Um de nossos correspondentes de Genebra nos transmite interessantes detalhes sobre um novo gênero de
mediunidade vidente, que consiste em ver num copo d'água magnetizada. Esta faculdade tem muita relação
com a do vidente de Zimmerwald, da qual demos conta circunstanciada na Revista de outubro de 1864, página
289, e outubro de 1865, página 289; a diferença consiste em que este último se serve de um copo vazio, sempre
o mesmo, e que a faculdade lhe é, de certo modo, pessoal; o fenômeno que nos é assinalado se produz, ao
contrário, com a ajuda de qualquer copo contendo água magnetizada, e parece dever se vulgarizar. Sendo
assim, a mediunidade vidente poderia se tornar tão comum quanto a pela escrita. Eis as informações que nos
são dadas, e segundo as quais cada um poderá experimentar, colocando-se nas condições favoráveis.
"A mediunidade vidente pelo copo d'água magnetizada vem de se revelar entre nós num certo número de
pessoas; depois de um mês, temos quinze médiuns videntes deste gênero, tendo cada um a sua especialidade.
Um dos melhores é uma jovem que não sabe nem ler e nem escrever; ela é mais particularmente própria para
as doenças, e eis como nossos bons Espíritos procedem para nos mostrar o mal e o remédio. Tomo um
exemplo ao acaso: Uma pobre mulher, que se encontrava na reunião, tinha recebido um golpe mau no peito; ela
apareceu no copo absolutamente como numa fotografia; ela levou a mão sobre a parte que sofria.
A senhora V... (o médium) viu em seguida o peito se abrir, e notou que o sangue coalhado estava fixado no lugar
onde o gol pé foi dado; depois o todo desapareceu para dar lugar à imagem dos remédios que consistiam num
emplastro de resina branca e um copo contendo benjoim. Esta mulher foi perfeitamente curada depois de ter
seguido este tratamento. "Quando se trata de um obsidiado, o médium vê os maus Espíritos que o atormentam;
em seguida aparecem por remédios o Espírito simbolizando a prece, e duas mãos que magnetizam.
"Temos um outro médium, cuja especialidade é ver os Espíritos. Pobres Espíritos sofredores freqüentemente
nos apresentaram, por seu intermédio, cenas emocionantes para nos fazer compreender as suas angústias. Um
dia, evocamos o Espírito de um indivíduo que tinha se afogado voluntariamente; ele apareceu na água turva;
não se lhe via senão a parte de trás da cabeça e os cabelos meio mergulhados na água. Durante duas sessões
nos foi impossível ver o seu rosto. Fizemos a prece para os suicidas; no dia seguinte, o médium viu a cabeça
fora da água, e se pôde lhe reconhecer os traços de um parente de uma das pessoas da sociedade.
Continuamos as preces, e agora o rosto traz sempre a expressão do sofrimento, é verdade, mas ele parece
retomar a vida. "Há algum tempo, produzia-se, na casa de uma senhora que mora em um dos bairros de
Genebra, ruídos do gênero daqueles de Poitiers, e que causam uma grande comoção em toda a casa. Essa
senhora, que não conhece o Espiritismo de nenhum modo, tendo ouvido falar, veio nos ver com seu irmão para
nos pedir para assistir às nossas sessões. Nenhum dos nossos médiuns os conhecia. Um deles viu, em seu
copo, uma casa no interior da qual um mau Espírito punha tudo em desordem, deslocava os móveis, e quebrava
a louça. No retrato que dele fez, essa senhora reconheceu a mulher de seu jardineiro, muito má quando viva, e
que lhe havia feito muito mal. Dirigimos a esse Espírito algumas palavras benevolentes para levá-lo a melhores
sentimentos, e, à medida que se lhe falava, seu rosto tomava uma expressão mais doce. No dia seguinte, fomos
até a casa dessa senhora, e a noite completou a da véspera. Os ruídos cessaram quase que inteiramente
depois da partida da cozinheira que, parece, servia de médium inconsciente a esse Espírito. Como tudo tem a
sua razão de ser e sua utilidade, penso que esses ruídos tinham por objetivo levar essa família ao conhecimento
do Espiritismo.
"Eis agora o que as nossas observações nos ensinaram sobre a maneira de operar: "É preciso um copo
chato, bem unido pelo fundo; é enchido até a metade com água que se magnetiza pelos procedimentos
comuns, quer dizer, pela imposição das mãos, e, sobretudo, da extremidade dos dedos, sobre a boca do
copo, ajudada pela ação firme do olhar e do pensamento. A duração da magnetização, na primeira vez, é
em torno de dez minutos; mais tarde cinco minutos bastam. A mesma pessoa pode magnetizar, ao
mesmo tempo, vários copos.
"O médium vidente, ou aquele que quer experimentar, não deve ele mesmo magnetizar seu copo, porque
utilizaria o fluido que lhe é necessário para ver. É preciso, para magnetizar, um médium especial, e há os
que são, a esse respeito, dotados de uma força mais ou menos grande. A ação magnética não produz na
água nenhum fenômeno que lhe indique a saturação.
"Isto feito, cada experimentador coloca o seu copo diante de si, e o olha durante vinte ou trinta minutos
no máximo, algumas vezes menos, segundo a aptidão; esse tempo não é necessário senão na primeira
tentativa; quando a faculdade está desenvolvida, bastam alguns minutos. Durante esse tempo, uma
pessoa faz a prece para pedir o concurso dos bons Espíritos.
"Aqueles que estão aptos para ver distinguem, de início, no fundo do copo, uma espécie de pequena
nuvem; é um indício certo de que verão; pouco a pouco essa nuvem toma uma forma mais acentuada, e
a imagem se desenha à vista do médium. Os médiuns, entre eles, podem ver nos copos uns dos outros,
mas não as pessoas que não estão dotadas dessa faculdade. Algumas vezes uma parte do objeto
aparece no copo, e a outra parte num outro copo; para as doenças, por exemplo, um verá o mal e o outro
o remédio, De outras vezes, dois médiuns verão simultaneamente, cada um em seu copo, a imagem da
mesma pessoa, mas, geralmente, em condições diferentes.
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pois. sobretudo mais prática. Então. quando os fecha. a imaginação não está neles absolutamente por nada." Nota. ainda. "A imagem das pessoas vivas se apresenta no copo tão bem quanto as das pessoas mortas. uma estola. sem dúvida. é pelo menos o que notamos. quando ela está formada." No entanto. Ele vê tão bem de dia quanto de noite. uma impressão menos direta. que conhecia a sensibilidade de sua filha. tendo querido olhar a seu turno. considerá-la como uma das variedades que foram anunciadas. e não para as coisas fúteis. certamente. dentre vós. e lhes disse: "Qual é aquele. fizemos em sua casa uma sessão que foi cheia de informações. inevitavelmente. é menos suscetível de ser perturbada. ela lhe dirigiu as mais ternas palavras para pedir-lhe que deixasse ver seu rosto."Freqüentemente. A jovem chorou de reconhecimento agradecendo a Deus pelo dom que vinha de lhe conceder. várias crianças. e é também menos exposto a se deixar intimidar pela visão dos maus Espíritos que podem se apresentar. as cores e os desenhos de sua roupa. uma precaução para preparar sua filha para vê-la. ela deu um grito de alegria dizendo que via uma paisagem magnífica. A senhora da qual acabo de falar. era a título de simples passatempo. numa multidão de casos. Se dela se faz um objeto de diversão. -Como princípio esta mediunidade. havia na família onde me encontrava. se fizesse reconhecer. já seria feliz!" Mas Deus não lhe concedeu essa satisfação. que se divertem apresentando imagens ridículas e falaciosas. sem jamais obter o menor resultado. a imagem se transforma. A jovem nele olhou quase durante um quarto de hora. com isto a faculdade não se desenvolverá senão mais facilmente. mas exorto a não admitir. Eu mesmo pedi-lhe para condescender ao desejo de sua filha. um jogo mais pacífico. pessoas hostis. os Espíritos são tão hábeis para pintar quanto para viajar. aliás. muda de aspecto. essa senhora pediu-me para lhe magnetizar o copo com água. eu mesmo. de não pedir senão coisas justas e razoáveis. sem desviar os olhos?" Guardei-me de acrescentar que poderiam ali ver alguma coisa. sendo necessários a calma e o recolhimento. Depois de ter inutilmente olhado no copo durante meia hora. eu propus. ela se apagou. "Para deles ter uma prova mais positiva. Pode-se. "Não faltarão incrédulos para colocarem esses fenômenos à conta da imaginação. dir-se-ia que é o de minha mãe. ela mesma. a água ficou turva. os médiuns distinguem sem dificuldade um Espírito de uma pessoa viva. uma vontade estranha. freqüentemente. para lhe evitar uma impressão muito grande. O médium não fecha os olhos senão para repousar. nada viu. fiz a experiência seguinte. e se mostra em condições particulares. há alguma coisa de menos material. de não se servir desta faculdade senão para o bem. sem que ninguém disto se apercebesse. todo o mundo não vê. e isto denota uma variedade na mediunidade vidente. ao cabo de doze minutos. mas pode também ser provocada pela evocação. "O médium do copo com água difere do sonâmbulo naquilo que o Espírito deste último se desliga. e deles recebe. eu pedi a esse Espírito que. de curiosidade ou de negócio. Peguei um copo com água que magnetizei. ser tentada numa reunião de pessoas. "Ocorre nesta mediunidade como em todas as outras: o médium atrai para si os Espíritos que lhe são simpáticos. e ela disse: "Eu vejo um braço. ele está na obscuridade. Mas os fatos lá estão para provar que. que terá a paciência de olhar este copo durante vinte minutos. a algumas léguas de Genebra. não quis se mostrar subitamente. ao passo que o primeiro tem sob os seus olhos sua imagem. Esses Espíritos podem bem cansá-lo porque procuram magnetizá-lo. cai-se. ao médium impuro se apresentam de bom grado os Espíritos impuros. qualquer desejo que se tenha disso. pois. e depois de todas essas precauções para não se mostrar senão gradualmente atestam uma combinação. não é nova. na perturbação dos Espíritos enganadores. mas ele pode à vontade se subtrair ao seu olhar. como disto tinha o hábito. ao mesmo tempo que delas nos mostra novas aplicações. da qual nos fez a descrição. Então. é-lhe preciso um fio condutor para ir procurar a pessoa ausente. O braço desapareceu e o Espírito se apresentou no tamanho de uma fotografia. como elas faziam muito barulho. para ocupá-las. se fosse o da mãe do médium. e o rosto apareceu. uma jovem de onze anos teve mais perseverança. o que lhe ocorre duas ou três vezes por sessão. vivamente emocionada. "A senhora desejava muito ver." Essa mãe. depois desaparece. me super excito o espírito com este objetivo. à qual a imaginação do médium não podia ter nenhuma parte. "Recentemente. apesar de seu desejo de ver o diabo. Era. ela nos faz penetrar mais adiante o mistério da constituição íntima do mundo invisível. do qual ela confirma as leis conhecidas. mas dando as costas. que é o reflexo de sua alma e de seus pensamentos. Esta reconheceu sua touca. Primeiro. Tendo pedido a razão ao meu Espírito familiar. ela disse: "Meu Deus! se eu pudesse somente ver o diabo no copo. ele me respondeu: "são as suas imagens que apresentamos. "O médium não vê senão quando tem os olhos abertos. O meio de atrair os bons Espíritos é estar animado de bons sentimentos. Tendo ido passar alguns dias num campo. Do ponto de vista da ciência espírita. que jamais ouviu falar do Espiritismo. mas ela se desenha aqui de maneira mais precisa. nas primeiras sessões. mas à noite precisa de luz. fui ver uma senhora que tem uma jovem operária de dezoito anos. Muito geralmente. ela é espontânea. vejo-lhe a mancha de sua roupa arregaçada. depois de meia hora de atenção e de concentração. Uma outra jovem de sete anos. no dia seguinte. 2 . Ele se cansa menos do que o sonâmbulo. dormiu instantaneamente. Onde está aqui o efeito da imaginação? "Essa faculdade pode. o médium deve esperar e dizer o que vê. Vários perderam a paciência antes do fim da prova. A jovem não pensava em sua mãe quando esta lhe apareceu.
ou têm permissão de fazê-los ver quando a coisa é útil. o simples bom senso diz que. A experiência prova que os Espíritos. do que quando estavam neste mundo. Se. e menos ainda. Só o charlatanismo pode pretender a possibilidade de ter agência aberta de comércio com os Espíritos. por esse procedimento ou outro qualquer. daí a incitação à fraude para simular a ação do Espírito. é preciso que o aparelho sensitivo. se assim se pode expressar. seria um erro crer que esteja aí um meio melhor do que um outro para saber tudo o que se deseja. compreendeuse a visão direta dos Espíritos em certas condições. não mais. no copo com água? Uma imagem. Para o exercício de uma faculdade medianímica qualquer. necessariamente. e. Não se pode forçar nem a vontade dos Espíritos. ainda incompreendidos. Como ela é produzida? Aí está o problema. e. onde estão errados é crer que o Espiritismo ensina semelhantes absurdos. Embora não se possa dar dele ainda uma solução completa e definitiva. Quererão ver. experimentarão. quaisquer que sejam. não estão jamais ao capricho dos homens. mas aqui não são os próprios Espíritos que são vistos. a visão à distância de objetos reais: é hoje uma teoria elementar. portanto tem uma causa. por sua vulgarização. imagem tomada da Natureza. de um outro lado. Até o presente.Ela ajudará a compreender certos fenômenos. por vezes. isto não é entre os Espíritas esclarecidos. Os médiuns videntes. deles encontraram de uma credulidade fácil demais. as paisagens e as pessoas vivas. acham isto ridículo e têm cem vezes razão. uma vez que ela pode falhar no momento em que seria necessária para satisfazer o cliente. e desempenhar o papel de saltimbancos ou ledores da sorte. quererão compreender. da vida diária. como em todas as ciências. 3 . e que não podem vir se alojar num copo com água. Os Espíritos não estão alojados no copo com água. O fato existe. não vêem à vontade. porque eles pensam que crêem em Espíritos confinados numa mesa ou numa caixa e que fazem manobrar como marionetes. entre eles. não pode deixar de abrir um novo caminho para a propagação do Espiritismo. não outra coisa. não depende do médium fazê-lo funcionar à sua vontade. eles não vêem senão o que os Espíritos querem fazê-los ver. eis porque ela é freqüentemente exata. Eis porque a mediunidade não pode ser uma profissão. pois. O que há. há os que o são mais ou menos. Este fenômeno oferece uma particularidade notável. o artigo seguinte nos parece lançar uma luz sobre a questão. ao passo que ele diz positivamente o contrário. estudar. não mais do que as casas. esteja em estado de funcionar. e muitos entrarão no Espiritismo por esta porta. com mais forte razão. os Espíritos sérios não poderiam aceder ao chamado de qualquer um para coisas fúteis. ora. no mundo. Os incrédulos riem dos Espíritas. eis o que é positivo. ora. De resto. nem a faculdade dos médiuns.