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PROJETO SER CRIANÇA - CURVELO/MG

JULHO A SETEMBRO

2007

INTRODUÇÃO

Localizado no município de Curvelo, o projeto Ser Criança atendeu neste trimestre 164 crianças e
adolescentes com idade entre 7 e 14 anos. As atividades são realizadas no espaço cedido pela Basílica
de São Geraldo e contam com 10 educadores cedidos pela Prefeitura Municipal de Curvelo.

Atualmente, a equipe vem trabalho com cinco grandes objetivos: saúde, socialização, aprendizagem,
identidade cultural e consciência ambiental. Todo o trabalho tem como instrumento para mediar
nossas ações a Pedagogia do Brinquedo, a Pedagogia da Roda e a Pedagogia do Sabão, tecnologias
nacionalmente premiadas.

O lúdico está muito presente em nossas atividades, uma vez que buscamos trabalhar de forma
prazerosa. A educação é nosso caminho nessa empreitada, que tem como objetivo maior o
desenvolvimento.

PERFIL DA EQUIPE

Formada por onze educadoras e dois educadores, a equipe vem se mostrando criativa no que diz
respeito aos instrumentos utilizados para promover a educação. Alguns ainda demonstram alguma
dificuldade no domínio da teoria, mas isso vem sendo contornado por meio de reflexões e estudos de
casos durantes nossas reuniões pedagógicas. Também estamos utilizando a Pedagogia do Sabão para
fazer essa formação.

O grupo tende a desenvolver trabalhos mais voltados à socialização e em alguns momentos perde o
foco, necessitando que sejam feitas interferências. Conseqüentemente, a dificuldade em dominar a

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teoria dificulta a realização da avaliação, exigindo maior acompanhamento do trabalho por parte da
coordenação. A ausência da coordenação no desenvolvimento de atividades externas diminui o ritmo
do trabalho, tornando-o às vezes mais lento.

Em relação às crianças e aos adolescentes, percebemos que todos demonstram muita alegria em
brincar e acompanhar seus grupos. O respeito às diferenças é pauta constante das conversas, que
sempre têm o objetivo de possibilitar ao grupo a escolha do melhor caminho para se trabalhar com
crianças e adolescentes.

Quanto à disponibilidade, o grupo dispõe de pouco tempo, tornando o trabalho de envolvimento da


comunidade pouco efetivo, considerando o grau que seria necessário realizar. Entretanto, por termos
na equipe pessoas que trabalham em outros colégios no período inverso ao do projeto, conseguimos
estabelecer melhor contato e acompanhamento de algumas crianças. Esse trabalho também trouxe
para mais perto o Conselho Tutelar, que atualmente é nosso parceiro no acompanhamento de
algumas famílias. Por fim, a equipe precisa dar continuidade à formação teórica, para que ganhe
maior autonomia.

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

Seguindo o que estabelece nosso Plano de Trabalho e Avaliação (PTA), as atividades desenvolvidas
giraram em torno de cinco grandes dimensões: saúde, consciência ambiental, identidade cultural,
socialização e aprendizagem lúdica.

É importante lembrar que essas atividades sempre tiveram a Pedagogia da Roda como instrumento
que cria a oportunidade de diálogo entre os protagonistas. Cada atividade desenvolvida será
apresentada dentro de sua dimensão.

• Saúde

Para você, o que é saúde? Como podemos promover a saúde? Estas foram algumas das perguntas
que encontramos em nosso PTA e que atualmente estamos tentando responder. São perguntas difíceis,
pois podemos atribuir significados diferentes à palavra saúde, de acordo com nossa história de vida e
expectativa. Essa vem sendo uma das descobertas do trabalho desenvolvido no projeto, principalmente
junto aos adolescentes.

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Alguns pensarão, simplesmente, que saúde é a ausência de doenças ou de sintomas desagradáveis;
outros pensarão que é o funcionamento harmônico entre corpo e mente; outros ainda pensarão na
saúde coletiva. Entre muitas definições e após muita conversa, encontramos uma definição bem
abrangente, que consta no Dicionário de Termos Técnicos de Medicina e Saúde, organizado por Luís
Rey (Ed. Guanabara Koogan), que é a seguinte:

"Saúde é uma condição em que um indivíduo ou grupo de indivíduos é capaz de realizar suas
aspirações, satisfazer suas necessidades e mudar ou enfrentar o ambiente. A saúde é um recurso para
a vida diária, e não um objetivo de vida; é um conceito positivo, enfatizando recursos sociais e
pessoais, tanto quanto as aptidões físicas. É um estado caracterizado pela integridade anatômica,
fisiológica e psicológica; pela capacidade de desempenhar pessoalmente funções familiares,
profissionais e sociais; pela habilidade para tratar com tensões físicas, biológicas, psicológicas ou
sociais, com um sentimento de bem-estar e livre do risco de doença ou morte extemporânea. É um
estado de equilíbrio entre os seres humanos e o meio físico, biológico e social, compatível com a plena
atividade funcional."

Queremos chamar sua atenção para uma parte muito interessante do conceito exposto acima: mesmo
dentro da saúde, existem tensões físicas, biológicas, psicológicas ou sociais. O que pode diferenciar a
pessoa saudável da doente é a habilidade que se tem (ou não) para lidar com tais tensões. Portanto,
a palavra “resiliência” está muito ligada ao conceito de saúde. Segundo Grotberg, resiliência é a
"capacidade humana universal de enfrentar as adversidades da vida, superá-las, ou até ser
transformado positivamente por elas".

E foi a partir disso que buscamos, na cultura local, instrumentos para promover a resiliência. Ao longo
do trabalho, identificamos que muitas crianças e adolescentes sofrem com a falta de acesso a
instrumentos promotores da saúde, daí a inclusão dessa dimensão em nosso PTA.

Em um primeiro momento, pode até parecer incoerência, mas detectamos que as comunidades detêm
diversas tecnologias para promover a saúde e foi aí que entramos. Nas reuniões pedagógicas, está
ocorrendo uma revolução que vem provocando questionamentos sobre alguns conceitos: o que se
tenta expor criticamente hoje é a relação entre “esporte e saúde”. Essa relação, infelizmente, não é a
mais usual, pois geralmente é substituída pelo conhecimento popular por “esporte é saúde”. Uma
relação que aparenta ser uma verdade absoluta, quando não é obrigatoriamente. Os novos conceitos
trabalhados relacionam esporte, saúde e qualidade de vida, de maneira a levantar o debate para
refletir sobre os mesmos.

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”O esporte coletivo é um meio de aprender sobre nossos limites corporais e sobre como nos relacionar
com os limites do outro.”
Valdiléia - Educadora

O esporte, como conceito, é considerado uma atividade metódica e regular, que associa resultados
concretos referentes à anatomia dos gestos e à mobilidade dos indivíduos. Essa é a conotação que
podemos chamar de “esporte de alto nível”, veiculada nas mídias em geral e representada por
pessoas executando gestos extremamente mecanizados, uniformes, com um certo gasto de energia,
para produzir um determinado tipo de movimento repetidas vezes. São gestos plásticos, muito
organizados, moldados e com muitas regras, para que se possa obter algum resultado prático. Além
do conceito veiculado nas mídias, o esporte pode ser encarado, a partir de outras óticas, como uma
atividade dentro de um grupo de amigos, e é isso que estamos buscando com nosso trabalho.

Existem outros conceitos de esporte que o consideram como um componente dos blocos de conteúdos
da educação física escolar. Ou seja, nas escolas, a educação física possui alguns conteúdos distintos,
como a dança, os jogos, as lutas, as brincadeiras, e o esporte é um deles. Após muitas conversas,
definimos que o projeto seria um espaço para uma nova conotação de esporte, diferente do esporte de
alto nível e diretamente vinculado à saúde.

Associado à saúde está o conceito de qualidade de vida, definido como a condição humana resultante
de um conjunto de parâmetros individuais e sócio-ambientais (modificáveis ou não) que caracterizam
as condições em que vive o ser humano. Para se definir uma boa qualidade de vida, deve-se levar em
consideração a satisfação das necessidades básicas de sobrevivência: alimentação, vestuário, trabalho,
moradia e relações sociais e afetivas (as quais, no mundo capitalista de hoje, sempre se subordinam a
outra: a econômica).

Analisando agora a relação do conhecimento popular “Esporte é Saúde”, entendemos que ela se
difunde como contrapartida ao mundo atual, que promove em suas práticas o sedentarismo, tendo
como conseqüência a obesidade – tida como o mal do século. Assim, em combate à obesidade, o
esporte promoveria a saúde. O esporte também é promotor de saúde por ser um incentivo às relações
sociais, como coleguismo, amizade e paixões. Entretanto, chegamos à conclusão de que apenas o
esporte não seria suficiente para atingirmos nossas metas. Por isso, fizemos uso de outras tecnologias,
como a medicina complementar, a cozinha alternativa e as brincadeiras populares.

Ao longo das atividades, percebemos que ainda há muito a ser feito. É necessário identificar os pontos
luminosos de cada um, se queremos promover a saúde. Pessoas saudáveis devem se sentir bem! E foi

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a partir dessa afirmação que algumas outras perguntas passaram a fazer parte de nosso PTA, como,
por exemplo, no caso do esporte: como o último a ser escolhido se sente?

”As crianças têm limites especiais que precisam ser respeitados.”


Arlene - Educadora

As atividades realizadas no projeto visando promover a saúde não podem ter como objetivo formar
campeões, assim como não devem negar a possibilidade de que alguns realmente serão futuros
campeões. Temos necessidade de dissociar as oficinas de formação técnica – não queremos que, com
a medicina complementar, todos se tornem homeopatas, por exemplo. A inserção das crianças
obesas, lentas e sem muita coordenação motora trará mais qualidade de vida ao conjunto, ensinando
não apenas nossos limites, mas também como conviver com os limites alheios, quando lidamos com
as brincadeiras ou as atividades esportivas.

Isso está sendo levado para as rodas de avaliação das atividades, nas quais os adolescentes já
começam a mudar suas posturas. Do contrário, o esporte, a medicina complementar e a cozinha
alternativa deixam de ser um agente de inclusão social para ser um fator de exclusão social, ou seja,
“quem joga bem entra; quem não joga bem que fique quieto e não atrapalhe”.

No que diz respeito à qualidade de vida, buscamos disseminar entre as crianças e os adolescentes as
tecnologias que aprendemos com a comunidade, possibilitando a transformação da realidade.

• Aprendizagem lúdica

Educar ludicamente tem um significado muito profundo e está presente em todos os segmentos da
vida. Por exemplo: uma criança que joga bolinha de gude ou brinca de boneca com seus
companheiros não está simplesmente brincando e se divertindo; está desenvolvendo e operando
inúmeras funções cognitivas e sociais. Ocorre o mesmo com a mãe que acaricia e se entretém com a
criança, com o educador que se relaciona bem com suas crianças e mesmo com um cientista que
prepara prazerosamente sua tese ou teoria. Eles educam-se ludicamente, pois combinam e integram a
mobilização das relações funcionais ao prazer de interiorizar o conhecimento e a expressão de
felicidade que se manifesta na interação com os semelhantes.

Se bem-aplicada e compreendida, essa proposta contribuirá concretamente para a melhoria do


ensino, quer seja na qualificação e na formação crítica da criança, quer para garantir mais
satisfatoriamente a permanência da criança no projeto (diminuir a evasão), quer para redefinir valores

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e para melhorar o relacionamento e o ajustamento das pessoas na sociedade e o direito de cidadania.

Foi com base nesses pensamentos que utilizamos o Bornal de Jogos, as brincadeiras e as atividades
esportivas. Com o Bornal, possibilitamos que crianças e adolescentes construíssem novas
descobertas, desenvolvessem e enriquecessem suas personalidades, simbolizando um instrumento
pedagógico que dá ao educador a condição de condutor, estimulador e avaliador da
aprendizagem.

Tendo papel fundamental no desenvolvimento dessas atividades, os educadores procuram


direcioná-las, dando-lhes caráter de integração e interação, permitindo a integração do
conhecimento a ações práticas, pois a motivação é um dos fatores principais não só para o
sucesso da aprendizagem, como também para a aquisição de novas habilidades.

Os jogos e as brincadeiras são excelentes oportunidades de mediação entre o prazer e o


conhecimento historicamente constituído, já que o lúdico é eminentemente cultural. Percebendo
isso e buscando valorizar a cultura local, levantamos um acervo de brincadeiras a serem
utilizadas junto às crianças e aos adolescentes do projeto.

Na ótica do psicólogo suíço Jean Piaget, pode-se notar que a concepção dos jogos não é apenas
uma forma de desafogo ou entretenimento para gastar a energia das pessoas, mas meios que
contribuem e enriquecem o desenvolvimento intelectual (JUY, 2004). E isso é percebido nos
resultados, pois as crianças e os adolescentes têm se mostrado mais tranqüilos, além de
apresentar maior grau de felicidade e de valorização dos saberes locais. Os jogos, as
brincadeiras e as demais atividades desenvolvidas têm ajudado a criar mais entusiasmo sobre o
conteúdo a ser trabalhado, considerando interesses e motivações de crianças e adolescentes em
expressar-se, agir e interagir nas atividades lúdicas realizadas em qualquer área do
conhecimento.

A brincadeira, no panorama sócio-histórico, é um tipo de atividade social humana que supõe


contextos sociais e culturais. Como instrumento educativo, o lúdico já se fazia presente no
universo criativo do homem desde os primórdios da humanidade, e percebemos isso em nosso
dia-a-dia. Podemos notar que as brincadeiras foram ocupando lugar de destaque nos grupos que
compõem o projeto, apesar da forte influência tecnológica de suas relações sociais.

Em nossas observações, chamamos a atenção para o fator histórico do jogo, que tem presença
marcante nas diversas atividades características das crianças e dos adolescentes, nas quais o mito

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e o culto podem ser citados como exemplos claros dessa influência. Ao criar um jogo entre
fantasia e realidade, o homem primitivo procurava, através do mito, dar conta dos fenômenos do
mundo. No que diz respeito ao culto, os rituais das civilizações antigas eram celebrados dentro
de um espírito de puro jogo, no sentido literal da palavra, um jogo entre o bem e o mal que
percebemos nas brincadeiras que as crianças e adolescentes escolhem. Alguns bons exemplos
seriam: brincar de policia e ladrão, de enterrar passarinho, de futebol etc.

O papel central reservado ao mito e ao culto nas civilizações antigas permanece intacto em
diversas comunidades nas quais o jogo entre fantasia e realidade, entre o bem e o mal
representa a base moral do povo, passada de geração a geração por meio da sabedoria dos
membros mais velhos dessas comunidades, conhecido nas comunidades que atendemos como o
bisavô de alguma criança.

Dessa forma, os padrões simbólicos de compreensão e (re)criação são estabelecidos,


proporcionando instrumentos às crianças e aos adolescentes. Bons exemplos são Igor e Atos,
ambos de 10 anos, crianças que brincam com os números, desenvolvendo suas atividades
escolares sem dificuldade, pois dominam grande acervo de formas de resolver seus problemas,
principalmente os relacionados aos cálculos lógicos.

Tomando como parâmetro as teorias de Dantas (1998, p. 111), “o termo lúdico refere-se à
função de brincar (de uma forma livre e individual) e jogar (no que se refere a uma conduta
social que supõe regras)”. Assim, o jogo é como se fosse uma parte inerente do ser humano,
sendo encontrado na filosofia, na arte, na pedagogia, na poesia (com rimas de palavras) e em
todos os atos de expressão (Andrade e Sanches, 2005).

Em concordância com Andrade e Sanches, podemos nos arriscar a dizer que o jogo não necessita
essencialmente de um ganhador e de um perdedor. Expor isso em nossas conversas cria
momentos de dificuldade, pois há ainda grande espírito de disputa entre as crianças. Portanto, o
emprego da atividade lúdica deve ter, a todo o momento, o objetivo de promover alegria e
descontração, desde que possibilite a expressão do agir e do interagir. Queremos destacar
também a ação do lúdico na aprendizagem dos adultos/educadores, tornando o processo de
ensino/aprendizagem mais motivador, descontraído e prazeroso, aliviando tensões vividas pelo
ser humano pelo constante estresse do dia-a-dia.

Nessa perspectiva, vemos que a ludicidade é uma atividade que tem valor educacional intrínseco.
Entretanto, além desse valor que lhe é inerente, a ludicidade tem sido também utilizada como

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recurso pedagógico. Dessa forma, várias são as razões que levam os educadores a empregar as
atividades lúdicas no processo de ensino/aprendizagem.

Sentimos que, com o jogo e as brincadeiras, as crianças e os adolescentes apresentam dois


elementos que os caracterizam: o prazer e o esforço espontâneo. Eles são considerados
prazerosos por sua capacidade de absorver o indivíduo de forma intensa e total, criando um
clima de entusiasmo. Todos, inclusive os educadores, estão constantemente sorrindo durantes as
brincadeiras e os jogos. É esse aspecto de envolvimento emocional que imprime a essas
atividades forte teor motivacional, capaz de gerar um estado de vibração e euforia.

Em virtude da atmosfera de prazer em que se desenrolam, a brincadeira e o jogo são portadores


de um interesse intrínseco, canalizando as energias no sentido de um esforço total para a
consecução do desenvolvimento das habilidades necessárias ao desenvolvimento integral das
crianças e dos adolescentes. Portanto, as atividades lúdicas são excitantes, mas também
requerem um esforço voluntário, e isso vem sendo percebido ao longo do trabalho desenvolvido
pelas educadoras. As situações lúdicas mobilizam esquemas mentais. Sendo uma atividade física
e mental, a brincadeira aciona e ativa as funções psiconeurológicas e as operações mentais,
estimulando o pensamento. Como os jogos integram as várias dimensões da personalidade –
afetiva, motora e cognitiva –, temos como resultado a queda nos índices de agressividade e de
violência verbal.

Como atividades físicas e mentais que mobilizam as funções e as operações, as brincadeiras e os


jogos têm acionado as esferas motora e cognitiva e, à medida que geram envolvimento
emocional, apelam para a esfera afetiva. Assim sendo, vê-se que o jogo e as brincadeiras se
assemelham à atividade artística, atuando como elemento integrador dos vários aspectos da
personalidade.

“O ser que brinca e joga é também o ser que age, sente, pensa, aprende e se desenvolve.“
Onésima - Educadora

• Consciência ambiental

Permacultura é um conceito prático que pode ser aplicado tanto na cidade como no campo e em áreas
de vida silvestre. Seus princípios estimulam a criação de ambientes equilibradamente produtivos, ricos
em alimentos, energia, abrigos e outras necessidades materiais e não materiais, o que inclui infra-
estrutura social e econômica.

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Esse é o conceito com o qual trabalhamos quando nos referimos à consciência ambiental.
Inicialmente, em nosso projeto, a permacultura dedicou-se ao esforço do planejamento de um
ecossistema agrícola produtivo, no sentido de permitir estabilidade, diversidade e flexibilidade de um
único espaço: a horta. Pouco a pouco, o conceito foi sendo ampliado e aplicado a todos os ramos das
atividades desenvolvidas dentro do projeto, bem como à construção de pessoas mais conscientes.

O planejamento em permacultura é desenvolvido a partir da cuidadosa observação dos padrões


naturais e das características de cada lugar em particular, o que permite a gradual implementação de
métodos ótimos para integrar nossas instalações, como o reaproveitamento dos restos da cozinha para
produção de húmus, a criação de mini-ecossistemas e a produção de jardins.

Com essas atitudes, está sendo possível apropriar novos conceitos, promovendo o aproveitamento de
todos os recursos (energias), utilizando maior quantidade possível de funções em cada um dos
elementos de um dado local, com seus múltiplos usos no tempo e no espaço.

O excesso produzido pelos diferentes espaços – oficina de brinquedos, cozinha alternativa, reciclagem
de papel, oficina de beleza etc. – é criteriosamente utilizado para beneficiar outros espaços, criando
assim uma rede na qual tudo é cuidadosamente equilibrado.

Em relação ao que é produzido (horta, jardim, pomar, mini-ecossistemas), tudo é cultivado de modo
que haja perfeito aproveitamento da água e do sol. São utilizadas associações particulares de árvores
perenes e não-perenes, de arbustos e ervas rasteiras que se nutrem e se protegem mutuamente. São
construídos pequenas lagoas e outros elementos para melhor aproveitamento da grande diversidade
de atividade biológica em interação nos ecossistemas. O desenvolvimento do planejamento requer
flexibilidade e uma seqüência apropriada, para que possa introduzir mudanças à medida que a
experiência e a observação indicarem. Assim, as crianças e os adolescentes começam a compreender,
na prática, o que teoricamente estudam na escola.

Nosso maior desafio, atualmente, é estabelecer o bem-estar entre os protagonistas dessas atividades,
pois criar um ambiente apropriado à permacultura é um processo longo e gradual. Adotando técnicas
e princípios da ecologia, tecnologias apropriadas e agricultura sustentável, associadas à sabedoria de
suas famílias, estamos conseguindo acelerar esse processo.

Como resultado das atividades de ação e reflexão das oficinas, estamos conseguindo aprofundar
nossos conhecimentos e gerando novos conceitos nas pessoas envolvidas. São conceitos éticos que
repousam sobre o cuidar do planeta Terra, saindo de uma visão micro e partindo para uma visão

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macro das conseqüências de nossas atitudes. Isto inclui a possibilidade humana de acesso a recursos e
provisões sem desperdícios ou acúmulos além de suas necessidades.

Observando a regra geral da natureza, na qual as espécies cooperativas e a associação de espécies


produzem comunidades saudáveis, as crianças e os adolescentes podem reforçar o espírito de
cooperação e valorizar a contribuição única de cada pessoa. Dentro dessa dimensão, algumas
atividades e posturas merecem destaque:

• Horta

Significa cuidar de todas as coisas, vivas e não vivas: solos, espécies e suas variedades, atmosfera,
micro-hábitats, animais e águas. Isso implica a realização de atividades inofensivas e reabilitadoras,
conservação ativa e uso ético e moderado de seus recursos. Para isso, as ações foram adotadas de
forma que os ecossistemas permanecessem substancialmente intactos e capazes de funcionar
saudavelmente. Alguns instrumentos foram utilizados com esse objetivo, como o biofertilizante, a
produção de húmus, o bioinseticida, a transformação dos canteiros, introduzindo novos formatos etc.

Assim, crianças e adolescentes começam a compreender a complexidade de nosso ecossistema


planetário, passando a conviver de forma mais respeitosa em todos os espaços em que estejam
presentes.

• Cuidar das pessoas

Com essa nova concepção de relação entre as pessoas, nossas rodas passaram a abordar novos
temas de discussão, como a ajuda mútua entre as pessoas e a comunidade. As necessidades básicas
de alimento, abrigo, educação, trabalho satisfatório, contato humano e convivência também passaram
a estar presentes.

Enfim, ao longo do trabalho, podemos perceber que a transformação da realidade para garantir
melhor qualidade de vida é proporcional à mudança conceitual sobre a forma como enxergamos o
espaço onde estamos inseridos. Afinal, somos parte fundamental, assim como tudo que compõe esse
enorme ecossistema que chamamos de Terra.

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• Identidade Cultural

“Localizado no centro de Minas, somos um povo de olhar para o céu, rodeado de belas serras, que
respiram poesia por entre as veredas desse sertão.” Assim, muitas crianças e adolescentes do projeto
vêm descobrindo e redescobrindo a sua própria cultura, muitas vezes substituída por influências da
televisão e de outros veículos de comunicação. Ao longo de nosso trabalho, percebemos que a grande
maioria já não conhece as histórias, poesias, músicas, brincadeiras, receitas e danças que fizeram o
povo do sertão ser ele mesmo.

Foi pensando na riqueza do sertanejo que a equipe de educadores acrescentou essa dimensão ao seu
PTA. Infelizmente, o termo sertanejo é popularmente conhecido de três maneiras:

Em primeiro lugar, como subdivisão da região Nordeste; em segundo, como pessoa do interior, muitas
vezes tratada também como jeca, caipira, matuto; por fim, é definida como povo de características
subjetivas, criado a partir de concepções ideológicas estabelecidas como um conjunto de sentimentos,
comportamentos e valores de quem nasceu no sertão, prescindindo de qualquer posição geográfica.

Influenciados por tais conceitos, muitos fogem em busca de esquecer suas raízes, tentando transmutar-
se, como se cultura fosse algo que pudéssemos simplesmente trocar, como uma peça qualquer.

A partir de muitas reflexões, estudo e pesquisas, a equipe de educadores vem buscando, juntamente
com as crianças e os adolescentes do projeto, conhecer e vivenciar os saberes e fazeres do nosso povo
sertanejo, visando fazer florescer o amor pela terra onde nascemos e crescemos.

Nosso primeiro obstáculo foi simples: possibilitar às pessoas vivenciar as riquezas desta terra. O
segundo desafio foi levantar um acervo de tecnologias e instrumentos que possibilitassem essa
vivência. Para isso, utilizamos as tecnologias de que o projeto Ser Criança dispunha, como a
Pedagogia da Roda e a Pedagogia do Sabão.

Foram muitas conversas, dois encontros com os pais, diversas reuniões pedagógicas e muita
animação. Inicialmente, promovemos uma transformação no cardápio, que passou a ser formado por
pratos típicos da região, como o cuscuz, o purê de mandioca, o iaiá com ioiô, as farofas e muito mais.
Depois, passamos a utilizar novas cantigas, pois esse já é um hábito local. Também utilizamos os
conhecimentos das vovós para curar. Afinal, a medicina complementar é uma das tecnologias mais
populares entre os sertanejos. Pomadas cicatrizantes, tinturas de raízes, chás e sabonetes passaram a
compor nosso acervo e a integrar o espaço denominado farmacinha.

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Sempre lembrando da importância da transformação e da geração de novos valores, educadores,
crianças e adolescentes têm conversado sobre suas descobertas e já é possível perceber mudanças na
forma como vêem o sertão. Na horta, por exemplo, os adolescentes estão descobrindo o quanto a
terra é forte e o quanto é capaz de produzir quando bem cuidada. Assim, vamos aprendendo a amar
o nosso chão.

A primeira experiência de ornamentação procurou valorizar a flora da região, permitindo às crianças e


aos adolescentes descobrir o quanto é ela rica. Agora, estamos construindo uma nova ornamentação e
aprendendo quantas brincadeiras e brinquedos diferentes são de origem sertaneja, uma vez que o
tema é brincar.

A literatura também passou a fazer parte do cotidiano dos trabalhos e nosso maior instrumento tem
sido o Telecentro, parceiro fundamental para que possamos conhecer melhor Guimarães Rosa, nosso
ilustre conterrâneo.

Sabemos que há muito ainda a ser feito, mas estamos trabalhando para potencializar a quebra do
velho paradigma a respeito do sertão. Teatros também têm sido nossos instrumentos para trabalhar a
cultura sertaneja. Murais a respeito de como o sertão é importante em relação à água têm sido
importantes trabalhos de pesquisa e de aprendizagem. Os contos encantam a cada passeio que
fazemos às casas das crianças, pois os pais sentem prazer em nos presentear com suas histórias.
Afinal, o sertão é tão imenso quanto suas próprias histórias.

“Fico feliz quando vocês vão lá em casa! O pai conta histórias de suas pescarias na lagoa... percebo
que ele se sente bem com isso.”
Felipe - 12 anos

Alguns resultados já podem ser percebidos nos depoimentos das crianças e dos adolescentes, que
agora estabelecem uma relação diferenciada com a terra, percebendo a importância do sertão como
bioma e berço das águas.

GERENCIAMENTO DO PROJETO

Coordenado por um educador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), o projeto Ser
Criança conta com dez educadoras cedidas pela Prefeitura Municipal de Curvelo. Conta ainda com a
colaboração do Unibanco e da Unicef, a partir das iniciativas do projeto Criança Esperança.

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ENVOLVIMENTO FAMILIAR

O perfil das famílias que atualmente atendemos é de pais que trabalham. Em sua grande maioria, são
mães e pais divorciados que criam seus filhos sozinhos. Para acompanhar as crianças, algumas
famílias vêm ao projeto no horário de entrada, quando sempre acontece uma roda na qual
conversamos sobre as atividades feitas e as necessidades percebidas pelos familiares. Também
falamos do desenvolvimento da criança e conhecemos um pouco a história de cada um.

Quanto aos pais que não têm disponibilidade para vir ao projeto, estamos tentando agendar visitas
nos fins de semana, mas há ainda grande resistência. Buscando sanar esse problema, estamos
agendando encontros à noite, momento em que esperamos envolver os pais pouco presentes, pois
percebemos que são justamente seus filhos que apresentam grau de violência maior em relação às
demais crianças.

Uma alternativa encontrada foi o envolvimento de pais nas atividades diárias do projeto. Algumas
mães já participam, levando e acompanhando suas crianças nas atividades desenvolvidas; outras
chegam no finalzinho do dia, quando ainda podem acompanhar as avaliações e algumas conversas.
Nossa alternativa mais recente foi marcar oficinas nas casas das famílias que se mostram totalmente
apáticas.

Alguns pais estão contribuindo com o desenvolvimento de atividades nas comunidades, onde recebem
o grupo e podem conversar sobre as ações que suas crianças e adolescentes estão desenvolvendo no
projeto. A última experiência foi com o pai de Felipe, de 12 anos, que ajudou no desenvolvimento de
um micro-hábitat. A atividade contou com a doação de peixes para o lago, um passeio pela
comunidade onde residem e conversas sobre a degradação do córrego e do lago que existem lá.

Atualmente, essas têm sido as ações desenvolvidas pelo projeto para o envolvimento das famílias.

AVANÇOS OBTIDOS

• Índices quantitativos

- 5 brincadeiras realizadas diariamente.


- Utilização de no mínimo 5 jogos diariamente.
- Realização de 5 peças teatrais.

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- Realização de 1 gincana.
- 524 brinquedos confeccionados.
- Envolvimento em 2 exposições.
- Apresentação de 2 poesias.
- Confecção de 28 jogos.
- Reornamentação de 14 espaços.
- Utilização de 4 computadores e de 44 enciclopédias para subsidiar pesquisas e promover a
inclusão digital.
- Disponibilização de 50 horas de Internet para subsidiar pesquisas através do Telecentro.
- 8 passeios realizados.
- Queda de 50% nos índices de violência verbal.
- Queda de 99% nos índices de violência física.
- Produção de 8 kg de pomadas cicatrizantes.
- Produção de 5 kg de pomadas analgésicas.
- Produção de 1 kg de pomada para torções musculares.
- Produção de 4 litros de tinturas para torções.
- Produção de 5 litros de xampu.
- Produção de 1 kg de balas para inflamações de garganta.
- Produção de 1 kg de vermífugo.
- Produção de 10 litros de sorvete de mandioca na cozinha experimental.
- Criação de 5 receitas de sucos com legumes e ervas.
- Criação de 1 receita de torta de legumes na cozinha experimental.
- Reciclagem de 1 kg de papel.
- Produção de 2 murais com temas relacionados à consciência ambiental.
- Realização de 2 ruas de lazer.
- Visita às casas de 8 crianças que se encontravam evadidas.
- 94% de freqüência.
- Melhora de 50% nos índices de evasão em relação ao mesmo período de 2006.
- Exibição de 7 filmes.
- Produção de 500 kg de húmus.
- Melhora nos índices de produtividade da horta.
- Envolvimento de um centro universitário para o desenvolvimento de estudos a respeito das
tecnologias utilizadas pelo projeto.
- 100% das crianças com acesso a serviços odontológicos possibilitados a partir de parcerias.
- Envolvimento de duas mães nas atividades do projeto.
- Criação de um micro-ecossistema.

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- Encaminhamento de uma adolescente para o projeto Fabriquetas, onde receberá formação
profissional, passando a ser uma cooperada da Cooperativa Dedo de Gente.

• Índices qualitativos

- Melhora no desenvolvimento dos deveres escolares a partir das pesquisas.


- Quebra de paradigmas a respeito do sertão.
- Melhora nos índices de relacionamento das crianças.
- Aumento do grau de bem-estar das crianças e dos educadores.
- Maior envolvimento dos pais.
- Acompanhamento nutricional.
- Inovação no cardápio.
- Projeto escolhido pelo município para representação junto a outras entidades no campo social de
atendimento a crianças e adolescentes.
- Acompanhamento odontológico no campo da prevenção.
- Apropriação das tecnologias de permacultura por crianças, adolescentes e educadores.
- Envolvimento da comunidade na preservação ambiental.
- Parceria com o 4º período de Pedagogia da UNIPAC em atividades de valorização da cultura
local.
- Parceria e acompanhamento de famílias atendidas pelo projeto.
- Parceria com o Programa Sentinela.
- Diálogo e acompanhamento escolar das crianças com dificuldade de aprendizagem.
- Inclusão digital através do projeto Telecentro.

DIFICULDADES ENCONTRADAS

Nossa maior dificuldade tem sido o grande número de atividades externas desenvolvidas pela
coordenação e os atrasos na entrega das mercadorias solicitadas. Tal situação dificulta o
acompanhamento do trabalho e o seu redirecionamento, quando necessário, tornando a ação mais
traumática do que deveria ser.

Em função do atraso na entrega de mercadorias, algumas atividades deixam de acontecer, exigindo


dos educadores maior grau de criatividade, já que o problema não pode impedir que os objetivos
sejam alcançados.

Projeto Ser Criança - Curvelo /MG 15


BREVE SÍNTESE

Ao longo do trabalho, descobrimos muitas riquezas locais. É necessário refletir e agir para que
possamos ter claro o quanto são ricas as tecnologias para o desenvolvimento humano existentes nas
comunidades. Somos um povo cheio de poesia, de saber, de ritmo, de crença e de história e é por isso
que o sertão não tem fim.
Alexandre Rodrigues de Morais - Coordenador

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ANEXOS

• Índices Quantitativos da Horta - Projeto Ser Criança


Tabelas

Julho – 2007

Quantidade kg Especificação
11 kg abóbora
100,7 kg alface
9,5 kg almeirão
152 kg banana
21 kg batata-doce
0,6 kg bertalha
10,8 kg brocolis
7,9 kg cebolinha
57,7 kg cenoura
25,5 kg chicória
82,9 kg chuchu
8,8 kg couve
16 kg couve chinesa
1 kg espinafre
158 kg mandioca
5,8 kg mostarda
3 kg nabo
9,4 kg pimentão
6 kg rucula
7,9 kg salsinha
18 kg tomate

713,5 kg

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Agosto – 2007

Quantidade kg Especificação
4 kg abobrinha
13 kg acelga
1 kg aipo
36 kg alface
35 kg almeirão
127 kg banana
32 kg beterraba
7 kg brócolis
8 kg cebola
20 kg cebolinha
85 kg cenoura
8 kg chicória
34 kg chuchu
1 kg coentro
10,2 kg couve
16 kg couve chinesa
8 kg espinafre
1 kg jiló
14 kg mamão
207 kg mandioca
3 kg mostarda
13 kg nabo
4 kg pepino
11 kg pimentão
12 kg repolho
2 kg rúcula
20 kg salsa
17 kg tomate
2 kg vagem

496,2 kg

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setembro – 2007

Quantidade kg Especificação
45 kg abóbora
35 kg alface
183 kg banana
5 kg berinjela
23 kg beterraba
7,3 kg brócolis
48 kg cebola roxa
7,2 kg cebolinha
97 kg cenoura
25 kg chicória
44 kg chuchu
6,2 kg couve
2,4 kg espinafre
133 kg mandioca
5 kg pimentão
2 kg rúcula
7,2 kg salsinha
10 kg tomate

685,3 kg

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• Gráfico

Produção (kg) - Horta Projeto Ser Criança - Curvelo

julho a setembro / 07

900

800

713,5

700 685,3

600

496,2
500

400

300

200

100
julho agosto set

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