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Texto de Carmen Cecília de Araújo dos Santos Laranjeira 1

No século XVI, primeiro em Florença e Roma, depois em Veneza e resto da Europa, um grupo de artistas começou a protestar contra a arte do Renascimento. Para eles, a obra de arte deveria ter espontaneidade. Espontaneidade esta que era, segundo eles, derivada da participação direta da presença de Deus na alma do artista. O que reafirmava, de maneira extremada, a idéia do artista possuidor de uma genialidade, de um dom divino. Ademais, a reforma protestante, iniciada por Lutero nos países nórdicos contra o papismo, que havia se tornado sinônimo de decadência moral e religiosa, a descoberta da América e a divulgação da idéia de Copérnico, de que era a Terra que girava em torno do Sol e

não o contrário, vieram a provocar uma desestabilização nas certezas de até então. O equilíbrio e a harmonia da arte do Renascimento já não serviam para representar o mundo desordenado do momento, e os artistas sentiram que poderiam produzir conforme seus próprios cânones estéticos, principalmente na pintura e na literatura, da qual podemos destacar William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Esse período ficou conhecido como Maneirismo, que se refere à maneira individual de se expressar. Quanto à pintura, as características formais dessa época se firmam no abandono da cópia da natureza, com distorção, alongamento e acentuação do dinamismo no espaço pictórico, produzindo, muitas vezes, um efeito fantasmagórico. Destacaram-se os seguintes pintores:

De Bréscia:

Savoldo: seguia uma tendência realista, com influência da pintura gótica final, onde os santos são representados em meio ao cotidiano simples: “S. Mateus”. De Florença e Roma:

Agnolo Bronzino: era um retratista que também alongava, ainda que ligeiramente as figuras, produzindo um efeito de elegância: “Eleonora de Toledo”.

Giuseppe Arcimboldo: retratava as pessoas, colocando como elementos formais

objetos, frutas, legumes e flores: “O Imperador Rudolfo II como Certumo”.

Parmigianino: alonga acentuadamente as figuras, provocando um efeito elegante: “A Madona do Pescoço Alto”.

Pontormo: combinou os estilos de Leonardo, seu professor, e de Rafael e Miguel

Ângelo, conseguindo um estilo sereno, onde a representação das figuras, a pesar de um

aspecto maciço, apresenta uma suavidade e leveza: “Estudo de uma Jovem”, “A Visitação da Virgem”.

Rosso Fiorentino: estilo perturbador, visionário, efeito de cena de pesadelo, “A Descida da Cruz”. De Parma:

Correggio: trabalha sobre temas religiosos e do idealismo clássico, combinando a

técnica do esfumato, de Leonardo, com a abordagem veneziana das cores, produzindo obras

1 Carmen Cecília de Araújo dos Santos Laranjeira é pesquisadora pela Universidad de Barcelona, doutoranda do curso “Ensino e Aprendizagem das Artes Visuais” da mesma universidade, é mestre em “Comunicação e Poéticas Visuais”, pela UNESP, e é licenciada em “Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas”, pela Universidade de Bauru.

de extrema leveza e sensualidade. Foi um precursor do Barroco: “Assunção de Nossa Sra.” na Catedral de Parma, “Júpiter e Eu”. De Veneza, cuja principal característica é um movimento flamejante:

El Greco: através de um jogo de claro/escuro, provoca um efeito de emocionalismo

exaltado. Ficou muito conhecido por seus retratos: “O Enterro do Conde de Orgaz”, “Fray Felix Hortensio Paravicino”.

Tintoretto: suas pinceladas audazes, assim como o uso de cores brilhantes e o jogo de

luzes e sombras, provocam um efeito de emocionalismo febril em suas pinturas, contrastando o natural e o sobrenatural: “Cristo Perante Pilatos”, “A Última Ceia”. Verona:

Veronese: também seguia a tendência realista, evitando ainda toda espécie de representação do sobrenatural: “Cristo na Casa de Levi”.

É preciso destacar ainda a Escola de Fontainebleau, que surgiu para que alguns artistas, italianos, flamengos e franceses, decorassem o Palácio Fontainebleau, nos arredores de Paris, na corte de Francisco I. Para exemplificar temos a pintura “Gabriele d’Estrées e sua Irmã no Banho”. Quanto à Escultura ela teve muito pouca variação do Renascimento, sendo agora, no entanto, produzida em tamanhos menores, com formas elegantes, principalmente para decoração de interiores. Os escultores mais importantes dessa época são:

figuras,

alongando-as, “S. João Batista”.

Berrugete:

é

um

dos

poucos

que

deforma

de

maneira

exagerada

as

Bologna: “O Rapto das Sabinas”.

Cellini: “Saleiro de D. Francisco I “.

Primaticcio: Figuras de estuque do Castelo Real de Fontaineblau.

Na Arquitetura o Maneirismo foi um momento de elegância na decoração. As construções que mais se destacam são a “Loggia de los Uffizi”, o “Palazzo Pitti”, a “Villa Rotonda” e “Il Gesù”. Em meados do século XVI surge na Itália o estilo Barroco, que se origina como uma das principais armas de propaganda religiosa do catolicismo, durante a contra-reforma, espalhando-

se pela Europa até metade do século XVIII. Vale lembrar que, a pesar de, no princípio, ter sido formado sobre um caráter estritamente católico na Itália, o Barroco adquiriu características muito próprias dos lugares pelos quais ele se espalhou, sendo que a característica formal comum a todos eles é a incidência de luminosidade nas cenas representadas. O Barroco italiano se desenvolveu a partir de um simbolismo religioso, com tendência sensualista, sob duas orientações, uma mais emocionalista e outra mais naturalista. A orientação emocionalista deu origem ao termo Barroco que significava, extravagante, bizarro e confusão, devido as suas representações com características que produziam um efeito de movimento “turbilíneo”, através do uso exagerado de linhas diagonais e sinuosas, do excesso de luminosidade e da falta de proporção nos pormenores. As obras de arte eram projetadas com um caráter monumental e decorativo, sob um ponto de vista que poderíamos chamar de cinematográfico, pois as cenas, bíblicas e clássicas, eram dispostas em continuidade, por toda a parede, principalmente no teto. Muitas vezes eram pintados elementos da arquitetura, como se fossem reais, produzindo um efeito enganador da visão, chamado Tromp l’oeil, transformando o tátil em visual. Dessa corrente se destacam:

Annibale Carracci: “Palazzo Farnese”, “Paisagem com a Fuga para o Egito”.

Guercino: “Aurora”, na Vila Ludovisi.

Guido Reni: “Aurora”, no Casino Rospigliosi.

Pietro da Cortona: “Glorificação do Pontificado de Urbano VIII”.

A orientação naturalista abordava os temas exatamente com mais naturalidade, sob um

ponto de vista de um Cristianismo laico, isento de dogmas religiosos, assim como temas clássicos. Dessa orientação se destacam:

Artemísia Gentileschi: “Judite e a sua Criada”.

Caravaggio: que trabalha a representação da luz de forma dramática, “A Vocação de

S. Mateus”, “Baco”. A escultura barroca italiana está intimamente ligada à arquitetura e possuem as características da orientação emocionalista, com influência da escultura helenística. Formalmente, se caracteriza pelo excesso de representação do movimento e riqueza de detalhes. Destaca-se, principalmente, o escultor-arquiteto Bernini (“David”, “Êxtase de S. Tereza”). Destacam-se, ainda, Borromini (“S. Carle alle Quattro Fontane”) e Guarino Guarini (“Palazzo Carignano”, “Capela do S. Sudário” na Catedral de Turim). Na Alemanha e na Áustria, o Barroco se manifestou na criação de construções extravagantes, ricamente decoradas, como “O Belveder” em Viena e o “Palácio de Pommersfielden” na Alemanha, ambos projetados pelo arquiteto Hildebrand e o “Mosteiro de Melk”, às margens do Danúbio, projetado por Prandtauer. Em Flandres, o principal representante do Barroco foi o pintor Pier Paul Rubens, que estudou insistentemente a escultura clássica e helênica, assim como as obras italianas do Renascimento Pleno, principalmente Miguel Ângelo e Rafael sendo, ainda, influenciado

diretamente por Caravaggio, Anibale Carracci e pela pintura veneziana. Sua pintura dá ênfase a cor. Sua obra é imensa e se constituí da representação de temas da mitologia clássica e religiosos, assim como retratos e paisagens. Exemplos: “O Levantamento da Cruz”, “O Jardim do Amor”, “O Rapto das Filhas de Leucipo”, “Paisagem com o Château de Steen”.

A pesar de Rubens, o Barroco em Flandres e em outros países protestantes, como

Inglaterra e Holanda, adquiriu um caráter mais sóbrio e menos direcionado à extravagância religiosa. Ainda em Flandres se destaca um aluno de Rubens, Van Dick, que mais tarde veio a se tornar retratista na corte inglesa e fundador do estilo cortesão. Exemplo: “Retrato de Carlos I na Caça”. Precisamente na Inglaterra, o Barroco se desenvolveu sob a forma deste Estilo cortesão, cuja característica principal é a abordagem de temas da vida e das futilidades da corte. Na escultura inglesa se destaca Roubiliac, cujas obras foram espalhadas por toda a parte, representando e louvando a homens ilustres, como por exemplo, “George Frederik Haendel”. Vale lembrar que a Reforma havia desaconselhado, num primeiro momento, e inibido durante muito tempo, o desenvolvimento da produção de imagens escultóricas. Na arquitetura se mantém o estilo perpendicular, característica ainda do gótico inglês, e o classicismo. Quanto à Holanda, em 1648 ela havia conseguido sua independência da Espanha católica e com ela sua liberdade religiosa. Deste feito, o Barroco holandês se desenvolveu a partir de motivos da vida diária, dos bens do indivíduo, da família e da comunidade, valores próprios da crescente burguesia. Desaparecem as representações religiosas. Um dos últimos a abordar esses temas, ainda que de forma laica foi Rembrant, que era pintor e gravador. Ele abordou também temas históricos e retratos, principalmente os seus próprios. Rembrant, a pesar de ser considerado um dos gênios do Barroco, não agradou ao gosto do público holandês que preferiu a representação de temas cotidianos. Rembrant morreu pobre. De suas obras podemos destacar os auto-retratos, “A Anatomia do Dr. Tulp”, “A Vigília”, “Tobias e Ana com o Cabrito”, “O Cegar de Sansão”, “Jacob Abençoando os Filhos de José”. Ainda do Barroco holandês podemos destacar os pintores:

Frans Hals: influenciado por Rubens e Caravaggio; figuras robustas em instantes dramáticos; “O Alegre Beberrão”, “Mallie Babbe”.

Jan van Goyen: paisagista; “Forte na Margem de um Rio”.

Jan Vermeer: pintor da vida cotidiana; “A Carta”.

Jan Steen: pintor da vida cotidiana; “A Véspera de S. Nicolau”.

Van Ruisdael: paisagista; “O Cemitério Judaico”.

Na Espanha o Barroco se desenvolveu principalmente pelas obras do pintor Velázquez,

que era pintor da corte de Felipe IV, em Madri. Velázquez recebeu influência, ainda que indireta de Caravaggio e Ticiano, pintando através da observação da natureza, isto é, com orientação naturalista. Para ele o interessante era surpreender o momento, detendo o movimento, monumentalizando a vida cotidiana. Como exemplo de suas obras temos “Las Niñas”, “O Papa Inocêncio X”, “O Aguadeiro de Sevilla”. Ainda na Espanha se destacam o pintor de naturezas- mortas, Sanchez-Cotán, e o pintor Zurbarán, cujos quadros apresentam uma religiosidade calma e intensa, como por exemplo, “San Serapion”. Na França este período foi chamado de Classicismo Barroco, porque se desenvolveu sobre um estilo claro e severo a partir do estudo da Antiguidade Clássica. Na arquitetura e na escultura as principais obras são o “Pálacio de Versalhes” e as obras do escultor Girardon nos jardins do mesmo. Ainda se destacam os escultores Coysevox (“Busto de Charles Lebrun”) e Puget (“Milo de Crotona”). O Classicismo Barroco se desenvolveu durante o reinado de Luís XIV que, inclusive, mandou abrir a Academia Real de Pintura e Escultura, em 1648, que deveria formar aos artistas dentro de regras estabelecidas, seguindo as idéias de Nicolas Poussin, um pintor influenciado por Ticiano, Rafael, Rubens e pela escola de Veneza, que pintava temas da mitologia clássica e paisagens idealizadas, mas que dava ênfase ao traçado, isto é, ao desenho. Algumas de suas obras são “Cephalus e Aurora” e “O Rapto das Sabinas”. Os pintores que seguiram esse modo de pintar foram chamados de poussinistas, opositores daqueles que davam ênfase à cor, que foram chamados de rubenistas.

da pintura do Classicismo Barroco trabalharam

representando temas religiosos, com características formais clássicas, cenas cotidianas monumentalizadas, paisagens idealizadas e temas da mitologia clássica. São eles:

Claude Lorraine: paisagista; procurava evocar a essência poética de uma paisagem;

“Vista da Campagna”, “Pastoral”.

Georges de la Tour: influenciado por Caravaggio; abordava temas religioso-laicos; “S José Carpinteiro”.

Louis le Nain: influenciado por Caravaggio; cenas cotidianas monumentalizadas;

“Família de Camponeses”. Com a morte de Luís XIV, já no início do século XVIII, durante o período de regência e do reinado de Luís XV, a corte se desinteressou pelas atividades do Palácio de Versalles, vindo a se instalar em casas temporárias em Paris, chamadas Hotels. Isso veio afetar diretamente as construções arquitetônicas que agora não poderiam mais possuir grandes dimensões, pois Paris não poderia comportá-las. Para tanto, se deu ênfase ao interior das construções, voltando-se para a elaboração da decoração, exemplo disto é “O Salão da Princesa”. Nesse momento um pintor francês, Antoine Watteau ficou conhecido por pintar cenas da vida elegante, de uma forma colorista como um rubenista, suave e dissimulada, deliciosamente sensual, dando início a um novo estilo, chamado Rococó. Como exemplo de suas pinturas temos “Um Passeio a Citera” e “Festa num Parque”. Essa nova maneira de pintar ganhou as graças da amante do rei Luís XV, Madame Pompadour, que tinha grande influência na

Os

principais

representantes

sociedade da época e, com ela, as graças da aristocracia e da alta burguesia. O Rococó se firma, então, como arte extremamente decorativa, leve e fútil, tendo como

base o caráter íntimo das fantasias individuais, libertas dos dogmas classicistas. Os temas representados giram em torno do culto ao amor e da figura feminina, sendo pastorais e brincadeiras amorosas com alto teor erótico. Formalmente, o traçado Rococó é curvelíneo e flexível. Os principais seguidores de Wateau foram Fragonard (“Banhistas”), Boucher (“Diana Saindo do Banho”) e Vigée-Lebrun, um pintor retratista (“A Princesa de Polignac”).

Na escultura Rococó temos a realização de pequenos grupos de figuras decorativas, sob

influência de Bernini e Puget e algumas poucas esculturas monumentais. Os principais

representantes são Clodion (“Sátiro e Bacante”) e Falconet (“Estátua Eqüestre de Pedro o Grande”).

O Rococó francês tornou-se moda entre outras cortes européias, principalmente na

Espanha e na Alemanha, destacando-se o Palácio “Sanssouci”, construído em meados do século XVIII, pelo rei da Prússia, e o Palácio de “Würzburg”, na Alemanha, decorado pelo veneziano Tiepolo.

Bibliografia

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HAUSER, A. (1972). História Social da Literatura e da Arte. Vol 1 e 2. São Paulo: Mestre Jou.

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PROENÇA, G. (1996). História da Arte. São Paulo: Ática.

SANTOS, M.G.V.P. História da Arte. São Paulo: Ática, 2000.