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EngenheiroFranciscoJosé d ´ AlmeidaDiogo

EngenheiroJoséCarlos

Sciammarella

MANUAL DE PAVIMENTAÇÃO URBANA

Drenagem:

Manual de Projetos

Volume II

AssociaçãoBrasileira de Pavimentação

Rio de Janeiro

2008

AUTOR

Engenheiro Francisco José d’Almeida Diogo

Professor do IME e Engenheiro do CENTRAN

CO-AUTOR

Engenheiro José Carlos Sciammarella

Professor do CEFET / RJ e Consultor / Projetista de drenagem urbana, de rodovias e ferrovias

REVISORES Engenheiro Jorge Henrique Ribeiro Engenheiro Civil e de Segurança do Trabalho / Consultor e Perito Judicial / Sócio da ABPv Professora Laura Maria Goretti da Motta COPPE-UFRJ

Ficha Catalográfica: Centro de Documentação do CENTRAN

D591

Diogo, Francisco José d’Almeida. Drenagem: manual de projetos / Francisco José d’Almeida Diogo; Co-autoria de José Carlos Sciammarella. – Rio de Janei- ro: Associação Brasileira de Pavimentação, 2008. 160 p. : il., tab. ; 29 cm (Manual de pavimentação; v. 2)

Inclui bibliografia. ISBN 978-85-88353-02-2

1. Drenagem – Gestão e projetos. 2. Hidrologia superficial. 3. Engenharia sanitária. I. Título. II. Sciammarella, José Carlos.

CDD 625.734

Diretoria da ABPv

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PAVIMENTAÇÃO

TRIÊNIO2008/2010

PRESIDENTE

Eng o Eduardo Alberto Ricci

VICE-PRESIDENTE

Cel Eng o Paulo Roberto Dias Morales

DIRETOR ADMINISTRATIVO

Eng o João Menescal Fabrício

DIRETORA TÉCNICA

Eng a Laura Maria Goretti da Motta

DIRETOR FINANCEIRO

Eng o Atahualpa Schmitz da Silva Prego

DIRETORA DE DIVULGAÇÃO

Arqt a Georgina Libório Azevedo

CONSELHO FISCAL

SÓCIO COLETIVO

Fundação-DER/RJ

Eng o Marcos Balaguer

Concresolo – RJ

Eng o Marcio B. de Amorim

SÓCIO INDIVIDUAL

Eng a Luciana Nogueira de Castro – RJ Eng o Salomão Pinto – RJ

COMISSÃO DE PAVIMENTAÇÃO URBANA–CPU

Coordenador: Eng o Fernando Augusto Júnior Eng o Clodoaldo Pereira Andrade Eng o Francisco José d’Almeida Diogo Eng o Heitor Roberto Giampaglia Eng o Henrique Apolinário Rody Eng o Jorge Henrique Ribeiro Eng o José Carlos Sciammarella Eng o José Pedro dos Santos Vieira Costa Eng a Luciana Nogueira Dantas

Apresentação

A Associação Brasileira de Pavimentação – ABPv, por intermédio da Comissão de Pavimentação Urbana, em cumprimento de diretri- zes da diretoria para o período de 2008/2010, tendo por objetivo a revisão e atualização dos volumes que compõem o Manual de Pavi- mentação Urbana, vem apresentar a todos profissionais atuantes nas fases de projeto, construção, manutenção e fiscalização de obras de sistemas viários urbanos o volume de “Drenagem – Ma- nual de Projetos”.

Cabe destacar que o conteúdo técnico deste compêndio é fruto de pesquisa detalhada da bibliografia específica, bem como de al- guns procedimentos técnicos de projeto adotados por diversas prefeituras municipais.

Desse modo, este volume foi desenvolvido por sócios da ABPv, pro- fissionais atuantes na área de drenagem urbana, que colabora- ram voluntariamente com esse importante projeto de nossa asso- ciação, com vistas à divulgação da boa técnica de engenharia apli- cada na prática da pavimentação dos sistemas viários municipais.

Solicita-se aos usuários que colaborem no permanente aper- feiçoamento do seu conteúdo, enviando críticas e sugestões a abpv@abpv.org.br ou por correio para: Rua Miguel Couto, 105 sobre- loja, Centro, Rio de Janeiro, CEP: 20070-030 – http://www.abpv.org.br.

Agradecimento

A Drenagem de Vias Urbanas, como apresentada no Manual de Projetos

volume II, tornar-se-á instrumento de valor inestimável na execução de

pavimentos urbanos adequados e dentro da boa técnica.

O assunto é primordial para o sucesso e durabilidade dos revestimen-

tos, para a rodagem segura dos veículos automotores e para o desloca- mento com conforto e segurança dos pedestres. Uma das principais ca- racterísticas apresentada pelo conteúdo do manual é a sua abrangência, que ultrapassou seu propósito inicial.

O manual cumpre exemplarmente os objetivos propostos pela ABPv, que

é servir a seus associados e trazer benefícios aos construtores de pavi-

mentos em vias e logradouros das cidades. Esta publicação inicia a con- cretização da primeira revisão dos Manuais de Pavimentação Urbana,

idealizada pelo saudoso engenheiro químico Jorge Eduardo Salathé, que vem sendo levada a cabo pela Comissão de Pavimentação Urbana – CPU.

Agradecemos ao autor, co-autor, revisores, patrocinadores, membros da CPU e a todos aqueles que contribuíram de maneira inestimável na idealização, elaboração, correção e distribuição deste Manual de Dre- nagem, resultante de esforços e dedicação que não temos como com- pensar. Todo empenho aqui impresso é instrumento desencadeador de aprimoramento técnico, desenvolvimento sustentável e de melhorias sociais, que serão suscitados com a aplicação do seu conteúdo de ex- trema qualidade. Os resultados serão compensadores para a sociedade.

Diretoria da ABPv

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Sumário

Lista de figuras

8

Lista de tabelas

11

Lista de abreviaturas e símbolos

13

1 Introdução

16

2 Fundamentos da drenagem urbana

18

2.1 Drenagem urbana sustentável

18

2.2 Princípios da drenagem urbana moderna

18

2.3 Medidas de controle de inundação

19

2.4 Drenagem urbana e saneamento

20

2.5 Drenagem urbana e plano diretor

20

2.6 Concepção geral de dimensionamento

23

2.7 Macrodrenagem

24

2.8 Microdrenagem

25

3 Fases de projeto

26

3.1 Levantamentos

26

3.2 Estudos preliminares

28

3.3 Anteprojeto

29

3.4 Projeto Básico de Drenagem (relatório final)

31

3.5 Projeto Executivo de Drenagem

38

3.6 Apresentação do “As Built” – como construído

38

4 Cálculo da vazão de projeto

40

4.1 Tempo de recorrência ou período de retorno

41

4.2 Duração da chuva

42

SUMÁRIO

4.3 Chuva de projeto – intensidade

4.4 Delimitação da bacia e sub-bacias

4.5 Coeficiente de deflúvio ou escoamento superficial ou de run off

4.6 Cálculo da vazão de projeto

5.

6.

Canais

Sarjetas

7. Bocas-de-lobo

8. Galerias

9. Reservatórios

10. Outros dispositivos

Anexos

A – Valores referenciais para projetos de logradouros e loteamentos

B – Elaboração dos desenhos

C – Parâmetros para cálculo de precipitação, segundo Otto Pfafstetter

D

E

F

– Glossário – Marcos legais – Tabelas úteis

Bibliografia

44

46

48

49

58

70

84

98

110

135

141

141

142

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149

154

157

158

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Lista de figuras

Figura 2.1

– Esquema de uma estrutura de plano diretor de drenagem urbana

Figura 2.2

– Exemplo de um mapa do plano diretor para a Bacia do Rio Aricanduva

Figura 2.3

– Microdrenagem tradicional

Figura 3.1

– Fluxograma das Fases do Projeto

Figura 4.1

– Curva-chave de um rio

Figura 4.2

– Fluxograma para levantar a descarga de projeto

Figura 4.3

– Levantamento de fluxo nas ruas

Figura 4.4

– Divisão de áreas de contribuição para as ruas

Figura 4.5

– Demarcação das bacias de cada PV

Figura 4.6

– Dimensões da área de drenagem de uma sarjeta

Figura 4.7

– Representação da parcela excedente e infiltrada da chuva

Figura 4.8

– Curva P efetiva em função de P para diversas bacias

Figura 4.9

– Constância de tempo de base

Figura 4.10 – Proporcionalidade das descargas Figura 4.11 – Aditividade das descargas Figura 4.12 – Construção do Hidrograma Unitário Triangular (HUT) adimensional Figura 4.13 – Conformação e composição dos HUT no hidrograma total de escoamento superficial da bacia

Figura 5.1

– Canal ou conduto livre em (a, b e c) e forçado em (d)

Figura 5.2

– Mudança de regime nos canais com escoamento permanente

Figura 5.3

– Seção molhada e perímetro molhado de um conduto

Figura 5.4

– Ampliação da calha do Rio Tietê

Figura 5.5

– Exemplos de canais gramados

Figura 6.1

– Seção recomendada no encontro calçada-sarjeta

Figura 6.2

– A sarjeta e a passada do pedestre

Figura 6.3 – Seção econômica típica guia-pavimento

8

Figura 6.4

– Seção de uma sarjeta triangular

Figura 6.5

– Seção composta de uma sarjeta triangular

Figura 6.6

– Sarjetão

Figura 6.7

– Sarjeta tipo A

LISTA DE FIGURAS

Figura 6.8 – Sarjeta tipo B

Figura 6.9

Figura 6.10 – Gráfico: fatores de redução (F R ) de escoamento das sarjetas

– Sarjeta tipo C

Figura 7.1

– Boca-de-lobo simples (de ferro fundido cinzento) – Cortes de boca-de-lobo simples tipo A – Posição da rede coletora na via – Principais tipos de bocas-de-lobo – Configurações típicas de cruzamentos em sistemas de drenagem – Alguns parâmetros usados para cálculo

Figura 7.2

Figura 7.3

Figura 7.4

Figura 7.5

Figura 7.6

Figura 7.7

– Capacidade de esgotamento das bocas-de-lobo simples com depressão de 5cm, em pontos baixos das sarjetas – Boca-de-lobo simples, em ponto intermediário da sarjeta – Boca-de-lobo combinada correspondente ao gráfico da Figura 7.10

Figura 7.8

Figura 7.9

Figura 7.10 – Gráfico para obter a capacidade da boca-de-lobo da Figura 7.9

Figura 8.1

– Partes constitutivas de um sistema de galerias

Figura 8.2

– Esquema de um corte transversal típico – sem escala

Figura 8.3

– Determinação da declividade de um coletor

Figura 8.4

– Exemplo de recobrimento de uma galeria

Figura 8.5

– Exemplo de PV com degrau

Figura 8.6

– Ligação de coletores de diâmetros diferentes

Figura 8.7

– Ilustração da determinação da cota de fundo do PV

Figura 8.8

– Medida do desnível (H) entre dois PVs

Figura 8.9

– Soluções para remanso em galerias

Figura 8.10 – Parametrização da seção molhada pelo ângulo “θ” Figura 8.11 – Dimensões características da seção retangular

Figura 8.12 – Indicação de tirante d’água

Figura 9.1

– Piscinão AC1/ Vila Rosa (DAEE /SP)

Figura 9.2

– Tipos de reservatório: (a) percolação; (b) detenção e (c) retenção.

Figura 9.3

– Reservatório de detenção

Figura 9.4

– Foto de reservatório de retenção

Figura 9.5

– Esquema de um reservatório aberto

Figura 9.6

– Esquema para dimensionar reservatórios

Figura 9.7

– Esquema para controle de saída em reservatórios

Figura 9.8

– Valores de coeficiente de descarga (C d ) para diferentes orifícios

Figura 9.9

– Nomograma para orifício retangular com h < 4.a

Figura 9.10 – Nomograma para orifício circular com h < 4.a Figura 9.11 – Volumes de detenção necessários para lotes com diferentes impermeabilizações Figura 9.12 – Exemplo de um reservatório subterrâneo retangular

9

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Figura 9.13 – Exemplo de um reservatório subterrâneo cilíndrico Figura 9.14 – Microrreservatório poroso enterrado Figura 9.15 – Bacia subterrânea Figura 9.16 – Bacia de detenção seca Figura 9.17 – Bacia de detenção alagada Figura 9.18 – Alagadiços Figura 9.19 – Diferenças no amortecimento do hidrograma de enchente em função do grau de meandros em cursos d’água Figura 9.20 – Posição relativa de dois materiais granulares Figura 9.21 – Figura com os elementos da Lei de Darcy Figura 9.22 – Granulometria de materiais e permeabilidade Figura 9.23 – Exemplo de pavimentos permeáveis Figura 9.24 – Trincheira de infiltração e de retenção Figura 9.25 – Exemplo de trincheira de infiltração Figura 9.26 – Exemplo de trincheira de percolação Figura 9.27 – Foto de vala de infiltração Figura 9.28 – Poço de infiltração

Figura 10.1 – Características de descida d’água Figura 10.2 – Fotos de descidas d’água. Figura 10.3 – Seção transversal de dissipador contínuo Figura 10.4 – Foto de bacia de amortecimento Figura 10.5 – Esquema para cálculo da bacia de amortecimento Figura 10.6 – Elementos do dissipador de energia Figura 10.7 – Gráfico para obtenção do comprimento da bacia de amortecimento Figura 10.8 – Gráfico para levantamento de diâmetro equivalente

LISTA DE TABELAS

Lista de tabelas

Tabela 2.1

– Informações necessárias para fazer um Plano Diretor de Drenagem

Tabela 2.2

Diretrizes do Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, 1998

Tabela 3.1

– Lista de entidades fornecedoras de cartas ou imagens cartográficas

Tabela 3.2

– Seqüência para anteprojeto de microdrenagem

Tabela 4.1

– Tempos de Recorrência para obras de drenagem

Tabela 4.2

– Tempo de escoamento superficial

Tabela 4.3

– Exemplos de equações da chuva para algumas cidades brasileiras

Tabela 4.4

– Valores de α (PFAFSTETTER, 1982)

Tabela 4.5

– Valores de β, a, b, c (PFAFSTETTER, 1982)

Tabela 4.6

– Valores de C para áreas com uso e/ou ocupação específicos

Tabela 4.7

– Valores de C para áreas restritas com uso e/ou ocupação específicos

Tabela 4.8

– Valores de C em função de superfícies

Tabela 4.9

– Critério para escolha do método de cálculo da vazão

Tabela 4.10 – Grupos Hidrológicos de Solos Tabela 4.11 – Número de curva CN para diferentes condições do complexo hidrológico Tabela 4.12 – Condições de umidade antecedente do solo Tabela 4.13 – Número de curva CN para área urbana

Tabela 5.1

– Seções transversais e profundidade crítica de canais

Tabela 5.2

– Caracterização do regime de escoamento pelo número de Froude

Tabela 5.3

– Um exemplo de tabela para avaliação hidráulica do tipo de seção de canal

Tabela 5.4

– Valores do coeficiente de Manning (n) para vários tipos de canais

Tabela 5.5 – Coeficiente de rugosidade de Manning para canais retilíneos sem árvores ou arbustos

Tabela 5.6

– Elementos de cálculo das profundidades normais de canais trapezoidais

Tabela 5.7

– Valores de “a” para cálculo da BL

Tabela 5.8

– Fatores intervenientes para o projeto de um canal

Tabela 5.9

– Critérios para projeto de canais gramados

Tabela 5.10 – Controle de erosão Tabela 5.11 – Recomendações sobre parâmetros de projeto de canais naturais

Figura 5.12 – Inclinações recomendadas para taludes de canais escavados

11

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Tabela 6.1 – Valores de referência adotados para dimensionar sarjetas

Tabela 6.2

– Valores da vazão específica (q), em l/s/m

Tabela 6.3

– Valores usuais para projetos de ruas e avenidas

Tabela 6.4 – Coeficiente de rugosidade “n” de Manning

Tabela 6.5 – Velocidades admissíveis para diferentes materiais

Tabela 6.6

– Tipos de sarjetas e situação de emprego

Tabela 6.7

– Vazão e velocidade nas sarjetas 2 em função da inclinação longitudinal da via

Tabela 6.8

– Fatores de redução de escoamento das sarjetas

Tabela 6.9

– Comprimento útil ou comprimento máximo de utilização das sarjetas “A” – Lu (m)

Faixa de alagamento W 0 = 1,67 m Tabela 6.10 – Comprimento Útil ou Comprimento Máximo de Utilização das Sarjetas “B” e “C” – Lu (m) Faixa de alagamento W 0 = 1,67 m Tabela 6.11– Comprimento Útil ou Comprimento Máximo de Utilização das Sarjetas – Lu (m) Faixa de alagamento W 0 = 2,17 m

Tabela 7.1

– Capacidade máxima de ramais

Tabela 7.2

– Capacidade (l / s) de BL em ponto baixo

Tabela 7.3

– Capacidade das BL para greide contínuo – Faixa de alagamento de 1,67m

Tabela 7.4

– Capacidade das BL para greide contínuo – Faixa de alagamento de 2,17m

Tabela 7.5

– Fatores de redução de escoamento para BL (F)

Tabela 8.1

– Medidas limites de seções de galerias

Tabela 8.2

– Velocidades limites de galerias

Tabela 8.3 – Declividades recomendadas para galerias

Tabela 8.4

– Limites para lâminas d’água

Tabela 8.5

– Valores mínimos de recobrimento

Tabela 8.6

– Espaçamento máximo entre PV

Tabela 8.7

– Um modelo de tabela para cálculo de coletores de águas pluviais

Tabela 9.1 – Tipos de reservatórios e tempo de armazenamento

Tabela 9.2

– Formas de reduzir o deflúvio superficial direto

Tabela 9.3

– Equações da curva de descarga de diferentes vertedores

Tabela 9.4

– Tabela do algoritmo de cálculo de reservatórios

Tabela 9.5

– Situações locais impostas e solução pela Lei de Darcy

Tabela 9.6

– Escala prática de permeabilidade de materiais

Tabela 9.7

– Coeficientes de condutividade hidráulica (k)

Tabela 9.8

– Tipos de obras de controle na fonte

12 Tabela 10.1 – Determinação do tipo de bacia pelo número de Froude Tabela 10.2 – Expressões para cálculo de y’ 2

LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS

Lista de abreviaturas e símbolos

ABREVIATURAS

ABES

– Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental

ABNT

– Associação Brasileira de Normas Técnicas

ABPv

– Associação Brasileira de Pavimentação

ANA

– Agência Nacional de Águas

CEDAE

– Companhia Estadual de Águas e Esgotos

CETESB

– Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (SP)

CONAMA

– Conselho Nacional do Meio Ambiente

DAEE

– Departamento de Águas e Energia Elétrica (SP)

DNIT

– Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes

HUT

– Hidrograma Unitário Triangular

ISA

– International Standards Association

ISO

– International Standards Organization

LI

– Licença de Instalação

LO

– Licença de Operação

LP

– Licença Prévia

PM

– Prefeitura Municipal

SCS

– Soil Conservation Service (Serviço de Conservação do Solo do Departamento de Recursos Naturais dos Estados Unidos)

SEMA

– Secretaria Especial do Meio Ambiente

SEMADS

– Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (RJ)

UFRJ

– Universidade Federal do Rio de Janeiro

SÍMBOLOS

θ – ângulo em radianos

A – área

a – profundidade de lote lindeiro A H – seção ou área molhada

b

BL

BL

– base de canal – boca-de-lobo – borda livre

13

C

– caimento

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

C – coeficiente de run-off

C d

C E

C F – cota do fundo do PV ou boca-de-lobo

C T

– coeficiente de descarga

– cota de entrada

– cota de topo de PV ou boca-de-lobo

CN

Curver Number, número de curva de infiltração do solo

d

– duração da chuva

DBO

– Demanda Bioquímica de Oxigênio

d

e

– diâmetro dos furos do tubo

D

N – diâmetro nominal (interno)

D

U – duração de chuva unitária

E

– energia específica

F

– largura de faixa da via

F

– número de Froude

F’F’

– ferro fundido cinzento

F a

F R

g – aceleração da gravidade (9,81 m/s 2 )

H – altura do coletor celular, altura de parede

H – altura da abertura da boca-de-lobo

h c

HUT – Hidrograma Unitário Triangular

HW – headwater depth – carga hidráulica na entrada de um duto em relação

– infiltração após início do escoamento superficial direto

– fator de redução

– profundidade crítica

à geratriz inferior do mesmo.

i – declividade longitudinal, declividade de escoamento

I – intensidade de precipitação

I a

K – coeficiente de permeabilidade

– infiltração inicial

L BL

– largura da boca-de-lobo

L

– extensão do talvegue

LAG

– tempo entre o centro de massa da chuva e o instante de pico

14

L u

– comprimento útil ou crítico

n

– coeficiente de rugosidade

P

– precipitação, altura de chuva

P

H

– perímetro molhado

Pa

– pressão atmosférica

P

e

– chuva excedente

PM

– Prefeitura Municipal

PV

– poço de visita

Q

– vazão de contribuição, descarga de projeto

LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS

Q P

q – capacidade hidráulica

q i – vazão específica

R H

S – infiltração potencial máxima

T – largura da superfície d’água

T B

t c

t i

t

t

T R

V – velocidade

V c

– tempo de concentração

– descarga máxima, de pico

– raio hidráulico

– tempo de base

– tempo de entrada

– tempo de percurso

– tempo de ponta ou de pico

– tempo de recorrência

– velocidade crítica

p

p

y

– altura da lâmina d’água, profundidade do fluxo, profundidade do escoamento

z

– inclinação de talude

H

– desnível

1

Introdução

O crescimento populacional e a urbanização intensa dos últimos anos têm sofrido um impacto

muito grande na ocupação do solo urbano. A própria pavimentação das ruas diminui a possibilida- de de infiltração das águas das chuvas no solo e, ao mesmo tempo, pode ser afetada pela presen- ça da água acumulada. A ocupação das encostas de morros e rios por habitações precárias produz erosão e assoreamento dos sistemas de drenagem naturais ou implantados. À medida que

a cidade se urbaniza, ocorre o aumento das vazões máximas devido à impermeabilização e canaliza- ção bem como à produção de sedimentos. Portanto, a questão da drenagem urbana é um problema significativo para a qualidade de vida dos cidadãos como também da pavimentação.

O projeto da drenagem das vias permite a utilização adequada dos dispositivos de drenagem em

projetos novos, construções já existentes ou em restaurações viárias. A implantação de um projeto de drenagem evita o acúmulo e a retenção da água na via, protegendo os pedestres, os veículos e

o pavimento contra a ação prejudicial das águas que atingem as ruas, sob forma de chuva, infiltra- ções, torrentes, ou armazenada sob a forma de lençóis freáticos ou artesianos.

Um dos problemas de drenagem usual está ligado à drenagem do pavimento para remover as águas que se infiltraram nas camadas do pavimento ou nas suas interfaces e que podem ocasionar prejuízo à estrutura.

No caso urbano, as retiradas das águas precipitadas sobre a via e áreas adjacentes é a principal preocupação. Trata-se de um serviço público municipal, que envolve um elenco de soluções teóri- cas consagradas na Hidráulica, além de práticas de engenharia adotadas ao longo dos anos no cotidiano de diversas prefeituras municipais, com resultados positivos que garantem a eficiência das soluções implantadas, contribuindo assim para a boa técnica a ser considerada. Tal tecnologia é aqui apresentada com os critérios usuais adotados pelos projetistas de drenagem urbana, buscan- do-se a correção e objetividade de procedimentos.

Consideram-se como partes integrantes deste manual as normas, especificações, métodos, pa- dronizações, classificações, terminologias e simbologias estabelecidas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) direta ou indiretamente relacionadas com a drenagem urbana.

Este manual é composto por 10 capítulos. Neste capítulo de introdução é apresentado o manual.

O capítulo 2 faz uma panorâmica da drenagem moderna. O capítulo 3 mostra o seqüenciamento

INTRODUÇÃO

de um projeto, desde os levantamentos iniciais até o relatório final e o “as built”. O capítulo 4 trata da fase hidrológica do projeto, que busca a vazão que requererá o dimensionamento de um dispositivo de drenagem. O primeiro dispositivo de drenagem é apresentado no capítulo 5, que é dedicado a canais. A razão é que o dimensionamento da esmagadora maioria dos dispositivos é feita como conduto livre, ou seja: como um canal. Os capítulos 6, 7 e 8 tratam dos dispositivos da microdrenagem: sarjeta, boca-de-lobo e galeria. O capítulo 9 apresenta comentários sobre reser- vatórios, estruturas que vêm crescendo de importância nas grandes cidades. O Capítulo 10 trata de descidas d’água e dissipadores de energia.

Além desses capítulos, o manual oferece um rico material complementar nos anexos: um glossá- rio; medidas referenciais para ruas e lotes; a tabela completa dos parâmetros de cálculo de Otto Pfafstetter; convenções para desenhos; marcos legais, tabelas úteis e bibliografia. Num anexo deste manual são indicados os vínculos legais e normativos associados à drenagem, listadas todas as normas específicas da ABNT e do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transpor- tes (DNIT), este último como subsídio complementar, em virtude de esse órgão dispor de um bem estruturado acervo com facilidade de consulta e obtenção de todo ele no site: http://www.dnit.gov.br.

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

2

Fundamentos

da Drenagem Urbana

2.1 DRENAGEM URBANA SUSTENTÁVEL

Desenvolvimento sustentável é a preservação para gerações futuras de recursos auferidos pela geração atual. Ele é tratado em três esferas: econômica, social e ecológica e foi expresso por Pronk

e Haq (1992) da seguinte forma:

a) O consumo atual não pode ser financiado de forma prolongada levando a uma dívida econô- mica que outros deverão pagar;

b) Deve haver suficiente inversão na educação e na saúde da população de hoje de maneira a não criar uma dívida social para as gerações futuras; e

c) Os recursos naturais devem ser utilizados de maneira a não criar dívidas ecológicas por sobre-explotação da capacidade de sustento e da capacidade produtiva da Terra.

A perspectiva da sustentabilidade associada à drenagem urbana introduz uma nova forma de

direcionamento das ações, baseada no reconhecimento da complexidade das relações entre os ecossistemas naturais, o sistema urbano artificial e a sociedade. 1

2.2 PRINCÍPIOS DA DRENAGEM URBANA MODERNA

Órgãos fiscalizadores e reguladores dos recursos hídricos e uso do solo, escolas de formação de

técnicos, as três esferas do poder, principalmente a municipal, devem estar atentos aos seguintes princípios relacionados por Tucci e Genz (1995):

a) Não transferir impactos para jusante;

b) Não ampliar cheias naturais;

c) Propor medidas de controle para o conjunto da bacia;

d) Legislação e Planos de Drenagem para controle e orientação;

e) Constante atualização de planejamento por estudo de horizontes de expansão;

f) Controle permanente do uso do solo e áreas de risco;

g) Competência técnico-administrativa dos órgãos públicos gestores; e

h) Educação ambiental qualificada para o poder público, população e meio técnico.

18

1 Cesar Augusto Pompêo, Revista Brasileira de Recursos Hídricos. Porto Alegre, RS, 2000.

FUNDAMENTOS DA DRENAGEM URBANA

2.3 MEDIDAS DE CONTROLE DE INUNDAÇÃO

Antes de se pensar numa obra de drenagem na ocupação de uma área, nela já ocorre a macro- drenagem, formada pelos canais naturais de águas pluviais; desde os filetes iniciais; aos córregos, riachos e rios secundários de percurso; até o curso d’água principal ou lago receptor. Este conjun- to se insere na unidade de análise da macrodrenagem, a bacia hidrográfica. As funções primárias de um curso d’água e de sua várzea associada são a coleta, armazenamento

e veiculação das vazões de cheias. O não-entendimento dessa drenagem natural leva a população

a invadir várzeas e leitos naturais de rios para depois configurar um grave problema ambiental e social, de segurança e de saúde pública, onde o homem declara que o rio “invadiu a sua casa”. Para o controle de inundações existe uma série de medidas que, para melhor entendimento, podem ser agrupadas em não-estruturais e estruturais, como a seguir são apresentadas.

2.3.1 Não-estruturais

São aquelas destinadas ao controle do uso e ocupação do solo (nas várzeas e nas bacias) ou à

diminuição da vulnerabilidade dos ocupantes das áreas de risco aos efeitos das inundações. São medidas não-estruturais:

a) Preventivas (o poder público se antecipa ao problema)

i) correto zoneamento do município (regulamentando o uso do solo);

ii) escolha de locais para parques, áreas de recreação, lazer e contemplação junto a várzeas, mananciais, cursos e reservatórios naturais d’água (para receber inundações periódicas);

iii) lei de parcelamento, ocupação e uso do solo (restrições às áreas inundadas – fixação de cotas máximas de ocupação);

iv) políticas públicas de preservação de matas ciliares de cursos d’água e mananciais (favorecendo

o amortecimento de enchentes e a capacidade da calha de um rio);

v) compra de áreas inundáveis

vi) restrição à expansão do serviço público;

vii) controle de redes de água e esgoto;

viii)programas de informação e educação;

ix) sistemas de previsão e alarme; e

x) seguro contra inundações.

b) Corretivas

i) plano de reurbanização e recuperação de áreas deterioradas;

ii) desapropriação de áreas freqüentemente inundadas (relocações e deslocamentos de população);

iii) construções à prova de inundações;

iv) ajustes de ocupação graduais; e

v) ações de defesa civil.

2.3.2 Estruturais

São obras de engenharia que alteram o escoamento das águas. Estão direcionadas ou ao aumento da condutividade hidráulica ou à retenção temporária das águas seguida de uma liberação lenta para um sistema de canais ou galerias, da micro ou da macrodrenagem.

19

2.4

DRENAGEM URBANA E SANEAMENTO

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

A drenagem urbana se insere no conjunto de ações, obras e serviços prioritários em programas

de Saúde Pública, o que compreende também: abastecimento de água; esgotamento sanitário; coleta de resíduos sólidos; e controle da poluição, de vetores e roedores. 2 Vale lembrar que esses processos estão intimamente relacionados, pois, a deficiência da rede de esgoto 3 e da coleta de resíduos contribui para degradar a qualidade do abastecimento de água potável e possibilita a veiculação de moléstias. Uma coleta de lixo ineficiente, somada a um compor- tamento indisciplinado dos cidadãos, resulta em deteriorar ainda mais a qualidade da água, no entupimento de bueiros e galerias e na ocorrência de inundações.

2.5 DRENAGEM URBANA E PLANO DIRETOR

A drenagem urbana interfere fortemente no planejamento de um município ao abranger aspectos

urbanísticos, sociais, econômicos, ambientais e de segurança de uma população, tais como:

códigos de edificações; zoneamento; lei de parcelamento; ocupação e uso do solo (delimitação das áreas inundadas); plano de reurbanização e renovação de áreas deterioradas; desapropria- ção de áreas freqüentemente inundadas; políticas públicas de ocupação do solo (que podem alterar a sua permeabilidade) e de preservação de matas ciliares de cursos d’água e mananciais (favorecendo o amortecimento de enchentes e a capacidade de escoamento da calha de um rio); construção de reservatórios para controle de cheias ou abastecimento d’água; escolha de local para parques e áreas de recreação e lazer (em condições de receber inundações periódicas); aproveitamento viário das margens de riachos canalizados; projeto de loteamentos; projeto de vias públicas; pavimentação de ruas, pistas e passeios; preservação de propriedades e encostas e segurança do trânsito; dentre outros. Com toda essa abrangência, se esse sistema não for considerado desde o início do planejamento urbano e no seu desenvolvimento integrado, teremos um sistema de alto custo, porém, ineficiente. Com isso, as chuvas intensas poderão causar graves transtornos à população e implicar a destrui- ção de propriedades e vidas humanas.

2.5.1 Estruturação de um Plano Diretor de Drenagem

Um plano diretor de drenagem é elaborado com o plano diretor de desenvolvimento de áreas urbanas ou metropolitanas. Ele tem por objetivo criar os mecanismos de gestão da infra-estrutura urbana relacionada com o escoamento das águas pluviais e dos rios na área urbana (TUCCI, 2002). Para elaborá-lo são necessárias informações que estão relacionadas na Tabela 2.1 a seguir. Um plano diretor de drenagem tem, normalmente, como unidade de gestão a bacia hidrológica. Para realizá-lo é necessário empreender levantamentos e estudos institucionais, hidrológicos e de cadastramento (Figura 2.1).

20

2 Plano Nacional de Saúde e Ambiente no Desenvolvimento Sustentável – 1995.

3 No Brasil, é adotado o sistema separador absoluto: águas pluviais e esgoto sanitário.

FUNDAMENTOS DA DRENAGEM URBANA

Tabela 2.1 – Informações necessárias para fazer um Plano Diretor de Drenagem (TUCCI, 2002)

TIPO

INFORMAÇÃO

 

rede pluvial

Cadastros

bacias hidrográficas

uso e tipo de solo das bacias

 

Plano de desenvolvimento urbano da cidade

Plano de saneamento ou esgotamento sanitário

Planos

Plano de controle dos resíduos sólidos

Plano viário

 

Legislação municipal relacionada com o Plano Diretor Urbano e meio ambiente

Aspectos

Legislação estadual de recursos hídricos

institucionais

Legislação federal

Gestão da drenagem do município

 

precipitação

Dados

vazão

hidrológicos

sedimentos

qualidade da água do sistema de drenagem

Após esses levantamentos, o Plano se estrutura em quatro instâncias:

INSTITUCIONAL Legislação: Federal, Estadual e Municipal, sobre uso do solo, recursos hídricos, meio ambiente, saneamento

CADASTRO FÍSICO

Rede de drenagem, bacias e uso do solo

DADOS

HIDROLÓGICOS

Precipitação, vazão,

sedimentos e

qualidade d’água

Princípios, objetivos e estratégias Sub-divisão da cidade em macro-bacias Diagnóstico da drenagem da cidade
Princípios,
objetivos e
estratégias
Sub-divisão
da cidade em
macro-bacias
Diagnóstico
da drenagem
da cidade
FUNDAMENTOS
ENTRADA Medidas estruturais da sub-bacia Medidas não estruturais: legislação e gestão Viabilidade econômico-
ENTRADA
Medidas
estruturais
da sub-bacia
Medidas não
estruturais:
legislação e
gestão
Viabilidade
econômico-
financeira
DESENVOLVIMENTO
Plano de ações Legislação municipal e atribuições Manual de drenagem PRODUTOS
Plano de
ações
Legislação
municipal e
atribuições
Manual de
drenagem
PRODUTOS
Estudos adicionais Educação Monitoramento PROGRAMAS
Estudos
adicionais
Educação
Monitoramento
PROGRAMAS

Figura 2.1 – Esquema de uma estrutura de plano Diretor de Drenagem Urbana (Adaptado de Silveira, 2002)

a) Fundamentos É realizado um diagnóstico da drenagem por macrobacias, e, de forma integrada a outros planos municipais, são estabelecidas estratégias balizadas por uma drenagem sustentável, pelos princí- pios da drenagem urbana moderna, pela legislação sobre uso do solo, meio ambiente e recursos

21

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

hídricos e pelos objetivos do saneamento básico. Para que essas estratégias sejam efetivadas, o município estabelece seus princípios orientadores e as metas a alcançar.

b) Desenvolvimento

Definida a direção, são propostas as obras e serviços e realizados anteprojetos. São apresentadas

propostas de legislação e de organização municipal voltada para a gestão da drenagem urbana. Os custos financeiros de implantação e manutenção de obras e da gestão municipal são estimados.

É realizada a avaliação ambiental, econômica e social das medidas a serem adotadas para hori- zontes de 10 a 20 anos.

c) Produtos

As propostas positivas são consubstanciadas em um plano cuja melhor expressão são mapas, por bacia hidrográfica, assinalando os recursos hídricos, o uso do solo (atual e planejado), áreas de preservação, áreas inundáveis (várzeas), áreas de risco à população, locação dos sistemas de saneamento (atual e planejado), zonas especiais (com potencial de degradação ambiental, carên-

cia social etc.), obras previstas, pontes, estações de tratamento, áreas públicas, sistema viário, e

o que mais importar para o planejamento e a gestão municipal da drenagem.

São efetivadas leis municipais para dar suporte institucional às medidas contidas no Plano Diretor de Drenagem. O município adota ou adapta manual de projetos, álbum de padrões-tipo de dispo- sitivos de drenagem (desenhos) e especificações técnicas de materiais e serviços de órgão e municípios que dispõem desses e que melhor atendam às características locais ou desenvolve os seus próprios documentos. Com isso, passa a ter um padrão para a conformação dos logradouros públicos, para realizar licitações, tendo referência clara para fiscalizar e aceitar obras e serviços.

d) Programas

Por fim, são estabelecidos programas de acompanhamento e aprimoramento do sistema implantado.

22

2.5.2 Exemplos de extratos de Planos Diretores:

a) Leis introduzidas no município de São Paulo

i)

Os estacionamentos em terrenos deverão ter 30% (trinta por cento) de sua área com piso drenante ou com área naturalmente permeável; e

ii)

Lei das “piscininhas” (2002): obriga a execução de reservatório para as águas coletadas por coberturas e pavimentos nos lotes, edificados ou não, que tenham área impermeabi- lizada superior a 500m 2 . O volume de armazenamento do reservatório deve obedecer a equação seguinte:

V

= 0,15 x A x I x d

(2.1)

Onde:

 

V

= volume do reservatório (m 3 ),

A

= área impermeabilizada (m 2 ),

I = índice pluviométrico igual a 0,06m/h ou 60mm/h,

d = tempo de duração da chuva igual a uma hora.

FUNDAMENTOS DA DRENAGEM URBANA

b) Rio Aricanduva

A Figura 2.2 mostra um exemplo de um mapa onde se indicam os reservatórios e elementos da

bacia de um rio em sua parte urbana.

e elementos da bacia de um rio em sua parte urbana. Figura 2.2 – Exemplo de

Figura 2.2 – Exemplo de um mapa do plano diretor para a Bacia do Rio Aricanduva

c) Exemplo do Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, 1998

As seguintes diretrizes foram consideradas em face da demanda de grande volume de obras de drenagem, aliada à escassez de recursos dentre outras de caráter institucional e legal:

1. Severa obediência às leis de ocupação e zoneamento urbanos;

– Manutenção e preservação de áreas que tenham grande potencial de riscos de erosão;

2. Controle rígido de desmatamentos;

3. Providências para minimizar o transporte de lixo e sedimentos;

– Disseminação do conceito de reservatórios de detenção que, além de reduzir picos de descarga, favorecendo o dimensionamento e os custos de obras de melhoria e projetos de canalização a jusante, ainda podem retardar a chegada dessas vazões aos cursos d´água receptores;

– Medidas não-estruturais e institucionais gerais visando à redução dos picos máximos de cheias; e

– Limitação das velocidades de escoamento, onde possível, em 2,0 m/s para futuros projetos de canalização dentro das sub-bacias integrantes do sistema de drenagem da Bacia do Alto Tietê.

2.6 CONCEPÇÃO GERAL DE DIMENSIONAMENTO

Sob uma perspectiva simples e objetiva, o cálculo da drenagem urbana compreende, basicamente, uma etapa hidrológica, para saber a quantidade de água a drenar – o deflúvio de projeto, e outra, hidráulica, de arranjo e dimensionamento do sistema que conduzirá essa água. Neste trabalho

23

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

vai-se considerar desde a drenagem de cada rua e suas interconexões, que é a microdrenagem, até a sua continuação natural, os receptores d’água – canais e reservatórios de uma bacia, onde tudo isso se insere, que é a macrodrenagem. Basicamente, a primeira, em geral considerada para um período de retorno de 10 anos, visa evitar a interferência entre as enxurradas e o tráfego de pedestres e veículos, e a segunda, em geral considerada para um período de retorno de 25, 50 ou até 100 anos, objetiva prevenir riscos de prejuízos materiais e de perdas de vidas humanas.

2.7 MACRODRENAGEM

Uma obra de macrodrenagem é verificada para as chuvas mais intensas (precipitação com período de retorno da ordem de 25 a 50 anos), considerando-se os possíveis danos às propriedades e os riscos de perdas humanas.

1) Obras e serviços de macrodrenagem

As obras e serviços de macrodrenagem visam melhorar o escoamento para atenuar:

a) inundações;

b) erosões; e

c) assoreamentos.

Eles devem constar de Planos de Macrodrenagem e podem reduzir a necessidade de algumas tubulações subterrâneas da microdrenagem. São constituídos de:

a) grandes galerias;

b) canais naturais e artificiais;

c) dique de proteção para preservar região ribeirinha. Não se deve construir elevado, pois há

risco de rompimento, com conseqüências negativas que são maiores do que as causadas pela sua ausência;

d) melhoria de canais e calhas de rios (retificação, alargamento, aprofundamento, dragagem, derrocamento, revestimento etc.);

e) manutenção de canais e bacias de detenção com remoção de sedimentos, lodos orgâni- cos, lixos, detritos urbanos e ervas daninhas;

f) adequação e manutenção de grandes reservatórios naturais em parques urbanos;

g) construção de reservatórios de detenção e de retenção;

h) dispositivos de proteção à erosão (drenos sub-horizontais; muros de arrimo etc.);

i) reposição de vegetação em áreas erodidas e nas várzeas (matas ciliares); e

j) cercas em vias marginais e faixas de servidão, para preservar obras de drenagem ou de preservação (galerias, bacias de detenção ou retenção, parques, áreas de preservação natural, bacias de retenção ou detenção etc.).

2) Projeto básico de macrodrenagem

O projeto básico de macrodrenagem resulta em:
24

a) Relatório técnico: deve incluir descrição da bacia, situação atual e prospectiva, dados plu- viométricos disponíveis, estudos de hidrogramas, cálculo de vazões, critérios básicos de

FUNDAMENTOS DA DRENAGEM URBANA

engenharia utilizados, planos alternativos, aspectos ambientais e legais e recomendações. Deve apresentar memória que demonstre a capacidade do sistema de macrodrenagem. b) Quadros e desenhos: devem apresentar a planta geral do projeto e os perfis na escala 1:500 ou 1:1.000. Devem apresentar, também, as cotas do fundo do canal ou da galeria, os perfis aproximados da linha d’água, pontes e seções transversais típicas. Devem con- ter informações para orientar as desapropriações antes da construção.

2.8 MICRODRENAGEM

Uma obra de microdrenagem faz-se necessária para criar condições razoáveis de circulação de veículos e pedestres, por ocasião de ocorrência de chuvas freqüentes (precipitação com período de retorno de 2 a 10 anos). A microdrenagem urbana, ou o sistema inicial de drenagem, é constituída pelo sistema de condutos pluviais relacionados aos espaços dos loteamentos ou rede primária urbana. Um exemplo dos elementos da microdrenagem está mostrado na Figura 2.3.

CT = 98m CT = 99m CT = 100m CT = 97m PV.14 PV.13 PV.2
CT = 98m
CT = 99m
CT = 100m
CT = 97m
PV.14
PV.13
PV.2
PV.1
PV.3
PV.15
PV.17
PV.16
PV.5
PV.4
CT = 96m
PV.18
PV.6
PV.20
PV.19
PV.8
PV.7
CT = 95m
PV.21
PV.9
PV.12
PV.22
PV.10
PV.11
PV.23

Vai ao receptor

Figura 2.3 – Microdrenagem tradicional (BIDONE e TUCCI, 1995)

Na microdrenagem, o escoamento natural não é bem definido, sendo determinado pela ocupação do solo. Inicia-se nos coletores prediais das edificações, prossegue no escoamento das sarjetas e sarjetões e entra em pequenos canais, nos bueiros ou nos sistemas de galerias. Um sistema de galerias, por sua vez, compreende a parte subterrânea da microdrenagem iniciada na boca-de-lobo e contendo condutos de ligação; poços de visita; caixas de ligação; e ramais. Esses ele- mentos passam a ser apresentados nos próximos capítulos com informações de como dimensioná-los.

25

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

3

Fases de projeto

A Figura 3.1 resume as várias etapas a serem consideradas em um projeto de drenagem urbana,

mostrando a seqüência dos passos a serem seguidos e as inter-relações entre as fases. Nos itens

seguintes serão comentadas as atividades previstas no fluxograma.

Levantamentos Estudos preliminares – na prefeitura – hidrológicos Início – bibliográficos – uso do solo
Levantamentos
Estudos preliminares
– na prefeitura
– hidrológicos
Início
– bibliográficos
– uso do solo
– de campo
– vias
– dispositivos drenagem tipo
Fim
Anteprojeto
Não
Execução e
Audiência pública
“As Built”
Aprovada?
(representação local e de
município a jusante)
Licença prévia
Sim
Licença Instalação
Licença Operação
Não
micro
Mais
Projeto Executivo
Projeto básico
detalhes?
Sim

macro

Figura 3.1 – Fluxograma das fases de um projeto de drenagem urbana

3.1 LEVANTAMENTOS

A primeira atividade do projetista é o levantamento de dados de interesse para a área a ser drenada. Os itens seguintes apresentam a série de dados a serem pesquisados.

26

3.1.1 Levantamentos na prefeitura municipal

Da Prefeitura local, o projetista deve procurar obter:

1) Diretrizes Básicas para Projetos de Drenagem Urbana ou Caderno de Encargos de Infra-Es- trutura Urbana ou outra forma de expressão das posturas do município onde ocorrerá a obra; 2) Planos Diretores do município; 3) Projetos existentes de redes de águas pluviais na área em estudo e adjacências (especial atenção ao projeto de greide de logradouros implantados ou não-implantados); 4) O cadastro ou previsão de localização, nos logradouros, de dutos de outras redes e siste- mas como: água potável, esgoto sanitário, eletricidade, gás, comunicações ou TV a cabo;

5)

Características geológicas da bacia hidrográfica;

FASES DO PROJETO

6)

7) Informações sobre o nível d’água máximo verificado ou observado dos receptores de

Informações geotécnicas da área e do lençol freático;

águas pluviais;

8)

Pontos de locação de Referência de Nível (RN) oficial;

9)

Existência de fábrica de pré-moldados de condutos no município e redondezas; e

10) Plantas e cartas topográficas e restituições aerofotogramétricas e fotografias aéreas:

a) na escala 1:500 ou 1:1.000, cadastral, com indicação dos arruamentos existentes e

projetados. Se não for possível, utilizar documentos na escala 1:2.000, com curvas de

nível a cada 1m ou 2m; ou ainda, 1:5.000, com curvas de nível a cada 5m. A possibilidade

de escolha de escalas menores ou maiores é decorrente da maior ou menor movimentação

do terreno, nessa ordem; e

b) na escala de 1:5.000 ou 1:10.000, para determinar a bacia contribuinte da área a ser

drenada e as diferentes permeabilidades do terreno. Na impossibilidade, utilizar escala

de 1:25.000.

Não se obtendo plantas ou mesmo para melhor instruir o estudo, dependendo da localização do

projeto, existe a possibilidade de se conseguir cartas topográficas ou fotografias aéreas de

outras fontes como as listadas na tabela 3.1.

Tabela 3.1 – Lista de entidades fornecedoras de cartas ou imagens cartográficas

 

Entidade

Produto

Site

Sigla

Nome

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

cartas, da escala 1:25.000 em diante

http://www.ibge.gov.br

DSG

Diretoria do Serviço Geográfico do Exército Brasileiro

cartas, da escala 1:25.000 em diante

http://www.dsg.eb.mil.br/

Emplasa

Empresa Paulista de PlanejamentoMetropolitanoS.A.

cartastopográficas

http://www.emplasa.sp.gov.br

 

InstitutoGeográfico

cartas, da escala 1:2.000 em diante

 

IGC

e Cartográfico

http://www.igc.sp.gov.br

Internet (programa: Google Earth )

- imagens -

http://earth.google.com

   

www.engemap.com.br

fotos

www.ctgeo.com.br

www.multispectral.com.br

Empresas de aerofotogrametria

aéreas/restituições

www.aerocarta.com.br

aerofotogramétricas

www.engefoto.com

www.maplanbrasil.com.br

27

3.1.2 Levantamento bibliográfico de dados hidrológicos

Paralevantamentoshidrológicosdeve-seprocederconsultasaosdocumentoseelementoscitadosaseguir:

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

1) Atlas climatológico; 2) Atlas e mapas pedológicos (tipos de solos locais); 3) Sistema de Classificação Climática de Wladimir Peter Köppen; 4) Dados pluviométricos da Agência Nacional de Águas (ANA); e 5) Identificar a existência de equação da chuva padrão local e das relações intensidade- duração-freqüência e de hietogramas típicos de distribuição temporal, para as precipitações históricas da região.

3.1.3 Levantamentos de campo

Estudadas as cartas, plantas e as posturas municipais, o projetista se dirige à área do projeto para a inspeção e outros levantamentos listados a seguir:

1)

Topográficos: identificação no local de RN oficial; cotas de cruzamento de ruas; pontos

2)

notáveis; áreas inundáveis; cota da máxima cheia; locais de deságüe; pontos baixos; mudanças de declividade e de soleiras, se necessário; Geotécnicos: natureza dos solos da bacia e ao longo das vias; nível do lençol freático,

3)

se possível no período de chuvas; Condições da rede de águas pluviais a ser aproveitada (funcionamento, condições

4)

estruturais etc.); Localização de áreas alagadiças;

5)

Possibilidades de uso do material eventualmente a ser escavado;

6)

Possíveis locais de bota-fora de material escavado;

7)

Fontes de água natural (poços, nascentes ou bicas) usadas pela população;

8)

Áreas inundáveis (entrevista com moradores locais);

9)

Cota dos pontos mais baixos a drenar;

10) Localização dos receptores d’água apropriados (exutórios);

11) Condições e nível da máxima cheia dos receptores d’água (rio, lago etc.); 12) Antever a necessidade de evitar a reprodução de vetores; 13) Índice de ocupação urbana; 14) Ocupação e recobrimento do solo nas áreas não urbanizadas da bacia; 15) Características da cobertura vegetal; 16) Distâncias às zonas povoadas;

17)

18) Possíveis conseqüências ecológicas, com ou sem o sistema de drenagem;

Aceitação da implantação da drenagem pela população;

19)

Tipos e materiais disponíveis, no comércio local, para a construção do sistema de drenagem; e

20)

Verificar a existência e possibilidade de uso de materiais alternativos (escória de alto-forno, alvenaria etc.).

3.2 ESTUDOS PRELIMINARES

28

De posse dos levantamentos, as informações são transferidas para as cartas topográficas e registradas textualmente, para consolidar os seguintes dados:

FASES DO PROJETO

1) Vias

a)

sistema viário com indicação do tipo de cada via (expressa, principal, secundária ou local);

o

b)

seção transversal das vias (pista e passeio); e

c)

tipos de pavimentos das vias;

2) Topográficos

a) definição ou adequação do alinhamento horizontal das vias;

b) greide das vias; e

c) identificação das cotas de todos os pontos de cruzamento, de mudança de greide e

de direção dos logradouros existentes na área, da cota máxima dos receptores, assim como de todos os pontos notáveis. 3) Prospecção geotécnica

a) identificação dos tipos de solos locais;

b) localização e disposição dos diferentes horizontes do subsolo;

c) identificação do uso e ocupação do solo previsto para a área; e

d) identificação do nível do lençol freático em diferentes épocas do ano.

4) Dispositivos de drenagem: projetos padrões com suas características (forma geométrica, materiais, dimensões etc.). 5) Hidrológicos – estudo e avaliação das informações pluviométricas, fluviométricas e de marés na região do projeto.

a) escolha do posto meteorológico de referência;

b) definição das características pluviométricas do posto na região de projeto (equação de chuvas do posto, curva de precipitação x duração x tempo de recorrência, intensidade

x duração x tempo de recorrência etc.);

c) identificação da grande bacia natural em que se insere a área a ser drenada;

d) determinação das características das bacias de contribuição (área da bacia, comprimento e desnível do talvegue), com a apresentação de planta das bacias em escala adequada;

e) análise e uso, caso necessário, dos elementos fluviométricos (cotas dos níveis d’água, vazões e curva-chave);

f) análise e uso, caso necessário, dos dados de maré, buscando estabelecer a cota da maré de sizígia;

g) definição da metodologia de cálculo das vazões de projeto; e

h) determinação das vazões das bacias de contribuição para o projeto (descrição dos critérios utilizados e planilha de cálculo das vazões).

3.3 ANTEPROJETO (CONCEPÇÃO, ESTUDO DE ALTERNATIVAS E DE VIABILIDADE)

Os passos seguintes devem ser considerados num anteprojeto de drenagem urbana:

1) Descrição da concepção do sistema; 2) Estudos hidrológicos:

29

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

a) da pluviometria:

i) definição dos tempos de recorrência;

ii) obtenção da chuva de projeto (precipitação e intensidade) com o uso de posto adequado à região; e

iii) elaboração de histogramas com número de dias de chuva médio mensal.

b) Da vazão:

i) delimitação das áreas das bacias e sub-bacias;

ii) determinação da duração da chuva de projeto (tempo de concentração);

iii) definição dos coeficientes de escoamento superficial;

iv) determinação da chuva de projeto para as bacias; e

v) cálculo das vazões de projeto.

c) da curva chave do rio (cotas limnimétricas x vazão);

d) definição da maré de sizígia.

3) Definição dos parâmetros de cálculo: velocidades limites de escoamento, declividades mais

adequadas etc.; 4) Desenho do sistema de drenagem em planta e perfil:

a) dispositivos existentes;

b) dispositivos propostos;

c) representação de galerias e canais;

d) locação de reservatórios de detenção e retenção, diques, bombas etc.; e

e) linha demarcatória de calha de rios, alargamentos, retificações, leito maior etc.

5) Sobreposição a outros sistemas:

a) interligação com sistema de drenagem existente: verificação da capacidade hidráulica

da rede a ser aproveitada e condições de funcionamento;

b) interferências com sistemas existentes: forma de contornar; e

c) usos alternativos das soluções adotadas.

6) Pré-dimensionamento com a escolha do tipo de dispositivos a adotar, seções transversais,

capacidades de reservatório e dimensões de diques; 7) Determinação dos quantitativos de serviços e orçamento preliminar das alternativas; 8) Relatório de inspeção local (com registro fotográfico) com avaliação:

a) técnica;

b) de custos (quantidades e dimensões das estruturas especiais: pontes, diques, estações de bombeamento etc.); e

c) identificação de restrições legais, ambientais e sociais.

9) Estudo de viabilidade. A escolha da solução que melhor atenda ao programa de necessidades, sob os aspectos legal,

técnico, econômico e ambiental, deve considerar os seguintes itens:

30

a) a relação custo – beneficio do empreendimento;

b) compatibilização com os recursos disponíveis; e

c) definição de métodos e prazos de execução.

FASES DO PROJETO

Depois de identificada a alternativa que proporciona o máximo de vantagens e benefícios ao menor

custo, é realizada uma reunião entre projetistas, contratantes e população local e de jusante para

validação da proposta. O relatório do anteprojeto é enviado ao Poder Público para Licença Prévia (LP),

para aprovação da localização e concepção, atestando a viabilidade ambiental e estabelecimento

de requisitos básicos e condicionantes a serem atendidos no projeto.

Na Tabela 3.2 está mostrada, de outra forma, uma seqüência de passos a serem realizados para

se obter um anteprojeto adequado da microdrenagem urbana.

Tabela 3.2 – Seqüência para anteprojeto de microdrenagem

Seq.

Atividade

1

Na carta topográfica ou restituições aerofotogramétricas ou fotografias aéreas, delimitar as bacias a serem drenadas.

2

Indicar o sentido de escoamento das águas pluviais ao longo de cada lado das vias.

3

Delimitar (linhas finas interpontilhadas) as áreas tributárias a cada ponto de captação.

4

Levantar as áreas de contribuição para cada ponto de captação.

5

Definir ou calcular os coeficientes de deflúvio (ou de escoamento superficial) em função das características de ocupação de cada área a ser drenada.

6

Calcular as vazões de projeto (deflúvios a escoar) que serão captadas pelas obras de drenagem. O procedimento deve ser realizado de montante para jusante.

7

Representar as bocas-de-lobo/caixas de ralo por pequenos retângulos, definir as posições das obras de montante para jusante, nos cruzamentos e onde a água possa empossar.

8

Representar ramais de ligação entre dispositivos de captação e poços de visita, de preferência dentro da caixa da via. Usar linha cheia para projeto e tracejada para dispositivos existentes.

9

Representar os poços de visita por pequenos círculos, locá-los em função dos dispositivos de captação das águas e da disposição do arruamento.

10

Identificar as cotas do terreno e greide em cada poço de visita, bem como em pontos críticos do greide.

11

Numerar os poços de visita no sentido crescente das vazões, de montante para jusante, de forma que cada um receba contribuição proveniente de outro de número menor.

12

Medir entre os centros dos poços de visita a extensão de cada trecho das galerias.

13

Realizar os cálculos de dimensionamento de cada trecho da galeria, determinando diâmetro, declividade, velocidade, cotas, etc.

3.4 PROJETO BÁSICO DE DRENAGEM (RELATÓRIO FINAL)

O Projeto Básico é o documento técnico mais importante para a licitação de obras públicas. Pode ser

conceituado como o conjunto de elementos que definem a obra, permitindo a quantificação dos materiais,

equipamentos e serviços a serem utilizados e possibilitando a estimativa de seu custo e prazo de execução.

O

Projeto Básico deverá incluir (Lei 8.666/93, art. 6 o , IX):

1) Especificação técnica de materiais e serviços a serem utilizados;

2) Orçamento detalhado, inclusive com BDI; e

31

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Nos Quadros 3.1 e 3.2 a seguir são mostrados alguns comentários relevantes extraídos das

legislações vigentes que ressaltam preocupações legais nos projetos de drenagem urbana.

Quadro 3.1 – Extrato da Resolução Conama n o 237/1997

LICENCIAMENTO AMBIENTAL

Resolução Conama n o 237/1997 lista os empreendimentos que necessitam de licenciamento

A

ambiental. Para obras civis, dentre outras cita:

– barragens, diques, canais para drenagem e retificação de curso d’água; e

– abertura de barras, embocaduras e canais.

Independentemente da Resolução n o 237/1997, deverão ser licenciados empreendimentos que:

– possuam potencial poluidor ou grau de utilização de recursos naturais muito elevados;

– localizem-se em ou interfiram com unidade de conservação ou zona de amortecimento; e

– sejam incompatíveis com zoneamento ecológico-econômico aprovado.

Quadro 3.2 – Extrato da Resolução Conama n o 1/1986

ESTUDOS AMBIENTAIS

Paralelamente ao licenciamento ambiental, podem ser exigidos, pelo órgão governamental, a apresentação de estudos ambientais, como condição para concessão de licença. Estão sujeitos a estudo ambiental, EIA e respectivo RIMA, em princípio, empreendimentos com significativo impacto ambiental. Eles estão listados na Resolução Conama n o 1/ 1986, art. 2 o , dentre outros, o item VII :

– VII – Obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos, tais como: barragem para

fins hidrelétricos, acima de 10MW, de saneamento ou de irrigação, abertura de canais para navegação, drenagem e irrigação, retificação de cursos d’água, abertura de barras e embocaduras, transposição de bacias, diques.

A materialização do Projeto Básico ocorre no documento denominado Relatório Final. Sua forma de

apresentação consiste em volumes encadernados, um para cada tópico do projeto, à medida que os

mesmos são desenvolvidos. Normalmente, esses tópicos são em número de cinco, estando os

mesmos apresentados a seguir. Procurou-se expor uma estrutura completa que pudesse contemplar

grandes empreendimentos e, a partir daí, possibilitar uma adequação à dimensão e especificidade

de cada obra.

3.4.1 Relatório Técnico

O Relatório Técnico deve conter os seguintes itens:

1) Apresentação:

• citar a empresa ou departamento responsável pelo projeto, nome do município, órgão
32

responsável, nome da obra, localização, extensão, nome do relatório final e a composição

de sua estrutura.

FASES DO PROJETO

2) Planta de situação da obra

3) Elementos da bacia hidrográfica:

a) planta da bacia hidrográfica;

b) Descrição da bacia hidrográfica:

i. características morfológicas da bacia;

ii. características de ocupação e de cobertura vegetal;

iii. características geológicas e dos solos da bacia; e

iv. avaliação das condições de permeabilidade da bacia.

c) Análise das características da bacia que repercutem no deflúvio superficial.

4) Descrição do escopo do projeto:

a) objetivo da obra: segurança, redução de inundações, tráfego de pessoas e veículos, etc;

b) abrangência:

i) extensão atendida (bairros, áreas de risco, setor industrial, marginal etc.); e

ii) nível da drenagem, micro ou macrodrenagem: superficial, galerias, canais etc.

5) Resumo das características do projeto básico:

a) descrição da concepção do sistema. Exposição do estudo realizado e a justificativa da solução adotada; e

b) meios empregados para levantar elementos existentes; citação dos dispositivos de drenagem projetados; projetos-padrão utilizados; critérios na determinação de suas capacidades; descrição dos tipos de materiais empregados; proteção da saia dos aterros e do deságüe dos dispositivos.

6) Dados básicos:

a) planta da bacia hidrográfica (sub-bacia);

b) desenhos cadastrais da faixa de influência das obras;

c) drenagem lateral;

d) interferências principais e utilidades públicas;

e) condições previstas de desenvolvimento futuro;

f) cobertura vegetal e condições de ocupação da bacia atual e futura;

g) características geológicas da bacia;

h) características geotécnicas e do lençol freático da faixa de implantação das obras;

i) informações sobre chuvas intensas na área da bacia;

j) estudos anteriores;

k) obras existentes (condições estruturais, hidráulicas etc.); e

l) Planta do perfil longitudinal do(s) curso(s) principal(is) (com estaqueamento).

7) Estudos hidrológicos:

a) critérios de projeto;

33

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

b) chuvas de projeto:

i) tempo de recorrência;

ii) duração da chuva de projeto (tempo de concentração); e

iii) intensidade.

c) subdivisão da bacia em áreas hidrologicamente homogêneas;

d) parâmetros morfológicos característicos das sub-bacias;

e) cálculo de vazões máximas e/ou hidrogramas de cheias; e

f) estudo de reservatórios de detenção ou de retenção.

8) Concepção de alternativas:

a) traçado em planta;

b) escolha dos condutos e seções transversais; e

c) opções de arranjo em perfil longitudinal.

9) Projeto hidráulico:

a) critérios de projeto;

b) dimensionamento das obras de drenagem;

c) dimensionamento de seções transversais das obras de canalização;

d) estabelecimento do perfil longitudinal final das obras;

e) características preliminares das singularidades e obras especiais;

f) cálculo de linhas d’água;

g) análise hidráulica e estabelecimento da configuração final das singularidades e obras especiais; e

h) projeto hidráulico dos reservatórios de detenção ou retenção.

10) Metodologia de construção:

Deverá conter o resumo da técnica construtiva a empregar com a descrição dos tipos de equipamentos e materiais previstos, observando a coerência com com os quantitativos e os orçamentos dos serviços.

11) Especificações técnicas:

Todas as especificações técnicas devem ser apresentadas de maneira clara e objetiva, de forma a não trazer qualquer dúvida. Sempre que possível devem estar dentro das normas técnicas vigentes, ou, quando estas não existirem, serem realizadas de acordo com a boa técnica consagrada.

3.4.2 Projeto de Drenagem: quadros e desenhos

O relatório final de um projeto de drenagem deve conter um volume com as informações seguintes:

1) Quadro de quantidades; 2) Planta de situação da rede (escala adequada), se possível com indicação de trechos existentes e propostos;
34 3) Planta (escala 1:500) com a localização dos dispositivos que compõem o sistema de drenagem. Eventualmente, a escala poderá ser ajustada à necessidade do projeto;

FASES DO PROJETO

4)

Desenhos do perfil longitudinal, com greide, nas escalas vertical: 1:50 e horizontal: 1:500;

5)

Desenho(s) de seções transversais típicas das vias (passeio, guia ou meio-fio, sarjeta

e

pista);

6)

Projetos – tipo dos dispositivos de drenagem;

7)

Listagem de sarjetas e meios-fios (estaca inicial e final de localização, lado, tipo, extensão);

8)

Listagem de bocas-de-lobo e caixas de ralo (estaca de localização, lado, tipo e cotas de topo

e

fundo);

9)

Listagem de poços de visita e caixas de passagem (estaca de localização, lado, tipo e cota de topo e fundo);

10) Listagem de descidas d’água e outros dispositivos (estaca de localização, lado, tipo e quantidade); 11) Desenho(s) com métodos construtivos e etapas de execução das obras: valas e seus escoramentos, drenagem de serviço, barragens para desvio de cursos d’água, bicas etc.; 12) Desenhos de estruturas e detalhes especiais; e 13) Planta do canteiro de obras.

3.4.3 Memória Descritiva – Justificativa

O item do relatório final do projeto de drenagem urbana, correspondente à memória justificativa, deve conter as seguintes informações:

1) Dos Estudos:

a) topográfico:

i) citar referências metodológicas adotadas;

ii) material, equipamento e tipos usados na materialização e implantação da rede de marcos topográficos;

iii) aplicativos de informática utilizados;

iv) sistemas de coordenadas adotados;

v) levantamentos plano – altimétricos cadastrais de obras existentes, redes de serviços públicos, acessos secundários e interferências; e

vi) coordenadas topográficas dos pontos notáveis.

b) hidrológico:

i) caracterização climática, pluviométrica e geomorfológica da região do projeto;

ii) classificação climática de Köppen, temperaturas médias anuais, precipitação média anual com os meses de concentração e número de dias de chuva médio mensal;

iii) fixação dos períodos de retorno (tempos de recorrência);

iv) definição do posto pluviométrico representativo, análise dos dados pluviométricos e definição das curvas “Intensidade – Duração – Freqüência”;

v) caracterização das bacias de contribuição, cartas topográficas/fotografias aéreas de referência, descrição do relevo, ocupação e cobertura vegetal da bacia e tipos de solos;

vi) método de cálculo de vazão adotado; e

35

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

c) geológico:

i) geologia regional: ocorrências, tipos de materiais, cobertura sedimentar, aluviões, horizontes; e

ii) considerações práticas no trato do material (erosão, estabilidade etc.).

d) geotécnico:

i) avaliar estrutura do pavimento (camadas) do pavimento existente;

ii) avaliar nível do lençol freático;

iii) realizar ensaios de caracterização dos materiais onde será implantada a drenagem (limite de liquidez e de plasticidade, granulometria por peneiramento);

iv) realizar ensaios na areia a ser empregada na obra: granulometria por peneiramento, equivalente de areia e teor de matéria orgânica;

v) realizar ensaios nos agregados graúdos a empregar na obra: Abrasão “Los Angeles”, Índice de Forma e Durabilidade; e

vi) avaliar materiais alternativos, caso seja possível seu uso.

e) de proteção ambiental:

i) breve histórico da área de projeto;

ii) objetivos e justificativas das melhorias implantadas;

iii) citar se as obras a executar estão de acordo com o Quadro de Quantidades;

iv) áreas de influência direta:

– localização dos impactos causados pelas obras e atividades de operação e conservação do sistema (perdas devido ao assoreamento, erosões, áreas de empréstimo e bota-fora e travessias de corpos d’água); e – indicar áreas protegidas legalmente, fontes de água usadas para abastecimento humano, desapropriações e segregação urbana.

2) Dos projetos:

a) de drenagem:

i) descrição do sistema de drenagem, com informações sobres os dispositivos e suas características (forma geométrica, dimensões e revestimento). Citar onde os detalhes construtivos (projetos tipo) estão inseridos;

ii) descrição da metodologia de cálculo;

iii) apresentar planilhas, com verificação de velocidade d’água, com o comprimento crítico de sarjetas e meios-fios;

iv) dimensionamento das galerias: com definição das seções, declividades, velocidade de escoamento, degraus, verificação da interligação com sistema existente e outros elementos de projeto; e

v) cálculo da cota de máxima cheia de cursos d’água receptores e verificação da velocidade de escoamento.

36

b) de obras complementares:

Descrição de enrocamento, muro de arrimo, cerca, revestimento vegetal etc.

FASES DO PROJETO

c) ambiental:

i) medidas para controle de erosão;

ii) soluções para instabilidade de taludes e assoriamentos;

iii) controle de poeira;

iv) preservação de águas superficiais e subterrâneas;

v) medidas de proteção do solo;

vi) localização de bota-foras (não podem ser realizados em talvegues e próximos aos corpos d’água e drenagens naturais);

vii) localização de desmatamento e aproveitamento do material lenhoso (minimizar desmatamentos para a execução das atividades); e

viii) indicar procedimentos para coleta, disposição e destinação dos resíduos sólidos e efluentes do canteiro de obras e alojamentos.

3) Notas de Serviço dos dispositivos projetados e aproveitados

4) Mobilização e desmobilização:

• critérios: ponto de origem (município), equipamentos de grande porte e de pequeno porte, veículos leves e caminhões comuns.

3.4.4 Relatório de Avaliação Ambiental

O Relatório de Avaliação Ambiental deve conter os seguintes itens:

1) Apresentação:

• Empresa ou departamento responsável pelo projeto, nome do município, órgão responsável, nome da obra, localização, extensão, nome do relatório final e sua estrutura.

2)

Planta de situação;

3)

Objetivos do Projeto de Recuperação Ambiental;

4)

Características, situação e localização da obra;

5)

Diagnóstico ambiental:

a) meio físico;

b) meio biótico; e

c) meio socioeconômico.

6)

Passivos ambientais;

7)

Impactos ambientais:

a) identificação dos impactos ambientais;

b) impactos ambientais nas etapas da obra; e

c) avaliação dos impactos ambientais.

8)

Medidas mitigadoras (meios físico, biótico e socioeconômico);

9)

Cronograma físico;

10) Quantitativos; e 11) Especificações técnicas.

37

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

3.4.5 Orçamento e plano de execução;

O relatório referente ao orçamento e plano de execução deve conter os seguintes itens:

a)

resumo do orçamento;

b)

planilha e orçamento, com quadro de quantidades de serviços e preços unitários e totais;

c)

composições de custos unitários de serviços;

d)

quadro resumo de consumo de materiais;

e)

plano de execução (clima e pluviometria, características técnicas da obra, apoio logístico, prazos, pessoal técnico e equipamento mínimo); e

e)

cronograma físico-financeiro.

Após a confecção do Relatório Final do projeto, contendo os itens de 3.4.1. a 3.4.5, solicitar ao Poder Público a Licença de Instalação (LI) e de Operação (LO).

3.5 PROJETO EXECUTIVO DE DRENAGEM

O

Projeto Executivo consiste no detalhamento do Projeto Básico acrescidos dos projetos específicos

e

dos elementos que não foram desenvolvidos na fase anterior.

3.6 APRESENTAÇÃO DO “AS BUILT” – COMO CONSTRUÍDO

Durante a construção de uma obra, podem ocorrer mudanças de materiais ou geométricas, entre

outras, que diferem da concepção original do projeto por motivos diversos. Essas alterações devem ser analisadas e validadas pelo profissional que realizou o projeto.

A importância de se registrar as modificações num “As Built” ou relatório de “como construído” é

fornecer uma memória do que realmente foi executado. Preferencialmente, deve ser elaborado durante a obra ou no máximo após a conclusão. Uma obra, durante sua vida útil, recebe várias intervenções, como manutenção, reforma e ampliação, portanto, de posse desse documento é possível avaliar as mudanças a realizar, reduzindo a necessidade de constantes visitas e a perda de tempo na realização de aberturas de trincheiras investigativas, o que pode ocasionar degradação dos sistemas implantados, problemas construtivos e acidentes.

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

40

4

Cálculo da vazão

de projeto

Para determinação da vazão de projeto a metodologia empregada é considerada a partir da área da bacia hidrográfica onde se insere a obra a ser realizada. Usualmente são empregadas fórmulas empíricas e elementos fluviométricos. O empirismo ocorre pela pesquisa experimental confirmada pelo meio técnico ao longo de anos de emprego. É comum o uso do Método Racional para áreas de contribuição até 10km 2 , sendo que alguns projetistas e autores incluem fatores de redução que acompanham a elevação do valor de 1km 2 até 10km 2 . Para áreas de contribuição superiores a 10km 2 , utilizam-se hidrogramas e a fórmula de Ven te Chow. No entanto, quanto maior é a área de contribuição mais difícil é se obter, com precisão, dados como o coeficiente de escoamento superficial e uma chuva representativa para toda a área da bacia. Por isso, em bacias onde o talvegue é bem definido, é ideal implantar estações medidoras de níveis d’agua e vazões de forma a se obter um retrato fiel do comportamento dos fluxos d’água. Essas estações fluviométricas são operadas por órgãos e entidades que buscam, na maioria das vezes, obter informações sobre as cotas do fluxo d’água e as descargas que ocorrem na seção onde se encontram os aparelhos de medição. Eventualmente, algumas dessas estações também possuem equipamentos que realizam medições de velocidade do fluxo d’água, da quantidade de sedimentos e da qualidade da água. Ao se projetar canais, galeria ou bueiros, quando o nível d’água a jusante da obra é controlado por mar, lago ou curso d’água, é importante realizar um levantamento estatístico dos níveis altos ocorrendo junto com as descargas máximas de deflúvio, sendo também necessário calcular o remanso, que pode se estender por vários quilômetros. Entretanto, essa situação é rara, dispen- sando esses levantamentos na maioria dos casos. Caso haja um posto fluviométrico marcando os níveis máximos, o cálculo do remanso se torna desnecessário. Portanto, se a obra de drenagem a ser executada encontra-se na calha de um curso d’água que é monitorado sistematicamente e possui um histórico de medições das cotas do fluxo d’água e des- cargas, pode-se dispor de dados como a curva-chave e de fluviogramas que irão facilitar o di- mensionamento de uma estrutura sobre seu curso. Na Figura 4.1 a seguir, apresenta-se exem- plo de curva-chave de um curso d’água obtida a partir de série de dados fluviométricos do mesmo.

CÁLCULO DA VAZÃO DE PROJETO

Não havendo essa possibilidade, e de forma mais comum, usa-se levantar dados de chuva e da bacia hidrográfica e lança-se mão das fórmulas empíricas para obtenção da vazão de projeto. Esse procedimento é detalhado segundo o fluxograma mostrado na Figura 4.2.

Curva chave Vazão Nível
Curva chave
Vazão
Nível

Figura 4.1 – Curva-chave de um rio

Início Definir Calcular tempo de duração da recorrência chuva Calcular chuva de projeto Levantar Delimitar
Início
Definir
Calcular
tempo de
duração da
recorrência
chuva
Calcular
chuva de
projeto
Levantar
Delimitar
Calcular
coeficiente
bacia
descarga
de deflúvio
Fim

Figura 4.2 – Fluxograma para calcular a descarga de projeto

4.1 TEMPO DE RECORRÊNCIA OU PERIODO DE RETORNO (T R )

O tempo de recorrência é determinado por fatores técnicos e econômicos, tais como:

1) Tipo, importância e segurança da obra; 2) Estimativa de custos de restauração; 3) Estimativa de outros prejuízos por descarga maior; 4) Comparativo de custos para a obra para diferentes T R (anos); e 5) Risco para as vidas humanas em face de acidentes.

Deve ser considerado também o fato de já existirem obras de drenagem passíveis de aproveitamento. Como exemplo pode-se citar que a Prefeitura de Belo Horizonte adotava em outubro de 2004, para microdrenagem, o Tempo de Recorrência de 10 anos e o Tempo de Concentração (duração da chuva) de 10 minutos. De forma geral é possível admitir como recomendação inicial os valores indicados na Tabela 4.1 seguinte. Os valores dessa tabela condensam procedimentos adotados por prefeituras e órgãos que gerenciam a micro e macrodrenagem em diversos pontos do território nacional.

Tabela 4.1 – Tempos de recorrência para obras de drenagem

Tipo de Obra

Tempo de Recorrência T R (anos)

Drenagem superficial (meio-fio, sarjeta)

5 ou 10

Galerias

10 ou 25

Macrodrenagem

20, 25 ou 50

Pontes

50 ou 100

41

4.2 DURAÇÃO DA CHUVA (d)

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Para a determinação da chuva de projeto há que se dispor de sua duração, do tempo de recorrência

e de métodos de cálculos que melhor representem essa chuva.

Quando se utiliza o Método Racional, para determinar a vazão de projeto, pode-se adotar a duração da chuva como igual ao tempo de concentração. A seguir apresenta-se metodologia para determina- ção do tempo de concentração.

O tempo de concentração (t c ) consiste no tempo que decorre desde o início da chuva até que toda

a bacia passe a contribuir para a seção de um determinado ponto em que se deseja calcular a

descarga de projeto. Quer seja para áreas com características naturais (sem lotes) ou para loteamentos com sistema viário definido, o tempo de concentração pode ser obtido como se segue:

a) para área a montante não urbanizada

Fórmula de KIRPICH para áreas até 5km 2 :

t c = 57 ( L 3 / H ) 0,385

(4.1)

Onde:

 

t c = tempo de concentração (min) L = extensão do talvegue (km) H = máximo desnível na bacia medido ao longo de L (m)

Fómula de KIRPICH MODIFICADA para áreas maiores que 5km 2

t c = 1,5 x 57 ( L 3 / H ) 0,385

(4.2 )

b) No dimensionamento de galerias, o tempo de concentração tem o mesmo significado mas com

alguma especificidade a saber:

Ele pode ser considerado como formado pelas seguintes parcelas:

t c = t i + t p

Onde:

(4.3 )

t i = tempo de escoamento superficial ou tempo de entrada. É o mesmo que tempo de con- centração referido à primeira boca-de-lobo a montante t p = tempo de percurso. É o tempo de escoamento dentro da galeria, desde da boca-de-lobo ou caixa de ralo até a seção do coletor que se considera

No caso do dimensionamento das galerias, caso não haja um talvegue definido, o tempo de entrada deverá ter um valor adotado para o primeiro ponto de coleta (caixa de ralo ou boca-de- lobo). Normalmente, esse tempo varia de 5 a 12 minutos. Como ilustração, as prefeituras de
42 Belo Horizonte e Rio de Janeiro adotam, respectivamente, 10 e 12 minutos. Caso haja um talvegue definido, o tempo de concentração deverá ser calculado por uma das fórmulas citadas acima.

CÁLCULO DA VAZÃO DE PROJETO

Já o tempo de percurso entre dois PV é calculado dividindo-se o comprimento do trecho entre os dois PV pela velocidade V de escoamento (m/s) e por 60 como segue:

t

p = L / V x 60

(4.4)

Sendo:

t

p = tempo de percurso (min)

L

= distância entre dois PV s (m)

v

= velocidade de escoamento (m/s)

Se a área a montante estiver urbanizada (ou com previsão de urbanização), estando o divisor de águas a uma distância máxima de 60m, os tempos de entrada (t i ) recomendados são os apresen- tados na Tabela 4.2 a seguir.

Tabela 4.2 – Tempo de entrada (t i )

Tempo de entrada ( minutos )

Natureza da área a montante

Declividade longitudinal da sarjeta

I < 3%

I 3%

Urbana densa

10

7

Residencial

12

10

Parques, jardins e campo

15

12

Fontes: Ulysses Alcantara, 1962 – Macintyre, 1996

No caso de canais revestidos, o tempo de concentração é calculado pelo método cinemático (como no tempo de percurso das galerias). Esse método se baseia no escoamento superficial permanen- te e uniforme, e aplica-se a fórmula de Manning para obter a velocidade média, supondo-se a área molhada à meia seção, como segue:

t

c

=

Onde:

16,67

×

L


V

t c = tempo de concentração (minuto)

L

= comprimento do escoamento (km)

V

= velocidade média no trecho (m/s)

V =

Sendo:

(R )

H

2 / 3

×

i

1 / 2

n

V = velocidade média (m/s)

R H = raio hidráulico (m)

i

= declividade média de escoamento (m/m)

n

= coeficiente de rugosidade

(4.5)

(4.6)

43

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Nas bacias em que o deflúvio superficial escoa na maior parte do tempo através de canais, pode-

se utilizar um traçador para levantar o tempo de concentração.

De forma geral, em projetos que envolvam microdrenagem, adota-se t c = 10 (dez) minutos para

o cálculo da vazão de projeto das sarjetas/meios-fios e do primeiro ponto do sistema de galerias.

4.3 - CHUVA DE PROJETO – INTENSIDADE (mm/h)

Para a chuva de projeto, deve-se verificar a existência na prefeitura local de manual, instruções,

diretrizes, registro ou indicação para a expressão da precipitação pluviométrica mais adequada ao

local ou, até mesmo, o valor já adotado com este fim.

4.3.1 Expressões típicas

As equações de chuva, que são expressões empíricas das curvas de intensidade–duração–fre-

qüência, apresentam-se normalmente nas seguintes formas:

 

I

= a / ( d + b ),

I

= c / d m ,

I

= a .T n R / ( d + b ) r ,

Onde:

 

I

– intensidade média em milímetros por minutos ou milímetros por hora

d

– tempo de duração da chuva em minutos

T

R – tempo de recorrência em anos

a, b, c, m, n e r – parâmetros definidos a partir das observações básicas para elaboração

da equação

Na Tabela 4.3, apresentam-se exemplos de equações de chuvas de algumas cidades brasileiras e

locais, que permitem o cálculo da intensidade de precipitação em função de parâmetros pré-defini-

dos para cada uma delas.

4.3.2 Cálculo da precipitação segundo Otto Pfafstetter

Caso não se disponha de equação de chuva local, pode-se usar a formulação de Otto Pfafstetteer

(DNOS – Chuvas intensas no Brasil, 1957), escolhendo o posto que mais se assemelhe hidrologicamente

ao local da obra. Nessa publicação, a precipitação é determinada pelas fórmulas citadas a seguir:

44

Onde:

P = KP 1

( α + β / T R 0,25 )

K = T R

P

– precipitação máxima (mm)

T

R = tempo de recorrência (anos)

d

= duração da precipitação (horas)

P 1 = ad c + b log (1+cd c )

(4.7)

α, β = valores dependem da duração da precipitação (adimensional)

CÁLCULO DA VAZÃO DE PROJETO

Tabela 4.3 – Exemplos de equações da chuva (Wilken, 1978)

Idade

   

Equação

 

Referência

 

até 60 min

I

= 27,96. T 0,112 / (d + 15) b

 

SãoPaulo

I

- mm/min

b = 0,86T - 0,0144

 

A.

G. Occhipinti e

> 60 min

I

= 42,23.T 0,15 / d 0,82

 

P.

M. Santos

I

- mm/h

t

- em horas

Rio de Janeiro

I - mm/h

I

= 1239.T 0,15 / (d + 20) 0,74

Ulisses M. A. Alcântara

Brasília

I - mm/h

I

= 10125 / (d + 16) 0,945

 

Rufino Reis Soares

Curitiba

I - mm/min

I

= 5950.T 0,217 / (d + 26) 1,15

P.

V. Parigot de Souza

Belo Horizonte

I - mm/min

I

= 24,131.T 0,1 / (d + 20) 0,84

-

- -

-

- -

- -

PontaGrossa

I - mm/h

I

= 1902,39.T 0,152 / (d +21) 0,893

Fendrich - 1998

JoãoPessoa

I - mm/h

I

= 369,409.T 0,15 / (d + 5) 0,568

J. A. Souza

 

Sertão Oriental Nordestino I - mm/h

I

= 3609,11.T 0,12 / (d + 30) 0,95

Projeto Sertanejo - 19

 

I

= a / (d + b),

   

T (anos)

a

b

Porto Alegre

 

I - mm/min

 

5

23

2,4

C.

Meneses e

 

10

29

3,9

R.

S. Noronha

   

15

48

8,6

 

20

95

16,5

a,

b, c = valores constantes para cada posto (adimensional)

K

= fator de probabilidade

P 1 = Precipitação para T R = 1 ano (mm)

Sendo:

5 min d c 6 dias

0,2 ano T R 100 anos

Parâmetros α, β, a, b, c estão indicados nas tabelas 4.4 e 4.5 a seguir.

Como já comentado, a intensidade de precipitação (I) é a relação entre a precipitação (P) e sua

duração (d), isto é:

I = intensidade de chuva (mm/h) = P / d c

Tabela 4.4 – Valores de α (PFAFSTETTER, 1982)

   

Duração (D)

   
 

minutos

 

hora

 

dias

d

5

15

30

1

2

4

8

14

24

48

3

4

6

45

α

0,108

0,122

0,138

0,156

0,166

0,174

0,176

0,174

0,170

0,166

0,160

0,156

0,152

MANUAL DE DRENAGEM URBANA

Tabela 4.5 - Valores de β, a, b, c (PFAFSTETTER, 1982)

POSTOS

       

Valores de β

 

a

b

c

5min

15min

30 min

1h – 6 dias

ARACAJU - SE

0,6

24

20

0,00

0,04

0,08

0,02

BELÉM - PA

0,4

31

20

-0,04

0,00

0,00

0,04

B. HORIZONTE - MG

0,6

26

20

0,12

0,12

0,12

0,04

CUIABÁ - MT

0,1

30

20

0,08

0,08

0,08

0,04

CURITIBA - PR

0,2

25

20

0,16

0,16

0,16

0,08

FLORIANÓPOLIS - SC

0,3

33

10

-0,04

0,12

0,20

0,20

FORTALEZA - CE

0,2

36

20

0,04

0,04

0,08

0,08

GOIÂNIA - GO

0,2

30

20

0,08

0,08

0,08