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Sobre a autora Detentora de intimeros prémios desde os tempos de seu bacharelado na PUCSP, @ autora tem brilhante earzeira académica, com cursos de espe- Galizacio em Filosofia do Direito, Teoria Geral do Direito, Direito Aéminis- ttativo, Tributario e Municipal. Fez. o Mestrado na Faculdade de Direito da USP ¢ 0 Doutorado na PUCSP, tendo nesta ‘iltima obtido os graus de Mes- ‘tre, Doutora, Live-Docente e Titular, por concurso de provas € titulos, Maria Helena Diniz € Professora Titular de Direito Civil na PUCSP, onde leciona essa matéria nos cursos de graduacao e p6s-graduaslo, e Coordena- dora do Niicleo de Pesquisa em Direito Civil Comparado nos cursos de pos- Sgraduacao em Direito. Também leciona Direito Civil Comparado, Filosofia do Ditelto e Teoria Geral do Direito nos cursos de pos-graduacio (mestra- do e doutorado). parecerista e autora de mais de tzinta titulos publicados pela Editora Saraiva, além de ter traduzido consagradas obras do direito italiano e escrito mais de cinquenta artigos em importantes revistas juridicas nacionais e in- temacionais, Todas as suas obras tém alcancado excelente aceitagio do gran- de piblieo profissional e universitario, como a presente colesao Curso de di- reito civil brasileiro (8 volumes), que € macicamente adotada nas faculdades Ge Direito de todo o Pais. Igual caminho tém seguido seus outros titulos: © A ciéncia juridica # As lacunas no direito + Atualidades juridicas (em coordenagto — $ volumes) Cédigo Civil anotado ‘Cédigo Civil comentado (em coautoria) Comentarios ao Cédigo Civil v. 22 Compéndio de introducdo a ciéncia do direito Conceito de norma juridica como problema de esséncia Conflito de normas Diciondrio jurtdico (4 volumes) Diciondrio juridico universitario Lei de Introdugo as Normas do Direito Brasileiro interpretada Tei de Locagées de Iméveis Urbanos comentada Ligées de direito empresarial © Manual de direito civil © Norma constitucional e seus efeitos * O estado atual do biodireito © Sistemas de registro, de iméveis ‘© Tratado te6rico e pratico dos contratos (5 volumes) F incontestivel a importincia do trabalho desta autora, sem diivida uma das malores civilistas de todos os tempos. A Editora Maria Hebona Diniz Mestre © Doutora em Teoria Geral do Direito © Filosofia do Direito pela PUCSP. Livre-docente e Titular de Direito Civil da PUCSP por concurso de titulos provas. Professora de Filosofia do Direito, de Teoria Geral do Direito e de Direito Civil Comparado nos cursos de pés-graduacao (mestrado e doutorado) em Direito da PUCSP. Coordenadora do Nicleo de Pesquisa em Direito Civil Comparado nos cursos de pés-graduagao em Direito da PUCSP. Curso de Direito Civi Brasileiro i, Teoria Geral do Direito Civil 29° edicao 2012 fa, Ey Fi ecg Sdooa, 27, Gara le — Sa Pals — SP crastiaes Pa 3133000 SR 000055768 De2Hod dx 830051920, 2 % fee) sats ua ior a Gon 255/57 Frei ttf 9 SB4701~tew ‘culo ‘eames anaes feta oii iat feos 20 fee ‘sa, S/S de 50S edsassansien feel san / eae Foran ‘ocasosasr ons fetta ican Fee 6h Sho 2012 —Cap an vases ane 1 tain fone) Seba BTN aia oe 8 fas ne for toon ae Fences ae ‘aS amd ay 295 Fees asses ‘teen ban Poets HRMS bch ee feel fes (0 MONE hm ‘cua ato filmer Wd PaeD Scie a / iid eametasn sec ee terface salina /m3 rene sons fms 2d Fear Bsa ISBN 978-85-07-01797-9 oba cate ISBN 978-85-02-143340 volume 1 ‘Gen det isi, ee, itl Ste aig Bens Die 29 1 Dina 2. ie ei Mal b ebuse on) Ind pre extlge sec: 2. Bt: Dieto ea ser Dieta eel aa Ca Grete d pod et Lie ns dare Ti de nage ais ‘sitet eile cy Saas Prod etal Casa Bons a Prepon digs an es Gao Noe ale Brees Bt ean ry Sie die ose tee degramesio Cite osu Fes iPod ois eso de proves Bd si ar Gs oa Cid cao Seri bts Ce Cin Mees Ft isto apn nd i de finn Inga dcop Seon COFBS/Seck eas Pred Aa angin Inresio Dry Jeahonsats 8 Dsey miso fos te fps cone de ESSE SSE RNC REA WS Cage Fon, A doce e terna memé6ria de meus avés paternos: Elisabetta Radamanti de Oliveira Almeida Diniz e Jotio Baptista de Oliveira Almeida Diniz. “Un juriste ne dott pas seulement étre le technicien hhabile qui rédige ou explique avec toutes les ressources de esprit des textes de loi; i doit sefforcer de faire passer dans le droit son idéal moral, et, parce qu'il a une parcelle de Ia puissance intellectuele, it doit utiliser puissance en luttant pour ses croyances” (G. Ripert). Indice Preficio B Capitulo 1 Objeto e finalidade da teoria geral do direito civil 1. Direito positivo v A. Nogio de direito . vv B. Diteito objetivo e direito subjetivo 24 © Dirt pableo e areto prvado 28 D. Fontes juridicas 34 E. Norma juridica 38 e1. Conceito . 38 2. Classificagao 49 2. Dieito ivi 7 60 A. Principios e contetido do direito civil 60 BB. Etiologia historica do Codigo Civil brasileiro 68 C. Objeto e funcao da Parte Geral 6 D. A Lei de Introducao as Normas do Diseito Brasileiio B 41. O contedo ea fungi da Le de Introduao as 'Normas do Diteito Brasileiro. 73 1.2. A aplicagao das n 75 1.3. A interpretacéo das normas 78 4. A integracio das normas juridicas e a questio da correcio da antinomia juridica... 4.5. A vigéncia da norma de direito no tempo e no espace E. A elacao juridica .. 129 A. Conceito de peso: 129 10 Cunso of Dineiro Crvn Baasiss0 B, Personalidade jurfdica : 130 . Dizeitos da personalidade 162 162 . Pessoa natural. A. Conceito da pessoa natural B. Capacidade juridica 163 ©. incapacidade 168 C1, Noga ...-- 168 2. Incapacidade absoluta yi 187 3, Incapacidade relativa 4. Protecio aos incapazes 198 8. Cessacdo da incapacidade .... 217 ‘D. Comeso da personalidade natural 221 E. Individualizacio da pessoa natural . el. Nome .... : Estado da pessoa natur €3. Domicflio R. Extingio da personalidade natural . 3. Pessoa juridica ‘A. Conceito de pessoa juridica B, Natureza jurfdica . Classificasio da pessoa juridica 266 D. Comego da existéncia legal da pessoa juridica Bae soll E. Capacidade da pessoa jurfdica... : an F. Responsabilidade civil. 314 G. Seu domicitio 324 1H. Transformasio, incorporagao, fusdo, 0 fm da peso jurn. 326 1. Grupos despersonalizades .. 334 J. Desconsideragio da pessoa juridica 340 Capitulo I Dos bens 361 361 362, uw ‘Tonta Genat po Dinero Civin 2. Classificacio dos bens .. A. Finalidade B. Bens considerados em si mesmnos B.L, Bens corpéreos e incorpéreos 365 b.2. Bens iméveis e méveis 365 1.3. Bens fungiveis ¢ infungiveis .. : 375 b.4. Bens consumfveis ¢ inconsumiveis 377 B.S. Bens divisiveis e indivisives ...... 'b.6. Bens singulares e coletivos . Bens reciprocamente considerados cl. Coisa principal e acess6rla ..... ©.2, Espécies de bens acessérios ..... D. Bens considerados em relagdo ao titular do dominio. 395 E. Bens quanto a possibilidade de comercalizag¥o wr. 401 Capitulo 1V Dos fatos juridicos 1. Teoria geral dos fatos juridicos we 413 A. Conceito de fato juridico em sentido amplo .. BB. Classificacdo dos fatos juridicos C. Aquisicao de direitos . D. Modificagao dos direitos E. Defesa dos direitos .. E. Extingio dos direitos 413, a4 416 419 2. ato juridico “stricto sensu’... : 428 A. Conceituacao e classificagao 428 B, Prescrigio como fato juridico . 430 b.1. Conceito e requisitos da prescri¢i0 430 b.2. Prescrigao aquisitiva € extintiVva nnnnenenn snes 440 'b.3. Normas gerais sobre a prescricio .. ‘ba. Prazos prescricionais B.S. Acées imprescuitiveis ©, Decadéncia .... G1. Conceito, objeto e arguicao da decadéncia ED. BLEHOS wnennninnnnnnninnninnnnn ©-3. Prazos de decadenia armen 12 Gunso ns Dinstro Civ Baastueino D. Distingio entre prescricao ¢ decadénci 461 469 469 470 3, Ato furidico em sentido estrito .. ‘A. Conceito e classificagaio . B. Ato juridico em sentido estrito e negécio juridico 476 476 477 479 484 4, Negécio juridico A. Conceito .. B. Classificacao . Interpretagao do negécio jurfdico D. Elementos constitutivos E, Hlementos essencais gerals ou comuns 8 generlidade ‘dos negé- 10s jurfdicos ... 485 eI. Capacidade do.agente ....-. 485 2, Objeto lcito, possivel, determinado e determinavel 489 e.3, Consentimento .. 490 3:1. Manifestagdo da vontade .. 490 3.2. Defeitos do negicio juridico 491 R. Elementos essenciais particulares 347 £1, Forma do negécio juridico .. 347 £.2, Prova do ato negocial S81 G. Hlementos acidentais, 568 Generalidades 568 Condigao 569 g3. Termo «. 875 4. Modo ou : 879 1H. Nulidade do megécio juridico .. 583 hl. Concelto e classificagio 583 2. Efeitos da nulidade .. - 586 WB, Distingbes entre nulidade e anulabilidade - 589 3. Ato ifcito .. 598 A. Conceito e elementos do ato ilicito 598 ‘Consequéncia do ato ilicito C. Atos lesivos que no sao ilicitos 604 Bibliografia .... 613 Com o intuito de sermos “itil aos que se iniciam no estu- do do direito civil, procuramos neste livro apresentar um panorama das doutrinas concernentes a Parte Geral do direito civil, dando uma nogao genérica e esquemsti- ca do sistema juridico civil. Propusemo-nos a apresentar os conceitos estruturais, registrando os princfpios basicos, para que os alunos pudessem ter uma ordem de conceitos de relativa rique- za explicativa, para adotarem uma atitude analitica ¢ critica ante as questoes juridicas. Sob uma feicéo de clareza e sintese, apreciamos os pro- blemas jurfdicos, de conformidade com seus mais recen- tes desenvolvimentos, empreendendo estudos das orientac&es tedricas vigentes atinentes a Parte Geral do novo Cédigo Civil, salientando a sua funcao na seara juscivilistica e em outros ambitos do direito. Atendendo a ideia de que o que convém aos alunos so conceitos pormenorizados, objetivos e nitidos, bastando um golpe de vista para serem compreendidos, coloca- mos ao final de cada ponto um quadro sinético para proporcionar uma viséo geral da matéria ministrada, Eis 0 porqué do titulo do nosso livro: Teoria geral do direito civil, uma vez que nele se contém a exposigo de problemas fundamentais do direito civil. Trata-se de ‘uma disciplina eminentemente formativa, destinada a ctiar nos estudiosos uma mentalidade juridica, propor- cionando-thes uma bagagem cultural para a compreen- sio de conceitos juscivilisticos fundamentais. Maria Helena Diniz Prefacio CAP{TULO ©) OBJETO E FINALIDADE DA TEORIA GERAL DO DirEITO CIVIL I, Direito positivo A. NogAo DE DIREITO Todo conhecimento juridico necessita do conceito de direito!. O concei- to é um esquema prévio, um ponto de vista anterior, munido do qual 0 pen- samento se dirige & realidade, desprezando seus varios setores e somente fi- xando aquele que corresponde as linhas ideais delineadas pelo conceito*. Sendo esse conceito um suposto da ciéncia do direito, ela jamais pode- 14 determiné-lo. A definicdo essencial do direito é tarefa que ultrapassa a sua competéncia. Trata-se de problema supracientifico, ou melhor, jusfilo- s6fico, J4 que a questo do “ser” do direito constitui campo proprio das in- Gagagbes da ontologia Juridica’ Contudo a ontologia juridica ao executar sua missio encontraré em seu caminho graves ¢ intrincadas dificuldades que desafiam a argiicia dos Emest Beling, La science du droit, sa fonction et ses limites, in Recueil d/études sur les ‘sounces du doi, er honneur de Geng, t.2, p. 150. 2, Lourival Vilanova, Sobre o concito do dirsto, Recife, Imprensa Oficial, 1947, p. 28 © 29. ‘Nao se trata de formular uma definigso nominal do direlto, que consiste em dizer 0 {que uma palavra significa, Nao convém empregar uma definicao real descitva, que € Ublizada, em regra, nas cléncias naturals, pols €aquela que na falta de caracteresessen- Clals enumere os caracteres exteriores mals marcantes de uma coisa para permitir dis- LUngul-a de todas as outras, nem uma definicdo acidental que revela to somente um clemento acidental, proprio do definida, mas contingente. Adefinigao que se deve bus- car 6a real essencial, que consiste em dizer o que urna coisa €, desvendando as essen clas das préprias coisas que essa palavra designa. Vide Régis Jolivet, Curso de flasofi, 7 ed, Rio de Janeiro, Agit, 1965, p. 36 3.Del Vecchio: "La definizione del dirtt in genere & una indagine che trascende la competen- 2a de ogni singolascienza gluridca ed 8 tnvece Ul primo compito della Filosofia dl Divito" (Lezioni de flosofia del dirito, 9. ed., Milano, Giuttre, 1953, p. 2), 18. Gunso nz Dinsiro Civit Baasiisino pensadores, O grande problema consiste em encontrar uma defini¢ao tini- ‘ca, concisa ¢ universal, que abranja as intimeras manifestagoes em que se pode apresentar o direito e que o purifique de notas contingentes, que ve- Jam sua verdadeira natureza, assinalando as esséncias* que fazem dele uma realidade diversa das demais. Como nos ensina com clarividéncia Lourival Vilanova’, 0 conceito para ser universal ha de abstrair de todo contetido, pois 0 Gnico caminho possivel serd ndo reter, no esquema conceitual, o contetido que ¢ varidvel, heterogeneo, acidental, determinado hic et nunc, mas sim as esséncias, que sio permanentes e homogéneas. Ante a multiplicidade do dado, o concei- to deve conter apenas a nota comum, a esséncia que se encontra em toda multiplicidade. No entanto, néo ha entre os autores um certo consenso sobre © con- ceito do direito; impossivel foi que se pusessem de acordo sobre uma for- mula tinica. Realmente, 0 direito tem escapado aos marcos de qualquer de- finicdo universal; dada a variedade de elementos e particularidades que apre- senta, nio é ficil discernir 0 minimo necessario de notas sobre as quais se deve fundar seu conceito*. Isto € assim porque o termo “direito” néio € univoco, e nem tampou- co equivoco?, mas andlogo, pois designa realidades conexas ou relaciona- 4. Definir essenciaimente um objet éexplictar as notas essenciais dese objeto de conhe- tlinento;€determinar o que ce € (Fausto. Vallado Berton, Teoria general del derecho, Univ Nc: Atma de México, 1972p.) A enca € oma ds predicados ave Sua vez, dividem-se em dois grupos: predicados que convém a substéncia, deal sor- {eeque sie faltasse um dele ngo sera © que 6, epredicados que convém &substancia ras que ainda que algum dees faltase, continuaria a sera substinclao que €. Aqueles Drimelros sto a eséncla propriamente dita, Porque sealgum dele falar &substanci, Era nio seria aqulo que & e os segundos sio.o aidente porque ofato de télos ou nao ‘no impede de mode algumm que sea agilo que € (Manuel Garcla Morente, Fundamen- {os de flosfia, 4 ed, S80 Paulo, Mestre Jou, 1970, p. 76 € 96). 1 Vilanova, op. it, p. 647. 6. Assim, para o deta, hé uma experenciahistérica, antropol6gica, sociol6gic,psico- logica ¢ axiotogica. Tals experiencias, ainda que diferentes entre sl, ao complements qefe deslocame num meano plano, Dems todas tm em comum un ponto de par ‘ido: a experitnda do dirito positivo, 0 direit tal como se da erm sua integridade cons- {iutiva,kincidencls malor num Angolo desta ou daguelaexperiencla leva cortes me- yamente metodologicos, s objeto: formals diferentes: o direlto como feo histerco, Como fatosoctlogico etc £0 que nos ensina L. Vlanova (Logica, clencia do dirito ¢ direto,n Posi. 2, p- 836, nats do VImT Congress Interamericano de Filosofia). 7.Termo univoco 6 0 que se aplica a uma 36 realidad eo equivoco 0 que designa duas ou nals realidadesderconexas, Vide Goftredo Tells J, Tntado da consgubrca, p. 329-31. 19 ‘Teoria Genat po Dinsiro Crvit das entre si. Deveras, esse vocabulo ora se aplica a “norma”, ora & “autori- zacio ou permissao” dada pela norma de ter ou fazer o que ela nao protbe, ora A “qualidade do justo” etc., exigindo tantos conceitos quantas forem as realidades a que se refere. Em virtude disso impossivel seria dar ao direito ‘uma Ginica definicdo. De maneira que a tarefa de definir, ontologicamente, © direito resulta sempre frustrada ante a complexidade do fenémeno jurt dico', devido a impossibilidade de se conseguir um conceito universalmen- te acelto, que abranja de modo satisfat6rio toda a gama de elementos he- ‘terogéneos que compoem o direito. Portanto, nao é da algada do direito civil elaborar 0 conceito geral ou essencial do direito’ Mas em razio do principio met6dico da divisio do trabalho, ha neces- sidade de se decompor analiticamente 0 direito que € objeto de varias ci- @ncias: sociologia jurfdica, hist6ria do direito etc., constituindo assim 0 as- ecto em que sera abordado™. Aeescolha da perspectiva em que se vai conhecer esté condicionada pelo sistema de referencia daquele que conhece o direito, pressupondo uma re- flexdo sobre as finalidades da ordem juridica. Ora, percebe-se que o direito s6 pode existir em fungi do homem. © homem é um ser gregirlo por natureza, € um ser eminentemente social, nao s6 pelo instinto socidvel, mas também por forca de sua inteli- géncia que Ihe demonstra que é melhor viver em sociedade para atingir seus objetivos. © homem é “essencialmente coexisténcia”™, pois no exis- te apenas, mas coexiste, isto 6, vive necessariamente em companhia de ou- tros homens. Com isso, espontinea e até inconscientemente é levado a for- 8, Tércio Sampalo Ferraz Je, Ditelto,retdrla e comunicagao, 8 Paulo, Saraiva, 1973, p. (62. Max Emnest Mayer Filrofia do direita, p. 120) excreve: ‘ainda nio tem havido wm, jurista ou jusfildsofo que tenha conseguido formular um conceito de direito, unant- ‘memente aceito”, Roberto Vernengo (La interpretaclén literal de la ley y sus problemas, Buenos Ares, 1971, p. 22 es) diz, com clareza, que a possibilidade de uma "mostra ‘elo’ de fendmenos que sejam casos de uma propriedade que se pretende investigar so dliteito — (definigio ostensiva do objeto) ou sio impossivels ou conduzem are- sultados paradoxals. Cf. Maria Helena Din, A clénciajurdica, Resenha Universitaria, 1978, p. 3-6. 9. Clévis Beviléqua, Teoria seat do direito civil, 4. ed, 1972, p.7. 10.1, Vilanova, Sobre o conceto de dieito, cit, p. 40, 50.€ 57. 111. Leonardo Van Acker, Sobre um ensaio de jusnaturalismo fenomenol6gico-existenci -RBE, 20(78):193. 20 Conso vx Dinstro Civit Brastueine ‘mar grupos sociais: familia, escola, associacdo esportiva, recreativa, cultu- ral, religiosa, profissional, sociedade agricola, mercantil, industrial, grémio, partido politico etc. Em virtude disso estabelecem os individuos entre si “relagoes de coor- denagfo, subordinacéo, integragao e delimitacdo™; relagdes essas que nto se dio sem o concomitante aparecimento de normas de organizagao de con- uta social”? ser humano encontra-se em estado convivencial e pela propria con- vivéncia é levado a interagir; assim sendo, acha-se sob a influéncia de ou- tros homens e esté sempre influenciando outros. E como toda interacao produz perturbacao nos individuos em comunicagio reciproca, que pode ser maior ou menor, para que a socledade possa se conservar é mister deli- mitar a atividade das pessoas que a compOem mediante normas juridicas. “Se observarmos, atentamente, a sociedade, verificaremos que 0s gru- pos sociais sao fontes inexauriveis de normas", por conseguinte, o Estado 112, Ensina-nos André Franco Montoro (Introducao i ciéncia do direito,v. 2, p. 363 © 364) (que: "As relagGes socials podem apresentar-se sob diferentes modalidades: 1) relagdes ‘de integrasao ou sociabllidade por fusso parcial — nas quais podemos encontrar tés {graus ou tipos de relacionamento: a ‘massa’, que 62 modalidade mals fraca de inte- grag, em que se opera apenas tma fusso Superficial das consciéncias individuals, ‘Somo no caso da ‘massa’ dos consumidores, dos desempregados, dos pedestres, unt ‘dos apenas pela conseléncia de afinidade de sua situaga0; a‘comunidade’, correspon Gente ao grau médio de integragio os fusto de consciéncia, ¢ a forma mals equili- brada, ditundida e estavel da sociabilidade por integracio, tal como ocotre nas orga nizagtes sindicals, asociagoes, cubes, familias, partidos etc, a ‘comunhao’, que re- presenta o grau mais intenso de ntegracio das consciéncias individuals, em umn ‘nds! Coletivo, €0 tipo que se reallza em raros momentos de entusiasmo ou vibragso cole- fGvos, como nos perfodos de crise o elvindicacGes mas sentidas ce uma coletivida- ‘de; 2) de delimitagao ou soctabilidade por oposicao parcial. As de integragao caracte- ‘lzam-se pelo aparecimento de um 'nés’ enquamto que as de delimitagao implicam a texistencia de um ‘eu’, ‘tu, ‘ele’ etc. a0 sempre relagdes com outros — quer indivi- Suais, quer intergrupais —e apresentam-se sob tés modalldades: de ‘aproximasio’, ‘como as decorrentes da amizade, da atragio sexual, da curiosidade, das doagoes et fe ‘separagio’, como as lutas de classes, os conflitos entre consumidores e produto res, entre nages e cldades; de ‘estrutura mists’, que envolvem elementos de aproxi- ‘magio e de separagao, como as trocas, contratos etc”. ara Goffredo Telles J. (ntro- dup @ clénela do direto (apostila), p. 237) "as de cordenagto sto as que existem e te partes que se tratam de igual para igual, ex. compra venda; e as de subordina- (0 sio 2s em que uma das partes € a sociedade politica, exercendo sua fungio de mando. Ex: convocacio das elelgdes —arelagio entre Unlio, Estados e Municipios fe contribuintes de imposto” 13, Miguel Real, Ligies preliminares de divito, Bushatsky, 1973, p. 41. 21 Teonta Genat D0 Dinero Civie no € 0 criador tinico de normas jurfdicas", porém é ele que condiciona a criagéo dessas normas, que néo podem existir fora da sociedade politica, Ha um pluralismo de ordenagdes juridicas; cada grupo social tem suas normas. Nao € somente o Estado a fonte exclusiva de normas de direito, mas ele 6 ‘uma organizacao territorial capaz de exercer o seu poder sobre as associa- ‘s0es e pessoas, regulando-as, dando assim uma expressto Integrada as ati- vvidades sociais. Donde se conclui que o Estado € uma instituicio maior, que «disp6e de amplos poderes e que dé efetividade a disciplina normativa das instituigdes menores. De modo que uma norma 6 seré juridica se estiver conforme a ordenacio da sociedade politica; logo, o Estado € o fator de uni- dade normativa da nacio. De um lado a realidade nos mostra um pluralismo de associagbes e de ordenacées juridicas, e de outro, a unidade da ordem normatival, Logo, as normas fundam-se na natureza social humana e na necessidade de organi- zacio no seio da sociedade. ‘A norma jurfdica pertence a vida social, pois tudo 0 que hé na socie- dade € suscetivel de revestir a forma da normatividade juridica. Somente as normas de direito podem assegurar as condicoes de equilt- brio imanentes & propria coexisténcia dos seres humanos, possibilitando a todos e a cada um o pleno desenvolvimento das suas virtualidades e a con- secucio e goz0 de suas necessidades sociais, ao regular a possibilidade ob- jetiva das agdes humanas. Sem professarmos uma doutrina sociologista, afirmamos 0 cariter “so- al” da norma juridica, no sentido de que uma sociedade nio pode fundar- se sendo em normas juridicas, que regulamentam relacbes interindividuals. Nitida é a relagdo entre norma e poder. O poder é elemento essencial no processo de cria¢o da norma juridica. Isto porque toda norma de direl- to envolve uma opsio, uma decisdo por um caminho dentre muitos cai nhos possiveis. £ evidente que a norma juridica surge de um ato decisério 14, Gottredo Tells J, Intredugao, cit. (apostila), fase. 2, p. 112; 0 pove eo poder, S50 Pau Jo, Matheitos, 2003, p. 1-68; Gethard Husser, em seu trabalho Valldadeeefciénca do dirt (1925), esereve: "Reduzir todas as fontes do direito 20 Estado é um erro. Ne- ‘hum Estado poders jamais absorver todas as fontes do direito. Um monopdlio do Estado para engendrar ¢ constatar 0 dieito numa comunidade juridica ¢, absoluta- ‘mente itealizivel, A criago autOnoma do direito se afirma sempre”. 15, Maria Helena Diniz, Conceito de norma jurdica como problema de essncia, Revista dos ‘Tebunais, 1977, p. 18-25. 22 Gunso ne Diasiro Civit Baastizine do Poder (constituinte, legislativo, judicidrio, executivo, comunit letivo, ¢ individual) politico. ‘Verifica-se que a norma juridica, as vezes, esté sujelta nao a decisio arbitréria do Poder, mas a prudéncia objetiva exigida pelo conjunto das cltcunstancias fatico-axiol6gicas em que se acham situados os respectivos destinatarlos. Se assim nio fosse a norma jurfdica serla, na bela ¢ exata expresséo de Rudolf von Ihering, um “fantasma de direito”, uma reunido de palavras va- zias; sem conteddo substancial esse “direito fantasma, como todas as as- sombracées, viveria uma vida de mentira, nao se realizaria, e a norma juri- ica foi felta para se realizat'*. A norma nio corresponderia a sua finalida- de; setia, no seio da sociedade, elemento de desordem, anarquia, instrumen- to de arbitrio e de opressdo. A norma jurfdica” viveria numa “torre de mar- fim, isolada, & margem das realidades, autossuficiente, procurando em si mesma o seu préprio principio e 0 seu proprio fim". Abstraindo-se do ho- mem e da sociedade, alhear-se-la de sua propria finalidade e de suas fun- ‘sOes, passaria a ser uma pura idela, criagao cerebrina e arbitréria"™ jo ou co- A vista do exposto poder-se-é dizer que o direito positive é 0 conjun- to de normas, estabelecidas pelo poder politico, que se impéem e regulam a vida social de um dado povo em determinada época””. Portanto, é mediante normas que o direlto pretende obter 0 equilibrio social, impedindo a desordem e os delitos, procurando proteger a satide ¢ a moral piblica, resguardando os direitos e a liberdade das pessoas”, Com isso nao estamos afirmando que o direito seja s6 norma; apenas por uma questo de método é que assim 0 consideramos, uma vez que a 16. R. von thering, sprit du droit romain, t. 3, § 43, p- 16. 17. Bigne de Villeneuve, La crise du “sens comun” dans les slences sociales, p. 96. 438. Maria Helena Diniz, Concelto de norma juriica, cit, p. 28-35. 419. Capitant, Invoduction 2 Vtude du droit civil, p. 8; Calo Mario da Silva Pereira, Institui- (bes de dicta civil, Forense, 1976, v 1, p. 18e 19; Ruggiero e Maro, Isttuzion di drt. fo privato, Milano, 1955, v1, § 2. 20. Nelson Godoy Bassil Dower, Curso moderno de dirito civil, Ea. Nelps, 1976, . 1, p 6. 21, Santi Romano (ordinarnento giuridico, Firenze, 1951, p. 25) éscteve que: "Derecho no 3 sola la norma dada, sino tarmbién Ia entidad dela cual ha emanao la norma. Bl proce- So de objetvacion, queda lugar al fendmenojuriico, no se incia en la emanacion de una tesla, sino en un momento anterior las normas no son sino una manifestacién, una de las ‘istintas manifestaciones; un medio por medio da cul se hace valrel poder del ‘yo' social”. 23 ‘Teonta Genat no Dinztro Crvnn tarefa do civilista é interpretar as normas de direito civil, embora deva es- tudé-las em atencio a realidade social subjacente (fato econ6mico, geogré- fico, demografico, técnico etc.) e ao valor, que confere sentido a esse fato, regulando a agio humana para a consecugao de uma finalidade*. Realmente, parece titil lembrar, como o faz Van Acker, que uma vez ge- yada, no fica a norma estagnada, mas continua a sua vida prépria, tenden- do & autoconservaco pela integragio obrigat6rla que mantém os fatos da sua algada e 0s valores com que os pretende reger®. Logo, 05 elementos do direito: fato, valor e norma coexistem numa unidade concreta. Para melhor elucidar tal questo, passamos a transcrever o seguinte exemplo de Miguel Reale*: ao se interpretar a norma que prevé o pagamen- to de letra de cimbio na data de seu vencimento, sob pena do protesto do titulo e de sua cobranca, goza o credor, desde logo, do privilégio de promo- ver a execucdo do crédito. De modo que, se ha um débito cambiério, deve ser pago, e, Se ndo for quitada a divida, deverd haver uma sangdo. Como se vé, a norma de direito cambial representa uma disposic#o legal que se ba- sela num fato de ordem econémica (0 fato de, na época modema, as neces- sidades do comércio terem exigido formas adequadas de relagao) e que visa a assegurar um valor, o valor do crédito, a vantagem de um pronto paga- mento com base no que é formalmente declarado na letra de cambio. ‘Tem-se um fato econémico que se liga a um valor de garantia para se expressar por meio de uma norma legal que atende as relagbes que devem existir entre aqueles dois elementos. ‘aul Ahumada transcreve esse trecho in Sobre el concepto del derecho, RBF, (55):361. jorgio Campanini (Ragione e volonta nella legge, Milano, Giuffré, p. 3) entende tam: ‘bem que 6 concelto de diteito nao pode Identificar-se com 0 de norma a0 dizer: “In- preliminares, cit, p. 178-81) salienta a importancia do poder negocial como forga ge- adora de norms jurdicas. (68, A. Caballero, O ser em si ¢ 0 ser para Si, RBF, 48(71):277, 1968. (69, G. Telles Jr, ntrodugao, cit, fas. 4, 1972, p. 219 (apostila. 39 ‘Tronia Genat po Dinstro Crit Os conceitos refletem, no nosso entender, a esséncia da coisa, © as pa- lavras sto vetculos dos conceitos. Isto supbe a relagio entre significados das cexpressoes lingufsticas ea realidade. ‘A operacio de se revelar o que um objeto é, por melo da enunciasio de seus aspectos inteligiveis, chama-se operagao de defini; seu produto € a definicao. ‘A lgica tradicional que procede de Aristteles ensina que se determi na a esséncia das coisas por meio de uma definicio, ou seja, por indicaczo do género préximo e da diferenga especifica”. 1 preciso definir exatamente a norma juridica, purificando-a de seus elementos contingentes, que encobrem sua verdadeira natureza, assinalan- do as essencias que fazem dela uma realidade diferente de todas as realida- des sociais. Logo, s6 a definigio real essencial revela a esséncia da norma Juridica pelo género proximo, que € a deta imediatamente superior, quan to a extenso, a ideia de norma, e pela diferenca especifica, o4 seja, a qua- lidade que, acrescentada a um género, constitui uma espécie, distinta como tal de todas as espécies do mesmo genero”. Ante a multiplicidade de normas, 0 pensamento deveri munir-se de tum critério seletor que consiga enquadrar os caracteres essenciais das nor- ‘mas investigadas Como 0 “ser" juridico da norma ndo esté na coisa material, sendo uma significagao ideal que mantém com o objeto real uma relagao peculiar, s6 a intuigfo racional poderé apreendé-o,atingindo o conceito da norma juridi- ca, sem recorter a nenhuma disposicio normativa, sem fazer confrontos en- tre duas ou mais normas, devido a uma visio intelectual. A intuicao racional consiste em olhar para uma norma qualquer, prescindindo de suas particu- laridades, de seu conteto ou caréter psicol6gico, sociol6gico etc., nao con- siderando sua existéncia singular, para atingir aquilo que tem de geral, ou seja, ir isolando do objeto tudo o que for acidental até atingir a ideia”, 70, Fritz Schreies, Conceptos y formas fundamentales del derecho, Buenos Aires, Losada, 1942, . 26; G. elles J, Tratado da consequéncia, 2. ed, Bushatsky, 1962, p. 324-6; Jacques ‘Maritain, Eliments de philosophic; petite logique, 3 ed, 0.29, p. 95; Edmund Husse, [ies directrices pour une phénoménolagie, 4. ed, Ba. Gallimard, 1950, p. 46. 71. Régis Jolivet, Curso de flosfia, 7. ed, Rio de Janeiro, Ash, 1965, p. 36. 72. L. Vilanova, Sobre o conceit do direizo, Imprensa Ofical, Recife, 1947, p. 107-15, 123; Aloys Malley, introducign a la flosofa, Buenos Aires, 1937, p. 104; Recaséns Siches, Tratado general de ilosofia del derecho, 3. ed., México, Porria, 1965, p. 458 e 459; Max Planck, Aande vai a ciéncia? 40 Gunso nz Dinero Grvit Brasiieino Colocado ante uma norma, o sujelto cognoscente val depurando-a, ob- jetivamente, através de fases sucessivas de eliminacdo, até capté-la em toda sua pureza. Isto é assim porque a norma de direito encontra-se no mundo dos objetos reais, sendo valiosa positiva ou negativamente. [As normas jurfdicas t8m um contetido que varia de acordo com as épo- cas, lugares, politicas dominantes etc. O contetido varia mas nao a norma ju- ridica; esta € como que um invélucro capaz de reter dentro de si os mais va~ riados contetidos. Por este motivo podemos falar que é jurfdica a norma ju- ridica argentina, a americana, a russa, a brasileira etc. O que demonstra que, além dos fatores particulares e imediatos que determinam as normas singu- lares, existem outros gerais e comuns. Todas elas tém em comum alguma col- sa, que faz delas normas juridicas; trata-se de sua esséncia, A esséncla ndo se confunde com a norma juridica. A norma € algo real, porém, sua esséncia € ideal’, pois é atemporal, nio esté no espaco, € a prior, porque nao depende desta ou daquela experiéncia; a ela nio chegamos através dos sentidos, mas da intuicio intelectual, e € neutra ao valor. £0 conceito que fixa a esséncia, a dimensfo ideal da norma, o seu ele- mento imutavel e necessério”. Logo, o conceito no reproduz a norma, uma vez. que funciona como um principio de simplificagio, tendo uma fungio seletiva’®. Este conceito deve dar-nos a esséncia do juridico, deixando de lado todos 05 qualificativos especificos e individuais, abrangendo todas as normas juridicas que existiram, existem ¢ ho de existt, servindo para a norma civil, penal, administrativa, tributéria, processual etc. Sendo aplicé- vel ao otdenamento de um povo primitivo ou de um Estado clvilizado, com- preende, igualmente, as normas justas como as injustas, pois o sentido da norma jurfdica deve ser apenas a intencio de realizar a justica e ndo seu lo- grado cumprimento”. 73, L. Vilanova, op. cit, p. $8; Celso AntOnlo Bandeira de Mello, Metodolagia do dirito ‘aiministratvo, aula proferida no Curso de Especializagso em Dieito Administrativo ‘Ga PUC/SE, 1972, p.17; Del Vecchlo, Ligdes de filosofia do direit, 2. ed, Coimbra, Ea. ‘A Amado, 1951, p. 16 17; Juan Llambias de Azevedo, Eidéticay aportica del derecho, Buenos Aites, Espasa-Calpe, 1940, p. 18; Legazy Lacambra, Filosofia del derecho, 3. ed, Barcelona, Bosch, 1972, p. 166; Goldschmidt, Filosoffa, historia y derecho, Buenos ‘Aires, Live Juridica, 1953, p. 102. 74, Cathrein, La filosofia del derecho; el derecho natural y el positivo, 3. ed., Madi, Ed Reus, 1940, p. 17. 75. L. Vilanova, op. cit. p- 15 €16. 76, Por mais desagradvel que Isto esulte nfo hé por que duvidar de que houve, ha esem- pre haverd normas injustas: a que institulu a escraviddo, as indmeras leis fascistas, a Tnonta Genat Do Dineito Civit Urge, portanto, que se faa uma andlise racional sobre a natureza da norma juridica, eliminando tudo o que resulte ao espirito como sendo aces- s6rlo, numa selegao gradual que tenha em vista, t¥o somente, destacar as, notas essenciais da norma juridica”, ‘A norma juridica é, sem divida, uma norma de conduta, no sentido de que seu escopo direto ou indireto € dirigir 0 comportamento dos indi- viduos particulares, das comunidades, dos governantes e funcionarios no selo do Estado e do mesmo Estado na ordem internacional. Ela prescreve como se deve orientar a’conduta de cada um, sendo, por- tanto, prescritiva ou diretiva. # manifestacio de um ato de vontade do poder, por meio do qual uma conduta humana € obrigat6ria, permitida ou proibida. E imperativa como toda norma de comportamento humano destinada a regular 0 agir do ho- ‘mem e a orientélo para suas finalidades, Por conseguinte, é imperativa, porque “imperar” é impor um dever, o qual é da esséncia do preceito”, Nota-se que a norma juridica situa-se no Ambito da normatividade ét- «a, pois tem por objetivo regular a conduta humana tendente & consecuga0 de seus fins préprios, no seto de uma sociedade. Apresenta-se, portanto, na vida social como uma ordem de conduta, ou de “dever ser”, que indica que 0s comportamentos devem ser assim, de uma determinada maneira; 1ogo pertence & ordem ética, que tem por objeto as ages humana, A norma moral e a juridica tém em comum a base ética; ambas sio normas de comportamento. Assim sendo, a norma Juridica possui uma es- séncla ética, uma vez que indica como deve ser a conduta dos simples in- Gividuos, autoridades e instituigoes na vida social”. E¢ justamente isso que a distingue da lei fisico-natural, cuja finalidade 6 a explicacdo de relagGes constantes entre fendmenos, sendo constatativa nazistas e soviéticas (conglomerado das mais ant-humanas e nefandas normas), que contado no deixam de ser urdias, ainda que abomindves,avitanteserepugnan- es 208 nossos sentimentos 77. Jacy de Souza Mendonsa, Problemitica filos6fico-uridica atual, RBF, 87:52, 1971. 78, Kelsen, Teoria pura do dirt, 2. ed., Colma, Ea. A. Amado, 1962, v1, 9. 4-"b", Bs 7, fe 4c, p. 22; Juan Manuel Teran, Filosofia del derecho, 5. ed., Portia, 1971; Del Vecchio, Fiosoffa del derecho, p. 338. 79. Leonardo Van Acker, Sobre um ensaio de jusnaturalismo fenomenolégico-existencial, [RBF, 20(78):186, 1970; Paul Amselek, Méthode phénoménologique e thdore du drt, Libs. Générale de Droit et de jurisprudence, 1964, p. 71 a2 Gunso vz Dinziro Crvis Brasiisino de uma certa ordem que se verifica em qualquer setor da natureza. A norma ética, como, p. ex., a juridica, tem por fim provocar um comportamento. Pos- ‘tula uma conduta que, por alguma raz4o, se estima valiosa, ainda que de fato possa produzir-se um comportamento contrério. Exprime o que deve ser, manda que se faca algo, e talvez no seja cumprida, isto porque o suposto fi- loséfico de toda norma é a liberdade dos sujeitos a que obriga, situando-se no campo da atividade humana representada pela consciéncia e liberdade. Impée dever, sendo, portanto, imperativa e no constatativa como a lei da natureza, que nada impoe a natureza, ‘Todas as normas, sejam elas morais, religiosas, educativas ou juridicas, so normas éticas, ou seja, mandamentos imperativos. O traco distintivo entre a norma ética e a lei fisica 6 a imperatividade, pois diferencia as nor- ‘mas de comportamento humano das leis que regem outros seres. Por conseguinte, é a nota de imperatividade que revela o género préximo da norma juridica®, incluindo-a no grupo das normas que regulam o com- portamento humano, |A imperatividade € caracteristica essencial genérica e importantissima da norma juridica, Nao se pode conceber uma norma que no tenha caréter imperativo, elemento iniludivel da norma de direito. Entretanto, uma norma que desse lugar to somente a um mero dever no seria uma norma juridica. ‘A caracterizactio da norma de direito como imperativo € insuficiente, porque nao permite diferencié-la do heterogéneo conjunto de normas que a vida em sociedade nos oferece. ‘A problemitica da distingao entre norma moral e juridica € uma velha questo doutrinaria. Quando se examinam as ideias dos juristas a esse respeito, percebe-se um semn-nimero de pontos de vista. Hé quem julgue que a sanedo € a sua nota especifica. Contudo, consi- deramos estreita a concep¢io da norma juridica caracterizada pela sancio. Isto porque nao é a sangdo que distingue a norma juridica da norma mo- ral e dos convencionalismos soclais. Tanto estas como as juridicas sao san- cionadoras, pois a infragio de seus preceitos acarreta consequéncias. Jé as 80. G. Telles J, O direito quantico, p. 262 ¢ 172; Paul Amselek, La phénoménologie et le ‘toit, in Archives de Philosophie du Droit et Saciologie Juridique, 1972, p. 229 © 234 43 ‘Teonta Genat po Drastro Civie leis fisicas nfo 0 so, porque as consequénclas por elas previstas resultam, necessariamente, do fato em seus nexos causais. © destespeito a uma norma moral pode causar: 1) sancio individual e interna, ou seja, da consciéncia, que nada mais é sendo a insatisfaco ou 0 desgosto (arrependimento, vergonha, remorso); 2) sangio externa, como a opiniso piblica que estima as pessoas honestas e langa ao desprezo os ini- quos (desconsideracio social)". Pensamos que a san¢do da norma moral'e a dos usos socials pode es- tar contida implicitamente e predeterminada na norma; mas consiste numa condenagéo, numa censura ao infrator pronunciada pelo circulo social a que pertence ou numa reprovacéo que podera chegar até & eliminacao do violador da norma do referido circulo. Como a transgressio de normas morals ou socials desencadela uma san- go de reprovagio ou de exclusio de um determinado circulo coletivo — sangao esta que pode resultar gravissima para o sujeito e cujo temor costu- ‘ma exercer uma vigorosa influéncia —, a sango nao pode ser a caracterfs- tica especifica da norma jurfdica™. Logo, nao € a sangio a nota distintiva da norma juridica, porque a norma moral também contém sangoes®. ainateeieare eee ee npr eee Up dirplar parte gate Sn oa a eee ee que, Paris, LGDJ, 1960, p. 77). a ae pie Sey lgus soso tien come emer pier dene fi ders gis pods Gs Duh, qu aia dogs ern Tomme oe seein Eterna oe moro Acca ora ou copes deme ee i sh ian wp fs rs acon nn Scab te Sts compe roe sew Soe aes cre ee ov gue pe ch pore fle pe anes ne Se ee rn a ore Se see ote coe ee eis ae eee ee te SES ieee gomme eas meas nt comenes Taare oe oe eevee a oo uate nance ode ld a eas, ae esti De retain 32a Malte arp tat ca i ee coy a See Sieaeareng fy te, ae bo ee eae Ee coca de icy Oe), ae Matern Cons om oe Sep ers et denne ae pnd an see te Come ee cine oe ne one se um te cma goes pe ont 44 Cunso ox Diastro Civis Brastueine ‘Além do mais, a “sancao € uma medida legal que poderd vir a ser im- ‘posta por quem foi lesado pela violacéo da norma juridica a fim de fazer cumprir a norma violada, de fazer reparar 0 dano causado ou de infundir respeito & ordem juridica”®, ‘Anorma de direito, ao mesmo tempo que estabelece a ordem desejada, sanciona a transgressio a esta ordem, a fim de que essa infrago nto se pro- duza. &, portanto, medida legal que a norma juridica estabelece antes de ser violada, E um remédio colocado & disposicao do lesado para eventual uso} logo esse remeédio nao é empregado necessariamente, olesado o emprega quan- do quiser. £ sempre medida ligada & violacio possivel da norma e nao & nor- ‘ma juridica. Esté prescrita em norma de direito antes que haja violagdo. Nao hh sangio legitima sem norma juridica que a institua e regulamente. Se é a norma que a estatui nao pode ser de sua esséncia. "A sangio 6 a consequéncia juridica que o no cumprimento de um de- ver produz em relagio a0 obrigado”*S. O essencial na norma juridica nao pode ser a consequencia juridica (a sancio), precisamente porque € conse- quéncia. Como toda consequéncia, a sancio encontra-se condicionada pela reallzagio de um suposto, ou seja, da violagso da norma¥, Se a obrigacdo for cumprida, a sancto nao pode imporsse. A sangfo 6, portanto, indiferente, estranha a esséncia especifica da nor- ma de direito Outros colocam a coapo como elemento essencial da norma juridica. A coaco é a aplicacao ou realizacdo efetiva da sangdo”. Quando a san- so for imposta ao violador da norma juridica é que se dé a coago. Os adep- tos da teoria do coativismo sustentam que a nota especificadora da norma 4, G. Telles jr, AnotagBes de aula proferida no curso de P6s-Graduacao em Direito da USP, 1971, 85, Garcia Méynez, Introduccion al estudio del derecho, n. 154, p. 97; tion & a trie générale eta la philosophie du droit, n. 135, p. 112. 86, Liambias de Azevedo, Eidética y aporética, cit, p.86; Benvenuti, Sul concetto dl sanzio- ne, Jus, 1955, p. 223 & s; Mandriol, Appunil sulla sanzione, Jus, 1956, p. 86 es 87. Sforza, Norma e sarizione, RIAD, 1:6, 1921; Pekeli, Il ditto come volonta constante,Pé- dua, 1930, p. 109 e s; Allara, Le notion! fondamentali del dirtt privato, Torino, 1939, ¥.1 p. 6; Goffredo Telles Je, AnotagSes de aula proferida no Cutso de Pés-Graduaga ‘em Direto da USP, em 1971; Camelutti, I valore della sancione nel dirtto,Rivsta di Dirtto Processunle, 1:237 ¢ s., 1955; Garcia Méynez, Introduccion al estudio del derecho, México, Porrda, 1972, p. 298 es Wu Pasquier, Introduc- 4 45 ‘Teonta Grnat po Diasiro Civin juridica reside no uso da forga®; com isso a norma juridica converter-se-ia num fendmeno fisico, ter-se-la, entdo, justamente, o contrério do que as and lises anteriores nos demonstraram, apareceria como a causa de um efeito, ‘A ideia de forga das normas de direito esta em contradigo manifesta com a realidade. Flas ndo exercem nenhuma pressio sobre o individuo, ape- nas Ihe indicam o caminho que deve seguir. Realmente, como poderia a norma coagir? Como poderia tomar um individuio pelo braco e forgé-lo a fazer ou a nao fazer algo? A norma no age, logo nao coage™, apenas pres- creve a conduta daquele que pode exercer coagao. A coagao nao é exercida pela norma jurfdica, mas por quem ¢ lesado pela sua violagao™. Se a norma juridica fosse coativa, a coacdo seguiria, necessariamente, a sua violago. Nem sempre isso ocorre; pode guceder que a norma seja vio- Jada sem que haja alguma coago contra o seu infrator. Intimeros so 0s ca- sos em que os lesados abrem mao da coacao™. ‘A violagdo da norma juridica pressupde, necessariamente, a existéncia dessa norma, isto porque o que ndo existe nao pode ser violado, de maneira que a norma ¢ anterior & coacao. Logo, ndo é a norma que depende da coa- ‘do, mas € a coagao que depende da norma. A norma juridica vigora sem co- acto, pols com sua promulgacao jé € uma norma completa, com plena vi- géncia, 20 passo que a coacio depende da preexisténcia da norma de dizel- to, porque decorre da sua violacdo. Se a coaio supde a existéncia da norma jurfdica, jamais poderia ser um elemento essencial desta. Note-se, ainda, que a coagdo pode nunca aparecer, bastando que a nor ‘ma nao seja violada, posto que é perfeitamente possivel que ninguém in- frinja a norma juridica, Além disso, a regulamentacao da coacio ¢ feita pela norma jurfdica, para que ndo se converta numa brutal arbitrariedade e em 88, Hermes Lima, Introducao a clincia do direlto, Ed. Nacional de Diteito, 4 ed. p.98 € 9, 41944; 6. ed, p: 19 e 22, 1952; Suarez, Tratado de las lyes y de Dias leislador, Masia, Reus, 1921, Livro Ill 2,11, 12; ering, Elfin en el derecho, . 1, p. 320; Olivecrona, Law’ 4s fact, London, Oxford University Press, 1959, p. 134; AIF Ross, On law and justice, London, Ed. Stevens, 1958, p. 34, 5253, 89, G. Telles J, O dlrelto qudntico, cit, p. 264 e 265; Cazbonnies, Droit cil, 1957, vp. 5; Lucien Aulagnon, Apergu sur ie force dans la segle de droit, in Malanges Roubir, Dalloz, 1961, v-1, p. 29. 90. G. Tells Je, O areito uintio, ct, p. 265, 91. Schreier, Conceptos y formas fundamentales del derecho, Buenos Aires, Losada, 1942, p LiLe 117; Rosmini, Filosofia del dirto, 2. ed., 1865, v1, p. 126; G. Telle Jr, Filosofia fo dieito, 2. ed, 279; M. Real, Filosofia do direlto,v. 1, p. 234. 46 Gunso nz Dinsivo Civ Brastusino violencia. Séo as normas que disciplinam as condic6es ¢ procedimento em {que a coagdo pode ou deve ser exercida, as pessoas que podem e deve exercé-la etc. Para que haja coagio € preciso que o violador da norma seja encontra- do identificado. Muitos sio 0s infratores que burlam a agio da policia: poderio nio ser capturados, identificados, ou mesmo, se encontrados, po- Gerdo conseguir que um hébil advogado demonstre a sua inoctncia, ‘A coagio nio 6, pois, elemento constitutivo da norma juridica, Se © fosse, nos casos em que se torna impossivel a coacéo, desapareceria a nor- sma juriica, Existem autores que julgam que a norma juridica exerce continua co- agio sobre todos pelo medo que inspiram as consequéncias decorrentes de sua violagio, Trata-se da coacio psiquica ou coer, Ora, 0 medo de violar a norma s6 pode nascer se existir uma norma @ violar. Deveras, que medo pode haver das consequéncias da violacdo de luma norma de direito se essa norma nfo existe? Além disso, a norma juri- dica nao € a causa do medo. O medo nao é da norma, mas das consequén- clas que advém de sua transgressio. A coerco nio ¢ privativa das normas de direito, pois o cumprimento de normas morais pode ser também moti- vado pelo medo das consequéncias que decorrem de sua violacio. importante esclarecer que 0 medo de violar a norma juridica s6 exis- teem quem deseja violé-la, O normal éaeficécia pacifica da norma, sem ne- cessidade do recurso a intimidagio para obrigar os individuos a se sujeltarem. aela". A norma jurfdica sera acatada pela maioria dos membros da comuni- dade porque serve aos seus interesses, merecendo o seu respeito Nao hé dtivida de que a coergao possui uma eficdcia preventiva, Toda- via, se uma grande parte dos cidadios resolver ser violenta, aplicando atos de sabotagem e resistencia as normas juridicas, a coersao serd inditil para levé-los a cumprir as normas juridicas. A coagio fisica ou psiquica nao entra na constitui¢io da norma juridi- a, embora seja um elemento importantissimo na vida do direito, como um remédio que socorre a norma juridica quando ela for violada. a forca a 92.6, Telles Jt, O direito quantica, cit, p. 268; Bobbio, Stull per una teoria generale det dirito, Torine, Giappichell, 1970, p. 128. 93. G, Telles Jr, O dieito quantico, ct, p. 266. a7 ‘Tronta Genat 9 Dinsiro Givin servigo da norma de direito; & um elemento extemno que surge para revigo- rar a norma violada. ‘Be Pare senis Pelo exposto percebe-se que a coa¢do nao soluciona o problema do ca réter juridico da norma de direito. Alguns autores sustentam, entdo, que a coatividade é parte dela neces- sarlamente por ser a possibilidade de exercer a coacdo™. ‘A norma juridica para esses juristas € sempre um imperativo acompa- nhado da possibilidade do emprego da coacao. A coasio s6 intervém no caso de transgressio da norma e a possibilidade de coagir permanece laten- ‘te, mesmo se a norma € respeitada. Engenhosa é esta argumentaco, mas ndo convincente, como facilmen- te se demonstrara. A coatividade & contingente, pois s6 pode fundar-se em norma juridi- a jf existente, supondo a norma, uma vez que existe para sua defesa; logo, nio pode ser de sua esséncia. Além disso, essa possibilidade de coagir 0 violador da norma juridica hd de pertencer a alguma entidade. Nao ser, obviamente, a propria norma de direito, que no contém, em si mesma, nenhuma possibilidade de coa- gi, A coacdo 6 um ato consciente, logo, $6 seres conscientes tém a possi- bilidade de exercé-la. A coatividade nfo pode pertencer a norma, mas a0 esado. Imposstvel definir a norma juridica pela coatividade, que é elemen- to que nao Ihe pertence. Petrazycki deu um passo a frente ao dizer que as normas juridicas so atributivas, pois antes de sua obra os autores apenas diziam que eram coa- tivas, superando, assim, os imperfeitos critérios de coagao e de coatividade como elementos especificos das normas de direito™. ‘A sua ideia tornou-se tradicional. O elemento essencial especifico da noma juridica passou a ser a atributividade, que € a qualidade inerente & norma jurfdica de atribuir a quem seria lesado por sua eventual violacdo a faculdade de exigir do violados, por meio do poder competente, 0 cumpri- mento dela ou a reparacdo do mal sofrido. 94, Tomésio, Fundamenta jurls naturae et gentiurn, 1705; Caramerata, Sulla coattvite delle ‘nonme giurdiche, Milano, 1932; Alessandro Lev, Teoria generale del drtto, Padova, 1950, places, 95. G. Teles Jr, O direto quintice, ct, p. 270. 96. Petranyeks, Theory of law, 1913. 48 Cunso ne Dinzrro Crvit Brasiieino Essa concepgiio, contudo, deu ensejo a uma série de pesquisas ¢ andli- ses, a uma longa meditagao, que precisavam ser feitas e que efetivamente foram feltas, magistralmente, por Goffredo Telles Jr. ‘Anorma juridica, diz ele”, nao é uma atribuigéo de faculdade especial, a {quem tenha sido lesado pela violacio, de reagir contra quem o lesou. a norma juridica nenhuma possibilidade de fazer essa atribuicio, isto porque la nio possui nenhuma faculdade de reagir contra quem quer que seja. Com efeito, a etimologia indica, claramente, que a “faculdade” é prin- cipio de acto, pois este termo deriva do latim facultas, cuja raiz € facere (fa- zer, agir). Em vista disso, devernos confessar que o alcance jurfdico outorga- do @ este vocébulo nio esta de acordo com sua significacao etimol6gica. A faculdade ¢ uma qualidade inerente ao homem. A filosofia classica j@ ensinava que as faculdades so “poténcias ativas ou qualidades que dis- poem imediatamente um ser a agit”. As faculdades humanas sao qualida- des do homem que independem de normas juridicas; elas existem com ou sem normas de direito”. Nao se diga, pois, que a norma jurfdica é atributiva, Para Gofiredo Teles Jr, a esséncia especifica da norma de direito € 0 au- torizamento, porque o que compete & norma € autorizar ou nao o.uso dessa fa- culdade de reagio do lesado. A norma jurdica autoriza que o lesado pela vio- Jago exija o cumprimento dela ou a reparacio pelo mal causado. {Em rigor deveriamos dizer que tal autorizamento € da sociedade e no da norma, mas como € a norma juridica que prescreve as agbes exigidas ¢ proibidas pela sociedade nada desaconselha dizer que o autorizamento pertence a norma que exprime em palavras o autorizamento inerente & sociedade”. Com efeito, o elaborador da norma intervém apenas para legitimar as faculdades humanas e no para interdité-tas. Nas normas juridicas ha assim ‘um continuo de lictudes e um descontinuo de ilicitudes. A norma juridica ‘aga, objetivamente, a frontetras entre o licito€ o iliito jurfdico. , portanto, a norma juridica que autoriza 0 uso da faculdade de coa- gir, legitimando-a. A coatividade é do lesado, mas 0 autorizamento para 0 97. G, elles J, O direito quantico, ct, p. 236. 98. G. Telles J, O direito quéintico, ct, p. 270. 99. G. Teles Jr, O ditelto quanticy, cit, p. 264. 49 ‘Teonsa Genat po Dinsive Civit seu uso é da norma juridica. Logo, 0 autorizamento € condigao para 0 uso licito da coatividade, sendo o elemento necessério e especifico da norma juridica, distinguindo-a das demais normas. ‘través dessa anzilise em progressio, em que selecionamos tudo o que ni de essencial na norma Jurfdica, deixando de lado os elementos acidentais, atingimos as suas notas essenciais: a Imperatividade e o autorizamento, Tals sdo os motivos pelos quais definimos a norma juridica: imperativo autorizante, que € 0 conceito dado por Goffredo Teles Jr. © elemento “imperativo” revela seu género préximo, incluindo-a no grupo das normas éticas que regem a conduta humana, diferenciando-a das leis fisico-naturais. E 0 “autorizante” indica sua diferenca especifica, distin- guindo-a das demais normas, pois sé a juridica € autorizante’®, €2. Classificagéo Quanto a imperatividade, as normas jurfdicas podem ser: 1) de imperatividade absoluta ou impositivas, também chamadas absolu- tamente cogentes ou de ordem piiblica. Sao as que ordenam ou profbem al- guma coisa (obrigagdo de fazer ou de nao fazer) de modo absoluto. Séo as que determinam, em certas circunstancias, a ago, a abstencao ou 0 estado das pessoas, sem admitir qualquer alternativa, vinculando 0 destinatirio a ‘um tinico esquema de conduta. Exemplificativamente: 0 Cédigo Civil, no art. 1.526, diz: “A habilitacao (para o casamento) sera feita perante o oficial do Registro Civil e, ap6s a audiéncia do Ministério Paiblico, seré homologa- da pelo juiz"; no art. 3° estabelece: “So absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: I — os menores de 16 anos; IT— os que, Por enfermidade ou deficiéncia mental, nao tiverem 0 necessério discerni- ‘mento para a pratica desses atos; Il — os que, mesmo por causa transit6ria, nao puderem exprimir sua vontade". Essas normas, por sua vez, subdividem-se em afirmativas e negativas. Pex. 0 att, 1.245, caput, do Cédigo Civil, que estatul o seguinte: “Transfe- re-se entre vivos a propriedade mediante o registro do titulo translativo no Registro de Iméveis"; 0 art. 426 do Cédigo Civil, que dispoe! “Nao pode ser objeto de contrato a heranca de pessoa viva". 100. Sobre esse assunto vide Goffredo Teles Jc, Iniiagto, cit, p. 43-108; Marla Helena Di- nlz, Conceito de norma juriica como problema de essénca, Sao Paulo, Saraiva, 1999. 50 Cunso ox Dinsiro Civit BnastLeine ‘A imperatividade absoluta de certas normas € motivada pela convic¢ao de que determinadas relagbes ou estados da vida social no podem ser del- xados ao arbitrio individual, o que acarretaria graves prejtsizos para a socie- dade. Existem relagoes humanas que pela sua grande importancia so regu- ladas, taxativamente, em normas juridicas, a fim de evitar que a vontade dos particulares perturbe a vida social. As normas impositivas tutelam in- teresses fundamentals, diretamente ligados ao bem comum, por isso é que sao também chamadas de “ordem publica” 2) de imperatividade relativa ou dispositivas, que nao ordenam, nem prof- bem de modo absoluto; permitem acdo ou abstengao ou suprem a declara- ‘go de vontade nao existente. Podem ser, portanto, permissivas, quando permitem uma aco ou abs- tencao. P. ex.: Cédigo Civil, art. 1.639, caput: “E Iicito aos nubentes, antes de celebrado 0 casamento, estipular, quanto aos seus bens, o que Ihes aprou- ver"; Cédigo Civil, art, 628, que estabelece que “o contrato de depésito € gratuito, exceto se houver convengao em contrério, se resultante de ativi- dade negocial ou se o depositario o praticar por profissio”. ‘As normas dispositivas podem ser supletivas quando suprem a falta de manifestagéo de vontade das partes. Estas normas s6 se aplicam na auséncia da declaragao de vontade dos interessados. Se as partes interessadas nada es- tipularem, em determinadas circunstanclas, a norma estipula em lugar de- Jas. Como exemplos, podem-se enumerar dentre outros: “Efetuar-se-4 0 pa- gamento no domicilio do devedor, salvo se as partes convencionarem diver- samente” (CC, art. 327, 1* parte). “Nao havendo convencao, ou sendo ela nula ou ineficaz, vigorard, quanto aos bens entre os cénjuges, 0 regime da comunhio parcial” (CC, art. 1.640, caput). ‘Uma norma dispositiva pode tornar-se impositiva, em virtude da dou- trina e da jurisprudéncia, como verifica Goffredo Telles Jr. P. ex.: 0 COdigo Civil de 1916, art, 924, que estatufa o seguinte: “Quando se cumprir em ‘parte a obrigacio, poder o julz reduzir proporcionalmente a pena estipu- Jada para o caso da mora ou inadimplemento’, salientando que, ao tempo 201. G. elles Je, Introdusto a citncia do direto, 1972, fase. 5, p. 347 € 348 (apostta). 102. G.Telles x, Introdusao, cit., p. 349; A, Franco Montoro, Introdugao a ciéncia do dreto, ¥.2, p. 7677. Tem imperatividade relativa: arts. 233, 287, 296, 327, 354, 450, 485, 1490, 502, $33, 1, S51, 582, 566, 1,578, 619, 631, 698, 704, 711, 713, 714, 728, 770, 812, 917, 089, 1.331, § 5%, 1.334, § 2% 1.348, § 2%, 1.352, pardgrafo tinico, 1.392, 1.41, 1.421, 1.437, 1.488, § 25, € 1.507, 828, do CC. “4 St ‘Tuonsa Genat 90 Dinniro Crvit da promulgacao do Cédigo Civil, este dispositivo s6 vigorava quando niio havia, no contrato, a declaragio de que a multa era sempre devida, inte- gralmente, no caso de mora ou inadimplemento. Por influéncia dos civilis- tas e dos tribunais, posteriormente, entendeu-se que ainda que houvesse tal cléusula estabelecendo que a multa era sempre devida integralmente, o juiz, podia reduzir a pena, proporcionalmente & parte devida da obrigaco, por- que 0 citado artigo, que era dispositivo, passou a ser considerado norma impositiva™™, Hoje, pelo art. 413 do novo Cédigo Civil, “a penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigagio principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestadamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negécio’. Quanto ao autorizamento as normas juridicas podem classificar-se em: 1D) Mais que perfeitas: sio as que por sua violagio autorizam a aplicagao de duas sancOes: a nulidade do ato praticado ou o restabelecimento da si- tuasdo anterior e ainda a aplicagao de uma pena ao violador. Como exem- plo desta norma, podemos citar o Cédigo Civil, art. 1.521, VI, que estatul: “Nao podem casar as pessoas casadas"; com a violagao dessa disposicao le- gal, autoriza a norma que se decrete a nulidade do casamento; realmente, estabelece 0 Cédigo Civil, no art. 1.$48, II, que: “E nulo o casamento con- traido por infringéncia de impedimento”, e que se aplique uma pena ao transgressor, como dispde 0 Cédigo Penal no seu art. 235: “Contrair alguém, sendo casado, novo casamento. Pena: reclusio de 2 a 6 anos”. 2) Perfeitas: sto aquelas cuja violagao as leva a autorizar a declaragio da nulidade do ato ou a possibilidade de anulacio do ato praticado contra sua disposicéo e nao a aplicacdo de pena ao violador. $30 exemplos dessas normas: Cédigo Civil, art. 1.647, I: *Ressalvado 0 disposto no art. 1.648, nenhum dos cénjuges pode, sem autorizacao do outro, exceto no regime de separagio absoluta, alienar ou gravar de 6nus real os bens iméveis”, sob pena de nulidade relativa, nao havendo suprimento judicial (CC, art. 1.649); Cédigo Civil, art. 1.730: “E nula a nomeacao de tutor pelo pal ou pela mae que, a0 tempo de sua morte, no tinha o poder familiar”. 3) Menos que perfeitas: sto as que autorizam, no caso de serem violadas, @ aplicacao de pena ao violador, mas nao a nulidade ou anulacio do ato que as violou. Como exemplos temos 0 Codigo Civil, art. 1.523, I: "Nao de- ‘vem casar 0 vivo ou a vitiva que tiver filho do cénjuge falecido, enquan- 103. G.Telles J, Intraduedo, it, p. 350; Inciacto, et, p. 185-7. 582 Coxso ve Dinero Civit Beastezie to nio fizer inventério dos bens do casal e der partilha aos herdeiros". Vio~ Jada esta norma, nfo esté nulo 0 novo matrimonio, porque a norma nio autoriza que se declare a nulidade desse ato; com efeito, o art. 1.641, I, do Cédigo Civil diz: "B obrigatério o regime da separacao de bens no casamen- to, das pessoas que o contrairem com inobservancia das causas suspensivas da celebrasio do casamento” e o art. 1.489, Il, do mesmo diploma legal, confere hipoteca legal aos filhos sobre Iméveis do pat ou da mie que pas- sar a outras nipcias antes de fazer o inventario do casal anterior. 4) Imperféltas: sto aquelas cuja violagdo no acarreta qualquer conse- quencia juridica, S40 normas sul generis, no so propriamente normas ju- ridicas, pois estas sdo autorizantes. Casos t{picos so as obrigagtes decor- rentes de dividas de jogo, dividas prescritas e juros nao convencionados. “A divida de jogo deve ser paga’; essa norma nao é, contudo, posttiva, no a encontramos no Cédigo Civil brasileito, nfo esta prescrita em nor- mma juridica; assim sendo, o lesado pela sua violagio no poderé, certamen- te, exigir o seu cumprimento, de modo que ninguém pode ser obrigado a pagar tal débito, jé que a referida norma nao é autotizante. © Cédigo Civil chega até a dispor expressamente, no art. 814, que: “AS dividas de jogo ou de aposta nfo obrigam a pagamento...”. Logo, se violado esse preceito, a referida norma néo autoriza 0 credor a exigir 0 seu adimplemento. Entretanto, se essa norma for cumprida, se 0 devedor pagar sua divida, ele no poderd exigir a devolucio do que, voluntariamente, pagou, porque a norma juridica nfo o autoriza a isso. Com efeito, reza 0 art. 814 do Cé- digo Civil: “As dividas de jogo ou de aposta ndo obrigam a pagamento, mas 1ngo se pode recobrar a quantia, que voluntariamente se pagou...". Além dis- so, estatul 0 Cédigo Civil no seu art. 876: “Todo aquele que recebeu 0 que ro Ihe era devido fica obrigado a restitui..”. Ora, 0 credor recebeu a im- portancla que Ihe era devida em virtude de jogo, logo, nto € obrigado a res- tituir (Stimulas 71 e $46 do STF). A norma que manda pagar a divida de jogo, embora ndo tenha a na- ‘tureza de norma jurfdica, adquire eficécia jutktica quando cumprida. Quem a viola no pode ser obrigado a cumpri-la, uma vez que a norma nio auto- riea o lesado pela violacio a exigir seu adimplemento; mas quem a cumpre nfo pode arrepender-se, pols a norma nfo 0 autoriza a exigir a restituigzo a importéncia com que a pagou. Da mesma natureza, como observa Goffredo Telles Jr, € a norma que ‘manda pagar divida prescrita, ou seja, da que, por forca do tempo decorri- 53 Troma Genat vo Dinero Civic do apés seu vencimento, sem reclamacio do credor, néo pode mais ser co- brada judicialmente. © pagamento dessa divida é inexigivel, mas quem a pagar voluntariamente nao poderd requerer a restituigao da quantia com que a solveu, 0 que prescreve o Cédigo Civil, art. 882. Essas obrigac6es, cujo cumprimento é inexigivel, so as chamadas obri- gagdes naturais, que s4o obrigacées civis cuja evolusao ainda nao se com- pletou por ndo ter chegado a adquirir a indispensavel tutela juridica; real- mente, como vimos, 0 credor nao pode ingressar em juizo a fim de recla- mar © pagamento; ele nfo tem agSo, no esté autorizado a isso, porque as obrigagGes naturals s4o desprovidas de exigibilidade. Trata-se de instituto Impreciso, de natureza incerta. Nao so obrigacdes jurfdicas porque ninguém tem o dever de solvé-las ede exigi-las, Mas nfo deixam, como assevera Goffredo Telles J, de ser obrigacOes verdadeiras, pois acarretam dois efeitos: quando cumprida, sua repeticdo é inexigivel, e, quando no cumprida, acarreta 0 descrédito social do inadimplente™, Quanto a sua hierarquia™®S as normas classificam-se em: 1 — Normas constitucionais: sao as relativas aos-textos da Constitulcao Federal, de modo que as demais normas da ordenacio jurfdica deverio ser conformes a elas. 2.—Lels complementares: ficam entre a norma constitucional e a lei or- dinéria. Sdo inferiores 4 Constituigio Federal, que Ihes confere essa quall- 104. Para Kelsen trata-se de norma juridica nfo autdnoma que no estatui sanges, mas {que s6 vale quando se liga a uma norma sancionadora. Vide o que dizemos a respei- to no ¥. 2 do Curso de dirito civil brasileiro, cap. Il, item A, a.4, Sobre esta classifi ‘fo vide G, Telles Jt, Introdusdo, cit, fasc. 5, p. 382 (apostila); niiagto, cit, p. 158; A Franco Montoro, op- cit, v2, p. 77 e 78; Cendsier, Lobligation naturel, p. 12; Dabin, ‘Torta general del derecho, Madiid, 1955, p. 52; Senn, Legesperfectae, imperfetae, minus ‘quam perfectae, Pats, 1902; W. Barros Monteiro, Curso de dieit civil, Sto Paulo, Sa- 1alva,v. 4, p.237-42; Marcelo Figueltedo, A medida provisdrla na Constiuigae, Sto Pat- To, Alas, 1991. 105. A. Franco Montoro, op. cit, p. 65 e s; Roberto Caldas, Limitagbes das medidas provi- sri, Folha de S. Paulo, 19 jan. 1994; Celso Ribetro Bastos, Lel complementar — toria € comentiros, Sto Paulo, Celso Bastos ed, 1999; CF, art. 59, 1a VIl. Vide: Resoluczo a. 11/2002 do Congresso Nacional sobre apreciago do CN das Medidas Provisériase 0 De- ‘reto n. 4.176/2002 que estabelece normas para elaboragio, redagéo, alterasio, conso- lidagao e encaminhamento ao Presidente da Replica de projetos ce atos normatives ‘da competéncia dos 6rgtos do Poder Executivo; Resolusio do Senado Federal n. 23/2007, {que altera o Regimento Intemno do Senado Federal, para dispar sobre 0 processo dé apresentaglo, tramitacio e de aprovagao dos projetos de lel de consolidacao. 54 Gunso px Dinerro Civit Saastusine dade, nao podendo, portanto, apresentar contradigdes com os textos cons- titucionais, sob pena de serem declaradas inconstitucionais, e superiores &s leis ordinérias, que por sua vez no as podem contrariar, sob pena de inva- lidade (CE, arts. 59, pardgrafo tinico, 61 e 69). 3 — Leis ordindrias: so as elaboradas pelo Poder Legislativo. els delegadas: tem a mesma posi¢do hierérquica das ordinérlas, s6 que s&o elaboradas pelo Presidente da Repiblica, que devers solicitar a delega- ‘cho ao Congresso Nacional (CR, art. 68, §§ 1° a 3°). Medidas provisérias: estio no mesmo plano das ordinarias e das dele- ‘gadas, embora no sejam leis, sendo editadas pelo Poder Executivo (CR art. 84, XXVD) que exerce funco normativa, nos casos previstos na Cons- tituigtio Federal. Substituiram, com a promulgacao da Nova Carta, os an- tigos decretos-leis (art. 25, I, II, §§ 19 e 28, do Ato das Disp. Transitérias) Pelo art. 62, §§ 12a 12, da Constituicao de 1988 (com a redacio da EC n. 32/01), 0 Presidente da Repdiblica poderé adotar tais medidas, com forca Ge lei, em caso de relevancia e urgencia, devendo submeté-las de imedia- to ao Congreso Nacional. Tais medidas provisorias perderao eficécia, des- de a ediggo, se nao forem convertidas em lei dentro de 60 dias, prorrogé- vel por uma tinica vez por igual prazo, contado a partir de sua publicacao, suspendendo-se durante 0s periodos de recesso parlamentar, devendo o Congresso Nacional disciplinar, por decreto legislativo, as relagbes jurfdi- cas delas decorrentes, Se tal decreto legislativo nao for editado até 60 dias apés a rejeicao ou perda de eficacia da medida proviséria, as relagbes jurf dicas constituidas e decorrentes de atos praticados durante sua vigéncia conservar-se-A0 por ela regidas. Vedada est a edicao de medidas provis6- rias sobre: a) questdes relativas a nacionalidade, cidadania, direitos politi- cos, partidos politicos e direlto eleitoral; direito penal, processual penal e processual civil; organizacdo do Poder Judicidrio e de Ministério Pablico, a carreira e garantia de seus membros; planos plurianuais, diretrizes orca mentérias, orcamento e créditos adicionais e suplementares; b) detengao ou sequestro de bens, de poupanga popular ou qualquer outro ativo finan- celro; c) matéria reservada & lei complementar; d) assunto {é disciplina- do em projeto de let aprovado pelo Congreso Nacional e pendente de san- do ou veto do Presidente da Reptiblica. Com isso freia-se o poder norma- tivo do Presidente da Republica, tornando-se o Congresso Nacional corres- ponsavel pela decisio do Executivo. Decretos legislativos: séo normas, aprovadas pelo Congreso, sobre ma- téria de sua exclusiva competéncla, como ratificacéo de tratados internacio- 55 ‘Teonta Gunat po Dinero Civ. nais, julgamentos das contas do Presidente da Reptblica. Portanto, tais atos nao sto remetidos ao Presidente da Repiiblica para serem sancionados. Resolucbes: S80 decisbes do Poder Legislativo sobre assuntos do seu pe- culiar interesse, como questdes concernentes a licenga ou perda de cargo por deputado ou senador ou & fixagdo de subsidios. 4 — Decretos regulamentares: si0 normas juridicas gerais, abstratas e im- pessoais, estabelecidas pelo Poder Executivo, para desenvolver uma lei, fa- cilitando sua execucao. 5 — Normas internas: so 0s despachos, estatutos, regimentos etc. 6 —Normas individuais: sao os contratos, sentencas judiciais, testamen- tos etc. ‘pend wapuo ap assaqu1 0 “o} -eipau opou! ap ‘eujuopaid senb seu sougyued acu fa0Se "lisp anb 0 9 opotud oyauyp o -onr0> lag op eam eu ere 3 utioges pod hos 9p of ape opted to sogdejt sens wo 2 Opes o1:NO o> ogbeay ld ‘OUISUL fa ‘opeispsu> ‘opeiry op apepuae © ogSeziuebio e opuata ‘aed 9 ope 0 onb ure segsejas emda anb ajonbe 9 amignd eyasp 0 + “onsunstp ep wazew @ 10 sag5d20009 ses piogns“opSeuapio0> ap oyaup un “Ope Bp Ht oped o> ‘opSeupsoan =p eH dn pd ovuip Oanb weyase wequiey ynigpey 2 wan “opueU! 9p Jopod anioxe anb ‘ousanob o 9 soured sep etun an wa e 9 “ontgnd ‘eup ap ‘oeSeupiogns ap © 9 Jenb: exes fenGy ap uieyen 36 snd ‘soued anu ayso anb &9 (e Ip Lopio> op expan ‘osSeasy “eaewuioU opStosoud sod epejsbase>ipin|opSefe ap Sui so} #9 ewioU ead opibaroid ayseapuodaidass0a0 Sop us 350g "puen 9 eduo> eunu ayed 2 ope o anb ws assodiy wu ‘owo> ‘open ayaa ap soy 9 wapod oud wt and songs sO ‘ouisau anb ‘owumanus ‘a-2n85q0 ‘unuadal ap soptop sous al, “ue sagse se ‘ond 0 2 senpapul seaSm eaGal opow! OHaNp = yuowyed 151 1d oyaup 9p seunou a jluouned ezaume tpi OR up op saued oy anbuod 240s} eso 193° apod as 109 juOUNTed oppayuo> cust pow oHaNP O + ‘onod 0 ‘ennofe> & 2 opseu ep ousnos 0 yma sod -epaudosd e snb 2p ov ‘apepauideud 9p O24 oo ‘nb opeaud ‘aN “oRu ‘oogn . pun 2 exduo> ewnu aed Joj nb wo oFe> ou owo> ‘openud ayBup ojed epeinbiexpsin| opal ep iy 29s apod wpquie opessy 0 en ‘epor ‘as-aqaoiag ‘aue|nsied fag 1400 sens so eued 3 enusisna wns wued ofU OUlo2 ana seuade hu Pun opSepew 2 ‘cusp op oure asap Ll © mysuED is We Op “OnpINul Epes “opaud ou ‘ouelé opunGas tua araue ‘onpypul 6 9 "ty owes ewasaide 9¢ opon0 OnNged Oven ON = 8 ‘queuuiop asia or -pLUBUILOP 95019 “equoaue ogsinp ep quaUepuny © anb UsesA|>u0> anD ‘sauoyne annoy op oFzes wy “sSonpINpU! sop no oper ouewas 5p op 9 opjbaqard asaiayy 0 as eSueinbos wo “euune oven" ‘pod 2¢ ogu anbuod ‘ou 9 euou ead oes asassiut ‘Ro apepitin ep ouj ase ‘opmul “seed 595 ‘Sern exeuyipsp anb o ‘opaiud 0 2 “ovewos ope “au sop opeata 08 uaUso9Ue> apnbe esa cugnd oni ‘quad seuy-opuoduy Sosounu>sesao0ud « 2 ouep ojad ogSeredat ewep2: “oni oe © 2:99 1028 & 9pepIEB e eNUDD 4K e a Jod OpeZHOI ine $9 BULIOU Up ORSefo ead opeso| 0 anb opoUL ap ‘onalgns ayaAp op ‘sn 0 seinBasse ap opSeziomne © 9 anb ‘oyeup 2pua.2p ap oalgns oI ‘onjeuiou oyapaid ap oBSeIA Was “ob 19} OPU No 12) ap “aze, ‘gu no 2228 9p opssuad e 9 anb ‘puaysx2 up wnuo> oman oyauC “L ‘opiujos jus ap ogderedas © no epiGuyyu euou ap oquounuduun> o ‘euuOU 2p opSejoin 10d opesne> cad ap of2> wo ‘soba sosso20x4 ap ofl 10d iP op smqumjaclao> sogbip sop oj 1d ‘pa esed ogSezs one © ‘epuie ‘ni ‘je 19) OU no 49) ead ‘esjo> eunbje Jaze} OBU no Jaze) ted ‘eypin|eutiou ap ous Jod epep ‘ops e 9 sojay op21yO9 Beg ‘opSafoy ens 9p 08 -soid ‘ougreBugo opow ap oueuny ewueweyodiwe> o wbasanb se>ipyn| you opSeuSaju eunu epesseq ‘sep0s sagSep sep ewougiaray ogdeuapl0 e 9 ajeay [anbIMY OpunNBas « OALLISOd OLERI aqueuwop euunea"Z - ops sp soo. sepung (o wey = Buoy e+ es z+ corswp ep sowwauiepung (0 soppdsa @ 0422009 (0 ‘04 opSues wwun opuaras> ‘seuuiou ap axajdule> 03 - sojen 2 soy} 2p eae a OOILONIS OXGVAH oavalya o1aia 3 oortand ouraaia “y ovatus outa a oomand onsawa “+ onuatans ousmma “€ onusta0 ouruia onuisos ourauia 30 0Y30N “t ‘enbseary @ owen “¢ « owSeayisse1> (@ = ‘votayunt vIwion 9. bees “seipyadust © odeoysse @ + I | t ‘volajunt vAWON “9 { oavatua o13a1a a onjjand oxas stornpe outa | ee iene 5 op suey + “opined asic » cos ‘eusd ys | cum + | spans 2. Direito civil A. PRINCEPIOS B CONTEUDO DO DIREITO CIVIL © conceito do direito civil passou por uma evolugio histé direito romano era 0 direlto da cidade que regia a vida dos cidadaos inde- pendentes!”, abrangendo todo o direito vigente, contendo normas de di- reito penal, administrativo, processual etc. Na era medieval, o direlto civil identificou-se com o direito romano, con- tido no Corpus Juris Civilis, sofrendo concorréncia do direito canénico, devi- do a autoridade legislativa da Igreja, que, por sua vez, constantemente, invo- cava 0s principios gerals do direito romano. Na Idade Moderna, no direito anglo-americano, a expresso civil law correspondia ao direito moderno, ¢ as matérias relativas ao nosso direito civil eram designadas como private law'**, Passou a ser um dos ramos do direito privado, o mais importante por ter sido a primelza regulamentacao das relagdes entre particulares. A partir do século XIX toma um sentido mais estrito para designar as instituigoes disciplinadas no Cédigo Civil. Contém 0 Cédigo Civil duas partes: a geral, que, com base nos elemen- tos do direito subjetivo, apresenta normas concernentes as pessoas, aos bens, 4205 fatos juridicos, atos e negéclos juridicos, desenvolvendo a teoria das nu- idades e principios reguladores da prescrig4o e decadéncia™, ¢ a especial, 106, Heméndez Gi I concept del drcho cv, Mads, RDP 107, Gaus Instticones, Commentalus primus, 108. Caio M8. Pci, snipes, ep 31 108. Cale M.S Perea, nals, cw, 33; Osan Gonme, ey eo deo cl, pan 10M. 5 Pereira op. ct 1p 8; Paulo Nades Curso de drt hl — part geal, M10 ise anes Fakes 20; Aad Mizar, Pat ger! do Cg Cv io de a nro, Fotense, 2008, 61 ‘Teoma Genat vo Dinetro Crvin cém hormas atinentes: a) ao “direito das obrigagoes", tendo como fulcro 0 poder de constitulr relagdes obrigacionais para a consecucio de fins econd- micos ou civis, disciplinando os contratos e as obrigac6es oriundas de de- claragao untlateral de vontade e de atos ilfcitos; b) a0 “direito de empresa”, regendo 0 empresitio, a sociedade, o estabeleclmento ¢ os institutos com- plementares; <) ao “direlto das coisas”, referente a posse, & propriedade, aos direitos reais sobre coisas alheias, de gozo, de garantia e de aquisicao; d) 20 ‘direito de familia”, normas relativas ao casamento, unio estavel, as 1e- lagbes entre os cOnjuges € conviventes, as de parentesco e & protecio de menores e incapazes; e ¢) 20 “direito das sucessoes", formulando normas sobre @ transferéncia de bens por forca de heranca € sobre 0 inventério © partilha”, Apresents, ainda, um livzo complementar que encerra as dispo- sigdes finals e transitOrias (arts. 2.028 a 2.046). © airelto civil & pois, o ramo do ditelto privado destinado a reger re lagbes familiares, patrimoniais e obrigacionais que se formam entre indivi- duos encarados como tais, ou seja, enquanto membros da sociedade". Bo direito comum a todas as pessoas, por disciplinar o seu modo de ser € de agir, sem quaisquer referéncias as condig6es sociais ou culturais. Rege as relaces mais simples da vida cotidiana, atendo-se as pessoas garan- tidamente situadas, com direitos e deveres, na sua qualidade de marido e mulher, pai ou filho, credor ou devedor, alienante ou adquizente, proprie- tério ou possuidor, condémino ou vizinho, testador ou herdeizo"™. Como se vé, toda a vida social esté impregnada do direito civil, que regula as ocor- réncias do dia a dia, pois, como exemplifica Ferrara, a simples aquisi¢ao de uma carteira de notas é contrato de compra e venda; a esmola que se dé a um pedinte é doagao; 0 uso de um énibus & contrato de transporte; 0 valer-se de restaurante automitico no qual se introduz uma moeda para obter alimen- to € aceltagio de oferta ao pilblico™. Os prinefpios basilares que nortelam todo contetido do direito civil sto: © da personalidade, a0 aceitar a ideia de que todo ser humano ¢ sujelto de direitos e obrigagées, pelo simples fato de ser homem; o da autonomia da vontade, pelo reconhecimento de que a capacidade juridica da pessoa hu- ‘mana Ihe confere 0 poder de praticar ou abster-se de certos atos, conforme 111. M, Reale, Licdespreliminares de dreto, p, 356; Calo M. S. Perera, op. cit, p. 8B € 89. 112. Sexpa Lopes, Curso de dieito civil cit, ¥. 1, p. 32. 113. M. Reale, Ligdes, cit, p. 353 € 354, 114. Orlando Gomes, op. cit, p. 40. 2 Gunso ns Dinniro Civin Brasiutine sua vontade; o da liberdade de estipulagao negocial, devido & permissio de ou- torgar direitos e de aceltar deveres, nos limites legais, dando origem a ne- ‘g6cios juridicos; 0 da propriedade individual, pela ideia assente de que o ho- mem pelo seu trabalho ou pelas formas admitidas em let pode exteriorizar ‘a sua personalidade em bens méveis ou imévels que passam a constituir 0 ‘seu patriménio; o da intangibilidade familiar, ao reconhecer a familia como ‘uma expressdo imediata de seu ser pessoal; o da legitimidade da heranca e do direito de testar, pela aceltagdo de que, entre os poderes que as pessoas tm sobre seus bens, se inclui o de poder transmiti-los, total ou parcialmen- te, a seus herdeiros; o da solidariedade social, ante a func&o social da pro- priedade e dos negécios juridicos, a fim de conciliar as exigéncias da cole- tividade com os interesses particulares" (Os demais ramos do direito privado destacaram-se do direito civil por forca da especializacao de interesses, sujeitando-se a regulamentacio de ati- vidades decorrentes do exercicio de profissOes", pois 0 direito civil, propria mente dito, disciplina direitos e deveres de todas as pessoas enquanto tais ¢ nao na condicso especial de empresario ou empregado, que se regem pelo di- relto comercial, apesar de algumas de suas normas estarem inseridas no C6- digo Civil, que absorveu o direito da empresa, e pelo direito do trabalho. QuapvRo SInN6TICO CONTEUDO E PRINCIPIOS Do DIREITO CivHL Apresenta formas sobre pes + Parte Geral 5035, bens e fatos uridicos em sentida amplo, + Regula © direito das obrigagbes (arts, 233 a 965); creito de em- 1. CONTEGDO DO an presa (arts. 966 8 1.195); 0 cre DineIro c1viL Ka fo das coisas (ars. 1.196.a1.510), Pee © dito de fama (arts. 1-511 8 1.783) ¢ 0 direto das sucessses (rts. 1.784 2.2027). + Livro Com- + Disposigbes finals ¢ transtérias plementar (rs. 2028 2 2.046), 115. M. Reale, Ligdes, cit, p. 355 e 356; Paulo Lulz Netto Lobo, Constitucionalizagio do Clreito civil, Revista de informagao Legislativa, n. 141, jan./mar. 1999, p. 99-109; R. Lie ‘mongi Frenge, O direito civil como direito constitucional, RDC, $4:167; Francisco {dos Santos Amaral Neto, A evolueio do direlto civil brasileiro, RDC, 24:74; Roberto ‘Rosa, Constituigio e diretto evil, RT, 761:64; Rosa Marla Andrade Nery, Nogdes pel ‘minares de direlto civil, S40 Paulo, Revista dos Tribunals, 2002. 116, Orlando Gomes, op. cit, p. 37. 63 ‘Tronta Gznat D0 Diasiro Cvs Da personalidade, De autonomia ds vontade, Da liberdade de estipulacio negocial 12. princietos Do a * Da propriedade individu | biRetTo crvit Da intangiblidede fara Da legitimidade da heranca e do direito de testar, Da solderiedade social B, ETIOLOGIA HISTORICA DO CODIGO CIVIL BRASILEIRO Dificil €a tarefa de codificar o direito, pois no é uma simples reuniio de preceitos normativos relativos a certo tema, £ preciso coordenar e classi- ficar metodicamente as normas concernentes as rlag6es Jurfdicas de uma s6 natureza, crlando prinefpios harménicos, dotados de uma unidade sistemé- tica'™; para tanto deve-se cleger um critério objetivo, I6gico e racional A ideia de codificar 0 direito surgiu entre nés com a proclamagio da independéncia politica em 1822. Ante 0 fato de nfo haver lels proprias, a Assembleia Constituinte baixou a Lei de 20 de outubro de 1823, determi- nando que continuassem a vigorar, em nosso territrio, as Ordenagbes Fi- lupinas, de Portugal, embora alteradas por leis e decretos extravagantes, prin- cipalmente na seara civel, até que se elaborasse 0 nosso Cédigo. A Constituicéo Imperial de 1824 determinou a organizagio do Cédt- go Civil e Criminal, que virla consolidar a unidade politica do pais e das provincias. Carvalho Moreira, em 1845, fol quem primeiro se preocupou com a ma- téria 20 apresentar um estudo sobre a revisio e codificacao das lets civis. Em 15 de feveretro de 1855, 0 governo imperial entendeu que antes da codlficagao seria preciso tentar uma consolidago das leis civis, que se encon- travam esparsas, e para tanto encarregou Teixeira de Freitas, que, em 1858, obteve a aprovacio de sua Consolidagao das Leis Civis, com 1.333 artigos, Contratou-se, entio, Teixeira de Freitas para elaborar 0 projeto de C6- digo Civil, que nao foi aceito por ter unificado o direito civil com o direi- U7. CaloM eres, op it, p. 2; Sebastito Jost Roque, Teoria geal do det cl Sto Paulo, feone, 1994, p. 13-25 — : 4 Gunso ne Dinsiro Civ Bastian to comercial. Entretanto, 0 Esboco de Teixeira de Freitas exerceu grande in- fluéncia na feitura do Cédigo Civil argentino. [Apés rescindir o contrat com Teixelra de Freitas, o ministro da Justi- ‘ca, Nabuco de Aratijo, incumbiu-se de elaborar um novo projeto, porém de- vido a sua morte nao péde levar até o fim sua missio. Em 1881, Felicio dos Santos apresentou um projeto denominado Apon- tamentos, com 2.602 artigos, que recebeu parecer contrario da comissio nomeada para examiné-lo, Essa mesma comissao, composta de juristas re- nomados como Lafayette Rodrigues Pereira, Ribas, Justiniano de Andrade, Coetho Rodrigues, Ferreira Viana ¢ Felfcio dos Santos, fez uma tentativa de codificagao, mas a comissso, com a perda de Justiniano e Ribas e com 0 afastamento de Lafayette, logo se dissolveu em 1886. Em 1889, pouco antes da proclamaco da Repiblica, o ministro da Jus- tiga, Candido de Oliveira, nomeou uma comissio, que, com 0 advento da Repiblica, nao chegou a apresentar nenhum projeto de codificacio. ‘Ante as tentativas infrutiferas das comiss6es, o ministro da Justica, Cam- pos Sales, incumbit em 12 de julho de 1890 Coelho Rodrigues da feitura de projeto, que, conclufdo em 23 de fevereiro de 1893, também nao con- seguiu ser transformado em lel. Contudo, ao ocupar a Presidéncia da Reptblica, Campos Salles, por in- dicacdo de seu ministro Epitacio Pessoa, nomeou, em 1899, Clévis Beviléqua para esta érdua tarefa. No final desse ano apresentou ele um projeto, que apés dezesseis anos de debates transformou-se no Cédigo Civil, promulgado em 1° de janeiro de 1916, e vigente a partir de 1° de janeiro de 1917, com novas alteracées introduzidas pela Lei n. 3.725/19"*, Como observa R. Limongi Franea!, o Cédigo Civil apresentou-se como um diploma de seu tempo, atualizado para a época, porém 0 seu tempo fol 0 da transicao do direito individualista para o social. Com isso, precisou ser revisto e atualizado. © Cédigo Civil de 1916 era obra monumental; alterar seu texto seria a destruigio de um patriménio cultural, mas a realidade social se impés, de 118. Calo M. 5. Pereira, op. cit, p. 848; W. Barros Monteiro, op. cit, p. 48-53. 0 CC de 016, por seguir o espinto de sua época, era individualistae patriarcalista © caracte- ‘Heava-se pelo voluntarismo baseado na autonomia da vontade. 4119. R, Limong! Franga, Cédigo Civil (Histérico), in Encilopétia Saraiva do Dirt, v. 15, p.393. 65 ‘Troms GeRAt vo Dinerro Civis modo imperioso, pols os fatos nao podiam ficar adstritos a esquemas legais, que, a eles, niio correspondiam. Em verdade, depois de 1916 os acontecimentos alteraram, profunda- ‘mente, 0s fatos sociais, requerendo maior ingeréncia do juiz nos negécios Ju- ridicos, derrogando o princfpio pacta sunt servanda. A locacao de servigo deu ensejo ao aparecimento dos contratos de trabalho; a propriedade, que no C6- digo Civil apresentava-se com um cunho individualista, passa a ter uma fun- 0 social efetiva; 0 direlto de familia sofreu influéncia da publicizacao dos conceitos, reclamando a alteracio das condigées da mullher casada, em razio de sua promogao politica e profissional, a incluso dos preceitos concernen- tes A separacao judicial e divércio, a modificagao dos principlos relativos a0 menor sob patrio poder e tutela, maior atencdo & questo do menor abando- nado e a dos efeitos da unifio estvel, a revistio do regime de bens, pois a mi- miicia com que cuidava do regime dotal poderia levar o observador a pensar que ele era extremamente usado entre nés, quando, na verdade, ninguém a ele recorria; 0 condominio em edificios de apartamentos e 0 pacto de reser- va de dominio em contratos de compra e venda requeriam uma seccio no (Cédigo Civil; 0 pacto de melhor comprador, a enfiteuse e a hipoteca judicial estavam em franca decadéncia, sendo de bom alvitre que se suprimissem tais institutos do Cédigo e se inclufsse a superficie; 0 direito obrigacional exigia que se alargasse a nogio de responsabilidade civil, que se consignassem nor- mas sobre a teorla da imprevisio, que se disciplinasse o'instituto da lesto € 0 do estado de perigo, que se fixasse a questo do abuso de direito, que se co- sgitasse da reserva mental, que se tratasse da cessio de débito paralela & do crédito; 0 direito da personalidade requeria uma construgio dogmética; 0 di- reito das sucessbes sofreu pressao do direito previdenciério que acolheu a he- ranga do companheiro, sendo necessirio, ainda, que se adaptassem as nor- mas de sucessio legitima e legitiméria consequentes as modificagbes do di- reito de familia, e simplificasse a elaboracdo do testamento, principalmente nas formas em que participe o oficial pablico™. Com 0 escopo de atualizar 0 Cédigo Civil de 1916, atendendo aos recla- ‘mos socials, varias leis, que importaram em derrogas3o do diploma de 1916, 120. R. Limongi Franga, Cédigo, cit, ¥. 15, p. 393 e 394; Calo M.S, Perera, op. ct p. 90 €€91; Silvio Rodsigues, Dreto Civil, Max Limonad, 1962, v. 1, p. 35; W. Barros Mfon- ‘elo, op. cit, p. 53; Maria Helena Diniz, Cédigo Civil de 1946, in Histéria do direto brasleiro, Eduardo C. B. Bttar (org.), Sio Paulo, Atlas, 2003, p. 209-220. 66 Gunso ox Diariro Crvit Brastieino foram publicadas, dentze elas: a do estatuto da mulher casada, a do divércio, as da unto estével, a dos direitos autorals, a dos registros pablicos, a do com- promisso de compra e venda, a do inquilinato, a do reconhecimento de fi- Thos, a do condominio edilicio, a do parcelamento do solo, a do estatuto da crianga e do adolescente etc.". © diretto civil, entao, inclinou-se as contin- sgencias sociais criadas por leis especiais, acolhendo as transformagSes ocor- ridas, aluvionalmente, para atender &s aspiragbes da era atual. © Governo brasileiro, reconhecendo a necessidade da revisio do COdi- go Civil, em virtude das grandes transformagoes sociais e econémicas, resol- ‘yeu por em execugao o plano de reforma, encarregando Orozimbo Nonato, Filadelfo Azevedo e Hahnemann Guimaraes de redigir um Anteprojeto de Cédigo das Obrigagbes separado do Cédigo Civil, seguindo o exemplo sut- 0, que, vindo a lume em 1941, sofreu, contudo, severas criticas de juristas, por atentar contra o critérlo organico do nosso direito codificado, que se rom- peria com a aprovaciio isolada do Cédigo Obrigacional™. Em 1961, com 0 objetivo de elaborar um Anteprojeto do Cédigo Civil, o Governo nomeia para tanto Orlando Gomes, Caio Mario da Silva Pereira e Silvio Marcondes. Entretanto, esse projeto, ao ser enviado ao Congresso Nacional, em 1965, foi retirado pelo Governo em decorréncia de fortes reagées. (© ministro da Justica Luiz Antonio da Gama e Silva, em 1967, nomeia nova comissio para rever 0 Cédigo Civil, convidando para integrarem-na: Miguel Reale, José Carlos Moreira Alves, Agostinho Alvim, Silvio Marcondes, Ebert V. Chamoun, Clovis Couto e Silva e Torquato Castro. Em 1972, essa comissio apresenta um Anteprojeto que procurou manter a estrutura basica do Cédigo Civil, reformulando os modelos normativos a luz dos valores éti- cos e sociais da experiéncia legislativa e jurisprudencial, substituindo na Par- te Geral a disciplina dos atos jurfdicos pela dos negécios juridicos e alteran- do a Parte Especial em sua ordem, a saber: obrigac6es, direito empresarial, coisas, familia e sucessbes. Recebeu criticas desfavordveis por unificar as obri- ‘gagbes civis e mercantis, Em 1984 foi publicada no Diario do Congresso Na- cional a tedagao final do Projeto de Lei n, 634-B/75 que, constituindo o PLC nn, 118/84, recebeu infimeras emendas em razio da promulgacio da nova Car- ‘ta Magna, introduzindo muitas novidades, oriundas da evolucao social, che- 121, R, Limongi Francs, Céidigo cit, v.15, p. 394. 122, Caio M.S, Perera, Institugdes, i, v. 1, p. 89 € 90. 67 ‘Teonta Genat 90 Dinsiro Crvit gando apés 26 anos de tramitacio no Senado e na Camara dos Deputados sua redacio definitiva, contando com subsfdios de entidades jurfdicas ¢ de juristas e dando maior énfase ao social. Aprovado por ela e pelo Senado em 2001, e publicado em 2002, revogou o Cédigo Civil de 1916, a primeira par- te do Cédigo Comercial de 1850, bem como toda a legislaco civil e comer- cial que Ihe for incompativel (CC, art. 2.045). . © novel Cédigo passa a ter um aspecto mals paritério e um sentido so- cial, atendendo aos reclamos da nova realidade, abolindo instituigées mol- dadas em matrizes obsoletas, albergando institutos dotados de certa estabi- lidade, apresentando desapego a formas jurfdicas superadas, tendo um sen- tido operacional a luz.do princfpio da realizabilidade, tracando, tao somen- te, normas gerais definidoras de instituigbes e de suas finalidades, com 0 escopo de garantir sua eficicia, reservando os pormenores as leis especiais, mals expostas as variagbes dos fatos da existéncia cotidiana e das exigén- clas sociocontemporaneas, ¢ eliminando, ainda, normas processtais a0 ad- mitir apenas as intimamente ligadas ao direito material. Procura exprimit, genericamente, os impulsos vitais, formados na era contemporanea, tendo por pardmetro a justiga social e o respeito da dignidade da pessoa humana (CF, art. 12, II). Tem por diretriz o principio da socialidade, refletindo a pre- valéncia do interesse coletivo sobre o individual, dando énfase a funcio so- cial da propriedade e do contrato e & posse-trabalho, € ao mesmo tempo, contém, em seu bojo, nfo s6 o principio da eticidade, fundado no respeito dignidade humana, dando priotidade a boa fé subjetiva e objetiva, A probi dade e a equidade, como também o principio da operabilidade, conferindo a0 6rgao aplicador maior elastério, para que, em busca de solugio mais jus- ta (LINDE, art. 5%), a norma possa, na andlise de caso por caso, ser efetiva- ‘mente aplicada. Como diz Engisch, “normatividade carece de preenchimen- to valorativo’, as cléusulas gerais e os conceitos indeterminados contidos nos preceitos do novo diploma legal requerem uma valora¢io objetiva do julgador, tendo por base os valores vigentes na sociedade atual. Todos os principios norteadores do C6digo Civil de 2002, ora vigente, giram em tor- no da cidadania, da dignidade humana, dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, Deixa, 0 novo Cédigo, acertadamente, para a legislaso especial a dis- ciplina de questoes polémicas ou dependentes de pronunciamentos juris- prudenciais e doutrinérios. Por isso, nada dispoe sobre contratos eletréni- 0s, direitos difusos, relagGes de consumo, parceria entre homossexuals, pre- servacio do meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado, experién- 6 Conso vs Dinero Crvis Brastizino cia cientifica em seres humanos, pesquisa com genoma humano, clonagem humana, efeitos juridicos decorrentes das novas técnicas de reprodugao hu- ‘mana assistida, medidas socioeducativas aplicadas a crianca e ao adolescen- te etc. Tais matérias nfo se encontram, no nosso entendimento, nos mar- cos do direito civil, por serem objeto de outros ramos jurfdicos, em razi0 de suas peculiaridades, devendo ser regidas por normas especiais. Por exem- plo, diante da necessidade de uma adaptagio do direito do estado atual das situagdes inusitadas engendradas pelo progresso biotecnologico, 0 grande desafio do século XXI sera desenvolver um biodireito, que corrija os exage- 10 provocados pelas pesquisas cientfficas, pela biotecnologia e pelo dese- quilibrio do meio ambiente e promover a elaboragao de um Cédigo Nacio- nal de Bioética, que sirva de diretriz na solugao de questoes polémicas ad- ‘vindas de praticas biotecnocientificas. Em vigor continuam, portanto, no que nio conflitarem com 0 novo Cédigo Civil, a Lei do Divércio, 0 Estatuto da Crianga e do Adolescente, 0 Cédigo de Defesa do Consumidor, a Lei de Locagao Predial Urbana ete. (CC, arts. 2.033, 2.036, 2.043). Oxalé 0 novo Cédigo Civil logre éxito, sem embargo da ocorréncia de fatos supervenientes, por representar um esforgo para atualizar 0 direlto cl- vil, que se encontrava preso a normas contrérias ao espirito da época, vis- to que, como jé dizia Rui Barbosa, “o tempo s6 respeita as obras de que foi colaborador"*., QuapRo SIn6TICO ORIGEM Do CODIGO CIVIL npés arduas © lnutferas tentativas de codfcagio, Campos Sales, a0 acuper a Presidéncia da Repabli- fy or inciagio de Eptdcio Pessoa, nomen, em ‘1808, Clovis Bevilque para essa tarefa; este no fina a) esse mesmo ano apresentou um projeto que, apés 5 16 anos de debates, transformou-se no Codigo Ci vil, promulgado em 121-1916, entrando em vigor fem 1-1-1917, ora revogad pelo atual Cédigo, que ‘2968 26 anos de tramitazao foi aprovado. 4123. Nelson Godoy Bassll Dovrer, Curso moderna de deta civil, Ed. Nelpa, 1976, v1, p. 46 047; Calo M, 5. Perera, nstitulgbe, cit, % 1, p- 91 € 92; Fabio V. Figueiredo e Bruno L i 6 ‘Teoma Geeat po Dinstro Crvit C. OxjETO £ FUNGAO DA PaRTE GERAL sistema germanico ou método cientifico-racional — preconizado por savigny™ para atender ao requisito de que para uma boa codificacao é mis- ter que haja ordem met6dica na classificacao das matérias'® — divide o di- reito civil em uma Parte Geral e uma Parte Especial. Na Parte Geral contermplam.se os sujeitos de direito (pessoas), 0 objeto do direlto (bens juridicos) e os fatos jurfdicos. Regulamenta-se tanto a pessoa na- ‘tural como a juridica (arts. 1° 69), com a correlata questio do domicilio (arts. 70 a 78). Refere-se as diferentes categorias de bens: iméveis (arts. 79 a 81) € miéveis (arts. 82 a 84); fungiveis e consumfvels (arts. 85 e 86); divisiveis e in- P.Glancolt, Direto civil, Sao Paulo, Saraiva, 2009, p. 7-56 (Coleco OAB Nacional, . 1); Chastiano Cassetar, A funeSo social da obrigasio: uma aproximagio na perspec ‘iva civil constitucional Dirito civil — diveto patrimonial e dietaexistencial — estudos em homenagem a Giselda Hironaka (coord, Tartuce e Castilho}, So Paulo, Método, 12006, p. 177 a 190; Francisco Amaral, Interpretagao jurdica segundo o CAdigo Civil Revista Brasileira de Direito Comparado, 29:19-42. Observa Reis (A elaboragao do BGB: hhomenagem ao centenério do Cédigo Civil Alemio, Revista de Direlto Civil, 2. 76, p. 30-43) que 0 RGB surgiu depots de 22 anos de discussto. Na Alemanha, apés a: dif culdades encontradas, desde o inicio do século XIX até pouco depols de sua metade, para a unificagao do direito civil, o Conselho Federal (Sundesrat), cumprindo wma le de 1873, velo a nomear, em 282-1874, uma Comiselo Preparatoria (Vorkommission), ‘composta de cinco juristas, para elaboraro projeto de cédigo civil. Em julho de 1896, © Conselho Federal aprovou o Projeto, votado pelo Reichstag, e em 18 de agosto do ‘mesmo ano, aniversério da batalha de Gravelotte, 0 Kaiser promulgou o Burgetiches Gesetzbuch (Cédigo Civil, conhecido abreviadamente como BGB), com 2.385 parigra- fos alterados em 2002. Consulte: Josaphat Marintre, Cédigo e Leis especials, Cans lex, n. 13, p15 e 16; Glauber M. Talavera, 0 Projeto do Novo Cédigo Civil brailelro, ‘Tribuna do Direito, abril de 2000, p. 32; Miguel Reale, Visio Geral do Projeto de Cédi- {g0 Civil, RT, 752:22; Osvaldo H. Tavares, Aspectos findamentais do Projeto de Cédi- {g0 Civil, RBG, 59:60; Roberto Senise Lisboa, Novo Cdigo Civil e suas perspectivas DPerante a constitucionalizacao dos direitos, Histra, cit, p. 431-83; Jamil Miguel, Ano- ‘agGes a parte geal do Cédigo Civil in Contnbuletes ao estudo do nova deta civil, Cam- pings, Millennium, 2004, p.3 29; George de C. Moras e Karina N, de Oliveira, Asis ‘tematica das cléusulas gerais no novo Cédigo Civil, Direto Liberdade, ESMARN, 5:455- 70 (2007); Franciseo Amaral, O Cédigo Civil brasileiro eo problema metodolégico de sua realizapio. Do paradigma da aplicagao 20 paradlgma judicativo-decis6rio, STVDIA IVRIDICA, 9033-55. Imprimiu-se, no atual Cédigo, estilo que, como admitia Pe. An- {Onio Vieira (Sermao ca Sexagésima, I, p. 18), pode ser muito claro e mito alto, Clazo para que o entendam os que nada sabem e alto para que nele tenham muito que en tender os que saber. 124, Savigny, Sistema do direto romano, 125. W. Barros Monteiro, op. cit, p. 53. Em sua estrutura adotou o método do BGB Giargeriches Gesetabuch), de grande perteigao técnica. 70 Corso pe Dinero Civit Brasiieino divisivels (arts. 87 e 88); singulares e coletivos (arts. 89 a 91); bens reciproca~ mente considerados (arts. 92 a 97); pablicos e particulares (arts. 98 a 103). No que conceme aos fatos juridicos, apés mencionar as disposigoes prelimninares (arts. 104 a 114), apresenta cinco titulos: 0 do negécio juridico (arts. 104 184); 0 dos atos juridicos licitos (art. 185); 0 dos atos ilicitos (arts. 186 a 188); 0 da prescricao e decadéncia (arts. 189 a 211); 0 da prova (art. 212 a 232)", Na Parte Especial cuida-se do direito das obrigagbes (arts. 233 a 965); do direito de empresa (arts. 966 a 1.195); do direito das coisas (arts. 1.196 a 1,510); do direito de familia (arts. 1.511 a 1.783) e do direito das suces- 80es (arts, 1.784 a 2.027), nao mais invertendo como 0 fez 0 de 1916 a or- dem do Cédigo Civil alemao que Ihe serviu de modelo, que inclui em pri- ‘melro lugar o dizeito das obrigag6es, a0 qual se seguem 0 direito das coi- a5, 0 dieito de familia e o das sucessOes. Apresenta, ainda, um Livro Com- plementar, contendo disposigdes transitérias (arts. 2,028 a 2.046). ‘Néo € necessério apresentar aqui as discussGes sobre a utilidade ou con- -venincia da existéncla de uma parte geral no Cédigo, pois, se 0 legislador lan- ‘cou mio de um critério que a exige, nao se pode pretender suprimt-la. Apesar de haver objegées™” & sua incluso no Cédigo Civil, grande € sua utilidade por conter normas aplicaveis a qualquer relagio juridica. De- veras, 0 direito civil é bem mais do que um dos ramos do direito privado; estabelece os pardmetros de todo ordenamento juridico e engloba princi 126, W. Barros Monteiro, op. cit. p. 56; José Carlos Moreira Alves, A parte gerat do Pojeto {do Codigo Civil brasileiro, Sto Paulo, Saraiva, 1986; Ehrenzweig, System des Ostereichis- chen aligemcinen Privatrechts, Wien, 1927, §7,p. 36; Heck, Der allgemeine Teil des Pri- ‘atzechts Einwort der Verteldigung, Archiv flr diecivilistsche Prats, 146:1 esx; Georg ‘Amold Helse, Grundiss eines Systems des gemeinem Zivirechts, 1807; Alzira Pereira da Siva, A fungio da parte geral no Sistema do Cédigo Civil, RDC, 16:53; Vilian Bolimann, As inovagoes [urldicas na Parte Geral do Novo Cadigo Civil, RT, 793:42: Marlo A. Konrad e Sandra L.N. Konrad, Dieito chil 1, Colegio Roteiros Juridicos, S80 Paulo, Saraiva, 2008, p. 3 a 92; Luls Paulo Cotsim Guimaries, Diteto civil, Rio de neito, Elsevier, 2007, p-17 a. 126; Silvio Lufs Ferreira da Rocha, Direto cil 1, Parte Geral, Sio Pauto, Mathetros, 2010. 127, W.Barzos Montero (op. cit, p. 55) apresenta algumas critics & compreensio de ums Parte Geral e de uma Parte Especial. "Diz-se, p. ex, que a existéncia de ambas cons- ‘ital excesso de téenica... Airma-se ainda que o capitulo concernente 20s fatos jur- dicos interessa mais ao direlto das obrigagoes, sendo raros seus reflexos nos demals ‘amos do direlto civil. Nao se jusifcaria assim sua permanéncia na Parte Gera. As severa-se, por fim, que esta encerra principios meramente académicos, elementos he- terogeneos ou abstragoes intels, que poderiam ser perfeltamente dispensados, sem renhum prejaizo para o Cdigo. Tem-se por isso sustentado que as futuras codifics ‘sbes do direito privado nao mais precisarfo de Parte Gera.” Entre nés, Hahnemann Guimardes e Orlando Gomes s80 adeptos da corrente que pretende suprim-la, 7 ‘Trou Gerat 90 Dinerro Civie plos ético-jurfdicos de aplicagao generalizada e no restritiva as questOes cf- vels. £ consultando o direito civil que o jurista allenigena percebe qual a estrutura fundamental do ordenamento juridico de um dado pais e que 0 jurista nacional encontra as normas que tém repercusso em outros &mbi- tos do direito. £ na Parte Geral que estdo contidos os preceltos normativos relativos a prova dos negécios juridicos, a nocio dos defeitos dos atos juri- dicos, & prescrigao e & decadéncia, institutos comuns a todos os ramos do direito. Eis por que Planiol, Ripert e Boulanger sustentam que o direito c- vil continua sendo o direito comum, compreendendo normas atinentes as relagdes de ordem privada, generalizando conceitos fundamentais utiliza- dos, frequentemente, por juspublicistas"*, ‘Além do mais a Parte Geral fixa, para serem aplicados, conceitos, cate gorias e prinefpios, que produzem reflexos em todo o ordenamento juridi- co e cuja fixagao € condigéo de aplicacao da Parte Especial e da ordem ju- ridica; isto 6 assim porque toda relagio juridica pressupde sujeito, objeto € fato propulsor que a constitui, modifica ou extingue. Como veremos, logo mais adiante, a relagio juridica pode ser focalizada sob trés prismas: sujel- to, objeto e relacto de interesse sobre 0 objeto, que é 0 nexo de ligacto en- tre eles. A Parte Especial contém normas relativas ao vinculo entre o sujei- to €0 objeto, e a Parte Geral, as normas pertinentes ao sujeito, ao objeto e 2 forma de criar, modificar e extinguir direitos, tornando possivel a aplica- ‘io da Parte Especial. Logo, a Parte Geral do Cédigo Civil tem as fungdes Ge dar certeza e estabilidade aos seus preceitos, por regular, de modo cogen- te, ndo s6 05 elementos da relacio juridica, mas também os pressupostos de sua validade, existéncia, modificacio e extincgo e possibilitar a aplica- sao da Parte Especial, j& que € seu pressuposto légico. Clara é sua Fungo operacional no sentido de que fornece & ordem juridica conceltos necessé- rios a sua aplicabilidade™. Ater-nos-emios neste Livro ao exame da Parte Geral, daf 0 seu titulo: ‘Teoria Geral do Direito Civil. 128, Planiol, Ripert e Boulanger, Traitéélémentaire du droit cv, . 1, 1. 32, p. 13; Caio M. S. Pereira, Op. cit, p.32.€ 33, Constitul a Parte Geral o alicezce para a operacionslide- {e juridica, por estabelecer as linhas basilares para adequar a norma 20s fatos socials in flere 20s valores vigentes na sociedade atual, 129. A esse respeito vide Ephraim de Campos Jr, A funcio desempenhada pela Parte Ge- ral no direito civil e fora do direito civil ~ Anilise da Lei de Introdugdo a0 Cédigo Civil esua funcao no ordenamento juridico. Trabalho apresentado em 1980 no Cut 80 de P6s-Graduacio em Direito da PUCSR,p. 1-9 QuapRO SINOTICO r FE ‘Trowia Grxal po Dintro Crvmt 4 Gi Dinette € D. A Ler DE INTRODUGAO As NorMas Do Dinero BRASILEIRO 4.1. 0 contesido e a fungio da Lei de Introdugio as Normas do Dircito Brasileiro : (© Decreto-lei n. 4.657/42, que revogou a antiga Lei de Introdugo a0 f Cédigo Civil n. 3.071/16, modificando varios principios que haviam inspi- rado 0 legislador de 1916", continua vigente, mas, pela Lei n. 12.376/2010, recebeu nova nomenclatura, passando a ser Lei de Introdugdo as Normas do Direito Brasileiro. modifier e extingult 5, de modo cogente, no 56 do Codigo Ci Para Wilson de Campos Batalha, a Lei de Introdugio € um conjunto de normas sobre normas*, isto porque disciplina as préprias normas jurf- dicas, assinalando-Ihes a maneira de aplicagao e entendimento, predeter- minando as fontes de direito positivo, indicando-Ihes as dimensbes espé- i cio-temporais. Isso significa que essa lei ultrapassa 0 ambito do direito ci- vil, vinculando 0 direito privado como um todo e alcangando o direito pi- lico, atingindo apenas indiretamente as relacOes juridicas. A Lel de Intro- ducao contém, portanto, normas de sobredireito ou dé apoio que discipli nam a atuagao da ordem jurfdica. 86, + Dhishvels e indivsvels — ats. 87 & 88 = Singulares e coletvos — ars. 89 a 97. 91 «Principals e acessios — arts, 92 a + Iméuels— ants. 79 2 81 + MBvels — arts, 82 84. + Fungiveis e consumiveis atts 70.3 78. tos — ars, 186 a 18. * Presto e decadéncia — arts, 189 a 211 6 (0 E FUNCOES te considerads fem si mesos, + NegSciojurdico — ats, 104 a 184; sua prova — arts. 212 8 + Bens pablicese particulares — arts. 98 a 103. 2s 0 seta, 20 objeto e & forma de i & i + Pessoa natural — arts. 122 38. + Pessoa jurdiea — ares, 402 69. + Bens considerades Bens reciprocamen- * Domict ‘Nao estd inclufda no Cédigo Civil, cuja matéria se circunscreve as re- i ages de ordem privada, por tal raz4o, em boa hora veio a lume a Lei n. 12.376/2010. Além disso a fixagao de normas desse teor, em uma lei espe- cial, tem a vantagem de permitir ulteriores modificagdes, independente- mente das transformagGes que se operarem nos institutos civis. modiiacio e extingdo ‘clementos de relagdojuricca, mas também os prestuposts de sua valdade, exis. tos, torando possivel a apicao da Parte Especk fen todo 0 ordenamento ji em sentido amplo Acertada é sua nova denominacio, visto que se estende muito além do Cédigo Civil por abranger principios determinativos da aplicabilidade, no tempo e no espago, das normas de direito privado ou de direito pabli- 0 (arts. 12. 6) e por conter normas de direito internacional privado (arts. 7 a 19), Nao é uma lei introdutéria ao Cédigo Civil. Se 0 fosse conteria apenas normas de direito privado comum e, além disso, qualquer altera- cdo do Cédigo Civil refletiria diretamente sobre ela. Na verdade, é uma lei d + Dar certeza eestabildade aos seus preceltos, por ret PARTE GERAL: OBj + Bens jriicos + Fatosjurdicos + Pessoas 8 2 § 4 3 i 5 3 : i i a i + Conter normas + objeto Fungbes 130, Silvio Rodrigues, Ditelto evi, cit, ¥. 1, p. 37. 131. W. Campos Batalha, Lei de Inrodupto ao Codigo Civil, Sto Paulo, Max Lirmonad, 1959, ¥. 1, p.5 € 6; Maria Helena Diniz, Lel de Introdugao ao Céaigo Civil brasileiro interpre- nda, Sao Paulo, Saraiva, 2001; Espinola e Espinola Filho, A Lei de Introdugto ao Ci digo Civil brasileiro comentada, Rio de Janeiro, 1943, v1, p. 10; Oscat TenGrio, Lei de Inrodugao ao Cédigo Civil brasileiro, Borsol, 1955; Lair da Silva Loureiro Filho, Let de Introdugdo ao Céalgo Civitinterpretada, Sao Paulo, juarez de Oliveira, 2000; Pablo Stol- 22 Gagliano e Rodolfo Pamplona I, Nove curso, cit, v. 1, p. 59-81; Zeno Veloso, Co ‘mentrios & Lei de Introducto ao Cédigo Civil — arts. 1 68, Belém, Unama, 2005 PARTE GERAL 74 Cunso ot Dinzsro Crvn Brasiteino dt introducao as leis, por conter principios gerals sobre as normas sem qual- quer discriminagio, Trata-se de uma norma preliminar a totalidade do or- denamento juridico. £ uma lex legum, ou seja, um conjunto de normas so- bre normas, constituindo um direito sobre direito (ein Recht der Recht- sordnung, Recht ieber Recht, surdrot, jus supa jura), um superdirelto, ou me- Ihor, um direito coordenador de dizeito. Nao rege, portanto, as relagoes da vida, mas sim as normas, indicando como aplicé-las, determinando-lhes a vigencia e eficiia, suas dimens6es espaciotemporais, assinalando stas pro- jecbes nas situagoes conflitivas de ordenamentos juridicos nacionais ealie- nigenas, evidenciando os respectivos elementos de conexdo determinantes das normas substantivas, deste ou daquele outro ordenamento jurfdico, aplicaveis no caso de haver conflito de leis no espago. Descreve, tdo so- mente, as linhas bisicas da ordem juridica, exercendo a funcio de lei ge- ral, por orientar a obrigatoriedade, a vigencla espaciotemporal, a interpre- tagio e a integragao da lei e por tracar as diretrizes das relagbes de direito internacional privado por ela tidas como adequadas por estarem confor- mes com as convensdes e com os tratados a que aderiu o Brasil. um cédigo de normas. José Manoel de Arruda Alvim Neto chega até a compari-la a um verdadeiro “Cédigo Civil” em miniatura, por conter nor- ‘mas que apontam os elementos de conexdo pertinentes & pessoa e a fami- ia (arts, 78 € 11), aos bens (art. 8°), as obrigacdes (art. 98) e a sucessao (art. 10), na hipétese de existir um fato interjurisdicional. A Lei de Introdugiio € aplicével a toda ordenagio juridica, ja que tem as fungdes de: regular a vigéncia e a eficdcia das normas juridicas (arts. 1° 28), apresentando solugées ao conflito de normas no tempo (art. 6%) e no espaco (arts, 72 a 19); fornecer critérios de hermentutica (art. 59); estabele- cer mecanismos de integracao de normas, quando houver lacunas (art. 4%); garantir ndo s6 a eficdcia global da ordem juridica, nao admitindo o erro de direito (art. 34) que a comprometeria, mas também a certeza, seguranca ¢ estabilidade do ordenamento, preservando as situagdes consolidadas em que o interesse individual prevalece (art. 6°), 182, Ephraim de Campos Je, op. cit, p. 10¢ 11. Vide]. M. Arruda Alvim Neto, Diet pro- ‘issu chil, Sio Paulo, Revista dos Teibunais, 1972, v. 1; Enneccerus, Kipp ¢ Wolff, TTratado de derecho civil, Barcelona, Bosch, 1934, v. 1; Espinola, A Lei de Inroducdo ao Citgo Civil Drasteio comentada, v1 (arts. a 7); v-2 (arts. 8 e 9); v3 (arts. 10 8 18), Sto Paulo, Freitas Bastos, 1943 e 1944; Oscar Tendo, Lei de Inrodusto ao Cid _g0 Civil brasileiro, 2, e0,, Rio de Janelro, Borsoi, 1985; Maria Helena Diniz, Lei de In- frodugao, eit, p. 3-6; Fore e outros, Delle disposizion! general sulla pubblicazione, pplicazione ed interpretazione delle legal, inl ditto cvile italiano secondo ta dotr- hae la giurisprudenza, 1915, Parte 1, ¥. 1, p. 108 € 109, b 75 ‘Teonia Ganat 90 Dinstro Apresentaremos apenas alguns dos principais problemas regulados pela Lei de Introdugao as Normas do Direito Brasileiro, indispenséveis para a compreensio das matérias concernentes ao direito civil. 42. A aplicagéo das normas juridicas (© momento da aplicagdo da norma é caracterfstico do direito positivo. Isto porque as normas positivas existem, fundamentalmente, para serem aplicadas!™. A norma contém, em si, uma generalidade, procede por abstragio, fi- xando tipos, referindo-se a uma série de casos indefinidos e nao a pessoas determinadas ou relagbes individualmente consideradas, ou seja, a casos concretos*, De modo que essa abstrago de normas, em virtude de seu pro- cesso generalizante, implica seu afastamento da realidade, surgindo uma oposigao entre normas juridicas e fatos. Contudo, essa oposi¢ao nao é um. hiato insanavel, porque os fatos individuais apresentam 0 geral determina- do no conceito abstrato, ou seja, uma “nota de tipicidade”, que permite que sejam enquadrados nos conceitos normativos". Deveras a norma juridica 6 se movimenta ante um fato concreto, pela actio do magistrado, que € 0 intermediério entre a norma e a vida ou o instrumento pelo qual a norma abstrata se transforma numa disposicio concreta, regendo uma determina- da situacdo individual. Assim o dispositive do Cédigo Civil que estabelece a protecdo possess6ria, garantindo o possuidor, permanece como norma abstrata, até o momento em que este, alegando uma turbacdo da posse, pede a0 érgio judicante a aplicagdo da norma protetoral*, A aplicagio do direl- to, dessa forma concebida, denomina-se subsungio™, 158, Bet Inptsine dela lege «deg at uric, Mita, Git, 1949; Heme W. Jhnson hs Aagomentatoe apa consGteny in Lops et aaj I, p 388 Tosco pond The theory of judicial decsions rh Letre on legal psp, 145 Oro Eibe Nona, Apecton do modern oi ia Panda bares 8, par ‘erp.i76 Bagi Cris de morn, O ite apcado dase, No dee Foten $= pa Hatton Hit Ae, O pose Jul ea tpt da rons frie havi 1 sto Palo Sasa 2995; Ceo Reto Bates, Hermans epee, Sic rnuto, Caso Bartow ed, 2002, 194. lipo Sita, Heendtca no dito basi, 1968, v1, p. 22 138. Trl Fras ey Anode roma utica na ora de Miu Reale, Separats da Re ‘vista Ciéncia ¢ Cultura, v. 26, p. 1011 ¢ 1112. oi 136, Sepa Lopes, opty, p23, 137 Lat Die aso, Experientia jrfcsy tori de dah, arclona, fil, 1973, 2b ens Ennecsér pp € Well op. Gta 1. 196 C197 76 Curso ns Dinero Givin Brastteino um conceito abstrato normativo ele ndo ¢ apreendido em sua totalidade, pois esse fato 6, tdo somente, um geral determinado coincidente com 0 equivalente que est previsto no conceito; os demais caracteres desse fato nao abrangidos pelo conceito sto tidos como indiferentes para a subsun- do. O conceito normative contém uma potencialidade, que possibilita a subsuncao dos objetos individuais por ele abarcados, excluindo os que nao so por ele alcancados. A subsungao revela a perseveranga do juiz em se aproximar mais da realidade fatica, completando 0 pensamento abstrativo contido na norma" ‘Anorma de direito é um modelo funcional, que contém, em si, 0 fato, pois, sendo um tipo geral oposto a individualidade concreta, pode ser adap- tada a esta tltima™, Logo, tipo contido no preceito normativo tem du- pla fungio: € meio de designacio dos elementos da hipétese de fato e for- ma de apreensio e exposicio de relacdes juridicas. Na determinacao do direito que deve prevalecer no caso concreto, 0 juiz deve verificar se 0 direlto existe, qual o sentido exato da norma aplicavel ¢ se esta norma aplica-se ao fato sub judice™®. Portanto, para a subsuncao é ne- cesséria uma correta interpretagdo para determinar a qualificacio juridica da matéria fética sobre a qual deve incidir uma norma geral"*, ‘Quando, ao aplicar a norma ao caso, o juiz ndo encontra norma que @ este seja aplicavel, nao podendo subsumir o fato a nenhuma norma, por- que ha falta de conhecimento sobre um status juridico de um certo com- portamento, devido a um defeito da ordem normativa que pode consistir nna auséncia de uma solucdo, estamos diante do problema da lacuna. Como 0 elaborador de normas jurfdicas pretende construir preceitos para 0 futu- ro, que néo € previsivel, dada a infinita complexidade da vida moderna, submetida a mutacées constantes, e nfo consegue abarcar em suas férmu- 138, Youne D. Olivet A ticndeno dria tro brasil, ct, p- 3, 1617; Engs- Enea das decoccn n a dec yl cena fren acece,Pampions, ¥ Uoi- ‘etsidad de Navas, 1968, p. 415 © 417 138. M. Reale, Odeto como expert, S80 Paul, 1968, p. 191,192 € 20 140. Serpa Lopes op. et, v1, p 125; ear, Trattat dito chil v. 1p. 195 e& 141, Palas, La intnpretacion os apotegmas uri lies, Made, Techs, 1975, p36 Gaaaldo Ararha Bendel dello, Fincpos ert de eto admis, Rio de Jane, Forense, 1969, p. 242; R Litong\ Prange, De rspradénca como dito post tivo Sepaata da Rew Fo Di USP, 1971, 66, . 218. 7 ‘Tronts Genat vo Dinetro Civin las todas as hipéteses possfveis de comportamento, o juiz encontra-se, al- gumas vezes, de fato, ante a questo problemitica de decidir casos nao pre- vistos em normas jurfdicas, Daf a importante misao do art. 4* da Lei de Introdugao as Normas do. Direito Brasileiro, que dé ao magistrado, impedido de furtar-se a uma deci sio, a possibilidade de integrar a lacuna, de forma que possa chegar a uma solugio adequada, Trata-se do fenémeno da integrago normativa. um de- senvolvimento aberto do direito, dirigide metodicamente, em que o apli- cador adquire consciéncia da modificagio que as normas experimentam, continuamente, ao serem aplicadas as mais diversas relacdes da vida, che- gando a se apresentarem, na ordem normativa, omiss6es concernentes a uma nova exigencia da vida. O juiz tem permissio para desenvolver o di- relto sempre que se apresentar uma lacuna, ‘Ao lado do princfpio da plenitude do ordenamento juridico situam-se 0 da unidade da ordem juridica ¢ o da coeréncia légica do sistema, que podem evar-nos & questo da correeao do direito incorreto, em razdo da existéncia de uma antinomia real, que precisaré ser solucionada, pois © postulado des- ses principios é 0 da resolucdo das contradigbes, pois, se for aparente, sera resolvida pelos critérios normativos: hierérquico, cronolégico e da especiali- dade, O sistema juridico deverd, teoricamente, formar um todo coerente, de- vendo, por isso, excluir qualquer contradicio, assegurando sua homogenei- dade e garantindo a seguranca na aplicacio do direito. Para tanto, o jurista langaré mao de uma interpretacdo corretiva, guiado pela interpretagao siste- matica (LINDB, arts. 4° e 5°), que o auxiliara na pesquisa dos critérios a se- rem utilizados pelo aplicador do direito para solucionar a antinomia. Havendo lacuna, ou antinomia, o jurista deve, ao sistematizar o direi- to, apontar o critério solucionador. O processo de sistematizacao juridica ‘compreende varias operacdes que tendem nao 6 a exibir as propriedades normativas, faticas ¢ axiol6gicas do sistema e seus defeitos formais (lacunas ¢ antinomias), mas também a reformulé-lo para alcangar um sistema har- ménico, atendendo aos postulados de capacidade total de explicasao, au- stncia de contradig6es e aplicabilidade fecunda do direito a casos concre- tos. Logo, havendo lacuna ou antinomia, a sua solugdo ¢ encontrada no sis- tema jurfdico elaborado pelo jurista. (© magistrado tem, ao aplicar o direito, criando uma norma individual, autorizagio de interpretar, integrar e corrigir as normas, devendo, para tan- to, manter-se dentro dos limites assinalados pelo direito, de maneira que 0 desenvolvimento do direito s6 poderé dar-se dentro dos marcos jurfdicos. 78 Gunso ps Dinsira Civit Buasiieino [As decis6es do juiz devem estar em consonfncia com o espirito do ordena- mento furidico, que ¢ mais rico de contetido do que a disposicéo normati- ‘va, pois contém ideias juridicas, critérios juridicos e éticos, ideias juridicas féticas que ndo encontram expresso na norma de direito. Assim sendo, em. caso de lacuna, por exemplo, a norma individual completante do sistema néo € elaborada fora do sistema juridico, pois o 6rgio judicante teré, a0 emiti-la, que se ater aos fatos, valores ¢ normas que o integram. ‘A aplicagio do direito encerra as seguintes operagdes técnicas: constru- do de conceitos juridicos, definindo tecnicamente os vocébulos contidos na lei, e ordenacao sistematica do direito pelo jurista; determinacao da exis- téncia espacio-temporal da norma pelo 6rgao aplicador; interpretagao da norma pelo jurista e pelo 6rgio, ao subsumir; integracéo do direito pelo 6r- ‘go, ao preencher lacunas; investigacio corretiva do direito pelo jurista e pelo érgio, ao solucionar antinomia real; determinacio, pelo érgi0, da nor- ‘ma aplicavel, por servir de fundamento de validade a norma individual (sen- tenca ou acérdao) e estabelecimento de uma relagao entre a norma indivi- dual, ctiada pelo drgéo para o caso sub judice, e outras do ordenamento, que se sabe validas*®, 4.3. A interpretagio das normas |A parémia latina in claris cessat interpretatio nao tem qualquer aplicabi- lidade, pois tanto as leis claras como as ambiguas comportam interpreta- 40. Nesse sentido bastante convincentes sdo as palavras de Degni de que “a clareza de um texto legal € coisa relativa. Uma mesma disposicio pode ser clara em sua aplicagzo aos casos mais imediatos e pode ser duvidosa quando se aplica a outras relages, que nela se possam enquadrar e as quais nao se refere diretamente, ¢ a outras questdes que, na prética, em sua atua- G0, podem sempre surgit, Uma disposic4o poder parecer clara a quem a examinar superficialmente, ao passo que se revelard tal como é a quem a 1142. Larenz, Metodologia dela clencia del derecho, Barcelona, Ariel, 1968, p. 201; Karl Engis- ch, Inodugao ao pensamentojurdica, Lisboa, 1962, p. 253; Gavaza, Delle antinomle, ‘Torino, Giappichell, 1959, p. 165-8; M. Helena Diniz, Confito de normas, Ss0 Paulo, Saraiva, 1987; Lei de ntrodigao, cit, p. 11-13; Leo Gabriel, Integrale logit, 1968, p. 273; José Castin Tobefas, Teora de la aplicaiOn e investigacin del derecho. Metodologia y ‘ouica operatoria en derecho privado positb, Madrid, 1947, p. 205, nota 161; José M. Oviedo, Formaciin y aplication del derecho, Madrid, 1972, p. 100, 147-50; Walter Cam- ‘paz, Diteto,itorpretacao, aplicagaoe integragdo, Sko Paulo, Juarez de Oliveira, 2001. saci 79 ‘Teonsa Genat no Dinerro Civ considerar nos seus fins, nos seus precedentes hist6ricos e nas suas cone- -xes com todos os elementos sociais, que agem sobre a vida do direito na sua aplicacao a relagdes, que, como produto de novas exigéncias ¢ condi- (90es, nao poderiam ser consideradas, ao tempo da formaco da lei, na sua conexio com o sistema geral do direito positivo vigente”. ‘As fungdes da interpretaco so: a) conferir a aplicabilidade da norma juridica as relagdes sociais que Ihe deram origem; b) estender o sentido da norma a relacdes novas, inéditas ao tempo de sua crlaco; ¢ ) temperar 0 alcance do preceito normativo, para fazé-lo corresponder as necessidades reais ¢ atuais de caréter social, ou seja, aos seus fins sociais e aos valores que pretende garantir. Interpretar é descobrir o sentido € o alcance da norma jurfdica. Devido a ambiguidade do texto, imperfeicao e falta de terminologia técnica, mé re- dacio, 0 aplicador do direito, a todo instante, est interpretando a norma, pesquisando seu verdadelro significado. Interpretar é, portanto, explicar, es- clarecer; dar o sentido do vocabulo, atitude ou comportamento; reproduzir, por outras palavras, um pensamento exteriorizado; mostrar o verdadeiro sig- nificado de uma expresso, assinalando, como o disse Enneccerus, o que € decisivo para a vida jurfdica; extrair da norma tudo o que nela se contém", revelando seu sentido apropriado para a realidade e conducente a uma so- luso justa, sem conflitar com o direito positivo e com o meio social. A interpretacao, acrescenta Miguel Reale™, € um momento de inter- subjetividade: 0 ato interpretativo do aplicador, procurando captar 0 ato de outrem, no sentido de se apoderar de um significado objetivamente ver- dadeiro. O ato interpretativo implicaria uma duplicidade, onde sujeito e objeto estao colocados frente a frente’, Para o intérprete, aquilo que se 143. Degni, Vnterpretazione della lege, Napoli, 1909; Manoel A. Domingues de Andrade, Ensaio sobre teoria a interpratacao das leis, Coimbra, 1987; Gaston May, Introduction & la science du dott, Patis, 1932, p. 75-6; Machado Neto, Compendio de Introdusao & Cincia do Diretto, Sao Paulo, Saraiva, 1984, p. 216-7; Kalinowsky, Philosophie et logique de Vinterpretation en droit, Archives de Philosophie du Drot, Pats, n. 17, p. 48; Carlos Maximiliano, Hermenéutica aplicagao do dircito, 8. ed, Ro de Janeiro, Freitas Hastos, 1965, p. 13, 14, 22 ¢ 246, 144. M. Reale, O drelto, ct, Si0 Paulo, Saraiva, 1968, p. 240. 14S. Ferraz Jt, A nogio de norma jurdic, elt, p. 1013. Poder-se-4 dizer até que esse conhe- cimento interpretativo se apresenta como uma transferéncia das propriedades do ob- jeto para o sujeito cognoscente, Aquilo que o “eu” é, quando st tora sujeto pen- sante, 0 € em relacio ao objeto que pretende conhecer A funsio do sujlto consiste em aprender o objeto, eessa apreensio apresenta-se como uma sada do suelto para 80 Gunso ng Dintiro Civ Brasinsiso interpreta consiste em algo objetivo, porém o aplicador da norma nio a reproduz, mas contribui, de um certo modo, para constitui-la em seus va- lores expressivos™, Num momento posterior, a duplicidade inicial — su- jeito e objeto — passa a ser uma “intersubjetividade", na medida em que © ato interpretativo deixa de ser uma coisa, passando a ser um outro ato: as “intenclonalidades objetivadas", que constituem o dominio préprio da interpretagao™, fa hermentutica que contém regras bem ordenadas que fixam os crl- térios e principios que deverao nortear a interpretacdo. A hermentutica 6 a teorla clentifica da arte de interpretar Para orientar a tarefa interpretativa do aplicador varias técnicas exis- tem: a gramatical, a légica, a sistemdtica, a hist6rica e a sociol6gica ou te~ leologica. Pela gramatical, que se funda em regras da linguistica, examina 0 aplicador cada termo do texto normativo, isolada ou sintaticamente, aten- dendo pontuagio, colocacdo dos vocabulos, origem etimol6gica etc. Tem sempre em vista as seguintes regras: 1) as palavras podem ter uma signifi- cago comum e uma técnica, caso em que se deve dar preferéncia ao signi- ficado téenico; 2) deve-se considerar a colocacio da norma, Como, Pp. €X.. uma disposi¢ao inclufda no capitulo sobre curatela esta indicando que se destina a regular essa forma de Incapacidade; 3) havendo antinomia entre 6 sentido gramatical e 0 l6gico, este deve prevalecer; 4) 0 sentido da pala- ‘vra deve ser tomado em conextio com o da lei; 5) 0 termo deve ser inter~ pretado em conexéo com os demais; e 6) havendo palavras com sentido di- ‘verso, cumpre ao intérprete fixar-Ihes 0 verdadeiro"*, Na Idgica 0 que se pre tende é desvendar o sentido e 0 alcance da norma, mediante seu estudo, por meio de raciocinios logiogy analisando os pesfodos dale ¢ combinan- do-os entre si, com 0 escopd-ddatingir perfeita compatibilidade'™. A siste- ora de sua esfera, como uma invasio da esfera do objeto e como uma captacio das propriedades deste. £ 0 que ensinam Manuel Garcia Morente, Fundamento de filso- Jha; lgoes preliminares, 4. ed., Sko Paulo, Mestre Jou, 1970, p. 147, 217, 243, 244, 362 e 263; Maria Helena Dini, A cizncia juridca, cit, p. 170.€ 171. 146. M, Reale, O direto, lt, p. 241; Peraz J, A norma juriica, ct, p. 1013. 147, M. Reale, op. cit, p. 242 © 247; Fecraz Jt. (A nogio de norma juriica, cit, p. 1013) es Clarece: “ntessubjetividede” significa vinculagio entre dois elementos que se pOem “istintamente, mas ao mesmo tempo se interpenetram e se limitam. 1148, Carlos Maximiliano, op. ct, p. 14 € 15, e Serpa Lopes, op. cit. p. 129. 4149. Degat, L'nterpretazione della legge, NSpoles, 1909, p: 236 e s Perrara, Trattato di dirt waivlle, p. 206 es 150. Vide as ligbes de Vander Eycken, M'tnterprétaton juridique, Beuxclas, 1907, p. 34 €s i t i 81 ‘Torta Guat D0 Dinnire Civin ‘atica € a que considera o sistema em que se insere a norma, relacionando- a.com outras concementes ao mesmo objeto, pois por uma norma pode- -se desvendar o sentido de outra. Isto assim porque o sistema juridico nao se comp0e de um s6 sistema de normas, mas de varios, que constitue um conjunto harménico e interdependente, embora cada qual esteja fixado em seu lugar proprio. A histérica, oriunda de obras de Savigny Puchta, cujas ‘defas foram compartilhadas por Espinola, Gabba, Holder, Biermann, Cim- bali, Wach, Alipio Silveira, Degn!, Saleilles, Bekker etc.¥*, baseia-se na ave- riguacdo dos antecedentes da norma. Refere-se a0 hist6rico do processo le- gislativo, desde o projeto de lei, sua justificativa ou exposigio de motivos, ‘emiendas, aprovacio e promulgagao, ou as circunstanclas faticas que a pre- cederam e que Ihe deram origem, 8s causas ou necessidades que induziram 0 Orgio a elaboré-la, ou seja, as condigbes culturais ou psicol6gicas sob as, quals 0 preceito normativo surgiu (occasio legis). Como a maior parte das rormas constitui a continuidade ou modificacao das disposicbes preceden- tes, € bastante ttil que o aplicador investigue o desenvolvimento historico das instituigoes juridicas, a fim de captar exato significado das normas, tendo sempre em vista a razo delas (ratio legis), ou seja, 05 resultados que visam atingle. E a socioldgica ow teleoldgica objetiva, como quer Ihering, adap- tar o sentido ou finalidade da norma as novas exigéncias sociais, adaptacéo esta prevista pelo art. 5° da Lei de Introducio, que assim reza: “na aplica- ‘s80 da lef, 0 juiz atenderé aos fins sociais a que ela se dirige e as exigéncias do bem comum”,. Os fins sociais e.0 bem comum séo, portanto, sinteses éticas da-vida em comunidade, por pressuporem uma unidade de objetivos do comportamento humano social. Os fins sociais s40 do direito; logo, & preciso encontrar no preceito normativo o seu telos (fim). O bem comum postula uma exigéncia, que se faz & propria soclabilidade; portanto, nao é tum fim do direlto, mas da vida social. O sentido normativo requer a cap- taco dos fins para os quais se elaborou a norma'™. A interpretasi6, como nos diz Ferrara, nio é pura arte dialética, ndo se desenvolve como método ‘geométrico num cfrculo de abstracoes, mas perscruta as necessidades préti- ‘as da vida e a realidade social. O aplicador, nas palavras de Henri de Page, 151. Degny op. ct; Savigny, Stn de dro romano ai p. 246, 850 Esptnol, Peta lo vl Beso, 3 «4 Apo Ser, De Yee sao face dos vans tees polices, 194 152, vito qu enim W.. Bata, op. tp $43 SS JeanDetolamon, La sci wa aber: 2iée iets Sapis Rees oboe ee dod ts ste babe, sake 1808, p 2608 82 Gunso ox Dinsiro Civis Brastueino nao deverd quedar-se surdo as exigéncias da vida, porque o fim da norma no deve ser a imobilizagio ou a cristalizagéo da vida, e sim manter conta- to fntimo com ela, segui-la em sua evolugdo e adaptar-se a ela. Dai resulta, continua ele, que @ norma se destina a um fim social, de que o julz deve participar ao interpretar o preceito normativo. Convém lembrar, ainda, que as diversas técnicas interpretativas ndo operam isoladamente, no se excluem reciprocamente, mas se completam. Na realidade, ndo sio cinco espécies de interpretacdo, mas operagbes dis- tintas que devem sempre atuar conjuntamente, pots todas trazem sua con- tribulcdo para a descoberta do sentido ¢ alcance da norma de direito. Aos fatores verbals allam-se os légicos e com os dois colaboram, pelo objetivo comum, 0 sistematico, o hist6rico ¢ 0 sociol6gico ou teleolbgico. Eis a ra- Zo pela qual se diz que o ato interpretativo € complexo: hé um sincretis- ‘mo de processos interpretativos conducente & determinasio do alcance ¢ sentido normativo, Todas as técnicas interpretativas coordenam-se em fun so da teleologla que controla o ordenamento jurfdico, visto sistematica- mente, pois a percepsiio dos fins exige nao o estudo de cada norma isola- damente, mas sua anélise no ordenamento jurfdico como um todo. Toda- via, com isso nfio se quer dizer que todos devam ser einpregados simulta- neamente, pois um pode dar mais resultado do que o outro em dado caso, condenando-se, isto sim, a supremacia de um proceso sobre 0 outro. To- dos os exageros so condendveis, nao se justificando qualquer exclusivismo. ‘A interpretagdo é una, nfo se fraciona; €, tao somente, exercida por varios, rocessos que conduzem a um resultado final: a descoberta do alcance € sentido da disposigéo normativa. Hé hip6teses em que o jurista ou o juiz, devem Iangar mo da interpretagdo extensiva para complementar uma nor- ‘ma, 20 admitir que ela abrange certos fatos-tipos implicitamente. Essa in- terpretacio ultrapassa 0 nticleo do sentido da norma, avangando até o sen- {ido literal possivel desta, conchuindo que o alcance da lel € mais amplo do que indicam seus termos. A norma constante na Lei do Inquilinato, de que “o proprietério tem direito de pedir o prédio para seu uso", inclui o usufru- ‘tudtio, porque o fim da lei é alcancar os que tém sobre o prédio um direi- to real, Outras vezes o aplicador da norma deve reconduzi-la a0 campo de aplicagao que corresponde ao fim que pretende obter (LINDB, art. 5°), por- gue foi formulada de modo amplo, para tanto valendo-se da interpretarao restritiva, que restringe 0 sentido normativo, com 0 escopo de dar aque- 153, Sobre os tipos de interpretagto, vide Serpa Lopes, op. cit, v1, 128-67; Carlos Ma- ximiliano, op. eit, p. 120. 240; W. Barros Montelro, op. cit, v. 1, p. 35; Vicente Réo, | | | | | | | | & 83 Tronta Gexat no Dinerro Civit la norma aplicagio razoavel e justa. Ter-se- interpretacio declarativa, ou es- pecificadora, apenas quando houver correspondéncia entre a expressao lin- guistico-legal e a voluntas legis, sem que haja necessidade de dar ao coman- do normative um alcance ou sentido mais amplo ou mais restrito. Tal ocor- re porque o sentido da norma condiz com a sua letra, de modo que o in- térprete e 0 aplicador t4o somente declaram que 0 enunciado normativo contém apenas aqueles pardmetros que se depreendem de sua letra. essa forma, o intérprete, a0 compreender a norma juridica, descobrin- do seu alcance e significado, refaz 0 caminho da “f6rmula normativa” ao “ato normativo”; tendo presentes os fatos e valores dos quais a norma ad- ‘vém, bem como 0s fatos e valores supervenientes, ele a compreende, a fim de aplicar em toda sua plenitude o “significado nela objetivado"™*, dd. A incegragio das normas juridicas e a questéo da corresio da antinomia juridica O direito € uma realidade dinamica, que esté em perpétuo movimen- to, acompanhando as relagdes humanas, modificando-as, adaptando-as as, novas exigéncias e necessidades da vida", inserindo-se na histéria, brotan- do do contexto cultural. A evolugdo da vida social traz em si novos fatos, € conflitos, de modo que os legisladores, diariamente, passam a elaborar novas leis; juizes ¢ tribunais de forma constante estabelecem novos prece- dentes ¢ os préprios valores sofrem mutagées, devido ao grande e peculiar dinamismo da vida. © direito é um dado que abrange experiéncias hist6ricas, sociolégi- as, axiolégicas, que se complementam. Logo, as normas, por mais com- O diretoe a vida do dirt, v. 1 t.2, p. $75 es; R. Limongi Franca, Das formas e apt cacao do direto positivo, Revista dos Tiibunals, 1969, p. 46 e s; A. Franco Montoro, Introdugao a cincia do direlt,v. 2, p. 124 e x; Cunha Barreto, Interpretacao das els, ‘RE, 117(539):40-4, 1948; Ferrara Iterpretacda e apicacto das lis, p. 37; De Page, Trai 1 démentaire de droit cil beget. 1, cap. I, p. 196 e s; Maria Helena Diniz, Compén- dio it, p. 392; Larenz, Metodoiogta de ia ciencia del derecho, Barcelone, Ed. Atel, 1966, . 270-2, 308 ¢ 309, 154. M. Reale, O direito como experiénca, cit, p. 247; Ferraz Jt, A norma juridca, elt, p. 1014. 45S. Edmond Pleard, O dieito puro, Lisboa, Toero-Americans, 1942, p. 87 © 30. 156. Francesco Calasso, Storicita del dirto, Milano, 1966, p. 198; Miguel Reale Je, Antu Fidicidade concreta, Bushatsky, 1974, p. 1; Ferraz J, Conceito de sistema no dete, io Paulo, Revista dos Teibunais, 1976, p. 171. 84 Gunso ne Dinerro Civin Baasiisino pletas que sejam, séo apenas uma parte do direito™”, ndo podendo iden- tificar-se com ele. Isto nos leva a crer que o sistema juridico é composto de varios subsis- temas, Na Tridimensionalidade Juridica de Miguel Reale encontramos a no- ‘cdo de que tal sistema se compée de trés subsistemas isombrficos: 0 de nor ‘mas, 0 de fatos e o de valores. Logo, 0s elementos do sistema esto vincu- lados entre si por uma relacdo, sendo interdependentes. De forma que quan- do houver uma incongruéncia ou alteracdo entre eles temos a lacuna ¢ a quebra da isomorfia, Havendo, portanto, inadequagao entre os subsistemas em razio da sua propria evolugio interna, pode ocorrer uma situagao inde- sejavel em que a norma e o fato que Ihe corresponde entrem em conflito com o valor que os informa, ou que 0 fato, devido a uma modificacao so- cial, nfo mais atenda aos ditames axiolégicos, contradizendo-se assim com. a norma, O direito é lacunoso, sob o prisma dinamico, jé que se encontra em constante mutacio, pois vive com a sociedade, sofre com ela, receben- do a cada momento o influxo de novos fatos; no hé possibilidade Logica de conter, em si, prescrigdes normativas para todos 0s casos. As normas S40 sempre insuficientes para solucionar os infinitos problemas da vida. O le- gislador, por mais habil que seja, ndo consegue reduzir os comandos nor- mativos as necessidades do momento, abrangendo todos os casos emergen- tes da constante elaborago da vida social que vém pedir garantia ao direi- to, por mais que este dilate o seu alcance e significado. As lacunas juridicas podem ser colmatadas, passando-se de um subsistema a outro", De modo ‘que elas sdo sempre provis6rias. 157.1. Vilanova, Légica,cléncia do dieito dirt, cit, p. $35; Santi Romano, EI ondena- ‘iento juriico, Ed. Instituto de Estudios Politicos, Macirid, 1963; Maria elena Diniz, Tclinda jurdica, et, p. 60 e 61; Campaninl, Ragione volonta nella legge, Milano, (Giure, p. 3 1198, Tercio Sampato Ferraz Je, Teoria da norma jurdca, Rio de Janeiro, Forense, 1978, D- 141, e Conctto de sistema no dieita, cit, p. 156, 157, 162 e 171. Nao aceitamos as cor- rentes doutrindrlas ue entendem que 6 sistema juridico€fechado, porque todo com- portamento est, deonticamente, nele determinado, sustentando, assim, o dogma da Plenituce hermética do ordenamento jusidico, baseado no principio de que "tudo {ue nao esta proibido esta permitido”. Isto porque, no nosso entender, esse princi- Dio nao consttul uma norma furidica positiva; nfo confere, portanto, direitos eob=- fagdes @ ninguém, sendo assim um mero enunciado logico, inferido da anlise do Sistema normative. Considerado sob o prisma da linguagem, serla uma metalingua- [gem Com isso essas teoras fracastam no empenho de sustentar que todo sistema ju- Fidico € uno, completo, independente e sem lacunas, pols concebem 0 direlto sob “uma perspectiva estética. H, ainda, quem considere as lacunas como uma questo x 85 ‘Troara Gena. no Diasrro Civiz Se nio se admitisse 0 carater lacunoso do direito, sob o prisma dint- mico, 0 Poder Legislativo, num dado momento, nio mais terla qualquer funcio, pols todas as condutas ja estariam prescritas, em virtude do prin- cipio “tudo o que nao esté proibido esta permitido”. &, além disso, afirmar que nao hé lacunas porque hé jufzes que, com base no art. 48 da Lei de In- trodusio as Normas do Direito Brasileiro, vao eliminando as lacunas, con- duziria a uma falsa realidade, pois os magistrados apenas as colmatam. O juiz cria norma juridica individual que s6 vale para cada caso conereto, pondo fim ao conflito, sem dissolver a lacuna, pois 0 caso sub judice por ele resolvido nao pode generalizar a solucéo para outros casos, mesmo que sejam idénticos. A norma individual s6 podera ascender a norma juridica eral apés um posterior processo de recepeo por uma lel. A instauragao de um modelo jurfdico geral cabe ao Poder Legislativo, bem como as mo- dificagdes e cortes6es da norma, procurando novas formas que atendam e satisfagam as necessidades socials. Logo, a teoria das lacunas tem dois objetivos: fixar os limites para as decisbes do rgao judicante e justificar a fun¢ao do Poder Legislativo™®. En- tretanto, reconhecemos a possibilidade de existir no ordenamento juridico principios e normas latentes, capazes de solucionar situagSes no previstas, expressamente, pelo legislador. Com isso queremos dizer que o direito apresenta lacunas, porém é, con- comitantemente, sem lacunas, 0 que poderia parecer paradoxal se se cap- tasse o direito estaticamente. Ele é lacunoso porque a vida social apresenta nuangas infinitas nas condutas humanas, problemas surgem, mudam-se as necessidades com 0 progresso, 0 que torna impossfvel a regulamentagio de todo comportamento por normas juridicas. Mas é sem lacunas, porque 0 seu préprio dinamismo apresenta solugio para qualquer caso sub judice, processus, que s aparece pot oct da aplicao do sistema num deteminado aso coneretd ndo previsto legalmente, fazencdo com que o problema tome uma fe ‘540 pragmtica, chegando a afirmar que nao ha lacunas porque hi julzes. Discorda- ‘mos dessa opiniso, pols a decisio judicial integra, porém nao elimina, a lacuna, n30 podendo, portanto, instaurar a completude no sentide de garantir que toda ago pos Sivel tenha um status dedntico. Além disso, a tarefa integradora do magistrado nio © autonoma, nem mesmo arbitrria; deve aterse sempre as pautas autorizadas pela dem urtdica, Sobre isso vide nossa tese de livre-doctneia As lacunas no dieito, Re- Vista des Tribunals, 1980 (2. ed, Saraiva, 1989). 159. Huberlant, Les mécanismesinstitués pour combler les lacunes dela lol, in Le probleme des lacunes en dro, Bruxelles, Perelman, 1968, p. 539; Picard, op. cit, p-31, 87 e 88, 86 Curso ps Dinerro Civit BxAstLsio dada pelo Poder Judiciério ou Legislativo. O préprio direito supre seus es- 1pacos vazios, mediante a aplicacio e criagio de normas. De forma que o sis- tema jurfdico nao € completo, mas completavel'®. Admitida a existéncia de lacuna Juridica, surge o problema de sua cons- tatagio e preenchimento, que s6 pode ser resolvido com 0 emprego dos meios indicados nos arts. 4 da Lei de Introducio e 126 do Cédigo de Pro- cesso Civil!®, ou seja, analogia, costume e principios gerals de direito. Para integrar a lacuna o julz recorre, preliminarmente, & analogia, que consiste em aplicar a um caso nao previsto de modo direto ou especifico por uma norma jurfdica uma norma prevista para uma hip6tese distinta, mas semelhante ao caso nao contemplado'™. Ba analogia um procedimento quase logico, que envolve dols procedi- mentos: a constatagao (empitica), por comparacéo, de que hd uma semelhan- 160. Este pensamento € de Trcio Sampaio Ferraz J, Concelto de sistema, cit p. 137; 0 esto sentido, De Casto, Derecho cil de Espa, p. S32 ¢ 833, Em que pese a este eso enendien, to 9 conddrams como poner fia sob @ qemma, pois ngo se encontra uma douteina que ofereca as coordenadas biscas que le. ‘em aluma opinido unanime do que sea‘ lacuna. Por so, fulgamos que a lacuna & {ima aporla, dima guestio aberta, uma vez que recebe visas respostes,conforme as premises que se afotem ou posilo ideologies que se tena 161. Os arts 4 da Lei de Introdupio © 126 do Ciidigo de Proceso Civil precetuam trés {Rstrmentos para suprislacinas: analogs, costame e principio gras de direto,€ O ait 335 do Codigo de Processo Civ @lspor que “em falta de normasjurdicas particulates, o juz aplcard as repr da experiencia comuns,subministradas pela ob Rewvado 20 que ordinariamente acontecse ainda as regras da experiencia técnica, Teslvado, quanto. esta 0 exame percial, cogta da hipétese da inexstenda de {isposigto lariiea especica accrea Go meto'de prova a ser uilizado para a elucida- {au de determinado fat, facultando o Jair a ataliajao de sua experiencia, tendo ‘Ein vista a observaguo ccidiana do que acontece. Nao se conundem com o costar {ne que versa sobre matia de ret. As maztmas de expeiéncia versa sobre maté- Tira io (nova pa consitem em as empes dvd, J come dn “Bsra, da dre, que sao uulizados na aprecagzo dos fats, para comprovévos ou a- {acterar sua sobmisso & noma furdica. #0 que nos ensina Moaeye Amaral Sa qos, Comentris ao CAlgo de Proceso Cl p. 18:46 162. W. Barros Monteiro, op. elt, v1, p. 41; Dotolle, Le raisomement par analog Pass, 1940, Von Tul, Derecho cit, Buenos Aires, Depslm, 1946, v1, 1,P. 57; Lanz, Metodoogia deta cecia det derecho, Barcelona, Al, 1966, 305; A. Hranco Monto- 10, op, cs Wed, 138, Stember,Inroducion ala cence del drazho,p- 133; Scuto, [stn ck privatos pate generale, p. 126; Sie de Salvo Venoss, Drea cv, Sto Patlo, Atlas, 1984, ¥ 1, p. 37. Exempligeativamente: nfo havendo norma ree. rentea urna questio de leasing, ou artendamento mezeandl, que é uma loeagao com ‘bpsto de coutpra do bem locado, o apicador poder para soluciona o problema, f- Bruso ds norma ausiva& compre e venda 043 locajo. i i ; | i i ia 87 ‘Torta Geeat po Dinztro Crvn. ca entre fatos-tipos diferentes, e um julzo de valor que mostra arelevancla das semelhancas sobre as diferencas, tendo em vista a decisto jurfdica procurada. Encontra-se, portanto, modernamente, na analogia uma averiguagiio valora- ‘iva, jf que ela tem por escopo ampliar, com base na semelhanga, a estrutura de uma situacdo, incorporando-Ihe uma situacao nova*®. Com efelto, reza 0 ‘nosso art. 5° da Lei de Introdugio as Normas do Direito Brasileiro que, “na aplicacdo da lei, o julz atenderd aos fins sociais a que ela se dirige e as exigén- cias do bem comum”; com isso nao se pode delxar de estender este dispositi- ‘yo a0 uso da analogia, pois 0 magistrado, ao buscar solucionar uma hipotese no prevista, deve valorar nao s6 0 texto legal de que se utilizaré para preen- chera lacuna, como também a solugao por ele obtida, mediante analogia, em fungao das circunstancias do caso sub judice'*. Percebe-se que 0 problema da aplicacio anal6gica no esté na averi- ‘guacio das notas comuns entre 0 fato-tipo e 0 nao previsto, mas sim em verificar se, valorativamente, essa coincidéncia justifica um tratamento ju- sdico Id8ntico para fatos examinados. Na seara do diréito civil larga é a aplicagio da analogia, como se pode- 4 ver nos seguintes exemplos: 1) (A, 30:156) —Nao se cogitando em texto expresso do Cédigo Civil sobre 0 modo de proceder em relacéo aos bens de menores, sob 0 patrio poder (hoje poder familiar), quando o pai € privado do usufruto inerente ao exercicio do patrio poder (hoje poder familiar), resolve-se a dificuldade recorrendo-se 20s princfpios que constituem a integraco por analogia, lan- gando-se mao do disposto no art. 411, pardgrafo tinico, do Cédigo Civil de 1916: “Aos irmaos 6rfos dar-se-4 um s6 tutor. No caso de ser nomeado mais ‘de um tutor por disposicao testamentéria sem indicago de precedéncia, en- tende-se que a tutela foi cometida ao primeizo, e que os outros Ihe sucede- ao pela ordem de nomeaco, se ocorrer morte, incapacidade, escusa ou qualquer outro impedimento. Quem institui um menor herdeiro ou legaté- rio seu, poderé nomear-lhe curador especial para os bens deixados, ainda que 0 beneficiério se encontre sob o patrio poder (hoje poder familiar), ou tutela” (correspondente ao art. 1.733, §§ 18 e 28 do novo Cédigo Civil). 163. Feraz J, Analogia (Aspecto logico-Jurfdlco: analogla como argumento ou procedt- ‘mento Idgico), in Enclelopétia Saraiva do Dirita,v. 6, p. 363 e 264; Klug, Légiea fur dca trad. Garcia Bacea, Caracas, 1961, p. 97 es; Palas, op. ct, p. 184 164. Alipio Silveira, Hermenéutica no direto brasileiro, Revista dos Tibunais, 1968, v. 1, p. 296. 88 Gunso ps Dinerro Civit Brastueine 2) 0 art. 1.666 do Cédigo Civil de 1916, que prescrevia: “Quando a cléusula testamentéria for suscetivel de interpretacbes diferentes, prevalece- ré.a que melhor assegure a observincia da vontade do testado:’, fot apli cado, por analogia, aos casos de doagbes que sto liberalidades (RF, 128:498) — hoje a matéria regese pelo art. 1.899 do novo Cédigo Civil. 3) O art. 640 do Cédigo Civil de 1916, que dizia: “O condémino que administra sem oposistio dos outros presume-se representante comum”, fot estendido por aplicasio analégica aos casos de usufruto de que séo titula- res cOnjuges separados judicialmente; 0 que administra, sem oposico do outro, presumirse-& mandatério comum (RT, 209:262) — correspondente a0 art, 1.324 do novo Cédigo Civil 4) “0 art. 413, I, do Cédigo Civil de 1916 (correspondente ao art. 1.735, 1, do novo Codigo Civil) estabelece que nio pociem ser tutores os que, no momento de thes ser deferida a tutela, se encontrarem constitui- dos em obrigacio para com o menor sob sua guarda, ou tiverem que fazer valer direitos contra ele, assim como aqueles cujos pais, filhos ou cénjuges tiverem demanda com 0 menor. Pots bem, decisves hé no sentido de que 0 devedor do testador €, por analogia com o disposto nesse artigo, inapto para exercer a testamentaria” (AJ, 53:156; RT; 131:569). ‘A analogia é, portanto, um método quase-logico que descobre a nor- ‘ma implicita existente na ordem juridica. £ to somente um processo reve- lador de normas implicitas 165. Os acdrdios acima citados, como vimos, aplicaram os arts. 411, parfgrafo nico, 1.666, 640 e 413, I, do Cédigo Civil de 1916, A doutrina que funda a analogia na Igualdade jurdica é 4 ais satsfatéra, f& que o processo anal6gico € um raciocinio Daseado na similitude de fatos,fundando-se na Identidade de razdo, que €0 elemen- to justficador da aplicabilidade da norma a casos nio previstos, mas, substancial- ‘mente semelhantes, sem contudo ter por objetivo perscrutar 0 exato significado da, ‘horn, partindo tao somente do pressupasto de que a questio sub juice, apesar de ‘fo se enquadar no dlspositivo legal, deve cair sob sua égide por semelhanga de ra- ho. o raciocinio fundado na identidade de raz3o suficlente, que, segundo Bobbio, Ea rato juris da el, que significa relaeao de fundamento. Por isso, toda ver que em firelto se emprega a analogie, assim se faz ou para demonstrar que duas situagDes “presenter umm motivo idéntico, ou que possuern 0 mesmo fundamento. Ao se em- Dregar a analogia, nko se procura a exatidzo formal dos termos que se relacionam, {has a probabilidade de semelhanga material dos prOprios termos edo efeito que esta ‘Semelfianga posers causar no espirito de quem julga ou daquele # quem ela se dir- fg. Para tanto a analogia requer umaa referencia as finalidades as quais clase orienta, ‘Sendo, portanto, imprescindivel um Juizo de valor dos objetivos e dos motivos. Ti fase do axgumento ‘a simili ad simile” ox "a par", poisa identidade de razio é a base ' | | i E E 5 89 Tzonta Gena Do Dineiro Civit Requer a aplicagéo analgica que: 1) © caso sub judice no esteja previsto em norma jurfdica; 2) 0 caso nao contemplado tenha com o previsto, pelo menos, uma re- lacdo de semelhanga; 3) oelemento de identidade entre eles nao seja qualquer um, mas sim essencial, ou seja, deve haver verdadeira semelhanca e a mesma razio en- tze ambos! (0s autores costumam distinguir a analogia legis da analogia juris. A ana- logia legis consiste na aplicacdo de uma norma existente, destinada a reger caso semelhante ao previsto. E a juris estriba-se num conjunto de normas, para extrair elementos que possibilitem sua aplicabilidade ao caso concre- to nfo previsto, mas similar, Machado Neto vé nessa distingdo entre analogia legis e juris uma dife- renciagéo acidental, porque, manifesta ou nao, toda analogia é juris, pois tal como toda aplicagao 0 , nao de uma norma, mas do ordenamento ju- ridico inteiro, por mais aparentemente que se detenha na apuracdo da ana- logia ‘das disposicGes normativas ou de fatos, jamais se poder prescindir da analogia. Nesse argumento nio se conclui sobre a identidade dos fatos, nem so- bre aidentidade do fato com a lei, mas sim sobre a igualdade juridica, ou soja, da m- fo juris. Os argumentos a fortior! (a malorl ad minus e a minor ad maius) no sio ana- logicos, mas constituem um modo de interpretagao. F, por sua vez, o argumento a contraro também no o & por fundar-se na diferenga endo na semelhanga. Vide King, 0p. cit, p. 104; Limong! Franga, Aplicacio do diteito positivo, in Enciclopédia Sara va do Direito v. 7, p. 200; Miguel Reale, Ligdes preliminares de dreito, Sto Paulo, Saral- va, p. 85, 292-3; Maria Helena Diniz, As lacunas no direto, io Paulo, Saraiva, 198: P. 141-82; Du Pasquier, Introduction & la théore générale et 2 la philasophie du droit Neuchatel, 1948; Ferraz Jc, op. cit, p.365; Alipo Sivelra, Analogla, costumes e prin- Cipios gerais de dreito na integrardo das lacunas da lei, BE 521:21, 1946; Joao Arma- 4a, Diceito civil, RT, 23:237-8, 1917; Bobbio, Lianaloga nea login del dirto, Torino, 1938, p. 104; Maurizio Marchetti, Analogia ¢ elagao judicial, Sto Paulo, Justez de Ol ‘vera, 2002. 166. Sobre esses pressupostos da analogia ver: R. Limongi Pranca, Aplicagio do direito po- Sitivo, in Enciclopedia Saraiva do Dirt, v. 7, p. 201; Serpa Lopes, op. cit ¥. 1, p. 178 © 179; W. Barros Monteiro, op. cit, v. 1, p. 41; De Ruggiero, Instiuices de direitac- vl v1, p. 151, 167. W. Barros Monteiro, op. cit, ¥. 1, p. 42; Serpa Lopes, op. eit, v. 1, p. 178; Nowacks, Analogia legis, Vars6via, 1966; Clovis Beviléqus, Teoria geral do direlt civ lt, p-37; Ziembinsky, Analogia legis etinterprétation extensive, n La logique juridique. Travaux ‘du I Colloque de Philos du Droit Comparé, Paris, Pedone, 1967, p. 247; Laren, Me- tadologia, cit, p. 304 e 308, 90 Gunso pe Diatire Civ Bnasiisine do conjunto da sistematica jurfdica que tudo envolve", No que concorda- mos plenamente, embora ndo haja motivos para desprezar essa distingao sob o prisma didatico. Porém, na pritica, a auténtica analogia € a juris. O costume € outra fonte supletiva. No nosso sistema de direito civil foi © costume relegado a plano inferior; a antiga Lei de Introducao a ele nao fazia referéncia e 0 nosso Cédigo Civil de 1916, no art. 1.807, dispunhé “Ficam revogadas as Ordenagoes, Alvards, Lels, Decretos, ResolucSes, Usos Costumes concernentes as matérias de Direito Civil reguladas neste Co- digo”. Porém, com 0 art. 4° da atual Lei de Introducao, situa-se 0 costume imediatamente abaixo da lel, pois o magistrado s6 poderd recorrer a ele, quando se esgotarem todas as potencialidades legais para preencher a lacu- na, O costume é uma fonte juridica, porém em plano secundario™. A grande maioria dos juristas, entre os quais citamos Storn, Windscheid, Gierke, Cl6vis Beviliqua, Vicente Réo, Washington de Barros Monteiro, sus- tenta que 0 costume jurfdico é formado por dois elementos necessérios: 0 uso € a convico juridica, sendo portanto a norma jurfdica que deriva da longa pritica uniforme, constante, pablica e geral de determinado ato com a convicgéo de sua necessidade Juridica. Esse costume se forma pela prati- ca dos interessados, pela pratica judiciéria e pela doutrina. P. ex., decorre da pratica do Interessado 0 costume sobre 4guas, na Chapada do Araripe, no Cearé, pelo qual a cada lote de terra cabe, no més, determinado niime- 10 de dias, dois ou trés para 0 uso de 4gua, sendo que as terras se transmi- ‘tem com esse direito. © costume pode derivar da pratica judiclérla, pois a atividade jurlsprudencial, com decisoes uniformes de um ou varios tribu- nais sobre a mesma matéria, modifica incessantemente as normas. A dou- trina, decorrente de obra de juristas, por sua vez, também gera costume, jé que, p. ex., os civilistas exerceram influéncia sobre o Legislativo e o Judici- rio, ao tragarem novos rumos na responsabilidade civil, no tratamento dos conviventes, na revisio dos contratos por onerosidade excessiva. Deveras, € nos tratados que os juristas apresentam sua interpretacio das normas € solugSes provavels para casos néo contemplados por lei, logo, se suas ideias 168, A. L. Machado Neto, Compéndo de introdugao cléncia do direito, Sdo Paulo, Saraiva, 1973, p. 225 e 226, No mesmo sentido: Cop, Introduccién a la Iigia, Buenos Aires, Eudebs, 1962, p. 308 e 313; Alipio Silveira, op. cit, p. 259; Oviedo, Formacién y aplt- ‘actin del derecho, Madsid, Ba. Inst. de Estudios Poifticos, 1972. 169, Ferreira Coelho, Cédigo Chil comparado, comentado e analisado, 1920, ¥.2, p. 104, n. 5, | | OL ‘Tronta Genat 20 Dinzire Covi forem aceitas pelos seus contemporaneos, fixam-se em doutrina, que ird ins- plrar juizes e tribunais!™. Sao condig&es para a vigéncia do costume: sua continuldade, sua uni- formidade, sua diuturnidade, sua moralidade e sua obrigatoriedade™”. De modo que o magistrado, de oficio, pode aplicé-lo se for not6rio ou de seu conhecimento, invocando-o, quando admitido, como qualquer norma ju- ridica, mas, se o desconhece, licito the ¢ exigir, de quem o alega, que o pro- ve e de qualquer modo; a parte interessada é permitido, sem aguardar a exi- gencia do julz ou a contestagio do adversério, produzir essa prova, por to- dos os meios permitidos em direito™™, © juiz ao aplicar o costume teré que levar em conta os fins socials des- te e as exigencias do bem comum (LINDB, art. $*), ou seja, 0s ideals de jus- tiga e de utilidade comum, considerando-o sempre na unidade de seus dois elementos essenciais"” Em relagao a lel, trés sfo as espécies de costume: 1) O secundum tegem, previsto na lei, que reconhece sua eficécla obriga- t6rla, p. ex., Cédigo Civil, arts. 1.297, § 14; 569, Il; 596; 597; 615; 965, I. 2) O practer legem, quando se reveste de caréter supletivo, suprindo a Jel nos casos omissos. £ 0 que esta contido no art. 4° da Lei de Introducao as Normas do Direito Brasileiro. Esse costume € invocado, quando malsu- cedida a argumentacao anal6gica, nas hip6teses de lacuna. P. ex.: a fungio natural do cheque € ser um meio de pagamento A vista. Se emitido sem fun- dos em poder do Banco sacado, ficaré 0 que o emitiu sujeito & sano pe- nal. Entretanto, muitas pessoas vém, reiterada e ininterruptamente, emitin- 170. Clovis Bevikique, Teorla, ct, p, 26 es Sternberg, Introduccion a la clencta del derecho, Gt, p. 25; Coplidlo, Filsofa do dete privado, 1915; Rul Barbosa, Plataforma, p. 22, itado por Alipio Silveira, Hermenéuticg cit, ¥.2, 50-5, ev. 1, p. 354; Maria Hele’ na Dinia, As lacunas, city. 185-211; Silvio de Figueiredo Teixeira, A jurisprudéncia como fonte de direit, Revista do Curso de Direito da Universidade Federal de Uberiin- ‘ia, 11:123 es, 1982; Wanderley Jost Federighi,Jurisprudéncia edireto, Sao Paulo, u- arez de Oliveira, 1999, 171, W, Barros Montelto, op. ct, ¥. 1, p. 20. 172, Vicente Réo, O Diteto, cit, p. 297 € 298. 173, Ferrini, Consuetudine, in Enciclopedia giuridica italiana v. 3, parte plo Sliver, Hermenéutic, cit, v. 1, p: 343. 174, Carlos Maximiliano, op. cit, p. 203; W. Barros Montelto, op. cit, v. 1, p. 20 € 21; A. Franco Montoro, op. it, v.2, p. 87 e 88; Rafael Altamira, La costumbre en el deze ‘cho espafiol, in Rev. de la Escuela Nacional de Jurispradencia, México, 1952, p. 24 1.9610; Al. 92 Gunso pe Dinziro Cryin Baasiisino do-o niio como uma mera ordem de pagamento, mas como garantia de df- vida, para desconto futuro, na convic¢do de que esse procedimento nio constitui crime, Tal costume de emitir cheque p6s-data, baseado em habi- to da época, realizado constante e uniformemente e na conviccéo de que se trata de uma norma de direito civil, como se se tratasse de um suceda- neo de uma letra de cambio ou de uma promessa de pagamento, faz com que o magistrado se utilize dessa norma consuetudinéria como fonte suple- tiva da lei, declarando a inexisténcia do crime". 3) © contra legem, que se forma em sentido contrério ao da lei. Seria 0 ‘caso da consuetudo abrogatoria, irnplicitamente revogatéria das disposig&es le- gais, ou da desuetudo, que produz a nao aplicacio da lel, em virtude de desu- so, uma vez. que a norma legal passa a ser letra morta. Daf as certeiras e sé bias palavras de Clévis Beviléqua de que: “se o legislador for imprevidente ‘em desenvolver a legislacéo nacional de harmonia com as transformacbes econémicas, intelectuais e morais, operadas no Pais, casos excepcionais ha- ‘verd em que, apesar da declaracdo peremptéria da ineficécia ab-rogatéria do costume, este prevalecerd contra legem, porque a desidia ou a incapacidade do poder legislativo determinou um regresso parcial da sociedade da época, em que o costume exercia, em sua plenitude, a funcao de revelar o direito e porque as forcas vivas da nacao se divorciaram, nesse caso, das normas esta- belecidas na lel""”6, Em principio, o costume nao pode contrarlar a lel, pois, 175, Carlos Maximillano, op. cit, p. 204; Vicente Réo, op. cit, p. 292; Luiz Antonio Riz ‘ato Nunes, Da legalidade do cheque pré-datado, Trbuna do Direito, n. 41, p. 10; Caio M.S Bereira, op. cit, v1, p.75; N. G. Basil Dower, op. cit v. 1, p. 23. *O che- {que € ordem de pagamento & vista ¢ seu uso como documento de divida nio desc racteriza sua natural executoriedade se esta redunda em descumprimento de obriga- ‘Go assumida por quem participou da irregularldade, delxando de honrar o titulo Com o pagamento integral do mesmo (RT, 585:210). Sdo exemplos de costume pras- tr legen a praxe notarial de colocar 2 impressio digital do analfabeto na margem {dos livros de procuragao e eserituras as causulas CIF cos, Insurance ac freight), FOB {free on board, FAS (free alongside) advemn de difundida pritica comercial. Vide Marta Vinagre, Costume: forma de expressdo do dieito positive, Revista de Informagio Le- lative, 9:120-6, 1988; Rzzatto Nunes, O cheque pré-datado e o dielto do consi ‘idor, Revista da Academia Paulista de Magistrados, 2:71-3. Vide SGzmula ST] 370. 176, Carlos Maximiliano, op. cit, p. 203 e 204; A. Franco Montoro, op. ct, v. 2, . 88; Beudant, Cours de drotcivlfrangais, 1, p. 110 es; Morin, La décadence de Vautorité {de la Jo, im Revue de Métaphysique et de Morale, 1925, p. 259 e's; Bonnecase, Introduc~ tion a étude da droit, p. 69 €s.; Renard, Le droit, Vordr et la raison, 1927, p. 11, nota 1; Clovis, op. ct, p. 33, 34 e 39; Serpa Lopes, Comentirios& Let de Introdusto ao Co- digo Civi, v1, p. 80, O Cédigo Comercial, no art. 686, I, [é vedava o seguro de vida ‘eapesardisso'0 cidado brasileiro muito 6 uilizava, mesmo antes de lel especial eo (Codigo Civil o prescreverem ¢ regulamentarem. i | i i | i | | 93 ‘Tronia Genat. po Dinsrro Crvih esta $6 se modifica ou se revoga por outra da mesma hierarquia ou de hierar- quia superior (LINDB, art. 25). Todavia, no direito brasileiro ha casos em que cs juizes aplicaram o costume contra legem. P. ex., 0 Tribunal de Sao Paulo, a0 verificar a existéncia de um costume local contrério a lei escrita, passou a admiti-o: “Segundo os usos ¢ costumes dominantes no mercado de Barre- tos, 05 negécios de gado, por mais avultados que sejam, celebram-se dentro da maior confianga, verbalmente, sem que entre os contratantes haja troca de qualquer documento. Exigi-lo agora seria, além de introduzir nos meios pecuaristas locais um fator de dissociagao, condenar de antemio, ao malo- 40, todos os processos judiciais que acaso se viessem a intentar e relativos & compra e venda de gado”. Esta decistio desprezou o art. 141 do Cédigo Civil de 1916, que deve ser entendido atualmente, conforme 0 novo Cédigo Ci- vil (art. 227) e 0 Cédigo de Processo Civil (art. 401), que prescrevem que s6 se admite prova exclusivamente testemunhal, nos contratos cujo valor nao exceda 0 décuplo do maior saldrio minimo vigente no pais, ao tempo em que foram celebrados"”. A grande maioria dos autores refeita o costume contra legem por enten- dé-Jo incompativel com a tarefa do Estado e com o principio de que as leis 6 se revogam por outras. Realmente, poder-se-é afirmar que a probleméti- ca do costume contra legem & de natureza politica e no juridica, pois se tra- ta de uma questo de colisao de poderes*”*. Mas 0 que, as vezes, se verifica por toda parte, mormente no Brasil, € um desajustamento entre a realidade material dos fatos e a realidade for- ‘mal das normas. A realidade define a situagio de um certo modo, e as nor- mas legais de outro™, o que leva o magistrado a concluir, ante 0 disposto no art, 5* da LINDB, pela inaplicabilidade dessas normas, que esto em de- suso, aplicando um costume. Neste caso temos uma lacuna ontol6gica que aparece devido a uma mutago social qualquer no subsistema fatico que in- forma a norma, havendo uma incongruéncia que rompe a isomorfia entre VT. RT, 142:660 e 662; RTI, 5463. 178. Vicente Réo, op. cit, p. 294; Aliplo Slivelra, © costume juriico no dieito brasileiro, RF, 163(631):86, 1936. Marta Vinagre (op. cit, p. 125) apresenta vésios exemplos de costume contra Iegem, dentre eles: 0 laudémio que, na pritia, era pago pelo adqul rente do imével e ndo pelo aienante como a lel exiglay 0 ndo uso de cinto de segu- xanga a0 dirigir vefculos apesar da exigencia regulamentar, a outorga de mandato fel ta por menor de 18 anos, p. ex, sem estar assistido pelo seu representante legal, para ue o procurador promova sua matricula em cursos, 179. Matia Helena Diniz, Concelto de norma, p. 30. 94 Cunso ps Dinsiro Crvit Brastizine 0s subsistemas, que é suprida pelo subsistema normativo consuetudinario. Entretanto, € perigoso generalizar essa conclusio, ante a dificuldade de se saber qual é 0 costume vivido pelos membros da comunidade, e qual a let que nao mais é seguida e que, por isso, no mais deve ser aplicada pelos tribunals. De modo que o bom érgio judicante, como nos ensina Macha- do Neto, deverd sempre, ao aplicar quaisquer das espécies de direito con- suetudinério, estar armado de um certo grau de sensibilidade e faro socio- J6gico para descobrir o ponto de saturago em que um uso pode ser invo- cado como costume juridico'™. Quando a analogia e 0 costume falham no preenchimento da lacuna, ‘0 magistrado supre a deficiéncia da ordem jurfdica, adotando principios ge- rais de direito, que so canones que ndo foram ditados, explicitamente, pelo elaborador da norma, mas que esto contidos de forma imanente no orde- namento jurfdico™ Os principios gerais de direito, no nosso entender, contém natureza méiltipla: 1) Sio decorrentes dos subsistemas normativos. Principios e normas ndo funcionam separadamente, ambos tém caréter prescritivo. Atuam os prin- ciplos gerais do direito em frente a norma: como fundamento de integracao ou como limite da atividade jurisdicional ou da arbitrariedade™. 2) Sao derivados das ideias politicas, socials e juridicas vigentes, ou seja, deve corresponder ao subconjunto valorativo e fético, que norteia o sis- tema jurfdico, sendo, assim, um ponto de unio entre consenso social, va- lores predominantes e aspiragbes de uma sociedade como sistema de direl- 1180, A. Machado Neto, Curso deintrdugio @ céncia do diet, p. 208 e 293. 181. Calo M.S. Perel, op. cit, v1, p. 78; R. Limongi Franga, Principies eras de direto, 2. ed, Sio Paulo, Revista dos Teibunsis, 1971, p. 146; Jodo Lalz Alves, Cédigo Civil ‘anotado, 1917, p. 5; Miguel Romero, Los principios generales del derecho la doctt!- ‘ha legal como fuentes judicales en Espana, Revista General de Legisacton y Jurispra- dencla, Madrid, 1941, n. 170; Aubry e Rau, Cours de dott lvl francais, 6.ed., 1936, t. 1, p. 245; Baudry-Lacantinerie, Pécs de droit civil, 9.ed., Pais, 1905, t. 1, - 83; Del Vecchio, Ls princpios generals del derecho, Barcelona, 1933; Garcia Valdecasas, Lana turaleza de los principios generales del derecho, in Fonencias espafolas, VI Congreso Internacional de Derecho Comparado, Barcelona, 1962, p. 43; Miceli, 1 principi ge- nerall del ditto, Rivsta di Dirtto Civile, 15:23, 1923; Enneccerus, Derecho civil par- te general, . 1, p 214; Puig Pefia, Los principios generales del derecho como fuente nnormativa de ia decisl6n judicial, Revista de Derecho Privado, Madrid, nov. 1956. 182, Palasi, op. cit, p. 138; Raz, Legal principles and the limits of law, Yale Law Journal, . 81, p. 823, 1972. 95 ‘Tronta Genat po Dinsire Gives to. Dai serem principios informadores, de forma que a supracitada relagio entre norma-principio € I6gico-valorativa, apoiando-se estas valorages em. critérios de valor “objetivo™™, 3) Sao reconhecidos pelas nag6es civilizadas os que tiverem substractum ‘comum a todos os povos ou a alguns deles em dadas épocas histéricas' Abrangem, desse modo, investigagbes sobre o sistema juridico, recain- do sobre os subsistemas normativos, faticos ¢ valorativos concernentes & questo omissa que se deve solucionar, preenchendo as lacunas, podendo até penetrar, para tanto, no campo da Ciéncia do Direito, bem como no da Filosofia Juridica. ‘Muitos desses principios esto contidos, expressamente, em normas, p. ex, © art. 38 da Lel de Introducdo as Normas do Direito Brasileiro: “Nin- ‘guém se escusa de cumprir a lei, alegando que no a conhece”; 0 art. 112 do Cédigo Civil: “Nas declaragves de vontade se atendera mais a intencéo nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem". Porém, em. sua maioria, estdo implicitos no sistema juridico civil. Exemplificativamente, entre os principios gerais de direito temos: 1) o da moralidade, que impoe deveres positivos na obrigacao de agir e negativos na abstenco de certos atos contrérios aos sentimentos coletivos; sendo que o da moralidade ad- ministrativa esta previsto na CF/88, arts. 58, LXXIM; 37, caput, e § 4%; 85, V; 2) 0 da igualdade de direitos e deveres em face da ordem juridica; 3) 0 da proibicao do locupletamento ilicito (CC, arts. 876 e 884); 4) o da fungio soclal da propriedade (CF/88, arts. 5#, XXII, 182 e § 2, 184, 185, parégra- fo tinico, e 186) e 0 do contrato (CC, art. 421); 5) o de que ninguém pode ‘ransferir mais direitos do que tem; 6) 0 de que a boa-fé se presume e a mé- -fé deve ser provada; 7) o de que ninguém pode invocar a prépria malicia; 8) 0 da preservactio da autonomia da institui¢ao familiar; 9) o da exigencia da justa causa nos negécios juridicos; 10) 0 de que o dano causado por dolo ou culpa deve ser reparado; 11) 0 de que as obrigacdes contraidas devem ser cumpridas; 12) 0 de que quem exercita © proprio direito nio prejudica ninguém; 13) 0 do equilibrio dos contratos que condena todas as formas de onerosidade excessiva para um dos contratantes; 14) 0 da autonomia da 183, W. C. Batalha, op. cit, p.261; Arévalo; La doctrina de los principlos generales del de- echo y las lagunas del ordenamiento administrativo, RAP, 40:189, 1963. 184. W. C, Batalha, op. cit, v. 1, p. 261. 185. Réo, op. cit, p. 606; M. Reale, Lids preliminars, ct, p. 312. 96 Gunso pe Dinstro Civis Baasrinixe vontade ¢ da lberdade de contratar; 15) 0 da intangibitidade dos valores, a pessoa humana; 16) o de que a interpretacao a ser seguida é a que se re- velar menos onerosa para 0 devedor; 17) 0 de que se responde pelos pro prios atos e nao pelos dos outros; 18) o de que se deve favorecer mais aque- le que procura evitar um dano do que aquele que busca realizar um ganho; 19) 0 de que nas relagves sociais e contratuais se tutela a boa fé objetiva (CG, art. 422) e se reprime a mé fé; 20) o de que no se pode responsabili- zat alguém mals de uma vez pelo mesmo fato; 21) 0 de que, quando for du- vidosa a cléusula contratual, deve-se conduzir a interpretagao visando aque- le que se obriga'*, s principios gerais de direito, entendemos, nao sdo preceitos de ordem ética, politica, sociol6gica ou técnica, mas elementos componentes do direi- to. Sdo normas de valor genérico que orientam a compreensio do sistema juridico, em sua aplicacdo e integracio™, estejam ou nao positivadas. © Grgao judicante, empregando deducdes, inducdes, e, ainda, juizos valorativos, deverd seguir este roteiro: 1) Buscar os principios norteadores da estrutura positiva da instituicao a que se refere 0 caso sub juice. 2) Sendo inécua a primeira medida, deverd atingir os principios que informam 0 livro ou parte do diploma onde se insere a instituico, depois os do diploma onde se encontra o livro, a seguir os da disciplina a que cor- responde diploma ¢ assim por diante até chegar aos principios gerais de todo o direito escrito, de todo o regime juridico-politico e da prépria socie- dade das nacdes, embora estes iltimos 56 digam respeito as questdes de di- reito internacional piiblico. 3) Procurar 0s princfpios de direito consuetudinério, que nfo se con- fundem com as normas costumeiras, mas que sio o ponto de partida de conde aquelas normas advém. 4) Recorrer ao direito das gentes, especialmente ao direito comparado, onde se descobre quais s0 os principios que regem o sistema juridico das nagdes civilizadas, desde que estes nao contradigam os principios do siste- ma juridico interno. 186.M. Reale, Ligdes prliminares, cit, p. 301; W. Barros Monteiro, op. cit, v.1, P. 44; Messineo, Manuale, 8. ed., Milano, 1950, v1, p. 110. Vide Sémula 454 do STR 187. M. Reale, Ligoes peliminares,p. 300-2; Batasi, Isttuzion! dl dint cule, Milano, 1914, p40; Réo, op. cit, v. 1, p. 307-14; Calo M.S. Pereira, op. cit, v 1, p66; Legaz e La Cambra, Filosofia del derecho, p. 571. i : 97 ‘Tronia Grxat 90 Dinsvo Give 5) Invocar os elementos de justica, isto é, os principios essenciais, po- dendo para tanto penetrar no campo da jusfilosofia™, Pode, ainda, o magistrado, ante casos omissos, socorrer-se da equida- de, Alipio Silveira entende que a equidade liga-se a trés acepces, intima- ‘mente unidas: 1) Na latissima, ela seria o principio universal da ordem normativa, a razio pritica extensivel a toda conduta humana — religiosa, moral, social, jurfdica, configurando-a como uma suprema regra de justica a que os ho- mens devem obedecer. 2) Na lata, a equidade confundir-se-ia com a ideia de justia absoluta ou ideal, com os principios gerais de direito, com a ideia do direito, com 0 direito natural em todas as suas significagbes. 3) Na estrita, sera ela esse mesmo ideal de justisa enquanto aplicado, ou se[a, na interpretaglo, integragdo, individualizagdo judicéria etc. sen- do, nessa acepelo, a ustiga mo caso concreto™ Agostinho Alvim dividiu-a em “Legal” e “judicial”. A equidade “Legal” serla a contida no texto da norma, que prevé vérias possibilidades de solu- Bes, Pex: 0 art. 1.583, § 28, do Cédigo Civil reza: “A guard unilateral ser atzibufda ao genitor que revele melhores condigbes para exercé-la,¢, objetivamente, mats aptidio para propiciar aos filhos os seguintes fatores: 1 —afeto nas relagdes com 0 genitor e com o grupo familiar; II — savide e seguranga; Ill — educagio". Obvio esta que o juz, havendo dissolugdo do casamento, 20 aplicar tal preceito, deverd averiguar certas circunstancias, como idade dos fithos, conduta dos pats, relagao de afinidade psicol6gica, integridade fsica e mental, padrio de vida, melhores condigoes moras, eco- 188. R. Limongi Franca, Aplicagéo dos princi do Direlt,v.7, p. 213. 189, Alipio Silveira, A decisio por equidade no Cédigo de Processo, in Direito, doutrina, legisla e jurispradéncia, Rio de Janeiro, Freitas Bastos, v.22, p. 60-2. Sobre equida- «de ver o que dizem Newman, Equity in dhe world’s egal systems; a comparative study, Bra 197; De Page, Tf mre tc, 1969, 0.216 Arto Ae sandr e Manuel Somartiva, Curso de derecho civil, 3. €d., Santiago, 1961, v. 1, 1, 137; Eason Prat, Equidade, RBDY, $1335, Vide: CLE, a 8 CIN, at 108, VF CPC, ant 1.109; CDC, art. 72; Len. 9.099/95, arts. 6 € 25; Let n.9.307/96, art. 190. Agostinho Alvim, Da equidade, RT; 132(494):3 e 4, ano 30. gerais de dreito, in Encilopétia Saraiva 98 Gunso px Dineiro Crvit Baastizine némicas e até mesmo de disponibilidade de tempo para o seu exercicio, afe- tividade ete. A equidade esté insita nos arts. 4 e 5* da Lei de Introducgo as Nor- mas do Direito Brasileiro, que estabelecem a obrigatoriedade de julgar, por parte do juiz, em caso de omisséo ou defeito legal, dentro de certos limites, e a permisséo de adequar a lei as novas exigencias, oriundas das mutagées sociais das instituig6es. A equidade “judicial” € aquela em que o legislador, explicita ou impll- citamente, incumbe ao magistrado a decisio por equidade do caso concre- to. Como exemplos de casos expressos, temos: 0 art. 11, Il, da Let n, 9.307/96 (CC, art. 853), que afirma: “O compromisso arbitral poderd também conter a autorizacio para que o drbitro ou arbitros julguem por equidade se assim for convencionado pelas partes”; 0 art. 127 do Cédigo de Processo Civil, que estabelece: “O julz s6 decidira por equidade nos casos previstos em lei”. Caso implicito seria, p. ex., 0 art. 1.740, II, do Cédigo Civil, que determina que cabe ao tutor, quanto a pessoa do menor, “reclamar do juiz que providen- Gie, como houver por bem, quando o menor haja mister correcdo”"”, Dessa classificagdo R. Limongi Franca" infere os seguintes requisitos 1) A despeito da existéncia de casos de autorizagao expressa em lei, con- cemente ao uso da equidade, essa autorizacdo nao ¢ indispensével, uma vez que no apenas pode ser implicita, como ainda o recurso a ela decorre do sistema e do direito natural. 2) A equidade supée a inexisténcia, sobre a matéria, de texto claro inflexivel. 3) Ainda que, a respeito do objeto, haja determinaco legal expressa, a equidade tem Iugar, se este for defeituoso ou obscuro, ou, simplesmente, demasiado geral para abarcar o caso concreto. 4) Averiguada a omissio, defeito, ou acentuada generalidade da lei, cumpre, antes da livre criacdo da norma equitativa, apelar para as formas complementares de expresso do direito. 191. O mesmo se diga dos seguintes ats. do Cédigo Civil: 1.638, 1; 395, pardgrafo tineo; 1402; 166, 1; 1.557, I; 306; 400; 883; 363; 403; 587, 1; 667. 192. Agostinho Alvim, Da equidade, cit, p. 3 ¢ 4. Hé um apelo & equidade por parte do {Srgao judicante nos ars. 928 ¢ 944 do CC e nos ars, 20 € 1.109 do CPC. 193. R. Limongi Franga, Aplicacéo, cit, in Enciclopéia Saraiva do Dirito, v7, p. 205; For- mas, cit, p. 78 € 79. 99 ‘Teoria Genat po Drnzrro Cv. 5) A.construgao da norma de equidade nao deve ser sentimental ou ar- bitraria, mas fruto de uma claboracdo clentifica, em harmonia com o esp{- Fito que rege o sistema e, especialmente, com os princfpios que informam 6 instituto objeto da decisao. £ inegavel que uma das fungées da equidade é suplementar a lei ante as possiveis lacunas ontolégicas ou axlol6gicas, pols € um poder conferido 20 magistrado para revelar o direlto latente™, com base nos subsistemas, normativos, valorativos e féticos que compbem o sistema juridico, ‘Como se v@, no preenchimento de lacunas juridicas, deve ser respeita- daa ordem de preferéncia, indicada no art. 4 da Lei de Introdugio. De sor- te que 0 magistrado em caso de lacuna deveré, em primeiro lugar, constatar, na propria legislacao, se ha uma semelhanca entre fatos diferentes, fazendo ‘0 juizo de valor de que esta semelhanca se sobrepée as diferencas. Somente se ndo encontta tals casos andlogos é que deverd recorrer as normas consue- fudindrias; inexistindo estas langaré milo dos princfpios gerais de direito, e, se porventura estes itimos inexistirem ou se se apresentarem controversos, recorrerda equidade, sempre considerando as pautas axiol6gicas contidas no sistema jurfdico. A equidade exerce funcao integrativa, uma vez esgotados ‘0s mecanismos do art, 4 da Lei de Introdugao, na decisao: a) dos casos es- peciais, que o proprio legislador deixa, propositadamente, omissos, isto é, no preenchimento das lacunas voluntérias, ou seja, daqueles casos em que a pr6- pria norma remete ao magistrado a utilizaglo da equidade, eB) dos casos que, de modo involuntiio, escapam a previsio do elaborador da norma; por mals que este queira abranger 0s casos, ficam sempre omlssas certas circunstan- cas, surgindo, entio, lacunas involuntérlas, que devem ser preenchidas pela analogla, pelo costume e pelos principios gerals de direto, sendo que na in- suficléncia desses instrumentos se deverd recorrer a equidade. ‘A equidade dé ao juiz poder discricionério, mas no arbitrariedade. f uma autorizacdo de apreciar, equitativamente, segundo a légica do razoavel, Interessese fatos no determinados a priori pelo legislador, estabelecendo urna norma individual pata o caso concreto ou singular. A equidade no € uma li- 194. R, Limongi Franga, Aplicagio, cit, in Encclopéia Saraiva do Dirt, p. 200; M. Rea- le, Ligdes preliminares, ct, p. 294; Mouskeli,'équité en droit itematlonal moderne, ‘Rémue Générale de Droit international, 15(7):347 e 374, Ja Hentl de Page recusa-se a en. ‘quadzar a equidade na categoria de fonte supletiva do dzeito.Alfpio Silveira, Concei- ‘me funcoes da equldade em face do direto positive, p. 118 e s; Mara Helena Dinlz, As lacunas, cit, p. 243-67. 100 Conso ve Dinstro Civit Baasiinine cenga para 0 arbitrio puro, mas uma atividade condicionada as valoragbes positivas do ordenamento jurfdico, ou melhor, relacionada aos subsistemas normativos, faticos ou valorativos, que compéem o sistema juridico. Portanto, ao preencher as lacunas, o érgao judicante no cria direito novo; nada mais faz senio desvendar normas que, implicitamente, estio no sistema. Deve manter-se dentro dos limites autorizados pelo sistema ju- ridico, Sua solugo ao caso concreto nao poderd ser conflitante com 0 es- irito desse sistema, De modo que a norma individual completante do sis- tema nao é nem pode ser elaborada fora dos marcos jurfdicos. Apresentando-se uma antinomia juridica real, esta requererd, como vi- ‘mos, a corregio do direito, pois sua solucao é indispensavel para que se mantenha a coeréncia do sistema juridico. Antinomia é 0 conflito entre duas normas, dois principios, ou de uma norma e um prinefpio geral de direito em sua aplicacdo pratica a um caso particular, £ a presenga de duas normas conflitantes, sem que se possa sa- ber qual delas deverd ser aplicada ao caso singular. A antinomia pode dar origem, no entender de Ulrich Klug, a Jacuna de conflito ou de colisio, por- que, em sendo conflitantes, as normas se excluem reciprocamente, por ser impossivel deslocar uma como a mais forte ou decisiva, por nao haver uma regra que permita decidir entre elas, obrigando 0 magistrado a solucionar © caso sub judice, segundo os critérios de preenchimento de lacunas. Assim, para que se tenha presente uma real antinomia, sao Imprescind{vels trés elementos: incompatibilidade, indecidibilidade e necessidade de decisao. $6 haverd antinomia real se, ap6s a interpretacao adequada das duas normas, a incompatibilidade entre elas perdurar. Para que haja antinomia ser4 mis- 195. Videa respeito: Malgaud, Les antinomies en droit a propos de Vétude de G. Gavazzl, {in Les antinomies en drole, Bruxelles, Perelman (publ), Emile Bruylant, 1965, p.7 e8; Foriers, Les antinomies en drolt, in Les antinomies en droit, Bruxelles, Perelman (publ.), Emile Bruylant, 1965, p. 20 e 21; Morgenthal, Les antinomles en droit social, in Les ‘antinomiesen droit, Bruxelles, Perelman (publ}, Emile Bruylant, 1965, p. 39; Silance, ‘Quelques exemples d'antinomles et essai de classement, in Les antinomies en dott, Bruxelles, Perelman (publ), Emile Bruylant, 1968, p. 63; Salmon, Les antinomles en ‘droit international publi, in Les antinomies en drote, Bruxelles, Perelman (publ), Eml- le Bruylant, 1968, p. 285; Seab6, Des contradictions et le droit des differents syst®. ‘mes sociaux, in Les antinomies en droit, Bruxelles, Perelman (publ.), Emile Bruylant, 1965, p. 354; Paul Robert, Dictionnaire de VAcademie Francaise, 1933; Ranzoli, Dizio- ‘aro scienze losofche,v. §; Baldwin, Dictionary of phllasophy and psychology, v. 5; ‘Maria Helena Diniz, Compéndio de introducao & cléncia do dieto, a0 Paulo, Saraiva, 2001, p. 469-78. 101 Teonsa Genat De Dineiro Crvit tera existéncla de duas ou mais normas relativas ao mesmo caso, imputan- do-lhe solugSes logicamente incompativeis™. His por que a antinomia real, segundo Tércio Sampaio Ferraz Jz”, 6 "a ‘oposigdo que ocorre entre duas normas contraditérias (total ou parcialmen- te), emanadas de autoridades competentes num mesmo ambito normativo, que colocam o sujeito numa posicio insustentavel pela auséncia ou incon- sisténcia de critérios aptos a permitir-The uma safda nos quadros de um or- denamento dado”. ‘Urge esclarecer que se podem classificar as antinomias quanto™: 41) Ao critério de solugao. HipStese em que se ter4: A) Antinomia aparen- fe, se 05 critétios para a sua solucao forem normas integrantes do ordena- mento juridico. B) Antinomia real, quando nio houver na ordem juridica qualquer critério normativo para solucioné-la, sendo, entdo, imprescindi- vel 8 sua eliminacdo a edicio de uma nova norma. Na opinigo de Tércio Sampaio Ferraz Jr. e de Alf Ross, seria de bom alvitre substituir tal distin- Ho, baseada na existencia ou nio de critérios normativos para sua solucao, por outra, em que antinomia real seria aquela em que a posicio do sujeito é insustentavel porque ha: a) lacuna de regras de solucio, ou seja, auséncia de exitérios para solucioné-la, ou b) antinomia de segundo grau, ou melhor, contlto entre os critérios existentes; e antinomia aparente, 0 caso contrério, reconhecimento de antinomia real, neste sentido, no exclui a possibili- dade de uma solucao efetiva, pela edi¢ao de nova norma, que escolha uma das normas conflitantes, ou pelo emprego da interpretacio equitativa, re- curso a0 costume, aos principios gerais de direito, a doutrina etc. Embora a antinomia real seja solivel, nao deixa, por isso, de ser uma antinomla, 196. Ulrich Klug, Observations su le probléme des lacunes en drolt, in Le probleme des lax ‘cunes en droit, Braxelles, Perelman (publ.), Emile Bruylant, 1968, p. 86-9; Tercio Sam- ‘palo Ferraz Jt, Direto, retirica e comunicagao, Sao Paulo, Saraiva, 1978, p. 141, nota 136. 197, Antinomia in Enciclopéta Saraiva do Direito, . 7, p. 14. 198, Tércio Sampaio Ferraz Jc, Antinomia, in Bnciclopéda Saraiva do Direlto, cit, p. 14-8: Si- lance, Quelques exemples, in Les antinames en drot, cit, p. 64 e's; Salmon, Les anti- ‘nomies, in Les antinomtesen dro clt, p. 285 es. Hist Vander, Antinomies en droit in- ‘temational privé, in Les antinomies en doi, Bruxelles, Perelman (publ. imile Bruylant, 1965, p. 138 e s; Karl Englsch, Introdugdo ao pensamentojurdico, cit, p. 253-67; Alt Ross, Sobre el derecho ya justcia cit; Juan-Ramon Capea, EI derecho como lenguaje, it, p. 279-88, 59 e 60; Bobbio, Teor del ondinamento giuridico, cit, p. 92-5; Kelsen, ‘Teoria pura do dieito, 1962, v. 2, . 28; Gavazei, Delle antinomsi, et, . 66-73.