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A DILATAÇÃO DA FÉ E A EXPANSÃO DAS FRONTEIRAS NO ANTIGO LESTE

MATO-GROSSENSE
JOÃO ANTONIO PEREIRA1

RESUMO
O conceito de territorialidade tem retornado as ciências sociais de forma a tornar-se
presente em importantes políticas públicas nas mais diversas escalas de poder, por
outro lado constata-se que a consolidação do território ocupado implica em uma
série de ações por parte daquele que se propõe a ocupá-lo, mas nem sempre o
Estado teve condições de fazê-lo sem a cooperação de aliados fortes; neste
contexto surge a Igreja Católica (representada na Região Sul de MT na transição
entre os séculos XIX e XX pelos missionários Salesianos. Detentora do poder
temporal e ávida por expandir as fronteiras da Cristandade, embrenha-se no sertão
em busca de “salvar almas do purgatório”, o território foi se expandindo e com ele a
morte dos nativos e uma destruição implacável do meio ambiente. Partindo desses
pressupostos analisaremos a ocupação do território na Região Sul Mato-grossense
que culminaria entre outros com a criação e emancipação de municípios como
Guiratinga, Tesouro, Torixoréu, Poxoréo, Barra do Garças, entre outros.

Palavras chaves: Ocupação. Territorialidade. Missionários. Salesianos.

INTRODUÇÃO

Escrever sobre esta temática constitui tarefa instigante e desafiadora uma


vez que os documentos sobre a passagem dos missionários Salesianos na região
vem se perdendo ao longo do tempo e as fontes primárias estão se extinguindo em
função de causas naturais como a morte ou perda de memória. A partir de uma
bibliografia de cunho nacional, esporadicamente regional, e testemunhos orais,
fomos compondo peça a peça o mosaico da dilatação da fé e expansão das
fronteiras no antigo leste mato-grossense.
O processo de ocupação do antigo leste mato-grossense2
Apesar da tendência de rompimento entre a Igreja e o Estado que se tentava na idade

1
Graduado em História pela Faculdade Auxilium de Filosofia, Ciências e Letras de Lins-SP. Especialista em
Produção e Organização do Espaço Geográfico Mato-grossense pela Universidade Federal de Mato Grosso.
Professor efetivo da Rede Pública Município de Guiratinga e da Rede Estadual de MT.
2
Período anterior a 1977, momento em que foi criado o estado de Mato Grosso do Sul.
moderna, neste momento da colonização americana ainda existe uma íntima vinculação entre
a Igreja e o Estado, essa relação dava-se pelo fato de que os limites da expansão territorial
eqüivaliam aos limites da Cristandade colonial, sendo que os limites da fé católica eram
também estabelecidos pelo domínio fronteiriço demarcado pelos portugueses. Era a expansão
colonial que condicionava a dilatação da fé e vice versa. Aos missionários competia a
pregação da fé, ou em outros termos, o amansamento dos índios, e aos colonizadores
competia a aplicação da força quando os missionários falhassem
Inicialmente abordaremos a fé como mola propulsora da ocupação e por
vezes invasão de territórios ao longo dos séculos trazendo como conseqüência
principal a expansão das fronteiras. Num segundo momento abordaremos a
trajetória do principal expoente missionário na região sul do estado de MT - os
Salesianos – e seu papel fundamental na edificação e consolidação das fronteiras
bem como a descoberta dos diamantes e as conseqüências políticas e econômicas
para a região.
Finalmente, teceremos considerações acerca da emancipação política, as
principais atividades econômicas, bem como os principais reflexos das ações
missionárias que culminou com a expansão das fronteiras geográficas sob o domínio
da cristandade.

2. A DILATAÇÃO DA FÉ E A EXPANSÃO DAS FRONTEIRAS

Estudos mais detalhados acerca do movimento europeu que culminou com o


advento das grandes navegações européias no século XIX demonstram que havia
enorme cumplicidade entre os interesses dos reis (expansão das fronteiras
territoriais) e das autoridades religiosas (expansão das fronteiras da fé).
O rápido avanço do islamismo e sua eficiente estratégia de propagação da
fé a um único deus (Alá) e um único profeta (Maomé) e a conquista territorial
avassaladora, aliada ao controle das principais rotas comerciais da época,
certamente motivaram reis e religiosos se embrenharem rumo ao desconhecido
numa verdadeira jihad cristã.
Este espírito cruzadista seria difundido em território lusitano pelo Infante
Dom Henrique, patrono da expansão portuguesa que traçou para si e para seu povo
as metas de Portugal: “Navegar, combater e afrontar todos os perigos, antes de tudo

2
e acima de tudo, para expandir as fronteiras do cristianismo”3.
Tradicionalmente a historiografia destaca as especiarias como sendo a
principal propulsora das navegações marítimas e comerciais européias, relegando a
segundo plano a expansão da fé católica como forma de bloquear ou minimizar a
expansão do islamismo.
A situação era tão grave que em fevereiro de 1454 o Papa Nicolau V
manifestou publicamente o apoio da Igreja Católica ao filho Henrique, soldado de
Cristo e Infante de Portugal, diante da queda de Constantinopla e do risco à
cristandade européia imposta pelo islã.
PINTO, (1990 p. 103) destaca que por trás da idéia do Périplo Africano,
havia um audacioso plano: cercar o império mulçumano atacando-o pelas costas,
observe:

Estes [cristãos], por seu lado, quando iniciaram a expansão, ufanos com
sua marcha vitoriosa, empenhados em ultrapassar a barreira dos
seguidores de Maomé para apanharem pelas costas, e esperançosos de
conseguir a aliança do mítico Preste João das Índias para o seu combate
total com os mouros.

CORTESÃO, 1990 P. 32 também destaca o plano da Igreja, que ia de


encontro ao mesmo objetivo dos governos europeus:

(...) o Papa Eugênio IV, sob a pressão do avanço dos turcos que se
infiltravam pouco a pouco no oriente europeu, multiplicava esforços para
realizar uma vasta ofensiva por terra e mar contra os otomanos e, como
complemento, tentava chamar o Preste João, ou seja, o Negus e a
cristandade da Abissínia à comunhão e aos planos da Igreja Romana.

Não bastava alargar as fronteiras geográficas e as fronteiras da fé, era


necessário manter o território ocupado, mais que isso, transplantar uma cultura da fé
católica européia como sendo a única que conduzia a salvação da alma através de
um único Deus (Jeová) e seu único filho (Jesus Cristo), este era o único caminho
que levaria as portas do céu, e este deveria ser tomado por esforços de todos,
burgueses, nobres e plebeus.
Empreendimento como este era extremamente caro e envolviam vultosos
empréstimos junto a burguesia e as ordens religiosas (como a Ordem de Cristo da
3
HONER, (2007 p. 01).

3
qual o próprio Dom Henrique fora inclusive Governador). O risco era constante e
permeava todo projeto expansionista, mas descobriu-se muito cedo que se por um
lado, a fé movia montanhas, por outro movia enormes montantes de dinheiro.
O declínio da expansão islâmica e a descoberta de novas rotas de
navegação provocaria mudanças radicais no projeto expansionista; desta vez os
mouros não estariam presentes, mas a Igreja Católica encontraria novo e forte
argumento, a salvação da alma dos nativos americanos.

2.1 EM NOME DE DEUS PAI – A AMÉRICA FOI INVADIDA

Para entender o processo de evangelização na América Portuguesa é


necessário conhecer a concepção de cristandade implantada, pelo Império Romano
que se disseminou na Europa em meados do século V.
Martinho de Dúmio, arcebispo metropolitano, presidiu o 2° Concílio de Braga
em 584 e deixou bem claro o papel das partes envolvidas na tarefa de unificar Igreja
e Estado:

Segundo este sistema, nenhum clérigo podia partir para as missões sem a
autorização explícita do rei. Os que recebiam a permissão para partir eram
obrigados a jurar fidelidade ao soberano, durante a audiência que este lhes
concedia. Os futuros missionários eram obrigados a reunir-se em Lisboa
antes de partir, e para sua viagem deveriam utilizar exclusivamente navios
portugueses. Os missionários estrangeiros estavam submetidos às mesmas
formalidades; mas a permissão de viagem lhes era concedida com maior
parcimônia. VILELA, (1976 p. 412)

Era uma honra servir a coroa e servir ao reino espiritual de Cristo, Inácio de
Loyola chega inclusive a comparar a adesão ao reino espiritual de Cristo com a
fidelidade a um reino temporal.
GARUTTI, (2007 p. 6) demonstra que os missionários tentaram estirpar a
cultura dos nativos antes mesmo de conhecê-la. O deus ou os deuses ameríndios
eram apresentados como falsos deuses em oposição ao católico, verdadeiro; o Deus
católico era invencível e salvador, o deus dos nativos era diabólico e implacável:

Os padres rezam a Deus através dos anjos, os feiticeiros através dos


demônios; estes vivem “na mão do demônio”, aqueles na “mão de Deus”,
instala-se verdadeira luta de dimensões cósmicas, na qual finalmente o

4
Deus dos exércitos, o Deus de Constantino e de Clotilde vence os
feiticeiros, servos do demônio. Meditação das duas bandeiras: uma de
Cristo Sumo Capitão e Senhor Nosso; e a outra de Lúcifer, mortal inimigo da
nossa humana natureza.

Com o objetivo de alargar a fronteira da cristandade foram enviados ao


Brasil entre 1549 a 1580 os jesuítas. Com a União Ibérica passamos a receber até
1640 levas sucessivas de missionários Franciscanos, Carmelitas, Beneditinos,
Capuchinhos franceses e os Mercês espanhóis.
A conversão do nativo exigia a substituição de normas, valores e atitudes e
para tal os missionários se viram obrigados a estabelecer postos avançados de
atividade pastoral no território indígena, como conseqüência da expansão da fé,
ampliou-se consideravelmente a fronteira luso brasileira balizadas por cruzes em
meio ao solo nativo, foi nesse contexto que no final do século XIX chega em MT a
Missão Salesiana no Brasil.

3. A MISSÃO SALESIANA E A EXPANSÃO DAS FRONTEIRAS DA FÉ

3.1 A MISSÃO SALESIANA NO BRASIL

No final do Século XIX o continente europeu vivia um período de


conturbações políticas e econômicas provocadas principalmente por questões
fronteiriças ou guerras de unificações como ocorreu entre a Itália e Alemanha.
Muitos europeus visando fugir dos conflitos buscavam mpradia em outros países e
os Estados Unidos era uma das principais rotas de migração. No Brasil a situação
também era instável e acabaria provocando a queda do Império brasileiro.
Com a assinatura da Bil Aberdeen em 1845, Brasil e Inglaterra conviviam
com uma situação no mínimo constrangedora provocando inclusive o afundamento
de navios tumbeiros em águas brasileiras; era uma forma de pressionar o último
país da América que ainda adotava o sistema escravagista. Nas ruas, os clamores
pela liberdade dos escravos tinham ganhado ainda mais força, sobretudo em função
da participação dos negros na guerra do Paraguai.

A população brasileira em 1850, quatorze anos antes da guerra, era de


aproximadamente dez milhões de pessoas, das quais uma quarta parte era
constituída de escravos, GORENDER (1978:319). Os insuficientes efetivos
do Exército Brasileiro foram reforçados, para a guerra, pelos contingentes
da polícia e da Guarda Nacional das Províncias do Império da Pátria. Criou-

5
se em janeiro de 1865, além disso, os Corpos de Voluntários da Pátria para
canalizar o movimento patriótico que num primeiro momento, levou muitas
pessoas a se alistarem para lutar contra a invasão paraguaia do Rio Grande
do Sul e de Mato Grosso FRAGOSO, (1934:35-37)

A elite intelectual clamava pela República, a elite econômica ameaçava


derrubar o império caso a abolição ocorresse. Em 13 de dezembro de 1870, os
republicanos divulgaram um famoso manifesto que considerava a monarquia vigente
como uma "uma instituição decadente". Eram utilizadas expressões como: "direitos
da nação", "opinião nacional", "soberania do povo", "causa do progresso", "liberdade
individual", "liberdade econômica", "voto do povo", entre outras. "Somos da América
e queremos ser americanos." Esta era a frase final do Manifesto.4
Foi nesse conturbado período que os Salesianos iniciaram os primeiros
contatos com autoridades brasileiras na tentativa de desenvolver trabalho
missionário ainda no período imperial. Em 1875, Dom Pedro II começa um processo
de negociação que se estenderia até 1883 com a fundação do colégio Santa Rosa
em Niterói. Sucessivamente foi se alargando, renovando ou introduzindo os dogmas
da Igreja Católica Apostólica Romana através da criação de inspetorias, hospitais,
patronatos, oratórios, paróquias, entre outros, observe:

DATA ESTADO INSPETORIA INSTITUIÇÕES


1883 DF,MG,E São João Colégio Santa Rosa (Niterói), Colégio São
1890 S, Bosco Joaquim (Lorena) Patronato São José, Casa
RJ,GO,SP de Repouso Gaetana Stern, Colégio de
. Contabilidade Luiz Orione, Colégio Santa
Teresinha, Cine Pio XII, Casa Dom José
Selva, (Guiratinga), Aldeamento Sagrado
Coração (Merure), Patronato São João
Batista, Casa Felipe Rinaldi, Patronato
Salesiano, Paróquia Santa Tereza,
Universidade Católica de Brasília. Faculdade
Salesiana de Vitória, (Vitória), Instituto São
Tomás de Aquino (Belo Horizonte)
1894 MT,MS,S Missão Liceu São Gonçalo, Colégio Sagrado Coração
P, Salesiana em de Jesus, Instituição Dom Bosco,
PE. MT Universidade Católica Dom Bosco, Colônia
4
Fonte: SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil; Vasconcelos, Fernando. Artigo publicado na Tribuna da Imprensa (31/12/1870).

6
Teresa Cristina, Instituto Bom Jesus
(Guiratinga)
1896 SP Salesianos Centro Universitário Salesiano Auxilium -
Nossa UNISALESIANO, Centro Universitário
Senhora Salesiano de São Paulo – UNISAL, Faculdade
Auxiliadora de Ciências Administrativas e de Educação
Física, Faculdade Salesiana de Araçatuba,
Faculdade Dom Bosco de Piracicaba.
1901 RS,PR,SC Salesianos Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre
. são Pio XII
1902 AL,BA,CE, Salesianos Instituto Salesiano de Recife, Instituto
PE,RN,SE São Luiz Salesiano de Filosofia, (Recife) Faculdade
, Gonzaga Salesiana do Nordeste (Recife),
1921 PA,AM,R Salesianos Faculdade Salesiana Dom Bosco (Manaus)
O Missionários
da Amazônia
Fontes: www.msmt.org.br e www.glosk.com/BR/Manaus/ 919819/pages/Salesianos/254_pt.htm
Como podemos constatar, os missionários Salesianos sob o comando do
Bispo Dom Luiz Lasagna instalam-se em MT em 1894 com a finalidade de assistir os
povos indígenas, conforme FERREIRA, 1996 p. 6:

Os missionários tinham por objetivo estratégico ressuscitar as missões e


permitir a expansão do trabalho Salesiano entre os índios, como forma de
relançar as missões indígenas e, depois a expansão do trabalho missionário
para as demais regiões do Brasil e para os países limítrofes. Naquela
época, segundo pesquisadores, os governantes sabiam que o trabalho com
os índios requeria: colônia militar, intérprete e missionários. Mas , em Mato
Grosso, as tentativas de aproximação com os indígenas tinham sido
frustradas: todos estavam cansados da guerra contra os bororos, que
durara desde 1849. A chegada dos salesianos poderia evitar que os índios
fossem massacrados como estavam sendo nos demais países da América;
Conseguir que eles entregassem as atividades pastoris e extrativas [além
de] garantir, graças ao índio pacificado civilizado a ligação entre a Bacia
Platina e a Bacia amazônica e fazer do índio o natural defensor do solo
brasileiro. Apud BITTAR 2002

O governo mato-grossense e consequentemente o governo brasileiro, bem


como a Igreja Católica continuavam a perseguir os mesmos objetivos da coroa
portuguesa e da Igreja no Período Colonial: alargar fronteiras, impor autoridade
espiritual e temporal e “salvar almas” no solo inóspito.
No final do século XX o quadro social brasileiro ainda era bastante conturbado, o
regime republicano estava em fase de consolidação, os ex-escravos, recentemente

7
libertos formavam uma enorme massa popular, sem uma identidade definida, sem
políticas públicas que os encaminhassem nesse período de transição entre o ser
escravo e o homem “livre”. O solo mato-grossense havia sido invadido na guerra
contra o Paraguai, mas o heroísmo demonstrado nas batalhas rendera muitos
elogios e promessas, mas poucas ações concretas no tocante a integração social no
pós-guerra. Soma-se a isso a presença de dezenas de nações indígenas até aquela
data, sequer contatadas, entre eles os bororos “o terror dos civilizados”; foi nesse
contexto que os Salesianos se instalaram na região Sul de MT, área que atualmente
se localizam municípios como Guiratinga, Tesouro, Torixoréu, Poxoréo, Barra do
Garças, entre outros.

3.2 A MISSÃO SALESIANA NO SUL DE MATO GROSSO

A transição entre os Séculos XIX e XX foi extremamente delicada entre o


Estado e a Igreja, uma vez que esta fora um dos principais alicerces na mudança do
regime monárquico para o republicano no Brasil. Do outro lado do Atlântico, a
Europa temia o avanço do socialismo e por aqui ainda vivíamos as faces ocultas do
coronelismo, assentado no latifúndio, na exploração e na exportação de produtos
primários.
O aparato estatal era via de regra ausente, quando não ineficiente. A
população enxergava o Estado apenas como “aquele que cobrava” e nos coronéis e
nas autoridades religiosas, “aqueles que faziam”. Os coronéis e os padres
representavam duas faces de uma mesma moeda: de uma lado aqueles que tinham
o poder de mandar prender ou mandar soltar, escolher entre quem vivia e quem
morria; do outro lado, aqueles que eram os legítimos representantes de Deus vivo
aqui na Terra e também de certa forma poderiam matar a esperança de uma vida
eterna através da excomunhão ou conduzir as almas até os portões celestiais
através de Jesus Cristo.
Numa tentativa de se adequar as exigências da modernidade e de promover
uma aproximação com o Estado, o Papa Leão XIII publica a Enciclya Rerum
Novarum em mais uma tentativa de consolidar ou alargar as fronteiras da fé com
certa dose de liberalismo e com foco definido nas missões, na juventude e na
educação popular profissionalizante. Os Salesianos já tinham foco, área e
estratégias definidas: as aldeias indígenas do antigo leste mato-grossense seriam o

8
alvo5.
Foi nesse contexto histórico e social que a partir de 1894, mais
sistematicamente apenas após 1900 que os Salesianos fundaram a primeira colônia
Indígena na Região de Tachos, conforme BITTAR (2002, p.5):

(...) em 1901 conseguiram finalmente, fundar a primeira colônia em Tachos,


mas a falta de água potável provocou sua transferência para a Região do
Meruri em 1902, iniciaram o trabalho de catequização dos índios Bororos - o
terror dos civilizados. Após os primeiros contatos, os trabalhos forma
progredindo prodigiosamente, sendo que a zona tão temida pelos civilizados
tornou-se tranqüila e prometedora, hoje semeada de cidadezinhas. È este o
merecimento dos missionários salesianos

A vida nos primórdios do processo civilizatório no antigo Leste Mato-


grossense era extremamente difícil, tanto para os missionários como para os nativos
como se pode constatar nos relatos de CARLETTI, (1944 p.5-6):

O que era no começo a vida cristã, a vida religiosa, não somente nas
selvas, senão também na mesma parte civil de Mato Grosso? A
Arquidiocese de Cuiabá, começando pela capital, tinha pouquíssimos
sacerdotes; menos ainda a Arquidiocese de Corumbá, tão vasta como a
França; e em todo o estado não havia um Colégio religioso. Eis porque não
tardaram a se fazer sentir as pressões das autoridades religiosas e civis a
pedir, antes bem, a impor , que se dedicassem ao ministério sacerdotal e à
educação da mocidade, nas cidades e centros mais povoados, como
Cuiabá, Corumbá, Campo Grande, Três Lagoas, Ponta Porá, Santana do
Parnaíba etc.

Os nativos eram vistos pelos missionários como “ selvagens” ou “ovelhas


desgarradas do rebanho do Senhor, cujas almas deveriam ser salvas” PEREIRA,
1991 p. 78 destaca: “Se por uma lado a religião curava a alma, por outro apodrecia-
lhe a carne através da contaminação com doenças que lhes eram estranhas e
costumes que não lhes eram próprios”.
Aos poucos os bororos foram sendo “amansados”, seja pelo trabalho dos
missionários, pela habilidade de Rondon que chegou inclusive a demarcar território
para a nação6, seja pela insistência e perfil aventureiro e destemido de homens
como João José de Moraes Cajango, observe:

Apareceram uns quarenta bugres armados de arco e flecha na orla do mato


da plantação e então pensei que a coisa ia mesmo findar. Depois de várias
investidas, porém dois deles atenderam ao aceno de amizade que lhes fazia
5
Após a divisão do estado de MT no final da década de 1970 e a criação do MS está região passou a compor
geograficamente a região sul de MT.
6
Apesar de demarcada a área da aldeia indígena foi invadida por posseiros e os nativos foram dizimados;
atualmente restam apenas poucos descendentes desaculturados que perambulam pelas ruas da localidade de
Jarudore - Distrito de Poxoréo.

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com pedaço de pano encarnado, e aproximaram desconfiados e medrosos
até entrarmos em conversação por meio de sinais. Mandei arrumar para
eles um cesto cheio de matula de farofa de carne com farinha e dei mais
algumas rapaduras e panos vermelhos. Desde esse momento a paz estava
firmada, custando-me de vez em quando um tributo de presentes que
alguns vinham buscar. PEREIRA, 1991 p. 115

Com uma maior aproximação com o cacique da tribo ao qual Cajango


atribuiu o nome de André ele acabaria por confirmar algo que já desconfiava há
algum tempo, havia diamante na região, observe:

Falei-lhe a respeito a respeito dos diamantes e expliquei-lhe o meu


pensamento mostrando o brilho das estrelas, coisa que compreendeu
afinal, declarando ter visto no Garças em um ponto que não se lembrava
muito, uma dessas pedras tão iluminadas que tapara os olhos, e que na
língua da tribo possuía o nome de tori-cuêge (pedra de estrela) ou
torimerire. PEREIRA, 1991 p. 116

Depois de algumas investidas no Ribeirão Estrela, afluente do Rio das


Garças, Cajango acompanhado de um grupo de baianos exploradores de látex dos
mangabais encontrariam as tão sonhadas jazidas diamantíferas, isso contribuiria
definitivamente para ampliação das fronteiras e indiretamente com a eliminação do
ameríndio em terras do Sul Mato-grossense.
Desta forma, podemos afirmar que a primeira metade do século XX foi o
período que definitivamente Igreja e o Estado atingiriam seu objetivo maior:
consolidar definitivamente o território na Região Sul. A partir de então, milhares de
brasileiros se deslocaram das regiões norte, nordeste e sudeste do país em função
da grande quantidade de pedras preciosas que surgiam inicialmente no “Celebra ou
Garimpo Velho”, mais tarde, dos monchões, canoões e grupiaras do Cassununga,
Pombas, Raizinha, São Pedro, Bandeira, Urtiga, Alcantilado, Marinha, Praia Rica,
Estrela, Tapera, entre outros. Em torno de cada nova área de exploração, surgia
uma corruptela, em cada corruptela, uma cruz, símbolo maior da presença da
cristandade no território.
O Vale do Garças virou uma Torre de Babel, italianos e franceses forma os
primeiros líderes missionários a atuar em áreas que atualmente se constituem terras
dos municípios de Tesouro, Poxoréu, Guiratinga, Torixoréo, São José do Povo,
Pedra Preta, Pontal do Araguaia, Barra do Garças, General Carneiro, entre outros.
João Duroure, Dom José Selva, Monsenhor Couturon, Pe. José

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Thannhuber. Pe. João Crippa. Pe. Carrá, Pe. João Crippa, Pe. Carletti, Fuchs e
Sacilotti, Pe. César Albisetti, Pe. João Pian, Pe. Chovelon, , Pe. Guilherme Müller e
num segundo momento Dom Camilo Faresin e Pe Santo Cornélio Faresin entre
outros foram os principais responsáveis pela expansão da cristandade nas terras Sul
mato-grossense.
As fronteiras foram dilatadas, a região foi totalmente ocupada, no entanto há
que se questionar sempre o custo social desta epopéia. Não se trata apenas de falar
de heróis e ou bandidos, a questão é muito mais profunda, nações inteiras, seus
usos e costumes simplesmente desapareceram. É isso que o homem moderno
chama de progresso? Esse é o preço do passaporte pago por essas infelizes almas
para entrar no céu? Questões como essas certamente merecem nossa reflexão.
Quem serão as próximas vítimas?

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Metamorfose, essa talvez seja a palavra que melhor define o processo de


ocupação e consolidação do solo Sul Mato-grossense, PANNUTI, (1996 p. 30)
adverte: “ o conceito de fronteiras, classicamente, traz a idéia de vazios
demográficos, espaços vazios, de terras virgens, mas uma análise do que vem
acontecendo no Brasil e em outras partes do mundo mostra que as coisas não
ocorrem bem assim”.
PEREIRA (1994 p. 85-90) ao estudar o processo de ocupação sul mato-
grossense classifica-o nas seguintes fases:
Primeira fase: de 1890 a 1904 estando intimamente ligada as primeiras
tentativas de domar a área inóspita. É assinalada pela presença no Vale de bororos,
missionários salesianos, e cerca de oito famílias que praticavam a pecuária
extensiva de corte e agricultura de subsistência.
Segunda fase: de 1904 a 1930, marcada por um enorme fluxo populacional
motivado principalmente pela febre diamantífera e por intensos combates pelo
controle político do Vale, sobretudo entre José Morbeck e Manoel Carvalho.
A terceira fase estende-se de 1930 a 1960 e marca o ciclo de diminuição
populacional no Vale em função de sangrentas batalhas locais pela disputa dos
veios diamantíferos e as tentativas do governo federal de ocupar definitivamente as
Regiões Norte e Centro Oeste com movimentos do tipo “ Marcha Para o Oeste” e

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uma série de estímulos a empresas colonizadoras bem como distribuição de terras.
Quarta fase a partir dos anos setenta quando começam a chegar na região
imenso contingente populacional do eixo Sul/Sudeste iniciando um ciclo de produção
em escala internacional de soja, arroz milho e por fim o algodão expropriando o
pequeno agricultor e transformando-os em verdadeiros farrapos humanos.
O Vale do Garças era noticia freqüente em periódicos regionais, nacionais e
internacionais, em parte pela presença na região do jornalista Raimundo Maranhão
que através de contatos com amigos em diversos países europeus fazia chegar as
notícias da zona mineradora através do Jornal Novo Mundo. No coração do Brasil no
início do século passado, esse periódico se constituía num porta voz daquilo que
acontecia no velho mundo. Era a globalização da informação chegando ao antigo
leste mato-grossense antes mesmo do termo ser popularizado.
Com a veiculação das notícias referentes a grande quantidade de diamantes
existente na região inúmeros capangueiros e exportadores de pedras preciosas
vieram se instalar na zona produtora ou destacavam para o local, seus homens de
confiança com faro para realizarem bons negócios. O trafego aéreo era constante e
infinitamente superior ao que se observa atualmente basta lembrarmos que em
meados do século passado havia aviões com escala nacional que aterrissavam no
aeroporto do Piau, município de Guiratinga, atualmente desativado.
A enorme circulação de capital atraia as mais distintas personalidades
nacionais para os famosos eventos que ocorriam nas corruptelas, com destaque
para o Cassununga, Toriparu, Paulinópolis, Estrela, entre outros.
As corruptelas iam se multiplicando e junto com elas o símbolo maior da
conquista e da ocupação do território. Ele ocupava sempre o ponto mais central da
sede, era o mais alto e o mais conhecido. A cruz não representava apenas a
cristandade, era muito mais, simbolizava um porto seguro para mulheres e crianças,
civilidade, organização e poder.
Algumas dessas aglutinações populacionais não resistiram ao término das
gemas preciosas, outras se transformaram prósperas cidades. A quantidade de
diamantes extraída era tão grande que a população organizada em particular pela
cristandade e pela burguesia local propiciaram condições para que o antigo Leste
Mato-grossense se transformasse em meados do século XX num dos mais
importante redutos culturais do estado.
Foi enorme a contribuição Salesiana no processo civilizatório do antigo

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Leste Mato-grossense, escolas, hospitais, oratórios, asilos, internatos, patronatos,
etc. além de milhares de casas construídas para a população mais humilde. Há que
se destacar ainda que a conquista definitiva da região, foi fruto de relações
conflituosas entre colonizadores, missionários e nativos, seja no campo político,
econômico, social ou cultural e essas ações culminaram com a eliminação dos
antigos donos da terra, Bororos e Xavantes foram praticamente exterminados da
região, se por um lado a religião se constituía num remédio para a alma, por outro
lado lhes apodrecia a carne provocando a morte de milhares de nativos que
habitavam essa região.

4. BIBLIOGRAFIA

BITTAR, Mariluce. A Educação Superior na Região Sul de MT e a Influência


Salesiana – Décadas de 60 e 70. Campo Grande: UCDB, Relatório de Pesquisa,
2001.
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Aliança e o Paraguai, 5 v. Rio de Janeiro, Imprensa do Estado Maior do Exército,
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SITES CONSULTADOS:
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http://www.glosk.com/BR/Manaus/-919819/pages/Salesianos/254_pt.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Salesianos

13
Vilela, Magno José, Roma e as práticas missionárias no novo mundo. In REB 36, 1976, p.412

BIBLIOGRAFIA

CUNHA, M. Antropologia do Brasil mito história etnicidade, São Paulo, Brasiliense, 1986.
------, (org.). História dos índios do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras Secretaria
Municipal de ultura/FAPESP, 1992
ELIADE, Mircea. (1986) Aspectos do mito. Lisboa, 70.
-------, O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões. Lisboa. Brasil, s/d.
KERN, A. Missões uma utopia política. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1982.
MELIA, B. El Guarani Conquistado y Reducido: Ensayos de etnohistória, 3.ed. Asunción:
CEADUC, 1993.
OLIVEIRA, R Identidade, Etnia, Estrutura Social, São Paulo, Pioneiro, 1976.
SIDEKUN, A. O imaginário religioso indígena, São Leopoldo, Unisinos, 1997.
SOUSA, L. O diabo e a terra de Santa cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil
colônia. São Paulo. Cia das Letras, 1986.
SUSNIK, B., El índio colonial del Paraguay. In: El Guarani colonial. Asunción. Paraguay,
Museu Etnográfico “Andrés Barbero”, 1965.
--- “La cultura indígena y su organización social de las misiones jesuíticas": In Suplemento
Antropológico. .XXI, n1. Assunción, 1987, p.7/17.
TODOROV, T., As morais da História. Lisboa: Publica. Europa/América, 1991.
------ A conquista da América: a questão do Outro, São Paulo, M. Fontes, 1983.
VAINFAS, R. A., Heresia dos índios. São Paulo. Cia das Letras, 1996.

Notas

1 Inimigo aqui pode ser entendido tanto homem de outra cultura, como também o Diabo, por
tanto a noção de fronteira, não era apenas algo geográfico, mas também fronteira teológica.
Estar dentro da fronteira da colônia era estar dentro da Igreja, é ser salvo por não estar
possuído pelo demônio.
2 Do leste para o oeste.
3 Neste caso, demarcado pelos portugueses, mas a demarcação geográfica da Igreja dependia
da relação com o país que promovia a colonização e portanto, a demarcação.
4 Sanchis, Pierre. Festa e religião popular; as romarias de Portugal. In Revista de Cultura
Vozes, maio de 1979, n* 4, p.245-246.
5 Idem, ibem, p.247.
6 A denominação dada aos campos ou fazendas era PAGUS, sendo que quando os não cristão
refugiam-se para os campos (Pagus), eles vão receber o nome de pagãos, ou seja, aqueles que
vivem nos Pagus. Sendo daí a associação da palavra pagão com os infiéis e de outras
religiões, o termo passou a indicar e classificar pagão como aquele que era incrédulo e que lhe
falava a fé na religião do Deus Único e Verdadeiro.
7 Sanchis, Pierre, Festa e religião popular: as romarias de Portugal. In revista de Cultura
Vozes; maio de 1979, n* 4; p.249.
8 Pode-se ver mais sobre o assunto em: Sanchis, Pierre. Arraial, Festa de um povo. As

14
romarias Portuguesas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1982.
9 Vilaela, Magno José, Roma e as práticas missionárias no novo mundo. In REB 36, 1976,
p.412.
10 Leite, Serafim. Carta dos primeiros Jesuítas do Brasil, Comissão do IV Centenário, São
Paulo, 1954, v.1, p.150-152
11 Leite, Serafim, op., cit., p.243
12 Leite, Serafim, op. cit. p. 248
13 Anchieta, José. De Gestis Mem. de Sá, Arquivo nacional, Rio de Janeiro, 1958, p.53.
14 Todorov, T. A conquista da América: a questão do Outro, São Paulo, M. Fontes, 1983.

Etnocídio, Crime Contra os Povos Indígenas

Conceito: é a conduta delituosa da qual resulta a vitimização, a PUBLICIDADE


destruição de etnia ou grupo étnico. É o crime culposo ou doloso,
consistente na destruição parcial ou total da identidade étnica e cultural que
dão a cada grupo étnico ou etnia o seu caráter próprio.

As omissões do Governo são as causas do etnocídio que vem


ocorrendo em todas as esferas do Estado brasileiro. Suas conseqüências
são políticas mal fadadas e os efeitos são fatais e desalentadoras. O
descumprimento de preceito constitucional, descrito no Art. 67 da ADCT,
(ato das disposições Constitucionais transitórias), quanto à demarcação
das terras indígenas ?Art. 67. A União concluirá a demarcação das terras
indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição.?

Etnocídio, palavra introduzida recentemente para qualificar a


imposição forçada de um processo de aculturação a uma cultura por outra mais poderosa, quando
esta conduz à destruição dos valores sociais e morais tradicionais da sociedade dominada, à sua
desintegração e, depois, ao seu desaparecimento. O etnocídio foi e é ainda freqüentemente praticado
pelas sociedades de tipo industrial com o objetivo de asilarem ?pacificarem? ou transformarem as
sociedades ditas ?primitivas? ou ?atrasadas?, geralmente a pretexto da moralidade, de um ideal de
progresso ou da ?fatalidade evolucionista?. Sinteticamente etnocídio é a AÇÃO que promove ou tende
a promover a destruição de uma etnia ou grupo étnico, trata-se da destruição dos não brancos pelos
brancos, dos índios pelos não índios, esta destruição não está circunscrita somente a eliminação física
de indivíduo ou de grupo. Sua característica essencial está nessa ACULTURAÇÃO forçada de uma
etnia ou grupo étnico, por outra cultura mais poderosa, levando, em ultima instância, desaparecimento
de uma ou de outro.

Na Carta das Nações Unidas, universal e garantidora dos direitos dos grupos sociais, é possível
que as etnias encontrem proteção jurídica, Para Lenkim. Professor polonês, o genocídio é definido
como sendo um crime especial, consistente em destruir intencionalmente grupos humanos, raciais,
religiosos ou nacionais, é, como o homicídio singular, pode ser cometido tanto em tempo de paz, como
em tempo de guerra. Acrescenta ainda que em território ocupado pelo inimigo e em tempo de guerra,
será crime de guerra, e se na mesma ocasião se comete contra os próprios súditos, crime contra a
humanidade e que o crime de genocídio acha-se composto por vários atos subordinados todos ao dolo
específico de destruir um grupo humano. Apud Fragoso, Heleno Cláudio. IN Núcleo de Direitos
Indígenas p. 207 a 215.

Assim, é criminosa toda e qualquer conduta que provoque a destruição de etnia ou grupo étnico,
até agora tolerada e até mesmo estimulada. Isto é objetivamente, proteger etnias e grupos étnicos
historicamente vitimizados, até agora sem repressão efetiva ? a impunidade é a regra ? quer por
ações ou omissões, mesmo havendo forte base Constitucional para tanto, ocorrem com freqüência no
Brasil.

Temos registro de declarações na imprensa, discursos, caso de pessoas barradas em lugares ou


até de comunidades que assumem sua identidade indígena e são discriminadas pela própria
Fundação Nacional do Índio. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho ratificada
pelo Brasil em 1993 diz que, indígena é aquele que se reconhece como tal.

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Isso reflete como o órgão não dá conta do tamanho da população indígena brasileira. E tenta diminuí-
la. O censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], que é baseado na autodeclaração,
contou mais de 700 mil indígenas no país. A Funai diz que o IBGE está errado. E afirma que há muito
oportunista dizendo que é índio. Isso é uma grande discriminação por parte de quem deveria defendê-
los.

Você sabia que temos hoje quase uma centena de Advogados Indígenas no Brasil, alem de
administradores de empresas, filósofos, sociólogos, biomédicos, contadores e outros? Esses
profissionais, como os demais brasileiros, encontram muitas dificuldades de inserção no mercado de
trabalho, enquanto que nos órgão que trabalham com as políticas indígenas esta abarrotada de
apadrinhados políticos semi-analfabetos.

Em nosso Estado, a situação dos povos indígenas é desesperadora, visto que o etnocídio é
maior em relação a outros estados e provenientes da inação do Governo, a saber: os reduzidos
espaços de terras, verdadeiros confinamentos de índios; a discriminação dentro do próprio Governo
que não oportuniza os trabalhadores indígenas, nem mesmo nos órgãos que desenvolvem a política
indigenista nas três esferas do poder; o desrespeito ao direito Indigenista, já que existe previsão de
aplicação de direito diferenciado ao índio o judiciário simplesmente o ignora; o amontoado de índios
que se transformou as penitenciarias do Estado, vítimas da ignorância ao direito indigenista, garantido-
lhes meios de penas outros que o encarceramento.

Fazemos esse tipo de denúncia, como o último grito por socorro, pois temos esperança de que
alguém nos ouça, principalmente os responsáveis por essa situação. A denúncia pode até aparecer
negativa, mas para nós do CDDPI/MS, Warã e CEI, é uma ação afirmativa a beneficiar nossos povos.

* É Índio residente na Aldeia Jaguapirú, Advogado, Pós-graduado em Direito Constitucional, Presidente da


Comissão Especial de Assuntos Indigenas da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do MS (CEAI
OAB/MS), e Advogado da Warã Instituto Indígena Brasileiro com sede em Brasília E-mail
wilsonmatosdasilva@hotmail.com.

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