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(BRAS DO AUTOR IRaato do Pocma (enssios de erticn ¢ estédea), Rio. Civ. Brasil, 1965. Arle e Sociedade om Marcuse, Adorno ¢ Benjamin (ensaio crlico sobre a escola noo-hepliana de Frankfurt), Rio, ‘Tempo Brasileiro, 1969. A Asticia da Mimese (nasi sobre Utica), Rio, José Oly po, 1972, Saudades do Camaval (iteodusio & exse da cutters), Rio, Forease, 1972. Formalisno ¢ Tradigdo Moderna (0 problema da arte na tise ‘ia cultura), ed, Forense Universiéria/USP, Rio, 1974, 0 Bvratwalismo das Pobres © outras questes, Rio, Tempo Brisilelo, 1975, Verso Universo em Drummond (trad. do francés por Marly de Oliveira, Rio, José Olympo, 1975; 28 ed, 1976. LrEshéique de Lévi-Sireus, Pais, PUR, 1977 (Wad. bras ‘Rio, Tempo Brasileiro/Univ. de Bras; tad. expanbola, Barcelona, Destino) De Ancheta o Eucldes; breve bisa da teratura brasileira, 1, Rio, José Olympio, 1977; 2° ed, 1979. ‘The Veil and the Mask: esays on culture and ideology, Loa ares, Routledge & Kegan Paul, 1979. (0 Fantasma Roméntico ¢ eutzos enssios, Petpolis, Voues, 1980, Rousseau and Weber: two sis in the theory of legitimacy, ‘Londres, Routledge & Kezan Paul, 1980. ‘x lias as Formas, Rio de Jancico, Nove Frontera, 1981, José Guilherme Merquior A natureza do processo TESP/UERJ BIBLIOTECA 4 ro vreiena ‘DoAGHO WANDERLEY 6.008 SANTOS. 1. INDUSTRIA Nosso tipo de sociedade Em que tipo de sociedade vivemos nés, habitantes deste tardio século XX? Em mais de um, bem enten- ido, Os ingleses, os americanos ou os paulistas, por exemplo, vivem quase todos numa sociedade indus- trial tipicamente superurbanizada. Mas os papuas da Nova Guiné e os aborigines da Austrélia ainda esto na cultura paleolitica; © os membros da tribo do ca- cique Juruna sio indios aculturados, isto &, revém-co- ocados em contato sistemético coma tecnologia © os valores da civilizagio moderna. Tudo isso significa ‘que nossos contemporaneos residem em mais de um tempo histérico, © que esses tempos, que sfio como ca- madas na geologia da iio, nem sempre se toca, Apesar disso, & possivel identificar um tipo de so- iedade como mais peculiar 20 nosso sSeulo; & pos- sivel chamar um tempo histérico de "nosso tempo”. Esse tipo de organizagio social é, evidentemente, a so- lade industrial, porque, hé cerca de duzentos anos, €4 industrializagéo que vem comandando a dinimica da mudanga social, Primeiro, no Ocidente e no Ja: Pao; depois — no nosso século — em todo o mundo. [Nesse sentido & que jé se observou que @ revolueio in. 13 dustrial, ao contrétio de tantas outras revolugdes s0- Ciais, tem uma caracteristica: ela nunca pra. Nao s6 hilo para de abranger novas regiées do globo, como no cessa de se intensificar li onde sua implantagio € mais antiga. “Revolugéo. permanente”, em politica, 6 uma utopia trotskista — mas em indstria, & uma plena realidade, ‘Que vem a ser, por conseguinte, essa sociedade — 4 industrial — possuida pelo deménio da continua mudanga? Nietzsche dizia que s6 se pode definir 0 {que ndo tem hist6ria. No caso de algo que, além de histérico, parece condenado, por vocagao intima, 20 cimbio perpétuo, uma definigio seria, por... detini- 0, ainda mais radicalmente impossivel, Contudo, se no podemos fixar a “esséncia’” da revBlugdo indus- trial, nfo esta fora do nosso alcance surpreender cer- tas diferencas especificas. Para tanto, basta recorret ‘19 método cléssico das ciéneias histéticas: 0 método comparativo, As ciéncias sociais s6 muito raramente podem realizar experimentos — mas quase sempre ‘io capazes de proceder a comparagées, E a comparagdo, nesse terreno, leva logo a0 con- taste, Intuitivamente, ou com um minimo de exerek cio mental, nos damos conta de que nosso tipo de s0- ciedade difere muitissimo de todos os seus predeces- sores. E quando digo “nosso tipo de soviedade”, nesse sentido, no me refiro a sociedade industrial avanca- dda de hoje em dia, mas, simplesmente, a0 industralis- indios — Aquilo que poderiamios cha mar de industrializacao primitiva, Tomemos, a0 aca: 0, um aspecto bem tangivel: 0 transporte, Até 0 meio do século passado, a rapidez dos transportes europeus ainda era basicamente idéntica & alcangada pelo. Im- pPério romano em seu apogeu. A distancia horétia en- ‘re Roma ¢ Londres, por exemplo, era a mesma que no “4 tempo dos Antonines, O “salto” 6 se materilzou como advento da navegagio a vapor e-do tet e foi um salto enome, qualatvamente io, mporante uatio © puto do tm para avo de vlotdade ns Perini, ‘nova mobilidade das pesoas © dos bens dew 20 omen ocidntal de 1830 horizontes sbalitnaeats inddlios em matéria da sensagio de powse de Tema, Mas ese sentimento, de autoafimagho do. “howee romeiico” comegtva por le mesmo pela sus neo Bria expergncia bolic, pel expansio dos lasts da vida e da sade. Assn come 8 tznca ole ‘educa extrordieramente as dstnclns amon a medicin aumentou excepconulment tas de Sobrevivencia e longevidade, Com ae primeira reves: Tugaes na bioleia, qucbrouse a malig malenat Que eelfava'a vida de tantosrezenaseldese erga ¢ deizava as populgies exposes chain do Soni alos fis. As pests, Maelo enc da ocedade te Aisional expres inlutvel do “castigo vine po saram a ser encaradas como fendmenos naturals ¢ ame trolls peste viou epidemie qu dizer dos novos pares de confortotaidos pela snologi industrial? Nem mesmo o ms ele 18 o¥ refinado dos proces anos, os Coss Loe Fengor de Medicis, sequer cepaiam porto do hublis 'e Fico das metoples do mundo de mdguind, Basta Bensar no volume e variedade do mobil dew sslfo vitoriano para imaginar 0 imenso props ee amino do bentestr. No mobili, ou'metsatne ds cast, Na esata da css, ou na tdeiea de eae iment, Sem ular, aturalmente, no ellos po gulares ou na roupa au em lvro © cbjetes de fase fagio.E notese que estamos menclonando cols en fabricoe insalagdo ainda cram, com anos site oe 1s feitamente artesanais ¢ no “‘mecanizados”. Mas a di- ferenga 6 que © carpinteiro, o marceneiro e o alfaiate vitotianos ja trabalhavam com produtos industria, ‘matetiais semi-industrializados ou, no minimo, produ- zidos ¢ transportados em escala industrial. A rigor, 0 Sinieo ponto em que 0 luxo de Creso igualava o confor- to do abastado burgués oitocentista era justamente o ‘que, no nosso século, a sociedade industrial avanga- da eliminou: Creso tinha tantos ou mais escravos do- méstioas da que © nosso rico vitoriano.... “Todo esse bemestar do burgués vitoriano se torna- no nosso sécul, algo partlhado, no essencial, pe- las classes médias de todo 0 mundo, ot seja, por meio Dilhiio de pessoas, representando cetea de um oitavo a humanidade, Exceto no tamanho da Gasa © da cria- ddagem, o luxo de ontem virou conforto 20 alcance de muitos — e, nos paises ricos da atualidade, expecta- ‘iva bem razodvel de quase todcs. 0s pilares do nosso mundo: economia, ciéncia, democracia Desde o inicio, porém, em que repousava 0 conforto proporcionado pelo mundo industrial? Obviamente, ho desenvolvimento espetacular de duas coisas: a tée- nica e a economia ‘Os historiadores das economias pré-industriais cos- * tumam caracterizélas com trés aspectos. Primeiro, a pprodutividade. Segundo, 2 baixa concentragdo tanto de capital quanto de mio-de-obra. Terceiro, mt vis também muito baixos de circulagao dos bens. ‘© primeiro e o sltime aspecto falam por si. Qual quer um reconhoce que a produtividade de uma fébri- cea moderna é muitas yezes superior & do artesanato, 16 e que a densidade do comércio, na economia moderna, € muitisimo maior do que na tradicional, Mas vale a pena esclarecer um pouco melhor a natureza da se- gunda diferenga, Comecemos pelo nivel da concentra- 40 do capital ‘Segundo Sir John Hicks, um prémio Nobel de eco- nnomia perito em histéria econdmica, a principal dife- renga propriamente econdmica (isto 6, nio-tecnolé- gica) entre a inddstria moderna, fabril, ¢ as manufatu- tas tradicionais reside na escala'e diversidade dos bens de capital fixos mobilizados por cada uma dessas for- mas de produgio. Antes da indistria mecfnica, os Xinicos bens de capital fixos em uso eram, habitual ‘mente, apenas edificios e veiculos. Mas os edificios nio ram bens de produgdo, e o$ vefculos serviam para auxiliar 0 comércio ¢ nio a fabricagio. Na inddstria artesanal, 0 fabricante naturalmente possufa instru- mentos, mas estes nunca eram muito valiosos, S6 com fas méquinas € que isso mudow. A acumulagio do ca- pital equivalia, portanto, a um aumento insélito do inyestimento em bens de capital. Sabemos o que possiblitou essa mudanga tio deci- siva. A Europa setentrional, bergo da indéstria meci- nica, encontrava-se, desde o principio do século XVIII, ‘em pleno surto mercantil; ¢ desde as Descobertas os ‘eutopeus vinham explorando novas oportunidades co- ‘merciais. Mas a situagio geogréfica “excéntrica” da Europa nao a predispunha #0 papel de centro de co- ‘mércio entre regides ndo européias. Por conseguinte, ppara continuar a se beneficiar do crescimento do inter- cimbio, era necessério que a prépria Europa produ- zisse para exportagio. Em outras palavras, 0 comér- cio, base da prosperidade européia, deveria estar res- paldado na indiistria, "7 Porém se a inddstria era necesséria, ndo era pre- iso que ela fosse moderna. O que dirigiu o Norte da Europa para a mecanizacio da indGstria foram, essen- iakmente, dois fatores. Primeiro, a liguidez: a gran de disponibilidade de recursos financeiros em paises enriguecidos pelo coméreio colonial (Inglaterra, Ho- Janda, Franga). Foi essa liquidez que tomou possivel, fa seu turno, a soma de investimentos em bens de ca pital que deflagrou a industrializacSo. Segundo, a eiéneia. O avango do saber revelou int ‘eras oportunidades de investimento © de Iucro. No ‘comego da era moderna, © progresso do conhecimen- to havia tomado a forma predominante da exploragio eogréfica; agora, ele se concentraria cade vez mais numa exploragdo cientifiea do reino fisico, oferecen- do horizontes ilimitados & atividade transformadora da indistria. Por isso & que alguns pensadores contemporsineos fazem questio de considerar a cigncia — hoje mais {que nunea — uma verdadeira forca de produgdo. Um ‘eles, Ernest Gellner, chega a julgar que a marca da modemidade & uma inversio dramética da relagdo en- tre mundo e conhecimento. Antes das népcias da cién- cia com a indkistria, era como se o conhecimento fosse ‘uma parte do mundo, Hoje, a0 contrério, € como se ‘© mundo fosse uma parte — um produto — do co- nhecimento, A ciéncia nos faz ¢ refaz, tanto quanto nds a fazemos. © impacto da ciéncia na tecnologia constitui sabi- damente o fulero do desdobramento da sociedade in- dustrial em “pés-industrial”, No limiar do século XI, nas economias de ponta, o avango da eletrOnica e da informétiea j@ comega a esbocar a superaggo de um dos tragos institucionais mais tipicos do industralis- 18 rmo: a disjunglo entre 0 local de residéncia © do tra balho, manual ow nfo. Gragas & difusio dos compu- tadores ¢ das telecomunieagoes, um nimero erescente de fungbes de eseritrio passari a poder ser realiza- do em casa, dentro de itmos e hordros livemente fi xados pelo asslariado. Essa tendéncia se eonjuga com ddaas outres. Com 0 progresso da auiomagio, © tem- po de lazer tende eada vez mais a aumentar face 20 tempo de trabalho; © 0 chamado setor terciério da economia (os servigos, © sobretudo aqueles desligados da produsio de bens’ de capital) se desenvolve bem mais depressa do que o setor secundéo, Ammito da in- distia fabril. Como resultado de tudo isso, dese ‘uma importante alteragdo na estrutura ocupactonal da raioria das paises do Atlantico Norte: o ineremento de um salariado e o recuo, em termos proporcionss, do volume do proleariado, no sentido de massa ope- réria besicamente desquaificada ou subguaificada, concentrada nos bairros pobres dos cinturdes urbanos dotada de uma identdade social 8 parte, cujo caréter rio-burgués se acusava desde o tre e a linguagem. ‘A-cultura do profetariado era uma “cultura popular” ‘mas a cultura do salariado modemo jd é uma cul- tra de massa, sem os atsibutos classista da outra, Estas poucas notas so suficientes como rememo- ragdo da magnitude das mudangas tecnoldgica e eco- nnomica provocadas pelo advento ¢ prolongamento da revolugio industrial. Para concluir nosso rezato his- térico, indiquemos apenas 0 maior significado social do ingresso no industralismo, A grande diferenga sa ta og olhos: na sociedade industrial ou industealizan- te, passou a ocorrer muito mais mobildade social. Se auindo um insigne medievalista, Georges Duby, 0 que singularizava a Idade Média era que, naquela época, 19 todos os ricos eran herdeiros. O mestno se poderia ffizer, com pequenas qualificagées, de todas as socie- Gades tradicionais, que a industrializagdo trouxe, © ‘continua trazendo, & sociedade foi uma ampliagio sem precedente do acess0 a riqueza e a0 “status” por par Tevde gente nascida fora de uma ¢ de outro. No uni- Xo iradicional, o privilégio era hereditério (somente 1B Tereja era, parcialmente, uma hierarquia aberta 205 Fithos das classes inferiores). Mas na sociedade moder nna, a posigio do individuo néo 6 predeterminada; a esigualdade deixou de ser um destino. ‘Evidentemente, nos paises industrializades, ainda subsistem muitas diferencas de oportunidade — do Ponto de partida — entre os membros elas classes rere os egressos das camadas pobres. Mas pelo me~ fos cdo diferengas de tipo probabilistico, muito div Vorsos da estratificagio automética que tende a pre Valecer onde os filhos nascem condenados a herdar & Condigéo dos pais. Pois também os pobres, na sociey Shue ‘tradicional, so herdeiros: herdeiros involunté- tios da sua pobreza ancestral. ‘Sem divida, em sua inffincia, a revolugtio indus: trial nfo conheceu apenas grandes desigualdades de foportunidade entre os individuos. Ela produzio tam em novas formas de ativa “exploraglo do homem pelo hemem”, para empregar a expressio forjada, Pom bastante razio, pelos primeiros ideGlogos socia- Tistas; exploragdo impiedosa de homens, mulheres € ats ctiangas. Em seus primérdios, 0 capitalismo in- Gustrial ignorou soberanamente quase tudo o que hoje ‘consideramos direitos sociais legitimos, imprescindt Seis a dignidade do trabalhador; quando veio a re- Conhecélos, foi em virtude da acdo organizada da Classe operéria dentro do estado liberal ou constitucio- 20 | desempenharam um papel certo, por exemplo, na nal (embore o exp , sal eno o ett eno de lg om So ect tei ar i trade gue goverans som te Mas neste pont, como com em tanto eaten deve pede pret Hic Avene € gut 4 maori bahar, mio expla, at ei 3 ido, A raced seaaindoy ms uma gran masa Sepa tos empresa quando te eats nie dos enor pen, So Ingle fg de 1 cn ata o “xis de noe arindondo er. constitido de ean subitamentedesenazades, man sia de un popele ci suring taboos (@ emp {ln hi apres, por obese nd ay itura capitalista de tipo intensivo que pros] , ste + Renna. Manse, pt indestl ,om ees batos pop lidds com fsa de "lnea™ do ven mn perros ram grants que moravam om fvean c tna haviam dead ats de ala pent saci cinerea ln, exaemene Como Iso mrdatno map demande Sto Pl fe Eaador Udon scbrto depo ders da Se eso, o eprco ann ea eaenanent eh rn ae fd ia na Ero adaptagio das massts pobre & di do pint Insta ey motes vee iumiitica. Pressdes ambientais e tensdes anon idéncia da tuberculose nas classes baixas dos pafees a indsriaizantes, até 0 comego deste sul. No obs tae ya como ideal eulture camponesa ta Aieladl Longe dese alc, ela era geraimente uma Sacto de eats, obecranismo evokes, AUG Sano maior denmeiaor do ster soil gue pres R"y faducaizagio pina, nfo. vaio om lu se ape emanepator do capitalismo ao destar we ade provugto © romper, ieverivelment, 2 rete ne Manifesto Comists, ele rdicaltiot Samo “lice de vid aa Bae Nae dara omni do eaptalso, mas tnha plen conei- 4 sapeSfor de initia na evolugso da humanidad. 10 ae ma vlog da insta come fon de vida do homer modero, om a ténica © a form de eepts soca posivs ¢ negative cere as mencionr revelam que © Indusiio atti uma rela no menos ein om out ratty a és domocrden, 0 peel motor das 30- celia. Volearernos 2 tea em capil Tee Se imediato, contdo, pecbamos rele 9. ee urea dagtlo qu, no seu eonjuto, 8 FX0- FRESE fadna encarou ey por asim dc, isl tae ar nite moar © progres, converiendos, 20 ozone mats vaste profnda alteracio da elt {enna desde advento da ea nol, Que vem. face extamente, © progres? Il, PROGRESSO A desmoralizagao do progresso Ao procurar determina o tip de scedade em que ives, ctsano, em lrg picl, «sede Indo, etc. eserga ete, Nese "ee taints um lle ou pelo meno wa pogo ta série de instantnsoshistéricos: uma ou den fered cvlzagioinuialno su mateo te Ici, contatandoTeteuete cms tla hots ‘in amerior, una ripida vse do bearer das ies tc das contemporicny, akangedo geaes 8 Ge $n ene aes pou hens itd, das noves pepe de wala c ler rinks es folges rmaes tems nn — rls ne ve modo, noua tentata de compen, Mundo moderno comecou acentuando uma ruptura a une evolu. Afi, conforms dead no lod io, su bjto€ um proceso htsse; mo 0 social cla propria une madanga, Ae mean lee raticou-se uma apreciagio: um juizo global, ine. camenic postive, soe @ {ato Sa corny Viliagdo industrial, Em outs palavesy, julgaves’o Indstratismo um hedel poprese = HuBame® © 2 “Progresso” sempre foi, de fato, uma nogdo alta mente valorativa. Entretanto, hoje em dia, cla se en Contra, em sauitos circulos influentes, plenamente des- Shoraljzada. Os intelectuais do séeulo passado ¢ram fgetalmente devotos arcentes, do progrsso. $6 multe sedi em quando um filésofo (Schopenhauer) ou um historiador (Burckhardt) se davam o pessimismos em Tegra, os pensadores exaltavam o avango da eivilza- Tho. Para Spencer, um dos idesloges mais tpicos da sie vitoriana, o progresso era “uma necessidade”, uma Yerdadeira “parte da natureza”. De repente, esse belo consenso progresssta desapa” receu, Antes mesmo da grande guerra européia de TOLLLB, que naturalmente abalou a confianga do es pirito ocidental ne civilizapio, vario® sarcasmos cite ge tratava de um comparativo cujo superlative at fio fora estipulado; com menos, humor, Thavelock Elis 0 reduziu a uma simples “troca de win Iradmodo pelo outro”, Depois da guerra, a diivida ‘quanto aos beneficios do progresso se tornou uma es. Pécie de padido ideol6gico. Na Inglaterra, T. S. Eliot Pintow o mundo modero como uma “terra devasta- Ba” na Franga, Paul Valéry, confundindo 0 declinio ‘3a cupremacia européin com 0 colapso da civilizagio, ‘descobris” a pereeibilidade das civilizagées, Em ‘Viena, bergo de tantas das principals formas do pitito moderno em arte, filosofia e ciéneia, Karl Kraus Pitirizou 0 progresso por “cclebrar vitGrias de Pirro contra a natureza”, enquanto o fascinante romancista Robert Musil ironizava: ““o progresso seria, maravi- Thoso — se parasse” or trds de todas essas condenagies, veladas ou di retas, perfilase a prefertncia pelo passado — © mul Ea junto, esses criticos do progresso fazem lembrar ae In defngso do consevador:alguem que € pasimiaa Se eee oo Eoin ieee iar a seus antepassados. oe whist ene ee ese Pena ‘em todas as conquistas ¢ realizagées da e6es. Viio Id perguntar ao camponés, que era tio es- Ere ar; pergutem 20 fezendiro se € “inctmodo” con de silagem diminufa.enorms i dagen dimin jemente seu. potencial de 0 que 0 progresso nto é i, no entanto. alguma verd alguma verdade embutida no tremen- azo de Fis. O progresso munca é completo, ou ico. Muitas vezes, 2 melhora num plano acar- Fy eta regressos, de significagdo varisvel, num outro. Por exemplo, é dbvio que o supermercado permite 0 for- necimento mais amplo e mais barato de comestiveis € outras utilidades domésticas 0 grosso da popule Ho citadina — mas isso no quer dizer que os leg mes do verdureiro tradicional ndo fossem mais fres- 0s, nem 0 pio do padeiro mais saboroso. O impor- tante & saber se, no balanco final, a soma de bemes- tar ¢ conforto da maioria dos individuos compensa cessas pequenas perdas, nem sempre, aliés, definitivas. Em segundo lugar, convém nio esquecer que pro- ‘aresso nido 6 nevessariamente sindnimo de crescimen- to ou de novidade. A expansio do némero de univer- sitdrios no significa, automaticamente, nenhum aper- feigoamento da instrusio superior — a® contrério, em muitos paises, entre os quais 0 nosso, veio dificulté-lo. ‘A. multiplicacio de especializagdes com direito 3 ‘ccupaco exclusiva de certos empregos ni & um efei- to natural do progresso da divisio do trabalho, levan- do a maior eficigncia em varias funcBes. Longe disso: © reino do diploma ceria rigidez e ine- ficiéncia, Antigamente, por exemplo, os colunistas eco- ndmicos dos grandes jornais brasileiros eram econo- ristas, profissionais ow amadores. Hoje, eles t8m que ser obrigatoriamente formados em “‘comunicagio” — €, em conseqiiéncia, pouco entendem da matéria sobre a qual vio eserever... A especializacZo, no caso, re- velou-se disfuncional; a novidade pseudotéenica nfo representou progresso nenhum, ¢ sim mais um passo no reforgo de uma das maiores perversGes ocupacio- nals contemporéneas: a emergéncia neocorporativista de verdadeiras guildas de incompetentes profissionais ‘sociedade do diploma”, ritualfstica, pedante e iciente. 26 Tudo isso sugere que niio devemos conceber 0 pro- gresso como um abandono sistemético do passado. Embora a institucionalizag@a do progresso tenha re- sultado de uma considerdvel descontinuidade na his- toria da produso, do pensamento e da organizagio social, em iilkima anilise © eritério decisive do de- senyolvimento é menos a recusa generalizada dos ¢os- fumes do que a ampliagdo da gama de oppdes dispo- niveis numa dada sociedade. Assim como 0 individuo rico € o que pode manipular maior némero de alterna tivas em matéria de moradia, ocupagio ou diversio, uma sociedade desenvolvida é aquela em que as for. ‘mas de agir © de fazer sfo milkiplas © heterogéneas, ppermitindo inclusive a combinacio freqiente do velho com 0 novo. Uma sociedade progressista & uma cul tura inventiva; mas uma cultura inventiva se nutre, fem boa parte, de toda uma arte combinatéria, eapaz de dar novas fungSes a antigas formas, e no apenas de inventar novas formas ¢ fungi Digamos, entdo, que a alma do progresso é & mu: danga permanente — mas que seu alimento é a Ienta sedimentagao dos modos de conduta social, normal- ‘mente (mas nem sempre) corporificados num sem-ni- ‘mero de instituigdes, Em sintese, 0 progresso se serve das tradigdes, sem deixar nem um pouco de ser con ‘nua inovagto, Progresso, evolugto ¢ historia Falar em sedimentagio de formas, aludir & transfor- ‘magio de instiuigées, induz infalivelmente a pensar fm evolusdo. O conccito de evolucio no ostenta as onotacses imediatamente melioristas da nogio de 27 pprogresto. Ela constitui, por ara neutra fe “naturalista” daquilo que “‘progresso” denota den- tro de uma avaliagao positive: 0 “desenvolvimento”. Logo, feria sumamente interessante saber que base fo progresso, como fato e valor, possui ou néo na evolu f¢40. social’ do homem, cientificamente esclarecida. ‘Seré que 0 progresso 6 mesmo, conforme queria Spen- cer, una “parte da natureza” — ao menos da nature- za da nossa espécie? $6 poderemos responder invest gando a natureza da propria evolugio hist6riea (por ‘oposigio a fisica) do homo sapiens. Recordemos que © que estamos considerando pro- agresso corresponde essencialmente a0 nivel histérico atingido pela sociedade industrial avangada. Sem ne- gar a ocorréncia de progressos substanciais antes da revolugdo industrial © seu desdobramento, foi nela que locelizamos © habitat hist6rico da mudanga ge- ral para melhor. Por isso, a interrogagio sobre a na- tureza da evolugdo social toma nevessariamente a for. ‘ma de uma outra: como explicar 0 itinerdrio que nos frouxe até a civilizagio industrial, em termos de teo- via da hist6ria? 'No capitulo precedente assinalamos as causas eco- némicas imediatas do advento do industralismo, ¢ 0 papel nele desempenhado pelos interesses materiais do norte da Europa ocidental. Agora se trata de outra indagaco, mais antropol6gica do que geogréfica, & referente @ um espectra verdadeiramente macrohists- rico. O problema é determinar se a conquista do nivel do. desenvolvimento tecnol6gico primeiro alcangado pelo Ocidente moderno (@) resultou de alguma peculiaridade da cultura ‘ocidental ou 28 (b) representa, ao contrério, um potencial evo- lative pariihado por toda a espécie, inde- pendentemente da diversidade das culturas, [No segundo caso, © industrialismo ou modernidade existe, em estado de semente, em toda e qualquer socic- dade humana, B a visio evolucionista da histéria. No primeiro caso, a modernidade deriva de earacteristicas altamente especificas da cultura ocidental, © s6 se uni- versaliza por meio de um processo de difusdo. Ba teo- ria historicista, que acentua a iredutivel peculiarida- de dos individuos hist6ricos, sejam estes épocas ou configuragées socioculturais. O evolucionismo pensa fem ivilizapdo como algo basicamente homogéneo, cujo sujeito é a humanidade em seu todo. O histori- cismo pensa as culturas, um plural bem heterogéneo, ‘cujos sujeitos so poves bastante diversos entre si. (Os grandes fundadores da cigncia social se dividi- ram a esse respeito, Spencer © Marx foram evolucio- nistas: Max Weber, 0 maior dos historicistas. Para 0 cevolucionista (conforme vimos em Spencer), a evolu- ‘0 & algo necessdrio; mas para 0 historicista, ela Constitai um proceso’ contingente, nascido de ‘uma ‘onstelagio tinica de causas distintas, cada uma com ‘sua propria légiea evolutiva, Assim a emergéncia do capitalismo ¢ sia expansfio, na Europa dos séculos XVEXVIL, se deveram, para Weber, & combinacdo, na. ‘altura ocidental, de varias pré-condigGes e fatores ori- zinalmente isolados: o nivel de cométeio atingido pela ‘especializagio econdmica das cidades ocidentais, 0 vo ume da massa monetéria possiblitado pelo impacto dos motais preciosos trazidos da América, a tradigio ju- ridiea romana, que protegia excep reito de propriedade, enfim uma ética religiosa, ba- seada na extensfo do conceito sacralizado de vocagio 2 is atvidades de tipo empresaral A heterogensidade descasvardvels ansparee na propre dveriade de Sua ergem histéic: af esto, com clef, ftores vin dos do mundo antigo (0 disto romana), da Kae Mé- dia (a stra da cidade cident), da Renasenga (0 incremento da crculegso montéia) ey “ast but not Teas”, da Reforma (a “eva protestante). Tudo fo, or volta do 1600, formou um compexo obviaments Contingent, mas de grande forga causal na plsmasao da economia moderns; ela, Por sua Yee, conforme Tembrado no capitulo anterior, fo una eondito sine gue non do primei surto de Industral, ‘Quem fem rato: os evcsionitas ou os historic 1 Ovo line w sve ivan monte tum postulado: o cater tnilingr da evox Gio ‘octal. Supunhies que todn soiede: humana assou,esté pasando ou ind pasar pola tesa se atencia de estigios evolves ¢ peiedos historic. Cont, esse pressuponto se chocou, deste cedo com diteudades patents. Pera comesar, para gus essa caminedeforga se aplicase realmente a cada sie dade histrea, sera necessdrio que av sociedad fos Sem moras. No entano, meitas jf desapareceram, sem poder, € claro, sleangar todos os esis da so Gitneia evolves otras — » matora esmagadora das alvais— nao chepam a remeonir a0 principio a lista de estigis. As soiedades cuopsias do, peso te vim, por exemplo, da Idade Média, e nfo dos tem os paleoces. Em simples termos de coninidade Ae ccupaczo tenor, no fem sentido consider as sociedades contemporiness como. metas tanfor Images das cltras ae areicas ~~ as desconinut dads prvaleem, de longs sbre os elementos de cor ‘inside, x Além do mais, a tese do evolucionismo unilinear parece pressupor’ também que as sociedades vivam, nno essencial, isoladas. Na realidade, porém, a quase totalidade dos grandes grupos humanos ja vivia em Contato freqiiente de uns com os outros, mesmo antes da tremenda intensificagio e diversifieagao do inter- cambio trazida pela técnica modema, Nesse caso, como pensar que a passagem, em cada sociedade, de lum para outro estégio da mesma seqiiéncia possa ter- Se mantido imune ao influxo de sociedades mais evo- Iuidas? B dbyio que © evolucionismo cléssico nio le- You bastante a sétio 0 fendmeno da difusdo de traces culturais, Como néo poderia deixar de acontecer, 0s neoevor Tucionistas nio vacilaram em desembaracarse do dog. ‘ma unilinearista. Desde os anos trinta, © antropélogo americano Julian Steward passow a montar uma tea. ria da mudanga cultural com eixo na idéia de evolu. ‘0 multilinear. Mas Steward concentrou seus estudos fas chamadas sociedades primitivas (tibais) ou nas culturas pré-colombianas, isto é no espago da pré- tGria; s6 mais recentemente € que os antropélogos, como 0 soviético Tari Semenov, tém procurado revi. Yer — ¢ rever — os principios’evolucionistas na ex- Plicagio da mudenca histérica, — a sucessio. das Brandes formasdes socioecondmicas: impérios antigos, Feudalismo, capitalism, socialism, Semenoy procura restringir a evolucdo unilinesr ao nivel da espécie, sem fazer dela uma “lei” para cada Sociedade particular. Ao nivel destas dltimas, a evolu- (io 6 vista como uma maratona: a cada estigio evolu fivo, a tocha passa das mios de ama cultura para ot tra, Na evolucio do modo asidtico de produgio para ‘8 economia escravista, a tocha passou do Oriente pata st ‘© Mediterraneo; na transformagéo, dentro da, Euro- pa, do escravismo em feudalismo, ela passou do Me diterrdneo para o Ocidente europeu. Cada nova cul- turalider 6 um centro com sua periferia. Seu papel & duplo; nfo s6 se torna 0 mais influente no perfodo ‘como vai preparando o seguinte. Com iss0, 0 neoevo- lucionismo incorpora sem problemas a freqiéneia da difusio. — 0 grande fato inexplicado pelos evolucio- nistas cldssicos. Entretanto, © abandono do unilinearismo cléssico tem as suas desvantagens. Como nota Emest Gellner, com 0 evolucionismo, velho ou revisto, estamos sem- pre diante de uma concepedo “vegetal” da histor partimos da presuncio de que as seentes (as socie- dades atualmente atrasadas) terdo forgosamente que dar fruto (0 estégio superior de progresso). Ora, no reino vegetal verificamos que de fato assim é, porque dispomos de uma infinidade de exemplos nesse senti- do, Mas no campo da histéria, como & que vamos sa- ber? Por exemplo, Semenov atribui extrema importin- cia, na preparagio do feudalismo (por sua vez pré j9 do capitalism), ao aparecimento, no Medi terrfineo antigo, de sociedades escravistas, No entan- to, se s6 deparamos — na nossa “'maratona” evoluti- ‘va — com um tipo de sociedade escravista, como de- terminar ao certo que ele “gerou” 0 estigio feudal subseqiiente? Thversamente, como explicar 0 fato de ‘que a0 menos uma sociedade feudal — 2 japonesa {inica amplamente andloga, sendo idéntiea, & — nifo conheceu um perfodo anterior escravisia? Ou- tro problema: como justificar o fato de auie, na hora crucial da substituiedo do feudalismo pelo capitalis- ‘mo, © centro — a Europa ocidental — permanecew 32 Em todos esses pontos, a versio revista do evol cionismo tropega. E com ela, a concepsdo da evolugio social como “orginica” e necesséria no sentido causal dda palavra, Nas sébias palavras de Durkheim, “os es- tigios que a humanidade sucessivamente atravessa nfo engendram um a0 outro”, Mesmo sem aceitar a tese super-historicista da absoluta unicidade de cada even- tore cultura, nfo hé como deixar de reconhecer 0 c2- iter contingente da mudanga social. Os evolucionis- tas, antigos © modernos, trabalham com um modelo cendégeno de transformagdo; mas o que a anilise empi- rica revela é que a mudanca social é, na maioria dos ‘casos mais significativos, exégena. A histéria & sem- pre um plural de histérias — das historias diferentes dos diversos setores e instituigdes que compdem cada tunidade social de maior interesse. Do contato ou co- isio entre essas histOrias heterogéneas resulta a mu- ddanga, muito mais do que de uma mistetiosa germina- o interior. E mesmo quando a mudanga parece par- tir essencialmente de dentro — como nas moderniza- ‘goes intencionais conduzidas em paises “em desenvol- ‘vimento” —, nio se pode excluir a influéncia do exem- plo extemo: em geral, a yontade de modemizagio sur- ge do desejo de emulagio. O interno passa pela assimi- Tago do externo. Progresso ¢ conduta, ou cultura e experiéncia (© progresso humeno niio 6, por conseguinte, em ne- ‘nhum sentido preciso, uma necessidade da natureza, ‘A evolugio social néo apresenta causas compardveis, hho grau e na forma do seu determinismo, a evolucao fisica da espécie; a investigacio causal da histéria da 1980 no corrobora as fantasias organicistas 3 «¢ necessitatistas do evolucionismo. Mas isto nio reti- ra nenhuma realidade 20 fato do progresso. Néo ser (© fruto inelutdvel de uma pristina semente, perdida ros albores da pré-hist6ria, nfo tolhe substincia ao falo do progresso, nem a0 valor que the atribuimos. So 1 evolugio néo explica o progresso, este nem por i880 ddeixa de descreyer a contento 0 procesto hist6rico em ‘que nos encontramos. ‘A esta altura, vale a pena perguntar: qual a fungi bésica do progresso na vida humana? JA vimos, pela ‘sua localizagao histérica — a civilizagao industrial — © quanto ele corresponde a um controle inédito da ma- téela. Serd que se dé o mesmo no tocange & vida social? ‘A questio € complexa. E claro que, sob certos 5- ppectos, o progresso significou maior controle da vida fem grupo, Basta pensar na extensio do aleance da lei. [Numa sociedade arcaica ou tradicional, a lei e 0 costa ime circunscrevem um aximero de atividades incompa- ravelmente menor daguilo que, entre nés, constitui a jurisdigdo total do direito positivo. Todavia, sob ou- ‘ro aspecto, 0 progresso sempre dependeu muitissimo do fato de que o homem no é capaz de controlar ple- rnamente a conduta social. Pois © progresso da civili- zagao pode ser encarado como uma situagio em que ‘cada individuo, a0 perseguir seus préprios fins, faz. uso dde muito mais conhecimento do que adquiriu por si (0 crescimento da civilizago nfo se identifica com ‘6 ctescimento do conhecimento explicito ¢ menos ain- da com o cientifico. Embora a ciéncia possua um pa pel motor na cultura contempordnea, sinda assim rmuitas ¢ muitas invengGes e iniciativas que redunda- ‘ram em beneficio geral provém ¢ continuam a prover s de algo mais simples: da mera aptidio dos individuos para se aproveitarem da experiéncia alheia, de modo Inais irefletido que deliberativo. Em miriades de oca- sides, algo de valioso para a sociedade resulta desse tipo de conduta. Nela reside, aliés, um dos mais for- tes argumentos em favor da liberdade, ou seja, da at séncia de controles sociais supérfluos e — do ponto de vista do bem comum — contraproducentes. F. A. Hayek € 0 pensador que mais tem insistido, entre os conlemporitieos, nesse ponto. Nossa confianga na li- berdade nio repousa na previsibilidade das conseqiién~ clas de nossos atos, ¢ sim na convicedo de que, por fais megativas que’ algumas destas venbam @ ser) © ‘alango final seré. positive — muito mais postive do que a va mas nefasta tentativa de submeter todo © ocial a uma prévia determinagio, suposta- ‘mente inspirada em nobres ideais. ‘0 corolério dessa perspectiva, no que concerne 20 progresso, é claro: o progresso é um crescimento cumts {ativo que jamais poderia ser totalmente plancjado. Hayek denuncia na impressio contréria os vicios do racionalismo ¢ do intelectualismo: pois a crenga na Plancjabilidade do progresso esquece que 0 fato de fue a mente humana é a fonte da cultura s6 contém etade da verdade. Por outro lado, a prépria mente € 0m produto da cultura e sua evolugio — da cuk tura da espécie como um todo, ou civilizagao. Em eer- to sentido, a mente parece feita muito mais para absor- ver cultura do que para projetéla. E para completar, (08 conhecimentos que o progresso vai acumulando sos ‘pés da humanidade nfo so adquiriveis e usiveis de ‘modo puramente intelectualistico, consciente, codifies- ido e formulaico. Sao, em grande parte, conhecimento Dpto e implicit, adquirido por e na experienc ue ¢ viver, O progresso é, como a evolugio, um i cewyale © bemsucedido processo de adaptagio, no ‘um eonstruto laboratorial — e, em iiltima anédlise, © imeyo valor dos laboratérios esté na enorme escala fem gue eles ampliam a matéria-prima que a civiliza- ‘gio proporciona ao génio da espécie para o invento © © egerimento, Proyessismo ou catastrofismo? PPgvelmente 0 leitor chega ao fim deste capitulo com 2 ssagdo de que s6 fomos capazes de esclarecer, es quepsticamente, 0 que 0 progresso ndo 6; © ninguém se slorsaré para desfazer essa impresséo, No fundo, © daisivo & recuperar 0 senso do valor e serventia do rogeso, senso que anda bastante abalado em nossos dig tio carregados de Kulturpessimismus. Vejam 0 que sonteceu com a ideologia ecoligica. Se nos ati- vermis 80s pioneiros da ecologia, como o recémdesa- argo René Dubos, verificaremos que seu cuidado coms protegio do meio ambiente néo implica nenfu- ‘ma tg romintica da agio do homem sobre a na- tures. Pelo contétio: Dubos sempre assinalou que gas das mais maravilhosas pusagens do globo — na Tscana, na Franga e na Inglaterra, por exemplo — sin produtos da transformagéo de ambientes sel ‘ages por obra © graca da atividade humana. E em- bona advertsse contra 0s pergos, pars o equillbio eoo- logis, de projetos como o da mudanga do curso dos sank riossiberianos para fins de irrigagio da Asia Cenipl ou 0 fechamento do estrcto de Behring visan- do a aquecer as éguas do Pacifico, nunca deisou de lou intervengdes retificatérias como os diques ho- 36 landeses ¢ a fetlizaglo de terras éridas em Israel ou do cerrado brasileiro. Donde se deduz que ecolopia responsével nada tom a ver com o antiprogressismo sistematico do eco- logismo, ideologia primitivista cheia de animosidade arcaizante contra civilizaglo tecnologica. Para os fa néticos do exologismo, adeptes do Clube de Roma ¢ do requisito do “erescimento z2r0", © para os “huma- nismos” anticiéncia que os inspiram, nosso juito fa vordvel ao processo histsreo, ‘dentificedo com 0 pro- gresso ¢ metamorfose da revolugo industrial, é um fro gigantesco, De acordo com essa mentalidade ea- tastrolisa, « civilizagio industrial 6 0 inferno da his {6rla, o ponto mais baixo do humano, vitima da sanha teenolégica... Assim, a0 contréio das massas, que @ téenica vai libertando, cada vez mais, de tantas et- réncias, e da pesquisa desapaixonada dos faios, a an- Bistia ecoldgica (projegéo psicoldgica da. conjuntura econdmica recessiva que ofa atravessamos) condona © progresso e repudia a civilizagio moderna. Mas tal ‘ver uma avaliagfo menos errdnea do que seja 0 pro- fresso nos permita evitar esse rejecionismo imaturo, fe nos faga compreender que a natureza do processo fifo é um maligno “processo da natureza” perante 0 nal da arrogincia humana, a7 1A owdem liberal gaante 20 indvdio seguranca, tote expesfo atonoma; 6 capitalise Ihe grants tins bende de acto © de oportunidad em estala tito maior que as economiae de comando. Eclaro aoc tins vantages a prt ogee SNeurada pela ordem beta, mas sem 9 ineremenio dediviao do trabalho ¢-eevagiogeral do nivel de ‘as tardos pelo progeso econémico, ela permane: CA Se stencil sobretudo, no seu sleance soca, en nage ponent fern, Na igo coneeta ae hiro sca tiberdadese-natte dn indi, Kean sinbnimo do progreso,e ete da economia Faun em pensar indstra e Jemocraca conta 4 legen do condo, os socialism se condenam (tender e obsar 0 propeso Fe 0 presto dt ibordade 178 VII. HUMANISMos 1 ign ¢ tein, #0 dard Yt Marx, Grane "A tumaniade mio & me tbo desis a que evemes Pelle € um clube 30 ual deve Ceeron Capitalism, liberalismo e intelligentsia Poucos anos antes de sua morte, um grupo de admira- ores entrevistou Joseph Schumpeter, em Harvard — universidade em que o sébio vienense se exilara do nazismo e sua guerra. Quando alguém Ihe perguntow ual o seu maior desejo na juventude, Schumpeter dew luma resposia encantadoramente cabotina: "Quando jovem — disse — em Viena, eu s6 queria ser trés coi- sas na vida: 0 melhor cavaieiro do Prater, 0 melhor amante da Europa ¢ o melhor economista do mundo!" Em seguida 0 velho dew um suspiro e aerescentow, com ‘uma ponta de nostalgia: “Que pena ew nisnea ter con- seguido ser o melhor cavaleiro do Prater! Este ano se comemora 0 quadragésimo aniversério dda publicacdo da obra mais conhecida de Schumpeter Capitalism, Soctalismo Democracia. Schumpeter foi tum severo critico das teorias econdmieas de Marx. No ‘entanto, seu livro também vaticina o colapso do capi talismo, A diferenca & que a profecia schumpeteriana nao atribui o fim do capital a causas propriamente eco némicas, como as de Marx (crise de superproducio, 179 queda da taxa de Iucro, ete) € sim s causas institu cionais, sociais e ideoldgicas. Entre as causas institucionais da futura faléncia do capitalismo, a sobrevir no fim do século, Schumpeter destacou és: « hipertrofia da empresa, convertida em sociedade anénima (na qual, como Engels, ele via um prelidio ao socialismo); a “‘rotinizacho" ‘burocrétiea fo tema de Weber, autor que muito impressionou ‘Schumpeter), Ievando ao eclipse do espirito de riseo © inovagio; e © declinio de institutos como a heranca e 2 propriedade (Schumpeter tinha uma visio essencial- ‘mente ‘“hanseética”” do capitalismo — para ele, 0 né- cleo do sistema era a firma familiar, & la Budden- brooks). e Entre as causas sociais da escleroSe do capital, apontou principalmente duss. Primeiro, fez notar que © sucesso do capitalismo havia elevado a posigdo eco- nOmica de todas as classes, e particularmente dos trabalhadores, dos camponeses © dos desempregados. Esse fortalecimento econdmico, por sua vez, robuste- ‘ceu o poder de barganha dessas camadas frente & bur- auesia, dona do capital e portadora do dinamismo do sistema, ‘A segunda causa social implica uma andlise ainda ‘mais sutl. E que, segundo Schumpeter, paradoxalmen- te, © éxito do capitalismo burgués esteve intimamente ligado a persisténcia de um contexto social pré-capi- talista, isto é, « uma sociedade em que vérias camadas socioprofissionais exibiam atitudes e obedeciam a valo- res muito diversos dos valores ¢ atitudes dos comer- ciantes, empresérios e economistas (raga de “sofistas e calculistas”, como dizia Burke). O papel estratégico esses grupor nio-utilitérios, adstritos ao culto do de- ver, da honta e do desinteresse na estrutura social foi 180 uma condo do flerscimento. do. captaismo, © ethos disseminedo por eles contribu, dectseunene Pata a manatensdo a ordem, 0 respeito Tea obi ia dos compromises, ete.-~ todos prevequbite éskojuridicos da difsto da stividedecaptalss, Ea éica “préscondinice” eras face sta da medalha mo. ral aristocrtica paleoburguesay a face rive oe aguele charme dsercto do paticindo ue fala do Jo vem Schumpeter — rebeno aistocratizante da Dr futsa aieca— amare cavalar, com tan gato, ‘na Belle Epoque. - - © mas curioso& que ess ands hissica tem dues pontas. Pos se 2 implantago do captlime deve Imuto a persisténcia de tragos sci ecapiaistas, (© mesmo se podria dizer do nasimento da Wdeologta Socialis e, muito especiaments, da socialism revo Giondrio. Este ftmo suri, como vimos no cepts anterior, bem no meio da “era da rvolugio”catopéia 0 pevodo comprecndido enre 1789's 1848. Ore, neea Gpoca rovolucionaia, a verdadcra clase socal Guia rebeligo eausou a derocada dos “ancien re ter” europe fi campesnao, endo o proltriafo trhano, que mal comepava ase formar na Europ eon, tinentl (mesmo na pinta reolugaoproetnf dg Comune parisinse de 1871, havin menos oprdics de rand indstia do que ates cempregados del). 8 sgifica que oradicalismo sciatisa rava sew impetosubversivo de um eontero confltual marcado pela Tuta contra @ autocracia © sovedade feudal, & "io — como no figurno do doutrina da ute dee elesss modernes,burgusia © operarado, Eps nies maa razdo, compreendese que, depois do fra do Comuna, Marx © Engels — sobretudo este, que vee A460 fim do sézulo — tenham contemplao poss 181 bilidade “evolutiva” de um triunfo pacifico, por via parlamentar, do socialismo, Engels chegou a reconhe- fer que o voto se havia convertido de “‘engodo” em fnstrumento de conquista do poder pelas classes tra- bathadoras. Moral: quando a Europa era revolucioné- ria, 0 operariado mal contava; € quando este passou 9 ‘contar, Europa jé havia deixado as revolugBes para tris, ‘Schumpeter designou também causas ideoldgicas para o fim do capitalismo, por meio do esboro de uma penetrante sociologia da intelectualidade. Observando ue o intelectual livre e critico fora uma cringéo his torica do capitalismo, cle se inquietou diante da cres- ‘cente propenséo dessa camada a se voltar contra a so- tiedade burguesa as proprias institufedes liberals — f imputou aos intelectuais uma das maiores response Dilidades no colapso do capitalismo. [As previsbes catastrofistas de Schumpeter, como as de Marx, sofreram cruel desmentido hist6rico — ¢ no ‘seu caso, 2 ironia foi maior, porque, apenas alguns anos depois de Capitalismo, Socialismo e Democracia, ‘© mundo capitalista penetrou no seu mais longo pe riodo de prosperidade generalizada. Economistas como Paul Samuelson, socislogos como Danie! Bell analisa- ram convincentemente os fatores da miopia futurol6 fica de Schumpeter: sew apego anacrOnico & empresa familiar; sua negligéneia da pandplia de inventos do tentreguerras, eujo aproveitamento, desde 1945, ener- sizou tremendamente a economia; enfim a sua drama- tizagdo do conflito de classes, quando se sabe que a sociedade de consumo ¢ o exemplo negativo do comu- nnismo, regime a um s6 tempo opressivo e impréspero, “domesticaram’” 0 Gnimo revolucionério das ‘massas. Schumpeter conseguiu evitar algumas das ilusGes da 182 vulgata keynesiana (sobretudo quanto a inflagio) iio soube prever a dinfmica das multinacionais nem (8 efeitos polfticosociais da guerra fria. Positivamente, ‘como profecia, seu livro se saiu mal. Mas a sua Sociologia dos intelectuais ainda esté — © como! — conosto. Quatro décadas mais tarde, nfo continua a erescer 0 mimero dos intelectuais anticapi- talistas e no minimo ambivalentes diante das insttui- 8es liberais? No tempo de Schumpeter, muitos inte- Tectuais aderiram ao comunismo e aos fascismos, pre- meditando assim 0 “parricidio” histérico de liquidar ‘© sistema social que os gerou. E, no entanto, no tempo de formagao de Schumpeter, nada indicava que a inte- lectualidade ocidental tivesse razdes sociais para com: Dater os regimes liberais ou constitucional-conservado- res em que viviam a Gri-Bretanha a Franca, os inv périos centrais ou a Tilia sob a Casa de Savoia Sociologicamente, of intelectuais europeus de antes da Grande Guerra ‘se dispunham num espectro cujos cextremos estavam ocupados pelo mandarinato da uni- versidade alemd, detentor de um status elevadissimo, c pela intelligentsia russa e polonesa, que vivia total: ‘mente marginalizada pela autocracia czarista. De modo ppouco surpreendente, os mandarins alemies exam po- liticamente muito mais conformistas que seus colegas de oficio na Austria ou na Franca da III Repéblica, embora nesta tltima nacio os universitérias (por opo- sigdo aos homens de letras) fossem majoritariamente bons republicanos. Quanto 8 intelligentsia eslava, cons: tituia um auténtico anticlero, um ebuliente caldo de cultura da idgia revolucionéria. Setenta anos depois, uma versio “psicolégica” da intelligentsia se acha hem instalada no Ocidente. Os intelectuais das grandes democracias industriais e dos 18s mais avangados paises em desenvolvimento quase t0- dos sio donos de status burgueses, como universitérios fou empregados nos meios de comunicagao de massa; entre eles, porém, os radicais se multiplicam. Pare doxalmente, 0 capitalismo suave da “economia social dde mereado”, que democratizou o consumo, financia todo um complexo sistema previdencidrio e assisten cial ¢ indeniza pelo desemprego, merece tanto ddio ou tanto desprezo quanto seu predecessor pré-keynesiano, Durgués e cgoista. Como julgar esse estranho fe- rnémeno?. . Nas “demoeracias populares" do socialismo real, agitagao da classe intelectual tem outro sentido: li, trata-se de cientistas ¢ técnicos frustrados pela incom- peténeia da idcocracia do Partido, e par isso mesmo dispostos a forgé-la a dividir 0 poder com uma tecno- cracia mais liberal ¢ mais eficiente. Logo, potencial de revolta pertence ao que, segundo os hiingaros J. Konrad e I. Szelenyi (Os Intelectuais a Caminho do Poder de Classe, 1979), constitui una “intelectualide- dde de servigo” em surdo combate com a“ politburo- ceracia” que a reprime. Mas na cultura liberal e permissiva do Ocidente, a inteleetualidade que se v8 a si mesma em estado de in- telligentsia nao predominantemente_cientifico-teeno- Iégica — € antes a clerezia humanistica, oficiante da filosofia, das ““ciéncias hhumanas”, das’ letras ¢ da ‘maior parte do jomalismo cultural politico. ‘Nessa clerezia, que procede — 20 abrigo do estado — como intelligentsia, medra 0 nosso. personagem- problema: o humanista que acusa ¢ condena, sem ape~ To, sua épaca. Ao fazé-lo, diga-se de passagem, ele nun- ca se esquece de tentar monopolizar a seu favor 0 pré- prio conceito e papel de intelectual. O dogmetico epi sgrama de Sartre resume admiravelmente essa tendén- ‘ia; “um fisico nuclear 96 € intelectual quando assina tum panfleto contra exporiéncias atémicas”, Iss0 6 tt: pico: os humanistas ndo s6 rejeitam processo (bom bas atOmicas & parte) da histéria, como fazem questo de delinir que € ser intelectual... Extra ecclesiam nulla salus ‘Mas, para tanto, foi preciso que @ figura do intelec- tual critieo experimentasse uma singular metamorfose. Para descrevé-la, nio me ocorre nada melhor do que uma répida comparagio entre dois eélebres exemplos de critica social exercida por humanistas: o de Vol- tire (1694-1778) ¢ 0 de Herbert Marcuse (1898-1979). De Voltaire a Marcuse Voltaire © Marcuse poclem ser tomados como altsmen- te representativos de um tipo de autor — a figura do intelectual critico. Voltaire encarnou a contestagio 20 Ancien Régime; Marcuse, a Grande Recusa da socie- dade contemporiinea. No entanto as semelhancas pa- tam por aqui. Voltaire cri regime politico e a ideologia estabelecida do absofutis ‘mo feudal e catélico, mas no repudiow © curso da ci- vilizagao, Ao contrério: era apelando para os valores progressistas do dia — o avango da técnica, 0 primado do espirito de comércio sobre o espitito de conquista, © livre exame, a ligo do constitucionalismo — que le articulava a critica do status quo politico, social e jdeolégico. Marcuse agia de modo muito divers. contrapunha 0 camino do progresso a uma ordem e2-