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pensar
4 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, sábado, 18 de outubro de 2014 • Diversão&arte

Entrevista // SÉRGIOSANT’ANNA

O vício da
palavra
O escritor Sérgio Sant’Anna
afirma que se escreve demais
no mundo, acredita na
sobrevivência da literatura às
revoluções tecnológicas e se
concede o direito de talvez
parar de fazer literatura

Edilson Rodrigues/CB/D.A Press - 5/3/09

O escritor Sérgio Sant’Anna na sacada
do apartamento, sob o fundo do
Cristo Redentor, no Rio de Janeiro

ALEXANDRE DE PAULA
ESPECIAL PARA O CORREIO

erto de completar 73 anos (em outubro),o escritor Sérgio Sant’Anna acha que
se escreve demais no Brasil e no mundo.“Há como que um vício da palavra”,
considera. Por isso, inúmeros livros publicados não encontram público que
queira lê-los. Não é o caso de Sant’Anna, com uma carreira premiada e aclamada pela crítica brasileira,suas obras vendem mais,atualmente,do que no passado.
Com o lançamento de O homem-mulher, publicado pela Companhia das Letras, Sérgio Sant’Anna volta mais uma vez aos contos e não sabe se os leitores ainda
podem esperar muitos novos livros dele.“Há o tempo”, pondera e afirma que, de repente,pode resolver parar de escrever.Ele é um dos mais premiados escritores brasileiros contemporâneo. Para tratar de sua obra, do cenário contemporâneos e do futuro da literatura, Sant’Anna falou ao Correio.

P

Aos 72 anos, depois de tanto tempo de
carreira e diversos livros premiados, ainda
há na sua literatura algo que você não tenha
feito e almeje fazer? Algum tema, alguma
experiência formal que te inquietem?
Sim, há sempre coisas que desejo fazer,
mas agora, por exemplo, quero fazer algo
que não se pareça, formalmente, com O homem-mulher. Quero sempre me renovar.
O senhor sempre trabalhou com temas
difíceis, um lado nefasto do sexo,
violência, morte, incesto, etc. Qual a
medida para falar sobre situações pesadas
assim? Em algum momento, já se
censurou, pensou: “Nesse texto, fui
além do que eu mesmo aceitaria”?
A medida para tratar de temas mais
barra-pesada é o próprio tema. O que o
próprio tema pede. Não escrevo, intencionalmente, para chocar as pessoas. Ao contrário, quero que minha escrita leve as pessoas a algum tipo de reflexão, iluminação
etc. Quanto à autocensura, eu penso: “Um
escritor deve ter coragem”. Mas vivo alguns
conflitos com isso. Se um tema me repugnar, certamente eu não vou tratar dele. É o
caso da escatologia, por exemplo. Eu não
consigo ler o Marquês de Sade.
Depois de ter escrito tantos livros de contos,
O homem-mulher ainda é capaz de
surpreender, como disse o crítico Alcir
Pécora. É ainda uma preocupação do senhor
surpreender, subverter as expectativas?
Se eu ainda sou capaz de surpreender
é porque sempre estou buscando formas e temas novos.

O senhor se preocupa com o leitor enquanto
escreve? Produz pensando no que o público
poderia achar?
Ao escrever eu me preocupo comigo
mesmo, com fazer um trabalho que me
satisfaça racional e emocionalmente. A
preocupação é escrever um texto que me
agrade e isso acaba por agradar a pelo
menos um certo número de leitores. Ou
talvez não me preocupe, verdadeiramente, já que deixo minha mente fluir e depois faço uma revisão daquilo que saiu
mais espontaneamente.
Como é o seu processo de produção
cotidiano de criação?
Os contos costumam surgir antes da
concepção de uma reunião deles como
livro. Mas é importante frisar que muitas
vezes ideias e formas se interligam numa
determinada fase da minha escrita e isso
acaba por tornar-se uma espécie de conceito de livro.
Por que o conto é o gênero a que o senhor
mais se dedicou, apesar de ter escrito
novelas, romances, peças etc.? Foi no
conto que alcançou a sua melhor forma?
Eu me dedico mais ao conto talvez porque me interessa esgotar uma ideia e sua
forma e, acontecendo isso, deixo de me estender naquela determinada obra. Não estabeleço um limite, mas ele chega por si.
Acho também que o conto propicia um
sem número de experiências.
Apesar de existirem algumas iniciativas
recentes em favor do gênero, o conto no
mercado editorial ainda é deixado à
margem, são lançados mais romances e
eles vendem mais também. Na sua visão,
por que isso acontece?
São lançados mais romances do que
livros de contos, é verdade, mas a maioria dos romances são deixados de lado,
ninguém quer saber deles. A rejeição
por romances é muito grande, ficam
aqueles romances que dão alguma coisa
a mais aos leitores. Eu recebo em casa

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Em que momento da vida, o senhor se deu
conta de que tinha uma voz própria e de que
era escritor de fato?
Me dei conta de que era um escritor de
fato quando vi se formando os contos de
Notas de Manfredo Rangel, Repórter, uma
obra que foi bastante reconhecida pela crítica e que continha trabalhos dos quais se
pode dizer inovadores, como Uma visita
domingo à tarde ao museu.

São lançados mais
romances do que
livros de contos, é
verdade, mas a
maioria dos romances
são deixados de lado,
ninguém quer saber
deles. A rejeição por
romances é muito
grande”

Não acredito que a
literatura vá deixar de
ocupar um papel
relevante nas
sociedades. Apenas,
hoje em dia, a
literatura é obrigada a
dividir a atenção do
público com uma
quantidade
considerável de outras
formas de expressão”

Ao escrever eu me
preocupo comigo
mesmo, com fazer um
trabalho que me
satisfaça racional e
emocionalmente. A
preocupação é
escrever um texto que
me agrade e isso
acaba por agradar a
pelo menos um certo
número de leitores”

inúmeros livros, muito mais do que eu
poderia ler. Dou uma olhada em diversos romances que não me interessam
nem um pouco. O mesmo se passa com
livros de contos. Acho que se escreve
demais no país, no mundo. Há como
que um vício da palavra.
O senhor tem lido autores contemporâneos?
Quais? Como vê a situação da literatura
produzida hoje?
Tenho lido autores contemporâneos,
sim. Os dois últimos foram Cantos profanos, de Evando Nascimento, e Mil rosas
roubadas, de Silviano Santiago. Ambos me
agradaram muito. O primeiro é um livro
de contos e o segundo um romance.Vejo a
literatura brasileira (não posso falar do
mundo inteiro), hoje, como muito provocativa. Há vários autores, inclusive jovens,
buscando formas e significações que tenham sentido na sociedade em que vivemos, para não dizer dentro da própria literatura internacional.

em um único sentido, não tenha apenas
um significado rigoroso, exato?
Concordo plenamente que meus textos e livros têm uma espécie de abstração,
uma abertura a várias leituras e significados, embora haja textos meus mais fechados do que outros. Mas escrevi e publiquei, em O vôo da madrugada, Um conto
abstrato e Um conto obscuro.
Hoje, como autor reconhecido e
experiente, algum texto ainda tem o
poder de influenciar o que o senhor
escreve ou vai escrever?
Claro que vários textos têm o poder
de me surpreender, de me agradar. Mas
procuro não deixar que aquilo me influencie, pois, afinal de contas, quero
fazer meu trabalho independente. No
entanto, afinidades e parentescos sucedem, às vezes sem que um autor se dê
conta disso. Mas repito que busco fazer
uma obra pessoal e independente.

Como o senhor vê as perspectivas para a
literatura no futuro? Acredita que existe
o risco de ela deixar de ocupar um papel
relevante para a sociedade ou mesmo
para o campo das artes?
Não acredito que a literatura vá deixar
de ocupar um papel relevante nas sociedades. Apenas, hoje em dia, a literatura é
obrigada a dividir a atenção do público
com uma quantidade considerável de outras formas de expressão. O cinema, a tevê, a internet e outros meios disputam o
tempo e espaço das pessoas, mas nenhuma dessas mídias matou o livro. Tomando
como exemplo o meu caso, meus livros
são mais lidos do que antes.

Olhando para trás, está satisfeito com
a obra que produziu? Há algo nela
que lhe desagrade?
Estou contente de ter produzido minhas obras, mas como não as leio mais,
não posso dizer que estou satisfeito.
Há um livro meu que pouca gente lê,
mas me deixa muito satisfeito de tê-lo
produzido. Trata-se de A tragédia brasileira . O voo da madrugada também é
um livro muito querido. E a Companhia das Letras reeditará, agora em outubro, O concerto de João Gilberto no
Rio de Janeiro, o que me deixa bastante
satisfeito. Mas também há outros livros de que gosto menos e prefiro não
expor certas birras minhas.

As novas formas de ler, leitores digitais, por
exemplo, te interessam? O senhor acha que
o leitor perde algo por não ler no papel?
Me interessam, sim, os leitores digitais.
E a Companhia das Letras vem digitalizando meus livros.

Em que está trabalhando atualmente?
Por várias razões, eu não estou trabalhando em nada atualmente. Porque saiu
um livro novo, porque fiz uma cirurgia,
porque tenho de rever O concerto, e porque não sou uma máquina de produzir.

Há, na sua literatura, a presença forte de
outras áreas da arte. Como é internalizar
nos seus textos aquilo que originalmente
foi produzido em outra linguagem?
Isso é importante: as outras artes me
enriquecem muito. Se eu vejo um quadro
que me instiga, por exemplo, ele é bem capaz de me levar a escrever literatura. O homem-mulher está impregnado disso. O
conto Amor a Buda, nasceu de uma escultura de Li Zhaniang, que vi no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. E a
própria capa do livro é uma reprodução
desta escultura.

Alguns escritores se aposentam
(ou dizem que). Planeja parar em
algum momento ou os leitores ainda
podem esperar muitos livros seus?
Não sei se ainda podem esperar muitos livros meus. Estou com 72 anos, há o
tempo. E de repente posso não querer
escrever. Um artista que sempre admirei muito foi Marcel Duchamp, e ele parou lá pelos 70 anos, creio, de produzir
obras. No entanto, deixou o projeto de
uma escultura, uma instalação, destinada ao Museu da Filadélfia, que se encarregou de produzir. Trata-se de Etant
Donnés. uma obra que deve ser vista
por um buraco numa porta e contém lá
dentro uma espécie de “pedaço de nu”
(palavras minhas), entre outras coisas
obscuras. É genial.

Muitos dos seus textos e livros têm uma
espécie de abstração, uma abertura a
várias leituras e significados. O senhor
acha importante que a obra não se feche

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