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Organização da Produção Agro-Pecuária 2011

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico


O CLIMA

Durante o Verão, as condições climáticas do Mediterrâneo reinam em quase toda a Península


Ibérica: temperatura elevada, luminosidade forte, grande insolação, carência de chuvas.
Apenas uma faixa setentrional, dos Pirenéus à Galiza, se conserva sempre húmida. Se a
Península suporta pressões altas, relativamente à grande depressão sahariana, os ventos
descem dos planaltos interiores, como um sopro ardente e doentio (soão). Se, pelo contrário
- caso mais geral -, os calores do centro da Península cavam aí uma depressão, em toda a orla
ocidental sopram brisas frescas do mar, que amenizam a temperatura sem todavia
originarem chuvas, porque o ponto de condensação é muito elevado durante os calores
estivais. O traçado das linhas isotérmicas, reduzidas ao nível do mar, corre então paralelo ao
litoral português, e a temperatura aumenta à proporção que se encaminha para a raia. A
humidade relativa é elevada junto do oceano, a temperatura é aí mais moderada, as brumas
litorais frequentes, excepto no Algarve. Porém, em toda a extensão do território, Julho e
Agosto são meses sem chuva, ou de chuviscos escassos.
O começo do Outono é marcado por uma série de perturbações, acompanhadas de trovoadas
e de aguaceiros, curtos mas violentos. Nas regiões montanhosas do Norte começa então o
primeiro período de chuvas, que pode durar algumas semanas. No Sul, nuvens caliginosas
passam alto, sobre as planuras ainda quentes, ou dissipam-se em chuvadas fugazes. Em todo
o caso são elas que, depois do Verão, regulam o início dos trabalhos agrícolas das
sementeiras. Passada esta primeira perturbação, o tempo quente e luminoso ainda às vezes
se prolonga muito. As noites começam a arrefecer, mas os dias são límpidos e soalheiros; o
ar carrega-se de humidade, que dá à luz os doces tons outonais. O Verão de São Martinho
pode entrar por Novembro adiante.
O Inverno é, para nós, o tempo do frio e da chuva. Duas situações meteorológicas opostas
alternam na Península. Pelas noites, cada vez mais longas, a temperatura média diária vai
diminuindo. Nos planaltos elevados das Castelas, o ar arrefecido começa a gerar um centro
de pressões altas, enquanto, no mar, mais tépido, se mantêm áreas de depressão. Os ventos
divergem, frios e cortantes, do interior da Península. Nesta época do ano, a Península ora se
comporta como um continente em miniatura, regulando, com os seus próprios recursos, os
movimentos da atmosfera, ora o seu centro se liga ao anticiclone dos Açores ou ao da Europa
Central: uma estreita ponte chega por vezes a uni-los. Temos, neste tempo, que chega a
durar semanas, dias luminosos, secos, de atmosfera límpida e temperatura elevada nos
lugares abrigados. Mas, onde sopra o vento, sente-se frio; e, durante as noites de
incomparável luar ou céu estrelado, arrefece tanto que os campos despertam debaixo de um
lençol de geada.
Este período, de tempo estável, é precedido e seguido de situações naturalmente
transitórias. São os rosários de depressões que se deslocam, nesta latitude, de oeste para
leste, e percorrem a bacia do Mediterrâneo ou a Europa média. Estas depressões têm um
sector alimentado pelo ar húmido e tépido do Atlântico tropical. Aos dias frios e límpidos
sucede um adoçamento de temperatura, anunciado por nuvens no poente e pelas primeiras
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Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico
condensações nas vertentes montanhosas. É a passagem da frente quente. O céu cobre-se
por completo; sopra do mar uma aragem húmida e morna, que se revolve em chuvas
intermitentes ou prolongadas. É ainda por tempo chuvoso que um arrefecimento marca a
passagem da frente fria e, com ela, o termo da célula ciclónica.
Portugal recebe, em primeira mão, de encontro às suas montanhas do Norte, as chuvas
fecundantes. Quando estas massas de ar, vindas do Atlântico carregadas de humidade,
ultrapassam as montanhas, perderam por condensação boa parte do vapor de água que
transportavam. Daí o contraste, muito forte, como se verá, entre a zona oceânica e as terras
interiores, trasmontanas, subtraídas à directa influência do mar.
O Outono, o Inverno e a Primavera conhecem este tempo perturbado, chuvoso e variável. O
mês de mais chuva é geralmente Dezembro, mas em muitas estações Março apresenta um
máximo secundário.
Tais são as condições gerais que regem o clima de todo o território português. Mas, tal como
para o relevo, do norte ao sul desenha-se a oposição clara entre uma área húmida, chuvosa,
de estiagem moderada, e outra mais seca, de chuvas escassas e de Verão ardente e muito
longo.
Não é por acaso que aquela coincide com as terras altas do Norte e esta com as planuras
meridionais. As chuvas, tão importantes na vertente atlântica, são, em grande parte, devidas
à barreira montanhosa e às condensações que ela determina: chuvas de relevo, tanto mais
abundantes e prolongadas quanto mais se sobe. Mas, este factor de contraste, nascido da
altitude, não vem senão reforçar as condições da própria circulação atmosférica. É no litoral
português que se extremam duas regiões climáticas diferentes: a mediterrânea e a oceânica.
A primeira com as afinidades tropicais do seu Verão quente e seco, seus Invernos doces,
atravessados por fugazes perturbações vindas do Ocidente. A segunda sujeita já ao influxo
permanente dos ventos de oeste, ventos húmidos do Atlântico, onde nascem os ciclones que
rumam em sentido contrário. A aragem marítima tempera o clima e faz descer a amplitude
anual. Mas o Inverno já se sente, com temperaturas baixas, noites frias, muitos dias
consecutivos de chuva, neve nas montanhas, geada nos campos.
No Verão, o clima mediterrâneo reina por toda a parte, no litoral e no interior, na terra chã e
nas serranias. Mas a duração dele é menor na costa ocidental, nas serras e no Norte, máxima
no Sul. O tempo frio, perturbado e chuvoso, dura consoante se mantêm as influências
setentrionais. Durante o Inverno, em avançadas breves, pode sentir-se já a acção da frente
polar, com massas de ar frio que reforçam as do centro da Península. O elemento
característico do clima oceânico e da sua extrema variação é, porém, a passagem de
perturbações vindas do Ocidente e o avanço de massas de ar que, ao percorrerem os
oceanos, se carregaram de humidade. Esta influência atlântica, trazida pelos ventos dos
quadrantes de oeste, domina o clima português: apenas uma época do ano a atenua - o Verão
- e uma faixa de território lhe escapa por mais tempo - o Sul.

In: Orlando Ribeiro (1998) Capítulo 2 - Portugal Mediterrâneo. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Livraria Sá da Costa
Editora, p. 41-43.