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“Cola” escolar e corrupção profissional andam juntas

Uma reflexão sobre a ética num país onde a fraude é permitida, com o apelido de jeitinho brasileiro

Duílio M. Z. de A. Silva

Doutorando em Ciências Biológicas (AC: Genética) UNESP Botucatu E-mail: duilio@ibb.unesp.br

Em junho de 2010, a revista Veja publicou uma reportagem sobre ética. Nela,

Gustavo Ioschpe escreveu sobre a procura de uma escola para seu filho. Ele enfatiza

o discurso ético com o qual se deparou nas escolas e universidades atuais e o relaciona com a ocorrência da “cola”. Cita um estudo recente das pesquisadoras Fátima Rocha

e Aurora Teixeira, ambas da universidade do Porto, que investigou em 21 países a

“cola” e concluiu haver relação direta entre a trapaça em sala de aula e o índice de corrupção no país. Foi visto, nesse estudo, que 83% dos universitários brasileiros já “colaram”, sendo esse um dos índices mais altos do mundo.

Em nossas universidades, sabemos que a “cola” é frequentemente usada nas provas. Alguns culpam a falta de tempo, o excesso de cobrança dos professores e a falta de interesse nessa ou naquela matéria. Realmente, a tentação da “cola” é grande, pois às vezes somos avaliados erroneamente. Somos cobrados a decorar grandes ciclos ou quase um glossário todo de certa especialidade. Uma melhora ocorreria se a avaliação fosse a partir do entendimento dos processos e suas consequências, bem como da competência em procurar informação de qualidade com a rapidez e aprofundamentos necessários para a atuação profissional.

Porém, discordo da postura fraudulenta da “cola”. Ela leva à busca de um desempenho que não temos; um refúgio da incompetência. As justificativas do “colante” geralmente visam protege-lo. Ele se acha vítima de um sistema massacrante. Por nada fazer para mudar efetivamente esse sistema, prefere a alternativa mais fácil resolve o seu caso (com a “cola”) e sai da escola. Essa é uma atitude irresponsável, egoísta e que em nada engrandece seu praticante e seu país. Achar-se em desvantagem injusta (ensino massacrante) é reforçado pela formação mimada que muitos podem ter tido e que visa, a todo custo, evitar sofrimento individual. Mas não consideram que o próprio desvio ético que livra do sofrimento pessoal constrói o monstro que imporá sofrimento a outros.

Considerando que esses alunos serão os profissionais deste país em alguns anos, temo que a atitude subjacente à “cola” se mantenha e que outras desculpas passem a justificar fraudes na vida profissional. Desculpas essas que podem transitar desde discursos de que as práticas fraudulentas já são rotinas, até mesmo que o bônus ganho pela fraude é justificado pelo baixo salário. Isso justificaria porque as autoras portuenses referidas acima encontraram associação entre taxa de “colas” nas provas e corrupção no país. Não que a “cola” seja per se a causadora da corrupção social, mas que o ambiente seja permissivo para ambas e que a prática da corrupção seja iniciada e/ou estimulada subliminarmente já na escola. Friso outro ponto em que a desonestidade nas provas pode nos trazer malefícios: como as notas têm sido usadas

como um dos critérios para distribuição de bolsas, o aluno “colante” será injustamente beneficiado (e, algumas vezes, tendo “colado” do aluno que perde a bolsa).

Adoramos criticar nossos governantes e atirar-lhes mil pedras quando são corruptos. Mas, não teria essa tendência à corrupção se estabelecido, ou ganhado força, já nas “colas” em provas? E isso poderia ter sido fortificado pela vida num país injusto, no qual as fraudes não são punidas e desprivilegiam os honestos, fazendo com que os corruptos se defendam praticando a corrupção.

A bíblia diz "Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; quem é desonesto "

convence por si só. Ou será que existe pessoa meio honesta? Isso nos faz pensar se o

no pouco, também é desonesto no muito

(Lucas 16:10-11). A passagem citada

pouco que somos desonestos “colando” não nos fará ser como políticos MUITO desonestos que usam da corrupção para ganhar cada vez mais dinheiro - até não terem onde mais colocar, a ponto de colocá-lo nas cuecas.

Falamos muito em ética na pesquisa, no uso do dinheiro público nas universidades; porém, como dito no artigo referido de Gustavo Ioschpe, é uma contradição esse falatório todo. Mais do que uma contradição, é um discurso que faz com que, no nosso inconsciente, se estabeleça que a ética é “papo furado”, pois, já nos níveis mais baixos de atuação, os trapaceiros não são punidos.

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