Você está na página 1de 8

1 - Origens do Politeísmo

A concepção que o ser humano faz de Deus se amplia com o passar
do tempo. O homem, nos primórdios da civilização, carente de um
pensamento abstrato que lhe possibilitasse uma postura mental
reflexiva, e com um desenvolvimento psíquico ainda muito incipiente,
mantinha suas percepções tão-somente da realidade física que o
cercava.

Assim, incapaz, pela sua ignorância, de conceber um ser imaterial,
sem forma determinada, atuando sobre a matéria, conferiu-lhe o
homem atributos da natureza corpórea, isto é, uma forma e um
aspecto, desde então, tudo o que parecia ultrapassar os limites da
inteligência comum era, para ele, uma divindade. Tudo o que não
compreendia devia ser obra de uma potência sobrenatural.

Podemos assim, definir Politeísmo como sendo a crença
religiosa numa pluralidade de deuses ou a adoração de mais
de um deus.

A palavra deus tinha, entre os antigos, acepção muito ampla. Não
indicava, como presentemente, uma personificação do Senhor da
Natureza. Era uma qualificação genérica, que se dava a todo ser
existente fora das condições da Humanidade.

2 - O Antigo Testamento e o Monoteísmo
A Bíblia ensina que o monoteísmo foi a concepção mais remota de
Deus. O primeiro versículo do livro de Gênesis é monoteísta: “No
princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Todos os patriarcas,
Abraão, Isaque e Jacó, apresentaram uma fé monoteísta. (Gn 12-50).
Isto revela um Deus que criou o mundo e que, portanto, é diferente
do mundo. Esses são os conceitos essenciais do teísmo ou
monoteísmo.

A Bíblia é uma coletânea de diversos livros, subdivididos em Antigo e
Novo Testamentos. Para a maior parte das igrejas cristãs a Bíblia é a
suprema autoridade, constituindo-se na Palavra de Deus.

São livros escritos por autores vários através dos tempos que,
segundo o entendimento, teriam sido ditados por Deus aos homens.
Livros escritos originariamente em hebraico e aramaico, até o
surgimento da imprensa, em 1450, as duplicações de qualquer texto
eram manuscritas e naturalmente eivadas de erros de transcrição,
tais como: omissão de letras e palavras, substituição de locuções por
um só vocábulo, separação de uma palavra em duas, ou o inverso,
unindo duas palavras em uma, negligência do escriba, falta de

uma é invariável. tudo isto ocasionando alteração das idéias originais. Estudiosos modernos da Bíblia veem que o texto terminou de ser escrito por volta de 450 a. Ainda que a Bíblia não cita o faraó do Êxodo por seu nome. Cerca de 600. Para dar autoridade às suas leis.C. É bem evidente que. 480 anos depois que os filhos de Israel saíram do Egito. promulgada sobre o monte Sinai. apropriada aos costumes e ao caráter do povo. estabelecida por Moisés. Esse acontecimento ficou conhecido como Êxodo. Em 1 Reis 6:1 se lê que Salomão começou a construir o Templo no quarto ano de seu reinado. e tem.C. através de Moisés. algumas vezes deliberadamente em busca de outros propósitos. pelo temor. obrigado a manter. No terceiro mês.atenção. De acordo com a tradição. mas só a idéia de um Deus terrível poderia impressionar homens ignorantes. foram para a montanha de Deus. um povo turbulento e indisciplinado. e seu Deus os anuncia. ou ainda por tomarem uma letra por outra muito semelhante.C. com suas manadas e rebanhos.000 homens mais mulheres e crianças e uma multidão misturada. no qual tinha que combater os abusos enraizados e os preconceitos hauridos na servidão do Egito. é dada a data exata do Êxodo. interpolações para completar a idéia segundo o critério do copista. o Êxodo e os outros quatro livros da Torá foram escritos por Moisés na segunda metade do 2º milênio a. (967 + 480).C. aquele que tinha colocado . A comunidade Judaica se inicia através da fuga dos hebreus do Egito liderados por Moisés. Segundo vários teólogos. há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus. assim como o fizeram todos os legisladores de povos primitivos. ele deveu atribuir-lhes origem divina. e a lei civil ou disciplinar. por isso mesmo. os israelitas chegam ao Monte Sinai. que os israelitas seriam seus filhos. Logo a data do Êxodo foi 1447 a. Moisés e Arão supostamente subiram ao cume da montanha onde recebe o Decálogo (os Dez Mandamentos). Esta lei é de todos os tempos e de todos os países. um caráter divino. a autoridade do homem deveria se apoiar sobre a autoridade de Deus. a outra. se modifica com o tempo. porque ele os havia deixado partir com sua onipotência. A maioria dos estudiosos da Bíblia estimam que o quarto ano do reinado de Salomão foi o ano 967 a. Todas as outras são leis estabelecidas por Moisés. quando governava Tutmosis III. mas não há nenhum documento nem resto arqueológico egípcio que confirme este excepcional acontecimento. Então. nos quais o senso moral e o sentimento de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos.

tu não farás mal ao teu próximo não poderia se contradizer fazendo deles um dever de extermínio. propriamente ditas. pois. . As leis mosaicas.em seus mandamentos: Tu não matarás. um caráter essencialmente transitório. tinham.

que foi separado deste mundo. identificado com um futuro rei da casa de Davi. desde o tempo de sua volta do exílio babilônico (586-539 a. E embora o povo tivesse hesitado na dura caminhada no deserto. ama seu povo como um pai ama o seu primogênito.he o verdadeiro sentido. o seu . o povo judeu não procura sua realização da mesma maneira que os outros povos da terra. depois de uma série de dominações estrangeiras. sendo todos os outros personagens messiânicos considerados pré-messias ou falsos messias. conseguira isolar-se das potências estrangeiras. Graças à sua religião. de seus interesses e ideais. por um Messias divino insistentemente anunciado por todos os grandes profetas. o povo judeu. A Aliança e a condição de povo eleito determinam-lhe a vida: a Lei e a esperança conferem. no Antigo Testamento. Privado de sua independência política. um povo santo. prometido por Deus. É esse também o sentido de sua esperança messiânica. Esse Deus. por sua vez. é um Deus que exige o direito e a justiça e que pune o pecado. Com efeito. Israel considera-se o “povo eleito” de Javé. a crença no caráter salvador e redentor de um personagem que aparecerá no futuro. na religião hebraica. reunida em torno do Templo de Jerusalém. significava inicialmente ‘o ungido’ em geral. como um marido ama a sua mulher. a ser alcançada num fiat. o povo judeu não esqueceu seu passado. enquanto para a tradição judaica o Messias é ainda esperado. no judaísmo intertestamentário. Sua força vital reside justamente naquilo que sempre se subrtraiu aos governos estrangeiros que se sicediam: a sua religião.C. predito pelos profetas e esperado pelo povo. possuía uma grande e consoladora esperança: a da redenção. palavra que. o êxodo e a terra Prometida. no início da era cristã. desde a mais remota antiguidade judaica. Israel vive da certeza de que cada coisa lhe vem do seu deus. o povo hebreu. restaurando a antiga glória de Israel. o sentido de ‘o ungido’ por excelência. designado por messias. ao mesmo tempo. mas. que virá libertar do jugo estrangeiro. Nessa situacão. encontrava-se. e cujo centro de existência se encontra em Javé. para a tradição cristã já se manifestou em Jesus de Nazaré. mas. O termo personalizou-se até ganhar. Pelo êxodo.). sob o jugo dos romanos. durante séculos subjugado por impérios opressores. O cristianismo tem relação estreita com esse conceito. tinha se tornado uma comunidade religiosa.3 . Assim.O Messianismo Judeu O messianismo é. o povo libertara-se da opressão. Condenado à existência de pequena nação numa terra distante e pobre. resistindo à influência de suas culturas e religiões.

Somente a um ‘povo escolhido’ poderia suceder esse milagre. a paz instalar-se-ia para sempre na Terra. Todos os gentios seriam submetidos a Israel. também. Institucionalizou-se a crença na retribuição divina .torna-se obsessão. de obediência à Lei. e crer era obedecer. A conquista e a posse de uma terra própria siginificavam selar o pacto que Deus fizera com o povo. no exercício de um poder temporal incontestável. Sua humilhação aumenta com o domínio estrangeiro. admitiu até . mas.uma recompensa. Daniel e Enoc descreveram-no descendo dos céus. reconhecer na figura mansa de Jesus o grande Messias prometido.através do Messias prometido . em todo o seu esplendor. de caráter essencialmente político. desconcertante. Para dar idéia da grandeza do enviado celeste. A imagem desse Messias poderoso e invencível não podia conferir com a realidade do pobre carpinteiro que nem mesmo dava muito importância às tradições da raça. a profecia era esperança e alegria. com sede em Jerusalém. os profetas exerceram papel relevante. Nesse sentido. Em sua tristeza extrema. é sempre simbólica. que libertasse Israel do jugo romano e restabelecesse. e para encerrar qualquer debate sobre a autenticidade do Messias. os intérpretes dos livros santos somente podiam imaginar um Messias político. O exílio marca profundamente a alma dos judeus. aceitariam Javé e obedeceriam à Lei de Moisés. teria. regulamentada pelos escribas. Ele não tomou o poder temporal nas mãos. anunciando o abandono de Deus e a destruição. convocado as falanges angelicais para reduzir seus opressores a pó. presos à letra das profecias. à estrita fidelidade à letra dos textos imemoriais. ao sopro de sua vontade poderosíssima. de Samuel a Malaquias.tal era o discurso dos profetas. Além do mais. Se fosse mesmo o Messias. não foi possível aos judeus ortodoxos. que outra imagem poderia ser invocada por Isaías senão a de um rei de grande poder? Para figurar que vinha de elevadíssimas regiões do mundo espiritual. além de formulada num contexto que já há muito se perdera nas dobras do tempo. porém. visão utópica ou escatológica (1). Quase todos pensavam numa figura carismática que mudasse o rumo da História num segundo. É que a linguagem dos profetas. Deus se afastava do povo judeu sempre que este desobedecia a Ele ou ia em busca de outros deuses . Acostumados. tornada fértil e abundante. obrigação permanente.destino passou a ser Canaã. frequentemente. a pujança do povo de Deus. bastava dizer que o carpinteiro morrera crucificado. Bastava crer. a mais sagrada das cidades. na sua própria terra ou no exílio. para onde Javé mesmo parecia guiá-los. Por isso. para ocupar o trono do mundo. naquela hora suprema. A esperança numa intervenção direta de Deus . morte infamante e ignominiosa. Daí em diante. porém. pelo menos. para o povo.

Como se atrevia alguém a dizer que o sábado foi feito para o homem. As profecias cumprem-se para eles nos mínimos detalhes. traduz almah por parthénos. na verdade. Que Messias era aquele que nem a si mesmo conseguiu salvar? É preciso procurar entender a posição dos judeus ortodoxos da época. A mensagem messiânica.17). como Jesus não correspondesse a essa imagem. reduziu-se a um mero agitador de idéias subversivas. pelo mundo a fora. configura-se plenamente nos Profetas. até os procurava. ‘virgem’). versão grega do Antigo Testamento. Finalmente. em vez de implantar o domínio de Israel sobre o mundo. conseguisse enfraquecer. onde será crucificado (Sl 22. segundo Isaías. não se importava com o se misturar aos publicanos. A rígida interpretação literal das profecias havia criado e cristalizado nas mentes uma determinada imagem para o Messias.mesmo o pagamento de impostos a César. Temia-se que.9). para compreender por que rejeitaram Jesus como Messias. Tal ordem se assentava nas mais puras tradições da lei que. entrará em Jerusalém montado num asno (Zac 9. para os discípulos e seguidores.11) e fundará o reino da paz e justiça (Is 9. A hostilidade com a qual o trataram não foi certamente pela figura humana de Jesus. esboçada pelos Salmos.14 o vocábulo almah pode ter o significado de ‘mulher jovem’. e não o homem para o sábado? Não dissera Deus que o sábado era dia de descanso? Todo o ensino e as ações de Jesus tornam-se.1). e que tudo quanto ameaçava o poder religioso punha inevitavelmente em xeque o poder civil e. será filho de uma virgem (em Is 7. que dominava toda a comunidade judaica. mas pela ameaça que a sua pregação reformadora representava para a estrutura religiosa milenarmente estabelecida e consolidada. não apenas em Jerusalém. nascerá em Belém (Miq 5. samaritanos e aos inúmeros pecadores de todos os matizes. a autoridade até então incontestável do sacerdócio organizado. mas em todos os grupamentos da diáspora. . morrerá (Is 53). ressucitará (Is 53. irrecuperavelmente. Não podemos esquecer também que o judaísmo era uma teocracia (2).11). a Septuagina. representava a palavra do próprio Deus a Moisés. morreu crucificado. portanto.6). Pouco valeram para as maiorias judaicas as insistentes afirmativas de Jesus de que não pleiteava nenhum poder temporal. a própria sobrevivência do Estado. O Messias. dizendo que os doentes é que precisavam de remédio. com o seu extraordinário poder de persuasão sobre as massas humildes. com a casa de Davi destronada (Am 9. para todos. na hipótese de ser deixado com vida alguns anos. elos que ligam a sua história passada à consumação da obra de Deus no mundo.

bem como o historiador judeu Flávio Josefo silenciam sobre sua pessoa. O nascimento de Jesus Cristo ocorreu provavelmente no ano 4. Após um período de ascese (2) no deserto. mas as descrições de homens. vemo-lo explicando as Escrituras na sinagoga de sua cidade Nazaré. Herodes. antes de nossa era. Não encontrando hospedaria na cidade. No ano 15 do reinado de Tibério. os Atos dos Apóstolos e as Cartas de Paulo. Os autores desses escritos foram discípulos de Jesus Cristo. todos os anos. Ali viveu Jesus. onde nasceu Jesus.4 . que foi ressuscitada por Deus e elevada à dignidade de Senhor do mundo e da história. "Ungido". e iniciando pregação e afirmação dos poderes extraordinários . Assim. Jesus deslumbrou os doutores do Templo pela sua interpretação das Escrituras. "Messias". "Deus é o seu auxílio". No período de vida oculta . "Cristo". O casal fugiu para o Egito. Aos 12 anos de idade. Após a morte de Herodes. tradução dada ao termo hebreu Maxiah. Pastores da região e príncipes do Oriente reconheceram na criança o Messisas esperado. Sua existência histórica é admitida pela totalidade dos críticos sérios. A relação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé constitui um dos maiores problemas que se propõem à teologia atual. José e Maria regressaram do Egito e passaram a morar em Nazaré. e do grego Khristós. que viveu na Palestina no tempo do imperador Tibério e que morreu crucificado sob Pôncio Pilatos. José e Maria moravam em Nazaré e haviam ido a Belém para o censo decretado pelo imperador romano Augusto. refugiaram-se em uma gruta-estábulo. Cristo expressa a transcendência divina dessa mesma pessoa. Jesus reaparece para ser batizado por João Batista. para a festa da Páscoa. Jesus é o ser humano histórico. Jesus nasceu em Belém de Judá. na Galiléia.Jesus Cristo O conteúdo de todo o Novo Testamento pode ser resumido em duas palavras: Jesus Cristo. a única fonte para estabelecer-se uma vida de Cristo é o Novo Testamento. O nome de Jesus Cristo vem do hebreu Jexua. costumes e lugares comprovam as informações do Novo Testamento. onde aquele era carpinteiro. ordenou a matança das crianças de Belém e arredores. Os historiadores romanos Tácito e Suetônio.do nascimento à vida pública - apenas sabe-se que Jesus esteve em Jerusalém para ser circuncidado e sua mãe purificada e. em uma dessas visitas a Jerusalém. Essa era a fórmula da profissão de fé da comunidade cristã primitiva e traduz exatamente a união da divindade e da humanidade numa mesma pessoa. informado da impressão causada pelo nascimento de Jesus. sobretudo os quatro evangelhos.

Basta que se compare o conteúdo de sua mensagem. aplicando-se ao povo todo como nação ungida. Eleito. Dali passou à Judéia. em que o povo vivia sob o jugo romano. . acima do que havia de mais respeitado em Israel. à Samaria. o termo tinha a conotação que hoje lhe damos de Libertador. expressões com que ele mesmo se designou: Filho de Deus e Filho do Homem.que arrastavam multidões. A história de Jesus Cristo. Messias não é um termo técnico do Antigo Testamento. pela exaltação dos humildes. Mais ou menos aos 33 anos foi acusado de subverter a lei religiosa. reino sacerdotal. pela fraternidade universal. os Evangelhos apresentam expressões que outros lhe aplicaram e as aceitou: Messias. a Lei de Moisés e os Profetas. na época de Jesus. Jesus não pode ser confundido com os profetas que surgiam em Israel como fenômenos crônicos. pela suave força de sua doutrina quanto às relações com Deus e os semelhantes. Respondendo à pergunta de quem era Jesus. pelas reações contra o sectarismo e o ritualismo dos fariseus e sacerdotes. e a ordem política da Judéia. Mesmo considerando sua história até este ponto. dos mansos e dos pobres. finalmente. à Jerusalém. prolongam a questão persistente nos Evangelhos: "Quem pensam que sou"? E ele dá a resposta na perspectiva do problema psicológico e humano da salvação: aceitá-lo ou negá-lo é optar definitivamente. e. Mas. Filho de David. pelo caráter universal da religião que pregava. foi preso e condenado à crucificação. Todos esses termos devem ser entendidos de acordo com o sentido histórico. Tornou-se famoso pelo estilo oratório simples e incisivo. e todas as suas conseqüências.