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DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO Av. Liberdade, nº 32 – 6 º andar –

DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Av. Liberdade, nº 32 – 6 º andar – São Paulo - SP Regional Sul- Unidade Jabaquara

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 5ª. VARA CIVEL DO FORO REGIONAL DO JABAQUARA - SP

Processo nº 003.10.006513-1

JOSÉ CARDOSO DA ROCHA, devidamente qualificado nos autos do processo em referência, vem, pela DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO, mediante seu órgão de execução que esta subscreve à presença de Vossa Excelência, apresentar sua RÉPLICA, nos seguintes termos:

Apresentou o Banco Réu sua Contestação, alegando em apertada síntese, preliminarmente, a ilegitimidade passiva e a falta de interesse processual, requerendo a extinção do processo sem resolução do mérito, assim como a inaplicabilidade do CDC ao presente caso. No mérito que teria ocorrido a prescrição das cobranças citadas na inicial e prestações acessórias aos saldos das cadernetas de poupança, que o crédito teria sido efetuado em conformidade com a legislação vigente, bem como não houve qualquer violação ao instituto do direito adquirido.

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Tais alegações são totalmente infundadas e não merecem prosperar como a seguir exposto:

Os extratos juntados pelo autor foram fornecidos pelo próprio Banco – (0349), HSBC BANK BRASIL S/A, SUCESSOR DO HSBC BAMERINDUS S/A. Assim, não impugnados especificamente referidos extratos, não há como negar sua existência e respectivos registros.

Ademais,

ainda que não seja aplicado

o CDC,

o

que admite apenas para argumentar, os extratos fornecidos pelo réu, comprovam que o mesmo deixou de creditar e não pagou corretamente os índices de correção monetária.

Como é de conhecimento comum, o Banco Bamerindus foi incorporado pelo HSBC e, dessa forma, responde pelos depósitos em questão. Tanto, que a incorporação estabelece a aquisição não somente de direitos e ativos, mas também de obrigações e passivos.

Assim, eventuais alterações na política econômica, decorrentes de planos governamentais, não afastam, por si, a legitimidade das partes envolvidas em contratos de direito privado, inclusive as instituições financeiras, que atuam como agentes captadores em torno de cadernetas de poupança.

declinadas.

Requer,

pois,

sejam

afastadas

as

preliminares

A ausência de reclamação importa em quitação apenas da remuneração calculada pelo índice aplicado pelo réu, vale dizer, apenas em relação às quantias incontroversas, cabendo registrar que as

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normas que regulam o sistema financeiro, no qual se inclui as regras atinentes à poupança, são de ordem pública, daí decorrendo o direito do autor à percepção de eventual diferença não paga.

A ação reúne todas as condições para que seja julgada procedente, tanto pelos índices quanto pela data de aniversário, não se cogitando carência de ação e impossibilidade jurídica do pedido.

Creditado reajuste a menor, mesmo mediante cumprimento das determinações emanadas do Banco Central, não exime a instituição financeira do adimplemento das obrigações assumidas e, dessa forma, assiste ao poupador, ao menos em tese, o direito de obter a diferença.

Deve,

ainda,

ser

afastada

a

preliminar

de

prescrição da ação, pois conforme reiterada jurisprudência do STJ, o prazo prescricional a ser aplicado in casu é o de vinte anos, previsto no artigo 177 do CC de 1.916. Também não há que se falar em aplicação do artigo 206, parágrafo 3º, III, do Novo CC, pois diante do previsto no artigo 2.028, primeira parte, do mesmo Codex, aplica-se ao caso o prazo prescricional do CC de 1.916.

Mister consignar, ainda, que não ocorreu a prescrição dos juros remuneratórios, diante da relação de depositante e

depositário entre as partes, pois em conformidade com o art. 168 do Código

Civil de 1916, não corre a prescrição “

em favor do credor pignoratício, do

... mandatário, e, em geral, das pessoas que lhes são equiparadas, contra o depositante, o devedor, o mandante e as pessoas representadas, ou seus herdeiros, quanto ao direito e obrigações relativas aos bens confiados à sua guarda”.

Pereira,

Consoante

a

doutrina

de

Caio

Mário

da

Silva

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“Por uma inspiração moral análoga, não correrá a prescrição entre pessoas que estejam ligadas por uma relação jurídica originária da confiança ou que conservem bens da outra em seu poder ou sob sua guarda. Daí não fluir a prescrição em favor do credor pignoratício contra o devedor, quanto à coisa apenhada; em favor do depositário contra o depositante, do mandatário contra o mandante, do administrador de bens alheios contra os seus proprietários”.

Neste sentido:

Primeiro

Tribunal

de

Alçada

Civil

-

1ºTACivSP.

CADERNETA DE POUPANÇA - Prazo prescricional. Não há falar-se em prescrição. Como já decidiu esta Colenda Câmara, em acórdão relatado pelo eminente Juiz Matheus Fontes, apoiado em farta doutrina, a caderneta de poupança constitui modalidade de depósito bancário. Sua natureza impede o decurso do prazo prescricional contra o depositante, nos termos do disposto nos artigos 450, 1ª parte, do Código Comercial e 168, IV, do CCB (cf. Ap. 619.343-1/SP). (1º TACivSP - Ap. Cív. nº 650.808-3 - São Paulo - Rel. Juiz Roberto Bedaque - J. 08.02.96).

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E, para a quitação da obrigação, os juros devem ser capitalizados, pois assim seriam creditados se aplicado o índice corretamente à época, na forma da Lei, sendo devidos até a total quitação, assim como a partir da citação incidem a correção monetária e juros da mora de 1% ao mês.

Plano Collor I

Em

relação

ao denominado "Plano Collor I",

decorrente da Lei Federal nº 8.024/90, a jurisprudência já se consolidou no

sentido de que as cadernetas de poupança

sejam corrigidas

monetariamente conforme os seguintes percentuais: 84,32% em março, 44,80% em abril, 7,87% em maio e 12,92% em junho de 1990.

Plano Collor II

Em

relação

ao

denominado

"Plano

Collor

II",

decorrente da Lei Federal nº 8.177/91, a jurisprudência já se consolidou no

sentido de que as cadernetas de poupança

sejam corrigidas

monetariamente em fevereiro de 1991 com o percentual de 21,87%.

Neste sentido, Inúmeros os julgados precedente do E. Superior Tribunal, dentre os quais citamos:

"PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL. REAJUSTE. CADERNETA DE POUPANÇA. IPC'S DE 42,728% (JANEIRO/1989) E 84,32% (MARÇO/1990). LEGITIMIDADE PASSIVA "AD CAUSAM". DIREITO ADQUIRIDO ÀS CONTAS COM DATA BASE (DIA DE "ANIVERSÁRIO") ANTERIOR AO DIA 15 DE JANEIRO DE 1989. ILEGITIMIDADE P ARA OS CRUZADOS NOVOS

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RETIDOS PELO BACEN. MEDIDA PROVISÓRIA Nº 168/90 E LEI Nº

8.024/90. (

...

).

4. Ao entrar em vigor a Lei nº 7.730/89, no dia 15, alterando a sistemática do cálculo da correção monetária para as

cadernetas de poupança,

somente a partir

deste dia

é

que

começou a viger o marco inicial à pré-falada alteração.

5. Direito adquirido perfeito e concretizado, pelo que não há que se falar em retroatividade da lei nova, com aplicação do índice de 42,72%, referente à diferença entre 70,28% e 28,79%, apurado a título de IPC, no mês de janeiro/89, às cadernetas de poupança com data base (dia de "aniversário") anterior ao dia 15/01/89.

(

...

)".

(STJ, Primeira Turma, AGA nº 412904/RJ, rel. Min. JOSÉ

DELGADO, v.u., DJ de 04/03/2002, p. 226 ou 229 – negrito não original). No caso concreto, as contas de poupança apresentadas possuem "aniversário" antes do dia 15 do mês (ou seja, nos dias 01, 02 e 09 de cada mês), e restou incontroverso que às mesmas foi creditada, no período ora questionado, a correção monetária pelo índice de 22,3589% — restando, portanto, a diferença de 20,36%, ora pleiteada, para alcançar os citados 42,72%.

EMENTA: Ação de cobrança. Direito econômico.

Caderneta de

poupança. Preliminares, de

ilegitimidade

passiva

da

entidade

bancária

e

nulidade do julgamento extra petita, afastadas. Sentença que, todavia, decidiu além do pedido do autor. Prestação jurisdicional limitada aos

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parâmetros do pedido. Correção monetária devida

sobre os saldos de poupança

de acordo com os

índices

do

IPC

nos

seguintes

períodos

e

percentuais: meses

de março

e

abril de

1990

-

84,32% e 44,80%, respectivamente (Plano Collor

I); mês de fevereiro de 1991 - 21,87% (Plano Collor

II).

Recurso

parcialmente provido.

(Acórdão:Apelação

cível

2006.002369-7

Relator:

Des. Nelson Schaefer Martins. Data da Decisão:

29/06/2006).

EMENTA: Ação de cobrança. Direito econômico. Caderneta de poupança. Teses de ilegitimidade passiva da entidade bancária e prescrição da cobrança de juros remuneratórios sobre os expurgos inflacionários inacolhidas. Código Civil de 1916, arts. 177 e 178, § 10, inc. III. Código Civil de 2002, art. 2.035. Direito adquirido. Correção monetária devida sobre os saldos das contas poupança da autora de acordo com os índices do IPC nos seguintes percentuais: mês de junho de 1987 - 26,06% (Plano Bresser); mês de janeiro de 1989 - 42,72% (Plano Verão); mês de abril de 1990 - 44,80% (Plano Collor I); mês de fevereiro de 1991 - 21,87% (Plano Collor II). Afastamento apenas do índice pleiteado com relação ao Plano Verão para a poupança n. 1.854.215-8 com data de aniversário posterior à primeira quinzena de janeiro de 1989. Lei n. 7.730/1989. Ônus da sucumbência. Condenação do banco. Autora que decaiu de parte mínima do pedido. Manutenção dos honorários advocatícios definidos na sentença em 15% sobre o valor da condenação. Código de Processo Civil, art. 20, § 3º e 21, parágrafo único. Recurso parcialmente provido. (Acórdão:

Apelação cível 2003.017882-1Relator: Des. Nelson Schaefer Martins. Data da Decisão: 15/02/2007).

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EMENTA: CIVIL E PROCESSO CIVIL - AÇÃO DE COBRANÇA – CADERNETA DE POUPANÇA - CORREÇÃO MONETÁRIA - DIFERENÇAS - PLANOS ECONÔMICOS - ILEGITIMIDADE PASSIVA - PRELIMINAR REJEITADA - EXPURGOS INFLACIONÁRIOS - PRESCRIÇÃO VINTENÁRIA - CORREÇÃO MONETÁRIA - ÍNDICE QUE MELHOR REFLITA A DESVALORIZAÇÃO DA MOEDA - PRIMEIRO RECURSO NÃO- PROVIDO - SEGUNDO RECURSO PROVIDO. Se o prejuízo resultou do 'Plano Bresser', 'Plano Verão' e 'Plano Collor', as diferenças de correção monetária não creditadas em caderneta de poupança podem ser diretamente reclamadas das instituições financeiras, na medida em que foi mantido o contrato, ocorrendo apenas alteração do indexador. Ao considerarmos que nas ações de cobrança de expurgos inflacionários em caderneta de poupança o pedido de incidência de determinado índice de correção monetária constitui-se no próprio crédito, constatamos que a questão deve ser analisada à luz da regra geral prescricional insculpida no art. 177 do Código Civil de 1916, que estabelece o prazo de vinte anos para as ações obrigacionais ou pessoais. Tratando-se de índices de correção monetária, tenho que devem ser aplicados aqueles que melhor reflitam a desvalorização da moeda, considerando que a correção monetária não constitui um 'plus', mas tão somente a preservação do valor aquisitivo do capital. É público e notório que os diversos planos econômicos, entre eles os planos Bresser, Verão, Collor I e II trouxeram índices de correção monetária que ignoravam a real inflação ocorrida na ocasião, criando fatores incompatíveis com a verdadeira desvalorização do poder de compra da moeda. Daí a origem dos expurgos inflacionários, eis que, quando da correção monetária da caderneta de poupança foram aplicados índices bastante

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aquém dos efetivamente verificados

no

período.

APELAÇÃO CÍVEL N° 1.0145.07.425697-8/001 - COMARCA DE JUIZ DE FORA - 1º APELANTE(S): BANCO BRADESCO S/A - 2º APELANTE(S): PAULO AUGUSTO DE MELLO - APELADO(A)(S): BANCO BRADESCO S/A, PAULO

AUGUSTO DE MELLO - RELATOR: EXMO. SR. DES. SEBASTIÃO PEREIRA DE SOUZA.

Ademais, combatendo-se a ilustração apresentada pelo réu, colaciona-se o esquema síntese sobre o tema publicado pelo Jornal Folha de São Paulo 1 , com evidente credibilidade, denotando-se clara responsabilidade dos Bancos:

1 <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/7888833-stj-diz-que-bancos-devem-pagar-correcao-das-poupancas-em-acoes- antigas.shtml> consultado em 28-08-2010- 18:45

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Dessa forma, espera a PROCEDENCIA do pedido para condenar o banco réu a pagar ao autor as diferenças pelos expurgos dos Planos Collor I e II, corrigindo-se, a partir de então, o valor devido desde quando deveriam ter sido creditados, acrescendo-se os juros remuneratórios de 0,5% ao mês até a efetiva

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quitação da obrigação, os quais devem ser capitalizados, pois assim seriam creditados se aplicado o índice corretamente à época, na forma da Lei, e juros da mora de 1% ao mês, além custas processuais e dos honorários advocatícios de 20% do valor da condenação.

São Paulo, 1 de junho de 2015

HORÁCIO XAVIER FRANCO NETO

4.º Defensor Público do Jabaquara