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CONSELHO TUTELAR DOS DIREITOS DA CRIANÇA E

DO ADOLESCENTE ARAXÁ-MG
GESTÃO 2004/2007

À Escola Estadual Luiza de Oliveira Faria


Ilma. Diretora
Sra. Leila Mansur

Ofício 206CT/2006
Em resposta ao Ofício 068/2006
Ref. Observação contida em relatório

Araxá, 14 de setembro de 2006.

Prezada Senhora,

Os Conselheiros Tutelares que esta subscrevem vêm, respeitosamente, informar e


esclarecer o que segue:

Preliminarmente, solicitamos que V. Sa. procure ter em mãos um Estatuto da Criança e


do Adolescente para conferência e solicitamos ainda que V. Sa. dê ciência do presente ofício às
senhoras: Maria Cândida da Silva, Maria Aparecida Leite, Rosângela Maria Alvarenga Silva, Brígida
Mercedes Jerônimo, Maria Helena P. Montavani e Agda Mariza Pinto, as quais também subscreveram
o ofício em epígrafe.

Ignomínia imaginar o Conselho Tutelar exercendo suas funções além do que determina
o Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 136, I à XI, abaixo transcrito:

Art. 136 – São atribuições do Conselho Tutelar:


I – atender as crianças e adolescentes nas hipóteses previstas nos arts. 98 e 105,
aplicando as medidas previstas no art. 101, I a VII;
II – atender e aconselhar os pais ou responsável, aplicando as medidas previstas no
artigo 129, I a VII;
III – promover a execução de suas decisões, podendo para tanto:
a) REQUISITAR SERVIÇOS PÚBLICOS nas áreas de saúde, EDUCAÇÃO,
serviço social, previdência, trabalho e segurança;
b) representar junto à autoridade judiciária nos casos de descumprimento
injustificado de suas deliberações.
IV - encaminhar ao Ministério Público notícia de fato que constitua infração
administrativa ou penal contra os direitos da criança ou adolescente;
V - encaminhar à autoridade judiciária os casos de sua competência;
VI - providenciar a medida estabelecida pela autoridade judiciária, dentre as
previstas no art. 101, de I a VI, para o adolescente autor de ato infracional;
VII - expedir notificações;
VIII - requisitar certidões de nascimento e de óbito de criança ou adolescente
quando necessário;
IX - assessorar o Poder Executivo local na elaboração da proposta orçamentária
para planos e programas de atendimento dos direitos da criança e do adolescente;
X - representar, em nome da pessoa e da família, contra a violação dos direitos
previstos no art. 220, § 3º, inciso II, da Constituição Federal;

Rua Rio Branco n.º 835 – Centro - Tel. (34) 3661 – 1795 CEP: 38.184-024 Araxá-MG.
CONSELHO TUTELAR DOS DIREITOS DA CRIANÇA E
DO ADOLESCENTE ARAXÁ-MG
GESTÃO 2004/2007

XI - representar ao Ministério Público, para efeito das ações de perda ou suspensão


do pátrio poder.
Essas são, pois, nossas atribuições. Porém, imperioso recordar que o Conselho Tutelar é
órgão permanente, autônomo e não jurisdiconal, encarregado pela sociedade de zelar pelo
cumprimento dos direitos da criança e do adolescente definidos nesta lei, ou seja, o Conselho sempre
existirá, o Conselho não se subordina a ninguém, tem caráter executivo, e foi encarregado pela
sociedade para zelar de direitos.

Art. 131. O Conselho Tutelar é órgão permanente e autônomo, não jurisdicional,


encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e
do adolescente, definidos nesta Lei.

Ademais, as ações do Conselho Tutelar só poderão ser revistas por autoridade judicial,
como prevê o artigo 137 do ECA, in verbis:

Art. 137. As decisões do Conselho Tutelar somente poderão ser revistas pela
autoridade judiciária a pedido de quem tenha legítimo interesse.

Assim, o Conselho Tutelar tem a obrigação legal de DEFENDER (do Lat. Defendere. v.
tr., proteger; socorrer; patrocinar; falar em abono de, advogar; prestar auxílio a; abrigar; impedir;
proibir; vedar;) e RESTITUIR (do Lat. Restituere. v. tr., repor; entregar; devolver; reabilitar;
reintegrar;) DIREITOS de crianças e adolescentes, quando estes forem violados, por qualquer sujeito,
inclusive pela própria criança/adolescente, vide artigo 98 do ECA, também transcrito:

Art. 98. As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre


que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:
I - por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;
II - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável;
III - em razão de sua conduta.

Um destes direitos, o qual tem sido freqüentemente violado pelas escolas da rede
pública de ensino, especialmente nas escolas da rede estadual, é o direito a EDUCAÇÃO, conforme
dispõe artigo 53, transcrito abaixo, com destaque para inciso V:

Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno


desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e
qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias
escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis;
V - ACESSO À ESCOLA PÚBLICA E GRATUITA PRÓXIMA DE SUA
RESIDÊNCIA.

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Parágrafo único. É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo


pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais.

Há uma falsa interpretação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Há uma falsa


imagem do Conselho Tutelar. As pessoas, leigas ou não, desejam que o Conselho seja um órgão
policialesco punitivo e repressor. Não, muito pelo contrário!

O Conselho não “vai dar jeito” ou “vai dar prensa” em ninguém. Ledo engano de pais e
professores que ameaçam filhos e alunos de “levá-los ao Conselho se não se comportarem
“adequadamente” e essa ameaça é também uma violência, e quando ocorre também é passível de
punição.

Não concordamos que as ações do Conselho Tutelar sejam limitadas. Há várias medidas
que adotamos em prol da criança e do adolescente. Esperamos que V. Sas. ampliem seus conceitos de
Conselho Tutelar e revisem a pedagogia excludente que impera atualmente, a qual contribui
proporcional e, conseqüentemente, com o crescimento da marginalidade e da criminalidade.

Entendemos que a escola responde as necessidades de uma sociedade, portanto


inconcebível a Escola sem sua função social. Cabe a ela oferecer EDUCAÇÃO e ao Conselho garantir
o direito de toda e qualquer criança deste município à EDUCAÇÃO.

No tocante às visitas periódicas às escolas, nunca nos furtamos de fazê-lo, contudo com
dia e hora marcada, tendo em vista a grande demanda que se observa no Conselho Tutelar. Tanto é
verdade que solicitamos no fim do ano de 2005, à Sra. Inspetora Wania Montandon, calendário para
realização destas visitas, mas não recebemos resposta formal até o momento. (cópia da solicitação em
anexo)

A bem da verdade é importante informar que ao sermos convidados a visitar as escolas


do município nos dirigimos até a mesma, seja para realizar palestras, seja para participar de reunião
pedagógica com direção e professores.

Na Escola Luiza de Oliveira Faria já estivemos em algumas oportunidades com e a


pedido de sua Direção.

Todas as escolas que nos solicitaram comparecimento foram atendidas, isso é inegável.

Ao contrário do defendido por vós, vislumbramos a educação como um saber


compartilhado, o maior bem que o ser humano pode adquirir em toda a sua existência.

Na contra-mão da História, as Senhoras entoam cânticos de “Fora Alunos”, enquanto


todos, inclusive a mídia prega: “Lugar de criança é na escola”.

Falácia afirmarem que a escola é somente responsável pelo ensino sistemático, ou seja,
pelo ensino das matérias curriculares, vez que a própria Constituição Federal dispõe acerca do papel
proeminente da escola na construção da cidadania. É na escola que a criança inicia sua caminhada para
outras relações pessoais com outros seres humanos fora do lar, descobrindo-se enquanto ser social.
Momento de descoberta e crescimento mas, segundo vocês, não nesta Escola.

Rua Rio Branco n.º 835 – Centro - Tel. (34) 3661 – 1795 CEP: 38.184-024 Araxá-MG.
CONSELHO TUTELAR DOS DIREITOS DA CRIANÇA E
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Nos parece que as nobres professoras vivem no período paleolítico da educação e


desconhecem que crianças e adolescentes estão em fases peculiares de desenvolvimento e formação de
sua identidade, o que se dá em um longo processo, assim, como é o processo ensino-aprendizagem.

Afirmaram os nobres professores que “É um crime de obrigar a pessoa a fazer algo para
o qual não tem vocação” (sic), alegando que seria equivocado manter obrigatoriamente crianças e
adolescentes na escola, idéia contrária aos princípios da educação universal e de toda legislação
brasileira.

Obrigação do Conselho sim, determinar o encaminhamento de toda e qualquer criança


ou adolescente para a escola. Crime é não aceitar ou não tentar entender diferenças que levem este
público a se ausentar da escola. Lei Estadual de n.º 15455/2005, obriga ação da escola no sentido de
evitar o altos índices de evasão escolar e baixa freqüência, e ninguém pode ignorar a lei. Crime é a
escola embaraçar ações do Conselho quando se nega prestar informações sobre os alunos, solicitadas
formalmente, impedindo acesso às mesmas, conforme prevê art. 236 do Estatuto da Criança e do
Adolescente.

Por fim, acordamos pelo menos em uma coisa: “Escola é para completar a educação
dada pela família”, e é pensando assim que buscamos nas escolas a parceria necessária para formação
de cidadãos e construção de uma sociedade melhor.

Sem mais para o momento, ensejamos votos de respeito e consideração.

Atenciosamente,

Rua Rio Branco n.º 835 – Centro - Tel. (34) 3661 – 1795 CEP: 38.184-024 Araxá-MG.