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UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA FACULDADE DE TEOLOGIA

Mestrado Integrado em Teologia

Quem é o Jesus de Jo 4, 43-54?

Um estudo da perícope da cura do Filho do Funcionário Real.

Bruno Miguel Bulcão Ávila

Aluno nº 311509014

Trabalho para a Unidade Curricular de Seminário de

Teologia intitulada “Cristologia e Exegese” do

Doutor Ricardo Jorge Freire.

3º Ano 1º Semestre Março de 2013 Ano letivo de 2012/2013 PORTO

1. Introdução.

1.1. Apresentação do objetivo e objeto do trabalho.

O presente trabalho de investigação foi elaborado no contexto da unidade curricular de Seminário de

Teologia, intitulado “Cristologia e Exegese”, lecionado pelo Doutor Ricardo Jorge Freire, durante o semestre de Inverno, ano letivo de 2012/2013, do 3º Ano do Mestrado Integrado em Teologia, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa – Porto.

O objeto de estudo deste trabalho de investigação foi a perícope de Jo 4, 43-54, conhecida como “A

cura do Filho do Funcionário Real”. No que concerne ao objetivo, foi o de tentar encontrar a resposta para seguinte questão: Que imagem de Jesus é-nos apresentada nestes versículos joaninos? Por outras palavras, quem é o Jesus de Jo 4, 43-54?

A escolha da perícope foi determinada por dois motivos. Em primeiro lugar, estávamos a frequentar

durante o semestre outra unidade curricular, a de Escritos Joaninos. Atendendo ao âmbito destas unidades curriculares, chegámos à conclusão que existia uma sinergia entre ambas e que isso motivaria e ajudar-nos-ia no estudo da perícope em questão. Mas, temos de confessar que inicialmente receávamos existir um choque entre ambas, situação que não ocorreu. Em segundo lugar, estes versículos do Evangelho de João sempre nos fascinaram. Logo, tentámos aliar a questão de gosto pessoal com o contexto presente de estudo do Mestrado Integrado em Teologia em que nos encontrávamos. Revelamos que esta conjetura motivou-nos profundamente! Em termos metodológicos, ao longo do presente trabalho, e tal como pode ser lido ao longo das páginas que se seguem, procurámos utilizar uma linguagem simples, elaborando uma exposição sintética das principais ideias e conclusões obtidas. Para este fim, aplicámos os conhecimentos e métodos que adquirimos e aos quais fomos expostos ao longo das sessões da unidade curricular. Acrescentamos que também foi efetuada uma pesquisa bibliográfica, tendo sido consultados alguns dos mais importantes autores e exegetas do Evangelho de João. No que concerne à tradução utilizada como base de trabalho, tomámos a decisão de utilizar a que foi elaborada por Bernardo Corrêa d’Almeida e que se encontra presente no anexo da sua obra A Vida numa palavra 1 . Notámos que esta aproximava-se melhor do texto original em grego quando comparada com algumas da traduções vernáculas que circulam. Quanto ao texto original em grego, efetuámos consultas pontuais à

1 ALMEIDA, Bernardo Corrêa d’ – A vida numa palavra: Uma nova leitura do Evangelho de S. João. Porto: Universidade Católica Editora, 2012, p. 281-328.

quarta edição revista do The Greek New Testament 2 . E, também temos de mencionar que foi importante o uso do programa informático BibleWorks 3 . Por fim, temos de fazer a seguinte “aviso à navegação”: o que se segue é o fruto do estudo e investigação dos meses que se antecederam à redação deste trabalho. Logo, o que apresentamos é mais uma leitura, provavelmente pessoal e obviamente incompleta, que pode acrescentar-se àquelas que foram feitas à perícope do Funcionário Real. Acima de tudo, aquilo que se apresenta foi tentativa possível de encontrar uma resposta à questão inicial colocada.

1.2. O Evangelho de João: uma apresentação geral.

Antes de nos debruçarmos sobre a nossa perícope, temos de expor algumas informações breves sobre o quarto evangelho. Tal como é de conhecimento geral, dos quatros evangelhos, este é atribuído ao apóstolo João e é o mais recente em termos de redação. O Evangelho de João apresenta diferenças quando comparado com os outros três evangelhos apelidados de sinóticos. Por exemplo, encontramos acontecimentos e personagens que são totalmente originais a este evangelho e que não ocorrem ou aparecem nos evangelhos sinóticos. Os vinte e um capítulos que o constituem foram escritos no contexto da comunidade joanica, ou seja, dos seguidores de João. De acordo com Bernardo Correia d’Almeida, a edição final do texto terá ocorrido por volta do ano 95. O autor deste evangelho, de acordo com o que está escrito no próprio texto, é o Discípulo Amado (cf. Jo 21, 23-25). Para além de ser uma personagem joanica, não ocorrendo nos evangelhos sinóticos, ele é definido pelo amor que recebe de Jesus e tem dois papéis principais no seu testemunho: a sua constante atração por Jesus e a função de guia de Pedro a Jesus. A atribuição da autoria do texto ao apóstolo João veio de Santo Ireneu 4 . E, de acordo com R. Kysar, o próprio Canon de Muratori afirma esta autoria, existindo igualmente evidências textuais da existência deste evangelho desde o início do século II 5 . Recordemo-nos que era costume na Antiguidade dar a autoria dum determinado texto ou obra a uma personagem que o valorizasse. Provavelmente, foi o que se sucedeu neste Evangelho. O que importava era salientar a figura de Jesus e não quem escreveu o texto. Logo, Bernardo Correia d’Almeida afirma que, canonicamente o autor do quarto evangelho é o discípulo amado, enquanto de acordo com a tradição a autoria seja atribuída ao apóstolo já referido 6 .

2 THE GREEK New Testament. Fourth Revised Edition. Ed. Barbara Aland, [et al.]. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2007, p.

312-406.

3 BIBLEWORKS. Version 5.0.02w. Bigfork, U.S.A.: BibleWorks LLC, 2001. 1 CD-ROM.

4 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 19-20.

5 Cf. KYSAR, Robert – John, The Gospel Of. In THE ANCHOR Bible Dictionary. Ed. David Noel Freedman. New York: Doubleday, 1992, vol. 3, p. 912.

6 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 20.

Como qualquer estudante de Teologia ou investigador bíblico sabe, podem ser apresentadas várias estruturas de um determinado texto ou perícope bíblica. São vários os fatores que levam a esta multiplicidade de hipóteses, como por exemplo o tema ou os critérios que o investigador ou estudante está a usar. Este facto foi constatado durante as sessões da unidade curricular e poderá ser visto adiante na estrutura que apresentamos da perícope em estudo. Por isso, acreditamos que a estrutura basilar do Evangelho de João apresentada por Bernardo Correia d’Almeida é mais do que suficiente para compreendermos o desenrolar da narrativa 7 . Este autor propõe a seguinte estrutura 8 :

Introdução (Jo 1, 1-51) I. A vida pública de Jesus (Jo 2, 1-12, 50) II. A última ceia (Jo 13, 1-17, 26) III. A glorificação do Rei dos judeus (Jo 18, 1-19, 42). Conclusão (Jo 20, 1-21, 25)

7 Se folhearmos a obra deste autor, notamos que faz estruturação bastante exaustiva do texto joanino, primando pelo pormenor e detalhe. Outras estruturações podiam ser apresentadas, tal como vimos nas obras consultadas, mas esta foi aquela com a qual mais nos identificámos.

8 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 23.

2. Desenvolvimento: Estudo de Jo 4, 43-54 (A cura do Filho do Funcionário Real).

2.1. Apresentação da perícope.

Esta perícope, tradicionalmente intitulada como “A cura do filho do funcionário real”, é constituída por onze versículos e, longo a partir de uma primeira leitura, notamos que é riquíssima. O seu valor está, na nossa opinião, nas suas personagens e no alcance do sinal que Jesus efetuou. Trata-se, de facto, de uma das perícopes mais conhecidas e citadas do evangelho joanino. E, estes 11 versículos encerraram o quarto capítulo deste evangelho. Um aspeto digno de nota é o fato de a maioria das traduções da texto evangélico reportarem sempre esta perícope a outras duas de dois dos evangelhos sinóticos, mais concretamente Mateus e Lucas. Referimo- nos a Mt 8, 5-13 e a Lc 7, 1-10, onde são-nos relatadas a cura do Servo do Centurião. Mais adiante, debruçar- nos-emos detalhadamente sobre a correspondência e/ou semelhanças entre estas duas perícopes sinóticas e a joanina que estamos presentemente a estudar. Para esse fim, guiar-nos-emos com a ajuda de alguns dos comentários bíblicos consultados, nomeadamente a análise feita por Raymond Brown 9 .

2.2. Uma leitura rápida da perícope: os seus elementos constituintes.

Comecemos por uma leitura rápida de Jo 4, 43-54, na qual expomos imediatamente os elementos do texto que são instantâneos 10 . Ao ler estes onze versículos, notamos imediatamente que estamos perante o relato de um dos sete sinais que Jesus que efetuou. Falamos do segundo sinal, onde Jesus cura o Filho do Funcionário Real. O relato deste sinal ocupa 9 dos 11 versículos (cf. Jo 4, 46-53), ou seja, quase a totalidade da perícope. Agora atentemos às personagens que encontramos na perícope. Temos seis personagens: Jesus, o Funcionário Real, o Filho, os galileus, os criados e os membros da casa do Funcionário Real. Destas, as três últimas são personagens coletivas. Dentre todas as personagens, tal como defende R. Culpepper, Jesus é a personagem principal. As restantes personagens são secundárias, aparecendo somente o tempo suficiente para ajudar à representação de Jesus 11 . Porém, nem só de personagens vive o texto da perícope. Vários locais são referidos ao longo do texto. Por ordem de aparição, temos a Samaria, que implicitamente podemos deduzir (cf. Jo 4, 43), a Galileia (cf. Jo 4, 43), Jerusalém (cf. Jo 4, 45), Caná (cf. Jo 4, 46), Cafarnaúm (cf. Jo 4, 46) e a Judeia (cf. Jo 4, 47). Estas referências espaciais são de cardial importância para o texto, tal como afloraremos mais adiante.

9 BROWN, Raymond E. – El Evangelio según Juan. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1999, vol. 1, p. 441-444.

10 No início do estudo da perícope, efetuámos um esquema em que resumimos o que cada uma das personagens, incluindo o narrador, diz no texto. Esse breve exercício foi muito útil. Incluímos em anexo esse esquema.

11 Cf. CULPEPPER, R. Alan – Anatomy of the Fourth Gospel: A study in literary design. Philadelphia: Fortress, 1983, p. 101-104.

De todos os locais que elencámos, o principal palco da ação é Caná da Galileia (cf. Jo 4, 47-50). Curiosamente é o local do primeiro sinal de Jesus e é também onde inicia a sua vida pública (cf. Jo 2, 1-12). Lá ocorre o diálogo entre Jesus e o Funcionário Real. Veremos, nos pontos seguintes, a importância deste local. Finalmente, falta mencionar o narrador. Partindo da leitura rápida que efetuámos, podemos deduzir algumas das suas caraterísticas. O narrador de Jo 4, 43-54 é, de acordo com classificação de R. Culpepper 12 , omnisciente, caraterística patente, por exemplo, no seu conhecimento das motivações do Funcionário Real (cf. Jo 4, 47). De acordo com a terminologia utilizada por Jean-Noël Aletti 13 , o narrador é extra-diagético, na medida em que não é uma das personagens da narrativa, ou seja, é exterior ao relato. Para além destas duas caraterísticas que apontámos, segundo o já referido Jean-Noël Aletti e àquilo que apreendemos nas sessões da unidade curricular, acreditamos que o narrador faz uma descrição do que acontece com a ajuda de diálogos (cf. Jo 4, 47-50). A isto é dada a designação anglo-saxónica de showing e que na língua portuguesa significa mostrar.

2.3. Análise da perícope.

Agora que já apresentamos as linhas gerais desta perícope, o passo seguinte é a sua análise. E tal como acontece em qualquer estudo, procurámos uma caminho a seguir. Dentre os vários que foram-nos apresentados ao longo das sessões da unidade curricular, acreditamos que o melhor a ser aplicado é uma análise por cena. Apesar de aparentemente tratar-se dum texto bastante breve, com apenas onze versículos, pode ser dividido em várias cenas. Antes de mais, temos de definir o que entende-se por cena. Podemos afirmar que é definida pelo espaço e pelas personagens. Jean-Noël Aletti diz-nos que existe uma nova cena quando há uma mudança de lugar, ou quando num mesmo lugar entram e/ou saem uma ou mais personagens 14 . Atendendo à leitura e ao estudo que efetuámos de Jo 4, 43-54, tomámos a decisão de utilizar como critério de divisão em cenas as personagens (entrada ou/e saída) e o espaço (movimentação). Juntando a estes dois critérios de divisão, acrescentamos um terceiro que é a temática que cada cena aborda. Isto estará bem explanado na análise que seguir-se-á. Admitimos que esta escolha metodológica, apesar de pretender ser objetiva, é, tal como acontece com todas as divisões de um determinado texto, subjetiva. Por outras palavras, é o fruto do nosso estudo e interpretação da perícope, os quais foram guiados pela investigação bibliográfica efetuados nos últimos meses. Cada um dos autores consultados apresentou a sua própria divisão da perícope, baseada em critérios diferentes. Juntando a isto, pareceu-nos que a divisão, que apresentaremos, era aquela que melhor adequava-

12 Cf. CULPEPPER – Anatomy, p. 20-21.

13 Cf. ALETTI, Jean-Noël – Voltar a falar de Jesus Cristo: A escrita narrativa do Evangelho de Lucas. Lisboa: Cotovia, 1999, p. 253.

14 Cf. ALETTI – Voltar, p. 251.

se, tanto à nossa experiência com o texto, como também às conclusões e à resposta à questão inicial que colocámos.

2.3.1. A estrutura da perícope: divisão por cenas.

Sem demora apresentamos a seguinte proposta duma estrutura possível para Jo 4, 43-54, elaborando uma breve descrição do tema de cada uma. Em primeiro lugar, temos a primeira cena que consideramos a introdução da perícope. Pode ser dividida em dois blocos. Em Jo 4, 43-44, o primeiro bloco, somos informados que Jesus, depois duma estadia na Samaria, partiu dessa região para a Galileia. No segundo bloco, correspondente a Jo 4, 45, o narrador descreve a chegada de Jesus à Galileia e a sua receção pelos habitantes dessa região. Segue-se em Jo 4, 46-49, a segunda cena, a qual consideramos como sendo o ponto central da perícope. De todas as cenas é a mais extensa. Nela encontramos o regresso de Jesus a Caná e o diálogo dramático que travou com o Funcionário Real, o qual pede-lhe a cura do seu Filho. Como terceira cena, temos Jo 4, 51-53. Neste três versículos, que funcionam, segundo a nossa opinião, como a conclusão, o Funcionário Real desloca-se para Cafarnaúm e, durante esse regresso a casa, depara-se com os seus criados que lhe informam da cura do Filho, ou seja, confirmam o segundo sinal de Jesus.

E, por fim, temos uma quarta cena, Jo 4, 54, que serve de epílogo à perícope e que fecha o ciclo iniciado em Jo 2, 1 e ao qual Bernardo Corrêa d’Almeida intitula “Jesus chama o povo à unidade para salva o mundo” 15 . Passemos agora a uma análise cena por cena da perícope.

2.3.1.1. A Primeira Cena (A introdução: A ida à Galileia): Jo 4, 43-45.

Logo no início (cf. Jo 4, 43) somos lembrados que Jesus encontrava-se na Samaria. Não existe uma nomeação explícita da Samaria, mas este local é facilmente depreendido atendendo aos versículos antecedentes. Recordemo-nos que nunca se deve interpretar uma determinada parte de um evangelho sem o seu contexto próximo e o seu contexto global. De facto, sabemos que Jesus permaneceu entre os samaritanos dois dias. Mas, afinal, o que aconteceu para permanecer dois dias numa região que era evitada a todo o custo por qualquer bom judeu? Depois de um belo diálogo tido com a Samaritana (cf. Jo 4, 1-27), esta mulher corre para a cidade e transmite a mensagem aos seus compatriotas que Jesus era provavelmente o Messias (cf. Jo 4, 28). Esta comunicação deixa-os curiosos e deslocam-se ao encontro de Jesus (cf. Jo 4, 30). Ouvindo as palavras de

15 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 21.

Jesus, sabemos, através do narrador que muitos samaritanos acreditam Nele (cf. Jo 4, 39) e que permaneceu com eles durante dois dias (cf. Jo 4, 41). Como podemos ver, encontramos antes desta perícope a resposta positiva dos não-ortodoxos, posição que suceder-se-á na cena seguinte com o Funcionário Real 16 . É curiosa a repetição do número de dias em Jo 4, 41 e Jo 4, 43. Não será isto uma repetição desnecessária? Pode sê-lo, mas o segundo versículo permite a ligação com os acontecimentos narrados em Jo 4, 1-42. Esta nossa conclusão é também defendida por Xavier Léon-Dufour 17 . No final de Jo 4, 43 o narrador diz-nos que Jesus desloca-se para a Galileia. Os dois versiculos

seguintes, Jo 4, 44-45, descrevem como Jesus foi acolhido pelos galileus. Contemplemos a antítese existente entre estes dois versículos. Enquanto em Jo 4, 44 sabemos pelo narrador que Jesus disse que um profeta não

é honrado na sua terra, em Jo 4, 45 o contrário acontece! Os galileus acolhem-no devido ao que Jesus tinha

feito em Jerusalém aquando da festa da primeira Páscoa descrita neste evangelho (cf. Jo 2, 13-25). Realmente

é muito estranho este contraste! De acordo com as leituras que efetuámos dos textos neotestamentários assinalamos que Jesus nos evangelhos sinóticos também cita várias vezes estas palavras (cf. Mt 13, 57; Mc 6, 4 e Lc 4, 24). Considerando

o acolhimento dos galileus, não é admirar que R. Culpepper avance com a ideia que Jo 4, 44-45 pode levar- nos a considerar que Jesus não provinha da Galileia, mas de Nazaré, da Judeia ou de Jerusalém 18 . Para além disto, este investigador também avança com a hipótese que Jo 4, 44 seja um acrescento tardio ao texto da perícope 19 . Mas, estes dois versículos, na nossa opinião, demonstram ao leitor o poder que a pessoa e as palavras de Jesus têm, rompendo com algumas das noções proféticas vigentes.

2.3.1.2. A Segunda Cena (O diálogo entre Jesus e o Funcionário Real): Jo 4, 46-50.

Depois de ter estado na Galileia, tal como referimos na cena anterior, Jesus regressa a Caná, local onde tinha feito o primeiro sinal (cf. Jo 4, 46). Graças ao narrador, somos informados que existia em Cafarnaúm um Funcionário Real que tinha um filho que estava doente (cf. Jo 4, 46). Este homem irá ao encontro de Jesus para lhe fazer um pedido: a cura do seu filho enfermo (cf. Jo 4, 47). Detenhamo-nos em alguns pormenores: Quem era o Funcionário Real? Era um judeu ou pagão? Estas questões podem parecer-nos bastante incipientes, mas ajudar-nos-ão a compreender o alcance do que nos é narrado na perícope. Tomando o texto original em grego, este homem é designado como basiliko,j. De acordo com R. Brown, este termo pode designar um indivíduo de sangue real ou um servidor do rei 20 . Este acredita que o Funcionário Real era, desculpando a tautologia, um servidor do rei e, que Cafarnaum, ao ser

16 Cf. KEENER, C.S. – The Gospel of John: A Commentary. Massachusetts: Hendrickson Publisher, 2005, vol. 1, p. 630.

17 Cf. LÉON-DUFOUR, Xavier – Lectura del Evangelio de Juan. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1997, vol. 1, p. 320.

18 Cf. CULPEPPER, R. Alan – The Gospel and Letters of John. Nashville: Abingdon Press, 1998, p. 145.

19 Cf. CULPEPPER – The Gospel, p. 145.

20 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 438.

uma cidade fronteiriça, possivelmente nela habitariam funcionários reais. Para Bernardo Corrêa d’Almeida este homem era alguém ligado à corte do Rei Herodes Antipas, governante da Galileia entre 4 e 39 a.C. 21 . Quanto à segunda questão, esta é de resposta mais difícil. Nada indica-nos com certeza se era um judeu ou um pagão 22 . Seria o Funcionário Real um judeu herodiano helenizado, tal como sucedia com a maioria dos elementos da corte? Face à indeterminação da origem do Funcionário Real, C. Keener, expondo as considerações J. Whitacre e J. Kysar, diz-nos que, para o primeiro, o Funcionário Real deveria ser gentio com o intuito dos leitores do Evangelho de João fazerem o contraste com a Samaritana, enquanto o segundo, inclina-se para a sua origem judaica, a qual seria motivo de escândalo pelo serviço na corte do rei Herodes Antipas 23 . Acrescentando a isto, o próprio C. Keener afirma que os membros da comunidade joanica não podiam ter a certeza da ortodoxia do suplicante e que, se estivessem familiarizados com o relato da cura do servo do Centurião Romano (cf. Mt 8,5-13 e Lc 7,1-10), naturalmente considerar-no-iam como sendo esse romano, visto existir a presença romana nessa região 24 . No fundo, independentemente da sua nacionalidade, somente podemos concluir que este homem era alguém importante. Um aspeto marcante desta cena é que Jesus é o primeiro a falar em discurso direto (cf. Jo 4, 48), sendo o Funcionário Real referido indiretamente pelo narrador (cf. Jo 4, 47). Xavier Léon-Dufour justifica isto com a finalidade de que seja Jesus a primeira pessoa a iniciar um diálogo. Esta é uma caraterística marcadamente joanica 25 . Retomando Jo 4, 47, vemos que este homem faz um pedido a Jesus, suplicando pela cura do seu filho

e que para isso percorre uma longa distância. Perante este pedido, Jesus é duro nas suas palavras (cf. Jo 4, 48). A sua recusa vem com as seguintes palavras que passamos a transcrever: “Se não virdes sinais e prodígios, não acreditareis” (Jo 4, 48). A primeira impressão que temos é que Jesus recusa com palavras fortes e duras, quase como se fosse uma condenação. Outro aspeto digno de nota é o emprego da expressão “sinais e prodígios”. É a única vez que no Evangelho de João que é empregue o termo “prodígio” (te,raj). É usado com um sentido desfavorável. Para R. Brown, este evangelho transmite a ideia que a superabundância de milagres apenas serve para cegar os olhos

e estabelece um paralelo com Gn 7, 3-4 26 . Completando o que este estudioso norte-americano salienta, Xavier

Léon-Dufour refere que a fórmula “sinais e prodígios” é de origem veterotestamentária e demonstra a visão deuteronomista da história 27 . Ao pegar nalguns dos episódios narrados nos livros do Êxodo (cf. Ex 11, 9 ou Ex 15, 11) ou do Deuteronómio (cf. Dt 4, 34), vemos que YHWH libertou o povo hebreu por meio de prodígios das mãos do faraó do Egito. A própria tradição veterotestamentária, nomeadamente a sapiencial, também não

21 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 91.

22 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 91.

23 Cf. KEENER, C.S. – The Gospel of John: A Commentary. Massachusetts: Hendrickson Publisher, 2005, vol. 1, p. 631.

24 Cf. KEENER – The Gospel, p. 631.

25 Cf. LÉON-DUFOUR – Lectura, p. 323.

26 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 438.

27 Cf. LÉON-DUFOUR – Lectura, p. 323-324.

cansar-se-á de invocar os prodígios de Deus com o intuito de recordo o povo da fidelidade de Deus (cf. Sl 78,

32).

Porém, a expressão de Jesus empregue em Jo 4, 48 é ainda mais enigmática, na medida em que os verbos estão na segunda pessoa do plural. Então, porque responderia assim no plural a uma só pessoa? Acreditamos que o uso da segunda pessoa do plural foi com o intuito de transmitir a mensagem contida na frase a todos aqueles que leem o texto. É um apelo a que cada um de “nós” reconheça que, para acreditar em Jesus, não são necessários sinais ou prodígios. Então em que devemos então acreditar? Para R. Brown, Jesus desejava elevar a fé baseada em milagres a uma que fosse fundada na sua palavra 28 . Pessoalmente inclinamo-nos para esta visão de R. Brown. Obviamente, o Funcionário Real não interpreta o que Jesus lhe diz em Jo 4, 48 como uma resposta negativa. No versículo seguinte (cf. Jo 4, 49), este homem retoma o pedido e pede que Jesus desça antes que o seu filho faleça. Jesus responde ao pedido com a simples frase: “Vai, o teu filho vive” (Jo 4, 50). E, o Funcionário Real acreditou na palavra de Jesus (cf. Jo 4, 50). É este versículo que responde à questão que colocámos no final do parágrafo. Há uma mudança de paradigma na fé: a passagem duma fé assente nos prodígios para uma baseada na palavra. Ao ouvir as palavras de Jesus, o Funcionário Real coloca-se a caminho, de volta a Cafarnaúm. Antes de passarmos para cena seguinte, temos de referir que a enfermidade descrita na perícope (cf. Jo 4, 46) é entendida como já sendo o domínio da morte sobre a vida 29 . Daqui compreende-se o uso do verbo avpoqnh,|skw que significa morrer ou estar às portas da morte (cf. Jo 4, 47-48).

2.3.1.3. A Terceira Cena (A confirmação do segundo sinal): Jo 4, 51-53.

Depois do importante e belo diálogo travado com Jesus, o Funcionário Real, tal como vimos no final da cena anterior (cf. Jo 4, 50), ruma a Cafarnaúm. Ao longo do caminho encontra os seus criados que vinham ao seu encontro e que lhe informam que o seu filho está curado (cf. Jo 4, 51). Mas, algo verdadeiramente peculiar sucede! O Funcionário Real inquire-os acerca da hora em o Filho ficou melhor, sendo informado pelos criados que a cura ocorreu à hora sétima (cf. Jo 4, 52). Com esta informação, o Funcionário Real tem a plena confirmação que a cura do seu Filho foi a obra de Jesus. A cura aconteceu quando Jesus proferiu as palavras: “O teu filho vive” (Jo 4, 53). Digna de nota é a observação que encontramos na frase final de Jo 4, 53. Nela contemplamos que também toda a sua casa acreditou em Jesus. Quando lemos esta parte, recordamo-nos imediatamente de alguns episódios dos Atos dos Apóstolos, nos quais os elementos de uma casa convertem-se quando o chefe da casa o faz. Segundo C. Keener, a conversão duma família inteira é corolário da fé da figura do pater

28 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 446.

29 Cf. LÉON-DUFOUR – Lectura, p. 322.

familias. Este autor comunica que no mundo romano a fé dos membros duma casa era a do chefe de família 30 . Conversões como esta acontecem várias vezes no texto dos Atos dos Apóstolos da autoria de Lucas. Um exemplo bastante conhecido disto é a conversão descrita em Corinto de Crispo, chefe da Sinagoga e de todos da sua casa (cf. At 18, 8).

2.2.1.4. A Quarta Cena (O epílogo): Jo 4, 54.

Na nossa opinião, a última cena da perícope tem a função de epílogo. Para além de fechar a narração do segundo sinal de Jesus, notamos que esta fecha o ciclo iniciado em Jo 2, 1. Curiosamente, R. Brown alerta para um aspeto interessante: dentro deste ciclo de quatro capítulos (cf. Jo 2-4), são aqueles que não estão em Jerusalém que acreditam em Jesus. Falamos da Samaritana e dos seus conterrâneos, dos Discípulos e do Funcionário Real e sua família 31 . Constituirá isto um apelo a uma conversão universal?

2.4. As semelhanças entre Jo 2, 1-12 e Jo 4, 43-54.

Não podemos negar que existe uma ligação entre os dois primeiros sinais descritos no Evangelho de João. Esta impressão foi confirmada pela bibliografia que consultámos. Logo, isto permite-nos fazer uma comparação de modo a encontramos as semelhanças e pontos de contato entre estas duas perícopes. Afinal, qual é a ligação entre as Bodas de Caná e a cura do Filho do Funcionário Real? Comecemos pelo espaço. Ambos os sinais ocorrem no mesmo local, ou seja em Caná (cf. Jo 2, 1 e Jo 4, 46). Para além disto, a perícope do Funcionário Real faz referência explícita a este local e ao acontecimento do primeiro sinal aí ocorrido (cf. Jo 4, 46). Já que vimos que ambas as perícopes ocorrem no mesmo espaço, é conveniente que façamos um breve resumo dos acontecimentos descritos em Jo 2, 1-12. Ao ler estes versículos, encontramos Jesus, sua Mãe e os seus discípulos num casamento (cf. Jo 2, 1-2). Porém, nem tudo corre bem na boda: não há vinho (cf. Jo 2, 3)! Maria relata o problema ao Filho (cf. Jo 2, 3), que lhe responde num tom brusco (cf. Jo 2, 4). Maria insiste (cf. Jo 2, 5-6) e Jesus dá ordens aos criados para encherem as vasilhas de água (cf. Jo 2, 7-8). Estes cumprem o pedido de Jesus (cf. Jo 2, 9) e ocorre o sinal: a água transforma-se em vinho (cf. Jo 2, 9-10). O sinal será confirmado pelo chefe de mesa em tom de espanto (cf. Jo 2, 9-10). Consequentemente é-nos dito que os discípulos acreditaram nele (cf. Jo 2, 11). Através desta breve descrição efetuada no parágrafo anterior, já podemos antever algumas semelhanças. C. Keener defende que existe uma conexão entre Jo 2, 1-12 e Jo 4, 43-54. Tal sucede na existência de alguém que suplica e na aparente recusa inicial de Jesus. No primeiro sinal, Maria, a Mãe de

30 Cf. KEENER – The Gospel, p. 633.

31 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 448

Jesus, é a suplicante e não aceita a aparente recusa do Filho (cf. Jo 2, 3-5). Quanto ao segundo sinal, o Funcionário Real age do mesmo modo, tal como vimos anteriormente. Ele suplica, Jesus aparentemente recusa e o Funcionário Real volta a insistir (cf. Jo 4, 48-50). C. Keener conclui que, em ambos os casos, Jesus faz um sinal com o intuito de convidar aqueles que Lhe estão próximos a um nível de fé superior àquele que é baseado em prodígios 32 . Estas observações de C. Keener, que referimos, encontram-se bastante desenvolvidas por R. Brown. Este defende que existe uma semelhança entre estes dois sinais. A referência do narrador ao primeiro sinal acontecido em Caná é já por si flagrante (cf. Jo 4, 48.54). Atendendo a esta semelhança entre os relatos, R. Brown afirma que ambos seguem o mesmo esquema: Jesus acaba de regressar da Galileia; alguém chega com um pedido; aparentemente Ele recusa; aquele que pede, insiste novamente; Jesus acaba por aceder ao pedido e impele outro grupo de pessoas a acreditar 33 . Ao lermos novamente estas duas perícopes, encontramos exatamente isso. Por exemplo, no que toca ao grupo que é levado a acreditar, na primeira perícope temos os discípulos (cf. Jo 2, 11) e na segunda perícope, temos os membros da casa do Funcionário Real (cf. Jo 4, 53). R. Brown também acrescenta que nenhum dos relatos informa-nos como se realizou cada um dos sinais e que, depois de ocorrerem, Jesus vai para Jerusalém, entrando no Templo. Acrescentando a isto, os dois relatos não findam com um discurso. Por conseguinte, este autor conclui que estas semelhanças levam à possibilidade de estarmos perante dois relatos que provem da mesma tradição, avançando com a hipótese da existência de um corpus de materiais joanicos que foram utilizados ao longo da redação do texto do evangelho 34 . Perante estas evidências, temos de concluir que existe uma ligação entre as perícopes. Esta relação entre Jo 2, 1-12 e Jo 4, 43-54 é interpretada por Bernardo Corrêa d’Almeida como o fechar de um ciclo. Entre estes dois sinais, Jesus percorre todo o povo, levando a humanidade inteira a receber e a dar a sua vida em Deus 35 . De facto, na nossa opinião, na primeira perícope, temos representado o povo judeu (os convivas e os discípulos), e na segunda, a humanidade inteira (o Funcionário Real e os membros da sua casa).

2.5. A relação entre Jo 4, 43-54 e o relato sinótico da cura do servo do Centurião Romano.

Admitimos que é conveniente analisarmos a relação entre esta perícope joanina e as duas sinóticas que relatam a cura do servo do Centurião Romano (cf. Mt 8, 5-13 e Lc 7, 1-10). Basta pegarmos em qualquer uma das três que encontramos logo a referência às restantes nas notas de uma qualquer tradução da Bíblia.

32 Cf. KEENER – The Gospel, p. 630.

33 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 444-445.

34 Cf. BROWN – El Evangelio, p.445.

35 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 93.

Existem muitas semelhanças e pormenores que são idênticos, enquanto existem outros que não o são. Logo, podemos equacionar a possibilidade de estarmos perante três perícopes que têm como fonte a mesma tradição. Por outras palavras, estaremos perante uma situação daquilo que, comumente, designa-se de tripla tradição? Segundo R. Brown, é desde os tempos de Santo Ireneu que existe a conceção que Jo 4, 53-54 é uma variante do relato do servo/criado do Centurião Romano 36 . O caso de, nos três relatos encontrarmos uma cura

à distância, aumenta a possibilidade de existir uma fonte comum, tal como defende C. Keener 37 . Mas, tal como

este autor manifesta, na generalidade são poucas as semelhanças entre os relatos. Para além disto, recorda que o fenómeno da cura à distância encontra-se também no relato da cura da filha da mulher sirofenícia (cf. Mt 15, 21-28 e Mc 7, 24-30) 38 . Por conseguinte, é natural que R. Culpepper vá também ao encontro da

particularidade da cura à distância. Adiciona que, no caso da perícope joanina e das sinóticas, as do Centurião

e da Mulher Sirofenícia, Jesus efetua uma cura à longa distância devido a um pedido 39 . Para além do elemento da cura à distância, Xavier Léon-Dufour alerta para a questão da fé, elemento dominante no relato joanino e nos relatos sinóticos. Em Mt 8,5-13 e Lc 7,1-10 o milagre é consequência da fé admirável do Centurião Romano, situação que não ocorre em Jo 4, 43-54. Este autor defende que a fé verdadeira em Jesus é posterior ao milagre. Para o Centurião Romano, Jesus não precisa de deslocar-se, pois basta uma palavra sua (cf. Mt 8, 8-9). Isto não acontece, tal como vimos anteriormente com o Funcionário Real, que insiste que Jesus se desloque para curar o filho (cf. Jo 4, 47). Recordemo-nos que Jesus não o faz, mas convida-o a tomar consciência da relação que existe entre os “sinais e prodígios” e acreditar (cf. Jo 4, 48) 40 .

Contudo, de todos os autores que consultámos, aquele que mais detalhadamente estuda esta questão

é R. Brown. Este elenca os elementos de encontro e as disparidades entre as perícopes. Muito sucintamente, salientamos que os pontos em comum são os seguintes: o nome de Cafarnaúm está presente nos três relatos, um indivíduo duma categoria social elevada pede um favor a Jesus, o favor pedido refere-se a um rapaz pertencente à casa daquele que pede, o rapaz/servo está doente, a resposta de Jesus e, finalmente, o já referido fenómeno da cura à distância e a referência temporal desse acontecimento 41 . E qual é a conclusão de R. Brown? Para este autor, as diferenças que encontramos entre a perícope joanica e os sinóticos podem explicar-se, tanto como sendo uma variante duma mesma tradição, como também um reflexo das peculiaridades de cada evangelista. As semelhanças indicam que os três relatos

36 Cf. BROWN – El Evangelio, p.441.

37 Cf. KEENER – The Gospel, p. 631.

38 Cf. KEENER – The Gospel, p. 632.

39 Cf. CULPEPPER – The Gospel, p. 145.

40 Cf. LÉON-DUFOUR – Lectura, p. 321.

41 Cf. BROWN – El Evangelio, p.441-443.

contam um mesmo episódio 42 , mas devido às diferenças entre estes 43 , não é possível determinar qual deles é a tradição mais antiga 44 . Perante o que foi exposto, pessoalmente apenas podemos afirmar que existe um conjunto de semelhanças entre Jo 4, 43-54 e os dois relatos sinóticos (Mt 8,5-13 e Lc 7,1-10), as quais estão alicerçadas fundamentalmente no acontecimento da cura à distância, fenómeno que acontece noutras situações, como no caso da Mulher Sirofenícia. No fundo, não existem provas suficientes para afirmar, com certeza, que estamos perante uma tripla tradição. Só existe uma única certeza, a figura de Jesus e o seu impacto na vida dos intervenientes destes relatos.

42 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 443.

43 Aconselhamos a consulta da análise detalhada que R. Brown faz das diferenças.

44 Cf. BROWN – El Evangelio, p. 444.

3. Conclusão.

3.1. A resposta à questão inicial: Quem é o Jesus de Jo 4, 43-54?

Depois da análise exposta ao longo destas linhas, acreditamos que já podemos responder à questão que foi colocada no início deste trabalho: Que imagem de Jesus esta perícope nos transmite? Concluímos que Jesus é a palavra que dá vida. Quando acreditamos nas palavras de Jesus, a nossa vida e os nossos pedidos são atendidos. É isto que sucede com o Funcionário Real. Ao acreditar nas palavras de Jesus, a sua vida, a do seu Filho e a dos membros da sua casa mudaram, ou seja, da palavra passou-se à fé. É isto que constatamos na perícope que estudámos. Tomando a reposta à nossa questão inicial, concluímos que a trama de Jo 4, 43-54 é uma trama de reconhecimento. Jesus revela que é a palavra que dá a vida, verdade comprovada pela confirmação do sinal pelo Funcionário Real (cf. Jo 4, 53). Porém, podemos refinar melhor a definição desta trama como tendo uma fase inicial de reconhecimento. Fundamentalmente é a resolução do problema do Funcionário Real, a cura do seu Filho enfermo (cf. Jo 4, 46-47), que possibilita reconhecer quem é Jesus (cf. Jo 4, 53). Logo, podemos defender que nesta trama uma resolução leva ao reconhecimento, ou seja, uma está ao serviço da outra. Só assim podemos reconhecer quem é Jesus, tal como referimos no parágrafo anterior. Somos, de acordo com R. Culpepper, empurrados pelas personagens em direção à pessoa de Jesus 45 . Acreditamos que a palavra ocupa um papel bastante importante nos sete sinais que Jesus efetua ao longo do Evangelho de João. Já vimos que existe uma estrutura semelhante entre o primeiro sinal (cf.Jo 2, 1- 12) e o sinal relatado na perícope que estudámos. Mas, podemos acrescentar outra dimensão da palavra, a dimensão performativa. Colocámos as seguintes questões: Qual é a relação entre a palavra e os sinais de Jesus? Existirá um padrão? A Palavra conduz ao Sinal? Depois de termos relido os sete sinais que Jesus efetuou, notámos que existe efetivamente um padrão. O acatamento das palavras de Jesus leva ao desencadear do sinal. Isto foi comprovado na perícope estudada. E nos outros sinais? Será que isto sucede-se? Tomemos os outros seis sinais. No primeiro sinal (cf. Jo 2, 1-12), Jesus manda os criados encher as vasilhas de água (cf. Jo 2, 7-8) e a água lá contida transformou-se em vinho (cf. Jo 2, 7-8). No terceiro sinal (cf. Jo 5, 19), Jesus pergunta ao paralítico se quer ficar curado (cf. Jo 5, 6), manda-o levantar-se (cf. Jo 5, 8) e este fica curado (cf. Jo 5, 9). No quarto sinal (cf. 6, 1-15), tal como sabemos Jesus sacia uma multidão. Ele dá instruções (cf. Jo 6, 10) que são cumpridas. Miraculosamente, a multidão fica saciada (cf. Jo 6, 11-12). Por sua vez, no sexto sinal (cf. Jo 9, 1-7) Jesus manda que o cego lave os olhos na piscina de Siloé, o homem acata com a ordem de Jesus e ganha a faculdade da visão (cf. Jo 9, 6-7). E, de todos os sinais, o mais dramático e

45 Cf. CULPEPPER – Anatomy, p. 148.

belo é o da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-57). Jesus manda que se retire a pedra do sepulcro do amigo (cf. Jo 11, 39) e grita por Lázaro, ordenando que se levante (cf. Jo 11, 43). Lázaro retorna à vida e sai do sepulcro (cf. Jo 11, 44). Curiosamente, o quinto sinal é diferente dos restantes que descrevemos. Jesus caminha nas águas (cf. Jo 6, 16-21), ou seja, o objeto do próprio sinal é Ele próprio. Observando isto, conclui-se que existe efetivamente um padrão em seis dos sete sinais de Jesus. Em primeiro lugar, Jesus encontra alguém e conhece qual o problema que essa pessoa padece ou o que é que a preocupa. Em segundo lugar, toma a iniciativa, abordando-a e faz-lhe um pedido ou dá-lhe uma ordem. Em terceiro lugar, a pessoa acolhe e cumpre as palavras de Jesus. E, finalmente, em quarto lugar, ocorre o sinal. No fundo, isto sucede em Jo 4, 43-54 com o Funcionário Real. Estas evidências que destacámos reforçam ainda mais a imagem que Jesus transmite na perícope estudada. Afinal, esta imagem de Jesus não se limita aos versículos estudados. De facto, não podemos negar que Jesus é a palavra que dá vida. Seis dos sete sinais revelam isso claramente, mostrando a dimensão performativa da palavra. Todos os intervenientes dos sinais joanicos ultrapassaram um problema graças à escuta e acolhimento da palavra de Jesus. Quanto ao Funcionário Real, R. Culpepper, ao classificar os vários tipos de respostas a Jesus que as personagens joaninas têm, coloca o Funcionário Real na categoria daqueles que acreditam nas palavras de Jesus. Tal como acontece com Samaritana ou com cego de nascença, a confiança nas palavras de Jesus conduz a uma fé autêntica 46 . Este autor também acrescenta que o Funcionário Real exemplifica aqueles que acreditam por causa dos sinais, mas mostram que estão preparados para acreditar nas palavras de Jesus 47 . Concordamos totalmente com este parecer de R. Culpepper. Comprovadamente o Funcionário Real acarreta a ordem de Jesus, acreditando Nele (cf. Jo 4, 50). Posteriormente tem a confirmação da cura do Filho, acredita e, por consequência, acreditam todos os elementos da sua casa (cf. Jo 4, 51-54). Por isso, também podemos concluir, tal como remata Bernardo Corrêa d’Almeida, que a palavra é a grande protagonista do Evangelho de João, ou seja, Deus recria-nos através da escuta das palavras de Jesus 48 .

3.2. Conclusões pessoais.

Em jeito de conclusão, afirmamos que o estudo e a elaboração deste trabalho foi uma oportunidade de crescimento. Para além de termos ter podido aplicar o que aprendemos ao longo das sessões da unidade curricular, podemos aprofundar um pouco mais o conhecimento que temos do texto bíblico, neste caso do Evangelho de João.

46 Cf. CULPEPPER – Anatomy, p. 145-148.

47 Cf. CULPEPPER – Anatomy, p. 137.

48 Cf. ALMEIDA – A vida, p. 21.

Confessamos que sentimos algumas dificuldades, porque, visto ainda estarmos no terceiro ano de estudo do Mestrado Integrado, ainda não termos tido a unidade curricular de Cristologia. Confessamos que também temos alguma dificuldade em lidar com a língua grega, apesar de já a termos estudado. Admitimos igualmente que muitos aspetos ficaram por focar e os quais gostaríamos ter abordado. Referimo-nos nomeadamente à questão dos topónimos presentes na perícope e outras questões relacionadas com o texto original em grego, como por exemplo, a elaboração de uma análise morfológica. Foram vários os fatores que levaram-nos a não aflorar estas questões. Destacamos a nossa já referida dificuldade com a língua grega, traduzida numa insegurança nossa; na questão da gestão do tempo, falha que estamos a tentar corrigir; na nossa organização caótica das ideias, que resultou em vários outlines diferentes do trabalho e, também ao limite de 15/20 páginas pedido. Desejaríamos agradecer a atenção e ajuda dispensada pelo Doutor Ricardo Jorge Freire. Soube motivar-nos e oferecer conselhos preciosos, sempre com paciência e simpatia. Ele possibilitou-nos conhecer métodos e abordagens bíblicas que não imaginávamos existir. Foi graças a ele que conseguimos definir o objetivo deste trabalho e encontrámos a rota certa para o nosso barco chegar ao porto. Finalmente, o estudo de Jo 4, 43-54 marcou-nos, na medida em que possibilitou-nos conhecer ainda melhor a pessoa de Jesus, bem como o efeito que Ele tem na vida daqueles que Nele e nas suas palavras acreditam. Reconhecemos que o ato de conhecer Jesus é algo de contínuo ao longo da nossa vida. Reconhecemos que este estudo foi mais um passo nesse caminho!

4. Bibliografia consultada.

ALETTI, Jean-Noël – Voltar a falar de Jesus Cristo: A escrita narrativa do Evangelho de Lucas. Lisboa:

Cotovia, 1999. 253 p.

ALMEIDA, Bernardo Corrêa d’ – A vida numa palavra: Uma nova leitura do Evangelho de S. João. Porto: Universidade Católica Editora, 2012. 341 p.

BROWN, Raymond E. – El Evangelio según Juan. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1999, vol. 1, p. 438-

450.

CULPEPPER, R. Alan – Anatomy of the Fourth Gospel: A study in literary design. Philadelphia:

Fortress, 1983, p. 99-148.

CULPEPPER, R. Alan – The Gospel and Letters of John. Nashville: Abingdon Press, 1998, p. 144-147.

KEENER, C.S. – The Gospel of John: A Commentary. Massachusetts: Hendrickson Publisher, 2005, vol. 1, p. 630-633.

KYSAR, Robert – John, The Gospel Of. In THE ANCHOR Bible Dictionary. Ed. David Noel Freedman. New York: Doubleday, 1992, vol. 3, p.912-931.

LÉON-DUFOUR, Xavier – Lectura del Evangelio de Juan. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1997, vol. 1, p. 318-328.

THE GREEK New Testament. Fourth Revised Edition. Ed. Barbara Aland, [et al.]. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2007, p. 312-406.

5. Anexo.

5. Anexo. 18

6. Índice.

1.

1

 

1.1. Apresentação do objetivo e objeto do

1

1.2. O Evangelho de João: uma apresentação

2

2.

Desenvolvimento: Estudo de Jo 4, 43-54 (A cura do Filho do Funcionário Real)

4

 

2.1. Apresentação da

4

2.2. Uma leitura rápida da perícope: os seus elementos constituintes

4

2.3.

Análise da perícope

5

2.3.1. A estrutura da perícope: divisão por

6

 

2.3.1.1. A Primeira Cena (A introdução: A ida à Galileia): Jo 4, 43-45

6

2.3.1.2. A Segunda Cena (O diálogo entre Jesus e o Funcionário Real): Jo 4,

7

2.3.1.3. A Terceira Cena (A confirmação do segundo sinal): Jo 4,

9

2.2.1.4. A Quarta Cena (O epílogo): Jo 4, 54

10

 

2.4.

As semelhanças entre Jo 2, 1-12 e Jo 4,

10

2.5.

A relação entre Jo 4, 43-54 e o relato sinótico da cura do servo do Centurião Romano

11

3.

14

 

3.1.

A resposta à questão inicial: Quem é o Jesus de Jo 4, 43-54?

14

3.2.

Conclusões pessoais

15

4.

Bibliografia

17

5.

Anexo

18

6.

19