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Unidade I

Direitos reprodutivos e direitos sexuais - dimensão conceitual

Unidade I Direitos reprodutivos e direitos sexuais - dimensão conceitual

1. Histórias e ideias

Os conceitos de direitos reprodutivos e direitos se- xuais são invenções decididamente contemporâneas. As definições com as quais contamos hoje foram ori- ginalmente adotadas em conferências intergoverna- mentais da Organização das Nações Unidas (ONU), que tiveram lugar na segunda metade dos anos 1990 (Conferência Internacional de População e Desen- volvimento, Cairo, 1994, e IV Conferência Mundial das Mulheres, Pequim, 1995).

Contudo, normas de regulação da sexualidade e de reprodução são, como vimos nas disciplinas ante- riores, constitutivas das sociedades humanas na sua multiplicidade e diversidade cultural. As estruturas de parentesco analisadas por etnólogos e antropólo- gos, nas Américas, África, Ásia e Oceania, são normas de regulação da sexualidade e da reprodução biológi- ca e social. O sistema hindu de castas com suas re- gras de endogamia, casamentos arranjados e concep- ções de pureza/impureza é também um mecanismo de regulação sexual e reprodutiva, cuja lógica central é preservar uma rígida hierarquia social. A Shari’a 1 é

1. A shari’a é o corpo da lei religiosa islâmica. O termo significa “caminho” ou “rota para a fonte de água”, e é a estrutura legal dentro do qual os aspectos públicos e privados da vida do adepto do islamismo são regulados.

SiStema hindu de caStaS

O

hinduismo é a principal religião

da

índia, mas também constitui um

sistema social, na medida em que di-

vide a sociedade em diferentes castas. Determinadas pela hereditariedade,

as castas constituem grupos de pesso-

as e famílias que se diferenciam uns dos outros de acordo com a posição social que ocupam, com mais ou

menos privilégios e deveres. O siste- ma de castas estabelece uma rígida segregação social, por meio da qual

se

explica o papel de cada indivíduo

na

sociedade. Esse fato, na verdade,

consolida as enormes desigualdades sociais existentes no país, uma vez que a mudança de um indivíduo para

outra casta é considerada uma grande ofensa à religião hindu. Em sua estrutura mais antiga, o siste- ma era constituído de quatro castas:

os brâmanes (sacerdotes), os xatrias

(guerreiros), os vaixás (comerciantes)

e os sudras (artesãos). Cada casta tem suas próprias normas e está rigoro- samente separada das outras. Não é permitido o casamento misto, nem

a refeição em comum, nem a partici-

pação conjunta em atividades profis-

sionais. A quebra de qualquer dessas obrigações implica a exclusão da cas-

ta,

pelo que o indivíduo fica privado

de

todo direito social e se torna um

pária, sem casta. Apesar do sistema de castas ter sido rejeitado pela Consti- tuição Indiana de 1950, ele continua

a fazer parte da cultura da Índia mo- derna. Atualmente, no hinduísmo, existem mais de 3.000 sub-castas não-oficiais. O governo indiano não

reconhece mais a existência das cas- tas, porém, elas ainda hoje marcam profundamente a sociedade e o modo

de vida da população na índia.

Fontes:

http://hinduismoesistemadecastas.

blogspot.com/

http://www.suapesquisa.com/religia-

osociais/hinduismo.htm

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fundamentalmente, um dispositivo de regulação de sexo e gênero. O pater familae da tradição romana e do código napoleônico, o casamento monogâmico, que decorre da escolha amorosa individual, a família nuclear, a valorização social do sexo e o repúdio aos chamados “desviantes sexuais” são, por sua vez, elementos nodais do modelo ocidental moderno de regulação e disciplinamento sexual. Cada um desses sistemas implica construções particulares em termos de discursos dominantes, iden- tidades e atributos (masculinos e femininos), divisão de poder e trabalho, funções e lugares sociais e simbólicos.

Contra esse pano de fundo, os direitos reprodutivos e os direitos sexuais são propo- sições que contestam as regras existentes de regulação de sexo, gênero e reprodução, vistas como restritivas, excludentes ou mesmo criminalizantes, em alguns casos. A emergência e trajetória dessas proposições coincidem com o percurso da moderni- dade ocidental. As primeiras contestações abertamente políticas das normas de regu- lação da sexualidade e da reprodução podem ser identificadas na Europa do século XVIII, assumindo contornos mais palpáveis a partir da revolução francesa, sendo exemplo disso os primeiros manifestos feministas (Olympe de Gouges 2 , Mary Wolls- tonecraft 3 ), e em 1791, a abolição do crime de sodomia (ver box página 17) na França, medida que antes de 1850 seria adotada por outros quatro países, inclusive o Brasil.

Ao longo do século XIX, sobretudo, uma vasta produção intelectual seria elaborada, vinculando sexualidade e reprodução com filosofia, política e economia e, sobretu- do a ciência. São exemplos os escritos dos socialistas utópicos, como Robert Owen e Fourier (ver box página 18), bem como as experiências das comunidades de trabalho coletivo e “amor livre”, inspiradas por essas ideias nos Estados Unidos, na França, mas também na Colônia Cecília, instalada no estado do Paraná no Segundo Império. A ar- ticulação entre justiça econômica, liberação sexual e revolução social é o tema central das teses elaboradas por Friedrich Engels (1884) em A Origem da Família, Propriedade Privada e o Estado, segundo as quais os homens – ou patriarcas – controlam a sexua- lidade das mulheres para assegurar a paternidade e o controle da transmissão da pro-

2. Marie Gouze, a Olympe de Gouges (1748 – 1793) - Feminista francesa nascida em Montauban, próxima à Toulouse, sul do país, liderou um movimento por uma vida mais digna para a mulher durante a Revolução Francesa (1789). Publicou textos sobre os direitos da mulher, afirmando que se elas poderiam ser levadas ao cadafalso, também tinham o direito de subir na tribuna política. Levada ao tribunal revolu- cionário, foi julgada, condenada à morte e guilhotinada (1793). Porém suas idéias não morreram e alguns anos depois fez surgir nos EUA outras manifestações, como a de Margaret Fuller (1810-1850), uma das primeiras jornalistas femininas. Fonte: http://www.netsaber.com.

br/biografias/ver_biografia_c_2345.html.

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3. Mary Wollstonecraft [Godwin] (1759 – 1797) - Escritora e pedagoga britânica nascida em Hoxton, hoje subúrbio de Londres, precursora dos movimentos feministas da história moderna. Escreveu mais de 30 obras e inúmeros artigos, quase na sua totalidade, sobre a condição feminina na sociedade, causando furor com as suas reivindicações de igualdade de direitos para homens e mulheres. Contagiada pelo agi- tado ambiente que encontrou em Paris, quando lá esteve (1792), tornou-se uma entusiasta das conquistas igualitárias e fraternas pregadas pela Revolução Francesa (1789). Elaborou um documento que foi chamado de primeira carta do feminismo moderno: Vindication of the Rights of Woman (1792). Morreu em Londres com apenas 38 anos de idade, exatamente 11 dias depois de dar à luz a uma filha, que se tornaria muito mais famosa do que ela, também como escritora londrina, Mary Wollstonecraft Shelley (1797-1851), a autora de Frankstein (1817). Fonte: http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_2638.html.

Ordenações Filipinas

priedade. No mesmo período, as investigações

prático-teóricas de Charles Darwin e Sigmund

O sistema jurídico que vigorou durante todo

o período colonial no Brasil e que criminali- zava a sodomia foi o mesmo que existia em

Portugal, ou seja, as Ordenações Reais, com- postas pelas Ordenações Afonsinas (1446), Ordenações Manuelinas (1521) e, por último,

as Ordenações Filipinas, que surgiram como

resultado do domínio castelhano. Ficaram prontas ainda durante o reinado de Filipe I,

em 1595, mas entraram efetivamente em vi- gor em 1603, no período de governo de Filipe

II.

As três ou quatro décadas do início do século XX foram igualmente marcadas por muitos

debates e mobilizações feministas não apenas na Europa e nos Estados Unidos, mas também na América Latina. Por exemplo, as socialistas Alexandra Kollontai e Emma Goldman reto-

mam as ideias e proposições de Engels, reivin- dicando igualdade e “amor livre (que nesse contexto, geralmente significava direito ao divórcio). Goldman, imigrante russa, distri- buía diafragmas entre operárias de Nova York

e, quando viveu na União Soviética (1917–

1923), lutou pela legalização do aborto e por programas libertários de educação sexual.

e tributos aduaneiros, mas mesmo assim as

Ordenações Filipinas foram a base do direi-

to no período colonial. Foi a partir da nossa

Independência, em 1822, que os textos das Ordenações Filipinas foram sendo paulatina-

mente revogados, mas substituídos por textos que, de certa forma, mantinham suas influên- cias. Primeiro surgiu o Código Criminal do Império de 1830, que substituiu o Livro V das Ordenações; em seguida foi promulgado, em 1832, o Código de Processo Criminal, que re- formou o processo e a magistratura; em 1850 surgiram o Regulamento 737 (processo civil) e o Código Comercial. Os Livros I e II perde- ram a razão de existir a partir das Revoluções do Porto em 1820 e da Proclamação da Inde- pendência brasileira. Fonte: http://www.cartaforense.com.br/Ma-

teria.aspx?id=484

Acesso ao texto das Ordenações Filipinas:

http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/orde- médicos e grupos influenciados pelo euge-

co. Nos anos 1920, aproximou-se de setores

ticular, está intimamente vinculada à trajetó- ria da enfermeira norte-americana Margareth Sanger que, na década de 1910, foi presa mais de uma vez por divulgar informações sobre anticoncepção nas comunidades pobres, pois esse material era considerado pornográfi-

A história dos direitos reprodutivos, em par-

clamando por uma sociedade “sem Deus, sem marido e sem patrão”.

e Brasil produziam panfletos e manifestos,

Anarquistas anônimas na Argentina, Uruguai

cavaleiros, os doutores em cânones ou leis, os médicos, os juízes e os vereadores. É de salientar que a aplicação do direito no vasto espaço territorial do Brasil-Colônia não fazia parte das preocupações portuguesas, já que o objetivo da Metrópole era principal- mente assegurar o pagamento dos impostos

morte atroz (esquartejamento) e morte na- tural (forca). Mas, como típica sociedade estamental da época, não poderiam ser sub- metidos às penas infamantes ou vis os que gozassem de privilégios, como os fidalgos, os

de bens, o desterro, o banimento, os açoites,

eram consideradas severas e bastante varia- das, destacando-se o perdimento e o confisco

As penas previstas nas Ordenações Filipinas

sodomia ainda vigente na Alemanha, resulta- riam na “invenção” da homossexualidade e da sexologia. (Weeks, 1995).

Freud lançaram as bases para o desenvolvi- mento da ciência do “sexo” e um pouco mais tarde, os esforços desenvolvidos por Magnus Hirshfeld, para contestar a criminalização da

nacoes.htm

nismo e mais tarde fundou a associação The

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Robert Owen e François Marie Charles Fourier são personagens exemplares do mo- vimento que ficaria conhecido como socia- lismo utópico. Owen era um rico industrial inglês nascido em Newtown, Montgomeryshire, País de Gales, que se transformou em um dos mais importantes socialistas utópicos mediante a criação de várias comunidades industriais. A repercussão de sua obra ultrapassou as fron- teiras do país, e chamaram a atenção, sobre- tudo, suas inovações pedagógicas: jardim de infância, escola ativa e cursos noturnos. Fun- dou outras comunidades como as de Orbis- ton, perto de Glasgow e transferiu-se para os Estados Unidos (1824) a fim de pôr à prova suas idéias, fundando a efêmera comunida- de de New Harmony, Indiana, na qual não obteve sucesso e ainda praticamente perdeu toda sua fortuna. Voltou ao Reino Unido (1829) onde organizou uma rede de coope- rativas e um sistema de bolsas de trabalho e promoveu uma vasta união sindical (1834). Tornou-se espiritualista (1852) e morreu em sua cidade natal. Seu livro mais importante foi The New Moral World (1834-1845) e foi

o primeiro a usar a palavra socialismo, para

denominar sua doutrina. Fonte: http://www. dec.ufcg.edu.br/biografias/ Filósofo e economista político francês, Fou- rier foi um dos mais radicais representantes do socialismo utópico na França e o cria- dor da comunidade cooperativa conhecida

como Fourierismo. Propunha que a socieda- de se organizasse em comunidades chama- das falanstérios, espécie de edifícios-cidades onde as pessoas trabalhassem apenas no que quisessem. Defendia, assim, o fim da dico- tomia entre trabalho e prazer. Nos falansté- rios os bens seriam distribuídos conforme a necessidade, e a educação deveria se adaptar às inclinações de cada criança e não exis- tiriam restrições morais à prática de sexo. Morreu em Paris e seus grandes livros foram

a Théorie des quatre mouvements et des desti-

nées générales (1808) e Traité de l’association

agricole domestique (1822). Fonte: http:// www.dec.ufcg.edu.br/biografias/FranFour. html . (voltar)

Birth Control League (ou Liga de Controle da Natalidade) que está na origem da atual IPPF (Federação Internacional para a Parentalidade Planejada, na tradução para o português) 4 .

Nos anos 1950, depois de criar associações nacionais de planejamento familiar em vários países, Margareth Sanger estimulou a pesquisa científica sobre anticoncepção e conseguiu os recursos necessários para desenvolvimento da primeira pílula anticoncepcional, invento que alteraria radicalmente a relação entre sexuali- dade e reprodução nas sociedades contempo- râneas. A influência de seu trabalho ao sul do Equador precedeu o IPPF. Por exemplo, em 1916, Sanger participou de um congresso femi- nista no México, onde divulgou o livreto Birth Regulation (Regulação da Natalidade). A publi- cação seria posteriormente distribuída de for- ma gratuita pela administração do presidente Calles (1924-1928/1928-1935) 5 , conhecido por suas posições liberais e anticlericais.

Outras vertentes intelectuais e políticas da pri- meira metade do século XX precisam ser men- cionadas como fontes de inspiração do debate contemporâneo. Entre os anos 1920 e 1930, na Europa Central, intelectuais e ativistas criaram a Associação SexPol, liderada por Wilhelm Rei- ch, combinando marxismo e psicanálise, para promover proposições radicais sobre sexuali- dade, economia e poder. Nos anos seguintes, a SexPol seria varrida da Alemanha e países vizinhos pelo nazifacismo. Diante da situação, Reich emigra para os Estados Unidos, onde

continua seu trabalho, tendo sua teoria sexual

4. A IPPF – International Planned Parenthood Federation é uma articulação mundial de organizações nacionais que trabalham na defesa e garantia da saúde sexual e reprodutiva. Maiores informações em: http://www.ippf.org

5. Plutarco Elias Calles (1877-1945)

repercussão de longo curso. Tal teoria seria amplamente reativada pela contracultu- ra dos anos 1960-1970, através dos textos do próprio Reich, e de Herbert Marcuse (1966). Outra corrente de pensamento nodal na conformação da política sexual do século XX foi o existencialismo, especialmente as ideias de Simone de Beauvoir, e entre elas a crítica sistemática da anatomia como destino. Deve-se mencionar ainda

o vasto e heterogêneo conjunto de teorias e pesquisas da antropologia cultural: os

trabalhos de Margareth Mead e Bronislav Malinowski e os textos clássicos de Claude Lévi-Strauss sobre mito e parentesco. No outro extremo do espectro, situam-se as pesquisas quantitativas e funcionalistas de Alfred Kinsey e Master e Johnson, que deram vida à sexologia da segunda metade do século XX (Russo, 2009).

Entretanto, os antecedentes mais imediatos da política sexual contemporânea e da formulação dos direitos sexuais e reprodutivos são, sem dúvida, a revolução cultural dos anos 1960 e a turbulência epistemológica dos anos 1970. Esse foi o tempo em que as feministas lutaram pelo direito ao aborto e acesso à anticoncepção e contra

as políticas coercitivas de controle populacional. E gays e lésbicas começam a reivin- dicar a não discriminação e o tratamento igual perante a lei. Pensadoras feministas, insatisfeitas com as tradições teóricas disponíveis, desenvolveram o conceito de gê- nero, para criticar a naturalização persistente e dominante das subjetividades, papéis sociais e comportamentos sexuais femininos e masculinos. Autores como Plummer (1975), Gagnon e Simon (1973) investiram na análise da experiência sexual, não como conduta instintiva, mas em termos de contextos, scripts e interações sociais.

E Foucault (1980) iluminou, com acuidade e precisão, os dispositivos discursivos de

disciplinamento e os fluxos em que se entrelaçam sexo, poder, dominação e resistên- cia nas sociedades modernas.

Os direitos reprodutivos e os direitos sexuais são, portanto, tributários de concepções que situam a sexualidade e a reprodução no cerne da formação cultural e política mo- derna e extraem o “sexo” da ordem natural das coisas, para pensá-lo em termos in- comparavelmente mais plásticos: os discursos, instituições e práticas. Até então, preva- leciam, nas doutrinas religiosas e filosóficas, concepções naturalizantes que encobriam as lógicas de dominação, exclusão e estigma que decorriam tanto das normas matri- moniais e conjugais, da criminalização do aborto e das condutas sexuais consideradas como desviantes, quanto das malhas disciplinares da biomedicina e da demografia.

Por outro lado, o debate contemporâneo sobre sexualidade, gênero e reprodução também deve ser situado em relação a dinâmicas econômicas, demográficas e epi- demiológicas que marcaram a segunda metade do século XX e a primeira década do século XXI. Entre as principais, destacamos:

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• a emergência de novos padrões de produção e consumo;

• a crescente inserção das mulheres no mundo do trabalho não doméstico;

• a aceleração da urbanização;

• os enormes ganhos educacionais registrados nos últimos sessenta anos, in- clusive no caso da população feminina;

• a individuação das identidades;

• as transformações profundas das estruturas familiares, dos padrões de fecun- didade e da intimidade;

• o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e da biomedicina,

que estão modificando rápida e radicalmente tanto as possibilidades de intera- ção pessoal, sexual e amorosa quanto os padrões de procriação.

Finalmente, mas não menos importante, desde a década de 1980, o surgimento e expansão da epidemia do HIV/AIDS não apenas produziu uma tragédia humana de vastas proporções, como ainda levou à eclosão de discursos públicos sobre sexu- alidade e gênero nos contextos mais diversos, inclusive naqueles onde se observam enormes resistências morais e religiosas frente à democratização e maior igualdade nos terrenos da sexualidade e das relações entre os gêneros.

2. Regulação “moderna” da sexualidade

A profusão de ideias e processos, brevemente des- critos na seção anterior, só pode ser compreendida, quando reconhecemos, juntamente com Michel Fou- cault, que no limiar da era moderna o sexo se con- verteu no pivô, ao redor do qual, se constituiu toda uma tecnologia de regulação da vida. Jeffrey Weeks (1999) nos diz que isso foi possível, porque, confor- me afirma Foucault, “sexo é um meio de acesso tanto

à vida do corpo, quanto à vida da espécie” (Foucault

apud Weeks, 1999, p. 74), portanto, um meio de regu- lação tanto dos corpos individuais quanto do com- portamento da população (o corpo político). Nessa passagem, a lei moderna, e outros dispositivos disci- plinares, ou seja, os discursos científicos da biomedi- cina, da demografia e da pedagogia conceberam os “sujeitos sexuais”, tal como os conhecemos: os dois sexos radicalmente diferenciados pela ciência, o casal

procriativo, a mulher histérica, a ninfomaníaca (ou prostituta), a criança que se masturba, o “invertido”, os corpos “desordenados e ab- jetos” das pessoas transexuais, das travestis e dos intersexuais (Camargo et al., 2009).

Segundo Foucault, “o que presen- ciamos é um verdadeiro processo de luta; a vida como um objeto políti- co foi de “alguma” maneira tomada

pelo seu valor de face e voltada con- tra o sistema que a tentava contro- lar. Foi a vida mais do que a lei que se tornou o objeto da luta política, mesmo quando esta luta política foi formulada através de afirmações relativas aos direitos. O ‘direito’ à vida, ao corpo, à saúde, à felicida- de, à satisfação das necessidades, a sobretudo o ‘direito’ de redescobrir quem alguém é e o que pode ser

Este é o pano de fundo que nos

ajuda a compreender o ‘sexo’ como questão política” (Foucault, 1984, p.

267). (em francês no original).

] [

Esses dispositivos de classificação e disciplinamento alteram, inicialmente, as cultu- ras sexuais (ver box na página 22) europeias, produzindo, entre outros efeitos, um deslocamento das normas de regulação sexual e reprodutiva da esfera da moral e doutrina religiosa cristã, onde estavam incrustadas, para os terrenos da ciência e da gestão estatal. Instala-se então o que Foucault denomina biopolítica. Mas a nova ló- gica de regulação seria transportada para outros contextos, por efeito da expansão colonial do século XIX, uma transposição que, inclusive, se deu em franca imbricação com lógicas de diferenciação e dominação racial, ou seja, o racismo. Os conceitos “científicos” e “modernos” de raça e sexo que, em grande medida, continuam atuan- tes nas sociedades contemporâneas, foram produzidos no apogeu da expansão impe-

rialista europeia, para classificar, hierarquizar e disciplinar indivíduos e coletividades nas sociedades centrais e para regular estritamente as relações entre colonizadores/as

e colonizadas/os.

As chamadas leis de sodomia – que até hoje criminalizam rela- ções entre pessoas do mesmo sexo em mais de 80 países – ilustram esse legado colonial e imperial. Em sua maioria, elas apenas re- produzem o código penal britâ- nico de 1861. Mas leis similares continuam vigentes em ex-colô- nias francesas, mesmo quando, no caso da França, o crime em ques- tão tenha sido abolido há mais de 200 anos. Em muitos casos, essas leis são conhecidas como leis de buggery, um termo com francas conotações raciais, que deriva da palavra francesa bougre, cunha- da na idade média, para nomear grupos heréticos, contra os quais, havia acusação de praticarem atos sexuais contra a natureza.

cultura Sexual

O conceito de cultura sexual foi em larga medida desenvol-

vido pelo antropólogo norte-americano Richard Parker, que publicou o livro “Corpos, Prazeres e Paixões – A cultura sexual

no Brasil contemporâneo”, em 1991, em língua inglesa, e, logo

depois, em língua portuguesa. O livro ganhou grande impor- tância, em parte pela grandeza da empreitada, que tinha como objetivo prover uma interpretação sobre a “cultura sexual bra- sileira”, a partir de pesquisa de campo realizada no Brasil na primeira metade da década de 1980, que incluía entrevistas,

fontes documentais e revisão bibliográfica. No trabalho, Parker dialoga com antropólogos como Peter Fry e Roberto da Matta, que já haviam publicado trabalhos importantes abordando as- pectos da sociedade brasileira. Em que pese as críticas que hoje podem ser feitas à idéia de “cultura sexual brasileira”, é importante lembrar que Parker oferece uma abordagem bastante cuidadosa no sentido de não esmagar a diversidade de discursos, valores e práticas que cercam a sexualidade no Brasil. Assim, Parker inicia seu livro analisando obras fundantes do pensamento social brasileiro em que a sexualidade desempenha papel importante, detendo-se sobre autores como Gilberto Freyre e Paulo Prado. Também trabalha a partir de relatos dos viajantes portugueses à época

do “descobrimento”. Esse é o inicio do caminho percorrido pela

obra, que analisa em seguida os significados atribuídos a ho- mens e mulheres e à masculinidade e feminilidade no Brasil, procurando compreender como desigualdades de gênero se es-

truturam na nossa sociedade e os impactos que produzem na sexualidade. Assim, o autor vai delineando alguns aspectos da moralidade vigente no país. Ao mesmo tempo em que Parker esboça valores dominantes e muitas vezes conservadores sobre

gênero e sexualidade, no decorrer do livro lança mão da estra- tégia de desconstruir o suposto domínio desses valores, mos- trando como há espaços de transgressão das regras socialmente estabelecidas. Fonte: PARKER, Richard. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil contemporâneo. São Paulo: Best Seller, 1991.

(voltar)

Da mesma forma, as legislações que restringem o acesso ao abor- to – mesmo quando fortemente influenciadas por convicções re- ligiosas – também pertencem ao arsenal moderno de regulação sexual e reprodutiva. Suas origens históricas próximas são as medi-

das pró-natalistas adotadas por estados europeus que experimen- taram perdas populacionais nas guerras que assolaram o continente desde o final do século XVIII. Mas a mesma ideologia seria incorporada pelos estados que emergiram da descolonização, seja como estratégia para ampliar a força de trabalho industrial, seja para fortalecer capacidades militares (anos 1930/1940 na América Latina e anos 1950/1960 nas demais regiões do chamado Sul “econômico”).

contudo, ao campo jurídico. Como dito anteriormente, estes dispositivos podem ser identificados nos campos mais vastos e sutis da biomedicina e saúde pública, da de- mografia e da pedagogia. São exemplos as políticas sanitárias de controle venéreo que, a partir da segunda metade do século XIX, seriam implementadas nos contextos mais diversos (Carrara, 1996). Informadas por noções de degradação moral e condu- ta de risco, essas medidas concebiam pessoas como vetores de enfermidade e tiveram impactos nefastos sobre a vida de prostitutas e homossexuais. Estas políticas sani- tárias continuavam ativas, quando do advento da epidemia do HIV/AIDS nos anos 1980 e, embora tenham sido amplamente contestadas, continuam até hoje presentes no senso comum e nas práticas institucionais.

Nesse mesmo rol devem ser contabilizadas, de um lado, as políticas de proteção à

maternidade e à saúde materno-infantil e seus efeitos em termos da construção social

e sexual das mulheres. E, de outro, as políticas de controle populacional que foram

dominantes entre os anos 1960 e 1990, que continuam sendo implementadas em al- guns contextos como é o caso da China, Vietnam e alguns estados da Índia, cujo foco principal foi (e continua sendo) o controle da fecundidade das mulheres. Não menos importantes, como vimos na primeira disciplina, são as representações sobre sexuali- dade, gênero e família, transmitidas pelos sistemas educativos, no mais das vezes, em base a concepções religiosas e científicas que naturalizam e universalizam, sistemati- camente, uma moral sexual que é particular a determinada sociedade ou grupo social.

A crítica pós-colonial

A contestação da lógica de regulação moderna, ou seja, a que se instala na passagem

do século XVIII para o XIX, está na origem da política sexual contemporânea, mas isso não significa nem que a regulação sexual e reprodutiva estivesse ausente de ou- tras formações culturais e sociais, nem tampouco que as lógicas ditas tradicionais de regulação sejam sempre e necessariamente mais restritivas.

Por exemplo, no mundo islâmico, a Shari’a coexiste com as intervenções tipicamente

“modernizantes” da saúde pública. No Irã, a lei que criminaliza o adultério feminino

e a homossexualidade pode levar à aplicação da pena capital, no entanto, são realiza-

das cirurgias de transexualização, pois elas permitem superar a ambiguidade sexual, considerada um problema pela tradição religiosa local. Em muitos contextos, a in- trodução da biomedicina, ao mesmo tempo em que melhora as condições sanitárias, pode restringir a autonomia de decisão reprodutiva das mulheres, seja pela via do controle da fecundidade, seja pela restrição aos meios tradicionais de interrupção da gravidez indesejada.

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A

questão da diversidade sexual é um outro aspecto crucial a ser analisado. Embora

o

senso comum nos diga que as categorias e padrões sexuais ocidentais, por serem

modernos, são mais abertos e flexíveis, de fato, eles podem ser mais rígidos e restriti- vos do que as concepções e práticas identificadas em outros contextos culturais. Uma certa identidade “transexual” tem um lugar social reconhecido em várias culturas originais da América do Norte (berdache), pelos Zapotecas mexicanos (muxes), na Índia e no Paquistão (hijras), no Nepal (metis), nas Filipinas (bakla), na Tailândia (kathoey), na Indonésia (wari’a), em Samoa, Tonga e Fiji (fafai’ne), no Havaí (nahu vahu), no Quênia (mashoga), na República Democrática do Congo (mangaigo) ou entre os Male da Etiópia (ashtime). Isso contrasta abertamente com o binarismo rí- gido de gênero que caracteriza o modelo ocidental desde o século XVIII.

Um tema relacionado é a transposição irrefletida de categorias sexuais ocidentais

– como os termos gays e lésbicas – para contextos em que essas identidades e práti-

cas não fazem sentido e podem ser menos plásticas ou mais sujeitas a riscos que as categorias nativas que possibilitam as relações entre pessoas do mesmo sexo. Um exemplo flagrante é a imposição ou mesmo adoção da categoria epidemiológica ho- mens que fazem sexo com homens em contextos como a Índia, onde essa identidade e prática têm muitos outros nomes e significados. Segundo Gosine (2008):

A caracterização de pessoas em heterossexuais “normais” e homossexuais “desvian- tes” ocorreu em condições políticas e econômicas específicas na Europa Ocidental. Não é uma divisão natural, nem universal. Um estudo da década de 1990, feito com milhares de homens indianos, levou Shivananda Khan a concluir que “não existem heterossexuais na Índia”; os padrões locais de sexo entre os homens não eram uma prática exclusiva de uns poucos homens “homossexuais”, porém, como mostrou sua pesquisa, eram parte integrante das práticas sexuais gerais (Gosine, 2008, p.73).

Dito de outro modo, devemos estar sempre atentas/os à variabilidade cultural e con-

textual dos significados sexuais. Sobretudo, devemos manter distância crítica frente

às concepções simplificadas, segundo as quais, tudo que é ocidental ou “moderno” é

necessariamente melhor, mais liberal e flexível do que as normas, discursos, signifi- cados e práticas locais ou tradicionais em relação a gênero e sexualidade.

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O “retorno” do religioso

Na primeira década do século XXI, ao mesmo tempo em que se transformam os significados e práticas nos campos de gênero e da sexualidade, assistimos certo re- crudescimento do conservadorismo moral, que se articula, fundamentalmente, em

termos religiosos. A maioria das autoras e autores que pensaram sobre gênero e se- xualidade na segunda metade do século XX faziam, de algum modo, uma aposta na secularização inexorável das sociedades contemporâneas. O exemplo mais contun- dente talvez seja Foucault, que concentrou sua crítica nos dispositivos disciplinares de natureza secular, restringindo o exame acerca dos efeitos das normas religiosas sobre a sexualidade à experiência dos séculos XVI e XVII.

Entretanto, já ao final dos anos 1970, eventos como a revolução iraniana 6 e a re- tomada das doutrinas dogmáticas pela igreja católica, colocariam em questão essa perspectiva. Desde então, a religiosidade, nas suas mais diversas expressões, vem se ampliando e se aprofundando, especialmente entre os grupos mais pobres e vulne- ráveis, na medida em que aumenta a sensação de insegurança – erosão dos estados de bem-estar, riscos e crises ambientais, violência social e criminal, novas guerras, modificação das relações humanas – à qual as instituições seculares não conseguem dar respostas adequadas.

Hoje, segundo Vattimo (2000), a religião vem a ser vivenciada como um retorno, e um dos traços mais marcantes, em todas as grandes tradições religiosas – catolicismo, protestantismo, islamismo, hinduísmo e mesmo no budismo – é que ele se manifes- ta, sobretudo, como dogmatismo ou extremismo religioso. Embora se apresentem como tributários da “tradição”, os grupos religiosos dogmáticos usam recursos po- líticos e tecnológicos hipermodernos para capturar corações e mentes e influenciar ou mesmo “tomar” o poder estatal. Fazem uso intensivo e extensivo das tecnologias de comunicação e informação. Em contextos em que as regras políticas, desde muito, determinam separação entre Estado e religião, incidem sistematicamente sobre o de- bate público, influenciam lideranças políticas e, inclusive, participam dos processos eleitorais.

Mesmo que a imbricação entre estado e religião seja mais flagrante no mundo islâ- mico, a presença do “religioso” na política está presente em todos os contextos. São exemplos: as eleições de Ronald Reagan (1980-1988) e George W. Bush (2000-2008) nos EUA, as vitórias do Partido de Ação Nacional no México, o crescimento do na- cionalismo hindu na Índia, a expansão das bancadas religiosas na política brasileira e, sobretudo, a ampliação do controle religioso dos meios de comunicação.

6. A Revolução Iraniana, ocorrida em 1979, transformou o Irã - até então comandado pelo Xá Mohammad Reza Pahlevi - de uma monar- quia autocrática pró-Ocidente, em uma república populista teocrática islâmica sob o comando do aiatolá Ruhollah Khomeini. Para efeito de análise histórica, a revolução é dividida em duas fases: na primeira, houve uma aliança entre grupos liberais, esquerdistas e religiosos para depor o xá; na segunda, freqüentemente chamada Revolução Islâmica, viu-se a chegada dos aiatolás (o mais alto dignatário na hierar- quia religiosa) ao poder. Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/revolucao-iraniana/revolucao-iraniana.php

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Concepções acerca de gênero, sexualidade, reprodução e família constituem o nú-

cleo duro do dogmatismo religioso. Muitas autoras e autores, inclusive, interpretam

o chamado “retorno do religioso”, como uma resposta às transformações em curso

nessa esfera da vida. Exemplo disso é o movimento conhecido como Maioria Mo- ral (Moral Majority), que se instalou na política americana na década de 1970, para combater a “desagregação” da família, o aborto e a homossexualidade. Portanto, na primeira década do século XXI, os debates sobre direitos reprodutivos e direitos se- xuais são, em grande medida, determinados, seja no plano global ou nos planos na- cionais, por visões religiosas que têm como seu ponto nodal definições dogmáticas quanto aos conceitos de vida e de natureza humana.

Como bem sublinha Mujica (2007), hoje as vozes do dogmatismo já não apenas con- testam, como acontecia no século XIX, as visões seculares e científicas, a partir de concepções religiosas. Hoje o dogmatismo religioso está completamente engajado em disputas biopolíticas e, com frequência, lança mão de discursos (e definições) científicos e seculares para argumentar contra o aborto, a variabilidade do desejo e da identidade sexual, e as novas formas de família.

A trajetória dos Direitos Humanos

Todas as culturas humanas contam com regras que estabelecem prerrogativas, privi- légios, e obrigações. Os direitos humanos – assim como os dispositivos e hierarquias sexuais – são um produto da modernidade, ou mais especialmente, das revoluções liberais e humanistas dos séculos XVII e XVIII (inglesa, norte-americana e francesa). Segundo Norberto Bobbio (1992), os direitos humanos são, sem dúvida, tributá- rios do individualismo e contratualismo. Sua premissa central é a de que cabe aos indivíduos um conjunto de direitos inalienáveis, calcados, sobretudo, na formula- ção filosófico-política, elaborada por John Locke, que opõe o indivíduo-cidadão ao súdito, definindo o primeiro como dotado de direitos frente à soberania, e não ape- nas a ela submisso. Ou na concepção do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, os indivíduos-cidadãos soberanos, que coletivamente constituem o contrato social com base em premissas da razão, superando o entendimento, segundo o qual, o poder político deriva da divindade.

Os “direitos do homem” (na sua fórmula original) foram concebidos como direi-

tos negativos, ou seja, seu objetivo era proteger os cidadãos – homens, europeus, brancos, burgueses – dos abusos perpetrados pelos estados absolutistas, tais como

a prisão e execução sem devido processo judicial, a tortura, a restrição ao direito de

questionado por feministas, lideranças populares revolucionárias (os sans cullote), e por grupos religiosos ingleses que lutavam pela abolição da escravidão. Ao longo do século XIX, a concepção liberal de direitos humanos seria criticada por Karl Marx e outros pensadores socialistas como mera ideologia. Paradoxalmente, esses mesmos direitos tornaram-se inspiração, desde então, das lutas persistentes pelos direitos tra- balhistas e sociais.

Na década de 1940, após as tragédias do holocausto e da segunda guerra mundial, a criação da ONU levou à adoção da Declaração Universal de Direitos Humanos (1948). Embora tributário das concepções iluministas, o texto define um sujeito de direitos universais que não é mais exclusivamente referido aos estados nacionais, mas cujas prerrogativas de dignidade, liberdade, igualdade devem ser respeitadas independen- temente de filiação ou identidade nacional. O texto inclui parâmetros para corrigir as desigualdades entre homens e mulheres. Em 1951, a ONU adotaria a primeira resolução internacional contra o racismo.

A partir de então, desdobra-se um processo de afirmação positiva dos direitos hu- manos, que não apenas deveriam proteger os cidadãos contra os abusos do poder dos Estados, mas promover novos direitos, assegurando seu bem-estar. Através da elaboração de novos instrumentos internacionais, esse processo ainda significou um movimento de especificação (Bobbio, 2002) de conteúdos e sujeitos: as Convenções Internacionais contra o Racismo (1951), contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis e Desumanos ou Degradantes (1975) e para a proteção dos Direitos da Criança (1989); Pactos de Direitos Civis e Políticos e Direitos Econômicos e Sociais (1966), e contra todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (1979), ape- nas para mencionar as mais importantes. Nesse processo aprofunda-se a desconstru- ção do paradigma liberal que havia se consolidado no século XIX, incorporando-se aos textos não só princípios de não interferência, mas também obrigações do Estado para com os indivíduos.

Um momento-chave dessa inflexão foi a elaboração, em 1966, dos dois grandes Pac- tos que afirmam a dupla dimensão dos direitos humanos – o Pacto de Direitos Civis e Políticos e o Pacto de Direitos Econômicos e Sociais. Entretanto, mais de duas décadas iriam transcorrer antes que a premissa de indivisibilidade dos direitos civis e políti- cos, de um lado, e econômicos e sociais, de outro, fosse consagrada na Conferência de Direitos Humanos de Viena, de 1993. Até esse momento, o debate global sobre direi- tos humanos ficou paralisado por efeito da Guerra Fria, que posicionava o Ocidente capitalista como defensor exclusivo dos direitos civis e políticos, enquanto os direitos econômicos e sociais eram a bandeira do mundo socialista.

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Os acordos de Viena foram cruciais para os debates subsequentes sobre direitos re- produtivos e sexuais, pois precederam imediatamente as reuniões do Cairo (1994) e Pequim (1995), e afirmaram, de maneira definitiva, os direitos das mulheres como direitos humanos e admitiram, pela primeira vez, que os direitos humanos são tam- bém violados por atores não estatais (como nos casos de violação sexual sistemática em contexto de conflito civil).

Sobretudo a partir de Viena, quatro pilares dão sustentação aos direitos: o princí-

pio da universalidade, o princípio da indivisibilidade, o princípio da diversidade e

o princípio democrático. Todos eles são fundamentais para sustentar os direitos re- produtivos e os direitos sexuais, mas é importante chamar a atenção aqui para os

princípios de indivisibilidade e diversidade (Piovesan, 2006), pois a realização dos direitos reprodutivos e sexuais pressupõe respeito à liberdade e à privacidade (não ingerência), à existência de um ambiente favorável ao exercício da autonomia, que depende, no mais das vezes, de direitos positivos e do reconhecimento da pluralidade da experiência humana. Ou seja, um equilíbrio complexo entre liberdade, igualdade

e diversidade (Corrêa e Petchesky, 1996; Rios, 2008):

Ao lado do direito à igualdade surge, como direito fundamental, o direito à “di- ferença”. Com isso, há novos sujeitos de direitos e o direito ao reconhecimento de identidades próprias. Consolida-se o caráter bidimensional da justiça: enquanto re- distribuição e enquanto reconhecimento de identidades. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimen- te ou reproduza as desigualdades (Piovesan, 2006).

3. A invenção dos direitos reprodutivos e sexuais

Até 1993-1994, eram pouquíssimas as definições adotadas em documentos inter- governamentais, para garantir a autonomia reprodutiva e sexual dos indivíduos. O Plano de Ação adotado pela Conferência de População de Bucareste, realizada em 1974, reconheceu os direitos de casais e indivíduos para decidir sobre o número de filhos. Em 1979, a Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres (CEDAW) reafirmou esse princípio como direito inegociável das mu- lheres, indicando inclusive, que essa decisão não pode ser objeto de ingerência do cônjuge. Contudo, um único texto usava o termo “sexo”, para denotar sexualidade (e não apenas diferença entre homens e mulheres): a Convenção dos Direitos da Criança nos artigos em que trata de abuso e exploração sexual.

Mas a partir da Conferência de Viena, debates calorosos sobre reprodução e sexuali- dade desenrolar-se-iam nas arenas de discussão das Nações Unidas, com resultados positivos não apenas nas conferências, como nos comitês de vigilância que moni- toram a implementação de tratados e convenções: Comissão de Direitos Humanos, hoje substituída pelo Conselho de Direitos Humanos; os Comitês de Direitos Civis e Políticos, de Direitos Econômicos e Sociais, de Direitos das Crianças, e Tortura; nos informes periódicos de relatores especiais; no Tribunal Penal Internacional (estabele- cido em 2000); e nas negociações sobre HIV/AIDS (Saiz, 2005; Girard, 2007).

Entre 1993 e 1994, no processo de preparação da Conferencia Internacional de Po- pulação e Desenvolvimento (CIPD), os termos “direitos reprodutivos” e “direitos se- xuais” foram incluídos no texto em negociação, sendo ainda definidos os conteúdos dos termos “saúde reprodutiva” e “saúde sexual”. O documento preliminar estabeleceu premissas de igualdade entre os gêneros, definiu o aborto como grave problema de saúde pública, preconizando que, quando legal, o procedimento deva ser seguro, e afirmou a pluralidade das formas de família. O termo “direitos sexuais” não sobrevi- veu à difícil negociação do Cairo, sendo eliminado do texto final da Conferência. Mas um ano mais tarde, na Conferencia Mundial sobre as Mulheres de Pequim, aprovou-se um parágrafo que define os direitos humanos das mulheres no campo da sexualidade.

Em 1994, o Comitê dos Direitos Civis e Políticos julgou o caso Toonen versus Aus- trália (ver box na página 30), emitindo uma decisão inédita, segundo a qual, a le- gislação do estado da Tasmânia, que criminalizava relações entre pessoas do mesmo sexo, infringia as cláusulas de respeito à privacidade e não discriminação da Conven- ção. Muito embora as trajetórias que permitiram conceituar direitos reprodutivos e

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direitos sexuais estejam em vários aspectos entrelaçadas, é preciso

analisar a genealogia, implicações

e desafios de cada uma dessas de- finições, separadamente.

Caso Toonen versus Austrália

Toonen versus Austrália foi um caso decidido pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU devido à denúncia de Nicholas Toonen, cidadão da Tasmânia. No caso, o Comitê de Direitos Humanos estabeleceu que a referência ao “sexo”, no artigo 2, pa- rágrafo 1, (da não-discriminação) e 26 (da igualdade perante a lei) do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos deve- ria ser entendida pela inclusão da questão da orientação sexual, bem como que a atividade sexual entre adultos era protegida pelo conceito de “vida privada” nos termos do artigo 17 do Pac- to. Como resultado, a Austrália revogou a lei de criminalização do ato sexual entre homens em seu Estado da Tasmânia. Com esse caso, o Comitê de Direitos Humanos criou o precedente dentro do sistema de direitos humanos da ONU referente à dis- criminação contra lésbicas, gays e bissexuais. (voltar)

Direitos reprodutivos

A trajetória das ideias e práticas

que dizem respeito ao direito de decidir sobre a reprodução deve ser, inicialmente, situada em re-

lação ao surgimento das preocu- pações demográficas do final do século XVIII. Concomitantemente à emergência dos direitos humanos, um pastor inglês, o Reverendo Thomas Malthus, fez cálculos demográficos com base nos registros de nascimentos paroquiais, concluindo que o desregramento sexual de homens e mulheres pobres levaria a um crescimento popu-

lacional desmesurado, cujo efeito seria a fome generalizada, pois não havia capacida-

de de produzir alimentos suficientes para suprir as necessidades de todos. Pessimista

e

conservador, Malthus preconizava a suspensão de doação de comida para os pobres

e

uma drástica abstinência sexual, para prevenir esse desastre.

Thomas Malthus

O economista e demógrafo britânico Thomas Malthus (1766-1834) ficou conhecido, sobretudo, pela teoria segundo

a qual o crescimento da população tende sempre a superar a produção de alimentos, o que torna necessário o con- trole da natalidade. Em 1798, publicou anonimamente seu Essay on Population (Ensaio sobre a população), no qual afirma que a população cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos aumenta em progres- são aritmética. A solução para evitar epidemias, guerras e outras catástrofes provocadas pelo excesso de população, consistiria, segundo ele, na restrição dos programas assistenciais públicos de caráter caritativo e na abstinência sexual dos membros das camadas menos favorecidas da sociedade. Malthus era um pessimista que considerava a pobreza como um destino ao qual o homem não pode fugir. Sua obra foi ao mesmo tempo criticada e aplaudida. Enquanto alguns setores da sociedade o acusavam de ser cruel, indiferente

e até mesmo imoral, economistas de renome apoiavam suas teorias. Na segunda edição da obra, de 1803, Malthus

modificou algumas teses mais radicais da primeira edição. Com o tempo, o “malthusianismo” foi incorporado à teoria econômica, atuando como freio de teses mais otimistas. Na segunda metade do século XX, os problemas demográficos mundiais revitalizaram as concepções de Malthus, embora a agricultura intensiva tenha permitido aumentos de produção muito maiores do que os previstos por ele. Fonte: http://www.economiabr.net/biografia/malthus.html

Desde então, muitos outros pensadores opinariam sobre a questão populacional.

O filósofo francês Marie Jean Nicolas, Marquês de Condorcet 7 discordou radical-

mente de Malthus, pois acreditava na capacidade de as sociedades e indivíduos se ajustarem às novas condições geradas pelo crescimento demográfico. Adam Smith contestou Malthus, afirmando que os efeitos do tamanho populacional eram neu-

tros, importando mais as regras de funcionamento dos mercados. Karl Marx criticou severamente as teses malthusianas, afirmando que a crise não decorria do tamanho

da população, mas da distribuição desigual da riqueza. Contudo, nos 200 anos sub-

sequentes, a visão malthusiana dominaria em grande medida o debate populacional.

A partir da segunda metade do século XIX, quando foram produzidos industrial-

mente os primeiros condons de látex (camisinhas) e diafragmas, feministas – como Goldman e Sanger – mas também grupos conhecidos como neo-malthusianos pro- moveram o acesso aos meios de regulação da fecundidade, no mais das vezes contra

a moral dominante, leis, doutrinas religiosas e a ideologia natalista. No mesmo con- texto, tomou forma o eugenismo e muitos de seus seguidores preconizavam o uso de meios anticoncepcionais, especialmente esterilizações forçadas, como instrumento

de depuração racial e social.

Embora a imbricação entre nazifascismo e eugenia tenha silenciado após 1945 por algum tempo o debate, a questão populacional voltaria à pauta nos anos 1950, quan- do se consolidaram as políticas internacionais de promoção do desenvolvimento econômico. Desde Malthus, a teoria demográfica havia se sofisticado muito. A traje- tória dos países centrais informava que a população crescia por efeito de melhorias

nas condições sanitárias e alimentares (e não por impacto dos excessos sexuais). Em momento posterior, porém, esse crescimento seria compensado pela redução das taxas de fecundidade. Demógrafos e economistas já haviam identificado as condi- ções da chamada “transição demográfica, conceito cujo significado será explorado

na Unidade III.

Assim sendo, os primeiros cálculos sobre o tamanho da população mundial não sus- citaram pânico. Mas identificaram diferenciais importantes, entre países e regiões.

7. Marie Jean Antoine Nicolas De Caritat, Marquês de Condorcet viveu entre 1743 e 1794. Dada sua ativa participação na Revolução Francesa, foi eleito para representar Paris na Assembleia Legislativa, onde se tornou secretário. Desempenhou um papel ativo na reforma do sistema educacional promovida pelos poderes revolucionários, tendo publicado em 1971 Cinq mémoires sur l’instruction publique, nas quais defende o ensino público, gratuito e universal, e propõe o completo afastamento da igreja face à instrução pública. Sua ideia fun- damental é o progresso contínuo da raça humana em direção à perfeição. Começando do ponto mais baixo em que o homem não revela qualquer superioridade em relação aos outros animais, Condorcet descreve os nove estágios pelos quais o gênero humano passou, most- rando o seu ininterrupto avanço no caminho do conhecimento, da virtude e da felicidade. Nesse percurso, Condorcet identifica três leis ou tendências gerais da história humana que, reguladoras do passado, permitem fazer inferências no futuro: (1) a progressiva destruição da desigualdade entre nações; (2) o progressivo apagamento da desigualdade entre classes e (3) o indefinido aperfeiçoamento intelectual, moral e físico da natureza humana. Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/condorcet/biografia.htm

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Por exemplo, o demógrafo francês Alfred Sauvy, que dirigia a Comissão de Popula- ção da ONU, criou em 1952 a terminologia Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo, com base nos diferenciais de crescimento demográfico, observado nos países europeus, Canadá e Estados Unidos, nos países da Europa do Leste e União Soviética, e no cha- mado mundo em desenvolvimento, onde a mortalidade apenas começava a cair e, no plano político eram fortes os sentimentos pró-natalistas.

Na América Latina, políticas natalistas instaladas nos anos 1930 haviam ganhado for-

ça sob impacto das estratégias de industrialização (substituição das importações) e

tinham apoio da Igreja Católica. Nas demais regiões, em pleno processo de descoloni- zação, muitos líderes consideravam que uma população grande era fator positivo na

formação das novas nações. Assim sendo, enquanto os países do primeiro mundo ex- perimentavam um segundo ciclo de declínio de fertilidade, no terceiro mundo a tran- sição demográfica apenas se iniciava e as taxas de fecundidade permaneciam altas.

Demógrafos e economistas ficaram preocupados com a velocidade da transição de- mográfica, porque estavam convencidos que ela poderia comprometer a capacidade de poupança e os investimentos desses países em industrialização, infra-estrutura, educação, saúde. Argumentavam que era preciso “acelerar” o ritmo de declínio de- mográfico e essa tese terminaria por deflagrar um apelo malthusiano, especialmente nos EUA. A partir de então, seria mobilizado um vasto e poderoso sistema institucio-

nal – agências das Nações Unidas, instituições financeiras multilaterais como o Ban-

co Mundial, doadores privados e bilaterais, e ONGs, entre elas, a rede internacional do IPPF – para promover o controle populacional nos países do “Terceiro Mundo”.

O instrumento principal dessa nova cruzada foi a disseminação dos meios anticon-

cepcionais recém inventados como a pílula, o DIU e os primeiros métodos injetáveis, todos eles desenhados para controlar a fecundidade feminina.

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A Conferência de População de Bucareste (1974) foi um momento culminante desse

novo ciclo de debate. Países doadores pressionavam por políticas antinatalistas e os países “do Sul” alegavam que não precisavam de métodos anticoncepcionais, mas, sim, de desenvolvimento (o desenvolvimento seria o melhor “anticoncepcional”). Entre uma posição e outra, vozes minoritárias reivindicavam que a questão fosse tratada em termos dos direitos de casais e indivíduos de decidir sobre o número de filhos. Desse esforço resultou a definição de direitos reprodutivos, mencionada anteriormente, cujos efeitos práticos seriam quase nulos, pois o que prevaleceria no mundo real seriam metas demográficas e políticas coercitivas. Poucos anos mais tar- de, China e Índia, que lideraram a resistência “do Sul”, implementam políticas draco- nianas de controle da natalidade.

Nesse cenário, porém, entraram em ação as vozes e críticas feministas. Nos países industrializados, desde o final dos anos 1960, estavam em curso lutas por acesso à anticoncepção (que continuava proibida em alguns países), pelo aborto legal e con- tra a esterilização forçada de que são exemplos a ICASC - International Campaign in Abortion, Sterilization and Contraception (Campanha Internacional sobre Aborto, Esterilização e Contracepção), na Europa, e o CARASA - Committee for Abortion Ri- ghts and Against Sterilization Abuse (Comitê pelo Direito ao Aborto e contra a Esteri- lização Abusiva), nos Estados Unidos. No começo dos anos 1970, inclusive, o aborto já havia sido descriminalizado em vários países (Reino Unido, 1967; Canadá, 1969; EUA, 1973; França 1975; Itália, 1978; Holanda, 1980; na Dinamarca e na Suécia, o aborto foi completamente legalizado em 1973 e 1974, respectivamente). Ao sul do Equador, a segunda onda feminista estava em curso, alinhada com a esquerda e era fortemente marcada pelo compromisso com a justiça econômica e social.

As feministas, tanto do Sul quanto do Norte, desenvolveram críticas à ideologia do controle populacional, que apontava a fecundidade feminina como causa principal da crise populacional. Isso tornava os corpos das mulheres o principal alvo de inter- venção, resultando em medidas coercitivas e na violação de direitos – como no caso da esterilização e dos abortos realizados sem consentimento informado – em efeitos colaterais, em métodos que não podiam ser controlados pelas próprias mulheres, em pesquisas que não seguiam parâmetros éticos. Também criticaram severamente as políticas natalistas, que, tanto no Sul quanto no Norte, restringiam o acesso à anti- concepção e ao aborto, mas não ofereciam atenção adequada ao pré-natal e parto, e a outras necessidades de saúde das mulheres.

Em 1975, quando a Primeira Conferência Mundial das Mulheres das Nações Uni- das foi realizada na Cidade do México, medidas coercivas de controle populacional foram debatidas e o documento final reconheceu o respeito à integridade física das mulheres como um elemento fundamental da dignidade humana e da liberdade. Em 1979, a CEDAW afirmou os direitos das mulheres de decidir sobre o número de fi- lhos. Em 1981, o documento final de simpósio sobre População e Direitos Humanos, realizado pela ONU em Viena, afirmaria que tanto o uso compulsório do aborto quanto sua proibição inadequada constituíam uma violação dos direitos humanos.

Estavam dadas, assim, as condições para a “invenção” dos chamados direitos repro- dutivos. Em 1984, feministas do mundo todo se reuniram numa conferência organi- zada em Amsterdã, pela ICASC e pelo CARASA. Nessa ocasião, chegou-se ao consen- so de que direitos reprodutivos era o conceito mais completo e adequado (mais do que saúde da mulher) para traduzir a ampla pauta de propostas que visavam assegurar a

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autodeterminação reprodutiva das mulheres. No mesmo período, na Cidade do Mé- xico teve lugar uma nova Conferência Internacional sobre População, cujos debates seriam radicalmente diferentes de Bucareste. Por efeito da aliança do governo Reagan com a direita religiosa americana, a delegação dos EUA sustentou no México a po-

sição de que a questão populacional seria “neutra” e que, portanto, não seria preciso investir em métodos anticoncepcionais. Conseguiu ainda que a questão do aborto fosse excluída do texto final. Na mesma oportunidade, os EUA anunciaram que iam suspender o financiamento a organizações que atuavam no campo do aborto, in- clusive o Fundo das Nações Unidas para Atividades de População (FNUAP), pois

o mesmo financiava programas na China (essa orientação ficou conhecida como Política do México).

Assim, as críticas feministas se faziam visíveis num cenário em que a maquinaria institucional alinhada ao controle populacional perdia poder e recursos. Ao mesmo tempo, estudos acadêmicos revelavam que os resultados de mais de vinte anos de políticas coercitivas eram sofríveis, em razão dos abusos de direitos humanos, e por- que em muitos países seus efeitos eram nulos em termos de redução da fecundidade. Além disso, ao final dos anos 1980, já eram conhecidos os efeitos devastadores da epidemia de HIV em vários países. Nesse novo clima, países e instituições interna- cionais de fomento modificariam seus marcos de análise. A Organização Mundial de Saúde (OMS), por exemplo, cunharia os termos “saúde sexual” e “saúde reprodutiva”, para nomear áreas de trabalho que até então estavam sob o guarda-chuva do “plane- jamento familiar”.

Em paralelo, o conceito de direitos reprodutivos estava sendo disseminado, debatido

e refinado pelas feministas (Corrêa, 1989; Petchesky, 1990; Corrêa e Petchesky, 1996; Dora, 1998), e por ativistas e acadêmicos do campo dos direitos humanos (Isaacs

e Freedman, 1993; Cook, 1994; Boland et al., 1994). Estes esforços teóricos e polí- ticos desaguariam na Conferência Internacional de População e Desenvolvimento

de Cairo, 1994. Desde o início do processo preparatório, feministas envolvidas com

a promoção da saúde e dos direitos reprodutivos se engajaram nos debates com o

objetivo de produzir um novo consenso sobre população e desenvolvimento. Esses esforços incluíram a realização de debates preparatórios, como a Conferência Saúde Reprodutiva e Justiça (Rio de Janeiro, 1994), assim como a incidência direta sobre as negociações intergovernamentais.

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No Cairo, em 1994, foram de fato deixadas para trás premissas demográficas estrei- tas e a lógica autoritária, que haviam prevalecido desde os anos 1960. O documento final recomenda respeito aos direitos humanos e enfatiza políticas de redução da

pobreza, de promoção da igualdade entre os gêneros, e da saúde. O parágrafo 7.3 do documento consagraria, pela primeira vez, num documento das Nações Unidas, a definição de direitos reprodutivos:

os direitos reprodutivos abrangem certos direitos humanos já reconhecidos em

leis nacionais, em documentos internacionais sobre direitos humanos e em outros documentos consensuais. Esses direitos se ancoram no reconhecimento do direito

básico de todo casal e de todo indivíduo de decidir livre e responsavelmente sobre

o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos e de ter a informação e os

meios de assim o fazer, e o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual

e reprodutiva. Inclui também seu direito de tomar decisões sobre a reprodução livre

de discriminação, coerção ou violência, conforme expresso em documentos sobre di- reitos humanos (CIPD, Programa de Ação, parágrafo 7.3).

] [

O Programa de Ação do Cairo também contém um parágrafo relativo ao aborto, cujo conteúdo informa, desde então, os difíceis debates globais e nacionais sobre a maté- ria, inclusive no Brasil:

Em nenhum caso se deve promover o aborto como método de planejamento familiar. Todos os governos e organizações intergovernamentais e não-governamentais rele- vantes são instados a reforçar seus compromissos com a saúde da mulher, a consi- derar o impacto de um aborto inseguro na saúde como um importante problema de saúde pública e a reduzir o recurso ao aborto, ampliando e melhorando os serviços de planejamento familiar. A prevenção da gravidez não desejada deve merecer a

mais alta prioridade e todo esforço deve ser feito para eliminar a necessidade de aborto. Mulheres que experimentam gestações indesejadas devem ter pronto acesso

a informações confiáveis e ao aconselhamento compassivo. Quaisquer medidas ou

alterações relacionadas com o aborto no âmbito do sistema de saúde só podem ser determinadas em nível nacional ou local, de conformidade com o processo legisla- tivo nacional. Em circunstâncias em que o aborto não contraria a lei, este deve ser realizado em condições seguras e adequadas. Em todos os casos, as mulheres devem ter acesso a serviços de qualidade para o tratamento de complicações resultantes do aborto. Os serviços de orientação pós-aborto, de educação e de planejamento familiar devem ser de imediata disponibilidade, o que ajudará também a evitar os abortos repetidos (CIPD, Programa de Ação, parágrafo 8.25).

Em 1995, os conteúdos do Programa de Ação relativos à saúde sexual e reprodutiva e direitos reprodutivos seriam debatidos, reafirmados e, em alguns casos, expandidos na IV Conferência Mundial das Mulheres (IV CMM), em Pequim. No que tange à

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ampliação das discussões, merecem destaque a já mencionada definição dos “direitos sexuais” das mulheres, de que trataremos a seguir, assim como a inclusão no texto final de Pequim do parágrafo 8.25 da CIPD, com a recomendação de que os países membros da ONU deviam rever as leis nacionais que criminalizam o aborto (IV CMM, Plataforma de Ação, parágrafo 106.k).

Os direitos sexuais

Quando situamos a conferência do Cairo no longo ciclo dos debates demográficos

e da política sexual, compreendemos como e porquê esse foi o primeiro palco onde

emergiu a noção de direitos sexuais. Girard (2007) analisa as disputas do Cairo, a partir de seu impacto na biopolítica, contrapondo, por exemplo, a afirmação dos direitos humanos plenos das mulheres à representação da “mulher histérica” e con- finada à procriação, a consolidação dos direitos reprodutivos ao poder disciplinar que visava o controle populacional, o reconhecimento da sexualidade adolescente ao

pânico moral que existia em torno da sexualidade infantil. Sobretudo as feministas, ao proporem a inclusão do termo “direitos sexuais” no texto que estava sendo nego- ciado, romperam drasticamente com a lógica disciplinar dominante da demografia

e da biomedicina.

Vale dizer que não só as feministas abriram espaço para que a sexualidade fosse expli- citada nos debates do Cairo. Os países europeus propuseram a introdução do concei- to de saúde sexual e de uma definição de sexualidade, além de defender bravamente o reconhecimento da multiplicidade das formas de família. Várias delegações, inclusive

a dos Estados Unidos, fizeram menção em suas declarações, à não discriminação por

razão de orientação sexual. Entre os vários fatores que explicam por que no docu- mento final da conferência a expressão direitos sexuais não aparece, está o arcabouço demográfico do debate, no qual era possível chegar até os direitos reprodutivos, mas era demasiado explicitar qualquer direito relativo ao princípio da liberdade sexual. Contudo, a questão seria retomada uma ano mais tarde, em Pequim, e em novas condições.

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Ao final de 1994, um documento assinado por mais de 6.000 pessoas foi elabora- do por iniciativa da Comissão Internacional de Direitos Humanos de Gays e Lésbi- cas (IGLHRC), para garantir que a sexualidade, incluída a orientação sexual, fosse contemplada na agenda de Pequim. Segundo a psicóloga e ativista lésbica Gloria Careaga, decidiu-se concentrar o esforço de negociação no debate sobre os direitos humanos das mulheres, pois se queria que as mulheres fossem reconhecidas como pessoas plenas, para além da reprodução e da sexualidade. Além disso, esperava-se

que os conservadores fossem concentrar suas forças no capítulo de saúde, reafirman-

do o Cairo (Careaga apud Girard, 2007, p. 371). Já as ativistas envolvidas com saúde

e direitos reprodutivos, que haviam participado da Conferência do Cairo, centrariam

atenção no capítulo da saúde, no qual as definições da CIPD seriam mais debatidas.

Em Pequim, portanto, as proposições relativas à sexualidade seriam debatidas tanto no capítulo sobre saúde, quanto na seção dedicada aos direitos humanos das mulhe- res. Após duas semanas de discussões acirradas, foi aprovado, no capítulo sobre saú- de, o parágrafo 97, que não explicita o termo “direitos sexuais”, mas afirma o direito da mulher de ter controle e decidir sobre questões relacionadas à sua sexualidade, sem coerção, discriminação e violência.

Os direitos humanos das mulheres incluem seu direito a ter controle sobre as ques- tões relativas à sexualidade, incluída sua saúde sexual e reprodutiva, e decidir livre- mente a respeito dessas questões, sem se verem sujeitas à coerção, à discriminação ou à violência. As relações sexuais e a reprodução, incluído o respeito à integridade da pessoa, exigem o respeito e o consentimento recíprocos e a vontade de assumir conjuntamente a responsabilidade das consequências do comportamento sexual (IV CMM, Plataforma de Ação, parágrafo 97).

Contudo, o termo “orientação sexual” – incluído no texto do parágrafo 225 do capí- tulo de direitos humanos, que trata das bases injustificáveis de discriminação – foi eliminado na madrugada do último dia da conferência, durante os momentos finais de negociação do texto. Mesmo assim, essa perda não foi completa, pois o parágrafo 97, que já estava aprovado e, portanto, fora da negociação desse último dia, consa- gra uma definição de direitos humanos que tem relação com sexualidade e pode ser aplicada às mais diversas situações, identidades e experiências. De forma simples, o parágrafo afirma que o exercício da sexualidade deve ser livre de coerção, discrimi- nação e violência. O resultado final foi um texto apoiado por um grande número de delegações, mas também fortemente atacado por vários países islâmicos, a Santa Sé e algumas delegações latino-americanas (Argentina, Nicarágua, El Salvador).

Entretanto, apesar dos avanços, a definição de Pequim tem limitações. Ela se refere

exclusivamente às mulheres, quando não é possível pensar os direitos sexuais apenas no feminino. Sobretudo, o conteúdo da segunda parte do parágrafo 97 tem um viés abertamente heterossexual (e monogâmico) e, conforme analisa Petchesky (2000), tal como construído, tende a ser facilmente interpretado em termos de vitimização (risco de saúde, violência sexual) em detrimento de interpretações que privilegiem

rágrafo 97 rompeu uma barreira, fazendo da sexualidade per se um tema legítimo dos debates sobre direitos humanos e constituindo-se como o ponto de partida para o desenvolvimento subsequente dos direitos sexuais, como pode ser exemplificado pela seguinte definição:

Direitos Sexuais referem-se a normas específicas que emergem, quando Direitos Humanos existentes são aplicados à sexualidade. Estes direitos incluem liberdade, igualdade, privacidade, autonomia, integridade e dignidade de todas as pessoas; princípios reconhecidos em muitos instrumentos internacionais que são particular- mente relevantes para a sexualidade. Direitos Sexuais oferecem uma abordagem que inclui, mas vai além da proteção de identidades particulares. Direitos sexuais garan- tem que todos tenham acesso a condições que permitam a plenitude e a expressão da sexualidade livre de qualquer forma de coerção, discriminação ou violência e dentro de um contexto de respeito à dignidade (IPPF, 2008).

4.Depois do Cairo e de Pequim

Nas arenas intergovernamentais

Cairo e Pequim foram apenas o primeiro capítulo de uma saga que continua. As con- ferências da ONU possuem revisões periódicas e para a Conferência de Cairo - CIPD

e a de Pequim - IV CMM, elas são quinquenais (CIPD: 1999, 2004; IV CMM: 2000,

2005). Nesses processos de revisão, as forças conservadoras procuraram destruir os consensos de ambas as conferências. Entretanto, em todas essas oportunidades, os textos de 1994 e 1995 foram reafirmados (Sen e Corrêa, 2000; Collet, 2006). Conco- mitantemente muitas controvérsias em relação à saúde, direitos reprodutivos, aborto

e educação sexual marcaram os debates sobre Metas de Desenvolvimento do Milênio

(MDM) (Alves e Corrêa, 2005). Nas duas Sessões Especiais da Assembléia Geral da ONU sobre HIV/AIDS, em 2001 e 2006, também houve duros embates em relação aos termos trabalho sexual e homens que fazem sexo com homens, incluídos nos deba- tes travados nas plenárias.

Em 2000, no Chile, a reunião preparatória regional das Américas, para a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial e a Xenofobia (que aconteceria em 2001) aprovou um documento intitulado Declaração de Santiago, cujo teor in- clui um conteúdo claro de repúdio à discriminação por razão de orientação sexual. Essa definição seria defendida pelo Brasil e outros países nas negociações de Durban, cidade da África do Sul onde foi realizada a conferência das Nações Unidas, porém, uma vez mais, o texto não foi adotado. Contudo, o processo de Durban inspirou o Brasil a apresentar, na extinta Comissão de Direitos Humanos (CDH) da ONU, uma resolução pioneira sobre direitos humanos e orientação sexual, que ficou conhecida como a Resolução Brasileira. Essa proposição tampouco resistiu à brutal pressão de delegações conservadoras capitaneadas pela Organização da Conferência Islâmica, com apoio discreto do Vaticano e do governo Bush (Pazello, 2004; Girard, 2007; Cor- rêa, Petchesky e Parker, 2008).

Apesar disto, a Resolução Brasileira deflagrou uma mobilização inédita em torno dos direitos sexuais na CDH e, posteriormente, no Conselho de Direitos Humanos que

a substituiu. Um dos resultados mais significativos desse investimento foi a elabo-

ração, em 2006, dos Princípios de Yogyakarta para Aplicação de Direitos Humanos à Orientação Sexual e Identidade de Gênero. 8 Mas também devem ser mencionados os esforços sistemáticos que têm sido feitos por redes da sociedade civil, para que temas

8. Texto em portugues disponível em: www.clam.org.br/pdf/principios_de_yogyakarta.pdf. Para as demais informações sobre a iniciativa:

de direitos reprodutivos e sexuais sejam contemplados nos debates e mecanismos do Conselho de Direitos Humanos, especialmente o processo de Revisão Periódica Uni- versal 9 (de implementação dos direitos humanos), a que são, desde 2007, submetidos todos os países membros da ONU.

Além disso, desde os anos 1990, comitês de vigilância de direitos humanos interna- cionais e regionais, assim como relatores especiais têm emitido opiniões que con- denam as restrições de acesso ao aborto, a mutilação genital infantil (sobretudo fe- minina), a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. Em alguns casos, os comitês, exigem inclusive que os países paguem indenizações às pessoas cujos direitos foram violados ou modifiquem suas legislações. Exemplos disto são: a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso Paulina (GIRE, 2000, 2004), que obrigou o México a indenizar uma adolescente a quem havia sido recusado um aborto (por estupro), permitido em lei, e a decisão do Comitê de Di- reitos Civis e Políticos da ONU, que considerou restritiva a lei colombiana que não permite o casamento ou união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Em 2004, por efeito da Resolução Brasileira, se iniciou – mobilizada pelo Brasil e apoia- da por redes regionais da sociedade civil – uma pressão mais sistemática para que o Sistema Interamericano de Direitos Humanos reconhecesse os direitos humanos re- lacionados à orientação e identidade de gênero. Esse investimento resultou em três resoluções subsequentes da Assembléia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), em reuniões realizadas em Mendellin (2008), San Pedro Sula (2009) e Lima

(2010).

Esforços semelhantes, desde muito, estão em curso, junto às instituições da União Europeia. Em particular, a Corte Europeia de Direitos Humanos tem emitido deci- sões e opiniões inéditas – e muito relevantes – sobre casos, envolvendo direitos repro- dutivos e sexuais, incluindo-se o aborto, transexualização, direito à adoção por casais do mesmo sexo, e violação da liberdade de expressão, da privacidade e da igualdade, por razões relacionadas a gênero, sexualidade e reprodução. Mais recentemente, ini- ciativas de advocacy têm sido feitas junto à Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, para que sejam postos em prática os acordos regionais de respeito aos direitos civis e políticos e, também dos direitos sexuais e reprodutivos, tal como, por exemplo, aqueles definidos pelo The Protocol to the African Charter on Human and Peoples’ Rights on the Rights of Women in Africa (Protocolo à Carta sobre Direitos

9.Para mais informação: http://www.ohchr.org/en/hrbodies/upr/pages/UPRMain.aspx Brasil: http://www.ohchr.org/EN/HRBodies/UPR/Pages/brsession1.aspx (Ambos acesso em: 17 jun. 2010)

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10. http://www.achpr.org/english/_info/women_prot

htm

(Acesso em: 17 jul. 2010)

Humanos e dos Povos e Direitos das Mulheres na África), mais conhecido como Protocolo de Maputo 10 .

Finalmente, mas não menos importante, os conceitos de direitos reprodutivos e di- reitos sexuais têm sido utilizados, em vinculação com as noções de saúde reprodutiva e sexual, por instituições globais e regionais que atuam mais diretamente no campo da saúde, como é o caso da OMS, da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).

É preciso sublinhar, contudo, que esses debates – ainda que obtenham resultados positivos – no mais das vezes, são marcados por controvérsias brutais e reações ne- gativas dos Estados Membros da ONU e outras instâncias multilaterais às recomen- dações, revisões e relatórios que enfatizam as violações dos direitos sexuais e repro- dutivos. Sobretudo com muita frequência, os Estados participantes desses debates e negociações barganham, sem maiores dificuldades, premissas relativas aos direitos reprodutivos, quando estão em jogo questões consideradas prioritárias, como é caso do comércio, das finanças e dos conflitos armados.

Iniciativas das sociedade civil

Entre 1994-1995 e 2010, centenas de iniciativas têm sido implementadas, no mun- do todo, por organizações da sociedade civil, instituições acadêmicas e especialistas, para disseminar e refinar os conceitos de direitos reprodutivos. Não é possível listá- -las todas, mas é importante referir algumas iniciativas globais e regionais relevantes.

Ainda nos anos 1990, o Grupo HERA (hoje extinto) publicou em sete línguas (in- cluindo português, árabe e chinês) uma série de folhetos 11 que divulgaram os acordos do Cairo e Pequim. No mesmo período, o IPPF lançou uma Declaração de Direitos Sexuais e Reprodutivos com o mesmo objetivo. Esse investimento seria retomado em 2008, com a publicação da Declaração sobre Direitos Sexuais 12 (em 23 línguas) pelo IPPF. Seu conteúdo é exemplar no que diz respeito à elaboração e esclarecimento quanto aos princípios que fundamentam os direitos humanos em sexualidade e seus desafios de implementação.

Como mencionado anteriormente, uma referência fundamental nesse cenário são os Princípios de Yogyakarta para Aplicação de Direitos Humanos à Orientação Sexual e

11. HERA Action Sheets. Disponível em: http://www.iwhc.org/index.php?option=com_content&task=view&id=2470&Itemid=824 (Acesso em: 17 jul. 2010).

Identidade de Gênero (2006). Este documento foi elaborado por um grupo de ativis- tas LGBT, dos direitos sexuais e especialistas no campo, incluindo-se vários relatores especiais da ONU. Os Princípios de Yogiakarta, não se trata de um documento inter- governamental, negociado pelos Estados, mas possui enorme legitimidade em razão do reconhecimento das pessoas e organizações envolvidas nessa iniciativa e por ter como base textos consagrados de direitos humanos.

Os Princípios de Yogiakarta não criam normas específicas para conter violações e responder às aspirações das pessoas, cujas orientação sexual e identidade de gênero diferem da norma heterossexual dominante. O documento resgata os conteúdos de tratados e convenções, consagrados e ratificados por um número significativo de pa-

íses, aplicando-os a vinte e quatro situações de discriminação e injustiça, derivadas da orientação sexual e identidade de gênero (direito à vida, liberdade de expressão, saúde, educação etc.). Segundo Paul Hunt, que foi Relator Especial da ONU para

o Direito à Saúde entre 2002 e 2008, os Princípios de Yogiakarta coligem e aplicam

princípios estabelecidos e genéricos de direitos humanos à sexualidade humana, de modo a que não seja mais necessário construir nenhum novo direito humano para equacionar as inúmeras violações que ainda persistem nesse campo.

Finalmente é preciso mencionar que na América Latina, imediatamente após o Cairo

e Pequim, o Conselho Latino Americano pelos Direitos das Mulheres (CLADEM)

lançou uma campanha pela elaboração de uma Convenção Interamericana dos Di-

reitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos 13 . Desde então muitas outras organizações

e redes se juntaram a essa iniciativa e realizaram-se inúmeros diálogos, envolvendo não apenas as feministas, mas também grupos LGBT e trabalhadoras sexuais, no sentido de estabelecer o arcabouço geral desse documento. Em 2010, durante a As- sembléia da OEA em Lima, a campanha lançou um esboço de convenção para que fosse amplamente debatido.

Princípios que fundamentam os direitos reprodutivos e sexuais

Assim, de certa perspectiva, os direitos sexuais e reprodutivos não são novos direitos. São novas definições que inspiram os estados, instituições, grupos e indivíduos a ter, como referência, os princípios fundamentais de direitos humanos para balizar relações e práticas nas esferas da reprodução e da sexualidade. Dito de outro modo,

a regulação pública e privada da reprodução e da sexualidade deve ser pautada pelo

respeito e promoção da liberdade, da igualdade, da privacidade, da autonomia, da

pluralidade, da integridade e dignidade, princípios esses plenamente reconhecidos pelos instrumentos internacionais de direitos humanos, bem como por todas as constituições de corte democrático.

O

princípio de respeito à pluralidade ou diversidade, quando articulado à premissa

de

igualdade, requer que os direitos reprodutivos e os direitos sexuais sejam concebi-

dos e aplicados numa perspectiva interseccional que considere diferenciais de gênero (num sentido não binário), classe, raça, etnia, idade e corporalidades. Já o princípio democrático, anteriormente mencionado, preconiza que a elaboração de políticas públicas e a implementação de programas sociais assegurem a ativa participação das(os) beneficiárias(os) na identificação de prioridades, na tomada de decisões, no

planejamento, na adoção e na avaliação de estratégias para o alcance dos direitos sexuais e reprodutivos. Consagram-se, deste modo, a exigência de transparência, a democratização e a accountability (transparência e prestação de contas) no que se refere às políticas públicas.

. 43

5. Desafios conceituais e políticos

É relativamente fácil afirmar retoricamente os princípios que fundamentam os di-

reitos reprodutivos e os direitos sexuais. Contudo, os debates jurídicos e políticos em torno a esses direitos e, sobretudo, sua realização implicam inúmeros e enormes desafios em termos de interpretação, entendimento e aplicação, os quais serão aqui examinados de maneira breve e bastante sintética.

A marca “do gênero”

A história pregressa e recente dos direitos reprodutivos e sexuais faz com que eles sejam irrefletida e automaticamente associados às mulheres. Muito embora a desi- gualdade de poder entre homens e mulheres esteja com frequência na origem das violações desses direitos, eles não podem ser pensados exclusivamente no feminino. Pensar e aplicar os direitos reprodutivos e sexuais para todas as pessoas, independen- temente de seu gênero ou identidade sexual, implica, sem dúvidas, enormes desafios.

Por exemplo, como pensar o aborto se considerarmos também os direitos reprodu- tivos dos homens? Uma resposta possível é afirmar que os impactos diferenciados da gestação e da maternidade no corpo e na vida das mulheres, além da desigualdade de gênero – que muitas vezes está na origem da gravidez indesejada – faz com que a prerrogativa do direito de decisão seja das mulheres.

É preciso reconhecer os direitos reprodutivos de gays, lésbicas, pessoas transexuais e

intersexuais. Isso implica considerar que a exigência da esterilização como pré-requi- sito da transexualização, que acontece em certos contextos, é, como qualquer esteri- lização forçada, uma violação flagrante de direitos. No terreno dos direitos sexuais, mais especificamente essa perspectiva ampla, exige reconstruir o discurso sobre a mutilação genital. Essa prática é, sem dúvida, violência perpetrada sobre meninas, em alguns contextos culturais específicos. Contudo, as cirurgias a que são submeti- das crianças intersexuais com o objetivo de “ajustar” seus corpos ao modelo binário de gênero dominante, sem que seja respeitada sua liberdade de decidir (ver os Prin- cípios de Yogyakarta, artigo 19), é também violação da integridade corporal. Implica, do mesmo modo, reconhecer a existência, a extensão e o impacto de estupros, de que meninos, homens, gays, travestis, transexuais e intersexuais também são vítimas.

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Distinguindo direitos reprodutivos e direitos sexuais

Os direitos reprodutivos e sexuais são, em geral, enunciados como se estivessem com- pletamente vinculados, quase como se fossem sinônimos. Sem dúvida, sexualidade e reprodução estiveram e continuam intimamente associadas na experiência humana. Porém, é necessário distinguir os conteúdos desses direitos, pois tanto há sexo sem reprodução, como há reprodução sem sexo, sem deixar de lado que, muitas vezes, ao contrário, é preciso combiná-los. As pessoas que reivindicam direitos sexuais podem fazê-lo sem nenhuma aspiração reprodutiva, como no caso de gays, lésbicas e traves- tis, que demandam proteção, por exemplo, contra a violência homofóbica. Mas há circunstâncias em que suas demandas dizem respeito tanto aos direitos sexuais quan- to aos direitos reprodutivos. Uma lésbica precisa ser plenamente respeitada como pessoa, e pode reivindicar acesso à inseminação artificial para engravidar (direito de decidir sobre a reprodução e ter os meios necessários para fazê-lo). Uma jovem quer exercer sua sexualidade e ter acesso a meios anticoncepcionais, mas não pode fazê-lo em razão de normas que definem como 18 anos a idade de consentimento sexual.

A plasticidade da sexualidade e a rigidez da norma

Um tema recorrente nos esforços de elaboração crítica sobre os direitos sexuais é a tensão entre plasticidade da experiência e do desejo sexual, e o constante apelo da norma jurídica à definição de categorias e identidades rigidamente definidas (Cor- rêa, 2006; Parker e Corrêa, 2004; Miller, 2004). Para Sharma (2006), por exemplo:

A linguagem dos direitos pode ser usada de uma miríade de maneiras. Como ar-

gumenta Alice Miller (2004), a maneira como os direitos são exigidos transita das modalidades do status quo a formas transformadoras. No entanto, têm havido insu-

ficiente reflexão e diálogo, no que diz respeito às limitações da linguagem dos direi- tos. Com muita frequência, houve uma aceitação sem questionamentos de que a lin- guagem dos direitos sempre promoveria, em última instância, a busca pela justiça. [Mas] falar da sexualidade somente em termos de identidades promove o ponto de vista de que ela é fixa e pode ser encaixada em categorias mutuamente excludentes […]. Se nosso único ponto de referência são comunidades pré-definidas com base na orientação sexual, estaremos confrontadas com o problema de excluir aquelas pesso-

as que não se identificam com essas identidades e de promover uma visão rígida da sexualidade (Sharma, 2006, p. 52). (em inglês no original).

O enfoque dos direitos sexuais proporciona a possibilidade de desenvolver uma pers- pectiva de direitos humanos que escapa das categorias identitárias. Mas, para que essa perspectiva possa frutificar, é crucial estarmos atentas/os à tendência “natural”

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do discurso do direito de nomear, categorizar, fixar identidades e status. Contudo, não se trata de tarefa impossível. Os Princípios de Yogyakarta tratam de situações em que os direitos humanos são violados em razão da orientação sexual ou identidade de gênero das pessoas, sem nunca nomear as categorias identitárias clássicas (ho- mens, mulheres, gays, lésbicas, transexuais, travestis, intersexuais).

Os limites dos direitos humanos em relação a sexualidade e reprodução

Embora exista uma única linguagem de direitos humanos há diferentes maneiras de interpretá-los. Cervantes (apud Parker e Corrêa, 2004) identifica várias correntes de

interpretação, cujas diferenças não são triviais, quando se trata de pensar e aplicar os direitos sexuais e reprodutivos. Há uma perspectiva moral ou absolutista, segundo a qual, os direitos humanos são essencialmente bons, necessários e universais. Há um enfoque pragmático (positivista), segundo o qual, os direitos humanos são relevantes

e universais por que foram aceitos internacionalmente. Uma terceira vertente inves-

tiga o que é essencial da condição humana para afirmar os direitos humanos. Alguns de seus pensadores buscam encontrar essa essência não nas pessoas ou nos corpos, mas nas condições sociais que determinam a ausência de direitos. Existe ainda uma corrente denominada procedimental que não afirma, mas pergunta: o que torna um discurso universal? Para esse grupo de pensadores o problema está menos no con- teúdo dos acordos de direitos humanos, e mais no processo, através do qual esses acordos são alcançados. Segundo eles, um discurso aberto, recíproco e comunicativo sobre direitos humanos é o que poderá, um dia, torná-los universais.

A perspectiva pragmática é, em grande medida, o que inspira as e os ativistas dos

direitos reprodutivos. Já os adversários dos direitos reprodutivos e sexuais estão ali- nhados com as correntes absolutista e essencialista, que derivam do direito natural clássico. Mas é interessante pensar que a perspectiva procedimental dos direitos hu- manos possa ser mais adequada para processar não os desafios da pluralidade e da instabilidade, que as questões de reprodução e sexualidade suscitam, mas a produção de consensos mais amplos num contexto em que os ataques aos direitos reprodutivos

e sexuais estão recrudescendo.

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Assim, segundo Jacques Derrida (2000), é preciso estar do lado dos direitos huma-

nos, porém, ao mesmo tempo em que se reconhecem seus limites. Um desses limites, que não pode ser obscurecido, quando pensamos os direitos sexuais, é o viés do bina- rismo de gênero que perpassa o discurso dos direitos humanos, quando o “humano”

é definido: ser humano implica ser homem ou ser mulher. Consequentemente, os

corpos e experiências que escapam a essa lógica prescritiva passam a integrar as ca-

tegorias do não-humano, do abjeto. Essa crítica severa, elaborada pelas pessoas tran- sexuais e intersexuais, abre todo um campo de interrogações sobre as possibilidades

e

limites dos direitos humanos, exigindo uma grande cautela quanto ao que nomear

e

como nomear, quando reivindicamos direitos sexuais.

Outros limites devem ser mencionados. Os direitos humanos tributários que são do

liberalismo tendem a ser contratualistas – direitos como cálculo e não como justiça

– uma interpretação que, no mais das vezes, proporciona respostas às violações no campo da reprodução e da sexualidade, que não podem ser apenas remediadas por compensações pecuniárias.

Sobretudo nas condições contemporâneas, é preciso considerar os vastos territórios da vida e do tecido social, que se encontram sob estado de exceção: os campos de refugiados, as prisões, as zonas controladas por poderes fáticos criminais ou grupos armados – como as favelas brasileiras dominadas por narcotraficantes ou por mi- lícias – comunidades sujeitas a normas religiosas dogmáticas extremas, a situação dos migrantes não documentados, entre outras. As violações sexuais de mulheres e crianças em Darfur, as pessoas HIV positivas, expulsas por traficantes, de comunida- des no Rio de Janeiro ou o estupro sistemático que ocorre nas prisões brasileiras são situações cotidianas para as quais os discursos de direitos humanos são insuficientes, mas que não deveriam ser excluídas dos nossos horizontes de reflexão crítica sobre os direitos sexuais e reprodutivos.

Outro tema recorrente nas conversações sobre direitos sexuais se refere aos limites e instabilidades dos princípios de direitos humanos, quando se trata de aplicá-los às esferas da sexualidade e reprodução. Baudh (2008), por exemplo, examinou o uso dos princípios de igualdade e dignidade para contestar as restrições impostas aos ho- mossexuais masculinos pelo artigo 377 do código penal indiano, que criminaliza os atos sexuais contra a lei natureza (cuja constitucionalidade foi contestada em 2009, pela Alta Corte de Delhi). Segundo ele:

No argumento da igualdade dos direitos, a orientação sexual é vista como status imutável, similar ao fenômeno da raça ou do sexo. A “relação carnal contra a lei da natureza” é interpretada em relação à ideia central de orientações sexuais distintas. Para este argumento, é necessário conceitualizar e contrastar as identidades sexuais como heterossexual e homossexual. Da mesma forma que o heterossexual é natural- mente inclinado à penetração pênis-vagina, a pessoa homossexual é percebida como alguém que tem uma inclinação à “relação carnal contra a lei da natureza”. Há uma

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exigência de igualdade entre o homossexual e o heterossexual, como duas classes di- ferentes de pessoas. No argumento da dignidade humana, as pessoas que desejam e se comprazem com a “relação carnal contra a lei da natureza” são vistas como uma minoria permanente. Entende-se que essa minoria tem uma história comum de opressão que, por sua vez, é vista como tendo causado desaprovação e perda de re- putação extremas, com a consequente violação de seu direito de viver com dignidade humana (Baudh, 2008, p. 125).

Baudh considera que esses argumentos não oferecem um arcabouço suficiente para proteger plenamente a liberdade sexual. Isso por que os homossexuais não devem ser tratados como minorias para merecer respeito e tampouco é adequado marcar e fixar a diferença entre homossexuais e heterossexuais, para promover sua dignidade. As- sim como outros autores e autoras, ele também considera que o direito negativo de não ingerência na vida privada pode ser insuficiente para assegurar direitos sexuais a pessoas que não dispõem de um ambiente favorável para exercê-los.

Mesmo quando, desde Viena, enfatiza-se a indivisibilidade dos direitos humanos nos debates e contextos de aplicação dos direitos reprodutivos e sexuais, persiste uma forte inclinação a concebê-los, sobretudo, como direitos civis e políticos. Por exem- plo, cortes constitucionais podem afirmar que as pessoas têm o direito de decidir sobre a reprodução e a sexualidade, em base a princípios de privacidade e liberdade. Mas isso não assegura necessariamente que tais direitos possam ser exercidos. Por exemplo, uma norma que reconhece os direitos das mulheres, de interromperem uma gravidez indesejada, ou de um travesti a realizar transformações corporais, mas que não assegura as condições para que tais procedimentos sejam realizados em con- dições acessíveis e seguras compromete a realização plena desses direitos.

Reva Siegel (2009), por sua vez, examinou criticamente os usos do princípio de dig- nidade pela Corte Suprema do EUA para garantir os direitos reprodutivos no caso de decisões sobre aborto e concluiu que nessas interpretações, dignidade é tanto usa- do para sustentar a defesa da liberdade das mulheres quanto para defender a vida do feto, numa perspectiva francamente essencialista. Essa conclusão não surpreen- de quem acompanhou os debates globais nas últimas décadas, pois inúmeras vezes nessas negociações a delegação do Vaticano opôs o termo dignidade a premissas de liberdade, pluralidade ou mesmo de direitos, tout court. Em Pequim, por exemplo, seus representantes tentavam persuadir outras delegações de que a dignidade das mulheres era mais importante do que seus direitos humanos.

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Não se trata de sugerir que o princípio de respeito à dignidade seja abandonado, pois ele é constitutivo dos instrumentos internacionais de direitos humanos adotados após 1948, assim como de muitos textos constitucionais. Mas, quando se trata dos di- reitos reprodutivos e sexuais, é fundamental conceber e interpretar dignidade numa perspectiva que não permita esse tipo de deslizamento moral. Corrêa e Petchesky

(1994b), ao elaborar quatro princípios para balizar os direitos sexuais e reprodutivos, evitam usar o termo dignidade, reinterpretando-o como condição de pessoa (per- sonhood). No texto em questão, o respeito pela condição de pessoa é o fundamento ético que assegura às mulheres a possibilidade e capacidade de decidirem sobre suas vidas sexuais e reprodutivas, inclusive no caso do aborto. Mas essa concepção pode

e

deve ser estendida a demais circunstâncias, às quais se aplicam os direitos sexuais

e

reprodutivos.

Disputando o sentido da vida

Se o cerne da biopolítica é controle da vida, conforme bem assinala Foucault, quan- do enfatiza que a vida, mais do que a lei, tornou-se objeto da luta política (Foucault, 1984), a disputa de interpretação acerca do que é a vida está inevitavelmente no âma- go do debate contemporâneo sobre os direitos reprodutivos e sexuais. E é, sobretudo, nesse terreno que incidem as estratégias do dogmatismo religioso nas suas várias ma- nifestações, fazendo recurso sistemático ao conceito de natureza como fundamento e parâmetro da defesa da vida. Segundo Mujica (2009), “do ponto de vista dos conser- vadores a vida não é definida em termos de democracia de direitos ou de liberdade de decisão e ação do sujeito sobre si. Para eles a vida é naturalizada e sacralizada de modo tão radical, que a vida mesma deixa de pertencer ao sujeito e deve ser regulada por outras instâncias” (Mujica, 2009, p. 4). (original em espanhol)

Para defender essa concepção naturalizante e restritiva da vida, o dogmatismo reli- gioso recorre à doutrina religiosa, mas também aos discursos de direitos humanos (o direito à vida) e no caso específico das argumentações do Vaticano são utilizadas ainda, com frequência, concepções científicas. Isso é possível, porque de fato, as dou- trinas religiosas não são a única fonte de naturalização das concepções de vida hu- mana. Na era moderna, a ciência, especialmente a biologia e a biomedicina, é a base de um vasto arsenal de concepções naturalizadoras sobre sexo, gênero e reprodução, ou sobre quando começa e termina a vida (Camargo et al., 2009), as quais também têm sido focos de contestação dos direitos reprodutivos e sexuais.

Vale lembrar, por exemplo, que na maioria dos países, a restrição ao aborto não é apenas legal/criminal, mas definida por parâmetros de ética. Assim como os parâ-

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metros da Associação Psiquiátrica Americana (APA), para definir patologias, consti- tuem o discurso dominante sobre a identidade e experiência das pessoas transexuais

e intersexuais (Jorge, 2009; Cabral, 2010) e são hoje objeto de uma campanha pela

despatologização da transexualidade. Além disso, como foi observado anteriormente, há interpretações essencialistas e naturalistas dos direitos humanos que podem ser completamente restritivas em relação à liberdade e à pluralidade reprodutiva e sexual.

Em tais condições, o desenvolvimento conceitual pleno dos direitos reprodutivos e dos direitos sexuais não pode evitar o debate sobre o significado e sentido da vida. Por um lado, não é possível conceber liberdade reprodutiva ou justiça erótica, a par- tir de concepções que confinam a sexualidade e reprodução às regras inexoráveis da “natureza”, sacralizada como vida. Por outro, tampouco é adequado desconsiderar ou minimizar os efeitos da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico, que inscrevem persistentemente imagens e concepções de natureza e de vida no imaginá- rio e nas práticas sociais. Os direitos sexuais e reprodutivos só podem ser plenamente desenvolvidos a partir de um arcabouço filosófico e científico, que concebe a vida em termos de qualidade e desenvolvimento de possibilidades.

A questão do aborto é talvez o tema que melhor ilustra esse desafio. A maioria das

reformas legais ou decisões jurisprudenciais que, desde os anos 1960, descrimina- lizou o aborto e, sobretudo, as decisões posteriores de cortes constitucionais sobre essas leis, foram balizadas pelo princípio da ponderação entre os direitos do embrião

como vida potencial e os direitos das mulheres à liberdade de decidir sobre a gestação (Sarmento, 2005). Essa argumentação se apoia no princípio do direito à vida, que está gravado na Declaração de 1948 e na maioria das constituições contemporâneas, sem torná-lo absoluto. Passadas quatro décadas, as tecnologias disponíveis permitem

a visualização de embriões desde os primeiros momentos da concepção, alterando,

inevitavelmente, concepções e sentimentos acerca do significado da vida intrauteri- na, com impactos sobre o debate relativo ao aborto. Condições que dão novos con- tornos e significados ao argumento da ponderação.

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Interrogando a laicidade

O impacto do dogmatismo religioso sobre leis e políticas no campo de gênero, sexu-

alidade, e questões reprodutivas, especialmente na América Latina, tem despertado fortes demandas de reativação do respeito aos princípios da secularidade e da lai- cidade. Contudo, é preciso perguntar se a simples restauração da secularidade e da laicidade resolveria automaticamente as tensões resultantes desse “triste retorno do religioso”.

Uma vasta literatura sobre religião e secularidade no mundo pós-Guerra Fria e pós- 11 de setembro questiona a ideia de um “espaço secular” ou “esfera pública”, não contaminado pela religião ou qualquer forma de fé, pois considera que ela é ilusória. Jakobsen e Pellegrini (2003) examinaram as ambiguidades inerentes ao conceito de “tolerância”, implementado na Europa depois das “guerras religiosas”, lembrando que ela implica sempre objetificação ou minorização do “outro”. Asad (2003, 2005) vin- cula a secularização, e particularmente o conceito francês laïcité, com a pretensão do Estado europeu de se tornar o portador da paz, ordem e tolerância, enquanto impu- nha seu domínio, tanto internamente quanto por meio da “missão civilizadora” do colonialismo. Derrida (2000) considera que os binários “razão e religião” ou “ciência e religião”, herdados do iluminismo obscurecem o componente intrínseco de fé, doxa, ou de “testemunho” que é inerente a qualquer sistema de conhecimento ou razão.

Novas reflexões críticas sobre secularismo e laicidade nos dizem que, embora a reli- gião tenha sempre reivindicado um conhecimento e jurisdição especiais no que diz respeito à moralidade sexual, o estado moderno tampouco é moralmente neutro em relação a temas sexuais. Entre muitos exemplos, podemos citar as leis de sodomia que foram preservadas nos países socialistas até os anos 1970-1980, ou a moral sexual restritiva que até hoje pode ser observada na China e no Vietnam, contextos que se caracterizam pela laicidade compulsória.

Na América Latina, Vaggione (2009) tem produzido reflexões que vão na mesma direção, pois examinam as limitações e ambiguidades da laicidade no contexto regio- nal, mas também interrogam a inexorabilidade da secularização e, sobretudo, fazem um apelo ao reconhecimento da pluralidade de posições no que diz respeito à sexu- alidade e reprodução no interior das comunidades religiosas, como estratégia neces- sária para assegurar a realização dos direitos reprodutivos e sexuais num mundo que se caracteriza como sendo pós-secular.

Incorporar essas críticas não implica abandonar a defesa da laicidade ou do secula- rismo. Essa ideia propõe, de fato, o aprofundamento, ou se quisermos, refundação desses princípios. Contudo, nos dizem que não devemos nos deixar tomar pela ilusão de que Estados mais laicos e sociedades mais secularizadas solucionam, automatica- mente, todos os conflitos e dilemas experimentados no campo dos direitos reprodu- tivos e dos direitos sexuais.

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