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Filipa Albuquerque

A n tó n i o T o r r a d o
A c r i a n ç a n o s e u te a tr o
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Escola Superior de Teatro e Cinema, Dezembro de 2009


Mestrado em Teatro e Comunidade
Seminário de Teatro e Comunidade II
Professor Armando Nascimento Rosa
I – Introdução em jeito de justificação
É verdade que nos foi proposto como possibilidade de trabalho um comentário de
um texto que encontrasse o Teatro e a Comunidade. Uma proposta não é propriamente
uma indicação inflexível sob o manto diáfono da simples sugestão. Porém, também é
verdade que a obra de um autor é um conjunto de textos, concretizados em linguagem
verbal ou não-verbal, um ensaio ou um quadro; e mais, neste reino da logomania tudo é
susceptível de ser visto como um texto, exprimindo ou tentando exprimir uma palavra mais
essencial, um verbo original e fundante, pelo que um homem é também um texto, pois o
ser diz-se de várias maneiras.
O nosso interesse por António Torrado advém do nosso percurso no teatro e com
o teatro e das nossas intervenções ao nível da performance da leitura no âmbito do ex-
IPLB, nas várias acções de encenação da leitura para os mais pequenos. Trata-se de um
autor que, no que a Teatro e Crianças diz respeito, nos tem vindo a acompanhar e a
surpreender. O que nos preocupa, em última instância, é ainda o teatro, reconhecendo que
a existência de um público para o teatro (porque só há teatro quando é um teatro para e
com o público, porque o teatro é uma intervenção pública e, por isso, cívica) passa,
também, pela existência de leitores, pelo desenvolvimento do prazer de ler que se
consubstanciará no prazer de ser.

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II – Breve introdução à obra de António Torrado
Quando nos defrontamos com a literatura infanto-juvenil, o primeiro pensamento
que, provavelmente, nos ocorre, é que estamos perante uma literatura menor, menos
literária, por assim dizer e perdoando a tautologia. Houve quem definisse a literariedade, a
essência do literário, como um fundo que resiste a toda a definição, inapreensível, pelo que
o literário e a literatura seriam o resto que resiste (cf. Eduardo Prado COELHO, Os
Universos da Crítica e O Cálculo das Sombras, Porto, ASA, 1997, p. 91). Como se o universo
imediato dos seus leitores tornasse a escrita menos elaborada, pois tratando-se de leitores
que se iniciam na leitura, seriam menos exigentes e/ou exigiriam uma escrita mais 'fácil' ou
acessível, que resistiria menos ao assalto da leitura e da interpretação. Contudo, a literatura
infanto-juvenil é ainda literatura, o que significa que essa característica exige a presença de
sinais e estratégias que afastam, desde logo, essa pretensa posição de subalternidade. Por
outro lado, a reflexão sobre a literatura infanto-juvenil acaba também por revelar
problemas próprios que revelam a sua especificidade enquanto fenómeno a ser estudado.
Em Portugal, essa reflexão terá as especificidades próprias do panorama nacional, os seus
obstáculos e atrasos, as suas oportunidades e vantagens. Basta pensar neste dado
lamentável que é o de só apenas depois de 1974 ter sido introduzido o estudo da literatura
para crianças no currículo das Escolas do Magistério Primário para percebermos a
dimensão própria desta realidade. E saliente-se que esse estudo introduziu-se a partir de
1974, porém aparecendo num primeiro momento como disciplina de opção! É claro que na
especificidade portuguesa haveria que referir-se a nossa história recente, como recente
ainda é a criação de condições para a formação de uma comunidade de jovens leitores: a
abolição da censura, o prolongamento da escolaridade obrigatória, a autonomia pedagógica
das escolas, o desenvolvimento duma rede de bibliotecas escolares e municipais e de
animadores da leitura, o Plano Nacional de Leitura, só para citar aspectos tão
diversificados, mas que concorreram para o incremento da literatura infanto-juvenil.
No âmbito da literatura para os mais jovens em Portugal, a obra de António
Torrado surge-nos de extrema e fundamental importância. Não apenas pela sua abundante
e indiscutível produção, mas pelo facto de António Torrado possuir o mérito de, ao
mesmo tempo, ter reflectido sobre a sua escrita e sobre os problemas mais gerais da
literatura infanto-juvenil. A atenção que neste breve trabalho lhe dedicamos surge
necessariamente incompleta, perante essa caudalosa produção não apenas no campo
ficcional, mas também no domínio da teoria da literatura. Mas é nosso desejo que o que
assim se revela incompleto funcione como estímulo a um aprofundamento mais

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interessante, liberto dos condicionalismos académicos. Porventura será essa a maior virtude
deste trabalho, para lá dos propósitos enunciados na breve introdução.
Maria José COSTA, no seu estudo intitulado "O Perfume das Histórias" delimita as
regiões da obra variada, na forma e no conteúdo, de António TORRADO, estabelecendo
os mecanismos e recursos, bem como os pontos de partida que atravessam essa mesma
obra. Segundo António SÉRGIO, citado por Maria José COSTA, temos assim o requisito
para uma boa história; a acção rápida e ligada, movimentando-se entre o familiar e o
maravilhoso, repetindo frases características. Esta lição de António SÉRGIO reflecte-se
com efeito, nos textos de António TORRADO, no seu balancear entre um registo de
proximidade com o leitor quando conta "histórias da minha rua", e a irrupção do elemento
fantástico que se materializa em "histórias do arco da velha". Mas o conselho de SÉRGIO
aponta para outro aspecto, também presente na obra de TORRADO. Com efeito,
encontramos, variadíssimas vezes, a repetição ou estribilho de frases características, o que
nos remete para a marca da oralidade que está presente nos textos de António
TORRADO, não como um recurso, mas como um pressuposto fundamental, o de que "a
literatura para crianças é, neste momento, a última depositária de uma forma protoliterária,
que era a oralidade (...) é o último fenómeno de resistência de uma tradição de
comunicação que nem sequer tinha como destinatários exclusivamente as crianças. Nós,
hoje em dia, depositámos nas histórias, que eram contadas em livros mas eles devem
manter a mesma fluência da fala" [António TORRADO, "Jornal de Letras", Lisboa, 20
Novembro, 1990]. Ao escrever as histórias que o registo oral tem conservado, Torrado não
apaga os recursos dos contadores de histórias, bem como o ambiente em que essas
histórias eram contadas, antes pelo contrário, são ambos convocados para essa magna
missão da leitura e do desenvolvimento duma comunidade de leitores.
Ora, a repetição e o estribilho estavam sempre presentes nas histórias que se
contavam como auxiliar da memória, permitindo que a história não escrita não se perdesse,
contando-se, repetindo-se, reinstaurando-se. A história que assim se escreve, porque era
assim a história que se contava e representava, alimenta o sonho de António TORRADO
(sonho que não é alheio à sua formação na área da Filosofia). Torrado quando recebeu o
Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças em 1988 e que premiou o conjunto
da sua obra, confessou que sonhava com o anonimato, que uma história sua "se projectasse
por aí além e cirandasse autónoma, de fronte lisa para a aventura dos mitos, perdida,
esquecida de quem a gerou, eis o sonho secreto, a ambição maior." [A. TORRADO, O
Bosque Mínimo, Cadernos IAC, Novembro, 1990]. Isto é, TORRADO tem como desejo

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maior a criação de um mito, uma narrativa de que a comunidade se apropria, fazendo-a sua,
integrando-a no seu património, anulando a sua autoria humana, transformando a sua
história num mito, numa narrativa original, cosmogónica, uma história sem autor, uma
narrativa divina, fundamental. Um desejo paradoxal: o autor que deseja construir a História,
que simultaneamente se constitui como morte do autor. Morte estranha porque
possivelmente esconde o desejo de imortalização, de vencer a morte, presente no acto da
escrita, no processo da sua representação que é re-presentação, a repetição litúrgica da
presença, uma presença que nasce e morre no palco, para aí voltar a nascer sempre que
regressa ao palco e os actores se apropriam desse texto original. É nesse sentido que, nas
histórias da minha rua, as histórias do quotidiano familiar, o autor muitas vezes se remete
para o estatuto de alguém que se limita a contar o que vê e aquilo a que assiste, movendo-se
num universo marcado pela proximidade: a rua, a casa, os amigos e os vizinhos, os animais
de casa e os domesticados, o microcosmos que, na sua escala, repete o próprio cosmos. O
escritor é alguém que assiste ao desenrolar do mundo e o vai registando e contando. Por
outro lado, o escritor é o antigo aedo, o contador de histórias, ou, talvez mais precisamente,
um hábil recontador de histórias. Ou então, aquele por quem a história se diz, o veículo, o
mensageiro. Segundo Maria José COSTA, no texto que vimos acompanhando, "a escrita
disfarça-se de voz" ou, como afirma mais tarde, TORRADO é "exímio na difícil arte de
conversar audível entre as páginas do livro o reparar da voz, a sua mestria tem raiz [...] na
herança (ou reconstituição) dos saberes dos antigos contadores de histórias". Daí a outra
área temática, que aquela autora denomina como "histórias do arco-da-velha". E ainda aqui
essa posição fundamental de autor que se assume a si mesmo como fiel depositário de uma
tradição (ou de uma alma colectiva) quando "pode concretizar o texto numa versão pessoal
mas também de algum modo arquétipa". O autor não se limita a seguir a inspiração na
apropriação pessoal dessa tradição oral. Ele pretende reconstruir modelos, isto é,
arquétipos. A arte de recontar o já contado exerce-se segundo valores e princípios que
modelizam os homens e as suas acções e que comemoram as situações fundamentais da
vida de uma comunidade. O autor assume-se como alguém que recria, que está possuído
por uma tradição e à qual se limita a emprestar a sua voz. O verdadeiro escritor é aquele
que deixa que por si se escreva ou reescreva o texto mais essencial, a história que contém
todas as histórias. Neste sentido se entende que o mais autêntico escritor se limite, ao longo
da sua obra, a escrever sempre o mesmo livro, aquele que se vai dizendo de diversos
modos.

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Maria José COSTA identificará ainda uma terceira área na obra de António
TORRADO constituída por curtos textos que partem de acontecimentos quotidianos
triviais e sobre eles reflecte de uma forma breve. Pelo seu conteúdo, esta área situa-se
muito próxima das "histórias da minha rua", na medida em que o que está em causa é um
universo vivido e próximo do universo do auditório, por oposição ao mundo fabuloso das
"histórias do arco-da-velha".
Por outro lado, atravessando estas áreas está sempre presente uma crítica dos
valores, a vaidade e a inveja, por exemplo, ou o enaltecimento de outros, como a coragem
ou a solidariedade. É que, apesar de consciente de que o auditório é fundamentalmente
constituído por jovens leitores e espectadores, António TORRADO resiste à infantilização
das suas histórias, bem como a ficar preso a um excesso de moralismo. Porém, o carácter
exemplar das histórias e do que nelas se vai passando não é abandonado. Os valores, um
horizonte de dever ser e ideais, estão sempre presentes, mesmo que isso não surja de uma
forma imediata. É que o nonsense ou a linguagem do avesso prestam-se a leituras segundas
que fazem dos seus livros e dos seus vários níveis de interpretação uma literatura para
todos. Neste sentido, os livros de António Torrado realizam, salvas as devidas distâncias e
diferenças, a função do idiota ou do tolo na literatura tradicional: do mesmo modo que, só
numa primeira leitura se devem considerar os seus livros como restritos a um público mais
jovem, também o idiota só aparentemente é alguém que está diminuído nas suas
faculdades. Com efeito, o idiota revela-se, no final, como alguém inteligente e atinado; as
suas vistas curtas são uma outra maneira de olhar, de ver o que os outros não conseguem
ver, porque são como prisioneiros das evidências e certezas do quotidiano. Os textos de
António Torrado também vão mais longe, na desocultação dos mecanismos fundamentais
da realidade. A literatura infanto-juvenil é também uma literatura comprometida e António
TORRADO, cujo percurso de vida é igualmente o de um cidadão comprometido com o
seu tempo, não a desloca para o campo da simples evasão nem convida o leitor a esse
devaneio evasivo.
A par dessa concepção que António TORRADO defende em diversos textos e em
diversos momentos valorizando a literatura infanto-juvenil ou, o mesmo é dizer,
valorizando os seus leitores e espectadores, a sua obra é também percorrida por um humor
sibilino, muitas vezes do domínio do absurdo ou do jogo do mundo-ao-contrário. O riso e
o cómico estão muito presentes na sua obra. E não é apenas por uma razão de legibilidade
apenas. É que existe uma função no riso que está para além de se constituir como um
artifício do texto. O riso é também uma forma de comunicação e socialização. A criança

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que ri e que vê o riso igualmente estampado no rosto dos colegas, sente mais intensamente
a sua pertença a um grupo. Quando um grupo ri, todos os seus elementos se apercebem de
que estão de acordo na reacção que têm perante um texto, uma mensagem ou uma cena; e
estão de acordo, porque existem enquanto grupo, com pontos de contacto entre os seus
elementos, com princípios e valores igualmente partilhados. "Um espírito com sentido de
humor caracteriza aquele que sabe brincar, que é aberto e que está disponível, recusando
qualquer tipo de dogmatismo", afirma Rui Marques VELOSO em «António Torrado: um
humor penetrante». O humor presente nas lengalengas e toadas populares produz na
criança um prazer que advém, muitas das vezes, da possibilidade de dominar as palavras,
brincar com o vocabulário, produzir rimas, mesmo que tudo isto se faça à custa da alguma
perda de sentido. A criança aprende a desenvolver o vocabulário, brincando com as
palavras, construindo uma relação lúdica com a língua materna, o que é fundamental
porque o domínio da língua condiciona todas as aprendizagens. Em A Machadinha, o herói
vai deparando com sucessivas situações divertidas de nonsense: homens a atirar ovos a um
muro para o derrubar, um velho com uma alcofa para apanhar o sol para levar para casa
"que era muito escura e fria", um homem e uma mulher a enterrar sardinhas num campo
para depois as colher. Humor que não dispensa, antes reclama o uso de uma linguagem
poética. Como afirma Natércia Rocha, citada por Maria José acha no estudo citado "neste
escritor encontra-se um estilo rico e ponderado, humor feito de subtilezas e uma
impregnação poética que vem tanto da efabulação como da linguagem." [Natércia
ROCHA, Breve História da Literatura para Crianças em Portugal, Lisboa, Instituto de Cultura e
Língua Portuguesa, 1992, pp. 107, cit. in Maria José COSTA, op. cit., pp. 22]. A linguagem
dos seus textos não cede perante a busca da linguagem mais apropriada ao auditório, antes
se verifica um enorme respeito pelo leitor e um estimulante reconhecimento pelas suas
qualidades e competências. Verificamos, por essa razão, que o contador de histórias é,
antes de mais, um poeta contador de histórias, que também se diverte no jogo da
linguagem, que a explora pelas suas qualidades reveladoras, que desenvolve paciente e
reflectidamente as suas potencialidades.

III – A criança no teatro de António Torrado


Se António TORRADO dirige fundamentalmente os seus textos para as crianças
então ele deve ter uma determinada ideia sobre essas mesmas crianças. Recordando as teses
de Umberto ECO no seu Lector in Fabula, o autor, ao construir o seu texto, imagina um
determinado leitor do mesmo, à maneira do jogador de xadrez que desenvolve e

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condiciona os seus lances, antecipando as respostas do outro, através da imagem que ele
possui do seu interlocutor. A possibilidade do seu texto ter êxito, ser eficiente, transmitir
um mundo, provocar a adesão do leitor, depende, em grande medida, do carácter mais ou
menos ajustado da representação que tem do seu auditório. As respostas que quer provocar
junto do leitor estão ligadas ao carácter próprio desse leitor. A questão que se coloca a
seguir é a de saber onde é que nós vamos buscar as representações que o autor tem do seu
leitor. No caso vertente, entende-se que é possível encontrar essas representações nos
próprios personagens dos textos. Se o leitor maioritário dos textos de TORRADO são as
crianças, é este o destinatário que é preciso conhecer, na medida em que ele condiciona,
não de uma forma mecânica, as próprias estratégias narrativas da sua produção literária.
Partimos do pressuposto que é possível surpreender os traços característicos da imagem
que o autor tem da criança a partir das crianças que povoam a sua obra. Ora, esta breve
reflexão dirige-se para os textos de teatro de António TORRADO. Um trabalho mais
completo deveria dirigir-se à sua obra na totalidade, mas isso ultrapassaria o âmbito de um
mero objectivo escolar. De qualquer modo, representa-se aqui um pequeno contributo
dessa aliciante investigação que, como vimos, deveria ser mais vasta.
Num rápido relance sobre a produção teatral de TORRADO verificamos que as
criança possuem um apurado e constante sentido de humor que se manifesta mesmo nas
situações mais adversas como se fossem contagiadas pela atmosfera bem humorada da
própria história. A criança de António TORRADO ri e sabe brincar, revelando um espírito
aberto e tolerante em relação aos outros. Aliado a este sentido de humor aparece-nos a
irreverência como uma outra característica das crianças que nos surgem nas histórias de
TORRADO. A irreverência é um elemento que compõe a figura de uma criança
constantemente irrequieta ou inquieta, conforme essas características se manifestam em
relação a regras e à disciplina em geral (o ser irrequieto) ou em relação a interrogações mais
metafísicas (o ser inquieto). Um outro aspecto que surpreendemos nas histórias de António
TORRADO diz respeito à capacidade da criança funcionar em grupo, planeando
antecipadamente as suas acções e levando por diante esse mesmo planeamento. Não se
trata, por essa razão, de uma actividade meramente especulativa, um delírio da imaginação
ou uma divagação da fantasia; antes pelo contrário, a dimensão onírica e imaginativa
própria das crianças surge atravessada por uma actividade racionalizante, mesmo nas
construções mais engenhosas. Esta actividade racionalizante de planeamento é uma das
garantias do sucesso das suas acções. Por isso, a criança de António TORRADO é
detentora de um natural sentido crítico em relação às mais diversas situações. Pelo modo

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como se comportam, as crianças são portadoras de um espírito corajoso e aventureiro.
Estes aspectos que acabámos de salientar dão-nos uma criança que é veículo de
transformação da realidade: é na medida em que vão balanceando constantemente entre a
realidade que é e a realidade que planeiam ou sonham ou imaginam que podemos concluir
que a criança dos textos de António TORRADO se coloca ao serviço de uma realidade que
se estrutura no plano do dever ser e se constitui como crítica e subversão constante da
realidade que existe, veiculando a vitória do dever ser sobre o ser, da realidade que se deseja
sobre a realidade que se possui, de um mundo melhor sobre o actual estado de coisas. Esta
dimensão imaginativa da criança, mas que também é concretizadora, coloca-se como a
dimensão mais importante da criança, na medida em que é ela que pode transformar o
mundo que, tal como acreditamos, ser essa a qualidade que o autor deseja que se
desenvolva no leitor, o mesmo é dizer no repertório das qualidades cívicas do homem de
amanhã.
Em Toca e Foge ou a Flauta sem Mágica, peça de teatro de TORRADO, publicada em
1992, onde nos demorámos com um pouco mais de atenção, algumas destas qualidades
estão presentes nos nossos heróis, Maria e Celestino, instrumentistas da Banda da
Sociedade Filantrópica, Columbófila e Filarmónica Harmonia e Progresso, dirigida pelo
Mestre Palheta e que se lançaram à resolução do mistério que resulta do facto de todos os
instrumentos musicais da Banda, primeiro, e de todo o mundo depois, terem deixado de
tocar, como se fosse uma peste. Todos, com exclusão dos tambores e dos pratos. E se é
verdade que os nossos jovens, Maria e Celestino, deparam com este mistério, também é
verdade que logo verificamos que neles se manifesta, claramente, a vontade e o prazer de
resolver os problemas. Por outro lado, reconhecem, desde o início e perante o misterioso
mutismo dos instrumentos musicais, que é impossível viver sem a música. Mas também é
impossível produzir música se não for em grupo. Por isso, Mourato que ficou com os
pratos e pode tocá-los sozinho, rapidamente conclui que não é música, mas apenas
barulho. Perante esta situação, os nossos heróis não recusarão a ajuda da magia na solução
do problema. Esta modalidade de solução não dispensa o engenho e a arte das crianças,
apenas surge como mais um recurso, o que aliás, ocorre noutras histórias de TORRADO.
É que são vários os perigos e dificuldades que há que enfrentar pelo que todas as ajudas
são bem-vindas. E não deixa de ser interessante verificar que as maiores adversidades
venham de nós próprios, do nosso interior. Os nossos demónios interiores constituem o
pior inimigo. Como afirma o Mago no 9º Quadro, dirigindo-se às duas crianças. "Ireis
enfrentar adversários temíveis. Entre eles, os caminhos que iludem, o desânimo que

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paralisa, o monstruoso avesso dos vossos sentidos e vontades." (pp. 53). Os maiores
inimigos estão no nosso interior e têm a ver com a ilusão, as miragens, a falta de vontade.
O pior inimigo é, afinal, uma visão errada da realidade. Pelo que vencer o inimigo será
representar correctamente o mundo. Mas terão também de enfrentar aqueles que, como na
mais vulgar batalha do mundo dos adultos dos nossos dias, se passaram para o campo do
inimigo; no caso concreto, trata-se do Maestro Palheta que agora se chama Coronel
Palheta. Este passou-se para o lado dos Cinzentões, sugestivo nome que TORRADO dá
aos inimigos. Este é uma das recentes aquisições dos inimigos dos instrumentos musicais.
Mas, atenção: TORRADO dá-nos personagens que evoluem e não figuras que estão
fixadas de uma vez por todas. Neste sentido, a sua perspectiva é claramente dialéctica: os
personagens também são dilacerados por contradições internas e, por isso mesmo, também
evoluem: o Maestro Palheta regressará, trazido pelas crianças, ao lado correcto da realidade.
Maria e Celestino, com a ajuda de um Mago, levarão por diante esta difícil tarefa que é
fazer regressar a música e vencer o ruído que se instalara entre as pessoas e o silêncio e a
surdez que se instalara no seu interior.
Deste modo, acaba-se também por transmitir ao leitor / espectador ideais de
coragem e tenacidade por um mundo mais justo e partilhado que, no caso, é um mundo
mais musical, mas, por efeito da potencialidade da metáfora escolhida, é também um
mundo mais colorido, mais rico, mais harmónico e mais belo. Ninguém, no texto ou fora
dele, recusará um mundo assim. Trata-se de formar leitores e espectadores que, à imagem
dos personagens, saiba e queira lutar por esse mundo. Depois de ler o mundo, depois de
representar um mundo diferente.

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VI - Bibliografia

TORRADO, António
Hoje Há Palhaços (com M.ª Alberta Menéres). Lisboa: Plátano, 1977, 2ª ed., 1978.
O Adorável Homem das Neves. Lisboa: Caminho, 1984; 3ª ed.,1995.
Zaca-Zaca. (teatro). Lisboa: Rolim, 1987
Toca e Foge ou a Flauta sem Mágica. Lisboa: Caminho, 1992
Teatro às Três Pancadas. (teatro) Porto: Civilização, 1995.
A Donzela Guerreira. (teatro). Porto: Civilização, 1996.
Os Obscuros. Lisboa: Soc. Portuguesa de Autores, 1981.
Teatro do Silêncio. Lisboa: Soc. Portuguesa de Autores, 1988.
Da Escola sem Sentido à Escola dos Sentidos. Porto: Afrontamento, 1988; 2ª ed., Civilização,
1994.
O Tambor-Mor. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.
O Pajem Não se Cala. Porto: Civilização, 1981, 2ª ed.,1992.

COSTA, Maria José (org.)


1994 António Torrado. Porto: Civilização: 1995 (2ª ed. rev.).

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