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BIBLIOTECA PIONEIRA DE CIENCIAS SOCIAIS i ROGER BASTID Ez ae atta Conselho Diretor: o ie Py As Religides Africanas Ruy COELHO no Brasil Contribuigéo a Uma Sociologia, das Interpenetragdes de Civilizagdes Luiz Pereira (in memoriam) José be SOUZA MARTINS Tradugdio de MARIA BLOISA CAPELLATO OLIVIA KRAHENBORL 3S" -Ecicao aati ea a OP a LIVRARIA PIONEIRA EDITORA i sro fugitivo levaré 20s indios de Mato Grosso, em lugares jamais tocados pelas missGes ctistas, o8 rudimentos do catolicismo, ‘Todos os fendmenos religiosos africanos da época colo- nial, ou quase todos, devem ser interpretados através desse lima de resisténcia cultural; mas a resisténcia nfo é um fend- ‘meno normal: produz distoredes, cria estados patologicos, en- Gurece tanto os espiritos quanto as instituigdes, Uma certa interpretagao marxista do estado de escravo fugitive nfo nos pareceu possivel; a resisténcia mio foi apenas essencialmente dima resisténcia econdmica contra um determinado regime de trabalho, mas a resisténcia de toda a civilizagio africana da qual 2 dureza do trabalho servil inten : a prova esté em que a religiio aqui nfo aparece, como hoje, separada do resto da vida social, mas, sim, como no pafs dos ancestrais, ein estreita interpenetragio.’ F por meio da concep~ go marxista da luta de classes, porém, que se pode melhor compreender a matureza do estado do escravo fugitive com a condigao de definir a classe em toda a sua complexidade, néo 56 pelo regime de produgéo, mas pela sua cultura propria, Deste ponto de vista, constitui a primeira etapa desta luta a segregagéo da plebe no monte Aventino. Uma segunda etapa eve seguir: a da revolugdo armada; se os quilombos definem melhor as formas de resisténcia dos séculos XVII e XVIII, as revoltas constituem, por sta vez, a. forma caracteristica do século XIX. Capiruto IV O Elemento Religioso da Luta Racial Vimos 0 lugar que ocupava a religifo nas insurreig6es dos escravos contra o regime servil. Mas nem todos os ho- mens de cor eram escravos. Nas cidades priacipalmente for- mou-se pouco a pouco uma plebe composta de negros liber- tos dos mulatos artesfios, milicianos, soldados dos regimentos dos Henriques... e, se bem que ela constituisse a camada mais baixa da populacdo livre, formava, em relagéo aos escravos, uma camada superior na escala social Esta populagao urbana era uma poptlacio marginal. De um lado, pelo trabalho livre, aproximava-se dos brancos e, de outro, pela cor, era rejeitada da verdadeira sociedade. Devia, portanto, scfrer por causa de sua condigio racial, c, jncidente, todo © ressentimento recaleado, todas as, suportadas em silencio, 6 explodir em insurreigdes cadticas, Nesse que vamos agora estudar, pode parecer fo cxerga grande funcdo. A simples pase sagem do regime s a a plebe urbana era, no fundo, uma ascensiio, ¢ numa s je onde os brancos dominavam, subir era forgosamente assimilar-se a eles, perder, sob a cor, tudo 0 que 08 antepassados tinham trazido consigo da Africa “barbara”. ausente dessas insurreigGes? 1798 e € conhecide como “Conspir porque alguns de seus membros ¢ seu chefe cram alfaiates, ou ainda “Conspiragio dos Biizios”, porque seus membros se Feconheciam por essa concha africana que traziam pendurada num colar.@) Os conjurados cram todos pessons humildes, alfaiates, carpinteiros, pedreiros, obrei- ros, mulatos ou negros livres e mesmo escravas; destacam-se sOmente-desse-fundoescuro um notério, um professor de latim, «@ priori que a religi 7, Ve CORREA, Mate po Bit's, Peimcipelmente 44L ‘um tenente de artilharia, talvez sacerdotes estes foram soltos por falta de-provas. Os conspiradores de cor nfo eram igno- tes: dos 9 eseravos detidos, um s6 era analfabeto; os mu- 10s € 08 negros Ii sm todos ler; conheciam as idéias Ga Revolugio através dos oficiais franceses que estavam na prisio, mas com direito de sai, © com os quais se encontravam vin agapes fraternais; o escravo mestico Luiz Pires tinha um fivro manusorito para “desiludic as pessoas da reli divida tradugdo-de algum filésofo do século XVILL. ‘Nao obstante a posicfo do homem de cor, a nao é uma revolta de raga, mas de classe. & uma re dos deserdados da vide contra a ordem existente. Os atos de poahora mostram que ti vvelhos, roupas uusadas e seus instru yuidagio| nfo ul ‘trapassou a quantia © nico que possuia ‘um ponco de dinheiro liquide nfo.tinha.raais de 8§000; elguns Viviam mesmo da caridade piblica. O que desejavam era um regime de liberdade e de igualdade para todos: ‘Tomai coragem, povo da Babia, dizia proclamagéo que tinham afixado nas pragas ¢ naa igrejas, o dia feliz de nossa liberdade Jhepe’o momanto em que seremos todos irmdos, em que seremos ‘todos igual Mas, na medida em que a classe dos arteséos pobres era reerutada entre as pessoas de cor, a reivindicagdo racial se-fazia Juntamente com a reivindicacio social. & por isso que. po- demos perguntar se algum elemento religioso néo se introduziu em seu protesto, "A impresso que se tem, quando s¢ 16 03 documentos do ‘processo que pés fim A trama, 6 a extrema confusio dos pen- Eamentos entre os préprios conjurados, alguns ateus, ov, no i tacos nas fontes da filosofia do Tu- vom-digeridas, outros camo Manuel fom quem se encontrou, ao lado de tiberais, uma considerdvel coleefo de oracées, profun- Gamente religiosa. Eniretanto, parcee ter sido uma idéi ‘num a todos, a da separaco da igreja brasileira da igreja de Roma, a fundagéo de uma igreja nacional independent chamavam de “Amerina”, O que a caracterizaria soria de estar aberta ao homem de cor e nfo unicamente aos brancos. 0s brasileiros escuros podiam ter suas confrarias: porém, essa separagio de céres sciéacia de igualdade dos cons- piradores, que protestam, num documento encontrado com Luiz Gonzaga das Virgens, contra o fato de mulatos ow negros “nio serem admitidos nas corporagdes da igreja pliblica”, a eles somente sendo permitida a formaco de suas proprias “ca- ares feitas com seu proprio dinheiro © & custa de trabalho” e que ndo séo reconhecidas “da mesma essén- cia” que as confrarias do Santo Sacramento, 2s ordens segun- dase terceiras dos Franciscanos, “Domi pretendia dar as pessaas de cor “o seatimento de espi consciéncia de raga. ‘A Conspiragao dos Alfaiates malogrou. Porém, 0 protesto jombolas ao da insurrei¢ao po- te nessa linha. Encoatramo-lo vvinte anos depois, na agitaclo comecada em Pernambuco em 1817 e que devia continuar até 1824, originar a proclamagfo da “Confederagio do Equador”, o primeiro grande movimento de independéncia dos brasileitos contra o regime absolutista do Império, ‘A revolugéo de 1817 foi uma revolucdo politica © no social. Proclamou a inviolabilidade da propriedade privada, tu proprietérios de escravos e brancos nativos contra ". Todavia, alguns homens de cor, de tendén- ic”, a lado para Portugal mudado, organizou com os brancos 0 partido do: * que assumiu a lideranca da revolta de 18: era muito popular eutre as yossoas bumildes © os soldados de cor, arrastou para 0 movimento batalhGes de mulatos © de nogros. Uma junta popular foi designada, mas bem depressa transformar a Tuta Manuscrtto do Arquivo de Bente, tneonstti: “Grasp. ose vale avant. AVALMO, Retudor Permambucaros, p epee eegn Pde AMARALy Bic [ | reigéo; assim, 05 revolucionérios brancos tentaram se livrar- de Pedroto, tirando-Ihe o titulo de comandante de todas as Forgas ‘Armadas, Sua popularidade, contudo, era tal que saiu vencedor ¢ foi a Junta que finalmente teve de resignar, nfo ele. O pro- testo racial podia, agora, se manifestar livremente, ‘Conta-se que Pedroso gostava de comer cercado de negros ‘e de imulatos, tendo estreitada contra si uma negra, a quem ‘Gizia: “Sempre amei esta cor, € a minha raga”,@) Na cidade, ‘abandonada pelos brancos, que tinham fugido ou que se en- contravam entocados em suas casas, a populaga de cor, bébada ¢ seminua, vagueava cantando: preciso acabar com Qs marinheiros e os brencos! 86 o mestigos ¢ 08 net Devein habitar esta terra! Pduco durou este breve periodo de exaltagéo, chamado 0 ‘govirno dos “Matutos”. © exército regular destruiu a rebeligio; os batalhGes de negtos e mulatos livres abandonaram-na quase ¢ Pedroso f0i feito prisioneio. ‘No fundo, nfo obstante a presenga de negros livres, quando ‘bem se examinam suas estruturas, essas revoltas so mais de mulates que propriamente de negros ¢ explicam-se imais pela io marginal do mestigo, preso entre duas culturas, ao mes- ido pelo branco e pelo escravo, que por um stante pronunciado. A prova disso temos no fato de que o exército regular foi ajudado em sua Iuta contra (8 revolucionérios pelos senhores de engenho assustados, sendo Que as tropas desses senhores eram formadas por seus colonos, xm por seus escravos,(?) ‘Temos ainda uma fi que devia surpic ite, Os superexcitados para que a calma seguida, A noticia da insurrcigio dos que foi conhecida no Brasil, fez com que © 10s (sempre eles), comandados por Emi- se sublevasse ao canto do seguinte hino: SOEREYE Repito ¢ Tredipao, pp. 108-0. ‘povo soberano Mas desta vez a revolta no se espalhou. A insurceigho degenerou em banditismo, sendo Recife saqueada, restabele- cendo a ordem na cidade os negros do regimento dos Hen- que avangamos no século XIX, as revoltas to- mam um cardter social mais acentuado. E que o regime im- perial, permitindo a luta dos partidos a tomada de uma forma legal, nao restava outra forma através da qual os infelizes pudessem fazer ouvir sua voz. Ora, como a plebe na sua maioria composta de pessoas de cor, veremos 0 protesto racial se foduzir no protesto social. Isto ja é bem evidente na revolta “Cabanos”, das “pessoas sem terra” do Ceard Iutando contra 0s proprietérios brancos. Porém, esta, revolta nfo nos interessa porque af o elemento dominante é 0 indio. Em com- pensagio, a dos “Balaios” (1838), em que domina o africano, deve nos interessar.(?) Havia entio no Maranho dois partidos, 0 dos conserva~ dores e 0 dos liberais, conhecidos como os Bem-te-vis. Esses apelaram para um grupo de barididos, composto de homens de solavam 0 sertio, a fim de ajudar na luta contra seus adversirios. Este bando fora organizado por um negro, Rainmundo Gomes, alcunhado de “Figura Negra”, que, tendo ajustar com a justiga, fugira para o mato ¢ levara junt fugitivos de seu tipo. Entretanto, fora bem sucedi mente em aumenté-lo, apelando para as reh Conclamava 0s escravos 2 deixarem seu contra seus senhores; assim, transformou pouco a pouco seu bando de pilhageus numa hoste desejosa de redengéu social. Entre os que se uniram a Gomes, encontrava-se um negro cha- mado “Balaio", porque fazia cestos ¢ que, dizia-se, ofertara a sua cabana parn hospedar o oficial encarregado de perseguir os bandidos, © fara recompensada por esse seu gesto aqucla noite com a Yiolagao de suas duas filhas pelo dito oficial. Bem de- alaio” se tornou, por sua crueldade, por suas faga~ verdadeizo chefs desse exército que compreendia Joat\ GONGALVAS Di MAGRLHAES, Hrolugdo da Provinela Go Mazennio negros, também mulatos, como 0 qui” e brancos, ¢ que chegou a reunir até 6 000 homens. Os Bem-te-vis chamaram a Caxias o “Bal af 03 desembaracasse de seus adverséios, ndo foi para tomar partido numa. disput ganhar duplamente, como bandido, pilhando uma se Ihe oferecia e como homem de cor, vingando-se dos brancos. O prefeito de Caxias defenden sua cidade, mas esta foi facil- mente tomada e entregue & pilhagem. O que nos interessa, to- fia, nfo € este elemento de banditismo, se bem que sj ‘mas 0 protesto racial que af se fez presente. O B: tomava em cada cidade que ocupava uma mulher branca e, quando ela nfo mais the agradava, mandava chamar um padre paca casé-la com um de seus negros. Houve cenas de selva~ geria que ndo se podem entender sento por édios racisis de hhé muito nutridos no siléncio, como a de abrir o ventre de um homem je cosé-lo novam acial quando nos diz que 0 ponto de partida da “Balainda” lei que modificava as atribuigdes de certas autoridades judicidries, correndo 0 boato em todo o sertéo de que os eriam “escravizar” de novo todas as pessoas de cor res). Mas, o banditismo leva finalmente vantagem sobre este ddio do negro outrora maltratado: os brancos ttm a vida poupada quando oferecem um grande resgaste. Se 0 1 fora preponderante, o Balaio nao teria esque~ nna mesma 6poca, perto do litoral, entre os rios Tutuoi e Prid, na fazenda Tocangura, um quilombo de 3.000 negros, cujo chefe Gomes se intitulava “o imperador do Brasil”. Ora, ele no pensou sequer um momento em juntar cessas forgas 2s suas. O conjunto de escravos na provincia per- angiilo, continuou seu trabalho. na fidelidade aos ‘Se olharmos para tras, seremos levados a notar, todavia, aque, através das lutas polititas e econémicas, uma grande trans- formagéo se operou, O recrutamento revoluciondrio vai se processando sempre nas camadas cada vez melhores brancos, passou sucessivamente aos mulatos, depois aos depois aos soldados e finalmente & massa anal- ip0, como a revolia dos Praieiros em 1848, em que quiseram expulsar os portugueses, chegando mesmo a mas- timas_sublevagGes em que aparece 0 homem de__ distribuigio de terras; (#2) 2 dos guabirus, em 1848, da mesma. forma dirigida contra a: imigragdo europtia. Na realidade, é um fato comprovado que em todo lugar em que 0 acaba por ultrapassar 0 artesfo de cor, ‘mulato ou negro livre, que vive placidamente de seu pequeno oficio, A luta dos guabirus 6 a luta dos mestigos ou dos negros possuidos pela fome contra os “ratos” brancos que vém tomar- slhes seu ganha-pao.() Houve também em Minas uma insurreigfio, em 1820, menos conhecida, mas que apresenta um carter assaz especial: foi uma insurreigao legal. Quando Portugal adotou uma Cons- tituigdo democrética, os pretos das lavagens de ouro de Guaracaba (Cuaraviaba), Santa ita, Camtagalo e de Saragus (SabarA?), auxiliados por um fazen- ddeivo muito rieo, tatabém proto, nas mangens do rio das Mortes, reunides em 0 Fanado, fizeram preclamar a Constituigfio em todas fioose n estes 21000 negros, a ‘Matavam sem piedade o Campo da honra derramai a tltima gota de Sangue fo que fizeram 08 nossos irmfos de Portugel 8 mesma, qué deparamos no Rewie ¢ na’ Bi nfo tardou a chegar: proprietfrios bispos, tomaram armas e destruiram 0 movimento, afoga num mar de sangue.C) © elemento religioso ov cultural, que desempenhou papel bos, parece ter desapa- mage GUBTEAL, A Bey Ui bisonins da Terra ¢ de Gente do Bras, pp, ie, 7.29 4, do mesma autor, 30,,A ray ido arauivo eo © nimero de revoltosos no ultrapassou certamente a cifra de 1500,” ai compreendidos negros fetichistas que se tmiram depois aos muculmanos. A insurreico tinha sido bem preparada'e devia iromper na noite de 24 a 25 de janeiro, em gue toda a populagao de Salvador vai a Tgreja do Bomtim, dei- xando a cidade quase deserta, A cidade seria dividida em 5 ‘grupos, que deviam atacar em ordem sucessiva, Iangando, dessa forma, a confusdo entre os soldados, até que estando a caserna da cavalaria tomada, os negros subiriam até a Igreja do Bom- fim para af massacrar seus senhores brancos e, diz-se, elegerem no se sabe que rainha misteriosa Mas, 20 anoitecer do dia projeto 6 denunciado por uma nag liberta. Precaucdes sfo tomadas, a sede dos revol- tosos, uma casa préxima da subida da praca, é cercada, por os africanos que af se haviam refugiado, escapam repentina- mente, matando alguns policiais ¢, assim, a rebelido comeca, Nao cabe a nés aqui contar todos os detalhes desta noite genta, De manhizinha, estava acabada, os conjurados motos, prisioneiros ou refugiados na floresta. As “nagGes” de negtos pesos revelam a parte preponderante de muculmanos no movi- mento, como dissemos, estando, todavia, os “fetichistas” junto a éles. De fato, contavam-se entre éles: 165 nagis, 3 grimas, 6 géges, 21 haussas, $ bornos, 6 tapas, 3 cabindas, 4 congole: 1 camerunés, 1 barba, 3 minas, 2 calabares, 1 jabu, 1 benin, mundula ¢ também uma mulata e 1 cabra, ao todo, 220 homens ¢ 14 mulheres, Esta insurreigéo de 1835 devi entender esta revolta em comparaglo com as ant resolver 0 problema de saber se essas revoltas de negros. tém cariter de como a Cabanada © aspecto de ver- religiosas.C°) gio desempeahou papel preponéerante nesta evolta, desde 0 infcio, foi tao evidente que 0 relat6rio do chefe de policia o pressentiu desde 1835: Negro da Banta, p. 108 8 eee 150 Posso desde J a provinela, que a insurreigao estava tra com’ um sogredo Goviamos esperar de sun brutalidads ¢ ignorancia, Em geral vio (quase todos sabendo ler e escrever em earacteres desconhecidos aye ze assemelham 20 Arabe, usado entre os ussés, que figuram fer hoje combinado com os’ nagd: (...) Existiam. Gavam ligcee @ tratavam de organizar na qu: forros africanos e até negros reos. Tém si ‘a0 presidente muito tempo, perteclam aos choles 0 estudo de ‘ocess0 levou priméiro Nina Ro- drigues, depois Bticnne Brasil ¢ Arthur Ramos a defenderem fa tese do carter essencialmente mistico da sublevaco de 1835. ‘No comego, os chefes do movimento sé0, na matoria, sa~ cerdotes ou miestres-escola, porém sabe-se que o ensino mu- ‘oso, Pedro Luna era Alumé ou isto é, marabu, e assim era também Luis “Sanim na sua Tapa”. O nagé Pacifico, Licutan entre os seus, era pelos dos chamado de 0 segunda ‘0 depoimento do carcerciro, negios © negras “que se > the tomar a béngio”, O lugar que ocupava no coracio de todos 05 mugulmanos da Babla pode ser avaliado pela tentativa, que malogrou, de um assalto 4 prisio para liberté-lo © pelo ‘para conseguir a soma necesséria para The con- dade. © carcerciro conta também que um nego, fque com ele flava através das grades de sua cela, disia-the Que niio se afligisse, pois, "quando acabasse es ha- viam de ir 1d para que ele saisse liberto de uma vez". Nina Rodrigues, que analisa esse documento, acrescenta: nsurreigéo e & gua dependéncia da medida propi- fons maorietenos ou malés revela-se aqui em plone © aluté Dandera tinha uma escola na cidade baixe: Bra mestre em saa terra, declarou cle, © aqui tem ensinado ‘os rspazes, mas nfo € para mal. 151 deste conjunto novo de revoltas, onde 0 econdmico & essencial que 2 mistica, onde a reivindicagdo racial est essencialmente unida & reivindicagdo social ‘Todavia, houve ao lado desses insurreig6es, outras revoltas, mais de escravos que de mulatos ou de negtos livres, aos quais, se uniram escrayos fugitives quilombolas apenas por acaso. Passaremos 2 examind-las e vereinos que o elemento religioso vai retomar, 20 contrétio, toda suia importin -Essas sublevagies foram obra Imente dos negros mugulmanos. A primeira, que foi impedida antes mesmo que estourasse, ocorreu em 28 de maio de 1807. Os haussas ti- ham designado em cada um dos bairros da cidade de Selva- dor um capitéo para comandé-los e um embsixador encacce- efetuar a ligago entre os escravos. O minimo que jonavam era massacrar toda a populaca branca, segundo sonforme outros, por fogo na capcla de Nazaré ¢ apro- veitarem-se da amotinagfo que se seguiria, para apoderar-se de alghmas embarcagées e voltar para a’ Aftica. Contudo, foram. traidos, provavelmente por um negro de outra nagio; dez dos principais capities foram presos antes de terem executado seu plano, e — 0 que principalmente nos interessa aqui — descobriu-se na casa de um deles, além de armas, “certas composi¢6ea supersticiosas e de seu tuso a que chama- ‘yam mandingas, com que sc supdem invulneréveis e a0 abrigo de qualquer dor ou ofensa”. ‘Em 1809, uma segunda sublevaco. Desta vez os haussas aliami-se aos nagés; os escravos urbanos ¢ rurais procururam refigio na mata, de onde saiam para roubar, incendiar, assas- ia que se seguiu devia revelac @ téncia de uma sociedade secreta desses escravos, Obgoni Ahogbo. Ora, as Ogboni e as Oro, cujos chefes so os Ologbo, enquanto Abogbo 6 uma de suas divindades, sfo- precisam sociedades secretas africanas que, como se vé por ess munho, foram reconstituidas no Bras afticanos. Por certo, os africanistas caréter dessas sociedades, que est persen justa razio que esta atividade politica & secundaria (¢ a prova std em que as Ogboni nao tém vor nos assuntos da cidade), que essas sociedades, que tém a mesma natureza das conf dos deuses, continuam com o culto da Terra-Mée (culto mais ‘antigo que o dos orixés e por este encoberto). Assim, ainda te descendentes dos ram sobretudo no am encarregadas de 148 aqui, € em torno da religiéo que se articula a revolta dos negros contra os brancos.( Em 28 de fevereico de 1813, 600 haussas das fazendas de Manuel Ignacio de Cunha Menezes, J. Vaz de Carvalho © de ouiras vizinhas queimaram suas senzilas, marcharam sobre a povoagiio de Itapos onde se reuniram aos negros do luger, mas- sacraram os brancos que lhes orén final ses einen pea cope Oc eeeatogalce ‘ambém, sendo na revolta, pelo menos no movimento dos espittos que’ preperoa al de associagéo para jomingos, sob a presidéncia de um do, para queimar na praca de Salvador efigies de af discernit um processo banal de magia i ério, 0 ritual e antes da entrada fem campo para destruir, por antecipagdo, o poder dos se- hores inimigos. Em 1826, ainda mais duas tentativas. Em abril, uma tentativa abortada, mas onde era fécil discernit a existéacia, na base, do fator religioso, Foi feito prisioneiro, incapaz de fugir por causa de seus ferimentos, um rei negro, coroado de um capuz adornado de fitas, 0 corpo envolto por um manto Bm dezembro, alguns ind cura de negros fugitives que tinham formado um quilombo entre a estrada de Cabula e © baixo Urubs, O encontro foi jou-se uma negra gue afirmou que os ado uma insurfeico geral na Bahia para fe parece que o que dizia era verdade, da considerar € que 0 centro do quilombo ¢ o lugar de inspiragio da revolta proje- . era uma casa de candomblé, isto é um templo da reli fetichista afro-brasileira. Duas pequenas 1 © em 1828. Assim, chegamos & mais grave das insurreigies ¢ de todas a mais conbecida, a de 1835, fenda, encontraram-se uma tinica guerreira ¢ um rosfrio preto sem cruz, tébuas € papéis escritos em caracteres frabes. Havia, também, a escola de Manuel Calafate, Aprigio Conrado, A polfcia af apreendeu entre outras coisas 6 sa- quinhos de couro que serviam de amuletos. Na casa desses chefes reuniam-se os conjurados, sob o Pretexto de festas ou de dances, para preparar a revolta, E esta preparagio se fazia sob 0 signo da propaganda mugul- mana. As testemunhas chamadas a juizo esto de acordo quanto a esse ponto. Gaspar da Silva Cunha afirma que os manus- ctitos que se the mostra sto de rera, pois andavam a persegui-lo para que os aprenda ¢ de de ouvir missa como costumava. Mareelina diz cqwe os papéis achados sfo de reza dos mals, excrios ¢ foitos mestres que andam ensinando. ates mestres sho de nagdo hat erste oF nage nde saben ¢ fo cnvoeados pare aprendst yor w.). Eles a abor- Os conjurados s6 se falavam em lingua ioruba ou nag6, chamando-se por seus verdadeiros nomes ¢ nfo pelos nomes ctistios que Ihes tinham sido atribuidos: 0j6, Ové, Namosin, Sanim, Sule, Dadé, Aliard, Edum, 3s foram conservados. Alguns so planos de rebelides, escritos em lingua drabe. Porém, muitos so do- cumentos religiosos. O escravo Albino, que os decifrou para A justiga, afirmou: ‘que 0 segundo Iho const para o fim também de guardar 0 corpo qualquer arma, e contém oragées que, depois de pace sao lavadas para ge beber a égua que lives das que 0 sexto-é uma espécie de proclamagio para ajuntar gente, ‘com sinais ou assinaturas de varios e assinado por um nome Mala -Abubakar, afirmando que ontecer coisa algums no ‘caminho, por que hio de passar livremente; ventanto, em dar 2 seu banditsmo rafzes mist vinte vezes, © quo a outra, a eserita era a segunda ligio de quem aprends a eacrever.(18) 6 que a roupa da revolta nfo itgica, gabfo branco com cinto e azul e~turbante ta e em vista da obtencio da série de dados que permitem afirmar que a revolta dos nagis ¢ dos haussas foi, na Bahia do inicio do século XIX, uma verdadeira guerra santa dos mt gulmanos contra os 1 Contudo, esse ponto de vista foi criticado, recentemente, por um historiador das rebelides de escravos na América, Aderbal Turema. A distingdio que fizemos entre os movimentos populares e nati i outro, nfo the pare retomando em soa causa, a célebre distingio marxista, a mistica do € para ele sendo meta superestruturaideolépic, sendo que Tudo 0 sobre 0 movimento de revolta dessa manciza, ainda hoje 0 ‘usa “fechar © corpo”. para estar 20 abrigo das balas da policia. Ningiém "a 0 pro um poten mento de propaganda ou de revolts, Porém, 0 € a expropriagio das terras dos brancos ¢ sua posse pe . ‘agds: a negra Edum, a quem Sabina pediu para ver seu amante numa reuniio de conjurados, the. respondeu: “Ele s6 sairé quando for a hora de tomar’a terra”. Assim, as superestru- turas mugulmanas ¢ catélicas nfo fazem senfio refletir 0 anta- ggonismo subjacente dos interésses materiais de escravos ¢ de senhores.(*7) B evidente que essas insurreigdes exprimem sentimentos variados e complexos. H4 um-elemento racial: os haussas ¢ ‘os nagés, que na Africa eram senhores de escravos ¢ de terras, nao podiam accitar para si proprios o estigma da escravidéo. Esses povos corajosos © aguerridos nfo podiam se submeter, o elemento étnico sendo ao mesmo tempo um elem igioso, jsso porque @ heranca social de poderio ¢ de militarismo que receberam era uma heranca mugulmana acunmulada pelas guer- ras seculares contra 0s negros constituindo, con- seqllentemente, cruzadas religiosas.(##) f claro que hé também tum elemento econdmico, Mas nfo é a escravidao em si mesma que essas revoltas qucriam destruir ¢ sim, dnicamente, a escra- vidio por esses cies cristios dos filhos de Ald, ¢ se queriam apoderar-se das terras nfo era para as trabalhar mas para nelas fazerem trabalhar os negros crioulos ¢ 08 mulatos. & 0 dio do muguimano que faz surgir a revolta e no um sentimento de consciéncia de classe por parte dos deserdados. O erro de ‘Aderbal Jurema esté em ter dissociado a cultura em seus ele- ‘mentos para procurar o fator causal entre essas partes culturais ‘ou sociais dessa maneira desagregadas. & bem verdade que 0 proprio regime de escravidio tendeu, pelo contato, entre as ‘versas tribos africanas obrigadas a trabalharem juntas © ruptura com o habitat original, a dissociar o cultural, e pelo sineretismo, @ fazi-lo perder sia unidade pr ‘vimos, os mugulmanos continvayam 2 ter suas escolas © seus jugares de orago, a tradi¢do mantendo-se viva entre eles. De freqiientavam 08 outros escra- ‘negros “fetichistas” ou cristios viviam isolados ¢ arrogan- Daf, nfo devermos considerar uma infra e uma super- que toda civiizagtio em geral fque este centro de interesse na civilizagdo mucuimana é, como todos sabem, 0 fa ioso, entdo a revolta de 1835 ‘nos aparecerd como ira guerra, dirigida contra os cristaos em todos os planos, quer econdmico quer porque a economia dos brancos era uma economia de Nio devemos esquecer que havia entre os conspiradores possivel para muitos deles, Mas, como diz Alain, se & possivel transigir com os interesses porque tém sempre alguma coisa de racional, € impossivel transigir com as paixGes. Eo fana- tismo ndo deixon de arder no fundo desses coragSes indomé- veis. A religiio no colore a revolta social, est mesmo ma esséncia dessa revolta, Cariruto V Os Dois Catolicismos A resisténcia da civilizaglo ¢ da religido africanas nfo de todavia impedir a aco do melo catdlico am acd ou essa do mais ou menos profundamente com Somente o catolicismo do escravo da época colo: senta particularidades interessantes que nos reconduzem uma outra vez ao nosso problema central, o das relagées entie as turas sociais € 0 jores misticos. Por conse- nos determos nesse ponto por um momento lo anterior os caracteres do catoli- ccismo brasileiro em opasicéo aos do catolicismo portugués; a provincial & capela do enge- doméstica com seus santos protetores, patronos do senhor, on dos diversos atos de sua vida familiar (So José balancando 0 berco do nené, Sta, Ana fazendo-o dormir no seio da nutriz, Sao Beato protegendo-o contra as picadas de grandes formigas venenosas...).(*) ‘Que Tugar ocupa o escravo nesta religiéo patriarcal? Sem divida, hé uma grande diferenca entre a escravidio antiga, onde o individuo € integrado por meio de uma ceri- ménia religiosa na familia de seu senlior, ¢ @ escravidéc colo- nial, onde 0 escravo representa um valot econémico, Entre- tanto, 2 similaridade do tipo familiar, o patriarcalismo, traz algumas miangas a esta oposigo fundamental, aproxima o escra- vo brasileiro do eseravo grego ou romano; porque ele também, numa ceria medida, esta integrado A familia e, por conseguinte, a seu culto. Mas a solidarieciade doméstica nao impede a diferen- ciagao racial social, donde a separaao do catSlicismo do Branco edo negro, Giberio FRETRR, Cosa-orende e Senssla, trad. 2, pp. 304-05, Exncontramos fendmenos andlogos em todo lugar onde se encontrem ragas diferentes. Nos Estados Unidos, 0 puritano protestante, sempre Avido de propagar sua f, catequizou o negro, porém, 0 culto deste era separado do culto dos brancos: duas ceriménias diferentes e, em getal, com sermées diferentes; a segregagdo se estendeu a ponto de determinar 0 aparecimento dé pregadores de cor, encarregados a edificagto de seus irmos de raga. Def, a existéncia' de dois tismos onde se exprimem as diversidades do tempe- 0, © protestantismo mais afetivo do negro ¢ 0 jo branco.(*) No México, a igreja toma aspecto tipico, a capela real sendo construféa ao lado da igreja ou, mais comumente ainda, a cayela principal sendo privada de uma de suas paredes laterais, de modo que dava simultaneamente para a nave da igreja ¢ para um pétio fechado ‘onde os indios permaneciam durante 0 sactificio da missa, Desa ‘manera, conciliavam-se a catolicidade da Igreja ¢ a separagio dos brancos, aos quais a nave estava reservada, dos indigenas conquistados, encerrados no pétio.(®) No Brasil, a capela se dividia comumente também cm duas partes separadas, © portico ea nave. A familia do branco se reservavam os os escravos permaneciam fora, sa do portico através das portas abertas. Por africano estava ao mesmo tempo unido e sepa~ protestantismo m: bancos da nave, enquantc assistindo & figs das cores. empregava-se uma sol capelao rezava duas missas em horas diferentes, logo de manhi ‘para os negros ¢, mais tarde, para a familia do senhor branco: eseravos que nunca ouvem Gouveia ao prior dos Je- ‘ainda que tenham nelas sacordotes que as digam, por serem jequenas, ¢ os escravos andam mus; e, pelo mau chelro, shores e portuguoses estarem nem dentro Jém disso, logo em amankecendo, nos dias Anpenare nas Capelas Braulelrse’, Revista do Servo 1980 pp. Aba ntos, vio busear de comer nos matos, por seus senhores niio Thos slo qua nos parece que seria de muito servigo de Nosso Senbor aleangar do Papa que estondesse 0: de dizer duas missas ao dia em_diversos lugares, mesmo lugar, em diversos” tempos. Uma, logo pela manhi, aos ‘4 aos portugueses, como se costuma. E so este erande bem, porque i ‘que Mio tim mais que © nome de“cristios (158 Se, desse ponto de vista, o Brasil se aproximava dos Festados Unidos’ e tendia & separagio dos nfo chegava, impedia 4 cont por um que possibilitow nos bem difer fem que apés a ues ch mam a separagéo tas de negros. Sen: exprimir suas rei- Quando se via um Verde ou de Ang conseguir poste peito era diferente no Beas Unidos, em que uma s6 gota de sangue negro basta para clas- sifiear um homem como negro; o mi asileiro, como jf vimos, podia se inserir facilmente numa sociedade mais ames- tigada, e se considerava, ele mesmo, mais como um membro © mulato 6 freqilentemente 0 lider de homens de cor;(*) este fato ndo se verifica, senfo raramente, no Brasil. © que resultou foi que a lideranga réligiosa agui pertencia ao branco e que 0 catoficismo negro se justapunhia ao dos seus senhores, numa csfera mais baixa da hierarquia, um pouco desdenhado e julgado inferior, mas ainda assim de natureza similar. Esta identidade de natureza ao lado da desigualdade de ‘grau se manifestou muito bem em toda a vida da familia pa- friarcal: O catolicismo com seus ritos ritmava o dia como seguia também o ritmo das estagbes, a ronda do ano. O escravo entrava nesse ritmo cristo a0 lado do branco, mas sempre numa posigfio subordinada, estando também bem indi- cado que fazia parte da comunidade doméstica enquanto comu- nidade religiosa, mas como um ser inferior © enquanto proprie- dade do senhot. Em suma, a estrutura da familia patriarcal escravista inibia o igualitarismo cristfo e se opunhe a0 desen- volvimento de uma das tendéncias caracteristicas da Igreja ‘Um observador anglo-saxéo, James Wetherel, fala da cor- tesia natural dos escravos, sempre solicitos a vos saudar quando ‘vos encontram.(®) E, de fato, se desenvolveu tanto no Brasil como nos Estados Unidos, para regular as relagdvs racials ¢ para marcar as distincias sociais, toda uma etiquéta que con- sistia de saudagdes es! c Mas, enquanto a etiquéta norte-americana era lima cat6lico: todos 02 santo ferupos de negros que a mlm estendiam as mos, pensava que exam mendigos. (1) Ora, esta toca. de polidez que exprimia, de um lado, a submissio do escravo, ¢ de outro, o caréter patemal do senkor, que de um lado os unia na mesma fé, embora ao mesmo tempo marcando -bem a hierarquia de suas respectivas posigies no universo da vida religiosa, se verificava nas fazendas nas di- vversas partes do dia, mais especificamente na parte da manhi 4 JE. JUNKER, Walter A, ADA, soll, aD. Ie tiguette of Rave, Relations. Join DOLLARD, ‘Carte end! cisas in a southern antes do trabalho e na tarde depois dele, momentos em que o rnegro se achava em contato direto com seus’ senhores. Na parte da manha antes da distribuicdo das tarcfas ¢ antes de partir, os negros cumprimentavam aautoridade com a mio, ajoclhando-se, outros no. esse ritual tomava.uma form na fazenda do Jaragua, de D. Gertrudes, visitada por Kidder.) ava somente com essas ava também « vida entemente, 0 escravo wa de seu culto mas ‘As grandes festas que estas de aniversério celebrada em lou- dos na capela, deviam ceriménias domésticas, da fazenda durante o ano estando integrado na faz sempre na mesma posicio inierrompiam 0 trabalho eram, de a familia senhorial, Uma missa era vor ao senhor; os negros no eram ad permanecer fora, mas celebravam o fim da missa cantando jum hino, as vezes em sua propria lingua.) Em seguida vi- nham as festas agrérias, a da colhcita nas plamtagoes de café, 1 do comego da moenda nas plantagées de cana-de-agiicar. Melo Moraes nos deixou, datando da época imperial, uma descrigdo desta tiltima festa, Em abril, os escravos puoham tudo em ordem, tudo: a casa, 0 patio, 0 engenho, Na véspera da chegada do senhor, enfeitavam tudo ‘com flores, ramos verdes, arcadas, guirlandas entrelagadas de bandeiras, enquanto os ¢; Zinheiros de cor preparavam o banquete, ps sacrificado um boi, carneiros ¢ imimeras gt seguinte chegava o senhor cercado de seus parentes, de seus amigos, seguido do vigirio, ao som da-'milsica local. Dizix-se a comegar a moenda antes de 0 engeaho ser as méquinas se quebrariam, as gariam, os esctavos morreriam, ou , uma desgraga atingiria a familia do fazendeiro. Na capela cheia de gente, o pacre dizia a missa, indo depois benzer A, BRANDAO, “oH Bo fo engenho: Quando ele jogava a gua benta, 0s negros se pre- cipitavam a fim de receber a maior quantidade possivel pois eriam que essa pua tinha para eles poderes miraculosos de ‘protecdo.() As primeiras canas eram colocadas cerimonio- Samente sob a m6, bebia-se o primeiro suco do moinho ¢ a festa terminava num grande sse “baile do agicar” estava subordinado A estratificagdo social, .os brancos enquanto os escravos, por outro lado, se in maneira.@") abalhava nos dias santos; participava ainda desse grande ciclo de festas que vai desde 0 semana santa, Mas sua festa, coincidi com a de seu senhor, perma ‘memorando-se segundo outros manifestava melhor ainda pelo faio de que se o negro devia se alegrar quando 0 branco se regozijava, em compensacio, 0 bbranco permanecia & parte das prOprias festas religiosas do negro, dessa maneira significando que ele, 0 negro, devia ten- tar elevar-se respeitosamente religiio de seu senhor; este, por sua vez, néo tinha de descer até 0 catolicismo de seu escravo. Por exemplo, o convento de Olinda, que tinha uma propricdade de uma centena de escravos, consentia em deixé-los celebrar sua padroeira Nossa Senhora do Rosério, Os negros se entendiam paca nomear um comité, encarregado de fornecer as velas, de Dreparar 03 fogos de artificio; designavam um ecdnomo para Controlar. as despesas ¢ cotizavam-se a fim de redolher os 8 necessérios. Se um branco aparecia era somente para c em disputas e contendas.(2) Bm outras fazendas, o proprietério até mesmo contribuia para as despesas e 2 noite dava uma breve volta entre as rodas de seus servidores que dancavam desenfreadamente. Esta separacio religiosa forcou o negro & consciéncia de sua faga, como A procura de protetores especificos, mas sem- pre sobre um modelo que Ihe era oferecido pelo culto doméstico ‘que, como dissemos, era essencialmente um culto de santes, Dessa forma 0 catolicismo do negro foi, como as religides africanas, em certa medida, uma subicultura de classe. E pre~ ciso, pois, estudé-lo se quisermos compreendé-lo, da mesma forma que estudamos as religides africanas, isto &, sob uma dupla perspective. Uma perspectiva sociol6gica: a das relagies ettas «| Tradigods, pp. 271-0 168 ~-dlonhe, imposta pelo grande 'propt centre os brancos ¢ 08 negros, na estrutura dualista da sociedade, relagGes de exploragdo € de dominio de um lado, de resisténcia : a das relagoes a” de classe e a civilizactio do branco ou, prefere, definir os valores, as normas, as representagSes, col proprias. d mo negro, Estudemo-lopri- do Rosério, nas capelas dos engenhos.@®) So Benedito, em 1589, imediatamente depois de sua morte passa por maturgo 'e, por causa de sua c6r, torna-sc logo 0 pr de Gusmao, mas estava fora de moda, sendo restabeles tamente nas época em que os domi is meiros missiondrios para a Africa; daf, sua introdugfo © sua generalizagdo progressiva no grupo de negros escravizados.(!2) Esses fatos bem indicam que o cuto de santos negros ou de Virgens negras foi, de inicio, imposto de fora 20 africano, como uma etapa da cristianizagio; ¢ que foi considerado pelo senhor pelo ou do cura; o ptimeiro fiscalizand Chicote, 0 segundo enfraquecendo 0 est sua cruz; acrescenta 0 autor que & por est gelizago do africano permanece tdo superti Cumpre sua miss4o por amor, mas como rio ¢ em seu beneficio Nio é de se admirar que nessas condigdes o homem reagisse no Brasil exatamente como nos Estados Unidos © que transformasse esse catolicismo, do qual se queria fazer jum meio de contréle © de integragdo numa sociedade que o 1a obrigacfio enfa- < em concorréncia ‘maltratava, num instrumento, pelo contrério, de sol Gtnica e de reivindicagao social.) O dualismo do catolicismo fe esta metamorfose de uma religiéo de controle social em uma religiio de protesto racial se intensificario ainda com 0 éxodo. dos campos & cidade, pois que, como a cidade 5 lagos que ligavam, no-Brasil rural, numa mesm: dade, a familia patriarcal, as cores e as posig6es sociais, ‘Por certo, existiram nas cidades do séeulo XVIL © comego do século XVI, corporagées de oficios que poderiam ter reu- nido brancos inferiores ¢ negros livres. Mas a carporagéo nio assegurou no Brasil, entre os trabalhadores de um mesmo ramo, a estreita solidariedade que encontramos na Europa. Bla de- sempenha wm papel nas festas; as profissGes se dividem em grupos, cada qual desempenhando fungéo diferente. Por exem- plo, no século XVITT, em Séo Paulo, em honra ao nascimento Ga princesa, os carpinteiros fazem a contradanga, 03 sapateiros a danga des Espiritos, os marceneiros constroem um grande arco de madeira do qual formario a tripulagéo, os alfaiates constroem também um carro, 0s ferzeiros e os seleiros se mas- caram... Mas, parece que, mesmo nessas festas, a raca se separa do offcios os mestigos segucm. sem duivida os patrécs bbrancos, mas a parte. Por exemplo, os taberneiros fizeram ‘bém um carro e este era seguido pelos Caianos e pelos crioul dangando a danga do Congo.() Dessa maneira, 0 offcio nio chega a aproximar as cores numa vetdadcira comunbio. reli- siosa, ‘Mais importante ainda que a corporagio € a confraria urbana, Ocupou ela lugar preponderante sobretudo na religiio das Minas Gerais. Enguanto no Nordeste dos engeahos do séoulo XVII a religiéo é uma religiao doméstica, nas minas do séoulo XVI a io € wma religifo de confraria, Con- frarias extfemamente numerosas, ciumentas umas das outras, , para ver qual omnaria methor sa ca- pela, qual teria mais poder, qual setia a mais rica, Os homens, Ge cor se contagiaram por esse movimento; organizaram também confrarias calcadas no modelo das dos brancos e, assim, o con- vai se dissimular sob 0 manto da teligigo e a opo- igio étnica vai tomar aspecto de uma luta de sociedades reli- iosas. ‘As confraries de brancos estabeleciam estatutos que proi- jain 0 acesso, em suas associagbes, 203 negros, aos mulatos € i) G. FREYRE, Sovredos @ Musambes, p. 11m 41, Sh SME TAUNAT, Sov a1 Rey tous’ Senhor, p26. 164 mesmo “2s pessoas casadas com individuos de cor, Sem diivida, numa sociedade em que a populagao feminina era pouco nu- merosa, 0 nimero de pessoas brancas que vivia em coneubinato, com mulatas era grande, Isto era de comhecimento geral'e tolerado pela opinio piblica, O que era proibido ago era a Unido ilegal e sim o casamento desigual.(®) As pessoas de cor ram, portanto, obrigadas a pertencer a confrarias préprias & sua cor. A separagio era to radical que se acabou por dar a cesses grupos os nomes de “igreja branca” ¢ de “‘greja negra”. surgiam uma contra a outra, em perpétua itos de precedéncia nas prociss6es ¢ nos enten ” ou mesmo contra 0s de sanguc man- to fechado encimado por eacos de vidros tando penetrar nos santuérios mais prol- aristocrdticas, mais fechadas, como a dos Franciscanos, pela asticia e pelo bumor. Citamos, a titulo de exemplo, 6 caso da célebre disputa entre @ confcaria do Cordio de Sao Francisco e a Ordem Terceira dos Francis- ccatios; 0 Papa permitira em 1585 a fundagao de confrarias do famoso Cordio de Séo Francisco, branco com trés nds, © os mulatos de Sio Jodo del Rey, Sabaré, Mariana, Vila Rica disso se aproveitaram para organizar esta confraria em Minas, }é que a Ordem ‘Terceira Thes proibia o acesso; a Ordem Terceira pro- testou, no querendo ver pessoas excuras assim se in jas de i seas duas igrejas estavars, iis, d ‘mas, A igreja dos brancos porque se ow de clas fendais, por exemplo, os Camargos em Sao P: que se reuniam na confraria dos Franciscanos, ¢ 03 Taques, na do Carmo,() e, posteriormente, quando @ sociedade comegou a se hierarquizar © uma classe média se formay em Minas a0 indo da classe dos “homens bons",() aparecéram conirarias devricos ¢ confrarias de pobres. A igreja negra estava da mesma la porque o mulato néo qucria se deixar confun- rio dos negros e da Mise- ‘Em Tijuco, no distrito dos diamantes fem que as sett igrejas e a metade das capelas tinham sido construidas ¢ eram mantidas pelas confrarias, havia em 1877 0 templo dos africanos, 0 dos negros crioulos eo dos mulatos.(*2) Esses confrarias scrviram, nfo obstante sua probreza, de ponto de concentracéo de re Blas se reu- iam, na realidade, em toro de um santo de cor, e na d tica, © sentimento de uma espécie de afinidade ° que! um negro exprimiu admiravelmente um dia a Kidder e vendo passar uma procissio: “L& vem meu pa- parentesco leva vantagem sobre o cardter re~ itualizando 0 santo, humanizando-o, tornando-o parecido sob todos os pontos com seus irméos da terra Meu 8. Benedito modos mais indecent frorias vai passar paral fs escravos a ganhi JA citamos a tribo sob 2 éxide de Sta de Minas ¢ em todo o Brasil, as confrarias seguiram esse exem- plo. De infcio, eram a obra dos negros, que rendiamgragas a Deus por terem alcancado a liberdade. Dessa forma, a Ige de N.S. do Bomfim de Copacabana foi fundada por ticeiro negro que -ganhara Cr$ 1.000.000,00 com suas @*) A finalidade suprema dessas con- umente do céu & terra. Ino ajudar e, dessa mancira, \do nimero de escrev brancos acabaram por ajudé-los; em diversos lugares © costume de dar aor ‘da congada, que se ceiebrava anualmente quando da festa do santo petrono, sua carta de alforria. Contudo, encontra-se entte certos vinjantes a observagéo contréria; acontecia que os escravos que guatdavam dificilmente, 4 custa de trabalho, para poder comprar dade, prefetiam dar a maior quantin desse dinheizo A confraria os de rej e rainha. Todavi mente, © 0 de tesoureiro, “de todas. para. 2 , era assegurar a cada miem- Bro uma sepultura e wm enterro Adedjiados. O'fegulametito de dé Nossa Senhora do Rostro dos negros de 167 aos. filhos dos membros da confraria, embora dela néo, assem pessoalmente, nao cont de voto.(1°) Desse’ modo, uma profunda tendéncia "da -ctnia negra’ podia, cristianizando-se, desenvolver-se livremente, Acontecia que, as vezes, se bem que erigissem ei Guase todos 05. lugares igtejas a N. S. do Rosério, # S. Benedito, a Ifigénia, a Sto, Elesbao e 2 outros santos de cor, as con- tinham sede propria, nfio podiam dispor de uma seja por falta de recursos, seja porque a construgtio do no estava acabada. Nesse caso era-lhe reservada uma capela na igreja paroquial. Porém, a selecio sempre. atuava, sendo a separacio das capelas o simbolo da divisio dos. dois catolicismos. No Rio de Janeiro 0 mesmo local de culto era ado pelos efinegos do cabido © pelos negros.(t) », em lugar da cooperacio esperada, surgiu a entre as ragas. Ou, com os africanes rejeitando os brancos, ‘mesmo jos negros crioulos a fim de ficarem sozinhos, como na Bahia,(!#) ou, pelo contrério, os brancos fazendo ‘sairem os negros sob o pretexto de que suas festas cram muito barulhentas acompanhadas de dancas ¢ tambores e indignas da Casa de Deus, como em Porto Alegre.(*) Parece, contudo, que 0 catolicismo devia marcar limites a esta tendéncia segregativa, j4 que todos os homens so filhos do mesmo Deus e chamados 2 mesma mesa de comunhio. Ha vérias capelés laterais, cada qual podendo escolher a sux; po- 14 uma s6 capela-mor onde oficia o sacerdote. Ha as de confrarias que se localizam nos diversos bairros da ial, as vezes a cate abole as di- separa. permitia separar as duas categorias de fitis, as. pri ndo a cabeca ¢ 0 corpo enrolados mum pano pr as segundas trazendo na cabega uma mantilha de caxemira ne- ) Nas procissdes, quando a cidade inteira desfila pelas puta = reas, a marcha dos fi assegura a diferenciagio cissio de Corpus Christi em Sio Paulo, depois do Sa: eramento, vem Sio Jorge em seu cavalo curveteando, as conirarias de negros, depois a dos mesticos de Santo Eles~ obedece a uma ordem hierdrquica que determinada, que comecava pelas escravas padeiras terminando ppor outras escravas vendedoras de legu tadores com uma foice de papelfo; depois um grupo de brancos representando Adio © Eva, Caim e Abel; os membros da con- fraria de Sao Francisco traziam nos ombros os andores dos » vindo, depois de tudo, a misica e o Santo Sacramen- A procissio do triunfo eucarfstico de 1753 comecava por dois grupos de dang: cristBos, segui- dos de miisicos ¢ de carro go apts o des das confrarias que se apreseatavam na seguinte ordem: mi raria de Santo Antdnio, o grupo dos nobres jomens bons”, contratia do Rosétio dos brances, confra- Nossa Senhora da Conceigio, confraria de Nossa Senhora éo Pilar, confraria do Diviao Sacramento, ¢ depois o clero, {65 anjos, o Santo Sacramento, 0 governador geral das minas, a nobreza militar, 0 Senado, 0 dragéo atacado por Sio Jorge, 'a procisslio de Sao"Forge a ordem s soldados vinham primeiro, depois a confraria de Sao Jorge ¢, no fim, uma turma de escravos com seus misicos ¢ uma estranha personagem montada num cavalo prcto, o homem de ferro; atrés deles, os carregadores traziam, elevando-a ao céu, a estétua de Sa0 Jorge.(*) 'A hierarquia de cOres nfo segue, portanto, uma ordem tudo. depende das ceriménias; se se trata de um santo ,-so-03 soldados brancos que vém & frente; noutros ‘casos, fo eles ‘que terminam 0 cortejo. Mas, de um modo feral, parece que so os mulatos © 05 negros que desfilam em >primeiro lugar e a aristocracia dos brancos em viitimo. A ordem Go desfile 6 uma ordem de mérito exescente, onde 0 clero se ‘eoloca no meio como para assegurar, por sua situagio me- diana, a coeréncia e a estabilidade de uma sociedade tio mis- turada, De todos os modos, ¢ este € 0 ponto que mais nos jnteressa, as cores nfo se confundem; a Igreja accita a estra- tificacdo social. ‘© que é mais grave € que a aceitagio pelas pessoas de cor do,catoticismo dos brancos acarreta imediatamente a depre- ciagdo dese t1ago. Quando 0 senhor de engenho ou o fazen- dein fix "vem residir na cidade, trazem consigo o altar doméstico, fo culto de sua familia, hi em sua casa urbana sempre um nicho mntos onde queima uma vela.() Entretanto, s religido nfo exerce mais a funedo que tinha no campo. A rua ‘as casas, estabelece ume corrente de comunicagfo entre .¢ & capela do engenho é substituida pela igreja pa- al ou a da confraria, Mas esta roa toma também aspecto de quando em quando, na esquina de duas travessas, no centro de cada quarleirdo, hé um nicho de santo © todo ppassante deve ai demonstrar sua devogio. Os viajantes estran- i %) contudo, a rua & ‘os brancos nfo Zazem dominio do pater fa para recriar uma agregaciio éinica ¢ de classe s ‘entfo, serio levados, mais do que os brancos, ‘© ceniro também de seu catolicismo e, em vez de render culto ‘0s santos da propriedade senhorial, sendem culto aos santos 0, vel 0 bem, die pp, 036; pura 4 Dahin onasant, atlcee pp taes zendo que sio os negros os mais escrupulosos em suas devo- ges © acrescenta.que imediatamente, por desforra, esta reli- fifo se viu depreciada aos olhos dos brancos.(%) A questio toda-é saber se a esta sepacacio das duas Tgre- jas, a negra ¢ a branca, corresponde também uma diferenga de catolicismo, E claro que a unidade do dogma tendeu a assimilagio e houve, principalmente entre os crioulos, verdadeiros santos de cor, Tollenare cita uma mulata de 18 anos, de rara be- leza, Gertrudes, que desejava ser freira e que fora avisada mi- lagrosamente da morte de sua mfe, 0 que the dew wma auréola de santidade em seu meio.(%) Os jesuftas outorgavam aos negros mais piedos panhia apés sua morte: i joo Francisco, homem mulato, serve a casa hd ‘cinta e tantos anos, por amor de Deus, sempre com edificagio © boa satisfagdo, confessa-se e comunga cada oito dias e fez vida exemplar; ndo tem raga de mouro nem judeu; Bede ser admitido na Compankla na Hora da morte; € dgno ¢ merece esta consolaco”. Para outros, dava-s cig a ponseog © como recompensa Unicamente a manutencio das pessoas de cor cm scperniey portion sia easily, teaded a tna eo paralela das representacSes coletivas, Porque nfo s6 as es” eram preservadas enquanto grupos de festas, mas ainda cada qual podia originar uma confraria religiosa étnica, Na Bahia, por exemplo, a confraria do Senhor da Redencio nfo agrupava sendio Daomeanos; a Ordem Terceira do Rosario era a do Senhor da Cruz, de mula- 108 mais acima, Todavia ela tendeu a criar um catclicismo diferencial. Desta maneira, somos levados a passer de nossa prime pectiva sociolégica, A segunda: a perspec ‘03 aloes, as normas, as representagt sta “igreja negra”. A catequizagio jest que era preciso adaptar o dogma & meiialidade e que a talidade dos negros é a mesma das criangas. F preciso atrai-los EWBANE, Life to waivai Cese-prande, p. 26, ‘silva GAMPOS, op. elt, Tp. 16, 7, 206, 242. pela miisica que adoram, pela danga, que é sua tinica distragio, pela vaidade, 0 amor aos titalos, aos cargos decorativos.(*) Néo € preciso romper absolutamente com seus costumes tra- icionais, mas fazer uma selecdo deles, e dos que so conside- rados como aceitéveis, servir-se deles ‘como de um trampolim para levé-lo até a verdadcira £6, Dessa mancira, criou-se um catolicismo negro que se con- serva dentro das confrarias ¢ que, no obstante a unidade dos dogmas ¢ da f6, apresenta caracteristicas particilares, ‘A procissio de So Benedito compreendia apenas negros ou mulatos: © porta-estandarte, os anjinhos de cor presos a mio de suas mamées, a confraria de Sdo Benedito, as rainhas dos africanos, em nimero de trés, com Perpétua no mei cada por dois grupos de negros que disputam a cotoa de Per- pétua, a confraria do Rosirio © as Taieras, cujos vestidos de seda deixavam, diz-se, adivinhar os seios lascivos, e que mar- chavam cantando: ‘Virgem do Rosario Senhora do mundo... Dé-me um coe d'égua ‘A cssas ladainhas ingauas que nfo pedem a Virgem mais, que um froto para acalmar a sede, correspondem as ladainhas de Sao Benedito: Meu So Bonedito ~~ "O que caracteriza esta festa nfo € esta familiaridade com os santos ‘que encontramos também, na realidade, na mesma época entre os brancos(®) e, sim, esta luta incorporada na pro- isso, eittre os negros, pela coroa da rainha Perpéwa. E se se acrescenta que esta era protegida grupo de Congos, cotio a ceriménia alcanga todo seu si € uma sobre: vivéncia das Iutas étnicas e de reinados africanos que se con- servaram a terra de ex a accitou & por- que esse combate podia aqui tomar um significado simbélico, 4 coroa terrestre tornaado-se uma imagem da coroa celeste & qual, falou o apéstolo, Jesus dard aqueles que the forem fiis. ‘Mas as recordag6es sempre vivas dos reinado’ aftieanos so ainda mais pronunciadas nas congadas. As congadas aceitavam a perpetuacfio do regime real para os negros brasileiros, mas corrompendo, bem entendido, o ca rater desse reinado e, sobretudo, incorporando-o 10 culto de Nossa Senhora do Rosdcio. A mais antiga mengao que temos de 1700 € da cidade de Iguarassu am, pelo menos fragmentaria- ?) € tinkam mesmo sua origem remota em Portugal.(*) Pereira da Costa nos diz que cada paréquia tinha seu rei, sus rainha, um secretério de Estado, um mestre de campo, um arauto de armas, suas damas de honra, -etc., que, se faziam chamar Majestade, Exceléncia ou Senhora. A eleigdo se fazia no dia d je Nossa Senhora do Rosario, dando origem a dancas, varidveis segundo a ctaia & qual pertencia o rei, A disperstio do costume foi c se estendia a todo o Brasil. Determinou, da mesma forma que as confrarias de que saiu, 2s mesmas lutas étnicas, a3 mesmes rivalidades entre nagdes. De infcio, era uma festa de bantos, fem que os nagds ¢ os daomeanos se aborreciam. Postetior- mente, colocou em disputa os congos contra os angolas, estes contra os mogambiques. Em Osorio (Rio Grande do Sul) esses dltimos jam atrés dos cucumbis angolanos, nem cantando © mem dangando, soments fazendo ouvir seus instrumé musicais; em Minas, os mocambigues eram considerados igual- ‘mente como “a plebe dos congos”.(*) Em compensagio, os de So, Paulo eréem que sua danca fol inventada pelo proprio So Bencdifo © pér cle dada 3 sila nao; acabaram por triun- far em numeroses lotalidedes desta provincia sobre seus ad- yersrios congos, ¢ em Monsanto sao eles que vém em pri- meiro Juger porque foram os primeiros, dizem, a encontrar ‘Nossa Senhora do Rosério.(°®) Bem entendido, a solidaricdade vel e pouco a pouco de classe dos escravos triunfou sobre as inimizades tribais, como na confraria de- Baltazar, composta de africanos e de ctioulos em sua maloria escravos © datando de 1742, Os arquivos da confraria, dando nomes aos dignitérios tipicamente africanos (0 rei se chamava Newangue, a rainha Nembands, 0s principes Manafundos, 0 feiticeiro, que trazia freqiiente ‘mente uma serpente enrolada no pescogo, Endogue, os escravos eais Uantuafunos), nos mostram que os reis eram escolhidos livremente, sem distingio de origem étnica, visto que o primeiro, em 1742, € um rebolo e 0 tiltimo, um cabunda.(#) A festa ora preparada com antecedéncia. santos,-os: membros da eonfraria pediam esmo como aos brances para as despesaa da cerimont era um costume bastante comum e toda eonfraria, de brancos otf de pre, 98, fazia o mesmio.(81) A coroagio do soberano tinhe lugar domingos e dias i principes escolkidos els negros trazidos em eseravidio e que eontinuavar homenagens de sous siditos. Numa eerta medi eitar esta submissko do negro a um russ lela ira impor essoas de cor: “WE 26-0 nosso rei que Besta seria, para Mario de Andrade, @ i wr mais facilmente 0 80, porque o rel gozava de grande autoridade sobre os volté-los contra seus. senhore io por outro eser ‘De outro lado, a tradigio catéllea, querendo fazer eleigao e a coroage desses soberanos com as festa festas anuais, tondex © novo soberano vai fazer sua Diamantes, 6 por este recebido em n) No ene ror seu lado, reconheceu a autoridade que esses rela re gen Povo de cor, © diz-que o rei coroade é alvo de zomba- ) N&o admirs, pols, quo perdesse, poten a pouce, sua auto. ridade para mio ser mais quo um ret de carnaval! ‘Quanto & danga,-que seompanhava a co as rerides, aguels através das Tuas, dos motives, £ a parte dando segunda os Tigares. Ha cantos semi-africanos, como o da vainha: danga da serpento interpretade tayo Barroso, « dos erus A ne surreisdo do pri com a morte de sex filho chama 0 iti buscar 0 cadaver: Ferrero Eu... Mamas! B,., Mamas! "Tonos Zumbi, atiouerd,’ ~ ‘© Feitivsire rodela 0 corpo ‘Passes migleos, emprega mis- KOSTER, op. eit p Gimars CASCUDO, biewonéro, wp. s91-94, 253, 23, okie teridsos sortilégios, £ aos lados pequenas el Pouco a pouco 0 a moltidao: Quem pode mais? “ ‘Coo Ho Sol ea Lua, Parncein0 Santo maior? Coxo # 8, Benadito, (0 magico em reeompensa cém novas dangas onde a muito pura Virgem do Rosdrio naturalmento nao esquesida.("4) Como se viu, trata-se de uma pega de inspiraco estrita- mente sfricana ¢ onde um dos principais papéis é dado a um fiticeito pagio. Mario de Andrade, que no Brasil foi o que ison com mais cuidado essas pegas de. Congo, assinalow ‘tacos da Africa negra nos versos portugueses, indo desde os minimos detalhes, aos temas poéticos mais singclos, como esses vversos cantados, num dado momento, pelo que € um tema freqiiente dos contos africanos, que se encon- tra nas hist6rias recolhidas por Chatelain, Equilbeca, Jacottet, & até as partes essenciais do drama. Limitemo-nos a. estes Logo, na primeira parte, as dangas imitativas dos animai vez de origem totémica, jé que os bantos que criaram a con- gada freqtientemente sf0 povos totémicos. Em segundo lugar, a importincia das embaixades, que € um trago bem airicano; no somente os reis congoleses ou guineanos caviam-se praze- rosamente embaixadas uns aos outros, mas chegaram mesmo a ser enviadas ao Brasil em 1750 e 1795 duas embaixadas dao- meanas ¢ cm 1824 uma do rei de Benin. Em prdprios nomes dos personagens so nomes his Ginga ou Ginga Ngambi nao é outra senfio a rainha Ginga Bandi que reinou em 1621 e, que apés sua embaixada ao governa- dor partugués Joo Correia de Souza, converteu-se 20 crise tianismo.(") © rei dos congos que, em certas vers6e chama Dom Henrique, 6 também uma recordagdo era: coisas africanas, porque houve numerosos Henrique: nastia dos soberanos cristienizados do Congo portu; nome do principe, Suana, néo é nome de gente mas um técmo hhonorifico que Dias de ‘Carvalho encontrou no século XVIL entre o§ Iuandas ¢ que significa “herdeiro Quanto & ceri por Frazer na Africa em sea estudo sobre a morte do rei da vegetacio. Nao hé até a lembranga da circunciséo que nao esteja manifesta na descrigéo de Mclo Moraes ¢ que se sitta entre as dangas da primeira parte e a morte do filho do rei.c*) yentos da cultura branca se mistui ternalmente a esses tragos da cultura africana, Mas esses ipicamente african d2 congada. Isto posto, podemos petguntar como a Igreja péde aceitar tio facilmente incorp rar i vida das confrarias de cor esta apologia do feiticek # que o catolicismo brasileiro € a mo portugués ¢ jd em Portuge de juntar danas mascaradas ¢ cantos pro! sas, Um certo mimero de altos dignitirios ecle- aram contra esta tradigo, em 1534; por exemplo, Tile ae ANBRADE op, AO ANOS, 0 Potato No © bispo de Evora. O rei, entretanto, as permitia, o que fer com que continuassem; ¢ ainda em 1855 era possivel assisti- -las.(") © hébito passou a colditia. Os viajantes estrangeiros estio repletos dessas descrigdes de festas profanas & sombra das igrejas © dos conventos, admirando-se ao ver pecas amo- Trosas tepresentadas pot freitas ou por ¢ssas multidées proces. sionais que jogam bola com estétuas de santos.(®) Nada extraordindrio, portinto, que @ Tgteja tenha intro- duzido a congada na estrutura das confrarias de cor. Mas por isso mesmo, ¢ € © que nos interessa, deu ao catolicismo dos egtos um aspecto diferente do dos brancos pela insercéo de elementos. africanos, Entretanto, a congada formou, por si mesma, uma reali- dade auténoma que, certamente, péde se associat com os ritos religiosos, mas que podia também viver independentemente, sso porque as associagtes que ensdiavam, que repetiam a peca entre duas festas, foram levadas pouco a ponco a desenvolver suas atividades fora da cetiménia de cordagio € da procissao de Nossa Senhora do Re As autoridades leigas delas se apropriaram para dar mais btitho aos grandes festejos popu. lates celebrados por ocasifo de qualquer acontecimento impor ante, como 0 casamento de uma princesa, o nascimento de vum herdeiro em Portugal, De outro Jado, a Igreja comecou a ver com maus olhos ssas ceriménias africanas misturadas is ceriménias caidlicas. Accitava a coroagio real desvirtuada, mas nio tio facilmente ® congada que se Ihe seguia. No Rio, a propria coroacio dos reis foi proibida na festa do Rosério.() E, dessa forma, a congada perdeu pouco a pouco © dominio da religido para entrar no campo do folclore, Tivemos, pois, dois catolicismos distintos, em virtude da istingfo decores, que impedem uma io total do negro & religiio do branco. Dai as criticas dos viajantes estran. geiros, principalmente anglo-saxdes e protestantes, que decla. ram que os brasileiros de cor esto desfigurando.o cristianismo, dle fazendo uma mistura de ceriménias burlescas © imora. lidades.(#%) O que € preciso dizer, e que € mais justo, 6 que MENDES DR ALAEEDA, “O Folcore nae iu Voyage Autour du Monde, iy teal ty be a oan 0 Brasil, yp. 18%, 186 © 189, ttagos das civilizagbes africanas — particularmente-de-civitizae ges bantos — passaram, sem que 0 sacerdote pereebess culto dos santos negros ou “tias congadas, Pareciamos ester bastante istantes das religides africanas quando estudivanios © catolicismo. Assim, no cra tanto quanto imaginévamos, por- que essas congadas foram jus de que falamos, no interior do qual o negra péde guardar preciosamente seus deuses ou seus espiritos, para melhor adoréslos. De festejé neste dia © alorivso Sao Lourengos E por isto nos tras aqui © noaso rei Dom Caro 0 Zambiaprngo, Zambiazungo, Tirindundé, 8 18 18 44 no mesmo auto dos Congos, eolhide por Gustavo Barroso em época'mais recente, encontro a forma Zamitripunga, na qaadra’ Abengam de Zomuripunga Que mo céw te ponho 4 Anoulé, amslegud Amulequé, ematé, Com 0 nome Zabiapwnga existe uma danca de pretos no sul do Bstado da Bahia, corruptela e significado extensive de Zambi- ampungs, Na referida descrigio do auto dos Congos Pereira da. Silva, encontram a palavra eatunga com si Aeacorihecida: © catolicismo negro foi um relicério precioso que 2 Igreja ofertou, no obstante ela prépria, aos negros, para af conser ,"wias Como realidades vives, certos 4179 Capitulo VI As Sobrevivéncias Religiosas Africanas Em que medida o catolicismo do negro adulterou as reli- sides africanas? Parece que o escravo nio opés uma resistén. cia aberta a esta cristianizacao, imposta pelo branco, ou 4 sua arregimentagio em confrarias do Rositio ¢ de Sao Benedito, DiAsiier assinala a negligincia com que se submetia, chegando a0 Brasil, ao sacramento do batismo , nesse ponto, conzasta © escravo com 0 indio que gostava “de fazer-se rogado” para assim ganhar um presentinho, uma garrafa de tafié, um pedago de pano, chegando mesmo a batizar 0 mesmo filho por varios padres sucessivamente s6 para receber present i em que © negro era introduzide o induzia, ali até a desejer, 0 bat sem 0 que os negros chegando mesmo a i enguanto os brancos os trata. vam como animais “ Dessa maneira, apressam-se em aprender de cor algumas oragées de que néo compreendem © seatide.@) Se excluimos as tentativas feitas pelos Jesuitas para fazer vir padres que conheciam a lingua de Angola ou 0s escravos dos conventos que seguiam o catecismo regular- mente € se confessavam, pelo menos duas Yezes por ano, no Natal ¢ na Péscoa,() a catequizagdo, como dissemos num ca ppitulo anterior, permaneccu superficial: © catolicismo se so- brepas & scligiéo afzicana, durante © periodo colonial, mas’ nao a substituiu. “A sombra da Cruz, da capela do engeaho © da igreja urbana, © culto ‘ancestral continuou, o que levou Nina Rodri irmar, no fim do periodo escravista, “a ilustio pag 182 Tlusio porque os senhores ou proprietérios de escravos nfo estavam interessados em suas almas e sim em seus eorpos, ‘Nao viam néles seres a salvar e sim maquines de trabsiher, Ainda no século"XVIII, o arcebispo D. Sebastigo Monteiro de Vide se queixa amargamente que: 0 de que tratam principalmente os eompradores é de porem os eseravos ao trabalho, e descaldam-se tanto de Thea ensindy «ost frina Cristi, que potcos sio os qua tim a fortuna de seren katie zados dentro de tmn aio. (@) Os eapelies, quando néo eram tomados pelo lima volup- {oso dos trépicos, abandonavam-se aos deveres de seus cargos lade puramente profissional, sem nutrirem © amor cristo; ainda no séeulo XIX, quando os costumes ti- nham mudado assaz profundamente © os brances se interes savam mais pela moralidade de seus trabalhadores, te nda in eranaslin, obnrra Riser, ¢ sin lemons uo trabalio, Batizam os negros ¢ os casam, mas nao os instruem. (8). Couty, na mesma época, faz uma observago ansloga.() Os brancos viam também freqlientemente na\ ascensio do negro 20 cristianismo um verdadeiro perigo, uma primeira igualagdo entre 0 senhor e 0 escravo, que podia ocasionar con. Seqilentemente outras igualag6es — uma primeira brecha, por conseguinte, em seus privilégios. Lindley toma-se seu fatér. Prete quando declara que esta pa ‘ona religiéo do pais e a femillaridade ineonseaiiente ‘gue se permite aos eseravos, os tornam impudentes.(8) A negligéncia dos senhores no era, contudo, o tinico fator atuante, Onde no havia capeldes fixos nos engenhos ou nas ~ plentagbes,-se.distincias entre. as propriedades eram enormes, tomando as visitas dos sacétdotes raras © caras. Frésier atribul assim a0 isolamento a falta de vida religiosa tanto entre brancos Somo entre, os nogros na provincia de Santa Catarina, em 1713.) Em Pernambuco, os padres eram obrigados a’ per. comer distincias a cavalo do 20 2 30 léguas, que separavam 88 propriedades ou as povoagées, 0 que, como conseqiiéncia, ‘os impedia de visitar todas, cada ano.(!*) Tollenare também pensava que o ensino religioso s6 era posstvel nas cidades.() Nesse ponto, outras dificuldades surgiam. © escravo escapava, pela Tua, a0 streito controle de seus senhores; encontrava-se com os membros de sua “nacdo” nos batuques noturnos em que se slimentava de lembrancas de sua civilizagio nativa; o ‘branco da cidade, mais ocupado que o dos campos pelos neg6- ios politicos se era homem, ¢ se mulher, pela vida mundana principalmente, ndo se interessava nem mesmo por ensincr aos seus empregados de cor o sinal da.cruz ou o Padre-nossc.(1#) O clero, que podia e devia substituir nesse caso © senhor, ex- ceto 0 clero regular, pouco se preocupou com sua missio, O de Minas, por exemplo, nota Seint-Hilaire, nao tem outro dever sendo o de rezar uma missa no cantada todos os domingos & confessar os figis na Pascoa; o resto do tempo se dedica a0 comércio, & profissio de advogado; os sacerdotes sto proprie~ térios de minas ou de engenhos,’ mesmo contrabandisias de jouro € de pedras preciosas. Os curatos so obtidos em con- cursos ou comprados. O sacerdécio: tormou-se uma protissfo, nfo uma vocacéo; assim os vicios tritnfam © os sacerdotes vio a igreja publicamente com suas concubinas e seus bastardos.(*) E compreensivel, nessas condigées, que © catolicismo negro em geral sobrepds-se, mais do que a penetrou, A relie 8120 africana, ea confraria freqlientemente profongou-se em candomblé, Vilhena reconhete que é impossfvel arrancar do coragéo dos afticanos os costumes € as. ceriménias que “be- beram com o Icite de sua mie” e que seus pais Ihes ensinaram; ¢lé afirma que entre mil negros, hi falvez um qué siga voluntas Hiamente o°cristianismo; entre todas 68 outros, este é imposto de fora, um simples verniz siipérficial() Em 1738, 0 prior dos Beneditinos da Bahia, num dottitiento encontrado nos } SALIT-ELAINR, Vepeges dans tes Provinces de Vit, Vouuge au Sources, p08 e 0 ong, RV Ge Dt ra Anioe p00, ee fe Mins (Codsvie howe a ao By Fears te GRANT, asters i) “Valdis, asaopi 3h arauives por Liz Vianna Filho, lamentase de que os Angotas, os Regios de Sio Tomé:e de outros lugares, se bem que cate, quizados, batizados e vivendo no melo dos brances [ez aiandonam por isto as superstifes que aprenderam em suas terentyttinemse em-sociedades (as excondidas) para fasee saat calundus, (15) No inicio do século XIX, Luccok n dos negros e mulatos de Minas & um cat Tominal, que se reduz a simples gests, sem signitcato para 2 alma (') Em 1838 ainda lechter ¢ Kidder mosttam foe Sscavo maometano ao tenega sua 16, mesmo batizado, © que © zReero fetichista continua seu culto, mesmo consideranderce cristéo,(!1) Jnfelizmente dispomos apenas de pouces informagSes — ue sio,) ademais, bastante fragmentérias — sobre as sobreviz ncias Ho animismo no periodo colonial © mesmo no it tial.“ © interesse por pesquisas etnogréfices ainda nfo, Frriuformastes que nos restam estdo dispersas em meio ast Gres mals diversos, crnicas histécicas, narratives de viajenten © branco nfo se interessava pela religiia de seu ecrve a nfo ser na medida em quo esta podia ter alguma influéncic dando cantavam, © tani ensurdecedor de seus. tanbe, res (') sefa no caso em que um sacerdote negro se toma chsfe ou o lider de uma revolt, de uma fuga de escravos de lam episédio de suicidios coletivos.(%) Fechava os olhos’ ext Ghanto os cultos no tocavam seus interesses imediatos. “Tudo © ue sabemos 6, pois, através de uma tomada de consciéace egoista, parcial € desigual, que deixa desaparecsr os porfantes elementos para uma anélise cieatitica das religides atricanas no Brasil, ¢ nfo retém senfo 0 aspecto mais externo, Bm Bion de Arbuquergue a Ouro wna de Ouro Preto, 182.'Ce, RIOD, 00, vol, 184 " fa repercussfo no regime de trabalho servl. Mesmo assim, 6 Stil agrupar todos os documeates de ordem istériea que pos? sutmos; um determinado niimero de conclusées podem ainda assim ser inferidas, que no sio de se desprezar. Qbservamos. miliar, no permit stra tio enraizado nos Gostumes ¢ na civilizagéo de todas as etnias da Africa nesra que cixou, no misimo, um certo uimero de atituder: ments, it de formas dé comportamenio ede tendticls sentiments ; fenitre 0s escravos, como entre os negras eriou Tagdo entre os vivos € os mortos, que as almas dos falecides reuniam-se A grands fem espiritual dos ancestrals to outro lade’ do ced, "Esse ciidado de’ render aos mortos © culto que se Thes devia, a fim de que nfo se vingassem, para perturbar seus filhos com doengas on pesa- delos, explics a importincia que © cerimonial’ de entesra. mento conservou entre todos os afro-amerindi mesmo entre 0s que se_assimilaray lizacho. cidental, coma os dos i “No Brasil, esse ce Se preservou tanto mais facil- menos durante os dois primeiros séculos de escza 08 brancos considerarem 0 negro como um ani mal sem alma. Em vio, as ordens religiosas protestaram contra © abandono dos negros no momento de sua morte por seus seihores.C2) Todavia, essas ordens munca foram inteiraments em seus protestos, porgue iam de ‘eiicont Ses coletivas do negro como “coisa” e representngbes essas que nunca estio ex; livtes, manifestas ou escritas por individuos, mas que {Wo profundamente que ainda as encontramos hoje no folclore popular, em quadrinhes do tipo que se segue 70 pelo uma tébua, na qual berto vor um pano Airis seuia a er , ay ) ant emanate \ aE Sa eee yet agate Gas anesels SUE lembra.e descricfo de Debret, as mulheres uma mulher, os homens o de um bomem, um rei ou o de uma evlanea, cofos ta de palmas, de tambox, de'cantos \ Wu sangue, dizendo que nes | exrpe pars subir a0 céu.(2) | com um grande acompanha e lamentagses finebret evidente que essds narrativas milo vie #83, mas provam ainda assim que o ma, ora, vivo. Os dados da 8, Vampré sio otenera CasouDo, oeay “srtuden, imposaibiidads do negro tomar-se eristio: “O negro se confess cada uma pousar sua mao sobre 0 corpo, 'O Negro ma Trodis6o Oral”, © Rriado ae PIM. conta que alguns tnsleas, tendo emma, nogrs morrendo‘acina estrada posisum’ aon sevfustanes of ecompennaees Za oem, lea hes rependessa or Gd MELLO Neto," Situae—. \oooa Bibuaes, pr 2d, 38, pp, 12-9. etree, bo. 919-04, a | tas, porque nos mostram os negros de Séo Paulo rou sonfravias do Rosdvio no flim do perio. igindo-se 20 morto da mesma. formi seu falar: boca, que tanto falou. [umenfe; de tato, as dancas moriudrias que seguem ¢ fren san fam a Ver com as dangas eréticas, como 0 jongo, ou dances ae Grertmento, como a congada; constituem aqui ritos Ainebres eayre Segundo campo em que temos igualmente informagées icas bastante detalhadas 6 0 da magia africana. Na reas la impressionou os brancos. Por varias razdes ¢ pric de tudo porque 0 colonizador portugués era supersti- ioso também, como seu escravo, negro on indio. O pequeno némero de “cirurgides", de médicos © de boticdrios ‘dcrante todo 0 perfodo colonial, mesmo nas grandes cidades e nee Portos comerciantes do litoral,@") foreava os doentes a infu. Ses de ervas ou aos. consultarem “curandei cram versados na arte © como os africanos magia curativa, impuseram-se 2 scus iver aneira, alguns de seus 108 processos: dos “fei- poema de Gregério de Mattos evoca, Para o século XVII, alguns casos desta magia médiea,(0*) Enfim, € dbvio que o portugués, Tonge de seu pais natal, numa terra estrangeira, chela de ciladas © de perigos impre, vistos, num clima freqiientemente enervante, nfo se sentia em seguranca. Sabe-se que a magia esté Higada justamente & angés- ante o estranho © © desconhecido; é ela uma técnica itras mal para tranqililizar. Dessa forma, tudo concorria: 0 cart. supersticioso dos primeiros imigrantes, a, auséncia de uma medicina cientifica, a inseguranea dos trépicos para um homem vindo da Europa, mediterranea © temperada, para manter entre os brasileiros © interesse pela -magia, E da mesma forma, o negro, tendo uma dupla qu: 80, @ de estrangeiro, on seja, a de estranho —'e o que € a cor do Di ih i Mas também a atitude do branco vai ser ambivalente om rela. a0 preto. De um ldo, aceitard sua magia medicinal, seus filtros amorosos que dart aos senhores esgotados sexualmente © vigor desaparecido,@*) © de outro, terd regeio do feitice! eseravo que conhece 28 plantas venenosas, o prepara os ve, nenos, para se desembaracar de senhores odiosos, Antonil alude a esta guerra mistica, aos “feitigos” preparados pelos negros © lancados contra cs proprietérios de terras ou de minas:(°) a esse respeito, aludimos mais cima, B por isso que vemos, lado a Indo: Le = Tantas condenasies durante toda o periodo eolonial ou Smperial, como a de Luiza Pinto, neg es poderosas imperial se admiraram por esta aceltagd Process0s africanos de medicina ‘magica, (4 Esta dualidade de atitudes do branco em relagdo & magia associase 45 vezes 8 dualidade da estrutura social, A oposigdo cidade-campo. Nas zonas rurais, sobretudo nas regises af tadas, © negro tinha mais prestigio, pois que subst | tuia o papel do médico ausente, Saint-Hilaire ¢ Koster, no curso de suas viagens pelo Brasil rural, observam 0 fend- meno.(‘#)" Em compensago, na cidade, a magia africana nfo soments se chocou com 0 clero urbano, mais esclarecido ou mais “romano”,(*) mas ainda se depreciou em contato com os, fbrancos, que the pediam receitas voluptuosas, 0 meio de se ivrarem dos rivais em amor ou de inimigos politicos. Perma- assim, sem diivida, mais propriamente africana (e par- ticularmente banto), servindo-se de ossadas roubadas nos cemi- térios, dotadas dc “virtudes” especialmente fortes. Desta neira quando se exumou em 1881 0 cadaver de Maria Moreira, africana morta trés anos antes, no cemitério dos leprosos, fal- tava o otfnio do esqueleto.(**) Essa necessidade reconhecida de uma tanto para ‘© mal como para o bem, ¢, 20 mesmo tempo, este temor do ‘branco pela feitigaria de’ seus escravos, explicam por que os documentos sobre magia africana no Brasil so relativamente umerdgos. A questio 9 que a’ deseri¢fo de cerimé ficas. E entre esses documentos, os que sao mais explicitos, que contém mais detalhes, sfio os que tratam de serpentes. O que é compreensivel numa época em que a vacinagio antiofi- ica no existia ¢ onde os humildes trabalhadores dos campos, fem sua lidas cotidianas, exam freqlientemente picados por esses réptels. ‘Tollenare diz que os negroa curandeizos so cereavam de ser- ‘obedeciam suas ordons, resultado de determinadas eh “auto costume do ‘ents brasiotree Obwerv0U| em 3Ainag e em Sdo Paul ) Ginha um escravo que fora de seu pai, que agarrava impunemente Hebeapentes venenosas, Um dia ele amarrou o escravo a fim t fo au apontar de seu segredo¢ ont confessou que of 2 t feralnersvel ts Picadas, esfrexando o corpo com a “erva de erescenta Sa} ir qual € essa erva?(@0) A sezp! 2 € op Toray de suas’ pieadad. Nesse ultimo easo, 0 paciente deve rodear fsua cabova, set Souda 2"5 ‘mandingueito pronuneis algumas palavras mégicas, Se um fomem mordido por uma serpente nfo pode apelar para um desses falliceiros, deve 5 tes preeedentes: felando da contado, pa eridieo, porque Herskovits o encontrow igusimente cendentes dos negros fugitivos de Guiana Holandes Donde rostita, ese, com stores pensam quo é de or do Vodun existiu na época xo da aexpente no Brasil? Certos encontramos. Entretanto, parece que, em 60 = erigbes-que