que foi de Cristovão de Barros. moradores nesta cidade. Bento de Lima. mameluco que também dizem ir do sertão para Pernambuco. em Sergipe. E sendo mais perguntada. que no sertão foi ora para Pernambuco. E que. de idade de trinta anos pouco mais ou menos. para comer carne uma sexta-feira ou sábado. um dia. mandando-a com um recado ao seu mestre do engenho. solteiro. freguesia de Tamararia deste recôncavo. outra vez em sexta-feira ou sábado foi convidado em Peroasu para comer carne e com ele a comeu. defunto. o mesmo. sendo também parceiros que a comeram Diogo de Santos. cristã velha. na graça. criado do dito Gaspar Nunes. porém que com muita cólera e agastamento disse as ditas palavras. moradora com sua mãe em Paripe deste recôncavo. natural da ilha Terceira. outrossim. em sua casa. de idade de vinte anos. e que estava em seu siso. das quais lhe pesou muito e se foi confessar delas. filha de Pero Durazeo. E foi perguntada que pessoas estavam presentes e se a repreendeu alguém. viúva.122 E que. moradora no seu engenho de Pernão Merim. indo para a guerra de Sergipe. cunhado de Gaspar Nunes. e PedrÁlvares. e com ele morador em Itaparica. assinou a seu rogo o notário apostólico. e Antônio Dias. sendo companheiros mais. e foi mandada confessar. 99 . que tem por natureza poder errar e enganar-se. se depois de jantar. disse que cria tanto à sua negra como o evangelho de São João. disse que haverá dez ou doze meses pouco mais ou menos que. na graça. E confessando. foi convidado por um seu amigo. podendo escusar de a comer. respondeu que não lhe lembra se estava alguém presente. e ambos comeram. morador em Vila Velha. e Gonçalo Gonçalves. em 4 de fevereiro de 1592 Disse ser cristã. com agastamento sobre certa coisa que uma sua negra lhe veio dizer. André Marante. 98 . nem se foi repreendida. disse que não lhe lembra se foi antes. e de sua mulher Ilena Teixera. casada com Simão da Fonseca.

tendo bebido o lavatório. porém absolvido. 170 171 168 . alfaiate que já não usa . antes de acabar de dar o Santíssimo Sacramento a todas as pessoas que estavam na dita mesa. casado com Maria Grega. tornou a continuar a dita mesa começando dela.Confissão de Pero Domingues .Foi processado. estando ela na igreja da sua freguesia à missa do Santíssimo Sacramento. não estando em jejum.123 E confessando. morador na barra de Perabasu. respondeu que não duvidou tal mas que creu e bem entendeu que recebia o verdadeiro corpo de Cristo. depois de o ter já dado a ela e a algumas mulheres que estavam abaixo dela. sua esposa. ela e as mais tomaram o lavatório . provando-se que as várias acusações que lhe moveram resultavam de uma conspiração de Maria Grega. simplesmente. natural de Lesminirne . se lhe acabaram as partículas. ANTT. em 4 de fevereiro de 1592 169 Disse ser grego de nação. Por não saber. e de sua família. e então se tornou ao sacrário por mais partículas e. por Heitor Furtado. mas que estando ali assim na mesa. assim como as ditas mulheres disseram. e vendo ela confessante que as ditas mulheres não tornaram a comungar. entretanto. pareceu-lhe que tornava a dar aquelas partículas por não ter sacrário em que as guardar e assim.2525. 169 . mas já se confessou disso a seus padres espirituais e disse que estava muito arrependida. assinou a seu rogo o notário apostólico. IL. filho de Domingos Grego e de sua mulher Inês de Flor. na graça. ficou entendendo que ela fizera mal em comungar segunda vez e em não declarar ao vigário como já tinha tomado o lavatório. gregos. de idade de vinte e oito anos. sabia ela que recebia o verdadeiro corpo de Cristo ou se duvidou disso. e lhe tornou a dar o Santíssimo Sacramento segunda vez. como moça de pouca experiência.Isto é: que já não mais exerce o ofício. respondeu que assim o crê bem e verdadeiramente. 171 .Trata-se de Smirna. dando o Santíssimo Sacramento o vigário que ora ainda é Miguel Martins. proc. grego. E continuando o dito vigário com algumas mulheres que estavam abaixo dela que já também tinham comungado. E foi perguntada se quando ela comungou segunda vez. respondeu que ela sabia muito bem que não se pode comungar estando em saúde senão em jejum. disse que na quaresma do ano passado. . e depois de o haver tomado. e disse que desta culpa pede misericórdia e perdão. E sendo mais perguntada. e que a isso era obrigada.Água que se dá de beber depois da comunhão. cuidando ele que ainda ela não tinha sacramentado. veio o dito vigário e cuidando que havia de começar a continuar a dar o sacramento dela confessante por diante. 168 100 . 170 . e ela o recebeu tendo já tomado o lavatório. sem consideração fez o sobredito. confessada pela obrigação da quaresma. cidade de Grécia. não advertindo ela que não tinha acabado de correr toda a mesa. quando viu tornar o vigário com o sacramento. E foi perguntada se crê ela que na hóstia consagrada está o verdadeiro corpo de Nosso Senhor e que são hereges os que isto negam.

que ora é de idade de treze anos. por ela ser moça áspera da condição e o não querer consentir. E isto lhes aconteceu a cada um deles algumas quinze ou vinte vezes em espaço de um mês. penetrando com seu membro o vaso traseiro do dito Marcos e cumprindo dentro em seu vaso traseiro. às vezes por si mesmo. às vezes chamado por eles. querendo ele por diante. os sentiu e entendeu o que eles faziam. que poderia durar esta desonesta conversação. porém não penetrou. donde tornou haverá um mês. dormiam ambos juntamente em uma cama. dormindo com ele carnalmente como homem com mulher. 101 . Assinou de cruz. em 5 de fevereiro de 1592 172 Disse ser cristão velho. e chegaram acontecer-lhes que ele Marcos e ele confessante pecaram o pecado nefando deitando-se ele confessante de bruços e sobre ele se deitava o dito Marcos. pelo que o dito Marcos se pôs também sobre o 172 . sendo ele de idade de treze ou quatorze anos. ANTT. e depois que se casou com ela esteve com ela somente um mês e se foi para o sertão. e cumprindo nele por detrás como homem com mulher por diante.6358. disse que haverá seis anos pouco mais ou menos que. que então seria de idade de dezessete ou dezoito anos. filho de Pero d’Aguiar d’Altero e de sua mulher Custódia de Faria. efetuando o dito pecado de sodomia de maneira que alternados o faziam. natural desta Bahia. solteiro. IL. porém que. Confessou mais. resvalando seu membro por baixo. E confessando. e que fora desta vez nunca mais até agora pecou com a dita sua mulher no dito nefando. a penetrou pelo vaso traseiro e nele cumpriu e consumou o pecado nefando.124 E confessando. vindo do sertão. quando isto lhe aconteceu ele estava cheio de vinho. morador com eles em Matoim deste recôncavo.Processado pelo visitador. confessante. que haverá três meses que. se ia de noite da sua rede em que dormia. antes de ir para o sertão. o qual se deitava entre eles irmãos. resvalar-lhe o membro ao vaso traseiro. E pelo semelhante modo fazia ele confessante. e nestes dois meses que tem coabitado com a dita sua mulher nunca dormiu com ela carnalmente pelo vaso natural. que com eles estava na cama. e sendo seu irmão mais moço de idade de doze ou treze anos. querendo dormir com ela por diante. pondo-se em cima dele por detrás. por nome Marcos. deitar-se com eles na sua cama. disse que há perto de dois anos que casou com a dita sua mulher. proc. ter cópula com a dita sua mulher. metendo seu membro desonesto pelo vaso traseiro dele confessante. um mameluco forro criado em casa. . e que duas vezes entenderam eles que o dito seu irmão Bastião d’Aguiar. naturalmente.Confissão de Antônio de Aguiar . lhe aconteceu com uma sua escrava pagã. na graça. Repreendido na mesa e penitências espirituais. consumando e efetuando o pecado de sodomia. solteiro. E que uma vez. cristão velho. lançando-se também de barriga o dito Marcos e ele. de idade de vinte anos.

125

dito seu irmão na mesma feição sodomítica e essas duas vezes sentiu ele confessante,
ao dito seu irmão Bastião d’Aguiar e ao dito Marcos, ajuntarem-se ambos
amigavevelmente nas mesmas posturas de sodomia, mas não sabe se ambos
consumaram o dito pecado, e das ditas culpas disse que pedia perdão.
E sendo perguntado, disse que lhe parece que somente as ditas duas vezes
foi sentido do dito seu irmão, e que ninguém outrem os viu, e que ele sabia que era
pecado mas não sabia que era tão grave.
E que, um dia, acaso ouviu praticar no pecado nefando e então soube quão
grave pecado é, e dali por diante se afastou da dita conversação e nunca mais cometeu o
dito pecado e se arrependeu muito.
Sendo mais perguntado, disse que o dito Marcos se veio a fazer ladrão e
de ruins manhas, e fugiu de casa haverá cinco anos, e poderá ora dar razão dele Diogo
Martins Cão, porque depois que fugiu esteve com ele quase de um ano.
E foi admoestado que lhe não aconteça mais semelhantes torpezas e que se
afaste de conversações de que pode receber dano em sua alma, e foi-lhe mandado que
se confesse no mosteiro de S.Francisco e que traga escrito a esta mesa.
À margem, no original manuscrito: Seu irmão Bastião de Aguiar está
metido em Religião dos Padres da Companhia e faz confissão neste livro, atrás, fol.49.
102 - Confissão de Dona Maria de Reboredo, cristã velha, na graça, em 5 de fevereiro de 1592

Disse ser cristã velha, natural de Setuvel, filha de Henrique Lobo e de sua
mulher Isabel de Reboredo, defuntos, de idade de quarenta e seis anos, casada com
Diogo Muniz Barreto, moradora na sua fazenda de Peroasu.
E confessando, disse que de três ou quatro anos para esta parte, pelo dito
seu marido fazer sem razões e dormir com as escravas moças da casa, e lhe dar muitas
ocasiões de se enojar e agastar, ela confessante, muitas vezes, em diversos tempos, com
cólera e agastamento, se pôs a falar só com Deus, dizendo que assim como S. Tomé não
creu senão vendo as chagas, que assim ela, se não visse vingança do dito seu marido,
seria como S. Tomé e não creria em Deus, e que esta blasfêmia disse muitas vezes em
diversos dias do dito tempo a esta parte, e que pede perdão e misericórdia.
E foi logo perguntada pelo senhor visitador se duvidou ela alguma vez da
nossa Santa Fé Católica ou se descreu alguma hora, ou duvidou de crer ser Deus Nosso
Senhor o verdadeiro Deus, respondeu que sempre teve e tem a Santa Fé Católica e que
nunca duvidou nem teve intenção de descrer de Deus Nosso Senhor, mas que com a
paixão dizia as ditas palavras.
E sendo mais perguntada, disse que lhe parece que nunca ninguém a ouviu,
e que está muito arrependida, e que bem sabe que errou muito em dizer as ditas
blasfêmias, e que não sabe ler nem escrever, e que nunca leu nem teve comunicação de
hereges nem luteranos, nem gente de má suspeita.

126

E foi-lhe mandado que torne a esta mesa no mês de abril primeiro que vem
e que tenha segredo.
Por não saber, assinou a seu rogo o notário apostólico.
103 - Confissão de Heitor Gonçalves, cristão velho, na graça, em 5 de fevereiro de 1592

Disse ser cristão velho, natural da ilha de Santa Maria, filho de Belchior
Luis e de sua mulher Margarida Gonçalves, de idade de trinta anos pouco mais ou
menos, casado com Catarina de Góes, cristã velha, morador em Toque Toque, lavrador.
E confessando-se, disse que sendo ele moço de idade de oito até quatorze
anos pouco mais ou menos, foi pastor de gado na própria ilha, e neste tempo dormiu
carnalmente, por muitas vezes, em diversos tempos e lugares, com muitas alimárias,
ovelha, burras, vacas, éguas, metendo seu membro desonesto pelos vasos das dirtas
alimárias, naturais delas, como se fora ele animal bruto de semelhante espécie, e muitas
vezes cumpriu dentro nos ditos vasos das ditas alimárias, consumando o pecado contra
a natura de bestialidade, e que lhe lembra que cinco vezes cumpriu por ser já então de
idade para isso .
E disse que destas culpas está muito arrependido e já se confessou delas e
que pede misericórdia, e foi logo mandado que se confesse e que torne a esta mesa no
mês de abril peimeiro que vem, e disse que lhe parecia que ninguém o tinha visto fazer
os ditos pecados.
173

104 - Confissão de Andresa Rodrigues, cristã velha, no tempo da graça

Disse ser cristã velha, natural do Rio dos Ilhéus, costa deste Brasil, filha de
Simão Rodrigues, mestre de açúcar, e de sua mulher Vitória Jorge, de idade de trinta
anos, casada com Antônio de Góes, oleiro, morador no termo de Paraguaçu.
E confessando-se, disse que haverá dois anos que em sua casa, dizendo-lhe
Felipa, sua negra da terra, certas coisas ruins de seu cunhado Manuel de Góes, também
oleiro que já não usa muito, ela, agastada contra o dito seu cunhado que lhe negava o
que a negra dissera, disse que tanta verdade falava a dita sua negra como o Evangelho
de São João, e desta culpa disse que pedia perdão.
E foi perguntada se sabe ela que a verdade do Evangelho é infalível, em
que nunca pode haver engano, e que a sua negra, ainda em caso que fale verdade, pode
se enganar, respondeu que bem crê a certeza infalível do Evangelho, mas que, com
agastamento, sem considerar, disse a dita blasfêmia.
E sendo mais perguntada, disse que só o dito seu cunhado a ouviu.
E foi-lhe mandado ter segredo e que torne a esta mesa no mês de maio
primeiro.
173

- No início do século XVII, a bestialidade ou brutalidade deixou de pertencer ao foro inquisitorial
e retornou ao foro secular.

127

E declarou que o dito seu cunhado a repreendeu, dizendo-lhe que era caso
da Santa Inquisição, e ela se não desdisse, mas arrependeu-se.
Por não saber, assinou a seu rogo o notário apostólico.
105 - Confissão de Lucas d’Escobar, meio cristão novo, na graça, em 6 de fevereiro de 1592

Disse ser meio cristão novo, natural de Matoim, termo desta cidade, filho
de Diogo Vaz Escobar, cristão velho, defunto, e de sua mulher Violante Antunes, cristã
nova, defunta, solteiro, de idade de vinte e um anos, morador em Matoim.
E confessando-se, disse que haverá três anos pouco mais ou menos que,
morrendo-lhe escravos em sua casa, ele vazou e mandou vazar fora toda água dos potes
que havia em casa, e que isto fez três ou quatro vezes nas mortes de três ou quatro
escravos, sem saber que era cerimônia judaica, mas somente tinha visto a dita sua mãe
fazer o mesmo por três ou quatro vezes, morrendo-lhe também gente, e que sem saber a
causa porque sua mãe o fazia, o fez, parecendo-lhe que ia naquilo alguma coisa boa.
E foi logo admoestado pelo senhor visitador, com muita caridade, que, pois
está em tempo de graça, que, para a alcançar, faça confissão verdadeira e declare sua
intenção, porque não se pode presumir senão que ele é judeu e vive na lei de Moisés e
não tem a fé de Jesus Cristo, pois faz a dita cerimônia tão conhecida e principal dos
judeus, respondeu que nunca teve intenção de judeu na dita cerimônia.
E sendo mais perguntado, disse que nunca viu fazer a dita cerimônia senão
à dita sua mãe, e que nunca ninguém lhe ensinou a lei de Moisés nem contra a de
Cristo.
E foi-lhe mandado ter segredo e que não se saia desta cidade sem licença
do senhor visitador.
106 - Confissão de Luisa Rodrigues, mestiça, na graça, em 6 de fevereiro de 1592

Disse ser mameluca, natural deste Recôncavo, filha de Francisco
Rodrigues, escrivão, cristão velho, e de Isabel Rodrigues, índia deste Brasil, defunta, de
idade de vinte e um anos, casada com Antônio Pires, lavrador, morador na Tassuapina.
E confessando-se, disse que haverá seis ou sete anos, no tempo que se
levantou abusão da santidade entre os índios e cristãos desta capitania, que ela, como
ignorante, creu na ditta erronia por espaço de dez ou doze dias, crendo que havia de
tornar Nossa Senhora e Nosso Senhor a andar cá no mundo, e outros despropósitos que
os seguidores da dita abusão gentílica diziam, mas que se foi confessar e o confessor a
absolveu, e ela está muito arrependida de sua ignorância.
Por não saber, assinou a seu rogo o notário apostólico.

nem desculpa. e ela também é alfaiata. por nome Mécia. E sendo mais perguntada. e assim se deleitavam como homem com mulher. E confessando-se. cristã velha. que é caça do mato de carne. lavrador e pescador. com as fraldas afastadas. em 6 de fevereiro de 1592 174 Disse ser cristã velha. e ela confessante sentia-se mal disposta e disse às outras que aquele dia era sábado. como costuma cumprir a mulher com o homem.Confissão de Guiomar Piçarra . lavrador. respondeu que não sabia que eram senão pecados mortais de grande ofensa a Deus. a dita Ana d’Alveloa mandou ir à merenda um tatu. natural de Moura. ANTT. e que ela por doente a comeria e. mulher de João d’Aguiar. e que já as confessou a seus confessores. moradora nesta cidade. que então seria de idade de dezoito anos. e Maria Nunes. todas amigas moradoras e vizinhas em Itaparica. em diferentes dias. todas quatro a comeram sem ter necessidade. e Ana Alveloa.Foi processada mas. digo. alcorcovada. e que comer carne nos dias proibidos é culpa heretical. e foi-lhe mandado tornar a esta mesa no mês de maio. 174 . estava aí das portas adentro também uma negra de Guiné. um dia. e todas elas quatro comeram a dita carne no dito sábado à merenda. à merenda. já defuntos. casada com Manuel Lopes. sendo sábado. proc. abraçando-se e combinando e ajuntando suas naturas e vasos dianteiros um com o outro. ladina. em Portugal. moradora em Itaparica. nem sabe se a ditas Mécia cumpriu. porém não se lembra nem se afirma se ela confessante cumpriu alguma das ditas vezes. sabendo ser sábado. . E do costume disse nada. Confessou mais. cozido. que não se podia comer carne. disse que a dita Ana d’Alveloa é mameluca e que a dita Mécia é ora casada com um negro alfaiate dos padres do Colégio. lavrador. no tempo da graça do Recôncavo. de idade de trinta e oito anos. sofreu apenas repreensão na mesa e recebeu penitências espirituais. se ajustaram ambas em pé uma com a outra. estando ela em sua casa. mas é amiga de todas e prometeu ter segredo. mulher de Gonçalo Gonçalves. E foi logo poerguntada pelo senhor visitador se sabia ela que o dito ajuntamento carnal entre mulheres é sodomia. contudo. que haverá cinco ou seis meses que. juntamente com Maria Pinheira. estando moradora no Rio Vermelho em casa de Antônio Rodrigues Belmeche. e chegaram ambas a tão desonesta amizade que duas ou três vezes. E das ditas culpas disse que pede perdão e que está muito arrependida. mulher do dito Gaspar Nunes. IL. filha de Belchior Piçarra e de sua mulher Maria Rodrigues. considerando-se que veio na graça.128 107 . em casa de Gaspar Nunes. disse que sendo de doze ou treze anos.1275.

assinou a seu rogo o notário apostólico. na Bahia. E confessando-se. mas não sabe em que freguesia. cristã velha. a saber. lavrador e de sua mulher Isabel Dias. mas que ela. viúva. filha de Pero Pais e de Beatriz da Silva. não lhe lembra o certo. mameluco. natural desta cidade. filha de João Pinheiro. fazendo como se fora homem com mulher por muitas vezes em diversos tempos que não lhe lembra o número. casada com João d’Aguilar. e assim também com outra moça maior que ela. E sendo perguntada. casada ora com Gonçalo Gonçalves. moça parda que ora é casada com André Rodrigues. de idade de quarenta e seis anos pouco mais ou menos. ora uma debaixo. pescador. casada com Manuel Lopes. Saiu em auto público. assado. e Guimar Piçarra.Confissão de Madalena Pimentel. salvo a dita Ana Alveloa. em 6 de fevereiro de 1592 175 Disse ser cristã velha. cristã velha. mulher que foi de Simão Gomes Varela. todas vizinhas e amigas. tido por cristão novo. com cada uma delas fez o dito pecado sem o dar a saber às outras. morador em Peroasu. na graça. e Maria Nunes. que é uma caça do mato. confessante. moradora em Itaparica. com vela acesa na mão. secretamente.129 108 . IL. sabendo todas que não era dia de 175 . proc. que em casa de Gaspar Nunes. disse que lhe parece que nenhuma pessoa as viu. em 6 de fevereiro de 1592 Disse ser cristã velha. em Itaparica. por nome Ana Fernandes.10749. E confessando-se. teve amizade tola e de pouco saber com outras moças de sua mesma idade. e que as ditas moças nem sabiam umas as outras isto. defuntos. que estava parida e sangrada. que parecia ser então de treze anos pouco mais ou menos. filha de Beatriz Eanes. de idade de trinta e oito anos. e com cada uma das sobreditas teve ajuntamento carnal ajuntando seus vasos. alternativamente. moradora na sua fazenda. 109 . E disse que das ditas culpas pede perdão e que já delas se confessou a seus confessores. e abjurou de leve suspeita na fé. todas o comeram sem terem necessidade de comer carne. . lavrador. na freguesia de Passé. que ora é casada com João Rodrigues Palha. mandou vir para merendar a dita Ana Alveloa um tatu. segundo lhe parece.Confissão de Maria Pinheira . e com Íria Barbosa. viúva. de modo que sendo sábado ou sexta-feira. natural de Pernambuco.Foi processada por ter omitido que Paula de Siqueira lia livro proibido. Mícia de Lemos. a qual Ana Fernandes está nesta capitania e casada. porém nunca usaram de nenhum instrumento penetrante mais que somente com seus corpos. e ouviu dizer que a dita viúva Maria Nunes estava prenhe. Por não saber. estando juntas Ana Alveloa. na graça. ANTT. sua mulher. ora de cima. disse que sendo ela moça de nove até onze anos. disse que haverá dois ou três anos. morador nesta cidade.

cônego que foi desta Sé. desta cidade para o dito Porto. moradora em Tamararia deste Recôncavo. onde a ele confessante e a seus companheiros aconteceu . mestiça. e Isabel. na graça. também defunta. levantadas as camisas delas. em 7 de fevereiro de 1592 Disse ser mameluca. por um pequeno de espaço. disse que haverá quatro anos que. e dizendo ela confessante que era velhacaria comê-la em tal dia. filha de Diogo Marques. E sendo perguntada. 111 . natural desta cidade. e assim juntaram seus vasos dianteiros como se fora homem com mulher.130 carne. que chegou a este porto aos quatorze deste janeiro passado. casada com Antônio Machado. e que não sabe se a sobredita cumpriu. casado com Felipa Gonçalves. e de sua mulher Violante Gonçalves.Confissão de Isabel Marques. E confessando-se. contramestre de uma nau que veio do Porto por nome Nossa Senhora do Castelo. E confessando-se. que então seria de idade de quatorze ou quinze anos e ora é casada com Diogo Rodrigues. morador na cidade do Porto.Confissão de Francisco Pires. moradora na freguesia de Sergipe do Conde de Linhares. e que já se confessou dele a seu confessor. pescador. os quais os levaram à cidade de Antona. sapateiro que já não usa. filho de Domingos Pires. e que ninguém outrem viu a ela confessante fazer o dito pecado. E chegaram ambas a tão torpe ajuntamento que a dita Catarina Baroa se pôs em cima dela. foram tomados na altura das Ilhas pelos ingleses luteranos. em Vila Velha. assinou a seu rogo o notário apostólico. folgar com sua filha Catarina Baroa. E disse que lhe parece que ela confessante não cumpriu. disse que. foi a casa do Barão Lourenço. de idade de trinta e sete anos. E sendo perguntada. sem haver entre ela instrumento penetrante mais que seus corpos. índia desta terra. termo desta cidade. disse que todas estavam em seu siso e sabiam o que faziam e que as não viu outrem. indo ele em uma nau de que era mestre Antônio de Freitas. disse que viu a mesma Catarina Baroa fazer o mesmo pecado da mesma maneira duas ou três vezes com outras moças menores de dez anos. no tempo do Recôncavo. cristão velho. e disse que da dita culpa pede perdão e misericórdia. Por não saber assinou a seu rogo o notário apostólico. natural da cidade do Porto de Miragaia. de idade de trinta anos. seu vizinho. Por não saber. que lhe lembre. 110 . defunto. e isto por uma vez. sendo ela moça de dez anos pouco mais ou menos. alfaiate. cristã velha. defuntos. em 7 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho.

em 7 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. e iam a dita igreja por curiosidade de verem. cristão velho. nem imagem. morador da mesma cidade no arrabalde. E confessando-se. comeu carne de vaca assada. ou outro de obrigação de jejum. E destas culpas disse que pedia perdão. que nunca creu na seita luterana e sempre teve a fé de Cristo. Cristovão Pires. sobre um pau. calafate e marinheiro. em diferentes dias. mercador de Meijão Frio. no caminho. também podendo escusá-la e sem desculpa. um dia de sábado ou sextafeira. de idade de vinte e quatro anos pouco mais ou menos. uma águia de metal. respondeu que sabia que era pecado e ofensa de Deus. .131 que duas vezes. onde não havia retábulo. morador em São João do Porto. Gaspar Gonçalves. nem cruz mais que somente no meio dela. porque tinha farinha para poder passar aquele dia. também sendo dia que a igreja defende carne. morador lavrador de Paripe que presente estava o repreendeu. indo ele confessante pelo mato em busca de uns negros que fugiram a seu pai. Antônio Carneiro. Diogo Gonçalves. E foi logo perguntado se sabia ele que estas culpas são hereticais. piloto da mesma nau. que tudo é distância de três léguas. e uma das ditas vezes estiveram presentes a um batismo de uma criança que os luteranos na mesma igreja batizaram. 112 . e disse que destas culpas pedia perdão.Confissão de Antônio de Serpa. mercador. solteiro. Cosme Gonçalves. e que João Ribeiro. filho de Duarte de Góes de Mendonça e de sua mulher Francisca de Carvalho. e Domingos Dias. morador em Itapoã. almoçou carne de caça do mato assada. nomeou os seguintes: o dito Antônio de Freitas. e entraram desbarretados. no tempo do Recôncavo. disse que a dita carne de vaca lhe viu comer um criado de seu pai por nome Francisco Pires. marinheiro. Baltasar André. todos casados e moradores na dita cidade do Porto e seus arrabaldes. entraram na igreja dos luteranos. E que assim mais poucos dias disto. morador nesta cidade em casa de seu pai. marinheiro. e outra terceira vez chegaram à porta da dita igreja e estiveram um pouco ouvindo o pregador luterano que estava pregando. e contudo ele a comeu sem necessidade nem desculpa. indo ele de sua casa para a fazenda de seu pai. que veio nesta nau. lavrador. e sempre desbarretados. ele. e declarou que o dito Beltasar André está ora nesta cidade. natural da cidade de Lisboa. E sendo mais perguntado. freguesia de Pirajá. carpinteiro e marinheiro. disse que haverá um ano que. o qual também o repreendeu. E sendo perguntado pelos companheiros que fizeram o mesmo como ele.

114 . 113 . E foi perguntado se sabia ele que comer carne nos dias defesos é culpa heretical. cunhado deste contramestre. morador em Matoim. . morador na praça desta cidade. e de sua mulher Elvira de Barrimão. contramestre do galeão. e Amador Filgueira. na graça. em casa de Jorge de Magalhães. chegando a um grau da banda do norte. da Cachoeira. e um castelhano por nome Francisco Rodrigues. natural da quinta do Telhado. E tudo isso faziam seus companheiros. e um calafate. todos moradores na cidade do Porto. em 7 de fevereiro de 1592 Disse ser castelhano. solteiro. filho de Francisco Bescainho. quando eles faziam suas orações luteranas.Confissão de João Biscainho. obreiro. a saber.132 E foi logo admoestado pelo senhor visitador que nunca mais coma carne em dias defesos porque será gravissimamente castigado. respondeu que sabe ser pecado grave mortal. e outros cujos nomes lhe não lembra. porque a podia escusar. E confessando-se. foram tomados de franceses luteranos em cuja companhia andaram alguns três meses. filho de Cristovão Gonçalves e de Maria de Azevedo. cristão velho. Diogo de Pina. em 7 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. e Domingos Fernandes. e Gaspar Gonçalves. ourives. na era de mil quinhentos e oitenta e cinco. em geral. que na quaresma do ano passado comeu também carne sem necessidade nem desculpa. mameluca. na graça. toda a quaresma. de idade de vinte nove anos. de idade de vinte e seis anos. morador em casa do mesmo Magalhães. E muitas vezes. ele se ia pôr desbarretado com eles sem ser constrangido a isso. Confessou mais. e Jácome Rodrigues. no Curral de João de Siqueira. mercador. defuntos. morador na Pitanga. e com ele fizeram o mesmo Baltasar Camelo. casado com Branca Mendes. passageiro. mameluco. E ouviu dizer que. disse que. mercador. comarca da cidade do Porto. comeu ele sempre carne sem desculpa. e Miguel Gomes Bravo. natural de Baeca. mercador. no qual tempo todo. vindo em um galeão chamado de Nossa Senhora d’Ajuda.Confissão de Francisco de Azevedo. e foi admoestado pelo senhor visitador que não coma mais carne nos dias proibidos porque será gravissimamente castigado. lavrador. nos dias que a igreja defende carne. morador em Miragaia. e Gaspar de Banhos. e assim mesmo a comia o capitão Rodrigo Martins. e disse que destas culpas pedia misericórdia. podendo muito bem escusála. castelhano. em todo o arraial se comia carne. alfaiate.

no tempo do Recôncavo. blasfemou dizendo “arrenego de Jesus Cristo”. disse que a dita Ana Rodrigues não era presente. praticando com um mancebo.Confissão de Lucas Gato. nem hereges. E foi-lhe mandado que torne a esta mesa no mês de maio primeiro que vem. no tempo do Recôncavo. disse ele confessante que tão bom era o estado de bem casado como o estado dos religiosos. natural da Ilha Terceira. cuidando que essa era a verdade. solteiro. E confessando-se. lavrador em Itaparica. 115 . e esta blasfêmia disse uma só vez e que não sabe se lha ouviu sua mulher ou outrem alguém. no original manuscrito. o qual lhe não lembra quem é. à noite em sua casa. nem outra pessoa alguma mais. nem conversou com eles. E sendo mais perguntado. não se desdisse e ficou em seu dito. acerca do mesmo mancebo que andava para casar. de idade de vinte e três anos. e que estava em seu siso. há um sinal do confessante que não sabia assinar. em 7 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. filho de Gerônimo Pereira. Assinou em cruz. até que se confessou e o confessor o desenganou. e contudo ele confessante. repreendeu a ele confessante. e que nunca andou entre hereges nem luteranos.Confissão de Paulo Adorno. estando agastado pelejando com sua mulher. e era antes de cear. E o dito mancebo. E desta culpa disse que pedia misericórdia. que lhe não lembra quem era. disse que haverá oito meses que. e estas palavras disse aprovando-as por verdade. mestiço. sendo morador em Cotegipe. À margem. 116 . viúva. cristão velho. e de sua mulher Joana Gata. nem duvidou dele. E foi-lhe mandado que torne a esta mesa no mês de maio que vêm. em 8 de fevereiro de 1592 . E sendo perguntado. em Tamararia. e que não sabe ler. porfiando. estando um dia em casa de Ana Rodrigues. e que não sabe ler nem andou entre luteranos.133 E confessando-se. um dia. disse que haverá dois anos que. disse que em seu coração não deixou de crer em Cristo nunca.

E foi-lhe mandado ter segredo. cristão novo. na graça. haverá três anos que foi ao sertão de Sergipe na companhia de Cristovão de Barros. que é homem pretelhão muito bexigoso. em 9 de fevereiro de 1592 Disse ser cristão velho. de idade de trinta anos. cujo pai foi morador em Vila Velha. de idade de trinta e nove anos. e a outra durou três meses. viúvo. também em dias proibidos. lavrador. e nas ditas jornadas fizeram o mesmo com ele o dito seu companheiro Brás Dias. disse que haverá dois anos pouco mais ou menos que. mameluco. morador na barra de Jaguaripe. solteiro. 176 . a comeram por muitas vezes não lhe lembra número certo. e assim também outros que ora lhe não lembram. natural desta Bahia.Confissão de Pedro Álvares Aranha. defunto. carne. moradores em Ponte de Lima. freguesia de Paripe.134 Disse ser mameluco. se veio a mover questão entre eles acerca dos estados. comeu também carne João Ribeiro. natural de Ponte de Lima. morador em Matoim. junto de São Bento. Foi-lhe mandado que torne a esta mesa no mês de maio primeiro que vem. mameluca. o número lhe não lembra. assim na quaresma como nos mais dias proibidos. e sem terem necessidade e podendo escusar carne. um dia. foi duas vezes ele confessante ao sertão. filho de Fernão Pires da Costa e de sua mulher Marta Dias. respondeu que não. uma na companhia do capitão Antônio Dias Adorno. arrabalde desta cidade. os quais ora lhe não lembra quem foram. e destas culpas disse que pedia perdão. seu camarada e morador em Paripe.Foi Governador entre 1573 e 1578. cristão velho. E sendo mais perguntado. homem branco. e de sua mulher Catarina Dias Adorno. ou em alguma outra parte. pelo que vem pedir misericórdia. E confessando-se. morador em Cotegipe. Que a primeira. E sendo perguntado se leu alguns livros de hereges ou luteranos ou se comunicou e andou com eles em suas terras. ambos sós. e que torne a esta mesa no mês de maio primeiro que vem. nas quais jornadas ele comeu carne por muitas vezes em todo o tempo que elas duraram. e ele confessante teve e afirmou e sustentou que o estado dos solteiros e casados era tão bom como o dos religiosos. filho de Francisco Rodrigues. E nesta opinião ficou enganado até agora que leu o édito da fé e monitório geral pregado nas portas da sua freguesia. onde também comeu por muitas vezes. disse que no tempo que foi governador deste Brasil Luis de Brito d’Almeida . podendo-a escusar e sem desculpa. E que. já defunto. 176 117 . da companhia de Adorno. durou nove meses. e do costume disse nada. outrossim. estando ele praticando com dois amigos seus. E confessando-se. e outra ele e Brás Dias. . disse que na dita jornada de Cristovão de Barros.

natural de vila do Conde. haverá dois meses pouco mais ou menos que. nos tempos da necessidade. cristão novo. morador em Matoim. mas que somente lhe lembra que. pois Deus o fizera. carpinteiro da Ribeira. folhas 150. na graça. sem nunca saber nem entender que era juramento judaico. de idade de trinta e quatro anos. 177 . E que manda também nos domingos e santos trabalhar aos seus a cortar embira para atar a cana e carregar a barca.Confissão de Francisco Pires . ele confessante disse o mesmo. e assim também disse o mesmo Antônio de Souza. de maneira que cada dia a veste por limpeza. e disse que pelo juramento que recebido tem lhe lembra mais. em 10 de fevereiro de 1592 178 Disse ser cristão velho. IL.135 118 . E outrossim. E confessando-se. e o dito juramento jurou muitas vezes. viúvo. que usa muitas vezes deste juramento. e logo ele confessante. que já fez confissão neste livro. porque melhor era o dos religiosos. filho de João Pires. por muitas vezes. porém que a veste também todos os mais dias da semana e domingos. proc. em 9 de fevereiro de 1592 Apareceu Nuno Fernandes. respondeu que. 177 119 .Francisco. frei Belchior. 17810. cristão velho. o dito Comissário dizia que isso era o certo. em o porto de Baltasar Barbosa. e perante diferentes pessoas que ora lhe não lembram. trabalhando. pois. e não lhe lembra que alguém alguma vez o repreendesse disso. 178 . em Sergipe. ANTT. tivera também para si o mesmo de ser o estado dos casados melhor que o do religioso. morador em Sergipe do Conde. disse que de dez ou doze anos a esta parte. defunta. E que este erro teve consigo todo o dito tempo. solteiro.Confissão de Nuno Fernandes. e de sua mulher Felipa Dias. e ele o não contradizia nem repugnava. na graça. cuidando ser assim verdade. respondeu que tem dito a verdade. “pelo mundo que tem a alma de meu pai”. porque vê que assim o costumam fazer geralmente nesta terra. cristão novo. carpinteiro da Ribeira.Processado apesar de confessar na graça e não ser denunciado. Mas que o comissário de S. disse e sustentou que o estado dos casados era melhor que os outros estados dos religiosos.Embira: planta cuja casca é rija e serve para atar. em diversos tempos e lugares. Antônio de Souza. dizendo que ele. E foi tornado admoestar que faça confissão verdadeira. abjurou de leve suspeita na mesa e recebeu penitências espirituais. lhe declarara que dizer isto era heresia. disse que é costumado a vestir todos os sábados camisa lavada. e assim lhe parece que o tinha ouvido a algumas pessoas que lhe não lembram. .

e tangendo os pandeiros dos gentios. cantando suas cantigas gentílicas pela língua gentílica que ele bem sabe. disse que de idade de dezoito anos até idade de trinta e seis anos viveu como homem gentio. seu pai. . negra do gentio deste Brasil. e empenando-se pela cabeça de penas. IL. homem branco. e de Joana. por andarem sempre em guerra. ou em suas terras. pena pecuniária de 5 mil réis e proibição de voltar ao sertão. Confessou que haverá vinte e dois anos pouco mais ou menos que. duas. Luis de Brito. ANTT. e tangendo seus atabaques e instrumentos. natural de Pernambuco. como verdadeiro cristão. que foi governador nesta capitania na ausência do governador. em 11 de fevereiro de 1592 179 Disse ser cristão velho. 179 . mulher branca. Confessou que haverá vinte anos pouco mais ou menos que ele foi ao sertão de Porto Seguro em companhia de Antônio Dias Adorno. as batizaram e fizeram cristãs. casado com Isabel Beliaga. era por cumprir com a obrigação. Confessou que haverá dezesseis anos pouco mais ou menos que. cuidando que não havia de morrer nem tendo conhecimento de Deus. porém nunca deixou a fé de Cristo e essa teve sempre em seu coração. na qual jornada gastou quatro ou cinco meses e.Confissão de Domingos Fernandes Nobre. das quais ele foi padrinho quando.136 E foi logo perguntado se leu em alguns livros de hereges ou luteranos.Processado pelo visitador. tingindo-se pelas pernas com uma tinta chamada urucum e outra jenipapo. E confessando suas culpas. costa deste Brasil. e que estas coisas fez por dar a entender aos gentios do dito sertão que ele era valente e não os temia. morador nesta cidade e não tem ofício. no último dia dela. cristã velha. e foi-lhe mandado que torne a esta mesa no mês de abril primeiro que vem. no dito sertão ele tinha mulheres. por mandado de João de Brito d’Almeida. mameluco. e sua vida no dito tempo foi mais de gentio que de cristão. que são uns cabaços com pedras dentro. pedreiro. respondeu que não. e no dito sertão ele usou dos usos e costumes dos gentios. nem se encomendando a Deus. à conquista do ouro. pecou no pecado da carne com duas moças suas afilhadas. por capitão de uma companhia a fazer descer o gentio para o povoado. foi ele confessante ao sertão de Arabó. que ia para a Paraíba. onde foi “grandemente repreendido”. defuntos. filho de Miguel Fernandes. de alcunha Tomacaúna . cristão velho. e posto que se confessava pelas quaresmas. de idade de quarenta e seis anos. mestiço. não rezando. Abjurou de leve suspeita na mesa. bailando com eles. ou se andou entre eles. Penitências espirituais. proc. sendo elas gentias. 120 . parecendo-lhe que tanto pecado era dormir com elas sendo suas afilhadas como se não o foram.10776. em Pernambuco. no tempo da graça do Recôncavo.

e onde todos diziam “beber” entenda-se “fumar”. morador em Pirajá. e se tingia ao seu uso gentílico. as quais coisas todas fazia em descrédito da lei de Deus porque os gentios. senhor do engenho seu. como escaparam. tornou ao sertão dos Ilhéus. e depois de rasgar a carne levemente pelo couro. e bebia com eles os seus vinhos e bailava e tangia e cantava com eles ao seu modo gentílico. e chorava e lamentava propriamente como eles ao seu uso gentílico. dizendo que lhes haviam de lançar a morte para todos morrerem. que é o fumo de uma erva que em Portugal chamam a erva santa . nádegas e braços ao modo gentílico. por mandado do mesmo governador. e teve sete mulheres gentias que lhe deram gentios. ele confessante e João de Remirão. no sertão de Pernambuco. O qual riscado costumam fazer os gentios em si quando querem mostrar que são valentes e que tem já mortos a homens. e outras 180 180 . porque vendo isso os gentios lhe fugiram. e no dito sertão lhe deram também os gentios suas filhas gentias por mulheres. o tinham também por gentio e lhe chamavam sobrinho e estas coisas fazia (tendo em seu coração a fé de Cristo). no Rio de São Francisco. o qual riscado se faz rasgando com um dente de um bicho chamado paca. e depois de sarado. termo desta cidade. como ferretes. e andava nu como eles. ficam os lavores pretos impressos nos braços e nádegas. e adagas e facas grandes de Alemanha. e tratou com eles e bebeu seus vinhos e fez seus bailes e tangeres e cantares. para os gentios lhe darem bom tratamento. por mandado do dito governador Luis de Brito. tudo como gentio. se fingiram serem feiticeiros da maneira que os gentios costumam ser. e então se riscou com ele pela dita maneira Francisco Afonso Capara. e bebia com eles o seu fumo. para sempre. na qual jornada gastou alguns seis meses. como qualquer gentio. por capitão doutra capitania a fazer descer gentios para o povoado. . Confessou que haverá vinte anos. Confessou que haverá quinze anos pouco mais ou menos que tornou ao mesmo sertão de Arabó desta capitania. ou onde os põem. que se levantavam contra ele. e por ele confessante se ver então em um aperto dos gentios. que mora vizinho de Tassuapina desta capitania. e se riscou pelas coxas. esfregam por cima com uns pós pretos. deu uma espada e rodelas. e bailava e cantava e tangia com os gentios ao seu uso gentílico. e tinha duas e três juntamente por mulheres. vendo-o fazer as ditas coisas. e fazendo algumas invenções e fingimentos para que eles assim o cuidassem e para escaparem que os não matassem.137 ao modo gentílico. Confessou que haverá treze ou quatorze anos que.Trata-se do tabaco. onde gastou quatorze meses. E porque eles se levantaram contra ele e seus companheiros. se fez riscar por um negro do dito modo para se mostrar valente e assim escapou. as quais eram gentias filhas de gentios que lhas davam por mulheres. e nele se empenou pelo rosto com almeçega e se tingiu com a tinta vermelha de urucum ao modo gentílico. e as teve ao modo gentílico.

nem pássaro. autor e inventor da dita erronia e abusão. e a outros chamavam Santos. os quais traziam consigo o dito ídolo. E pedindo-lhe os ditos negros que os deixasse fazer uma procissão com o dito ídolo. mas era como quimera .Além de significar “coisa imaginada”. e contas de rezar. que também era cristão. nem peixe.138 armas aos gentios que são inimigos dos cristãos e os matam e guerreiam quando tem lugar para isso. dos quais muitos e a mor parte deles eram cristãos que. natural do Algarve. lhe tirou o chapéu e o reverenciou fingidamente. 182 . e a outras chamavam santas. os quais companheiros eram Domingos Camacho. e tinham no altar um ídolo de uma figura de animal que nem demonstrava ser homem. noroeste argentino. na América Espanhola. e uma gentia chamavam mãe de Deus. foi ele confessante. ele confessante lhes deu licença para isso. no sertão desta cidade. fazendo os ditos batismos e fazendo igrejas com altares e pias de água benta. e sacristia. e topou com uma manga de negros do gentio deste Brasil. capitania dos Ilhéus. E sendo assim levantada esta abusão. e Pantaleão 181 182 181 . e vendo ele confessante o dito ídolo. deles gentios e deles cristãos. por enganar aos que o traziam. donde ele confessante tinha partido para o dito sertão. por capitão de uma companhia de soldados que consigo levou para desfazer a dita erronia e prender e trazer os sustentadores dela. achou que os sustentadores da dita abusão fugiam por sentirem que iam contra eles. fugiram para o dito chamado Papa. e mandou aos seus negros que consigo levava que os ajudassem a fazer a dita procissão. quimera era também “monstro fabuloso com cabeça de de leão. donde ele fugiu para o sertão. Confessou que haverá cinco ou seis anos pouco mais ou menos que. e com eles fez ele seus sagrados e tangeu seus instrumentos gentílicos ao seu uso daquela sua abusão chamada Santidade. o qual dizia ser Deus. e punham -lhe nomes a seu modo. E ordenou a dita erronia.Possivelmente Tucumán. nem bicho. no qual adoravam. E então mandou ele confessante a alguns de seus companheiros com o dito ídolo que o levassem a Fernão Cabral de Taíde. o qual se chamava Antônio e era do gentio deste Brasil. por mandado do governador Manuel Teles Barreto. e a dita negra chamada mãe de Deus era mulher do dito Papa ao seu uso gentílico. e faziam entre si batismos com candeias acesas. se alevantou entre os gentios uma erronia e abusão a que eles chamavam Santidade. e mesas de confrarias e toucheiros. e tinham um gentio a que chamavam Papa. dando-lhes a entender que cria naquela sua abusão. que ora está nas Índias de Tocumão . e se criou em casa dos padres da Companhia de Jesus no tempo que eles tinham aldeias em Tinharé. E indo ele confessante já pelo sertão dentro. lançando água pelas cabeças dos batizados. corpo de cabra e cauda de dragão”. arremedando e contrafazendo os usos da igreja cristã. à sua fazenda de Jaguaripe. os quais batismos fazia o dito chamado Papa. depois de serem cristãos. .

e dantes já lhe tinha mandado um traçado e o dito vestido com que ele vinha vestido.Foi Governador de 1578 a 1581. E ao dito chamado Papa deu ele confessante uma espada de cavalgar. ao qual fumo os seguidores da dita abusão chamavam sagrado. em ordem. e tangeu e cantou com eles seus instrumentos e suas cantigas em suas linguagens. mas fingidamente. e logo o dito chamado Papa veio vestido com uns calções de raxa preta e uma roupeta verde e um barrete vermelho na cabeça. com o dito ídolo. escreveu uma carta ao dito Fernão Cabral em que lhe dizia que lhe mandava ali aquele ídolo com aquela gente seguidora da dita abusão. E que depois de assim despedir aos ditos seus companheiros que levaram a dita sua gente e ídolo. com licença do governador Lourenço da Veiga . o qual chamavam papa. e lhe chamassem filho de Deus e lhe chamassem também São Luis. . ele confessante foi por diante. e os mais que o seguiam em fileiras. e saltou e festejou com ele ao seu modo gentílico. por que não corresse ele perigo no sertão. fazendo seus tangeres e cantares da maneira sobredita. que poderiam ser algumas sessenta almas. que então governava este estado. adorou ao dito chamado Papa e se ajoelhou diante dele dizendo estas palavras. para a dita fazenda do dito Fernão Cabral. que lhes fizesse boa companhia enquanto ele confessante ia por diante ao sertão. pelos quais. foi ele ao sertão desta capitania em companhia de Luis Lopes Pessoa. levando já consigo novo socorro de companheiros que lhe mandou o governador Manuel Teles. confessante. para fazerem descer gente do gentio e trazê-la consigo para o povoado. lhe mandou dizer o principal dos sustentadores daquela erronia. E logo ele confessante fez também o pranto ao dito chamado Papa. Confessou mais. que tudo era invenção e cerimônia daquela abusão chamada Santidade. E ele. e falando certa linguagem nova. E chegando a um passo onde chamam Palmeiras Compridas. e as fêmeas e crianças todas detrás com as mãos levantadas. e aceitou deles quatro mulheres que lhe deram por mulheres ao seu modo gentílico. E o dito chamado Papa.139 Ribeiro. segundo o costume gentílico. E que todas estas coisas fez e consentiu sem a intenção nem ânimo de gentio. trazendo consigo muitos dos seus sequazes em fileiras de três. . na qual entrada gastou um ano. que ele não passasse daquele lugar sob pena de obediência. que vinha na dianteira. como trouxe. e no dito tempo fez e usou com os ditos gentios os seus costumes gentílicos. que antes deste caso da dita abusão. vinham fazendo meneios e movimentos com os pés e a mão e pescoço. 183 184 183 184 . lavrador e morador na fazenda de Diogo Correa. porque ele viria logo aí ter. e consentiu que adorassem a ele confessante.Traçado ou terçado: espada curta. e bebeu o fumo com ele. “adoro-te bode porque hás de ser odre”. para enganar aquela gente daquela erronia e a trazer consigo.

em todos os ditos tempos que andou nos ditos sertões. respondeu que há vinte e três anos pouco mais ou menos que é casado. homem branco d’Alentejo. E declarou que. espada. porém que estava diante de todos e não viu se adoraram. mandar dar uma espada aos ditos gentios por três peças. égua. capitania dos Ilhéus. comeu sempre por muitas vezes carne em todas as quartesmas e mais dias em que a igreja defende carne.Coura: gibão de couro com abas. a fazer descer gentio donde ora vem ao sertão de Pernambuco. que ora está no rio de São Francisco. ele as não recebia por palavras algumas da Igreja. . E assim confessou que. e quando podem os guerreiam e matam. o qual ora lhe parece que está em Paraguaçu. e muitas vezes disse que não queria vir-se nunca do sertão. mameluco. E perguntado se podia ele escusar de comer carne nos tempos defesos. e que quando tinha mantimento deixava de comer a carne. foi-lhe mandado ter segredo e assim o prometeu. senão que o dito chanmado Papa lhe disse que se chamava Antônio e era cristão. e que no sertão as mulheres que lhe davam. ou outras coisas semelhantes. E foi logo perguntado quanto tempo há que ele é casado com sua legítima mulher Isabel Beliaga e de que maneira tinha ele as mulheres do sertão. somente as tomava como é costume entre os gentios para conservação de mulheres para conversação desonesta. e viu a Fernão Sanches Carrilho. E disse que. e viu a Pedro Álvares. e fora dos padres da Companhia de Jesus de Tinharé. respondeu que sempre a comeu por necessidade. (e) também deu duas espingardas aos ditos gentios e também lhe deram seis mulheres que ele teve por mulheres. E por não dizer mais. por não ter outro mantimento. onde também consentiu e mandou fazer uma dança de espadas e festas aos gentios do dito sertão de Pernambuco. E sendo perguntado que pessoas viu na dita sua companhia fazer o mesmo que ele fez. e assim se dizia que dera uma botija de pólvora. bandeira de seda. espingarda. ele disse aos seus companheiros que o adorassem por dissimular.140 Confessou mais. 185 185 . de todas estas coisas e culpas que confessado tem. e lhe viu ter cinco ou seis mulheres ao modo gentílico. que haverá dois anos e meio que ele foi com licença da mesa do governo ao sertão. pois nele tinha muitas mulheres e comia carne nos dias defesos. morador ora em Sergipe o Novo. cavalo. dar aos ditos gentios uma coura . no tempo que ele adorou o chamado Papa. na companhia de Cristovão da Rocha. e o viu tisnado pelo pescoço com tinta de jenipapo ao costume gentílico. pede perdão neste tempo de graça. respondeu que viu ao dito capitão Cristovão da Rocha dar aos gentios que são inimigos dos brancos. e fazia mais que queria sem ninguém lhe tomar conta. um instrumento de guerra. riscado em um braço ao modo gentílico. e do costume disse que tem ódio a Cristovão da Rocha. mameluco. tambor. e viu a Domingos Dias.

lavrador. quando queria afirmar alguma coisa este modo de juramento. o qual antes de viver com ela confessante. mas que faz este juramento simplesmente. e o jurou muitas vezes. ela confessante. o qual ora é casado e morador na capitania dos Ilhéus com Catarina Cordeira.141 121 . onde permaneceu encarcerada até 1605. perante suas parentas e outras pessoas. Então. cristã nova. morador na sua fazenda de Matoim. e não lhe lembra de quanto tempo a esta parte. mandou entornar e lançar fora a água que havia em casa. simplesmente. disse o dito seu criado. cristão velho. e sem o ter visto fazer a ninguém. disse que ouviu jurar à sua avó. e lhe perguntou então porque dizia ele aquilo. mas não sabia o porquê. em diversos tempos. se por que. sem nenhuma ruim intenção. nem lhe declarou mais. disse que haverá quatro anos que teve em sua casa um seu criado por nome Baltasar Dias d’Azambujo. mandava lançar fora sempre e derramar a água que em casa havia. e quando lhe morriam. de idade de vinte e sete anos. que será ora homem de trinta anos pouco mais ou menos. e de sua mulher Isabel Antunes. e vivem por sua lavoura. filha de Antônio Alcoforado. natural de Santo Antônio do Tojal. sua mulher. que faça confissão inteira e verdadeira. cristã nova.Confissão de Dona Ana Alcoforada . E ela confessante nunca até então tinha ouvido nem sabido que por morte de alguém se lançava água fora. em outra nenhuma parte. Ana Rodrigues. defuntos. mulher de Henrique Muniz Teles. viveu também alguns dias com sua tia Dona Leonor. com muita caridade. usou muitas vezes do dito modo de juramento. avô dela confessante. em 11 de fevereiro de 1592 186 Disse ser meia cristã velha e meia cristã nova. cuidando que seria aquilo alguma coisa boa. casada com Nicolao Faleiro de Vasconcelos. Escapou da condenação por ter havido perdão geral aos cristãos novos acusados. segundo ele dizia. natural de Matoim desta capitania. E confessando-se. senão somente por o ouvir dizer ao dito seu criado. e quando quer afirmar alguma coisa diz. cristã nova. sete ou oito escravos. no tempo da graça do Recôncavo. “pelo mundo que tem a alma de Heitor Antunes”. E foi logo admoestada pelo senhor visitador. respondeu que ela não entende nem sabe declarar o dito juramento que queira dizer. se era por nojo. E outrossim.Foi presa e enviada para Lisboa com sequestro de bens. e que isto fez sem ter ouvido nem aprendido de nenhuma outra pessoa. E perguntada qual é este mundo que tem a alma de seu pai e de sua mãe. simplesmente. E morrendo-lhe a ela confessante no dito tempo em casa um seu escravo. porque estas cerimônias que fez de lançar água fora são 186 . Baltasar Dias Azambujo. . no último dia dele. autorizado por Breve papal contra o donativo de 1 700 000 à Coroa. cristão velho. e ele lhe respondeu que o dizia porque vira já na sua terra entornar a água fora nas casas onde alguém morria. perguntando que porque lançavam a água fora quando morria alguém em casa. e por isso ela também. pelo ter ouvido. o qual era seu marido. E assim ouviu o mesmo juramento a muitas outras pessoas que lhe não lembram. e dali por diante lhe aconteceu lhe morrerem. “pelo mundo que tem a alma de meu pai e de minha mãe”.

que portanto fale a verdade e descubra seu coração. e que pois ela é cristã nova. e da culpa que tem em as fazer exteriormente. porque lhe aproveitará muito para alcançar graça... e que ela é judia e vive na lei de Moisés e deixou a fé de Jesus Cristo. que quer dizer o mesmo “pelo mundo que tem a alma de meu pai”. mas que fez as ditas coisas sem entender que eram judaicas. Manuel Francisco . deste ano presente de mil quinhentos e noventa e dois. e que depois que se publicou a Santa Inquisição nesta cidade. estantes e vizinhos de todo o Recôncavo da Capitania da Bahia. pois está em tempo dela. dou minha fé passar tudo assim na verdade. Aos onze dias do mês de fevereiro. pede perdão e misericórdia. não se pode presumir senão que ela faz as ditas cerimônias e juramentos com intenção de judia. . E eu Notário. concedeu aos moradores. e fiz este termo nesta cidade do Salvador. E ela respondeu que é boa cristã e nunca soube nem teve nada da lei de Moisés. os quais costumam jurar pelo “Orlon de mi padre”. aos vinte e sete dias do mês de fevereiro de mil quinhentos e noventa e dois anos. se acabaram os trinta dias da graça que o senhor visitador do Santo Ofício. inclusive. Heitor Furtado de Mendonça. residentes. sem ter no coração erro algum da fé católica.142 muito conhecidas serem dos judeus. entendeu serem judaicas as que dito tem e nunca mais as fez.Notário do Santo Ofício nesta visitação do Brasil que escrevi. e ouviu contar as coisas que se declaravam no Édito da fé.