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A constituição dos territórios de uso no Parque Jardim da Luz em São Paulo, Brasil.

Resumo

Renan Coradine Meireles,

graduando em Geografia pela Universidade de São Paulo.

O Parque Jardim da Luz é um importante espaço público na formação sócio-espacial da região central da cidade de São Paulo. Fundado em 1798 como Horto Botânico, é somente em 1825 que ganha o status de Jardim da Luz. Entretanto, é na segunda metade do século XIX que o lugar começa a ganhar as características que até hoje estão presentes em sua morfologia e usos. Neste artigo busca-se analisar a constituição sócio-espacial do Parque a partir da análise da morfologia e dos usos que se dão no próprio Parque e seu entorno. Objetiva-se também circunscrever os territórios do uso, descrevendo e analisando-os em suas peculiaridades e generalidades.

Existem diversas maneiras de iniciar uma investigação sobre um fragmento do espaço urbano. Optou-se em uma aproximação da realidade a partir da observação atenta da morfologia, dos usos do lugar e consequentemente das práticas sócio-espaciais, descrevendo- as. Desta maneira iniciaremos o estudo sobre o Parque Jardim da Luz e seu entorno, na área central da cidade de São Paulo.

A morfologia explicita a sobreposição de tempos em cada lugar da cidade (Carlos, 2007b). Desta maneira, a partir da análise da mesma é possível, observar os diferentes momentos históricos de cada lugar, neste caso do Parque Jardim da Luz. Portanto, os diferentes usos que esse lugar teve durante a história podem ser revelados. Em dois momentos Carlos escreve que:

“A análise da morfologia da cidade revela uma dimensão que não é apenas espacial, mas também temporal, ao mesmo tempo em que, aponta uma profunda contradição nos processos de apropriação do espaço pela sociedade.” (Carlos, 2007b, pg.55)

“[

]

a morfologia urbana, com os traçados das ruas, avenidas e

praças, com suas formas materiais arquitetônicas, guardam um conteúdo social só permitido pela manifestação que vem da prática espacial entendida como modos de usos dos lugares. É como uso, isto é, através do corpo em atividade e movimento, que os habitantes usam os lugares e, ao fazê-lo, identificam-se com eles, posto que são os lugares onde se realizam os atos

mais banais da vida cotidiana.” (Carlos, 2007b, pg. 94)

A prática sócio-espacial contempla, assim, a dimensão da vida cotidiana, ou seja, os

diferentes usos do lugar. A análise desses usos, desta forma, é capaz de revelar os conteúdos

da prática sócio-espacial.

“O que nos parece importante resgatar para a análise, é o fato de que a cidade revela-se concretamente através do uso que dá sentido a vida, revelando o conteúdo da prática sócio-espacial. É pelo uso (como ato e atividade) que a vida se realiza e é também através do uso que se constroem os “rastros” que dão sentido a ela, construindo os fundamentos que apoiam construção da identidade revelada como atividade prática capaz de sustentar a memória.” (Carlos, 2007b, pg. 30)

Desta maneira, o texto a seguir tem como objetivo a análise do Parque Jardim da Luz a partir da observação e descrição da morfologia e dos usos, na busca pelos conteúdos das práticas sócio-espaciais. Com isso poderemos delimitar os territórios de uso.

Um museu, uma praça, um jardim, um coreto, um lago, árvores, pássaros, pessoas. Acumulação desigual de tempos, arte a céu aberto, paisagismos, morfologias, flora centenária, circulação de pessoas, permanência de pessoas. Dos caminhos tortuosos que insinuam o encontro aos bancos que providenciam a permanência. Crianças, jovens, adultos e idosos, vem, vão, ficam. Caminham, correm, brincam, estão naquele lugar. (Figura 2)

Indo ao trabalho, vindo da estação, simplesmente caminhando, praticando atividade física, se divertindo, brincando com as crianças, pulando corda, ouvindo música, trabalhando das mais diversas formas, jogando dominó ou cartas. Há um movimento incessante.

A Estação da Luz faz da vizinhança um lugar cheio de pessoas. São milhares que vem e

vão, entram e saem todos os dias. Grande parte somente passa, rapidamente, está a caminho de casa, pouco veem, nada sentem. Outros fixam o olhar, passam devagar, param, sentem a

cidade, ouvem a vida urbana.

“Esse é o jardim mais charmoso [da cidade] de São Paulo”, diz dona Célia. Ao centro um coreto e a casa de chá, produtos do início do século XX. (Figura 1) Mesmo restaurados guardam um momento da história. Cortando e completando os gramados verdejantes e os jardins floridos, trilhas e espaço livres se combinam. Circulação e encontro se estabelecem.

livres se combinam. Circulação e encontro se estabelecem. Figura 1. Coreto e Casa de Chá no

Figura 1. Coreto e Casa de Chá no início do século XX. Fonte: Ohtake e Dias, 2011.

Às margens, grades nos incomodam, delimitam, separam. Parecem violentar àqueles que passam o dia encostado a ela, sem poder entrar, parecem estar presos. As grades atuais são produtos da década de 1970, simbolizam as contradições da vida na cidade. O discurso é de violência e degradação.

Estátuas, fontes e monumentos estão espalhados, representam momentos, histórias, vidas. Provocam curiosidade, estranhamento, fazem pensar. Formam um conjunto, diferentes em cor, data, artista, forma, material: um museu a céu aberto.

O coreto, os bancos, as estátuas, as fontes, chafarizes, as casas: são pontos fixos, imóveis, sem vida por si só. Mas há quem os dê beleza, cor, sentido e vida. São os que fazem deste lugar o tempo de estar, de habitar o tempo.

São as crianças com as mães e babás no parquinho, que brincam na areia, que jogam bola, constroem casinhas enquanto as mães conversam, se divertem. São os corredores e caminhantes em busca da vida saudável. Exercitam-se até cansar, param, contemplam o jardim, tomam sorvete, ouvem música, quase sempre com fone de ouvidos. Em geral somente passam, às vezes ficam.

Figura 2. Imagens do Parque Jardim da Luz. Fonte: Acervo Renan Coradine Meireles (2012). São
Figura 2. Imagens do Parque Jardim da Luz. Fonte: Acervo Renan Coradine Meireles (2012). São

Figura 2. Imagens do Parque Jardim da Luz. Fonte: Acervo Renan Coradine Meireles (2012).

São os que fazem daquele lugar o próprio ganha pão. Os jardineiros, sorveteiros, pipoqueiros, seguranças, prostitutas. Esses já são parte da paisagem do lugar, estão ali todos os dias, faça chuva ou faça sol.

As prostitutas produzem uma história própria. São maioria no jardim. Já fazem parte do lugar, talvez a mais importante neste momento, constituem a primeira palavra que adjetiva o uso do Parque. Estão por todos os lados, caminhando ou paradas parecem se disfarçar e ao mesmo tempo estar à vista de quem as interessa. Entre os anos 30 e 40 do século XX, Mario de

Andrade no conto Primeiro de Maio já cita a presença das prostitutas no Parque: [

] Andou mais

depressa, entrou no jardim em frente, o primeiro banco era a salvação, sentou-se. Mas dali algum companheiro podia divisar ele e caçoar mais, teve raiva. Foi lá no fundo do jardim

(Mario de Andrade, 2012,

campear banco escondido. Já passavam negras disponíveis por ali [ pg.74 ).

]

São meninas ou senhoras, com muita ou pouca roupa, carrancudas ou sorridentes, falantes ou quietas, olhar calmo ou ansioso, querem ser vistas e ao mesmo tempo esconder-se,

vivem na ambiguidade de uma vida marginal. E é isso o que acontece. Por uns passam por estátuas, mortas, simbolizam sujeira, promiscuidade, vadiagem. Por esses não são vistas, para esses querem se esconder. Para outros simbolizam o encontro, a sedução, o sexo, o prazer. Por esses são vistas, para esses querem aparecer.

Mas um parque não se constitui só por ele mesmo. É produzido também pelo entorno, pelas materialidades e relações que o envolvem. O Parque Jardim da Luz tem uma vizinhança que o fez centralidade histórica e na vida cotidiana dos citadinos paulistanos.

O Parque localiza-se no atual distrito do Bom Retiro, nas imediações de equipamentos culturais como Pinacoteca do Estado, o Museu da Língua Portuguesa e também da primeira estação ferroviária da cidade de São Paulo, a Estação da Luz (Mapa 1). Portanto, tal vizinhança confere ao parque um papel diferente. Além dos diversos usos, pela região circulam milhares de pessoas por dia. Lugar histórico e com grande circulação, o jardim da luz torna-se também centralidade.

No mapa (1) à seguir estão sistematizados os equipamentos públicos que estão nas imediações do Parque. É na segunda metade do século XIX que grande parte dos edifícios que abrigam hoje a Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa, a Escola Prudente de Moraes e Estação da Luz foram construídos. Importante citar, também, que esses edifícios tiveram diferentes usos durante esse tempo. A atual Pinacoteca, por exemplo, foi construída para ser a sede do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

Os edifícios são frondosos, chamam a atenção. Todos eles foram restaurados nos últimos anos. A atual Estação da Luz, inaugurada em 1901, traz uma arquitetura nos moldes Ingleses, com a típica estrutura em arcos de ferro. O atual edifício da Pinacoteca, projetado em 1896, traz um estilo neorenascentista, típico das construções oficiais e ligada a tradição da Belas Artes Parisiense. O fim do século XIX e o início do XX são de grandes transformações nessa região da cidade.

São muitas as características que colocam o Parque Jardim da Luz como um importante lugar na metrópole. Nos dias de semana com caminhantes e corredores, trânsito de pessoas, trabalho de prostitutas. Aos fins de semana com crianças no parquinho, idosos nas mesas de jogos, contemplando os belos jardins e nas rodas de viola ao lado do coreto, nas sombras das árvores centenárias. O entorno mobiliza as pessoas às atrai, o torna centralidade.

Mapa 1. Localização do Parque Jardim da Luz e equipamentos públicos no entorno próximo.

Jardim da Luz e equipamentos públicos no entorno próximo. Legenda Parque Jardim da Luz   Pinacoteca

Legenda

Parque Jardim da Luz

 

Pinacoteca

Escola Pública

Museu da Língua Portuguesa

Estação da Luz

Museu da Língua Portuguesa Estação da Luz Projeção Transversa de Mercator Datum Horizontal: SAD 69

Projeção Transversa de Mercator Datum Horizontal: SAD 69 Fuso 23 Fonte: Google Earth

Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Departamento de Geografia

Mapa do Parque Jardim da Luz e equipamentos públicos no entorno próximo

Escala:

Data:

1: 16500

Dezembro/2012

Organização:

Elaboração:

Renan Coradine Meireles

Renan Coradine Meireles

É um lugar que contempla o uso das praças, o encontro, o diálogo, a diversão, o trânsito. É também jardim, lugar de observação, contemplação. Tampouco perde seu caráter de museu. Estátuas, chafarizes e o coreto nos remetem a história, do próprio lugar, da cidade que o contempla. Torna-se resíduo no processo de urbanização que se impõe a metrópole, espaço não homogêneo, pouco funcional, contém as marcas e os rastros dos tempos pretéritos. Escreve Seabra:

relativamente aos espaços residuais e a partir das

permanências que guardam, pode-se indagar sobre as genealogias, sobre as coexistências, sobre as continuidades e as descontinuidades, sobre as temporalidades e sobre o devir. Neles, de alguma forma permanece retida a história inteira, vivida e experimentada com sua riqueza e pobreza, com seus impasses e contradições, porque eles são acumulação de tempos sociais e

históricos.” (Seabra, 2004, pg. 185 e 186)

“[

]

Possuindo uma enorme gama de usos, eles se diferenciam, no tempo e no espaço. Territorializam-se. A hora do dia ou o dia da semana delimitam certos tipos de atividades no Parque. As diferenças começam pelos frequentadores, que durante a semana são, em geral, àqueles que trabalham ou moram no próprio entorno. Aos finais de semana os mesmos se diversificam, são turistas ou pessoas que vem ao Parque para realizar alguma atividade relacionada ao ócio e ou ao bem-estar.

Todos esses usos se estabelecem e apropriam um determinado tempo e um determinado espaço. Constituem territórios do uso. Seja todo o Parque ou apenas um coreto, só pela manhã ou o dia inteiro, as pessoas, diferenciadas entre si, em atividades, faixa etária ou classes sociais, usam e se apropriam daquele lugar.

Durante os dias úteis o ritmo é quase sempre o mesmo. Pela manhã o Parque é local de realização de atividades esportivas, são homens e mulheres, quase nunca jovens, caminhando, correndo e fazendo alongamentos. Esse é o tempo da atividade física no Parque. Em geral, os praticantes não ocupam todos os espaços, realizam suas atividades nos caminhos situados ao redor do Parque, nas bordas. No fim da manhã o uso começa a se diversificar. As prostitutas chegam e em pouco tempo “tomam conta do lugar”. São centenas no começo da tarde. Dominam o espaço até o fim do dia. Ocupam todo o Parque, nas bordas, no centro, nos caminhos, estão em todos os cantos.

Ainda no fim da manhã podemos ver dezenas de idosos contemplando a exuberância das árvores, dos monumentos e dos jardins bem cuidados, conversando com os amigos ou jogando cartas ou dominó. Não estão espalhados por todos os lados, localizam-se sempre próximos ao coreto e a casa de chá. Há ali uma boa sombra, provocada pelas grandes árvores e mesas que possibilitam os jogos.

O som dos pássaros ganha a atenção de alguns frequentadores. Apesar de ao fundo ouvirmos os automóveis, é possível escutar a cidade de outra maneira. Os sons suaves e harmônicos dão o tom da vida no Parque.

“A tarde é curta, três ou quatro horas e já temos que ir embora. Os traficantes e usuários de drogas chegam em grande número, fica muito perigoso,” reclamam algumas prostitutas. Os usos começam a mudar. Algumas prostitutas saem, entram usuários de drogas.

Aos sábados, domingos e feriados o ritmo das atividades no Parque se modifica. O número de frequentadores é maior, principalmente pela manhã. O número de praticantes de atividades físicas aumenta, principalmente com o nascer e o pôr do sol. Durante esses dias, o número de idosos também aumenta bastante, seja na jogatina ou nas rodas de viola. Pais e filhos enchem o parquinho durante quase todo o dia.

Um diferencial nesses dias são os turistas. Em pequenos ou grandes grupos eles visitam a região da Luz (Pinacoteca, Museu da Língua Portuguesa e Estação da Luz). Entram no Parque por alguns instantes, geralmente não caminham muito, ficam dez ou quinze minutos e vão embora. Algumas vezes o guia turístico que os acompanha tece alguns comentários, fala um pouco sobre a história do Parque. Desta forma, inclui-se o Parque Jardim da Luz no circuito turístico de São Paulo.

Em suma, os usuários do Parque são moradores do entorno (Luz, Bom Retiro, Campos Elíseos e Brás) ou pessoas que por alguma outra atividade passam por ali. Decididamente não é um espaço que, em geral, atrai frequentadores de lugares longínquos da cidade. A Estação da Luz, e as regiões comerciais das ruas José Paulino e Santa Ifigênia trazem um grande contingente de pessoas para o local todos os dias. A exceção são os turistas, que vem de outros estados ou países e vão ao Parque acompanhados de um guia turístico.

O Parque Jardim da Luz estabelece-se, então, como um lugar composto por uma trama

justaposta de territórios de usos. Os principais usos (prostituição, atividades esportivas etc) fazem daquele um lugar ímpar, espaço de encontro, flanêur, esportes, diversão e trabalho.

Vista do alto, as imediações da região da Luz, na região central de São Paulo é um emaranhado de polígonos e linhas, cores e um movimento insistente: edificações dos mais diversos tipos, antigas fábricas, casas, prédios residenciais e comerciais, museus, estações, ruas e calçadas, linhas de trem e metrô (Anexos 1, 2 e 3). Em meio a isso milhares de pontos e linhas circulam de um lado a outro, são carros, ônibus, trens e pessoas. As cores são poucas, os tons de cinza, do quase branco ao quase preto, dão a tonalidade ao lugar, o verde das árvores e o marrom dos telhados completa a vista.

O Bom Retiro é o lugar dos contrastes, telhados grandes e pequenos aparecem lado a

lado. Os grandes galpões fabris ao lado das pequenas casas de operários. Mas as fábricas não estão mais lá. Dos operários pouco restou. As edificações parecem abandonadas, quase todas. Não há praças, espaços livres de convivência. Descrevendo o início do século XX em São Paulo, escreve Ab’ Saber, “durante a implantação das primeiras ferrovias foram aproveitados baixos terraços fluviais, logo transformados em suporte de grandes indústrias e bairros residenciais populares (Brás, Mooca, Gasômetro, Bom Retiro, Água Branca, Lapa de Baixo, São Caetano)” (Ab’Saber, 2004, pg. 273).

Os telhados suscitam uma observação à parte. Simbolizam muito, pelo tamanho, pela forma, pela cor, são frutos de uma determinada época, fazem parte da descrição mais minuciosa. No Bom Retiro eles são, em sua maioria, estreitos e longos, formam um retângulo, são as antigas plantas fabris. São muitos, lado a lado, espremidos, aglomerados, o verde não tem espaço. A densidade é alta, são dezenas por quarteirão. Essas são características que podem deduzir determinadas relações sociais, podem apontar a contradição capital-trabalho (Anexo 1).

Do outro lado da linha férrea a vista se transforma. A linha e os trens parecem estabelecer o limite de mundos diferentes, são poucos metros que separam realidades históricas diferentes, concomitantes e contraditórias (Anexo 2). A linha do trem estabelece o fim do Bom Retiro e o começo do Campos Elíseos, ou o contrário. Carlos escreve:

Há, no entanto, continuidades e descontinuidades que se combinam como conseqüência do espaço/tempo urbanos, traduzindo a divisão do

espaço urbano nos “lugares da metrópole” com suas rupturas de ritmo, poderes desiguais, estrutura de classes diferenciadas. Movimentos, construções, transformações do tecido urbano; uma história que do ponto de vista espacial torna-se morfologia. (Carlos, 2007b, pg.58)

O Campos Elíseos parece ser o lugar da racionalidade. As ruas são largas e retas, os quarteirões são polígonos regulares. As construções não parecem fábricas e sim casas, grandes, espaçosas, não há o adensamento presente do outro lado da linha do trem. As extensas ruas estão pintadas, as calçadas estão conservadas, o verde aparece, concentrado ou espalhado pelos quarteirões (Anexo 3).

Os telhados indicam outra realidade, apontam para uma outra história. As coberturas

são menores, são mais quadradas, parecem casas. Podemos observar quadras poliesportivas, piscinas, jardins. Há praças e espaços livres de convivência. Descrevendo a região da Luz nos fins do século XIX, escreve Ab’Saber, “as elites representativas de uma poderosa burguesia urbana, em plena formação, deram preferência para os bairros do além-Anhangabaú,

envolvendo os Campos Elíseos [

]”

(Ab’ Saber,2004, pg. 139).

Entre esse complexo conjunto de geometrias, aparece imponente o Parque Jardim da Luz. O verde surge como resquício num plano com tons de cinza. É também um polígono

regular, um quadrado quase perfeito, planejado, desenhado à mão. As arestas que o separam e

o unem à rua são retas, os vértices quase sempre perfeitos. É circundado por ruas, largas e

finas, pintadas ou não. As ruas dão espaço a um vai-e-vem incessante, ensurdecedor, interminável. As cores dos carros vão se misturando sobre as linhas escuras da rua. Os ônibus lotados passam sem parar, os passageiros mal conseguem observar o que se passa a volta. O polígono verde torna-se apenas relance. As cores, os sons, o cheiro, nada é percebido. A vida passa longe, distante, não há significado.

Perpendiculares às linhas que enlaçam o Parque, muitos polígonos aparecem, estações, edifícios e quarteirões. Grandes, imponentes sobre a visão. Lugares que do alto não tem vida. São formas geométricas mortas, mas que guardam um passado distante. Estão entre as colinas

e os terraços fluviais da bacia sedimentar de São Paulo, próximo ao entroncamento de dois rios importantes da cidade, o Tietê e o Tamanduateí.

Esta etapa do trabalho contempla uma busca, via observação, descrição e uma análise sócio-espacial do lugar, encontrar seus usos. E eles são muitos, diversificados. Cada momento

merece uma análise, cada uso uma explicação, uma resposta. Afinal, o que seria de um lugar público sem o uso? Sobre a importância da análise do lugar Carlos escreve:

“O lugar permite pensar a articulação do local com o espaço urbano que se manifesta como horizonte. É a partir daí que se descerra a perspectiva da análise do lugar na medida em que o processo de produção do espaço é também um processo de reprodução da vida humana. O lugar permitiria entender a produção do espaço atual uma vez que aponta a perspectiva de se pensar seu processo de mundialização. Ao mesmo tempo que o lugar se coloca enquanto parcela do espaço, construção social. O lugar abre a perspectiva para se pensar o viver e o habitar, o uso e o consumo, os processos de apropriação do espaço. Ao mesmo tempo, posto que preenchido por múltiplas coações, expõe as pressões que se exercem em todos os níveis.” (Carlos, 2007a, pg. 14)

É necessário, portanto, estabelecer um ponto de partida, a entrada. Optou-se pela descrição, pela observação das pessoas, das relações, do entorno. A morfologia do Parque exerce uma função importante, os gramados, os espaços de lazer, as trilhas e os bancos. As atividades que dão vida ao lugar, as pessoas, seus movimentos, suas atitudes, suas práticas no Parque. Alguns somente de passagem, outros têm no Parque seu momento de lazer, de diversão, de fuga da agitação da vida urbana. É necessário iniciar pela descrição, da morfologia, das práticas. E sobre esse primeiro contato com a realidade a ser estudada, o imediato, Lefebvre escreve:

“O fenômeno urbano depende, primeiro, dos métodos descritivos,

A descrição empírica enfatiza a morfologia; ela

dá conta, com exatidão, do que veem e fazem as pessoas num contexto urbano, desta ou daquela cidade, de uma megalópolis (cidade que explodiu, constituindo, entretanto, um conjunto administrativo e político, com funções urbanas, mesmo se as antigas formas e estruturas

desapareceram)”. (Lefebvre, 2008, pg. 49 e 50 )

eles próprios variados. [

]

Partimos da descrição da morfologia e dos usos do Parque para estabelecer uma breve análise da prática soco-espacial ali existe e delimitar os territórios de uso. Pudemos, então, compreender aquele espaço como singular na vida urbana do centro da cidade de São Paulo. Consideramos, então, que há uma grande quantidade de usos que se entrelaçam e sobrepõem, formando territórios do uso, sendo a prostituição o mais proeminente deles.

Referências Bibliográficas

AB’ SABER, Aziz Nacib. São Paulo: Ensaios Entreveros. São Paulo. Edusp e Imprensa Oficial,

2004.

ANDRADE, Mario de. Contos Novos. Saraiva. São Paulo, 2012.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O lugar no/do mundo. São Paulo. Edições Labur, 2007a.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O Espaço Urbano: novos escritos sobre a cidade. São Paulo, Edições Labur, 2007b.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. A Condição Espacial. São Paulo. Contexto, 2011.

LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. Belo Horizonte.Humanitas/Editora UFMG, 2008.

OHTAKE, Ricardo e DIAS, Carlos. Um museu a céu aberto. São Paulo, SESC e SENAC editoras, 2011.

SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Territórios do uso: cotidiano e modo de vida. In: Cidades, revista científica/ Grupo de estudos urbanos. Vol.1. nº2. Presidente Prudente: Provo, 2004.

Anexo 1. Contorno de quadras no Bom Retiro (Entorno do Parque Jardim da Luz)

de quadras no Bom Retiro (Entorno do Parque Jardim da Luz) Bom Retiro Contorno de quadras
de quadras no Bom Retiro (Entorno do Parque Jardim da Luz) Bom Retiro Contorno de quadras

Bom Retiro

no Bom Retiro (Entorno do Parque Jardim da Luz) Bom Retiro Contorno de quadras no Bom

Contorno de quadras no Bom Retiro

Escala:

Data:

1: 14400

Dezembro/2012

Organização:

Elaboração:

Renan Coradine Meireles

Renan Coradine Meireles

Anexo 2. Contorno de quadras no Bom Retiro e Campos Elíseos (Entorno do Parque Jardim da Luz)

Retiro e Campos Elíseos (Entorno do Parque Jardim da Luz) Bom Retiro Campos Elíseos Contorno de

Bom Retiro Campos Elíseos
Campos ElíseosBom Retiro

do Parque Jardim da Luz) Bom Retiro Campos Elíseos Contorno de quadras no Bom Retiro e

Contorno de quadras no Bom Retiro e Campos Elíseos

Contorno de quadras no Bom Retiro e Campos Elíseos

Escala:

1: 32200

Organização:

Renan Coradine Meireles

Data:

Dezembro/2012

Elaboração:

Renan Coradine Meireles

Anexo 3. Contorno de quadras no Campos Elíseos (Entorno do Parque Jardim da Luz)

quadras no Campos Elíseos (Entorno do Parque Jardim da Luz) Campos Elíseos Contorno de quadras no
quadras no Campos Elíseos (Entorno do Parque Jardim da Luz) Campos Elíseos Contorno de quadras no

Campos Elíseos

Elíseos (Entorno do Parque Jardim da Luz) Campos Elíseos Contorno de quadras no Campos Elíseos Escala:

Contorno de quadras no Campos Elíseos

Contorno de quadras no Campos Elíseos

Escala:

1: 14400

Organização:

Renan Coradine Meireles

Data:

Dezembro/2012

Elaboração:

Renan Coradine Meireles

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