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A (In)(Corpo)r(Acção) Precoce dum jogar de Qualidade como Necessidade (ECO)ANTROPOSOCIALTOTAL Futebol um Fenómeno

A (In)(Corpo)r(Acção) Precoce dum jogar de Qualidade como Necessidade (ECO)ANTROPOSOCIALTOTAL

Futebol um Fenómeno AntropoSocialTotal, que «primeiro se estranha e depois se entranha» e … logo, logo, ganha-se!

Jorge Miguel Gonçalves Maciel

Porto, 2008

que «primeiro se estranha e depois se entranha» e … logo, logo, ganha-se! Jorge Miguel Gonçalves
que «primeiro se estranha e depois se entranha» e … logo, logo, ganha-se! Jorge Miguel Gonçalves
A (In)(Corpo)r(Acção) Precoce dum jogar de Qualidade como Necessidade (ECO)ANTROPOSOCIALTOTAL Futebol um Fenómeno

A (In)(Corpo)r(Acção) Precoce dum jogar de Qualidade como Necessidade (ECO)ANTROPOSOCIALTOTAL

Futebol um Fenómeno AntropoSocialTotal, que «primeiro se estranha e depois se entranha» e … logo, logo, ganha-se!

Monografia realizada no âmbito da disciplina de Seminário do 5º ano da licenciatura em Desporto e Educação Física, na opção de Futebol, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

Orientador: Professor Vítor Frade Autor: Jorge Miguel Gonçalves Maciel

Porto, 2008

Maciel, J. (2008). A(In)(Corpo)r(Acção) Precoce dum jogar de Qualidade como

Necessidade (ECO)ANTROPOSOCIALTOTAL - Futebol um Fenómeno

AntropoSocialTotal, que «primeiro se estranha e depois se entranha» e … logo,

logo, ganha-se! Porto: J. Maciel. Dissertação de Licenciatura apresentada à

Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

PALAVRAS-CHAVE:

INCORPORACÇÃO;

CORPO;

FENÓMENO

PERIODIZAÇÃO

à

LA

II

ANTROPOSOCIALTOTAL;

PRECOCIDADE.

LONG;

Dedicatória

Dedico esta dissertação à minha AVÓ, que de uma forma ESPECIAL, me acompanhou ao longo destes cinco anos de estudo. Muito do que fiz, foi para te honrar e te deixar orgulhosa. Penso que consegui, pela tua ajuda OBRIGADO!

Giló no melhor e no pior serás sempre um exemplo de Vida para mim. Esta dissertação também é tua e também dedicada a ti. OBRIGADO PELOS MUITOS E BONS MOMENTOS!

III

“A principal esperança das nações reside na educação da sua juventude.” (Erasmo, cit. por Goleman, 2003, pp. 283)

“Porém, será que temos ideias claras quanto ao lugar da ciência na totalidade da vida humana – o que deverá exactamente fazer e por que fins se deve pautar? Este último aspecto é crucial, pois, a menos que a ciência seja orientada por uma motivação consciente ética, em especial pela compaixão, os seus efeitos podem não ser benéficos. Na realidade, podem provocar grandes danos.” (Dalai-Lama, 2006, pp. 17)

“Pontos de vista, conceitos ou ideias que não se ajustavam à estrutura da ciência clássica não foram levados a sério e, de um modo geral, foram desprezados, quando não ridicularizados. Em consequência dessa avassaladora ênfase dada à ciência reducionista, nossa cultura tornou-se progressivamente fragmentada e desenvolveu-se uma tecnologia, instituições e estilos de vida profundamente doentios.” (Capra, 2005, pp. 226)

“O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir a nossa sobrevivência ainda não atingiu a maioria dos líderes das nossas corporações, nem os administradores e os professores das nossas grandes universidades.” (Capra, 1996, pp. 24)

“Quando lhe contaram que tinha sido publicado um livro intitulado Cem Autores contra Einstein, exclamou: «Porquê cem? Se estivesse errado, bastaria um.»” (Hawking, 2002, pp. 26, referindo-se a Albert Einstein)

Agradecimentos

Fazendo minhas as palavras de J. Bento (2004, pp. 27) “sei que a memória dos homens raramente vai além da missa do sétimo dia. A memória e a gratidão. E não obstantes as duas qualidades são elevadas à categoria de virtudes no contexto da cultura ocidental. A tal ponto que a falta de gratidão é, a par da traição, porventura o maior dos pecados mortais. Ora é precisamente para me pôr a salvo da tentação de incorrer em tal infâmia que me apresso a agradecer” a todos aqueles que colaboraram e contribuíram para a feitura desta Ecodissertação, que como tal, também lhes pertence. Assim agradeço:

A realização e orientação desta Monografia, àquele que não aceita que haja alguém mais “maluco” por Futebol do que ele, “um cérebro científico como é o do professor Vítor Frade”, como um dia referiu José Mourinho (in Record Dez de 25 de Fevereiro de 2006). É para mim, um enorme orgulho poder ter sido orientado por alguém que é, um dos mais conceituados pensadores do Jogo e do treino a nível internacional, como se pode ler no jornal “A Bola” do dia 10 de Novembro de 2007, no qual é igualmente reconhecido por Carlos Queiroz, como o símbolo máximo da qualidade do trabalho desenvolvido na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, que “só não é suficientemente e devidamente reconhecida em Portugal.” Professor, as ideias são suas, limitei-me a colocá-las no papel imbuído pelo contágio apaixonante com que fala de Futebol e com que acompanhou a “feitura” deste documento. OBRIGADO!!! E OBRIGADO por me ter tirado, ou levado a tirar muitas das palas que me estorvavam a compreensão do Jogo. Motivo pelo qual me revejo, na história de Tamarit (2007) que vindo de Espanha para a nossa Faculdade, reconheceu a existência de duas correntes de entendimento do Jogo e do treino, uma semelhante à que se verifica em todo o lado, e outra “opuesta a la existente en las Metodologias de Entrenamiento impartidas en todas las Faculdades” da qual me tornei um

V

aficionado esclarecido, “poco a poco fui creyendo en sus ideas, hasta convertirme en un fiel seguidor a sus teorias.” (Tamarit, 2007, pp. 20/21). Estes anos têm sido fascinantes.

À minha FAMÍLIA, de modo especial aos meus PAIS. Não sei se os genes que herdei são bons ou maus, também não sei se sou “Talento” ou não, sei apenas que sou fruto de um processo de construção e de exponenciação que fez de mim o que com orgulho sou, e no qual o “nicho ecológico” que me proporcionaram foi determinante. Por tudo o que temos vivenciado juntos, e pelo processo de Especificidade Precoce de preparação para Vida que me proporcionaram, MUITO OBRIGADO. Vocês sabem.

Aos meus entrevistados: Professor Doutor Manuel Sobrinho Simões, Professor Doutor Leandro Massada, Professora Luísa Estriga, Professor Doutor Paulo Cunha e Silva e Professora Marisa Gomes, o vosso contributo foi um acrescento qualitativo muito relevante. Obrigado por acederem ao pedido e obrigado pelo conteúdo das conversas que tivemos. Foram óptimos momentos.

A todos os que acompanharam a feitura desta dissertação, de modo especial, ao Tiago Moreira, aos meus colegas de estágio, Henrique e Daniel, que aguentaram comigo nos bons e maus momentos, ao longo deste ano. Obrigado.

VI

DEDICATÓRIA

AGRADECIMENTOS

ÍNDICE GERAL

ÍNDICE DE FIGURAS

ÍNDICE DE QUADROS

RESUMO

ABSTRACT

RÉSUMÉ

Índice Geral

1 – INTRODUÇÃO (MOTIVAÇÕES, ACTUALIDADE, OBJECTIVOS E ESTRUTURA):

2 - ABORDAGEM ETNOMETODOLÓGICA UM IMPERATIVO PARA O DECIFRAR DE UM FENÓMENO ANTROPOSOCIALTOTAL

3- FUTEBOL UM UNIVERSO DE RELAÇÕES:

Índices

III

V

VII

XII

XIII

XV

XVII

XIX

1

11

19

3.1- Desporto um Fenómeno Social Total:

19

3.2- Futebol, um «epifenómeno» que é um Fenómeno Social Mais Total:

22

3.2.1

- Futebol um Fenómeno com relações e ralações com as instâncias Sociais:

Política, Religiosa, Económica e muito mais …

29

3.2.1.1- Futebol e Política ou Política e Futebol?! Como queiram, a relação é biunívoca. 30

3.2.1.2- Futebol e Religião, espaços de Heróis e Deuses.

42

3.2.1.2- Futebol e Economia, os riscos de abanar definitivamente «a árvore das patacas».

 

48

3.3- Futebol a sua omnipresença, e os efeitos e enfeitos da Globalização:

51

3.3.1 - Futebolização, um «pau de dois bicos» ou talvez não?!

54

3.3.2 - Futebol Feminino, um dos enfeitos da Globalização do Fenómeno:

57

3.4 – «Mostra-me como jogas dir-te-ei quem és», Futebol e as suas Idiossincrasias:

59

VII

3.5 - «Pressa» e «Homogeneização», emergências que são urgências num Futebol

agrilhoado pelos males sociais.

Índices

74

3.5.1 – O Futebol carece de passagens de nível: «Pare, Olhe e Escute». A importância de

«cozinhar» Talentos em «Banho – Maria»?!

75

3.5.2

– Homogeneização no Futebol?! O Futebol como a fast food.

85

3.6

– Do eclipse do Futebol de Rua, ao regresso retrocedente ás origens passando pelo

«encanto enganoso», e pela necessidade de um Útero Artificial.

89

3.6.1

– O Eclipse da Melhor Escola de Futebol do Mundo, o Futebol de Rua:

90

3.6.2

– O regresso retrocedente às Origens elitistas e a ameaça da Lógica Maquínica:

91

3.6.3

– O «Encanto que pode ser Enganoso»:

96

3.6.3

– A necessidade de Úteros Artificiais:

98

4 - FUTEBOL UM FENÓMENO ANTROPOSOCIALTOTAL:

4.1 – Antropo?! «Pertinente parece-nos!»

103

103

4.2 – A necessidade da COMPLEXIDADE, para a compreensão de um fenómeno Humano:

 

104

4.3 - Futebol «uma dimensão das duas faces que a moeda (da Vida) tem»:

107

4.4 – Futebol e o encontro com a Humanidade:

111

4.5 – Homem e Futebol a “Inteireza Inquebrantável” como um traço comum:

113

4.6 - Homem e Futebol Realidades Plurais, a importância do Culto da Diferença e da

expressão plural da Antropodiversidade:

122

4.7 – Em torno da complexidade dos Sistemas Vivos no Futebol, em busca de algumas

Categorias Antropológicas:

133

4.7.1 – A necessidade de um novo entendimento de Categorização, para fazer «Ciência»

de categoria:

133

4.7.1.1 – Para sistemas complexos, uma abordagem em complexidade: Futebol e Homem

são como as cebolas, se os picarmos em pedacinhos, fazem-nos chorar!

137

4.7.1.2

– Bem-vindos ao CAOS! O desejo de compreender o «incomensurável».

145

4.7.1.2.1 – Rotatividade uma imprescindibilidade exclusiva do Rendimento Superior?! Ou

mais do que isso?! Que implicações no processo?

148

4.7.1.2.1 – A fatalidade de não reconhecer as Fractalidades do Jogo e do jogar.

154

4.7.1.2.2 – A «ATRACÇÃO» vital, que pode revelar-se fatal.

160

4.7.1.3

- Para a perpetuação da Paixão, e não extinção do Talento urge um Futebol na

«Fronteira do Caos».

165

VIII

Índices

4.7.1.4 – A necessidade de Dissipação, um “Doping” numa Cultura que desde muito cedo

deve ser de Risco.

168

4.7.1.5 – EcoAutoOrganização, o emergir de jogares e Talentos AutoHeteroSustentáveis.

 

171

4.7.1.6 – Porque o Futebol não é «ping-pong», a CRIATIVIDADE carece de ser

contextualizada por um jogar!

178

4.7.1.6.1

– TreinarRecuperar fundamental para criar. A necessidade de atender ao

Princípio Metodológico da Alternância Horizontal em Especificidade

182

4.7.1.6.2 – Criatividade, com TRÊS ou mais, ainda é melhor?!

186

4.7.1.6.3 – A expressão Criativa no Jogo, elevação do Futebol à categoria de Arte.

189

4.7.2 – Futebol, uma expressão Cultural AnarcoGregária.

199

4.7.3.1 – Futebol, um Jogo Táctico, um lugar de Inteligência(S).

205

4.7.3.2 – INTELIGÊNCIA como Categoria Antropológica.

210

4.7.3.2.1

– Inteligência ou INTELIGÊNCIAS, do entendimento Plural, à INTELIGÊNCIA DE

JOGO.

212

4.7.3.2.2

– Inteligência Emocional, a “fusão” de Intenções!

213

4.7.3.2.2

– Inteligência Social, determinante num Fenómeno Gregário.

217

4.7.3.2.2

– Inteligência Cinestésico – Corporal, as primeiras «achegas» à hipótese do

Futebol requisitar Inteligência(S) específica e Específica(S).

219

5- O APARENTE PARADOXO, UM FENÓMENO ANTROPOSOCIALTOTAL QUE É SIMULTANEAMENTE UM FENÓMENO APARENTEMENTE

CONTRANATURA:

223

5.1 – “Levanta-te e anda” o Bipedismo, como faceta evolutiva determinante, as suas

vantagens e desvantagens:

224

5.2- Pubalgia e afins, os condicionalismos Antropológicos da zona média do corpo.

229

5.3

– As bases anatómicas da Hominização, «atando-nos» de pés mas não de mãos, a

emancipação das Mãos, os dois novos Cérebros:

234

5.4

– O Futebol requisitando uma funcionalidade ancestral, daí um Fenómeno

aparentemente ContraNatura:

238

5.4

– Futebol um Fenómeno «ao lado da natura»:

246

6 – EM BUSCA DA EXEQUIBILIDADE DO TRINÓMIO MAIS FUTEBOL, MAIS

253

CRIANÇA, MAIS EDUCAÇÃO:

6.1- A Brincar a Brincar é que o Talento começa a despoletar:

253

6.2

– Futebol e o seu valor Formativo:

258

IX

Índices

6.3 – Treino como Processo de EnsinoAprendizagem e o Treinador como Formador:

261

6.4 – Quanto mais e mais cedo melhor, desde que seja Futebol?!

267

6.5 – Especificidade Precoce e a Qualidade dos Ingredientes que podem Nutrir o Útero

Artificial:

285

6.5.1 – A Bola como Companhia, o Primado na Relação com Bola:

285

6.5.2 – Jogo(S) Reduzir Sem Empobrecer, para Enriquecer o Talento e o Prazer:

295

6.5.3 – Um Talento Humano é um Competidor, a Resiliência como parte da Qualidade:309

6.5.4 – Formando Talentos e não «atletas guerreiros», a importância de separar por

níveis:

324

6.5.5 – A Variabilidade dentro da Qualidade:

334

6.5.6 – Observar Qualidade para Criar Talentos de Qualidade:

349

7 – O FUTEBOL COMO A COCA-COLA, «PRIMEIRO ESTRANHA-SE DEPOIS ENTRANHA-SE»! A IMPORTÂNCIA DA INCORPORACÇÃO PRECOCE DO JOGO NA EXPONENCIAÇÃO DE TALENTOS:

365

7.1 – Talento uma realidade em Potencial, a importância da sua Exponenciação:

365

7.2 – A Plasticidade Cultural de uma realidade Plástica, o Corpo:

383

7.3 – Cartografar o Jogo no Corpo:

393

7.3.1 - Mapas que nos orientam para um Jogar Melhor:

393

7.3.2

– Da Paisagem de Jogo, à possibilidade da Bola ser um prologamento do Corpo:

 

399

7.4

– Somatização Precoce do Saber - Fazer:

404

7.4.1- A importância dos Hábitos num Futebol que tem de ser como o Inferno, «cheio de

boas intenções»!

404

7.4.2

- Old Traford é o «Teatro dos Sonhos» no Mundo do Futebol um «Teatro de

Emoções» Somaticamente MARCADAS.

413

7.4.3 – A necessidade de desenvolver a Inteligência Intuitiva.

417

7.4.4 – Atender à NeuroQuímica do Prazer para aceder a um Futebol Prazenteiro.

422

7.4.5 – PréRepresentar o jogar através da operacionalização de Jogos Cognitivos.

427

7.5.1- Para além do SABER – FAZER:

429

7.5.2. - Futebol um local de «ALDRABÕES», Conscientes!?

433

7.5.3. – Descoberta Guiada como uma dimensão da fenomenotécnica do treinar:

436

7.5.4.1 - Periodização Táctica e Neurociências de encontro à necessidade de uma concepção FENOMENOLÓGICA da Consciência no Futebol:

441

X

Índices

7.5.4.2 - Consciência um conceito Subjectivo e Plural, num Fenómeno Plural:

447

7.5.5. – A necessidade de um Futebol Sentido, e a necessidade de dar sentido aos Sentimentos desse Futebol:

452

7.6

– Acção Corporalizada, a Inteligência de Jogo como um Saber Corpóreo

(InCorporAcção):

456

7.6.1 – Um novo entendimento do agir a «PercepAcção»:

456

7.6.2 – Acção Corporalizada (InCorporAcção):

464

7.6.3 – Inteligência Corpórea, um processo de delegação que necessita de uma

Articulação de Sentido:

469

7.6.4

- Inteligência de Jogo, de jogo e Entendimento de Jogo:

473

7.7

– InCoporAcção/Somatização, o «ENTRANHAR» prevalecente da Inteligência de

Jogo:

477

8. EVIDÊNCIAS CONCLUSIVAS:

481

9 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

513

10 – ANEXOS

I

Anexo 1: Entrevista a Manuel Sobrinho Simões

I

Anexo 2: Entrevista a Leandro Massada

XVII

Anexo 3: Entrevista a Luísa Estriga

XLI

Anexo 4: Entrevista a Paulo Cunha e Silva

LVII

Anexo 5: Entrevista a Marisa Gomes

LXXVII

Anexo 6: Após conversa com Guardiola – “Esboço de uma ideia de jogo”

CI

Anexo 7: “Viva a brincadeira”. Por Carlos Neto, in Notícias Magazine de 01 de Junho de

2008, pp. 56/57.

CVII

Anexo 8: “PRIMEIRA LINHA” – Entrevista a José Mourinho”, in Jornal de Negócios de 30

de Maio de 2008, pp. 4 – 7.

CIX

XI

Índices

Índice de Figuras

Figura 1- Cladograma relativo aos hominóides actuais

240

Figura 2 - Mãos e pés de diferentes primatas

243

Figura 3 -

Comparação do pé do chimpanzé e do Homem

243

Figura 4 - Hómunculo Motor e Sensitivo

245

Figura 5 - Primeiros passos da Criança Humana

249

Figura 6 - Relação complexidade de jogo e redução de espaço e efectivo

numérico

298

Figura 7 - Bola de trapos utilizada por Pelé na infância

336

Figura 8 - Áreas sensoriais e Representação cortical somestésica

394

Figura 9 - Cortéx Cerebral 1

462

Figura 10 - Cortéx Cerebral 2

463

XII

Índices

Índice de Quadros

484

Quadro 2 – Princípios Fundamentais, Culturais e tipos de Princípios 488

Quadro 3 – Princípios de Jogo Específicos

Quadro 1 – Morfociclo Padrão

489

XIII

RESUMO

RESUMO

O Futebol é um fenómeno Humano único a nível mundial. Por este motivo influencia e é influenciado pelas diversas sociedades. Por conseguinte exerce desde idades muito precoces, um fascínio especial sobre os indivíduos, tornando pertinente a racionalização dos processos de Formação. Estes, se devidamente racionalizados, permitem que a prática precoce se revele favorável ao desenvolvimento de Talentos, que no Futebol, têm de revelar uma adaptabilidade especial, mas, cuja expressão qualitativa, é tanto mais possível, quanto mais precocemente se iniciar a prática de qualidade do Futebol. O presente estudo, articula informação proveniente de diferentes domínios, os quais nos permitiram responder aos seguintes objectivos: (1) evidenciar que o Futebol é um Fenómeno Social Total; (2) realçar a pertinência do conceito AntropoSocialTotal; (3) apresentar o Futebol como um fenómeno complexo; (4) evidenciar que o Futebol é aparentemente ContraNatura; (5) evidenciar como determinantes as práticas de infância dos Talentos; (6) sustentar essas práticas; (7) evidenciar que a racionalização do processo de Formação, torna exequível o Trinómio Mais Futebol, Mais Criança, Mais Educação; (8) evidenciar, que a prática precoce de qualidade é determinante; (9) inferir acerca dos efeitos da prática precoce sobre o Corpo; (10) sustentar a importância da prática precoce na alteração da funcionalidade Corporal; (11) explicitar que a Inteligência de Jogo, é uma Inteligência Corpórea adquirida por InCorporAcção; (12) evidenciar a importância da Aculturação ao fenómeno fazendo-se com base em referenciais de qualidade; (13) evidenciar a necessidade de uma lógica congruente, conceptual e metodologicamente, entre a realidade do Futebol de Formação e do Futebol dos adultos. Destacamos em termos de conclusões, que o parto de Jogadores e de Talentos (realidade Ecogenética), pode encontrar-se facilitado se nos processos de Formação tiverem subjacente uma Concepção Metodológica (Periodização Táctica/Periodização à La Long) e uma Cultura de Jogo (Modelo de Jogo) comum e congruente com a realidade sénior, respeitando coerentemente o Trinómio Modelo de Jogo, Modelo de Jogador, Modelo de Treino, desenvolvendo a Inteligência de Jogo, através da sua InCorporAcção. Palavras-Chave: CORPO; FENÓMENO ANTROPOSOCIALTOTAL; INCORPORACÇÃO; PERIODIZAÇÃO à LA LONG; PRECOCIDADE.

XV

ABSTRACT

ABSTRACT

In a world standard, Soccer is a unique Human phenomenon. By this reason, it persuades and is persuaded by divers societies. Consequently, it exerts since young ages, a special enchantment over individuals, rendering suitable the rationalization of the Forming process. These, if properly rationalized, permit that precocious practice will be favorable for the development of Talents, that in Soccer, have to reveal exceptional adaptability, but whose qualitative expression, is much more possible according to the sooner or more precociously the individual initiates soccer practice. The present study, articulates information coming from divers sphere’s, that permits us to answer the following matters: (1) to clearly show that soccer is a Total Social Phenomenon; (2) to emphasize the relevancy of the “TotalAnthropoSocial” concept; (3) present Soccer as a complex phenomenon; (4) highlight that soccer is totally counter-natural; (5) to clearly show as determinant the precocious practice of Talents; (6) to sustain those practices; (7) to obviously show that the rationalization of the Forming process, makes executable the Trinomial More Soccer, Better Child, Better Education; (8) clearly show that premature quality practice is determinant; (9) to infer about the effects on Body of precocious practice; (10) sustain the importance of premature practice in the modification of Corporal Functionality; (11) clarify that the Intelligence of Game, is a Corporal Intelligence acquired by “InCorpusAction”; (12) highlight the importance of Culture on this phenomenon basing itself on quality references; (13) showing the need of a consistent logic, conceptual and methodologically, between the reality of Soccer Forming and of Adult Soccer. As conclusive we affirm, that birth of Players and of Talents (“Ecogenetic” reality), can be easier if in the process of Forming they have as underlying Methodological Conception (Tactical Spacing/ À La Long Spacing) and a Game Culture (Game Model) common and consistent with Senior reality, coherently respecting the Trinomial Game Model, Player Model, Training Model, developing the intelligence of game through its InCorpusAction. Key-Words: BODY; TOTALANTHROPOSOCIAL PHENOMENON; INCORPUSACTION, À LA LONG SPACING; PRECOCIOUS.

XVII

RÉSUMÉ

RÉSUMÉ

Le Football c’est un phénomène humaine unique a niveau mondiale. Par ce motif, il influence et est influencié pour les divers societés. Par conséquent il exerce dés jeune âge, une fascination spécial sur les individus, ce qui en fait la rationalisation des procédures de Formation. Ceux-ci sont correctement rationalisés, permets les débuts sera propice au devéloppement de Talents, que dans le Football, doit montrer une capacité d’adaptation spécial, mais, dont le terme qualititif, est d’autant plus possible, plus tôt car il commence la pratique de qualité de Football. Cette étude, articule informations de différents domaines, que nous permettent de répondre aux objectifs suivantes : (1) montrer que le football est un phénomène social total ; (2) mettre en évidence la pertinence du concept « AnthropoSocialTotal » ; (3) présenter le Football comme un phénomène complexe ; (4) rendre évident que le Football est apparemment contre nature ; (5) montrer comme les pratiques de l’enfance sont déteminants de Talents ; (6) soutenir ces pratiques ; (7) montrer que la racionalisation des process de formation, rend possible le triangle Plus de Football, Plus d’Enfant, Plus d’Éducation ; (8) se mettre en avant, que la pratique prématuré de la qualité est essential ; (9) deduire sur les effets de la pratique precoce sur le corps ; (10) soutenir l’importance de la pratique precoce sur l’altération de la fonctionnalité corporel ; (11) préciser que l’intelligence de jeu, c’est une Intelligence Corporel acquisé par InCorporAction ; (12) mettre en évidence l’importance de l’Acculturation au phénomène et faire sur la base de critères de qualité; (13) se mettre en évidence la nécessité d’une logique cohérent, conceptuel et méthodologiquement, entre la realité de Formation de Football et de Football pour les Adultes. Mis en évidence en termes d’achèvement, que la naissance de joueurs ou de Talents (realité Ecogénétique), sera plus facilité si dans les process de formation se trouver sous-jacent une Conception Méthodologique (Périodisation Tactique/ Périodisation À La Long) et une Culture de Jeu (Modèle de Jeu) commun et cohérant avec la réalité sénior, toujours en respectant le Triangle Modèle de Jeu, Modèle de Joueur, Modèle d’Entraînement, a développé l’Intelligence de Jeu, par l’intermédiaire de sa InCorporAction. Mot-Clé : CORP ; PHÉNOMÈNE ANTHROPOSOCIALTOTAL ; INCORPORACTION, PÉRIODISATION À LA LONG ; PRÉCOCITÉ.

XIX

1

Introdução

estrutura):

(motivações,

actualidade,

Introdução

objectivos

e

“Valemo-nos do fado para desabafar mágoas, de Fátima para reverter as descrenças, do futebol para simular outro tamanho e atrair um olhar de apreço do mundo. E foi no futebol, diga-se em abono da verdade, que mais nos erguemos e abeiramos de nós mesmos. (…) O futebol e a sua organização e profissionalismo têm que ser repensados de alto a baixo, para tanto urge trazer de volta a matriz desportiva, até agora soterrada pelo negócio e a indústria.” (Bento, 2008, pp. 17).

A presente dissertação abordará diferentes temáticas relacionadas com o

Futebol com o intuito de responder a muitas das questões que este fenómeno complexo coloca. Recorreremos para tal, a diversos domínios do conhecimento, para que as aproximações a que possamos chegar se revelem pertinentes e profícuas, uma vez que, urge o despertar para um novo tipo de “ciência”, o qual deverá atender à multidisciplinaridade de saberes (Ribeiro & Caraça, 2005). É nossa pretensão evidenciar que a prática precoce de Futebol é determinante para a obtenção de níveis de desempenho de destaque, a nível do Rendimento Superior, se alicerçada numa determinada qualidade do processo de Formação o qual se estende por largos anos, carecendo assim de

uma devida racionalização. Procuraremos explicitar, os efeitos diversos, que tal precocidade poderá ter na funcionalidade do Corpo Humano, sendo este entendido, como uma entidade indivisa, pois como nos sugere Bento (2004), quando nos ocupamos do Corpo, estamos atentos ao “Homem-Todo”.

A nível pessoal, este trabalho reveste-se de enorme interesse, desde logo,

por se centrar numa temática, que ao longo dos últimos anos tem vindo a ser descoberta por nós, a qual pensamos, se devidamente equacionada poderá fornecer ensinamentos que permitam uma abordagem no terreno mais ajustada. Além da temática ser do nosso interesse e se constituir nos últimos tempos como uma descoberta, a realização desta dissertação tem subjacente, outros interesses pessoais. Nas últimas três épocas desportivas, o treino de

1

Introdução

jovens tem sido uma preocupação prática diária, desempenhando cargos de treinador em escalões de Formação de alguns clubes de Futebol, em que nos encontramos incumbidos do contacto com Crianças dos escalões de escolas e pré-escolas, o que confere uma responsabilidade acrescida, a qual nos é incumbida pelos pais, que nos procuram como um meio auxiliar à Formação dos respectivos filhos, alguns dos quais com idades inferiores a 5 anos, o que torna ainda mais pertinente esta pesquisa. Note-se contudo, que as motivações não são exclusivamente pessoais, uma vez que julgamos que esta dissertação poderá proporcionar várias respostas, pertinentes, relativamente à prática de Futebol nas Crianças. Ao longo desta dissertação procuraremos evidenciar que podemos adoptar para o Futebol o conceito de Fenómeno Social Total, proposto por Mauss (1979) e que tem vindo a ser adoptado para o Desporto em geral (A. d. S. Costa, 1992, 1993, 1997, 2004, 2006; Garcia, 1993; Murad, 2006). Procuraremos explicitar também, que sendo um Fenómeno Social Total, por se tratar de uma actividade Humana, e comportar toda a complexidade Antropológica, se torna pertinente a adopção para este conceito, no domínio do Futebol do prefixo “Antropo”. Havendo assim necessidade e imprescindibilidade de reconhecer no Futebol um Fenómeno AntropoSocialTotal (V. Frade, 1979). Um fenómeno que é contudo, em termos das bases anatómicas da Hominização, aparentemente ContraNatura, uma vez que, a funcionalidade dos pés, e do trem inferior, cuja preponderância é relevante numa actividade como o Futebol foram, preteridas em detrimento da funcionalidade e sensibilidade das mãos. Facto que comporta alguns condicionalismos (J. Leandro Massada,

2001).

Este autor salienta mesmo, que fruto do processo evolutivo, as mãos se constituíram como “dois cérebros”. Sendo nossa intenção ao longo da dissertação evidenciar, que tal como as mãos foram “cerebralizadas”, também outras partes do Corpo, que foram secundarizadas em termos evolutivos, como por exemplo os pés, poderão ser alvo de igual processo de “Cerebralização”, caso se observe uma estimulação precoce de qualidade. Encontrando-se tais especulações, fundamentadas com base nos relatos de algumas histórias de

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Introdução

Vida, de pessoas que apesar de nascerem com os membros superiores amputados, revelam com os pés uma funcionalidade semelhante àquela que culturalmente, foi sendo atribuída às mãos. Casos que evidenciam a enorme adaptabilidade e plasticidade que caracterizam os organismos vivos (Capra, 2005). Uma plasticidade que é tanto mais significativa, quanto mais precocemente os indivíduos são estimulados num determinado domínio (Buzan, 2003; Levitin, 2007; Simões, 2007). Além dos aspectos relacionados com os condicionalismos impostos, pela filogénese Humana, outro motivo que em nosso entender, torna a presente dissertação pertinente relaciona-se com o facto, de nos últimos anos devido a alterações profundas a nível social, o Futebol de Rua se ter eclipsado e parecer urgir a necessidade de recuperar o que o caracterizava (Cruyff, 2002; H. Fonseca, 2006; Lobo, 2002, 2007; Michels, 2001; Pacheco, 2001; Ramos, 2003; Tamarit, 2007; Valdano, 2002). Importando a este respeito considerar por outro lado, o proliferar das Escolas de Futebol, que vendo na sociedade algumas lacunas, se tentam emancipar. Não podemos ignorar ainda, que a Vida das Crianças é cada vez mais atarefada não lhes sendo proporcionado tempo para brincar e desenvolver a criatividade. Esta pressa, que afecta a sociedade em geral, tem levado a que as Crianças se tornem ainda em idades muito precoces em adultos, com tudo o que isso tem de negativo, como evidenciam estudos recentes (Ginsburg, 2007). Entendemos que o facto de na nossa sociedade se verificar um modismo, que leva os pais a colocarem os jovens em Escolas de Futebol, caso os processos que nestas se desenvolvem sejam de qualidade, poderá revelar-se uma tendência bastante proveitosa para o Futebol. Aquilo a que nos referimos é, ao crescente interesse evidenciado pelos pais, na participação dos filhos, em actividades desenvolvidas pelas Escolas de Futebol. As Escolas de Futebol assumem-se deste modo, para os pais como um lugar de destaque para a Formação, que não exclusivamente desportiva, dos seus educandos. E de facto estamos em crer, que o Futebol, pelo seu potencial formativo (J. Bento, 2004) se pode assumir como um complemento muito positivo na Formação de qualquer Criança. Ou seja, entendemos que a prática precoce de Futebol, tendo subjacente um processo

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Introdução

de qualidade permite o cumprimento da tríade, Mais Futebol, Mais Criança, Mais Educação. Conscientes de tais valências, e também das necessidades sentidas pelos pais, os responsáveis pelas Escolas de Futebol tentam suprir algumas das limitações apresentadas pela sociedade, o que leva estas instituições, ainda que na generalidade dos casos por interesses comerciais, e não tanto por razões metodológicas, a acolherem jovens em idades cada vez mais precoces. Observando-se uma prática formal no Futebol, cada vez mais precoce (Pacheco, 2001). O que poderá ser bastante profícuo para o assegurar da exponenciação de jovens Talentos (Côte et al., 2003; Ericsson, 1996; J. L. Starkes, Deakin, Allard, Hodges, & Hayes, 1996). O facto de começar cedo a prática do Futebol, se poder revelar como determinante, leva-nos a considerar que a questão que devemos colocar quando abordamos a problemática da Formação não é, quando começar, mas sim como começar? Parece-nos evidente, que neste momento as Ciências do Desporto estão a registar aquilo a que Capra (2005) designou de “ponto de mutação”, ou recorrendo à designação de Kuhn, T. (1962, cit. por Capra, 1996) verifica-se uma “mudança de paradigma”, que tem sido reivindicada por diversos autores (J. Bento, 2004; V. Frade, 1979, 1989; V. M. d. C. Frade, 1976, 1990; Sobral, 1995; Tani, 2002). J. Bento (2004, pp. 53) afirma mesmo, “que as Ciências do Desporto têm pela frente uma larga panóplia de perspectivas de crescimento e desenvolvimento. Para tanto devem ajustar-se às alterações ocorridas na paisagem desportiva e atender à sua pluralidade.” Face a esta necessidade que urge, no sentido de um mais rico elucidar da complexidade inerente ao Fenómeno Desportivo e de forma mais particular, ao Fenómeno Futebol, ao longo desta dissertação procuraremos, enveredar por uma abordagem sistémica a qual se justifica para o fenómeno em questão (Carvalhal, 2002; Castelo, 1998; V. Frade, 1979, 1989; V. M. d. C. Frade, 1976, 1990; Garganta, 1997; Garganta & Silva, 2000; J. G. Oliveira, 2004; Teodorescu, 1984). O que nos levará a socorrer de conhecimentos

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Introdução

provenientes de diversas áreas, que têm sido um pouco ignoradas, devido ao peso das disciplinas mais convencionais, como a Biomecânica e a Fisiologia, que têm ao longo da história da Metodologia do Treino, assumido um lugar de destaque nas investigações do âmbito desportivo (Tani, 2002). É deste modo nossa pretensão, fazer com que este trabalho vá de encontro às necessidades das novas abordagens em complexidade e da necessidade de criar nas Ciências do Desporto uma nova forma de abordar as suas problemáticas, ou seja, uma “scienza nuova” (Morin, 2003), na qual a multidisciplinaridade assume um lugar de destaque. Uma nova forma de fazer Ciência, que não nega a especificidade de cada área do conhecimento, contudo não refuta ou abdica da necessidade de se munir de conhecimentos, que se revelam válidos para os seus interesses. As Ciências do Desporto, têm de acompanhar a nova vaga que emerge na Ciência actual e que procura ultrapassar os

condicionalismos da “excessiva especialização”, que levou diferentes domínios

de investigação, a fecharem-se e a ficarem tolhidos pelos respectivos bloqueios

epistemológicos, que as levaram a desligarem-se, erradamente, de tudo o que

as rodeia e das informações provenientes de outras Ciências. “Ora, quando a

excessiva especialização parecia ter retirado unidade à ciência e à actividade científica, eis que começa a verificar-se um movimento paralelo de reencontro

e cruzamento de disciplinas que, de tão focadas nas especificidades,

começaram a precisar de outros olhares que as complementassem. Sem prescindir de forma alguma da especificidade, a interdisciplinaridade é hoje uma realidade nos grandes centros de investigação.” (Pombo & Mendonça, 2008, pp. 30). Urge também no Futebol, a necessidade de recorrer a “práticas de importação” (Pombo & Mendonça, 2008), sendo para tal determinante, adaptar à nossa realidade, o lema postulado por Abel Salazar, adoptado e adaptado por V. Frade (1985) para o Futebol, e que sugere, que “quem só sabe de Futebol, nem de Futebol sabe”. Apesar de uma tendência recente, a reflexão acerca das orientações vanguardistas da Ciência, e o consequente cruzamento sistémico de saberes provenientes de diversos domínios do conhecimento, como a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Física, a Química e a Biologia, tem desencadeado efeitos muito benéficos, “fenómenos

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Introdução

espantosos (…) na senda dessa fascinante e maravilhosa aventura que é a procura do Conhecimento.” (Pombo & Mendonça, 2008, pp. 30). Esta necessidade juntamente com o facto, do modo como entendemos o Futebol, requisitar uma relação estreita com os processos cognitivos, aproximando assim as Neurociências do Futebol (Tamarit, 2007) impeliu a necessidade de efectuar o devido transfere dos conhecimentos recentes, provenientes desta área para a nossa realidade, o Futebol. Uma abordagem, que como procuraremos evidenciar, fundamenta muitas das práticas que a generalidade dos Talentos do Futebol realizavam enquanto Crianças, e que se revelaram determinantes para o alcance de níveis de excelência. Reforçando deste modo, a necessidade de uma maior aproximação entre o empirismo e as ciências cognitivas (Berthoz & Petitt, 2006). Importa realçar que sendo as Neurociências, uma área ainda relativamente recente, são poucas ainda as aplicações que têm sido efectuadas no âmbito do Futebol (C. Campos, 2007; Freitas, 2004; Gaiteiro, 2006; M. Silva, 2008; B. Oliveira et al., 2006). Note-se contudo, que sendo ainda poucas, as existentes revelam não somente um entendimento transgressor do fenómeno (B. Oliveira et al., 2006), mas também uma qualidade e aplicabilidade que consideramos de extrema relevância para o treino de Futebol, tanto ao nível da Formação como enquanto seniores. Não obstante, notamos existir ainda muito espaço para a aplicação dos conhecimentos provenientes das Neurociências no âmbito do Desporto e de modo especial no Futebol, se considerarmos problemáticas como por exemplo a plasticidade, e outros fenómenos que implicam a interacção altamente complexa entre corpo - cérebro – mente, e que ajudam a edificar e melhor compreender o Corpo que Joga. O facto de se tratar por isso mesmo de uma abordagem, a determinados níveis inovadora, reveste-se de aspectos positivos, mas também de aspectos negativos. Estamos por isso em crer, que apesar de se tratar de um desafio ambicioso, dele resultam em nosso entendimento informações muito pertinentes, que esperemos, possam contribuir para um Futebol melhor. É nossa intenção com a realização desta dissertação, construir um Corpus de conhecimento, que nos permita inferir de forma sustentada, acerca de muito

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Introdução

daquilo que se considera especulativo no domínio das ciências. “O que é especulativo hoje pode bem ser senso comum amanhã!” (Goertzel, 2004, pp. 241). Tornando-se pertinente para a presente dissertação o estabelecimento dos seguintes objectivos:

Evidenciar que o Futebol é um Fenómeno Social Total;

Realçar a pertinência para o Futebol da adopção do prefixo

Antropo, como extensão do conceito Fenómeno Social Total;

Apresentar o Futebol como um fenómeno complexo, que carece de uma abordagem sistémica;

Evidenciar que a funcionalidade implicada no Futebol é,

aparentemente ContraNatura, ou melhor dizendo Ao Lado da Natura;

Evidenciar que as práticas de infância dos Talentos no Futebol

foram determinantes para os níveis de desempenho alcançados;

Sustentar cientificamente as práticas de infância dos Talentos;

Evidenciar que a racionalização qualitativa do processo de

Formação, torna exequível o Trinómio Mais Futebol, Mais Criança, Mais

Educação;

Tornar evidente, a suspeição de que a prática precoce de Futebol,

alicerçada num processo de Formação de qualidade, Periodização à La Long, é determinante para a exponenciação de Talentos;

Inferir de forma fundamentada, acerca dos efeitos da prática

precoce, ao nível das alterações da representatividade cerebral, e do reverter

dos condicionalismos impostos pela filogénese Humana;

Sustentar a importância da necessidade de prática precoce de

Futebol ao nível da alteração da funcionalidade Corporal e das relações corpo

– cérebro – mente;

Explicitar que a Inteligência de Jogo, é uma Inteligência Corpórea cuja aquisição se repercute na sua InCorporAcção;

Evidenciar a importância da Aculturação precoce ao fenómeno se

fazer pelo contacto com referenciais e processos de qualidade;

Evidenciar que o parto de jogares e de Talentos que respeitem a

pluralidade do Jogo, pode fazer-se a partir de Úteros Artificiais, desde que o

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Introdução

processo tenha subjacente uma Concepção Metodológica comum e congruente com a realidade sénior, Periodização Táctica (Periodização à La Long), respeitando o Trinómio Modelo de Jogo, Modelo de Jogador, Modelo de Treino. Quanto à estrutura, o presente estudo será estruturado em dez pontos. No primeiro a “Introdução”, pretende apresentar o estudo, as motivações implícitas na sua realização, justificar a pertinência do tema e da abordagem a encetar, e ainda apresentar os objectivos desta dissertação. No segundo ponto denominado “Abordagem Etnometodológica um Imperativo para o decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal”, justificaremos os motivos para a elaboração do presente estudo não seguindo as metodologias de investigação convencionais. O terceiro ponto “Futebol um universo de Relações”, pretende explicitar que o Futebol é um Fenómeno Social Total, que como tal estabelece múltiplas relações, benéficas ou não com a realidade envolvente, influenciando-se estas mutuamente. O que como procuraremos explicitar, se repercute de forma muito significativa na iniciação da prática de Futebol nas Crianças. No quarto ponto cujo título é, “Futebol um Fenómeno AntropoSocialTotal”, evidenciamos que a aplicação do prefixo Antropo, se reveste de grande pertinência, para o elevar do Futebol à sua verdadeira dimensão e complexidade. O quinto ponto, “O Aparente Paradoxo, um Fenómeno AntropoSocialTotal que é simultaneamente um Fenómeno aparentemente ContraNatura” procura evidenciar que o Futebol em termos de Hominização se revela uma actividade que comporta alguns condicionalismos a nível anatómico, que contudo podem ser revertidos, daí que o apresentemos neste ponto, como um fenómeno Ao Lado da Natura. No sexto ponto, denominado “Em busca da Exequibilidade do Trinómio Mais Futebol, Mais Criança, Mais Educação”, evidenciaremos que processos de Formação de qualidade, podem não somente fomentar a exponenciação de Talento no Futebol, como também a edificação de pessoas Humanas. Neste ponto procura-se ainda evidenciar que muitas das práticas de infância dos Talentos confirmados do Futebol, foram determinantes para o nível por eles

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Introdução

atingido. Sendo ainda nossa intenção identificar essas actividades, para as sustentar cientificamente e sugerir a sua recriação nos processos de Formação. No sétimo ponto, “O Futebol como a Coca-cola, «primeiro estranha-se depois entranha-se»! A Importância da InCorporAcção Precoce do Jogo na Exponenciação de Talentos”, salientaremos a necessidade do Talento ser entendido como uma construção e exponenciação Ecogenética, e ainda que a prática precoce do Futebol, alicerçada numa determinada qualidade, se revela determinante e repercute no Corpo, verificando-se a InCorporAcção da Inteligência de Jogo. Um saber Corpóreo que sugerimos ser simultaneamente específico e Específico. No oitavo ponto serão apresentadas as evidências conclusivas do presente estudo, e um acresento de última hora às mesmas, no qual se apresentam algumas referências, que permitem dar Vida a um jogar de qualidade. No nono ponto, far-se-á a indexação da totalidade das referências bibliográficas mencionada ao longo da dissertação. No décimo primeiro ponto “Anexos”, podem ser consultadas as transcrições integrais das entrevistas gravadas através de gravador áudio Olympus VN- 240PC, tendo estas sido posteriormente revistas pelos respectivos entrevistados, servindo de complemento ao que será abordado ao longo deste estudo. Encontrando-se indexadas por ordem cronológica de realização. Neste ponto, encontram-se também outras fontes que pela pertinência das temáticas que afloram, entendemos justificar-se a possibilidade da sua contemplação integral.

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Abordagem Etnometodológica um Imperativo para o decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal

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-

Abordagem

Etnometodológica

um

Imperativo

para

o

decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal

“Les recherches en ethnométhodologie visent à décrire les activités naturellement organisées de la vie quotidienne.” (Garfinkel, 2001a, pp. 439).

Importa antes de tudo, ter em consideração os três pontos prévios que seguidamente se apresentam:

“O primeiro problema a enfrentar, refere-se Á NATUREZA DO OBJECTO-EMPÍRICO deste jogo desportivo colectivo, e o segundo, Á MANEIRA DE ESTUDÁ-LA. Ambas são questões epistemológicas.” (V. M. d. C. Frade, 1990, pp. 3). “Acho que a análise de conteúdo é muitas vezes uma falácia das ciências moles, ou uma insuficiência das ciências moles, perante o determinismo das ciências duras. E portanto, há situações, em que a análise de conteúdo não funciona de todo.” (Paulo Cunha e Silva, Anexo 4). “Na filosofia budista, existe o princípio de que o meio utilizado para testar uma proposta específica deve estar de acordo com a natureza do assunto em estudo.” (Dalai–Lama, 2006, pp. 34). Face a estas premissas, nas quais nos revemos, tornou-se um imperativo o recurso a uma concepção metodológica, que conseguisse atender à “natureza do assunto em estudo”, sem incorrer, na “falácia das ciências moles”, tendo sido a alternativa por nós encontrada, na adopção da Etnometodologia. O conceito Etnometodologia refere-se à investigação das propriedades racionais das expressões contextuais e de outras acções práticas como os esforços contínuos e contingentes das práticas engenhosamente organizadas da Vida quotidiana (Garfinkel, 2006), sendo uma área que procura descrever as actividades naturalmente organizadas da Vida quotidiana (Garfinkel, 2001a). Os estudos neste âmbito demarcam-se das abordagens da Sociologia corrente, imprimindo a esta área de investigação uma orientação fenomenológica (Watson, 2001). Uma concepção fenomenológica que requisita uma intercrítica de conhecimentos que permita a reconciliação das Ciências Humanas e

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Abordagem Etnometodológica um Imperativo para o decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal

Sociais com as Neurociências, realidades que têm permanecido desconexas, e ainda a aproximação entre a Filosofia e o empirismo (Berthoz & Petit, 2006). Adopta, assim uma posição radicalmente nova e contra-corrente, relativamente à Sociologia Clássica por se centrar na capacidade dos indivíduos se apoiarem no senso comum, para agir, dar conta da sua acção e para perceber como a Vida social se traduz nas nossas práticas (Molénat, 2008) A Etnometodologia assume-se deste modo, como uma transgressão em relação ao que convencionalmente se faz em Sociologia. Por este motivo, Ogien (2001) salienta, que em torno da compreensão do projecto etnometodológico, se levanta há muito tempo, a questão, se a Etnometodologia é, ou não uma área do domínio da Sociologia. Este autor, sugere e apresenta-a como sendo “L’autre sociologie”. Trata-se deste modo, de uma abordagem “marginal” (M. Silva, 2008) enquadrada no âmbito da investigação qualitativa, que contrariamente à análise formal, não se limita a interrogar sobre o que acontece, mas também o que lhe está subjacente, ou seja, o que despoleta e motiva tais acontecimentos. Procura assim, ir mais além, isto é, propõem e elabora “quelque chose de plus”, qualquer coisa mais, que as investigações conduzidas pelos procedimentos de análise formais, não fornecem nem podem fornecer (Garfinkel, 2001b, pp. 32). Por este motivo, depois de desde a sua origem acerca de quarenta anos, ter sido marginalizada, e considerada como uma “secte”, ou seja, uma seita dentro das Ciências Sociais, é agora tempo da discussão em torno desta abordagem começar, e lhe ser reconhecida a devida relevância (Molénat, 2008). Os estudos no âmbito da Etnometodologia tomam as actividades e circunstâncias práticas e o racionamento sociológico prático como objectos empíricos, prestando atenção ás actividades mais comuns de modo semelhante àquela que geralmente se presta a eventos extraordinários, procurando apreendê-las como fenómenos por direito próprio, especificando as características “problemáticas” e recomendar métodos para o estudo destes, e sobretudo, considerar os aspectos mais relevantes a apreender de cada fenómeno (Garfinkel, 2006). Deste modo, concebe os fenómenos tendo em

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Abordagem Etnometodológica um Imperativo para o decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal

consideração, o modo como se manifestam num contexto singular, caracterizado por um conjunto de detalhes que lhe conferem sentido prático (Watson, 2001). A este respeito, importa desde já salientar que o processo de construção e exponenciação, de Talentos e de jogares, tem lugar em contextos singulares, o que por conseguinte lhes confere sentido prático. Conforme esclarece M. Silva (2008), a Etnometodologia visa reconhecer e descrever os procedimentos contextualizados nos seus locais de concretização, assim como a sua actualização prática. Debruçando-se assim, sobre o carácter prático dos fenómenos sociais (Fornel, Ogien, & Quéré, 2001), o que numa abordagem como a presente se revela altamente pertinente. Devemos ainda ter em consideração, que “uma atitude fundamental adoptada (…) pela ciência consiste no empenhamento em prosseguir a busca da realidade através de meios empíricos e na disposição de rejeitar posições aceites ou conservadas ao longo dos tempos se o nosso estudo verificar que a verdade é diferente.” (Dalai-Lama, 2006, pp.31/32). Facto que reforça a necessidade do recurso à Etnometodologia, a qual enfatiza o empirismo e as questões que emergem de uma realidade concreta (Fornel, Ogien, & Quéré, 2001). Deixa deste modo, de se nortear exclusivamente por preocupações teóricas, mas também pela prática do desenvolvimento dos fenómenos, como o jogo (M. Silva, 2008). “O método, tal como eu o entendo, parte da observação de certos fenómenos no mundo material, conduz a uma generalização teórica que prediz os acontecimentos e os resultados que se produzem se tratarmos os fenómenos de um modo particular, e depois testa a predição com uma experiência. O resultado é aceite como parte do corpo do conhecimento científico mais amplo se a experiência for correctamente conduzida e puder ser reproduzida. Contudo, se a experiência contradisser a teoria, então é a teoria que precisa de ser adaptada, dado que a observação empírica dos fenómenos tem primazia.” (Dalai–Lama, 2006, pp. 30). De acordo com Watson (2001) a Etnometodologia pretende assumir-se como uma abordagem empírica, consciente da realidade que envolve, cada um dos fenómenos a considerar, com o objectivo de responder a questões de ordem

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Abordagem Etnometodológica um Imperativo para o decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal

lógica e de sentido do contexto. Para Ogien (2008) a Etnometodologia não é simplesmente uma corrente de análise que procura desenvolver uma Sociologia convencional, sendo pelo contrário uma outra forma de encarar a investigação social, capaz de incorrer segundo o mesmo autor, no risco de denunciar que nenhuma teoria se encontra em condições de prever o que somente a observação das práticas nos pode ensinar. “Assim, procura nas condições concretas onde acontece a acção, a sua validade prática ou seja, analisa e reflecte as decisões práticas no seu contexto e portanto, em função dos detalhes imediatos que as produzem.” (M. Silva, 2008, pp. 54). “…tudo o que tem existência e identidade, só o tem dentro da rede total de tudo com que possa estar relacionado, ou potencialmente relacionado. Não existe nenhum fenómeno com uma identidade independente ou intrínseca. E o mundo é feito de uma rede de inter-relações complexas. Não podemos falar da realidade de uma entidade discreta fora do contexto da sua esfera de inter-relações com o seu meio e outros fenómenos” (Dalai–Lama, 2006, pp. 64). Fundamentando-se deste modo, o recurso à Etnometodologia para explicar um Fenómeno AntropoSocialTotal como o Futebol. Este tipo de abordagem procura apreender e demonstrar as propriedades ordenadas das explicações fornecidas pelos indivíduos, acerca dos fenómenos em questão, entendendo tais propriedades como expressões e relatos contextuais (Garfinkel, 2006). Por este motivo, como forma de enriquecer a abordagem efectuada no presente estudo, consideramos pertinente munirmo- nos de relatos provenientes de diferentes âmbitos e de diferentes intervenientes no fenómeno. Com esta abordagem, procuramos não incorrer no materialismo e cepticismos científicos, segundo os quais apenas fontes que apresentam cunho científico são pertinentes para o conhecimento da realidade (Dalai-Lama, 2006). Para tal recorremos a fontes muito diversas, desde o recurso a DVD’s e gravações de programas televisivos ou biografias relativas a temáticas que consideramos pertinentes para a abordagem em questão, uma extensa bibliografia composta por livros de diferentes temáticas, artigos ditos científicos ou não, provenientes de fontes muito diversas, entrevistas publicadas na imprensa, e algumas não editadas e ainda comunicações

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efectuadas por diferentes autores. Tendo sido a informação providenciada por estes recursos, complementada por um conjunto de cinco entrevistas abertas, realizadas propositadamente para esta dissertação. Importa salientar, que os cinco entrevistados constavam de um leque inicial de dez possíveis e desejáveis, tendo sido condição imposta, pelo orientador desta dissertação a realização de pelo menos cinco entrevistas a “Cientistas”. O critério adoptado para a selecção dos entrevistados relaciona-se com os motivos abaixo mencionados:

Manuel Sobrinho Simões: é reconhecidamente um dos mais consagrados Cientistas portugueses, exercendo o cargo de Director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), uma das entidades científicas mais consagradas radicadas no nosso país. Além disso, tem proferido conferências em áreas de interesse para a temática desta dissertação, nomeadamente as áreas dos Talentos, da Epigenética e da Ecogenética. Leandro Massada: trata-se de um reputado Cientista no âmbito do Desporto, tendo se especializado em Medicina Desportiva, e Doutorado em Biologia do Desporto, exerce funções de Professor auxiliar na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, tendo além de todas estas valências, centrado muita da sua investigação, em torno da problemática do bipedismo, e as alterações anatómicas decorrentes do processo de Hominização, editando já livros em torno desta temática; “O Bipedismo no Homo Sapiens”. Não devendo ainda ignorar-se, que se trata de uma pessoa que ao longo de largos anos, tem contactado de perto com a realidade do fenómeno desportivo, desempenhando papéis muito diversificados, o que lhe permite ter uma percepção do fenómeno muito particular. Luísa Estriga: tem vindo a preocupar-se, no âmbito da realização da sua tese de Doutoramento, com a problemática da prevenção de lesões, procurando saber as relações entre a ocorrência de lesões e a Especificidade do processo. Colocando, à semelhança dos grandes investigadores da área, como refere, a tónica da prevenção de lesões no desenvolvimento da proprioceptividade desde idades precoces, através dessa Especificidade. De

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notar ainda, que tem ao longo da sua vida profissional vindo a dedicar-se ao processo de EnsinoAprendizagem de uma modalidade colectiva, o Andebol, tanto na realidade escolar como nos clubes, tendo contactado com alguns dos maiores Talentos femininos desta modalidade. Paulo Cunha e Silva: pelas diversas valências científicas que revela, Mestre em Medicina Desportiva, Doutorado em Ciências do Desporto, Professor da Faculdade de Deporto da Universidade do Porto, tem centrado a sua investigação na problemática do Corpo, personificando assim o carácter multidisciplinar que procuramos conferir ao presente estudo, sendo deste modo um elemento fundamental, numa dissertação que se preza de ser multidisciplinar. Sendo ainda os seus relatos pertinentes, por ser um Cientista que revela uma familiarização inequívoca com as problemáticas mais em voga da Ciência, e uma posição e um tipo de conhecimento rejuvenescido não desfasado com a realidade contemporânea, o que lhe permite ter uma visão sistémica e complexa da realidade. Importa também salientar, que o seu contributo se justifica ainda pela abordagem em torno da problemática do Corpo, como foi referido, uma temática basilar nesta dissertação. Marisa Gomes: Licenciada em Ciências do Desporto pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, foi durante quatro épocas coordenadora da Escola do Dragão do Futebol Clube do Porto, encontrando-se actualmente a desempenhar o cargo de treinadora no escalão de sub-13 do Futebol Clube do Porto, pode considerar-se, do conjunto dos nossos entrevistados, a “Cientista do Terreno” que procura, fundamentar a sua praxis num corpus de conhecimentos teóricos, em constante actualização e evolução, motivo pelo qual se encontra a frequentar uma (mais) Licenciatura em Neurofisiologia, o que por si só poderia justificar a pertinência dos seus relatos. Mas além destes motivos, o seu contributo justifica-se, não somente pela temática abordada na sua Tese de Monografia, recentemente convertida em livro; “O desenvolvimento do jogar segundo a Periodização Táctica”, como também, por se encontrar actualmente envolvida num processo de Formação, que sabemos ser balizado por muito do que sugerimos no presente estudo, e por lidar com escalões etários mais baixos, tornando deste modo o seu contributo muitíssimo

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Abordagem Etnometodológica um Imperativo para o decifrar de um Fenómeno AntropoSocialTotal

pertinente, para fazer a ponte entre a teoria e a prática, uma preocupação constante nesta dissertação.

O estudo etnometodológico, evita os métodos de análise formal para responder às questões de ordem lógica e de sentido do contexto, que os fenómenos sociais colocam (Watson, 2001). Assim, e face às insuficiências que apresentam as metodologias que recorrem à análise de conteúdo (Paulo Cunha e Silva, Anexo 4), o tratamento das entrevistas não seguirá uma metodologia convencional, mas sim uma interpretação e utilização dos relatos, que tem por base a Etnometodologia, um tipo de pesquisa que “põe em causa

o papel da teoria e das hipóteses e o carácter geral das interpretações utilizado pelas ciências sociais.” (M. Silva, 2008, pp. 53). A Etnometodologia, permite realçar o fluxo existente entre os fenómenos sociais e tudo o que os envolve (Garfinkel, 2006), motivo pelo qual consideramos pertinente, o não estabelecimento de categorias de análise para o tratamento do conteúdo das entrevistas efectuadas. Sabemos que o entendimento do processo de categorização convencional, o qual remonta a Aristóteles se tem revelado como um dos grandes problemas que continua a contaminar a Ciência

empírica, por se encontrar desfasado da realidade e envolto em artificialismos,

o que quebra o fluxo que caracteriza os fenómenos (Levitin, 2007), e não se

coaduna com os intentos de uma abordagem etnometodológica. Por este motivo, e com o intuito de atender à inteireza do fenómeno em questão, o Futebol, optamos por utilizar os relatos dos nossos entrevistados, interconectando-os com os dados recolhidos para a realização da presente pesquisa, provenientes de outras fontes, e que conjuntamente nos permitem ao longo da dissertação inferir acerca da aplicabilidade ou não, de tais informações, para a problemática em estudo. Sendo que “este tipo de conhecimento (inferencial) (…) reflecte uma actividade básica da mente humana que usamos com naturalidade no nosso dia-a-dia” (Dalai-Lama, 2006, pp. 37). O que para a abordagem de um fenómeno AntropoSocialTotal nos parece de especial relevância.

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Futebol um universo de Relações

3- Futebol um universo de Relações:

3.1- Desporto um Fenómeno Social Total:

“Todos os fenómenos se apoderam do Homem ou o Homem se dá inteiramente bem com todos os fenómenos, não existe separação nenhuma entre o Homem e todos os fenómenos.” (A. d. Silva, 2002, pp. 34).

O facto do Futebol, se constituir como temática desta pesquisa, que se propõem multidisciplinar, assim como de muitas outras, evidencia por si só, mas não somente por esse motivo, a relevância que este Fenómeno, que é um epifenómeno 1 , assume nas sociedades actuais. “O desporto e as suas práticas, enquanto fenómeno social e objecto de investigação, são matéria de crescente complexidade requisitando diversos saberes disciplinares para a respectiva interpretação” (Constantino 2007, pp.

57).

Trata-se de um epifenómeno, visto que não sendo fundamental para a existência Humana, funciona como um complemento que lhe é fundamental, como mais adiante tentaremos evidenciar. Para compreender, a dimensão que o Futebol atingiu desde que foi criado, importa ter consciência que, este se engloba num fenómeno mais macro, o Desporto. Inegavelmente um fenómeno muito particular, cujo impacto é, também por isso muito significativo na sociedade. Segundo A. Marques (1993) o Desporto tem a particularidade de não deixar ninguém indiferente. De facto o fenómeno desportivo, aglutinou a atenção das diferentes sociedades, daí que Moura, (2007, pp. 6) afirme que; “o sucesso do Desporto e de todos os seus sucedâneos fazem desta actividade um dos sectores sociais preponderantes no século XXI”. Opinião partilhada por Lopes (2007), segundo o qual, este fenómeno se transformou nos tempos hodiernos num Fenómeno sociocultural incontornável.

1 Epifenómeno: fenómeno secundário e acessório que acompanha outro reputado primário e acidental (DiciopédiaX, 2006).

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O facto do Desporto ter conseguido adquirir, tal estatuto nas sociedades actuais, pode considerar-se uma inevitabilidade decorrente do facto de se tratar de uma actividade Humana. “Todos os fenómenos se apoderam do Homem ou o Homem se dá inteiramente bem com todos os fenómenos, não existe separação nenhuma entre o Homem e todos os fenómenos” (A. d. Silva, 2002, pp. 34). Parece-nos pertinente advertir para tal inevitabilidade, sem contudo, de momento nos pronunciarmos muito aprofundadamente sobre o facto do Desporto ser uma actividade Humana. Por conseguinte, aquilo que importa reter neste ponto é, o aumento da relevância que este Fenómeno tem adquirido. Facto que é evidenciado por Elias & Dunning (1992) como uma das características das sociedades actuais. O facto do Desporto exercer sobre a sociedade um impacto enorme, levou a que A. d. S. Costa (1992) adoptasse, para o fenómeno Desportivo o conceito de Facto Social Total, proposto por Mauss (1979). Este conceito é aplicável segundo o seu mentor, ao conjunto de fenómenos complexos, pelos quais as instituições se exprimem e o todo social pode ser observado. Segundo este autor, através destes Factos Sociais Totais, podemos observar o funcionamento dos traços ou dos vestígios das instâncias fundamentais que compõem as sociedades, apresentando um total de seis; familiar, educativa, política, económica, religiosa e recreativa. Consideramos, que até mesmo os menos familiarizados com o fenómeno desportivo, são capazes de com relativa facilidade, reconhecer o funcionamento das diferentes instâncias apresentadas por Mauss (1979), no Desporto, motivo pelo qual comungamos com o que sugerem alguns autores (A. d. S. Costa, 1992, 1993, 1997, 2004, 2006; Garcia, 1993; Murad, 2006), quando aplicam o conceito, Fenómeno Social Total, ao fenómeno desportivo. São igualmente vários os autores, que comungam da ideia, de que o Desporto é capaz de reproduzir uma imagem fidedigna da sociedade em que é praticado, e que na sua compreensão reside a chave do conhecimento da sociedade (A. d. S. Costa, 1992, 1993, 1997, 2004, 2006 Elias, Dunning, & Fayard, 1994).

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Em conformidade com os autores anteriores, encontra-se, Gritti (1975, pp. 6), que de forma inequívoca afirma que, “é absolutamente evidente que o desporto se apresenta como um espelho – exacto ou deformante – das sociedades contemporâneas”, sugerindo ainda, que “a literatura desportiva tem todas as possibilidades de manifestar o funcionamento deste espelho”, em parte, aquilo que procuramos com esta parte da dissertação é, precisamente tornar menos «baço», o nosso espelho, e com isso perceber um pouco melhor e mais aprofundadamente, realidades altamente complexas, e em conexão, como são a Sociedade e o Desporto, e de modo particular o Futebol. Partindo do pressuposto apresentado anteriormente, pelos autores citados, e com o intuito de compreender, a sociedade actual e o Desporto que nela se faz, importa citar Constantino (2007, pp. 62) quando sugere que, “o desporto é o reflexo de uma sociedade onde o rendimento, o avanço científico e tecnológico, o desenvolvimento económico, conflituam muitas vezes com a visão prometeica do progresso e do bem-estar social. O desporto contém as contradições inerentes a outras práticas sociais e à sociedade, o desporto não é uma realidade transhistórica ou transcultural.” Encontramo-nos de acordo com a citação, no entanto, julgamos ser fundamental realçar, e ter em consideração, que o Desporto e o modo como se expressa em cada sociedade, não deve ser entendido de forma isolada, uma vez que se trata de um fenómeno situado no tempo e no espaço. Como adverte V. Frade (1998), relativamente ao Futebol, mas que entendemos ser extensível ao Desporto em geral. Pelo facto de não se tratarem de fenómenos naturais, estes têm não somente uma Geografia mas também uma História, que importa considerar. Constantino (2007) acrescenta ainda, que o Desporto moderno emergiu, como representação simbólica dos ideais utópicos da sociedade industrial. Opinião corroborada por Bento (2007, pp. 20) o qual refere, relativamente às origens do chamado “desporto moderno”, que este resultou, da “emanação e expressão fidedignas dos princípios da sociedade industrial.” Constantino (2007) adverte que o Desporto, apesar de não se constituir como um fenómeno em si mesmo, tem potencialidades para preencher múltiplas funções e para assumir uma grande pluralidade de significados sociais,

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destacando a este respeito, o impacto que este fenómeno assume ao nível da integração e coesão social, aspectos que nos parecem cada vez mais relevantes, nas sociedades actuais, tendencialmente multiculturais e que se

encontram simultaneamente fragmentadas no plano económico, social e étnico. Por tudo o que foi salientado, “o desporto não é um tema menor, com pouco ou nenhum valor para abordagens literárias e culturais. É um caleidoscópio da diversidade de problemas e traumas da vida e do homem, das suas fraquezas

e contradições. Pela sua janela entra e contempla-se o mundo todo.” (J. O. Bento, 2004, pp. 200).

3.2- Futebol, um «epifenómeno» que é um Fenómeno Social Mais Total:

“ «Você só pensa em futebol. Vai ver que já nem se lembra do dia do nosso casamento», diz a esposa. - «Claro que me lembro, meu amor. Véspera de um Santos – Corinthians. Jogaço, ganhou o Santos, 4-1», responde o marido apaixonado”. (Betty Mary in “O país e a bola”, s.d. cit. por Lobo, 2007, pp. 90).

Depois de termos evidenciado que o Desporto é um fenómeno peculiar no seio das nossas sociedades, torna-se mais fácil compreender o fascínio que suscita, ao ponto de não deixar “ninguém indiferente” (A. Marques, 1993) e de se constituir como um “idioma global” (Kitchin, L., s. d. cit. por Garganta, Oliveira, & Murad, 2004). Como realça Sobrinho Simões (Anexo 1) reportando-se ao Futebol refere que

o viu “sempre de uma forma muito mais global do que a de qualquer outro

desporto”, acrescentando tratar-se de forma indiscutível, a modalidade que em termos mundiais, melhor concilia a dimensão desportiva com aspectos comerciais, com o espectáculo e inclusive com a política. O Futebol deste modo, e de forma mais evidente no nosso espaço geográfico é, um caso único, quando comparado com outras modalidades desportivas, apresentando-se de modo muitíssimo mais atractivo (Leandro Massada, Anexo 2). Não somente com base, em algumas das entrevistas por nós realizada, como também, na pesquisa por nós efectuada, pudemos constatar que o Futebol é, considerado de forma especial, podendo por isso dizer-se, que sendo um

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Fenómeno Social Total, tal como a generalidade das modalidades, se apresenta, em nosso entendimento, como um Fenómeno Social Mais Total, por isso, o Futebol apresenta-se como um micro fenómeno muito especial, dentro do macro fenómeno desportivo, sendo praticado e apreciado num espaço muito vasto e peculiar, um “amplo jardim comunitário” (Valdano, 2002). O impacto social do Futebol é facilmente constatável, por se tratar de um fenómeno que nas suas diversas facetas se afigura, na nossa sociedade, como uma temática dominante encontrando-se na ordem do dia, tanto de programas televisivos como radiofónicos, ou ainda nos canais do ciberespaço, o mesmo sucedendo nos escritos de articulistas, ou tão simplesmente nas conversas quotidianas que têm lugar nas ruas e cafés (Garganta, 2001). Sobrinho Simões (Anexo 1) salienta a este respeito, que a sua percepção do fenómeno Futebol, deriva fundamentalmente, da sua envolvente comunicacional, o que o torna, num fenómeno de dimensão mundial A omnipresença do Futebol, na nossa sociedade levou, A. d. S. Costa (1990) a considerar o Futebol como, “a grande festa dos tempos modernos”. Facto que poderá ser mais facilmente compreensível se, tivermos em consideração, a advertência efectuada por Haldas (1981), o qual realça o facto de existir no Futebol algo mais, que ultrapassa o próprio Futebol. Opiniões corroboradas por J. Bento (2004), quando adverte que o Futebol, assim como os espaços em que se pratica funcionam como símbolos de causas, evidenciando deste modo, a dimensão hermenêutica do fenómeno. J. A. Santos (2004, pp. 220) para quem é inquestionável a importância social do Futebol, refere que se trata do “fenómeno multitudinário mais importante da actualidade”, opinião partilhada por Garganta (2004) que o apresenta como o fenómeno mais marcante do final do século XX e princípio do século XXI. Madaíl (2004), ajuda-nos a perceber a relevância que o Futebol assume na actualidade, quando o descreve como “uma religião universal”, justificando-o, com o facto de se encontrar difundido e inserido por todo o mundo, e também, pela Assembleia Geral da FIFA ser composta por 202 países, representando assim um número mais elevado que, o de países com participação nas Nações Unidas. O percurso realizado pelo Futebol, desde a sua origem representa

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“uma viagem apaixonante de um século em que logrou colonizar o mundo.” (J. Valdano, 1998, pp. 51).

A popularidade do Futebol encontra-se deste modo, difundida por todo o

planeta, e independentemente das diferenças que as pessoas possam evidenciar a diferentes níveis, idade, estatuto social e género, um dado é inequívoco, o seu impacto social, sendo na ordem dos biliões o número de pessoas que partilham a afinidade por este fenómeno (Blatter, 2004). Ou seja, tal como o Desporto em geral, também o Futebol não deixa ninguém indiferente. Apesar do fascínio que este fenómeno desperta, nem sempre este é

facilmente decifrável. J. O. Bento (2004) revela ficar intrigado, quando tenta encontrar os motivos, que o levam a ir ao estádio. Esta inquietude provocada pelo Futebol é, quanto a nós, reveladora do fascínio em parte misterioso, que este fenómeno desperta nas pessoas. “O futebol é o desporto mais popular do planeta. Envolve directa e indirectamente bilhões de pessoas, entre praticantes amadores, atletas (Jogadores) profissionais, adeptos e incalculáveis recursos humanos empregados em muitas ocupações e serviços, que funcionam de suporte ou meio para a consecução de suas metas.” (Murad, 2007 pp. 245). Na tentativa de decifrar possíveis razões para tal popularidade, o mesmo autor salienta, o facto de ser considerado pelos especialistas como a modalidade mais espontânea, imprevisível, simples, estável, barata e democrática para os seus praticantes, factores que como sugere, podem ajudar

a entender a sua imensa e diversificada popularidade.

A este respeito, Leandro Massada (Anexo 2) salienta o facto do Futebol se

constituir, como um espaço muito relevante para a libertação, por parte das

pessoas, do stress emocional acumulado no quotidiano, sendo ainda a

apetência evidenciada pelas pessoas para com este fenómeno, estimulada pelas rivalidades que comporta. “O futebol, pelas rivalidades, pelas guerras, pelos hinos, pelas bandeiras, por tudo o que o envolve tem uma influência muitíssimo mais marcada na sociedade do que qualquer modalidade desportiva

e vai continuar assim para sempre.” (Leandro Massada, Anexo 2).

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Também com o intuito de encontrar possíveis explicações para tamanha popularidade e relevância social, Vargas, M. (s.d. cit. por Maurício, 2002), apresenta-o como “o ideal de uma sociedade perfeita”, pelo facto de apresentar poucas regras, sendo estas claras e simples, capazes de garantir espaço para a competência individual. Em conformidade Dunning (s.d., cit. por Brown, 1998) apresenta como razões para o sucesso deste fenómeno, a simplicidade, não requerendo muitos meios materiais, a sua fácil compreensão e o facto da sua prática ser relativamente barata. Talvez por este conjunto de características, o Futebol se tenha tornado num fenómeno diferente, para muitos uma verdadeira paixão. Filho (2004) sugere que se trata da maior paixão do nosso planeta. J. O. Bento (2004, pp. 201) vai mais longe, quando enaltecendo os méritos do Futebol, é peremptório em afirmar que, “o futebol é a nossa paixão”, não deixando ainda de acrescentar e advertir, para o facto de não afirmar ser a nossa maior paixão, mas tão somente a nossa paixão, “é que não sei se haverá outras. E se as há encontram-se em franco declínio ou não se mostram.” Para Alegre (2006), o Futebol é, “o único jogo total”, assim, e sendo um Fenómeno Social Total (Coelho, J. N., 2000; A. d. S. Costa, 1992, 1993, 1997, 2004, 2006; Murad, 2006), o facto de ser considerado o “único jogo total”, parece reforçar a nossa ideia, de que o Futebol se pode considerar mais satisfatoriamente como, um Fenómeno Social Mais Total. Enquanto Fenómeno Social Total, o Futebol alcança uma significação, que se encontra para além do jogo realizado dentro do relvado (Murad, 2007), o que reforça o facto das suas construções e simbologias se poderem constituir como objecto de estudo pertinente para as Ciências Sociais (Haldas, 1981). Para Garganta, Oliveira, & Murad (2004) o Futebol emerge nas sociedades, como um dos traços matriciais da nossa civilização, assumindo-se deste modo, como o Jogo 2 mais praticado, visto e aclamado do planeta. O Futebol

2 Jogo: ao longo desta dissertação a palavra Jogo, encontra-se por vezes escrita com a primeira letra em maiúsculas, quando tal se verifica, reportamos-nos à dimensão macro, isto é, ao Jogo todo o qual é composto por diferentes jogares. Quando nos reportamos ao jogo praticado por uma determinada equipa, esta palavra será redigida em minúsculas. Sendo

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enquanto Fenómeno Social Total “é um microcosmos da sociedade e um espelho da mesma em todos os seus aspectos.” (A. d. S. Costa, 2004, pp. 55). Foer (2006) evidencia que o Futebol, contrariamente ao que sucede com outras actividades desportivas, pelo impacto social que alcançou, comporta o peso da História e dos seus ódios seculares. “O futebol tem, portanto uma geografia, uma história, não é um fenómeno natural, é um fenómeno construído, sendo, no entanto, necessário tempo para o construir”. (V. Frade, 1998). Ou seja, o Futebol é, um fenómeno situado no espaço e no tempo. Parece-nos igualmente pertinente, realçar que o Futebol se demarca, pelo menos em termos de impacto social, face ao exposto, das restantes modalidades desportivas, mas também de muitos outros Fenómenos Sociais Totais, como a literatura, a música, entre outras actividades. “Futebol e literatura: dois jogos, quase uma redundância. Trata-se de escapar à realidade por caminhos distintos que raras vezes se cruzam.” (J. Valdano 1998, pp. 172). Não é nossa intenção passar a ideia, de que o Futebol é o assunto ou fenómeno mais importante do nosso planeta, ainda que não estejamos totalmente em desacordo com Bill Shanckly (s.d. cit. por. Alegre, 2006, pp. 15), quando este refere que, “o futebol não é um caso de vida ou de morte, é muito mais que isso”. De uma forma hiperbólica, para muitos dos aficionados pelo Futebol, este é tal como para Bill Shanckly, muito mais que um caso de vida ou morte. Não obstante este facto, não devemos ignorar que se trata de um epifenómeno, e como tal, não deverá ser sobrevalorizado ou opor-se, mas sim coabitar e complementar os restantes fenómenos eminentemente culturais, como a literatura, a música a pintura entre muitos outros e sobretudo, servir de complemento para a Vida. Maradona (2005, pp. 139) acerca da conquista do Mundial de 1986, evidencia o que pretendemos salientar a este respeito, quando afirma que aquela vitória, “foi uma vitória extraordinária do futebol argentino, que lamentavelmente não se voltou a repetir, mas nada mais do que isso. A nossa vitória não fez descer

contudo pertinente ter em consideração, que “no Jogo global quem interfere é o jogo de letra pequena.” (V. Frade, 2006). Ou seja, não são realidades desconexas, que como tal se influenciam mutuamente.

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o preço do pão. Oxalá nós, os futebolistas, pudéssemos resolver os problemas das pessoas com as nossas jogadas. Quão melhores estaríamos todos!” Este apaixonante Fenómeno, que como já foi referido colonizou Mundo, não deixa indiferente o nosso país, assumindo-se mesmo no nosso espaço geográfico, como um traço marcante da nossa sociedade e identidade (Leandro Massada, Anexo 2). O facto, mais evidente de que o Futebol no nosso país tem, um impacto enorme, expressa-se por este pertencer à tríade

dos três “f’s”, que caracteriza o nosso país, “Fátima, Futebol e Fado”, Portugal pode, mesmo definir-se como um país tradicionalmente louco por Futebol (Johansson, 2004). “O futebol é uma das paixões nacionais, ocupando um lugar central na sociedade e cultura portuguesas. É o tema preferido das conversas. Domina audiências. Faz parar o país, torna-o mais feliz ou deprimido, conforme os resultados dos jogos e as peripécias do universo futebolístico. Diz-nos muito acerca do país que fomos, do que somos, de como temos vindo a mudar e só por isso já merece toda a atenção e pesquisa. Um património histórico e cultural, vivo e popular, construído na escala das emoções e dos sentimentos” (J. N. Coelho & Pinheiro, 2004, pp. 33). O Futebol pode deste modo servir, como um campo de observação, uma vez que, “é um laboratório de análise social e pode, mesmo, ser visto como espelho fiel da nossa sociedade”. (A. d. S. Costa, 1997, pp. 139). Ramos (2003), realça que parece ser indiscutível, que o Futebol exerce um grande impacto nos hábitos culturais desportivos dos nossos dias, sendo isto especialmente evidente no nosso espaço geográfico, o que provoca uma enorme atracção para a sua prática, a muitas Crianças e jovens, que deste modo têm a possibilidade de «imitar» e «encarnar» os adultos seus modelos, por vezes elevados à qualidade de ídolos. Este facto, em nosso entendimento, torna ainda mais pertinente, a realização desta pesquisa, que se debruça sobre

a problemática da Formação. O Futebol é a prática desportiva mais popular de Portugal (Morais, 1993) podendo considerar-se como uma das paixões nacionais, sendo capaz de ocupar um lugar central na sociedade e cultura portuguesas (J. N. Coelho &

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Pinheiro, 2004). Não admira por isso, que em Portugal, haja três jornais diários desportivos, cujo conteúdo é quase na sua totalidade dedicado ao Futebol, tendo volumes de vendas muito significativos, e também que os telejornais dediquem, parte considerável do tempo atribuído, ao Futebol (A. d. S. Costa, 2004). Por tudo isto, percebe-se que não são despropositadas as palavras de D. S. e. Sousa (1983, pp. 132), ao afirmar que, “o país bebe mais futebol do que leite”. Depreende-se deste modo, “que o futebol português é um dos símbolos mais expressivos de identificação nacional é uma certeza que todos podemos ter, nomeadamente viajando um pouco através de outros países.” (A. d. S. Costa, 2004, pp. 60). Podemos concluir, que o Futebol é inequivocamente um acontecimento, ou conjunto de acontecimentos, muito peculiares cuja dimensão enquanto fenómeno, se revela enorme. Importa a este respeito salientar, que é o acontecimento, plano mais micro que confere dimensão, e que consubstancia o fenómeno, plano mais macro, que resulta, do conjunto de acontecimentos decorrentes em torno de uma realidade. “Acontecimento, até no sentido epistemológico do termo, é qualquer coisa que aparece, e que se manifesta e se evidencia e subitamente nos convoca para a sua diferença (…) consegue rasgar a pele da realidade e impor-se, a partir da sua diferença e da sua capacidade de provocar perplexidade em quem o observa.” (Paulo Cunha e Silva, Anexo 4). Depreendendo-se deste modo, e face ao que foi exposto, que inequivocamente o Futebol é um acontecimento, ou melhor dizendo um conjunto de acontecimentos, que marcam as sociedades. Assim, consideramos suficientemente evidente o impacto que o Futebol exerce sobre a generalidade das sociedades mundiais, e de forma especial sobre a nossa sociedade, o que nos leva a considerá-lo, como muito provavelmente, o Fenómeno Social Mais Total de todos, e que por esse motivo, exerce um fascínio especial, sobre as Crianças e jovens, o que deverá implicar, da parte de quem lhes dá a conhecer o fenómeno, uma conveniente qualidade de intervenção, e a necessidade de lhes propiciar contextos igualmente

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qualitativos,

para

que

as

interacções

sejam

desde

idades

precoces,

de

qualidade.

3.2.1 - Futebol um Fenómeno com relações e ralações com as instâncias Sociais: Política, Religiosa, Económica e muito mais …

“Culturalmente depreciado, politicamente utilizado e socialmente reduzido a uma expressão popular de menor quantia, o futebol segue alimentando a paixão domingueira dos aficionados de todo o mundo, convertido num cativante fenómeno de mobilização massiva que deveria ser merecedor de atenção mais respeitosa.” (Valdano, 2002, pp. 252).

Tal como evidenciamos anteriormente, parece consensual o facto do Futebol se constituir, como um Fenómeno Social Total, ou até mesmo, como sugerimos, um pouco mais que isso, ou pelo menos, uma expressão muito peculiar e especial deste conceito. Importa realçar que quando Mauss (1979) apresentou este conceito, não o concebeu pensando no Desporto em geral, nem no Futebol em particular, contudo, pelo impacto social, já evidenciado, este foi adoptado para o fenómeno desportivo, sendo a sua expressão mais evidente no Futebol. Relembramos que, para um fenómeno poder ser considerado um Fenómeno Social Total, este terá de nos permitir observar o funcionamento dos traços ou dos vestígios das instâncias fundamentais que compõem as sociedades, as instâncias, familiar, educativa, política, económica, religiosa e recreativa. Propomo-nos neste ponto, evidenciar as relações exigentes entre o Futebol e algumas destas instâncias, com o intuito, de comprovar que de facto, o conceito proposto por Mauss (1979) pode ser aplicável ao Futebol. De momento, apenas nos iremos pronunciar, sobre as relações que o Futebol estabelece com a Política, com a Religião e com a Economia, visto que as relações do Futebol, com as restantes instâncias, Familiar, Educativa e Recreativa, se encontram evidentes, ainda que de forma implícita no decurso desta dissertação, e para as quais iremos pontualmente advertir.

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3.2.1.1- Futebol e Política ou Política e Futebol?! Como queiram, a relação é biunívoca.

“Na história do mundo os governos de direita sempre exploraram mais as proezas desportivas do que os poderes de esquerda, descontando aqui, por revestir outros contornos, a questão dos países de Leste.” (Lobo, 2002, pp. 219).

Como já anteriormente foi salientado, o Futebol foi sendo ao longo dos tempos politicamente utilizado (Valdano, 2002) tendo conseguido conciliar ou congregar aspectos desportivos com a dimensão Política (Sobrinho Simões, Anexo 1). “O futebol é sempre um espelho da sociedade e da política de um país” (Sacchi, 2006) Para realçar o impacto que o Futebol exerce sobre a Política, devemos atender que se trata de um fenómeno que mais do que apaixonante, colectivo e de massas, é um fecundo e significativo filão de pesquisa sobre a vida cultural, social e política (Murad, 2007). Daí a nossa intenção de evidenciar algumas das formas de expressão da relação entre as duas realidades, Futebol e Política. A. d. S. Costa (1997) defende que Futebol e Política são dois Fenómenos que cada vez mais se assemelham, e cujo funcionamento e lógica, são idênticos, os quais apresentam ainda muitas semelhanças a nível discursivo. Estabelecendo, um conjunto de analogias muito interessantes, que em nosso entendimento, se apresentam ajustadas. Assim, sugere que as substituições que se realizam no Jogo se assemelham, às trocas que se verificam nos diferentes Ministérios sempre que há alteração de Ministros; que ambos são jogos feitos por Homens orientados pelo objectivo de vencer, e que assumem nos seus contextos papéis de actores astutos. Astúcia que a uns serve para enganar os adversários, e a outros para iludir os governados. O impacto social que o Futebol assume, tem reconhecido da parte dos políticos, a necessidade de se criar legislação específica para o regulamentar. Tais decisões políticas, podem ser de diversos âmbitos, e emanadas por Organismos diversificados. Foi recentemente, aprovado pelo Parlamento

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Europeu um “relatório extenso e corajoso”, cujas propostas visam “resolver os principais conflitos do futebol internacional” (G. Almeida, 2007, pp. 24). Beckembauer (2007) revelando-se consciente do impacto social que o Futebol exerce, afirma que, o Futebol não podendo mudar o Mundo, pode fazer algo, para torná-lo melhor. Evidenciando ainda, que as relações entre Futebol e Política, são de tal modo estreitas, que o facto da UEFA atribuir o Euro – 2012, à Polónia e à Ucrânia resulta, na sua opinião de uma decisão política. Alegre (2006) sem ignorar, nem refutar as relações entre estas duas realidades, detecta entre estas uma diferença, que poderá ajudar a perceber o fascínio do Futebol, é que segundo este autor, contrariamente ao que sucede com as vitórias das selecções, onde as vitórias são de todos, as vitórias eleitorais apenas são festejadas pelos vencedores. São inúmeros os modos como as relações entre Futebol e Política se têm manifestado, variando, em diferentes países caracterizados por diferentes regimes políticos e em diferentes épocas. Em Portugal, as relações do antigo regime com o Futebol são, de uma forma geral conhecidas e sugeridas por diversos autores (Alegre, 2006; A. d. S. Costa, 2004; Lobo, 2002). Relativamente a este facto, A. d. S. Costa (2004, pp. 64) refere que, “Salazar foi bastante acusado de fazer um exagerado aproveitamento político do desporto e principalmente do futebol”. Parece consensual, admitir-se que as vitórias dos clubes portugueses, especialmente as equipas do S.L. Benfica da década de 60, a nível internacional, e da selecção nacional, nos tempos de Salazar, foram utilizadas como uma bandeira do antigo regime, o qual conseguia através do Futebol manter o povo, culturalmente empobrecido, minimamente animado, distraído e iludido no seu “provincianismo bacoco”, permitindo que o regime salazarista visse atenuada a sua oposição (Lobo, 2002). Note-se contudo, que pelo que pudemos verificar, o Futebol se apresentou como um espaço, para expressões de desagrado, para com o antigo regime (Lobo, 2002; Melo, 2004). Por exemplo no dia 30 de Janeiro de 1938, num acto de grande simbolismo e coragem, alguns Jogadores portugueses, que se preparavam para defrontar a selecção espanhola, recusaram-se a fazer a

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saudação fascista, tendo sido posteriormente detidos para interrogatório pela polícia política (Melo, 2004). As figuras do Futebol Nacional da época, pela relevância social que apresentavam, exerciam grande influência sobre os adeptos em geral, motivo pelo qual, sempre que tais modelos sociais, se manifestavam discordantes, dos ideais salazaristas eram, de uma forma, eufemista, advertidos pela PIDE. Cândido de Oliveira, em Abril de 1942, foi advertido pela PIDE por alegadamente estar a conspirar junto das forças antifascistas (Lobo, 2002). Note-se contudo, que tal como sucedeu com Salazar, a generalidade dos políticos, inclusive os que não gostam de Futebol, não deixaram de o utilizar, para alcançar os seus intentos (Alegre, 2006). Deste modo, percebe-se que em Portugal, actualmente as relações entre Futebol e Política se mantêm. Se olharmos para tribunas dos estádios de Portugal, e também para as comitivas que integram as selecções e equipas, nas deslocações ao estrangeiro, verificamos, que uma parte considerável dos elementos que as compõem é, constituída por pessoas que exercem cargos políticos. Outro facto suficientemente elucidativo, é um dos processos jurídicos, mais mediáticos ainda em decurso em Portugal, apelidado de “Apito Dourado”, o qual resulta das relações, infelizmente promíscuas daí, relações que podem ser simultaneamente ralações, entre Futebol e Política. Poderíamos ainda referir muitos outros exemplos, alguns deles bastante presentes na memória da generalidade da população portuguesa, como são o caso das felicitações tanto do Primeiro Ministro José Sócrates, como do Presidente do Parlamento Europeu, Durão Barroso, à selecção portuguesa, pelo facto de se ter apurado para a fase final, do Campeonato da Europa de Futebol de 2008, algo que foi noticiado pela generalidade dos média nacionais. Pelo uso diverso, que a Política parece ter vindo a fazer da relevância social do Futebol, este tem servido, em diferentes épocas, tanto como forma de afirmar e consolidar os ideais políticos vigentes, como também, como um meio de se lhes opor. Facto evidenciado por Leandro Massada (Anexo 2), quando se reporta, ao exemplo do que se observou, em algumas regiões do nosso país. “Em Vila Real o núcleo influenciado pelo tempo do Salazarismo continua a ser

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os benfiquistas da era dos anos 50 e Mondim de Bastos é um núcleo de portistas. Quer dizer, o aparecimento do núcleo de portistas em Mondim de Bastos traduz a guerra que há em termos políticos do domínio do Vila Real sobre o Mondim de Bastos e isso serve de contra corrente. Portanto futebol é utilizado em todos os aspectos e isso, a influência que tem sobre nós é extremamente importante.” A Itália é, um país que em termos do passado político apresenta algumas semelhanças com Portugal. Se em Portugal houve Salazar, na Itália o seu homologo foi Mussolini, que de igual forma, se serviu do Futebol para enraizar os seus ideais (Lanfranchi, 2007; Lobo, 2002) Lobo (2002, pp. 52) refere que, “mais do que uma simples selecção nacional, a Squadra Azzurra dos anos 30 personificava o ideal nacionalista preconizado pela pujança ditatorial de Benedito Mussolini, Le Duce, que resumia numa lapidar frase dirigida à selecção todo o seu sentir: Vencer ou Morrer”. Como realça ainda este autor, o tipo de treino ministrado por Vittorio Pozzo, vitorioso seleccionador italiano da época, reflectia o carácter militarista do regime de Mussolini, um líder que utilizou o Futebol, para divulgar “um nacionalismo exacerbado e xenófobo” decidindo, “fechar fronteiras à entrada de jogadores estrangeiros que nessa época começavam a conquistar maior admiração do que os italianos no coração dos tifossi”. Depreende-se de tais palavras, que também para o regime fascista italiano, o Futebol funcionou como um instrumento de propaganda, capaz de fazer proliferar os ideais preconizados por “Le Duce” (Lanfranchi, 2007), sendo a selecção italiana da década de 30, a expressão futebolística do regime fascista de Mussolini”, um verdadeiro símbolo fascista (Lobo, 2002). “Muitos anos depois, já nos finais do século, o dono do Milan ganhou as eleições italianas com um lema, Forza Italia!, que vinha das arquibancadas dos estádios. Sílvio Berlusconi prometeu que salvaria a Itália como havia salvo o Milan” (Galeano, 2005, pp. 38). Os actuais políticos italianos continuam a usar o Futebol, fazendo-o não raras vezes da pior maneira podendo considerar-se, como um grupo de oportunistas, cujo objectivo é, a auto-promoção à custa do Futebol (Sacchi, 2006). Em Itália,

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como comprova o recente escândalo “Calcio Caos”, as relações entre Política e Futebol, têm sido altamente perniciosas. Facto que não é novidade, pois na década de 80, um “escândalo” semelhante abalou o Futebol italiano (Lanfranchi, 2007). A França é um país que atravessa actualmente, alguma instabilidade social, decorrente da sua pluralidade cultural e étnica. O facto da sociedade francesa ser um mosaico multicultural, tem conferido alguma conturbação à sociedade francesa, cujos conflitos étnicos e as manifestações de violência, também reflectidas no Futebol, assumem manifestações cada vez mais frequentes, infelizmente. Sendo o Futebol, um Fenómeno Social Total, não nos surpreende o facto de tal diversidade cultural e étnica se repercutir, no Futebol praticado neste país. As grandes selecções francesas de Futebol, tiveram sempre nas suas constituições, franceses resultantes da imigração, como são os casos de Raimonde Kopa, Just Fontaine, Michel Platini e Zidane, entre muitos outros. Contudo, a estrutura multiracial que tem caracterizado as selecções francesas, não agrada a todos, e permite que alguns políticos, cujos ideais contrariam tal miscigenação étnica, se manifestem desagradados com tal situação, aproveitando deste modo, o Futebol para apregoarem as suas doutrinas. O caso mais evidente observado em França foi, o de Jean Marie Le Pen, o qual como foi suficientemente noticiado, insurgindo-se contra o facto da selecção nacional francesa de Futebol, que participou no Mundial de 1998, ser multiracial, sugerindo mesmo tratar-se de uma farsa considerar os Jogadores da selecção francesa como tal, ou seja, franceses (Hussey, 2006). “A Le Pen não lhe agrada que os jogadores da sua Selecção não saibam o hino francês, me parece que tão pouco gosta que alguns dos jogadores da sua Selecção tenham a pele de uma cor tão pouco francesa. É que Le Pen parece-se muito com o pior do futebol; o fanatismo sabe-se, é um lugar de encontro dos que vivem fora de jogo.” (J. Valdano, 1998, pp. 50). Por este motivo, há quem o considere um oportunista, que aproveitou o momento certo para, referir que a selecção francesa representa tudo o que era decadente e mau no país (Hussey, 2006).

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Note-se contudo, que o Futebol uma vez mais, superiorizou-se às crueldades

e desigualdades sociais, uma vez que a selecção francesa acabou por ser campeã, de um evento que mobilizou como nunca a população daquele país, e

que elevou por todo o Mundo o nome da França. O Futebol revelou a importância da harmonia étnica, e da Antropodiversidade, um assunto que será abordado mais adiante nesta dissertação. Também os blocos comunistas de Leste se serviram do Futebol, como símbolo e expressão dos seus ideais políticos. O Futebol era, um fenómeno bastante admirado também naqueles países, “na União Soviética o futebol era

o principal entretenimento, era quase como uma religião, a vida era muito

difícil, metade da nação estava na prisão, nas zonas rurais, não havia o que comer e era o futebol que unia toda a gente.” (Nilin, 2007). O apego da generalidade das pessoas, da União Soviética ao Futebol, tornou-o também naquele espaço geográfico, um fenómeno de grande impacto social, que não podia ser contrariado, ainda que assim fosse desejado, pelos regimes comunistas, que por este motivo, e reconhecendo-se incapazes, mas

simultaneamente conscientes da relevância do Futebol para o povo, decidiram controlar, a paixão do povo, visto que erradicá-la se afigurava pouco plausível.

A criação de diferentes clubes de Futebol, naqueles países está, directamente

relacionada com diferentes orientações politicas. Por exemplo o Dínamo de Moscovo, estava conotado com o poder político, o CSKA tinha relações com o exército, e o Spartak de Moscovo, era considerado o clube do povo, afinidades que se reflectem ainda hoje, na tipologia dos adeptos pertencentes a estes clubes. “Não há dúvida que muitos dos adeptos do Spartack eram verdadeiros oposicionistas, que talvez não se atrevessem a mostrar a sua oposição noutras áreas da vida” (Riordan, 2007). O Futebol afigurava-se deste modo, como um espaço de tolerância politica e de liberdade, ainda que de forma camuflada. Tal como sucedia com os regimes fascistas, também nos regimes comunistas, o Futebol foi sendo utilizado como símbolo de tais ideais, assim, “também o futebol era obrigado a construir uma nova e superior noção do chamado homo sovieticus, à imagem do homem socialista, regido pelos ditames do colectivo” Lobo (2007, pp. 136).

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A Argentina é um país cuja história política reflecte, a forma apaixonada e

volátil de viver, que caracterizam este país. Um dos grandes momentos futebolísticos que a Argentina viveu, o Mundial de 1978, coincidiu com um período de grande opressão política. Lobo (2002, pp. 171) reportando-se ao contexto social, que caracterizava a Argentina em que crescera Maradona, escreve que este, “fizera-se homem num país onde a liberdade era uma miragem e a ditadura militar respirava de plena saúde. Nesse ano (1978) durante quatro semanas, os golos de Kempes acalmaram as massas, fizeram-

nas esquecer por uns tempos os 15 mil desaparecidos e deram o título mundial

à Argentina. Quando no Monumental de Buenos Aires o general Videla

entregou a taça do Mundo a Passarela, o seu bigode ergueu-se num sorriso hipócrita.” Gallo (2007) referindo-se à Ditadura Militar opressiva, comandada pelo general Videla, afirma que, “chegaram ao poder através de um golpe de

estado, não foram um governo eleito, e estavam perfeitamente cientes, que se

a Argentina vencesse o Campeonato do Mundo, era muito provável que o

povo, associasse triunfo futebolístico com triunfo político.” Uma vez mais, fica evidenciada a forma astuta, como os políticos, tentaram ao longo dos anos, se servir do Futebol, e o modo como o adoptaram como meio de propaganda.

A Argentina tornou-se a selecção vencedora do Mundial de 1978, o que se

constitui como um momento marcante, para a população. “Conheço pessoas que por causa do Campeonato do Mundo saíram à rua pela primeira vez, desde o golpe militar as concentrações populares haviam sido proibidas. Muitas pessoas que saíram à rua para festejar encontraram outras pessoas, que já não viam desde o golpe militar. Activistas políticos por exemplo tinham passado á clandestinidade.” (Moores, 2007). Mas o Futebol, na Argentina, tal como noutros países, permitiu igualmente que os opositores ao regime vigente se expressassem Tarantini (2007) defesa da selecção Argentina de 1978, que não esquecendo as agruras provocadas pelo regime aos argentinos, aquando da deslocação do general Videla ao balneário, para felicitar a equipa pela vitória nas meias-finais do Mundial frente à equipa peruana resolve vingar-se. “Naquela altura da ditadura militar, eu tinha

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três amigos que estavam desaparecidos e já tinha tentado saber do paradeiro deles. O regime não me prestou a mínima atenção, nem sequer me quiseram ouvir. Disse ao Daniel (Passarela) aposto mil dólares que se ele (Videla) cá aparecer ensaboo os «tomates» e quando ele vier ter comigo, lhe aperto a mão. Ele disse, está apostado.” E assim fez. Decidimos colocar esta estória, caricata e arrojada, por considerarmos, que são também estes pequenos episódios que ajudam a edificar o Futebol, enquanto Fenómeno Social Total. Na Alemanha, talvez o país onde podemos encontrar, pela sua história política o maior instrumento de propaganda de sempre, não é de admirar que, o Futebol tenha sido utilizado, com intuito de instituir, os ideais nazis, usando o Futebol praticado no país como uma bandeira do poder, e soberania daquele país no Mundo. Joseph Paul Goebbels, chefe de propaganda Nazista, Ministro do Terceiro Reich (cit. por Murad, 2007, pp. 251), defendia que uma vitória no campo era, mais importante para a população do que a conquista de uma cidade em território inimigo. Outros autores (Galeano, 2005; Lobo, 2002), narram alguns acontecimentos, e episódios sucedidos durante este período, a partir dos quais facilmente se depreende, que a pressão e medo imposto aos Jogadores alemães, assim como aos adversários era imensa. Uma pressão em relação à qual se Aculturaram, conferindo a este povo, características muito peculiares, como a enorme frieza e consistência mental, as quais são igualmente evidenciadas em jogo. A Espanha apresenta-se como um país, extremamente rico a este respeito, visto que tanto no presente como no passado, nos apresenta factos, decorrentes das conjecturas verificadas, que evidenciam as relações entre Futebol e Política. Sendo vários os autores (Foer, 2006; Galeano, 2005; Valdano, 2002) a salientarem as relações existentes entre o regime instituído pelo General Franco, e o Futebol espanhol. O franquismo, encontra-se associado a uma determinada concepção de Futebol, mais conservadora, tendo se verificado que a morte do general Franco, se constituiu como o momento ideal, para o emergir de uma nova forma de estar e entender o Jogo, representando esse momento, a morte da

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tradicional “fúria espanhola”, um sinal de identidade arcaica, um cunho do franquismo (Valdano, 2002). Foer (2006, pp. 12) evidencia que apesar do facto do Futebol da era de Franco, em Espanha, representar os seus ideais, este fenómeno era o único espaço, em que as pessoas podiam demonstrar apego à sua génese cultural, “durante o regime de Franco, os clubes Atlético de Bilbau e Real Sociedad eram os únicos cenários onde o povo basco podia exprimir o seu orgulho cultural sem ir parar á cadeia.” Estes clubes, são ainda hoje símbolos dos ideais bascos, apresentando-se ainda, como instituições muito ligadas ao desejo de independência, desta região espanhola. Foi contudo o FC Barcelona o clube que de forma heróica, se constituiu como o maior centro da resistência à ditadura militar de Franco, sendo o Camp Nou, o único local onde era permitido aos seus adeptos, protestar contra o regime (Foer, 2006). Estas referências vão de encontro, ao que foi referido em relação ao sentimento, a que aludimos acerca do facto do Futebol se apresentar como um espaço de tolerância política, no qual as minorias se podiam manifestar, e evidenciar as suas posições. O FC Barcelona, ainda na actualidade denota uma forma de estar no Futebol muito peculiar, facto que se reflecte, nas relações estabelecidas entre Futebol e Política. Os responsáveis do Governo Catalão, não se escusam de dar os seus pareceres acerca, das orientações que o clube deve adoptar, como se de assuntos de Estado se tratassem. Face a esta proximidade, entre Política e Futebol, não é de admirar, que os principais partidos catalães procurem efectuar alianças com os candidatos à presidência do clube, com o intuito, de poderem figurar posteriormente de forma assídua, na tribuna de honra do estádio (Foer, 2006). Daqui se depreende o uso, que os políticos fazem, do Futebol. Não sendo ingénuos, facilmente lhe reconhecem um potencial único, para a dita “caça ao voto”, até porque as bancadas dos estádios são, lugares de excelência para os políticos concretizarem os seus intentos, conquistar o eleitorado, camuflando as suas falhas através da festividade emotiva, inerente ao fenómeno Futebol.

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No Médio Oriente, onde as questões políticas são ainda mais complexas, e os conflitos dominantes, o Futebol tem se revelado um meio imprescindível, para a resolução dos conflitos verificados nestas zonas do globo. De tal modo isto se verifica, que Foer (2006) sugere a “revolução do futebol”, como a chave para o futuro do Médio Oriente, salientando que esta já se reflecte nas transformações verificadas naquela zona do globo, indo ainda mais longe, ao considerar que foi devido ao Futebol, que a consciência política despertou nos adeptos iranianos. Este autor, narra um conjunto de episódios, verificados desde os anos 20 do século passado, até aos nossos dias, que nos ajudam a perceber de que forma o Futebol, foi e é utilizado como instrumento político no Médio Oriente. “A história do Irão moderno pode ser contada como a história do futebol iraniano” (Foer, 2006, pp. 263). “Talvez o futebol seja um factor importantíssimo para a secularização duma sociedade aferrada a tradições que ligam o poder político ao poder religioso. Talvez o futebol contribua para a democratização da sociedade iraquiana, pois sobrevoa credos, raças e condições sociais. O futebol é um extraordinário nivelador social, pois nele todos encontram o seu espaço de afirmação” (J. A. Santos, 2004, pp. 225). O Futebol no mundo muçulmano singra, sem servir de contrapeso ao radicalismo (Foer, 2006). De facto, a profecia lançada por J. A. Santos (2004) parece estar a concretizar-se, uma vez que no Iraque, em muito devido ao Futebol, muito está neste momento a mudar. Al-Khairalla (2007) referindo-se, ao triunfo da selecção iraquiana na Taça da Ásia, apresenta um conjunto de declarações elucidativas, quanto às alterações que estão em decurso, naquele país, explicitando ainda o impacto e fascínio, que o Futebol tem naquele povo, cuja comemoração do feito alcançado foi feita descontroladamente, tendo a generalidade dos cidadãos ido para a rua, apesar dos imensos perigos, que tal representa. “Eu espero que a unidade, a força e a coragem da selecção iraquiana possam fazer com que os políticos parem com as suas ambições pessoais e tenham em conta o interesse geral” (Mohammed, 2007, pp. 30). O Futebol apresenta-se, face aos conflitos existentes naquele país como um fenómeno aglutinador, de tal forma, que se trata muito provavelmente do único

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espaço em que xiitas, sunitas e curdos, coabitam e partilham valores. A selecção iraquiana, ao ser constituída por elementos destes três povos, assume-se como um exemplo para a restante sociedade. Ao ponto do político

sunita Saleem al-Jubouri (cit. por, Al-Khairalla, 2007, pp. 31) reconhecer que a selecção iraquiana, “Os Leões da Mesopotâmia”, colocaram em evidencia as falhas dos legisladores na resolução dos problemas sectários e étnicos. “O que os jogadores conseguiram foi unir os iraquianos e fazê-los sorrir, fazendo com que nos envergonhemos da nossa incapacidade para criar o mesmo sentimento.” Estas declarações são, em nosso entendimento profundamente esclarecedoras em relação ao impacto que o Futebol tem, também a nível político. Um fenómeno de facto único, capaz de auxiliar na resolução e de dar o mote, para a solução dos problemas políticos mais graves que atravessam o planeta. Outros factos, que evidenciam a relação entre Futebol e Política, podem surgir de muitos outros países, de diferentes zonas do globo terrestre, como explicitam alguns autores (Foer, 2006; Galeano, 2005; Lobo, 2002). O Futebol foi determinante para dar o mote, no Brasil à instauração de um regime democrático. Sócrates, internacional brasileiro dos anos 80, dotado de especial consciência política e social, reflectiu profundamente sobre os problemas que atravessavam um Brasil constrangido, pela ditadura militar. Sócrates, o “Doutor Futebol”, defendeu naquele período, que os problemas que

o país atravessava eram muito complexos, e implicavam alterações profundas

a nível educacional, cultural e de consciência política, tendo conjuntamente com mais dois Jogadores do Corinthias, Adilson e Casagrande, implementado um movimento, que ficou conhecido como “Democracia Corinthiana”, cujo lema era “Ganhar ou perder mas sempre em democracia”, e que se assumiu como

um símbolo no Brasil da luta pela Democracia, tendo mesmo sido decisivo para

a sua implantação, um direito conquistado em parte pelo poder do Futebol

(Lobo, 2002). Também na Jugoslávia, as relações entre Futebol e Política parecem ter sido,

e continuam a ser evidentes, observando-se uma forte ligação entre clubes,

como o Estrela Vermelha de Belgrado e o nacionalismo, e ainda entre a claque

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deste clube os “Ultra Bad Boys”, e o regime de Milosevic, tornando-se mesmo nas “tropas de choque” do regime de Milosevic (Foer, 2006). O mesmo autor faz, um paralelismo interessante entre o percurso histórico do Estrela Vermelha de Belgrado, “um bastião do nacionalismo” e a evolução política, e as mudanças culturais que se têm verificado naquela zona da Europa, evidenciando que apesar deste clube historicamente associado ao nacionalismo sérvio, tem nos últimos anos incorporado Jogadores de todo o país, incluindo um separatista croata. O que em nosso entendimento, realça o poder do Futebol no que se refere ao atenuar dos problemas políticos e étnicos que compõem as sociedades. Outro exemplo, embora menos recente, é apresentado por Lobo (2002), quando se refere aos conflitos verificados na Argélia na década de 50, destacando a forma astuta como líderes políticos da rebelião argelina, souberam aproveitar o mediatismo e simbolismo dos seus famosos futebolistas para defenderem as suas causas. Em suma, podemos com base no que foi exposto, referir que independentemente dos regimes políticos, a utilização do Futebol, como meio de propaganda é, generalizada. Os políticos, desde muito cedo perceberam, que a relevância social do Futebol, se devidamente aproveitada, poderia lhes trazer dividendos enormes. Assim, e perante a impossibilidade de erradicarem uma paixão, que é comum à generalidade dos povos, de forma sensata, adoptaram como estratégia controlarem o fenómeno Futebol, utilizando-o, nem sempre de forma subtil, como um poderoso meio de propaganda política. Antes de terminarmos esta abordagem, julgamos ser pertinente evidenciar que apesar de grande parte das referências, por nós efectuadas, se centrar na utilização efectuada no passado por regimes totalitários, não queremos fazer transparecer a ideia de que apenas estes se serviram, bem ou mal, do Futebol. Aquilo que nos parece evidente é, que o facto de não terem sido por nós encontradas, em igual abundância, referências sobre as relações actuais entre Futebol e Política, resulta de dois aspectos. Primeiro, porque o tempo para aferir acerca do tipo de uso e das repercussões do uso, que a Política actual

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tem feito do Futebol, ainda não é suficiente. Tal, para se efectuar de forma devidamente sustentada, só é possível em nosso entendimento, tendo por base uma perspectiva temporal mais alargada, e não imediatista. E em segundo lugar, porque apesar das Democracias se terem generalizado, há nelas ainda vestígios de antepassados mais opressivos, o que coíbe os especialistas, de escreverem sobre o assunto. Não obstante este facto há quem o faça, e quanto a nós de forma bastante pertinente. Alegre (2006, pp. 16) conclui que da mesma forma que a Política se tem servido do Futebol, também os dirigentes desportivos se têm servido da Política, acrescentando que tal “não é bom para o futebol nem para a política, muito menos para a democracia”. Acrescentando que como é sabido, as ditaduras utilizaram o Futebol, mas não foram somente estes regimes que se serviram do Futebol, sugerindo por isso, que é tempo, para reflectir sobre a promiscuidade que se tem verificado em Democracia, na relação existente entre Política e Futebol.

3.2.1.2- Futebol e Religião, espaços de Heróis e Deuses.

“Em que o futebol se parece com Deus? Na devoção que desperta em muitos crentes e na desconfiança que desperta em muitos intelectuais.” (Galeano, 2005, pp. 36).

Também a Religião, enquanto instância social apresenta ligações diversas com o Futebol. Da pesquisa por nós efectuada, pudemos constatar que o Desporto em geral, e o Futebol de forma muito particular, têm sido apresentados como verdadeiras religiões. O fenómeno desportivo, enquanto fenómeno ritual e simbólico, pode ser entendido como um sistema mítico (A. d. S. Costa, 1997, 2006). O Desporto afigura-se na actualidade, como uma religião dos tempos modernos (Baillet, 2001). Uma religião, que contrariamente a outras modernas, não é de palavras nem de projectos, mas sim uma religião em que predomina a gestualidade e os rituais festivos (Remmy, 1987). Em nosso entendimento, tal é facilmente observável pela ida a um estádio de Futebol, bastando, admirar as bancadas e observar o quanto de festa lá existe, onde por exemplo, a entrada dos Jogadores em campo se apresenta como um

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momento de êxtase, no qual muitos dos Jogadores, aproveitam até ao apito final para efectuarem as suas orações de circunstância, gesticulando inclusive, de forma bastante explícita. Sendo o Futebol, no âmbito desportivo, um fenómeno especial, ou como já o consideramos, um Fenómeno Social Mais Total, depreende-se, que as expressões do sagrado no Futebol, poderão considerar-se ainda mais evidentes. Pelo seu funcionamento ritualizado, o Futebol caracteriza-se por uma elevada religiosidade, no qual a linguagem, assim como outras formas de expressão se assemelham às manifestações típicas de espaços sagrados (A. d. S. Costa, 1997). “Claro que o futebol não é o mesmo que Bach ou o budismo. Mas é com

frequência vivido mais profundamente que a religião, e tal como qualquer outra parte do tecido comunitário, um repositório de tradições.” (Foer, 2006, pp. 12). Uma perspectiva, exacerbada por J. A. Santos (2004) que sugere, que o Futebol ultrapassa, inclusive a própria Religião. De facto, para muitas pessoas

o Futebol assume-se como uma genuína e reconfortante religião (J. O. Bento, 2004), chegando mesmo a considerar-se que “o Futebol é uma religião

universal” (Madaíl, 2004), ideia partilhada por A. d. S. Costa (2006), para quem

o Futebol se assemelha ás restantes religiões, por apresentar uma simbólica

sagrada universal, podendo falar-se dele como uma religião. Este autor acrescenta ainda, que os católicos dos países latinos, têm vindo a trocar os seus locais de culto pelos estádios. Note-se que alguns destes estádios, são considerados como verdadeiros templos religiosos, ou designados como tal, por exemplo, “Catedral da Luz” (estádio do SL Benfica). Talvez, não sejam de todo descabidas tais designações, sobretudo se atendermos ao que já foi exposto, e que nos leva a inferir, que muita da religiosidade que acompanha as pessoas, tem sido desviada para os espaços de Jogo. Sendo assim nos estádios que as pessoas cumprem os seus rituais de sacralização. Quantos de nós, nunca se depararam num estádio com uma situação, em que um dito “ateu”, na hora da decisão por grandes penalidades, revelou a sua religiosidade, rezando e efectuando as suas preces divinas?! O Futebol não pode deixar de agregar o lado sagrado (Souto, 2004), apresentando também, os seus “santos” e “pecadores” (A. d. S. Costa, 1997; J. A. Santos, 2004).

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“Trata-se de um processo de heroicização, onde o homem é transfigurado, continuando a ser humano. Há aqui uma experiência do sagrado, descrita como religiosa, mas vivida numa versão secularizada. É mais um dos aspectos da metamorfose do sagrado no interior da nossa cultura industrial que se afirma apenas profana.” (A. d. S. Costa, 2006, pp. 45). O “processo de heroicização”, permite que um homem ordinário se converta num super-homem (A. d. S. Costa, 1997, 2004, 2006). Enquanto fenómeno ritual e simbólico e entendido como um sistema mítico (A. d. S. Costa, 1997, 2004, 2006; Sanchez Pato, 2006), o Futebol é um espaço de criação de Deuses e Heróis, que apresenta o Herói como aquele que representa o mito (Sánchez Pato, 2006), tendo assim uma história feita de heróis (J. Bento, 2004, pp. 83). “A sócio-antropologia admite, de forma consensual, que no desporto existe um campo de forças positivas para a construção de mitos e heróis (…) o desporto moderno, através dos seus rituais, consegue resgatar seus velhos mitos no âmago da sociedade actual.” (Filho, 2004, pp. 171). Estes Deuses ou Heróis afiguram-se como seres fantásticos capazes, de transcender todas as barreiras (Morris, 1982), e são símbolos da luta do Homem com a Natureza (Rubio, 2001), mostrando à sociedade que através do Desporto, se pode lutar contra o anonimato, e que através dele, se pode procurar valores transcendentais, que nos elevem (J. Bento, 2004). A luta incessante dos heróis desportivos, no sentido de baterem constantemente recordes e de superarem permanentemente os seus rendimentos e êxitos desportivos é, um dos aspectos mais marcantes do Desporto actual, o qual assumiu na sociedade industrial, que o fomentou, um simbolismo enorme. Isto leva, a que A. d. S. Costa (1993, 1997) refira que os heróis desportivos, que lutam legitimamente para sistematicamente se superarem, funcionam como modelos simbólicos para a sociedade, permitindo que as pessoas se tentem realizar, constituindo-se por isso, como modelos de transcendência. O facto dos heróis desportivos, se revelarem modelos para a sociedade, procurando enraizar nesta, valores de transcendência e constante superação, são características que consideramos determinantes, para que o Talento no

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Futebol se manifeste, e que entendemos poder, e dever ser fomentada ao longo do processo de Formação. Além disso, o fascínio despertado por estes heróis, quando devidamente utilizado, pode constituir-se como um meio de Aprendizagem muito relevante no Futebol.

O Futebol é sugerido como um fenómeno de funcionamento tribal, que admite

a criação de heróis e de deuses (A. d. S. Costa, 2004; Filho, 2004, Morris,

1982). “As derradeiras reuniões tribais da sociedade ocidental são muitas vezes encontradas nos estádios de futebol, onde todos adoram os verdadeiros magos no seu coração. Para eles os verdadeiros heróis e magos são os que marcam golos.” (Mclaren, 2006). O Futebol é deste modo, um espaço, no qual o imaginário, transfigura o real, permitindo ao Homem eleger os seus heróis e neles projectar angústias e aspirações (Filho, 2004), aspirações que são relevantes, para a generalidade dos jovens que se iniciam no Futebol, os quais têm os seus heróis como referenciais. É que o herói do Futebol assume, especial impacto no povo, sendo alvo de uma adoração diferente da que se observa noutros fenómenos (Morris, 1989). Parece assim pertinente, diferenciar os heróis do Futebol, dos heróis dos restantes fenómenos, encontrando-se a diferença, “no facto de que, no futebol, a assunção do herói depende da derrota do oponente” (Souto, 2004, pp. 126). O herói do Futebol, ao viver para a sua causa, “faz o elo entre a vontade dos homens e a força dos deuses”, sendo por isso venerados tal como verdadeiros deuses (Filho, 2004, pp 171). Segundo A. d. S. Costa (1997), estes seres com origens comuns a todos nós, conseguem transformar-se em deuses, capazes de figurar no Olimpo. Não sendo por isso, de admirar que tenham sido criadas, em torno dos heróis do Futebol, organizações, consideradas como religiões. São algumas as “igrejas” ou “religiões” criadas em torno de alguns Jogadores de Futebol, destacando-se em Portugal, a religião de Neno (ex. Guarda-Redes do SL Benfica) e a nível mundial uma bem mais mediática, criada em 2002, a igreja de Maradona, que conta com 25000 seguidores (Fernandes, 2007), sendo uma religião criada de forma análoga à Igreja Católica, apresentando um edifício para a realização dos seus cultos, uma capela, designada de “La Mano de D10s”, uma bíblia que é, a autobiografia de Maradona, e uma cartilha, da qual

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constam 10 mandamentos, um dos quais obriga, a que os fieis, atribuam aos seus descendentes o nome de Diego (F. E. d. Lima, 2007). Os devotos da “Igreja Maradoniana”, apesar de na generalidade católicos, assumem ter “um Deus da razão”, e também um “deus do coração” que é Maradona (Souto, 2004). Não obstante este facto, “as pessoas têm de perceber que o Maradona não é uma máquina de dar felicidade.” (Maradona, 2005, pp. 70). Importa por isso advertir, para a existência de diferenças entre os Deuses e os Deuses do Futebol e do Desporto em geral, estes últimos “praticam a única coisa que aos deuses é vedado fazer: aspirar a uma glória incerta e arriscar-se ao fracasso.” (J. Bento, 2004, pp. 87). Talvez por isso, por serem Deuses palpáveis, visíveis e Humanos, os Deuses do Futebol, exerçam tanto fascínio nas pessoas, e nas Crianças. As histórias dos Deuses do Futebol remetem-nos deste modo, para contos do fantástico, em que indivíduos de origens humildes, ou até miseráveis, se tornam admirados e venerados por multidões. “Mas o mais surpreendente, o que talvez não tenha sido dito nem consiga explicar, é o carinho que continuam a ter por Eusébio os que nem sequer eram nascidos quando ele jogava (…) os meninos e os jovens continuam a correr para Eusébio e a pedir-lhe autógrafos. Onde quer que chegue, em qualquer parte do mundo, o seu nome e o seu rosto continuam a ser sinónimos de futebol e festa. Porquê? Eu creio que a razão está no menino que Eusébio continua a trazer dentro de si. O menino que começou a jogar descalço em Moçambique, depois veio para Lisboa e andou a marcar golos pelos campos do mundo”. (Alegre, 2004, pp. 169). Palavras, suficientemente elucidativas em relação ao fascínio, por vezes até misterioso que os Deuses do Futebol, despertam nas Crianças. Pessoas endeusadas que segundo Morris (1982), por serem fruto de um meio austero foram obrigados a fomentar um espírito perseverante e competitivo, que em muito contribuiu para as suas ascensões ao estatuto de Heróis ou Deuses. Em nosso entendimento, a resiliência evidenciada, poderá revelar-se, como um traço de personalidade, determinante para o sucesso dos Talentos no Futebol.

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Para explicitar, a relação existente entre Futebol e Religião, podemos nos socorrer de inúmeros factos, que em nosso entendimento, podem contribuir para uma melhor compreensão de tal relação. Uma das maiores rivalidades futebolísticas, que se observam no Reino Unido, tem na sua base, divergências religiosas, trata-se da rivalidade estabelecida entre o Celtic de Glasgow, clube com afinidades com o catolicismo e o Glasgow Rangers, conotado com o protestantismo, sendo uma rivalidade religiosa, que resulta da extensão de um combate inacabado pela reforma protestante (Foer, 2006). Também os conflitos religiosos, relacionados com as questões judaicas, se reflectem no Futebol, tendo este sido determinante para a aceitação dos judeus em países nos quais se constituíam como uma minoria (Foer, 2006). A forma como a religiosidade se expressa no Futebol é bastante diversa, face a um fenómeno tão aglutinador e apaixonante, e pelo fascínio universalizado que desperta, não deixa de facto nada nem ninguém indiferente daí que inclusive as maiores instituições e instâncias religiosas, não sejam excepção. No nosso país, são várias as figuras do clero, que revelam fascínio pelo Futebol, uma das mais conhecidas é o Padre Vítor Melicias, que no programa “Cultura Táctica” transmitido pela Sport TV, se revelou um fervoroso adepto de Futebol e adepto do Sporting CP. Mas também no Vaticano, o Futebol é algo muito apreciado, o Papa Bento XVI, por alturas do Mundial de 2006, solicitou a instalação de um televisor no seu apartamento, para assistir aos jogos, resultando muito do seu interesse, do impacto que o Futebol tem na sociedade (Amaro, 2006). Todos estes factos, permitem em nosso entendimento, perceber o quanto é universal, o credo da bola.

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3.2.1.2- Futebol e Economia, os riscos de abanar definitivamente «a árvore das patacas».

“O futebol está melhor publicitado que nunca: é moda, um fenómeno social, um produto do consumo de primeira necessidade, mas até ao momento está melhor vendido que jogado.” (J. Valdano, 1998, pp. 21).

A Economia estabelece também relações muito diversas com o Futebol, o

que nos parece ser compreensível, se atendermos a que os interesses económicos se têm apoderado dos diversos domínios da sociedade, com tudo o que de bom e de mau, tal tem associado (Capra, 2005).

O Desporto em geral, logo, também o Futebol encontram-se profundamente

relacionados com as alterações e traços caracterizadores da sociedade

industrial, sendo mesmo um reflexo muito fiel, dessa mesma sociedade (Bento, 2007; A. d. S. Costa, 1993, 2006).

O impacto económico do Desporto em Portugal evidencia-se pelo facto deste

representar, em termos laborais um significado bastante significativo, no sector

do Desporto e áreas afins, podem considerar-se mais de 900000 indivíduos empregados (C. Almeida, 2007). Depreendemos destes dados, que sendo a população em Portugal de cerca de 10 milhões, e destes, apenas uma parte desempenha actividades laborais, o número apresentado é bastante significativo, e elucidativo, acerca do impacto que as actividades associadas ao Desporto exercem sobre a Economia portuguesa. De acordo com E. Pereira (2007), o Desporto nos diferentes âmbitos de prática tem na sociedade actual conquistado, um significado social e económico tendencialmente crescente, o mesmo sucedendo com as relações que tem estabelecido com o turismo, uma das maiores indústrias da actualidade, no nosso país. Para esta autora, o Desporto assume um papel muito relevante ao nível da promoção dos destinos turísticos, constituindo-se assim, como um bom gerador de receitas. Recentemente, em Portugal, temos tido a prova disso, com a realização de competições desportivas diversas, destacando-se contudo, o Campeonato Europeu de Futebol em 2004, muito provavelmente, o maior meio de promoção turística de Portugal nos últimos tempos. Destacando-se assim o Futebol,

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também ao nível das potencialidades de promoção turística, das restantes modalidades. Parece ser de forma inequívoca, a modalidade desportiva que melhor consegue conciliar, os aspectos comerciais, com os desportivos (Sobrinho Simões, Anexo 1). Reforçando-se deste modo, a ideia por nós apresentada de que o Futebol é, um Fenómeno Social Mais Total, assumindo na Economia, um significado muito considerável. “Fonte incomensurável de geração de empregos directos e indirectos, o futebol mobiliza recursos gigantescos em patrocínios, publicidade, transmissão televisiva, salários, dentre outros aspectos, inclusivamente um deles, bem contemporâneo, que é o «turismo desportivo». Este, hoje, é uma actividade profissional, sector de investimentos em recursos humanos e financeiros e área de investigação académica.” (Murad, 2007, pp. 249). Quando comparado com General Motors, a maior empresa mundial, movimenta volumes económicos consideravelmente superiores, por exemplo, “o montante FIFA” alcançava em 2006 cerca de 300 biliões de dólares (Murad, 2007). J. N. Coelho & Pinheiro (2004), relatam que à medida que o Futebol foi evoluindo pelo século passado, sofreu alterações rápidas e profundas, desencadeadas pelo seu potencial social e económico. Com tais alterações, observaram-se algumas tendências que contrariam as concepções mais convencionais de gestão dos clubes. Motivo pelo qual, estes autores referem a este respeito, que a chegada das SAD’s ao Futebol e as respectivas cotações em Bolsa dos clubes, provocou nos adeptos, habituados ao associativismo tradicional, um espanto generalizado. Sugerindo ainda que o impacto das tendências globais socioeconómicas, tiveram no Futebol português um impacto negativo, nomeadamente, ao nível da diminuição das assistências nos estádios, uma consequência do aumento de transmissões televisivas; implicando ainda o êxodo de Talentos, o que se repercute numa diminuição da competitividade do Futebol português. Face ao exposto, e tendo em consideração o que refere Souto (2004) o Futebol representa 1% do PIB dos países mais desenvolvidos, mas este autor acrescenta, que este Fenómeno vive neste momento um conflito entre dois

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pólos de dimensão antagónicos, visto que vislumbra o seu futuro comprometido, entre a dicotomia “esporte ou negócio”. (Souto, 2004). “O futebol tornou-se progressivamente propriedade de gente com dinheiro.

Como tal, sofreu o mesmo desenvolvimento que a sociedade. Pouco a pouco,

o mundo transformou-se num mundo capitalista e o dinheiro ganhou cada vez

mais importância. O importante é fazer com que as regras da ética do jogo sejam respeitadas e que o Futebol não seja poluído. Os interesses financeiros podem poluir o espírito do jogo.” (Wenger, 2006). São já vários os autores (Cruyff, 2002; Foer, 2006; Garganta, 2004; Valdano, 2002) que se têm mostrado preocupados e que alertam, para a perigosidade

que pode constituir esta relação, que é por vezes uma “ralação”, entre Futebol

e Economia. Cruyff (2002) adverte para o que acabamos de referir, salientando

que dar primazia aos interesses económicos, em detrimento do rendimento desportivo, pode ser altamente pernicioso. Acrescentando ainda, que as influências externas, decorrentes das pressões económicas, das quais se destaca a pressão dos patrocinadores, pode ser muito prejudicial, para a gestão dos clubes. Tal como em Portugal, também noutros países, como o Brasil, se tem observado um crescente mercantilismo, que se tem repercutido de forma perniciosa, no Futebol daquele país, apelidado de “NBA do futebol global”, tendências perversas, que têm permitido aos dirigentes de clubes brasileiros ascenderem social e economicamente, à custa da depreciação do Futebol, reflexos no Futebol, dos maus aspectos da globalização (Foer, 2006). “O futebol está melhor publicitado que nunca: é moda, um fenómeno social, um produto do consumo de primeira necessidade, mas até ao momento está melhor vendido que jogado.” (J. Valdano, 1998, pp. 21). Por tudo isto, Garganta (2004) questiona de forma pertinente, quanto a nós, se a vaga economicista que tenta promover este fenómeno, enquanto espectáculo, não poderá ser responsável pelo reverter da essência do Futebol, “o verdadeiro espírito do jogo”. Consideramos, que o Futebol, não poderá ignorar o facto de se ter constituído como um negócio, contudo, se continuar a dominar, o desejo de extrair dele descontroladamente dividendos, tal poderá se repercutir na

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decadência deste fenómeno, que incapaz de resistir ao lucro imediato, hipotecará mais tarde ou mais cedo, a possibilidade de usufruir dele, e de tampouco extrair dele quaisquer dividendos. Deste modo, parece-nos que todos estes problemas que atravessam o Futebol enquanto negócio, obrigam a uma reflexão profunda, acerca da forma como se encaram os processos de Formação de jovens Jogadores. Os quais, com o crescente número de escolas de iniciação ao Futebol, pagas, em detrimento do tradicionalismo que caracterizava a Formação, tendem a cada vez mais ceder, a lógicas de mercado, levando a que muitas das vezes, mais do que interessadas no “verdadeiro espírito do jogo”, e na qualidade do processo de Ensino do Jogo, se preocupem com estratégias que lhes permitam “encher os bolsos”. Importa contudo salientar, que nem tudo é mau, se pensarmos de forma um pouco ingénua, e ignorarmos tudo o resto, verifica-se que muitos cidadãos com as vitórias dos seus clubes e ou selecções nacionais, chegam aos locais de trabalho com um alento, que proporciona uma maior rentabilidade nos locais de trabalho, e como tal, impulsionando assim, a Economia mundial.

3.3-

Futebol

Globalização:

a

sua

omnipresença,

e

os

efeitos

e

enfeitos

da

“… diz-se que houve, de facto, um cessar-fogo de quarenta e oito horas, observado apenas para nós, e os meus companheiros lembram-se de terem visto bandeiras brancas e cartazes dizendo que haveria paz só para verem Pelé a jogar.” (Pelé, 2006c, pp. 152).

Consideramos pertinente neste ponto evidenciar um conjunto de factos, acontecimentos e episódios, que fomos recolhendo e que evidenciam que o Futebol é um fenómeno omnipresente nas sociedades actuais. E mais que isso, que essa presença se faz notar de forma especial. A presença do Futebol é, extensível a diferentes domínios, e nem mesmo áreas do conhecimento tradicionais, como a Química, lhe ficam indiferentes. Na tabela periódica um dos seus elementos é, o buckminterfullereno, o qual, pelas

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suas parecenças com uma bola de Futebol, é vulgarmente designado de “futeboleno” (Calado, 2005). O acontecimento futebolístico mais representativo é, a realização dos Campeonatos do Mundo organizados pela FIFA, eventos capazes de permitir que durante aproximadamente um mês, todos os dias sejam domingos (Valdano, 2002). Os Mundiais de Futebol, mais do que momentos de aferição das tendências e evolução registadas no Jogo, constituem-se como Fenómenos Sociais únicos, uma grande festa em que há interacção entre diferentes culturas. Se nos cingirmos apenas, à realização do último Mundial de Futebol, realizado na Alemanha em 2006,verificamos que são inúmeros os factos que podemos recolher, e que evidenciam o Futebol enquanto Fenómeno Social Mais Total. Conforme realça Murad (2007, pp. 251), “a Copa do Mundo é o maior evento de audiência televisiva já registrado: em 2002 Coreia/Japão, 44 bilhões de audiências, na Alemanha / 2006, cerca de 50 bilhões.” Acrescentando, à semelhança de outros autores (R. P. Garcia, 2006; Soares, 2004; Valdano, 2002) que não existe na história, fenómeno de qualquer natureza que tenha conseguido aproximar-se de tais números. “Nenhum evento, desportivo, nem os Jogos Olímpicos, é tão abrangente.” (Blatter, 2006). Em Portugal, durante o Mundial da Alemanha, observou-se, “um país parado para assistir à força daqueles rapazes de chuteiras.” (R. Ferreira, 2006). “Quis falar comigo sobre o próximo congresso do PS. Escusei-me. O que neste momento me aflige é saber se Cristiano Ronaldo joga ou não.” (Manuel Alegre, 2006, cit. por R. Ferreira, 2006). Este tipo de declarações é perfeitamente elucidativa, em relação à dimensão e preponderância que o Futebol assume na sociedade, reflectindo-se no caso de modo mais evidente na instância política, encontrando-se presente em todo o lado, inclusive no Parlamento. Podemos inferir que o facto de até os políticos, se escusarem a falar de assuntos públicos, por causa do Futebol, é revelador do quanto é grande, a dimensão deste Fenómeno. Possivelmente, tal como Manuel Alegre, também a quase totalidade da população portuguesa se encontra mais preocupada com questões, mesmo as mais irrelevantes, relacionadas com o

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Futebol, do que com questões fundamentais da política nacional e internacional. A prová-lo destacamos os relatos efectuados, e transmitidos pelos media, relativos à recepção efectuada por milhares de pessoas, aos Jogadores da selecção nacional, aquando da chegada a Portugal, tendo-se deslocado ao Estádio do Jamor milhares de pessoas, como se encontra documentado, na generalidade da imprensa publicada no dia 10 de Julho de

2006.

Outro facto que nos parece ser muito relevante, para a compreensão da dimensão social que o Futebol apresenta na sociedade portuguesa, é relatado por A. Campos (2006, pp. 25), a qual salienta que nas urgências do hospital de Santa Maria da Feira, o facto de estar a realizar-se um jogo da Liga dos Campeões, “alivia momentaneamente um serviço que nalguns dias fica quase saturado.” O Futebol parece deste modo, ter o condão de tranquilizar o ambiente agitado que geralmente caracteriza aquele espaço. “O futebol terminou. Pelos largos corredores do serviço, médicos e enfermeiros mostram-se já mais atarefados” (A. Campos, 2006, pp. 25). Esta evidência parece-nos concludente, no que concerne ao impacto que o Futebol tem sobre os portugueses, podendo inclusive assumir-se como um anestésico para os males sociais. Mas, até pelo que foi evidenciado, o impacto social do Futebol não se observa de forma evidente, apenas no nosso país. Os Mundiais de Futebol, são fenómenos únicos, que não passam indiferentes à generalidade das sociedades, inclusive as que à priori, se apresentam mais relutantes à aceitação do Futebol e de tudo o que o envolve. A este respeito Lorent Blanc (in, Platini, 2006b), salienta que antes do Campeonato do Mundo, realizado em França em 1998, os franceses questionavam se seria bom para o país organizar o evento, já que o país não se envolve muito no Futebol. Acrescentando que contudo, no final, as pessoas foram seduzidas e durante dois meses viveram em função do Futebol. “Emoldurado por entre um universo de glamour cultural e iconoclasta, durante muito tempo o futebol não despertou grandes paixões na tranquila Velha Gália” (Lobo, 2002, pp. 192), um contexto,

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que ajuda a compreender a relutância evidenciada pela população francesa, face ao Futebol, um fenómeno situado no espaço e no tempo.

3.3.1 - Futebolização, um «pau de dois bicos» ou talvez não?!

“No final achei difícil manter uma atitude demasiado hostil face à globalização. Com os seus inúmeros defeitos, levou o futebol aos cantos mais remotos do mundo e à minha vida.” (Foer, 2006, pp.13).

À semelhança do Futebol, também o tema globalização tem assumido especial destaque, sobretudo nos últimos anos, mesmo que muitas das vezes, não se perceba de forma muito clara o que tal representa. Marques (2007, pp. 81), evidenciando que nos encontramos num contexto de crescente globalização, realça que “o desporto não está à margem deste processo de globalização. E nem poderia ser de outro modo, porque, nas suas formas modernas, se procurou instituir e afirmar como linguagem universal, um modelo cultural adoptado internacionalmente.” Foer (2006) efectua uma análise muito diversificada sobre os efeitos da globalização no Futebol, tentando encont