Você está na página 1de 41

Observador On-line

| v.7, n.03, mar. 2012 |

Observador On-line | v.7, n.03, mar. 2012 |

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012 Observatório Político Sul-Americano Instituto de Estudos Sociais

Observatório Político Sul-Americano Instituto de Estudos Sociais e Políticos Universidade do Estado do Rio de Janeiro IESP/UERJ www.opsa.com.br

Instituto de Estudos Sociais e Políticos Universidade do Estado do Rio de Janeiro IESP/UERJ www.opsa.com.br

Cooperação Sul-Sul: Conceito, História e Marcos Interpretativos

Iara Costa Leite

Doutoranda em Ciência Política pelo IESP/UERJ Pesquisadora do Centro de Estudos e Articulação da Cooperação Sul-Sul

1. Introdução

O termo “cooperação Sul-Sul” (CSS) vem sendo usado, talvez com

recorrência inédita, por governos, organizações internacionais e entidades da

sociedade civil. Em geral ele é usado para se referir a um amplo conjunto de

fenômenos relativos às relações entre países em desenvolvimento – formação

de coalizões de geometrias múltiplas, barganha coletiva em negociações

multilaterais, arranjos regionais de integração, assistência para o

desenvolvimento, intercâmbio de políticas, fluxo de comércio e de

investimentos privados etc. Já para especialistas a CSS diz respeito a uma

modalidade da cooperação internacional para o desenvolvimento (CID).

Se, por um lado, o uso aleatório do termo e a pouca preocupação em defini-lo

vem estimulando sua dilatação excessiva, impossibilitando a geração de um

conhecimento teórico sobre suas dinâmicas, por outro entender CSS como

modalidade da CID limita a apreensão da complexidade das trocas realizadas

entre os países em desenvolvimento, as quais não se restringem de forma

alguma à ajuda oferecida pelos chamados “doadores emergentes”.

O objetivo deste artigo é tentar dar sentido à multiplicidade de eventos

classificados ordinariamente como CSS tendo como base elaborações mais

gerais sobre a cooperação da teoria social, por um lado, e sobre análise de

política externa, por outro. Acreditamos que o diálogo com o conhecimento

produzido por outras áreas e subáreas das Ciências Sociais é fundamental

para compreendermos os objetivos e recompensas envolvidos em relações

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

cooperativas, os quais se tornam ainda mais complexos quando abrimos a “caixa-preta” dos Estados. 1

Para tanto, exploraremos, na primeira seção, diversos conceitos da CSS, tentando extrair seu possível mínimo denominador comum. Em seguida tentaremos traçar uma breve história da CID e da CSS para entendermos a multiplicidade de fenômenos englobados pelas duas áreas e suas possíveis convergências. Na última parte, exploraremos o marco central utilizado para interpretar a CSS, as abordagens dependentistas, apontando suas lacunas e tentando supri-las com reflexões oriundas das teorias das relações internacionais, da teoria social e da análise de política externa.

2. O que é CSS?

Em busca de uma definição de CSS, um bom ponto de partida é selecionar uma amostragem de definições para tentar extrair o seu mínimo denominador comum e possíveis modalidades. 2 Conforme apontam as definições abaixo, originárias de trabalhos acadêmicos e de instituições internacionais, o único consenso que parece existir em relação à CSS, ao menos à primeira vista, é a referência a dinâmicas envolvendo países em desenvolvimento.

1 A falta de integração entre os estudos sobre CSS e outros estudos sobre cooperação se insere no problema mais amplo da fragmentação das ciências sociais. Apesar de estudarem fenômenos iguais ou similares, sociólogos, internacionalistas e cientistas políticos, entre outros, e mesmo subáreas dentro de cada uma dessas disciplinas, focam programas de pesquisas restritos (self- contained) e não dialogam entre si. Com isso, as hipóteses, circunscritas a áreas e subáreas específicas, parecem limitadas em escopo, embora possam ser aplicadas e testadas por disciplinas que estudem temas similares. Este é certamente o caso das hipóteses produzidas por estudos sobre cooperação, um tema que, embora abordado com frequência extraordinária pelas diversas áreas e subáreas das ciências sociais, não é objeto de teorias abrangentes, o que acaba por obliterar sua importância (Sullivan et alli, 2008). 2 Tomamos como base metodológica os trabalhos de Gerring (2001) e Goertz (2005), embora não tenha sido possível aplicar toda a metodologia de formação de conceitos proposta pelos autores.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

QUADRO 1: AMOSTRAGEM DE DEFINIÇÕES DE CSS

“… economic and political co-operation among developing countries… (…). South-South co-

operation is a broad term used to describe diverse types of co-operation among developing

countries. The more significant are: co-operation among developing states in multilateral

negotiations with the developed countries; promotion of South-South trade; the development of

regional political and economic associations, and the provision of development assistance.”

(Bobiash, 1992:6).

any cooperative initiative between two or more developing countries; it may be carried out by

governmental institutions, non-governmental organizations, universities, independent

professionals, scholars, and researchers.” (Sá e Silva, 2009:39)

“… a broad framework for collaboration among countries of the South in the political, economic,

social, cultural, environmental and technical domains. Involving two or more developing

countries, it can take place on a bilateral, regional, subregional or interregional basis. Developing

countries share knowledge, skills, expertise and resources to meet their development goals

through concerted efforts. Recent developments in South-South cooperation have taken the form

of increased volume of South-South trade, South-South flows of foreign direct investment,

movements towards regional integration, technology transfers, sharing of solutions and experts,

and other forms of exchanges.” (Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul/PNUD) 3

“… countries of the South, many of them poor, helping each other by sharing technical or

economic knowledge and skills to facilitate development”. (Unidade Especial de Cooperação Sul-

Sul/PNUD) 4

“… sharing of knowledge and resources between - typically - middle-income countries with the

aim of identifying effective practices.” (Task-Team on South-South Cooperation/OCDE) 5

“… an exchange of expertise between governments, organizations and individuals in developing

nations.” (Task-Team on South-South Cooperation/OCDE) 6

A pouca preocupação em definir a CSS de forma precisa pode ser observada, por um lado, no lançamento de definições díspares por uma mesma organização; e, por outro, na não definição do significado da palavra “cooperação”, substituída, em alguns casos, pela palavra “colaboração”.

Para suprir tal lacuna, consideramos útil revisitar estudos sociais sobre dinâmicas de cooperação em geral. A partir de detalhada revisão e sistematização de trabalhos da Psicologia e da Sociologia que se dedicaram ao

3 Disponível em: http://ssc.undp.org/content/ssc/about/what_is_ssc.html.

4

Disponível

em:

south_cooperationanintroduction.html.

5

http://ssc.undp.org/content/ssc/library/videos/south-

Disponível

em:

http://www.oecd.org/document/51/0,3746,en_2649_3236398_43385523_1_1_1_1,00.html.

6 Disponível em : http://www.impactalliance.org/ev_en.php?ID=48789_201&ID2=DO_TOPIC

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

tema, Marwell e Schmitt apontam que quase todos coincidem no tratamento da cooperação como um conjunto de relações entre comportamentos e suas conseqüências, sendo seus dois os seus elementos básicos: o comportamento voltado para objetivos; e a existência de recompensas para cada uma das partes envolvidas. 7 Nota-se, portanto, que o elemento da troca é essencial a qualquer processo cooperativo, o que é, de fato, explicitado por algumas das definições de CSS elencadas no quadro acima.

Aplicando-se essa acepção mais genérica ao campo da CSS, acreditamos ser possível dar sentido a processos de troca envolvendo quaisquer agentes originários dos países do chamado “Sul global”, entendido aqui não como uma categoria geográfica, mas como o agrupamento que reúne os chamados “países em desenvolvimento” (países de renda média e países de renda baixa) .8 Porém, cabe ressaltar que podemos qualificar os diversos contatos entre países em desenvolvimento como cooperativos apenas se ambas as partes se sentirem recompensadas pela relação. 9

Nota-se que algumas das definições de CSS apresentadas no quadro incorporam a dimensão do comércio e do investimentos Sul-Sul, mas não há consenso sobre o tema. Uma dificuldade advém de se estabelecer em que medida agentes de mercado poderiam ou não ser qualificados como cooperativos, já que as ciências sociais em geral, influenciadas por perspectivas marxistas e weberianas, tendem a encarar dinâmicas de mercado como sendo pautadas pela lógica da competição. 10 No caso das relações econômicas envolvendo países do Sul, porém, há uma forte influência do pensamento dependentista, que pressupõe que as trocas

7 Marwell e Schmitt, 1975.

8 Para mais detalhes sobre essas classificações, ver: http://data.worldbank.org/about/country- classifications. Pode-se dizer que, apesar de não possuírem atributos econômicos, sociais e políticos próprios, os países em desenvolvimento compartilham de um conjunto de vulnerabilidades e desafios no que se refere ao seu desenvolvimento (PNUD, 2004).

9 Dizer em que medida determinada relação entre dois países do Sul pode ser qualificada como CSS é, portanto, uma questão empírica, e não um pressuposto, como vem sendo tratado pelas abordagens à CSS em geral. Antes que o processo de troca seja empiricamente demonstrado, talvez o ideal seja referir aos diversos contatos entre países em desenvolvimento não como CSS, mas como “relações Sul-Sul”. 10 Essa ideia se baseia no entendimento de que a modernidade teria favorecido a emergência de três pilares regulatórios distintos: o pilar do Estado, caracterizado por relações verticais; o pilar do mercado, caracterizado por relações horizontais e competitivas; e o pilar da comunidade, pautado por relações horizontais e colaborativas (Santos, 2000). Vale ressaltar, porém, que o próprio Marx reconhecia a existência de laços de solidariedade entre os capitalistas (Marx e Engels, 1998). Nas últimas décadas vários trabalhos vieram apontar que a separação entre os três pilares não mais constituiria base segura para a análise dos fenômenos sociais em geral (ver, por exemplo, Domingues, 2004). No caso das análises dedicadas à interação entre entes mercadológicos, muitos autores apontam que a necessidade de promover a inovação, por exemplo, vem favorecendo a formação de pools entre empresas de um mesmo setor, de forma a fazer frente ao risco de não-aceitação de um novo produto pelo mercado (ver, por exemplo, Castells, 1999).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

comerciais e financeiras entre eles seriam influenciadas por um sentimento de solidariedade e escapariam, portanto, da esfera competitiva do mercado – algo que, conforme veremos mais adiante, não necessariamente se verifica em bases empíricas.

Apesar dessas limitações, podemos considerar que o fluxo de bens, serviços e investimentos privados entre os países em desenvolvimento constitui modalidade da CSS, já que numa perspectiva ampla de cooperação as relações econômicas, como processo de troca, envolvem objetivos e recompensas.

Talvez um elemento que reúna maior consenso entre as definições elencadas no quadro seja o entendimento da CSS como uma modalidade da CID, cuja definição mais difundida está relacionada à chamada “Assistência Oficial para o Desenvolvimento” (AOD). 11 Seguindo os critérios do Comitê de Assistência para o Desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (CAD/OCDE), são quatro os elementos necessários e suficientes para que uma iniciativa se configure como AOD:

(1) sua origem deve ser uma agência do setor público (incluindo governos subnacionais);

(2) seu destino devem ser os países que compõem a lista de recipiendários do CAD (países em desenvolvimento) ou agências multilaterais; 12

(3) o objetivo central declarado deve ser a promoção do desenvolvimento econômico e bem-estar; 13

(4) ser realizada na forma de doações (dinheiro, bens ou serviços), ou empréstimos a taxa de concessionalidade igual ou superior a 25% 14 e concedidos durante prazo superior a um ano. 15

11 A AOD pode ser entendida como uma das categorias do que se chamava, no passado, de “foreign aid”, que inclui também transferências no âmbito militar. Para uma definição e proposta de categorização de “foreing aid”, ver Morgenthau (1962).

12 Contribuições para grandes ONGs internacionais e para ONGs ativas na promoção do desenvolvimento também são contabilizadas como AOD pelo CAD, ao passo que subsídios oficiais ao setor privado são contabilizados como “outros fluxos oficiais”, não como AOD (CAD, 2008).

13 Embora o CAD reconheça a dificuldade de medir intenções, tornar o propósito do desenvolvimento elemento central de definição tem por objetivo excluir fluxos relativos, entre outros, a: ajuda militar, iniciativas de combate ao terrorismo, gastos com componentes ostensivos das missões de paz e pesquisas não destinadas à resolução de problemas básicos dos países em desenvolvimento. Para mais informações, ver CAD (2008).

14 Para uma explicação detalhada sobre a medição de concessionalidade pelo CAD, ver ECOSOC

(2008).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Além dos fluxos financeiros, também são contabilizados gastos com cooperação técnica, que incluem gastos com treinamento e equipamentos em áreas relevantes para o desenvolvimento nos níveis técnico, secundário e terciário, sejam eles realizados no país doador ou no país recipiendário; e custos administrativos dos programas, inclusive de consultores e outros funcionários do país doador. 16 Ressalte-se, por fim, que o CAD também contabiliza como AOD o perdão de dívidas, assistência humanitária, gastos com refugiados recebidos pelos doadores e programas para conscientização para o desenvolvimento internacional realizados no país doador. 17

Embora tenha o mérito de ser operacionalizável, proporcionando bases comuns para a contabilização, comparação e análise dos dados fornecidos pelos países que reportam ao CAD, iniciativas classificas como AOD não esgotam a CID, que engloba também: (1) a cooperação oficial oferecida pelos países que não fazem parte do CAD/OCDE; (2) a chamada “assistência privada para o desenvolvimento”, realizada por ONGs, organizações religiosas, empresas e fundações, entre outros. 18

Talvez devido à multiplicidade de atores e dinâmicas envolvidas tanto na CID como na CSS, alguns autores e instituições vêm optando por delimitar a discussão à modalidade Cooperação Sul-Sul para o Desenvolvimento (CSSD), 19 que nos parece representar justamente a interseção entre os dois campos, conforme demonstra o diagrama abaixo.

15 No caso dos empréstimos concessionais, o CAD exclui da contabilização da AOD empréstimos concedidos a prazos iguais ou inferiores a um ano, baseando-se na premissa de que não gerariam impactos sobre o desenvolvimento (CAD, 2008).

16 Informações

http://www.oecd.org/document/32/0,3343,en_2649_33721_42632800_1_1_1_1,00.html#ODA.

em:

disponíveis

17 CAD, 2008. Segundo estimativas, de cada US$ 100 contabilizados como AOD, apenas US$ 18,8 chegariam, de fato, aos países beneficiários (Kharas, 2009).

18 Para mais informações sobre a ajuda privada para o desenvolvimento ver Kharas et alli, 2011.

19 Ver, por exemplo, ECOSOC (2008).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

DIAGRAMA 1: A COOPERAÇÃO SUL-SUL PARA O DESENVOLVIMENTO COMO INTERSEÇÃO ENTRE A CID E A CSS

PARA O DESENVOLVIMENTO COMO INTERSEÇÃO ENTRE A CID E A CSS Fonte: Elaboração própria Subsistem, contudo,
PARA O DESENVOLVIMENTO COMO INTERSEÇÃO ENTRE A CID E A CSS Fonte: Elaboração própria Subsistem, contudo,

Fonte: Elaboração própria

Subsistem, contudo, enormes empecilhos para a operacionalização dessa dimensão da CSS. À dificuldade de se medir fluxos não-oficiais de cooperação, própria da CID em geral, soma-se a inexistência, no caso dos países em desenvolvimento, de bases nacionais para contabilização de iniciativas oficiais ou de critérios compartilhados a respeito dessa contabilização. 20 Além disso, há empecilhos técnicos e políticos para a incorporação dos padrões utilizados pelo CAD, ao mesmo tempo em que esses critérios devem passar por revisão dentro da própria organização diante dos efeitos da atual crise financeira e da demanda por assistência por países que não integram sua lista de recipiendários (países, portanto, que não se enquadram na categoria “países em desenvolvimento”).

Deveriam os países do Sul contabilizar como CSSD toda espécie de fluxos financeiros e técnicos com objetivo declarado de promover o desenvolvimento ou apenas aqueles fluxos voltados para a resolução de problemas primários do desenvolvimento, conforme sugere o CAD? O que é um problema primário de desenvolvimento? Iniciativas de cooperação envolvendo tecnologias de ponta, como o programa espacial conjunto Brasil-China, podem ser

20 ECOSOC, 2008.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

entendidas como CSSD? Qual critério de concessionalidade seria mais apropriado para medir os fluxos financeiros que acontecem na forma de empréstimos? Eis algumas das múltiplas questões que deveriam ser respondidas para que tivéssemos uma definição operacionalizável da CSSD.

Do ponto de vista político, outras questões se impõem. Como capacitar e convencer toda a burocracia dos países em desenvolvimento sobre a necessidade de realizarem a contabilização da CSSD, seguindo critérios precisos, quando esses países enfrentam tantos outros desafios domésticos? E, uma vez que os dados dos gastos com cooperação dos países em desenvolvimento passem a ser publicados, como garantir sua aprovação em bases plurianuais (prerrogativa para o engajamento em iniciativas que contribuam, de fato, para o desenvolvimento internacional) e como justificá-la diante das múltiplas constituencies domésticas?

Acreditamos ser fundamental, como ponto de partida, resgatar as dimensões elementares a dinâmicas de cooperação em geral que, como vimos, só podem ser enquadradas enquanto tais se os seus resultados forem considerados satisfatórios por ambas as partes. Veremos, mais adiante, que esse grau de satisfação pode ser avaliado de várias formas, ao contrário do que nos fazem crer definições de CSS que restringem seu entendimento ao compartilhamento/troca de conhecimentos ou de políticas entre os países do Sul. Antes, porém, de revisitarmos os marcos interpretativos dominantes nos estudos passados e atuais sobre CSS, consideramos necessário traçar a evolução histórica das duas categorias que se combinam na CSSD: a CID e a CSS.

3. Breve histórico da CID

Embora possua antecedentes que remontam pelo menos ao século XIX e à primeira metade do século XX, 21 a CID se constituiu em bases permanentes apenas na segunda metade do século XX, marcada, por um lado, pelo

21 Lancaster (2007a) destaca como antecedentes da ajuda a emergência da assistência humanitária moderna no fim do século XIX, as pequenas quantidades de assistência das potências europeias para o desenvolvimento de suas colônias no período entre-guerras e assistência norte-americana a países latino-americanos no início da II Guerra Mundial. Domergue (1968), ao analisar as origens da assistência técnica, remonta à Antiguidade, mencionando, entre outros, contatos entre os impérios babilônico e egípcio.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

contexto da Guerra Fria e, por outro, por uma fase de crescimento econômico mundial sem precedentes. 22

Se, a princípio, a CID se configurou como expediente temporário no âmbito da disputa bipolar, posteriormente evoluiu para a formação de um regime internacional pautado, em grande medida, pela profissionalização das agências prestadoras de cooperação e pela emergência de constituencies pró- desenvolvimento internacional dentro dos países desenvolvidos. 23 Tal regime internacional se transformou ao longo das décadas, acompanhando a evolução do próprio conceito de desenvolvimento.

Nas décadas de 40 e 50, a CID era predominantemente bilateral 24 e tinha como foco a melhoria da infra-estrutura dos países em desenvolvimento. 25 Esse foco se baseava no entendimento do desenvolvimento econômico como crescimento da renda nacional, a ser atingido por meio de uma rápida industrialização. Seguindo a experiência dos países desenvolvidos, e baseando-se em padrões puramente econômicos, 26 a causa do subdesenvolvimento era atribuída à escassez de capital e de conhecimentos técnicos para a industrialização, cabendo aos doadores, como havia acontecido no caso do Plano Marshall, suprir essas lacunas. 27 A transferência desses recursos era, por seu turno, vinculada à compra de bens e serviços do país doador, justificada com base na necessidade de obtenção de apoio doméstico para a assistência. 28

22 Ver, por exemplo, Lancaster (2007a); Sagasti e Alcade, 1999. Kuhnen (1987) adiciona que os esforços iniciais para promover o desenvolvimento internacional aconteceram em um contexto marcado pelo desejo de harmonia no pós-II Guerra Mundial e por um sentimento de obrigação moral dos países ricos em relação aos mais pobres.

23 Lancaster, 2007a.

24 O marco foi o lançamento do chamado Programa do Ponto IV (1949), proposto por Truman, cuja execução foi autorizada pelo Congresso dos EUA em 1950, com a promulgação da Lei do Desenvolvimento Internacional (para mais informações sobre o Programa do Ponto IV, ver Black, 1968). Antes disso, já havia sido lançado, no âmbito multilateral, o primeiro Programa de Assistência Técnica da ONU, em 1948, que se tornou o Expanded Technical Assistance Programme em 1949 (Domergue, 1968). Não obstante, esse programa foi importante mais do ponto de vista simbólico, por ter conferido papel à ONU na agenda do desenvolvimento, que operacional, pois seu orçamento era baixo (US$ 20 milhões em 1951) e apresentou crescimento modesto ao longo dos anos. Os doadores mostraram preferência, desde o início, por canalizar seus recursos, no âmbito multilateral, por meio das instituições de Bretton Woods, marcadas pelo sistema de voto proporcional (Weiss et alli, 2010).

25 Sagasti e Alcade, 1999.

26 O primeiro economista a se voltar contra esse pensamento foi Gunnar Myrdal, que publicou em 1957 o livro “Economic theory and under-developed regions”, afirmando que o desenvolvimento demandava uma análise abrangente das relações sociais, em detrimento de análises que contemplassem apenas o aspecto econômico (Kuhnen, 1987).

27 Kuhnen, 1987; Morgenthau, 1962.

28 Sagasti e Alcade, 1999.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

As décadas de 60 e 70, por seu turno, foram marcadas por várias transformações em relação ao modelo anterior. Algumas delas foram: (1) a pressão dos países em desenvolvimento, influenciados pelo pensamento dependentista articulado no âmbito da UNCTAD, para que a cooperação se efetivasse também no âmbito comercial; 29 (2) o aumento dos fundos da cooperação aplicados via instituições multilaterais; 30 (3) a designação de fundos oficiais para o planejamento familiar, calcada na ideia de que a pressão populacional nos países em desenvolvimento tornava os seus desafios particulares em relação à experiência passada dos países desenvolvidos. 31

Além disso, esse período é marcado pela publicação de uma série de obras de economistas atribuindo o fracasso do modelo anterior à negligência do setor agrícola no desenvolvimento econômico. Para que industrialização acontecesse deveria estar atrelada ao desenvolvimento das áreas rurais, que forneceriam alimentos, trabalho e capital para o setor industrial, além de servir de mercado para produtos industriais locais e gerar divisas em moeda externa, por meio de exportações, para as importações necessárias para o avanço industrial. 32

Baseando-se nessas novas concepções, particularmente nas veiculadas no livro “Transforming traditional agriculture” (Theodore Schultz, 1964), 33 foram elaboradas estratégias de crescimento agrícola para os países em desenvolvimento (“Revolução Verde”). Embora a rápida disseminação de sementes mais apropriadas a climas tropicais e áridos, associada a programas

29 Domergue aponta que, antes do surgimento da UNCTAD, a própria OCDE teria reconhecido, em publicação de 1961, a contradição entre a doação de assistência técnica e financeira e o fechamento do mercado dos países desenvolvidos para os produtos oriundos dos países em desenvolvimento. Segundo o documento, “[i]t would indeed be absurd to enable the under- valorised countries to produce greater quantities of goods than their national market can absorb, if complementary measures for the organisation of trade were not taken at intervals to restore the balance of the international market. In other words, it is clear that if technical assistance and financial assistance attain their essential purpose, which is to develop agricultural and industrial productions of the under-valorised countries, the balance of international trade ceases to be more or less static and becomes definitely dynamic. It would be a strange contradiction on the part of the ‘developed’ countries to consider countries to which they give their technical assistance as ‘competitors’ against whom they must defend themselves by means of quotas and/or protective tariffs.” (OCDE apud Domergue, 1968:42).

30 Lancaster, 2007a; Sagasti e Alcade, 1999.

31 Essa particularidade foi apontada pelo economista japonês Shigeru Ishikawa em 1967, com a publicação do livro “Economic Development in Asian Perspective”, que influenciaria elaborações centrais da segunda década do desenvolvimento (Kuhnen, 1987). Na verdade, a incorporação da temática do crescimento demográfico às práticas de assistência internacional havia se concretizado já nos anos 50 e 60. Do ponto de vista da ajuda oficial, a Suécia destinou fundos para iniciativas de planejamento familiar em países em desenvolvimento no fim dos anos 50. No caso dos EUA, somente em 1968 foram designados fundos para a USAID, abrindo espaço para um engajamento maior de outros doadores em tema até então considerado sensível (Lancaster,

2007a).

32 Kuhnen, 1987.

33 Ibid.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

de irrigação e uso de fertilizantes e pesticidas, tenha levado ao aumento da produtividade agrícola, seus custos sociais foram altos diante da prevalência de estruturas agrárias desiguais na maior parte dos países em desenvolvimento. 34

Paralelamente, começava-se a questionar, cada vez mais, se o modelo ocidental de desenvolvimento deveria servir de base para os demais países. Num contexto marcado pelo desemprego e o subemprego em massa, bem como pelos movimentos estudantis e ambientalistas nos países industrializados, muitos economistas passaram a recomendar um deslocamento do foco de políticas voltadas para aumento da produção para políticas de manutenção de emprego, passando a produção de bens de fim a meio para garantir o emprego. A cooperação internacional acompanhou esse movimento, influenciada por recomendações da OIT para a priorização de atividades intensivas em trabalho. 35

Em missões enviadas a vários países em desenvolvimento, a OIT também constatou que o problema não seria a falta de ocupação, mas a renda obtida. 36 Associada à insatisfação com os resultados sociais da Revolução Verde, o debate deslocou-se, então, para a questão da pobreza, entendendo- se que o crescimento do PIB não estava garantindo a inclusão dos pobres.

Nesse contexto, emergiu o paradigma das ações focadas nas “necessidades humanas básicas” (NHBs) como ferramenta de promoção do desenvolvimento, em detrimento de intervenções voltadas para o estímulo do crescimento de longo prazo. Lideradas pelo Banco Mundial e pelos EUA, essas iniciativas buscavam a adoção de políticas intersetoriais, envolvendo financiamentos a educação e saúde básicas, estradas, esgoto etc., que beneficiassem os pobres, a maior parte dos quais estavam concentrados em áreas rurais. 37

O foco em projetos baseados nas NHBs foi fruto da convergência de diversos fatores. Cabe mencionar a influência do livro “Small is beautiful” (1973), do economista britânico Ernest Schumacher. Schumacher rejeitava a prosperidade baseada na industrialização – que estaria levando à corrupção de modelos não-materialistas -, em prol de iniciativas locais baseadas em

34 FAO, 2000.

35 Pupavac, 2010.

36 Kuhnen, 1987.

37 Lancaster, 2007a.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

tecnologias simples e na assistência técnica, que deixaria de criar relações dependentes e tornaria as pessoas livres. 38

Embora os próprios governos dos países beneficiados pela ajuda rejeitassem a abordagem das NHBs, 39 ela se tornou dominante por ter influenciado toda uma geração de profissionais ligados a agências de desenvolvimento internacional, 40 por ter coincidido com a preocupação de que o desenvolvimento desigual e a pobreza levassem a frustração e radicalização na periferia, ameaçando o progresso dos países industrializados, e por demandar menos recursos num contexto marcado pelos primeiros sinais de desaceleração econômica nos países industrializados.

Quando essa desacelaração se consumou, após o segundo choque do petróleo, a emergência de governos conservadores em vários países industrializados levou a uma diminuição de fundos destinados à ajuda, considerada ineficiente, já que, depois de três décadas de tentativas, não teria atingido o objetivo de levar o desenvolvimento aos países mais pobres (“donor fatigue”). 41 No âmbito multilateral, somas crescentes passaram a ser destinadas, desde os anos 80, aos programas de ajuste estrutural, predominando o entendimento de que o investimento estrangeiro direto, não a ajuda oficial, levaria ao desenvolvimento dos países do Sul.

Muitos acreditavam que esse entendimento se tornaria dominante com o fim da Guerra Fria e que, tendo a prática da assistência oficial externa emergido no contexto da disputa bipolar, o fim desta levaria ao fim daquela. Não obstante, o que se observou foi a introdução de uma miríade de outros temas, que passariam a compor o regime internacional pró-desenvolvimento: a

38 Ideia semelhante havia sido difundida, já no início da década de 60, pela campanha “Freedom from hunger”, da FAO, que popularizou, junto aos círculos da cooperação internacional para o desenvolvimento, o provérbio chinês “dê um peixe a um homem faminto e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar, e você o estará alimentando pelo resto da vida" (Lancaster, 2007a).

39 A resistência dos governos do Sul à abordagem das necessidades humanas básicas, mais particularmente aos clusters de desenvolvimento rural, devia-se ao fato de priorizarem um crescimento rápido focado nas áreas urbanas, onde as elites que os apoiavam viviam (Lancaster, 2007a). A teoria da dependência, muito popular nesses países na época, não entendia que a fonte das desigualdades estaria na industrialização, mas no capitalismo e no imperialismo (Pupavac, 2010).

40 Pupavac explica por que as ideias de Schumacher ganharam tanta popularidade entre os profissionais das agências de cooperação dos países industrializados: “International aid work drew upon colonial administrative experience, as well as a younger generation of post- independence aid workers. Schumacher’s Small is Beautiful’s emphasis on spiritual development and non-industrial technology fits with their romantic anti-modern vision. The younger generation of post-independence aid workers was inspired by a broadening of international solidarity. And yet there was an element, too, of the romantic escape from mundane, disappointed political activism at home to more glamorous, less accountable activism abroad when the post-1968 counter-culture rejected the industrial masses at home for the romantic ideal of the pre-modern rural peasant” (Pupavac, 2010:63-64).

41 Sagasti e Alcade, 1999.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

promoção de transições econômicas (economia de mercado) e políticas (democratização) dos ex-regimes socialistas e de países da África Subsaariana; a prevenção de conflitos; e outros temas discutidos nas conferências dos anos 90 (meio-ambiente, população, mulher etc.), a maior parte das quais haviam culminado com promessas, mas não compromissos concretos, de financiamento por parte dos países desenvolvidos. 42

O ano 2000, por fim, marcou de certa forma a retomada da perspectiva das NHBs, encampadas no lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Cinco anos depois, foi lançada a Agenda de Paris sobre Eficácia da Ajuda, contendo regras que, uma vez seguidas pela comunidade de doadores e recipiendários, garantiriam que os recursos canalizados pela cooperação internacional tivessem, de fato, impactos positivos sobre o desenvolvimento. Por ser uma agenda extraída das lições aprendidas, ao longo das décadas, pelos chamados “doadores tradicionais”, sua legitimidade vem sendo criticada diante da emergência de novas temáticas, como a mudança climática, e de “novos” atores da cooperação internacional, sendo o grupo mais expressivo o dos países emergentes. Para entendermos como esses países se inserem hoje nesse regime pró-desenvolvimento internacional, contudo, é necessário entender antes como emergiu a chamada CSS e suas diversas fases. Passamos a isso na próxima seção.

4. Uma história tentativa da Cooperação Sul-Sul 43

No contexto da Guerra Fria e dos movimentos de descolonização, os países do chamado “Sul global” passaram a ser tratados, e também a se verem, como parte de um grupo específico, cujo objetivo comum seria a promoção do seu desenvolvimento e a defesa de sua soberania. Três marcos nesse sentido foram: (1) o discurso de posse de Truman em 1949, que, ao assumir para seu governo o papel de resolver os problemas das “áreas subdesenvolvidas”, conferiu, de forma inédita, unidade aos países que faziam parte delas; 44 (2) a

42 Lancaster, 2007a.

43 Há uma lacuna de estudos empíricos sobre a CSS, para a qual contribui primordialmente a carência de registros adequados por parte dos governos dos países em desenvolvimento. Essa carência era ainda mais grave no passado, o que dificulta enormemente traçarmos uma história fidedigna da CSS. Tal problema foi constatado, por exemplo, pelo Prof. Amado Cervo, que tentou, no início da década de 90, agregar dados sobre o engajamento brasileiro em iniciativas de Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CTPD). Foram identificados 695 projetos, mas sua documentação “era frequentemente incompleta, dificultado o estudo da cooperação prestada pelo Brasil a países da América Latina, Caribe e África negra” (Cervo, 1994:46).

44 Escobar, 1995.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

realização, em 1955, da Conferência Afro-Asiática, a primeira realizada sem a presença de representantes dos EUA, URSS e Europa; 45 e (3) a constituição do Movimento dos Não-Alinhados (MNA) na Conferência de Belgrado (1961), que marcou a convergência, entre os países do Sul, acerca da necessidade de defenderem sua autonomia – recém-conquistada no caso de muitos – diante de novas aventuras colonialistas da Guerra Fria.

Nesses primeiros anos de articulação entre países do Sul, a cooperação entre eles sofria pelo menos três restrições: o número reduzido de participantes; 46 a limitação temática diante de um contexto marcado pela Guerra Fria e pelos problemas da descolonização; e, principalmente, a baixa complementaridade entre suas economias. Embora os comunicados resultantes de conferências reunindo representantes dos países em desenvolvimento, desde Bandung, mencionem a necessidade de se promover a cooperação econômica e técnica entre eles, 47 a concretização da CSS se limitou, em grande medida, à união contra o imperialismo das grandes potências e o racismo, e a favor do pacifismo, do multilateralismo, da autodeterminação e da igualdade entre as nações. 48

A criação da UNCTAD em 1964, ao mesmo tempo em que representou alargamento da aliança entre os países do Sul, agregou à agenda da CSS o consenso em torno do comércio internacional como instrumento de promoção do desenvolvimento econômico. Mesmo países considerados aliados

45 Sá e Silva, 2009. Segundo cronologia da CSS elaborada pela Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB), um ano antes de Bandung, em 1954, teria sido registrada a primeira ação sob a modalidade Sul-Sul: o oferecimento de cooperação pela Tailândia a países do Sudeste Asiático (SEGIB, 2008).

46 Em Bandung, reuniram-se representantes de 29 países asiáticos e africanos, ao passo que apenas 25 representantes compareceram à Conferência de Belgrado, considerada, no entanto, de âmbito geográfico mais amplo, dada a presença de representante de um país da América Latina:

Cuba.

47 O primeiro item do Comunicado Final de Bandung contempla, justamente, propostas de cooperação no âmbito econômico, entre elas: assistência técnica mútua, ação coletiva para estabilização dos preços e demanda internacional do comércio de commodities, diversificação da pauta de exportações via estímulo ao processamento nacional de matérias-primas, desenvolvimento da infra-estrutura necessária para o avanço do comércio regional, como as ligações mercantes e ferroviárias e o estabelecimento de bancos de fomento e seguradoras nacionais e regionais, formulação de políticas comuns em matéria de petróleo, apoio à energia nuclear para fins pacíficos, consultas prévias para a elaboração de posições comuns em fóruns internacionais a fim de promover o interesse econômico mútuo.

48 Ainda assim, há que se ressaltar que os países em desenvolvimento não se uniam sempre em torno dessas resoluções. O Brasil, por exemplo, costumava adotar postura ambígua em relação à descolonização, apoiando resoluções gerais de condenação à exploração econômica das colônias ou a favor da autonomia e da autodeterminação (p.e., Res. n. 1514/1960, Declaração de Independência dos Povos Coloniais), ao passo que na votação de resoluções específicas ou se abstinha (p.e., Res. n. 1573, de apoio à autodeterminação da Argélia) ou votava contra (p.e., Res. 1542, obrigando Portugal a fornecer informações sobre suas colônias à ONU) (Cervo e Bueno, 1992).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

incondicionais dos países industrializados passaram a demandar mudanças nas relações econômicas internacionais. 49

Logo na primeira seção da UNCTAD os países latino-americanos se juntaram aos asiáticos e africanos para formar o Grupo dos 77 (G-77), cujas atividades também se restringiram, a princípio, a barganhas coletivas vis-à-vis os países industrializados (no âmbito comercial a cooperação entre países em desenvolvimento viria se institucionalizar apenas em 1988, com o estabelecimento do Sistema Global de Preferências Comerciais entre Países em Desenvolvimento).

Data ainda dos anos 60 a emergência dos primeiros arranjos regionais e sub- regionais de integração: Mercado Comum da América Central (1960); Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (1960); Organização da União Africana (1963); União Econômica e Aduaneira da África Central (1964); Associação das Nações do Sudeste Asiático (1967); Pacto Andino (1969). 50 Não obstante, devido à carência de infra-estrutura (comunicações e transportes) ligando os países que formavam esses arranjos, bem como à sua base produtiva similar, a cooperação econômica, destinada a gerar economias de escala no âmbito das estratégias de industrialização, não se concretizou nos níveis esperados. 51

Diante das limitações mencionadas, a modalidade de CSS que se efetivou de forma marcante, nessa primeira fase, foi o apoio mútuo entre os países em desenvolvimento na arena multilateral, com destaque para as articulações que culminaram na aprovação, em 1974, da Declaração pelo Estabelecimento da Nova Ordem Econômica Mundial (NOEI). Fundamental para isso foram, por um lado, o aumento do número de países em desenvolvimento na ONU com o avanço do processo de descolonização e, por outro, a liderança exercida por estadistas como Jawaharlal Nehru (Índia), Julius Nyerere (Tanzânia), Mao Tse-Tung (China), Luis Echeverría (México) e Mahathir bin Mohamad (Malásia).

49 Menon, 1980.

50 Tais iniciativas se inserem na chamada “primeira onda do regionalismo”, que engloba acordos e organizações criados entre o pós-guerra e o início dos anos 80. Esses arranjos foram classificados como promotores de um regionalismo “fechado”, pautado pela busca de incentivos especiais para a industrialização dos países em desenvolvimento, que não se consideravam em condições de igualdade para concorrer com os demais no âmbito de negociações multilaterais mais amplas, como o GATT (Herz e Hoffmann, 2004).

51 Ohiorhenua e Rath 2000.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Num segundo momento, com o avanço dos anos 70, o apoio mútuo no contexto do Diálogo Norte-Sul foi suplementado pela difusão de iniciativas de cooperação técnica e econômica entre os países em desenvolvimento, 52 antes pontuais e ligadas principalmente à atuação de Cuba e da China. 53 Fundamental para isso, acreditamos, teria sido a própria diferenciação entre os países do Sul introduzida pelo que Alice Amsden chama de emergência do “resto”. 54 Somente com o avanço de alguns países do Sul, expressos em termos de crescimento do PIB, das exportações e da renda per capita, 55 seria possível concretizar a cooperação econômica e técnica entre os países em desenvolvimento. 56

Paralelamente, essa cooperação foi se convertendo em imperativo diante do fracasso do Diálogo Norte-Sul que, juntamente com a criação da Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEP), haviam marcado um contexto de grande otimismo, ativismo e união dos países em desenvolvimento em prol da construção de estruturas de poder e de relações econômicas mais eqüitativas.

Em termos de cooperação financeira, embora haja iniciativas precedentes, 57 o marco central foi o primeiro choque do petróleo, em 1974. Normalmente a

52 Saksena, 1985. Menon (1980) caracteriza nota que nesse período teria havido a passagem da reclamação para a ação na forma da cooperação entre os países do Sul.

53 Cuba se destacava na cooperação técnica pelo envio amplos contingentes de médicos e professores, especialmente a países alinhados com o bloco socialista (Sá e Silva, 2009). A China, que havia se tornado doador desde o início dos anos 50, foi protagonista no financiamento de projetos de larga escala, como a ferrovia Tanzânia-Zâmbia, construída no fim da década de 60. No que se refere à cooperação técnica, uma das frentes de atuação privilegiadas foram os projetos de ajuda agrícola, ferramenta de promoção do regime maoísta (Chin e Frolic, 2007).

54 Amsden, 2004.

55 Amsden afirma que um dos fatores fundamentais para a emergência dos chamados “New Industrialized Countries” (NICs) teria sido uma forte atuação do setor público na captação de conhecimentos e tecnologias necessários para alavancar o processo de desenvolvimento (Amsden, 2004). Esse ativismo dos Estados no Sul coincidiu com a migração da inovação, nos países do Norte, do setor público para o privado. A aposta na CSS baseou-se justamente na expectativa, que se sustenta até os dias atuais, de que os Estados, ao contrário do setor privado, estariam dispostos a compartilhar seus conhecimentos e tecnologias com outros países – o que caracterizaria um diferencial da CSS em relação à CNS. O caso da Embrapa aponta que há uma tendência de descolamento da empresa, como aconteceu no passado com a Embraer, do setor público, num contexto em que a inserção em redes internacionais de pesquisas voltadas para a inovação demanda uma flexibilidade de atuação que não é possível em âmbitos burocráticos. No caso da CSS, a empresa só transfere para países mais pobres tecnologias de domínio público. As novas tecnologias, desenvolvidas muitas vezes com parceiros do setor privado, só são transferidas mediante pagamento de royalties.

56 É importante ressaltar que Amsden não apresenta reflexões sobre a CSS em si, apenas sobre os determinantes para a emergência dos NICs. Uma das poucas obras a se dedicar ao tema da concretização da CSS em função da “hierarquização” entre os países do então chamado “Terceiro Mundo” foi o volume “South-South relations in a chanding world order”, organizado por Jerker Calsson (1980).

57 O Fundo do Kuwait para o Desenvolvimento Econômico Árabe, estabelecido em 1961, foi o primeiro da espécie estabelecido por um país em desenvolvimento. Em meados da década de 70, seriam criados o Banco de Desenvolvimento Islâmico e o Banco Árabe para o Desenvolvimento Econômico (ECOSOC, 2008). Tais iniciativas, motivadas em grande medida por propósitos

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

literatura sobre a CSS analisa a formação da OPEP como mais uma expressão, talvez a mais eficaz historicamente, da barganha coletiva do Sul vis-à-vis os países industrializados. Não obstante, vale ressaltar que, ao garantir aos países produtores e exportadores de petróleo receitas extraordinárias (na forma dos chamados petrodólares), boa parte das quais foram transferidas para os países em desenvolvimento na forma de empréstimos a taxas de juros baixas ou mesmo negativas, o choque do petróleo representou um marco fundamental na cooperação financeira entre países em desenvolvimento.

No âmbito multilateral, a cooperação técnica e econômica, antes discutidas em conferências mais amplas, passaram a ganhar conferências específicas. Respondendo a demanda dos países em desenvolvimento, a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) organizou a Conferência sobre Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento (CTPD), que reuniu delegações de 138 países em Buenos Aires em 1978. O resultado da conferência foi a adoção, por consenso, do Plano de Ação para Promover e Implementar a CTPD, que havia resultado de cinco anos de debates detalhados sobre o tema. 58 O plano, cuja implementação seria monitorada pela Unidade Especial de CTPD do PNUD 59 , continha 38 recomendações destinadas a atores nacionais, regionais e globais, as quais contemplavam basicamente a necessidade de os países em desenvolvimento: registrarem e partilharem informações sobre suas capacidades, técnicas e experiências; estabelecerem e fortalecerem ligações institucionais e físicas necessárias para o compartilhamento de recursos; identificarem e concretizarem oportunidades de cooperação, com foco nas necessidades dos países menos desenvolvidos. 60

No âmbito da cooperação econômica, os marcos foram o Programa de Arusha (1979) 61 e o Programa de Ação de Caracas (1981), 62 que contêm recomendações sobre o estreitamento de ligações em vários setores, com foco no comércio e no estabelecimento do Sistema Geral de Preferências

diplomáticos (busca de apoio para a causa palestina), concediam quantidades modestas de financiamentos concessionais especialmente para a África e Oriente Médio, sendo que Israel, em resposta, também começou a destinar ajuda em defesa da sua política, especialmente na África. O propósito diplomático (busca de liderança regional, defesa de interesses e apoio a diásporas) também teria imperado nas somas modestas concedidas por países como a África do Sul, Índia, Nigéria e Brasil (Lancaster, 2007a).

58 Informações disponíveis em: http://southsouthconference.org/?page_id=276.

59 A Unidade Especial de CTPD havia sido criada em 1974 e, em 2003 foi renominada Unidade Especial para a Cooperação Sul-Sul.

60 UNDP, 2004.

61 Arusha Programme for Collective Self-Reliance and Framework for Negotiations.

62 Programa adotado durante a Conferência de Alto Nível sobre Cooperação Econômica entre Países em Desenvolvimento.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Comerciais entre Países em Desenvolvimento, como ferramenta de promoção de uma nova ordem econômica mundial.

Apesar de alguns avanços, pode-se dizer que, ainda nesse momento persistiam limitações à eficácia de a CSS se concretizar, de fato, como estratégia redefinição da divisão internacional de trabalho e de industrialização. Barreiras físicas, tecnológicas, institucionais e financeiras continuaram impedindo que os próprios países em desenvolvimento atendessem a demandas mútuas por bens intermediários e de capital 63 , desafios que viriam se tornar ainda mais profundos nos anos 80, com o retrocesso nas taxas de crescimento em boa parte dos países do Sul.

Vários analistas coincidem no tratamento dos anos 80 e boa parte dos 90 como uma fase de desmobilização da CSS. Isso ocorreu, por um lado, devido à premência de problemas domésticos, notadamente a crise da dívida externa, mas também, no caso dos latino-americanos, a transição democrática, que tornaram a ação externa desses países mais tímida. Por outro lado, a emergência de um novo modelo de desenvolvimento, focado no ajuste neoliberal, acabou levando os países do Sul a competir pela recepção de investimento estrangeiro direto, interrompendo décadas de mobilização conjunta pela reforma da ordem econômica mundial que, assim como as próprias iniciativas de CSS, havia se calcado na centralidade do Estado como motor do desenvolvimento. Por fim, a queda da URSS veio questionar o rationale central do movimento terceiro-mundista: a busca de autonomia diante da disputa bipolar. 64

Conforme aponta a tabela abaixo, se consultarmos o número de eventos multilaterais que contribuíram para impulsionar e definir a CSS ao longo das décadas, veremos que, de fato, essa desmobilização se verifica nos anos 80 e primeira metade dos anos 90 (apenas um evento registrado), em relação à década de 70 (seis eventos registrados).

63 Para uma descrição detalhada das barreiras, ver Saksena, 1985.

64 Sá e Silva, 2009.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

TABELA 1: EVENTOS MULTILATERAIS QUE CONTRIBUÍRAM PARA IMPULSONAR E DEFINIR A COOPERAÇÃO SUL-SUL

ANO

EVENTO

 

CONTRIBUIÇÕES

1974

29º Período de Sessões da AGNU Nova York (EUA)

Nasce, como dependência especial do PNUD, a Unidade Especial de Cooperação Sul-Sul (UECSS). Seu precedente é o Grupo de Trabalho sobre CTPD criado no 27º período de sessões. Entre suas funções se destacam:

- A promoção e defesa da CSS

- A canalização e inovação dos mecanismos

que permitam que os países membros do PNUD possam participar de iniciativas trilaterais e Sul-Sul dentro do sistema das Nações Unidas.

1976

V Conferência de Chefes de Estado e de Governo dos Países Não-Alinhados

O

MNA nasce formalmente em Belgrado em

1961. Integrado originalmente por 25 países, em 1976 os países membros somam 86. Atualmente formam parte desse movimento

 

116

países. Durante a conferência de 1976,

Colombo (Sri Lanka)

aprova-se um primeiro Programa de Ação para

a

CEPD.

1976

Conferência sobre

Acordam-se medidas para facilitar a implementação dos Programas de Ação para a Cooperação Econômica surgidos nos marcos do MNA e do G-77

Cooperação

Econômica entre

Países em

Desenvolvimento

 

Cidade do México (México)

1976

31º Período de Sessões da AGNU

Chamado à UECSS para que comece a preparar

a

Conferência de Buenos Aires.

Nova York (EUA)

1977

32º Período de Sessões da AGNU

Emana a resolução que fixa como objetivos da

CTPD:

Nova York (EUA)

A promoção da capacidade nacional e coletiva dos países em desenvolvimento para valerem-

-

se de meios próprios

- O aumento da capacidade criadora desses

países para resolver esses problemas de desenvolvimento.

1978

Conferência das Nações Unidas sobre CTPD

138

países adotam por consenso o Plano de

Ação de Buenos Aires ou Plano para Promover

e

Realizar a CTPD

Buenos Aires

(Argentina)

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

1981

Conferência de Alto Nível sobre Cooperação Econômica entre Países em Desenvolvimento

Elaboram-se as “Novas Diretrizes da CTPD”. Incluem:

-

O conceito de Países-Pivô ou países em

desenvolvimento que, em virtude de suas capacidades e experiência em promover a CSS, jogam papel de líderes na promoção e

Caracas (Venezuela)

aplicação da CTPD.

- A promoção de uma maior integração entre a CTPD e a CEPD.

1997

Reunião de Países- Pivô (Chile)

Permite conhecer experiências de Ásia, África, Europa e América Latina tanto em CTPD como em CEPD.

2000

Reunião de Chefes de Estado e de Governo do G77

Acorda-se convocar, para 2003, a I Conferência de Alto Nível sobre CSS. Busca identificar formas de fortalecer e expandir a cooperação entre países em desenvolvimento.

(Cuba)

2002

I Conferência Internacional sobre o Financiamento para o Desenvolvimento Monterrey (México)

Nasce para dar o cumprimento financeiro aos compromissos contraídos pelos doadores tradicionais com os ODMs. Entre suas conseqüências está o aumento da AOD mundial, mas também a concentração da AOD em países mais pobres. O deslocamento dos países de renda média como receptores da AOD contribui para impulsionar sua participação na CSS.

2003

Conferência de Alto Nível sobre CSS ou I Cúpula do Sul

De acordo com as Novas Diretrizes da AGNU, o Comitê passa a se denominar Comitê de Cooperação Sul-Sul.

Marrakech (Marrocos)

2005

Conferência de Alto Nível sobre CSS. II Cúpula do Sul

Impulsiona-se o Plano de Doha, por meio do qual se detalham as iniciativas que deveria permitir o estímulo ao aumento da CSS em todas as regiões do mundo e em todas as suas modalidades.

Doha (Qatar)

2006

XIV

Cúpula do MNA

A

declaração final considera insuficiente a ODA

 

mundial e insta a aproveitar ao máximo o

Havana (Cuba)

potencial da CSS.

2007

62º

Período de

Revisão mais recente e exaustiva da CSS no marco da cooperação internacional. Insta-se

Sessões da AGNU.

15º

Período de

uma maior integração entre a CTPD e a CEPD.

Sessões do Comitê de

Alto

Nível para a CSS.

NY

Fonte: SEGIB, 2008.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Conforme também mostra a cronologia acima, no fim dos anos 90 e início dos anos 2000 houve um ressurgimento e ampliação sem precedentes da CSS. A insatisfação com os impactos sociais dos programas de ajuste estrutural e a emergência de governos progressistas em vários países do Sul foram alguns dos fatores que contribuíram para isso, 65 além da sua própria recuperação econômica, que permitiu atuação mais pró-ativa no cenário internacional.

Embora tenha resgatado o rationale da união em barganhas no âmbito multilateral – com destaque para a articulação entre países em desenvolvimento, no âmbito da OMC, em prol da quebra de patentes de medicamentos antiretrovirais e da abertura comercial dos países desenvolvidos para os produtos agrícolas (G-20) -, a CSS não se restringiu de forma alguma a isso. Essa nova fase é marcada também pela emergência de coalizões unindo as potências emergentes, como o Fórum de Diálogo Índia- Brasil-África do Sul (IBAS) e o agrupamento Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul (BRICS), e pela busca de modelos alternativos de desenvolvimento, com agências como o Banco Mundial, cuja atuação se viu questionada pelo fracasso do modelo anterior, 66 incorporando a agenda da CSS por meio da difusão das chamadas “boas práticas” entre os países em desenvolvimento, 67 com destaque para iniciativas voltadas para a inclusão social e a consecução dos ODMs.

A CSS também passou a ser incorporada como pilar fundamental de atuação das agências de cooperação dos países desenvolvidos, configurando a chamada “cooperação triangular”, que envolve, grosso modo, a transferência

65 Ibid. A emergência de governos progressistas foi particularmente marcante na América Latina, embora tenha acontecido também em outras partes do mundo (caso, por exemplo, do governo do social-democrata Thabo Mbeki na África do Sul). Para mais informações sobre a emergência de governos progressistas na América Latina, ver, por exemplo, Panizza, 2006.

66 Os questionamentos à atuação do Banco Mundial se inserem em questionamentos mais amplos aos efeitos desiguais da globalização em termos econômicos e sociais, os quais foram incorporados pelo Fórum Social Mundial e pelos protestos sociais que passariam a marcar a realização de reuniões da OMC e do G-8.

67 Segundo Sá e Silva, o apoio à transferência de boas práticas, concretizadas na forma de amplos programas sociais, pelas agências internacionais teria sido uma forma de “clean up the mess left by structural adjustment” (Sá e Silva, 2009:48). Portanto, se insere na busca dessas agências de reconstruir sua legitimidade diante da comunidade internacional. Um marco nesse sentido foi o lançamento, em 1999, da Global Development Network pelo Banco Mundial, destinada a apoiar institutos de pesquisas dos países em desenvolvimento na geração e compartilhamento de pesquisas aplicadas ao desenvolvimento. Mais informações disponíveis em:

http://cloud2.gdnet.org/cms.php?id=gdn_development_research.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

de “boas práticas” de um país em desenvolvimento para outro país em desenvolvimento, com o apoio de um país desenvolvido. 68

Em termos de modalidades setoriais, um fenômeno relevante nesta última fase da CSS diz respeito à expansão da noção tradicional da CSS como CTPD, resgatando-se como um dos eixos centrais para o desenvolvimento iniciativas de cooperação econômica, as quais podem se referir a iniciativas no âmbito do comércio, finanças ou mesmo de coordenação de políticas econômicas. Dois exemplos seriam a Petroamérica 69 e a Iniciativa para a Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). 70

5. Marcos interpretativos da CSS

Ao longo das últimas páginas vimos que a CSS, historicamente falando, se desenvolveu a partir de uma miríade de modalidades. Mas será que podemos de fato enquadrá-las em uma única categoria analítica? A CSS possui características próprias, que a diferencia das relações tradicionais Norte-Sul e Norte-Norte? Nessa seção buscaremos revisitar os marcos interpretativos centrais da CSS (teoria da Dependência) e da cooperação internacional (teorias do mainstream das Relações Internacionais), apontando suas lacunas e propondo um marco que, ao combinar elaborações da teoria social e de análise de política externa, busque dar sentido à complexidade das trocas envolvidas na CSS.

68 A cooperação triangular, ou trilateral, ou ainda tripartite é tratada como uma das modalidades

da CID. Há quem defenda, ainda, que se trata de uma modalidade da CSS (ver, por exemplo, Segib, 2008). Prevalece, em sentido restrito, a ideia de que a cooperação triangular aconteceria pela via oficial, com um país de renda média fornecendo expertise, ao passo que um país de renda alta financiaria sua transferência. Isso, porém, raramente se confirma na prática, observando-se que ambos os parceiros podem contribuir tanto com expertise quanto com recursos financeiros. Em sentido amplo, a cooperação triangular pode se referir a qualquer modalidade que conte com três ou mais parceiros engajados em iniciativas de cooperação, sejam eles ou não entes oficiais (caso, por exemplo, do projeto Honra e Respeito a Bel Air, liderado pela ONG brasileira Viva Rio em uma favela em Porto Príncipe, Haiti, contando com o apoio do BID, de governos dos países industrializados e de parceiros não governamentais, como a ONG Norwegian Church Aid). Configuram também como cooperação triangular iniciativas envolvendo três ou mais países em desenvolvimento, como o caso do Fundo Ibas de Combate à Fome e à Pobreza; ou envolvendo dois países em desenvolvimento e uma organização internacional, como o caso do programa Pró-Huerta (Argentina-IICA-Haiti). Para mais informações sobre o projeto Honra e Respeito a Bel Air, ver: http://southsouth.org/uploads/Viva_Rio_Brasil-Haiti_-

_Honra_e_Respeito_por_Bel_Air.pdf.

http://www.itamaraty.gov.br/temas-mais-informacoes/saiba-mais-ibas/fundo-ibas/view. Sobre o Pro-Huerta, ver: http://www.acdi-cida.gc.ca/cidaweb%5Ccpo.nsf/projEn/A033962001. Para mais informações sobre a definição, características, vantagens e desafios da cooperação triangular, ver, por exemplo, Fordelone, 2009.

69 Ver: Segib, 2008.

Para

mais

informações

sobre

o

Fundo

Ibas,

ver:

70

Mais

informações

sobre

a

IIRSA

disponíveis

em:

http://www.iirsa.org/index.asp?CodIdioma=ESP

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

5.1. Teoria da dependência: o Sul místico

As abordagens dependentistas conformaram as lentes centrais de interpretação durante a primeira fase da CSS e, como veremos, influenciam até os dias de hoje as percepções sobre a CSS. Essa abordagem se fortaleceu nos anos 60 como resposta às teorias do desenvolvimento internacional harmônico, para as quais os ricos deveriam assumir liderança no estímulo ao desenvolvimento dos mais pobres, e às teorias da modernização, expressas, por exemplo, na obra do economista norte-americano Walt Rostow, que se baseavam em modelos puramente econômicos centrados na transferência de receituários, extraídos da experiência dos países desenvolvidos, para os países em desenvolvimento.

Teóricos como Samir Amin passaram a apontar que o desenvolvimento deveria ser estudado como um movimento histórico, quer dizer, que o progresso dos países desenvolvidos não seria fenômeno ontologicamente primitivo, mas teria ele próprio gerado retrocesso dos países em desenvolvimento. Essa noção foi incorporada na América Latina pela Escola da Dependência, para a qual o subdesenvolvimento não seria estágio do desenvolvimento, mas produto da expansão do sistema capitalista pelo mundo. 71

Um dos caminhos para se libertarem do subdesenvolvimento seria estimular trocas econômicas, tecnológicas e técnicas entre os países do Sul, âmbito em que imperaria a solidariedade em prol do objetivo comum do desenvolvimento. Essa confiança coletiva (collective self-reliance) contribuiria para que os países do Sul se libertassem de relações desiguais, tornando seu desenvolvimento autônomo e aumentando seu poder de barganha vis-à-vis os países do Norte. 72

Essa visão tem caráter limitado por pelo menos dois motivos. Em primeiro lugar, os próprios governos dos países do Sul, embora incorporassem em seus discursos, no passado e hoje, o suposto caráter diferencial da CSS, baseado nos princípios da horizontalidade e da não-ingerência (expresso na suposta inexistência de condicionalidades), relutavam em priorizar a CSS em detrimento da CNS. De fato, todos os comunicados resultantes de suas

71 Kuhnen, 1987.

72 Sá e Silva, 2009; Joy-Ogwu, 1982; Bobiash, 1992. A base para tal raciocínio vem, principalmente, das elaborações de Samir Amin, que se aproximam às de Mao-Tsé-Tung, para o qual a única estratégia possível para os países do Sul seria se desligarem (delinking) da divisão internacional do trabalho (Amin, 1990).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

reuniões apontavam o caráter complementar, e não substitutivo, da CSS em relação à CNS. Nos dias atuais, essa visão da complementaridade é reforçada com os chamados doadores tradicionais incorporando a CSS em suas próprias agendas. Com isso, há uma ampliação das visões, das práticas dos defensores da CSS, não mais restritos a acadêmicos dependentistas ou a governos de esquerda. 73

Em segundo lugar, a abordagem dependentista à CSS é excessivamente normativa por não se basear em evidências empíricas, mas em expectativas de que as relações entre os países em desenvolvimento seriam neutras e despidas de interesses imperialistas. O rationale básico é que, como foram colônias e sofreram intervenções externas a mais variadas no passado, sendo o caso recente mais emblemático o das condicionalidades atreladas aos programas de ajuste estrutural, os novos doadores não fariam o mesmo com seus homólogos sulinos.

Apesar de a expansão recente dos atores que apoiam a CSS favorecer a ampliação das fontes de financiamento não apenas para sua implementação, 74 mas também para estudos mais aprofundados e baseados em evidências a respeito de suas principais dinâmicas, 75 vários pressupostos normativos ainda informam essas visões. 76

73 Sá e Silva, 2009.

74 Ibid.

75 Três estudos relevantes foram: os estudos conduzidos pelo ECOSOC para informar as reuniões do Development Cooperation Forum (mais informações sobre o DCF disponíveis em:

http://www.un.org/en/ecosoc/dcf/), como o relatório “Trends in South-South and triangular development cooperation”, que reúne dados e análises sobre a atuação de 18 doadores e três instituições multilaterais de países em desenvolvimento; o Emerging Donors Study, patrocinado pelo International Development Research Center (IDRC – Canadá), que busca entender as transformações na dinâmica da assistência internacional por meio do estudo de caso de quatro doadores emergentes: Brasil, Índia, China e África do Sul (mais informações disponíveis em:

http://idrc.ca/EN/Resources/Publications/Pages/ArticleDetails.aspx?PublicationID=116); e os estudos de caso de CSS realizados pelo Task-Team on South-South Cooperation (TT-SSC), grupo vinculado à OCDE que assumiu a liderança na realização de estudos baseados em evidências para informar a IV Reunião de Alto Nível sobre Eficácia da Ajuda que aconteceu em Busan, Coreia, no fim de 2011 (mais informações sobre o TT-SSC disponíveis em:

http://www.oecd.org/document/51/0,3746,en_2649_3236398_43385523_1_1_1_1,00.html; os 23 casos estão disponíveis em: http://www.southsouthcases.info/casestudies/index.php).

76 Não acreditamos que isso ocorra necessariamente por questões ideológicas. Como a CSS se converteu em modalidade politicamente correta da cooperação (Sá e Silva, 2009), há esforços os mais variados para defender sua diferenciação em relação à CNS. Essa diferenciação vem sendo colocada como requisito para o financiamento de pesquisas sobre a CSS, mesmo por agências dos países do Norte. A autora, por exemplo, presenciou uma negociação sobre o financiamento de estudos empíricos sobre a CSS em que o representante da agência doadora disse abertamente que só financiariam o estudo se mostrássemos que a CSS é diferente da CNS. Isso mostra, portanto, que mesmo os estudos empíricos atuais não são exatamente neutros. No caso de estudos sobre a CSS financiados por doadores do Norte, há, obviamente, a preocupação política de evitar críticas à CSS, talvez à exceção do caso chinês, para impedir o aprofundamento das clivagens com governos do Sul. Porém, há também uma tentativa por parte dos doadores tradicionais de reconstruir a legitimidade de sua cooperação, e o engajamento em iniciativas de CSS se tornou baluarte central nessa busca.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Em primeiro lugar, existe uma crença arraigada de que a proximidade de condições estruturais entre os países do Sul favoreceria uma eficácia maior dos modelos exportados entre eles em relação à cooperação tradicional. Não obstante, embora os problemas que atingem os países em desenvolvimentos sejam similares, as oportunidades e desafios à mudança política são particulares, ligados a ideologias, lobbies e aparatos burocráticos específicos. 77 Isso significa que uma iniciativa que tenha tido impactos positivos sobre o desenvolvimento de um país do Sul não necessariamente terá os mesmos impactos em outro país em desenvolvimento.

Em segundo lugar, e também ligado à premissa da homogeneidade entre os países do Sul, está o pressuposto de que as relações entre eles seriam despidas de dinâmicas de poder e de interesses. Estudos empíricos recentes sobre a CSS apontam o contrário: que considerações políticas e comerciais influenciam, também, a atuação dos doadores emergentes. 78

Em termos teóricos, a abordagem do sistema-mundo proposta por Immanuel Wallertein, ao agregar dimensão intermediária às relações entre centro e periferia, referente à existência de uma semiperiferia global, ajuda a jogar luz sobre a questão. Para Wallerstein, a atuação dos Estados localizados na semiperiferia, ao moderar as contradições econômicas e políticas entre centro e periferia, serviria como ferramenta de preservação da ordem capitalista. 79

As implicações disso para as relações Sul-Sul foram analisadas, por exemplo, por Jerker Carlsson. O autor mostra que, da mesma maneira que as relações tradicionais entre centro e periferia, o expansionismo da semiperiferia, o qual apresenta as particularidades de ser liderado pelo Estado e favorecido em contextos de contração da economia global, seria influenciado por pressões econômicas estruturais (expansão dos investimentos estrangeiros diretos como ferramenta, por exemplo, para superar limitações do mercado doméstico e práticas restritivas de importação por parte dos países de destino

77 Sá e Silva, 2009.

78 ECOSOC, 2008; Rowlands, 2008. Alguns estudos acadêmicos mais antigos que apontavam nessa direção. Por exemplo, no livro South-South Aid, publicado em 1992, Donald Bobiash fez a seguinte reflexão: “Although theories of dependency and self-reliance can help us understand the conceptual framework for SSC, also important for our analysis of SS aid are the immediate goals and national interests of developing-country governments. Whatever multilateral commitments to SSC by developing countries may exist, developing countries’ bilateral development assistance may be provided for a variety of motives, many of which may be unrelated to promoting the global objectives of SSC” (Bobiash, 1992:9).

79 Wallerstein, 2004.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

dos investimentos, além de garantia de acesso a matérias-primas), com efeitos igualmente deletérios sobre as economias periféricas. 80

Embora tal perspectiva contribua para desconstruir a premissa de que a similaridade entre os níveis de desenvolvimento dos países do Sul levaria a relações mais simétricas entre eles, ela peca por limitar a atuação externa dos Estados aos interesses das classes capitalistas dominantes. Para explorar com maior profundidade a dimensão dos interesses na CSS talvez seja útil revisitar teorias do mainstream das relações internacionais, que tomam os interesses próprios como drivers centrais das escolhas dos Estados em geral.

5.2. Teorias das relações internacionais: o Sul ausente

A teoria realista das Relações Internacionais, baseada na ideia de que os

Estados se relacionam em um contexto anárquico caracterizado por um estado de guerra, trata a cooperação internacional como um fenômeno temporário, ligado à formação de alianças entre Estados na tentativa de dissuadir o expansionismo de terceiros. Essa teoria, contudo, não provê um marco interpretativo nem para as relações Norte-Sul nem para as relações Sul-Sul. Nas palavras de Kenneth Waltz, “a general theory of international politics is necessarily based on the great powers” (Waltz, 1976:73). A atuação de países que não sejam potências, sejam eles desenvolvidos ou não, é tratada como mero resultado das decisões dos grandes.

Há, porém, abordagens sobre a cooperação internacional para o desenvolvimento inspiradas pela teoria realista. Para elas, a ajuda externa é instrumental, um meio para assegurar objetivos de segurança e aumentar o poder dos Estados donatários, reduzindo, por exemplo, tentações ligadas ao comunismo ou ao terrorismo. 81

A teoria neoliberal/neoinstitucionalista das relações internacionais, embora

parta dos mesmos pressupostos da teoria realista – racionalidade e egoísmo dos Estados, interação em um contexto anárquico -, acredita que eles não levam necessariamente ao conflito. Num contexto marcado pela interdependência e pela interação estratégica, em que a maximização dos ganhos de um Estado depende não apenas das suas escolhas, mas também

80 Carlsson, 1982.

81 Ver, por exemplo, Liska (1960). Para uma interpretação da CSS a partir do neorealismo clássico, ver De la Fontaine e Seifert, 2010.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

das escolhas de outros Estados, a cooperação emerge como o caminho mais

racional.

Não obstante, essa teoria é marcada por pelo menos duas lacunas. Em

primeiro lugar, uma lacuna de escopo, na medida em que baseia-se em

evidências apenas sobre as relações entre os países industrializados. Logo nas

primeiras páginas do livro que viria influenciar boa parte do pensamento

sobre a cooperação nas relações internacionais, “After hegemony: cooperation

and discord in the world political economy”, Robert Keohane esclare:

“This book is about how cooperation has been, and can be, organized in

) Because I

begin with acknowledged common interests, my study focuses on relations among the advanced market-economy countries, where such interests are manifold. These countries hold views about the proper operation of their economies that are relatively similar – at least in comparison with the differences that exist between them and most less developed countries, or the nonmarket planned economies. They are engaged in extensive relationships of interdependence with one another; in general, their governments’ policies reflect the belief that they benefit from these ties. Furthermore, they are on friendly political terms; thus political-military conflicts between them complicate the politics of economic transactions less than they do in East-West relations” (Keohane, 1984:6).

the world political economy when common interests exist. (

Em segundo lugar, Keohane e seus seguidores entendem a cooperação

internacional como processo de coordenação de políticas entre países situados

em um contexto marcado pela interdependência. Nas suas palavras:

“Cooperation occurs when actors adjust their behavior to the actual or anticipated preferences of others, through a process of policy coordination. To summarize more formally, intergovernmental cooperation takes place when the policies actually followed by one government are regarded by its partners as facilitating realization of their own objectives, as the result of a process of policy coordination” (Keohane, 1984:51-52, grifo do autor).

Embora tal interdependência, entre os países do Sul, seja clara no contexto

regional (caso do Mercosul), ou entre as economias emergentes (caso Brasil-

China), a questão é que ela não existe necessariamente entre todos os países

do Sul. Portanto, interpretar a CSS como coordenação de políticas pode fazer

sentido em alguns contextos, mas não em outros. Isso porque as relações

entre os países do Sul, tradicionalmente, são em grande medida marcadas

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

pela indiferença, o que inviabiliza toda a interpretação subseqüente oferecida pela teoria liberal, já que ela se funda no raciocínio de que os Estados são constrangidos a cooperar porque, se não o fizerem, haverá conflito (dilema do prisioneiro). Como explicar, então, a cooperação entre países que se situam em um contexto marcado pela indiferença? Acreditamos que a teoria social, que tradicionalmente se ocupa de dinâmicas de cooperação entre indivíduos e grupos, pode ser útil na tarefa.

5.3. Elaborações da teoria social sobre a cooperação

A Segunda Guerra Mundial levou a uma mudança no foco de estudo das Ciências Sociais, que passaram a se voltar para o entendimento das condições que levam indivíduos ou grupos a optarem pela competição ou pela cooperação. 82 É nesse marco que se insere o posterior surgimento da teoria dos jogos e suas variações, inclusive a abordagem liberal às relações internacionais.

Não obstante, autores que realizaram uma profunda revisão e sistematização sobre as dinâmicas de conflito e cooperação entre indivíduos e subunidades apontam que, ao contrário do que as perspectivas supramencionadas nos fazem crer, competição e cooperação não são necessariamente conceitos polares; ausência de cooperação não significa presença de conflito. 83 Isso, em última instância, acaba comprometendo a capacidade das teorias baseadas no dilema do prisioneiro de explicarem a cooperação entre países que não se relacionam em contextos marcados pela interdependência.

Uma contribuição central da teoria social para o estudo da cooperação é o seu entendimento com um processo complexo de troca, no qual cada indivíduo/grupo provê ao outro um serviço que pode ser similar, mas com é com freqüência distinto. 84 A CSS desenvolvida no âmbito das negociações multilaterais seria um exemplo em que as partes envolvidas provêem serviços similares umas às outras – votando a favor ou contra determinada resolução na AGNU, por exemplo. Ao contrário, quando um doador emergente oferece ajuda e recebe em troca vantagens comerciais (recompensa material) ou reconhecimento (recompensa intangível), estamos falando do segundo caso.

82 Marwell e Schmitt, 1975.

83 May e Doob, 1937; Marwell e Schmitt, 1975; Nisbet, 1968.

84 Deutsch, 1953; Homans, 1961.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Além disso, as trocas podem ser diretas, envolvendo apenas as partes envolvidas na cooperação, ou indiretas, caso em que um doador não busca o reconhecimento do recipiendário, mas de terceiros (por exemplo de outros doadores). 85 No caso, por exemplo, da atuação de Brasil e Índia em países marcados por forte instabilidade, como Afeganistão e Haiti, a perspectiva das trocas indiretas agregaria ao componente da solidariedade Sul-Sul uma nova dimensão: o objetivo de apresentar às potências tradicionais, e à comunidade internacional em geral, um novo modelo de atuação que soma a dimensão do desenvolvimento ao componente ostensivo das missões de paz. Uma vez que essa demonstração se concretize, quer dizer, que sejam vistos como bem- sucedidos na busca por uma paz estável em países frágeis, Brasil e Índia podem eventualmente reunir apoio para ocuparem assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU (uma frente clara da política externa de ambos os países).

Por fim, consideramos necessário destacar o elemento da reciprocidade, tido como mecanismo iniciador de interações sociais. Em relações que estão se iniciando, a retribuição de benefícios recebidos se coloca como condição para que as trocas continuem acontecendo e para que, no longo prazo, se institucionalizem. Porém, diferentemente das trocas econômicas, baseadas em contratos, as trocas sociais criam obrigações difusas; se uma pessoa faz um favor a outra, existe expectativa de recompensa, mas a natureza dessa recompensa não é objeto de estipulação ou barganha antecipadas. 86

No caso da cooperação oferecida pelos doadores emergentes, a natureza das recompensas esperadas é ainda mais difusa, já que os diversos propósitos atrelados à ajuda ainda não se encontram suficientemente articulados em uma política coerente de cooperação.

O que importa aqui é chamar a atenção para a ideia de que fornecer ajuda a um país mais pobre, o que se daria no âmbito da modalidade da CSSD, pode se tornar um importante mecanismo iniciador das relações entre países do Sul. 87 Não obstante, para que essas relações tenham continuidade ao longo do tempo é necessário que a parte que forneceu a ajuda também se veja recompensada. Há quem aponte, ainda, que quanto mais simétricos forem os

85 Blau, 1964.

86 Ibid.

87 Esse tema é tratado amplamente pela aplicação da teoria da dádiva (gift), de Marcel Mauss, à cooperação internacional. Ver, por exemplo, Silva, 2008.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

benefícios alcançados, melhor será o desempenho das partes engajadas em relações cooperativas. 88

Acreditamos que, uma vez que a ajuda engatilhe um processo de recompensas mútuas entre os países em desenvolvimento, as trocas entre eles tendem a se repetir, a se aprofundar e se ampliar ao longo do tempo, produzindo uma verdadeira situação de interdependência, da qual poderiam resultar níveis mais avançados de cooperação, no âmbito do que Keohane chama “coordenação de políticas”, conforme aponta o esboço abaixo.

GRÁFICO 2: A CSSD COMO POSSÍVEL MECANISMO INICIADOR DE MODALIDADES MAIS AVANÇADAS DE COOPERAÇÃO

INICIADOR DE MODALIDADES MAIS AVANÇADAS DE COOPERAÇÃO Entender a CSS como um processo complexo de trocas

Entender a CSS como um processo complexo de trocas é fundamental diante do surgimento de abordagens que buscam tratar a CSS como um fenômeno ligado a trocas simplificadas, como apontam as abordagens baseadas na troca de conhecimentos (knowledge exchange) ou de políticas (policy exchange). O Banco Mundial e agências da ONU vêm insistindo em apontar que o caráter diferencial da CSS em relação à CNS se basearia nessas dimensões. Embora elas existam em bases claras quando observamos parcerias entre países de mesmo desenvolvimento relativo, subsumir a CSS a essas abordagens é reducionista, formando mais uma expressão e um pensamento normativo sobre a CSS.

Apesar de jogar luz e dar sentido à complexidade da CSS, não podemos transplantar toda a abordagem sociológica à análise dos Estados, sob o risco de conferirmos a eles condições antropomórficas – falha central, aliás, das

88 Ver, por exemplo, May e Doob, 1937.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

teorias do mainstream das relações internacionais. 89 Para entendermos a

cooperação oferecida pelos doadores emergentes, é necessário

compreendermos também suas dinâmicas políticas internas.

5.4. Análise de política externa

Embora haja uma variedade de estudos sobre os determinantes domésticos

da política externa, 90 poucos trabalhos se debruçaram sobre o tema da CID,

em geral, e sobre a CSSD, em particular.

Em livro publicado em 2007, Carol Lancaster realizou trabalho inédito ao

abordar os determinantes domésticos das políticas de cooperação

internacional para o desenvolvimento de cinco países: EUA, Japão, França,

Alemanha e Dinamarca. 91 Em busca de respostas para a pergunta “por que os

países oferecem ajuda?”, a autora considerou insuficientes teorias que partem

de premissas sobre a motivação dos Estados (altruístas ou egoístas) e buscou

complexificar a questão ao propor uma abordagem que leva em conta vários

aspectos da política doméstica dos doadores – ideias e normas

compartilhadas, instituições políticas, grupos de interesses e organização

interna dos governos para o gerenciamento da ajuda oferecida.

A autora justifica sua abordagem da seguinte forma:

Foreign aid constitutes a public expenditure of significant size, repeated year after year. As such, it is periodically reviewed (and often influenced) by a variety of elements within the executive and legislative branches of aid-giving governments. Further, it is frequently the subject of debate by the public as well as criticism, attack, and pressures from organized groups – representing both public and private interests – in donor countries. All these groups can and often do influence the purposes of aid. Finally, aid-giving governments themselves must create

89 Uma das lacunas centrais das teorias do mainstream das relações internacionais é tratar o Estado como uma caixa-preta, deixando de levar em consideração os determinantes domésticos da ação externa, em uma tentativa de demonstrar que a disciplina das Relações Internacionais teria objeto de estudo próprio, que não poderia ser apreendido pela Ciência Política. Mesmo trabalhos teóricos mais recentes, como o do construtivista Alexander Wendt, seguem insistindo nessa perspectiva reducionista das relações internacionais. Apesar disso, o trabalho de Wendt tem o mérito de ter problematizado visões sobre a cooperação internacional que se baseiam em premissas acerca das motivações dos Estados. Segundo ele: “As long as cooperation is purely instrumental – a state helps another state only because its own security is also threatened, for example – then it is egoistic. On the other hand, if a state helps another because it identifies with it, such that even when its own security is not threatened it still perceives a threat to the Self,

then it is acting from collective interest. Motivation is notoriously difficult to measure, a problem

compounded when actors have mixed motives

How do we know that a self-interest explanation

of cooperation is true if we do not know whether an actor was in fact self-interested?” (Wendt, 1999: 240)

90 Para mencionar alguns: Allison e Zelikow, 1999; Putnam, 1988; Milner, 1997.

91 Antes do trabalho de Lancaster um dos poucos trabalhos relevantes sobre influência da política doméstica na CID era o de Vernon Ruttan, mas seu foco era apenas os EUA (ver Ruttan, 1996).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

coalitions of support for foreign aid within their legislatures and publics to sustain aid expenditures over time. The constituents of these coalitions in turn expect their political agendas to be reflected in aid programs. As a result, the purposes of aid are frequently as much the result of what happens inside of a donor government’s borders as what happens outside them (Lancaster, 2007a:4).

Realizar análise semelhante no caso dos doadores emergentes enfrenta,

porém, alguns desafios, sendo o mais primário deles, como já foi dito, a

inexistência de dados confiáveis sobre a CSSD. 92 Isso dificulta bastante a

produção de análises fidedignas sobre a evolução do perfil da CSSD por setor

e destino, para que se possa verificar em que medida, por exemplo, uma

mudança de partido no governo produziu mudanças na política da

cooperação.

Apesar dessa lacuna, ou por causa dela, o que alguns trabalhos vêm tentando

fazer é entender a origem, estrutura de funcionamento e agentes envolvidos

no desenho e implementação dos programas de cooperação dos doadores

emergentes. A grande dificuldade encontrada por todos esses estudos refere-

se à dispersão dos programas em várias agências, dada a inexistência de uma

política consolidada na matéria, por um lado, e a proliferação de atores

nacionais envolvidos na CSS, por outro. 93

Outra descoberta relevante diz respeito ao papel exercido pelo Executivo na

expansão recente da cooperação oferecida, por exemplo, pelos governos de

Índia, Brasil e África do Sul. 94 Isso coloca uma questão central em relação à

sustentabilidade futura dessa expansão diante de mudanças de governo e,

mais ainda talvez, diante de possíveis transformações no cenário econômico

desses países, já que a expansão da CSS coincidiu, até poucos anos atrás,

com um período de crescimento na economia global.

92 Brasil e China publicaram recentemente os primeiros dados consolidados sobre sua cooperação prestada (ver: IPEA/ABC, 2010; CONSELHO DE ESTADO DA CHINA, 2011), mas, além de terem seguido metodologias distintas (não sendo possível, por exemplo, comparar os números da cooperação dos dois países), não há garantia de que seguirão publicando os dados em bases anuais.

93 Ver, por exemplo, Rowlands, 2008; Lancaster, 2007b; De la Fontaine e Seifert, 2010.

94 Em tese de doutorado defendida na Alemanha recentemente, Dana de la Fontaine concluiu, com base no modelo de mudança da política externa proposto por Charles Hermann, que os chefes do Executivo na África do Sul, no Brasil e na Índia – respectivamente, Thabo Mbeki, Luiz Inácio Lula da Silva e Manmohan Singh – teriam sido os drivers centrais da expansão recente da cooperação oferecida por esses países. Fontaine também concluiu que os ministérios das Relações Exteriores dos três países, que até a década de 90 coordenavam a CSS, perderam essa liderança com a crescente influência de outras agências e ministérios em temas que demandam conhecimentos técnicos específicos (De la Fontaine, 2012).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

No caso brasileiro, o ativismo do presidente Lula na CSS foi acompanhado por um processo mais amplo de internacionalização de ministérios, de governos subnacionais e de atores não governamentais, que passaram a buscar se qualificar para participar da provisão da cooperação para o desenvolvimento não mais como atores autônomos ou coadjuvantes ao Ministério das Relações Exteriores – convidados a participar apenas no desenho e implementação das iniciativas -, mas tentando também se colocar como entes centrais na própria definição das prioridades da política externa brasileira. 95 Trata-se, porém, de um processo recente e ainda em curso, cujas dinâmicas ainda devem ser exploradas.

Cabe ressaltar aqui que essa pluralização dos atores envolvidos na CSS traz também uma pluralidade de objetivos e de possibilidades de recompensas. É possível que atores já engajados em iniciativas de comércio e investimentos Sul-Sul tenham maior capacidade de influenciar a CSSD. Entender em que medida isso se confirma e compreender os mecanismos dessa influência é fundamental para que outros agentes aprendam com essas experiências, qualificando-se para participar também nos rumos da CSSD.

Iniciativas voltadas para o desenvolvimento de outros países requerem engajamento de longo prazo e, quanto mais dilatada for a base de apoio à CSSD – quer dizer, quanto mais atores forem envolvidos no seu desenho, implementação e avaliação -, maior é a chance de que essas iniciativas se sustentem no longo prazo, a despeito de transformações na conjuntura econômica e política. Esse envolvimento, porém, deve se dar de forma minimamente articulada, sendo que cada ator envolvido deve ter clareza a respeito dos seus interesses próprios. Ao contrário do que nos faz crer a literatura sobre a CID em geral, que presume que motivações altruístas levarão a iniciativas mais eficazes de cooperação, acreditamos que, pelo menos em países democráticos, entender e comunicar justificativas para a utilização de fundos públicos baseadas no “interesse nacional” é fundamental para garantir a formação de constituencies de apoio ao desenvolvimento internacional.

95 Sobre a internacionalização dos ministérios brasileiros, ver França e Ratton, 2010. Sobre a pluralização dos atores engajados na diplomacia brasileira e a presidencialização da política externa brasileira, ver, por exemplo, Cason e Power, 2010. Sobre cooperação descentralizada no Brasil, ver Rodrigues et alli, 2009; Kleiman, 2004; Perpétuo, 2010.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A CSS evoluiu historicamente a partir de uma ampla gama de modalidades

em termos setoriais (técnica, econômica, política) e geométricos (bilateral, trilateral, regional, multilateral). Não obstante, os conceitos utilizados para definir a CSS ainda são vagos, ao passo que os marcos utilizados para interpretá-la pecam pelo excesso de normativismo (tratando a CSS não como ela é, mas como ela deve ser) e reducionismo (deixando de dar sentido à multiplicidade de determinantes e dinâmicas que caracterizam a CSS).

Entender as múltiplas e complexas trocas envolvidas na CSS é fundamental não apenas para descrevê-la, mas também para que possamos identificar suas lacunas e apontar caminhos possíveis para o seu aprimoramento. Em

última instância, classificar determinada relação Sul-Sul como cooperativa é uma questão empírica, que não pode ser analisada levando-se em conta apenas trocas específicas de conhecimento entre os atores envolvidos em iniciativas de cooperação técnica, as quais muitas vezes não se concretizam.

A cooperação, conforme nos mostra a teoria social, é um fenômeno complexo

que engloba recompensas de várias naturezas – materiais ou não; diretas ou

indiretas.

Diferentemente das relações entre os países industrializados, os países do Sul não possuem relações historicamente intensas entre si, a não ser nos contextos regionais, razão pela qual a capacidade interpretativa da teoria neoinstitucionalista é limitada. Embora transformações econômicas e políticas fundamentais dos anos 70 tenham aberto espaço para a intensificação dessas relações em âmbito global, elas não puderam avançar em razão da crise econômica que atingiu vários países então emergentes e dos impactos negativos do ideário neoliberal sobre a mobilização Sul-Sul.

Na última década as relações entre os países em desenvolvimento se intensificaram de forma inédita, o que não significa que elas serão marcadas por uma harmonia automática. A intensificação das relações também gera conflitos, e uma das razões para a isso, no caso da CID, é que raramente as iniciativas geram recompensas para todos os grupos de interesses contidos nos Estados envolvidos. Nisso a CSS, sem dúvida, aproxima-se de dinâmicas mais gerais das relações internacionais.

Apesar disso, acreditamos que as relações Sul-Sul possuem características próprias, sendo talvez a mais relevante delas a confiança criada por uma

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

percepção de maior horizontalidade nessas relações. No caso da cooperação técnica, por exemplo, essa confiança torna os agentes recipiendários mais dispostos a aprender com as experiências de outros países do Sul. Não obstante, sabemos que, empiricamente, essa horizontalidade nem sempre se confirma em todos os âmbitos da CSS, o que pode comprometer essa confiança no médio e longo prazos. Fundamental para mantê-la será agregar e difundir as lições aprendidas durante décadas da CID, promovendo assim uma profissionalização da cooperação oferecida pelos doadores emergentes e garantindo maior coerência entre a retórica e a prática da CSS.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

7. Referências bibliográficas

ALLISON, Graham; ZELIKOW, Philip (1999). Essence of decision: explaining the Cuban Missile Crisis. Nova York: Longman.

AMIN, Samir (1990). Delinking: towards a policentric world. Londres e Nova York: Zed Books.

AMSDEN, Alice H. (2004). A ascensão do “resto”: os desafios ao ocidente de economias com industrialização tardia. São Paulo: Editora da UNESP.

BLACK, Lloyd D. (1968). A estratégia da ajuda externa. Rio de Janeiro:

Edições O Cruzeiro.

BLAU, Peter M. (1964). Exchange and power in social life. New York, London, Sydney: John Wiley & Sons, Inc.

CAD

(2008).

Is

it

ODA?

Factsheet.

Nov.

Disponível

em:

http://www.oecd.org/dataoecd/21/21/34086975.pdf.

Acesso

em:

14

mar.

2012.

CARLSSON, Jerker (1982). The emergence of South-South relations in a changing world economy. In: Jerker Carlsson (Ed.) South-South relations in a changing world order. Uppsala: Scandinavian Institute of African Studies. pp.

10-54.

CASON, Jeffrey W.; POWER, Timothy J. (2009) Presidentialization, pluralization, and the rollback of Itamaraty: explaining change in Brazilian foreign policy making in the Cardoso-Lula Era. International Political Science Review, v.30, n.2, pp. 117-140.

CASTELLS, Manuel (1999). A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. Vol I (A era da informação: economia, sociedade e cultura).

CERVO, Amado; BUENO, Clodoaldo (1992). História da política exterior do Brasil. São Paulo: Ática.

CHIN, Gregory T.; FROLIC, Michael B. (2007). Emerging Donors in International Development Assistance: The China case. IDRC/CRDI, dez. Disponível em: http://www.idrc.ca/en/ev-140964-201-1-DO_TOPIC.html

CONSELHO DE ETADO DA CHINA (2011). China’s foreign aid. Disponível em:

http://news.xinhuanet.com/english2010/china/2011-04/21/c_13839683.htm.

Acesso em: 19 mar. 2012.

DE LA FONTAINE, Dana (2012). Neue Dynamiken in der Süd-Süd- Kooperation. Indien, Brasilien und Suedafrika als Emerging Donors. Wiesbaden, Alemanha: VS Verlag (no prelo).

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

DE LA FONTAINE, Dana; SEIFERT, Jurek (2010). The role of South-South Cooperation in present Brazilian foreign policy: actors, interests and functions.

Disponível

http://www.lai.su.se/gallery/bilagor/STCHLM_PAPERS_LatAm_2010_dana%2

0et%20al.pdf. Acesso em 19 mar. 2012.

em:

DEUTSCH, Morton (1953). The effects of cooperation and competition upon group processes. In: Dorwin Cartwright e Alvin Zander. Group Dynamics. Research and Theory. New York, Evanston, London: Harper & Row, Publishers

DOMERGUE, Maurice (1968). Technical assistance. Theory, Practice, and Policies. NY, Washington, Londres: Praeger.

DOMINGUES, José Maurício (2004). Modernidade, complexidade e articulação mixta. In: Ensaios de Sociologia. Teoria e pesquisa. Belo Horizonte: Editora UFMG. Cap. 7, pp. 165-186.

ECOSOC (2008). Trends in south-south and triangular development cooperation. Background study for the Development Cooperation Forum. Disponível em: http://www.un.org/ecosoc/docs/pdfs/South- South_cooperation.pdf

ESCOBAR, Arturo (1995). Encountering development. The making and unmaking of the Third World. New Jersey: Princeton University Press.

FAO (2000). The state of food and agriculture 2000. Roma: FAO. Disponível em: http://agrienvarchive.ca/bioenergy/download/fao_food_agric.pdf

FORDELONE, Talita Yamashiro (2009). Triangular co-operation and aid effectiveness. 24 set.

FRANÇA, Cassio Luiz; RATTON, Michelle (2010). A inserção internacional do poder executivo federal brasileiro. Análises e propostas, n.40. ago. FES.

GERRING, John (2001). Social science methodology: a criterial framework. Cambridge:

Cambridge University Press.

GOERTZ, Gary (2005). Social science concepts: a user’s guide. Princeton: Princeton University Press.

HOMANS, George Caspar (1961). Social Behavior: its elementary forms. New York, Chicago, San Francisco, Atlanta: Harcourt, Brace & World, Inc.

HERZ, Mônica; HOFFMANN, Andrea (2004). Integração Regional. In:

Organizações Internacionais: história e práticas. Rio de Janeiro: Elsevier. Cap. 5, pp. 167-222.

IPEA/ABC.

(2010)

Cooperação

brasileira

para

o

desenvolvimento

internacional:

2005-2009,

dez.

Disponível

em:

http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/Book_Cooperao_Brasileir a.pdf Acesso em: 19 mar. 2012.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

JOY-OGWU, U. La cooperación sur-sur: problemas, posibilidades y perspectivas en una relación emergente. Nueva Sociedad, n.60, mai-jun 1982, pp. 27-38.

KEOHANE, Robert O. (1984). “After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy”. Princeton: Princeton University Press.

KHARAS, Homi (2009). Development assistance in the 21 st century. VIII Salamanca Forum. The fight against hunger and poverty. 2-4 jul. Disponível em:

http://www.brookings.edu/~/media/Files/rc/papers/2009/11_development_ai

d_kharas/11_development_aid_kharas.pdf. Acesso em 16 mar. 2012.

KHARAS, Homi; MAKINO, Koji; JUNG, Woojin (Eds.) (2011). Catalyzing development. A new vision for aid. Washington: Brookings Institution Press.

KLEIMAN, Alberto (2004). As cidades e a cooperação descentralizada no contexto das relações União Europeia-América Latina: o novo papel internacional dos governos locais. Dissertação de mestrado. PROLAM/USP.

KUHNEN, Frithjof (1987). Concepts for the development of the Third World. A review of the changing thoughts between 1945 and 1985. Quarterly Journal of International Agriculture, 26/2 pp. 157-167.

LISKA, George (1960). The new statecraft: foreign aid in American foreign policy. Chicago: The University of Chicago Press.

LANCASTER, Carol (2007a). Foreign aid. Diplomacy, development, domestic politics. Chicago e Londres: The University of Chicago Press.

(2007b). The Chinese Aid System. Center for Global Development Essay. jun. Disponível em: http://www.cgdev.org/files/13953_file_Chinese_aid.pdf. Acesso em: 19 mar. 2012.

MARWELL, Gerald; SCHMITT, David R. (1975). Cooperation. An experimental analysis. New York, San Francisco, London: Academic Press.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich (1999). O manifesto comunista. São Paulo e Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.

MAY, Mark; DOOB, Leonard (1937). Cooperation and competition. Nueva York: Social Sciences Research Council.

MENON, B.P. (1980). Bridges across the South. Technical Cooperation Among Developing Countries. NY: Pergamon Policy Studies.

MILNER, Helen (1997). Interests, institutions, and information: domestic politics and international relations. Princeton: Princeton University Press.

SÁ E SILVA, Michelle Morais de (2009). South-South Cooperation: past and present conceptualization and practice. In: Lisa Chisholm e Gita Steiner-

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

Khamsi (Eds.). South-South Cooperation in Education and Development. Nova York: Teachers College Press.

MORGENTHAU, Hans (1962). A political theory of foreign aid. The American Political Science Review, v.56, n.2, jun., pp. 301-309.

NISBET, Robert A. (1968). Cooperation. In: David L. Sills (Ed.). International encyclopedia of the social sciences. New York: MacMillan. pp. 384-390.

OHIORHENUA, John F.E.; RATH, Amitav. The history and urgency of south- south cooperation in science and technology. Cooperation South, 2000

PANIZZA, Francisco (2006). La marea rosa. Análise de Conjuntura OPSA, n.8,

ago.

http://www.opsa.com.br/images/pdf/analise/21_analises_La_marea_rosa.pdf.

Acesso em 6 mar. 2012.

em:

Disponível

PERPÉTUO, Rodrigo de Oliveira (2010). A cidade além da nação: a institucionalização do processo de internacionalização de Belo Horizonte. Dissertação de mestrado. PPGRI/PUC-Minas.

PNUD (2004). Forging a Global South. United Nations Day for South-South

Cooperation.

em:

http://tcdc.undp.org/doc/Forging%20a%20Global%20South.pdf

19

dez.

Disponível

PUTNAM, Robert D. (1988). “Diplomacy and domestic politics: the logic of two-level games. International Organization, 42, pp, 427-460.

in

international development In: J. Sörensen (Ed.). Challenging the aid paradigm: western currents and Asian alternatives. Hampshire, UK. cap. 3.

PUPAVAC,

Vanessa

(2010).

From

materialism

to

non-materialism

RIDELL,

University Press.

Roger

(2007).

Does

foreign

aid

really

work?

Oxford:

Oxford

RODRIGUES, Gilberto; XAVIER, Marco; ROMÃO, Wagner (orgs.) (2009). Cidades em relações internacionais: análises e experiências brasileiras. São Paulo: Desatino.

ROWLANDS, Dane (2008). Emerging donors in International Development Assistance. A Synthesis Report. IDCR, jan. Disponível em:

http://idrc.ca/EN/Resources/Publications/Pages/ArticleDetails.aspx?Publicatio nID=116. Acesso em: 19 mar. 2012.

RUTTAN, Vernon (1996). United State development assistance policy: the domestic politics of foreign economic aid. Baltimore: Johs Hopkins University Press.

SANTOS, Boaventura de Sousa (2000). A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez.

Observador On-line | v.7, n. 03 | mar. 2012

SAGASTI, Francisco R.; ALCALDE, Gonzalo (1999). Development Cooperation

in a Fractured Global Order. Ottawa, Canada: International Development

Research Center

SAKSENA, K. P. International framework and south-south cooperation:

constraints and opportunities. International Studies, 22, 1985

SEGIB (2008). II Informe de la Cooperación Sur-Sur en Iberoamérica. Madri:

Segib, out.

SILVA, Kelly Cristiane da (2008). A cooperação internacional como dádiva:

algumas aproximações. Mana, n.14, v.1, pp. 141-171.

SULLIVAN, Brandon A.; SNYDER, Mark; SULLIVAN, Jonh L. (2008). The centrality of cooperation in the functioning of individuals and groups. In:

(Eds.) Cooperation. The political psychology of effective human interaction. Malden, US, Oxford, Victoria, Australia: Blackwell Publishing Ltd. Cap. 1.

WALLERSTEIN, Immanuel (2004). World-system analysis: an introduction.

Durham: Duke University Press.

WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics. New York: McGraw-Hill, Inc., 1976.

WENDT, Alexander (1999). Social theory of international politics. Cambridge:

Cambridge University Press.

WEISS, Thomas G; Forsythe, David P.; COATE Roger A. (2010) The United Nations And Changing World Politics.