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O desenvolvimento desigual e combinado

:
a construção do conceito
Alvaro Bianchi
A lei do desenvolvimento desigual e combinado é
uma das faces mais conhecidas do pensamento
de Trotsky. Para Nahuel Moreno (1981, p. 63),
essa é “a descoberta mais importante do
marxismo e da ciência moderna, como teoria que
unifica as leis genéticas e estruturais”. Ernest
Mandel (1980, p. 37) a define como a principal
forma de aplicação, por Trotsky, da dialética à
compreensão e transformação da realidade
contemporânea. E Michael Löwy (1998, p. 73 e
79) considera que essa é a contribuição mais
importante do revolucionário russo à teoria
marxista e uma das teses marxistas mais
amplamente assimiladas. Muito embora a
importância dessa lei seja incontestável sua
formulação explícita é tardia. Apenas em 1932,
Trotsky começou a sobrepor à conhecida lei do
desenvolvimento desigual uma lei do
desenvolvimento combinado.

O tratamento que o autor de História da Revolução Russa deu à questão após 1932 não fez
referência a uma “lei do desenvolvimento desigual e combinado” e continuou sempre a escrever a
respeito de duas leis. Foi apenas em 1957, ou seja, 17 anos após a morte de Trotsky, que o filósofo
estadunidense George Novack publicou na revista inglesa Labour Review um ensaio no qual
apresentava o conceito de “lei do desenvolvimento desigual e combinado” (cf. LEIDEN, 2007, p.
149). Novack foi, entretanto, muito além de Trotsky na apresentação desta, afirmando que ela seria
uma das “leis fundamentais da história humana” (NOVACK, 1988, p. 9) e teria “raízes em
acontecimentos comuns a todos os processos de crescimento, tanto na natureza como na sociedade”
(idem, p. 15). [1]

em particular. o nivelamento das condições econômicas e de vida em diferentes países. com uma antecedência de pelo menos doze anos. 241). é possível ver um uso mais amplo da noção na referência ao desenvolvimento diferenciado de cada país. v. p. fez uso freqüente da noção de desenvolvimento desigual sem. (…) Por mais vigoroso que tenha sido nas últimas décadas o nivelamento do mundo. Foi. por uma rede particularmente fechada de relações pré-capitalistas. 2004. mas esse crescimento não apenas se torna cada vez mais e mais desigual. p. Mas esses fenômenos que haviam sido percebidos já na primeira metade do . era generalizada e o desenvolvimento desigual tornava-se. Japão) cujo progresso tem sido extraordinariamente rápido. Lenin. à maneira de Althusser. 1965. Já nessa última citação. em terceiro. por sua vez. e entre as seis potencias mencionadas. 300). ramos da indústria e países individuais é inevitável sob o capitalismo” (idem. fase superior do capitalismo identificava os agudos conflitos intercapitalistas.” (idem. do comércio e do capital financeiro. apresentada inicialmente de modo cauteloso. portanto. portanto para não incorrer em um anacronismo que procurei apresentar primeiro os fundamentos metodológicos desse conceito em “estado prático”. como o resultado da pressão da grande indústria. fase superior do capitalismo. Não havia lei do desenvolvimento desigual e combinado em 1905. diferenças consideráveis ainda existem. Certamente muitos dos elementos teóricos necessários para o enunciado da lei já se encontravam presentes. que ultimamente tem progredido muito mais lentamente que os países previamente mencionados. para seu autor. como por exemplo. É possível encontrar várias antecipações a essas leis formuladas por Trotsky no âmbito do marxismo clássico. vemos em primeiro lugar. de 1917. 190) ou na afirmação de que o “desenvolvimento desigual e espasmódico de empresas individuais. p. Rudolg Hilferding. 258-259) Ao final desse livro aquela noção.É um anacronismo concluir como fez Osvaldo Coggiola em um artigo de grandes méritos que “a elaboração da lei do desenvolvimento desigual e combinado permitiu que Trotsky previsse. utilizava essa noção para referir-se ao ritmo diferenciado de crescimento de ramos industriais. Era. 22. como sua desigualdade também se manifesta. da expansão colonial desigual entre as potências: “A desigualdade na taxa de expansão colonial é muito grande. Nesse livro. p. Para afirmar a existência de uma lei antes do enunciado seria necessário dizer. em sua análise do capital financeiro destacou o caráter combinado da expansão deste. 14). como decorrência do desenvolvimento desigual da economia capitalista que o autor de Imperialismo. uma característica geral do capitalismo: “Em seu conjunto. p. A expansão das fronteiras do capitalismo e a mercantilização de todas as relações já tinham sido inúmeras vezes ressaltadas por Marx desde o Manifesto Comunista. em segundo. na decadência daqueles países que são mais ricos em capital (Inglaterra)” (idem. em sua obra Imperialismo. o capitalismo está crescendo muito mais rapidamente do que antes. países com um desenvolvimento capitalista antigo (França e Grã-Bretanha). a possibilidade de que a primeira vitória revolucionária do proletariado ocorresse na Rússia” (COGGIOLA. Esse último sentido está a afirmação. que ela se encontrava em “estado prático” e não sob a forma teórica. na referência ao “desenvolvimento desigual das ferrovias” (LENIN. decorrente da exportação de capital. por assim dizer. onde o moderno capitalismo imperialista se encontra envolvido. entretanto. apresentá-la como uma lei. no mesmo texto. Alemanha. jovens países capitalistas (América. um país que é economicamente mais atrasado (Rússia). e.

como. injusto afirmar que Lenin não viu esse processo. como se pode ver. 6. A apropriação da “lei do desenvolvimento desigual” pelo stalinismo. 303. . Para Hilferding esses fenômenos não apenas tinham um ritmo mais acelerado como estavam produzindo uma verdadeira revolução no âmbito das antigas relações sociais: “A exportação de capital. a crescente profundidade e agudeza dos conflitos no campo imperialista. mas é fundada de antemão como empresa altamente capitalista. assim o capital hoje. o enfraquecimento da frente do capitalismo mundial. e isso sempre no grau alcançado no país mais avançado. indicam que percebeu claramente as conseqüências deste.) Lenin e Hilferding analisavam o mesmo fenômeno. especialmente desde quando se deu em forma de capital industrial e financeiro. Ver. por exemplo.século XIX assumiam novas características no início do século XX e não foram poucos os marxistas e mesmo liberais como Hobson que se dedicaram a compreender o tema. destacou como a expansão imperialista implicava em uma expansão das próprias relações sociais capitalistas. 1954. p. Por essa razão destacaram diferentes processos. também é importado por um novo país com o respectivo grau de perfeição e desenvolve por isso seu efeito revolucionário com ímpeto muito maior e em prazo muito mais curto do que exigiu. p. com o capital foram simultaneamente importadas produção capitalista e relações de exploração. a apagar toda a sutileza da análise lenineana. Assim como hoje uma indústria recém-criada não se desenvolve a partir de princípios e técnicas artesanais para chegar a ser uma gigantesca empresa moderna. tb. redivisões periódicas de mundo já dividido por meio de conflitos militares e guerras catastróficas.” (STALIN. de 1926 ao 7º Pleno Ampliado do Comitê Executivo da Internacional Comunista: “A lei do desenvolvimento desigual no período do imperialismo significa o desenvolvimento espasmódico de alguns países com relação a outros.) A lei. a partir de óticas diferentes. p. entretanto. desenvolvimento capitalista da Holanda e da Inglaterra. o advento do imperialismo. Apenas seus resultados eram descritos. O desenvolvimento capitalista não se deu de modo autóctone em cada país isoladamente. v. 97 e 416. 9. a lei desenvolvimento desigual rapidamente se tornou sinônimo de socialismo em um só país. Enquanto o primeiro enfatizou o desenvolvimento desigual que acarretava uma intensificação do conflito interimperialista. a possibilidade dessa frente ser rompida pelo proletariado de países individuais e a possibilidade da vitória do socialismo em países isolados. pelo contrário. acelerou enormemente a reviravolta de todas as velhas relações sociais e a submersão do mundo no capitalismo. 1985. o segundo. escrevendo antes da Primeira Guerra Mundial. v. Mas ao apresentar como um dos resultados do desenvolvimento desigual a possibilidade do socialismo em um só país era estabelecida uma relação causal. do comércio internacional e do capital financeiro. em seu relatório. por exemplo. entretanto. não era enunciada. tendeu. Sua referência ao “nivelamento das condições econômicas e de vida” devido à expansão da indústria. bem como a transformação e o caráter combinado do desenvolvimento.” (HILFERDING. 111. o que não deixava de ter como consequência a transformação deste último enunciado em uma lei. a rápida expulsão do mercado mundial de alguns países por outros. Seria. De tal modo que nos texto de Stalin. O próprio Stalin não deixou de definir a lei a seu bel prazer.

Mas a burocracia soviética foi além desse ponto a partir de 1926 e começou a deduzir da lei do desenvolvimento desigual e combinado uma teoria do socialismo em países isolados. Lenin afirmou que “o desenvolvimento econômico e político desigual é uma lei absoluta do capitalismo. A formulação de Trotsky traz temas presentes naquelas passagens de Lenin e Hilferding já citadas: “Distinguindo-se. nem marxista. atrairá as classes oprimidas dos demais países. enfatizando que Lenin argumentava a respeito da possibilidade e até mesmo da necessidade da revolução socialista realizar-se em uma dimensão nacional. por ocasião da reunião do Comitê Executivo da IC à qual foi feita referência afirmava: “Lenin deduziu a possibilidade da vitória do socialismo em países isolados direta e imediatamente da lei do desenvolvimento desigual dos países capitalistas.” (STALIN. Daí resulta que a vitória do socialismo é possível primeiro em alguns poucos países e. inclusive. Trotsky chamou a atenção a esse respeito.) [2] Não havia sentido em contrapor a ideia da vitória da revolução socialista em um único país à ideia da revolução permanente. p. ou seja. assim. O proletariado vitorioso em um país. O stalinismo fez. v. 342). Pelo contrário. sublevando-as contra os opressores e intervindo. p. 1988. 21. dos sistemas econômicos que o precederam. 1954. v. 225). nem leninista” (TROTSKY.) Para a burocracia stalinista a teoria sempre esteve subjugada aos ditames da política imediata e o que era dito num ano poderia ser desdito no seguinte ao sabor da luta contra a oposição. Grifos meus. Em um artigo de 1915. Essa apropriação era considerada pelo ex. a existência de um desenvolvimento desigual. 113. em novembro de 1926 Stalin falava que a “lei do desenvolvimento desigual descoberta por Lenin tinha se tornado o ponto de partida para a teoria da vitória do socialismo em países isolados” (idem. 9. o capitalismo tem a propriedade de procurar continuamente a expansão econômica. 226).” (Idem. p. exaustivamente citado pela publicística stalinista. entretanto. Assim. p. inclusive. depois de te expropriado os capitalistas e organizado a produção socialista se levantará contra o restante do mundo burguês. à ditadura do proletariado. Trotsky não negava. E um mês depois. A resposta mais acabada de Trotsky a essa apropriação instrumental da lei do desenvolvimento desigual pode ser encontrada em sua crítica ao projeto de programa da Internacional Comunista. 261). ela diz respeito não à supremacia das relações sociais plenamente socialistas em um único país e sim à vitória dos socialistas em um país. constitui “a posição de partida do capitalismo” (idem. afirmava que a grande variedade do nível alcançado pelo desenvolvimento histórico das diversas partes da humanidade. 1965. . Nela o já todopoderoso secretário-geral do Partido Comunista afirmava que a “lei do desenvolvimento desigual do capitalismo e a tese concomitante de que a vitória da revolução proletária é possível em um único país foram e puderam ser apresentadas por Lenin apenas no período do imperialismo. p. Embora essa passagem não seja muito clara e possa despertar dúvidas. considerado isoladamente.” (LENIN. v. em caso de necessidade pela força militar contra as classes exploradoras e seus Estados.comandante do Exército Vermelho como “truncada e errônea. O próprio Stalin reforçou uma interpretação similar em uma carta a Yermakovsky. datada de outubro de 1925. 237. v. em apenas um. 8. a partir da qual este poderia se expandir. acusando Trotsky de ceticismo. publicado em 1928. entretanto essa contraposição inúmeras vezes. 7. penetrar em novas regiões. p.Essa identidade teórica entre desenvolvimento desigual e socialismo em um só país tem sua própria histórica.

em um sistema de vasos comunicantes. Mas a exposição levada a cabo traz um elemento que é importante destacar: a lei do desenvolvimento desigual era apresentada por Trotsky como uma lei tendencial. os níveis econômicos e culturais dos países mais avançados e dos mais atrasados. ou seja. Também na análise da revolução espanhola. assim. mas “seu atraso tem um caráter peculiar. permitindo ao capitalismo unir de modo rápido e profundo os diversos agregadas nacionais e continentais. no processo de acumulação capitalista duas tendências e não apenas uma: “Apenas a combinação dessas duas tendências fundamentais. consequências da própria natureza do capitalismo. o que não deixava de estimular crescentes antagonismos e criar novas relações de desigualdade entre regiões.” (Idem. . de igualar. p. comprometendo a base social do parlamentarismo espanhol. suas formas sociais e seus níveis de desenvolvimento. político e cultural do capitalismo. centrípeta e centrífuga. A longa decadência do comércio e da indústria das cidades que teve início já no século XVII afrouxou os laços existentes entre as províncias e as nacionalidades dando origem a novas tendências centrífugas que chegaram até mesmo. Trotsky ressaltava o “nivelamento relativo” entre os países e destacava que esse processo não estava isento de contradições. Mas o “atraso do desenvolvimento econômico da Espanha debilitou inevitavelmente as tendências centralistas inerentes ao capitalismo” (idem. O florescimento do comércio interno e externo a partir do século XVI fez com que a Espanha pudesse vencer em alguns momentos o isolamento feudal das províncias e o particularismo das nacionalidades. assim. explicam o tecido vivo do processo histórico. países e ramos de produção. 21). foram apresentadas por Trotsky como uma totalidade na qual se encerrava a própria contradição.” (Idem. p. Somente se o desenvolvimento capitalista de cada nação fosse não apenas desigual como também independente.” (Idem. 20).) Assim como Lenin. determinado pelo grande passado do país” (TROTSKY. Daí o peso do governo sobre os eleitores. seria possível pensar o socialismo em um único país. nivelamento e desigualdade. a Espanha era caracterizada como pertencente ao grupo dos países atrasados da Europa. de reaproximar. Essas tendências opostas no processo histórico de desenvolvimento econômico. transformar as economias provinciais e nacionais. amálgama de tendências contrapostas. a predominar sobre as forças centrípetas.) Era justamente essa interdependência o que impediria concluir a possibilidade do socialismo em um só país. ela expressava a tendência existente no capitalismo às disparidades econômicas. 227). Mas por razões óbvias esse país não deveria estar entre os mais atrasados e sim entre os mais desenvolvidos econômica e culturalmente (idem. uma vez que o capitalismo procedia de modo anárquico.vencer as diferenças econômicas. criando entre eles uma “interdependência estreita e vital uns com relação aos outros e reaproximando seus métodos econômicos. 19). fechadas em si mesmas. A lei do desenvolvimento combinado não estava formulada de modo explícito nesses textos e o desenvolvimento teórico dado à questão encontravase ainda incompleto e mesmo aporético. 1977. O “papel centralizador do capital comercial e a formação gradual da nação espanhola” estimulavam tendências centrípetas (idem). p. Revelavam-se. a dependência das Cortes e o caráter indispensável da monarquia que servia como elemento unificador das “classes dominantes desunidas e descentralizadas” (idem. Em um texto de 1931. Era esse passado o que distinguia a península ibérica da Rússia. Trotsky afirmou a existência de tendências centrípetas e centrífugas. p.) Tais tendências eram acentuadas pelo capital financeiro.

chamaremos . I. socialismo) e das formas da política (autocracia. O socialismo colocava-se na Rússia como uma possibilidade histórica antes mesmo da realização plena do próprio capitalismo. essa desigualdade não era um mero atraso cronológico que poderia ser superado com o passar do tempo. Elas são relevantes para a própria dinâmica do capitalismo. A desigualdade do ritmo. Se o desenvolvimento desigual se expressava como uma lei tendencial. república burguesa. e Trotsky. As transformações políticas e a culturais não são para ambos secundárias. Tais disparidades eram concebidas como decorrentes das diversas trajetórias nacionais. na ausência de uma denominação mais apropriada. 420). que é a lei mais geral do processo histórico. Essa apresentação da formação do capitalismo na Rússia foi retomada em sua História da revolução russa sob uma fórmula mais generalizante baseada na teoria do desenvolvimento desigual e combinado. ditadura do proletariado) eram rejeitados por Trotsky (cf. p. partilhavam uma versão do marxismo que se afastava de modo decidido do economicismo. Trotsky formulou de modo explícito e coerente uma teoria do desenvolvimento dos países periféricos. t. a superação da desigualdade e a assimilação plena da Rússia ao capitalismo ocidental. que colocava ênfase na equalização dos níveis econômicos e culturais. por outro. capitalismo. setores da economia e ramos da produção. como. entretanto.políticas e culturais entre os diferentes países. na vulgar definição staliniana do desenvolvimento desigual. por um lado. 1950. atrasados na linguagem da época. e o afastava de muitos dos historiadores marxistas da época. Para explicar esse processo. ou seja. O destino desse novo caminho não era. das assimetrias próprias do processo de acumulação capitalista. Mas. A particularidade do desenvolvimento russo revelava o caráter desigual de sua formação social. Já foi visto que em Balanço e perspectivas. que lhe permitia formular a hipótese de um país periférico “saltando” por cima de etapas históricas: “As leis racionais da história não tem nada em comum com os esquemas pedantes. como visto acima. Há ainda outro aspecto que merece destaque nesse momento da formulação. se manifesta com o máximo vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. Trotsky evitou as armadilhas do economicismo definindo a lentidão do desenvolvimento como o “o traço essencial e mais constante da História da Rússia” e destacando o papel desempenhado pelo Estado na constituição do capitalismo nesse país. Os esquemas evolucionistas e eurocêntricos e a ideologia do progresso linear que afirmavam a sucessão lógica dos modos de produção (feudalismo. sua conexão com o capitalismo da Europa ocidental. então o desenvolvimento combinado que se erguia sobre ele também deveria assumir esse caráter. Para tal articulou a lei do desenvolvimento desigual com uma lei do desenvolvimento combinado. por exemplo. A ênfase na particularidade do desenvolvimento russo aproximava Trotsky dos populistas. A originalidade do desenvolvimento russo residia em que a via clássica de transição ao capitalismo se encontrava bloqueada. que ressaltava o caráter desigual do desenvolvimento da economia e da política. Lenin. A formação social russa amalgamava traços desse capitalismo ultramoderno em relações sociais e formas políticas pré-capitalistas. e. essas transformações não são decorrência imediata ou meros efeitos dos fenômenos econômicos. o que lhe permitia aproximar-se deste por uma via alternativa. Desse modo. Sob o látego das necessidades externas a vida retardatária é constrangida a avançar aos saltos. Era o caráter combinado desse desenvolvimento. Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre outra lei que.

Entretanto. sendo essa a “lei do desenvolvimento combinado dos países atrasados” (TROTSKY. I. Mas particularmente importantes para a discussão que tem aqui seu lugar é o tratamento dado à análise da sociedade chinesa.de lei do desenvolvimento combinado. 1989.) Essa foi a primeira formulação explícita da lei do desenvolvimento combinado feita por Trotsky. R. p. escrito em 1937 fez referência à lei no primeiro capítulo. como. a Revolução de Outubro produziu por sua vez a contradição entre as reduzidas forças produtivas nacionais e as formas socialistas de propriedade. O desenvolvimento combinado tornava alguns traços comuns aos países atrasados. poderiam imprimir importantes traços distintivos entre os diferentes países que partilhassem uma situação de . Também no livro A revolução traída. t. Isaacs. 256. caracterizado pela “combinação dos extremos em um sentido ou outro”. não apagava as particularidades de cada país nem reduzia sua história a uma reprodução com atraso da história da Inglaterra ou da França. entretanto. como a dependência econômica ou as relações agrárias caracterizadas por formas pré-capitalistas. O colapso da burguesia na Rússia levou conduziu à ditadura do proletariado – isto é a um país atrasado a adiantar-se aos países avançados. e a realização de alguma forma revolução democrática. 12). por exemplo. expressando a aproximação das diferentes etapas. Nascida da contradição entre as elevadas forças produtivas mundiais e as formas capitalistas de propriedade. 17.” (TROTSKY. 150). 1983. 5). mas sempre que o fez foi em ocasiões importantes. Trata-se de um texto extremamente interessante no qual questões chaves para a revolução chinesa eram apresentadas. O desenvolvimento desses países era.) O desenvolvimento desigual dos países atrasados foi também discutido por Trotsky (1983a) no prefácio que escreveu ao livro de H. 1991. Poucas vezes ele voltou a enunciar a lei. contudo. The tragedy of Chinese revolution. atrasados – que englobam a grande parte da humanidade diferem enormemente uns dos outros nos graus de seu atraso. Na verdade não era apenas a China que tinha um desenvolvimento particular. da combinação das fases distintas. Mas a existência de uma independência política. O capitalismo russo atrasado foi o primeiro a pagar pela bancarrota do capitalismo mundial A lei do desenvolvimento desigual é suplementada em todo o curso da história pela lei do desenvolvimento combinado. na conferência de 1932 sobre a Revolução Russa em Copenhague na qual falou de um “tipo combinado de desenvolvimento” (TROTSKY. p. p. Tal análise revelaria que a trajetória histórica da China diferia em muito de outros países coloniais. no qual afirma que a “socialização dos meios de produção tornou-se a condição necessária prévia para retirar o país da barbárie”. p. O tema foi retomado em um apêndice a esse livro no qual seu autor escreveu: “A lei do desenvolvimento desigual fez com que a contradição entre a técnica e as relações de propriedade do capitalismo arrebentasse o elo mais débil da cadeia imperialista. o grau de desenvolvimento econômico e político das classes dominantes locais. representando toda uma escala histórica” (idem). portanto.” (Idem. o estabelecimento de formas socialistas de propriedade no país atrasado enfrentou o nível inadequado da técnica e da cultura. os “países coloniais e semicoloniais – e. Essa combinação. do amálgama das formas arcaicas com as mais modernas. 1991. Em tal análise a analogia história era uma “armadilha para o espírito” para evitar essa armadilha era necessária uma “análise sociológica concreta” que investigasse as relações sociais e de forças entre as classes sociais (TROTSKY.

limitandose a descrever a forma que o desenvolvimento combinado assumiu e seus efeitos sobre a sociedade russa: “A evolução histórica da Rússia se caracteriza acima de tudo pelo seu atraso. 42. Michael. 150-151). p. 19.. p. Um atraso histórico não implica. MANDEL. mas engendra uma formação social completamente nova. Os Economistas) LENIN. como partido. tiveram um grande desenvolvimento antes mesmo da revolução burguesa. I. 1965a. a. Lógica marxista y ciencias modernas. transforma-as e subordina-as criando assim uma relação original. 2004. Rudolf. Suas semelhanças com o império tzarista permitiram que a experiência da revolução russa. México D. HILFERDING. 15.) Essa foi a última vez na qual Trotsky fez referência ao desenvolvimento desigual. n. p. deformada. O mesmo vale para as ideias. Ernest. geralmente. Por último. LÖWY. (Col. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado. LINDEN. Trotsky voltou à questão. entretanto. In: Collected Works. uma simples repetição da evolução dos países avançados cem ou duzentos anos depois. portanto. São Paulo: Nova Cultural. 4-23. se tornasse um dos principais obstáculos” à revolução chinesa (idem. Moscou: Progress. 32. 1981. Osvaldo. “sob sua forma reacionária. Nahuel. publicado apenas em 1942 pela revista Fourth International. Referências bibliográficas COGGIOLA. V. n. 156). n. Historical Materialism. Entre seus papéis deixou o texto acima. Trotski e a lei do desenvolvimento desigual e combinado. 343. 1965. Novos Rumos. seu autor não faz referência a uma lei. a Rússia se tornou o único país europeu no qual o marxismo. . Trotski: um estudo da dinâmica de seu pensamento. Nesse texto. entretanto. 1. Once again on the trade unions. O capital financeiro. : Xólotl. Marcel van der. Collected Works. v. p. Rio de Janeiro: Zahar. 2007. A afirmação de um desenvolvimento combinado não eliminava. 1. Precisamente por causa de seu atraso histórico.” (1986. em termos muito parecidos em um importante artigo redigido em agosto de 1939. a necessidade da análise das particularidades nacionais nem resolvia todos os problemas referentes ao caráter da revolução com a fórmula às vezes simplificadora da “revolução socialista”. v. e a social democracia. 145-166.. como doutrina. 1980 MORENO. LENIN. Moscou: Progress.dominação semelhante (idem. como parte de sua biografia sobre Stalin. I. Outubro.F. ‘combinada’. 1985. 1998. na qual as últimas realizações da técnica e da estrutura capitalista se implantam nas relações sociais da barbárie feudal e pré-feudal. “Três concepções da Revolução Russa” republicado. p. The “law” of uneven and combined development: some underdeveloped thoughts. the current situation and the mistakes of Trotsky and Buhkarin. A análise dessas particularidades se fazia ainda mais importante para o caso da China. V. Um ano depois seria assassinado por um agente de Stalin.

” (STALIN. Paris: Seuil. Leon. v. TROTSKY. TROTSKY. Understanding History: Marxists essays 3 ed. Révolution et guerre en Chine. Leon. I. 1954. 1991. 14v. 1983a. Leon. The revolution betrayed: what is the Soviet Union and where is it going? Detroit: Labor. 1988. Grenoble: Institut Léon Trtosky. 1986a. George. Nova York: Pathfinder. por exemplo. Leon. 1988. Works. Como será visto adiante não era essa a intenção de Trotsky. Moscou: Foreign Languages. 21. Trois conceptions de la Révolution Russe. Depois de consolidar seu poder e atrair os camponeses para seu caminho o proletariado do vitorioso país pode e deve construir uma sociedade socialista. v. que possa com as forças de apenas um único país finalmente consolidar o socialismo e proteger completamente o país contra intervenções e. Leon. [2] O próprio Stalin chegou a levantar dúvidas sobre a possibilidade do socialismo em um só país. 1950. p. STALIN. George. A lei do desenvolvimento desigual e combinado da sociedade. um texto de 1924: “Mas a derrocada do poder da burguesia e o estabelecimento de um poder do proletariado em um país não significa ainda que a vitória completa do socialismo tenha sido atingida. Notas: [1] Esse tratamento comum aos processos naturais e sociais é criticável e pode levar a uma naturalização da lei. 342-362. conseqüentemente também contra a restauração? Não. V. isto é. quando a memória de Lenin ainda estava viva e afirmar o contrário poderia ser considerado um absurdo. TROTSKY. TROTSKY. Projet de programme de l’Internationale: critiques des thèses fondamentales (28 juin 1928). In: Œuvres. La revolución española. Para tal é necessária a vitória da revolução ao menos em vários países. Ver. Grenoble: Institut Léon Trotsky. In: Œuvres (2e série). 6. Mas isso significa que ele possa atingir a vitória final e completa do socialismo.) . NOVACK. p. J. TROTSKY. Histoire de la Rèvolution Russe. São Paulo: Rabisco. isso não. v. TROTSKY. Madri: Júcar. A revolução russa. 146-60. v. Leon. TROTSKY. 2 t. o que escreveu em Fundamentos do leninismo. Grenoble: Institut Léon Trotsky. 111. 1989. Leon. 1980. 1977. 16. 1954. p. In: Œuvres. São Paulo: Informação.NOVACK.