Você está na página 1de 16

O PREMILENISMO

ENSINADO NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

Pelo Rev. Dr. George E. Henderlite

2ª Edição Corrigida

RECIFE, 1921

Impressão Póstuma da 2ª Edição Corrigida. Recife, 1921

Em Memória de George E. Henderlite.

Editada por Gerson Novah, São Paulo, 1977


O PREMILENISMO

ENSINADO NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

I
Sr. Redator

Tenho lido com muita satisfação, no Presbiteriano, o excelente comentário do Dr.


Broadus sobre no Evangelho de S. Mateus.
Creio que não existe melhor na língua inglesa, e estimo que seja vertido par o
português.
Em o nº 11, porém, no qual temos aquele capítulo – o XXIV – o mais difícil de todos
para interpretar, achei tanta confusão e tantas contradições que creio que os leitores ficarão
mais confusos depois de ter lido os comentários e as explicações do que antes.
Como sabeis, há duas escolas de interpretes em nossa Igreja: Premilenistas e pós-
milenistas.
O Dr. Broadus nem é um nem outro, porém nos seus comentários sobre esse capítulo
aceita mais ou menos a teoria pós-milenistas.
Havendo outra interpretação, a dos premilenistas, e muitos dos leitores do
Presbiteriano crendo nessa doutrina, peço lugar em vosso jornal para dar a interpretação
premilenista.
Não é que pretenda expor a profecia, nem apresentar-me como mestre para ensinar a
Igreja de Deus. Sou simples pregador.
Mas creio que a Bíblia não é impossível de compreensão pelo crente, o mais humilde,
se ele aceitar a vinda premilenista de Cristo e o plano geral que esta crença necessita.
Escrevo, pois, principalmente para meus irmãos premilenistas com a esperança de dar
apenas algumas sugestões que possam indicar o lugar que o capítulo XXIV de S. Mateus
ocupa no sistema geral da profecia.
Há algumas verdades fundamentais em que os Premilenistas crêem, e que são as bases
para a interpretação das Escrituras. Escrevendo para esses irmãos, vamos enumerá-las:
I. Cremos que o Nosso Senhor tornará a voltar para este mundo.
II. Que a sua vinda será pessoal e real. Queremos dizer que as Escrituras que falam da
vinda de Jesus nunca confundem esta vinda com a morte do crente, nem com a vinda co
Espírito Santo, nem com a destruição de Jerusalém, como faz o ilustre comentador diversas
vezes neste capítulo.
III. Que a segunda vinda consta de duas partes:
Primeira: Ele vem receber a igreja no fim da dispensação atual, mas não chegará à
terra. É a Igreja – os santos mortos ressuscitados, os vivos mudados – todos arrebatados, - que
sai ao encontro d’Ele no ar.
Segunda: Depois de alguns anos Ele vem para a terra a fim de estabelecer o seu reino
Messiânico.
Este último é, propriamente falando, a Segunda vinda ou a Manifestação ou a
Revelação de Jesus Cristo.
IV. Que entre estas duas partes: ao arrebatamento da Igreja e a manifestação de Jesus,
haverá um período de sete anos, ao menos, em que a última das setenta semanas proféticas de
Daniel será cumprida.
Este é o tempo em que Deus há de continuar de novo a cumprir com as profecias do
Velho Testamento, o cumprimento das quais foi interrompido pela morte do Messias e a
entrada deste parêntese chamado a dispensação cristã, que principiou com o Pentecostes e se
findará com o arrebatamento. Este é o tempo também, sendo tirado o testemunho da Igreja,
em que Deus entrará de novo em relações com Israel, e por meio do testemunho de um
número fiel entre eles e também por tribulações sem iguais, preparará o povo para receber o
seu Messias.
V. No meio desta tribulação, quando o aperto tiver chagado ao mais subido grau, a
cidade estando cercada pelos exércitos inimigos e um testemunho da vinda do Rei e do reino
tendo saído entre todas as nações, o Senhor virá em poder e livrará o seu povo, destruirá os
exércitos da Besta, julgará as nações vivas e estabelecerá seu reino; a nação judaica ocupando
o primeiro lugar no reino, e os Gentios recebendo as bênçãos por meio dos judeus.
A Igreja glorificada nas celestialidades será associada com o Rei não governo do
reino.
VI. Este reino há de continuar por mil anos. Durante este tempo serão cumpridas
literalmente todas as profecias do Velho Testamento quanto ao triunfo final de Cristo sobre
seus inimigos, quanto ao reinado de justiça e paz e quanto à felicidade dos justos na terra.
Muitas destas profecias podem ter também um cumprimento parcial nos eventos que
se dão na história do Cristianismo. Mas, que seja lícito tomar estas promessas de restauração e
prosperidade temporal feitas a Israel, e aplicá-las à Igreja, dizendo que são cumpridas num
sentido espiritual – NÃO ADMITIMOS. Por exemplo, cremos que assim como as profecias
sobre Jesus, na primeira parte das palavras do Anjo a Maria, tiveram cumprimento literal,
assim mesmo as outras na mesma passagem terão cumprimento literal – que assim como
Jesus não foi uma idéia ou um princípio espiritual que entrou no mundo moral, e sim Maria
deu à luz um menino realmente, assim mesmo cremos que Ele estabelecerá literalmente de
novo neste mundo o reino de Seu pai Davi.
Nós repreendemos aos Escribas e fariseus por não terem cridos no cumprimento literal
da profecias sobre a primeira vinda de Jesus; não seremos nós culpados da mesma
incredulidade se não crermos no cumprimento literal das profecias sobre a segunda vinda?!
VII. Depois deste reinado de mil anos Satanás será desatado por um pouco de tempo, a
iniqüidade aberta se manifestará outra vez, mas será de pouca duração, os iníquos sendo
destruídos pelo fogo do céu e Satanás lançado no fogo do inferno. Então haverá a segunda
ressurreição – a dos maus –, e o juízo do Grande Trono Branco.
Estas são as sete verdades básicas da doutrina premilenista. É a aceitação ou não
dessas verdades que determina se um homem é premilenista ou não. Se o leitor da Bíblia
compreender bem este plano, todas as passagens, – embora sejam as mais difíceis, podem ser
harmonizadas e interpretadas de tal forma que não haverá contradição, e a fé do crente na
palavra de Deus será reforçada e alimentada. O LIVRO DE DEUS será um gozo perpétuo, –
nunca, de certo sem dificuldades e questões que precisam de paciência e estudos profundos
para as resolver, – mas será um livro inteligível em vez do quebra-cabeça que só um ilustre
doutor possa explicar e depois da explicação ninguém, não excetuando o doutor mesmo,
possa entender.
Estou escrevendo para o irmão premilenista, porque é a doutrina cardial do Pós-
milenismo que ninguém pode entender uma profecia até depois do seu cumprimento. Nos,
porém, concordamos com S. Pedro, que diz: “Ainda temos mais firme a palavra dos profetas:
a qual fazeis bem de atender, como a uma tocha que alumia em um lugar tenebroso até que
o dia esclareça”.
Se Deus acendeu esta luz para esclarecer as trevas sobre o futuro da sua Igreja, do seu
antigo povo e deste mundo desgraçado, não será desprezo e incredulidade de nossa parte não
atender a ela?
E este plano acima não é minha invenção. É o “credo” de uma escola de intérpretes
ilustres. Vem dos Após tolos e da Igreja apostólica. Era a crença da Igreja universal nos
primeiros séculos – nos melhores e mais puros anos da sua existência. Durante o século das
trevas quando a Igreja apostatou, querendo estabelecer o reino sem o Rei, estas verdades
desapareceram da sua fé. Ela esqueceu-se do seu noivo Divino e casou-se com os Imperadores
meio-convertidos do paganismo. Renunciou suas esperanças celestiais, querendo estabelecer-
se aqui na terra como reino político-religioso.
Desde a Reforma, que jamais foi reforma da escatologia da Igreja, nem uma volta
geral para a simplicidade dos Apóstolos, tem havido uma cadeia extensa de ilustres homens
que ensinaram esta doutrina. Mas nestes últimos anos a doutrina tem sido universalmente
ressuscitada, e se tivéssemos espaço, podíamos dar centenas de nomes ilustres de lentes em
nossos seminários, ministros em nossos púlpitos e evangelistas na Igreja geral que adotam
este plano na sua interpretação das Escrituras.
Não é, porém, questão de nomes e de adeptos que estabelece qualquer verdade, mas o
que tem se revelado nas Escrituras. A questão é esta: o que é que Deus revelou na sua
Palavra? Esta menção de todos os séculos e de todos os países só mostra que, segundo o juízo
destes homens eminentes da Igreja de Deus, essas doutrinas são claramente ensinadas nas
escrituras. Este consenso de nomes mostra que muitos dos melhores intérpretes aceitam com
uma simples fé a interpretação literal das palavras da Bíblia em vez de adotar esse processo
figurativo-espiritual de interpretação que fez a menina crente perguntar: Se Deus não queria
dizer o que disse, por que não disse o que queria dizer?
Depois de ler o comentário no número 11 do Presbiteriano, achei as palavras da
menina sensatas e verdadeiras. Se Jesus não queria dizer o que disse, por que não disse o que
queria dizer? Cremos que as suas palavras em Mateus XXIV querem dizer exata e
simplesmente o que Ele queria disse, e se ajuntarmos tudo o que Ele disse no mesmo sentido
em outros lugares (tanto no Velho como no Novo Testamento, porque foi ele que falou pelo
espírito toda a profecia), fazendo comparação de escritura com escritura e procurando achar o
tempo e o lugar próprio deste capítulo no plano geral, não teremos dificuldade alguma em
compreender as suas palavras.
Fazer isso exige trabalho da parte do comentador e paciência e estudo da parte do
leitor. Não podemos explicar este capítulo difícil em poucas palavras, nem vós podeis
entendê-lo com uma leitura ligeira.
Podemos, porém, indicar o seu lugar no plano geral de modo que será derramada sobre
cada versículo e cada palavra tanta luz, tanta concordância das outras partes das Escrituras,
que sua significação será clara, sua aplicação própria e interpretação certa; e resultará na alma
a satisfação e a firme convicção de que sabeis a verdade.
Isto será uma verdadeira felicidade, e é isso que pretendemos fazer, se Deus quiser, em
outro artigo.
II
EXPOSIÇÃO DO CAPÍTULO XXIV DE S. MATEUS
“Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?”

Em resposta a estas perguntas (v. 3) dos discípulos, Nosso Senhor respondeu por um
discurso muito prolongado; uma parte do discurso se acha no Evangelho de S. Lucas, e outra
parte do mesmo em Mateus. O discurso foi falado duma vez na presença dos quatro
discípulos, mas não foi escrito pelos Evangelistas senão anos depois. Depois da morte do
Senhor, o Espírito santo escolheu quatro homens para escreverem a vida de Jesus. Fazendo a
comparação destas quatro biografias de Nosso Senhor, é manifesto que dos fatos, – os
milagres, as parábolas, e os discursos do Senhor, – cada um escolheu aquilo que servia melhor
para o fim que tinha em vista.
S. Mateus escreveu especialmente para os judeus, querendo mostrar que Jesus era o
Messias e o rei dos judeus. É esta a razão porque temos nele a genealogia legal provando que
Jesus é o herdeiro legal do trono de Davi.
S. Marcos dá-nos a vida de Jesus sob o ponto de vista de ministro ou servo de Deus.
Isso explica porque não há genealogia alguma; um servo, como servo, não tem genealogia.
Explica também porque é em Marcos que se diz que o Filho do Homem não sabia o dia da sua
vinda: o servo, como servo, não sabe os tempos, o seu trabalho é obedecer sem fazer
perguntas.
Lucas escreve a vida de Jesus como homem-membro da raça humana, portanto temos
nesse Evangelho, a genealogia até Adão. É também a genealogia de Maria que é da casa de
Davi, mostrando que Jesus não é somente herdeiro do trono por ser herdeiro legal de José,
mas também é verdadeiro filho de Davi.
S. João, anos depois dos outros, escreveu a vida de Jesus como filho de Deus. Não
temos também neste Evangelho genealogia, porque como Deus Ele é eterno como o Pai.
Reconhecer, pois, que cada um dos escritores tem um certo fim, é achar a explicação
das diferenças, das omissões e do arranjo diferente do material.
Jesus no seu discurso falou tanto da destruição de Jerusalém como dos eventos do fim
do mundo. S. Lucas sob sob a direção do Espírito Santo, escolheu uma parte para dar resposta
à primeira pergunta e mostrar os eventos em relação aos cristãos. S. Mateus, ao contrário, sob
a mesma direção divina, escolheu outra parte para outro fim, a saber: responder em detalhes
às outras perguntas.
Compreender isso é evitar a confusão em que os comentadores têm caído em querer
reconciliar duas coisas impossíveis de reconciliação.
A primeira pergunta dos discípulos é: Quando sucederão estas coisas?
A resposta se acha plenamente em S. Lucas cap. XXI. Temos aí instruções para guiar
os cristãos até a destruição de Jerusalém; para salvá-los durante o sítio pelos exércitos de Tito
(os quais de fato se salvaram retirando-se para a vila de Pela antes da destruição da cidade); e
instruções para mostrar o futuro de Jerusalém pisada pelos Gentios durante os séculos até a
vinda do Senhor, com os sinais que acompanharão aquele evento. Tudo isso está
desenvolvido em Lucas; e os comentadores não têm dificuldade alguma em harmonizá-lo.
S. Mateus, pelo contrário, não falou da destruição de Jerusalém, mas escolheu na sua
própria ordem os eventos mencionados que dão resposta às outras perguntas dos discípulos.
Os comentadores de S. Mateus não repararam este fato, caíram em grande confusão
querendo fazer duas passagens dizer a mesma coisa quando falam de eventos separados um
do outro por mais de 18 séculos!!
Tudo será simples, porém, se reconhecermos que Lucas fala de uma coisa, e Mateus
de outra, enquanto Jesus falou de todas duas no mesmo discurso; tudo será simples se
reconhecermos que S. Mateus não responde a esta primeira pergunta a qual tem referência à
destruição do templo e da cidade no ano 70 A.D., mas passa a responder às duas outras. Eis a
solução do problema tão difícil par os intérpretes! A prova será perfeitamente evidente mais
adiante.
“Mas”, pergunta o leitor espantado com esta conclusão, “se S. Mateus não fala da
destruição de Jerusalém e dos cristãos, de que e de quem é que fala? Quais são estes crentes
perseguidos, se não cristãos? Qual será este Evangelho pregado para testemunho entre as
nações, se não o nosso? Quais serão estas guerras, fomes, etc., se não aquelas de que fala a
história geral do mundo até o presente?”
Paciência, meu irmão! A explicação não será difícil se já lestes os sete axiomas dos
premilenistas.
O artigo 4º do seu credo reza assim e derramará luz sobre vossas perguntas: “Cremos:
que entre o arrebatamento da Igreja e a vinda do Senhor em poder e glória, haverá um período
de sete anos, em que a última das setenta semanas proféticas de Daniel será cumprida. Este é
o tempo em que Deus há de continuar de novo a cumprir com as profecias do V. Testamento;
o cumprimento das quais foi interrompido pela morte do Messias, e a entrada deste parêntese,
chamado a dispensação da Igreja Cristã, que principiou com o Pentecostes e se findará com o
arrebatamento. Este é também o tempo, sendo tirado o testemunho da Igreja, em que Deus
entrará de novo em relações com Israel; e por meio do testemunho de um número fiel entre
eles, e também por tribulações sem iguais, preparará o povo para receber o seu Messias”. Este
povo, pois de que fala o capítulo, são os fiéis entre os judeus depois do arrebatamento da
Igreja – um povo que principiará de novo o testemunho dos discípulos de Jesus sobre o Rei e
o reino, que foi interrompido pela morte de Jesus na Cruz.
Quando os judeus crucificaram seu Messias, Deus fez entrar um novo plano ou
dispensação – a dispensação cristã. Os discípulos deixaram as esperanças de judeus para
serem cristãos.
Depois do arrebatamento da Igreja os judeus continuarão o testemunho dos 70 e dos
12 (Mt 10; Lc 10) não somente na Palestina mas no mundo inteiro.
Nosso capítulo descreve em ordem os eventos daquele tempo.
Vamos considerá-los em detalhe. A pergunta dos discípulos é: “Que sinal haverá da
tua vinda e da consumação do século?”
Notemos, em primeiro lugar, que o século cuja consumação os discípulos têm em vista
não é a consumação de nosso século ou dispensação cristã, e sim a consumação da
dispensação da lei. A esperança do V. Testamento (e eles ainda estavam no terreno do V.
Testamento) é a vinda do Messias para concluir a dispensação da lei e inaugurar o reinado
glorioso do messias. Com o Novo testamento em nossas mãos, e vivendo na dispensação atual
é difícil para nós imaginarmos outra consumação, se não a consumação da idade cristã.
Mas a idade ou dispensação da Igreja é um parêntese que tinha de entrar, correr, e
concluir-se antes do fim da dispensação judaica. Há uma semana de anos cheia de
acontecimentos que depois do fim da dispensação atual, começará a correr.
O cumprimento das profecias do V. Testamento foi interrompido quando a nação
judaica rejeitou o seu messias.
O relógio profético parou e ficou parado até que Deus complete os seus planos sobre a
Igreja. Quando, porém, a Igreja, que tem esperança e posição celestiais, estiver completa,
Deus começará de novo a trabalhar – a marcar o tempo. Há mais uma semana profética para
correr antes do tempo de benção para os judeus e para a terra.
Este capítulo descreve em ordem os acontecimentos dessa semana. A prova de que os
discípulos contemplaram, na sua pergunta, a dispensação judaica, se acha no fato de que não
sabiam nada de outra. A doutrina da Igreja Cristã ainda não estava desenvolvida. Temos
apenas uma profecia no cap. XVI em que Jesus disse no futuro: “Edificarei a minha Igreja”.
Temos no V. Testamento tipos que dão sugestões da posição e caráter da Igreja, como:
Moisés rejeitado pelos seus irmãos, quando se ofereceu pela primeira vez como libertador; o
seu retiro e casamento com uma noiva gentia; e depois foi aceito pelo seu povo. Outro tipo se
acha no casamento de José com noiva gentia enquanto está rejeitado pelos irmãos. Depois
estes irmãos arrependidos curvam-se diante de José, a família está abençoada, e todo o mundo
reconhece José como Salvador.
Mas estes são somente tipos precisando da luz no Novo Testamento para sua
interpretação. A doutrina de que a Igreja é o corpo e noiva de Cristo e tem esperanças e
posição espirituais e celestiais, está explicada claramente só nas epístolas de S. Paulo.
Ainda depois da morte de Jesus os discípulos perguntaram: “Senhor, dar-se-á caso que
restituas neste tempo o reino de Israel?” Ele não disse que suas esperanças eram sem base;
mas somente que não era o tempo para isso. Negar que os discípulos tinham base para suas
esperanças era negar o V. Testamento.
Ele não explicou, como muitos comentadores estão fazendo hoje em dia, que as
promessas feitas à nação judaica têm seu cumprimento num sentido espiritual na Igreja.
Não, todas serão literalmente cumpridas depois do correr desta idade cristã quando
voltar o Senhor.
O moderador do primeiro Presbitério explicou o plano de Deus e a ordem dos eventos.
Atos XV.
Havia dois partidos no Presbitério. Um com as Escrituras nas mãos. Eles contenderam
que embora as suas Escrituras prometessem a benção da salvação aos gentios, era sob a
condição de guardarem a lei mosaica.
O outro não tinha escritura para apresentar, mas testificava que Deus estava
convertendo alguns dos gentios sem eles guardarem a lei. Por isso temos o que Deus disse na
sua palavra contradizendo o que está fazendo agora pelo seu Espírito, que abençoa a pregação
de Paulo e dos mais e salva os gentios sem a lei mosaica.
O moderador disse: não há contradição, mas uns e outros têm razão. As Escrituras
declaram que o tempo da bênção para o mundo gentílico é depois da restauração dos judeus
para sua própria terra debaixo do seu Messias, que os gentios têm posição e privilégios
inferiores aos judeus.
A explicação é: “Que Simão tem contado como Deus primeiro visitou aos gentios,
para tomar deles – (não todos, mas uma parte deles somente) – um povo para o seu nome”.
É a Igreja – uma eleição – uma Eclésia chamada para fora da massa; é a esposa do
Cordeiro (vede as noivas de Moisés e José durante a rejeição pelo seu povo) que Deus está
tirando agora.
“Depois disto” – depois de completar a Igreja – “eu voltarei e edificarei de novo o
tabernáculo de Davi”. Depois do parêntese, o Senhor voltará em poder e glória e restaurará a
Israel o reino e então “todas as gentes” buscarão a Deus.
Este parêntese tem continuado por mais de dezoito séculos e há de continuar até o
arrebatamento da Igreja.
Depois do arrebatamento, teremos outro povo para representar a Deus neste mundo: os
fiéis entre os judeus. Outro Evangelho pregado entre as nações; o Evangelho do Reino; outra
tribulação pior do que a destruição de Jerusalém: a tribulação que é chamada nas Escrituras –
“a tribulação, a grande”.
Este capítulo XXIV de S. Mateus descreve as perseguições deste povo, dá instruções
para guiá-lo durante “a grande tribulação” e mostra seu final livramento pela vinda de seu
Messias.
III

EXPOSIÇÃO DO CAPÍTULO XXIV DO EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS

O que tem confundido muitos comentadores é a semelhança entre os sofrimentos e


experiências comuns do povo de que fala S. Lucas, e as experiências do povo deste capítulo
em Mateus.
Se os dois escritores descrevem povos e dispensações diversas, por que haverá tanta
semelhança? A resposta é que devemos esperar tal semelhança porque as testemunhas das
duas dispensações ocupam mais ou menos a mesma posição: – são testemunhas de um Senhor
ausente; estão no meio de uma geração má e adúltera; embora seja diferente o testemunho,
ambas têm de testificar contra os pecados e incredulidade deste mundo inimigo de Deus;
Satanás que persegue na dispensação atual, será o mesmo perseguidor naquele tempo, enfim o
povo de Deus, de qualquer dispensação, tem de sofrer enquanto o Rei estiver ausente e o
mundo se achar debaixo do poder do príncipe das trevas.
Também a história do mundo tem sempre em geral o mesmo caráter; desde Noé até ao
Cristo e desde Cristo até ao arrebatamento é de guerras, fomes e terremotos.
Depois do arrebatamento até ao fim continuarão essas guerras, fomes e terremotos.
Esta, pois, é a razão porque Mateus e Lucas dizem mais ou menos as mesmas coisas
embora falem de dispensações diferentes. Também será bom lembrarmo-nos que a aplicação
de uma passagem é uma coisa, ao passo que a interpretação é coisa diversa.
Além disso, uma passagem pode ter muitas aplicações e ao mesmo tempo ter somente
uma interpretação verdadeira.
Estes versículos (Mateus 24.5-12) são quase iguais aos de Lucas 21.9-17, e têm mais
ou menos aplicação aos sofrimentos dos crentes na dispensação atual, porém a sua
interpretação, isto é, o seu cumprimento literal realizar-se-á somente depois do arrebatamento
da Igreja.
Por isso as palavras “estas são o princípio das dores” não se acham em Lucas, porque
ele fala de acontecimentos que são característicos da historia geral durante séculos e séculos;
ao passo que Mateus fala das dores de parto que em pouco tempo resultarão no nascimento
de um novo mundo. Estas dores são o princípio do fim.
Notai também que há aqui em Mateus uma intensidade e uma sucessão progressiva de
males que não se encontram na história geral do mundo. Porque o tempo será curto – nunca
mais de sete anos – a iniqüidade plenamente manifestada, e Deus se apressando para findar o
triste drama da história do homem e para inaugurar o reino glorioso do seu Filho.
Há um paralelo admirável entre este capítulo e o Apocalipse. O apocalipse é o
desenvolvimento em ordem lógica da última semana dos anos proféticos de Daniel. Temos
neste capítulo (v. 15) uma referência a um acontecimento que se dá no meio da semana, a
saber: “a abominação de desolação no lugar santo”. Vamos, pois, examinar a ordem dos
eventos no Apocalipse. Depois dos capítulos dois e três, nos quais temos a história da Igreja
até ao arrebatamento, João diz-nos no capítulo IV que viu a Igreja no céu entronizada e
coroada. No capítulo V o leão da Tribo de Judá toma o pergaminho no qual estão escritos por
dentro e por fora os planos e desígnios de Deus concernentes a este mundo. No capítulo VI
temos a abertura, um por um, dos selos do pergaminho. São juízos representados por aqueles
montados nos cavalos, que vêm sobre a terra.
O primeiro não é Cristo, mas o anticristo, ou antes, um precursor dele, que será um
vencedor irresistível estabelecendo um império universal.
Depois dele é outro guerreiro – que representa guerras entre os reinos do império. E
depois fomes e pestilências, perseguição e morte dos fiéis, cujas almas estão debaixo do altar,
e terremotos.
Temos a mesma ordem neste capítulo; pessoas que vêm em nome de Cristo, ou o
anticristo, guerras, nação contra nação, reino contra reino, pestilências, fomes e terremotos, e
perseguição até a morte.
“Estas coisas são o princípio das dores”, porque logo depois temos “a abominação de
desolação no lugar santo” que é o sinal de que a “grande tribulação” já principiou; e no
Apocalipse logo depois destas coisas temos a besta em pleno poder, que é a causa da mesma
tribulação. O paralelo é perfeito e a harmonia das partes diferentes da profecia confirma na fé
de termos a mente do Espírito em nossa interpretação.
“Nenhuma interpretação da Escritura”, diz Pedro, “se faz por interpretação própria”.
Quer dizer que não pode ser interpretada por si só, mas deve harmonizar-se com o plano geral
e com todas as outras profecias sobre o mesmo assunto.
Temos esta harmonia aqui; as profecias em Daniel IX, neste capítulo, e no Apocalipse,
todas concordando perfeitamente.
Em Daniel lemos que no fim da 69ª semana o Messias foi desarraigado, e o
testemunho do reino foi interrompido, – entrou o parêntese da igreja Cristã. Aqui em Mateus
temos a reassunção deste testemunho, depois do arrebatamento da Igreja, pelos judeus, e a
continuação do testemunho até a “abominação da desolação”. Daniel disse que teríamos a
abominação da desolação no meio da semana, e assim se deu tanto no Apocalipse como neste
capítulo. Toda parte desenvolve e explica outras e da confusão saem ordem e luz.
E não há na superfície do globo comentador que possa explicar os versículos deste
capítulo sem adotar esta interpretação. Por exemplo, v. 13: “Mas o que perseverar até ao fim
será salvo”. Não se pode aplicar isso ao cristão sem contradizer muitas Escrituras, sem
destruir uma de nossas doutrinas cardiais – a perseverança de todos os santos – sem arrancar
do céu o trono de justiça d’Aquele que de uma vez para sempre justifica o que crê no seu
Filho. Aplica-se, porém, perfeitamente aos fiéis dos judeus que estão aguardando o seu
Messias para salvá-los dos inimigos; aplica-se perfeitamente a esse povo que espera entrar
vivo no Reino Messiânico.
Também o v. 14 tem aplicação agora somente num sentido geral, porque pregamos
não o Evangelho do Reino e sim o Evangelho da graça de Deus. E Lucas não tem este
termo. Foi esquecimento? Não, mas porque descreve outra dispensação e outro testemunho.
Estas palavras, porém, terão perfeita aplicação no fim, como lemos do Apocalipse
14.6-7. “E vi outro anjo voando pelo meio do céu, que tinha o Evangelho Eterno, para pregar
aos que fazem assento sobre a terra, e a toda a nação, e tribo, e língua, e povo. Dizendo em
alta voz: O que?! “Crê no Senhor Jesus e serás salvo?! Não; mas: “Temei ao Senhor e dai-lhe
glória, porque é chegada a hora do seu juízo. E adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar,
e as fontes das águas!”
Não há dúvidas que estas palavras têm bela aplicação no Evangelho da graça que vai
deste século de Missões para todo o mundo. Mas, como dissemos – aplicação é uma coisa e
interpretação é outra muito diferente.
Neste versículo estamos de novo no terreno do V. Testamento, ouvindo outra vez o
Evangelho que principia no jardim do Éden que fala de um Libertador que vem esmagar a
cabeça da serpente. Este é o Evangelho das profecias que falavam do prometido Messias que
vem restaurar o mundo castigar os maus. Este é o Evangelho próprio para pregar em todo o
mundo durante o reinado da Besta, quando ela manda que todos a adorem em vez de adorar a
Deus que criou os céus e a terra. Será o Evangelho próprio para oferecer uma oportunidade às
nações de mostrarem a sua simpatia para com o povo deste Rei, e de separar um número de
gentios dos maus para principiar o Reino Milenário. Será próprio pregar que “é chegada a
hora” quando cada selo, trombeta e cálice é um novo juízo sobre a terra mostrando que o
terrível “dia do Senhor” já começou a vigorar.
Logo que estiver pregado como testemunho chegará o Juiz e o fim.
O v. 15 descreve o que há de acontecer na semana profética de Daniel. O anticristo,
quebrando o concerto que fez com os judeus no princípio da semana, quer fazê-los adoradores
dele. Para este fim colocará um ídolo – uma imagem dele mesmo (Ap 13.15) no Templo.
Sabemos pelo V. Testamento (1Rs 11.5-7; 2Rs 23.13) que a “abominação” quer dizer um
ídolo. Este sinal – o ídolo colocado no “lugar santo” – é para os entendidos saberem que já
chegou o tempo profetizado em Daniel – “o que lê entenda”.
É o tempo do poder do anticristo (Dn 7.25; 12.7; Ap 13.5; 12.6), quando os fiéis
devem fugir ou morrer.
Notai que o sinal de que fala Lucas é outro e tem outro fim. É para os cristãos saírem
de Jerusalém e o sinal é a “cidade cercada pelos exércitos”. Sabemos que os crentes
aproveitaram-se do sinal: tiveram bastante tempo para se retirarem da cidade antes do sítio ser
completo; retiraram-se para a cidade de Pela e assim escaparam.
Mas em Mateus o sinal é um ídolo no templo mesmo, a cidade já está nas mãos do
inimigo e não há tempo para entrarem nas casas. O V. Testamento descreve este tempo: será o
“dia da tribulação de Jacó”, será “uma aflição tão grande que, desde que há mundo até agora,
não houve nem haverá igual”, por isso não pode ter duas. Ou a aflição da destruição de
Jerusalém no ano 70 A.D., ou esta aqui em Mateus, há de ser maior.
Ora as Escrituras que descrevem esta aflição dizem que imediatamente depois Jesus
virá livrar o seu povo Israel. Sabemos que Jesus não veio livrar seu povo na destruição de
Jerusalém, mas em lugar de salvar a cidade, o Templo e o povo, sabemos que a cidade foi
desolada, o Templo queimado, e o povo destruído ou espalhado. ESTA AFLIÇÃO DESTE
CAÍTULO NÃO É, POIS, A DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM.
Fica provada sem contradição a certeza de nossa interpretação: que Jesus fala desse
período depois do arrebatamento da Igreja Cristã e dá instruções para um povo judaico e
não para um povo cristão.
Outra prova da verdade desta interpretação se acha no v. 20: “Rogai que não seja a
vossa fuga... em dia de sábado”.
O povo judaico debaixo da lei não podia viajar no sábado mais longe do que do
Tabernáculo até os limites do acampamento, e mais tarde, do Templo até aos limites da
cidade. Logo, se o tempo de fugir cair no sábado, será contra a lei mosaica viajar, e o coitado
sofrerá a morte.
Mas o cristão não estará debaixo da lei; pode tomar providencias para salvar a vida
tanto nos dias de sábado como em qualquer outro dia. Jesus, pois não fala da Igreja Cristã,
mas de um povo judaico debaixo da lei; Ele fala deste período depois do arrebatamento, como
o credo dos Premilenistas afirma.
Outra prova de que este capítulo contempla, não a Igreja Cristã, e sim os judeus outra
vez recebidos como o povo de Deus, se acha no v. 22: “E, se não se abreviassem aqueles dias,
não se salvaria pessoa alguma”.
Isso de modo algum se aplica ao crente desta dispensação, porque a sua
salvação nunca dependeu, não depende e jamais dependerá de tempos, quer compridos quer
curtos, e sim da virtude da obra da expiação que Jesus fez na cruz. Tem perfeita aplicação,
porém, aos fiéis dos judeus expostos às perseguições de um homem que possui todo o poder
de Satanás, e tem todo o mundo debaixo do seu domínio (Ap 13.4-7, 16-17).
Se Deus não abreviasse os dias do poder desta Besta, ela podia, em tempo, procurar e
exterminar todo o judeu que recusasse adorar a sua imagem. Mas Deus, querendo conservar
este seu povo, embora passando pelo fogo purificador da tribulação, tem marcado os dias do
poder do seu perseguidor. São numerados em diversos lugares, tanto em Daniel como no
Apocalipse; o seu tempo marcado é somente três anos e meio, ou quarenta e dois meses ou
1290 dias.
Diz o profeta: “E alguns dos entendidos cairão, para prová-los, e purgar, e
embranquecer, até ao fim do tempo, porque será ainda para o tempo determinado” . “Muitos
serão purgados, e embranquecidos, e provados; mas os ímpios obrarão impiamente, e nenhum
dos ímpios entenderá, mas os entendidos entenderão. E desde o tempo em que o contínuo
sacrifício for tirado, e posta a abominação assoladora (os maus da nação permitindo a Besta
colocar ídolo no Templo, trará sobre ela a assolação) serão mil duzentos e noventa dias. Bem-
aventurado o que espera e chega até mil trezentos e trinta e cinco dias” (Dn 11.35; 12.10-13).
Os entendidos daquele tempo, pois poderão bem saber que, se agüentarem até o fim
deste tempo, os seus inimigos serão destruídos, e eles mesmos logo depois (45 dias?) entrarão
na glória do Reino – um povo bem-aventurado.
IV
EXPOSIÇÃO DO CAPÍTULO XXIV DE S. MATEUS

Agora chegamos aos sinais que visam instruir o povo de Deus naqueles dias perigosos.
Deus em misericórdia que prevenir os escolhidos contra os sinais falsos.
Nos vs. 23-25 lemos: “Então, se alguém vos disser: Olhai, aqui está o Cristo, ou, Ei-lo
acolá: não lhe deis crédito. Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão
grandes prodígios, e maravilhas tais que (se fora possível), até os escolhidos se enganariam”.
Estas palavras não se podem aplicar aos crentes no fim do século cristão. Porque o crente, – o
cristão verdadeiro – é um cristão pelo fato de crer que o Cristo já veio, e este Cristo é Jesus
(1Jo 4.2-3, 14-16).
A esperança da nação judaica, porém, é a vinda do seu Cristo ou Messias. Não se pode
enganar o crente, por mais ignorante que seja, com um falso cristo. Mas um povo crente em
Jeová esperando o Messias segundo as promessas do V. Testamento pode ser enganado por
falsos cristos e falsos profetas, – especialmente quando esses falsos, pela virtude de Satanás,
obrarão milagres r grandes prodígios. Os fiéis, porém, são prevenidos aqui pelos sinais certos,
para saberem a vinda do Messias verdadeiro: 1º, versículo 26, não será necessário possuir
muito juízo e tino para decidir porque não será num lugar retirado que Ele virá, mas 2º, (v. 27)
abertamente como o relâmpago – bem visível a todos; e 3º, (v. 28) o ponto de sua chagada
neste mundo será o lugar onde estiverem se ajuntando as águias (aves de rapina, Jó 39.27-30)
para comerem o corpo morto (que será os exércitos da Besta, Ez 39.17.19; Ap 19.17-18) o
qual matará pela glória de sua presença. Ele vem para julgar os inimigos deles, e podem saber
que onde estes estiverem virá primeiramente Jesus. Cientes dos sinais verdadeiros estão
prevenidos contra qualquer sinal falso. O que será mais difícil, o que será mais importante
para eles no seu aperto, não é o conhecimento de sinais e sim agüentarem tudo até ao fim –
até a chegada do seu Libertador.
No v. 29 temos os sinais do mundo físico que acompanharão a sua vinda: Sinais no
sol, na lua e nas estrelas, como se toda a natureza estivesse para cair em ruínas. Comparando
estas palavras com passagens semelhantes nas profecias do V. Testamento, achamos que
podem ser figurativas tanto como literais. Muitas vezes estes corpos que governam o dia e a
noite são figuras de homens ou sistemas salientes no mundo religioso ou político. Tudo estará
em anarquia e confusão naqueles dias. Trevas prevalecerão piores do que a escuridão que
precedeu a aurora da Reforma. Anarquia mais terrível do que nos dias da Revolução Francesa.
Como disse o profeta (Is 60.2): “Eis que as trevas cobrirão a terra e a escuridão os povos,
porém sobre ti (Jerusalém) o Senhor virá nascendo e a sua glória se verá sobre ti”.
No v. 30, “E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e então todos os
povos chorarão”. O sinal do Filho do homem é o Filho do homem mesmo, que virá sobre as
nuvens do céu. Não haverá outro e isto é o bastante. Quando os “os povos da terra” – deve
ser tribos da terra (da Palestina) – virem que o Filho do homem, que vem em seu socorro, é
Jesus, o mesmo que eles crucificaram, chorarão. O profeta Zacarias (12.10-14) falou deste
mesmo tempo: “Olharão para mim, a quem traspassaram: e farão pranto sobre ele, como o
pranto sobre o unigênito”. Será o antítipo daquela reunião no Egito quando os irmãos de José,
arrependidos do pecado, foram reconciliados com José e salvos por ele.
No v. 31, “E enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os
seus escolhidos”. Depois de ter destruído os exércitos que ameaçavam o seu povo (v. 28, e
também Ap 19) enviará anjos para ajuntarem os seus escolhidos segundo Isaías 27.12-13:
“Um a um desde as correntes do rio (Eufrates) até ao rio do Egito. E será naquele dia que se
tocará uma grande trombeta, e os que andavam perdidos pela terra da Assíria e os que foram
desterrados para a terra do Egito tornarão a vir”. Assim como José mandou ajuntar debaixo de
sua proteção toda a sua família.
Nos vs. 32-34, temos outros sinais. Estes para mostrarem a rapidez com que tudo será
consumado. A “figueira” é um símbolo de Israel. “Quando os seus ramos estão já tenros e as
folhas têm brotado, sabeis que está perto o estio”. O estio na Palestina é o tempo de colher os
frutos. Quando a figueira tem folhas, tem também ou deve ter o seu fruto maduro. Pois o
sentido é que logo depois do princípio destes acontecimentos (“quando vós virdes tudo isso”:
a abominação de desolação no lugar santo etc.) chegará o tempo frutífero para Israel. São
sinais da chegada do verão do mundo que tem passado por tantos séculos de inverno, – frio,
chuvas, misérias. O tempo quando Israel encherá a terra de frutos para a glória de Deus.
No v. 34, “Na verdade vos digo que não passará esta geração sem que se cumpram
todas estas coisas”. A geração que vê o princípio destas coisas verá também o fim e a
consumação feliz. Achamos esta interpretação melhor visto que Jesus queria mostrar a
rapidez de tudo. Mas a palavra traduzida geração tem também o sentido de raça ou nação.
Vede Sl 112.2 (Almeida); Pv 30.11-14; Dt 32.5, 20; Mt 12.30, 41, 42, 45. Então a
interpretação será: que a nação judaica não passará sem que se cumpram todas estas coisas.
Deus tem milagrosamente preservado a vida da nação judaica durante todos estes séculos; e
nestes últimos anos mais judeus têm voltado para a Palestina do que no tempo de Esdras e
Neemias. Mais do que isto, há presentemente um movimento entre todos os judeus do mundo
para comprarem a Palestina, com o fim de possuir outra vez sua própria pátria.
O que é de admiração é que neste movimento os mais salientes são os judeus
reformados, – que são materialistas, já tendo renunciado às esperanças do Messias, e que
querem pelo dinheiro e alianças com os poderes da Europa arranjar o negócio. A significação
disso é que uma parte da nação voltará na incredulidade, involuntariamente cumprindo com as
profecias sobre o anticristo, enquanto a maioria – judeus ortodoxos que guardam a lei mosaica
até hoje tão fielmente como no tempo de Jesus, – serão restaurados pelo poder de Deus depois
da vinda do Messias.
No v. 35, “Passará o céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras”. Toda a
palavra de Deus há de ser cumprida literalmente sobre este povo que Ele escolheu, e guardou
separado das nações por três mil anos. Não será mais difícil e admirável cumprir aquilo do
que ter cumprido isto! Ambos são milagres. O fato de ter Ele milagrosamente preservado esta
nação por tantos séculos, dá-nos certeza de que cumprirá literalmente as promessas a respeito
da sua restauração.
Frederico da Prússia pediu que um ministro do Evangelho lhe desse, em uma palavra,
a prova da veracidade e inspiração das escrituras. O ministro respondeu: o judeu.
Não há outro meio de explicar a sua existência e separação de todos os povos durante
tantos séculos senão o desígnio e propósito de Deus a respeito dele, e as promessa
concernentes a ele que se acham nas Escrituras. A história admirável do judeu estabelece a
veracidade da Bíblia onde estão as profecias sobre ele; e a Bíblia mostra o futuro deste povo
milagroso. Crer, pois, na sua restauração literal e no cumprimento literal das suas promessas
não é mais difícil do que crer nas Escrituras cumpridas.
A Igreja Cristã admite que todas as profecias de maldições sobre a nação judaica
pertencem literal e propriamente ao judeu, mas ela quer furtar e aplicar a si todas as
promessas de benção terrestre: a paz, as riquezas, a prosperidade, o mundo governado e
dominado pelos crentes, etc. o resultado deste roubo e aplicação à Igreja Cristã das promessas
de Israel tem sido medonho. Destruiu a espiritualidade da Igreja e substituiu a esperança do
Filho do céu por esperanças terrestre: como a conversão do mundo e reformas políticas e
sociais. Ensinou aos crentes que a perseguição é uma coisa estranha e que não era para isso
que fomos chamados (1Pe 2.21; 4.12). Mudou a Igreja dos Apóstolos em igreja romana, as
igrejas da reforma em instituições e servas do Estado, as igrejas evangélicas em edificadoras
de templos, seminários e hospitais como o trabalho próprio da Igreja. Querendo enfeitar as
cidades que, apesar da presença destes edifícios cristãos, tornam-se, a cada ano, cada vez mais
corruptas e mais cheias de iniqüidade. Esperam por meio destes enfeites, levedar e converter
para o Cristo, o cristianismo que todos os anos mais se aproxima da moralidade do
paganismo.
Não se pode confundir as dispensações. O que era próprio para o povo de Deus
antigamente, não é necessariamente a regra para nós hoje. O que era a sinagoga de Deus
debaixo da lei é hoje a sinagoga de Satanás.
Os vs. 36-41 mostram que o fim chegará sem o mundo aperceber e quando o não
esperar. Será como no tempo de Noé. “Porque assim como nos dias antes do dilúvio estavam
comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na
arca, e não o entenderam enquanto não veio o dilúvio, e os levou a todos; assim será também
a vinda do Filho do homem”. Estas palavras podem ter aplicação à Igreja e ao estado das
coisas antes e na ocasião do arrebatamento, mas a interpretação própria – o paralelo perfeito é
a vinda do Filho do homem com os santos. O arrebatamento de Enoque é o tipo do
arrebatamento da Igreja. Noé, porém, representa o povo judaico que fica aqui durante o tempo
do juízo e protegido pelo poder de Deus. Como na arca, passará pela tribulação para continuar
a viver numa terra purificada pelo juízo.
Nos vs. 40-41 o juízo vem repentinamente, mas haverá discriminação entre as pessoas.
Somente os maus serão destruídos, ao passo que os bons ficarão para benção. O homem e a
mulher tomados serão aqueles apanhados pelo juízo assim como o mundo incrédulo levado
pelo dilúvio. O homem e a mulher, deixados, serão deixados para o reino milenário, assim
como Noé e sua família foram deixados para entrarem num mundo purificado e abençoado .
Vs. 42-44, tanto o tempo da vinda do Filho do homem como a vinda do Nosso Senhor
para receber a sua Igreja não está revelado, por isso convém que todos estejam prontos.
Para o mundo a sua vinda será como ladrão entrando numa casa e quando ninguém o
espera. Convém que todos vigiem.

*
* *

Entre o versículo 45 e o versículo 51 do capítulo XXIV, temos três parábolas. O


redator que dividiu a Bíblia em capítulos devia ter concluído nosso capítulo com o v. 44,
porque os vs. 45-51 não têm conexão com o resto do capítulo.
Desde o princípio do capítulo XXIV até o v. 44, temos a história profética de Israel
nos últimos dias até a vinda do Filho do homem. No capítulo XXV, v. 31, temos a
continuação da história, não de Israel, e sim das nações vivas. A história do seu juízo quando
Ele aparecer. No meio temos um parêntese em que Ele mostra a posição e a responsabilidade
da Igreja durante a sua ausência. E notai que fala em parábolas. É sempre o seu modo de
falar quando tem verdades especialmente para a Igreja. Não podia falar claramente da Igreja
antes da sua rejeição como Messias. Ele veio se apresentar como Messias da nação judaica e é
somente depois da sua rejeição que temos o desenvolvimento em ordem da doutrina cristã.
Ele não queria misturar as duas dispensações, ao mesmo tempo era preciso durante a sua
presença com os Apóstolos, deixar muitos ensinos para guiar e instruir a Igreja, por isso
falava em parábolas. No capítulo XIII temos as primeiras parábolas e Ele as chama os
mistérios do reino. Quando os discípulos na sua surpresa perguntaram: “Por que razão lhes
fala tu por parábolas?”. Explicou, porque não queria que o povo o compreendesse. O povo
no capítulo XII, imputando a Satanás os milagres que Ele fez para provar a verdade da sua
missão como Messias, manifestou a sua rejeição a Ele. Agora estas verdades do reino são
somente para os entendidos. São mistérios do reino, porque o reino vai tomar uma forma
diferente das esperanças das Escrituras do V. Testamento. O Rei estará ausente nos céus e o
reino entregue nas mãos dos homens. É para nós, a Igreja visível, ou o Cristianismo. E nas
parábolas temos a sua história profética. Começando com a sementeira do Evangelho; o
campo de trigo e joio lado a lado até o fim; depois a hortaliça que contra a natureza
transformou-se em árvore grande e imponente com aves imundas nos seus ramos; depois as
doutrinas puras de salvação levedadas com o fermento do ritualismo (dos fariseus), do
materialismo (dos saduceus), do mundanismo (de Herodes), da imoralidade (dos Coríntios),
da mistura de lei e graça (dos Gálatas); depois mais três, dentro da casa para os discípulos sós,
mostrando Israel o tesouro escondido no mundo dos gentios e o campo comprado; a pérola
que é a Igreja amada e comprada pelo sangue precioso; depois do arrebatamento da Igreja, a
rede. O Evangelho do Reino – lançada no mar das nações.
Do mesmo modo Ele fala outra vez em parábolas, porque estes ensinos (24.45; 25.3)
são para instrução dos crentes desta dispensação.
Há três, e ensinam três grandes verdades quanto aos cristãos durante ausência do seu
Senhor.
1ª) XXIV.45-51, mostra a responsabilidade dos oficiais sobre a casa de Deus para
serem fiéis em ministrar a Palavra de Deus à família durante a ausência do dono da casa.
Temos o galardão prometido se forem fiéis, e a ameaça terrível se, seduzidos pelo mundo,
deixarem a sua posição de ministros e pastores para serem bispos e tiranos.
2ª) XXV.1-13, mostra a atitude própria da Igreja inteira a respeito da vinda do seu
Senhor. A noiva nesta parábola não é a Igreja, mas uma noiva judaica. Jesus está no caminho
para recebê-la, quando as virgens (a Igreja) são chamadas para o acompanharem, e mais tarde
voltarem com Ele para o casamento. Em outra conexão e em outros lugares nas Escrituras a
Igreja é a noiva, mas aqui não. Compreender que Deus tem dois povos inteiramente distintos
em vocação, posição, esperanças e bênçãos será de grande valor na interpretação da Bíblia.
3ª) XXV.14-30, mostra a responsabilidade que cada membro da Igreja tem de
empregar o seu tempo, talento e bens no serviço de Deus.
Do v. 31 até o fim do capítulo não é uma parábola, mas a continuação da história
profética descrevendo o juízo das nações vivas. Tem conexão em tempo e sentido com o
versículo 30 do capítulo XXIV.
Caro leitor, temos dito.

Mas antes de botar um ponto final permita que digamos mais uma palavra. Temos
trabalhado a fim de fazer mais claras algumas passagens confessamente difíceis.
O capítulo XXIV de S. Mateus, na sua relação com o resto do Evangelho, é para
intérpretes e estudantes da Palavra o mesmo que as serras entre o Rio e S. Paulo eram para os
engenheiros que fizeram a linha de exploração da estrada de ferro.
Ouvimos dizer que o governo procurava por muito tempo engenheiros que pudessem
garantir uma linha praticável – linha que pudesse ser construída com um dispêndio razoável
– entre as duas cidades. A dificuldade estava nas serras. Uma parte do caminho era fácil. Era
fácil saindo do Rio, chegar ao pé das serras. Era igualmente fácil deixando as serras chegar à
cidade de S. Paulo, mas achar uma linha contínua que passando pelas serras, se estendesse do
Rio até S. Paulo, era o que custava.
O mesmo se dá com este Evangelho. É fácil compreender tudo até o capítulo XXIV. É
fácil ir daí até ao fim; mas achar uma interpretação coerente e em harmonia com o resto da
Bíblia, – achar uma linha contínua através da serra deste capítulo, é difícil.
Temos achado esta interpretação, embora rude e imperfeita,...
Temos apenas mostrado o lugar para a passagem da linha.
Mas não tomamos para nós crédito algum. Tudo é devido ao excelente instrumento
que usamos na exploração – uma bússola que não é invenção nossa, cuja agulha sempre
aponta para a vinda do Senhor.
Reconhecer a relação própria desta vinda para com os outros acontecimentos é a
bússola para guiar o engenheiro bíblico.
Agora pedimos a um irmão que escreva melhor a sua língua, e conheça mais
profundamente a Bíblia, que, servindo-se desta rude exploração, construa uma estrada real
sobre as serras deste capítulo – uma estrada pela qual nosso povo possa passar comodamente.

Composto e impresso em 1977, ano do Cinqüentenário das atividades da


EMPRESA GRÁFICA DA REVISTA DOS TRIBUNAIS S.A.
Rua Conde de Sarzedas, 28, São Paulo, SP.

O livreto, do qual o texto foi digitado, comprei em 1980.