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Pedagogia do E-Learning

Modelos de Ensino a Distância

Second Life em estudo


Rosalina Simão Nunes

“Quanto mais longe vou, mais perto fico.”


Miguel Torga
Resumo

É consensual considerar que a distância entre aluno e professor, num Curso de Ensino a
Distância, não se mede pela distância física, mas pelo nível de interacção existente, bem como
pelo nível de estruturação do curso. (Teoria da Distância Transaccional de Michael Moore).
Assim, aumentando o nível de interacção entre os participantes, a distância física passa a ser
irrelevante. Importante também, neste processo, é a estruturação do curso, reduzindo-se a
distância transaccional, quando haja a conjugação de maior interacção com uma reduzida
estruturação do curso. Logo, os ambientes virtuais de aprendizagem, pelo recurso à mediação de
tecnologias da interacção, permitem, em cursos de Ensino a Distância, a redução da distância
transaccional.

Sendo o Second Life (SL) um mundo virtual, reconhecidamente interactivo e dinâmico, importava
perceber a sua pertinência como recurso do Ensino a Distância. Para isso, recorremos à análise
de dois artigos que apresentam a caracterização de várias situações educativas em SL. Dessa
análise, enriquecida pela leitura de outras referências que abordam a questão, concluímos que o
SL, pelas suas potencialidades, exige a continuação de elaboração de estudos por forma a se
definir o seu papel no Ensino a Distância.

Palavras-chave: Second Life (SL), Ensino a Distância, Teoria da Distância Transaccional,


Interacções Sociais

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Introdução

No dia 10 de Junho de 2009, Cavaco Silva, o Presidente da República Portuguesa, pelas 12:00
falou ao país. Essa nota que constava do Comunicado da Presidência da República nada teria de
extraordinário, não fosse o facto dessa transmissão ter ocorrido, também, no Second Life (SL),
num espaço próprio para assinalar o dia de Portugal. Nesse discurso, dirigido às Comunidades
Portuguesas, o Presidente não se refere directamente ao Second Life, mas afirma, a propósito do
século XXI, “que as distâncias diminuem num mundo global, [e] as questões relacionadas com a
diáspora não podem continuar a ser tratadas através do tradicional discurso saudosista e
passadista, em que se enaltecem os afectos mas se esquecem as realizações concretas.” No
parágrafo seguinte, refere dois jovens emigrantes portugueses que foram, por si, distinguidos,
pelo empreendedorismo.

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No site da Presidência da República Portuguesa, no espaço para as Comemorações do 10 de


Junho, existe uma ligação directa para o Second Life, onde se faz a apresentação da organização
da ilha que tem 5 áreas principais: Auditório Armilar, Exposição "Portugal 12.21 Identidade",
Museu da Presidência da República, Miradouro da Poesia e Espaço "Tesouro Passado e Futuro".

O vídeo promocional, alojado no YouTube teve já, até à data da última pesquisa – 17 de Julho de
2009 - 2182 exibições.

Um mês depois do evento acima referido e promovido pela Presidência da República Portuguesa,
Barak Obama, Presidente dos EUA, durante a sua visita oficial ao Gana, fez o primeiro directo
para o Second Life.

Portanto, com um mês de diferença, duas figuras de Estado, uma das quais líder de uma das
maiores potências mundiais, utilizaram o SL para interagir com as pessoas. E esta parece ser
uma situação incontornável – a utilização desta ferramenta em contextos que promovam a
interacção. Assim, a pertinência do uso do SL como contributo para contextos educativos na vida
real é, também, incontornável. E disso tem dado conta a comunidade de investigadores,
particularmente, na área do Ensino a Distância. E, neste ponto, parece-nos importante referir o
Blog de Paulo Frias, Discursos do Outro Mundo, que temos vindo a explorar e que de forma
sistemática, desde Julho de 2007, de acordo com os arquivos, informa, criticamente, sobre
matérias, artigos e eventos inerentes à Web e, em especial, ao SL.

Na tentativa de perceber a pertinência do recurso ao SL, no âmbito do Ensino a Distância, e


enquanto tecnologia de interacção que permita a redução da distância transaccional [Moore,
1997], daremos destaque, neste artigo, às conclusões de dois estudos que procuram “chegar a
uma compreensão sobre o modo como as interacções sociais em situações de ensino e de
aprendizagem na SL se desenrolam, com vista a delinear estratégias promotoras de
aprendizagens significativas” [Bettencourt & Abade, 2008]. Essa reflexão será complementada
com a leitura efectuada do seguinte artigo de Gilly Salmon: The future for (Second) life and
learning (2009).

Metodologia

Sendo intenção deste artigo compreender a pertinência do recurso ao SL, no âmbito do Ensino a
Distância, e enquanto tecnologia de interacção que permita a redução da distância transaccional,
escolhemos, de entre vários artigos lidos, dois estudos:
• Mundos Virtuais de Aprendizagem e de Ensino – uma caracterização inicial, Teresa
Bettencourt, Augusto Abade (2007);
• As Interacções no Second Life : a comunicação entre avatares, Sara Topete de Oliveira
Pita (2008).

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Procedemos à sua análise e centrámo-nos nas conclusões. Complementámos essas conclusões


com a leitura efectuada do artigo de Gilly Salmon, The future for (second) life and learning, trabalho
que destaca o potencial de ambientes virtuais e tridimensionais, como o Second Life, na
perspectiva de ser desenvolvido, futuramente, ao serviço do ensino.

Experiências educativas no Second Life - conclusões

No primeiro estudo referenciado, os seus autores apresentam o resultado de um estudo


exploratório, na sua primeira fase. Nele caracterizam várias situações educativas no SL, incidindo
nos papéis do professor e aluno, espaços físicos e materiais complementares das aulas.
Assinalamos as seguintes conclusões [Bettencourt & Abade, pp 14-15, 2008]:

• O ambiente de aprendizagem, no SL, é diferente e é imersivo, quer seja pela informalidade


dos espaços, às acções dos alunos e dos professores, quer pela forma de utilização dos
recursos educativos, distinguindo-se, assim, das situações de aprendizagem na vida real;
• O sentido de comunidade gerado, a informalidade dos espaços e o facto da comunicação
se basear na escrita, foram dados que permitiram percepcionar a riqueza das situações de
aprendizagem no SL quer do ponto de vista da construção de conhecimento, quer das
interacções sociais;
• As interacções sociais entre alunos e alunos e professores despiram-se de formalismos o
que, segundo os autores, “pode aportar novos hábitos e novos comportamentos em
contextos reais”;
• O facto do estudo ter sido desenvolvido em situações de aprendizagens formativas, cuja
temática era o próprio SL, sendo os intervenientes avatares que aprendiam no seu mundo,
levou a que se pudesse concluir que “a exploração de SL na vida real para fins educativos
pode induzir formadores e formandos, duma forma também natural, a vir a manifestarem o
mesmo tipo de interacção registado neste estudo”.

Desta discussão, os autores apontam algumas linhas de reflexão. Parece-nos pertinente, no


contexto deste artigo, identificar a seguinte orientação:

Ainda que nos possa colocar numa posição privilegiada a possibilidade de comparar entre
as situações de aprendizagem no SL com as que acontecem na Real Life (RL), tal
posicionamento pode ser perigoso uma vez que se pode querer “replicar na Second Life os
modelos de ensino e de aprendizagem na vida real”. Essa preocupação em distinguir os
modelos de ensino desenvolvidos no SL daqueles que sustentam as aprendizagens na
vida real, também encontramos em Gilly Simon (2009) quando escreve, a propósito dos
primórdios do SL:

It was probably inevitable that in the early days of SL, people would reproduce the buildings and
classrooms they were familiar with in RL. University teachers typically think first of opportunities to

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present information in ways they know, such as with slides and video clips. [Gilly Simon, p 529,
2009]
No entanto, Gilly Simon não entende essa inevitabilidade como sendo uma limitação. Destaca, no
SL, o carácter experimental, colaborativo e imersivo, in ways that no virtual learning environment
(VLE) or remote synchronous classroom ever could be [idem]. E, por isso, considera importante
que, no futuro, os estudiosos, experimentem o SL a fim de compreenderem o seu potencial.
Julgámos que, quer o estudo, cujas conclusões, consideradas pertinentes para o presente artigo,
já apresentámos, quer o segundo estudo referenciado, seguem essa linha de pensamento, isto é,
são estudos que resultam de experiências vivenciadas no ambiente do SL.
Em As Interacções no Second Life : a comunicação entre avatares, Sara Topete de Oliveira Pita
(2008), para entender as mais-valias do SL, sobretudo quando usado na educação, procedeu a
uma análise da interacção gerada em diversos encontros promovidos pelos alunos do Mestrado
em Multimédia em Educação da Universidade de Aveiro, quer na vertente verbal, quer na não-
verbal. Desse processo, concluiu o seguinte [Pita, p 16, 2008]:
a) a comunicação entre avatares ocorre de uma forma mais espontânea e informal;
b) há grande volume de mensagens produzidas por encontro;
c) há formação de comunidades, visível no espírito de grupo;
d) a colocação de questões é constante, no sentido da prossecução do debate esclarecido;
e) a temática abordada é amplamente debatida ao longo do encontro;
f) há predominância do código escrito, inclusivamente aquando da expressão de emoções e
sentimento.
Comparando estes resultados com os do estudo de Bettencourt & Abade, 2008, poderemos, ainda
que preliminarmente, apontar duas tendências:
• a informalidade nas interacções sociais;
• o recurso ao código escrito, na comunicação verbal.
Ainda a propósito do segundo estudo, quando aborda a questão da comunicação verbal [Pita, p 8,
2008], aspecto que se encontra integrado na alínea b) das conclusões, a autora identifica “a
dificuldade inerente à avaliação da qualidade das participações [como sendo] uma questão que
preocupa muitos docentes e que tem vindo a ser alvo de investigação exaustiva, sobretudo quando
aplicada aos curso de EaD”. Introduzimos aqui este dado, porque nos parece importante para a
conclusão que a seguir apresentamos.

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Conclusão
No âmbito da Unidade Curricular Modelos de Ensino a Distância, tivemos já a oportunidade de
estudar quatro dos seus teóricos pioneiros. Neste artigo referenciamos Michael Moore e a teoria da
distância transaccional, considerando que, pelo seu carácter experimental, colaborativo e imersivo,
o Second Life potenciaria situações de aprendizagem em que o nível de interacção, aumentando
entre os participantes, reduziria a distância transaccional.
Julgámos, pela análise dos estudos escolhidos, que fica provado esse potencial. No entanto,
também nos parece que é fundamental continuar essa investigação. Esse é o entendimento dos
dois trabalhos cujas conclusões aqui abordámos. E parece-nos que, à luz da teoria da distância
transaccional, esta só reduzirá se se verificar a conjugação entre o aumento da interacção com
uma reduzida estruturação do curso. E, se fica provado o potencial do SL, no que concerne o
aumento da interacção, parece-nos, neste ponto, relevante sublinhar a dificuldade em proceder à
avaliação das participações decorrentes da interacção dos participantes em situação de
aprendizagem no SL, como destacámos a propósito do segundo estudo.
Na estruturação de um curso é fundamental que estejam definidos de forma clara e objectiva todos
os aspectos inerentes às aprendizagens. A avaliação é um deles. Assim, concordamos com Gilly
Simon (2009, p.529), quando afirma que são necessários fortes alicerces para o ensino no SL,
como, aliás, em todo o ensino mediatizado:
Strong scaffolding and support is necessary for SL learning, as in all technology-mediated learning
design.

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REFERÊNCIAS
• 10de Junho: Cavaco Silva vai estar no Second Life, http://www.ionline.pt/conteudo/8018-10-
junho-cavaco-silva-vai-estar-no-second-life [acedido a 16-07-2009].
• Mensagem do Presidente da República dirigida às Comunidades Portuguesas por ocasião do
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas Santarém, 9 de Junho de 2009
http://www.presidencia.pt/?idc=21&idi=28668 [acedido a 16-07-2009].
• Site da Presidência da República Portuguesa http://www.presidencia.pt/ [acedido a 16-07-
2009]
• Espaço 10 de Junho da Presidência da República no mundo virtual Second Life
http://www.presidencia.pt/diadeportugal2009/?idc=550 [acedido a 16-07-2009]
• Presidency of the Portuguese Republic in Second Life - Presidência da República Portuguesa
no SL (Vídeo) http://www.youtube.com/watch?v=hX8WVf53aGc&feature=channel_page
[acedido a 17-07-2009]

• The Obama White House's First Try At Second Life


http://www.cbsnews.com/blogs/2009/07/10/politics/politicalhotsheet/entry5151594.shtml[acedido
a 16-07-2009]

• Discursos do Outro Mundo http://discursosdooutromundo.blogspot.com/ [acedido durante Julho de


2009]

• Moore, M. (1997) "Theory of transactional distance." Keegan, D., ed. "Theoretical Principles of
Distance Education, Routledge, pp. 22-
38http://www.aged.tamu.edu/research/readings/Distance/1997MooreTransDistance.pdf [Último
acesso a 26-07-2009]

• Bettencourt, T ; Abade, A. (2008) – Mundos Virtuais de Aprendizagem e de Ensino uma


caracterização inicial. http://www.adie.es/iecom/index.php/IECom/article/view/159/153 [Último
acesso a 26-07-2009]

• Pita, S. (2008). As Interacções no Second Life : a comunicação entre avatares:


http://prisma.cetac.up.pt/edicao_n6_julho_de_2008/as_interaccoes_no_second_life.html [Último
acesso a 26-07-2009]

• Salmon, G. (2009). The future for (second) life and learning. BJET, Vol. 40, No. 3, pp. 526–
538.http://www.moodle.univ-ab.pt/moodle/file.php/3068/Artigos/Salmon_SL.pdf [Último acesso a
26-07-2009]

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