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ARSÊNICO E ALFAZEMA

DE: Joseph Kesselring


TRADUÇÃO: Anderson Franco e Carlos Eduardo Carneiro

PRIMEIRO ATO

Final de tarde. Setembro. Época, 1941.


Lugar: sala de estar da casa do velho Brewster, em Brooklyn, Nova York, tão
vitoriana como as duas irmãs Abby e Martha Brewster, que moram na casa
com seu sobrinho, Teddy.
Na frente do palco, à direita, está a porta de entrada da casa: uma porta
grande com painéis de vidro fosco na sua metade superior, através da qual,
quando aberta, pode ser vista a varanda da frente e, o gramado e os
arbustos do jardim. Dos dois lados da porta existem janelas estreitas com
pequenos painéis de vidro e cortinas. O resto da parede direita é tomado
pelo primeiro lance da escada que leva ao andar de cima. No fundo do palco,
ao canto, tem um patamar, onde as escadas fazem curva para continuar ao
longo da parede do fundo da sala. No alto da escada, ao longo da parede do
fundo, tem outro patamar com uma porta que leva aos quartos do segundo
andar e um arco, à esquerda deste patamar, sugere escadas que levam ao
terceiro andar.
No palco, debaixo deste patamar, tem uma porta que leva ao porão. Vê-se, à
esquerda desta porta, um nicho contendo um aparador e em cima deste, de
ambos os lados, dois pequenos armários, onde as irmãs guardam, entre
outras coisas, garrafas de vinho de sabugueiro. À esquerda do nicho está a
porta que leva à cozinha.
Na parede esquerda da sala, uma grande janela que dá para o cemitério da
igreja episcopal vizinha, esta janela tem as usuais cortinas de renda e
reposteiros pesados, que abrem e fecham com um cordão pesado, embaixo
da janela, uma grande arca. Quando sua tampa é levantada, as dobradiças
rangem audivelmente.
Á esquerda do pé da escada, vê-se uma pequena escrivaninha onde fica um
telefone; ao lado desta um banquinho. Ao longo da parede do fundo, à
direita da porta do porão, há um sofá antiquado. No centro da sala, à
esquerda, uma mesa redonda, com uma cadeirinha à direita da mesa. Atrás,
à esquerda da mesa, uma cadeira de braços, grande e confortável. Nas
paredes estão os quadros usuais, incluindo diversos retratos dos
excêntricos ancestrais Brewster.
Ao subir a cortina, Abby Brewster, uma velhinha rechonchuda de sessenta e
muitos anos, está presidindo o chá. Ela está sentada à mesa em frente de
um aparelho de chá de prata. À sua esquerda, na cadeira de braço, está o
reverendo Harper, velho pároco da igreja vizinha. De pé, no centro, sorvendo

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pensativamente uma xícara de chá, está seu sobrinho Teddy, de
sobrecasaca, com um pince-nez atado a uma fita preta. Teddy tem
aproximadamente 40 anos e usa um grande bigode.

ABBY: Sim, na verdade minha irmã Martha e eu falamos a semana inteira sobre
sua palestra do último Sábado. É realmente maravilhoso, Sra. Harper, como a
senhora conseguiu assimilar o espírito do Brooklin.

HARPER: É muito bom ouvir isso, Srta. Brewster.

ABBY:. Sempre achamos que o espírito de Brooklyn é a amizade, mas depois de


sua última palestra tivemos a verdadeira noção de espírito.

TEDDY: Eu, por mim, sempre gostei conversas espirituais. Eu já lhe contei sobre
o que penso dos espíritos.

ABBY: Não, querido, ainda não. Mudando de assunto. Os biscoitos estão bons?

TEDDY: Senta no sofá. Fantásticos.

ABBY: Aceita mais um biscoito, Sra. Harper?

HARPER: Não, obrigada, tenho medo de perder a fome e não jantar. Sempre
exagero nos biscoitos, só para saborear esta geléia deliciosa.

ABBY: Mas a senhora ainda não experimentou a de marmelo. Nós sempre


colocamos um pouco de maçã para tirar a acidez.

HARPER: É tentador, mas agradeço.

ABBY: Vamos mandar um pote para a senhora.

HARPER: Não, não, guardem aqui, pois assim posso continuar comendo sempre
seus biscoitos com ela.

ABBY: Espero que não façam a gente usar esta farinha falsificada outra vez, isto
é – com este problema de guerra. Pode ser falta de caridade minha, mas estou
quase chegando à conclusão de que esse senhor Hitler não é cristão.

HARPER: Com um suspiro. Se ao menos a Europa fosse noutro planeta!

TEDDY: Bruscamente. A Europa, senhora?

HARPER: Sim, Teddy.

TEDDY: Aponte seu revólver para o outro lado.

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HARPER: Revólver?

ABBY: Tentando acalmá-lo. Teddy.

TEDDY: Para o oriente! É lá que se encontra o perigo! É onde está o inimigo! O


Japão!

HARPER: Bem, sim, sim, certamente.

ABBY: Teddy!

TEDDY: Não, tia Abby! Menos conversa sobra a Europa e mais sobre o canal!

ABBY: Bem, não vamos falar sobre a guerra. Quer mais uma xícara de chá,
querido?

TEDDY: Não, obrigado, tia Abby.

ABBY: E a senhora, não aceita mais uma mesmo?

HARPER: Não, obrigada. Devo dizer, Srta. Abby, que a guerra e a violência
parecem estar muito longe daqui.

ABBY:. É bastante calmo aqui, não é mesmo?

HARPER: Sim, muito calmo. (como se tivesse tendo um pressentimento) As


virtudes do passado – elas estão todas nesta casa. Posso realmente senti-las...

ABBY: Olhando em volta, com satisfação. É uma das casas mais antigas de
Brooklyn. Continua exatamente como o vovô Brewster construiu e mobiliou.
Exceto pela eletricidade, que usamos o menos possível. Foi Mortimer que nos
convenceu a instalar.

HARPER: Começando a mostrar contrariedade. Eu entendo. Seu sobrinho


Mortimer parece conhecer apenas a luz elétrica.

ABBY: O pobre menino tem que trabalhar até tarde. Parece-me que hoje vai levar
Elaine ao teatro, novamente. Teddy, seu irmão Mortimer vai chegar um pouco
mais tarde.

TEDDY: Sorrindo com os dentes a mostra. Ex-plo-si- vo!

ABBY: Achamos tão bom que Mortimer esteja saindo com Elaine, principalmente
para leva-la ao teatro.

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HARPER: Bem, é uma experiência nova para mim, esperar até as 3 horas da
manhã que minha filha chegue em casa.

ABBY: Oh, Sra. Harper, espero que a senhora não tenha nada contra o Mortimer.

HARPER: Bem...

ABBY: Se a senhora tivesse, nós nos sentiríamos tão culpadas – minha irmã
Martha e eu, pois foi aqui em casa que sua filha conheceu Mortimer.

HARPER: É claro, Srta. Abby, e acredite que considero Mortimer um rapaz de


valor, mas não nego que tenho visto com certa apreensão a crescente intimidade
entre ele e minha filha. Por uma razão, Sta. Abby.

ABBY: O senhor está se referindo ao estômago dele, Sra. Harper?

HARPER: Estômago?

ABBY: Aquela dispepsia. Pobre menino, sofre tanto com ela.

HARPER: Não Srta. Abby. Para ser franca com a senhorita, estou falando da
infeliz relação de seu sobrinho com os fatos espirituais da vida. E apesar de
escrever sobre o teatro, parece que ele não consegue assimilar a verdadeira
relação espirtual que possui esse nobre trabalho.

ABBY: O teatro! Ah, não, reverendo! Mortimer escreve para um jornal de Nova
York.

HARPER: Eu sei, Srta. Abby, eu sei. Mas um crítico está constantemente exposto
ao teatro, o que deveria fazer com que ele se apegasse mais às conexões
espirituais que ele possui.

ABBY: Mas Mortimer é diferente Sra. Harper. A sua ignorância em relação ao


assunto é devido a sua grande preocupação com o jornal e tudo mais, é apenas
isso..

HARPER: Verdade?

ABBY: Verdade. Ele escreve coisas terríveis sobre o teatro. Vivia feliz escrevendo
sobre imóveis, que é o que conhece bem, e eles fizeram com que ele pegasse
este horrível trabalho noturno,daí o seu bloqueio em relação ao teatro.
Poderíamos chamar de contrariedade.

HARPER: Ora, Ora.

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ABBY: Mas, ele tenta se conformar dizendo que é o seu ganha pão.
Complacentemente – É, eu acho que podemos dar um tempo para que ele
assimile essa espiritualidade inerente ao teatro, conforme a senhora diz.
Uma batida na porta direita. Ora, quem será agora? Todos se levantam e Abby
vai até a porta. Teddy vai para a porta ao mesmo tempo, mas Abby faz com
que ele pare. Não, obrigada, Teddy. Eu abro. Ela abre a porta e deixa entrar
dois guardas, os oficiais Brophy e Klein. Entre, Srta. Brophy.

BROPHY: Alô, Srta. Abby.

ABBY: Como vai, Srta. Klein?

KLEIN: Bem obrigado, Srta. Brewster. As policiais vão até Teddy que está em
pé junto à escrivaninha e fazem continência. Teddy devolve a saudação.

TEDDY: Que notícias as senhoras trazem?

BROPHY: Não temos nada a informar, Coronel.

TEDDY: Esplêndido. Obrigado, senhoras, descansar. As policiais ficam à


vontade e vão para frente do palco. Abby fecha a porta e vira-se para eles.

ABBY: As senhoras conhecem a Sra.Harper?

KLEIN: Certamente! Como vai Sra. Harper.

BROPHY: Vira-se para Abby, tirando o quepe. Viemos buscar os brinquedos.

ABBY: Ah, pois não.

HARPER: Em pé, na frente da mesa. É um trabalho esplêndido este das


senhoritas – consertar brinquedos usados para proporcionar a crianças pobres um
natal mais feliz.

KLEIN: Assim pelo menos a gente tem alguma coisa para fazer na delegacia. A
gente cansa de retocar a maquiagem e fazer as unhas, daí começamos a limpar
as armas, e a primeira coisa que acontece é dar um tiro no próprio pé. Klein
perambula até o fundo esquerdo em direção à arca.

ABBY: Indo em direção à Teddy. Teddy, vá lá em cima e pegue aquela caixa


grande no quarto de tia Martha. Abby fala com Brophy. Como está sua mãe
hoje? A Sra. Brophy tem estado bem doente, Sra. Harper.

BROPHY: Para Harper. Pneumonia!

HARPER: Sinto muito.

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TEDDY: Que chegou ao 1º patamar, onde para e puxa de uma espada
imaginária gritando. Atacar! Investe escada acima e sai pelo balcão. Os
outros não prestam atenção.

BROPHY: Oh! Ela agora está melhor. Ainda um pouco fraca.

ABBY: Indo em direção à cozinha. Vou buscar um caldinho de carne para você
levar para ela.

BROPHY: Não se incomode, Srta. Abby. A senhora já fez tanto por ela.

ABBY: Na porta da cozinha. Fizemos o caldinho esta manhã. Minha irmã Martha
acaba de levar um pouco para o pobre Sr. Benitzki. Eu volto já. Estejam à
vontade. Ela entra para a cozinha. Harper se senta.

BROPHY: Vai para a mesa e se dirige aos outros dois. Ela não precisava se
incomodar.

KLEIN: Não adianta tentar impedir que sejam generosas. Ele senta na arca.

HARPER: Quando vim morar no Brooklyn, e me mudei para aqui ao lado, meu
marido já não se encontrava bem. Quando ele morreu, foram as irmãs Brewsters
quem me ajudaram, poderia até mesmo dizer que foram elas,com sua alta
espiritualidade que fizeram com que eu descobrisse minha veia literária e
paranormal.
Neste momento Teddy aparece no balcão tocando uma corneta. Todos
olham.

BROPHY: Virando-se em direção ao fundo do palco e advertindo. Coronel, o


senhor prometeu não fazer isso!

TEDDY: Mas eu tenho que convocar o Ministério para conseguir a liberação


destes suprimentos. Vira-se e sai.

BROPHY: Ele costumava tocar no meio da noite. Os vizinhos ficavam


enlouquecidos. Eles no fundo tem um pouco de medo dele.

HARPER: Ora, é um rapaz inofensivo.

KLEIN: Ele pensa que é o presidente Teddy Roosevelt. Poderia ser coisa pior.

BROPHY: É uma pena... Uma família tão boa com um biruta desses.

KLEIN: Bem, o pai dele – o irmão da Srta. Abby– era uma espécie de gênio – não
era? E o pai delas – o avô de Teddy – parece que era um pouco maluco também.

BROPHY: O que ele era é muito vivo. Ganhou um milhão de dólares.

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HARPER: Verdade? Aqui no Brooklyn?

BROPHY: É. Patente de remédios. Ele era uma espécie de charlatão. O velho


sargento Edwards lembra dele. Essa casa virou uma clínica. Usava as pessoas
como cobaias.

KLEIN: Auh! Ouvi dizer que cometia uns “errinhos” de vez em quando.

BROPHY: O departamento nunca interferiu porque ele às vezes ajudava nas


autópsias. Principalmente nos casos de envenenamento.

KLEIN: Bem, seja lá o que ele tenha feito, deixou as filhas bem de vida. Graças a
Deus!

BROPHY: Não que elas gastem esse dinheiro com elas mesmas.

HARPER: Estou bem a par da caridade que fazem.

KLEIN: A senhora não sabe nem a metade da história. Quando eu servia no


Departamento de Pessoas Desaparecidas, estava procurando um velho que
nunca foi encontrado. Levanta-se. Você sabe que esta casa consta da lista de
uma locadora de imóveis na lista de quartos para alugar? Elas não alugam quartos
mas aposto que qualquer um que venha aqui à procura de um, vai embora com
uma boa refeição na barriga e provavelmente alguns dólares no bolso.

BROPHY: É a maneira que elas tem de desencavar pessoas para ajudar.

A porta da entrada abre e Martha Brewster entra. Ela também é uma doce
velhinha com charme vitoriano. Está vestida da mesma maneira antiquada
de Abby mas com uma gola alta de renda. Os homens se erguem.

MARTHA: Na porta. Ah! Mas não é ótimo? Fecha a porta.

BROPHY: Indo em direção à Martha. Boa Tarde, Srta. Brewster.

MARTHA: Como vai Srta. Brophy? Sra. Harper... Srta. Klein...

KLEIN: Como vai, Srta. Brewster? Nós viemos pegar os brinquedos do Natal.

MARTHA: Ah, sim! O Exército e a marinha de Teddy. São brinquedos quebrados.


Já os embrulhei. Ela vira para a escada e Brophy interrompe-a.

BROPHY: O Coronel foi lá em cima buscá-los. Parece que o Ministério tem que
aprovar.

MARTHA: Sim, é claro. Espero que sua mãe esteja melhor.

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BROPHY: Ela vai indo bem. Sua irmã foi buscar uma sopa para ela.

MARTHA: Passando em frente a Brophy para o centro. É, nós fizemos o caldo


hoje de manhã. Acabo de levar um pouco para o pobre homem que se quebrou
todo.

ABBY: Vindo da cozinha carregando uma vasilha tampada. Ah! Você voltou,
Martha? Como está o Sr. Benitzki?

MARTHA: Bem, querida, tenho medo que seja sério. O médico foi lá e vai ter que
amputar amanhã.

ABBY: Esperançosa. Será que nós podemos assistir?

MARTHA: Desapontada. Não. Eu pedi, mas ele disse que era contra as regras do
hospital. Martha vai para o aparador onde coloca a vasilha. Deixa a capa e o
chapéu na mesinha da esquerda alta. Teddy aparece no balcão com uma
grande caixa de papelão e desce a escada colocando-a no banco da
escrivaninha. Klein se dirige para a caixa de brinquedos. Harper fala
enquanto isso.

HARPER: As senhoras não ajudariam muito, e além do mais precisam se poupar


um pouco.

ABBY: Para Brophy. Aqui está o caldo, Srta. Brophy. Fique certo de que está
gostoso e quentinho.

KLEIN: Vai para a porta da entrada com a caixa, abre a porta, Brophy vai
atrás. Já vamos Sra., e muito obrigado.

ABBY: Não há de que. Os policiais param na porta, fazem continência para


Teddy e saem. Abby atravessa o palco e fecha a porta enquanto fala. Teddy
começa a subir a escada.
Adeus.

HARPER: Vai para o sofá e pega o chapéu. Também preciso ir para casa.

ABBY: Antes que a senhora vá,...

TEDDY: Que chegou ao 1º patamar. Atacar! Arremete para cima. No alto,


para, e com um gesto sobre o corrimão, convida todos a o seguirem
enquanto fala. Atacar a fortaleza! Corre porta adentro, fechando-a depois de
passar.

HARPER: Fortaleza?

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MARTHA: As escadas são sempre a colina de San Juan.

HARPER: As senhoras já tentaram persuadi-lo de que ele não é Teddy


Roosevelt?

ABBY: Ah, não!

MARTHA: Ele fica tão feliz sendo Teddy Roosevelt.

ABBY: Uma vez, há muito tempo... Vai em direção a Martha... lembra, Martha?
Nós pensamos que se ele se tornasse George Washington, poderia ser bom para
ele.

MARTHA: Mas ele ficou debaixo da cama vários dias sem querer ser ninguém.

ABBY: E a não ser ninguém, preferimos que ele seja Teddy Roosevelt mesmo.

HARPER: Bem, se ele fica feliz com isso – e o que é mais importante – se as
senhoras estão felizes... Tira um papel azul do bolso. Façam com que ele assine
estes papéis.

MARTHA: O que é isto?

ABBY: A Sra. Harper tomou todas as providências para que Teddy vá para o
sanatório Lar Feliz quando nós passarmos desta para melhor.

MARTHA: Mas porque Teddy tem que assinar algum papel agora?

HARPER: É melhor deixar tudo arranjado. Se Deus resolver levá-las de uma hora
para outra, para a outra dimensão, talvez não possamos convencer Teddy a
concordar, e isto nos traria complicações legais. A Sra. Witherspoon sabe que os
papéis vão ficar guardados até que seja preciso usá-los.

MARTHA: Sra. Witherspoon? Quem é ela?

HARPER: É a superintendente do Lar Feliz.

ABBY: Para Martha. A Sra. Harper combinou com ela para vir aqui amanhã ou
depois, e conhecer Teddy.

HARPER: Indo até a porta da entrada e abrindo- a. Acho melhor ir andando


antes que Elaine venha me buscar.

ABBY: Vai até a porta e grita para ele. Lembranças a Elaine – e Sra. Harper, por
favor, não seja tão severa com Mortimer só porque ele não encontrou a
espiritualidade do teatro. Fecha a porta e volta à sala.

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MARTHA: Indo até o aparador e colocando os formulários em cima dele.
Nota o aparelho de chá na mesa.
Vocês tomaram chá agora? Não é meio tarde?

ABBY: Como alguém que sabe um segredo. É sim. E o jantar vai ser tarde
também.

Teddy chega no balcão e desce para o primeiro patamar.

MARTHA: Dirigindo-se a Abby. É? Por quê?

ABBY: Teddy! Teddy para no patamar. Boas notícias para você. Você vai para o
Panamá cavar outra comporta para o canal.

TEDDY: Ex-plo-si-vo! Isto é fantástico! Simplesmente fantástico!. Vou me preparar


imediatamente para a viagem. Vira-se para subir, para, como se tivesse ficado
intrigado, volta correndo ao patamar e berra: Atacar! Sobe correndo e sai.

MARTHA: Eufórica. Enquanto eu estava fora, Abby?

ABBY: Pegando a mão de Martha. Isso mesmo, querida. Não pude esperar por
você. Não sabia a que horas você ia voltar e a Sra. Harper estava para chegar.

MARTHA: Mas, sozinha?

ABBY: Ah, mas eu me saí muito bem.

MARTHA: Vou correndo lá embaixo para ver. Ela se dirige, feliz, para a porta
do porão.

ABBY: Ah, não, não houve tempo, e eu estava inteiramente sozinha.

MARTHA: Olha pela sala em direção à cozinha. Bem...

ABBY: Recatadamente. Martha – olhe na arca. Martha quase dá um salto para


a arca, e no momento em que chega lá ouve-se uma batida na porta da
entrada. Ela para. Ambas olham em direção à porta. Abby corre para a porta
e abre. Elaine Harper entra. É moça atraente de seus vinte anos, parecendo
surpreendentemente elegante para uma filha de pastor.
Oh, é Elaine. Abre mais a porta. Entre, querida.

ELAINE: Vai para o centro. Abby fecha a porta e vai para o centro. Boa tarde,
D. Abby. Boa tarde, D. Martha. Pensei que mamãe estivesse aqui.

MARTHA: Indo em direção à esquerda da mesa. Ela acabou de sair. Você não
se encontrou com ela aí fora?

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ELAINE: Apontando a janela da parede esquerda. Não, eu cortei caminho pelo
cemitério. Mortimer não chegou ainda?

MARTHA: Ainda não.

ELAINE: Ele me pediu para encontrá-lo aqui. Posso esperar por ele?

MARTHA: Claro que pode.

ABBY: Porque você não se senta, querida?

ELAINE: Sabem, estou achando maravilhoso ir ao teatro quase toda noite.

MARTHA: Nós também achamos. É bom saber que se Mortimer é obrigado a ver
essas peças que ele tem que ver, ao menos está sentado ao lado da filha de uma
mulher que dá valor às coisas do espírito.
Martha vai para trás da mesa. Abby também e começa a tirar o chá. Elaine e
Martha ajudam.

ABBY: Meu Deus, Elaine! O que você deve pensar de nós por não termos tirado a
mesa até esta hora!
Pega na bandeja e vai para a cozinha. Martha sopra uma vela, leva para o
aparador e Elaine faz o mesmo com a outra vela.

MARTHA: Para Abby enquanto ela sai. Não se incomode com a cozinha.
Quando Mortimer chegar eu lhe ajudo. Para Elaine. Mortimer deve estar
chegando.

ELAINE: É. Mamãe vai ficar surpresa por não me encontrar em casa. É melhor eu
dar um pulo até lá e dizer boa noite a ela. Vai até a porta da entrada.

MARTHA: Pena vocês terem se desencontrado.

ELAINE: Abrindo a porta. Quando Mortimer chegar, digam a ele que volto logo.
Abre a porta e vê Mortimer do lado de fora. Alô, Mortimer. Mortimer Brewster
entra. Ele é um crítico de teatro.

MORTIMER: Alô, Elaine. Quando passa por ela em direção à Martha,


colocando-se, assim, entre Elaine e Martha, estica o braço para trás e
acaricia o traseiro de Elaine e então abraça Martha.
Alô, tia Martha.

MARTHA: Falando enquanto sai para a cozinha.


Abby, Mortimer chegou.

Elaine fecha a porta vagarosamente.

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MORTIMER: Voltando-se para a direita. Você estava indo a algum lugar?

ELAINE: Ia dizer a mamãe que não me esperasse.

MORTIMER: Eu não sabia que isto ainda se usava, nem mesmo no Brooklyn.
Joga seu chapéu no sofá.

ABBY: Vem da cozinha. Martha para no umbral da porta, à direita. Em


direção a Mortimer, no centro. Olá Mortimer.

MORTIMER: Abraça e beija Abby. Olá, tia Abby.

ABBY: Como vai, querido?

MORTIMER: Muito bem. E você também parece bem. Vocês não mudaram muito
desde ontem.

ABBY: Ah, Meu Deus, foi ontem, não foi? Nós temos visto você bastante,
ultimamente.
Ela atravessa o palco e começa a sentar na cadeira atrás da mesa.
Vamos, sentem-se, sentem-se.

MARTHA: Impedindo-a de sentar. Abby, nós não temos uma coisa para fazer na
cozinha?

ABBY: Hein?

MARTHA: Você sabe... A louça do chá...

ABBY: Olhando subitamente Mortimer e Elaine e entendendo. Ah! É isto


mesmo... A louça do chá... recua em direção à cozinha. Bem, fiquem à vontade.
Fiquem...

MARTHA: ... à vontade...

Elas saem pela porta da cozinha e Abby fecha a porta.

ELAINE: Aproximando-se de Mortimer, pronta para ser beijada. Você não


entende uma indireta?

MORTIMER: Reclamando. Não... Foi um tanto quanto óbvio. Pouco original, eu


diria.

ELAINE: Ligeiramente aborrecida enquanto vai para a mesa e coloca sua


bolsa sobre ela. É. É exatamente o que você diria.

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MORTIMER: Ele está na escrivaninha, tirando vários papéizinhos do bolso e
separando notas de dinheiro misturadas com os papéis. Onde você quer ir
jantar?

ELAINE: Abrindo a bolsa e se olhando num espelhinho de mão. Onde você


quiser. Não estou com muita fome.

MORTIMER: Acabei de tomar o café da manhã. E se a gente esperasse até


depois do espetáculo?

ELAINE: Vai ficar um pouco tarde, não acha?

MORTIMER: Não com a droga de peça que iremos ver esta noite. Se o que ouvi
sobre ela estiver certo, estaremos no Blake’s às dez horas.

ELAINE: Indo para o centro alto. Você deveria ser mais condescendente com as
peças que vê.

MORTIMER: Elas também deveriam ser mais condescendentes comigo.

ELAINE: Nunca o tinha ouvido falar dessa forma de um musical.

MORTIMER: A peça que veremos hoje não é um musical.

ELAINE: Desapontada. Ah, não?

MORTIMER: Querida já era tempo de você entender da temporada de teatro. Em


se tratando de musicais há sempre o anúncio de quatro estréias, e três
cancelamentos. É verdade que todos gostam de musicais em New Haven, mas é
muito trabalhoso.

ELAINE: Eu havia pensado que veríamos um musical esta noite!

MORTIMER: É que, como todas as garotas ingênuas, você adora musicais.

ELAINE: Não sou tão ingênua assim. O fato é que os musicais, de certa forma,
despertam bons sentimentos nas pessoas. Ele lhe dirige o olhar. Pois veja nosso
caso: depois de assistirmos uma peça séria, um drama, nos juntamos às pessoas
para pegar o metrô e eu fico ouvindo você dissertar sobre o que viu. Depois de um
musical você me leva para casa de táxi e ainda me faz alguns elogios.

MORTIMER: Indo até o centro baixo. Ei, espere um minuto querida, estou me
esquecendo da minha credencial de jornalista.

ELAINE: Bem, devo admitir que depois do drama de Behrman você me disse que
eu tinha um tipo de beleza especial - e isto é o tipo de coisa que mexe com uma
garota. Mas você nunca me havia dito isso, o que só aconteceu porque antes

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havíamos visto um musica, depois do qual você disse que eu tinha belas pernas.
O que é a pura verdade!!

MORTIMER: Olha para as pernas dela depois vai até ela e beija-a . Para uma
filha de uma escritora espiritualista, você está sabendo muita coisa sobre a vida
carnal.

ELAINE:, preciso avisar mamãe para não ficar me esperando até tarde.

MORTIMER: Quase para si mesmo. Eu nunca fui capaz de me explicar bem isso.

ELAINE: Isso o quê?

MORTIMER: O fato de estar apaixonado por uma moça do Brooklyn.

ELAINE: Apaixonado? Você não está entregando os pontos está?

MORTIMER: Ignorando o aparte. A minha única maneira de recuperar a auto-


estima é manter você em Nova York.

ELAINE: Dando uns poucos passos em direção a ele. Você disse “manter”?

MORTIMER: Não, não. Cheguei à conclusão que você está se reservando para
depois de legalizar a situação.

ELAINE: Indo em direção a ele enquanto ele recua. Eu posso me dar ao luxo
de ser uma moça direita por alguns anos ainda.

MORTIMER: Para e a abraça. E eu não posso esperar tanto. Onde é que


podemos casar depressa? Vamos dizer – hoje à noite?
Ela sorri para ele com amor e anda em sua direção. Ele a encontra na
metade do caminho e se perdem um momento num abraço sentimental e um
beijo. Quando param, ele se afasta dela rapidamente, indo para perto da
escrivaninha. Pode ser que eu faça uma boa crítica sobre essa peça hoje.

ELAINE: Ora, meu bem, não finja que você me ama tanto assim...

MORTIMER: Olha para ela com contida luxúria e vai em direção a ela. Não se
esqueça de dizer a sua mãe para que não a espere esta noite.

ELAINE: Consciente que não pode confiar neles próprios e recuando para o
fundo. Pois acho que esta noite é que vou pedir que ela me espere.

MORTIMER: Seguindo-a. Vou telefonar para o Winchell, o cronista social, e pedir


que publique os proclamas.

ELAINE: Querido! Vou conversar com mamãe e marcaremos a data!

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TEDDY: Vem do balcão e desce a escada vestindo roupas tropicais e um
chapéu de explorador. No pé da escada vê Mortimer. Vai até ele e aperta
suas mãos. Olá Mortimer.

MORTIMER: Gravemente. Como vai, senhor Presidente?

TEDDY: Fantástico! Fantástico! Que notícias você me traz?

MORTIMER: Somente a de que o país o está apoiando totalmente , senhor


Presidente.

TEDDY: Sorridente. Sim, eu sei. Não é maravilhoso?


Aperta novamente as mãos de Mortimer. Bem, adeus. Vai a Elaine e aperta
as mãos dela. Adeus. Vai para a porta do porão.

ELAINE: Onde é que você está indo, Teddy?

TEDDY: Ao Panamá. Sai pela porta do porão, batendo-a, e Elaine olha


interrogativamente para Mortimer.

MORTIMER: Panamá é o porão. Ele cava comportas para o canal lá em baixo.

ELAINE: Pegando no braço de Mortimer e caminhando com ele pela frente


esquerda, para direita da mesa. Você é tão carinhoso com ele. Ele gosta muito
de você.

MORTIMER: Bem, Teddy sempre foi o meu irmão favorito.

ELAINE: Parando e olhando para ele. Favorito? Tem algum outro?

MORTIMER: Há outro irmão – o Jonathan.

ELAINE: Nunca ouvi falar nele. Suas tias nunca o mencionaram.

MORTIMER: Não gostamos de falar em Jonathan. Ele foi embora do Brooklyn


muito cedo, a pedidos. Jonathan era o tipo de garoto que gostava de partir
minhocas – com os dentes.

ELAINE: O que é que aconteceu com ele?

MORTIMER: Não sei. Queria ser cirurgião, como vovô, mas não queria passar
antes pela Faculdade de Medicina. E isso lhe criou alguns problemas.

ABBY: Vindo da cozinha e cruzando para a frente da mesa. Vocês não vão
chegar atrasados no teatro?

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MORTIMER: Com o braço em volta do pescoço de Elaine, olha o relógio. Nós
não vamos jantar. Só temos que sair daqui a meia hora.

ABBY: Recuando à esquerda alta. Bem, então vou deixar vocês dois sozinhos
outra vez.

ELAINE: Não se incomode, querida. Cruzando para direita em frente de


Mortimer. Vou dar uma fugida para falar com mamãe. Para Mortimer. Antes que
eu saia com você, ela gosta de me fazer algumas previsões. Corre para a porta
da entrada , abre-a, conservando a mão esquerda na maçaneta de fora. Volto
já – vou cortar caminho pelo cemitério.

ABBY: Feliz, enquanto vai para o centro. Mortimer, Elaine é mesmo uma boa
moça. Martha e eu acreditamos que ela será uma boa influência para você.

MORTIMER: Ri, anda para esquerda e aí vira para Abby. Por falar nisso, eu vou
casar com ela.

ABBY: O quê? Ah, querido! Ela corre e o abraça e então dispara em direção à
porta da cozinha enquanto Mortimer vai para a janela esquerda e olha para
fora.
Martha! Martha! Martha vem da cozinha. Venha cá! Tenho notícias ótimas para
você! Mortimer e Elaine vão se casar!

MARTHA: Casar! Oh, Mortimer! Ela corre para a direita de Mortimer que olha
para fora da janela, abraça-o e beija- o

ABBY: Vai para esquerda dele. Ele abraça as duas. Nós esperávamos que isso
acontecesse. Elaine deve ser a moça mais feliz do mundo.

MORTIMER: Puxa a cortina para trás e olha pela janela. Feliz? Olha só para ela
pulando aqueles túmulos. Olhando para fora, ele nota subitamente alguma
coisa. O que é aquilo?

MARTHA: Olhando para fora à direita dele e Abby à sua esquerda. O que é
querido?

MORTIMER: Olha aquela estátua lá. Aquilo é uma Horundinida Carnina.

MARTHA: Não, querido. Aquilo é a Ema B. Stout subindo aos céus.

MORTIMER: Não, não, parado na orelha esquerda dela. Aquele passarinho – é


uma andorinha de papo vermelho. Eu só vi um desses, em toda a minha vida.

ABBY: Cruza atrás da mesa e puxa a cadeira para a direita da mesa. Não sei
como você pode pensar em passarinhos, com Elaine, o noivado e tudo mais.

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MORTIMER: É uma espécie em extinção. Ele se vira da janela. Thoreau gostava
muito deles. Ao mesmo tempo, vai para a escrivaninha para olhar várias
gavetas e papéis. Por falar nisso, deixei um envelope grande aqui a semana
passada. Era um dos capítulos do meu livro sobre Thoreau. Vocês o viram?

MARTHA: Puxando a cadeira de braços para a mesa. Bem, se você deixou


aqui, deve estar em algum lugar.

ABBY: Indo para a esquerda de Mortimer. Quando é que vocês vão casar?
Quais os seus planos? Deve ter alguma coisa a mais a que você possa nos contar
sobre Elaine!

MORTIMER: Elaine? Oh, sim, Elaine achou que era brilhante! Ele vai para o
aparador e olha nos armários e nas gavetas.

MARTHA: O que, querido?

MORTIMER: Meu capítulo sobre Thoreau. Ele tira uma pilha de papel da gaveta
direita, leva-a para a mesa, folheia as páginas.

ABBY: No centro. Quando Elaine voltar, temos que celebrar. Precisamos beber à
felicidade de vocês. Martha, não sobrou um pouco daquele bolo? Nas últimas
falas, Martha pegou a vasilha do aparador, sua capa, chapéu e luva da mesa
do canto. Fundo à esquerda.

MARTHA: Indo para a frente direita. Sobrou, sim!

ABBY: Vou abrir uma garrafa de vinho.

MARTHA: Enquanto sai para cozinha. E dizer que tudo aconteceu nesta sala.

MORTIMER: Acabou de olhar os papéis e olhando em volta. Onde é que eu


posso ter posto?

ABBY: Bom, com a sua noiva sentada a seu lado, essa noite, espero que ao
menos dessa peça, você goste. Pode ser que seja algo romântico. Qual o nome
dela?

MORTIMER: “O assassinato será descoberto”.

ABBY: Deus me livre! Ela entra na cozinha enquanto Mortimer continua


falando.

MORTIMER: Quando a cortina levanta, a primeira coisa que se vê é um cadáver.


Ele levanta a tampa da arca e vê um – não acreditando, larga a tampa e se
desloca para a frente. Tem então um “sobressalto”, tomando consciência do

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fato, e aí volta, escancara a tampa da arca e olha fixo para dentro. Ele fica
meio louco por um momento, recua e então ouve Abby cantarolando antes
de entrar na sala. Ele larga a tampa da arca e segura-a fechada – olhando em
volta – disfarçando. Abby entra na sala carregando o forro da mesa e uma
toalha que ela coloca na cadeira de braços e então pega a pilha de papéis e
torna a colocá-la na gaveta do aparador. Mortimer fala com voz meio tensa.
Tia Abby.

ABBY: Do aparador. O que é, querido?

MORTIMER: Vocês estão pensando em mandar Teddy para aquele... sanatório


Lar Feliz?

ABBY: Trazendo os formulários do aparador para Mortimer. Estamos, querido.


Já está tudo acertado. O reverendo Harper veio hoje aqui e trouxe os papéis para
Teddy assinar. Aqui estão.

MORTIMER: Pega os papéis. É preciso que ele assine, imediatamente!

ABBY: Arrumando o forro da mesa enquanto Martha entra da cozinha com


talher e pratos numa bandeja. Ela coloca a bandeja no aparador e vai para a
direita da mesa. É o que nos disse a Sra. Harper. Assim, não vai haver nenhuma
dificuldade legal, quando nós formos desta para melhor.

MORTIMER: Ele tem que assinar agora mesmo. Ele está lá embaixo no porão.
Chame-o aqui imediatamente.

MARTHA: Desdobrando a toalha. Ela está à direita da mesa. Não tem tanta
pressa assim.

ABBY: Não. Quando Teddy começa a trabalhar no canal não se pode desviar sua
atenção.

MORTIMER: Teddy tem que ir para o Lar Feliz agora! – Hoje á noite.

MARTHA: Oh, não, querido. Vai ser quando não estivermos mais aqui.

MORTIMER: Imediatamente! Eu estou dizendo, imediatamente!

ABBY: Virando-se para Mortimer . Mortimer, como é que você pode dizer uma
coisa dessas? Enquanto nós vivermos, nunca haveremos de nos separar de
Teddy.

MORTIMER: Tentando ficar calmo. Escutem, queridas, eu lamento muito, mas


tenho uma notícia horrível para vocês! As tias param de trabalhar e olham para
ele com algum interesse. Nós temos que tentar conservar a nossa cabeça fria.

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Sempre fomos indulgentes com Teddy porque pensávamos que ele fosse
inofensivo.

MARTHA: Mas ele é inofensivo!

MORTIMER: Ele era inofensivo! É por isso que ele tem que ir para o Lar Feliz.
Tem que ser internado.

ABBY: Em direção a Mortimer. Mortimer, porque, de repente, você está contra


Teddy? Seu próprio irmão!

MORTIMER: Vocês têm que saber de uma coisa. E é melhor que saibam logo.
Teddy matou um homem!

MARTHA: Bobagem, querido!

MORTIMER: Levanta-se e aponta para a arca. Tem um cadáver na arca.

ABBY: Tem sim. Nós sabemos!

MORTIMER: Tem um “sobressalto”, enquanto Abby e Martha voltam a


arrumar a mesa. Vocês sabem?

MARTHA: Sabemos sim. Mas não tem nada a ver com o Teddy. Pega a bandeja
do aparador e arruma a mesa com três lugares.

MORTIMER: Mas quem é ele?

ABBY: O nome é Hoskins. Adam Hoskins. É tudo o que eu sei sobre ele, exceto
que é um metodista.

MORTIMER: É tudo o que você sabe sobre ele? E o que ele está fazendo aqui? O
que aconteceu com ele?

MARTHA: Ele morreu!

MORTIMER: Tia Martha. Homens não entram em arcas e morrem...

ABBY: Menino tolo. Não, ele morreu primeiro!

MORTIMER: Mas como?

ABBY: Oh, Mortimer, não pergunte tanto! O “cavalheiro” morreu porque tomou
vinho envenenado.

MORTIMER: E como é que o veneno foi parar no vinho?

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MARTHA: Bem, nós pusemos no vinho porque se nota menos. No chá, fica com
cheiro muito forte.

MORTIMER: Vocês puseram veneno no vinho?

ABBY: É. E eu coloquei o Sr. Hoskins na arca porque a Sra. Harper estava


chegando.

MORTIMER: Então vocês sabiam o que estavam fazendo! Vocês não queriam
que a Sra. Harper visse o corpo!

ABBY: Não! Não durante o lanche. Não seria muito agradável... Agora, Mortimer,
que você sabe tudo, esquece... Acho que Martha e eu temos direito aos nossos
segredinhos. Ela vai ao aparador pegar dois cálices do armário da esquerda
enquanto Martha vai do aparador para a mesa com um saleiro.

MARTHA: E não conte nada a Elaine. Ela pega o terceiro cálice do aparador e
vira para Abby, que está levando a bandeja do aparador. Ah, Abby, quando eu
saí, encontrei a Sra. Schultz. Ela está bem melhor e gostaria que levássemos o
Júnior ao cinema de novo.

ABBY: Bem. Temos que levá-lo amanhã ou depois.

MARTHA: Só que desta vez, ele vai onde nós quisermos. Ela vai para a cozinha
e Abby a segue. O Júnior não vai me arrastar de novo para uma dessas fitas de
pavor.

MORTIMER: O que é que vamos fazer? O que é que vamos fazer?

MARTHA: À direita da mesa. Fazer o que, querido?

MORTIMER: Apontando a arca. Tem um cadáver lá.

ABBY: No fundo, à esquerda de Mortimer. Tem sim! É o Sr. Hoskins.

MORTIMER: Deus do céu! Eu não posso entregá-las a polícia! Mas o que é que
eu faço?

MARTHA: A primeira coisa é não ficar tão excitado!

ABBY: Por favor, pare de se preocupar. Nós dissemos que é para você esquecer
o que viu.

MORTIMER: Esquecer! Não dá para entender que temos que fazer alguma coisa?

ABBY: Meio cortante. Comporte-se, Mortimer. Você já é suficientemente velho


para perder as estribeiras dessa maneira.

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MORTIMER: Mas o Sr. Hotchkiss -

ABBY: Indo para o aparador, pára e vira-se para Mortimer. Hoskins, querido.
Continua o seu caminho para o aparador e pega guardanapos e argolas da
gaveta esquerda. Martha coloca sua bandeja com xícaras, pratos, etc. na
mesa. Mortimer continua falando enquanto isto.

MORTIMER: Seja lá qual for o nome dele. Vocês não podem deixá-lo aqui.

MARTHA: Não temos esta intenção, querido. Em direção à esquerda da mesa


com guardanapos e argolas. Neste momento, Teddy está lá embaixo no porão
cavando a comporta.

MORTIMER: Vocês vão enterrar o Sr. Hotchkiss no porão?

MARTHA: Indo em direção a Mortimer. Vamos sim, querido. Como fizemos com
os outros.

MORTIMER: Afastando-se para a direita. Não, vocês não podem enterrar o Sr...
Duplo sobressalto. Vira-se para elas. “Outros”?

ABBY: Os outros cavalheiros.

MORTIMER: Quando você diz outros, quer dizer outros? Mais de UM? –
OUTROS?

MARTHA: Isso mesmo. Deixe-me ver, com este, faz onze. Para Abby, à
esquerda superior da mesa. Não é, Abby?

ABBY: Não querida, com este completamos doze.

MARTHA: Acho que você está enganada, Abby. Com este completamos onze.

ABBY: Não, querida, me lembro que quando o Sr. Hoskins chegou, eu pensei:
com ele completamos uma dúzia certinha.

MARTHA: Bem, você não deveria contar o primeiro.

ABBY: Eu estava contando o primeiro – com ele dá doze. O telefone toca


Mortimer, aturdido, vira para o telefone e sem atendê-lo fala

MORTIMER: Alô! Volta e si e atende. Alô, Alô Al. Meu Deus, é bom ouvir sua
voz.

ABBY: Na mesa, ainda resiste à contagem de doze. De qualquer modo, eles


estão todos no porão e...

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MORTIMER: Para as tias. Shhhhhhh... No telefone, enquanto as tias vão ao
aparador e colocam os candelabros da prateleira de cima para a de baixo.
Não, Al, eu estou completamente sóbrio... Só lhe telefonei porque estou me
sentindo um pouco - você não entenderia. Olha, eu estou contente que você
tenha telefonado. Entre em contato com George imediatamente. Ele tem que fazer
a crítica da peça hoje à noite. Não vou poder ir. Não Al, você está enganado, lhe
conto tudo amanhã. Bem, George tem de assistir à peça hoje. Este é o meu
departamento e sou eu quem manda nele. Encontre o George! Desliga e senta-
se por um momento, tentando recompor-se. Bom, onde é que nós estávamos?
Ele pula do banquinho, de repente. Doze!?

MARTHA: É, Abby pensa que nós temos que contar o primeiro e assim dá doze.
Vai para o aparador.

MORTIMER: Pega a cadeira à direita da mesa e coloca-a de frente para a


direita do palco. Leva Martha pela mão até a cadeira, e faz com que ela se
sente. Muito bem, quem foi o primeiro?

ABBY: Indo de trás da mesa para Mortimer. O Sr. Midgely. Ele era um batista.

MARTHA: Eu ainda acho que não podemos incluí-lo porque ele só morreu.

ABBY: Martha quer dizer que morreu sem a nossa colaboração. O Sr. Midgely
veio aqui procurando um quarto...

MARTHA: Foi logo depois que você mudou para Nova York...

ABBY: E achamos que não tinha sentido desperdiçar um quarto tão lindo, quando
havia tantas pessoas precisando dele...

MARTHA: Ele era um velhinho tão sozinho...

ABBY: Todos os amigos e parentes dele tinham morrido e ele ficou tão
desamparado e infeliz...

MARTHA: Sentimos muita pena dele.

ABBY: E então, quando ele teve um ataque do coração e ficou sentadinho nessa
cadeira – apontando a cadeira de braço – parecendo tão em paz, lembra
Martha, decidimos, ali mesmo, naquele momento, que se pudéssemos,
ajudaríamos outros velhinhos solitários a encontrar a mesma paz – nós
ajudaríamos!

MORTIMER: Todo ouvidos. Ele caiu morto nesta cadeira! Que horror para vocês!

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MARTHA: Não, querido. Foi como nos velhos tempos. Seu avô sempre tinha um
cadáver ou dois pela casa. Teddy estava cavando no Panamá e pensou que o Sr.
Midgely era uma vítima de Febre Amarela.

ABBY: E isto significava que ele tinha que ser enterrado imediatamente.

MARTHA: Então nós três o carregamos para o Panamá e o colocamos na


comporta. Levanta e abraça Abby. É por isso que dissemos a você para não se
preocupar. Sabemos exatamente o que deve ser feito.

MORTIMER: E foi assim que tudo começou – aquele homem entrando aqui e
caindo morto.

ABBY: Claro que nós vimos que não podíamos esperar que isso acontecesse de
novo. Então...

MARTHA: Vai para Mortimer. Você se lembra daqueles vidros de veneno que
ficaram todos estes anos na estante do laboratório do vovô?

ABBY: Você conhece o jeito da tia Martha para misturar as coisas. Você já comeu
bastante do picles que ela faz.

MARTHA: Para um litro de vinho de sabugueiro, eu coloco uma colher de chá de


arsênico, junto meia colher de chá de estricnina e uma pitadinha de cianureto.

MORTIMER: Avaliando. Deve ter um efeito incrível.

ABBY: É! Um de nossos visitantes ainda teve tempo de dizer: “Delicioso”!.

MARTHA: Indo para trás. Bem, tenho que começar a fazer o jantar venha Abby.
Vou experimentar uma nova receita. Martha sai para a cozinha.

ABBY: Gritando para Martha. Eu já estou indo ajudá-la, querida. Empurra a


cadeira para a direita da mesa. Estou me sentindo muito melhor agora. Ah, você
tem que esperar Elaine, não tem? Sorri. Você deve estar tão feliz. Vai para a
porta da cozinha. Bem, querido, vou deixá-lo sozinho com seus pensamentos.
Ela sai, fechando a porta. A batida da porta tira Mortimer de seu transe. Ele
vai para arca, ajoelha, levanta a tampa, olha para dentro. Não acreditando,
abaixa a tampa, esfrega os olhos, levanta a tampa novamente. Dessa vez ele
realmente vê o Sr. Hoskins. Fecha a arca depressa, levanta e recua. Corre e
fecha o reposteiro da janela. Recua para trás da mesa, vê um copo de água
na mesa, pega e leva à boca, mas de repente lembra que o vinho
envenenado vem em copos, abaixa o copo correndo, vai à porta do porão e
abre. Elaine entra pela porta da entrada, ele bate a porta do porão com
estrondo. Enquanto Elaine coloca sua bolsa na escrivaninha ele olha para
ela e começa a compreender que a conhece e fala com ligeira surpresa.

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MORTIMER: Ah, é você. Ele vai para a frente.

ELAINE: Vai até ele e segura sua mão. Não fique zangado, meu bem. Mamãe
viu que eu estava agitada e então contei a ele sobre nós e isto atrasou minha
saída. Mas, escute, meu bem – ela não vai me esperar esta noite.

MORTIMER: Olhando para a arca. Vá para casa, Elaine. Eu lhe telefono


amanhã.

ELAINE: Amanhã?

MORTIMER- Irritado. Você sabe que eu sempre telefono.

ELAINE: Mas nós não vamos ao teatro hoje?

MORTIMER: Não, não vamos.

ELAINE: Por quê?

MORTIMER: Virando-se para ela. Elaine, aconteceu uma coisa.

ELAINE: O que, meu bem? Mortimer – você perdeu seu emprego!

MORTIMER: Não, não, não perdi o emprego. Só não vou poder assistir aquela
peça hoje. Empurrando-a para a porta de entrada. Agora, vá para casa, Elaine.

ELAINE: Mas eu tenho que saber o que aconteceu. Você tem que me contar.

MORTIMER: Não, meu bem, não posso.

ELAINE: Mas se nós vamos nos casar...

MORTIMER: Casar?

ELAINE: Já esqueceu que me pediu em casamento há quinze minutos atrás?

MORTIMER: Vagamente. Pedi? Ah, sim. Por mim ainda está de pé. Agora quer
fazer o favor de ir embora daqui?

ELAINE: Escute aqui, você não pode me pedir em casamento num minuto e me
botar para fora da casa no minuto seguinte.

MORTIMER: Implorando. Eu não estou lhe botando para fora da casa, querida.
Quer fazer o favor de ir embora daqui?

ELAINE: Não, eu não vou embora daqui. Mortimer vai em direção à cozinha.
Elaine atravessa por baixo, para a arca. Não vou embora enquanto você não

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me der uma explicação. Vai sentando-se na arca. Mortimer a agarra pela mão.
O telefone toca.

MORTIMER: Elaine! Vai para o telefone, arrastando Elaine com ele. Alô! Ah,
alô, Al, espere um minuto, sim? Está bem, é importante! Mas pode esperar um
minuto, não pode? Aguarde! Bota o fone na escrivaninha. Pega a bolsa de
Elaine e dá a ela. Pega Elaine pela mão e a dirige até a porta de entrada,
abrindo-a Olhe, Elaine, você é um amor e eu te adoro, mas estou preocupado
com uma coisa e quero que você vá para casa e espere até eu lhe telefonar.

ELAINE: Na porta. Não tente ser mandão.

MORTIMER: Irritado o suficiente para se tornar admoestador. Quando


estivermos casados e eu tiver um problema, espero que você seja menos tola e
sem inspiração!

ELAINE: E quando estivermos casados, se nos casarmos, espero que você não
seja tão inconveniente. Sai.

MORTIMER: Sobressalta-se e então corre para a varanda, atrás dela,


gritando. Elaine! Elaine! Volta correndo, fecha a porta, cruza a sala e ajoelha-
se na arca para abrir a janela. De repente lembra do que tem na arca e pula
fora. Corre para a cozinha mas lembra que Al está no telefone volta
imediatamente e vai para o telefone. Alô, Al, alô, alô. Coloca o fone no gancho
e começa a discar quando toca a campainha da porta. Ele pensa que é o
telefone. Alô, alô, Al?

ABBY: Vindo da cozinha, indo para a porta de entrada e abrindo-a. É a


campainha da porta, querido, e não o telefone. Mortimer desliga e disca. A Sra.
Gibbs está na porta. Como vai? Entre.

GIBBS: Ouvi dizer que a senhora tem um quarto para alugar.


Martha entra vindo da cozinha, vai ao aparador e depois se coloca à direita
da mesa.

ABBY: Sim, não quer entrar?

GIBBS: Entrando. A senhora é a dona da casa?

ABBY: Sou, sou a Sta. Brewster e esta é minha irmã, outra Sta. Brewster.

GIBBS: Meu nome é Gibbs, Eleonora Gibbs.

ABBY: Conduzindo-o para a cadeira à direita da mesa. A senhora não quer se


sentar? Desculpe, mas estamos acabando de arrumar a mesa para o jantar.

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MORTIMER: No telefone. Alô. Deixe-me falar com Al, novamente. Redação.
Falando alto. Al!! RE-DA-ÇÃO! O QUÊ? Desculpe, é um engano.
Ele desliga e começa a discar novamente enquanto Gibbs olha para ele.

GIBBS: Virando-se para Abby. Posso ver o quarto?

MARTHA: À frente da mesa, à esquerda. Por que a senhora não se senta um


minuto para a gente se conhecer?

GIBBS: Isto não vai ajudar se eu não gostar do quarto.

ABBY: Sua casa fica em Brooklyn?

GIBBS: Não tenho casa. Moro num Hotel. Não gosto.

MORTIMER: No telefone. Alô. Redação.

MARTHA: Sua família é do Brooklyn?

GIBBS: Não tenho família.

MARTHA: Outra vítima. Sozinha no mundo?

GIBBS: É

ABBY: Bem, Martha. Martha vai feliz para o aparador, pega a garrafa de vinho
do armário esquerdo e um cálice e os coloca na mesa. Abby conduz Gibbs
para a cadeira à direita da mesa e continua a falar com ele e pára à frente da
mesa. A senhora bateu na porta certa. Sente-se.

MORTIMER: No telefone. Alô, Al? É Mort. Fomos interrompidos. Al, eu não estou
em condições de assistir à peça hoje. É tudo que posso dizer – não estou em
condições.

MARTHA: À esquerda da mesa. Que igreja a senhora freqüenta? Tem uma


igreja episcopal aqui ao lado. Seu gesto em direção à janela a leva à arca e ela
se senta nela.

GIBBS: Sou presbiteriana. Era.

MORTIMER: No telefone. O que George está fazendo nas Bermudas? Levanta e


fala alto. Está certo, eu disse a ele que podia ir às Bermudas. É meu
departamento, não é? Você tem que achar alguém. Quem mais está aí na
redação? Senta-se na segunda cadeira.

GIBBS: Aborrecido. Levanta-se e passa na frente da mesa para a esquerda.


Faz sempre tanto barulho aqui?

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MARTHA: Oh, ele não mora conosco.
Abby senta-se atrás da mesa.

MORTIMER: No telefone. Mas tem que ter alguém aí. Ei, Al, e o boy? Você sabe,
aquele espertinho – aquele que a gente não gosta. Procure por aí. Eu espero.

GIBBS: Eu realmente gostaria de ver o quarto.

ABBY: Depois de fazer Gibbs sentar-se à direita da mesa, senta-se atrás


dela. É lá em cima. A senhora não quer um copo de vinho antes de irmos até lá?

GIBBS: Eu nunca bebo.

MARTHA: Nós mesmas fazemos. É vinho de sabugueiro.

GIBBS: Para Martha. Vinho de sabugueiro. Humm. Não tomo vinho de


sabugueiro desde menina. Obrigada. Puxa a cadeira de braço e senta,
enquanto Abby desarrolha a garrafa e serve o vinho.

MORTIMER: No telefone. Tem que ter algum tipógrafo aí. Olhe, Al, aquele que
compõe o meu texto. Ele há de saber o que eu escreveria. Seu nome é Joe. A
terceira máquina à esquerda. Mas, Al, ele pode vir a ser um grande crítico de
teatro.

GIBBS: Para Martha. As senhoras têm seus próprios pés de sabugueiro?

MARTHA: Não, mas o cemitério está cheio deles.

MORTIMER: Erguendo-se. Não, não estou bebendo, mas vou começar agora.

GIBBS: As senhoras servem refeições?

ABBY: Podemos servir, mas primeiro veja se a senhora gosta do nosso vinho.

Mortimer desliga o telefone e o coloca na escrivaninha e vai para a


esquerda. Vê o vinho na mesa. Vai ao aparador, pega um copo, traz para a
mesa e se serve. Gibbs está com seu copo na mão, pronto para beber.

MARTHA: Vendo Mortimer se servindo de vinho. Mortimer, êi, êi, êi, êi...
Gibbs pára e olha para ela. Mortimer não presta atenção. Êi, êi, êi, êi...

ABBY: Alcançando Mortimer e puxando sua mão para baixo quando ele leva
o cálice aos lábios com a mão esquerda. Mortimer. Este não.
Mortimer, ainda embotado, coloca seu copo na mesa. Subitamente ele vê
Gibbs que levou seu copo aos lábios e vai beber. Aponta para Gibbs e dá um
grito selvagem. Gibbs olha para ele, abaixando o copo. Mortimer, ainda

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apontando para Gibbs, passa por trás da mesa em direção a ele. Gibbs,
vendo um louco, levanta-se devagar e recua para o centro. Então volta-se e
corre para a porta de entrada. Mortimer segue-o. Gibbs abre a porta e
Mortimer o empurra para fora fechando a porta. Ele se vira e encosta na
porta, exausto mas aliviado. Enquanto isto, Martha se levantou e foi para a
cadeira de braço e Abby foi para a frente, no centro.

MORTIMER: Durante a saída de Gibbs, fala: Saia daqui – Você quer ser
envenenada? Quer ser morta? Quer ser assassinada?

ABBY: Muito desapontada. Você estragou tudo. Vai para o sofá e senta-se.
Martha senta-se na cadeira de braço. Mortimer vai para o centro e olha de
uma para outra.

MORTIMER: falando para Abby. Vocês não podem fazer uma coisa dessas. Não
sei como explicar a vocês, mas não é que seja somente contra a lei. É errado!
Agora para Martha. Não é uma coisa boa. Martha vira-lhe as costas como
Abby o fez quando Mortimer falou com ela. As pessoas não entenderiam.
Aponta para porta por onde saiu Gibbs. Ela não entenderia.

MARTHA: Abby, nós não devíamos ter contado a Mortimer.

MORTIMER: O que quero dizer... é que isto se transformou num péssimo hábito.

ABBY: Levantando. Mortimer, nós não tentamos impedir você de fazer as coisas
que gosta de fazer. Não vejo porque você tem que interferir conosco. Vai para
frente da mesa. O telefone toca.

MORTIMER: Atendendo o telefone. Alô? É Al novamente. Está bem. Vejo o


primeiro ato e me mando. Mas, Al, você tem que fazer uma coisa para mim. Entre
em contato com O’Brien, nosso advogado, o chefe do nosso departamento
jurídico. Faça com que ele me encontre no teatro. Não me dê o bolo. O.K., estou
saindo agora. Desliga e vira-se para as tias. Olhem, tenho que ir ao teatro. Não
pude escapar. Mas antes de ir, vocês podem me prometer uma coisa?

ABBY: O que você quer que a gente faça?

MORTIMER: Não façam nada. Por favor, não façam nada. Não deixem ninguém
entrar nesta casa – e deixem o Sr. Hoskins exatamente onde está.

MARTHA: Por quê?

MORTIMER: Preciso de tempo para pensar. E tenho muita coisa para pensar.
Vocês sabem que eu não quero que aconteça nada a vocês.

ABBY: Mas, o que poderia acontecer conosco?

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MORTIMER: Fora de si. De qualquer modo, vocês fazem isto por mim, não
fazem?

MARTHA: Bem, estamos planejando celebrar os cultos antes do jantar.

MORTIMER: Cultos?

MARTHA: Meio indignada. É claro! Você acha que seríamos capazes de enterrar
o Sr. Hoskins, sem um culto metodista completo? Ele era um metodista.

MORTIMER: Mas isto não pode ficar para quando eu voltar?

ABBY: Ah, aí você pode nos fazer companhia.

MORTIMER: Aderindo á loucura. Posso! Posso!

ABBY: Ah, Mortimer, você vai gostar dos cultos, principalmente dos hinos. Para
Martha. Lembra como Mortimer cantava bem no coro, antes da sua voz mudar?

MORTIMER: E lembrem-se, não deixem ninguém entrar até que eu volte,


prometam.

MARTHA: Bem...

ABBY: Ah, Martha, podemos prometer, agora que Mortimer está cooperando
conosco. Para Mortimer. Bem, está bem, Mortimer.

MORTIMER: Suspira com alívio. Vai para o sofá e pega seu chapéu. Indo
para a porta de entrada. Vocês têm algum papel? Volto assim que puder. Tira os
formulários do bolso do casaco enquanto anda. Tenho que ver uma pessoa.

ABBY: Indo à escrivaninha pegar papel de carta. Tenho papel de carta. Serve?
Dá para ele.

MORTIMER: Pegando o papel. Perfeito. Posso ganhar tempo escrevendo minha


crítica enquanto vou para o teatro. Sai pela porta de entrada.

As tias o acompanham com o olhar. Martha vai fechar a porta. Abby vai ao
aparador e traz dois castiçais para a mesa. Pega fósforos no aparador.
Acende as velas durante as falas.

MARTHA: Mortimer estava esquisito hoje.

ABBY: Acendendo as velas. É natural. Acho que sei por quê.

MARTHA: Acendendo o abajur de pé. Por quê?

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ABBY: Ele acabou de ficar noivo. Acho que isto sempre deixa um homem
nervoso.

MARTHA: Durante a fala, vai ao primeiro patamar e fecha os reposteiros.


Volta e apaga a luz. Estou tão feliz por Elaine – e Mortimer deve aproveitar a lua
de mel para umas férias. Acho que ele trabalhou demais este verão.

MARTHA: No centro. Ah, Abby, se Mortimer vai voltar para o culto do Sr. Hoskins
vamos precisar de outro hinário. Tem um no meu quarto. Ela começa a subir
para o primeiro patamar.

ABBY: Você sabe, querida, na verdade é minha vez de ler o culto, mas como
você não estava aqui quando o senhor Hoskins chegou, eu quero que você leia.

MARTHA: Satisfeita. Muita gentileza sua, querida. Mas tem certeza?

ABBY: É o que é justo.

MARTHA: Acho que vou usar minha roupa de bombazina preta e o broche da
mamãe. Volta a subir quando a campainha toca.

ABBY: Chegando até a altura da escrivaninha. Deixa que eu abro, querida.

MARTHA: Sussurrando. Nós prometemos a Mortimer que não deixaríamos


ninguém entrar.

ABBY: Tentando ver através das cortinas dos painéis da porta. Quem será?

MARTHA: Espere um minuto. Eu vou ver. Vira-se para a janela do patamar e dá


uma olhadela através das cortinas. São dois homens que nunca vi.

ABBY: Tem certeza?

MARTHA: Tem um carro parado aí em frente. Devem ter vindo nele.

ABBY: Deixa eu ver. Corre para cima. Batem na porta. Abby olha pelas
cortinas.

MARTHA: Você conhece?

ABBY: Não, nunca vi.

MARTHA: Vamos fingir que não estamos em casa.

As duas se encolhem no canto do patamar. Outra batida na porta da entrada.


A maçaneta gira e a porta se abre devagar. Um homem alto vai para o centro,
olhando em volta. Ele anda com segurança, à vontade, como se a sala lhe

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fosse familiar. Olha em todas as direções menos a da escada. Há algo de
sinistro nele – alguma coisa que dá um ligeiro arrepio em sua presença. E
está na sua maneira de andar, no seu comportamento e na sua estranha
semelhança com Boris Karloff. Do patamar, Abby e Martha o observam,
quase com medo de falar. Depois de examinar a sala, o homem vira e se
dirige a alguém fora.

JONATHAN: Entre, doutor.

O Dr. Einstein entra. Ele tem uma aparência desagradável. Sua cara traz o
sorriso benevolente de um homem que vive mergulhando numa agradável
névoa de álcool. Algo nele sugere um padre que largou a batina. Ele para na
porta, tímido mas esperançoso.

JONATHAN: Esta é a casa da minha juventude. Quando era menino não via a
hora de fugir daqui. Agora estou contente de fugir para cá.

EINSTEIN: Fala o tempo todo com forte sotaque alemão, carregando


fortemente nos erres. Fechando a porta, de costas para as tias. Ja, Chonny, é
um bom esconderijo.

JONATHAN: A família ainda deve viver aqui. Tem alguma coisa


inconfundivelmente Brewster nos Brewsters. Espero que tenha um bezerro gordo
esperando a volta do filho pródigo.

EINSTEIN: Ja, estou com fome. Subitamente vendo o bezerro gordo na forma
dos dois copos de vinho na mesa. Olhe, Chonny! Bebida! Corre para a frente
da mesa, Jonathan para trás.

JONATHAN: Parece até que estavam nos esperando. Bom sinal. Levam os
copos aos lábios enquanto Abby desce alguns degraus e fala.

ABBY: Quem são vocês? O que estão fazendo aqui?

Os dois baixam os copos. Einstein pega seu chapéu na cadeira, pronto para
correr.

JONATHAN: Virando-se para Abby. Tia Abby! Tia Martha! Sou eu, Jonathan.

MARTHA: Com medo. Saiam daqui.

JONATHAN: Indo para as tias. Eu sou o Jonathan, seu sobrinho Jonathan.

ABBY: Não, não é não. Você não tem nada do Jonathan, portanto não finja que é
ele. Saiam daqui.

31
JONATHAN: Chegando mais perto. Mas eu sou Jonathan. Indicando Einstein.
E este é o Dr. Einstein.

ABBY: E ele também não é o Dr. Einstein.

JONATHAN: Não é o Dr. Albert Einstein – é o Dr. Herman Einstein.

ABBY: Desce mais um degrau. Quem é você? Você não é o nosso sobrinho
Jonathan.

JONATHAN: Dando uma olhada na mão esticada de Abby. Vejo que você
ainda usa o lindo anel de granada que vovô Brewster comprou na Inglaterra.
Abby engole em seco, olha o anel. E a senhora, tia Martha, ainda usa a gola
alta, para esconder a cicatriz onde o ácido do vovô lhe queimou. Martha leva a
mão à garganta. As tias olham para Jonathan. Martha desce alguns degraus
ficando atrás de Abby. Einstein vai para o centro.

MARTHA: Sua voz parece com a de Jonathan.

ABBY: Acabando de descer a escada. Você teve um acidente?

JONATHAN: Com a mão do lado da cara. Não – fechando a cara – Minha cara
– o Dr. Einstein é responsável por isto. Ele é um cirurgião plástico. Ele muda a
cara das pessoas.

MARTHA: Desce até Abby. Mas eu já vi esta cara antes. Para Abby. Abby,
lembra quando nós levamos o pequeno Schultz ao cinema e morremos de medo?
Era esta cara!

Jonathan fica tenso e olha para Einstein.

EINSTEIN: Vai para o centro e dirige-se às tias. Calma, Chonny, calma. Não se
preocupem, senhoras. Nos últimos cinco anos eu dei a Chonny três caras novas.
Vou dar outra imediatamente. Está última – bem, eu vi o filme também – logo
antes de operar. E eu tinha bebido um pouco.

JONATHAN: Com uma intensidade crescente e perigosa, enquanto anda em


direção a Einstein, que recua para a frente do palco. Veja, doutor, veja o que
fez comigo. Até a minha própria família.

EINSTEIN: Tentando acalmá-lo, enquanto é forçado para a direita. Chonny,


você está em casa. Nesta casa adorável – para as tias. Quantas vezes ele me
falou do Brooklyn – das tias que ele ama tanto. Para Jonathan. Elas conhecem
você, Chonny. Para Abby, enquanto a conduz em direção a Jonathan. Vocês
sabem que é o Jonathan. Falem para ele. Digam isto a ele. Circunda a mesa
para a sua frente esquerda.

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ABBY: Bem, Jonathan – faz muito tempo – o que você fez todos estes anos?

MARTHA: Foi para a frente direita, bem no canto. É Jonathan, onde você tem
estado?

JONATHAN: Recuperando sua compostura. Ah, na Inglaterra, na África do Sul,


Austrália... Nos últimos cinco anos, em Chicago. O Dr. Einstein e eu temos
negócios lá.

ABBY: Estivemos em Chicago para a feira mundial.

MARTHA: Para dizer alguma coisa. Nós achamos Chicago muito quente.

EINSTEIN: Que passou por trás, à esquerda e para a frente da mesa. Ja,
também ficou muito quente para nós.

JONATHAN: Fazendo charme enquanto vai em direção a Abby, ficando entre


as tias. É maravilhoso estar de volta ao Brooklyn. E vocês – tia Abby, tia Martha,
não parecem ter envelhecido nem um pouco. Exatamente como eu me lembrava
de vocês – doces – charmosas – hospitaleiras. As tias não reagem bem ao
charme. E o Teddy querido – ele indica com a mão a altura de um garoto de 8
ou 10 anos. – ele entrou para a polícia? Meu irmãozinho queria ser Presidente,
doutor.

ABBY: Oh! Teddy está bem! Muito bem! E Mortimer também está bem.

JONATHAN: Com ar de zombaria. Eu sei tudo sobre Mortimer. Vi o retrato dele


na coluna de crítica. Ele evidentemente, realizou tudo que sua natureza irritante
prometia.

ABBY: Defensivamente. Nós gostamos muito de Mortimer. Há uma pequena


pausa.

MARTHA: Pouco à vontade enquanto faz um gesto em direção à porta. Bem,


Jonathan, foi bom ver você outra vez.

JONATHAN: Expandindo-se. Deus abençoe a senhora, tia Martha. Senta-se na


cadeira à direita da mesa. É bom estar em casa de novo.

As tias se olham com consternação.

ABBY: Bem, Martha, não podemos deixar queimar a comida no fogão. Começa a
andar para a cozinha e então vê que Martha não está indo. Ela volta e dá um
puxão em Martha e aí vai de novo para a cozinha.

MARTHA: Segue até o centro e fala com Jonathan. Vocês nos desculpem um
minuto, Jonathan. A não ser que estejam com pressa de ir a algum lugar.

33
Jonathan olha para ela com ar maligno. Martha passa por trás da mesa, pega
a garrafa de vinho e coloca de volta no aparador, e então sai com Abby.
Esta, que estava esperando por Martha na porta da cozinha, fecha a porta
depois de passarem.

EINSTEIN: Encaminha-se para trás à esquerda, por trás de Jonathan. Bem,


Chonny, onde vamos daqui? Temos que decidir rápido. A polícia tem retratos
desta sua cara. Tenho que operar você imediatamente. Precisamos encontrar um
lugar para fazer isto - e um lugar para o Sr. Spenalzo também.

JONATHAN: Não se preocupe com isso.

EINSTEIN: Mas. Chonny, nós temos um defunto nas mãos.

JONATHAN: Atirando o chapéu no sofá. Esqueça o Sr. Spenalzo.

EINSTEIN: Mas você não pode deixar um cadáver no banco de trás do carro.
Você não devia tê-lo assassinado. Ele era um sujeito legal – dá uma carona para
nós – e o que acontece?

JONATHAN: Lembrando-se amargamente. Ele disse que eu parecia Boris


Karloff. Avança para Einstein. É trabalho seu, doutor. Você fez isto comigo.

EINSTEIN: Recuou para a frente à esquerda da mesa. Ora, Chonny – vamos


achar um lugar – eu dou um jeito em você, rápido.

JONATHAN: Hoje à noite.

EINSTEIN: Chonny – eu antes tenho que comer. Estou com fome. Estou fraco.

As tias entram da cozinha. Abby vai até Jonathan no centro. Martha fica na
porta da cozinha.

ABBY: Jonathan estamos contentes que você tenha lembrado de nós e tenha se
dado ao trabalho de vir aqui para nos ver. Mas você nunca foi feliz nesta casa e
nós nunca fomos felizes enquanto você estava aqui. Por isso nós só queremos lhe
dizer adeus.

JONATHAN - Mas fico desapontado pelo meu amigo Dr. Einstein. Einstein fica
meio surpreso. Eu prometi a ele, que mesmo que a gente estivesse passando
pelo Brooklyn rapidamente, eu arranjaria um tempinho para trazê-lo aqui para um
dos jantares caseiros de tia Martha.

MARTHA: Reage um pouco a isto andando para a frente. Ah...

ABBY: Recuando para a esquerda, ao fundo. Sinto muito. Acho que não dá
para todos.

34
MARTHA: Abby, é uma carne assada bem grande.

JONATHAN: Maravilhado. Carne assada!

MARTHA: Acho que o mínimo que podemos fazer é...

JONATHAN: Obrigado, tia Martha! Vamos ficar para o jantar.

ABBY: Recuando para a porta da cozinha, nem um pouco satisfeita. Bem, nós
vamos apressá-lo.

MARTHA: Está bem. Sai para cozinha.

ABBY: Parada na porta. Jonathan, se vocês quiserem, podem usar o banheiro do


antigo laboratório do vovô.

JONATHAN: Indo em direção a ela. O laboratório ainda existe?

ABBY: Existe. Exatamente como ele deixou. Bem, vou ajudar Martha a preparar
as coisas. Já que todos estamos com pressa. Sai para a cozinha.

EINSTEIN: Indo para o fundo. Bem, pelo menos já garantimos uma refeição.

JONATHAN: Atrás da mesa. O laboratório do vovô! Olha para cima. E


exatamente como ele deixou. Doutor, uma perfeita sala de operações.

EINSTEIN: Pena que não possamos usá-la.

JONATHAN: Depois que o senhor resolver meu caso, podemos fazer uma fortuna
aqui. O laboratório – uma grande enfermaria no sótão - dez camas, doutor. E
Brooklyn esta implorando pelo seu talento.

EINSTEIN: Não se entusiasme tanto, Chonny. De qualquer modo, para Brooklyn,


acho que estamos um ano atrasados.

JONATHAN: Você não conhece esta cidade, doutor. Praticamente todo mundo no
Brooklyn precisa de uma cara nova.

EINSTEIN: Mas muitas das caras velhas estão engaioladas.

JONATHAN: Uma pequena parte – e os meninos de Brooklyn são famosos por


pagar bem para ficar fora da cadeia.

EINSTEIN: Devagar, Chonny. Suas tias – elas não querem a gente aqui.

JONATHAN: Nós estamos aqui para jantar, não estamos?

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EINSTEIN: Ja – mas, e depois do jantar?

JONATHAN: Indo para o sofá. Deixe comigo, doutor. Eu cuido disso. Esta casa
será nosso quartel-general por muito tempo.

EINSTEIN: Achando boa idéia. Seria ótimo, Chonny. Esta casa quieta e
simpática. E essas suas tias - que senhoras amáveis. Eu já gosto delas. Vou
pegar as malas, Ja.

JONATHAN: Impedindo-o. Doutor, precisamos esperar até sermos convidados.

EINSTEIN: Mas você acabou de dizer...

JONATHAN: Nós vamos ser convidados.

EINSTEIN: E se elas disserem não?

JONATHAN: Doutor, duas velhas desprotegidas? Senta no sofá.

EINSTEIN: Tira uma garrafa do bolso da calça, abre, enquanto vai para arca.
É como tornar realidade um lindo sonho. Só espero que você não esteja
sonhando. Estende-se na arca, tomando um trago. É tão cheio de paz.

JONATHAN: Estirado no sofá. Isso é o que faz esta casa perfeita para nós – é
cheia de paz.

Teddy vem do porão, dá um toque estridente na corneta, enquanto Jonathan


recua para direita. Teddy vai para a escada, sobe ao primeiro patamar. Os
dois homens olham meio estatelados para seus trajes.

TEDDY: Atacar! Sobe correndo a escada e sai. Jonathan assiste do pé da


escada. Einstein, na arca, toma um trago rápido enquanto a cortina desce na
palavra “Atacar”.

36
SEGUNDO ATO

A cena é a mesma, mais tarde na mesma noite. Jonathan fuma um charuto,


sentado na cadeira de braço à esquerda da mesa, muito à vontade. Abby e
Martha, sentadas na arca, dão a ele aquela atenção nervosa de quem deseja
que as visitas vão embora. Einstein está relaxado e feliz numa cadeira à
direita da mesa. Os pratos do jantar foram retirados. Sobre a mesa está uma
toalha vermelha e um pires servindo de cinzeiro para Jonathan. A sala está
arrumada. Todas as portas fechadas, bem como os reposteiros sobre as
janelas.

JONATHAN: É tias, estes cinco anos em Chicago foram dos mais trabalhosos e
felizes da minha vida. Mas foi meu encontro com o Dr. Einstein, em Londres, que
mudou completamente minha vida. Você se lembra que eu estive na África do Sul,
trabalhando com diamantes – depois em Amsterdam, para vendê-los. Eu queria
voltar à África do Sul – e o Dr. Einstein tornou possível o meu desejo.

EINSTEIN: Foi mesmo um belo trabalho, hein Chonny? Para as tias. Quando
tiramos as ataduras, o rosto dele estava tão diferente, que a enfermeira teve que
me apresentá-lo.

JONATHAN: Eu adorava aquela cara. Ainda trago o retrato comigo. Tira do


bolso de dentro do casaco um instantâneo, dá uma olhada e o passa para
Martha. Ela olha e o passa para Abby.

ABBY: É mais parecido com o que você era, mas ainda assim eu não o
reconheceria.

JONATHAN: Acho que vamos voltar para esta cara, doutor.

EINSTEIN: Ja, agora é seguro.

ABBY: Levantando-se. Bem, eu sei que vocês dois querem ir... seja lá onde for.

JONATHAN: Relaxando mais ainda. Minhas queridas tias – estou tão cheio
daquele delicioso jantar que sou incapaz de mexer um dedo.

EINSTEIN: Ja, é bom aqui!

MARTHA: Levanta-se. Além do mais, está muito tarde e...

TEDDY: Aparece no balcão usando seu chapéu de explorador, carregando


um livro aberto e outro chapéu. Descendo as escadas. Achei! Achei!

JONATHAN: O que é que você achou, Teddy?

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TEDDY: A história da minha vida – minha biografia. Atravessa para trás, à
esquerda de Einstein. Olha aqui a foto de que eu lhe falei, General. Coloca o
livro aberto sobre a mesa, mostrando a foto a Einstein. Aqui estamos, nós
dois. “Presidente Roosevelt e General Goethals no Passo de Culebra”. Este sou
eu, General, e este é o senhor.

EINSTEIN: Olha para a fotografia. Puxa, como eu mudei.

TEDDY: Olha para Einstein, um pouco confuso mas acaba superando a


dificuldade. Bem, note que essa foto ainda não foi tirada. Nós nem começamos a
trabalhar no Passo de Culebra. Por enquanto estamos cavando. E agora, General,
vamos ao Panamá inspecionar a nova comporta.

ABBY: Não, Teddy. Ao Panamá, não.

EINSTEIN: Vamos uma outra hora. O Panamá é muito longe.

TEDDY: Bobagem, é aqui em baixo, no porão.

JONATHAN: No porão?

MARTHA: Nós deixamos que ele cavasse o canal do Panamá no porão.

TEDDY: Enérgico. General Goethals, como Presidente dos Estados Unidos,


comandante-em-chefe das Forças Armadas e o homem que lhe dá o seu
emprego, ordeno que o senhor me acompanhe na inspeção desta nova comporta.

JONATHAN: Teddy! Acho que está na hora de você ir para a cama.

TEDDY: Perdão! Cruza para trás à esquerda de Jonathan, colocando o pince-


nez enquanto anda. Quem é o senhor?

JONATHAN: Eu sou Woodrow Wilson. Vá para a cama.

TEDDY: Não – você não é Wilson. Mas seu rosto me é familiar. Deixa ver – você
não é ninguém que eu já conheça. Talvez mais tarde, na minha caçada pela África
– sim, você parece alguém que eu possa encontrar na selva. Jonathan se
contrai.

ABBY: Passa pela frente de Teddy, ficando entre ele e Jonathan. É seu irmão
Jonathan, querido.

MARTHA: Levantando-se. Ele mudou de rosto.

TEDDY: Então é isto – um falsificador da natureza!

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ABBY: E talvez seja melhor você ir para a cama, Teddy. Jonathan e o amigo dele
têm que ir para o hotel.

JONATHAN: Levantando-se. General Goethal. Para Einstein. Inspecione o


canal. Atravessa para trás, no centro.

EINSTEIN: Levantando-se. Muito bem, senhor Presidente. Vamos para o


Panamá.

TEDDY: Fantástico! Fantástico! Encaminha-se para a porta do porão e abre-a


Siga-me, General. Einstein vai para a esquerda de Teddy. Teddy dá uma
pancadinha no chapéu de explorador que está na mão de Einstein, depois
bate na sua própria cabeça. É para o sul, você sabe. Sai, descendo as
escadas.

EINSTEIN: Bota o chapéu que é muito grande para ele. Vai até a porta do
porão onde para e fala. Bem – “bon voyage”. Sai, fechando a porta.

JONATHAN: Tia Abby, tenho que corrigi-la. A senhora entendeu mal. Nós não
estamos em nenhum hotel. Nós viemos direto para cá.

MARTHA: Bem, há um hotelzinho muito bom a três quarteirões daqui.

JONATHAN: Interrompendo-a . Tia Martha, esta é a minha casa.

ABBY: Mas, Jonathan, você não pode ficar aqui. Nós precisamos dos quartos.

JONATHAN: Precisam deles?

ABBY: Sim, para os nossos inquilinos.

JONATHAN: Assustado. Há inquilinos nesta casa?

MARTHA: Bem, agora não, mas pretendemos ter alguns.

JONATHAN – Interrompendo-a de novo. Então meu antigo quarto ainda está


desocupado.

ABBY: Mas Jonathan, não há lugar para o Dr. Einstein.

JONATHAN: Passa pela frente da mesa, joga as cinzas do charuto no pires.


Nós ficamos no mesmo quarto.

ABBY: Não, Jonathan, eu acho que você não pode ficar aqui.

JONATHAN: Está na frente da mesa. Esmigalha o charuto no pires e parte


em direção às tias. Elas recuam por trás da mesa até o centro. Martha

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primeiro. Jonathan dá meia volta e atravessa pela frente da mesa até Abby,
no centro.
Dr. Einstein e eu precisamos de um lugar para dormir. Vocês lembraram, esta
tarde, que eu sabia ser muito desagradável quando era menino. Não seria nada
bom para nenhum de nós se...

MARTHA: À direita, no centro, e assustada. Talvez fosse melhor deixa-los ficar


esta noite...

ABBY: Sim, só esta noite, Jonathan,

JONATHAN: Está bem. Agora, se vocês puderem arrumar meu quarto...

MARTHA: Começando a subir as escadas, Abby seguindo-a. Só precisa ser


arejado.

ABBY: Nós o conservamos arrumado para mostrar aos inquilinos. Acho que você
e o Dr. Einstein vão achá-lo confortável. Jonathan acompanha-as ao primeiro
andar e se debruça no corrimão. As tias estão no balcão.

JONATHAN: Ignorando-a . Quando o Dr. Einstein e eu estivermos organizados, e


tivermos recomeçado a trabalhar – Ah, esqueci de dizer. Vamos transformar o
laboratório de vovô numa sala de operações. Esperamos ter muitos clientes.

ABBY: Jonathan, nós não vamos deixar você transformar esta casa num hospital.

JONATHAN: Rindo. Um hospital – nada disso! Vai ser um salão de beleza.

EINSTEIN: Chegando excitado do porão. Ei, Chonny, lá embaixo no porão... Vê


as tias e pára.

JONATHAN: Dr. Einstein – minhas queridas tias nos convidaram para morar com
elas.

EINSTEIN: Ah, você conseguiu?

ABBY: Bem, vocês vão dormir aqui esta noite...

JONATHAN: Por favor, apronte nosso quarto imediatamente.

MARTHA: Bem...

ABBY: Só esta noite. Elas saem, passando pelo arco. Jonathan vem até o pé
da escada.

EINSTEIN: Chonny, quando eu fui ao porão, adivinha o que eu vi.

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JONATHAN: O quê?

EINSTEIN: O canal de Panamá.

JONATHAN: Com ar de desprezo dirigindo-se ao centro. O canal de Panamá!

EINSTEIN: Dá certinho para o Sr. Spenalzo. É um buraco que Teddy cavou. Dois
metros de comprimento por um de largura.

JONATHAN: Entende a idéia. Abre a porta do porão e olha para baixo. Lá


embaixo!

EINSTEIN: Parece até que eles sabiam que nós estávamos trazendo o Sr.
Spenalzo. Isto é que é hospitalidade!

JONATHAN: Fechando a porta do porão. Até parece brincadeira – minhas tias


morando numa casa com um defunto enterrado no porão.

EINSTEIN: Como vamos trazê-lo para dentro?

JONATHAN: Vai para frente. É... não podemos simplesmente entrar com ele pela
porta. Ele vê a janela na parede esquerda. Vamos colocar o carro entre a casa e
o cemitério – aí, quando eles tiverem ido para a cama, trazemos o Sr. Spenalzo
pela janela.

EINSTEIN: Tirando a garrafa do bolso. Cama! Pense nisso, temos uma cama
esta noite! Começa a beber sofregamente.

JONATHAN: Segurando seu braço. Calma, doutor. Lembre-se que o senhor vai
operar amanhã. E desta vez é melhor estar sóbrio.

EINSTEIN: Você vai ficar lindo.

JONATHAN: Se não ficar... Empurra-o para a porta.

ABBY: Ela e Martha entram no balcão. Jonathan! Seu quarto está pronto.

JONATHAN: Então podem ir dormir. Vamos trazer o carro para trás da casa.

MARTHA: Ele pode ficar onde está – até de manhã.

JONATHAN: Einstein abriu a porta. Não quero deixá-lo na rua – pode ser contra
a lei. Einstein o segue. Abby e Martha descem e vão para a frente da mesa.

MARTHA: Abby, o que vamos fazer?

41
ABBY: Bom, para começar, não vamos deixar que fiquem mais do que esta noite.
O que é que os vizinhos iriam pensar? Gente entrando aqui com uma cara e
saindo com outra. Ela chegou à mesa. Martha está à sua direita.

MARTHA: O que vamos fazer com o Sr. Hoskins?

ABBY: Vai até a arca. Martha a segue. Ah. O Sr. Hoskins. Não deve estar muito
confortável para ele ali dentro. E tem sido tão paciente, pobrezinho. Acho que é
melhor Teddy levá-lo para o porão imediatamente.

MARTHA: Inflexível. Abby, eu não vou convidar Jonathan para o culto.

ABBY: Ah, não, de jeito nenhum. Vamos esperar até eles irem dormir e aí, então,
descemos para o culto.

TEDDY: Vem do porão, pega o livro da mesa e se dirige para a direita. Abby
o faz parar no centro. O general Goethals ficou muito satisfeito. Disse que o
canal é do tamanho exato.

ABBY: Chega para o centro. Teddy! Teddy! Há mais uma vítima de febre
amarela.

TEDDY: Tira o pince-nez. Meu Deus, vai ser um choque para o General.

ABBY: Não, nós não podemos contar para ele. Seria um aborrecimento para ele e
não se faz isso com uma visita.

TEDDY: Desculpe, tia Abby. Mas não posso agir de outra maneira. Ele vai ter que
saber. Regulamento do Exército, a senhora sabe.

ABBY: Não, Teddy, nós temos que guardar segredo.

MARTHA: Isso mesmo!

TEDDY: Que adora segredos. Um segredo de Estado?

ABBY: Sim, um segredo de Estado.

MARTHA: Promete?

TEDDY: Que pedido tolo. Vocês têm a palavra do Presidente dos Estados
Unidos. Por tudo que há de mais sagrado. Gesto relativo ao juramento. Bom,
vamos ver... Põe o pince-nez e abraça as duas tias. Como é que nós vamos
manter o segredo?

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ABBY: Bem, Teddy, você vai para o porão e quando eu apagar as luzes – quando
estiver tudo escuro – você volta e leva o pobre homem para o canal.
Empurrando-o em direção à porta do porão, que ele abre. Agora vai, Teddy.

MARTHA: Seguindo-os. E nós vamos descer mais tarde para celebrar o culto.

TEDDY: Na porta. Vocês podem anunciar que o Presidente vai dizer algumas
palavras. Começa a sair e volta. Onde está o pobre coitado?

MARTHA: Na arca.

TEDDY: Parece que ela está se alastrando. Nunca tivemos febre amarela na arca
antes. Sai, fechando a porta.

ABBY: Martha, quando Jonathan e o Dr. Einstein voltarem, vamos ver se


conseguimos mandá-los para a cama imediatamente.

MARTHA: Sim. Aí, quando estiverem dormindo, estaremos prontas para o culto.
Lembrando-se subitamente. Abby, eu nunca vi o Sr. Hoskins.

ABBY: Oh, meu Deus, é verdade – você não estava em casa. Bem, venha até
aqui e dê uma olhada nele. Vão até a arca. Abby primeiro. Para um metodista,
até que ele é bem bonito! Quando vão abrir a arca, Jonathan abre a janela por
fora fazendo um barulhão. As tias gritam e se afastam. Jonathan põe a cara
na janela.

JONATHAN: Nós estamos trazendo... a bagagem por aqui.

ABBY: Agora no centro. Jonathan, seu quarto espera por você. Pode subir já.
Einstein faz entrar pela janela duas malas empoeiradas e uma maleta de
instrumentos cirúrgicos. Jonathan pega-as e coloca-as no chão.

JONATHAN: Acho que não respeitamos os horários de Brooklyn – mas vocês


duas vão já para a cama.

ABBY: Bem, vocês devem estar muito cansados – nós não costumamos dormir
assim tão cedo.

JONATHAN: Bem, mas deveriam. Já era tempo de eu vir para casa tomar conta
de vocês.

MARTHA: Não pensávamos em ir dormir até que...

JONATHAN: Autoritário. Tia Martha, eu disse para irem dormir. Martha começa
a subir enquanto Einstein entra pela janela e pega as duas malas. Jonathan
pega a maleta de instrumentos e coloca-a em cima da arca. Os instrumentos
podem ir para o laboratório amanhã de manhã. Einstein começa a subir.

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Jonathan fecha a janela. Martha está no meio da escada quando Einstein
passa por ela. Abby está no centro à direita.
Agora, então, vamos todos para a cama. Ele se dirige para o centro.

ABBY: Vai para frente à direita, junto ao comutador de luz. Quando vocês
chegarem lá em cima, eu apago as luzes.

JONATHAN: Subindo, vê Einstein parado na porta do balcão. Martha está


quase no balcão. Mais um lance, doutor. Para Martha. Vá andando, tia Martha.
Martha se apressa em direção à porta. Einstein passa pelo arco, para o
terceiro andar. Jonathan continua à esquerda do final do balcão. Abby está
no comutador. Pronto, tia Abby.

ABBY: Evasiva. Olha em direção à porta do porão. Eu subo já.

JONATHAN: Imediatamente, tia Abby. Categórico. Apague a luz.

Abby Apaga a luz, deixando o palco escuro, exceto por um spot iluminando
a escada a partir do arco. Abby sobe até sua porta onde Martha a espera. Ela
dá um último olhar amedrontado para Jonathan e sai. Martha fecha a porta.
Jonathan passa pelo arco, fechando a porta, apagando o spot. Uma luz da
rua brilha através da porta principal à direita do palco. Teddy abre a porta do
porão, acende a luz do porão, desenhando sua silhueta no umbral da porta.
Dirige-se à arca e abre-a – a tampa da arca range, como de costume. Retira o
Sr. Hoskins e o coloca sobre os ombros, deixando a arca aberta. Dirige-se
para a porta do porão descendo com o cadáver. Fecha a porta. Jonathan e
Einstein passam pelo arco. A sala está às escuras. Acendem fósforos e
param junto à porta das tias para ver se há ruído.

EINSTEIN: Tudo bem, Chonny. Os fósforos apagam.

JONATHAN: Acende outro fósforo e eles descem até o pé da escada. Vou


abrir a janela. Você sai e me passa ele.

EINSTEIN: Nein, é muito pesado para mim. Você vai lá fora e empurra – eu fico
aqui e puxo. Depois nós dois juntos o levamos para o Panamá.

JONATHAN: Está bem. Apaga o fósforo e abre a porta. Einstein à sua


esquerda. Vou dar uma olhada em volta da casa. Quando eu der uma batida no
vidro, você abre a janela.

EINSTEIN: Certo.

Jonathan sai, fechando a porta.

EINSTEIN: Acende um fósforo e vai para a esquerda. Esbarra na mesa e o


fósforo apaga, começa a andar às apalpadelas para a esquerda. Ouvem-se

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exclamações e barulho. Einstein caiu dentro da arca. Acende outro fósforo e
bem devagar se põe sentado e olha em torno. Apaga o fósforo com um
sopro e, com esforço sai de dentro da arca. Quem deixou isto aberto?
Dummkopf!
Ouve-se o rangido da tampa quando ela fecha. No escuro ouve-se uma
batida na janela à esquerda. Einstein abre-a e fala, sussurrando.
Chonny? O.K. Vamos lá. Uuup. Espere... espere um minuto... Falta uma perna...
Achrr... agora eu peguei... Vem... hããã. Ele cai no chão e ouve-se o barulho de
um corpo e o som de um “ ssshhhiu” vindo de fora.
Fui eu, Chonny. Eu escorreguei.

JONATHAN: Voz em off. Tome mais cuidado.

Pausa

EINSTEIN: Ih, o sapato dele caiu. Pausa. Pronto, Chonny. Já apanhei. Batem na
porta de entrada. Chonny! Alguém está batendo. Vá rápido. Não. Eu dou um jeito
aqui – vá rápido.

Segunda batida na porta. Um momento de silêncio e ouve-se o ranger da


arca quando Einstein coloca o Sr. Spenalzo no lugar de Hoskins. Uma
terceira batida, enquanto Einstein está às voltas com o corpo. Uma quarta
batida, e, então, o ranger da arca quando Einstein a fecha. Ele se afasta
rapidamente para o lado da escrivaninha, ficando abaixado para evitar ser
visto através da porta.

ELAINE: entrando pela porta e chamando suavemente. D. Abby! D. Martha! na


tênue faixa de luz ela vem em direção ao centro chamando em direção ao
balcão. D. Abby! D. Martha!
De repente Jonathan entra e fecha a porta. O barulho faz Elaine virar-se e ela
engole em seco. Uh! Quem é? É você, Teddy?
Jonathan dirige-se para ela, que recua para a cadeira à direita da mesa.
Quem é você?

JONATHAN: Quem é você?

ELAINE: Eu sou Elaine Harper – eu moro aqui ao lado.

JONATHAN: E o que você está fazendo aqui?

ELAINE: Vim ver D. Abby e D. Martha.

JONATHAN: Para Einstein, sem se virar. Einstein conseguiu, devagarinho,


chegar ao comutador, depois que Jonathan passou.
Acenda a luz, doutor.
As luzes se acendem. Elaine fica ofegante quando vê Jonathan e senta na
cadeira. Jonathan olha para ela por um momento.

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Você escolheu uma hora um tanto estranha para uma visita.
Ele se dirige à arca, buscar Spenalzo, mas não o vê. Olha para trás da mesa.
Olha para fora, pela janela e volta para a sala.

ELAINE: Tentando arranjar coragem. Acho melhor vocês explicarem o que


vocês estão fazendo aqui.

JONATHAN: Na frente, à esquerda da mesa. Acontece que nós moramos aqui.

ELAINE: Vocês não moram aqui. Eu venho aqui todos os dias e nunca vi vocês.
Assustada. Onde estão D. Abby e D. Martha? O que vocês fizeram com elas?

JONATHAN: Dando um passo para frente da mesa. Acho que é melhor nós nos
apresentarmos. Este... indicando ... é o Dr. Einstein.

ELAINE: Olha para Einstein. Dr. Einstein? Vira-se de novo para Jonathan.
Einstein, atrás dela, gesticula para Jonathan indicando onde está Spenalzo.

JONATHAN: Um grande cirurgião. Olha embaixo da mesa procurando


Spenalzo e não o achando ... e uma espécie de mágico.

ELAINE: E não vá me dizer que o senhor é o Boris Kar...

JONATHAN: Eu sou Jonathan Brewster.

ELAINE: Afastando-se para trás, quase com pavor. Ah, você é Jonathan!

JONATHAN: Vejo que já ouviu falar de mim.

Einstein se esgueira para frente do sofá.

ELAINE: Sim, hoje de tarde, pela primeira vez.

JONATHAN: Indo em direção a ela. E o que é que falaram de mim?

ELAINE: Disseram apenas que havia outro irmão chamado Jonathan. Foi só.
Acalmando-se. Isto explica tudo. Agora que sei que você é... Corre para a porta
de entrada. Vou embora para casa. A porta está trancada. Ela se volta para
Jonathan. Se você, por favor, abrir a porta.

JONATHAN: Caminha em direção a Elaine, mas antes de alcançá-la, vira-se


para a frente, para a porta e abre-a. Einstein caminha para a cadeira à direita
da mesa. Quando Jonathan entreabre a porta, Elaine se dirige para ela. Ele
se volta e a faz parar com um gesto.
“Isto explica tudo?” O que você quer dizer com isto? O que é que você veio fazer
aqui a esta hora da noite?

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ELAINE: Pensei ter visto alguém rondando a casa. Devia ser você.

JONATHAN: Fecha a porta e tranca-a, deixando a chave na fechadura. Você


viu alguém rondando a casa?

ELAINE: Vi. Vocês não estavam lá fora? Aquele carro não é de vocês?

JONATHAN: Você viu alguém no carro?

ELAINE: Vi.

JONATHAN: Caminhando em direção a ela, enquanto ela recua para trás, à


esquerda. O que mais você viu?

ELAINE: Só alguém dando a volta na casa em direção ao carro.

JONATHAN: E o que mais você viu?

ELAINE: Só vi isso... só isso. Então eu vim aqui. Queria avisar D. Abby para que
ela chamasse a polícia. Mas se era você, e se aquele é o seu carro, não preciso
incomodar D. Abby. Já vou indo. Dá um passo em direção à porta por trás de
Jonathan.

JONATHAN: Impedindo a passagem de Elaine. O que o homem estava fazendo


no carro?

ELAINE: Agitada. Não sei. Eu estava vindo para cá.

JONATHAN: Insistindo, enquanto ela recua para a esquerda. Eu acho que


você está mentindo.

EINSTEIN: Indo para trás, no centro, à direita. Acho que ela está falando a
verdade, Chonny. Vamos deixá-la ir agora, hein?

JONATHAN: Ainda pressionando-a para a esquerda. Acho que ela está


mentindo. Entrando numa casa estranha a esta hora da noite. Acho que ela é
perigosa. E nós não devíamos deixá-la solta por aí. Agarra o braço dela. Elaine
grita.

ELAINE: Tire suas mãos de cima de mim...

JONATHAN: Doutor...

Enquanto Einstein vai para a esquerda, Teddy sai do porão, batendo a porta.
Olha para Jonathan à esquerda e fala para Einstein à direita.

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TEDDY: Inocentemente. Vai ser um funeral particular. Sobe ao primeiro
patamar. Elaine vai até a escrivaninha, arrastando Jonathan com ela.

ELAINE: Teddy! Teddy! Diga a eles quem eu sou.

TEDDY: Volta-se e olha para ela. Esta é minha filha – Alice. Grita “Atacar!” Sobe
as escadas correndo e sai.

ELAINE: Tentando se desvencilhar de Jonathan e arrastando-o para o centro


à direita. Não! Não! Teddy!

JONATHAN: Torce o braço de Elaine para trás. Sua outra mão lhe tapa a
boca. Doutor! Seu lenço!
Quando Einstein lhe estende o lenço, Jonathan tira a mão da boca de Elaine.
Ela grita. Ele tapa-lhe a boca de novo. Olha a porta do porão e diz a Einstein.
O porão!
Einstein corre e abre a porta do porão. Aí volta e apaga a luz, deixando o
palco às escuras. Jonathan empurra Elaine através da porta do porão.
Einstein volta e desce as escadas do porão com Elaine. Jonathan fecha a
porta, ficando no palco ao mesmo tempo em que as tias surgem no balcão
superior com seus trajes para os funerais. Está completamente escuro a não
ser pela luz da rua.

ABBY: Qual é o problema?

MARTHA: O que está acontecendo aí embaixo? Martha fecha a porta de seu


quarto e Abby acende a luz através do comutador do balcão. Olham para
baixo um momento e descem enquanto falam.

ABBY: O que está acontecendo? Chegando ao pé da escada, vê Jonathan. O


que você está fazendo?

JONATHAN: Pegamos um ladrão – um assaltante ordinário. Volte para o seu


quarto.

ABBY: Vamos chamar a polícia.

JONATHAN: Nós já chamamos. E vamos cuidar disso. Volte para o seu quarto.
Entendeu?

A campainha toca, seguida de várias batidas na porta. Abby corre e abre a


porta de entrada. Mortimer entra com uma mala. Ao mesmo tempo Elaine sai
correndo do porão e se atira nos braços de Mortimer. Jonathan tenta agarrá-
la mas não consegue. Isto o deixa no centro e na frente. Einstein vai
devagarinho para trás de Jonathan.

ELAINE: Mortimer! Ele deixa cair a mala. Onde você esteve?

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MORTIMER: No teatro. E devia ter pensado duas vezes antes de ir. Vê Jonathan.
Meu Deus! Ainda estou lá!

ABBY: À direita de Mortimer. Este é o seu irmão Jonathan - e este é o Dr.


Einstein.

MORTIMER: Observando as tias todas vestidas de preto. Eu sei que não estou
tendo um pesadelo, mas o que é isto, então?

JONATHAN: Voltei para casa, Mortimer.

MORTIMER: Olhando para ele e depois para Abby. Quem você disse que ele
era?

ABBY: Seu irmão Jonathan. Mudou de rosto. O Dr. Einstein fez a operação.

MORTIMER: Olhando mais de perto para Jonathan. Jonathan! Jonathan, você


sempre foi um monstro, mas precisava ter a cara de um?

Jonathan dá um passo em direção a ele. Einstein segura-o pela manga.


Elaine e Martha recuam até a escrivaninha.

EINSTEIN: Calma, Chonny! Calma.

JONATHAN: Mortimer, você se esqueceu das coisas que eu fazia com você
quando nós éramos meninos? Lembra-se de quando você ficou amarrado no pé
da cama? – as agulhas enfiadas embaixo das suas unhas?

MORTIMER: Meu Deus, é Jonathan. Sim, eu me lembro. Eu me lembro de você


como o mais odioso, vil, nojento ser humano que eu já vi.

Jonathan está cada vez mais tenso. Abby se coloca entre os dois.

ABBY: Meninos, não comecem a brigar de novo quando ainda mal acabaram de
se encontrar.

MORTIMER: Dirige-se a porta e abre-a. Não vai haver briga nenhuma, tia Abby.
Jonathan, ninguém te quer aqui. Dê o fora!

JONATHAN: O Dr. Einstein e eu fomos convidados a ficar.

MORTIMER: Não aqui nesta casa.

ABBY: Só esta noite.

MORTIMER: Ele não fica em lugar nenhum perto de mim.

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ABBY: Mas nós o convidamos para ficar esta noite e não podemos voltar atrás.

MORTIMER: Contra a vontade. Está bem, esta noite. Mas amanhã de manhã, a
primeira coisa é... fora! Pega a mala. Onde eles vão dormir?

ABBY: No antigo quarto de Jonathan.

MORTIMER: Aquele é meu antigo quarto. Começa a subir as escadas. Vou


dormir naquele quarto. Estou aqui para ficar.

MARTHA: Oh, Mortimer, estou tão contente.

EINSTEIN: Chonny, nós dormimos aqui embaixo.

MORTIMER: É aí embaixo mesmo que vocês vão dormir.

EINSTEIN: Para Jonathan. Você dorme no sofá e eu sobre a arca.

MORTIMER: Ao ouvir mencionar a arca, Mortimer chegou ao patamar.


Depois de pendurar o chapéu no cabide, ele se volta e começa a descer as
escadas, falando enquanto chega embaixo e se dirige à arca. Recua para o
fundo, onde termina a arca.
A arca! Bem, não vamos discutir por causa disto. A arca é perfeita para mim esta
noite. Vou dormir nela.

EINSTEIN: Faz um gesto para impedir Mortimer de chegar até a arca


enquanto ele está passando por trás da mesa, mas não o consegue. Ele se
volta para Jonathan quando Mortimer se senta sobre a arca.
Sabe, Chonny... toda esta discussão me faz pensar no Sr. Spenalzo.

JONATHAN: Spenalzo! Recomeça a procurar Spenalzo no fundo. Percebendo


que seria melhor para eles permanecer ali embaixo, fala com Mortimer.
Bem, Mortimer – não há necessidade mesmo de incomodá-lo – nós dormimos
aqui embaixo.

MORTIMER: Levantando-se. Jonathan, sua repentina consideração para comigo


é muito pouco convincente.

EINSTEIN: Sobe as escadas até o patamar. Venha, Chonny, vamos pegar


nossas coisas no quarto, hã?

MORTIMER: Não se incomode, doutor!

JONATHAN: Por falar nisso, doutor, perdi o Sr. Spenalzo de vista completamente.

MORTIMER: Quem é este Sr. Spenalzo?

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EINSTEIN: Do patamar. Um amigo nosso que Chonny está procurando.

MORTIMER: Bem, não tragam mais ninguém aqui.

EINSTEIN: Está tudo bem, Chonny. Enquanto arrumamos nossas coisas, eu te


conto tudo. Sobe e passa pelo arco. Jonathan começa a subir.

ABBY: Indo para frente. Mortimer, você não precisa dormir aqui embaixo. Eu
posso ir dormir com Martha e você fica no meu quarto.

JONATHAN: Tendo chegado ao balcão. Não há problema algum, tia Abby.


Estaremos com tudo pronto em poucos minutos. E você pode ocupar seu quarto,
Mortimer. Sai, atravessando o arco.

MORTIMER: Vai até o sofá. Martha vai atrás da cadeira de braços à esquerda
da mesa e enquanto Mortimer fala, ela pega o sapato de Spenalzo que
Einstein colocou ali enquanto estava tudo escuro, sem que ninguém
notasse. Ela finge ajeitar a barra do vestido. Você está perdendo seu tempo –
eu lhe disse que vou dormir aqui.

ELAINE: Salta do banquinho para os braços de Mortimer. Mortimer!

MORTIMER: O que é que você tem, querida?

ELAINE: Quase histérica. Quase fui assassinada.

MORTIMER: Você quase foi... Olha rápido para as tias. Abby! Martha!

MARTHA: Não! Foi Jonathan.

ABBY: Ele a confundiu com um ladrão.

ELAINE: Não, foi pior do que isso. Ele é um louco. Mortimer, estou com medo
dele.

MORTIMER: Querida, você está tremendo. Senta-a no sofá. Para as tias. Vocês
não têm aí alguns sais?

MARTHA: Não, mas você acha que um chá quente, ou café...?

MORTIMER: Café. Dê um pouco para mim também... e um sanduíche. Estou sem


jantar até agora.

MARTHA: Vamos fazer alguma coisa para vocês dois.

Mortimer começa a interrogar Elaine.

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ABBY: Tira o chapéu e as luvas e coloca-os sobre o armário, enquanto fala
com Martha ao mesmo tempo. Martha, podemos deixar nossos chapéus aqui
embaixo, agora.

MORTIMER: Vocês não iam sair, iam? Sabem que horas são? Já passa da meia-
noite. A palavra meia-noite o alerta. “Meia-noite!” Ele se volta para Elaine.
Elaine, você tem que ir para casa.

ELAINE: O quê?

ABBY: Ora, vocês queriam sanduíche. Não vai levar nenhum minuto. Sai para a
cozinha.

Mortimer, de costas para Martha, está olhando para Elaine.

MARTHA: Passa por ele com o sapato na mão. Mas vocês não se lembram...
que queríamos celebrar o noivado de vocês? Ela acentua a palavra “noivado”
apontando com o sapato para as costas de Mortimer. Ela olha aturdida para
o sapato, imaginando como aquele sapato foi parar na mão dela. Observa-o
por um momento. Os outros dois nada percebem, é claro. Então o coloca
sobre a mesa. Finalmente, desistindo de compreender o fato, volta-se de
novo para Mortimer. É isto que vamos fazer, querido. Vamos fazer uma boa ceia
para vocês dois. Dirige-se para a porta da cozinha e se volta. E vamos celebrar
com um copo de vinho. Sai pela porta da cozinha.

MORTIMER: Vagamente. Está bem. De repente muda de idéia e corre para a


porta da cozinha. Vinho não. Fecha a porta e volta para o centro ao mesmo
tempo em que Elaine se levanta do sofá e caminha em direção a ele. Ela
ainda está bastante perturbada.

ELAINE: Mortimer, o que está acontecendo nesta casa?

MORTIMER: Desconfiado. O que você que dizer com... “o que está acontecendo
nesta casa”?

ELAINE: Você tinha combinado de me levar para jantar, e ao teatro, esta noite...
você cancelou. Me pediu em casamento – eu aceitei – e cinco minutos depois
você me pôs para fora daqui. E agora, logo depois de seu irmão ter tentado me
estrangular, você quer me mandar para casa. Ouça, Sr. Brewster – antes de ir
para casa, eu quero saber como é que eu fico, afinal. Você me ama?

MORTIMER: Segurando as mãos dela. Eu te amo muito, Elaine. Na verdade, eu


te amo tanto que não posso me casar com você.

ELAINE: Você ficou maluco?

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MORTIMER: Acho que não, mas é só uma questão de tempo. Sentam-se no
sofá enquanto Mortimer começa a explicar. Olha, a loucura reina em minha
família. Olha para cima e em direção à cozinha. É a rainha absoluta. É por isso
que eu não posso casar com você, querida.

ELAINE: Esta não, tente outra.

MORTIMER: Não, meu bem – há uma mancha no sangue dos Brewster. Se você
realmente conhecesse minha família...

ELAINE: Só porque Teddy é um pouco...

MORTIMER: Não, isto vai mais longe. O primeiro Brewster... o que veio com o
Mayflower. Você sabe que naquela época os índios escalpelavam os
colonizadores... pois ele escalpelava os índios.

ELAINE: Mas isto foi antigamente, Mortimer.

MORTIMER: Não, a família inteira... Ele se levanta e mostra um retrato sobre o


armário. Meu avô, por exemplo, experimentava seus remédios em defuntos para
ter certeza de que não os mataria.

ELAINE: Ele não era tão louco assim. Ele ganhou um milhão de dólares.

MORTIMER: E também há Jonathan. Você acabou de dizer que ele era um louco
– ele tentou matá-la.

ELAINE: Levanta-se e vai até ele. Mas ele é seu irmão, não é você. E eu amo
você.

MORTIMER: E tem Teddy também. Você conhece Teddy. Ele pensa que é
Roosevelt. Não, querida, nenhum Brewster devia se casar. Vejo agora que se
tivesse encontrado meu pai a tempo, eu o teria impedido de se casar.

ELAINE: Bom, querido, mas tudo isto não prova que você é louco. Olhe suas tias
– elas são Brewster, não são? – e são as pessoas mais saudáveis e delicadas que
eu conheço.

MORTIMER: Indo para trás da mesa, em direção à arca, falando enquanto


anda. Bem, mesmo elas têm suas fraquezas.

ELAINE: Voltando-se e indo para a direita. É verdade, mas que adoráveis


fraquezas – gentileza, generosidade – simpatia humana...

MORTIMER: Vendo que Elaine está de costas para ele, levanta a tampa da
arca para dar uma olhada e vê Spenalzo no lugar de Hoskins. Fecha a arca

53
de novo. Apoia-se na mesa e debruça-se sobre ela e diz para si mesmo. Tem
outro!

ELAINE: Voltando-se para ele. Oh, Mortimer, você não pode falar nada das suas
tias.

MORTIMER: Não, não vou falar. Indo para ela. Olha, Elaine, você tem que ir para
casa. Uma coisa muito importante acaba de acontecer.

ELAINE: Aqui? Agora? Como? Nós estamos sozinhos.

MORTIMER: Sei que estou agindo de maneira irracional, mas considere o fato de
que eu sou um Brewster louco.

ELAINE: Se você pensa que vai se sair desta fingindo que é louco – você está
louco. Pode ser que você não case comigo, mas eu vou casar com você. Eu te
amo, seu idiota.

MORTIMER: Conduzindo-a para a porta de entrada. Se você me ama, suma


daqui!

ELAINE: Bem, pelo menos me acompanhe até em casa, sim?Estou com medo.

MORTIMER: Medo! Um passeiozinho pelo cemitério?

ELAINE: Dirigindo-se para a porta. Então, mudando de tática, se volta para


Mortimer. Mortimer, você não vai me dar um beijo de boa noite?

MORTIMER: Abrindo os braços. Claro, querida. O que Mortimer pensa ser


“um jogo rápido”, Elaine transforma numa cena de teatro. Ele sai da cena
com a mesma pose. Boa noite, meu bem. Te telefono amanhã ou depois.

ELAINE: Zangada, dirige-se para a porta da entrada, abre-a e volta-se para


Mortimer.
Seu... seu crítico! Bate a porta ao sair.

MORTIMER: Olha para a porta sem saber o que fazer. Volta-se e aproxima-se
silenciosamente da porta da cozinha. Tia Abby! Tia Martha! Venham cá!

ABBY: Voz em off. Um minuto, querido.

MORTIMER: Venham já. Fica em pé atrás da arca.

ABBY: Vindo da cozinha. Pronto, querido. O que foi? Onde está Elaine?

MORTIMER: Pensei que vocês tinham me prometido não deixar ninguém entrar
aqui na minha ausência.

54
As próximas falas se sobrepõem.

ABBY: Bem, Jonathan simplesmente foi entrando...

MORTIMER: Não estou falando de Jonathan...

ABBY: E o Dr. Einstein veio com ele...

MORTIMER: Não estou falando do Dr. Einstein. Quem é aquele que está na arca?

ABBY: Nós já dissemos – o Sr. Hoskins.

MORTIMER: Abre a arca e dá um passo para trás, para a esquerda. Este não é
o Sr. Hoskins.

ABBY: Meio confusa, vai até a arca e olha para dentro, falando muito calma.
Quem pode ser?

MORTIMER: À direita de Abby. Você vai me dizer que nunca viu este homem?

ABBY: É! Que maneira de sermos apresentados! A coisa está de tal maneira que
todo mundo pensa que pode ir entrando porta adentro sem pedir licença.

MORTIMER: Tia Abby, não tente tirar o corpo fora. Este é mais um de seus
cavalheiros.

ABBY: Mortimer, como é que você diz uma coisa destas? Aquele homem é um
impostor. E se ele pensa que vai ser enterrado em nosso porão, está muito
enganado.

MORTIMER: Tia Abby, a senhora me disse que tinha posto o Sr. Hoskins na arca.

ABBY: Sim.

MORTIMER: Ora, este homem não pode simplesmente ter imitado o Sr. Hoskins.
Aliás... onde está ele? Olha em direção à porta do porão.

ABBY: Passa por trás da mesa para o centro. Ele deve ter ido para o Panamá.

MORTIMER: Ah, você o enterrou?

ABBY: Não, ainda não. Ele está lá embaixo esperando o culto, coitado. Não
tivemos um minuto de folga com Jonathan em casa. Ao ouvir o nome de
Jonathan, Mortimer fecha a arca.
Oh, meu Deus, nós sempre quisemos ter um funeral duplo. Dirigindo-se para a
porta da cozinha. Mas eu não vou ler as orações para um estranho.

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MORTIMER: Indo até ela. Um estranho! Como é que eu posso acreditar nisto, tia
Abby? Existem doze homens no porão e a senhora admite tê-los envenenado!

ABBY: É, eu envenenei. Mas não pense que eu vou me rebaixar dizendo uma
mentira. Vai para a cozinha. Martha!

Ao mesmo tempo Jonathan passa pelo arco até o balcão e desce


rapidamente as escadas. Mortimer vai para frente à direita. Jonathan o vê e
vai até ele.

JONATHAN: Mortimer... eu queria ter uma palavrinha com você.

MORTIMER: De pé diante dele. Você só terá mesmo tempo para uma palavrinha,
Jonathan, porque eu decidi que você e o seu amigo doutor vão ter que sair daqui o
mais rápido possível.

JONATHAN: Docemente. Estou contente de ver que você reconhece que nós
dois não podemos viver sob o mesmo teto... mas acho que você chegou a pior
solução. Pegue sua mala e caia fora!

Vai em direção a Mortimer, ansioso para chegar à arca, mas Mortimer dá


uma volta por trás da mesa e vai até ele no centro, à frente.

MORTIMER: Indo até ele. Se pensa que eu estou com medo... se você pensa
que eu tenho medo de alguma coisa...

JONATHAN: Se levanta. Os dois se encaram. Tive uma vida estranha,


Mortimer, mas aprendi uma coisa: a não ter medo de nada!
Eles olham um para o outro com igual coragem.

ABBY: Vindo da cozinha seguida por Martha. Martha, dê uma olhada e veja o
que está na arca.

Os dois homens se atiram sobre a arca ao mesmo tempo, Jonathan na ponta


da frente.

MORTIMER E JONATHAN: Ora, tia Abby!

MORTIMER: Vira a cabeça lentamente para Jonathan, ficando sério. Levanta-


se, sorrindo, com segurança. Jonathan, deixe a tia Martha ver o que está na
arca. Jonathan fica crispado. Mortimer passa pela frente da mesa, até Abby.
Tia Abby, eu lhe devo um pedido de desculpas. Beija-a na testa. Tenho ótimas
notícias para você. Jonathan está partindo. Vai levar o Dr. Einstein e o frio
companheiro deles.
Jonathan se levanta mas não sai do lugar.

56
Jonathan, você é meu irmão. Você é um Brewster. Vou te dar uma chance de
fugir, levando a prova do crime – você não pode exigir mais do que isto.
Jonathan não se mexe. Então terei que chamar a polícia. Vai até o telefone e
tira-o do gancho.

JONATHAN: Largue este telefone. Vai até a esquerda de Mortimer. Você ainda
me dá ordens, depois de ter visto o que aconteceu com o Sr. Spenalzo?

MARTHA: Está atrás da mesa. Spenalzo?

ABBY: No centro, atrás. Eu sabia que era um estrangeiro.

JONATHAN: Lembre-se de que o que houve com o Sr. Spenalzo pode acontecer
com você também.

Batem na porta de entrada. Abby vai abrir e o sargento O’Hara dá uma


olhada para dentro.

O’HARA: Olá, Srta. Abby.

ABBY: Olá, sargento O’Hara. Deseja alguma coisa?

Mortimer larga o telefone e vai para perto de O’Hara. Jonathan se vira para a
esquerda.

O’HARA: Vi a luz acesa e pensei que houvesse alguém doente. Vê Mortimer.


Vejo que a senhora tem visitas... Desculpe tê-la incomodado.

MORTIMER: Pegando O’Hara pelo braço. Não, não, entre.

ABBY: Sim, entre.

MARTHA: Indo até a porta. Entre, sargento O’Hara.

Mortimer dá alguns passos com O’Hara e fecha a porta. Abby vai para trás,
no centro. Martha está perto da escrivaninha. Jonathan está em frente do
sofá, à direita de Abby.

MARTHA: Para O’Hara. Este é o nosso sobrinho, Mortimer.

O’HARA: Muito prazer.

Jonathan começa a se dirigir para a cozinha.

ABBY: Fazendo Jonathan parar. E este é outro sobrinho, o Jonathan.

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O’HARA: Passa na frente de Mortimer e faz um gesto para Jonathan com seu
cassetete. Prazer em conhecê-lo. Jonathan o ignora. O’Hara diz às tias.
Deve ser ótimo para as senhoras receberem a visita dos sobrinhos. Eles vão ficar
aqui algum tempo?

MORTIMER: Eu vou. Meu irmão Jonathan já está indo embora. Jonathan faz
menção de ir até a escada.

O’HARA: Parando Jonathan. Acho que já o vi aqui antes, não?

ABBY: Acho que não. Jonathan está fora há muitos anos.

O’HARA: Seu rosto me é familiar. Talvez tenha visto uma foto sua em algum
lugar.

JONATHAN: Não creio.

O’HARA: Bem, eu vou indo. Vocês devem estar querendo se despedir.

MORTIMER: Que pressa é esta? Gostaria que ficasse por aqui até o meu irmão
sair.

Jonathan sai, passando pelo arco.

O’HARA: Só entrei para ver se estava tudo bem.

MORTIMER: Vamos tomar um cafezinho em um minuto. Você não nos


acompanha?

ABBY: Ih, esqueci o café. Vai para a cozinha.

MARTHA: Indo até a porta da cozinha. É melhor eu fazer mais sanduíches. Já


conheço bem o seu apetite, sargento O’Hara. Vai para a cozinha.

O’HARA: Vai até o centro da sala. Não se incomode. Tenho que me comunicar
com a delegacia daqui a pouco.

MORTIMER: Tome uma xícara de café conosco. Meu irmão não demora a ir
embora. Leva O’Hara para a frente da mesa até a cadeira de braço. Sente-se.

O’HARA: Me diga uma coisa... eu não vi uma foto de seu irmão em algum lugar?

MORTIMER: Creio que não. Senta-se à direita da mesa.

O’HARA: Tenho certeza de que ele me lembra alguém.

MORTIMER: Pode ser que se pareça com alguém que você viu no cinema.

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O’HARA: Eu nunca vou ao cinema. Detesto. Minha mãe diz que cinema é a arte
do demônio.

MORTIMER: É, está cheio deles... Sua mãe disse isto?

O’HARA: Sim. Minha mãe foi atriz – uma atriz de teatro. Talvez você tenha ouvido
falar nela – Peaches Latour.

MORTIMER: Me parece ter visto este nome num programa. O que ela
representou?

O’HARA: Bom, o grande sucesso dela foi “Mutt e Jeff”. Ficou três anos em
cartaz. Eu nasci numa tournée – na terceira temporada.

MORTIMER: É mesmo?

O’HARA: É. Em Sioux, no Iowa. Nasci no camarim, no fim do segundo ato, e


mamãe voltou para fazer o final.

MORTIMER: Isto é que é ser atriz! Sua mãe deve dar uma história – eu escrevo
sobre teatro, sabe?

O’HARA: Ah, é? Não diga que você é Mortimer Brewster, o crítico teatral!

MORTIMER: Sim, sou eu.

O’HARA: Puxa, estou muito feliz em conhece-lo. Ajeita o quepe e o cassetete


para cumprimentar Mortimer. Também pega o sapato que Martha deixou
sobre a mesa. Olha para ele rapidamente e o coloca na frente da mesa.
Mortimer vê e fica olhando para o sapato. Então, Sr. Brewster – estamos no
mesmo ramo.

MORTIMER: Ainda com a atenção no sapato. Estamos?

O’HARA: Sim. Eu escrevo peças. Este trabalho na polícia é passageiro.

MORTIMER: Há quanto tempo você está na polícia?

O’HARA: Doze anos. Estou colhendo material para uma peça.

MORTIMER: Aposto que é um prato cheio.

O’HARA: Bom, tem que ser. Com todos os dramas que eu vejo como guarda. Sr.
Brewster, o senhor não faz idéia das coisas que acontecem no Brooklyn.

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MORTIMER: Acho que faço. Põe o sapato embaixo da cadeira, vê as horas e
olha em direção ao balcão.

O’HARA: Que horas são?

MORTIMER: Uma e Dez.

O’HARA: Nossa! Eu tenho que contatar a delegacia. Dirige-se para a porta de


entrada, mas Mortimer o faz parar no centro.

MORTIMER: Um minuto, O’Hara. Sobre a sua peça...Talvez eu possa ajudá-lo.


Senta-o na cadeira à direita.

O’HARA: Fascinado. É mesmo? Levanta-se. Foi o destino que me trouxe aqui


hoje. Olha – vou lhe contar a história.

Neste momento Jonathan entra no balcão, seguido pelo Dr. Einstein, cada
um traz uma mala. No mesmo instante Abby vem da cozinha. Embora o
guarda tenha sido útil, Mortimer não quer ouvir a história dele. Querendo
escapar, fala com Jonathan enquanto ele e Einstein descem as escadas.

MORTIMER: Ah, vocês já estão indo, não é? Ótimo. Vocês não têm muito tempo,
sabem?

ABBY: Atrás à esquerda. Está quase tudo pronto. Vê Jonathan e Einstein no


pé da escada. Vocês já estão saindo, Jonathan? Adeus. Adeus, Dr. Einstein. Vê a
maleta de instrumentos sobre a arca. Esta maleta não é de vocês?

MORTIMER: Que então se lembra de Spenalzo, também. É, Jonathan – vocês


não podem sair sem levar todas as suas coisas. Agora, para se livrar de O’Hara,
vira-se para ele. O’Hara, foi um prazer conhecê-lo. Vamos nos ver de novo e
conversaremos sobre sua peça.

O’HARA: Se recusando a sair. Mas eu ainda não estou saindo, Sr. Brewster.

MORTIMER: Por que não?

O’HARA: O senhor acaba de se oferecer para me ajudar na peça. Vamos


escrevê-la juntos.

MORTIMER: Não posso fazer isso, O’Hara. Não sou escritor de ficção.

O’HARA: Eu invento e o senhor põe em palavras.

MORTIMER: Mas O’Hara...

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O’HARA: Não senhor, Sr. Brewster. Não saio desta casa sem lhe contar a
história. Ele vai se sentar na arca.

JONATHAN: Encaminhando-se para a porta de entrada. Neste caso,


Mortimer...nós, já vamos indo.

MORTIMER: Nada disto. Você não pode sair ainda. Você sabe muito bem que
tem que levar tudo que é seu. Vira-se e vê O’Hara sentado na arca e corre para
ele. Olha, O’Hara, você vai saindo agora, sim? Meu irmão está...

O’HARA: Eu posso esperar. Estou esperando há doze anos. Martha vem da


cozinha com uma bandeja de café e sanduíches.

MARTHA: Desculpem ter demorado tanto.

MORTIMER: Não traga isto para cá. O’Hara, você nos acompanha para um
lanche na cozinha?

MARTHA: Na cozinha?

ABBY: Para Martha. Jonathan está indo embora.

MARTHA: Que ótimo! Venha, sargento O’Hara. Sai para a cozinha. O’Hara
chega à porta da cozinha enquanto Abby fala.

ABBY: Você não se incomoda mesmo de comer na cozinha, Srta. O’Hara?

O’HARA: E onde mais que vocês comem?

ABBY: Adeus, Jonathan, foi ótimo revê-lo. O’Hara vai para a cozinha seguido
de Abby.

MORTIMER: Vai até a porta da cozinha, fecha-a e vira-se para Jonathan. Foi
bom você ter voltado ao Brooklyn, Jonathan, porque me dá a oportunidade de pô-
lo para fora – e o primeiro a sair é seu amiguinho, Sr. Spenalzo. Ele levanta a
tampa da arca. Quando faz isto, O’Hara, com um sanduíche na mão, vem da
cozinha. Mortimer larga a tampa.

O’HARA: Sr. Brewster, a gente pode conversar aqui.

MORTIMER: Empurrando-o para a cozinha. Já estou indo.

JONATHAN: Eu sabia que você ia acabar escrevendo uma peça com um


sargento da polícia.

MORTIMER: Da porta da cozinha. Vão andando – todos os três. Sai, fechando


a porta.

61
JONATHAN: Põe a mala no chão e vai até a arca. Doutor, este negócio entre
meu irmão e eu tem que ser resolvido.

EINSTEIN: Indo até a arca, pega a maleta de instrumentos e traz até o pé da


escada. Chonny, já temos problemas demais. Seu irmão nos dá uma
oportunidade de fugir – o que mais você quer?

JONATHAN: Você não entende. Abre a arca. Isto vem de muito tempo.

EINSTEIN: Ao pé da escada. Ora, Chonny, vamos indo.

JONATHAN: Irritado. Nós não vamos. Vamos dormir aqui esta noite.

EINSTEIN: Com um guarda na cozinha e o Sr. Spenalzo na arca.

JONATHAN: O cadáver é tudo que ele tem contra nós. Fecha a arca. Vamos
levar o Spenalzo lá para baixo e joga-lo na baía, e voltar logo – aí, se ele tentar
interferir... Vai para o centro, Einstein vai para a esquerda dele e o encara.

EINSTEIN: Ora, Chonny!

JONATHAN: Doutor, você me conhece quando eu decido uma coisa –

EINSTEIN: Ja – quando decide, você perde a cabeça. Brooklyn não é um bom


lugar para você.

JONATHAN: Categórico. Doutor!

EINSTEIN: O.K.. Temos que ficar juntos. Vai até as malas. Vamos acabar na
cadeia juntos. Já que vamos voltar, temos que levar isto conosco?

JONATHAN: Não. Deixe-as aqui. Esconda no porão. Anda rápido! Ele leva as
malas para a esquerda do sofá enquanto Einstein vai ao porão com a maleta
de instrumentos. Spenalzo pode sair do mesmo jeito que entrou! Ajoelha-se na
arca e olha para fora. Quando vai abrir a arca, Einstein vem do porão meio
excitado.

EINSTEIN: Ei, Chonny, vem depressa!

JONATHAN: Indo até ele. O que é?

EINSTEIN: Sabe aquele buraco no porão?

JONATHAN: Sei.

62
EINSTEIN: Tem um presunto no buraco. Venha cá que eu te mostro. Os dois
descem para o porão. Jonathan fecha a porta.

MORTIMER: Vem da cozinha e vê a bagagem deles ainda lá. Abre a arca e vê


Spenalzo. Põe a cara para fora da janela e grita. Jonathan! Jonathan!
Jonathan vem do porão sem ser notado por Mortimer e chega até ele, pelas
costas. Einstein vem até o centro da sala.

MORTIMER: Jonathan !

JONATHAN: Calmamente. O que é, Mortimer?

MORTIMER: Dá um salto para a frente da mesa. Onde vocês se meteram?


Acho que eu já disse para vocês...

JONATHAN: Nós não vamos.

MORTIMER: Não? Pensa que estou brincando? Quer que eu diga a O’Hara o que
tem dentro daquela arca?

JONATHAN: Nós vamos ficar aqui.

MORTIMER: Contornando a mesa por trás em direção à porta da cozinha.


Perfeito! Foi você que quis. Assim me livro de você e do sargento O’Hara ao
mesmo tempo. Abre a porta da cozinha e grita. Sargento O’Hara, venha cá.

JONATHAN: Se você disser a O’Hara o que tem naquela arca, conto para ele o
que tem no porão.

MORTIMER: Fechando a porta da cozinha rapidamente. No porão?

JONATHAN: Tem um cavalheiro lá que parece mortinho da silva.

MORTIMER: O que vocês estavam fazendo no porão?

EINSTEIN: O quê que ele está fazendo no porão?

O’HARA: Voz em off. Não, obrigada, Sra. Brewster. Estavam deliciosos. Já comi
demais.

JONATHAN: E então, o que é que você vai dizer a O’Hara?

O’HARA: Vindo da cozinha. Olha, Sr. Brewster, suas tias também querem ouvir.
Posso chamá-las para cá?

MORTIMER: Puxando-o para a direita. Não O’Hara, agora não dá. Você tem que
contatar a delegacia.

63
O’HARA: Para no centro enquanto Mortimer abre a porta. Que se dane a base!
Vou chamar suas tias e contar a história para vocês. Dirige-se à porta da
cozinha.

MORTIMER: Agarrando-o. Não, O’Hara, na frente dessa gente toda não. Porque
não mais tarde? Porque não nos encontramos mais tarde em algum lugar?

O’HARA: Que tal a sala dos fundos no bar do Kelly?

MORTIMER: Passando O’Hara para a direita, por sua frente. Ótimo! Você vai
contatar a delegacia e eu te encontro no Kelly!

JONATHAN: Na arca. Por que vocês dois não vão para o porão?

O’HARA: Por mim tudo bem. Dirige-se à porta do porão. É aqui o porão?

MORTIMER: Agarrando-o novamente e empurrando-o para à porta de


entrada. Não...! Vamos ao Kelly. Mas no caminho, você vai passar na delegacia.

O’HARA: Enquanto sai pela porta de entrada. Está bem, isto não leva nem dois
minutos. Sai.

MORTIMER: Pega o chapéu no cabide e vai abrir a porta de entrada. Vou me


livrar deste sujeito e volto em cinco minutos. Espero que vocês já tenham caído
fora. Muda de idéia. Não... Esperem por mim. Sai. Einstein senta à direita da
mesa.

JONATHAN: Vamos esperar por ele, doutor. Esperei muito tempo por uma
oportunidade dessas.

EINSTEIN: Nós o pegamos direitinho. Ele parecia tão culpado!

JONATHAN: Levantando-se. Leve as malas de volta para o quarto, doutor.


Einstein pega as malas e chega ao pé da escada.

ABBY: Falando enquanto entra, com Martha, da cozinha. Eles já foram? Vê


Jonathan e Einstein. Ué, ouvimos alguém sair.

JONATHAN: Indo para a direita, no centro. Foi Mortimer, mas ele já volta.
Sobrou alguma coisa na cozinha? O Dr. Einstein e eu gostaríamos de beliscar
qualquer coisa.

MARTHA: À esquerda da mesa. Mas não vai dar tempo.

ABBY: No centro. É, Mortimer não vai gostar se ainda encontrar vocês aqui.

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EINSTEIN: Vindo para a frente, à direita. Ele vai gostar sim.. Ele tem que gostar.

JONATHAN: Arranjem alguma coisa pra gente comer enquanto enterramos o Sr.
Spenalzo no porão.

MARTHA: Indo até a frente da mesa. Oh, não!

ABBY: Ele não pode ficar no nosso porão. Não, Jonathan, você tem que levá-lo
com você.

JONATHAN: Tem um amigo de Mortimer esperando por ele lá embaixo.

ABBY: Um amigo de Mortimer?

JONATHAN: Ele e o Sr. Spenalzo vão se entender muito bem. Os dois estão
mortos.

MARTHA: Eles devem estar falando do Sr. Hoskins.

EINSTEIN: Sr. Hoskins?

JONATHAN: Vocês sabem o que está lá embaixo?

ABBY: Claro que sabemos. E ele não é amigo de Mortimer. Ele é um de nossos
cavalheiros.

EINSTEIN: Seus Cavalheiros?

MARTHA: É, e nós não queremos nenhum estranho enterrado no porão.

ABBY: Além do mais não há lugar para o Sr. Spenalzo. O porão já está cheio.

JONATHAN: Cheio? Cheio de quê?

ABBY: Tem doze lá.

Os dois homens recuam perplexos.

JONATHAN: Doze?

ABBY: Assim sobra muito pouco espaço e nós vamos precisar de espaço.

JONATHAN: Quer dizer que você e tia Martha assassinaram...?

ABBY: Assassinaram! Claro que não! É uma de nossas caridades.

MARTHA: Indignada. O que nós temos feito é um ato de piedade.

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ABBY: Apontando para fora. Portanto, podem ir tirando o Sr. Spenalzo daqui.

JONATHAN: Ainda incapaz de acreditar. Vocês fizeram isso... aqui nesta


casa...Aponta para o chão... e os enterraram ali!

EINSTEIN: Chonny – nós fomos perseguidos no mundo inteiro – elas ficaram aqui
no Brooklyn e trabalham tão bem quanto você.

JONATHAN: Encarando-o . O quê?

EINSTEIN: Você matou doze e elas também.

JONATHAN: Lentamente. Eu matei treze.

EINSTEIN: Não, Chonny, doze.

JONATHAN: Treze! Contando nos dedos. Tem o Sr. Spenalzo. O primeiro foi
em Londres – dois em Johannesburgo – um em Sidney – um em Melbourne – dois
em São Francisco – um em Fênix, no Arizona.

EINSTEIN: Fênix?

JONATHAN: O do posto de gasolina. Mais três em Chicago e um em South Bend.


Faz treze.

EINSTEIN: Mas você não pode contar o de South Bend. Ele morreu de
pneumonia.

JONATHAN: Ele não teria apanhado pneumonia se eu não tivesse dado um tiro
nele.

EINSTEIN: Inflexível. Não, Chonny, ele morreu de pneumonia. Não conta.

JONATHAN: Para mim, conta. Eu digo que são treze.

EINSTEIN: Não, Chonny. Você matou doze e elas mataram doze. Dirigindo-se
para as tias. As duas senhoras são tão eficientes quanto você.
As duas sorriem uma para outra, felizes.

JONATHAN: Vira-se, olhando para os três e fala ameaçador. Ah, é? Isto é fácil
de resolver. Só preciso de mais um, só isso, só mais um.

MORTIMER: Entra rapidamente pela porta de entrada, fechando-a atrás dele,


e vira-se para eles com um sorriso nervoso. Bem, aqui estou eu!
Jonathan se vira e olha para ele arregalando os olhos como alguém que
acaba de resolver um problema. Ao mesmo tempo cai o pano.

66
TERCEIRO ATO

Cena I

A mesma cena, mais tarde. A cortina se ergue e o palco está vazio. A arca
está aberta e vê-se que está vazia. A cadeira de braço foi levada para a
direita da mesa. Os reposteiros e cortinas estão fechados. Todas as portas,
exceto a do porão, estão fechadas. O hinário e as luvas pretas de Abby
estão no aparador, os de Martha em cima da mesa. A não ser isto, a sala é a
mesma. Enquanto a cortina sobe ouve-se uma barulhada vindo do porão
através da porta. Fala-se ao mesmo tempo, com excitação e raiva, até que as
tias aparecem no palco, vindas do porão.

MARTHA: Pare com isto!

ABBY: Esta é a nossa casa e este é o nosso porão! Você não pode fazer isto!

EINSTEIN: Senhoras! Por favor! As senhoras estarão melhor lá em cima.

JONATHAN: Abby! Martha! Subam!

MARTHA: Não adianta fazer o que você está fazendo, porque vai ter de ser
desfeito.

ABBY: Nós não vamos aceitar isto e é melhor você parar imediatamente.

MARTHA: Vindo do porão. Está bem! Você vai ver! Você vai ver de quem é esta
casa. Vai até a porta de entrada e olha para fora. Fecha a porta.

ABBY: Que coisa horrível! Enterrar um bom metodista junto com um estrangeiro.
Vai para a arca.

MARTHA: Indo em direção à porta do porão. Não vou deixar que profanem o
nosso porão!

MORTIMER: Entrando pela porta de entrada e fechando-a . Fala como


alguém que já resolveu tudo. Muito bem! Onde está Teddy?
As tias estão muito aborrecidas com Mortimer.

ABBY: Mortimer, onde é que você estava?

MORTIMER: Com a Dra. Gilchrist. Consegui a assinatura dela nos papéis de


internação de Teddy.

MARTHA: Mortimer, o que há com você?

67
ABBY: Pára em frente da mesa. Andar por aí para conseguir assinaturas numa
hora destas!

MARTHA: Você sabe o que Jonathan está fazendo?

ABBY: Ele está enterrando o Sr. Hoskins e o Sr. Spenalzo juntos.

MORTIMER: Para a porta do porão. Ah, está? Muito bem. Fecha a porta. Teddy
está no quarto dele?

MARTHA: Teddy não vai poder ajudar.

MORTIMER: Depois que ele assinar estes formulários, eu tomo conta do


Jonathan.

ABBY: O quê tem uma coisa a ver com a outra?

MORTIMER: Vocês não deveriam Ter falado com Jonathan sobre as doze covas.
Se eu conseguir que Teddy fique responsável por elas, posso proteger vocês,
entendem?

ABBY: Não, não entendo. Nós pagamos impostos para ter a proteção da polícia

MORTIMER: Subindo. Eu volto já!

ABBY: Pega as luvas e o hinário na mesa. Venha, Martha. Vamos procurar a


polícia.
Martha pega suas luvas e hinário no aparador. As duas vão para a porta.

MORTIMER: No patamar. Está bem! Vira-se e desce correndo para a porta de


entrada, antes que elas cheguem. A polícia? Vocês não podem ir à polícia!

MARTHA: Embaixo, à direita, mas à esquerda de Abby. Porque?

MORTIMER: Perto da porta de entrada. Porque se vocês contarem à polícia


sobre o Sr. Spenalzo, eles vão encontrar o Sr. Hoskins também. Vai em direção a
Martha. E isto pode fazer com que eles fiquem curiosos e acabem descobrindo os
outros doze cavalheiros.

ABBY: Mortimer. Nós conhecemos a polícia melhor que você. Acho que se nós
pedirmos a eles, eles não vão se intrometer em nossos negócios particulares.

MORTIMER: Mas se eles acharem os outros doze, eles vão ter que fazer um
relatório para a delegacia.

68
MARTHA: Colocando as luvas. Eu não acho que eles vão se incomodar com
isto. Terão que fazer um relatório enorme, e se tem alguma coisa que um policial
detesta, é escrever.

MORTIMER: Vocês não podem contar muito com isto. A coisa pode transpirar – e
vocês não podem esperar que o juiz e o júri entendam!

MARTHA: Oh, o juiz Gullman entenderia.

ABBY: Calçando as luvas. Nós o conhecemos muito bem.

MARTHA: Ele sempre vem à igreja para rezar, em época de eleição.

ABBY: E ele prometeu que vem tomar chá um dia destes.

MARTHA: Oh, Abby, nós temos que convidá-lo de novo. Para Mortimer. A
senhora dele morreu há alguns anos e ele ficou muito sozinho.

ABBY: Vamos, Martha. Ela vai em direção à porta.

MORTIMER: Chega antes dela à porta. Não, vocês não podem fazer isto. Eu não
vou deixar. Vocês não vão sair desta casa nem trazer o juiz Gullman para o chá.

ABBY: Se você não fizer alguma coisa sobre o Sr. Spenalzo – nós vamos.

MORTIMER: Vou fazer alguma coisa. Podemos ter que chamar a polícia, mais
tarde, mas quando chamarmos quero estar pronto para eles.

MARTHA: Você tem que tirar Jonathan desta casa!

ABBY: E o Sr. Spenalzo também!

MORTIMER: Querem fazer o favor de me deixar fazer do meu jeito? Começa a


subir. Tenho que ver Teddy.

ABBY: Olhando para Mortimer. Se pela manhã, eles não tiverem saído daqui,
nós vamos chamar a polícia, Mortimer.

MORTIMER: Do balcão. Eles vão sair! Eu prometo! Vão para cama, está bem? E
pelo amor de Deus, tirem essas roupas. Vocês parece atrizes de tragédia grega.
Sai fechando a porta. As tias o vêem sair.

MARTHA: Para Abby. Bem Abby, é um grande alívio, não é?

ABBY: Se Mortimer vai mesmo fazer alguma coisa, isto significa que Jonathan
esta tendo um trabalho danado para nada. É melhor a gente dizer a ele. Abby vai

69
para a porta do porão e Jonathan aparece. Eles se encontram no fundo, no
centro, em frente ao sofá. As roupas dele estão sujas. Jonathan, é melhor
você parar com o que está fazendo.

JONATHAN: Já está feito. Foi a voz do Mortimer que eu ouvi?

ABBY: Bem, tudo vai ter que ser desfeito. Vocês vão sair desta casa até amanhã
de manhã, Mortimer prometeu.

JONATHAN: Ah, vamos? Neste caso, você e tia Martha podem ir para cama e
dormir sossegadas.

MARTHA: Sempre com medo de Jonathan, começa a subir. Sim, vamos, Abby.
Abby segue Martha, escada acima.

JONATHAN: Boa Noite, tias.

ABBY: Boa noite, não, Jonathan. Adeus. Quando nós acordarmos, você já terá
ido embora. Mortimer prometeu.

MARTHA: Do balcão. E ele sabe como fazer isto!

JONATHAN: Então Mortimer voltou.

ABBY: Voltou sim. Ele está lá em cima falando com Teddy.

MARTHA: Adeus, Jonathan.

ABBY: Adeus, Jonathan.

JONATHAN: Talvez seja melhor eu me despedir de Mortimer.

ABBY: Você vai vê-lo?

JONATHAN: Sentado no banquinho. É – eu vou ver Mortimer. Abby e Martha


saem, Jonathan senta sem se mexer. Tem pensamentos assassinos.
Einstein vem do porão. Ele tira a poeira da bainha da calça, levantando as
pernas e vê-se então que ele está usando os sapatos esportes de Spenalzo.

EINSTEIN: Bem! Tudo arrumado. Ninguém vai saber que eles estão lá em baixo.
Jonathan ainda está sentado sem se mover. Já estou sonhando com uma
cama. Faz 48 horas que não dormimos. Vai para a segunda cadeira. Vamos,
Chonny, vamos subir, está bem?

JONATHAN: Você está esquecendo, doutor....

EINSTEIN: O que?

70
JONATHAN: Do meu irmão Mortimer.

EINSTEIN: Chonny – esta noite? Vamos deixar para amanhã ou depois.

JONATHAN: Capaz apenas de se controlar. Não! Esta noite! Agora!

EINSTEIN: No chão. Chonny, por favor. Eu estou cansado. E amanhã eu tenho


que operar.

JONATHAN: Amanhã você pode operar, mas hoje vamos cuidar de Mortimer.

EINSTEIN: Ajoelhando-se em frente a Jonathan, tentando apaziguá-lo. Mas


Chonny, hoje à noite – não – vamos para a cama, ja?

JONATHAN: Doutor, olhe para mim. Dá para ver o que vai acontecer, não dá?

EINSTEIN: Recuando. Ach, Chonny, eu posso ver. Eu conheço este seu olhar!

JONATHAN: Já é meio tarde para acabarmos com nossa parceria.

EINSTEIN: O.K., vamos, então. Mas do modo rápido. Uma torcidinha rápida, como
em Londres. Ele “torce” o pescoço da vítima com suas mãos e faz barulho
sugerindo estrangulamento.

JONATHAN- Não, doutor. Eu acho que desta vez é um caso especial. Anda em
direção a Einstein, que escapa para o fundo do palco. Jonathan tem o olhar
de quem está antecipando um prazer. Acho que o melhor é o método de
Melbourne.

EINSTEIN: Chonny, isso não. Duas horas. E quando acabou, o que? O homem de
Londres estava tão morto quanto o de Melbourne.

JONATHAN: Em Londres nós tivemos que trabalhar depressa demais. Não deu
para sentir nenhum prazer estético. Mas Melbourne – Ah, este foi um momento
inesquecível!

EINSTEIN: Indo para a frente, enquanto Jonathan passa por ele. Se me


lembro! Tem um arrepio. Gostaria de esquecer. Não, Chonny, Melbourne, não.

JONATHAN: Sim, doutor. Onde estão os instrumentos?

EINSTEIN: Não vou fazer, Chonny – não vou fazer.

JONATHAN: Avançando para ele enquanto Einstein recua para o fundo.


Pegue seus instrumentos.

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EINSTEIN: Não, Chonny!

JONATHAN: Onde estão? Ah, sim – você escondeu no porão. Onde?

EINSTEIN: Não vou dizer.

JONATHAN: Indo para a porta do porão. Pois vou encontrar, doutor. Sai para o
porão, fechando a porta. Teddy entra no balcão e levanta a corneta para
tocar, Mortimer corre e segura seu braço. Einstein corre para a porta do
porão. Fica lá enquanto Teddy e Mortimer falam.

MORTIMER: Não faça isto, Sr. Presidente.

TEDDY: Não posso assinar nenhuma proclamação sem consultar meu ministério.

MORTIMER: Mas ela deve ser secreta.

TEDDY: Uma proclamação secreta? Muito pouco comum.

MORTIMER: Vamos lá assiná-lo.

TEDDY: Espere aqui. Uma proclamação secreta tem que ser assinada em
segredo.

MORTIMER: Mas imediatamente, Sr. Presidente.

TEDDY: Eu tenho que por a minha roupa de assinar proclamações. Sai. Mortimer
desce.

EINSTEIN: Pega o chapéu de Mortimer no cabide de chapéus e dá a ele,


ansioso para tirar Mortimer da casa. Ah, você vai agora. Ja?

MORTIMER: Pega o chapéu e coloca na escrivaninha. Não, doutor. Estou


esperando uma coisa. Uma coisa importante.

EINSTEIN: À esquerda de Mortimer. Por favor, vá agora!

MORTIMER: Dr. Einstein, pessoalmente não tenho nada contra o senhor. O


senhor parece ser um bom sujeito. Siga meu conselho, saia desta casa e fique o
mais longe que puder.

EINSTEIN: Problemas! Ja! Você sai!

MORTIMER: Indo para o centro. Está bem, depois não diga que eu não avisei.

EINSTEIN: Eu estou avisando você – vá embora depressa.

72
MORTIMER: As coisas vão começar a explodir aqui, a qualquer momento.

EINSTEIN: No fundo, à direita. Escute. Chonny está de mau humor! Quando ele
está assim, ele fica louco – coisas horríveis acontecem.

MORTIMER: Jonathan não me preocupa agora.

EINSTEIN: Ach, Himmel. As peças que você vê não lhe ensinam nada?

MORTIMER: Sobre o que?

EINSTEIN: Pelo menos no teatro, as pessoas representam como se tivessem


juízo – que é coisa que você não tem.

MORTIMER: Interessado na observação. Você acha? Você pensa que as


pessoas no teatro representam com inteligência? Você devia assistir a algumas
peças que eu tenho visto. Veja a porcaria de peça que eu vi esta noite: tem um
homem – ele deveria ser inteligente...
Jonathan vem do porão com a maleta de instrumentos, pára na porta, e fica
ouvindo Mortimer.
...ele sabe que está numa casa com assassinos. Ele devia saber que existe perigo
– ele é até avisado para sair da casa. Mas ele sai? Não, ele fica. Eu lhe pergunto,
doutor: é isto que uma pessoa inteligente faria?

EINSTEIN: Você está me perguntando?

MORTIMER: Ele não tinha suficiente sensibilidade nem para ficar assustado, para
ficar em guarda. Por exemplo, os assassinos o convidam a sentar.

EINSTEIN: Caminha para impedir que Mortimer veja Jonathan.


Eles dizem “Não quer se sentar?”

MORTIMER: Pega a cadeira de braço e puxa-a para si, continuando a olhar


Einstein. Acredite ou não: “o outro” estava lá também.

EINSTEIN: E o que é que ele faz?

MORTIMER: Sentado na cadeira de braço. Ele senta. Trata-se de um sujeito


supostamente esperto. Ele senta, e espera ser amarrado. E o que é que o senhor
acha que eles usam para amarrá-lo?

EINSTEIN: O quê?

MORTIMER: O cordão da cortina.


Jonathan olha para os cordões dos dois lados da cortina da janela esquerda.
Vai até lá, sobe na arca e corta os cordões com o canivete.

73
EINSTEIN: Bem, porque não? Uma boa idéia. Muito lógica.

MORTIMER: Lógica demais! Quando é que os autores vão usar um pouco de


imaginação? O cordão da cortina! Jonathan, com os cordões na mão, anda
devagar por trás de Mortimer.

EINSTEIN: Ele não viu quando tiraram o cordão?

MORTIMER: Ver? Estava lá, sentado de costas. Esta é o tipo de asneira que
temos que agüentar todas as noites. Depois dizem que os críticos estão
assassinando o teatro – são os autores que estão acabando com ele. E ele fica
sentado lá, o imbecil completo – ele, que devia ser inteligente – esperando ser
amarrado e amordaçado.
Jonathan joga um laço feito com um dos cordões sobre o ombro de
Mortimer e amarra bem apertado. Ao mesmo tempo, joga o outro laço no
chão perto de Einstein. Simultaneamente, Einstein salta para Mortimer e o
amordaça com um lenço e então pega o cordão e amarra os pés de Mortimer
na cadeira.

EINSTEIN: Acabando de amarrar. Você tem razão sobre aquele sujeito – ele não
era muito esperto.

JONATHAN: Agora Mortimer, se você não se incomodar, nós vamos acabar com
a história. Vai ao aparador, pega os dois castiçais e os traz para a mesa. Fala,
enquanto acende as velas. Einstein fica ajoelhado, perto de Mortimer.
Jonathan acabou de acender as velas. Vai a direita e apaga a luz,
escurecendo o palco. Enquanto ele faz isto, Einstein levanta e vai até a arca.
Jonathan pega a maleta de instrumentos na porta do porão e a coloca na
mesa, abrindo-a e revelando vários instrumentos cirúrgicos, dentro e na
tampa. Agora, doutor, temos que trabalhar.

Tira um instrumento da maleta e o manuseia, encantado, enquanto Einstein


vai para a cadeira esquerda e ajoelha-se nela. Não está muito satisfeito com
toda a situação.

EINSTEIN: Por favor, Chonny, eu lhe peço! O modo rápido!

JONATHAN: Doutor! Isto deve ser uma realização artística. Afinal de contas,
estamos nos apresentando perante um crítico muito ilustre.

EINSTEIN: Chonny!

JONATHAN: Enfurecendo-se. Doutor!

EINSTEIN: Vencido. Está bem. Vamos acabar com isto. Fecha o reposteiro
totalmente e senta na arca. Jonathan pega mais 4 ou 5 instrumentos e os

74
manuseia. Finalmente, tendo o equipamento necessário arrumado na toalha,
começa a colocar luvas de borracha.

JONATHAN: Tudo pronto para você, doutor.

EINSTEIN: Tenho que tomar um trago. Não posso fazer isto sem beber. Pega a
garrafa do bolso. Procura beber. Está vazia. Ergue-se.

JONATHAN: Comporte-se, doutor!

EINSTEIN: Tenho que tomar um trago. Quando nós entramos aqui hoje, tinha
vinho aqui, lembra? Onde é que ela pôs? Olha para o aparador e lembra. Vai
até lá, abre o armário da esquerda e traz a garrafa e dois cálices para a frente
da mesa.
Olha, Chonny temos o que beber. Serve o vinho nos dois cálices, esvaziando a
garrafa. Mortimer assiste. É tudo que tem. Eu divido com você. Nós dois
precisamos de um trago. Dá um cálice a Jonathan e leva o seu aos lábios.
Jonathan faz com que pare.

JONATHAN: Um minuto, doutor. Onde estão suas boas maneiras? Vai para a
frente, à direita de Mortimer e olha para ele. É. Mortimer, agora é que eu vejo
que foi você que me trouxe de volta ao Brooklyn.
Ele olha para o vinho e passa o cálice de um lado para outro, cheirando.
Aparentemente decide que está tudo bem, pois levanta o copo.
Doutor, à saúde do meu querido irmãozinho morto.
Enquanto eles levam os cálices aos lábios, Teddy aparece no balcão e dá
um toque de corneta aterrorizante, Einstein e Jonathan deixam cair os
copos, derramando o vinho. Teddy vira-se e sai.

EINSTEIN: Ach, Gott!

JONATHAN: Maldito seja aquele idiota! Corre para a escada. Einstein o


intercepta. Ele será o próximo! Ele será o próximo!

EINSTEIN: Não Chonny, Teddy não – aí eu paro – Teddy não.

JONATHAN: Cuidamos dele mais tarde.

EINSTEIN: Não vamos fazer nada com ele.

JONATHAN: Agora temos que trabalhar depressa! Vai para à esquerda de


Mortimer e Einstein para a frente de Mortimer.

EINSTEIN: Ja, a maneira rápida, hein – Chonny?

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JONATHAN: Sim, doutor, a maneira rápida. Puxa um grande lenço de seda do
bolso e bota em volta do pescoço de Mortimer. Neste momento a porta se
abre e O’Hara entra, muito agitada.

O’HARA: Ei! O coronel tem que parar de tocar essa buzina!

JONATHAN: Ele e Einstein estão na frente de Mortimer, escondendo-o de


O’Hara. Está certo, sargento. Nós vamos tirar a corneta dele.

O’HARA: Vai ser um inferno, amanhã de manhã. Prometemos aos vizinhos que
ele não faria mais isso!

JONATHAN: Não vai acontecer mais, sargento. Boa noite.

O’HARA: É melhor eu mesma falar com ele. Onde é que acende a luz? Acende a
luz e sobe até o patamar e aí vê Mortimer. Ei! Você me deu o bolo! Esperei uma
hora no bar do Kelly por você.
Desce, vai até Mortimer e olha para ele. Fala com Jonathan e Einstein. O que
aconteceu com ele?

EINSTEIN: Raciocinando rápido. Ele estava explicando sobre a peça que viu
esta noite – o que aconteceu com o sujeito da peça.

O’HARA: Isto acontece na peça que você viu esta noite? Mortimer balança a
cabeça afirmativamente. Bolas, eles praticamente roubaram todo o 2º ato da
minha peça. Começa a explicar. Bem, no 2º ato, logo antes de...Vira de costas
para Mortimer. É melhor eu começar do começo. Começa no quarto de minha
mãe onde nasci – só que não nasci ainda.
Mortimer esfrega um sapato no outro para chamar a atenção de O’Hara.
Ahn? Ah, sim! Começa a tirar a mordaça de Mortimer e então decide não fazê-
lo.
Não, você tem que ouvir o enredo. Pega o banquinho e senta à direita de
Mortimer, continuando com seu enredo enquanto desce a cortina.
Mamãe está sentada lá se pintando e de repente entra um homem com um bigode
negro, vira para ela e diz “Srta. Latour, você se casaria comigo”? Ele não sabe que
ela está grávida.

CORTINA

Cena II

A mesma cena. Cedo no dia seguinte. Quando a cortina sobe, a luz do dia
está se infiltrando pelas janelas. Todas as portas estão fechadas. Todas as
cortinas abertas. Mortimer ainda está amarrado na cadeira e parece estar
semi-inconsciente. Jonathan está dormindo no sofá. Einstein,
agradavelmente bêbado, está sentado à esquerda da mesa com a cabeça

76
descansando nela. O’Hara, sem casaco e com o colarinho desabotoado está
em pé atrás do banquinho, que se encontra entre ele e Mortimer. Ele está na
cena mais excitante de sua peça. Tem uma garrafa de whisky e uma jarra
d’água na mesa junto de um prato cheio de pontas de cigarro.

O’HARA: Aí está ela, de camisola, caída na mesa, sem sentidos – O China está
por cima dela com uma machadinha... Faz a pose... eu estou amarrado numa
cadeira, exatamente como você – o lugar é um inferno de chamas – está pegando
fogo – quando de repente, pela janela, entra o Prefeito La Guardia...Einstein
levanta a cabeça e olha pela janela. Não vendo ninguém, pega a garrafa e
serve mais uma dose. O’Hara vai por trás dele e pega a garrafa.

O’HARA: Até agora, o que é que você achou?

EINSTEIN: Bem, você fez Chonny dormir.

O’HARA: Acabou de tomar um trago na garrafa. Einstein pega seu copo e


senta ao pé da escada. Ao mesmo tempo O’Hara coloca o banquinho na
escrivaninha e a garrafa de whisky em cima dela, volta ao centro e continua
com sua peça.
Muito bem. Três dias depois – eu fui transferida e estava sendo acusada porque
alguém roubou meu distintivo. Ele faz mímica das próximas falas. Muito bem.
Estou fazendo a ronda no 46º distrito quando um cara que estou seguindo – bem,
acontece que ele é que está me seguindo.
Alguém bate na porta. Einstein levanta e olha pela janela do patamar. Deixa
o copo atrás da cortina do fundo.
Não deixe ninguém entrar! Então eu imagino como enganá-lo. Tem uma casa
vazia na esquina. Eu entro...

EINSTEIN: São tiras!

O’HARA: Espero lá no escuro e vejo a maçaneta girar...

EINSTEIN: Desce correndo e sacode Jonathan pelo ombro.


Chonny! São tiras! Tiras!
Jonathan não se mexe. Einstein sobe correndo e sai pelo arco.

O’HARA: Continuando sua história, sem parar... Eu saco meus revólveres – me


espremo contra a parede e digo: “Entre”!
Brophy e Klein entram e encontram O’Hara com revólver apontando para
eles e levantam as mãos. Então, reconhecendo seu companheiro, abaixam
as mãos.
Olá garotas!

BROPHY: Que diabo está acontecendo aqui?

77
O’HARA: Indo para Brophy. Hey, Pat, você nem imagina! Este aqui é Mortimer
Brewster! Ele vai escrever minha peça comigo! Eu estou contando a história para
ele.

KLEIN: Indo até Mortimer e desamarrando-o Você teve que amarrá-lo para que
ele escutasse?

BROPHY: Jeannie, é melhor você se apresentar na delegacia. A guarnição inteira


está procurando você.

O’HARA: Mandaram vocês aqui por minha causa?

KLEIN: Não sabíamos que você estava aqui.

BROPHY: Viemos avisar as velhinhas que tem um bolo formado. O coronel tocou
aquela corneta outra vez no meio da noite.

KLEIN: Do jeito que os vizinhos estão falando, parece até que os alemães
soltaram uma bomba na Avenida Central. Acabou de desamarrar Mortimer e
coloca as cordas no aparador.

BROPHY: A tenente está uma fera. Diz que o coronel tem que ser levado para
algum lugar.

MORTIMER: Cambaleando. Sei! Sei!

O’HARA: Indo para Mortimer. Ih! Sr. Brewster, eu tenho que ir embora; então,
vamos dar uma passarinha rápida pelo 3º ato.

MORTIMER: Cambaleando para a direita. Sai de perto de mim! Brophy dá uma


olhada para Klein, pega o telefone e disca.

KLEIN: Vocês sabem que horas são? Já passa das oito da manhã.

O’HARA: É? Segue Mortimer pela escada. Puxa, Sr. Mortimer, os dois primeiros
atos são meio longos, mas eu não vejo nada que a gente possa cortar.

MORTIMER: Quase no patamar. Você pode cortar tudo.

BROPHY: Vê Jonathan no sofá. Quem é esse aí?

MORTIMER: Segurando-se no corrimão, quase no balcão. É o meu irmão.

BROPHY: Ah, aquele que fugiu? Então ele voltou.

MORTIMER: É, ele voltou!


Jonathan se estica como para levantar.

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BROPHY: No telefone. Aqui é Brophy. Chame Mac. Para O’Hara, sentado na
escada. É melhor dizer a eles que a gente encontrou você, Jeannie. No telefone.
Mac? Diga ao tenente que a caçada acabou. Nós a encontramos na casa dos
Brewster.
Jonathan ouve isto e subitamente fica bem acordado, olhando para cima e
vendo Klein à sua esquerda e Brophy à sua direita. Você quer que a gente a
leve pra aí? Está bem. Nós vamos segura-la aqui. Desliga. O tenente está vindo
para cá.

JONATHAN: Levantando. Então me entregaram, hein? Brophy e Klein olham


para ele com algum interesse.
Está bem, vocês me pegaram! Virando-se para Mortimer que está no balcão,
olhando para baixo. Imagino que este delator, que é meu irmão, vai dividir a
recompensa com vocês.

KLEIN: Recompensa?
Instintivamente Klein e Brophy agarram Jonathan pelos braços.

JONATHAN: Arrastando consigo os guardas para a frente, no centro. Agora,


sou eu que vou entregar! Vocês pensam que minhas tias são umas velhinhas
muito engraçadinhas, não? Pois tem treze cadáveres lá no porão.

MORTIMER: Enquanto sai correndo para ver Teddy.


Teddy! Teddy! Teddy!

KLEIN: Do que diabo está falando?

BROPHY: É melhor ter cuidado com que você diz de suas tias. Elas são nossas
amigas.

JONATHAN: Furioso, enquanto os arrasta em direção à porta do porão. Vou


mostrar para vocês! Vou provar o que estou dizendo! Venham ao porão comigo!

KLEIN: Péra aí! Péra aí!

JONATHAN: Treze cadáveres. Eu vou mostrar onde eles estão.

KLEIN: Recusando-se a ser enganado. Ah, vai?

JONATHAN: Você não quer ver o que tem lá embaixo no porão?

BROPHY: Solta do braço de Jonathan e fala para Klein.


Vá lá embaixo com ele, Anne.

KLEIN: Larga o braço de Jonathan, recua para trás um passo – frente do


palco – olha para ele.

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Não sei se quero ir ao porão com ele. Olha a cara dele parece o Boris Karloff.
Jonathan, ao ouvir isto, agarra Klein pela garganta e começa a estrangulá-lo.
Ei, que diabo! Ei, Pat! Tire-o daqui!

BROPHY: Tirando o cassetete. O que está querendo com isso? Atinge


Jonathan na cabeça e este cai desmaiado de cara para o chão.

KLEIN: Deixando Jonathan cair, recua, esfregando a garganta. Agora sai


dessa!
Alguém bate na porta de entrada.

O’HARA: Pode entrar.


A tenente Rooney irrompe pela sala batendo a porta. é uma oficial dura,
autoritária e dominadora.

ROONEY: Que diabo vocês estão arrumando? Eu falei que deixassem comigo.

KLEIN: Bem, tenente, nós íamos...Klein olha para Jonathan e Rooney o vê.

ROONEY: O que aconteceu? Ele provocou uma briga?

BROPHY: Não é esse que toca corneta. Esse é o irmão dele. Tentou matar Klein.

KLEIN: Apalpando a garganta. Só falei que ele parecia o Boris Karloff.

ROONEY: Com a fisionomia mais animada. Virem-no para cima.


Os dois guardas viram Jonathan, Klein recua. Rooney passa na frente de
Brophy para dar uma olhada em Jonathan. Brophy vai para a direita de
Rooney. O’Hara ainda está ao pé da escada.

BROPHY: A gente acha que ele está sendo procurado.

ROONEY: Ah, vocês acham? Se vocês não lêem as ordens do dia penduradas na
delegacia, ao menos poderiam ler “O Manual de Detetive”. É claro que está sendo
procurado. Fugiu do manicômio judiciário, em Indiana. Foi condenado à prisão
perpétua. Pois olha, foi exatamente assim que ele foi descrito - disseram que se
parecia com Boris Karloff!

KLEIN: Tem alguma recompensa?

ROONEY: Tem, e eu vou reivindicar.

BROPHY: Ele estava tentando nos levar para o porão.

KLEIN: Disse que tem treze cadáveres enterrados lá.

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ROONEY: Desconfiado. Treze cadáveres enterrados no porão? Decidindo que
aquilo era ridículo. E nem com isso vocês desconfiaram que ele tinha fugido do
hospício?

O’HARA: Eu estava achando o tempo todo que ele falava de maneira meio
maluca.

ROONEY: Vendo O’Hara pela primeira vez, vira-se para ele. Ah! O nosso
Shakespeare! Indo até ele. Onde é que você passou a noite? E não se dê ao
trabalho de me dizer.

O’HARA: Eu estava aqui, tenente. Escrevendo uma peça com Mortimer Brewster.

ROONEY: Duro. Ah, é? Pois vai ter bastante tempo para escrever aquela peça.
Você está suspensa! Agora volte e apresente-se na delegacia.

O’HARA: Pegando seu casaco, cassetete e quepe na escrivaninha, vai para a


porta de entrada e abre-a. Aí vira para Rooney. Posso aparecer de vez em
quando e usar a máquina de escrever da delegacia?

ROONEY: Não!! Saia daqui. O’Hara corre para fora. Rooney fecha a porta e
vira-se para os guardas. Teddy entra pelo balcão, desce sem ser notado e
fica atrás de Rooney à sua direita. Rooney fala para os guardas. Levem este
sujeito daqui e acordem ele. Os guardas abaixam-se para pegar Jonathan.
Vejam se conseguem apurar alguma coisa sobre o cúmplice dele. Os guardas
olham sem entender. Rooney explica. O sujeito que o ajudou a escapar também
está sendo procurado. Não admira que Brooklyn esteja do jeito que está, com uma
guarnição policial cheia de cretinas como vocês, que acreditam em qualquer
estória – treze cadáveres no porão!

TEDDY: Mas tem treze cadáveres no porão.

ROONEY: Virando-se para ele. Quem é você?

TEDDY: Eu sou o presidente Roosevelt.

ROONEY: Ao ouvir isto vai para o fundo e volta-se. Que diabo é isso?

BROPHY: É o camarada que toca corneta.

KLEIN: Bom dia, Coronel.

Os policiais fazem continência para Teddy. Teddy retribui a saudação.


Rooney percebe que também está saudando Teddy. Ele disfarçadamente
abaixa sua mão.

ROONEY: Bem, Coronel, você tocou sua corneta pela última vez.

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TEDDY: Vendo Jonathan desmaiado. Meu Deus! Outra vítima de febre amarela?

ROONEY: O quê?

TEDDY: Todos os cadáveres no porão são vítimas de febre amarela.

Rooney dirige-se impacientemente para a porta à direita.

BROPHY: Não, Coronel, este é um espião que capturamos na Casa Branca.

ROONEY: Apontando para Jonathan. Você duas! Tirem este homem daqui!

Os policiais pegam Jonathan e o arrastam para a cozinha. Teddy vai atrás.


Mortimer aparece descendo as escadas.

TEDDY: Dirigindo-se a Rooney. Se for alguma questão relacionada a


espionagem, é meu departamento!

ROONEY: Fique fora disto!

TEDDY: Você está esquecendo! Como Presidente eu também sou o chefe do


Serviço Secreto.

Bropphy e Klein levam Jonathan para a cozinha. Teddy os segue muito


agitado. Mortimer caminha para o centro.

MORTIMER: Capitão, sou Mortimer Brewster.

ROONEY: Você tem certeza?

MORTIMER: Eu gostaria de falar com você sobre o meu irmão Teddy - o que toca
a corneta.

ROONEY: Sr. Brewster, nós não temos mais nada que discutir sobre este assunto
- ele tem que ser internado.

MORTIMER: Concordo inteiramente com o senhor. Na verdade, está tudo


arranjado. Os papéis de internação já estão assinados pela Dra. Gilchrist, a
médica da família. Teddy também os assinou e eu assinei como o parente mais
próximo.

ROONEY: Para onde ele vai?

MORTIMER: Lar Feliz!

ROONEY: Está bem! Não me importo para onde ele vai, contanto que vá!

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MORTIMER: Ele vai. Mas quero que o senhor saiba que Teddy é responsável por
tudo que aconteceu aqui. Agora, sobre os treze cadáveres no porão...

ROONEY: Já farto do assunto. Está bem! Os treze cadáveres do porão! Já não


basta que os vizinhos tenham medo dele, e que ele perturbe a paz com aquela
corneta? Você pode imaginar o que aconteceria se esta estória maluca de treze
cadáveres se espalha? E agora ele está começando a falar em Febre Amarela.
Uma gracinha, não é?

MORTIMER: Muito aliviado, com um riso embaraçoso. Treze cadáveres. O


senhor acha que alguém acreditaria nesta estória?

ROONEY: É difícil dizer. Tem gente bastante estúpida. Às vezes você não sabe
em que acreditar. Há um ano atrás, um maluco lançou um boato de assassinato
em Greenpoint e eu tive que cavar um terreno inteiro só para provar que...
Batem na porta de entrada.

MORTIMER: Com licença. Vai à porta e deixa entrar Elaine e o Sr.


Witherspoon, um velho e lacônico superintendente. Ele carrega uma pasta.

ELAINE: Rapidamente. Bom dia, Mortimer.

MORTIMER: Não sabendo o que esperar. Bom dia, meu bem

ELAINE: Esta é a Sra. Witherspoon. Ele veio conhecer Teddy.

MORTIMER: Conhecer Teddy?

ELAINE: A Sra. Witherspoon é a superintendente do Lar Feliz.

MORTIMER: Ansiosamente. Ah, por favor, entre. Apertam-se as mãos.


Mortimer indica Rooney. Este é o capitão...

ROONEY: Tenente Rooney. Acho bom que a senhora esteja aqui, Super, porque
vai levá-lo ainda hoje.

WITHERSPOON: Hoje? Não sabia que...

ELAINE: Interrompendo. Hoje não!

MORTIMER: Olhe Elaine, tenho muita coisa para resolver, portanto vá para casa
que depois te telefono.

ELAINE: Vou uma ova! Senta na arca.

WITHERSPOON: Eu não sabia que era tão urgente.

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ROONEY: Os papéis estão todos assinados. Ele vai hoje!

TEDDY: Entra na sala, de costas, falando bruscamente na direção da


cozinha. Total insubordinação! Vocês vão ver que eu não sou um covarde. Bate
na porta e vai para a frente da mesa. O que será deste país. Se até o Presidente
dos Estados Unidos é tratado desta maneira?

ROONEY: Aí está o seu homem, Super.

MORTIMER: Um minuto! Vai para Teddy e fala com ele como a uma criança.
Sr. Presidente, tenho boas novas. Seu mandato terminou.

TEDDY: Hoje é quatro de março?

MORTIMER: Praticamente.

TEDDY: Pensando. Deixe-me ver. Ah! Agora vou para minha caçada na África!
Preciso partir imediatamente. Atravessa a sala e quase dá de encontro com
Witherspoon, no centro. Olha para ele e recua até Mortimer. Quem é ela?

MORTIMER: É a Sra. Witherspoon. Ela vai ser seu guia na África.

TEDDY: Aperta a mão de Witherspoon, entusiasmado. Fantástico! Fantástico!


Vou buscar meu equipamento! Vai para escada. Martha e Abby entraram pelo
balcão durante a última fala e estão descendo a escada.
Quando o safari chegar, digam que esperem.
Quando passa pelas tias, no patamar, aperta as mãos delas, sem parar.
Adeus, tia Abby. Adeus, tia Martha. Estou indo para a África, não é ótimo?
Quando chega no patamar grita: “Atacar”! Galopa escada acima e sai. As tias
estão ao pé da escada.

MORTIMER: Em direção as tias. Bom dia, queridas.

MARTHA: Ah, temos visitas.

MORTIMER: Indica Rooney no centro. Esta é a tenente Rooney.

ABBY: Aperta a mão do tenente. Como vai, tenente? A senhora não parece ser
tão chata como as meninas dizem.

MORTIMER: A tenente está aqui porque - bem, vocês sabem que ontem à noite
Teddy tocou a corneta de novo.

MARTHA: Vamos falar com Teddy a este respeito.

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ROONEY: É um pouco mais sério de que isto, Srta. Brewster.

MORTIMER: Conduzindo as tias até Witherspoon, que está atrás da mesa e


abriu sua pasta, tirando alguns papéis, Vocês ainda não conhecem a Sra.
Witherspoon. Ela é a superintendente do Lar Feliz.

ABBY: Oh, Sra. Witherspoon, como vai?

MARTHA: A senhora veio conhecer Teddy?

ROONEY: Meio rude. Veio buscá-lo.


As tias olham para Rooney, sem entender.

MORTIMER: Tentando tornar as coisas o mais fácil possível. Tias, a polícia


quer que Teddy vá para lá, hoje.

ABBY: Para à direita da cadeira. Ah, não!

MARTHA: Atrás de Abby. Não, enquanto estivermos vivas!

ROONEY: Sinto muito, Srta. Brewster, mas tem que ser feito. Os papéis estão
todos assinados e ele vai embora com a Superintendente.

ABBY: Nós não vamos permitir. Prometemos tirar a corneta dele.

MARTHA: Não vamos nos separar de Teddy.

ROONEY: Sinto muito, minhas senhoras. Mas lei é lei! Ele se entregou
voluntariamente, agora ele vai!

ABBY: Bem, se ele vai, nós vamos também.

MARTHA: É, vocês vão ter que nos levar com ele.

MORTIMER: Tem uma idéia. Vai para Witherspoon. Por que não?

WITHERSPOON: É muito carinhoso da parte delas quererem ir também, mas é


impossível! Nós não podemos ter pessoas sãs no Lar Feliz.

MARTHA: Virando-se para Witherspoon. Sra. Witherspoon, se a senhora nos


permitir viver com Teddy, nós deixaremos uma soma generosa para o Lar Feliz
em nosso testamento.

WITHERSPOON: Deus sabe o quanto precisamos deste dinheiro. Mas... sinto


muito...

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ROONEY: Vamos ser razoáveis, minhas senhoras. Eu, por exemplo, estou aqui
desperdiçando minha manhã quando tenho coisa mais séria para fazer. Ainda
existem casos de assassinato para serem apurados no Brooklyn.

MORTIMER: Isso mesmo! Disfarçando. Existem?

ROONEY: Não é apenas toque de corneta e vizinhos com medo dele. As coisas
podem piorar. Mais cedo ou mais tarde acabaríamos tendo de escavar o seu
porão.

ABBY: Nosso porão?

ROONEY: É... seu sobrinho tem dito por aí que existem treze cadáveres no porão.

ABBY: Mas existem treze cadáveres no porão.

Rooney parece aborrecida. Mortimer encaminha-se quietamente para a porta


do porão.

MARTHA: Se é por isso que o senhor acha que Teddy tem que ir embora – venha
ao porão conosco e a senhora verá. Vai para o fundo.

ABBY: Um deles – Sr. Spenalzo – não tinha nada que estar aqui – e tem que ir
embora – mas os outros doze são nossos cavalheiros – Vai para trás.

MORTIMER: Não acho que a tenente queira ir ao porão. Ela mesma estava me
dizendo que o ano passado teve que escavar um terreno enorme – não foi,
tenente?

ROONEY: Isso mesmo.

ABBY: Para Rooney. Ah, a senhora não teria que cavar aqui. Os túmulos estão
todos marcados. Nós colocamos flores neles todos os domingos.

ROONEY: Flores? Anda em direção a Abby e aí vira para Witherspoon,


mostrando as tias enquanto fala. Superintendente, a senhora não arranja um
lugarzinhos para estas senhoras?

WITHERSPOON: Bem, eu...

ABBY: Para Rooney. Venha conosco e eu lhe mostro as sepulturas.

ROONEY: Eu acredito na senhora, Madame. E aí, Super?

WITHERSPOON: Bem, mas alguém tem que pedir sua internação.

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MORTIMER: Teddy se internou voluntariamente. Elas não podem também? Elas
não podem assinar os papéis?

WITHERSPOON: Certamente.

MARTHA: Senta na cadeira à esquerda da mesa, que Witherspoon puxou


para ela. Ah! Se nós pudermos ir com Teddy, nós assinamos os papéis. Onde
estão eles?

ABBY: Sentada à direita da mesa. Mortimer puxa a cadeira para ela. É, onde
estão?

Witherspoon abre a pasta para apanhar mais papéis.

KLEIN: Vindo da cozinha. Ele está voltando a si, tenente.

ABBY: Bom dia, Srta. Klein.

MARTHA: Bom dia, Srta. Klein. Você está aqui também?

KLEIN: Estou. Brophy e eu estamos com o seu outro sobrinho na cozinha.

ROONEY: Vamos com estas assinaturas, Superintendente. Quero acabar logo


com isto. Vai para a porta da cozinha sacudindo a cabeça enquanto sai,
dizendo
Treze Cadáveres!
Klein o segue. Mortimer está à esquerda de Abby com a caneta na mão.

WITHERSPOON: À direita de Martha, também com uma caneta, que entrega


a ela. A senhora assina aqui.
Martha assina.

MORTIMER: E a senhora, tia Abby, aqui.

ABBY: Assinando. Na verdade, estou doida para ir embora daqui. A vizinhança


mudou tanto.

MARTHA: Pense nisso. Um gramado na frente da casa, novamente.

Einstein aparece no arco e desce em direção à porta de entrada, carregando


uma mala. No caminho, pega o chapéu no cabide.

WITHERSPOON: Ah, estamos esquecendo uma coisa.

MORTIMER: O quê?

WITHERSPOON: Bem, precisamos da assinatura de um médico.

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MORTIMER: Vê Einstein prestes a sair pela porta. Dr. Einstein ...venha cá.
Gostaríamos que o senhor assinasse alguns papéis.

EINSTEIN: Por favor, eu preciso...

MORTIMER: Vai até ele. Venha cá, doutor! Ontem à noite, por um momento, eu
pensei que o doutor fosse me operar...Einstein deixa a mala e o chapéu perto
da porta. Venha cá só um minutinho, doutor.
Einstein vai até a mesa à esquerda de Abby.
Assine aqui doutor. Einstein assina os papéis de Martha e Abby.
Rooney e Klein vêm da cozinha. Rooney vai ao telefone e disca. Klein fica
perto da porta da cozinha.

ABBY: O senhor já ia embora, doutor?

EINSTEIN: Assinando os papéis. Eu acho que tenho que ir.

MARTHA: O senhor não vai esperar por Jonathan?

EINSTEIN: Creio que vamos para lugares diferentes.

MORTIMER: Vendo Elaine sentada na arca e indo até ela. Alô Elaine! Estou
contente de te ver. Fique por aqui, está bem?

ELAINE: Não se preocupe. Vou ficar sim.


Mortimer está atrás da cadeira de Abby e Rooney fala no telefone.

ROONEY: Alô, Mac? Rooney. Nós pegamos aquele sujeito que estava sendo
procurado em Indiana. Aí tem uma descrição do cúmplice dele. Está na minha
mesa. Leia para mim.
Einstein vê Rooney no telefone, vai para a cozinha e vê Klein na porta. Volta
à direita da mesa e fica lá, desanimado, esperando ser preso. Rooney repete
a descrição que está ouvindo no telefone, com um olhar vago para Einstein
enquanto escuta.

ROONEY: Ahh! Um metro e... Mais ou menos 34 anos. Sessenta quilos. Olhos
Azuis e fala com sotaque alemão e tem ar de médico. Obrigado, Mac.

Desliga, enquanto Witherspoon vai até ele com papéis na mão.

WITHERSPOON: Tudo bem, tenente. O doutor aqui completou as assinaturas que


faltavam.

ROONEY: Indo até Einstein e apertando sua mão. Obrigado, doutor. O senhor
fez um favor ao Brooklyn. Rooney e Klein vão para a cozinha. Einstein fica
surpreso por um momento, depois agarra a mala e o chapéu e desaparece

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porta afora. As tias se levantam e o seguem com o olhar. Abby fecha a porta
e elas ficam na frente, à direita.

WITHERSPOON: Atrás da mesa. Sr. Brewster, assine aqui, como parente mais
próximo.
As tias cochicham enquanto Mortimer assina.

MORTIMER: Sim, claro. Aqui?

WITHERSPOON: Perfeito. Aí mesmo.

MORTIMER: Isto regulariza tudo? Está tudo legal?

WITHERSPOON: Tudo legal.

MORTIMER: Com alívio. Bem, tias, agora vocês estão seguras.

WITHERSPOON: Para as tias. Quando podemos partir?

ABBY: Indo para a esquerda. Bem, Sra. Witherspoon, por que a senhora não vai
lá em cima e diz a Teddy o que é que ele pode levar?

WITHERSPOON: Lá em cima?

MORTIMER: Eu lhe mostro...

ABBY: Fazendo Mortimer parar. Não, Mortimer, você fica aqui. Queremos falar
com você. Para Witherspoon. Isso mesmo, Sra. Witherspoon, é só subir e virar à
esquerda.
Witherspoon deixa sua pasta no sofá e sobe. As tias o observam enquanto
falam com Mortimer.

MARTHA: Bem, Mortimer, agora que vamos nos mudar, esta casa é sua.

ABBY: Sim, querido, nós queremos que more aqui agora.

MORTIMER: Na frente da mesa. Não tia Martha. Esta casa está muito cheia de
recordações.

MARTHA: Mas vai precisar de uma casa quando você e Elaine se casarem.

MORTIMER: Querida, isso ainda não está decidido.

ELAINE: Levanta-se e vai para a esquerda de Mortimer.


Não é nada disso. Nós vamos casar já!
Witherspoon saiu pelo balcão.

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ABBY: Mortimer. Mortimer. Estamos muito preocupadas com uma coisa.

MORTIMER: Ora, querida, vocês serão muito felizes no Lar Feliz.

MARTHA: Ah, sim, estamos muito contentes. Mas é exatamente por isso que não
queremos que nada dê errado.

ABBY: Eles vão investigar as assinaturas?

MORTIMER: Não se preocupe. Eles não vão investigar o Dr. Einstein.

MARTHA: Não é assinatura dele, querido. É a sua.

ABBY: Veja, você assinou como parente mais próximo.

MORTIMER: Claro, por que não?

MARTHA: Bem, querido. É uma coisa que nunca quisemos contar para você. Mas
agora que você é um homem – e é uma coisa que Elaine também deve saber.
Sabe, querido, você não é realmente um Brewster.
Mortimer e Elaine ficam espantados.

ABBY: Sua mãe veio ser nossa cozinheira e você nasceu três meses depois. Mas
ela era uma moça tão gentil e uma cozinheira tão boa, que não quisemos perdê-la.
E então nosso irmão se casou com ela.

MORTIMER: Eu não sou um Brewster de verdade?

MARTHA: Não se perturbe com isso, querido.

ABBY: E Elaine? Não fará diferença para você?

MORTIMER: Virando lentamente para encarar Elaine e a sua voz ficando


mais alta.
Elaine, você ouviu? Você entendeu? Eu sou um bastardo!
Elaine corre para os seus braços. As duas tias observam. Martha anda um
pouco para trás à esquerda.

MARTHA: Bem, agora vou ter que servir o café.

ELAINE: Levando Mortimer para a porta de entrada e abrindo-a . Mortimer vai


até lá em casa. Mamãe foi a Filadélfia e nós dois vamos tomar café juntos.

MORTIMER: É, eu preciso de um café. Tive uma noite terrível!

ABBY: Neste caso, acho que o que você gostaria era de ir para a cama.

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MORTIMER: Dando uma olhadinha para Elaine. É isso aí. Eles saem fechando
a porta. Witherspoon aparece no balcão carregando dois cantis. Começa a
descer, quando Teddy entra carregando em enorme remo. Usa uma roupa de
Panamá com uma mochila nas costas.

TEDDY: Um momento, Witherspoon. Leve isto com você.


Sai pelo balcão outra vez enquanto Witherspoon desce e vai para o sofá.
Coloca lá os cantis e encosta o remo na parede. Ao mesmo tempo Rooney e
os dois guardas entram com Jonathan, algemado, entre eles. Rooney entra
primeiro e vai para o centro à direita. Os outros três param à esquerda da
mesa. As tias estão à direita.

ROONEY: Não vamos precisar do camburão. Estou com o carro aí fora.

MARTHA: Já vai embora, Jonathan?

ROONEY: É. Ele está voltando para Indiana. Tem umas pessoas lá que querem
tomar conta dele para o resto da vida. Vamos. Abre a porta enquanto os dois
guardas e Jonathan vão para o centro, à direita. Abby vai para a frente,
depois que eles passam.

ABBY: Bem, Jonathan. É bom saber que você tem para onde ir.

MARTHA: Nós também vamos embora.

ABBY: É. Vamos para o Lar Feliz.

JONATHAN: Então está casa está vendo os últimos Brewster.

MARTHA: A não ser que Mortimer queira viver aqui.

JONATHAN: Eu tenho uma sugestão a dar. Por quê vocês não doam esta
propriedade para a igreja?

ABBY: Bem, nunca pensamos nisso.

JONATHAN: De qualquer modo, deveria ser parte do cemitério.

ROONEY: Muito bem, vão andando. Eu sou um homem muito ocupado.

JONATHAN: Insistindo em ter a última palavra. Adeus, tias! Bem, eu não posso
melhorar o meu escore, mas vocês também não podem. Ao menos tenho esta
satisfação – o resultado ficou empatado – 12 a 12.
Jonathan e os guardas saem, enquanto as tias os acompanham com o olhar.
Witherspoon vai para a arca e fica olhando para fora da janela quietamente.

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MARTHA: Vai à porta de entrada para fechá-la. Jonathan sempre foi um mau
menino. Nunca suportou que alguém fosse melhor do que ele. Fecha a porta.

ABBY: Virando vagarosamente para a esquerda enquanto fala. Gostaria de


mostrar a ele que ele não é tão esperto assim.
Seu olhar cai em Witherspoon. Ela o estuda. Martha volta da porta e vê a
contemplação de Abby, que fala docemente.
Sra. Witherspoon... Ele se vira para ela. Sua família mora no Lar Feliz?

WITHERSPOON: Não tenho família.

ABBY: Ah...

MARTHA: Vindo para a sala. Bem, vai ver que a senhora considera todos do Lar
Feliz a sua família.

WITHERSPOON: Tenho a impressão que as senhoras não entendem. Como


chefe da Instituição, tenho que me manter à parte.

ABBY: Isto deve deixar a senhora muito sozinha.

WITHERSPOON: Deixa sim. Mas dever é dever.

ABBY: Virando-se para Martha. Bem, Martha...Martha entende a deixa. Vai


para o aparador pegar uma garrafa de vinho. A garrafa do armário esquerdo
está vazia. Ela coloca a garrafa de volta e tira uma cheia da direita. Traz a
garrafa e um cálice para a mesa. Abby continua falando.
Se a senhora Witherspoon não quer tomar café conosco, eu acho que o mínimo
que podemos fazer é oferecer a ela um cálice de vinho de sabugueiro.

WITHERSPOON: Severamente. Vinho de sabugueiro?

MARTHA: Nós mesmas fazemos.

WITHERSPOON: Amolecendo um pouco. Bem, sim. Severo novamente. É


claro que no Lar Feliz nossa relação vai te de ser mais formal, mas aqui...Senta
na cadeira, enquanto Martha serve o vinho. Abby está ao lado de Martha. Não
se vê muito vinho de sabugueiro, hoje em dia... Eu pensei que já havia tomado o
meu último copo.

ABBY: Ah, não.

MARTHA: Entregando o cálice. Não, aqui está ele. Witherspoon faz um brinde
às senhoras e leva o copo aos lábios, mas o pano cai antes que ele beba...

CORTINA

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