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Aresta da Intuição

Bruno Peron

ARESTA DA INTUIÇÃO

Bruno Peron

Brasil Edição do Autor 1ª Edição Julho de 2013

PERON LOUREIRO, Bruno. Aresta da Intuição. Brasil, Publicação Autônoma, Livro Eletrônico, 1ª Edição, Julho de 2013. Fonte: http://www.brunoperon.com.br.

Não é necessário pedir autorização ao autor desta publicação para consulta, gravação em disco, divulgação, encaminhamento a outros leitores e reprodução dos capítulos e trechos contidos nela desde que se atribua devidamente o crédito da obra ao autor e à fonte.

ÍNDICE

Prefácio

1

1. Rafael Correa e os rumos do Equador

5

2. Esperança remota

7

3. A subversão da cultura

9

4. Inclusão digital

11

5. Provisoriedade

13

6. Lula e o Papaléguas

15

7. Notoriedade

17

8. O dilema da Amazônia

19

9. Imaginação: o passo inicial

21

10. Do fim ao princípio

23

11. Além do Tratado de Tordesilhas

25

12. O controle da população no Brasil

27

13. Uma imagem desacreditada

29

14. A razão

do terror

31

15. Por um governo catalisador

33

16. A modernidade dos Correios

35

17. A iniciativa pela paz

37

18. O

país dos extremos

39

19. O fardo da herança

41

20. Um capital negligenciado

43

21. A

punição do bem

45

22. A

nova mercadoria

47

23. vinculação da Bolsa Governo

A

49

24. percurso das amarguras

O

51

25. O planejamento familiar

53

26. Ultraje à democracia

55

27. A ferida ambiental

57

28. Mais do

que aritmética

59

29. A batalha dos tributos

61

31.

Uma contradição insalubre

65

32. Neoliberalismo no estilo brasileiro

67

33. A balela dos alimentos

69

34. Um bom começo

71

35. A economia da informalidade

73

36. Amnésia na democracia

75

37. Liberdade e reforma no Brasil

77

38. Nem tudo se globaliza

79

39. As vias do

utilitarismo

81

40. A integração pela língua portuguesa

83

41. A mamadura e as prestações

85

42. O casulo do desenvolvimento

87

43. O

turismo que integra

89

44. Consumidor e proteção do consumo

91

45. Fundamento

93

46. Compromisso coletivo

95

47. A pechincha contagia

97

48. O diabo e a Igreja

101

49. Fronteiras transgredidas

103

50. Ato reflexo

105

51. Destino material

107

52. Sopa de letrinhas

109

53. Rodada Doha e a boneca inflável

111

54. Nascer, crescer e morrer

115

55. História do Mundo Velho

117

56. Fisionomia do desconhecido

119

57. O colapso previsível

123

58. Governo e aspectos do lazer

125

59. Movimento do rato

129

60. Gestão da água

131

Aresta da Intuição

PREFÁCIO

A resta da Intuição reúne os artigos que escrevi entre janeiro de 2007 e outubro de 2008. Publiquei boa parte deles na imprensa brasileira

enquanto tive minha primeira experiência vivendo no exterior. Cheguei ao México em março de 2007 e vivi pouco mais de dois anos na capital deste país. A primeira diferença que senti foi a ampliação de perspectiva para pensar sobre o Brasil, a América do Sul e o mundo. Por vezes, acredita-se que não se pode aprofundar os conhecimentos sobre um país sem estar nele; no entanto, muitos se informam melhor sobre o Brasil

desde o exterior do que se estivessem no próprio país. Esta é uma facilidade que nos traz a Internet, embora alguém me pediu para desconfiar dela porque transforma a realidade em informação.

Naquele período, guiei-me pela intuição na escolha de temas básicos e diversos para a redação dos meus artigos, tais como transporte urbano, saneamento básico, descentralização do turismo, controle populacional, meio ambiente e saúde pública. A intuição me orientou a discutir temas comuns que estavam em evidência nos meios de comunicação; senti que não poderia aprofundar outros assuntos sem expor minha posição sobre o papel do Estado e do mercado nos temas em pauta. Minha autocrítica, alguns anos mais tarde, é que acreditei mais do que deveria na boa vontade de poucos gestores e na idealização dos governos. Hoje desconfio da capacidade de transformação social de medidas que se orientam de cima para baixo, ou da cúpula à base. Este sentido de ação poucas vezes muda a mentalidade das pessoas para que o desenvolvimento sustente-se e reproduza-se pela própria sociedade.

Penso, desta maneira, que o Estado deve buscar mecanismos de resposta da população às suas políticas para que estas sejam duradouras e tenham êxito. Não creio, porém, que a maior parte dos governos tenha preocupação com a sustentabilidade de seus programas políticos e de suas políticas públicas em prazos longos. Ao contrário, a ostentação de dados e

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estatísticas de políticas de prazo curto é o que mais caracteriza as disputas eleitorais, onde candidatos que não querem deixar o poder tiram um braço de ferro sobre a mesa do interesse público. Aspectos teóricos e pragmáticos guiam as políticas. Por isso recomendo que o desenho de políticas públicas faça-se dentro da moldura de questões filosóficas (neste livro, menciono os textos “Provisoriedade”, “Notoriedade”, “Imaginação”, “Do fim ao princípio” e “Fundamento”). Não há que perder de vista que o homem é um animal político que atua entre a falibilidade e a realização.

Um dos denominadores comuns dos meus textos ao longo de 2007 e 2008 é a crença nas instituições políticas como se compusessem uma religião. Há seres humanos que trabalham para o funcionamento destas instituições e outros que as paralisam. Por ter dito que o ser humano é falível, a intuição é uma ferramenta que pode orientá-lo a avanços notórios ou, de maneira diferente, a equívocos que atrasam toda uma sociedade. Por isso a intuição não é um peso definitivo na tomada de decisões, embora ofereça caminhos por vezes satisfatórios. Há que contrapesá-la com o bom senso e a razão.

Minha crença excessiva nas instituições políticas começou a perder vigor quando passei a entender o Brasil cada vez mais em sua relação com o mundo. O fortalecimento institucional deste país seria só o começo de uma briga que envolve a mudança de mentalidade dos brasileiros e a reorganização da ordem global. Começa-se pela valorização do nosso país e das culturas que o caracterizam. Por isso, escrevi minhas primeiras ofensivas contra o ibero-americanismo (“Além do Tratado de Tordesilhas”, “Nem tudo se globaliza” e “História do Mundo Velho”). Segui também minhas críticas aos Estados Unidos, a cria europeia que mordeu seu criador.

A modernidade tem duas faces na América do Sul. A primeira é o sucesso relativo do desenvolvimento das instituições políticas que tanto enfatizei, ao passo que a segunda aparece nas contradições sociais desta região. Uma destas, para dar um exemplo, é o fato de o Catolicismo (ver texto “O diabo e a Igreja”) ter trazido lições importantes sobre a coesão

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familiar nas sociedades modernas, enquanto destruiu práticas religiosas indígenas e cometeu outras atrocidades contra a humanidade. Por isso, há que exigir responsabilidade espiritual (ver “Destino material”) do gestor e do político a fim de que o materialismo e o egoísmo não dominem suas práticas e de que o bem coletivo seja sua grande meta.

Pude comparar, desde minha experiência no Brasil e no México, caminhos da modernidade que se seguiram distintamente nestes dois países latino-americanos. Toda lição que tirei do caso mexicano algumas positivas e outras negativas ajudou-me a pensar em como o Brasil poderia melhorar. Os liames da modernidade determinam que cada país se institucionalize e cuide de políticas públicas em setores comuns e equivalentes; noutras palavras, quase todo governoquer promover o turismo, aumentar as exportações, melhorar o saneamento básico, e proteger as fronteiras do país. Daí a tendência de que os modelos repitam- se noutros lugares e tenham algumas variações de adaptação.

Na medida em que a modernidade é um projeto comum que os colonizadores europeus aplicaram em toda América, nada impede que a integração da América do Sul se faça também com ideias e propósitos compartilhados entre seus líderes. Analisei, por este motivo, alguns acontecimentos de países vizinhos a partir dos quais se poderia pensar o Brasil; alguns destes textos são “Rafael Correa e os rumos do Equador” e “Fronteiras transgredidas”. Tanto as relações fronteiriças como os resultados de eleições presidenciais influem nos processos de integração que frequentemente mencionei e defendi naquele período.

Estou ciente de que algumas das ideias que sustentei em 2007 e 2008 poderiam sofrer mudanças ou amadurecimentos com o passar do tempo. Enquanto deixei de criticar o uso individual do automóvel em “O colapso previsível”, ultimamente tenho sido favorável ao uso do transporte coletivo por todos. Não me conformo com norte-americanos dirigindo sós seus veículos espaçosos enquanto sul-americanos comprimem-se em ônibus velhos para ir ao trabalho. Ônibus e trens eficientes trariam melhora de qualidade de vida inclusive àqueles que sempre tiveram o

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hábito de dirigir automóveis. Deste modo, reconheço que emiti opiniões que suscitam debates intensos e posturas discordantes. É inevitável que alguma polêmica irrompa do meu estilo franco de opinar.

Por fim, minha credulidade no aperfeiçoamento das instituições políticas modernas não contava com um esclarecimento que mudaria minha interpretação do Brasil nos anos subsequentes a estas publicações. Passei a entender bem o significado de uma expressão sorrateira e comum nos meios de comunicação: “vontade política”.

Bruno Peron Loureiro Londres, 12 de julho de 2013.

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1. Rafael Correa e os rumos do Equador

A ssim que o economista Rafael Correa assumiu a presidência do Equador em 15 de janeiro de 2007, ele expôs as metas principais de

seu governo no que chamou de “revolução cidadã”. Esta proposta ideológica pretende mudar o sistema político, econômico e social vigente

no Equador de modo a reduzir os problemas maiores apontados pela população, que são a corrupção, a pobreza e o desemprego, pois há tempos o país não colhe os resultados que seu povo merece.

O Equador, que possui pouco mais de treze milhões de habitantes, tornou-se independente em 1830, atravessou uma ditadura na

década de 1970 e, desde então, mais de uma dezena de presidentes corroboraram a instabilidade política e institucional que tem caracterizado

o

país.

Embora a aprovação do presidente eleito seja alta em sua nação

e

agrade a alguns líderes latino-americanos, sua aceitação não deve ser

vista com tanto otimismo. Tal desconfiança deve-se à oposição, já que o

novo titular do Congresso negou-se de antemão a colocar-lhe a faixa presidencial na cerimônia de posse. O atenuante disso é que o procedimento fundamental se resume no juramento de submissão à Constituição vigente, que tolera e abafa as inevitáveis dissidências partidárias.

Ademais, antes de ser eleito, o presidente afirmou que nunca se aliaria com banqueiros nem com quem tem as mãos manchadas de sangue. Sua postura é, da mesma maneira, radical em relação aos tratados de livre comércio tão apregoados pelos Estados Unidos.

Correa, ao assumir o poder, alegou que o neoliberalismo não foi uma solução aos problemas equatorianos, aceitou a réplica da espada de Simón Bolívar doada por Hugo Chávez (presidente da Venezuela), e recebeu o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad em Quito numa

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demonstração convicta de que finalmente o Equador seguiria um plano de desenvolvimento autônomo e condizente com as necessidades de seu povo.

Contudo, estes fatos não agradam aos Estados Unidos em sua pretensa função de patrono continental. Analistas estadunidenses julgam que Correa levará o Equador pelo caminho anti-americano, autocrático e socialista semelhante ao que Chávez tem conduzido a Venezuela.

Tanto no Equador quanto na Bolívia, o fôlego dos índios tem sido grande, já que, no Brasil, boa parte foi dizimada. A intimidade programática que há entre Rafael Correa, Evo Morales e Hugo Chávez conduz ao sintoma de um projeto de América Latina que só se concretizará e renderá bons resultados se seus interesses forem mais convergentes e nítidos, visto que, entre as nacionalizações e as estatizações, não se tem certeza de nenhum futuro.

A fuga do modelo econômico neoliberal por parte destes governantes é um dos fatores que excluíram os países da América Latina da lista dos mais promissores no debate do encontro anual do Fórum Econômico Mundial realizado em 24 de janeiro de 2007 em Davos, na Suíça. Houve, no lugar, destaque à atuação econômica de China e Índia.

Até o presidente dos Estados Unidos parabenizou amistosamente a vitória de Rafael Correa pelo telefone, embora sem deixar de se referir ao triunfo da democracia e de fazer um pedido de estreitamento dos laços entre os dois países, visto que, na diplomacia, admitem-se abalos, mas não ruínas.

Entretanto, enquanto George Walker Bush perde vertiginosamente popularidade em seu país devido à guerra no Iraque, Correa ganha no Equador uma aprovação praticamente unânime e revela, em sua personalidade, os anseios de um segmento da América Latina que, por muitas vezes, manteve-se calado.

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2. Esperança remota

O Brasil tem pouca perspectiva de mudanças em 2007 devido ao quadro político em vigor e ao descrédito com que a população

enxerga-o, mesmo que tenha escolhido boa parte dele. A política define os rumos da vida em sociedade desde a qualidade da infraestrutura em saneamento básico no bairro até o valor dos impostos que pagamos ao

comprar alimentos ou ter uma moto e uma casa.

Por falta de tempo ou disposição, poucos relegam seus interesses particulares para conhecer as propostas dos candidatos a um cargo eletivo ou para informar-se sobre o que está acontecendo no cenário político nacional. É válido o apelo que a Justiça Eleitoral fez nas eleições passadas de que “o Brasil está em suas mãos”.

A administração do governo Lula criou a Política de Aceleração do Crescimento (PAC) com o objetivo de reduzir a imagem denegrida que teve na gestão anterior devido ao baixo crescimento do Brasil, além de, é claro, cumprir com o que diz a própria sigla com R$ 503,9 bilhões em investimentos até 2010.

No entanto, a vanglória de que o país nunca ofereceu tanto crédito em periódos anteriores não é motivo para termos orgulho do governo Lula. Para começo de conversa, crédito é sinônimo de dívida e esta indica a tendência de que os brasileiros continuem sem ter condições de pagar à vista.

Há épocas em que se tem dificuldade de escolher políticas para o

exercício saudosista do elogio devido à abundância das que o merecem, enquanto, em outros momentos, o melhor é elogiar, ou talvez seja bajular, aquilo de que quase ninguém se dava conta.

O Brasil, até pouco mais de vinte anos atrás, padecia de uma

ditadura militar, embora eu já tenha notado na televisão um parlamentar

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dizendo que a “tradição democrática” deste país deve servir de exemplo aos demais. Nas eleições anteriores, alguns candidatos mantiveram seus cargos políticos, embora tenham sido acusados de corrupção (comprovada nalguns casos).

Os debates, que se têm realizado na televisão com tempo cronometrado, e as propostas e programas políticos, que não se discutem muito, minaram o direito da população de conhecer a competência dos candidatos como administradores públicos e, finalmente, substituíram a época em que se acreditava na democracia.

Atualmente, a fração do tempo em que se discutem propostas é ínfima perto das acusações e máculas feitas aos outros partidos. O que não pode haver é um total desmerecimento da política brasileira, embora a saída do beco esteja bem estreita.

O problema é que muitas pessoas continuam votando em prol

da satisfação quase instantânea de interesses oferecida a elas pelos candidatos. Enquanto isto, uma minoria eleitoral vota naqueles que garantam os rumos do país a longo prazo, reduzam efetivamente a pobreza e ofereçam educação de melhor qualidade.

O país ainda levará décadas para endireitar-se quando acertar o

caminho. Enquanto a sociedade brasileira não se interessa nela mesma como coletividade, a esperança de um país melhor continuará remota, mas não impossível.

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3. A subversão da cultura

A cultura tem-se mostrado cada vez mais subvertida. Desde os bens materiais que consumimos até a forma de vida que levamos, deve-se

ter em consideração que a cultura, ao mesmo tempo que é instrumento de

afetividade, solidariedade e reconhecimento, frequentemente arruína, destrói e desordena segundo o que fazemos e queremos dela. Vejamos algumas de suas apropriações.

As estantes de supermercados compõem-se de produtos saudáveis, mas também de outros que são nocivos e insalubres, enquanto há marcas que priorizam a qualidade das embalagens em vez da qualidade do produto na guerra da concorrência no mercado; as farmácias possuem medicamentos receitados para curar enfermidades, mas também apresentam produtos que podem provocá-las; outros pensam que têm que embriagar-se para se divertirem.

O consumo cultural, em vez de ser incentivado e realizado em

função do envolvimento democrático da população no acesso ao cinema, teatro e lazer, tem sido conduzido em relação estreita às leis do mercado. Ainda, a Internet é recurso para acessar um infinito banco de dados mundial sobre temas variados, porém também é o meio onde se difundem vírus destruidores e mensagens indesejadas e onde se roubam senhas de

cartões e bancos.

O acidente que envolveu o avião da Gol e teve mais de 150

vítimas em setembro de 2006 foi o estopim de uma grave crise de aviação no país e a especulação oportunista de muitos advogados com as famílias das vítimas a fim de tentar extrair dinheiro da empresa aérea por meios judiciais. Assaltos fulminantes executam-se em semáforos e acidentes de trânsito maculam as cidades. Este mundo favorece a subversão cultural em detrimento de uma cultura mais justa; ou, ao menos, dá-lhes a condição do livre arbítrio.

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A Cúpula do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), realizada

no Rio de Janeiro em janeiro de 2007, contou com um aparato de segurança extraordinário para os padrões cariocas, o que deixou a população segura por tempo limitado. Na cidade de São Paulo, foi votada e autorizada uma lei municipal proibindo a fixação de cartazes. Por um lado, os urbanistas alegam que a beleza e a visibilidade urbanas melhoram com a nova lei, mas, por outro, afirma-se que a medida prejudica este segmento do mercado. Se tudo virar lucro, contudo, chegaremos a um nível insustentável.

Os noticiários apressam-se a transmitir notícias trágicas e comoventes, pois, de outro modo, alega-se que não alcançariam o público desejado. Exibiram-se cenas do enforcamento de Saddam Hussein e do suposto avanço da democracia no Iraque, o que não corresponde à realidade tampouco esclarece que o maior ditador da história da humanidade ainda está no cargo de presidente dos Estados Unidos e ordenando massacres contra a população civil no Afeganistão e no Iraque sob as vestes da democracia.

O ser humano, ao mesmo tempo que pode amar, também tem a

capacidade de odiar, mentir, delatar e matar. Isto confirma os dizeres do antropólogo francês Edgar Morin, para quem o homem é, ao mesmo tempo, uno e múltiplo. Somos resultados e artífices de uma cultura, ou seja, temos condições de reproduzi-la e criá-la, mas, da mesma maneira, de subvertê-la. Reconhecer os pontos de subversão da cultura é uma tarefa preliminar para reverter uma situação que, por enquanto, ainda está sob controle.

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4. Inclusão digital

S egundo o estudo do Comitê Gestor da Internet no Brasil divulgado em 2006, 54% da população brasileira nunca usaram um computador

e uma percentagem ainda maior nunca acessou a Internet. Também se

revelou que 90% dos brasileiros que têm acesso à rede pertencem às

classes mais altas (chamadas A e B).

A inclusão digital nada mais é do que uma maneira de estender o alcance dos meios informatizados de comunicação ao segmento da população que ainda não usufrui deles, sobretudo os de menor renda ou os moradores de zonas periféricas e rurais.

Atualmente se discute a democratização da Internet e seu acesso também por idosos e pessoas com deficiência física. O presidente Lula refere-se à inclusão digital como um dos caminhos para a inclusão social, contudo ainda incipiente. Uma das sugestões de sua administração é oferecer crédito para a compra de computadores por preços mais acessíveis pelo Projeto Cidadão Conectado Computador Para Todos. Além disso, o governo federal tem planos de levar, até o final de 2010, Internet de alta velocidade a 16 mil escolas do ensino médio.

Para este objetivo, articulam-se o Ministério das Comunicações,

o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério do Planejamento. Por

exemplo, o Governo Eletrônico e Serviço de Atendimento ao Cidadão (GESAC) disponibiliza o acesso à Internet rápida via satélite e demais

serviços de inclusão digital para entidades da sociedade civil, como escolas

e telecentros. A iniciativa traz resultados bons, mas ainda longe do ideal de ressocializar os cidadãos de baixa renda.

Ademais, o programa federal de inclusão digital tem sido conduzido de modo a reforçar a marca do governo Lula. No entanto, facilitar o acesso à Internet não se traduz diretamente a receber educação de qualidade, visto que não se trata apenas de reduzir a distância entre a

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tecnologia e o público consumidor. Em outras palavras, é como dar uma bicicleta a quem não saberá pedalar, ou pedir para um professor dar uma aula sem que conheça minimamente a matéria sobre a qual lecionará.

Trata-se de um preparo que deve anteceder a inclusão digital para que o uso dos novos meios de comunicação seja cada vez mais apropriado e pedagógico de acordo com o perfil de cada um. É necessário um acompanhamento de técnicos e especialistas. De qualquer maneira, o usuário costuma acessar a Internet atrás daquilo que lhe desperta afinidades, ao contrário do que defendem alguns por meio do discurso de que o internauta invariavelmente se globaliza, pois o usuário se conecta e busca majoritariamente aquilo de que já gostava.

A inclusão digital oculta outros interesses, tais como os de empresas provedoras de acesso ou os da publicidade, portanto quem não acessa a Internet não está necessariamente excluído ou atrasado. A inclusão digital poderia ocorrer mais eficientemente se ficasse a cargo do setor privado. O governo deveria promover e regular a inclusão digital, porém não financiá-la como tem sido feito. O ideal seria oferecer condições melhores, abolindo impostos e estimulando a iniciativa de pequenos empreendedores, o que geraria empregos e expandiria os projetos de inclusão digital e, por que não, inclusão social.

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5. Provisoriedade

P rovisoriedade é o caráter de tudo aquilo que é transitório, passageiro, dura pouco ou passa rápido. Os exemplos estendem-se

desde produtos e bens materiais até a maneira como julgamos alguém e entendemos o mundo. Alimentos têm curta duração e perecem, outras coisas enferrujam, apodrecem e sucumbem, enquanto as pessoas regularmente mudam os conceitos que têm umas das outras a partir de quando se consegue pensar do ponto de vista alheio. É necessário que exista mudança e as ideias fluam. Que mais é provisório?

O corpo físico é um empréstimo, ao contrário do que pensa muita gente. Há pessoas que nem por isso zelam, pois se entregam a excessos, vícios e atividades perigosas e malfeitoras; esquecem-se de que depois prestarão conta do que fizeram com seu corpo físico, como através do arrependimento e dos dissabores da vida. Esta, aliás, é o que existe de mais passageiro do ponto de vista da eternidade, mesmo que as experiências que nos trazem a memória sejam tantas que nos façam pensar que a vida em si já é uma eternidade.

Relacionamentos fazem-se e desfazem-se constantemente. No tempo em que alguns amigos permanecem unidos por décadas, colegas desaparecem no horizonte como se nunca tivessem existido. Apegos, carícias e namoros são conduzidos por tempo indeterminado ou enquanto a conjugação de eventos a seu favor sustentá-los. Frequentemente pode ocorrer de os lados se afastarem como se nunca se tivessem conhecido. As dimensões do provisório e do imprevisto, muitas vezes, combinam-se.

Contatos na escola, na universidade e no trabalho se renovam, enquanto outros se mantêm. Tudo leva a crer que as etapas se esgotam e são substituídas por outras, como uma roupa que não serve mais e, portanto, deve ser trocada. A vida é um desgaste, mas é útil para alguma coisa; este reconhecimento tem maior intensidade se entendermos que

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tudo tem uma razão de ser que ultrapassa a lógica pueril e rudimentar da humanidade. Todos têm algo a ensinar e a aprender, o que justifica a transitoriedade ou a manutenção dos contatos.

Nossa passagem por lugares físicos (que nos são familiares ou turísticos) é também transitória, pois nunca se sabe se, anos mais tarde, eles ainda estarão lá, visto que as coisas mudam rapidamente nestas sociedades que valorizam a velocidade de reconstrução e a eficiência da ação. O mercado nos impõe que façamos tudo com prontidão, enquanto a natureza nos sussurra que as coisas são provisórias e se renovam, devendo os elementos químicos reorganizar-se em novos arranjos. Entre um suspiro e outro, o intervalo é o da provisoriedade.

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6. Lula e o Papaléguas

N ovamente o nosso Coiote não capturou o Papaléguas. Poderíamos representar este por George Walker Bush, que é presidente do país

mais poderoso do mundo e onde seu modelo de desenvolvimento implica a submissão de muitos outros países. O Brasil escolheu a via energética, ou seja, ao mesmo tempo em que o nosso governante pôs em plano secundário a questão com a Bolívia envolvendo a nacionalização da Petrobrás dizendo que o fez para o bem do povo boliviano, agora ele quer

transformar o Brasil num polo (ou, melhor dizendo, quintal) de produção em massa de etanol como fonte alternativa de energia.

A principal pergunta que se coloca é: e os brasileiros, como se beneficiariam desta política energética? Querem aumentar a área do país em que se produz cana-de-açúcar a fim de gerar mais etanol comercializável. Entretanto, o preço deste produto será determinado em função das leis de mercado, em que interferem o período entressafras e a demanda internacional se for exportado. Em outras palavras, o brasileiro que comprou um veículo bicombustível continuará tendo que fazer o cálculo dos 70% no valor para ver se compensa abastecer com álcool ou gasolina.

Enfim, não deveriam ser tão caras estas modalidades de combustível num país que, como gosta Lula de declarar publicamente, atingiu autossuficiência em petróleo com a Petrobrás e tem desenvolvido pesquisas envolvendo o álcool como fonte alternativa de energia. Um trabalho do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) indicou que o Brasil poderá, até 2025, fornecer quantidade de álcool tal que substitua 10% do consumo mundial de gasolina. A era dos grandes cafeicultores será suplantada pela dos usineiros da cana.

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A paisagem de muitas regiões brasileiras já é caracterizada pelas

plantações de cana-de-açúcar, que degradam e desequilibram o meio ambiente, além de o turismo ecológico ficar em desvantagem. Ademais, emerge com mais vigor o problema das queimadas das lavouras, que contaminam as cidades próximas, e o da exploração da mão-de-obra dos trabalhadores rurais, muitos dos quais migram de regiões mais pobres do país em busca de trabalho. O que torna a situação mais crítica é que é necessária uma área de plantio de cana-de-açúcar muito grande para gerar quantidade satisfatória de álcool.

A visita de Bush ao Brasil em março de 2007, ao mesmo tempo

que provocou manifestações de repúdio no país, deixou uma mensagem para que continuemos na via agrícola e sejamos a roça dos países desenvolvidos. Este desenvolvimento ocorre ao passo que estes devem continuar vendendo carros e computadores com altíssimo valor agregado e a troco de toneladas de soja e litros de álcool. O Brasil insiste no caminho do desenvolvimento quantitativo e submisso, e, ainda que com muito suor, investe pouco na diversificação tecnológica e no financiamento de seus cientistas. Enquanto isso, o nosso Coiote continuará caindo nas próprias armadilhas.

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7. Notoriedade

A maior visibilidade de ação filantrópica e de conscientização humana e ambiental no mundo ocorre através de personalidades famosas,

que têm um papel crescente nos meios de comunicação. Eles divulgam a necessidade de nos preocuparmos com a fome na África, o extermínio da floresta amazônica, o desalojamento de pessoas vitimadas por inundações, e a guerra travada em alguns países como Líbano e Iraque. Por um lado, a evidência dos fatos é tamanha que o apelo solidário mundial torna-se urgente, e, por outro, este apelo tem sido praticado sob o amparo da notoriedade, quando uma situação vira problema em decorrência de seu anúncio por alguém tido por importante.

Os exemplos são infindáveis e variam desde jogadores de futebol até empresários da informação e cantores renomados. O cantor Bono Vox, do grupo U2, frequentemente conscientiza seus fãs e espectadores sobre problemas da humanidade, como através da luta contra a pobreza mundial que o levou a ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 2006. Além disso, seu envolvimento em campanhas de auxílio a países pobres estende-se à promoção de eventos, concertos e ações de erradicação da pobreza, sobretudo no continente africano. Paul McCartney está nessa também. É claro que toda ajuda é bem-vinda.

Recorda-se uma gravação de Tim Maia falando francamente sobre as desigualdades no Brasil enquanto estava na praia da Barra da Tijuca; não tem Domingão em que Faustão deixe de fazer qualquer apelo humanitário; Michael Jackson compôs a canção “We are the world” com outros cantores famosos; Bill Gates doou cem milhões de dólares para ajudar no combate à AIDS/SIDA na Índia, entre outras doações, e foi considerado a pessoa mais generosa com instituições de caridade nos Estados Unidos segundo a revista “Business Week”; até as personalidades de torneios de pôquer beneficiam instituições de caridade. O eco de

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algumas dessas pressões internacionais.

O fato de essas pessoas serem notórias permite que seus apelos e

mensagens sensibilizem com maior eficiência. Afinal, quem é mais convincente às massas: uma personalidade famosa falando na televisão ou uma pessoa desconhecida? Ademais, é muito fácil comentar sobre alguma mazela ou deficiência do mundo sem ter muita ideia do que está falando, nem estar lá para ver como é, embora muitos estejam cientes da situação a que se referem. A partir disso, citam-se alguns absurdos que se ouvem sobre a guerra no Iraque (entendida como se fosse uma partida de video game) ou métodos de combate à violência no Brasil (como se só se tratasse

de aumentar o número de policiais nas ruas).

A contribuição dos notórios é valiosa e necessária. A confusão

que não pode existir é a de acreditarmos que a caridade só pode ser feita

se tivermos muito dinheiro ou se formos famosos. Na verdade, não é isto

grupos

alcança

as principais organizações e

que vale, pois é muito fácil que os mais ricos canalizem parte de seus ganhos para instituições filantrópicas ou que o notório diga que condena as guerras. O problema é quando a caridade se transforma em artifício para

que o artista fique ainda mais famoso e se destaque por suas ações, visto

que a fama é inusitada e venerada, portanto tudo que disser terá impacto.

O mundo precisa deles, mas, acima de tudo, de todos os demais para que

pratiquem ações notórias por sua própria natureza.

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8. O dilema da Amazônia

A Amazônia continuará sendo nossa até que a destruam inteiramente. E tudo leva a crer que ela corre o risco de chegar a este ponto. A

maior discussão que se trava é sobre se a Amazônia deve ser internacionalizada, embora este processo carregue o estigma aparente de que seria, então, colonizada ou de que pertenceria a outros países. Entretanto, nosso receio já é realidade, pois estrangeiros entram e saem facilmente através de suas fronteiras porosas com Colômbia e Peru, entre outros países, e espécimes de plantas e animais são levados às nações de origem de cientistas visitantes para que realizem investigações de ponta. Depois nos venderão produtos patenteados e caros feitos com matéria- prima brasileira.

A Amazônia nao é só “pulmão do mundo” ou “santuário ecológico” como dizem, mas guarda riquezas pelas quais, cedo ou tarde, as nações pelearão, como a água doce. No entanto, a dificuldade reside em trabalhar o ouro por quem nao é ourives, ou seja, como poderíamos imaginar que um governo que não consegue nem acabar com a fome e o sub-emprego, que são males de um país subdesenvolvido, envie tropas para vigiar a enorme fronteira amazônica e puna os responsáveis pelo desmatamento ostensivo. Nem os Estados Unidos, que possuem melhores aparatos de defesa nacional, conseguem evitar a passagem frequente e arriscada de pessoas indocumentadas vindos do território mexicano, embora sua fronteira com o México tenha mais de três mil quilômetros.

A devastação da flora e da fauna é tão grande em alguns países que provoca o aumento de organismos não-governamentais e internacionais, como o Greenpeace, lutando pela causa ambiental e propondo soluções que transcendem o âmbito nacional. Além da destruição ecológica que se vê no Brasil, como é possível identificar pela comparação de imagens em semanas diferentes no Google Earth (programa na Internet que fornece imagens do planeta via satélite), outro fato

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chocante é a chacina de milhares de focas no Canadá, onde 40% destes animais explorados têm sua pele extraída enquanto ainda estão vivos.

No Brasil, trata-se de reconhecer que diariamente se reduz uma gigantesca porção da floresta amazônica, como se constata também pelas imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Em alguns estados como o Maranhão e o Pará, o poder da máfia madeireira é tão forte que policiais recebem ameaças de morte quando realizam fiscalizações, além de que mal possuem estrutura para alcançar esses locais, que, em geral, são pouco acessíveis. Por fim, a madeira é comercializada e o terreno, em alguns casos, aproveitado covardemente para o plantio de soja e a pecuária.

Estamos, portanto, diante de duas posições: uma é a de continuar tendo soberania plena sobre uma Amazonia que poderá não ser mais o que era e, logo, onde pouco nos restará; e a outra é a de que nosso governo autorize maior intervenção de organismos internacionais responsáveis pela proteção do meio ambiente. Não se trata de vender este território como apregoam alguns. Se fosse assim, então já nos teriam pago as primeiras parcelas. Trata-se de formular novas estratégias para preservar tamanho patrimônio. Se o Brasil optar pela plena soberania sobre a Amazônia, então que, ao menos, cuide bem do que é seu.

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9. Imaginação: o passo inicial

A imaginação é ponto de partida para que alcancemos os objetivos traçados e um mundo melhor, porém sem aquela retórica vã e

utópica presente em alguns discursos que, no fim, conforma-se com as

coisas do jeito que são. Imaginar nem sempre é aceitar, tampouco é consentir. Esclarecerei o aspecto daquilo que ainda está para ser

construído, seja como ideal individual ou coletivo. E o critério para isto é

a forma como se imaginam as coisas, as situações e o futuro delas.

Imaginamos governantes melhores e que nos tirem da areia

movediça social em que se encontra o país; imaginamos um patamar de relacionamento humano isento de hipocrisia, inveja e rancor; imaginamos

o dia em que poderemos sair de casa sem o receio da violência e de termos

nossos pertences roubados, e a época em que portões e chaves serão coisa

do passado, pois a confiança será o valor norteador; imaginamos uma apropriação dos recursos naturais amparada num desenvolvimento sustentável; imaginamos o dia em que a guerra não terá vez nem como opção última da diplomacia. E o leitor pode completar este espaço com o que mais imagina

Nesta ocasião, apresenta-se a possibilidade de conciliação entre

o que se quer e os instrumentos que se têm em mãos para construir este

cenário a fim de obter êxito em qualquer meio, seja na família, no trabalho e na nossa função social e política. Quando não temos alguma coisa, ao menos a imaginamos. Quando desejamos e idealizamos algo, inicialmente a imaginamos. Boa parte de tudo que é construído já foi um dia imaginado. A ideia é a de unir as forças criadoras e idealizadoras com

as condições materiais e práticas para obter resultado. Ou, ao menos, usar

a imaginação como artifício de motivação.

formar entre a imaginação e a

prática?

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consecução,

Qual é

em

o

elo que podemos

outras

palavras,

como

por

tudo

isto

na

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Primeiramente, tomaremos consciência de que as funções individuais interferem nas coletivas; e, a partir daí, lutaremos contra as forças que obscurecem o senso de união e fraternidade. Todavia, a imaginação não é só atributo dos interventores nobres e etéreos, o que de certa maneira confirma que não há privilégio neste mundo a não ser nas aparências, mas é aquilo que nós mesmos imaginamos e cultivamos.

Sergio Bagú, historiador e sociólogo argentino, afirmou que a experiência histórica é importante desde que seja examinada com imaginação, ou seja, desde que pensemos numa história de possibilidades e não de fatalidades. Por sua vez, não é demais comentar a angústia do escritor mexicano Octavio Paz em seu livro O labirinto da solidão, onde expressou que o valor supremo não é o futuro, que é um tempo falaz que sempre nos diz “ainda não está na hora” e nos nega, mas sim o presente, pois o homem quer agora o que quer de verdade.

O mundo moderno e todas as suas intempéries exigem que se imagine uma forma de entrar e sair dele. A imaginação é o passo inicial.

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10. Do fim ao princípio

V ários são os fatos que nos remetem ao princípio do curso normal dos acontecimentos; por vezes, o exercício da paciência desilude nossa

sensação de maturidade. Quando achamos que já vivemos e conhecemos o suficiente, descobrimos que ainda há muito mais a ser explorado como experiência e conhecimento adquirido. Frequentemente, temos que revisitar lugares pelos quais já passamos ou voltar a ser crianças pelo simples fato de que sempre haverá algo ainda desconhecido e inexplorado na dinâmica que nos circunda.

Quando iniciamos um ano novo, comemoramos o fim daquele que se foi e o princípio do que adentra, ou seja, estávamos terminando e logo optamos pelo reinício; a vida dos estudantes não é muito diferente, pois seguem aprendendo conceitos avançados de matemática e física, mas eventualmente devem recorrer aos seus princípios por não se lembrar de fórmulas básicas ou quando devem fazê-lo nos cursos preparatórios para vestibular, que seguem uma ordem didática de um princípio a um fim. Não são poucos os exemplos que se podem dar.

Muitos decidem mudar de profissão durante os estudos universitários ou depois de algum tempo de experiência laboral; outros, de maneira semelhante, aventuram-se a realizar cursos universitários quando a senilidade provoca a dúvida entre os colegas de classe sobre por que decidiram fazer um curso superior após a idade avançada. Todos terão que, de qualquer modo, retornar ao princípio, numa situação ou noutra. E sem contar as diferentes circunstâncias com que ainda não aprendemos a lidar: numa discussão, por exemplo, vale mais a pena ser calmo que impulsivo.

Como se não bastasse, até para conhecer uma cidade e seus pontos turísticos nunca temos certeza se o fazemos de um início esclarecedor a um final mais aprofundado, ou seja, sempre que passamos

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por algum lugar outras vezes descobrimos informações novas (inclusive fundamentais). Sabemos como chegar a tal avenida, mas negligenciamos onde e por quem a cidade foi fundada. Voltamos também ao início quando temos filhos ou netos, visto que regressamos ao cenário de brincadeiras, jogos, dizeres e parques de diversões. É disso que se trata trilhar o caminho inverso.

E inversão não quer dizer regressão evolutiva e perda de tempo. Ao contrário, este processo traz o significado de que, por mais que acreditemos que vivemos, experimentamos e aprendemos tudo que é possível, sempre haverá um algo mais que nos fugiu da apreensão, mas que ainda nos oferece a oportunidade de fazê-lo e vivê-lo. Nunca é tarde para uma revisão, ou uma escapada do fim ao princípio, pois esta atitude nos permite, com maior clareza e profundidade, saber em que solo pisamos e por que, enfim, o reinício vale a pena.

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11. Além do Tratado de Tordesilhas

E m 1494, Portugal e Castela (parte da atual Espanha) firmaram o Tratado de Tordesilhas, através do qual partilharam-se territórios da

América. Acordaram que as terras que estivessem além de 370 léguas das ilhas de Cabo Verde pertenceriam aos espanhóis, ao passo que os portugueses ficariam com as localizadas antes. Hoje a disputa comercial é pelo mercado consumidor e a Espanha entra destemida por meio dos serviços oferecidos pela Telefónica, para citar apenas o ramo da telefonia. Entretanto, nosso governo tem fechado os olhos para o fato de que o povo

brasileiro já nao quer servir mais aos interesses de fora e, por isso, necessita obter mais autonomia com os recursos próprios.

A privatização da TELESP (Telecomunicações de São Paulo) ocorreu num momento em que era demorado e caro obter uma linha telefônica, contudo os preços dos planos mensais eram mais baixos e estáveis. Um benefício equilibrava a deficiência, visto que o governo nao tinha muitas condições de investir na infraestrutura de telefonia. Até que apareceu a solução de que a empresa fosse vendida rapidamente. No entanto, depois do estabelecimento da transnacional, os usuários manifestam sua angústia. Neste país, ao contrário de o próprio brasileiro conduzir os remos da nação, algumas empresas tomam decisões importantes, que nem sempre sao favoráveis ao anseio da população.

Os governos anteriores, com o objetivo de evitar a ampliação de sua presença no setor produtivo e arrecadar fundos para reduzir a dívida interna, acabaram privatizando empresas que manejam recursos estratégicos no país, como as dos setores de siderurgia, mineração, química, eletricidade, ferrovia, finanças e telefonia. Este processo foi estimulado a partir do Programa Nacional de Desestatização (PND), que se criou em 1991. Muitas delas davam lucros elevados, embora a publicidade que se fez na época dissesse que não. Ao arbítrio das administradoras de capital estrangeiro, poderíamos ficar sem

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abastecimento de matérias-primas para as indústrias, sem luz e sem telefone.

Atendimento burocrático, preços exorbitantes e redução do número de trabalhadores e dos salários compõem a lista do legado da privatização da telefonia no estado de São Paulo. Como se não bastasse, a Telefónica ainda propõe serviços onde supostamente é o cliente que controla seus gastos, como na “Linha Controle”; apesar do embuste, o controlado é o próprio usuário, ou seja, garante-se o ganho sobre o valor acordado mesmo ao sair de férias e gastar menos. Há aspectos que tiveram melhoras, como a abrangência do serviço (ficou mais fácil e rápido obter uma linha), contudo empresas de fora estão mais preocupadas com ganhar dinheiro que melhorar as condições locais de vida.

A telefonia é somente um caso que uso para propor uma reflexão sobre a viabilidade das demais privatizações. O Tratado de Tordesilhas, ao menos, foi explícito, uma vez que os espanhóis não deveriam marcar presença antes desta linha divisória por ser terra dos portugueses. No mundo da liberdade, é o convencimento que vale, ou seja, dizem-nos que a privatização só nos trará benefícios. Este processo nem sempre é negativo, embora tenhamos que questionar a maneira indiscriminada como tem sido realizado, de que país virá a próxima bandeira, e que recurso nacional se espoliará desta vez com o charme da modernidade. Enquanto isso, nós brasileiros continuamos surpreendidos com a falta que nos faz a informação transparente sobre os rumos do país.

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12. O controle da população no Brasil

A população cresceu muito nestas últimas décadas no Brasil, que é o país mais populoso na América Latina. Enquanto, na década de

1970, éramos 90 milhões de habitantes, hoje somamos mais de 180 milhões segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No entanto, o crescimento demográfico descontrolado, sobretudo como tem ocorrido nos países subdesenvolvidos, gera problemas políticos, ou seja, que se referem às dificuldades de administrar os conflitos e as necessidades sociais.

Uma população que medra nem sempre estabelece obstáculos num país. Este crescimento, porém, pode ser indício da necessidade de propor políticas de controle de natalidade ou aconselhar seus habitantes a terem menos filhos a menos que realmente apresentem estrutura familiar digna. As famílias têm-se planejado melhor no Brasil, pois, em 1960, a média era de 6 filhos por mulher, ao passo que foi de 2,3 em 2004. Ainda que se divulgue o sexo como uma das bandeiras do carnaval brasileiro, o governo federal ressalta a importância do uso de camisinha e, em alguns lugares, até as distribui gratuitamente. Esta solução indica uma contradição porque o ideal seria mudar a imagem desta época festiva.

Habitualmente, as famílias brasileiras de menor renda são as que possuem a prole de maior número. Porque nem sempre estão em condições de dar a seus filhos sustento, moradia e educação, estas famílias acabam trazendo ao mundo pessoas que, muitas vezes, buscarão recursos no governo para cobrir carências familiares. Há outros fatores secundários que também contribuem para o incremento na população, como a imigração e os avanços na medicina.

O país, ao menos, está superando a mácula de Terceiro Mundo que se caracteriza por índices altos de natalidade e mortalidade. A falta de planejamento demográfico gera mais trabalhos informais devido à

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competitividade, saturação de instituições que prestam serviço público (como hospitais) e intensificação da violência urbana. Uma política pública mal elaborada provoca uma resposta social contrária à desejada; uma destas situações é quando, nalguns casos, algumas famílias pobres fazem mal uso dos benefícios do Estado e optam por ter mais filhos para maximizar sua chance de obter a Bolsa Família.

Em alguns países desenvolvidos como a Alemanha, a Itália e a Suíça, a população estabiliza-se e envelhece. Seus governos fazem um pedido formal à população para que tenham mais filhos e flexibilizam leis de imigração. O Brasil, em seu turno, incha, o que significa mais competitividade no mercado de trabalho e razão também pela qual se abrem tantos cursos técnicos e chegam mais indústrias transnacionais ao país. Em outras palavras, a manutenção desta situação de crescimento demográfico e de rápida formação educativa é isca para a expansão destes empreendimentos que garimpam mão-de-obra no país.

O Brasil precisa ser mais do que é, mas não em número senão em políticas públicas que regulem, nalguns casos estritamente, quantos nascem de acordo com a renda e a perspectiva familiar. É necessária uma fiscalização mais severa até que a própria sociedade se coordene através da geração de riqueza e da educação. Esta é uma das saídas para melhorar as condições internas e a imagem externa do país, antes que nos domine o descontrole social. Um país não se faz internamente mais viável pelo número de habitantes que tem, mas pelas condições e oportunidades em que cada um se desenvolve.

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13. Uma imagem desacreditada

O Brasil infelizmente tem uma imagem desacreditada no exterior, pois as coisas boas que se conhecem desde fora são unicamente

algumas de suas belezas naturais, mulheres bonitas, feijoada, caipirinha e o

Cristo Redentor. No entanto, estas são apenas uma pequena fração das maravilhas que o país contém, enquanto a ideia que se projeta também enfatiza a pobreza, a violência e o caráter de país festeiro e corrupto. O sinal dos novos tempos chega na forma de um alarme castigador, que nos convoca a rever algumas das dificuldades que sucedem no território nacional a ponto de melhorarmos nossa expressão aos demais países.

Pacotes turísticos são vendidos do exterior pela curiosidade que os turistas têm de conhecer aquilo que chamam de exotismo, como se tudo aqui fosse completamente diferente daquilo que já viram na vida:

praias fascinantes, mulheres sensuais e cachaça. O Brasil já foi até objeto de um episódio do programa norte-americano Os Simpsons, em que, numa visita da família Simpsons ao Rio de Janeiro, Homer foi sequestrado depois de tomar um táxi clandestino, Bart foi furtado por trombadinhas e também participaram de um carnaval de rua até que decidiram esconder- se da criminalidade numa casa que passou a ser alvo do ataque de e isso é de deixar pasmo macacos.

Acrescenta-se a estas imagens distorcidas que grupos de soldados norte-americanos que guerrearam no Iraque, no triste processo de redemocratização deste país, têm optado por passar as férias e descansar no Rio de Janeiro por custeio do próprio governo dos Estados Unidos. A eles se lhes havia dito que praias, diversão noturna e prostituição são os principais atrativos da cidade, de acordo com notícia veiculada pelo jornal inglês The Guardian. Como se não bastasse, o periódico estadunidense Los Angeles Times publicou na terça-feira de 19 de junho de 2007 que se investigam os escândalos de corrupção no Brasil assim como vêm e vão como os últimos lançamentos no cinema, cujos

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nomes são Hurricane, Anaconda, Vampiro, Dossiegate e agora Xeque- mate.

A imagem da segurança no Brasil, embora esteja parcialmente fundamentada nos fatos, é hedionda e transmitida como se qualquer lugar fosse dominado por violência e pobreza extremas. O turismo sofre muitas perdas. Outro caso que passou a corroborar esta imagem refere-se ao crime cometido contra o francês Grégor Erwan Landouar de 35 anos, origem humilde e dinheiro poupado porque queria muito conhecer o Brasil, mas acabou perdendo a vida esfaqueado na saída de um bar em São Paulo. Muitos brasileiros, então, têm buscado alternativas à sua verdadeira nacionalidade tirando cidadania europeia, sobretudo a italiana, e alegando que assim obtêm mais benefícios.

O país que desejamos não é o das aparências de desenvolvimento econômico ou da rejeição por parte da comunidade internacional, mas um lugar onde dê orgulho, segurança e satisfação de viver. Temos que melhorar as condições internas e também ter cuidado para não difundir uma imagem de violência e criminalidade do Brasil para que os estrangeiros não se desestimulem de conhecer nosso país. Além disso, o ideal é que todos honremos a origem brasileira e lutemos por pressionar a favor da mudança das leis e das condições de vida para que, enfim, afiancemos nossa imagem para nós mesmos e para os outros, antes de que o eco que se reproduz de nós se torne fiel à realidade.

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14. A razão do terror

E m 29 de junho de 2007, houve tentativas frustradas de atentados terroristas no centro de Londres. Entre o medo e o terror, deu-se

novo aviso e não se sabe até quando existirá esta modalidade de ataques. O

alerta aumenta vertiginosamente na Inglaterra e até o Brasil país historicamente propenso à paz tem reforçado a segurança para os jogos Panamericanos no Rio de Janeiro como resposta remota a esses ataques que, até onde se sabe, nada têm a ver com nossa terra.

Países desenvolvidos que têm sido vítimas de terrorismo já não conseguem mais sustentar tamanho grau de opulência sem disseminar o medo em suas sociedades. O terror pode ocorrer em qualquer lugar em qualquer momento e, em muitos casos, não possui um alvo discriminado. Pessoas inocentes morrem e outras tantas continuam sendo feridas por este gênero de ataque que se estabelece de um ente com pouco poder em relação a outro de muito maior influência. Se não se pode ter um exército para enfrentar o inimigo devido à assimetria de forças, esta é a maneira que terroristas escolhem para agir.

Resulta disso que países como Estados Unidos e Inglaterra passaram a disseminar o estado de insegurança em que se encontram, embora sejam dois dos países mais aparelhados nesta questão no mundo. A queda das torres gêmeas norte-americanas em setembro de 2001 seguida do ataque ao Pentágono, e as recentes tentativas de atentado com explosão de três carros-bombas no Reino Unido (Londres e Glasgow), levam a crer que qualquer nação está vulnerável e, por mais que se queira, ninguém está completamente protegido.

Agrega-se que, neste cenário de iminências, seus governos interpretam que qualquer um pode ser terrorista. Este é o motivo pelo qual as leis de imigração tornam-se mais rígidas nestes países de língua inglesa, intensifica-se o sentimento de xenofobia (aversão a estrangeiros),

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os Estados Unidos cogitam a criação de um escudo anti-mísseis (famoso programa “Guerra nas Estrelas”, cujo projeto indispôs o governo russo), e se propõe a notificação das populações estadunidense e britânica por meio de sinais de alerta contra possíveis ataques terroristas (com indicação de “severo”, “crítico”, etc.).

Este sentimento de terror não cabe no contexto brasileiro. No Brasil, a dificuldade consiste, por exemplo, na falta de confiança do povo nas instituições democráticas que possui e no drama remanescente da fome, da violência e do desemprego. Contudo, vivemos afortunadamente num ambiente onde o terrorismo internacional não encontrou uma razão para atuar sistematicamente a ponto de espalhar o medo que experimentam os países desenvolvidos citados. Pertencemos a uma nação que se pauta no desenvolvimento sustentável e na defesa da autodeterminação dos povos como princípios básicos.

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15. Por um governo catalisador

U m governo democrático eficiente deve agir como um agente catalisador na fórmula que transforma os conflitos sociais, que não

são poucos, em relações harmônicas entre os diversos atores na sociedade.

Entretanto, nem todas as gestões seguem este princípio e algumas promovem o inchaço do quadro de atuação do setor público quando, na

verdade, isso acarreta outros tantos problemas. A burocracia, a corrupção

e a dívida pública estão diretamente vinculadas a este fenômeno no Brasil devido principalmente aos dirigentes que não têm visão de como deveriam compor-se as instituições públicas.

O presidente Lula criou, em 19 de junho de 2007, mais 626

cargos de confiança no Executivo, o que significa um gasto extra de R$23,2 milhões a ser pago anualmente pelo governo e um aumento de 21% no número de servidores não-concursados em relação ao último ano do governo de Fernando Henrique Cardoso. O fato de criar cargos não é mal por si só, visto que há funções de Estado imprescindíveis, porém acumula os gastos públicos quando houver excessos; noutras palavras,

pode ser prejudicial para a repartição do dinheiro arrecadado uma vez que

o governo é uma estrutura que não foi projetada para pagar funcionários senão organizar-se para regular eficientemente uma sociedade.

A função política presente na máquina pública é de criar,

subsidiar e regular estratégias de resolução de conflitos sociais, que aparecem na forma de violência, desemprego, fome, entre outros. Desse modo, elaboram-se políticas públicas com o objetivo de alcançar resultados que harmonizem esses conflitos e projetem uma nova sociedade. Daí surgem leis, normas e procedimentos que tentam melhorar as condições de inserção da população. Contudo, quando o número de funcionários do setor público torna-se excessivo, o governo perde a eficiência e desorganiza-se.

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A revisão periódica dos cargos públicos ocupados e da importância de cada um ajudaria a reduzir a burocracia, ou seja, os trâmites que nos fazem buscar um formulário ali, preencher aqui, depois carimbar ali, esperar tantos dias, pagar aqui, e esperar mais um mês para alguma autorização ou procedimento legal. Concomitantemente, a manutenção somente dos cargos indispensáveis faria a engrenagem pública mover-se mais depressa e até reduziria o índice de corrupção, pois atribuir-se-iam responsabilidades maiores a cada cargo.

Trata-se de sugerir uma reforma política em que o novo governo tire o Brasil do limbo em que se encontra há anos. É um país que tem potencial, mas não cresce a favor de sua gente; tem uma população desejosa de oportunidades, mas uma gestão federal que alia a burocracia ao favor próprio. Trata-se de sugerir um governo que corresponda aos motivos de sua criação: regular, subsidiar e catalisar o desenvolvimento da sociedade. O melhor é que este governo tenha representatividade, transparência e eficiência para que o Brasil possa servir e não só no emprego da urna eletrônica de exemplo para o mundo.

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16. A modernidade dos Correios

A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), que existe desde 20 de março de 1969 enquanto vinculada ao Ministério das

Comunicações, é um exemplo de estatal que não tem perdido as oportunidades de modernização e tem oferecido serviços de boa qualidade

e eficiência à população. Está presente em todos os municípios do país e,

desde 1985, expandiu-se também à zona rural e passou a servir a regiões remotas. Sua história começou quando Pero Vaz de Caminha, ao desembarcar no Brasil em 1500, enviou ao rei de Portugal a primeira carta

oficial escrita neste território com o fito de descrever a maravilha das terras que haviam sido descobertas.

O serviço postal no Brasil foi oficialmente instituído em 1663 a fim de possibilitar a comunicação entre Portugal e o Brasil colônia. Em 1829, criou-se a Administração dos Correios, até que, em 1931, formou- se o Departamento de Correios e Telégrafos (DCT), antes de, em 1969, chegar à configuração atual. Em 1921, houve outro avanço com a

implantação do transporte aéreo, até que, em 1923, enviou-se a primeira remessa postal internacional. A partir de então, a empresa não parou de crescer e aprimorar os serviços; é uma das mais antigas estatais brasileiras

e um exemplo de progresso no Brasil.

Um dos critérios de avaliação da qualidade do processo de modernização por que passa um país é a maneira como este se integra e permite a comunicação entre as próprias regiões. O desafio é grande no Brasil devido às suas proporções territoriais, com uma área de aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, e os tantos acidentes geográficos que o percorrem. Os Correios têm excedido as expectativas no decorrer dos anos, sobretudo pela força e a união de seus trabalhadores e pela reação às empresas concorrentes que entraram no mercado, como a DHL, a Fedex, a Flash Courrier, a Total Express e outras privadas, embora ainda necessite melhorar a eficiência no tempo de

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distribuição, onde ainda deixa a desejar em comparação com as outras empresas.

Comenta-se da qualidade e diversidade dos serviços oferecidos, que incluem as cartas, os expressos, as encomendas, os telegramas, as inscrições para concursos, a declaração de imposto de renda, o pagamento de contas, etc. É mister também reconhecer a competência e o esforço dos carteiros, que caminham quilômetros diários, amiúde sob sol ou chuva, para fazer chegar as correspondências conforme lhes atribuem um prazo, enquanto os demais funcionários de serviços externos dos Correios enfrentam o trânsito e o relógio para que os pacotes cheguem a tempo e com segurança aos destinatários.

A empresa dos Correios envolveu-se num escândalo de corrupção em maio de 2005 e quase se abriu ao capital privado, cuja proposta surgiu inicialmente no governo Sarney e uma lei ainda tramita no Congresso Nacional. No entanto, esta estatal é uma empresa que desbravou a modernidade no Brasil e acompanhou os avanços mundiais na era da interconectividade das comunicações. O Brasil mostra o seu potencial e os seus recursos através da qualidade dos produtos e serviços dos Correios ou em sua serventia à população brasileira; deste modo, o país pode crescer e alcançar a vanguarda do desenvolvimento.

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17. A iniciativa pela paz

A paz é um processo gradual que um dia triunfará. A violência pode ser evitada devido à sua razão humana de existir. Proponho aqui que

pensemos em como podemos contribuir para uma sociedade mais pacífica com os instrumentos de que dispomos por mais simples e insignificantes que estes pareçam. Esta contribuição para a implantação da paz não precisa estar institucionalizada, pois é da união do individual que se faz o coletivo. Se pararmos por um instante para refletir sobre a paz, descobriremos que é emocionante e gratificante idealizar uma vida regida

por ela. Mas o que temos feito a seu favor?

Basta um olhar panorâmico sobre o mundo para notar que a paz é uma causa nobre e uma necessidade. Países disputam porções de terra (como entre Peru e Chile) e investimentos (como a construção de fábricas de celulose na fronteira entre Argentina e Uruguai); cidadãos de outros países se enraivecem por desavenças étnicas (como no Oriente Médio), alguns até fazem ameaças e sanções econômicas (Estados Unidos contra Irã se este não paralisar seu programa nuclear), enquanto Rússia indispõe-se com os norte-americanos pelo plano de instalação de bases de lançamento de mísseis no leste europeu. Exemplos não faltam de que o mundo carece de iniciativas para a paz.

É nesse contexto que o Movimento Internacional pela Paz e Não-Violência, que surgiu em Feira de Santana (Bahia), une a vontade de seus voluntários e simpatizantes para disseminar e implantar a cultura de paz na sociedade e contrabalançar a força que obscurece o planeta. O projeto cujo lema é “a paz do mundo começa em mim” foi idealizado por Clóvis Nunes e está sintetizado em seu livro Educação pela Paz. Nele, o autor sustenta a ideia de que a paz não é algo que está em algum lugar esperando a descoberta somente como um fim, mas um meio que se edifica e se reforça a partir da ação de cada um.

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Um dos grandes problemas que geralmente temos depois de aprender algo é de como e onde por em prática este conhecimento. É natural reconhecer que é preferível viver num mundo feliz e harmônico a padecer do medo e da violência, por isso buscamos métodos de reforma interior e da sociedade em que nos inserimos. No entanto, a pressa do dia- a-dia e o excesso de compromissos amiúde nos fazem desconsiderar aqueles preceitos absorvidos num evento sobre a paz. O risco da inércia aparece justamente quando deveríamos projetar a paz para a nossa rotina em vez de vê-la como objeto de tertúlias e palestras ocasionais.

A vontade precisa de iniciativa para concretizar-se. Se quisermos

a paz enquanto dado cultural na sociedade, a intervenção individual é

necessária. Nada melhor que enxergar a contraposição dialética entre paz

e violência no Brasil como uma ocasião principiada e até institucionalizada.

E essa luz poderá brilhar com mais intensidade no país a partir de quando outras pessoas também passem a crer que fazem a diferença, ainda que entendam a paz de outra maneira. A iniciativa pela paz e para ela é um grande projeto do qual todos podemos fazer parte.

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18. O país dos extremos

O Brasil acumula experiências em sua história, onde nem sempre se alcança um final feliz, ou o triunfo, sem encontrar dificuldades

grandes no caminho. Algumas destas até me fazem pensar que não têm solução, ou que demandam uma guinada radical e decisiva nas políticas

públicas e na orientação de seu povo. Prefiro ser otimista, embora estejamos vivendo naqueles momentos cujas páginas do livro prendem tensamente a atenção do leitor.

Conheci na Cidade do México um chileno que me relatou as experiências que teve em sua viagem curta ao Brasil. Algumas fora muito boas e outras, muito más e que chamou repulsivas.

Este mesmo amigo, pós-doutorando que ostenta confiante o padrão educacional de seu país, então me perguntou se eu sabia que o Brasil era o país mais rico do mundo. Surpreso em saber qual foi seu critério de classificação, perguntei-lhe por que e me disse que é devido ao enorme território, aos recursos naturais (água doce, minerais e petróleo) e à diversidade de seu povo; razões não faltavam. No entanto, afirmou também que é, ao mesmo tempo, o país mais pobre do mundo, pois é um dos que possuem maior desigualdade e maior população vivendo na penúria de todo o globo, citando a discrepância das favelas e dos condomínios do Rio, uma das cidades onde esteve.

Sua constatação nos faz perguntar o que deu errado no Brasil, já que, de um ponto de vista, ele é ostensivamente rico, ao passo que o Japão, por exemplo, consegue ser um dos países mais desenvolvidos do mundo, apesar de seu território ser composto de pequenas ilhas sem grandes recursos minerais, e por isso tem que importá-los para uso em suas indústrias avançadas. Estes fatores, contudo, não impedem que o Japão insira-se entre os que participam daquelas famosas reuniões do G-8 (grupo dos oito países mais industrializados do mundo) em que o Brasil

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tanto gostaria de estar, ainda que o solo japonês sofra também episódios recorrentes de terremotos. O Brasil nem isto tem; mas que importa?

Parece que quanto maior é o potencial intrínseco de um país para o desenvolvimento, menos vontade se tem para perseguir e conquistar um futuro promissor. O Índice de Desenvolvimento Humano utilizado pela Organização das Nações Unidas identificou em 2006 que 46,9% da renda estavam nas mãos dos 10% mais ricos no Brasil, enquanto apenas 0,7%, com os 10% mais pobres. A partir daí, vem aquela ideia pertinente defendida pelo senador Cristóvam Buarque da “revolução pela educação” em sua candidatura à presidência da República em 2006, que parece haver entrado por um ouvido e saído por outro daqueles que manuseiam a agenda brasileira de reformas políticas.

Já que a pobreza no nosso país é imensa, uma das saídas mais

viáveis deste problema é permitir à sociedade a sustentabilidade pela educação.

Caso essas medidas não sejam tomadas imediatamente, a pobreza extrema no Brasil não assistirá ao seu fim. Isto se deve a que a mentalidade nacional continuará a ser a da vantagem pessoal, da ascensão das classes pobres quase unicamente pelo esporte, do turismo sexual e dos filhos inúmeros trazidos ao mundo por aqueles pais que não têm condição de sustentá-los, e de notícias impressas em jornais nacionais e estrangeiros que quase sempre se referem a tragédias, como os dois acidentes aéreos últimos que abalaram o país.

O Brasil precisa de um recomeço em seus caminhos políticos

que dê sustentabilidade efetiva à sua sociedade.

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19. O fardo da herança

Q uando se pensa em herança, logo vem a ideia de bens que foram agregados e cultivados por famílias durante décadas ou do dinheiro

acumulado com o suor e a ascensão das gerações anteriores. O presente se faz com a construção do passado. O Brasil, no entanto, especializou-se em

heranças indesejadas, visto que o que mais teve em sua história foram tropeços e sempre incumbe à nova geração resolver os problemas que vieram de outras épocas. Embora haja boas heranças (avanço da democracia, conquistas sociais, maior participação cidadã onde a população tem-se preocupado mais com a política), o que prevalece mesmo é a modernização que muito ameaça e pouco constrói a favor do povo brasileiro.

O Brasil não é o único país que tem problemas de má herança a despeito do dito popular de que Deus é brasileiro, uma vez que ela já tenha sido deixada em muitos outros países. Os Estados Unidos elegeram em 2000 o presidente republicano George Walker Bush, que supostamente teve vitória fraudulenta sobre o democrata Al Gore. O novo governo jamaicano encabeçado pelo primeiro-ministro Bruce Golding declarou que estão vivendo um pesadelo devido à herança dos governos anteriores, pois, comparado com os 38 bilhões de dólares jamaicanos que o país devia em 1989, hoje o valor soma um trilhão desta mesma moeda, além do aumento do índice de criminalidade. O continente americano possui vários exemplos de quando a herança é um fardo.

Em seu turno, a Argentina passou por enormes instabilidades econômicas no fim do século passado em decorrência de ter levado ao pé da letra as disposições do Fundo Monetário Internacional após os empréstimos efetuados desta instituição e a paridade artificial com o dólar estadunidense. Sobrou para o presidente Néstor Kirchner estabilizar o país, o que só aconteceu nos últimos anos. Receio mesmo se tem de saber

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quem vai herdar o regime socialista de Fidel Castro que, desde a revolução cubana de 1959, assombra as pretensões dos Estados Unidos até quando sua senilidade avisar que realmente não dá mais.

É preferível que a herança só se tratasse positivamente, entre outros assuntos, dos ensinamentos proveitosos que são transmitidos de pai

para filho, da transmissão de importantes traços culturais numa sociedade,

da bola de neve que se tem feito a ciência com as descobertas tecnológicas

e os avanços da medicina. Não obstante, temos também que conviver com

o lado obscuro da herança, em outras palavras, aquele que leva mais

tempo para convalescer de tal forma que é melhor que ela não viesse a cargo das gerações presentes. O desenvolvimento no subcontinente

latino-americano possui este fardo e o Brasil carrega parte dele.

A América Latina possui uma coleção de governos que adotam e retomam programas inadequados e ultrapassados de desenvolvimento. O Brasil está no ponto em que herdou tanta dívida e tanto projeto ruim ou mal cumprido que não tem mais de onde tirar heranças indesejadas. Para que a próxima gestão também fique com alguma, o nosso presidente reuniu-se com autoridades na Suécia, país tido como de consciência ambiental, para negociar a venda de etanol, que promoverá maior área plantada de cana-de-açúcar no Brasil. E claro que tinha que ser aqui. Eles consomem nosso biocombustível e nós ficamos com a responsabilidade dos danos envolvidos na produção. É uma vergonha que ainda tenhamos que assistir à perpetuação de uma típica herança colonial.

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20. Um capital negligenciado

É uma lástima que eu já tenha tido a ideia de intitular muitos dos meus

já que, no território dos

grandes contrastes, mais se idealizam cenários do que se regozija de alguma conquista. Não é pequena a lista do que deve mudar no país e o cidadão que não exerce diretamente algum cargo político também tem responsabilidade nas mudanças. Por esta razão, devem-se sugerir prioridades nas políticas públicas e muito investimento naquilo que o país mais precisa em vez de desperdiçar dinheiro em programas ultrapassados. O setor da educação ainda deixa muito a desejar e não será fácil sanar essa deficiência.

artigos na forma de “Por um Brasil

”,

Os dados mais recentes do Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (INAF), pertencente ao Instituto Paulo Montenegro, apontam que 26% da população brasileira de 15 a 64 anos são plenamente alfabetizados. As estatísticas da educação no Brasil têm sido comparadas às de alguns países da África, uma vez que até Coreia do Sul e China têm índices melhores. E não é à toa que estes países ostentam taxas de crescimento e de participação na economia internacional cada vez maiores. O Brasil não pode prescindir dos investimentos em sua formação humana se quiser alcançar nível de potência.

Sua administração pública não está tão sensibilizada com a necessidade de políticas para a educação, o que demonstra a negligência com a herança cultural ou aquilo que temos de mais valioso, que é a oportunidade de aprender e transmitir. Prova disso são as greves recorrentes que assolam as universidades públicas, como as três instituições de financiamento estadual em São Paulo. A educação deve ser vista como um processo prazeroso e construtivo, ao contrário da concepção de mera obrigatoriedade ou de enfado que possui. É um capital investido no e pelo indivíduo, que em toda sua vida contribuirá para que

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tenha melhor entendimento do que o circunda e reaja de maneira mais inteligente.

Excetuando-se alguns grandes avanços, como a Lei de Diretrizes e Bases de 1996, nossas políticas públicas educativas, desafortunadamente, acompanham a maré dos votos. Elas atendem com orçamento elevado os caprichos da demanda das desigualdades que existem no país e da própria pobreza, que se perpetua com políticas defasadas; as escolas tornam-se ambientes onde não se respeita o papel relevante de educador que os professores têm; as bolsas de pesquisa são muito limitadas, concorridas e de baixo valor; e o incentivo ao intercâmbio universitário e ao desenvolvimento técnico está aquém do desejado, o que estimula a fuga de pesquisadores de alto nível para universidades no exterior.

A principal solução é que o governo construa políticas mais

duradouras de incentivo à educação, com um aumento substancial no orçamento dirigido ao Ministério da Educação, e que este patrocine mais diálogos entre os protagonistas deste setor no Brasil. Outra solução é que empresas privadas e vagas de concursos públicos exijam melhor escolarização para os que buscam emprego de modo a coagi-los a que tenham mais anos de estudo; seu lado negativo é que, se o plano for mal aplicado, estimula-se a não-repetência independentemente do desempenho dos estudantes. O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é capaz de avaliá-los com questões bem elaboradas de

conhecimentos gerais, e, a partir daí, é possível também sugerir medidas mais específicas para melhorar a educação no país.

Se uma mudança deste gênero não for promovida, mesmo que

com outras estratégias, o país seguirá tendo o subdesenvolvimento enraizado em sua cultura, que o transmite e retransmite sem perspectiva de mudanças. A educação tem sido um grande capital negligenciado para as mudanças que o país anseia.

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21. A punição do bem

D esde o massacre à população indígena no período colonial e a imposição cultural que perdura até os dias atuais, o Brasil aderiu-se

ao modelo da punição e tem sido palco de sua perpetuação. Hoje, porém, o país paga o preço e insiste em fortalecer esses valores que nem mesmo nos países de origem deram certo. A Inquisição foi praticada por Portugal, que é um dos países mais pobres da União Europeia; os Estados Unidos promovem as piores chacinas no mundo através do encanto pela guerra, que gera insatisfação até de sua própria população, e não resolveram os

conflitos étnicos em seu território. A punição caracteriza a cultura da violência e do individualismo, e tem o objetivo de excluir do mapa os inconvenientes. Está tão banalizada que raro é aquele que nunca puniu ou foi punido.

O Brasil investe em presídios (sendo alguns de segurança máxima para isolar os tidos como de alta periculosidade), mas projeta poucas políticas que favoreçam o pensar coletivo. O governo planeja construir um presídio em cada região do país porque fala-se da superlotação e das condições precárias destes espaços de punição, que comportam mais presos na mesma área do que inicialmente projetado. Outros questionam se o detento deve ou não trabalhar dentro da cadeia para retribuir à sociedade o dano causado lá fora, já que é dinheiro público que sustenta essa política punitiva, ou se os presídios devem ou não ser municipalizados. Aliás, o sistema penal no país funciona de tal maneira que atrás das grades dificilmente fica quem rouba grandes quantias.

O filósofo mexicano Carlos Lenkersdorf realizou uma pesquisa com a população indígena tojolabal, variação maia presente no sul do México e na Guatemala, que possui uma visão própria a respeito de como um membro de sua comunidade reinsere-se nela após cometer um delito. Para eles, todos respondem pelo que uma pessoa fizer de errado e têm a obrigação de contribuir para que o delinquente se recupere e retorne à

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sociedade. É a chamada justiça do NÓS, que é restituidora e solidária. A visão do coletivo, portanto, sobrepõe-se à do indivíduo, o EU, que reina nos valores ditos ocidentais.

O descaso com os grupos menos favorecidos, a ganância econômica, a perseguição autoritária aos discriminados pela nossa polícia, o calar-se diante de tanta sujeira política, a negligência nos presídios quanto à recuperação dos punidos; tudo isso é uma punição ao nosso direito de pertencer a uma coletividade e um freio às nossas pretensões do NÓS. Punição é uma palavra que já soa mal. Contudo, ao menos é possível respirar alguma esperança: o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, do Ministério da Justiça, comporta as bases de uma mudança positiva porque une as políticas de segurança com ações sociais preventivas e recuperatórias.

A punição acabou virando um recurso do bem, tamanha a contradição em que se meteu. Um país recebe punição com sanções econômicas ou até incursões militares quando não respeita convenções internacionais; quando se pratica um delito, pune-se com a reclusão; quando se comete um pecado, pune-se com a penitência. O problema concerne a quem tem ultimamente assumido o direito de punir, que passou a ser ferramenta inescrupulosa de manutenção da ordem e do bem- estar. Sempre achei que temos que desconfiar das coisas que vemos neste mundo; e a desconfiança deve ser ainda maior quando elas perpetuam-se, banalizam-se e não geram resultados coletivos benéficos.

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22. A nova mercadoria

O mercado de carbono surgiu e cresceu no contexto de aumento de instabilidades climáticas (como inundações pelas chuvas e calor

excessivo), causadas pela agressão ao meio ambiente. O ser humano, contudo, sempre segue um atalho para dar continuidade a seus planos

expansionistas sobre a natureza.

Na tentativa de minorar a agressão ao meio ambiente ou de ganhar dinheiro (dependendo da leitura que se faça), passou-se a comercializar créditos ou permissões que limitam a emissão de gases de efeito estufa. Este é um comércio voltado especificamente ao dióxido de carbono no qual as empresas que precisam aumentar suas emissões deste gás devem comprar créditos daquelas que poluem menos. Então, paga-se para poluir. O carbono é a novamercadoria.

Usam-se critérios do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) que determinam a maneira ambientalmente correta de um país crescer e convocam o mundo para uma nova conscientização. Esta é uma pretensa solução encontrada no momento em que um número maior de países decidiu aderir-se ao modelo de industrialização de suas economias.

O mercado de carbono no Brasil é uma iniciativa da Bolsa de Mercadorias & Futuros, da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para desenvolver um sistema de certificação ambiental de acordo com os princípios do Protocolo de Quioto.

Desse modo, proliferam as companhias que vendem este serviço, que tem sido oferecido principalmente a empresas de grande porte que têm lucros milionários. Isto se deve a que os custos altos dos trâmites burocráticos inviabilizam a compra deste serviço pelas empresas de tamanho pequeno e médio.

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O fluxo de investimentos sobretudo em direção a Brasil,

China e Índia, países ditos “emergentes” – aumenta. Enquanto isto, Austrália e Estados Unidos são os países que mais hesitam em aderir a essas convenções ambientais por receio de que afetem a pujança de suas economias. Somente o segundo país citado é responsável por um quarto das emissões mundiais de gás carbônico.

Não é justo que, enquanto os países subdesenvolvidos adotam políticas de desenvolvimento sustentável, são poucos os desenvolvidos que abrem mão de sua produção industrial gigantesca e reduzem seus ganhos para cumprir metas de sustentabilidade. Ou todos participam, ou ninguém participa. Assim deveria ser.

Mecanismo idêntico ocorre com a agência internacional de inspeção de armas nucleares, que se intromete em países que não têm uma sequer e deixa de fiscalizar as milhares de ogivas nucleares que Estados Unidos e Rússia possuem.

A proteção ambiental deveria ser antes iniciativa da sociedade civil, de organizações não-governamentais e de governos na esfera pública que deixada ao ambiente privado, que busca incansavelmente o lucro. Além disso, o modelo de desenvolvimento que o Brasil segue demanda a busca alucinante de taxas cobradas pelo governo brasileiro, que tira do contribuinte por onde puder, e o seguimento das exigências do mercado, que, em muitos casos, inviabilizam os empreendimentos e não geram o retorno ambiental esperado.

Os projetos de responsabilidade ambiental tornam-se, por um

lado, empecilho industrial que justifica a hesitação de muitos países em

reduzir sua emissão de gases poluentes; por outro, eles são bom negócio para este novo mercado de carbono. A atenção voltada ao meio ambiente, inerente à participação cidadã, infelizmente, não tem sido tratada como prioridade.

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23. A vinculação da Bolsa Governo

A DRU (Desvinculação de Receitas da União) foi criada em 1994 e, até 2000, existiu com outros nomes, tais como Fundo Social de

Emergência e logo Fundo de Estabilização Fiscal. A finalidade da emenda constitucional que desvincula 20% das verbas da União é melhorar a alocação dos recursos orçamentários, direcioná-los a outras áreas com carência, e financiar despesas sem o endividamento adicional da União. Seus defensores argumentam que o governo federal precisa de recursos para desenvolver áreas sociais e que não haverá alteração das transferências

constitucionais para os estados e municípios. Mas há dúvidas.

A prorrogação da Proposta de Emenda Constitucional nº

50/2007, que autorizaria a DRU até 31 de dezembro de 2011, parece urgente. O cuidado que se deve tomar, no entanto, é que haja um ajuste mais duradouro das necessidades reais de alocação de recursos para os setores diversos no país, como previdência social, saúde e educação, para que recebam as verbas de acordo com sua necessidade. Além disso, atentar-se para que, de nenhum modo, a desvinculação dessas receitas, ou sua canalização para outros fins que o governo julgue prioritários, assegure a criação de uma nova bolsa (a Bolsa Governo) porque já basta o assistencialismo das existentes Bolsa Família e Bolsa Escola.

O programa de governo da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva

demanda gastos elevados da receita da União, muitos dos quais só seriam possíveis com a prorrogação da DRU e da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira). Por isso, o presidente defende com unhas e dentes estas propostas. No entanto, as duas devem ser votadas separadamente em proveito de maior esclarecimento sobre a vigência de cada uma delas e suas implicações para o povo brasileiro. A CPMF deixa o Senado mais dividido que a DRU por afetar os interesses do setor empresarial e dos consumidores, que estão insatisfeitos com a cobrança

que surgiu como provisória e tem-se perpetuado.

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O governo alega que a DRU responde por cerca de 60% do

total da verba que a União pode gastar livremente, daí a justificativa da importância de sua prorrogação no que se refere à demanda do programa

de governo do presidente Lula. A criação da DRU gerou a desconfiança de que o excesso de vinculações no orçamento da União induzia o governo a endividar-se no mercado financeiro para pagar as despesas obrigatórias. Para se ter uma ideia do valor envolvido, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, projeta que aproximadamente R$ 50 bilhões seriam gerados em 2008 com a prorrogação da DRU.

Driblar as vinculações de recursos através de Propostas de Emendas Constitucionais (PEC) que as desvinculam percentualmente é uma medida para contornar o excesso de burocracia vigente no nosso governo e o desequilíbrio entre excesso e falta de recursos aplicados nos setores diferentes que recebem políticas públicas, como moradia, saneamento, saúde e educação. A prorrogação da DRU e da CPMF foi aprovada na Câmara dos Deputados em primeiro turno em outubro passado, porém ainda falta a votação pelo Senado em dois turnos. A votação da DRU, desse modo, não pode ficar encoberta em meio à divulgação pela mídia da polêmica em torno da CPMF.

A prorrogação da DRU provoca contendas entre representantes políticos que defendem a manutenção das verbas sem a desvinculação. Há os que apontam a “vampirização” de recursos da educação, como o senador Cristóvam Buarque. Valerá a pena se houver garantia de que o objetivo da atual administração federal é o de fortalecer projetos bons e duradouros (com os de educação). Caso contrário, é dinheiro gasto para dizer que a gestão conseguiu cumprir metas de políticas públicas, como a PAC (Política de Aceleração do Crescimento), que talvez sejam desativadas pelas gestões vindouras.

O prazo para a votação da prorrogação da DRU está esgotando e

vai até o final de 2007, enquanto o nosso de esperar quanto os gestores vinculam e desvinculam, empurram para lá e puxam para cá o dinheiro

público já esgotou.

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24. O percurso das amarguras

N ós brasileiros temos que tomar um balde de água fria no rosto para despertar à situação crítica em que está o país. Percorrerei alguns

fatos que julgo preocupantes e o álbum poderá ser e certamente será completado com o acréscimo da experiência do leitor. Aqui só mostro algumas figurinhas para troca. Seria possível desmembrar este artigo em vários outros compartimentados em temas mais específicos, porém meu objetivo é traçar um panorama bem sintetizado e variado das amarguras que somos obrigados a mastigar vivendo no Brasil e da justificativa de que

haja tanta gente deixando definitivamente o país ou envergonhando-se de

ser brasileiro.

O percurso inicia-se no roubo, pichação e depredação de bens

públicos (monumentos, orelhões); furto de fios de cobre (até de cabelo já houve casos; qual é mais esdrúxulo?); serviço de conexão à Internet que surgiu com o nome de iG com a proposta de ser grátis, mas no decorrer dos anos passou a cobrar dos seus usuários; abandono de pacientes em hospitais e atraso em salas de espera; empresas que pedem dados completos do cliente, amiúde desnecessários para o serviço prestado, com

o

objetivo de depois vendê-los às empresas de marketing para importunar

as

pessoas em sua privacidade. É um cenário também de muitas

contradições e que se prolifera sobretudo nas médias e grandes cidades.

Caso grave presenciei quando questionei num supermercado sobre o que fariam com uma caixa gigante de pães de forma vencidos que estava no chão e me disseram que “voltariam para troca”. Tanto

desperdício, e ainda acreditamos no combate à fome dentro de um sistema que realiza práticas nos moldes do Convênio de Taubaté de 1906, quando

o

excedente de café era comprado pelo governo e queimado para manter

o

preço e o ganho dos produtores. Nossas instituições públicas

prostituem-se, como as de regulação do tráfego aéreo, das rodovias e dos direitos dos consumidores, visto que mais parecem negociar tacitamente

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com as grandes empresas maneiras de explorar a população do que

protegê-la de abusos. institucionalizado.

Nada adianta queixar-se em praças de pedágio de que o valor cobrado só aumenta e nos abusa se tudo o que o funcionário poderá dizer é “eu só cumpro o meu serviço”. Privatizar rodovias sem oferecer alternativas de uso público aos cidadãos é um descumprimento constitucional, uma vez que também o Estado nos onera com impostos recolhidos para este fim, mas não temos o retorno devido. Há toda uma rede burocrática que inibe nossa relação direta com os responsáveis, cujo mecanismo é usado por empresas como a Telefónica, que informatizou praticamente toda sua interação com o cliente de tal forma que os problemas rolam, passam de um atendente a outro, e nunca ninguém os resolve.

Num país tão mal administrado, resta-nos a posição de vítimas, por um lado, porque muitos nos querem tirar dinheiro a qualquer custo e de todo jeito, e, por outro, a de incapazes, porque nos unimos pouco para dar um basta. Vemos que os impostos ficam cada vez mais altos e serviços passam a ter cobrança sem retorno adequado à população. Fica difícil viver num país em que a honestidade e a justiça são a exceção num lamaçal dos que tiram vantagem de tudo. O ritmo do Brasil alcançou o sincronismo que inibe a população de sugerir mudanças dentro da sua possibilidade e autoriza a espoliação da mesma por práticas que em país sério seriam motivo até de revolução (tradição que não temos aqui). O percurso extenuante logo fará acabar o nosso fôlego, que tem sido grande demais.

malandragens têm-se

As

torpezas

e

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25. O planejamento familiar

A preocupação com as classes menos favorecidas é distintiva da gestão Lula. Porque a própria sociedade não se dispõe a transformar o

pobre no rico, os que desconhecem nos que conhecem, os desprovidos nos providos, as políticas públicas são importantes como sinal de vida. Desta vez, no entanto, surgiu uma política que se preocupa com o excesso de vidas que compõem a população brasileira. Trata-se da Política Nacional de Planejamento Familiar, que foi proposta em maio de 2007 e ainda carece de maior divulgação.

A ideia que sustenta esta política é a que promoveu a elevação dos investimentos a fim de evitar a gravidez indesejada ou fora de hora, sobretudo a partir da referência de algumas medidas através da televisão e das escolas. Entre elas, o destaque é para o subsídio na venda de pílulas anticoncepcionais, além das cartelas distribuídas gratuitamente, e a realização de vasectomia nos serviços públicos de saúde. A dificuldade maior é de que essas informações preventivas alcancem quem mais precisa.

As pílulas anticoncepcionais estão sendo vendidas 90% mais baratas nas farmácias populares, enquanto os médicos passaram a receber remuneração mais alta pela cirurgia de vasectomia no sistema público de saúde. É certo que a interrupção descuidada no uso de anticoncepcionais nem se compara com a garantia de esterilidade da vasectomia, que é um procedimento rápido e simples realizado nos homens, e da laqueadura (ou ligadura de trompas), que é um pouco mais difícil e feito nas mulheres. É recomendável, no entanto, muita ponderação antes de optar por um destes métodos porque são irreversíveis.

Quando não se consegue educar e empregar tanta gente no país, é melhor investir na redução dos nascimentos. Cada um que nasce precisa de alimentação, tratamento médico, educação, atenção, entre outros

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cuidados, que as famílias de baixa renda têm dificuldade de prover se não tiverem auxílio do governo. Neste sentido, Lula falou de dar condições para que as famílias pobres também decidam sobre o número de filhos e a época em que querem tê-los em comparação com a classe média, que é melhor provida de dinheiro e educação.

Com essas e outras medidas, constata-se uma disparidade regional em relação aos estados onde o índice de esterilização masculina aumentou: todos na região Sudeste (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo), no tempo em que apenas um no Norte (Pará) e um no Nordeste (Rio Grande do Norte). O programa de planejamento familiar apareceu na hora certa, visto que muitos ainda nascem em hora errada, o que significa que o governo federal deve melhorar suas estratégias para equilibrar os resultados em todos os estados.

As informações mais técnicas a respeito dos métodos de prevenção da gravidez fogem da minha especialidade, da mesma forma que não mencionei os preceitos de algumas crenças religiosas que contrariam a sua aplicação. No entanto, ressalto que fui movido a escrever sobre o tema como sugestão de uma leitora que, de suas palavras, afirmou que “não há mãe no mundo que queira ver seus filhos passando fome, dificuldades, miséria e violência.”

Os governos já fazem sua parte, mas a principal ação depende da consciência do indivíduo e da educação recebida nos lares e noutros meios. O planejamento familiar é importante para que menos doenças sejam adquiridas através do sexo, menos filhos venham à luz por gravidez indesejada e menos bebês sejam despejados inconsequentemente em entulhos, rios e terrenos baldios.

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26. Ultraje à democracia

R ecomendaram-me um vídeo chamado “Amazônia, uma região de poucos”, que está disponível na página do YouTube, mas que eu

tivesse, ao mesmo tempo, coragem para assistir a ele. Como se não bastasse o desmatamento ostensivo e a captura de aves silvestres, desta vez o Greenpeace denunciou os chefões do agronegócio em Juína (estado de Mato Grosso), que expulsaram, por meio de ameaças e a conivência dos representantes políticos da cidade, alguns visitantes.

Entre os forâneos, estavam ativistas do Greenpeace, da organização indigenista Operação Amazônia Nativa e jornalistas franceses, que apenas queriam conhecer a realidade dos índios Enauenê Nauê que habitam a região do Rio Preto. A cena que o vídeo reproduz é típica daqueles filmes mofados nas locadoras em seções longe dos “Lançamentos” porque hoje os tempos são outros, porém as imagens surpreendem porque são de agosto de 2007.

Esses visitantes foram impedidos de conhecer a região, ou seja, ceifados na liberdade de ir e vir e de coletar notícias para a imprensa. A audácia chegou a tal ponto que os fazendeiros cercaram o hotel em que a equipe estava hospedada para fazer ameaças e exigir a sua saída imediata da cidade, como se fossem os donos do pedaço. O Ministério Público e a Fundação Nacional do Índio devem tomar medidas urgentes para combater essa apatia democrática.

O caso que discuto não é único, pois, em cidades do interior do país, é comum o favoritismo eleitoral em que um patrão conquista votos para um político e este obedece aos interesses daquele em recompensa. Esses candidatos a cargos políticos são eleitos porque prometem comida para um segmento paupérrimo, ganham votos saciando certos interesses, e beneficiam os fazendeiros que querem expandir seus negócios com mais

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terras tirando-as dos índios. É assim que estes representantes mesquinhos acabam sendo comprados.

Divulguei este artigo para publicação em meios de comunicação de todo o Brasil para que os responsáveis por esse ultraje à democracia se envergonhem do que fazem do país e para que situações semelhantes cessem de existir. Boa notícia não se teria em virtude do impedimento do acesso dos visitantes ao local. Algumas hipóteses: roubo de terras pertencentes aos índios; isolamento coagido desta comunidade indígena; derrubada ilegal de árvores. Quem poderá saber?

O antropólogo Darcy Ribeiro deixou em seus escritos que o fator fundamental do atraso das nações latino-americanas tem sido a associação do patronato e do patriciado com os agentes do imperialismo, que preserva uma ordem social desigual e perpetua o monopólio da terra, a exploração estrangeira e os privilégios de um grupo dominante. Creio que o Brasil é um país democrático, mas só ficarei satisfeito quando minha crença virar convicção.

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27. A ferida ambiental

A s discussões em torno do meio ambiente costumam focalizar assuntos que beiram a inflamação e alcançam o limite da ousadia,

como o aquecimento global e o desmatamento ostensivo. Os métodos preventivos atuais não têm dado conta de evitar a eclosão da ferida. Assim se tem delineado a agenda dos encontros internacionais que reúnem autoridades cada vez mais entusiasmadas ao redor de temas como a proteção da biodiversidade, a mudança climática e a desertificação, embora se faça a projeção de que novos problemas virão como pauta e demandarão saídas inauditas porque já se esperou demais. Nossa culpa maior é a de acreditar que a natureza está à disposição dos caprichos humanos.

A Rio 92 congregou, em junho de 1992, 108 chefes de Estado

para discutir a introdução da ideia do desenvolvimento sustentável, que configura um modelo de desenvolvimento econômico menos consumista e mais compromissado com a preservação do meio ambiente. É daí que surgiram as recomendações da Agenda 21 para implantar a sustentabilidade e a sugestão de ações ambientais para os anos vindouros. A magnitude do evento organizado no Rio de Janeiro provou a urgência que a questão ambiental assumiu na agenda das discussões globais,

portanto de interesse de toda a humanidade.

O canadense Maurice Strong, que foi secretário-geral da Rio 92,

defendeu a necessidade de maior cooperação entre os países a fim de resolver os problemas ambientais. Com isso, pouco serve que um país seja a favor de medidas que não se aplicam no seu próprio território, como seria a de seguir um modelo destrutivo e transferir os danos causados e a responsabilidade a outras nações. Demonstração de indiferença foi o não

comparecimento da ministra do meio ambiente, Marina Silva, à reunião do Rio +15. Ela nem enviou representantes ou substitutos. Esta foi

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promovida pela empresa EcoSecurities em setembro de 2007 e motivada pela preocupação em torno do aquecimento global.

Nem sempre os autores principais dos estragos ao meio ambiente assumem sua culpa, como pela falta de adesão de países desenvolvidos a acordos internacionais que se julguem prejudiciais por eles ao seu desenvolvimento. A redução da emissão de gases que causam o efeito estufa na atmosfera tem sido proposta antes por países subdesenvolvidos que desenvolvidos, mas a medida frearia ainda mais seu processo de desenvolvimento conforme ao modelo vigente de industrialização. Por aproximar-se deste, o Brasil seria muito afetado.

A segunda gestão de Lula tem lutado pela causa ambiental, embora de maneira parcial e duvidosa. Algumas de suas propostas são as de criar unidades de conservação em ambientes terrestres e marítimos, reduzir a taxa de desmatamento, incentivar o uso de tecnologias limpas, expandir as ações de educação ambiental em defesa de consumo sustentável e economia de energia. Não obstante, esta luta tem que superar obstáculos, como o gasto enorme em educação ambiental num país em que este investimento não tem sido prioritário e os interesses políticos de setores contrários às políticas ambientais (como empresas madeireiras e indústrias altamente poluentes).

A ferida ambiental torna-se maior frente ao fato de que o que se faz no mundo em prol do desenvolvimento sustentável está muito aquém do ideal. Lula propôs, na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, que o Brasil sedie a Rio +20 como uma nova cúpula mundial sobre meio ambiente em 2012 para avaliar o que foi feito desde o evento similar Rio 92. É urgente, portanto, trazer a questão dos biocombustíveis a teste, uma vez que a história de que estes não causam impacto ao meio ambiente não está bem contada. Para um horizonte de equilíbrio ambiental, falta vontade política para expor ao mundo o que cada país realmente pode fazer para evitar novas feridas.

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28. Mais do que aritmética

O s grupos minoritários não refletem apenas um dado aritmético, mas correspondem ao que entendemos como os desprovidos de voz e

poder, ou seja, os que estão em posição de subalternidade. A indiana Gayatri Spivak afirmou que os subalternos não seriam chamados subalternos se pudessem falar de um jeito que realmente importasse. O Brasil contém vários grupos que reivindicam a sua vez: desde aqueles vinculados a gênero e etnia até os obesos e ciganos. Cada um carrega seu motivo.

Sou contra qualquer tipo de discriminação aviltante, ideia pré- concebida e suplantação do direito de voz de grupos minoritários. Por isso, este é um bom momento para retomar a questão das minorias, visto que se passou a febre da semana da “consciência negra” e o tempo presente só nos permite perguntar o que se construiu de diferente (se é que houve essa construção). O cenário que se tem é de uma guerra ainda não ganha onde ninguém sabe por onde recomeçá-la, nem se é com o mesmo método que ela deve seguir sendo travada.

Preconceitos antiquados são dissimulados por políticas como a criminalização do racismo, o sistema discriminatório de cotas em universidades, dias do ano dedicados a tais e quais grupos. O poder de legislar tenta suavizar erros históricos, porém poucos legisladores propõem a inclusão desde a base a fim de, por exemplo, padronizar a educação que recebem ambas as classes hegemônicas e as subalternas. As minorias conquistam voz pelo convencimento nas democracias modernas. Gritarão no vácuo se não agirem assim.

Ser minoria no Brasil está dando o que falar: estrangeiros são extorquidos em cidades turísticas brasileiras ou mortos pela violência; homossexuais promovem paradas a favor da tolerância à sua preferência sexual; negros e índios propõem o fim da discriminação com soluções, por

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vezes, duvidosas; mulheres clamam por maior participação em cargos de dirigência. Isso tudo é devido à intolerância e à baixa capacidade de conviver com o diferente.

Alguns dos problemas enfrentados pelos grupos minoritários caracterizam uma dívida histórica mal paga. E não adianta declarar a moratória. Sabemos que, até pouco tempo atrás, as mulheres dificilmente ocupavam cargos de chefia e eram subalternas num sistema machista. Hoje é mais comum que os homens cuidem de casa tanto quanto as mulheres. Uma falha da aritmética concedia a estas o papel de minoritárias. Na América Latina, Cristina Kirchner foi eleita presidente da Argentina quando Michelle Bachelet já havia vencido as eleições no Chile.

Em seu turno, os índios, embora ainda sofram pressão de fazendeiros pela manutenção de terras, aderem cada vez mais aos atrativos da cidade sem perder suas tradições, enquanto se comemora maior inserção social dos deficientes físicos em empresas e na infraestrutura urbana que atende as suas necessidades. É preciso também desqualificar a relação entre etnia e a população das favelas para que a pobreza não seja mais associada a ideias ultrapassadas de raça. Esta não pode ser mais causa de marginalização. O povo brasileiro caracteriza-se pela diversidade. O Brasil auspicia um futuro de inclusão de todos.

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29. A batalha dos tributos

2 008 inicia-se com a perspectiva de uma discussão oficial sobre reforma tributária em fevereiro logo com o regresso das atividades

parlamentares. E reforma é a palavra com que convivemos cada vez mais

intensamente no cenário político. O fim inesperado pelo governo da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) em 12 de dezembro de 2007 deu ensejo à possibilidade tão aguardada pela população de discutir a reforma tributária. A votação sobre o fim da CPMF durou quase o ano todo de 2007 no Congresso, teve batalha acirrada no Senado e repercussão forte na sociedade brasileira.

A reforma tributária é mais do que urgente num Estado que subtrai quase 40% do PIB (Produto Interno Bruto) em impostos dos quais sequer temos tido garantia de retorno nos serviços públicos, que vão de mal a pior. Muitos setores não têm usado adequadamente este financiamento, esbanjam e tiram dos que mais precisam, além de que ninguém quer abrir mão da parte dos impostos que lhe cabe, uma vez que todo projeto (sendo bom ou ruim) precisa de incentivos para ser levado a cabo.

O excesso de tributos cobrados no Brasil é decorrente do quadro de desigualdade elevada entre os que mais podem pagar por serviços privados, que se concentram nos estados do Sul e Sudeste da federação, e os que dependem sobremaneira de incentivos do governo, que estão em maior número nas periferias destas mesmas regiões ou nos estados do Norte e Nordeste. Desde uma perspectiva, tributos elevados dificultam o empreendedorismo e a livre iniciativa, ao passo que, desde outra, proveem recursos para o combate à fome e a miséria quando bem aplicados e com sobras para outras políticas.

Uma das saídas à extinção do “imposto do cheque” é aquela que o governo está tramando e executando e que se refere ao aumento da

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alíquota de impostos existentes. O governo subiu o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e a CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido), mas esta atitude ancorou-se num deslize de sua negociação com o Congresso de que não haveria aumento de impostos. Outro cuidado deve ser tomado em relação à oposição que se diz representante fiel dos anseios do povo com a defesa da redução de impostos, mas provavelmente agiria de outra forma caso fosse gestão.

O deputado federal Ciro Gomes, em seu livro Um desafio chamado Brasil (2002), salientou que uma mudança profunda na estrutura tributária só é possível com a elevação da receita pública e a redução de tributos que pesam sobre o processo produtivo. Concordo e contextualizo dizendo que a melhora na eficiência da fiscalização sobre o pagamento de impostos, o enxugamento de setores obsoletos e o controle sobre a corrupção na máquina governamental contribuem para que haja uma reforma mais proveitosa para todos.

A reforma tributária de que o Brasil tanto precisa depende de redução da sonegação e elisão de impostos, estímulo à eficiência econômica e fim da guerra fiscal. Não se vê, por enquanto, caminho melhor no horizonte de uma proposta desta gênero. O confronto de ideias tem sido grande e na mesma proporção que o reconhecimento de que o país necessita de muito empenho para amenizar os males que nos atacam há décadas a fim de que levantemos a cabeça para olhar os desafios do futuro.

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30. Televisão digital e outras piadas

A cerimônia de inauguração da televisão digital foi realizada em São Paulo no dia 2 de dezembro de 2007 pelo presidente Luiz Inácio

Lula da Silva num contexto em que a maioria da população brasileira, que não costuma ser bem atendida pelos serviços públicos, só poderia ver o ato como um deboche de nossas autoridades. Mais ainda, assistiu-se a uma reiteração do poder oligárquico às custas de um tom de esquecimento dos desprovidos, que se conformaram ao pronunciamento oficial através do sinal analógico destinado ao sepultamento.

Não é o momento adequado para esse tipo de políticas, uma vez que o meio privado é o que mais se encarrega da modernização da rede de televisão aberta. O governo pode facilitar e oferecer barreiras menores à implantação do sistema digital, porém sem canalizar verbas públicas para esse fim como a de R$1 bilhão liberada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Um papel mais responsável é reduzir a burocracia para a aplicação desta tecnologia, promover a concorrência entre os fabricantes do conversor de sinal digital, e obrigar a transmissão do sinal analógico por mais tempo.

Triunfaram as principais emissoras brasileiras de televisão, como a Globo e o SBT, com medidas que fortalecem seu poder e prestígio no Brasil. Os conversores de sinal digital são vendidos a preços amiúde mais altos do que o que se paga por um televisor em residências de classe baixa e classe média. Os aparelhos mais simples não custam menos de R$350 e, por isso, a medida não democratiza o acesso à nova tecnologia nas condições atuais, além de o prazo de 2016 para o fim da transmissão analógica ser cedo demais para muitas pessoas.

É bom experimentar o gostinho do progresso que advém da ciência e da tecnologia, mas ele fica amargo quando descobrimos que é para poucos usuários do novo sistema e poucos grupos empresariais

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vinculados à comunicação. O debate começaria bem se questionássemos se todas as emissoras estão aptas a investir no sistema digital, e se todos os cidadãos, sobretudo os mais pobres, têm condições financeiras de aderir ao novo atrativo. Estas perguntas merecem esclarecimento urgente por parte dos envolvidos nos investimentos.

O incentivo do governo à televisão digital no Brasil parece uma piada mal contada da que só riem os poucos que a entenderam. Isto se deve a que, neste país, espolia-se a população com vários tributos e nem assim se lhe retornam bons serviços públicos. O anúncio dos investimentos em televisão digital e o custo alto de um televisor preparado para este sistema ou do conversor de sinal se comparam com a venda de caviar a quem mal tem condições financeiras de comprar feijão. A subida dos preços de alimentos básicos é outra piada recente. Enfim, toca sintonizar a antena para entender o que fazem deste país.

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31. Uma contradição insalubre

A saúde no Brasil está tão mal que só se salva a minoria que paga por um plano de saúde num país que, pelo padrão de arrecadação

tributária, deveria ter um dos melhores sistemas públicos de saúde do

mundo.

Contudo, o que estamos fartos de presenciar ou informar-se pelos meios de comunicação é sobre filas amontoadas de pacientes, falta de recursos materiais, funcionários e hospitais para atender à demanda com qualidade e rapidez, salários baixos e defasados da equipe, reincidência de infecções hospitalares e doenças que deixam de ser controladas. É notável que a saúde não tem sido vista como prioridade pelo governo, ou que a população que tem planos de saúde não está preocupada com aquela que o governo provê.

O Sistema Único de Saúde (SUS) foi regulamentado em setembro de 1990 pela Lei Federal 8.080, que definiu seu modelo operacional. Mais tarde em setembro de 2000, a Emenda Constitucional nº 29 determinou que houvesse uma percentagem mínima da receita de impostos destinada à saúde na proporção de 12% dos estaduais e 15% dos municipais. No entanto, o aspecto negativo desta proposta é que alguns projetos são empurrados dentro deste orçamento sem que sejam relacionados à saúde.

Para ir direto ao ponto, a pressão das empresas privadas que atuam no setor de saúde é o fator que mais inibe a evolução da saúde pública, que se criou para todos. Uma vez procurei um medicamento numa farmácia do interior paulista e fui informado de que havia até 25% de desconto para quem tivesse algum plano de saúde. Ora, desconto como este precisa quem não tem condições financeiras de comprar o serviço privado. Que contradição insalubre!

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Não é do interesse das empresas do setor de saúde que o sistema público dê sinais de melhora, agilidade e eficiência. Elas promovem quanto for possível, na televisão e noutros meios, que a saúde pública está cada vez pior. Igualmente as seguradoras e administradoras de condomínios não querem que a segurança pública seja boa, nem as escolas e universidades privadas e as faculdades botequineiras desejam que o sistema público de ensino melhore. As empresas privadas não querem perder mercado em seus setores respectivos.

Uma fórmula eficiente da saúde pública é de difícil equação, porém algumas medidas ajudariam. Entre elas: aumentar o orçamento destinado à saúde pública, ampliar o acesso à educação para a saúde, burocratizar o funcionamento dos planos privados que atuam no setor e reiterar sua existência temporária, conscientizar os usuários destes serviços para que lutem a favor da saúde pública, uma vez que ela já está nos impostos e é um direito de todos. Temos que transformá-la numa garantia em vez de cedermos à apatia.

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32. Neoliberalismo no estilo brasileiro

A população brasileira assistiu passivamente ao desmanche do patrimônio nacional com o processo de privatização das empresas

estatais, ou seja, a venda destas ao mercado. Isto se concretizou na década de 1990, quando o país tinha uma dívida pública elevada e os presidentes

do período descumpriram o dito popular de que “cabeça foi feita para pensar”. Já começamos a pagar o preço.

Por exemplo: aumento abusivo de tarifas, negligência no atendimento e má qualidade dos serviços. O projeto neoliberal apoia-se na ideia de “Estado mínimo”, abertura ao capital e mercado livre; porém, um país sucumbe quando o projeto se efetiva mal. Faltou cogitar que todo ideal bem aplicado precisa de planejamento. Exponho este assunto da perspectiva do povo brasileiro, que tem deixado de ser cidadão para se tornar cada vez mais consumidor.

A privatização não é totalmente prejudicial e indesejável num país. Entretanto, acuso a maneira inescrupulosa como foi praticada no Brasil. Venderam-se empresas públicas por valores muito abaixo do que custavam; como se não bastasse, muitas delas eram lucrativas, embora se apregoasse na época que elas devoravam o dinheiro do Tesouro Nacional.

A medida de privatização de empresas que garantiram o desenvolvimento da economia nacional até um passado bem recente foi o maior retrocesso; mais especificamente, refiro-me àquelas que cuidavam da produção, organização e prestação de serviços essenciais para o bem- estar da população e a modernização da sociedade.

Assim ocorreu nos ramos de telefonia (Telebrás), rodovias, energia, bancos (Banespa), indústria básica (Companhia Siderúrgica Nacional, Companhia Vale do Rio Doce). Basta notar que, nos Estados Unidos, país mais beneficiado com os preceitos neoliberais, há

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mecanismos de proteção que inviabilizam a privatização das empresas estatais que atuam em setores estratégicos.

Empresas estrangeiras também entraram nas disputas da privatização dos setores essenciais e, como não estão preocupadas com o bem-estar da população como deveria estar o nosso governo, poderiam, por exemplo, chantagear-nos para conseguir o que querem.

O mecanismo de mercado funciona assim: se estivermos insatisfeitos com o arroz ou o feijão de uma marca, compramos de outra; no entanto, esta livre escolha torna-se mais difícil com o uso de eletricidade, rotas rodoviárias ou telefonia fixa. Recurso estratégico não se privatiza, salvo no Brasil. Aqui falta um movimento nacionalista para reagir a estas decisões mal tomadas, que nos afetam no nosso direito de cidadãos.

Ainda quanto ao processo de privatização, o economista Márcio Pochmann apontou uma falta de ênfase social que impulsione o desenvolvimento econômico e diminua a desigualdade social. Defendo, portanto, a encampação das empresas de setor estratégico no país, ou seja, que o governo tome posse delas, e que as indenizações fiquem na conta da dupla Collor-Cardoso.

A política de privatizações não consultou a opinião pública e vendeu nossos bens a preços baixos e com investimentos majoritários deduzidos do montante interno através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. É como se o próprio povo brasileiro estivesse pagando pela venda de empresas que deixaram de ser suas. Isto é um banquete para o capital privado nacional e internacional. Um projeto do neoliberalismo no estilo brasileiro.

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33. A balela dos alimentos

P ara os leitores que não estão cientes da realidade do Brasil e da maneira apocalíptica como o país tem-se inserido no mundo como

promotor da energia limpa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apregoou que os biocombustíveis não afetam a segurança alimentar. Seu argumento é o de que a cana-de-açúcar ocupa apenas 1% das terras agricultáveis brasileiras. O problema de Lula é que ele quer abraçar o mundo antes de resolver o problema nacional.

Essa porção de terras agricultáveis provavelmente já era maior quando Lula terminou o discurso, em setembro de 2007, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas; ao menos, os fazendeiros já cogitavam aumentá-la pelos atrativos da era da energia renovável. Se o negócio der dinheiro, o empresariado rural adere. E está dando certo:

com a exportação do etanol, o setor do agronegócio vai bem enquanto o povo não sabe quanto embriagar-se com a instabilidade dos preços do álcool nas bombas de combustível.

A revista inglesa “The Economist”, de olho nas tendências, publicou um artigo na edição de oito de dezembro de 2007 a respeito do “fim da comida barata”. Entre os produtos mencionados, constam arroz, feijão, trigo e milho. O aumento no preço do milho (e das essenciais tortilhas) no México gerou uma crise com a população manifestando-se nas ruas, enquanto o feijão mais caro no Brasil não tem impedido os aplausos a favor da expansão da cana-de-açúcar.

O etanol tem parte da culpa pelo aumento dos preços de produtos advindos de outras colheitas, sobretudo pela demanda crescente por etanol em carros no continente americano. A lógica é de que, quando o preço de um produto agrícola sobe muito, os fazendeiros plantam-no para obter ganhos econômicos, mas se apropriam das terras que tinham

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outros usos. Portanto, a demanda alta por um produto agrícola específico, como tem sido a cana-de-açúcar e o milho, afeta a segurança alimentar.

Logo, a preocupação surge no momento oportuno em que o aumento da renda na China e na Índia fizeram sua enorme população consumir mais carne e outros alimentos. Ao mesmo tempo, nós brasileiros estamos abastecendo os carros de países desenvolvidos com o que se produz de renovável nas nossas terras agricultáveis, enquanto ouvimos mais uma balela de nossos representantes, que não se importam que o arroz e o feijão fiquem mais caros em nossas mesas.

Algumas soluções à questão dos biocombustíveis no Brasil seriam: proibir as exportações brasileiras de etanol, já que Lula enfatiza a transferência de tecnologia da produção desta fonte renovável de energia em vez de fazer do Brasil o celeiro da cana-de-açúcar; ou atribuir um teto no preço do álcool comercializado dentro do país e aumentar as reservas internas deste produto. Defendo a pesquisa e o investimento em biocombustíveis desde que tragam benefícios ao povo brasileiro e não apenas a um grupo econômico seleto.

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34. Um bom começo

S er brasileiro é, para uns, sinônimo de afetividade, criatividade, diversidade e trabalho; não faltam exemplos de pessoas que fizeram

história, embora eu também acredite nos poderes transformadores que emanam daqueles que se sentem irrelevantes mas que se unem com efeitos poderosos em lutas dignificantes. Para outros, a brasilidade destina-os a sentir a pressão do acúmulo de notícias hediondas de violência divulgadas diariamente, que se banalizam, ou está na descrença daqueles que não se formam como um povo mais consciente e se acobertam no clã dos que

sentem “vergonha de ser brasileiro”.

Já seria um bom começo se assumíssemos parte da culpa a ponto de reconhecer que muitos não se lembram em quem votaram nas últimas eleições ou de que só o fizeram porque era obrigação; e que outros prefiram trocar seus afazeres diários por algumas horas semanais na frente da televisão até descobrir quem será o próximo eliminado do Big Brother Brasil; e que outros tantos decidam estabelecer suas genealogias e apresentá-las a consulados de países europeus para conseguir uma outra cidadania e ter acesso alhures a certos benefícios que, de outro modo, são negados aos que possuem somente o passaporte brasileiro.

Uma notícia veiculada em 17 de fevereiro de 2008 pela Agência Brasil apontou que brasileiros (a maioria deles proveniente do Amapá) têm buscado trabalho e condições melhores de vida na Guiana Francesa; porém, muitos atravessam ilegalmente a fronteira entre os dois países pelo Rio Oiapoque, desviam-se dos oficiais de migração e infiltram-se na mata indicados por pessoas que planejam esta prática e cobram por ela. Enquanto homens se sujeitam a trabalhos nos garimpos clandestinos, entre outras atividades informais, as mulheres acabam em serviços domésticos para famílias guianenses ou na prostituição pela falta de documentos e urgência de recursos para sobreviver.

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Segundo o nosso Ministério das Relações Exteriores, ao redor

de 1,1 milhão de brasileiros vivem nos Estados Unidos, dos quais pouco

mais de 700 mil são residentes ilegais. Estes são atraídos pelo “sonho

americano” e, na melhor das condições, conseguem enviar dinheiro para suas famílias no Brasil. Ainda, parte considerável dos emigrantes busca oportunidades na Europa e no Japão, mesmo que tenham que se submeter a trabalhos degradantes e que apenas sirvam para pagar o sustento próprio.

O discurso mais comum entre eles é o de que preferem a estabilidade

econômica e a segurança de um país desenvolvido ao risco da violência, do

desemprego e da instabilidade política do Brasil.

Na sociedade brasileira, que ultrapassou os 180 milhões de

habitantes, não se trata de agarrar qualquer proposta de salvação como se

se tratasse de um navio em naufrágio senão de enxergarmos o que cada

um pode fazer por mais insignificante que veja seu mundo. Afinal, são dezenas de milhões de almas que compartilham uma cultura invejável e a

necessidade de evolução cujos problemas aparecem apenas como estímulo para impulsar-nos ao futuro. Quando se esgotam as forças do país, recompõem-se as pilhas. Nunca se descartam as possibilidades.

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35. A economia da informalidade

É elevado o número de pessoas e empresas que atuam na informalidade em nosso país. Por um lado, este cenário aponta a dificuldade de se

conseguir o emprego desejado e de assumir os encargos trabalhistas excessivos; por outro, o país deixa de obter recursos devido a suas políticas obsoletas que não têm acompanhado a evolução do mundo globalizado, do qual, queira ou não, fazemos parte. O fenômeno da informalidade no trabalho pode ser visto desde as grandes cidades, como o corredor comercial da rua 25 de março em São Paulo, até os serviços

informais que têm sido oferecidos em semáforos das urbes pequenas e médias.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informam que havia mais de 10 milhões de empresas informais (a maioria delas sendo micros e pequenas) em 2003, ao passo que os do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam que a informalidade representou cerca de 50,4% da população brasileira economicamente ativa em 2005. Embora ainda se espere uma atualização das estatísticas, estima-se que os números atuais sejam praticamente os mesmos.

Um dos fatores que justificam a economia da informalidade é a aliança de funcionários pensando de um ponto de vista empresarial com a máfia do direito trabalhista para, muitas vezes com alegações falsas e tramadas, “botar no pau” empresas idôneas e auferir delas somas desonestas. Por este e outros motivos, muitas empresas deixam de contratar trabalhadores com carteira assinada, ou o destino de muitos acaba sendo guardar carros em festas noturnas ou vender discos “piratas” em praças públicas, setores em que costumam ganhar mais do que se estivessem seguindo a lei. É uma perda para as empresas nacionais, uma vez que, de modo geral, as transnacionais têm mecanismos de controle jurídico muito mais avançados e precavidos.

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A sociedade brasileira costuma ser generosa quanto à oferta de

trabalhos. No entanto, o governo deixa de arrecadar fundos para suas políticas sociais e de organizar dados econômicos da formalidade devido à maneira retrógrada como quer proteger a classe trabalhadora com encargos tão altos sobre a folha de pagamentos quanto tem sido a força de inserção da China no mundo, que tem sido eficiente apesar das críticas de exploração de mão-de-obra. O Brasil deve flexibilizar suas leis trabalhistas e modernizar o setor judiciário sem que, para isso, perca a proteção dos direitos do trabalhador.

O trabalho informal reflete a falta de controle do governo sobre

uma economia que se liberaliza, mas, ao mesmo tempo, desenvolve-se às sombras de movimentos que defendem a classe trabalhadora e do entendimento de como é a dinâmica de inserção do Brasil no mundo. A informalidade é um fato de países (inclusive dos desenvolvidos) que se fundam em ideais democráticos, mas que reflete também a assunção dos indivíduos (e de certa forma o reconhecimento dos limites) de onde e como atuar a partir do que o governo quer fazer com eles.

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36. Amnésia na democracia

É uma lástima que muitos candidatos a cargos políticos, quando eleitos, esquecem-se de representar o povo de cujos votos tanto dependeram

e agem em função dos interesses de empresários ou de grupos políticos

poderosos. E não são poucos que agem assim. Eles defendem o crescimento econômico do país enquanto a renda não é bem distribuída e não temos certeza se o dinheiro arrecadado com os impostos altos é bem aplicado naquilo que o país necessita.

Defendo uma ampliação dos canais de comunicação entre os candidatos e a população, antes das eleições e depois delas, para que conheçamos melhor suas propostas e possamos continuar tendo voz na vigência da democracia. O nosso regime político, embora seja representativo (uma vez que o poder emana do povo através de representantes eleitos), carece de maior acompanhamento no decorrer das

administrações para evitar o descompasso entre o que se prometeu e o que

se defende nas tribunas.

As eleições nos níveis municipal, estadual e federal vão e vêm, enquanto as massas continuam sem saber como opinar a respeito dos problemas de sua cidade, estado ou país. Surgem ecos das ideias e sugestões dos eleitores em suas reuniões familiares, conversas entre vizinhos, festas e outros eventos, mas as autoridades estão quase sempre propensas a decidir unicamente a partir do que discutem lá encima entre eles.

A democracia não pode caminhar sem que o povo, com sua sabedoria, continue opinando aos representantes sobre os problemas de sua comunidade e sugerindo mudanças que tragam o bem-estar da maioria. O filósofo italiano Umberto Cerroni, ao falar da “missão do sábio”, aponta que o grande problema cultural da sociedade de massas

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atual é reconstruir um canal institucional para a produção individual livre

e vincular os órgãos públicos à cultura autêntica.

Interessa-nos, por exemplo, a eficiência e a presteza no atendimento em órgãos de defesa do consumidor, a provisão de números

gratuitos de telefone para reclamações e pedidos em secretarias municipais

e estaduais, o aumento da fiscalização sobre as agências reguladoras (como

as de transporte terrestre e telefonia) para que não sejam baluartes do setor privado, e a ampliação dos mecanismos de consulta popular por funcionários públicos.

O amigo do povo não pode ser confundido como inimigo da

classe política porque assim estaria sob risco de dissociação em vez de fiel correspondência. A amnésia na democracia associa-se à falta de canais, ou

o desconhecimento dos mesmos, de diálogo entre a população e os

representantes durante as gestões que nos dificulta cobrar mudanças na repartição de recursos e na definição de quais setores são prioritários. Muitos canais existem, mas o povo não sabe como usá-los.

A sociedade transforma-se rapidamente e o povo demanda ações para melhorar sua qualidade de vida e certificar o avanço da democracia no Brasil.

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37. Liberdade e reforma no Brasil

N o Brasil, não estamos preparados para usufruir da liberdade em sua plenitude como política que favoreça a vida coletiva, embora este

seja um dos objetivos que todos devemos perseguir incansavelmente. Antes desta conquista, precisamos superar o dilema que exponho nos parágrafos seguintes com uma reforma da consciência e do sistema político que seja cidadã, duradoura e sustentável.

Vivemos um momento dilemático na história brasileira por não termos ainda descoberto qual caminho trilhar, ou seja, por não termos resolvido uma dúvida do século passado: o neoliberal proposto pelos Estados Unidos com apelo às liberdades individuais e de mercado, ou o estatista, como o modelo seguido pelo presidente Lula na tentativa de assegurar os direitos sociais e de combater a fome e a miséria no Brasil. Este, no entanto, sofre pressão a favor da redução dos impostos sem os quais se dificulta um dos gêneros de reformas.

Em alguns aspectos, o Brasil segue a receita dos Estados Unidos com soluções para o presente, mas com a diferença de não ter condições de efetivá-las. O problema de lá é que o excesso de liberdade pode provocar decomposição de valores e embrutecimento da sociedade enquanto temos acesso a uma variedade de produtos de consumo desde televisores até carros luxuosos; além disso, o poder de compra da maioria dos brasileiros é baixíssimo e nos tira de alcance boa parte dos atrativos que se vendem no mercado.

Por isso, vejo com desgosto certas informações relacionadas a Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela que se transmitem por alguns meios brasileiros poderosos de comunicação onde se constrói a imagem de que seus líderes são malucos, desequilibrados e constituem uma ameaça para o Brasil. São repugnantes os mecanismos usados para acobertar os anseios de reforma, discriminar e até criminalizar países onde há manifestações

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notórias a favor de maneiras de resgatar a importância do social na América Latina.

Para ilustrar esta situação, o programa domingueiro do Fantástico (transmitido pela Rede Globo em horário nobre) preparou e transmitiu uma reportagem em que se questionava como a população brasileira se defenderia de um ataque eventual da Venezuela. Embora saibamos que o governo venezuelano tem investido em material bélico (o Brasil também investe), a Rede Globo fez uma alusão infeliz de que este país invadiria o Brasil, que reagiria com suas Forças Armadas anacrônicas, talvez por nossos governantes serem “papagaio do império” como se referiu uma vez o presidente Hugo Chávez. Quanta manipulação!

De outra perspectiva, o filme “A cidade perdida”, de Andy Garcia, como outros produtos culturais estadunidenses que se intrometem na América Latina com suas táticas de condicionamento mental, recordou- me de alguns traços acerca da revolução cubana que também dificultam o desenvolvimento democrático. O maior problema de um país regido pelo estatismo é que poucos burocratas dizem o que os demais devem fazer e pensar para o resto da vida, como o episódio de proibição do saxofone pela chefe do sindicato dos músicos porque é instrumento do imperialismo. Assim a liberdade também se distancia.

O Brasil aparece em cena nesse puxa pra cá e empurra pra lá entre o estatismo e o neoliberalismo e, na circunstância atual, a opção por somente um destes dois extremos é um risco. O que está em questão, igualmente, é a liberdade, que não é remédio para todos os males, pois não é boa se caminhar junto com a ignorância e a baixa renda. Uma boa reforma há de dar-nos liberdade a todos e, mais ainda, condições para sermos livres.

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38. Nem tudo se globaliza

N estes “tempos de globalização”, circulam bens, capitais e serviços quase que livremente entre os países, no entanto o mesmo não é

válido para as pessoas devido às travas migratórias, que dificultam o seu

livre fluxo. É o que acontece com uma parte dos brasileiros que viajam à Espanha quando são impedidos de sair do aeroporto e têm que regressar ao país de origem no próximo voo.

No dia 5 de março de 2008, 30 brasileiros ficaram retidos durante horas numa sala do aeroporto de Madri (capital espanhola) até descobrirem que sua entrada ao país havia sido negada porque a Espanha exige documentos comprobatórios da atividade do visitante no país e o porte de, pelo menos, 70 euros para cada dia de permanência. Em 2007, em torno de 3 mil brasileiros foram impedidos de entrar na Espanha. Igualmente, no dia 6 de março, a Polícia Federal brasileira barrou, e dentro do que prevê a nossa legislação migratória, a entrada de 7 espanhóis que tentaram ingressar ao Brasil pelo aeroporto de Salvador por razões semelhantes às apontadas pela migração espanhola adotando uma medida diplomática baseada na reciprocidade, ou seja, de igual para igual.

Quando estive num debate universitário sobre a produção científica na área de humanidades em que opinou uma participante espanhola, surgiu o seu comentário de que raramente um pesquisador europeu em alguma instituição deste continente lê alguma coisa do que se produz na América Latina, como se não importasse a produção intelectual daqui; ademais, ela finalizou dizendo que “a América Latina não existe para os espanhóis”. É possível dizer que a colonização hispânica na América, que teve seu fim formal ao longo do século XIX, adquiriu novos contornos com a globalização e a transnacionalização dos capitais e investimentos, que é um cenário em que nem todos saem ganhando.

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Os interesses da Espanha na América Latina são comerciais e estratégicos. Suas indústrias editoriais, com filiais também em Buenos Aires e Cidade do México, fazem-nos chegar obras de autores europeus canônicos e outros não tão conhecidos, enquanto a produção literária latino-americana tem pouca aceitação e circulação nestas editoras. No Brasil, empresas espanholas se apropriam cada vez mais de setores estratégicos, como a compra do BANESPA (Banco do Estado de São Paulo) pelo Santander, e da TELESP (Telecomunicações de São Paulo) pela Telefónica. Esta, por sinal, só quer saber da nossa grana e introduziu um conceito novo no país que eu chamo de “burocracia empresarial”, onde os problemas do consumidor são sempre culpa do sistema ou de outro setor.

Está mais do que na hora de que os presidentes do Brasil e da Espanha e também os embaixadores que atendem as relações diplomáticas entre estes países dialoguem sobre este embaraço migratório. Através do diálogo, deixarão um pouco de lado o escambo entre o flamenco e o samba, pois, desta vez, trata-se de tornar transparente a relação que existe entre estes dois países sem que os brasileiros dancem. Do jeito que está, ambos países perdem em turismo e confiança. A medida de reciprocidade migratória brasileira é antes uma resposta que uma decisão porque nunca havia passado pela cabeça das nossas autoridades retaliar os espanhóis. É necessário, portanto, fazer uma revisão destas relações bilaterais para que se derrote o orgulho espanhol e a complacência brasileira.

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39. As vias do utilitarismo

O utilitarismo clássico baseia-se no princípio de que a melhor ação é a que produz a maior felicidade para o maior número de pessoas. Daí

sucede que o utilitarismo político é inevitável para o crescimento de um país, enquanto aquele praticado nas relações pessoais pode ser indesejável.

O primeiro justifica-se porque as políticas públicas atenuam conflitos

sociais na impossibilidade de agradar a todos os cidadãos, uma vez que sempre haverá alguém prejudicado, ao passo que o segundo caso exige

conquistar apoio da maioria em prejuízo de alguns, por exemplo, a zombaria de algumas pessoas em proveito da gargalhada da maioria.

Essa doutrina é muito confundida com as noções de individualismo, materialismo e interesse, embora uma possa levar a outra conforme à disposição da prática utilitária. O inglês Jeremy Bentham é considerado o criador do utilitarismo como filosofia moral. As ações humanas, na sua concepção, devem seguir o princípio da utilidade em consideração à quantidade de prazer e dor que provocam nos indivíduos. Por sua vez, Karl Popper defende que o utilitarismo deve ser entendido apenas como a minimização da dor. Dada a variedade de interpretações, é

um erro levar a doutrina ao pé da letra.

Na política, o utilitarismo acaba sendo apropriado para conquistar o bem-estar de uma maioria dentro de um limite nacional, mas com a negligência de um grupo tido por minoritário. No Brasil, a continuidade da cobrança da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) é apregoada pelo governo Lula como útil para combater problemas que afetam o interesse geral e para beneficiar principalmente o Sistema Único de Saúde, enquanto o imposto prejudica

as transações financeiras do grupo empresarial. Ideal é o mundo onde

fosse possível o benefício de todos, mas real é aquele onde sempre existiu e existirá conflitos mediados pela prática do utilitarismo.

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O utilitarismo não pode ser uma doutrina repudiável em si, uma vez que admite interpretações múltiplas, exceto pelo modo como se apropria dela e para que fim. Os Estados Unidos maximizam o bem-estar de sua população promovendo guerras em outros territórios para conseguirem recursos naturais e mercado consumidor para sua inesgotável produção industrial. Assim sendo, é oportuno expor a crítica feita no século XIX pelo escritor uruguaio José Enrique Rodó, que contrapôs a virtude do espiritualismo latino-americano à ganância do utilitarismo estadunidense numa tentativa de evidenciar um conflito de valores.

É preferível o benefício da maioria ao estouro dos conflitos que atravessam a sociedade. Entretanto, essa constatação mais vale para o universo político, visto que nas relações pessoais o utilitarismo pode render desavenças e mágoas se aplicado inadequadamente. Borbulha o caldeirão de doutrinas filosóficas no mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, o mal uso que se pode fazer delas a partir das vias inúmeras de interpretação. Em muitos aspectos apontados, é melhor pensar bem se há ou não utilidade em toda e qualquer abordagem utilitária, pois o bem- estar material não pode estar acima do moral.

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40. A integração pela língua portuguesa

A língua portuguesa tem passado por transformações nestas últimas décadas que vão além do que habitualmente sofrem os idiomas e nos

fazem questionar o lugar que ocupa e o espaço que cederá se o ritmo continuar assim. Equaciono que a preservação da língua portuguesa resulta

na defesa deste patrimônio cultural somada ao estímulo à integração nacional. É comum dizer que, embora porte uma bagagem cultural imensa, a língua portuguesa tem mais exceções do que regras e que ninguém sabe qual é a próxima reforma por que passará.

Herdamos um idioma bonito e rico de Portugal, um país pequeno da península Ibérica e pertencente à União Europeia, antes esplêndido no período das descobertas marítimas e hoje deficiente em relação a esta comunidade. Hoje fazemos piadas de que tudo que é português relaciona-se com a burrice em vez de enaltecer as origens da nossa língua. No entanto, este nosso instrumento de comunicação difere tanto do português em gírias e sotaque, que há os que digam que o nosso idioma é outro, o “brasileiro”, para fazer uma contraposição.

Quando nos damos conta das apropriações atuais da nossa língua, a situação se complica: jovens que cada vez mais se comunicam com abreviações pela facilidade do uso na Internet (“você” se torna “vc”, “quando” se torna “qdo”), ou palavras estrangeiras no vocabulário cotidiano (ninguém diz “correio eletrônico” em vez de “e-mail” e são poucos os que se referem a “sublinha _” em vez de “underline _” quando há símbolos no endereço eletrônico e no nome de usuário); pior mesmo é aceitar que cada vez mais lojistas empreguem o termo “30% OFF” em seus cartazes no lugar de “30% de desconto”.

A fluidez dos bens culturais na globalização traz um sentimento de liberdade que se concretiza nos usos que se têm da língua portuguesa, onde cada um se expressa como quiser e de acordo com os códigos

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inteligíveis no país. Contudo, o que não podemos perder de vista é que a riqueza do nosso idioma oferece expressões próprias para termos forasteiros, e, mesmo quando estes sejam mais recentes, logo temos nossa própria palavra acompanhando os novos avanços, ainda que seja no campo mutante da informática.

Esta sensibilidade nos permite valorizar mais o que é nosso e integrar melhor um espaço nacional cujas fronteiras se diluem gradualmente. Não deixemos esfacelar este grande patrimônio da língua portuguesa, que permite a aproximação das culturas mais distintas que compõem o Brasil: desde o maracatu pernambucano ao chimarrão gaúcho, e dos afrodescendentes da costa aos indígenas do interior que se interessam em aprender o português e integrar-se como membros de uma única nação.

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41. A mamadura e as prestações

N esta ocasião, tive vontade de escrever sobre os indivíduos que querem tirar proveito financeiro do governo, e daqueles que já o

fazem, e sobre a falta de compreensão acerca deste aparato burocrático e

ator social que é o único que tem a obrigação de zelar pelo coletivo.

Sei que a lista é ampla, mas me detenho àqueles que entraram na Justiça com pedido de indenização por terem sofrido perseguição, restrição de direitos e perda de emprego no período militar (19641985). Algumas destas pessoas foram vítimas do anacronismo sofrido por nossa política, que freou por mais de duas décadas a vontade do povo, enquanto outras são apenas parentes das vítimas e buscam, por isso, um pedaço do bolo já que muitos estão saboreando dele. Os dois tipos principais de indenização são as pensões mensais vitalícias e o pagamento em prestação única.

Embora eu reconheça que os danos do regime militar à população brasileira foram grandes e intoleráveis, a indenização pelo que se sofreu naquele período, contudo, não tem caráter transformador, pois visa somente ao embolso de dinheiro com base numa situação que, a cada dia, torna-se mais distante para os cidadãos brasileiros. A Justiça deveria negar este pedido, que está fundamentado na Lei 10.559/2002, com ressalva para a necessidade de reformar a legislação. E, se o fizer, estará agindo a favor do bem comum, pois o país está num momento em que precisa reduzir as desigualdades e a pobreza.

Situação completamente diferente foram as indenizações pedidas pelos familiares das vítimas do acidente aéreo da TAM (ocorrido em 17 de julho de 2007), que se manifestaram nas ruas e nos meios de comunicação contra esta empresa. O contexto era de caos do controle de tráfego aéreo no país, que estava mantendo os passageiros em horas longas de espera quando seus voos não eram cancelados. Esta indenização por danos

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materiais e morais atinge uma entidade privada e serve como pressão para que esta situação não volte a ocorrer.

O Estado brasileiro, durante o regime militar, não se constituiu com o apoio da maioria da população justamente por esta ter tido seus direitos restringidos. Sendo assim, o aparato burocrático que hoje é democrático e caminha na direção do fortalecimento de suas instituições não tem obrigação nenhuma de pagar indenizações baseadas naquele contexto, uma vez que hoje tem um quadro de representantes políticos majoritariamente renovado e o reconhecimento da população.

Equivocam-se aqueles que veem no Estado um ente quase empresarial, que lucra e paga salários, pois seu objetivo é reduzir conflitos na sociedade e regulá-la evitando os contratempos e os excessos da liberalização comercial. Nem mesmo as democracias mais sólidas do mundo prescindem do Estado. Assim, o pedido de indenizações com este pretexto desvia verbas consideráveis que poderiam ser usadas para melhorar a qualidade de escolas e hospitais.

Não há dinheiro que pague pelo sofrimento que tiveram alguns cidadãos brasileiros na ditadura, que é uma mácula na história do país. No entanto, com as indenizações, quem sabe onde esses indivíduos vão aplicar o dinheiro, quase que certamente em benefício próprio, mas isto não vem ao caso descubrir. A questão é a de entender o funcionamento da sociedade brasileira, seu sistema regulatório, suas carências e evitar que o impulso egoísta se alastre na nossa democracia.

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42. O casulo do desenvolvimento

O desenvolvimento em ciência e tecnologia permite um controle maior sobre as potencialidades e os recursos de um país.

No Brasil, temos visto que profissionais realizam pesquisas de ponta ou sobressaem-se por alguma habilidade para, logo, atrair-se por condições de vida e salários melhores em países desenvolvidos; além disso, assistimos a uma transposição de companhias transnacionais que, com seu agregado tecnológico, desfrutam aviltantemente dos nossos recursos humanos e materiais.

Dizem que se foi o tempo dos radicalismos políticos e que só nos resta aprimorar a nossa modernidade. A realidade, porém, é que as políticas educacionais e de desenvolvimento científico têm que ser seriamente revistas.

O desenvolvimento em ciência e tecnologia no Brasil está aquém daquele que o país precisa. Por isso, o presidente Lula anunciou em novembro de 2007 que haveria um investimento de R$41 bilhões até 2010 neste setor.

Quando uma empresa transnacional estabelece-se em território brasileiro, nossos governantes se apressam em mostrar à população os dados de geração de empregos, mas se esquecem de que o conhecimento ou o “know-how” que permite o funcionamento delas provém de pessoas que provavelmente as controlam de outro país. O Brasil, por enquanto, tem sido conduzido em função de sua matéria-prima barata, incentivo fiscal, vias de escoamento e alguns técnicos que se encarregam das questões burocráticas e rotineiras.

Entendo que o nosso país deveria promover a existência destas empresas transnacionais, mas de capital nacional, para que a nossa bandeira também esteja em outros países. No entanto, o que se vê é um

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governo moroso que sobrecarrega os jovens empreendedores de travas burocráticas e tributos e, ainda, não investe tanto quanto deveria no futuro da juventude, que, desde cedo, ouve de seus pais e outros bons conselheiros que há que estudar e ter uma profissão.

Por enquanto, o país contraiu uma dívida pela falta de investimentos em educação, implantação de barreiras ao desenvolvimento pessoal e ao setor produtivo nacional, e carência dos setores científicos e tecnológicos. Estes segmentos são precisamente os que deveriam ser entendidos como investimento pelo governo em vez de gasto.

A conjuntura atual é de que: as escolas públicas perderam o

prestígio que possuíam e a mercantilização do ensino tomou espaço; jovens aprendizes são vítimas da falta de incentivo à consciência crítica; empreendedores desestimulam-se à realização pessoal porque só se preocupam com rendimentos crescentes; as bolsas de pesquisa concentram-se em áreas mais técnicas e terminais da fase de estudos, ou

seja, vemos que as humanidades e os cursos de graduação recebem menos incentivos financeiros que as biológicas e as exatas, embora houve um reajuste no valor das bolsas de pós-graduação no país em 2008.

O desenvolvimento tecnológico nacional, embora não seja ruim,

só não está melhor pelos motivos apontados anteriormente.

Enquanto não tivermos um investimento ou um incentivo governamental considerável no capital humano do nosso país, o casulo das potencialidades de desenvolvimento não se abrirá. É necessário, por isso, investir muito dinheiro em educação para o maior número possível de pessoas.

Assim, não seremos mais avaliados somente pela capacidade técnica em entrevistas conduzidas por empresas transnacionais em território brasileiro. Teremos também condições de questionar-lhes o papel que assumem no país e buscarmos nós mesmos criarmos nossas empresas e cultivarmos nossos estudantes e profissionais com base em maior desenvolvimento científico e tecnológico.

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43. O turismo que integra

O turismo permite a difusão das diversidades de um país e traz ingressos para ele, no entanto o Brasil não tem feito os

investimentos apropriados em infraestrutura e publicidade para desenvolver este setor. É arriscado, inclusive, depender apenas de eixos tradicionais de turismo, como as praias cariocas e nordestinas, uma vez que concentram as visitas de turistas nacionais e estrangeiros a poucos lugares, alguns dos que têm fontes de renda bem diversificadas, e dificulta o desenvolvimento de outras regiões mais remotas do país, que recebem

pouco investimento neste setor e escondem as suas riquezas naturais e culturais.

Seguimos com o pressuposto de que não seria bom que o Brasil dependesse do turismo estrangeiro como uma das principais fontes de renda para não se sujeitar às oscilações internacionais do mercado (se o Real se valoriza em relação ao dólar, os turistas poderão escolher países de moedas mais baratas) e, por isso, o turismo auferiria menos rendimentos e prejudicaria a economia. Além disso, a propaganda turística deve ser diversificada para que o país obtenha recursos do setor também em cidades e regiões menos conhecidas que tenham potencial para o turismo e pouco desenvolvimento de outros setores produtivos.

Rio de Janeiro e São Paulo são duas das principais cidades brasileiras que acolhem turistas estrangeiros, o que se deve à reputação internacional e às rotas aeroviárias, uma minoria dos quais chega a conhecer os lençóis maranhenses, a selva amazônica, o pantanal, a chapada diamantina, as cachoeiras mineiras, a serra gaúcha, ou as cataratas do Iguaçu. É desalentador que muitos de nós brasileiros sequer conhecemos metade destas belezas naturais porque há travas ao turismo dentro do próprio país, como a falta de aeroportos, rodovias e hotéis em várias regiões, que dificultam ou encarecem o acesso, e, por isso, acabamos por preferir viagens a destinos mais próximos ou mais conhecidos.

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A imagem que temos de um destino determina se vale a pena

visitá-lo ou não e em que momento. Comento que, do contato que tive com estrangeiros, a ideia que compartilham do Brasil antes de visitá-lo é das mais deprimentes ou restringidas, uma vez que carregam o estereótipo de alguns lugares, situações e traços culturais de Rio de Janeiro, violência, samba e jogadores de futebol do pouco que viram na televisão ou escutaram de outros meios. Conheci algumas pessoas que sonhavam em conhecer o Brasil e uma delas me disse que esperava encontrar um país caótico, mas que surpreendeu-se por ser organizado quando chegou ao aeroporto. Não me agrada que o Brasil se resuma a estes poucos elementos culturais no turismo internacional.

É urgente a formulação de uma política que descentralize o

turismo no Brasil, ou seja, dê atenção a regiões mais remotas e menos conhecidas de modo a levar em consideração o enorme potencial que estas possuem em recursos humanos e naturais, invista em infraestrutura para que haja maiores atrativos, e melhore sua comunicação e transporte para acomodar e entreter os turistas.

É preciso que, acima de tudo, o Brasil diversifique e reforce sua

propaganda turística, dentro e fora dele, com o fim de alterar a imagem estereotipada do país e do brasileiro e de levar fontes de renda a outras regiões sem menoscabar outros setores da economia. Algumas regiões não podem depender quase que exclusivamente do turismo como fonte de ingresso simplesmente porque o Brasil ainda não alcançou a estabilidade

econômica e política desejada a ponto de não ser arriscado depender somente de um setor. Não nos esqueçamos, contudo, que o turismo é apenas uma das nossas potencialidades.

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44. Consumidor e proteção do consumo

A relação entre consumidor e proteção do consumo deve ser fortalecida. Não basta que apenas haja aumento do consumo em

todas as camadas sociais e setores da economia, que as pessoas comprem e

vendam mais, senão que este avanço seja paralelo à maior eficiência no atendimento às queixas do consumidor e a consequente proteção dos seus direitos pelas instituições públicas responsáveis.

As filas do PROCON (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) estão cada vez maiores e o tempo de espera pode chegar a horas, contando ainda que o próprio atendimento personalizado já demanda uma atenção demorada dependendo do caso. Uns resolvem seus problemas em poucos minutos, enquanto outros podem tardar mais de uma hora para tê-los resolvidos ou encaminhados para uma nova consulta.

Conheci funcionários destas instituições que são muito competentes e dedicados, claramente treinados e hábeis no que fazem, no entanto o primeiro passo para a melhora é aumentar o número dos atendentes e o turno de atendimento. Esta situação estimularia que mais consumidores busquem a Fundação para fazer suas queixas (em vez de desistir diante do tamanho das filas e de outros impedimentos) e que mais empresas sejam punidas por desrespeito aos direitos do consumidor.

Em seguida, é mais do que urgente atribuir a estes funcionários capacidade de punir e multar, uma vez que, até o momento, o PROCON tem sido somente mediador entre o consumidor e a empresa e negociador com os responsáveis do meio privado. A Fundação tem que ser vista como uma instituição que previna os abusos antes mesmo que ocorram.

Infelizmente, “abuso” é a palavra mais adequada para referir-se ao nível a que muitas empresas têm chegado de desrespeito ao consumidor. Algumas delas criaram um setor especializado em negociar com os funcionários do PROCON sobre algum problema apontado pelo

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consumidor. Para que confirmem o que estou falando, convido a que tentem cancelar uma linha telefônica proporcionada pela Telefónica no estado de São Paulo.

A Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor teve origem

formal no estado de São Paulo através de uma lei de novembro de 1995,

embora já houvesse um sistema de proteção ao consumidor, e logo se expandiu a outras regiões do país na forma de órgãos de defesa do consumidor devido ao incremento do consumo e aos problemas que se intensificaram a partir daí.

Não descarto a possibilidade de que o consumidor também pratique abusos contra as empresas, para os quais deve haver uma legislação adequada. Há muitos que tiram vantagem delas com respaldo em imprecisões dos contratos que assinam ou na boa vontade das empresas, entretanto o que se vê, em geral, é que a falta de informação do consumidor e a debilidade de mecanismos de punição da Fundação favorecem maior estatística de abuso contra o cidadão.

O momento em que estamos é de aumento do consumo no país,

entretanto é preciso coibir os abusos cometidos contra o consumidor através de uma legislação mais rigorosa, apesar de já estar bem elaborada. O mais importante, porém, é a formulação de mecanismos que garantam o cumprimento da lei, a fiscalização mais eficiente e a atribuição de maior capacidade punitiva aos funcionários do PROCON.

Esta relação entre consumidor e proteção do consumo permitiria maior respeito entre os cidadãos nas suas relações econômicas e mais um avanço das nossas instituições democráticas.

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45. Fundamento

P oucas pessoas se perguntam qual é o fundamento do amor antes de

amar, ou da crença antes de crer, ou da amizade antes de ter amigos.

A vida sempre correu sem que questionássemos o fundamento de todas as

coisas: o que significam, de onde vêm ou para onde vão, por que as fazemos ou deixamos de fazer. Nem nos passou pela cabeça que o fundamento fosse necessário para falar de coisas que implicam em inúmeros conceitos e para passar por situações que envolvem falta de conhecimento de causa e efeito.

Além desta constatação, acrescento que há conceitos, momentos

e sentimentos que são melhor aproveitados sem que tenhamos seu

fundamento porque assim se ausentam as ideias pré-concebidas ou restringidas. Existe o lado, portanto, gratificante de prescindir de grandes tentativas de assentar o cimento que os justifique e que lhes dê sentido. Afinal a vida segue pelos trilhos, embora o ser humano acredite que domina a natureza melhor que qualquer outra espécie com a ciência e a técnica, e se contente com que até então seja o ser mais inteligente que se tem notícia.

As dúvidas que surgem da indagação humana parecem, por vezes, tão elementares; ou a cada pergunta que se faz, desponta uma nova interrogação, como se o movimento da natureza fosse tão rápido a ponto de os nossos sentidos (serão cinco apenas?) se aturdirem e se comoverem a reconhecer uma certa complacência em aceitar a viver sem fundamentos. Há pouco tempo, descobriu-se um novo planeta no sistema solar quando a comunidade de astrônomos mantinha o fundamento, ou melhor a crença, de que não haveria nenhum outro.

Desde o século XVI, começou-se a pensar sobre como deve agir um governante eficiente com os escritos de Maquiavel, mas até hoje não se tem uma resposta precisa e isto não impede que tenha havido bons

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governantes antes mesmo da obra deste pensador italiano. Quantos são os que definem amor a partir de uma relação conjugal antes mesmo de fundamentar o conceito em interpretações distintas, que o entendem também como uma atitude diante de amigos ou de um respeito incondicional com a natureza. Da mesma forma, os debates entre cientistas parecem não ter fim simplesmente porque falta cimento para um bom fundamento.

E o que seria um bom fundamento? Não estou convencido de que precisamos fundamentar, entender, conhecer a fundo e explicar tudo na vida. Nem creio que tenhamos condições de unir tantos tijolos para edificar o fundamento de tudo, se é que se entende em que consiste esta minha crença. O que move a ação e o pensamento depende de noções pré-concebidas que carregamos até o momento de repensá-las e ressignificá-las. Entretanto, estes são esforços ainda apartados dos fundamentos, que ninguém até hoje provou serem indispensáveis para a sobrevivência.

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46. Compromisso coletivo

À s vezes, decido escrever sobre um tema depois de revisar as principais notícias de vários jornais de distintos estados brasileiros em sua versão

em linha e de identificar pontos de discordância e inconsistência. Confesso

a angústia que me dá quando vejo que assuntos sobre celebridades e violência predominam em suas manchetes e páginas, pois preferiria que os brasileiros fôssemos informados sobre as dicas de saúde, propostas para resolver problemas nas nossas comunidades, os avanços científicos do país, enfim, informação educativa e moralizadora.

A lógica de mercado, no entanto, é outra: as empresas que atuam no jornalismo (permitam-me, pois é crítica construtiva) têm que vender suas edições, enquanto as da rádio e da televisão têm que conquistar audiência. Para a medição desta, criou-se um instituto que se chama Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). Portanto, se o povo não vai até o meio, este vai até o povo. Porém, a necessidade saciada é a de consumo e não necessariamente a de elevar a consciência, a instrução e a moral para um patamar de aprimoramento intelectual. Baterei nesta última tecla quantas vezes for preciso.

Esta semana, inquietaram-se as notícias sobre dois movimentos sociais atuantes no Brasil: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e Via Campesina. Aquelas narram superficialmente os episódios de protesto contra o agronegócio, a defesa da reforma agrária e a intervenção em empresas transnacionais usando termos como “agressão”, “invasão”, “destruição”, “ilegal” e “violência”. É uma sequência de notícias. Questiono: Se esses movimentos não agirem da maneira como têm feito, alguém se importará com eles?

É melhor que não houvesse violência porque ela é mal vista e traz prejuízos, mas deveríamos prestar atenção no que os protestantes dizem: o preço dos alimentos sobe, os transgênicos são vendidos sem a

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inspeção necessária, a concentração de terras continua grande e desnecessária, e a contaminação e a destruição ambientais seguem incontroláveis. Estes movimentos sociais têm razão. O mínimo que poderíamos fazer é apoiá-los se não juntarmo-nos a eles.

Esclareço o que estava nebuloso. Estamos diante de dois discursos: um que condena o que está no parágrafo anterior e mobiliza-se em oposição, mas que injustamente é interpretado como agressor, ilegal ou invasor por alguns meios de comunicação; e outro que se ampara no poder econômico e político que possui a ponto de influenciar os meios de comunicação, tem respaldo legal de suas atividades de expansão canavieira, pesquisa de transgênicos e manutenção de grandes propriedades, por exemplo. São discursos em contraposição.

É difícil dizer que os dois grupos têm argumentos consistentes e válidos, portanto um deles está faltando com o compromisso coletivo, que permite uma sociedade brasileira mais justa. Quero estimular o leitor a reconhecer que os movimentos sociais, de maneira geral, lutam por maior transparência, mostram as contradições no país e são uma das principais vias para a busca da justiça social. Eles se mobilizam. A sociedade colhe os resultados.

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47. A pechincha contagia

A pechincha dá um tema interessante para descrever, discutir e entender. A maioria dos brasileiros já a realizamos, com ou sem

êxito nos resultados, e a sensação que ela dá no comprador pode ser o que o determina a fechar o negócio. A pechincha caracteriza o modo de os

brasileiros relacionarmo-nos em busca de vantagem. Sem fazer apologia a este fenômeno, vamos a ele.

Quem exerce a pechincha, e obtém êxito nesta prática, finaliza a negociação com um sentimento de que deu o preço final e levou vantagem. Por isso, faz o negócio satisfeito com que tenha determinado o rumo da conversa e influído nas condições finais da negociação. Vale chantagear, comparar com outros lugares, mostrar que falta dinheiro na carteira, entre outros artifícios.

Preferiria que não tivéssemos a necessidade de pechinchar e que, em todo e qualquer estabelecimento comercial, o preço e as condições fossem fixos e inflexíveis. Porém, a enorme concorrência que há, o traço cultural do brasileiro a favor de negociar e pender as condições para o seu lado a fim de auferir vantagem, confluem para que a pechincha siga presente.

Há lugares onde o vendedor define uma situação inicial hipotética com a expectativa de que será alvo de pechincha, como se já contasse com esta ação. Se quiser vender por dez reais, põe a doze. Aí o comprador se sente realizado quando baixa o preço, enquanto o vendedor também tem a mesma sensação porque vendeu pela condição final que queria.

No entanto, é comum que um pedido de negociação resulte em algum ganho para o cliente, mesmo que reduza centavos do preço inicial, sobretudo em áreas comerciais onde a concorrência é alta, o produto é

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comum e o trabalho é informal. É inconcebível fazer uma compra no Brasil sem, ao menos, perguntar se tem desconto à vista.

Desde os camelôs ou os corredores comerciais concedidos aos trabalhadores informais pela administração municipal até os estabelecimentos comerciais tributados, é difícil que o brasileiro não tente inclinar as regras iniciais de interação econômica para o seu lado. Porém, há lugares onde as condições de pagamento são rígidas, como cinema, teatro e supermercado.

Lembro-me que uma vez vi um transeunte pechinchando o preço de um par de cadarços com um vendedor de camelô em São Paulo. Este deu o preço a um real e aquele retrucou: “Oloko!”, o que me pareceu uma reação impulsiva de uma sociedade acostumada a negociar até o que o bom senso proíbe.

Enfim, uma coisa é que uma das partes tenha prejuízo numa negociação, enquanto outra é pechinchar porque o preço inicial foi posto à espera de um cliente negociador, que vai demandar, baixá-lo e comprar pelo que o vendedor realmente queria. Neste caso, a pessoa quis levar vantagem, mas não avaliou bem a situação.

Para um tema como este, pedi que alguém mais lesse meu texto e desse sua opinião antes de publicá-lo. Então surgiu o comentário de que faltou esclarecer que a pechincha não existe só no Brasil, uma vez que o fenômeno é mais acirrado na Índia, no Marrocos e noutros países. O comentário também recordou que herdamos esta característica cultural.

Outro comentário ainda diferenciou negociação de pechincha; esta segunda é mais insistente e menos comum. Seria, assim, um problema de terminologia. Eu quis especificar, porém, como é a pechincha no Brasil. Não perco de vista que a pechincha não existe só aqui nem é um fenômeno recente. A pechincha está na cultura brasileira.

não nos passou pela cabeça fazê-lo, alguém já nos

exemplificou a levar vantagem, lucrar inesperadamente, fazer bom

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Se

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negócio ou comprar pelo preço mais baixo possível. Uma disputa por espaço, uma luta pelo ganho, uma pechincha. Falei menos do que poderia. Se eu pechinchar, conseguirei que o leitor reflita sobre o tema. A pechincha contagia.

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48. O diabo e a Igreja

C ostumo escrever sobre os problemas brasileiros. Um dos principais é o Catolicismo, que se difunde a partir de um palácio presidencial

chamado Vaticano com a Igreja como sua instituição. Este texto é aquele

que tipicamente receberia muitas críticas, mas seria lido modernamente como óbvio e patente se publicado num momento posterior de iluminação e abertura de horizonte da humanidade.

A começar pelo fato de que o Catolicismo foi imposto à

América Latina por Espanha e Portugal, seus colonizadores e “civilizadores”, em troca do sangue e da subordinação dos ameríndios. É uma religião que sempre foi vinculada ao poder e a práticas truculentas, como as Cruzadas e a Inquisição. E a maior parte de seus fiéis a defende aferradamente sem nunca ter tido contato com outra doutrina para certificar-se se estão no caminho certo.

A Igreja passou da venda de terrenos no céu ao pretenso

monopólio da verdade. Hoje é uma instituição desesperada, falida, ultrapassada, que só não é pior que um pequeno negócio em bancarrota porque cresceu imperialmente durante séculos e os impérios não caem da noite para o dia. E expandiu-se difundindo as palavras que saíram da boca de todos menos de Jesus e de Deus.

Instigante é o fenômeno de imiscuição identitária em que o fiel (inclusive o mais conservador deles) começa a demonstrar curiosidade por temas como espiritualismo, poder do pensamento e reencarnação. Já ouvi falar de padre que doutrina espíritos dentro da Igreja. Esta instituição poderosa, há muito tempo, manipula o que a massa sabe e acaba incidindo na própria ignorância que ensina.

Durante a redação deste texto, várias vezes me perguntei que tipo de inspiração poderia ter e que solução poderia oferecer. E, como defendi que antes católico que nada, senti-me coagido a recomendar

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publicamente esta leitura em momento bem posterior devido à deterioração sociocultural em que está o Brasil e ao impacto que poderia causar no leitor apaixonado, que insiste em entregar seu dinheiro e sua confiança ao que não vale a pena.

Vejo simpaticamente algumas religiões desde que se proponham a transformar o fiel no conhecedor, o sectário no pensador, e colaborem para a transformação a partir de nossas necessidades espirituais. Enfim, é melhor que se siga uma religião em lugar de entregar-se a excessos e vícios. O Catolicismo, por esta razão, me desperta concomitantemente o agrado e a repulsa.

Até hoje se emprega a dicotomia do bem e do mal. O recurso é utilizado com frequência na política e na religião. O diabo é criação da própria Igreja. Chegou o momento em que aquele morde o próprio rabo. Perda de fiéis, turnês papais pelo mundo e intensificação do fundamentalismo são sintomas da mordida. A evolução da humanidade tem na Igreja um obstáculo para a emancipação.

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49. Fronteiras transgredidas

O s setores financeiros divulgam que as fronteiras tornaram-se desnecessárias e porosas nas últimas décadas, uma vez que é

possível transferir dinheiro e informação de um país a outro em poucos segundos, enquanto outros falam da crise do Estado-nação. Porém, é curioso notar que os Estados Unidos vigiem cada vez mais sua fronteira com o México e até ameacem a construção de um muro, ao mesmo tempo que aumenta a xenofobia na Europa em relação aos imigrantes africanos e intensifica-se o controle migratório. Desta forma, o Estado-nação vive atualmente o seu momento de maior importância e imprescindibilidade como organização política e conceito identitário, ao contrário do que apregoam alguns grupos defensores de sua porosidade. No Brasil, as fronteiras são mal vigiadas e, por isso, vítimas de transgressão; este é o tema de que tratarei.

Dos países da América do Sul, o Brasil só não possui fronteira com Equador e Chile. Temos 23.086 km de fronteiras, sendo 15.719 km terrestres. Só para comentar o caso da fronteira com o Peru, nosso país tem sido invadido (não gosto deste termo, mas não achei outro melhor) por madeireiros que agem no estado do Acre desmatando as reservas e extraindo madeira com o objetivo de levá-las ao outro lado da fronteira de onde vieram. O controle por parte de nossos agentes migratórios é praticamente nulo, na mesma proporção em que os contrabandistas estão preocupados em ser surpreendidos. A medida necessária, neste caso, é patente: conquistar o respeito fronteiriço com o envio, mesmo que temporário, de tropas do Exército brasileiro para realizar a patrulha.

O que acontece na fronteira com o Paraguai dispensa comentários, uma vez que é trânsito de contrabando e migração ilegal. Fracassada a intenção paraguaia de conquistar uma saída para o mar com a dolorosa guerra do Paraguai (18641870), hoje eles ao menos controlam metade do que se produz na hidrelétrica de Itaipu. Agrego que nosso país

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é o único na América do Sul que não tem base militar dos Estados Unidos, embora este país esteja ansioso por conseguir um espaço em Alcântara, Maranhão. Isto se deve a que, segundo os cálculos, gasta-se menos combustível para enviar foguetes da proximidade da linha do Equador e, segundo a suspicácia, esses abelhudos querem acompanhar de perto o que acontece na Venezuela, cujo governo lhe cutuca.

No Brasil, entra e sai qualquer um e a qualquer hora. Vimos o caso vergonhoso do jato pilotado por estadunidenses sobrevoando nosso espaço aéreo em altura e rota não autorizadas até derrubar o avião da Gol que matou 154 pessoas em setembro de 2006 no caminho entre Manaus e Brasília. No mínimo, o governo brasileiro deveria encaminhar um julgamento, mas ficou tudo no esquecimento. Nossas fronteiras são incomensuráveis, mal vigiadas e meramente geográficas; uma coisa leva a outra, pois a grandeza dificulta a patrulha. No mapa geográfico, parecem salientes e definidos os contornos do grande Brasil; na prática, poucos a temem. São vulneráveis e desrespeitadas até pelos países que temos como irmãos do Sul; nossa relação é sadia, mas não deve ser cega.

Assim, deixo o problema dos narcotraficantes na fronteira com a Colômbia para expor em outra ocasião. Para tratar do problema fronteiriço, nada mais adequado que o aperitivo da defesa brasileira para que o prato saia quentinho. No entanto, o Exército defasado que temos, que dispõe de baixo investimento em armas, tecnologia e estratégia, só serve mesmo para cantar o hino e acompanhar outras cerimônias formais, embora seja uma instituição de prestígio e respeito. Mas, claro, questiona- se por que investir em defesa num país que não combateu a miséria, dentre outros males. Ao deixar de ser condescendentes, todavia, já poderíamos enfrentar esses problemas com a ousadia peculiar à magnitude deste país. Circunscrever e defender o que é nosso: eis um ponto de partida.

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50. Ato reflexo

P or que dura tanto o sono do nosso país enquanto alguns outros aproveitam o pouco de recursos que têm para estar na dianteira do

desenvolvimento?

O Mercado Comum do Sul pouco transcende o âmbito econômico, o poder de compra da maioria da população brasileira continua baixo e baseado em créditos, regiões do país não recebem o incentivo necessário do governo, o investimento em educação cidadã é insuficiente, e a desconfiança da política e dos políticos tem sido tema recorrente. O país tem reagido por conformidade e não por espontaneidade. Tenho uma visão otimista do Brasil, mas me decepciona o pouco que se tem trabalhado a favor do coletivo.

O Brasil tem que projetar, construir e colher os resultados, que

vêm cedo ou tarde. Nenhum outro país fará por nós o que é a nossa tarefa:

que os brasileiros possam orgulhar-se do que são e viver bem de acordo com o potencial enorme e invejado de desenvolvimento que este país tem. Basta de ver até onde os japoneses e sul-coreanos chegaram com o pouco de recursos que possuem, ou que a história recente dos Estados Unidos em relação à brasileira os tenha colocado como o país mais avançado do mundo.

Eles estão fazendo o que sempre tivemos condições de fazer:

crescer, desenvolver, investir, aproveitar as chances, formar e informar, crer e concretizar.

O que falta é iniciativa com um pensar coletivo. Há que ter em

consideração toda a sociedade desde o cidadão mais pobre ao mais rico, medidas que deem oportunidades de realização ao maior número, e decisões que tirem o Brasil de sua posição tímida no mundo a ponto de mostrar o que é, o que possui e o que pode fazer para o bem-estar da população para que seja um exemplo. A “Lei Seca”, que proíbe a ingestão

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de bebida alcoólica por quem esteja no volante, surgiu tardiamente no Brasil, pois é evidente que quem bebe não deve dirigir.

O Brasil já foi nomeado pela metáfora “gigante adormecido”, que poderia ser usada ainda hoje porque o país tem todas as condições para realizar o sonho de ser potência. Falta a boa vontade de seus gestores. Diria que, mais do que um sonho, o Brasil potência é um processo natural. É triste diagnosticar que o potencial do país ainda germina, como quando uma análise clínica se desanima com o descuido da saúde de um paciente que se mostrava tão robusto e prometedor. Se a situação está aquém do que se poderia alcançar, podemos cobrar maior responsabilidade de quem não faz e fazermos nós.

Enquanto isso, o Brasil responde às urgências do meio mais como reação que ato espontâneo. Se o país está em crise, é urgente uma política econômica que o tire desta situação; se a soberania é ameaçada pela Área de Livre Comércio das Américas, é urgente reforçar o Mercado Comum do Sul ou projetar a União das Nações Sul-americanas; se a corrupção tornou-se insustentável, é urgente a medida de criar Comissões Parlamentares de Inquérito para averiguar a situação. Tudo isso, porém, tem sido feito em caso de reação e urgência.

Portanto o nosso país não anda na contramão nem segue o tráfego como deveria. O ato reflexo é o fenômeno biológico que faz alguém reagir com um movimento involuntário quando é, por exemplo, golpeado no joelho ou toma um susto. É uma reação de defesa do organismo, que age antes que o pior aconteça. Nosso país é assim: tem condições, capacidade e gente de ideias para realizar muito melhor, mas só faz o que tem que ser feito quando é a última solução. Persiste aquele velho debate entre o que é e o que deveria ser.

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51. Destino material

O cadáver gradualmente esmorece e empalidece, exala um cheiro que espanta até assombração, expõe suas tripas e exibe seu esqueleto

depois de um tempo embaixo da terra. O destino é certo: todos cheiraremos mal e os vermes roerão as entranhas de nossos corpos até não

sobrar nada. Pode-se atenuar este destino com a alternativa da cremação ou a tumba de mármore, respectivamente, uma pulverização imediata da carne e o último ato de vaidade.

O corpo humano obedece a ciclos. É nosso destino material

apodrecer e cheirar mal. Tracemos um rumo melhor para o destino

espiritual.

Tenho o intuito de parabenizar a atuação da nossa Polícia Federal e reconhecer que está em suas mãos o combate ao crime organizado e o grande salto para o fim da corrupção envolvendo o Estado brasileiro. É uma instituição das mais confiáveis e das que mais têm lutado pela conquista e preservação do Estado democrático de direito, sem o qual não se imagina uma sociedade coesa, harmônica e justa. O desrespeito à lei é um costume que, aos poucos, tem perdido espaço.

O Departamento de Polícia Federal está vinculado ao Ministério

da Justiça. A principal função da Polícia Federal é assegurar a ordem pública lidando sobretudo com assuntos que envolvem a União. Entre suas atribuições principais, a instituição combate infrações contra bens, interesses e serviços do Brasil, previne e reprime o tráfico de drogas e entorpecentes, atua no policiamento aeroportuário, fronteiriço e marítimo, emite passaportes e cuida de questões migratórias.

A operação Satiagraha demonstra que o país não tolera mais a pilhagem do patrimônio pertencente ao povo brasileiro e outras ações criminosas que desmoronam a nação, compram pessoas influentes e terminam impunes. Os argumentos contrários ao tratamento da Polícia

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Federal são pífios, uma vez que pobre e favelado sempre foi atirado contra a parede e humilhado por roubar bolacha em supermercado, enquanto os advogados de usurpadores milionários conseguem tirá-los da cadeia alegando ainda que as algemas estavam apertadas demais.

A batalha contra os grandes corsários está longe do fim, pois, no Brasil, a corrupção começa pelos muitos pequenos intermediários, que têm influência, poder econômico ou contato político. Contudo, o passo inicial já foi dado, que é a insatisfação geral e o êxito das operações da Polícia Federal. Parecem piadas as críticas a esta instituição de abuso ao prender preventiva e temporariamente pessoas com indícios criminosos suficientes, e as outras especulações incabíveis e mal informadas que surgem, como a de quebra de privacidade.

A Polícia Federal mantém declaradamente sigilo de suas operações, que só pode ser quebrado por vazamento através de outros meios, e recorre ao uso de grampos telefônicos para conduzir investigações somente quando necessário. Até então, estas são ações idôneas sem as quais seria difícil concluir um caso. A operação Satiagraha deu o que falar, gerou uma série de avanços, para uns, e equívocos, para outros. Algo está sendo feito no combate à criminalidade.

Cheiro de defunto é repugnante. Porém, os criminosos que desviam dinheiro público deixam apodrecer também a alma porque se apropriam de valores que poderiam ser usados pelo governo para formar milhões de cidadãos e salvar vidas. O sarcófago daqueles que cometem estes crimes poderá feder tanto que ninguém terá coragem nem de participar da cerimônia fúnebre. Enquanto isso, a ambição, a hipocrisia e o conflito de poder entre instituições arranham a nossa democracia. Ainda assim, há os que, como a Polícia Federal, cortam-lhes as unhas.

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52. Sopa de letrinhas

N ão se perdoa nem a chaga da divisão que há entre ricos e pobres, consumidores e não-consumidores, usufrutuários e destituídos,

com a criação da tipologia das classes A, B, C, D e E. Alguns até acrescentam outras letras, pois creem maior a divisão, enquanto emissoras

de televisão, instituições de governo e pesquisas de mercado, opinião e padrão de consumo têm-se baseado nela.

A classificação básica é controvertida e se faz assim: classe alta

(A), média alta (B), média (C), média baixa (D), e baixa (E). Esta sequência de letras refere-se básica e respectivamente a pessoas que vêm de família rica, profissionais bem pagos, pessoas com salários razoáveis, trabalhadores braçais, e miseráveis. Quando um não se encaixa em nenhuma delas porque é mais pobre que a B, mas nem tanto quanto a C, surge outra letra.

Uma das classificações existentes encontra-se na Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP). As demais discutem-se em foros virtuais, revistas e outros meios. Busquei algum padrão que especifique um número certo de letras, mas não encontrei. Cheguei à conclusão de que é mais fácil dividir a população em classes econômicas que em classes sociais, uma vez que esta é um conceito mal entendido.

É uma lástima, contudo, que se banalizem estas letras discriminatórias num país que tenta aproximar o pobre do rico, transferir renda aos menos favorecidos, e recentemente cobrar impostos de grandes riquezas. Não é um estímulo saber que sua classe é a D ou a E, muito menos que o carro que sai nos comerciais é projetado para as classes A e B. Fala-se de cisão econômica e social quando a ênfase deveria estar na inclusão.

A inclusão social é um dos temas principais na agenda brasileira

dos próximos dez anos. Ao mesmo tempo que se pressiona a favor da

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inclusão, forças retrógradas promovem a divisão em classes. Sendo assim, há os que pensam que é bom que sempre exista o comprador do carro velho e o do carro novo, o que se alimenta do básico e o desfruta do supérfluo. O uso comercial da classificação entre classes A, B, C, D e E reflete isso tudo.

Deixo de falar, nesta ocasião, sobre teorias de divisão em classes sociais, como a marxista. Inclusive essa divisão de letras se faz imersa na economia (propriedade de bens, uso de serviços, renda familiar), portanto mais como classes econômicas. Para alguns, a renda familiar é o principal critério de avaliação, como se ela determinasse também o comportamento de um cidadão porque identifica seu padrão de consumo ou seu poder de gastar dinheiro. Quanto mais ele ganha, menos genéricos compra e mais se adere a marcas.

Os que têm capacidade de influir no poder público para mudar a situação escondem-se em condomínios ou não se importam de pagar por planos de saúde, educação e segurança, que deveriam retornar dos impostos que todos pagamos. Ademais, as letras não dizem muito sobre a situação de uma pessoa ou família porque reduzem e categorizam. É desalentador que alguém saiba que está na classe E. Quem é que gostaria de sabê-lo? Melhor se nos contassem que estamos na A.

Saboreamos letras numa sopa de letrinhas. Assim como se tenta conjurar contra a divisão em classes por tantas e quantas políticas, outros a reforçam e reiteram pensando no passado. O sabor da sopa, pelo menos, dava bom apetite.

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53. Rodada Doha e a boneca inflável

E stancou-se a negociação que permitiria derrubar ou reduzir barreiras comerciais entre as nações, cujo êxito beneficiaria também aqueles

que dependem de exportação agrícola. O grupo de países mais ricos do mundo reiterou que o livre comércio, para eles, significa apenas vender mais seus produtos e manter travas às importações. Os demais países são aconselhados a fazer o que pregam os governos e instituições financeiras sediados em territórios ricos, enquanto os gestores destes seguem caminhos diferentes em suas economias.

O que se chamou fracasso da última negociação da Rodada

Doha, que se realizou em Genebra em julho de 2008, não é mais que uma conclusão previsível. Embora nosso Ministério das Relações Exteriores e chefe de Estado tenham exercido bom papel, o Brasil é um gigante que, às vezes, finge brigar como gente pequena. A prioridade deve ser o abastecimento do mercado interno e o desenvolvimento de produtos e serviços que os países mais ricos não tenham como recusar.

A maior queixa dos países em desenvolvimento, em cuja

categoria se insere o Brasil, refere-se à dificuldade de exportar produtos agrícolas aos Estados Unidos e União Europeia devido aos subsídios e taxas que encarecem a importação. Empregam-se medidas artificiais ao livre

mercado para frear a entrada destes produtos (como café, laranja e soja), que são muito competitivos, ou seja, mais baratos e de melhor qualidade que os que se produzem em países concorrentes.

Defendo que os países em desenvolvimento diversifiquem seus produtos de exportação e aumentem o investimento em ciência e tecnologia. É inviável que o Brasil continue concentrando as exportações no setor primário e negligenciando o desenvolvimento de produtos industrializados e serviços inovadores. Agrega-se tecnologia à agricultura,

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porém os países ricos não dependem do que o Brasil exporta, ao contrário dos computadores e componentes hospitalares que nos chegam.

Desde 2001, a Rodada Doha leva este nome porque surgiu no encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Doha, capital do Qatar (Península Arábica, Ásia). As reuniões posteriores realizaram-se em Cancun (2003), Genebra (2004), Paris (2005), Hong Kong (2006), Potsdam (2007) e novamente em Genebra (2008). A iniciativa substitui a Rodada do Uruguai, que se realizou entre 1986 e 1994 com o objetivo semelhante de facilitar o comércio internacional. A Rodada do Uruguai promovia-se pelo Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT, da sigla em inglês).

O grupo dos países mais “frescos” do mundo, quer sejam

chamados de centrais ou desenvolvidos, poderia ter aceitado as propostas da diplomacia brasileira, mas não o fez para defender seus interesses comerciais e forçar a negociação de acordos bilaterais. Desde quando faliu o projeto continental da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) em 2005, o Brasil tem sido a ovelha negra das negociações em prol de acordos bilaterais de comércio na América Latina.

Os Estados Unidos bombardeiam países ditos terroristas (alguns

lamentavelmente se convencem de que o são) com armas de última geração e lá deixam tropas militares como se fossem donos do pedaço. Nas nações em desenvolvimento, os estadunidenses despejam seus produtos eletrônicos, que criam uma necessidade cada vez maior de tê-los em casa, no escritório e na escola. Os computadores pessoais e o uso da Internet introduziram novas atrações e serviços, como o sexo virtual.

O Brasil havia sido a boneca inflável dos países mais ricos:

brincam, puxam, enfiam e gozam. Hoje, porém, o país começa a mostrar que pode participar das discussões de gente grande sem a frescura que

caracteriza o clã dos que fingem negociar e não cedem. O Brasil encontrou dificuldades, não conquistou o que queria, mas despertou-se

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para o tipo de desenvolvimento que deve buscar. Não dá mais para aceitar que nosso país sujeite suas decisões.

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54. Nascer, crescer e morrer

G uardo na memória a imagem de um feto em vidro que vi pela primeira vez numa feira de ciências de um colégio onde estudei os

primeiros anos do ensino fundamental. É uma imagem que me impressionou. Ela despertou-me para uma realidade que passou a ser conhecida por mim.

Não a chamo descoberta, pois ela está aí presente em sua banalidade, já fomos feto e muitos outros serão, até que a conhecemos e reconhecemos como tal. O apelo é de que não façamos do nascer, crescer

e morrer um processo medíocre e reducionista. Podemos ser e fazer muito mais do que um mero processo biológico.

Um rouba, maltrata, pilha, denigre, fofoca, maldiz, odeia,

inveja, fraqueja, agoura, suja, queima, condena, frustra, ilude, esbraveja;

o lápis entorta só de escrever estas palavras. Outro ama, apoia, aporta, colabora, coopera, realiza, tolera, perdoa, inova, insiste, agrada, compreende, espera, planeja, trabalha. Ufa, que energia boa.

E que desperdício seria só nascer, crescer e morrer. Já que a natureza é complexa, por que teríamos que ser tão simples? Mais ainda e conforme quis dizer no parágrafo anterior, que lástima seria aproveitar mal esta oportunidade biológica.

Redigi este texto a partir do título, o que não é de meu costume. A proposta inicial era escrever algo sobre religiões, crenças e convicções. No entanto, nada como tocar neste assunto com distância referencial e proximidade ideológica, uma vez que sou chamado de cético para tudo, mas no fundo tenho alguma crença.

Ainda assim, é saudável olhar ao longe porque algo mais conseguimos enxergar lá no fundo. A minha crença é no potencial do povo brasileiro, no desenvolvimento do país, no fortalecimento de suas

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instituições e, principalmente, no que cada um pode fazer para que isto aconteça sem depender completamente de decisões alheias.

Duas características percorrem frequentemente meus textos:

uma é a favor da valorização do coletivo, que permite maior reconhecimento e respeito entre os cidadãos; outra é a percepção de que qualquer pessoa pode alcançar realizações grandes e portentosas desde que queira, projete e se esforce.

Não é preciso estar em posições de poder para apoiar a comunidade e ser um cidadão exemplar, nem na televisão para defender bons princípios e valores enquanto alguém chora por expurgo sentimental. O mundo precisa de pessoas poderosas e célebres de espírito.

Uns seguem o mero processo biológico de nascer, crescer e morrer. Este é um reducionismo da existência. Entendê-la assim é um desperdício. A outros, porém, não lhes convém tamanha simplicidade evolutiva senão que expandem o processo a fim de entendê-lo também como uma oportunidade de apoiar, cooperar, desenvolver, promover, realizar e sustentar.

Quanto a isto, penso no povo brasileiro e no país. Que orgulho tenho de ser brasileiro. Que inveja têm os outros povos de que sou brasileiro quando empurram-me a falsa crença de que este é um país que não dá certo. Assim, não me resta outra alternativa senão levantar o otimismo e divulgar este estado de ânimo.

A imagem do feto em vidro causou-me assombramento na infância. No entanto, temo que a apatia daqueles que não acreditam no país assombre o restante do processo de crescer e morrer. Estas são coisas que impressionam.

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55. História do Mundo Velho

N ão é de hoje que me pergunto por que os livros de história geral (antes manuais para o bom desempenho no vestibular) são tão

reducionistas a ponto de ignorar os acontecimentos de grande parte do mundo em prol da Europa. Exceto pelas notas de rodapé ou páginas parcimoniosas, a África, a Ásia, a Oceania e a própria América Latina praticamente passam em branco. E, quando se fala destes continentes, é quase sempre sobre o colonialismo e o imperialismo que os vitimaram,

seguidos da formação de guerrilhas e da pobreza generalizada.

Sabemos mais da história europeia que a dos nossos próprios vizinhos. A maior referência continua sendo a Europa segundo as descrições das idades moderna e contemporânea presentes nos livros de história, que são consultados e lidos por estudantes brasileiros no ensino fundamental e médio. Vemos também sobre a guerra de secessão das primeiras colônias que formaram os Estados Unidos, sua independência e a marcha para o oeste. E o que é pior: crescemos com a ideia de que este país prosperou porque teve colônia de povoamento, enquanto o Brasil carregaria o fardo de ter sido colônia de exploração. Como se nos Estados Unidos não houvesse também colônia de exploração (os estados que formaram o sul), nem no Brasil de povoamento.

Não vejo a menor razão de focar tanto a história europeia como fazem estes manuais escolares antiquados. É certo que muito do que somos se deve às civilizações clássicas grega e romana, aos franceses (revolução francesa) e ingleses (revolução industrial); porém, os olhos que só admiram o que provém deles sem enxergar a nossa particularidade não alcançam o desenvolvimento autônomo. Em parte, porque as condições que temos são outras e o caminho não é o de contar e recontar como a Europa dominou outros continentes com sua frieza, técnicas e valores.

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Vale recordar o formato da colonização hispano-americana, em que os espanhóis esmagavam a cultura nativa (igrejas foram construídas sobre templos pré-colombianos) e arrancavam as tripas dos ameríndios para afirmar a dominação e o poderio colonial que se acercava. A atenção do Brasil, portanto, deve-se voltar aos que estão em situação semelhante de desenvolvimento econômico e humano, como Colômbia, México, China, Índia e África do Sul. O modelo, ainda, está entre os “tigres asiáticos”, como Coreia do Sul e Taiwan.

É uma lástima que desconheçamos os nossos vizinhos, suas práticas e conquistas. Somos estimulados a pensar que o nosso único modelo está fora do alcance, o que é um equívoco. Lembro que, faltando poucos meses para os exames vestibulares para os que estudei, os professores apareceram com um anexo improvisado sobre as civilizações asteca, maia e inca. Foi o único eco que nos chegou da história pré- colombiana do México, Guatemala, Peru, Chile, entre outros. Enquanto isso, os educadores e educandos recitam os nomes dos imperadores romanos de cor e salteado, como se nos importassem muito.

Enfatizar a história europeia é uma ação arriscada para nós diante do aumento da xenofobia na União Europeia. Admiramos e logo somos desprezados (por reformas em políticas migratórias) e explorados (pela influência econômica que não pensa na cidadania). O Mercado Comum do Sul (Mercosul) cambaleia e hesita em aceitar a Venezuela no bloco, enquanto as novas edições dos manuais de história geral reservam mais espaço para as conquistas inéditas da Europa.

A história geral que nos contam é a do mundo velho. Que indignação.

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56. Fisionomia do desconhecido

É um prazer escrever sobre certos temas com os que aprendo mais do que tenho a ensinar. Esta é a vantagem de quando as linhas escritas me

revelam a magnitude de um problema. Alguns assuntos exigem que eu me informe melhor a respeito deles, consulte outras pessoas, e inteire-me de

debates e de legislações pertinentes. É o caso da adoção de crianças e adolescentes.

Tenho uma tia que adotou duas crianças depois de haver tido dificuldade de engravidar e de haver perdido dois bebês prematuramente. Ela sugeriu-me então que escrevesse algo sobre o tema da adoção de crianças, já que a situação lhe permitiu compor uma família e ser feliz na mesma proporção que se os filhos fossem do mesmo sangue.

A adoção implica apoio, assistencialismo, harmonia, proteção e resguardo de uma família e de um lar. Esta prática traz felicidade e sustentação familiar a ambas as partes: a quem adota e a quem é adotado. Este era, até então, um desconhecido.

Os argumentos contrários à adoção, muitas vezes, são conservadores, obsoletos e preconceituosos, portanto não se lhes reserva aqui espaço. A defesa desta prática percorre os benefícios familiares e sociais. O abandono de crianças, mau trato e negligência dos pais, falecimento destes, e até transferência consentida da paternidade são as causas principais do desenvolvimento jurídico e moral da adoção.

Focalizo menos os aspectos técnicos que faço um incentivo à prática da adoção. Não enfatizo aqui os caminhos jurídicos pelos quais a prática pode ser realizada, o que pode ser encontrado facilmente pelas famílias interessadas, nem as classificações (filiação natural, filiação civil, etc.) existentes sobre ela.

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Contudo, é preciso aclarar que o Estatuto da Criança e do Adolescente previsto na Lei 8.069 de 1990 determina que o adotante tem que ser maior de 21 anos, a diferença de idades entre este e o adotando deve ser de no mínimo 16 anos, a adoção pode ser feita independentemente do estado civil e tem caráter irrevogável, e há um período concedido pelo juiz para adaptação e convivência do qual se prescinde se a criança tiver menos de um ano de idade.

Embora se solicitem vários documentos, supõe-se que os três principais critérios para a autorização do processo adotivo aos requerentes são a renda familiar, o atestado de sanidade física e mental, e a idoneidade moral. Adotar filhos é uma atitude que culmina numa decisão para a vida.

É difícil opinar sobre o assunto sem vivê-lo diretamente, ou a

partir de poucos relatos de experiência direta. No entanto, reconheço que a atitude de adoção infantil é, ao mesmo tempo, jurídica e sentimental.

O incentivo à adoção de crianças (como faço nesta ocasião) tem

o objetivo de vincular a busca por coesão e harmonia familiares com

problemas sociais graves que o Brasil ainda não superou.

O procedimento de adoção requer uma atitude da sociedade

para atenuar os efeitos da gravidez indesejada, carência de educação para a família, falta de instrução e condições econômicas e morais para sustentar filhos. O próximo passo é reduzir substancialmente o número de crianças desamparadas pela família com soluções de curto prazo sem deixar de estimular a adoção.

O processo de adoção no Brasil tem sido cada vez mais simples e

pode durar menos que o período de uma gestação. Uma criança adotada pode não corresponder ao perfil físico procurado pelos adotantes, mas poderá surpreendê-los na capacidade de harmonizar-se com a família e trazer-lhe felicidade.

A escolha não deve ser feita como se faz com um produto à

mostra no supermercado, em que fica o feio e vai o bonito, fica o velho e

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vai o novo. Não há crianças perfeitas nem com etiquetas de data de vencimento senão aquelas que clamam pela possibilidade de ter uma família e um lar que as acolha.

A fisionomia do desconhecido ganha uma definição enquanto a família ganha uma oportunidade.

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57. O colapso previsível

A o longo desta última década, tornou-se frequente a preocupação em torno do colapso possível do transporte urbano no Brasil, ao mesmo

tempo que crescem as notícias apocalípticas e o debate sobre o tema. É um problema geralmente inspirado pelo crescimento acelerado das cidades grandes, cujas avenidas principais se congestionam nos horários de pico ou por qualquer acidente, sobretudo em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, mas que tem assustado até os habitantes

de cidades há pouco tempo pacatas.

Assim, o problema não afeta somente as cidades grandes, mas também as de porte médio, cujos habitantes reclamam de congestionamentos de algumas vias, do ruído excessivo e da contaminação veicular. As soluções imediatas que têm sido dadas pelos governos municipais é a instalação de semáforos, a construção de pontes, o alargamento de vias e a diminuição de calçadas, entre outros. No entanto, estas medidas resolvem o problema a curto ou médio prazo até que haja uma nova expansão veicular a ponto de exigir uma outra solução, que costuma ser cara no âmbito das obras e motivo de propaganda eleitoral.

Algumas dessas medidas vão na contramão do futuro, pois estimulam o uso de carros mais antigos, que contaminam mais. Elas incentivam, por exemplo, a isenção de cobrança de IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) para automóveis fabricados há mais de vinte anos em vez de facilitar e promover a compra dos novos, mais seguros e menos poluentes. Além disso, o incentivo unicamente ao uso de transporte público não resolveria o problema, pois, enquanto investimos nele, os países da América do Norte usufruem de um estilo de vida em que praticamente todos os adultos têm carro; nalguns deles, só falta banheiro para que se assemelhem a uma casa.

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Não é à toa que norte-americanos têm carros grandes e confortáveis, conduzidos amiúde com passageiro único, uma vez que encontraram um meio mais ecológico de continuar fabricando-os: o Brasil produz o etanol e o exporta, enquanto nossa população é estimulada a dirigir menos, usar o transporte coletivo, e coagida a fazer rodízio sob risco de multa. Estas contradições nos incentivam a exigir medidas mais pertinentes das autoridades sem ter que reduzir a qualidade de vida. Afinal, divulga-se que o Brasil é autossuficiente em petróleo e está na vanguarda tecnológica em fontes alternativas de energia, enquanto sua população se vê castrada em sua capacidade de locomoção veicular. Se, ao menos, tivéssemos transporte coletivo de qualidade, teríamos menos razão para queixas.

Pelas dimensões amplas do Brasil e a extensão das regiões

periféricas das cidades, o que falta é investir na expansão e modernização

de

suas vias de transporte a despeito de seu custo elevado. Pedágio urbano

e

rodízio veicular são algumas medidas que aliviam, embora sejam

provisórias porque, dentro de mais um tempo, voltamos a ter congestionamentos com a tendência de aumento do número de veículos.

É preciso instruir os motoristas, fiscalizar a frota, incentivar o uso de

outros meios de transporte, melhorar a sinalização e a condição de ruas e

avenidas com urgência. Estas soluções parciais, aliadas a um planejamento a médio prazo para a construção de vias alternativas, podem reduzir a previsibilidade do colapso a um sintoma menos nocivo do transporte urbano.

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58. Governo e aspectos do lazer

A proveita-se o tempo livre de maneiras distintas. Enquanto um gosta de reunir-se com os amigos em frente de casa para uma conversa

casual, outro prefere alugar um filme e assisti-lo com a família. Da mesma

forma que a pescaria impacienta alguém, outro vê nela seu refúgio prazeroso. O governo não determina como cada cidadão ocupa seu tempo livre, mas oferece e promove opções.

O lazer é a outra cara do trabalho, além de causa e efeito de melhor qualidade de vida. Minha intenção era a de concentrar-me nas atividades de lazer que fogem da rotina, portanto desconsiderando o tempo ocioso gasto no curto intervalo laboral da semana, embora este também possa ser muito bem aproveitado. No entanto, acabei por invocar outras conotações do lazer, algumas das quais se podem ocupar criativa e educativamente.

Falo de políticas municipais que ofereçam mais opções de lazer e facilitem a iniciativa privada, que contribui para a exploração dos potenciais culturais que as cidades possuem. Estes podem-se desenvolver em novos bares, cafeterias, restaurantes, templos religiosos, museus, parques temáticos, sítios ecológicos e outros espaços de convívio. A ênfase está na diversificação das opções.

Não há regras para o aproveitamento ideal das horas de lazer. Poucas vezes paramos para pensar se aproveitamos bem ou mal o tempo livre. Uns reclamam que não têm nada para fazer, outros culpam a falta de tempo para fazer as coisas. As duas opções são desculpas redundantes de uma acomodação no tempo. Porém, o relógio faz tic-tac até quando acaba a bateria.

E como ocupar o tempo nos momentos em que a pessoa finaliza as tarefas que lhe são atribuídas no trabalho antes de cumprir o expediente, ou no horário de almoço, ou no trânsito enquanto o veículo

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deixa o passageiro num estado de ócio. Embora estes exemplos não representem períodos de lazer, ainda é possível experimentá-los utilmente.

O lazer permite também que o trabalhador contribua para a

sociedade e nela se manifeste sem a obrigação de fazer aquilo que lhe dá sustento financeiro. Tal é a razão que dissocia lazer de atividades que exigem dinheiro. História mal contada de que, quanto mais dinheiro, de

mais lazer se usufrui. Todos podem ocupar bem seu tempo livre independentemente da renda, ainda que muitos bens de consumo fiquem de fora. O que importa é que se esclareçam as opções.

A proposta, assim, é a de aumentar as opções de lazer com

incentivo a políticas municipais que facilitem o acesso dos segmentos marginalizados a atividades pagas das que não podia usufruir e que promovam o lazer atrelado à função educativa. Segue também o incentivo à iniciativa privada. A economia mobiliza-se sobremaneira com o estímulo

do lazer e este, naturalmente, permite o desenvolvimento pessoal, a reposição de energia e a harmonia coletiva.

As políticas de estímulo ao lazer educativo envolvem atividades

regulares nas escolas e centros comunitários, construção de praças e parques públicos, entre outras medidas. Aí reside o incentivo à leitura, ao

desenvolvimento da criatividade e à prática de esportes. Estas medidas têm dado certo em várias cidades brasileiras, pois permitem o encontro benévolo de pessoas, a troca de experiências e formas de lazer mais democráticas e saudáveis.

É comum que se aglutinem esporte, lazer e recreação na mesma secretaria municipal. Estes setores associam-se de alguma maneira, ainda que a categoria de lazer seja mais ampla. É promissora a consulta popular em bairros para descobrir o que seus moradores gostariam de fazer em seu tempo livre; esta consulta segue-se pela criação, por exemplo, de centros comunitários para a realização destas atividades e o incentivo ao pequeno empreendedor.

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O Brasil precisa de políticas que deem opções ao lazer.

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59. Movimento do rato

O rato gosta de esgoto. Enquanto isso, há problemas que estão na superfície, são fáceis de identificar, e impressionam pelo descuido e

a feiura. Há também aqueles camuflados, escondidos e não-evidentes, mas que a vizinhança conhece bem pelos efeitos que emergem. Um deles é o tratamento de esgoto, que, se mal feito, dá mau cheiro, entupimento, vazamento, acúmulo de detritos e resíduos, inundação, entre outras consequências indesejáveis. Está no uso da pia, do ralo, do chuveiro, da privada e da torneira. Todos são responsáveis.

O rato fareja na escuridão. Enquanto isso, os bairros que mais

sofrem são os periféricos porque quase sempre crescem desordenadamente, com alta concentração humana, e os governos municipais não dão conta de planejar a infraestrutura da rede de abastecimento de água e do tratamento de esgoto a partir dos canais que entram e saem de cada uma das casas. Não são todos os moradores que podem investir em conexões e tubos de boa qualidade. Outros nem sabem como fazê-lo.

O rato dribla a sujeira e sai pela tangente. Enquanto isso, as

maiores preocupações referem-se à manutenção da higiene e da qualidade

de vida dos moradores e à relação sustentável deles com a natureza. A primeira tenta evitar a vulnerabilidade a doenças, como as que se transmitem pelos coliformes fecais, enquanto a segunda esforça-se para garantir que os resíduos sejam despejados numa área de segurança ambiental, não contaminem o percurso que tenha tubulação irregular e não subam à superfície.

O rato balança o rabo e passeia a nado. Enquanto isso, a

paisagem urbana seria mais feia se a rede de esgoto estivesse na superfície,

o que ocorre em alguns bairros onde o sistema foi mal instalado, assim como se penduram nos postes os cabeamentos de luz, telefone e televisão

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por assinatura. O desenvolvimento do saneamento básico previne gastos com saúde pública e gera outros efeitos positivos, como melhora da qualidade de vida da população e da estética urbana, empregos, redução da poluição, proteção do meio ambiente e participação cidadã.

O rato rasteja imundo e continua ileso. Enquanto isso, os fatores que determinam o acesso ao saneamento básico giram em torno da faixa etária, o grau de escolaridade, a renda familiar e a localização na zona rural ou urbana. Nesta, o acesso é proporcionalmente maior devido às distâncias elevadas daquela e ao custo alto de instalação. É urgente a expansão de saneamento básico em bairros periféricos, o estímulo à fossa séptica de qualidade no meio rural e a reforma da rede antiga em áreas urbanas centrais.

O rato desafia a paciência. Enquanto isso, o tema enreda a qualidade da infraestrutura com a instrução e a capacidade financeira dos moradores, e com o preparo dos agentes públicos. Muito pode ser feito pelos governos municipais e empresas envolvidas no longo processo cíclico de recolher água suja e distribuir água limpa. Os métodos de canalização e tratamento são vários, mas o objetivo é um só: melhorar a qualidade de vida da população sem agredir a natureza.

Esse rato é fugidio. Nada que uma boa ratoeira não resolva.

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60. Gestão da água

E m vista do tanto que já se falou sobre a questão da água doce, sua utilidade na saúde e seu papel estratégico no mundo, meu objetivo é

focalizar três medidas fundamentais que consideram a prerrogativa brasileira de contê-la em abundância. Entendo que a prioridade no Brasil

está em direcionar investimentos em recursos hídricos para sua região nordeste, criar uma política de proteção deste patrimônio no âmbito do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), e melhorar o gerenciamento da abundância de água que o nosso país possui.

Afirma-se que o problema é a escassez de água doce, como se a quantidade deste recurso tivesse diminuído, e a previsão de que ele será motivo para os próximos conflitos e guerras internacionais devido a que se o disputa tanto quanto o petróleo. A luta por recursos naturais é antiga na história da humanidade, ainda que 70% do planeta sejam compostos de água. A desvantagem é que somente 2,5% desta porcentagem são de água doce, que está em lagos, rios, geleiras, reservas subterrâneas, chuva.

O Brasil é o país mais invejado nessa história, pois contém 13%

das reservas planetárias de água doce. Estes dados deixam-nos aliviados quanto à previsão de carência global deste recurso, embora haja o risco de contaminação e de cobiça pelos países que sofrem escassez. É de pouca serventia, entretanto, que o Brasil tenha a maior reserva de água doce do mundo se seu uso for inapropriado, por exemplo, com indústrias que poluem os lençóis freáticos através do despejo irresponsável de substâncias no solo e nos rios.

O aquífero Guarani é uma reserva de água subterrânea que

tranquiliza os quatro países do MERCOSUL contemplados por ela, cuja área é de mais de 1,2 milhões de km². Dois terços estão no Brasil (Goiás,

Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), e o restante, em Argentina, Paraguai e Uruguai. Este

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recurso natural dá um impulso estratégico à nossa região para as necessidades do século atual.

Os principais prejudicados com a falta de água doce são os países que têm porções territoriais desérticas, como os da África setentrional, e os que demandam maior consumo devido ao aumento populacional e expansão industrial vertiginosas, como China e Índia. As alternativas são caras, mas começam a ser realizadas: aproveitamento de geleiras, dessalinização de água do mar, captação de água de chuva, apropriação de estoques subterrâneos, reúso de água por tratamento sanitário.

Para que a água não seja problema, é preciso melhorar a administração da quantidade enorme disponível no Brasil pela gestão pública, evitar sua contaminação conscientizando o uso adequado (residencial e industrial), e reduzir o desperdício pelo hábito. A solução é mais eficaz se houver investimento em sistemas de irrigação e distribuição hídricas no nordeste brasileiro, região afetada pela seca, e na gestão do aquífero Guarani dentro da integração entre os quatro países limítrofes.

O mundo dialoga em busca de alternativas para a iminência da escassez de água doce. Por sua vez, a única escassez que o Brasil pode temer é a de uma gestão ineficiente de seus recursos hídricos, que temos a bênção de possuir em abundância. As medidas não dependem somente dos céus.

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Bruno Peron Loureiro é um brasileiro que propõe um olhar geométrico sobre questões redondas. Seu
Bruno Peron Loureiro é um brasileiro que propõe um olhar
geométrico sobre questões redondas.
Seu ponto de partida é a dificuldade de conhecer o que está além
do horizonte de um plano de ideias. Para esta tarefa, sugere a
aresta como uma linha que faz a transição de um plano a outro.
A primeira experiência de Bruno Peron vivendo no exterior – na
Cidade do México – contribuiu para ampliar sua perspectiva
sobre as políticas públicas no Brasil e as relações internacionais.
Neste período, publicou um número de artigos que expressam
esta mudança temporária de país e a preocupação com os rumos
políticos do Brasil e da América do Sul. Esta é uma compilação
dos artigos que escreveu a jornais e meios eletrônicos de
comunicação brasileiros entre janeiro de 2007 e outubro de
2008.
O autor propõe, em Aresta da Intuição, um debate sobre um
conjunto de questões que afetam todos os brasileiros e
promovem um entendimento maior entre as nações sul-
americanas.
O foco de sua análise está na gestão pública de soluções aos
problemas sociais através do fortalecimento das instituições
políticas no Brasil.