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“Ainda é Tempo”

Autor: Gabriel Mallet Meissner © Todos os direitos reservados

Publicado originalmente no blog Entremundos.

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Em dezembro de 2005, eu e minha namorada fomos mais duas


vítimas de uma violência já trivial em São Paulo: assalto à mão
armada. Voltando de madrugada de uma festa, estacionamos o carro
em frente à minha casa e fomos abordados por dois assaltantes
armados, que nos obrigaram a abrir minha residência, nos vendaram,
nos trancaram no banheiro, roubaram vários objetos de minha
residência e o carro de minha namorada.

Como muitos que passaram por esta mesma experiência, o que mais
me feriu não foi a perda financeira, mas a violência moral, o
sentimento de impotência que me consumiu durante dias, apesar de
minha tentativa de lidar com a situação de maneira equilibrada, de
não me alterar e manter a cabeça fria.

E eu o consegui. Mas não antes de expressar toda a minha raiva e


frustração. Certa noite, tentei ouvir alguns CDs em um aparelho de
som que não funcionava direito e que por isso eu não tinha o
costume de usar. Porém, como o aparelho que eu usava havia sido
levado pelos assaltantes, era uma minha única opção. Quando o
aparelho não rodou nenhum dos CDs que coloquei nele, todo o ódio
que eu sentia pelos criminosos tomou conta de mim e passei a
destruir o aparelho com as minhas próprias mãos, enquanto os
xingava como se estivessem lá – “filhos da puta! filhos da puta!”,
gritava eu sem parar.

Terminada a catarse, eu estava bem. Sentia-me equilibrado,


tranqüilo, em paz. Em alguns dias, desapeguei-me do ocorrido. Ao
invés de me lamentar dele, decidi aprender com ele.

E aprendi a não odiar os dois criminosos que me assaltaram. Primeiro


que entendi que o ódio não prejudicaria a ninguém, a não ser a mim
mesmo (“guardar um ressentimento é como tomar veneno e esperar
que a outra pessoa morra” disse Shakespeare, sabiamente). Segundo
que não vejo como acontecer algo terrível com eles possa me trazer
alento.

Assim, não desejo – como muitos desejariam – que sejam crivados


de bala pela polícia, torturados ou estuprados na cadeia. Desejo
justiça, sim – mas não retaliação. Desejo que sejam capturados,
punidos e reabilitados para a vida em sociedade. Sei que em nosso
sistema carcerário as chances de isso acontecer tendem à zero e que
é mais possível que, se presos, a prisão os torne piores ao invés de
melhores; ainda assim é o meu desejo.

É meu desejo que estes dois criminosos se arrependam, aprendam


que não serão felizes tirando o que é meu (da mesma forma que eu
não sou feliz devido às minhas posses, mas apesar delas) e me
tratando de forma humilhante e que encontrem felicidade e
realização dentro de si mesmos e não contra os outros. Assim,
desejo-lhes o mesmo que desejo à minha família, aos meus amigos,
a um estranho e a mim mesmo. Pois todos, sem distinção, estamos
mais ou menos doentes e necessitamos do mesmo remédio:
encontrar a felicidade inabalável que reside em nossos corações e a
qual não pode ser roubada, mas apenas oculta de nós por nós
mesmos.

Se de alguma maneira estes dois assaltantes aprenderem esta lição,


não desejo mais nem que sejam presos. Pois o propósito da prisão,
que deveria ser este, já terá sido alcançado. E ainda que as chances
disso acontecer possam ser pequenas, torço que aconteça, pois creio
ser possível.

Apesar de todas as atrocidades que vejo cotidianamente, de todas as


violências que já sofri, de todas as notícias terríveis que recebo pela
mídia, estou resoluto a não perder a esperança no ser humano
jamais. Nunca perderei a fé no potencial que todos, mesmo o mais
atroz dos criminosos, temos de desenvolver nosso dom mais
precioso: o sentimento de união com todos o seres. E tudo aquilo que
advém deste sentimento – responsabilidade para consigo mesmo e
para com o mundo, compaixão e amor incondicional pelo próximo.

Creio firmemente neste potencial porque, voltando meu olhar para o


meu íntimo e sendo honesto comigo mesmo, vejo-o lá. Dormente em
grande parte e esperando para ser desperto é verdade, mas não
tenho dúvidas de que está lá. E se está em mim, tenho certeza
absoluta de que está em todos. Pois, como disse La Boetie, a
natureza nos fez todos “da mesma forma e (…) na mesma fôrma.” Se
este potencial não estivesse nos assaltantes que invadiram minha
casa, não estaria em mim, como acredito que esteja.

Portanto, faço minhas as palavras do poeta Thiago de Melo: “apesar


do próprio homem, ainda é tempo.”

Fonte: HTTP://entremundos.com.br

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