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Universidade de São Paulo

Projeto

E-Lixo

Integrantes do Grupo
Bruno Croci de Oliveira – SI
Fernando Renato - SI
Fernando Akio - LZT
Francisco Hériton - SI
Guilherme Augusto – SI
João Paulo – SI

Orientadora
Ana Maria Klein

1
Resumo:

Este estudo parte da temática proposta de sustentabilidade, tendo como objeto de


estudo o lixo eletrônico (e-lixo). E-lixo é o resíduo decorrente do descarte de
produtos elétricos e eletrônicos que se tornaram obsoletos, sendo os principais,
dentre estes, os computadores e celulares. A obsolescência é causada por fatores
relacionados à usabilidade do produto, à economia e ao avanço tecnológico, e o
problema do e-lixo, fruto disso, é recente e pouco abordado em relação à sua
gravidade. Partindo-se de que este provém do avanço tecnológico, investigamos
como um lado da tecnologia enfrenta o problema gerado pelo outro lado desta
mesma. A metodologia utilizada para tanto foi pesquisa em artigos científicos e
coleta de dados governamentais, de empresas e de organizações não-
governamentais. Dentre os principais dados encontrados, destacamos o de que o
e-lixo é o tipo de lixo que mais cresce atualmente (4% ao ano), mas que cerca de
94% dos componentes de computadores é recuperável.

Palavras-chave:

E-lixo, sustentabilidade, obsolescência, tecnologia

2
Sumário
Introdução.................................................................................................................4
Parte I – Apresentando o Problema
1 Sustentabilidade……………………………………………………….........................6
2 Obsolescência………………………………………………………............................7
3 E-lixo………………………………………………………..........................................9
4 Problemas ambientais………………………………………………………..............10

Parte II – Dados e conclusões


5 Os fatores que geram o E-lixo………………………………………………….…….11
5.1 Obsolescência programada………………………………………………...……11
5.2 Obsolescência percebida…………………………………………………..…….14
5.3 Destino do produto……………………………………………………….............15
6 Problemas ambientais causados pelo E-lixo……………………………….………17
6.1 Contaminação atmosférica………………………………………………………17
6.2 Contaminação do solo………………………………………………….....……..17
6.3 Contaminação da água………………………………………………....………..18
6.4 Doenças causadas por elementos presentes no e-lixo……………....………18
6.4.1 Elemento específico: chumbo……………………………….........………19
6.4.2 Elemento específico: cádmio…………………………………..........……19
6.4.3 Elemento específico: mercúrio………………………….....…………….20*
6.4.4 PVC (Policloroeteno) …………………………...................……..………20
7 Medidas que lidam com os problemas ambientais gerados pelo E-lixo............21*
7.1 Iniciativas na economia………………………………………...........................21
7.1.1 Redução do uso de materiais tóxicos e o Take Back……………......…21
7.1.2 Guia de eletrônicos verdes………………………………............………23*
7.1.3 Upgrade………………………………………..........................................23
7.2 Iniciativas na sociedade………………………………………..........................24
7.2.1 Inclusão digital………………………………………................................24
7.2.2 A exportação do lixo eletrônico……………………………......…………25
7.2.3 Convenção de Basiléia…………………………………........……...........26

3
8 Novas tecnologias que lidam com os problemas ambientais gerados pelo E-
lixo………………………………………....................................................................27

8.1 Software Livre……………………………..................................…………...........28

8.2 Projeto StEP…………………………….........................................………......…29

8.3 Design For the Environment – DFE………………………………………............30

8.4 Reciclagem do lixo eletrônico……………………………………….....................31

Conclusão...............................................................................................................33
Anexo A..................................................................................................................35
Anexo B..................................................................................................................37
Anexo C..................................................................................................................38
Anexo D..................................................................................................................39
Bibliografia..............................................................................................................40

Sumário de imagens
Figura 1 - 5 Desktop CPUs compared....................................................................13
Figura 2 - VGN-P530A............................................................................................15
Figura 3 - US$1 000 de compras em informática...................................................16
Figura 4 - EcoBook.................................................................................................22
Figura 5 - Guide to greener electronics Greenpeace.............................................23
Figura 6 - Rotas do lixo eletrônico..........................................................................26

4
Introdução

O presente projeto se insere dentro da temática da sustentabilidade e teve origem


durante a aula de Resolução de Problemas da turma 64. Este grupo é composto
por alunos dos cursos de Sistemas de Informação e Lazer e Turismo.

A tecnologia vem interferindo em diversos aspectos ambientais, favoráveis ou


desfavoráveis, gerando conceitos de que esta vai de acordo ou contra os
princípios da sustentabilidade.

Nesse contexto, o desenvolvimento tecnológico tem nos sido benéfico como


nunca fora antes, por exemplo, trazendo mais velocidade e facilidade no fluxo de
informações e técnicas que buscam minimizar os problemas no meio-ambiente,
como a reciclagem.

Em contrapartida, a atual dinâmica da produção do mercado de eletrônicos e o


crescente consumismo estimulam a insustentabilidade do ponto de vista
ambiental, isto equivale a dizer que estamos produzindo e consumindo de forma
exacerbada, sem que haja o compromisso com o retorno dos materiais ao meio
ambiente. Eis então a grande motivação deste relatório: Como a tecnologia pode
enfrentar os problemas ambientais decorrentes do E-lixo?

Através da coleta e análise de dados quantitativos e qualitativos obtidos em


empresas, ONGs, relatórios governamentais e trabalhos científicos, sobre os
fatores que geram o e-lixo, os impactos que este causa e os processos que têm
como objetivo reduzir seus danos no meio ambiente, sustentamos o presente
trabalho. Estes fatores que podem passar despercebidos pela sociedade.

Entre os resultados obtidos está que a obsolescência é o único fator gerador de e-


lixo tendo em vista que todo produto ao ser substituído ou descartado torna-se
obsoleto, pois perde sua função.

5
Também ficam aparentes os problemas ambientais gerados pelo descarte
indevido do e-lixo, como a contaminação do meio ambiente e varias doenças
geradas pela absorção de metais pesados como chumbo, cádmío e mercúrio e a
absorção de dioxinas provenientes de plásticos, muito utilizados nos produtos
eletrônicos.

A pesquisa também apresenta formas de reduzir o e-lixo, como o Take Back e o


upgrade. Apresenta também uma preocupação crescente da sociedade com
produtos “verdes”, pois, para tanto, muitas empresas vem adequando seus
produtos de diversas formas, reciclando ou adotando políticas ambientais para
demonstrar ao consumidor sua preocupação com o meio ambiente e alavancar
suas vendas.

6
Parte I – Apresentando o problema

1. Sustentabilidade

Inicialmente é preciso saber o que é, de fato, sustentabilidade e de que forma esta


se relaciona com o E-lixo. Segundo o Relatório de Brundtland (1987), pode-se
definir sustentabilidade como: “Suprir a necessidade da geração presente sem
afetar a habilidade das gerações futuras em suprir as suas.” Sendo este um
conceito sistêmico e importante em todas as áreas da atividade humana,
consideramos relevante a reflexão sobre fatores que dificultam o desenvolvimento
de uma sociedade sustentável.

Ao dizer que a sustentabilidade é um conceito sistêmico, dizemos que esta possui


várias vertentes e campos específicos que são interrelacionados, Assad e Almeida
(2002:64) explicitam isso quando dizem que:

“há uma inequívoca sinalização, para políticos, empresários,


profissionais, ativistas e para a população em geral, de que só
haverá desenvolvimentos sólidos, permanentes e sustentáveis se
os três pilares puderem ser articulados, tornando-se
interdependentes. Superar a velha tradição do trabalho isolado,
por segmentos, certamente não é tarefa das mais fáceis. Afinal,
enquanto proliferam especialistas em meio ambiente formando um
campo próprio de interesses, ecologistas de variados matizes
esforçaram-se por criar uma não muito nítida onda verde de
proteção, economistas continuaram ditando as cartas na política
como se tudo dependesse do PIB e da taxa de inflação e
defensores do ‘social’ permaneceram restritos a suas
especialidades (saúde, educação, nutrição, previdência, etc.).
Avançamos bastante nas áreas específicas, mas pouco fizemos
para que elas se tornassem mais solidárias. É freqüente ver os
especialistas acusando-se mutuamente, quando deveriam

7
concentrar seus esforços no encontro e no estímulo de ponto que
possam levar a um relacionamento crescente”.

Sachs (1993) define alguns tópicos de sustentabilidade: (1) a sustentabilidade


social como o processo de desenvolvimento devendo-se dar de tal maneira que
reduza substancialmente as diferenças sociais; (2) a sustentabilidade econômica
como a eficiência econômica baseando-se em uma A"alocação e gestão mais
eficientes dos recursos e por um fluxo regular do investimento público e privado"; e
(3) a sustentabilidade ecológica como a que compreende a intensificação do uso
dos potenciais inerentes aos variados ecossistemas, compatível com sua mínima
deterioração, permitindo que a natureza encontre novos equilíbrios, através de
processos de utilização que obedeçam a seu ciclo temporal e implica também em
preservar as fontes de recursos energéticos e naturais.

Assim, o problema de insustentabilidade do e-lixo perceber-se-á quando for


analisado o destino que este toma, contudo, a origem deste material está na
obsolescência dos aparelhos elétricos e eletrônicos. Baudrillard (1981) faz uma
boa alusão à idéia de obsolescência que será aqui abordada:

"vivemos o tempo dos objetos: quero dizer que existimos segundo


o seu ritmo e em conformidade com a sua sucessão permanente.
Atualmente somos nós que os vemos nascer, produzir-se e
morrer, ao passo que em todas as outras civilizações anteriores
eram os objetos, instrumentos ou monumentos perenes, que
sobreviviam às gerações humanas”

2. Obsolescência

A obsolescência de um produto pode se dar por um ou mais entre diversos


fatores, por isso, aqui divide-se obsolescência em dois conceitos: obsolescência
programada (ou planejada) e obsolescência percebida.

8
Obsolescência programada é definida por Bulow (1976) como a produção de bens
antieconômicos, com curto tempo de uso, assim os consumidores tendendo a
substituir os equipamentos por outros mais modernos*. Para Ripol (2003),
“obsolescência programada tem como consequência evitar a saturação do
mercado”, ou seja, a produção e consumo de bens com inovações tecnológicas
impedem a saturação do mercado na medida em que fazem o consumidor
comprar um novo produto, tornando o antigo obsoleto ainda que funcione.

Na obsolescência percebida, o que é valorizado é a sensação do novo ou de


melhor design. Sennett (2006, apud Andrade e Nicolaci-da-Costa, 2008, p.22)
afirma:

“a sociedade contemporânea apresenta como característica


principal o desapego às coisas. É em função da valorização do
desapego que surgem os movimentos de descartabilidade dos
produtos e o curto prazo de durabilidade dos mesmos. Isso quer
dizer que essa caracterização da sociedade atual considera
elevada a importância que as novidades têm para os
consumidores modernos. O conceito de valorização do novo
implica automaticamente na desvalorização do antigo. A nossa
cultura de hoje incentiva a supervalorização do produto novo.
Consequentemente, o produto anterior, mesmo que ainda
desempenhe suas funções, perde seu espaço, é excluído. Um
bom consumidor atualmente precisa se guiar por esses valores e
mais alguns outros".

Baixa durabilidade dos produtos e a infuncionalidade destes pela quebra também


são partes dos fatores de obsolescências que geram o problema do E-lixo.
Sennett (Ibid., p.23), pela obsolescência programada, percebe que as coisas são
feitas para não durar e, “consequentemente, quando as coisas não duram, as
pessoas são forçadas a comprar coisas novas".

9
3. E-lixo

O E-lixo (lixo eletrônico, do inglês e-waste, ou Waste Electrical and Electronic


Equipment - WEEE) é definido pela Comunidade Européia (2003) como
“equipamento elétrico ou eletrônico que foi abandonado, incluindo todos os seus
componentes e peças de montagem que foram partes do produto quando foi
descartado” e por Wonga et al. (2006) como “fim da vida de produtos eletrônicos
incluindo computadores, impressoras, máquinas de fotocópia, televisores,
celulares, e brinquedos, que são feitos de misturas sofisticadas de plásticos,
metais, entre outros materiais”. Computadores e celulares são os principais
produtos que fazem parte do E-lixo e, por estas definições, é possível notar que
este conjunto abrange tanto diferentes tipos de produtos eletrônicos quanto os
componentes que os formam.

Segundo Puckett et al. (2002) o fato de a indústria de eletrônicos ser a maior e a


de mais rápido crescimento e a combinação disto com a rápida obsolescência do
produto produzido, faz do E-lixo o fluxo de lixo de mais rápido crescimento no
mundo industrializado*, 4% ao ano (UNEP, 2005).

Pode-se traçar uma trajetória básica do momento em que os produtos são


adquiridos até o momento em que são descartados definitivamente. O início da
trajetória se dá com a aquisição do produto, sucedida pela sua utilização e
finalizada no momento em que, por algum motivo tenha se tornado obsoleto (por
algum dos fatores de obsolescência anteriormente definidos); o produto é
estocado pelo dono até que se tenha um destino, sendo os principais a
recomercialização (revenda, troca), a doação ou diretamente o descarte ao lixo; os
dois passos anteriores são repetidos até que o produto seja definitivamente
descartado e não seja mais utilizado para sua função original. Chegando-se ao
último descarte, é gerado o E-lixo, contudo, esta trajetória citada pode e toma
*tradução própria.

1
proporções mundiais. Há, inclusive, uma trajetória pós-descarte, em que alguns
países desenvolvidos “exportam” seu E-lixo para países em desenvolvimento e
subdesenvolvidos (Puckett et al., 2002).

4. Problemas ambientais

Equipamentos eletrônicos contêm muitas substâncias que são tóxicas. Ao serem


depositadas na natureza, estas substâncias entram na cadeia alimentar pela base
e seguem por ela toda, atingindo várias espécies de animais, inclusive o ser
humano. Desta maneira, os consumidores finais são os que acabam ingerindo a
maior quantidade da substância e os que mais sofrem com as consequências,
estando entre elas doenças graves, como o câncer.

Em uma placa de circuito impresso, componente mais comum em equipamentos


eletrônicos, por exemplo, são encontradas várias substâncias tóxicas, estando
entre elas chumbo, mercúrio e cádmio. Estima-se que, a cada placa degradada,
sejam gerados cerca de 22 mg/litro de cádmio e 133 mg/litro de chumbo, enquanto
que o homem pode suportar até 0,5 mg/litro e 5 mg/litro respectivamente destes
elementos, que provocam danos ao sistema nervoso, cérebro e rins.

Outros elementos, como arsênio e berílio, encontrados em celulares, podem


causar câncer de pulmão. BRTs (retardantes de chamas), que são utilizados para
evitar incêndio, são encontrados em vários dispositivos eletrônicos. BRTs no
organismo podem causar uma série de problemas hormonais, no sistema nervoso
e reprodutivo.

O depósito de E-lixo não deve ser feito em aterros, pois os elementos tóxicos
contidos nele difundem-se no solo com o tempo, o que afeta o ambiente nos
arredores, e, conseqüentemente, atinge também lençóis freáticos, contaminando a
água. Também não deve ser queimado, pois sua queima libera o chumbo,

1
mercúrio e cádmio na atmosfera, entre outras substâncias cancerígenas que
podem se espalhar por todo o ar.

Parte II – Dados e conclusões

5. Os fatores que geram o E-lixo

5.1 Obsolescência programada

Existem pelo menos dois pontos de ação da obsolescência programada já


definidos neste trabalho, sendo o primeiro o lançamento de um grande numero de
produtos, cada um ligeiramente mais avançado (tecnologicamente ou
funcionalmente) que o anterior, ainda que haja tecnologia mais avançada
disponível, e o segundo que estes produtos possuem tempo limitado de uso, ou
seja, tornam-se obsoletos técnicos.

1
Em ambos os pontos, pode-se perceber que são produtos para estimular o
consumo, havendo a necessidade e, ou a possibilidade de serem trocados por
novos. Assim sendo, a obsolescência programada tem influência, principalmente,
nos investimentos, pois com o fracionamento da tecnologia já descoberta, uma
empresa pode lançar vários produtos, cada um com um pequeno avanço
tecnológico em relação ao anterior, apenas com o investimento já feito
anteriormente em pesquisa, sendo que, sem esse recurso da obsolescência
programada, geraria um único produto usando de toda a tecnologia disponível
(Figura 1).

Ainda por esse recurso da obsolescência, o produtor pode continuar a desenvolver


tecnologia, lançando gradualmente seus produtos com novidades tecnológicas e,
assim sendo, a tecnologia alcançada disponível vai estar sempre além daquela
que se tinha anteriormente e a do produto irá conter uma fração daquela que está
disponível.

Tem-se aqui então um grande causador do problema do E-lixo, pois uma vez que
o produto é substituído, ou tem de ser obrigatoriamente porque tenha se tornado
obsoleto (neste caso, trata-se de obsolescência planejada) faz com que esse
processo seja mais freqüente do que precisaria ser, estimulando o consumismo,
ou a necessidade da troca, tendo-se aqui um exemplo de conflito entre a
economia e o meio-ambiente, no que se refere à sustentabilidade (pelas
definições desta).

1
Figura 1. Comparação entre cinco Computadores. Aqui é possível notar cinco
processadores diferentes lançados pela AMD (Advanced Micro Devices) baseados no
núcleo de codinome “Deneb”, apesar de todos serem gravados em um mesmo processo
litográfico e inicialmente serem iguais para atender a um mercado maior alguns são
travados gerando processadores menos eficientes. No caso dos Phenon II X3 é reduzido
um núcleo do processador diminuindo sua capacidade de processamentos paralelos.
Entre os modelos 910 e 710 foi efetuado uma redução de clock do processador para que

1
realizasse menos processamentos por segundo que os modelos 920 e 720
respectivamente. O processador 810 sofreu uma redução da memória cache, forçando
uma maior dependência da memória RAM o que diminui sua eficiência em relação ao
processador 820 que tem a memória cache completa.

5.2 Obsolescência percebida

Essa técnica de obsolescência tem como foco o forte consumismo gerado na


sociedade pela sensação do novo, ou da moda, pois em um meio social onde a
aparência possui um peso elevado (status) a obsolescência percebida fica mais
forte a medida que as empresas buscam uma ‘releitura’ do produto para que
pareça melhor que o anterior.

A obsolescência percebida, porém, complementa a função da obsolescência


programada em evitar a saturação do mercado, pois não está relacionada
diretamente com os avanços tecnológicos, podendo ser executada por produtores
para lançar novos produtos mesmo que não haja alguma melhoria técnica a ser
feita na nova geração (Figura 2), sendo a diferença entre o antecessor e o
sucessor a aparência.

Através dessas definições das obsolescências, é possível perceber porque


computadores e celulares são tão expressivos na composição do E-lixo, pois
ambos inserem-se perfeitamente nesses contextos apresentados.

1
Figura 2. Em um caso mais extremo onde a estética é posta em primeiro plano em
detrimento a tecnologia, pode-se haver um retrocesso no grau tecnológico de um
aparelho em relação a geração anterior causado pela necessidade de certos
elementos de uma geração mais antiga para fins estéticos. Um exemplo é este
notebook, o Sony Vaio VGN-P530A onde para reduzir o tamanho, foi utilizado um
“Stick Pointer” uma tecnologia mais antiga em reação ao sensor eletrostático para
substituir o mouse.

5.3 Destino do produto

Uma vez que o produto torna-se obsoleto, passa a tomar algum destino. De
acordo com Puckett et al. (2002) existem muitos computadores estocados nas
casas de pessoas. Sabe-se também que a renegociação do produto ou mesmo a
doação são práticas bastante comuns, inclusive fazendo parte da sustentabilidade

1
social, pelo fato de quando há um produto novo, o antigo torna-se mais acessível
para outrem (Figura 3).

Figura 3. Quanto de processamento (cálculos por segundo), é possível comprar


com U$S 1.000.

O problema realmente aflora quando o produto é descartado e deixa de exercer


sua função, gerando o E-lixo. Ainda que este possa ser reciclado ou de alguma
forma reutilizado, o destino mais comum são aterros sanitários e incineradores.

No entanto, o trajeto do material chega a ir além dos aterros sanitários e


incineradores de seu local de origem. Segundo a UNEP (2005) “Entre 50–80% do
E-lixo coletado para reciclagem em países industrializados terminam em centros
de reciclagem na China, Índia, Paquistão, Vietnã e Filipinas”.* O tratamento
nesses destinos nem sempre é adequado, tendo-se aqui então um conflito entre a
sustentabilidade ambiental e a sustentabilidade social, pois até perceber-se que
isso era danoso, a exportação de materiais era considerada uma “doação” a esses
países, levando a eles a tecnologia dos países desenvolvidos (ver tópico 3.2.2).

1
6. Problemas ambientais causados pelo E-lixo

6.1 Contaminação atmosférica

A contaminação atmosférica é causada principalmente pela queima do e-lixo, seja


por desconhecimento de seu perigo ou por uma forma incompleta de reciclagem,
onde placas, cabos e circuitos são queimados para obtenção dos metais que os
compõe.

Este processo, também denominado incineração, resulta na liberação de


compostos nocivos aos seres vivos no ar, tais como dioxinas, metais de baixo
ponto de fusão, como cádmio e mercúrio, e elementos particulados.

Mesmo em regiões livres de E-lixo pode-se haver contaminação da atmosfera


decorrente das correntes e massas de ar que se deslocam de regiões onde tenha
ocorrido a queima do material, podendo cada uma dessas deslocações alcançar
quilômetros de distância antes de despejar os resíduos.

A poluição do ar é altamente nociva para os seres vivos devido à alta absorção


dos elementos misturados pelos organismos, um exemplo é o cádmio que, ao ser
ingerido, o corpo humano absorve entre 1 a 5% enquanto ao ser inalado é
absorvido entre 30 a 50%.

6.2 Contaminação do solo

O solo pode ser contaminado diretamente pela deposição do e-lixo no solo como
no caso de aterros sanitários que venham a receber este material sem o devido
tratamento, bem como por via indireta, decorrente da precipitação de compostos
em suspensão no ar, que caem junto às chuvas.

1
Os poluentes que causam um maior impacto ao solo são os que persistem na
cadeia alimentar, os bioacumuláveis, que se concentram na cadeia alimentar a
medida que o nível trófico aumenta.

6.3 Contaminação da água

Assim como o solo, a água pode ser contaminada direta ou indiretamente. Ainda
no caso da água, as chuvas podem levar os contaminadores até lençóis freáticos,
rios e lagos.

A contaminação das águas também apresenta um risco à cadeia alimentar, mas


no caso da água um agravante é que muitos seres da base da cadeia alimentar se
alimentam filtrando grandes volumes de água aumentando a concentração muito
mais rapidamente, além de que a água contaminada também pode ser utilizada
para irrigar plantações, contaminando o solo de cultivo.

Outra forma da água poluída chegar ao ser humano é através de sua ingestão
direta, no caso do cádmio 5% é absorvido pelo organismo, podendo ter absorção
maior em dietas com deficiência de cálcio, mas seu tempo de meia-vida dentro do
organismo é de 10 anos, assim, uma pessoa que é exposta a doses, mesmo
pequenas, de cádmio podem ter sintomas a longo prazo, devido ao acúmulo em
seu organismo.

6.4 Doenças causadas por elementos presentes no e-lixo

Dados sobre a contaminação de pessoas por metais pesados são de difícil coleta
e precisão, exceto caso exista uma grande quantidade de pessoas com sintomas
de intoxicação e seja feito um estudo das causas. As intoxicações, por não
apresentarem sintomas totalmente específicos, podem, em muitos casos, receber
tratamentos de forma sintomática e passarem por outras enfermidades.

1
6.4.1 Elemento específico: chumbo

A doença causada pela alta concentração de chumbo, o metal de mais relevância


no E-lixo, no organismo é chamada de Saturnismo, que tem como sintomas dores
abdominais severas e úlceras orais com sensação de gosto metálico. Um exame
clínico pode demonstrar uma linha de depósito de chumbo na boca do paciente e
anemia, pois o chumbo inibe a formação de glóbulos na medula óssea e
problemas no sistema nervoso periférico.

A principal forma de contaminação por chumbo é por ingestão de alimentos e


água contaminados com o metal, mas a mais perigosa é a inalação.

O tempo de meia-vida do chumbo no organismo pode chegar a 20 anos


dependendo do tecido em que se encontra, mostrando que, em casos de
exposição constante, ocorrerá a concentração do metal no organismo.

6.4.2 Elemento específico: cádmio

A intoxicação por cádmio tem sido pouco estudada, apesar deste estar presente,
inclusive, no cigarro e, portanto, ser absorvido duas vezes mais por fumantes do
que por não fumantes.

Contudo, a principal forma de contaminação por cádmio é a ingestão de alimentos


e água contaminados com o metal, mas a mais grave é novamente a já citada
inalação.
O tempo de meia-vida do chumbo no organismo varia de 13 a 30 anos
concentrando-se em proteínas de baixo peso molecular, presentes principalmente
nos rins e fígado.

2
6.4.3 Elemento específico: mercúrio

Geralmente a contaminação pelo mercúrio apresenta sintomas como dores


abdominais, diarréia, gosto de metal e sangramento na boca, falhas de memória,
fraqueza muscular, insônia e destruição das células do sistema nervosos, que
pode resultar em óbito.

A contaminação do mercúrio ocorre por via alimentar, com a ingestão de água e


alimentos contaminados, e por via respiratória com a inalação de vapor de
mercúrio.

Por ter um baixo ponto de ebulição o mercúrio se vaporiza muito facilmente,


tornando sua inalação mais fácil, sendo uma perigosa fonte de contaminação. Seu
tempo de meia-vida é superior a três anos.

6.4.4 PVC (Policloroeteno)

A queima de PVC gera resíduos altamente tóxicos ao organismo, como dioxinas,


elementos particulados e fuligem, rapidamente carregados pelo ar e depositados
no solo e água.

As principais causadoras de problemas são as dioxinas. Não há dados sobre seus


efeitos a longo prazo em seres humanos, mas testes em laboratório mostram
efeitos no sistema imunológico, formação de câncer e problemas no sistema
reprodutivo de cobaias.

A dioxina é persistente no meio, sendo não sendo degradável por agentes


decompositores presentes. Também é bioacumulavel, sendo reciclada várias
vezes pelo meio.

2
7. Medidas que lidam com os problemas ambientais gerados pelo E-lixo

Definidos os conceitos essenciais à compreensão desse contexto, são expostas


aqui iniciativas tomadas no plano social e econômico, sempre com o subsídio da
tecnologia.

Embora destaquemos anteriormente os impactos causados pelo lixo eletrônico e o


papel paradoxal que a tecnologia protagoniza nos sendo benéfica e, quando mau
utilizada, sendo maléfica, há uma crescente preocupação e abordagem do
assunto. No entanto, o crescimento do comprometimento com o meio ambiente no
que concerne à tecnologia é relativamente recente, passando a existir somente
após os impactos gerados pelo lixo tecnológico se tornarem uma ameaça fora do
escopo do engajamento ambiental.

7.1 Iniciativas na economia

Na economia está havendo uma gradativa mudança de costumes. O


comprometimento ambiental já citado faz com que, aos poucos, seja dada
preferência a produtos “ecologicamente corretos”, o que, conseqüentemente, faz
com que os fabricantes se adequem ao novo perfil de consumidor que está se
formando.

Listamos aqui, no plano econômico, exemplos de iniciativas que amenizam o


descarte de lixo eletrônico.

7.1.1 Redução do uso de materiais tóxicos e o Take Back

É do conhecimento de todos que computadores e celulares possuem


componentes tóxicos *ao meio ambiente e ao ser humano, como: mercúrio,
cádmio, chumbo etc. A partir do avanço tecnológico, fabricantes vêm reduzindo o

2
percentual de certos materiais em seus produtos, a fim de atender a padrões e
normas vigentes.

De acordo com Macohin (2007) , “com a vinda do monitor LCD fabricado pela
Apple a redução do uso de chumbo foi de quase 100% e foi retirado o arsênico do
vidro dos monitores LCD também”. Outro exemplo que temos é o EcoBook (Figura
4), que é somente um conceito, por enquanto. Seu fabricante, a Asus, declara que
“conseguiu com sucesso fabricar um case de laptop com bambu, que substitui os
plásticos e produtos químicos de difícil reciclagem. A empresa alega ainda que
oferece programas de reciclagem gratuitos para seus produtos”.

Figura 4. EcoBook.

Outra iniciativa interessante é o Take Back, que consiste nas empresas “pegarem
de volta” (tradução para o português de Take Back), recolherem os equipamentos
eletrônicos com o fim de reutilizar ou reciclar. Trata-se de uma taxa embutida no
preço do produto, que inclui os gastos com reciclagem e devolução do mesmo.

2
7.1.2 Guia de eletrônicos verdes

Lançado em Agosto de 2006 pelo Greenpeace, este guia traz os principais


fabricantes de computadores, celulares e outros eletro-eletrônicos. A seguir, temos
o ranking de sua 11ª edição (Figura 5). Segundo a instituição, nessa edição foi
considerada a liderança climática como critério principal, dentro das diretrizes
gerais, que, ainda segundo o Greenpeace são “políticas e práticas em relação ao
uso de substâncias químicas, reciclagem e energia.”

Figura 5. Guia Greenpeace, principais fabricantes de eletro-eletrônicos,


classificados de acordo com suas políticas de preservação ao meio-ambiente.

7.1.3 Upgrade

Uma alternativa considerável é o upgrade, “melhorar” o que se tem. Antes de tudo,


é importante saber que o upgrade ocasiona o descarte de e-lixo, porém, em
menores quantidades. Essa é uma medida que visa minimizar impactos.
Basicamente consiste em trocar peças ou periféricos a fim de que se tenha melhor
desempenho, e não é aplicável a telefones celulares, visto que o upgrade de um
celular seria a troca de aparelho.

2
Dessa forma, seria evitada a obtenção de um novo microcomputador
desnecessariamente e ainda sim haveria circulação de capital no mercado de
eletrônicos. Vale lembrar que o termo upgrade não se insere somente a hardware,
em software, por exemplo, o upgrade é feito trocando-se versões dos programas
por outras mais recentes a fim de se melhorar os recursos oferecidos por ele.
Veremos a frente que um caso particular de upgrade de software pode ser viável
para evitar futuros impactos causados pelo E-lixo.

7.2 Iniciativas na sociedade

No que se refere ao ponto de vista social, também temos formas de enfrentamento


com o intuito de amenizar tal situação. Diferentemente do aspecto econômico, nos
tópicos a seguir predominam as formas de organização que envolvem sociedades
complexas, definimos a seguir quais são essas formas de conter os problemas
gerados pelo lixo tecnológico.

7.2.1 Inclusão digital

Embora aparentemente distantes, há casos em que o acesso ao mundo digital e o


crescente acúmulo de lixo eletrônico estão intrinsecamente ligados. Tudo isso
porque as obsolescências técnica e programada são relativas, isto é, dependem
do referencial. Assim sendo um equipamento em bom estado, porém obsoleto
para seu proprietário, pode ser de grande utilidade a outros usuários, evitando
assim que estes tenham que adquirir equipamentos novos.

Este é um dos princípios que sustenta a Inclusão digital, a doação de aparelhos


eletrônicos à centro comunitários, ONGs e outros tipos de instituições. Esta
medida, assim como o upgrade visa apenas e tão somente amenizar o quadro
atual, visto que estes aparelhos inevitavelmente se tornarão inutilizáveis.

2
Ainda acerca disso, “Ações de inclusão digital como a realocação de
equipamentos de utilização individual em domicílios e estabelecimentos em prol
de escolas e centros comunitários de baixa renda, além de socializar os custos de
obsolescência tecnológica dos equipamentos pelo potencial aumento da taxa de
utilização dos mesmos, representam um canal privilegiado para criação de
oportunidades de geração de renda e cidadania em plena era do conhecimento”.

7.2.2 A exportação do lixo eletrônico

Ocorre, no entanto, que a doação de aparelhos eletrônicos para fins de inclusão


digital pode ser deturpada e feita por aqueles que enviam apenas para se livrar de
materiais inutilizáveis, ou até mesmo sendo feito o envio direto de lixo eletrônico,
ainda mais, o fazem sob a forma de responsabilidade social.

O relatório do U.S. Government Accountability Office (GAO) afirma que os Estados


Unidos estão enviando eletrônicos com substâncias tóxicas a outros países
(Figura 6), sem preocupação em seguir regras e proteger pessoas e o meio
ambiente.

Um outro exemplo é o da China, que recentemente flagrou australianos jogando


lixo eletrônico em seu território, Segundo reportagem do Sydney Morning Herald.

Um panorama geral, pra não citar outros exemplos é o de que países


desenvolvidos estão a “exportar” o lixo eletrônico para países subdesenvolvidos,
livrando-se assim do oneroso tratamento de sua sucata eletrônica.

2
Figura 6. Exportação de E-lixo pelo mundo, podendo-se ver que além dos EUA,
outros países também enviam seu lixo eletrônico para países subdesenvolvidos ou
em desenvolvimento.

7.2.3 Convenção de Basiléia

Em resposta ao trânsito de materiais com periculosidade ambiental, foi criada, no


ano de 1981 (entrando em vigor apenas em 1992), a Convenção de Basiléia sobre
o controle de movimentos transfronteiriços de resíduos perigosos e seu depósito.

Para Ziglio (2002:1), “A Convenção de Basiléia é um acordo que define a


organização e o movimento de resíduos sólidos e líquidos perigosos. Ela permite
a concessão prévia e explícita de importação e exportação dos resíduos
autorizados entre os países de modo a evitar o tráfico ilícito”.

Os objetivos da Convenção da Basiléia são:

• Minimizar a geração de resíduos perigosos (quantidade e periculosidade);?

2
• Controlar e reduzir movimentos transfronteiriços de resíduos perigosos;
• Dispor os resíduos o mais próximo possível da fonte geradora;
• Proibir o transporte de resíduos perigosos para países sem capacitação
técnica, administrativa e legal para tratar os resíduos de forma
ambientalmente adequada;
• Auxiliar os países em desenvolvimento e com economias em transição na
gestão dos resíduos perigosos por eles gerados;
• Trocar informações e tecnologias relacionadas ao gerenciamento
ambientalmente adequado de resíduos perigosos.

Durante a COP-5 (V Conferência das Partes), realizada em dezembro de 1999,


dois objetivos adicionais foram incorporados à Convenção:

• Promoção das metodologias de produção limpa e de tecnologias industriais


mais limpas;
• Prevenção e monitoramento do tráfego ilegal de resíduos perigosos.

8 Novas tecnologias que lidam com os problemas ambientais gerados pelo


E-lixo

Como já sabemos, existem, hoje em dia, formas de combate ao acúmulo de lixo


eletrônico. Este capítulo visa definir brevemente conceitos e tendências para o
enfrentamento dos problemas causados pelo lixo eletrônico em um futuro breve,
dando ênfase aos impactos ambientais.

Entendemos por tecnologia o conjunto de conhecimento técnico, científico e os


processos e ferramentas utilizados ou criados a partir deste conhecimento. Assim,
como visto nos capítulos anteriores, a tecnologia se tem participação nos mais
diversos âmbitos: econômico, social, ambiental, entre outros.

Destacamos, a seguir, alternativas que podem ser viáveis para o enfrentamento


aos problemas decorrentes do E-lixo.

2
8.1 Software Livre

O uso de softwares livres pode ser uma alternativa interessante a determinados


usuários, a opção por este tipo de software, muitas vezes, pode decorrer de um
processo de upgrade.

Basicamente, software livre, segundo a definição criada pela Free Software


Foundation “é qualquer programa de computador que pode ser usado, copiado,
estudado, modificado e redistribuído com algumas restrições.”

Segundo Hexsel (2003:12), algumas vantagens do software livre são:

“• Custo social é baixo;

• Não se fica refém de tecnologia proprietária;

• Independência de fornecedor único;

• Desembolso inicial próximo de zero;

• Não obsolescência do hardware;

• Robustez e segurança;

• Possibilidade de adequar aplicativos e redistribuir versão


alterada;

• Suporte abundante e gratuito;

• Sistemas e aplicativos geralmente muito configuráveis”.

De modo que, pelo fato serem modificáveis, programas de código aberto podem
ser adaptados a máquinas “menos potentes”, ao contrário do software proprietário,

2
que se atualiza frequentemente, exigindo mais capacidade de memória e
processamento das máquinas.

Diante do que foi exposto, a alternativa pelo software livre, embora considerável e
viável para usuários e organizações, não é definitiva, pois apenas torna o
processo de obsolescência do hardware mais lento. No entanto, esta tecnologia se
apresenta como uma grande ferramenta que, alheia a outros recursos, pode
diminuir o impacto ambiental causado pelo lixo eletrônico.

8.2 Projeto StEP

Lançado pelas Nações Unidas, este projeto tenta reunir esforços em todo mundo
no sentido de viabilizar a reciclagem de lixo eletrônico. O projeto StEP ("Solving
the E-Waste Problem") conta com o apoio de grandes empresas do ramo de
telecomunicações e informática.

Basicamente, seus objetivos são:

• Criar padrões mundiais de processos de reciclagem de sucata eletrônica;

3
• Aumentar a vida útil dos produtos eletrônicos;
• Desenvolver mercados para sua reutilização;

Ainda sobre o projeto StEP, temos que:

“As Nações Unidas pretendem ainda dar aos países


elementos que permitam a harmonização das legislações
nacionais quanto ao tratamento das sucatas eletrônicas e a
coordenação de esforços públicos e privados no sentido de
re-transformar o lixo eletrônico em riqueza”.

Portanto, projetos como este são deveras do interesse de todos. Nesse caso
específico, com o incentivo e a conscientização por parte dos fabricantes, pode-se
resultar em uma maior adesão e, consequentemente em um maior aproveitamento
e melhor tratamento da sucata eletrônica gerada.

8.3 Design For the Environment – DFE

De maneira geral, a sigla, que significa “projetar para o ambiente”, representa uma
série de práticas, aonde são feitas considerações sobre impactos que um produto
pode causar,ou que já está causando. Buscam-se inovações, técnicas,
aperfeiçoamentos que reduzam o descarte de resíduos danosos ao meio ambiente
em qualquer estágio de vida do produto, com o objetivo também de manter o
preço economicamente competitivo.

De acordo com EPA “O programa trabalha em parceria com um vasto leque de


partes interessadas para reduzir o risco para as pessoas e para o ambiente,
através da prevenção da poluição”. *

Entre as várias técnicas usadas em DFE, destacam-se as técnicas de análise e de


melhoria. A primeira consiste em verificar os impactos ambientais durante todo
ciclo de vida do produto, desde sua confecção até seu descarte. A segunda visa

3
melhorar a performance ambiental do produto, isto é, diminuir os impactos que
este causa.

Vemos no DFE uma tendência para o futuro, a de considerar todo e qualquer


impacto ambiental de um produto antes mesmo de produzi-lo. Isso demonstra
certo amadurecimento por parte de fabricantes, e estimula o consumo de produtos
ecologicamente corretos, ou seja, aquece a economia e desestabiliza menos o
meio ambiente.

O WBCSD** realizou uma pesquisa com 20 importantes fabricantes e a maioria


delas vê o DFE como um fator importante no futuro.

8.4 Reciclagem do lixo eletrônico

Não se trata de uma iniciativa inovadora, no entanto, é tida como uma importante
iniciativa contra o crescente acúmulo de e-lixo. Nesse caso, o que se necessita é o
estímulo a empresas do setor de reciclagem e o fomento à pesquisas na área.
Uma boa motivação para tanto é a presença de materiais metálicos valiosos,
como ouro e cobre.

Um grande obstáculo à implementação de sistemas de reciclagem eficientes em


grande escala é estabelecer mercado para esses materiais, que, justamente, é um
objetivo do Projeto StEP. Acerca disso, de acordo com Veit (2005:3):

“O principal fator para o sucesso ou fracasso de programas de


reciclagem é a viabilidade de um mercado para os materiais
separados. Um programa de reciclagem inclui, portanto, por
necessidade um mercado consumidor para os matérias coletados ,
senão os matérias separados terão como destino os aterros junto
aos materiais não separados”

Considerando a existência de um mercado estável para os materiais separados,

* tradução própria ** World Bussines Council for Sustainable Development

3
relacionamos a seguir alguns tipos de reciclagem e métodos utilizados:

Reciclagem Química - Este tipo de reciclagem reaproveita plásticos,


transformando-os em petroquímicos básicos, que podem servir de matéria-prima
em centrais petroquímicas ou refinarias.

Seu objetivo é recuperar componentes químicos individuais para ser reutilizados


como tais, ou até mesmo para a produção de novos plásticos.

Os processos mais avançados de reciclagem química permitem a reciclagem de


misturas de diversos plásticos.

Reciclagem Mecânica - A reciclagem mecânica trata de converter materiais


descartados, como plásticos pós-industriais ou pós-consumo em grânulos
reutilizáveis, passando por etapas como: separação, moagem, lavagem,
aglutinação e extrusão.

Estes grânulos podem ser utilizados na produção de: sacos de lixo, solados, pisos,
conduítes, mangueiras, componentes de automóveis, fibras, embalagens não-
alimentícias e outros.

Reciclagem Energética - Consiste na recuperação da energia contida em certos


materiais por meio de processos térmicos. Não pode ser aplicada a materiais
pesados volatilizáveis, como mercúrio, cádmio, tálio e outros ,isto é, acaba sendo
uma técnica um pouco mais restrita.

O processo de reciclagem se dá na queima do material, porém, ao contrário da


incineração, na reciclagem energética a energia do resíduo é aproveitada.

Acerca disso, Campos e Da Silva (2007:42) dizem:

“A energia contida em 1 kg de plástico é equivalente à


contida em 1 kg de óleo combustível. Além da economia
gerada pela recuperação de energia, com a reciclagem

3
energética ocorre ainda uma redução de 70 a 90% da massa
do material, restando apenas um resíduo inerte a ser
disposto em aterros industriais (para materiais perigosos
classe segundo a norma NBR 10.004 da Associação
Brasileira de Normas Técnicas – ABNT)”

Foram definidas, portanto, algumas técnicas de reciclagem de materiais que


constituem nosso lixo eletrônico. Estudos mostram avanços das mais diversas
técnicas de reciclagem, no entanto, como dito, há de se considerar fatores
externos, como viabilidade financeira e implementação de mercados
consumidores. Neste quesito, infelizmente, ainda caminhamos a passos curtos.

Considerações Finais

Diante do que foi exposto, é possível que sejam feitas as seguintes inferências:

O lixo eletrônico é uma conseqüência direta da obsolescência tecnológica, isto é,


não foi observado nenhum outro fator que não tenha relação alguma com as obso-
lescências. Dessa forma, os esforços em prol do meio ambiente que envolvam a
tecnologia devem considerar essa causa.

No escopo da questão ambiental, nota-se que indubitavelmente o e-lixo, sem qual-


quer tratamento adequado, é uma grande ameaça que põe em risco toda a biosfe-
ra. A generalização como ameaça para toda a terra pode ser deduzida através de
efeitos que encadeiam outros.

Tendo em vista os aspectos do problema em questão, a tecnologia tenta, nos dias


de hoje, amenizar algo que decorre de seu desenvolvimento. É verificável que
atualmente este problema tem sido abordado e combatido, no entanto, ainda há
falta de esforços conjuntos, que considerem o planeta como um todo. Visto ainda

3
que o e-lixo tende a permanecer como um problema sem solução imediata, faz-se
necessário, ao menos, maior eficácia no combate aos impactos que este causa.

Também é perceptível que os fabricantes não são os únicos e grandes responsá-


veis pelo crescente descarte de eletrônicos. Melhorias nesse sentido devem sim,
partir dos fabricantes, mas também com participação ativa dos governos locais e
do usuário final.

O futuro talvez pode reservar algo melhor, haja visto que iniciativas promissoras e
mais eficientes possam ser implementadas, seja por uma maior conscientização
ou por condições tecnológicas mais favoráveis. Tanto a tecnologia enfrentando os
problemas resultantes de seu desenvolvimento diretamente (software livre, pro-
cessos de reciclagem) como indiretamente (projeto StEP, DFE) são alternativas
consideráveis, mas o mais adequado e conveniente em todos os sentidos é a rea-
lização e/ou implementação simultânea dessas ações.

Portanto, reabilitar o meio ambiente, que foi e está sendo vítima da atividade an-
trópica, requer iniciativas imediatas nos dias de hoje e, claro, também futuramente.
A tecnologia, diante de tantos fatores internos e externos, deve ser vista única e
exclusivamente como ferramenta intrínseca à atividade humana, sendo isentada
de todo e qualquer impacto que possa causar, dessa forma não a temos como so-
lução ou causa de nossos problemas e sim como algo útil que depende do uso
que lhe é feito.

3
Anexo A – Dicas para o Descarte de Eletrônicos

Celular: vários fabricantes têm programas de reciclagem de baterias e aparelhos.


A maioria das operadoras também tem programas de reciclagem de baterias e
algumas instituições de caridade aceitam doações. Além do chumbo, os aparelhos
podem conter arsênico, uma substância que pode afetar o sistema digestivo e
causar doenças nos pulmões, coração, fígado, entre outros.

Computador: Também podem ser doados para instituições, assim como


monitores, teclados e mouses. Podem ainda ser vendidos em lojas de usados, via
internet ou devolvidos ao fabricantes, dependendo do caso, para que esta faça o
melhor descarte. Um computador comum contém cerca de dois quilos de chumbo,
que pode causar danos ao sistema nervoso e sanguíneo, além de mercúrio, que
podem afetar gravemente o cérebro e cádmio, que causa envenenamento.

Hardware (depois do Upgrade): Várias instituições em todo país aceitam placas


mãe, pentes de memória, drives de CD-ROM e outras peças.

Periféricos: A maioria das instituições de caridade aceita todos os tipos de


equipamentos e, se não tiverem conserto, são enviados para cooperativas de
coleta seletiva.

Cartucho e Toners de impressora: Podem ser vendidos para as empresas que


fazem recondicionamento. Segundo a Associação brasileira de Recondicionadores
de Cartuchos para impressora (Abreci), as empresas costumam pagar R$ 5,00 por
cartucho e R$ 10,00 por toner.

Baterias e Pilhas: Uma resolução do Conama¹ obriga fabricantes a recolher e


reciclar baterias e pilhas que possuem alta incidência de materiais tóxicos. A
orientação de descarte deve vir na embalagem do produto. Várias lojas de
operadoras de telefonia móvel têm recipientes onde as baterias podem ser
descartadas.

Eletrônicos:Várias instituições aceitam doações de televisões, aparelhos de DVD,


câmeras digitais, entre outros. Alguns fabricantes possuem programa de
reciclagem. Também é possível vendê-los em sites de leilão ou em lojas
especializadas. Um televisor contém 8 quilos de chumbo. Além do mercúrio,
comum em aparelhos de LCD.

3
Recomendações: Antes de doar aparelhos à instituições de caridade, é bom
verificar o histórico da entidade a ser ajudada, e checar se a instituição irá dar um
destino correto aos aparelhos doados.

3
Anexo B – Impactos Ambientais e Ocupacionais na Ásia

3
Anexo C – Selo Verde da USP

3
Anexo D – Lixo eletrônico: Iniciativa no CCE da USP

4
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