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Títul o original : Le Regard Eloigné

© Librairie Plon, 1983

Traduçã o de Carmen de Carvalho

Revisão d e José Antônio Braga Fernandes

Cap a d e Edições 7 0

Bastã o polinésio , mulher pintad a (ilhas Audaman) , vasilha Zun i e post e d e cas a Haid a

Ilustrações n o interior : Anit a Albus , Der Garten der Lieder e

Anit a Albus , Vanitas Schrank i n Eia Popeia et-cetera

Direito s reservados par a Portuga l po r Edições 70 , Lda. , Lisboa

Todo s o s direitos reservados par a a língua portuguesa po r Edições 70, Lda. , Lisboa — PORTUGAL

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Distribuido r no Brasil : LIVRARIA MARTINS FONTES

Ru a Conselheiro Ramalho , 330/340 — São Paul o

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O OLHAR DISTANCIADO

CLAUDE LÉVI-STRAUSS

O OLHAR DISTANCIADO CLAUDE LÉVI-STRAUSS

« O grand e defeit o do s europeu s é estare m sempr e a filosofa r sobr e a s origen s da s coisa s segund o o qu e s e pass a à su a volta. »

J.­J . ROUSSEAU , Ensaio sobre a Origem das "Línguas, capítul o VIII .

À MEMÓRIA DE ROMA N JAKOBSON

Prefáci o

ÍNDIC E

Pág .

1 1

O INAT O E O ADQUIRID O

Capítul o I — Raç a e cultur a I I — O etnólog o perant e a condiçã o humana .

2 1

5 1

FAMÍLIA , CASAMENTO , PARENTESC O

Capítul o I I I — A famíli a

 

6

9

IV — U m «átom o d e parentesco » australiano .

 

9 9

V

— Leitura s cruzada s

— Leitura s cruzada s
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
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V — Leitura s cruzada s 113
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V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
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V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
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V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113
V — Leitura s cruzada s 113

113

V I — D o casament o nu m gra u aproximad o

 

133

O MEI O AMBIENT E E A S SUA S REPRESENTAÇÕE S

Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a

Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a
 
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149
Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a   149

149Capítul o VI I — Estruturalism o e ecologi a  

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VIII

—Estruturalism o

e empirism o

VIII —Estruturalism o e empirism o
 
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
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VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175
VIII —Estruturalism o e empirism o   175

175VIII —Estruturalism o e empirism o  

175
 

I X — A s liçõe s d a lingüístic a

I X — A s liçõe s d a lingüístic a
 
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1
  I X — A s liçõe s d a lingüístic a   20 1

20 1  I X — A s liçõe s d a lingüístic a  

X

— Religião , língu a e história : a propósit o d e

 
 

u m text o inédit o

d e Ferdinan d d e Saussur e

 

213

 

X I — D a possibilidad e mític a à existênci a socia l

 

22 7

 

CRENÇAS , MITO S E RITO S

 

Capítul o

X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a

X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253
Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a 253

253Capítul o X I I — Cosmopolitism o e esquisofreni a

XIII — Mit o e esqueciment o

XIII — Mit o e esqueciment o
XIII — Mit o e esqueciment o
 
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265
XIII — Mit o e esqueciment o   265

265XIII — Mit o e esqueciment o  

XIV — Pitágora s n a Améric a

XIV — Pitágora s n a Améric a
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275
XIV — Pitágora s n a Améric a 275

275XIV — Pitágora s n a Améric a

X V — Um a prefiguraçã o anatômic a d a gemelari ­

dad e

28 9

XVI — U m pequen o enigm a mítico­literário XVI I — D e Chrétie n d e Troye s a Richar d Wagne r e not a sobr e a tetralogi a

Pág.

303

313

COAÇÃ O E LIBERDAD E

Capítul o XVII

I — Um a pintur a meditativ a

Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341
Capítul o XVII I — Um a pintur a meditativ a 341

341

XIX — A um a jove m pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I — Palavra s retardatária s sobr e a crianç a cria ­ dor a

pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
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pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
pintor a X X — Nov a Iorqu e pó s e prefigurativ a XX I
34 7 361 373

34 7361 373

36134 7 373

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XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e

XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e
 
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387
XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e   387

387XXII' — Reflexõe s sobr e a liberdad e  

387

Lista

Índice remissivo

das primeiras publicações

.'

399

40 3

Composto e impresso n a Tipografia Guerra , Viseu par a EDIÇÕE S 70 em Jaineiro de 1986

Depósit o legal n.º 11299/86

PREFÁCI O

Est e livr o teri a o se u luga r lógic o n o seguiment o do s doi s qu e fora m publicado s e m 1958 um , e e m 1973 o outro . Poderi a entã o intitular­s e Antropologia Estrutural Três. E u nã o o qui s assi m po r diversa s razões . O títul o d o livr o d e 1958 tinh a u m valo r d e manifesto ; quinz e ano s mai s tarde , o estru ­ turalism o tinh a passad o d e mod a e er a oportun o qu e m e afir­ mass e fie l ao s princípio s e a o métod o qu e m e nã o tinha m dei ­ xad o d e guiar . Repeti r um a terceir a ve z o mesm o títul o pode ­ ri a da r a impressã o d e que , durant e este s último s de z anos , e m qu e a minh a pesquis a enveredar a po r via s par a mi m novas , e u m e tinh a contentad o e m marca r pass o e qu e o s resultado s submetido s hoj e a o exam e d o leito r consistia m apena s e m repetições . E m segund o lugar , pareceu­me , co m razã o o u se m ela , que , s e o s doi s primeiro s livro s formam , cad a u m deles , u m todo , ta l er a aind a mai s verdadeiro , talvez , par a este . O s de z ano s decorrido s desd e a Antropologia Estrutural Dois leva ­ ram­m e a o term o senão , espero , d a vid a activa , pel o meno s a o d e um a carreir a universitári a qu e s e estende u po r mei o século ; sabend o qu e a minh a docênci a atingi a o se u termo , cuide i d e qu e aqu i figurasse m problema s qu e tiv e d e deixa r d e lado , se m m e preocupa r demasiad o co m um a continuidad e qu e entr e ele s poss a te r havido . À maneir a d e um a strette, consa ­ grei , então , o pouc o temp o disponíve l a ida s e vinda s entr e

11

o s grande s tema s —parentesco , organizaçã o social , mitologia ,

ritual , art e — qu e at é à altur a tinha m retid o a minh a atenção , ma s fazendo­o s alterna r a u m ritm o mai s lent o d o qu e aquel e

qu e agor a poderi a ter .

Dist o result a qu e o present e livro , a o reunir , com o o s doi s precedentes , escrito s esparso s e dificilment e acessíveis ,

tom a a envergadur a d e u m pequen o tratad o d e etnologia , o u d e um a introduçã o a est a disciplina , cujo s capítulo s maiore s estã o praticament e representados . Podia , pois , sublinhar­s e est e carácte r dand o a o livr o u m títul o separad o e escolhendo­ o po r form a a exprimi r aquil o qu e a meu s olho s constitu i a essênci a

e a originalidad e d a abordage m etnológica , ilustrad a po r tra ­

balho s prático s o u experiência s d e laboratóri o (quart a parte ) incidind o sobr e matéria s qu e nã o tememo s variar .

Est a preocupaçã o d e se r complet o persuadiu­me , nã o se m

qu e muit o tenh a hesitado , e porqu e m o pedira m d e diverso s

lados , a inclui r u m text o mai s antig o sobr e a família , escrit o

directament e e m inglê s par a aquil o a qu e ness a língu a s e cham a u m textbook, co m a colaboraçã o d e diverso s autores , e d o qua l tinh a j á surgid o um a versã o francesa , e m 1971 , no s Anais da Universidade de Abidjan. Nã o desaprov o est a traduçã o escru ­ pulos a e qu e n a altur a revi , ma s el a apresentava­se­m e com o literal ; assim , ache i po r be m redigi r um a nov a versão , meno s respeitador a d o text o origina l (capítul o III) . Mesm o modificad a com o foi , nã o escond o qu e continu a chatament e didátic a e

qu e s e apoi a sobr e um a bas e documental , clássic a n a époc a

e m qu e a escrevi , ma s qu e hoj e est á ultrapassada . Invocare i outra s dua s desculpa s par a est a republicação .

Est e text o é , tant o quant o m e lembro , o únic o e m qu e tente i

pô r e m perspectiv a cavaleir a — embor a colocando­m e d e

outr o ângul o — o conjunt o do s problema s tratado s na s Estru- turas Elementares do Parentesco; o leito r pouc o familiarizad o

co m est a obr a encontrar á aqui , assim , a s vantagen s ( e també m

o s inconvenientes ) d e u m resumo . Tente i d e igua l mod o expli ­

ca r nest e text o a leitore s supostament e novato s e m qu e con ­

sist e a revoluçã o coperniciana , qu e a s ciência s humana s deve m

à lingüístic a estrutural : sabe r qu e par a compreende r a natu ­

rez a do s laço s sociai s nã o s e dev e pôr , à partida , o s objecto s e , procura r e m seguida , estabelece r conexõe s entr e eles . Inver ­

12

tend o a perspectiv a tradicional , é precis o começa r po r perce ­

be r a s relaçõe s com o termo s e o s próprio s termo s com o rela ­

ções . Po r outra s palavras , n a red e da s relaçõe s sociais , o s nó s

tê m um a prioridad e lógic a sobr e a s linhas , aind a que , n o plan o empírico , esta s engendre m aquele s a o s e entrecruzarem . U m outr o texto , qu e form a o capítul o VI I dest e volume , tinh a sid o també m escrit o directament e e m inglês , mas , a o traduzi­lo , nã o ouse i toma r o mesm o recu o qu e n o cas o pre ­

cedente , e convé m qu e m e expliqu e brevemente . O autor , qu e s e met e a traduzi r par a francê s u m text o escrit o po r el e num a língu a qu e manej a d e maneir a imperfeita , vê­s e muitíssim o embaraçado . O qu e tento u dize r num a língu a estrangeir a tê­lo­i a dit o d e outr a maneir a e m francês . Acim a d e tudo , di­lo­i a co m maio r economia , libertad o d a ansiedad e qu e experimentar a a o te r qu e exprimi r o se u pensament o co m meio s cuja s insuficiência s o obrigava m co m demasiad a fre ­ qüênci a a insistir , po r recea r nã o s e faze r compreende r log o

à primeira .

Seri a entã o necessári o rescreve r tud o se m relaçã o co m

o text o origina l e , dess a maneira , permitir­s e se r mai s conciso ? Ma s o text o e m questã o for a citado , comentado , discutido ,

fo i mesm o object o d e um a polêmica . A o toma r liberdade s

co m ele , expor­nos­íamo s à suspeit a d e o te r modificad o par a

qu e dess e meno s luga r a essa s críticas . Assim , ache i melho r

se

r fiel , solicitand o a o leitor , tend o e m cont a a s circunstância s

e

a língu a n a qua l el e fo i redigido , qu e m e perdo e u m discurs o

que , feit o e m francês , m e surg e igualment e just o n o se u fundo ,

ma s co m freqüênci a imprecis o e sempr e difuso . Deixe i par a últim o luga r o text o intitulad o Raça e Cultura, que , n o entanto , aparec e à cabeç a dest a recolha , po r merece r u m comentári o mai s long o e , sobretudo , d e outr a natureza . E m 1971 , a UNESC O pedira­m e qu e inaugurass e o An o Inter ­ naciona l d e Lut a Contr a o Racism o co m um a grand e confe ­ rência . A razã o dest a escolh a era , provavelmente , que , vint e

ano s antes , e u tinh a escrit o u m texto , Rafa e História, també m

po r encomend a d a UNESC O (novament e publicad o e m Antro-

pologia Estrutural Dois, capítul o XVIII) , o qua l tev e um a cert a repercussão . So b um a apresentaçã o porventur a nova , e u enun ­ ciav a nel e certa s verdade s primeiras , depress a m e tend o aper ­

13

cebid o d e qu e apena s esperava m d e mi m a su a repetição . Ora ,

j á ness a época , par a servi r a s instituiçõe s internacionai s a que , mai s d o qu e hoj e e m dia , m e senti a obrigad o a da r crédito , acabe i po r força r u m pouc o a not a n a conclusã o d e Raça e História. Talve z devid o à idade , certament e a s reflexõe s susci ­ tada s pel o espectácul o d o mundo , repugnava­m e agor a ess a complacênci a e convenci­m e d e que , par a se r úti l à UNESC O

e

pode r cumpri r honestament e a missã o qu e m e er a confiada ,

m

e deveri a exprimi r co m a máxim a franqueza . Fo i u m bel o escândalo . Entregue i o text o d a minh a con ­

ferênci a co m quarent a e oit o hora s d e antecedência . N o pró ­

pri o dia , e se m qu e e u tenh a sid o avisado , Ren é Maheu , entã o

director­gera l d a organização , começo u po r usa r d a palavr a par a pronuncia r u m discurs o cuj o objectiv o nã o s ó er a o d e

exorcisa r antecipadament e a s minha s blasfêmias , com o tam ­

bém , e mesm o sobretudo , altera r o horári o previsto , a fi m d e

m e obriga r a corte s que , d o pont o d e vist a d a UNESCO ,

seria m necessários . Ne m po r iss o deixe i d e le r o me u text o e dentr o d o temp o estimado . Mas , depoi s d a conferência , encon ­ trei­m e no s corredore s co m membro s d o pessoa l d a UNESCO ,

perplexo s po r e u te r tocad o nu m catecism o qu e er a par a ele s tant o mai s u m artig o d e f é quant o a su a assimilação , conseguid a

à

cust a d e meritório s esforço s contr a a s sua s tradiçõe s locai s

e

o se u mei o social , lhe s tinh a valid o a passage m d e u m

empreg o modest o e m qualque r paí s e m via s d e desenvolvi ­ ment o par a o lugar , santificado , d e funcionário s d e um a ins ­ tituiçã o internacional (1 ) D e qu e pecado s m e tinh a tornad o entã o culpado ? E m retrospectiva , encontr o cinco . Primeiro , qui s torna r o auditó ­ ri o sensíve l a o fact o de , apó s a s primeira s campanha s d a UNESC O contr a o racismo , qualque r cois a s e te r passad o n a produçã o científic a e d e que , par a dissipa r o s preconceito s raciais , j á nã o bastav a volta r a repeti r o s mesmo s argumento s

(1 ) E m abon o d a verdade , tenh o d e reconhece r que , bem pensadas , as minhas afirmações de 1971 nã o deve m te r parecid o tã o indecentes com o isso , uma vez qu e o text o integra l d a minha conferência foi publicada , alguns meses mais tarde , na Revue Inter- nationale des Ciences Sociales, sob os auspícios da UNESCO .

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contr a a velh a antropologi a física , co m a s sua s mediçõe s d o esqueleto , a s sua s gradaçõe s d e core s d e pele , d e olho s e d e cabelos . A lut a contr a o racism o pressupõe , hoje , u m diá ­ log o largament e abert o co m a genétic a da s populações , quant o mai s nã o seja porqu e o s especialista s e m genétic a sabe m demonstra r muit o melho r d o qu e nó s a incapacidade , d e fact o o u d e direito , qu e exist e par a determinar , n o homem , o qu e

é inat o e o qu e é adquirido . Mas , a o pôr­s e a questão , daqu i

e m diante , e m termo s científicos , e m ve z d e filosóficos , a s respostas , mesm o negativas , qu e s e lh e dêe m perde m o se u carácte r d e dogma . Entr e etnólogo s e antropólogos , o debat e sobr e o racism o desenrolava­se , outrora , e m circuit o fechado ; reconhece r qu e o s geneticista s fizera m passa r po r el a um a

lufad a d e a r fresc o valeu­m e a acusaçã o d e te r metid o o lob o n o redil . E m segund o lugar , insurgi­m e contr a o abus o d e lingua ­

ge m co m qu e s e confund e cad a ve z mai s o racismo , definid o

n o se u sentid o mai s estrito , co m atitude s normais , mesm o

legítimas , e , e m qualque r caso , inevitáveis . O racism o é um a doutrin a qu e pretend e ve r na s característica s intelectuai s e morai s atribuída s a u m conjunt o d e indivíduos , seja qua l fo r

a

maneir a com o o definam , o efeit o necessári o d e u m patrimô ­

ni

o genétic o comum . Nã o s e pod e alinha r so b a mesm a rubrica ,

o u imputa r automaticament e a o mesm o preconceito , a atitud e d e indivíduo s o u d e grupo s cuj a fidelidad e a determinado s valore s o s torn a parcia l o u totalment e insensívei s a outro s valores . El e nã o te m culp a algum a d e qu e s e ponh a um a maneir a d e vive r o u d e pensa r acim a d e toda s a s outras , ne m d e qu e s e sint a pouc a atracçã o relativament e a este s o u àquele s cuj o mod o d e viver , respeitáve l e m s i mesmo , s e afast a dema ­ siad o daquel e a qu e s e est á tradicionalment e apegado . Est a incomunicabilidad e relativ a nã o autoriza , claro , a oprimi r o u

destrui r o s valore s qu e s e rejeit a o u o s seu s representantes , mas , mantid a neste s limites , el a nad a te m d e revoltante . Pod e mesm o representa r o preç o a paga r par a qu e o s sistema s d e valore s d e cad a famíli a espiritua l o u d e cad a comunidad e s e conservem ,

c encontre m n o se u própri o fund o a s fonte s necessária s à su a

renovação . Se , com o escrev i e m Raça e História, exist e entr e a s sociedade s humana s u m cert o «optimum » d e diversidad e

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par a alé m d o qua l ela s nã o poderia m existir , ma s abaix o d o qua l ela s nã o pode m també m desce r se m perigo , dev e re ­ conhecer­s e qu e est a diversidad e result a e m grand e part e d o desej o d e cad a cultur a d e s e opo r àquela s qu e a rodeiam , d e

s e distingui r delas , num a palavra , d e se r el a mesma ; ela s nã o s e ignoram , apropriam­s e d e coisa s uma s da s outra s sempr e

qu e h á ocasião , mas , par a qu e nã o pereçam , é precis o que ,

so b outra s relações , persist a entr e ela s um a cert a impermea ­ bilidade .

Tud o ist o deveri a se r relembrado , e mai s aind a hoje , e m

qu e nad a compromet e mais , enfraquec e mai s a parti r d e den ­

tro , ne m torn a mai s enfadonh a a lut a contr a o racism o d o qu e

est a maneir a d e apresenta r o termo , permitam­m e qu e o diga ,

co m todo s o s temperos , confundind o um a teori a falsa , ma s

explícita , co m inclinaçõe s e atitude s comuns , da s quai s é ilusã o pensa r qu e a humanidad e poss a libertar­s e u m dia ,

ne m qu e dev a desejar­s e qu e o faça : vanidad e verba l compa ­

ráve l àquel a que , aquand o d o conflit o da s Malvinas , levo u tanto s homen s político s e jornalista s a chama r combat e contr a u m vestígi o d o colonialism o àquil o qu e nad a mai s er a real ­ ment e d o qu e um a querel a d e reunificação .

Ma s porqu e esta s inclinaçõe s e esta s atitude s são , d e cert o modo , inerente s à noss a espécie , nã o temo s o direit o d e escon ­

de r qu e ela s desempenha m u m pape l n a história : sempr e ine ­

vitáveis , muita s veze s fecunda s e , a o mesm o tempo , prenhe s

d e perigo s quand o s e exacerbam . Convidava , pois , o s auditore s

a duvidare m co m sabedoria , co m melancoli a s e assi m o qui ­

serem , d o futur o d e u m mund o e m qu e a s culturas , presa s

po r um a paixã o recíproca , j á nã o aspiraria m a mai s d o qu e a

celebrar­s e mutuamente , num a confusã o e m qu e cad a um a perderi a o atractiv o qu e poderi a te r par a a s outras , e a s sua s própria s razõe s d e existir . E m quart o lugar , adverti , poi s pareci a have r necessidad e d e tal , nã o se r suficient e gargan ­ tear , an o atrá s d e ano , boa s palavra s par a consegui r muda r o s homens . Enfim , sublinhe i que , par a evita r encara r a rea ­ lidade , a ideologi a d a UNESC O s e abrigar a com demasiad a facilidad e atrá s d e afirmaçõe s contraditórias . Com o — e o program a d a Conferênci a Mundia l sobr e a s Política s Culturais , realizad a n o Méxic o e m 1982 , viri a a pô­l o aind a mai s e m

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evidênci a e po r iss o o cit o — , a o imagina r qu e s e pode m ultrapassa r co m palavra s bem­intencionada s proposiçõe s anti ­ nómica s com o a s qu e pretende m «concilia r a fidelidad e a s i

própri o e a abertur a ao s outros» , o u favorece r simultaneament e « a afirmaçã o criador a d e cad a identidad e e a aproximaçã o entr e toda s a s culturas» . Assim , parece­m e que , co m doz e ano s d e idade , o text o d a minh a conferênci a permanec e aind a actual .

El e mostra , e m tod o o caso , qu e nã o estiv e à esper a d a mod a

d a sociobiologia , ne m seque r d a apariçã o d a palavra , par a pô r determinado s problemas ; o qu e m e nã o impediu , oit o ano s mai s tard e (capítul o I I d a present e recolha) , d e dize r o qu e sint o acerc a dest a pretens a ciênci a d e lh e critica r o curso , a s extra ­ polaçõe s imprudente s e a s contradiçõe s internas .

Par a alé m do s texto s d e qu e j á falei , pouc o h á a dize r sobr e o s qu e s e lhe s seguem , a nã o se r qu e vário s deles , escri ­

to s par a miscelânea s e m honr a o u e m memóri a d e colegas ,

sofreram , n a su a primeir a versão , do s inconveniente s inerente s

a est e gêner o d e exercício . Promete­s e po r amizade , admiraçã o

o u estim a e imediatament e s e volt a a tarefa s qu e nã o s e te m

ne m a vontad e ne m a liberdad e d e interromper ; quand o o

praz o expira , é precis o envia r u m text o qu e deveri a te r sid o mai s cuidado , dando­s e po r desculp a qu e o homenagead o ser á mai s sensíve l à intençã o qu e à matéri a e que , d e qual ­ que r modo , um a composiçã o heteróclita , habitua l e m misce ­ lâneas , lhe s trar á muit o pouco s leitores . Assim , rev i atenta ­ ment e esses textos , a fi m d e lhe s gradua r o s termos , repara r a s omissõe s o u completa r aqu i e al i lacuna s n a argumentação .

Enfim , n a últim a parte , reun i diverso s escrito s entr e o s

quai s nã o aparec e d e imediat o um a ligação : consideraçõe s sobr e

a pintura , recordaçõe s d a minh a vid a e m Nov a Iorqu e h á cois a

d e quarent a anos , consideraçõe s d e circunstânci a sobr e a edu ­ caçã o e o s direito s d o homem . N o entanto , u m mesm o fi o

o s atravess a e o s lig a a o primeir o capítul o d o livro : tomado s

e m conjunto , pod e ver­s e nele s um a reflexã o sobr e a s relaçõe s entr e a coacçã o e a liberdade . Porqu e s e a s pesquisa s etnoló ­ gica s algum a cois a ensina m a o home m moderno , é exacta ­ ment e qu e sociedade s muita s veze s descrita s com o submeti ­ da s a o impéri o d a tradiçã o e cuj a ambiçã o ser á a d e continua r com o estão , at é no s seu s mai s ínfimo s costumes , criado s pelo s

17

deuse s o u pelo s antepassado s n o começ o do s tempos , ofere ­ ce m a o olha r d o investigado r u m prodigios o crescend o d e costumes , crença s e forma s d e art e qu e testemunha m a s ines ­ gotávei s capacidade s d e criaçã o d o espírit o humano . Qu e nã o exist e oposiçã o entr e coacçã o e liberdade , que , pel o contrário , ela s s e apoia m —tod a a liberdad e s e exerc e par a tornea r o u ultrapassa r um a coacçã o e tod a a coacçã o apresent a fissura s o u ponto s d e meno r resistênci a qu e sã o con ­ vite s par a a criaçã o — , nad a pod e melhor , se m dúvida , dissi ­ pa r a ilusã o contemporâne a d e qu e a liberdad e nã o suport a entrave s e d e qu e a educação , a vid a social , a arte , requerem , par a s e expandirem , u m act o d e f é n o magn o pode r d a espon ­ taneidade : ilusã o e m qu e s e pod e ver , embor a nã o seja cer ­ tament e a causa , u m aspect o significativ o d a cris e qu e o Oci ­ dent e atravess a hoje .

18

O INAT O E O ADQUIRIDO

« O costum e é um a segund a naturez a qu e destró i a primeira . Ma s qu e cois a é a natureza , po r qu e nã o é o costum e natural ? Tenh o muit o med o qu e est a naturez a nã o pass e d e u m primeir o costume , com o o costum e é um a segund a natureza. »

PASCAL , Pensées, Paris , Lemerre , 1877 , I :

96.

CAPÍTUL O I

RAÇ A E CULTUR A

Nã o é d a competênci a d e u m etnólog o tenta r dize r o qu e é, o u o qu e nã o é, um a raça , poi s o s especialista s d a antropo ­

logi a física , qu e a discute m desd e h á doi s séculos , jamai s che ­ gara m a pôr­s e d e acord o e nad a indic a qu e esteja m hoj e mai s pert o d e s e entendere m acerc a d e um a respost a a est a questão , Ele s deram­no s recentement e a conhece r qu e o apa ­ reciment o d e hominídeos , d e rest o extremament e dissemelhan ­

tes , remont a a trê s o u quatr o milhõe s d e ano s o u mais , o u

seja , a u m passad o tã o longínqu o qu e jamai s s e saber á o bas ­ tant e par a decidi r s e o s diferente s tipo s d e qu e s e recolhera m a s ossada s fora m simplesment e presa s un s do s outros , o u s e teria m també m podid o intervi r cruzamento s entr e eles . Segund o certo s antropólogos , a espéci e human a dev e te r dad o origem , desd e muit o cedo , a subespécie s diferenciadas , entr e a s quai s s e produziram , n o decurs o d a pré­história , troca s e mestiça ­ gen s d e tod a a espécie : a persistênci a d e algun s traço s antigo s

o a convergênci a d e traço s recente s ter­se­ia m combinad o

par a da r cont a d a diversidad e qu e s e observ a hoj e entr e o s

homens . Outro s pensam , pel o contrário , qu e o isolament o genétic o d e grupo s humano s ter á surgid o num a dat a muit o mai s recente , qu e estabelece m po r volt a d o fina l d o Pleisto ­ ceno ; nest e caso , a s diferença s observávei s nã o poderia m te r

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resultado s d e desvio s acidentai s entr e traço s desprovido s d e valo r adaptativo , capaze s d e s e mantere m indefinidament e e m populaçõe s isoladas : ela s proviria m ante s d e diferença s locai s entr e factore s d e selecção . O term o raça , o u outr o qualque r qu e s e desej e emprega r e m su a substituição , designari a entã o um a populaçã o o u u m conjunt o d e populaçõe s qu e difere m d e outra s pel a maio r o u meno r freqüênci a d e determinado s genes . N a primeir a hipótese , a realidad e d a raç a perde­s e e m tempo s tã o recuado s qu e é impossíve l sabe r del a algum a coisa . Nã o s e trat a d e um a hipótes e científica , ist o é , verificáve l mesm o qu e indirectament e pela s sua s conseqüência s remotas , ma s d e um a afirmaçã o categóric a co m o valo r d e axiom a qu e s e põ e n o absoluto , porqu e s e julg a impossível , se m ela , com ­ preende r a s diferença s actuais . Er a j á est a a doutrin a d e Gobi ­ neau , a que m s e atribu i a paternidad e d o racismo , embor a estivess e plenament e conscient e d e qu e a s raça s nã o sã o fenô ­ meno s observáveis ; el e postulava­a s apena s com o a s condi ­ çõe s à priori d a diversidad e da s cultura s históricas , qu e lh e pareci a d e outr o mod o inexplicável , sempr e reconhecend o qu e a s populaçõe s qu e dera m orige m a essa s cultura s tinha m saíd o d e mistura s entr e grupo s humano s que , ele s próprios , tinha m j á resultad o d e outra s misturas . S e entã o s e tent a faze r recua r a s diferença s raciai s à s origens , proibimo­nos , co m iss o mesmo , d e sabe r dela s seja o qu e fo r e aquil o qu e d e fact o s e debat e nã o é a diversidad e da s raças , ma s si m a diver ­ sidad e da s culturas . N a segund a hipótese , outro s problema s s e põem . Pri ­ meiro , a s dosagen s genética s variáveis , a qu e o home m d a ru a s e refer e quand o fala d e raças , corresponde m toda s a carac ­ terística s be m visíveis : altura , co r d a pele , form a d o crânio , tip o d a cabeleira , etc ; supond o qu e esta s variaçõe s seja m concordante s entr e s i — o qu e est á long e d e se r cert o — , nad a prov a qu e ela s o seja m també m co m outra s variações , abrangend o característica s nã o imediatament e perceptívei s pelo s sentidos . Todavia , uma s nã o sã o meno s reai s qu e a s outra s e é perfeitament e concebíve l qu e a s segunda s tenha m um a o u vária s distribuiçõe s geográfica s totalment e diferente s da s pre ­ cedente s e diferente s entr e si , d e form a a que , conform e a s

22

característica s consideradas , possa m se r revelada s «raça s invi ­

síveis » n o sei o d e raça s tradicionais , o u qu e recorte m a s fron ­ teira s j á incerta s qu e s e lhe s atribui . E m segund o lugar , e um a ve z qu e s e trata , e m todo s o s casos , d e dosagens , o s limite s qu e s e lhe s fixa m sã o arbitrários . N a realidade , essas dosagen s aumenta m o u diminue m po r gradaçõe s insensívei s

e o s limiare s qu e s e institue m aqu i o u alé m depende m do s

tipo s d e fenômeno s qu e o investigado r escolhe u par a classi ­ ficar . Nu m caso , po r conseqüência , a noçã o d e raç a torna­s e tã o abstract a qu e sai d a experiênci a e torna­s e num a espéci e d e pressupost o lógic o destinad o a permiti r segui r um a cert a

linh a d e raciocínio . N o outr o caso , ader e tã o d e pert o à expe ­ riênci a qu e s e dissolv e nela , a pont o d e j á ne m s e sabe r d o

qu e s e fala . Nã o é par a espanta r qu e u m bo m númer o d e antro ­

pólogo s renuncie , pur a e simplesmente , a utiliza r est a noção .

N a verdade , a noçã o d e raç a confunde­s e co m a procur a d e traço s desprovido s d e valo r adaptativo . Poi s com o pode ­

ria m eles , s e assi m nã o fosse , ter­s e mantid o se m alteraçã o

atravé s do s milênios , e , um a ve z qu e nã o serve m par a nad a

d e ma u o u d e bom , um a ve z qu e a su a presenç a seri a igualment e arbitrária , testemunha r hoj e u m tã o longínqu o passado ? Ma s

a históri a d a noçã o d e raç a é també m a do s incessante s dis ­

sabore s sofrido s po r est a pesquisa . Todo s o s traço s sucessi ­ vament e invocado s par a defini r diferença s raciai s s e revela ­ ram , un s a segui r ao s outros , ligado s a fenômeno s d e adapta ­ ção , aind a que , po r vezes , a s razõe s d o se u valo r selectiv o no s escapem . É o cas o d a form a d o crânio , d a qua l sabemo s que , e m tod o o lado , te m tendênci a par a arre ­ dondar ; é també m o d a co r d a pele , que , entr e a s popula ­ çõe s estabelecida s na s regiõe s temperadas , s e aclaro u po r selecçã o par a compensa r a insuficiênci a d a radiaçã o sola r e permiti r a o organism o um a melho r defesa contr a o raqui ­ tismo . Debruçaram­s e depoi s sobr e o s grupo s sangüíneos , a respeit o do s quai s s e começ a a suspeita r qu e també m eles poderã o nã o se r desprovido s d e valo r adaptativo : funções , talvez , d e factore s nutricionais , o u conseqüência s d a dife ­ rent e sensibilidad e do s seu s portadore s a doença s com o a varíol a o u a peste . E o mesm o s e passa , provavelmente , co m a s proteína s d o sor o sangüíneo .

23

S e est a descid a a o mai s profund o d o corp o s e revel a decep ­ cionante , ter­se­ á mai s sort e n a tentativ a d e recua r at é ao s primeiro s passo s d a vid a do s indivíduos ? Houv e antropólo ­

go s qu e quisera m determina r a s diferença s qu e poderia m mani ­

festar­se , desd e o moment o d o nascimento , entr e bebê s asiá ­ ticos , africano s e norte­americanos , este s último s tant o d e orige m branc a com o negra . E parec e qu e tai s diferença s exis ­ tem , qu e respeita m a o comportament o moto r e a o tempera ­ ment o (1) . N o entanto , mesm o nu m cas o aparentement e tã o favoráve l à prov a da s diferença s raciais , o s investigadore s declararam­s e desarmados , H á dua s razõe s par a isso . E m pri ­ meir o lugar , s e esta s diferença s sã o inatas , parece m demasiad o complexa s par a estare m ligadas , cad a um a delas , a u m s ó gene , e o s geneticista s nã o dispõem , actualmente , d e método s seguro s par a estudare m a transmissã o d e caractere s devido s à acçã o combinad a d e diverso s factores ; n a melho r da s hipó ­

teses , tê m qu e s e contenta r e m estabelece r média s estatística s

qu e nã o acrescentarã o nad a àquela s qu e d e rest o parece , sere m

insuficiente s par a defini r um a raç a co m um a cert a precisão . E m segund o lugar , e mai s importante , nad a prov a qu e esta s diferença s seja m inata s e qu e nã o resulte m da s condiçõe s d e

vid a intra­uterin a qu e depende m d a cultura , um a ve z que ,

e m conformidad e co m a s sociedades , a s mulhere s grávida s

nã o s e alimenta m ne m s e comporta m d a mesm a maneira .

A ist o junta­se , n o qu e di z respeit o à actividad e motor a do s

recém­nascidos , a s diferenças , també m esta s culturais , qu e pode m resulta r d a permanênci a n o berç o durant e longa s horas , o u d o transport e contínu o d a crianç a contr a o corp o d a mãe , d a qua l sent e assi m o s movimentos , a s diferente s maneira s d e lh e pegar , d e a te r a o colo , d e a alimentar . Qu e esta s razõe s possa m se r a s única s actuante s sobressa i d o fact o d e a s diferença s observada s entr e bebê s africano s e norte­ameri ­

(1) Current Directions in Anthropology (Bulletins of the Ameri- can Anthropological Association, vol . 3, n. ° 3, 1970), Part 1: 106.

— J . E . Kilbridge , M . C . Robbins , Ph . L . Kilbridge , «Th e Com­ parativ e Moto r Developmen t o f Baganda , America n Whit e a n America n Blak Infants», American Anthropologist, vol . 72, n. ° 6,

1970 .

24

cano s sere m incomparavelment e maiore s d o qu e entr e este s últimos , considerand o branco s o u negros ; d e facto , o s bebê s americanos , seja qua l fo r a su a orige m racial , sã o cuidado s pouc o mai s o u meno s d a mesm a maneira .

O problem a da s relaçõe s entr e raç a e cultur a seri a entã o ma l post o s e no s contentássemo s e m o enuncia r d e ta l modo . Sabemo s o qu e é um a cultura , ma s nã o sabemo s o qu e é um a raç a e , provavelmente , ne m é necessári o sabê­l o par a tenta r responde r à questã o qu e o títul o dad o a est a conferênci a reco ­ bre . N a verdade , teríamo s a ganha r s e formulássemo s est a questã o d e um a maneir a talve z mai s complex a e , todavia , mai s ingênua . Existe m diferença s entr e a s culturas , e alguma s delas , qu e difere m d e outra s mai s d o qu e parece m diferi r entr e s i — pel o meno s par a u m olha r estranh o e nã o prevenid o — , sã o o apanági o d e populaçõe s que , pel o se u aspect o físico , també m difere m d e outra s populações . Po r se u lado , esta s julga m qu e a s diferença s entr e a s sua s cultura s respectiva s sã o meno s importante s qu e a s qu e prevalece m entr e ela s e a s cultura s da s primeira s populações . H á u m laç o concebíve l entr e essa s diferença s físicas e essas diferença s culturais ? Pode­s e explica r e justifica r esta s se m faze r apel o àquelas ? Ei s aqui , resumidamente , a questã o a qu e m e pede m qu e tent e responder . Or a iss o é impossíve l pela s razõe s qu e j á enumere i e da s quai s a principa l é o fact o d e o s geneticista s s e declarare m incapaze s d e interliga r d e um a maneir a plausíve l conduta s muit o complexas , com o aquela s qu e pode m conferi r carac ­ terística s distintiva s a um a cultura , a factore s hereditário s determinado s e localizado s e d e mod o a qu e a investigaçã o científic a poss a discerni­lo s a parti r d e agor a o u nu m futur o previsível . Convém , pois , restringi r aind a a questão , qu e for ­ mulare i com o s e segue : sente­s e a etnologi a capa z d e explicar , sozinha , a diversidad e da s culturas ? Poder á el a consegui­l o se m apela r par a factore s qu e escapa m à su a própri a racionali ­ dade , se m n o entant o preconcebe r d a su a naturez a última , qu e nã o lh e cab e decreta r com o biológica ? Tud o o qu e pode ­ ríamo s dizer , realmente , sobr e o problem a da s relaçõe s even ­ tuai s entr e a cultur a e est a «outr a coisa» , qu e nã o seri a d a

25

mesm a orde m qu e ela , seri a — par a usa r um a fórmul a céle ­ bre — qu e nã o temo s necessidad e d e um a ta l hipótese .

Poder­se­i a dizer , n o entanto , que , mesm o assim , esta ­ ríamo s a interpreta r demasiad o be m a o simplificarmo s e m excesso . Tomad a apena s com o tal , a diversidad e d e cultura s nã o pori a outr o problem a par a alé m d o fact o objectiv o dest a diversidade . Nad a impede , co m efeito , qu e cultura s diferente s coexista m e qu e prevaleça m entr e ela s relaçõe s relativament e tranqüilas , qu e a experiênci a históric a prov a podere m te r fun ­ damento s diferentes . Logo , cad a cultur a s e afirm a com o a únic a verdadeir a e dign a d e se r vivida ; ignor a a s outras , cheg a mesm o a negá­la s com o culturas . A maio r part e do s povo s a

qu e nó s chamamo s primitivo s designam­s e a s i mesmo s co m

nome s qu e significa m «o s verdadeiros» , «o s bons» , o s «exce ­ lentes» , o u mesm o «o s homens » simplesmente ; e aplica m adjectivo s ao s outro s qu e lhe s denega m a condiçã o humana , com o «macaco s d e terra » o u «ovo s d e piolho» . Se m dúvid a

qu e a hostilidade , po r veze s mesm o a guerra , podi a també m

reina r entr e um a cultur a e outra , ma s tratava­s e sobretud o d e vinga r ofensas , d e captura r vítima s destinada s a sacrifícios , d e rouba r mulhere s o u bens : costume s qu e a noss a mora l reprova ,

ma s qu e jamai s vão , o u vão­n o excepcionalmente , at é à destrui ­

çã o d e um a cultur a com o tal , o u at é à su a sujeiçã o total , poi s

qu e nã o s e lh e reconhec e realidad e positiva . Quand o o grand e

etnólog o alemã o Cur t Unkel , mai s conhecid o pel o nom e d e Nimuendaj u qu e lh e fo i atribuíd o pelo s índio s d o Brasi l ao s quai s consagro u a su a vida , voltav a à s aldeia s indígena s apó s

um a long a estad a nu m centr o civilizado , o s seu s hospedeiro s

desfaziam­s e e m lágrima s s ó d e pensare m no s sofrimento s qu e

el e deveri a te r passad o long e d o únic o síti o e m que , pensa ­

va m eles , a vid a vali a a pen a se r vivida . Est a profund a indi ­

ferenç a pela s cultura s alheia s er a par a eles , à su a maneira , um a garanti a d e podere m existi r à su a vontad e e d o se u lado .

Ma s també m s e conhec e um a outr a atitude , muit o mai s complementa r d a precedent e d o qu e su a opositora , segund o

a qua l o estrangeir o goz a d o prestígi o d o exotism o e encarn a

a oportunidade , oferecid a pel a su a presença , d e alarga r o s

laço s sociais . D e visit a a um a família , escolhem­n o par a qu e d ê o nom e a u m recém­nascid o e a s aliança s matrimoniai s

26

també m terã o tant o maio r valo r quant o mai s afastado s fore m

o s grupo s com qu e fore m firmadas . Num a outr a orde m d e idéias , sabe­s e que , muit o ante s d o contact o co m o s brancos , o s índio s Flathea d estabelecido s na s Montanha s Rochosas , ficara m tã o interessado s pel o qu e ouvira m dize r do s branco s

e da s sua s crença s qu e nã o hesitara m e m envia r expediçõe s

sucessiva s atravé s d e território s ocupado s po r tribo s hosti s

par a estabelece r relaçõe s co m o s missionário s qu e habitava m

c m Saint­Loui s d o Missuri . Enquant o s e considera m simples ­

ment e diversas , a s cultura s pode m voluntariament e ignorar­se , o u considerar­s e com o parceiro s par a u m diálog o desejado .

Nu m e noutr o caso , ela s ameaçam­s e e atacam­s e po r vezes ,

ma s se m pore m verdadeirament e e m perig o a s sua s existência s

respectivas . A situaçã o torna­s e completament e diferent e quando , à noçã o d e um a diversidad e reconhecid a po r amba s a s partes , s e substitui , num a delas , o sentiment o d a su a supe ­ rioridade , basead o e m relaçõe s d e forç a e quand o o reconhe ­ ciment o positiv o o u negativ o d a diversidad e da s cultura s d á luga r à afirmaçã o d a su a desigualdade .

O verdadeir o problem a nã o é entã o aquel e qu e põe , n o plan o científico , a ligaçã o eventua l qu e poss a existi r entr e

o patrimôni o genétic o d e determinada s populaçõe s e o se u

sucess o prático , d o qua l ela s tira m argumento s par a invocare m

a superioridade . Porque , mesm o qu e o s antropólogo s s e

ponha m d e acord o e m reconhece r qu e o problem a é insolúve l

e assine m conjuntament e um a declaraçã o d e impossibilidad e

ante s d e s e saudare m cortesment e e d e s e separarem , veri ­ ficand o qu e nad a tê m par a dize r un s ao s outro s (2) , ne m

po r iss o deix a d e se r meno s verdad e qu e o s espanhói s d o

sécul o XV I s e julgara m e mostrara m superiore s ao s índio s mexicano s e peruano s po r possuíre m barco s capaze s d e trans ­

porta r soldado s d e além­mar , cavalos , couraça s e arma s d e logo ; e que , seguind o o mesm o raciocínio , o europe u d o sécul o XI X s e tenh a proclamad o superio r a o rest o d o mund o

(2) J. Benoist , «Du Social ao Biologique : Étud e de quelques

interactions» ,

n o I,

1966 .

L ´ Homme,

revue

française

27

d'anthropologie,

tom o

6 ,

po r caus a d a máquin a a vapo r e d e alguma s outra s proeza s

técnica s d e qu e s e podi a jactar . Qu e el e o seja efectivament e sobr e todo s esse s aspecto s e sobr e o , mai s geral , d o sabe r científic o qu e nasce u e s e desenvolve u n o Ocidente , parec e

tant o meno s contestáve l quanto , salv o rara s e preciosa s excep ­ ções , o s povo s submetido s pel o Ocidente , o u obrigado s po r el e a segui­lo , reconhecera m est a superioridad e e , um a ve z conquistad a o u assegurad a a su a independência , s e pusera m com o objectiv o ultrapassa r o qu e eles próprio s considera ­

va m com o u m atras o n a linh a d e u m desenvolviment o comum .

D o fact o d e qu e est a superioridad e relativa , qu e s e afir­ mo u nu m espaç o d e temp o espantosament e curto , existe , nã o dever á inferir­s e da í qu e el a revel e aptidõe s fundamentai s dis ­ tintas , nem , aind a menos , qu e el a seja definitiva . A históri a

da s civilizaçõe s mostr a qu e um a o u outr a pôde , n o corre r

do s séculos , assumi r u m brilh o particular , Ma s ist o nã o acon ­

tece u necessariament e n a linh a d e u m desenvolviment o únic o

e sempr e orientad o no mesm o sentido . Desd e h á algun s ano s

qu e o Ocident e s e abr e à evidênci a d e qu e a s sua s imensa s

conquista s e m certo s domínio s implicara m pesada s contra ­ partidas ; a pont o d e j á s e interroga r s e o s valore s a qu e dev e d e renuncia r par a garanti r o usufrut o d e outro s nã o teria m merecid o se r mai s respeitados . À idéia , qu e outror a prevale ­ ceu , d e u m progress o contínu o a o long o d e um a estrad a sobr e

a qua l o Ocidente , sozinho , teri a queimad o a s etapas , enquant o

qu e a s outra s sociedade s teria m ficad o par a trás , substitui­s e

assi m a noçã o d e escolha s e m direcçõe s diferentes , e d e ta l mod o qu e cad a u m s e expõ e a perde r nu m o u diverso s qua ­ drante s aquil o qu e desejo u ganha r noutros . A agricultur a e a sedentarizaçã o desenvolvera m prodigiosament e o s recurso s ali ­ mentare s e , po r conseqüência , permitira m à populaçã o human a

qu e aumentasse . Da í resulto u a expansã o da s doença s infeccio ­

sas , qu e tende m a desaparece r quand o a populaçã o é demasiad o reduzid a par a mante r o s germe s patogênicos . Podemos , pois ,

dize r que , se m dúvid a se m o saber , o s povo s qu e s e tornara m agricultore s escolhera m determinada s vantagen s e m troc a d e inconveniente s d e qu e o s povo s qu e continuara m caçado ­

re s e colectore s estã o mai s be m protegidos : o gêner o d e vid a

deste s imped e qu e a s doença s infecciosa s s e concentre m d e

28

home m par a home m e do s seu s animai s doméstico s par a ess e mesm o homem ; mas , be m entendido , à cust a d e outro s incon ­ venientes .

A crenç a n a evoluçã o unilinea r da s forma s viva s surgi u n a filosofi a socia l muit o ante s qu e n a biologia . Ma s fo i d a biologi a qu e el a recebeu , n o sécul o XIX , u m reforç o qu e lh e permiti u reivindica r u m estatut o científico , a o mesm o temp o

qu e esperav a concilia r assi m o fact o d a diversidad e da s cul ­

tura s co m a afirmaçã o d a su a desigualdade . A o trata r o s diver ­

so s estado s observávei s da s sociedade s humana s com o s e ele s

ilustrasse m a s fases sucessiva s d e u m desenvolviment o único , pretendia­s e mesmo , n a falt a d e laç o causa i entr e a heredita ­

riedad e biológic a e a s realizaçõe s culturais , estabelece r entr e a s dua s orden s um a relaçã o qu e seria , pel o menos , analógic a

e qu e favoreceri a a s mesma s avaliaçõe s morai s d e qu e s e arma ­

va m o s biólogo s par a descreve r o mund o d a vida , crescend o

sempr e n o sentid o d e um a maio r diferenciaçã o e d e um a mai s

alt a complexidade .

Entretanto , dar­se­i a um a notáve l reviravolt a entr e o s próprio s biólogo s — a primeir a d e um a séri e d e outras , qu e trataremo s n o decurs o dest a exposição . A o mesm o temp o qu e o s sociólogo s invocava m a biologi a par a descobri r atrá s do s acaso s incerto s d a históri a o esquem a mai s rígid o e melho r inteligíve l d e um a evolução , o s próprio s biólogo s apercebiam ­ ­se d e qu e aquil o qu e tinha m tomad o po r um a evoluçã o sub ­ metid a a alguma s lei s simple s encobri a realment e um a históri a muit o complicada . A noçã o d e u m «trajecto» , qu e a s diversa s forma s viva s deveria m sempr e percorrer , uma s a segui r à s outra s e n o mesm o sentido , fo i primeir o substituíd a e m bio ­ logi a pel a d e um a «árvore» , qu e permit e estabelece r entr e

a s espécie s relaçõe s com o qu e d e primo s meno s d o qu e d e filia ­ ção , poi s est a torna­s e cad a ve z meno s garantid a à medid a qu e a s forma s d e evoluçã o s e revela m po r veze s divergentes , ma s també m po r veze s convergentes ; depois , a própri a árvor e transformou­s e e m «trama» , figur a cujas linha s s e junta m tan ­

ta s veze s quanta s a s qu e s e afastam , d e form a qu e a descriçã o

históric a deste s caminho s emaranhado s vei o substitui r o s dia ­

grama s demasiad o simplista s e m qu e s e cri a pode r fixa r um a

29

evoluçã o cujas modalidade s são , pel o contrário , múltiplas , diferente s pel o ritmo , o sentid o e o s efeitos . Ora , é um a visã o análog a qu e convid a a etnologia , po r pouc o qu e o conheciment o direct o da s sociedade s o mai s

diferente s possíve l d a noss a permit a aprecia r a s razõe s d e exis ­ ti r qu e ela s s e dera m a s i próprias , e m luga r d e a s julga r e d e a s condena r segund o razõe s qu e nã o sã o a s suas . Um a civili ­ zaçã o qu e s e empenh a e m desenvolve r o s seu s valore s próprio s parec e nã o possui r nenhuma , par a u m observado r formad o

pel a su a a reconhece r valore s completament e diferentes . A ele ,

parece­lh e qu e s ó entr e o s seu s s e pass a qualque r coisa , qu e

s ó a su a civilizaçã o deté m o privilégi o d e um a históri a qu e acrescent a constantement e o s acontecimento s un s ao s outros . Par a ele , apena s est a históri a fornec e u m sentido , tomand o

est e term o n a dupl a acepçã o d e significa r e d e tende r par a u m

objectivo . E m todo s o s outro s casos , cr ê ele , a históri a nã o existe ; ou , n o mínimo , estagna .

Ma s est a ilusã o é comparáve l àquel a d e qu e sofre m o s velho s n o sei o d a su a própri a sociedade , ta l com o d e rest o o s adversário s d e u m nov o regime . Excluído s d a vid a activ a

pel a idad e o u pel a escolh a política , tê m o sentiment o d e qu e

a históri a d e um a époc a e m qu e j á nã o estã o activament e

integrado s estagna , a o contrári o do s joven s e do s militante s n o pode r qu e vive m co m fervo r est e período , e m que , par a

o s outros , o s acontecimento s d e cert o mod o s e imobilizaram .

A riquez a d e um a cultura , o u d o desenrola r d e um a da s sua s

fases , nã o exist e a títul o d e propriedad e intrínseca : el a é fun ­

çã o d a situaçã o e m qu e s e encontr a o observado r relativament e

a ela , d o númer o e diversidad e do s interesse s qu e el e a í investe . Recorrend o a um a outr a imagem , pod e dizer­s e qu e a s cultu ­ ra s s e assemelha m a comboio s qu e circula m mai s o u meno s depressa , cad a u m dele s sobr e a su a própri a vi a e num a direc ­

çã o diferente . O s qu e roda m a pa r d o noss o apresentam­se­no s

d e maneir a mai s durável ; podemo s observa r à vontad e o

tip o d e carruagens , a fisionomi a e a mímic a do s viajante s

atravé s do s vidro s do s nosso s compartimento s respectivos . Enquant o que , num a outr a via , oblíqu a o u paralela , u m com ­ boi o pass a n o outr o sentid o e del e nã o recebemo s senã o um a image m confus a e depress a desaparecida , dificilment e identi ­

30

ficável , a s mai s da s veze s reduzid a a um a manch a momentâ ­ ne a d o noss o camp o visual , qu e nã o no s d á qualque r infor ­ maçã o sobr e o própri o aconteciment o e qu e s ó no s irrita , porqu e interromp e a contemplaçã o plácid a d a paisage m qu e serv e d e pan o d e fund o ao s nosso s devaneios . Or a qualque r membr o d e um a cultur a est á tã o estreita ­ ment e solidári o co m ela com o ess e viajant e idealizad o o est á co m o se u comboio . Desd e o nasciment o e — acabe i d e o dize r — provavelment e mesm o antes , o s sere s e a s coisa s qu e no s rodeia m monta m e m cad a u m d e nó s u m aparelh o d e referência s complexa s qu e forma m sistema : condutas , moti ­ vações , julgamento s implícito s que , mai s tarde , a educaçã o ve m a confirma r pel a visã o reflexiv a qu e no s propõ e d o devi r históric o d a noss a civilização . Nó s deslocamo­nos , literalmente , co m est e sistem a d e referênci a e o s conjunto s culturai s qu e s e constituíra m for a del e nã o no s sã o perceptívei s senã o atravé s da s deformaçõe s qu e el e lhe s imprime . Talve z no s torn e mesm o incapaze s d e o s ver .

Pod e provar­s e o qu e atrá s fico u dit o co m a notáve l mudanç a d e atitud e qu e recentement e s e produzi u entr e o s geneticista s face ao s povo s dito s primitivo s e àquele s seu s costume s que , direct a o u indirectamente , tê m repercussã o sobr e a su a demografia . Durant e séculos , esse s costumes , qu e consiste m e m regra s d e casament o bizarras , e m proibiçõe s arbitrária s com o a qu e ating e a s relaçõe s sexuai s entr e esposo s enquant o a mã e amament a o recém­nascid o — po r veze s at é à idad e d e trê s o u quatr o ano s — , e m privilégio s poligâmico s e m benefíci o do s chefes o u do s velhos , o u mesm o e m costu ­ me s qu e no s revoltam , com o o infanticídio , surgira m despi ­ do s d e significaçã o e alcance , apena s bon s par a sere m descri ­ lo s e inventariado s com o outro s tanto s exemplo s da s singu ­ laridade s e capricho s d e qu e a naturez a human a é capaz , quand o não , chegar­se­i a at é a dizer , mesm o culpada . Fo i precis o qu e um a nov a ciênci a tomass e forma , po r volt a d e 1950 , so b o nom e d e genétic a da s populações , par a qu e todo s esse s costu ­ mes , rejeitado s com o absurdo s o u criminosos , adquirisse m par a nó s u m sentid o e no s revelasse m a s sua s razões .

31

U m númer o recent e d a revist a Science levo u a o conheci ­ ment o d e u m mai s vast o públic o o resultad o da s pesquisa s qu e desd e h á vário s ano s o professo r J . V . Nee l e o s seu s cola ­ boradore s tê m levad o a cab o sobr e a s diversa s populaçõe s

qu e figura m entr e a s mai s be m preservada s d a Améric a tro ­

pical . Essa s pesquisa s fora m entretant o confirmada s po r outras , efectuada s independentement e n a Améric a d o Su l e n a Nov a Guin é (3) .

Temo s tendênci a par a considera r a s pretensa s «raças» mai s afastada s d a noss a com o send o també m a s mai s homogê ­ neas ; par a u m branco , todo s o s amarelo s s e parece m e a recí ­ proc a é , provavelmente , d e igua l mod o verdade . A situaçã o rea l parec e muit o mai s complexa , poi s s e o s australianos , po r exemplo , s e apresenta m morfologicament e homogêneo s e m tod o o territóri o d o continent e (4) , j á diferença s considerá ­

vei s s e viera m a detecta r e m certa s freqüência s genética s d e diversa s tribo s sul­americana s qu e vive m n a mesm a áre a geo ­ gráfica ; e essa s diferença s sã o quas e tã o grande s entr e aldeia s d e um a mesm a trib o com o entr e tribo s diferenciada s pel a lín ­

gu a e pel a cultura . A o contrári o daquil o qu e s e poderi a cre r

a própri a trib o nã o constitui , pois , um a unidad e biológica .

Com o s e explic a est e fenômeno ? Se m dúvida , pel o fact o d e

qu e a s nova s aldeia s s e forma m segund o u m dupl o process o

d e fissã o e fusão : a princípio , um a linh a familia r separa­s e d a su a linhage m genealógic a e estabelece­s e e m separado ;

mai s tarde , bloco s d e indivíduo s aparentado s entr e s i juntam­s e

a ele s e vê m partilha r o nov o habitat. A s reserva s genética s

qu e s e constitue m dest a maneir a difere m muit o mai s entr e s i d o qu e s e resultasse m d e reagrupamento s efectuado s a o acaso .

Ist o te m um a conseqüência : s e a s aldeia s d e um a mesm a trib o consiste m e m formaçõe s genética s diferenciada s à par ­

(3 ) J . V . Neel , «Lessons from a 'Primitive ' People», Science, n. ° 170, 1970' — E . Giles «Culture an d Genetics» ; F . E . Johnston , «Geneti c Anthropology : Sour e Considerations» , i n Current Direc- tions in Anthropology, op . cit . (4 ) A . A . Abbie , «The Australia n Aborigine» , Oceania, vol . 22, 1951; «Recent Field­Wor k o n th e Physical Anthropolog y o f Aus ­ tralia n Aborigines» , Australian Journal of Science, vol . 23, 1961.

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tida , cad a um a dela s vivend o nu m isolament o relativ o e e m

competiçã o objectiv a uma s co m a s outra s devid o a tere m taxa s d e reproduçã o desiguais , elas reconstitue m u m conjunt o d e condiçõe s be m conhecid o do s biólogo s com o favoráve l a

um a evoluçã o incomparavelment e mai s rápid a d o qu e a qu e

s e observ a e m gera l na s espécie s animais . Mas , sabemo s qu e

a evoluçã o qu e levo u do s último s hominídeo s fóssei s a o

home m actua l s e fez , faland o e m termo s d e comparação , d e

um a maneir a muit o rápida . Po r muit o qu e s e admit a qu e a s

condiçõe s observávei s e m certa s populaçõe s afastada s ofere ­ cem , pel o meno s quant o a certa s relações , a image m aproxi ­

mad a da s vivida s pel a humanidad e nu m passad o longínquo ,

dev e reconhecer­s e qu e essas condições , qu e no s parece m devera s miseráveis , era m a s mai s apropriada s par a faze r d e

s aquil o e m qu e no s tornámo s e qu e continua m a se r tam ­

m a s mai s capaze s d e mante r a evoluçã o human a n o mesm o

sentid o e d e lh e conserva r o se u ritmo , enquant o qu e a s enor ­

me s sociedade s contemporâneas , e m qu e a s troca s genética s

s e faze m d e outr a maneira , tende m a refrea r a evolução , o u a

impor­lh e outro s rumos .

Esta s pesquisa s també m demonstrara m que , entr e o s pre ­ tenso s selvagens , a mortalidad e infanti l po r u m lado , e a qu e

s e dev e a doença s infecciosas , po r outr o — s e no s limitarmos ,

be m entendido , a tribo s isenta s d e contaminaçã o extern a —

estã o longe d e sere m tão forte s com o s e poderi a crer . Assim , ela s nã o pode m da r cont a d e u m frac o cresciment o demográ ­ fico , qu e prové m ante s d e outro s factores : espaçament o volun ­ tári o do s nascimento s correspondent e à duraçã o prolongad a d o aleitament o e à s proibiçõe s sexuais , prátic a d o abort o e d o infanticídio , d e form a a que , durant e o se u períod o fecundo , u m casa l deix a nascer , e m média , um a crianç a todo s o s quatr o o u cinc o anos . Po r mai s odios o qu e s e no s tenh a tornad o o infanticídio , est e nã o difer e fundamentalmente , com o métod o d e control o do s nascimentos , d a elevad a tax a d e mortalidad e Infanti l qu e prevalece u na s «grandes » sociedades , e qu e pre ­ valec e aind a e m algumas , e do s método s contraceptivo s cuj a utilizaçã o no s parec e hoj e necessári a par a poupa r milhõe s o u blliõe s d e indivíduos , exposto s a nasce r nu m planet a super ­

33

povoado , a u m destin o nã o meno s lamentáve l d o qu e aquel e qu e a eliminaçã o precoc e lhe s evita . Com o muita s outra s e m tod o o mundo , a s cultura s e m qu e s e desenrolara m a s pesquisa s qu e continu o a comenta r faze m

d a pluralidad e da s esposa s u m prêmi o par a o sucess o socia l e

a longevidade . O resultad o dist o é que , s e toda s a s mulhere s tende m a te r aproximadament e o mesm o númer o d e filho s pela s razõe s acim a indicadas , o s homens , e m conformidad e

co m o númer o da s sua s esposas , terã o taxa s d e reproduçã o

qu e variarã o consideravelmente . E qu e variarã o aind a mai s

se , com o observe i e m tempo s entr e o s índio s Tupi­Kawahib ,

qu e vive m n a baci a d o ri o Madeira , um a potênci a sexua l for a d o comu m fize r part e do s atributo s pelo s quai s s e reconhec e u m chefe , que , nest a pequen a sociedad e d a orde m d a quin ­ zen a d e pessoas , exerc e um a espéci e d e monopóli o sobr e toda s a s mulhere s núbei s d o grupo , o u e m via s d e o serem .

Todavia , neste s grupos , a chefia ne m sempr e é hereditá ­

ri a e , quand o o é , é­ o co m um a grand e latitud e d e escolha .

A o permanecer , h á mai s d e trint a anos , entr e o s Nambikwara ,

cujo s pequeno s bando s seminómada s tinham , cad a u m deles , u m chef e designad o po r consens o colectivo , fique i espantad o

po r ve r que , par a alé m d o privilégi o d a poligamia , o pode r

trazi a meno s proveito s d o qu e encargo s e responsabilidades . Par a s e quere r se r chefe , ou , co m maio r freqüência , par a cede r à s solicitaçõe s d o grupo , er a necessári o possui r u m carácte r for a d o comum , te r nã o s ó a s aptidõe s física s requeridas , com o també m o gost o pelo s assunto s públicos , espírit o d e

Seja qua l fo r a opiniã o qu e s e

poss a te r d e tai s talentos , a maio r o u meno r simpati a qu e

ele s inspirem , nã o deix a d e se r verdad e qu e s e ele s têm , direct a o u indirectamente , um a bas e genética , a poligami a favorecer á

a su a perpetuação . E o s inquérito s a populaçõe s semelhante s

demonstraram , d e facto , qu e u m home m polígam o te m mai s filho s d o qu e o s outros , permitind o ao s seu s filho s dispore m d e irmã s o u meias­irmã s qu e permutarã o co m outra s linhagen s par a desta s obtere m esposas , pel o qu e s e pod e dize r qu e a poligini a engendr a a poliginia . Atravé s dela , certa s forma s d e selecçã o natura l vêem­s e encorajada s e reforçadas .

iniciativa , sentid o d o mando .

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S e s e deixa r d e lado , aind a mai s um a vez , a s doença s infecciosa s introduzida s pelo s colonizadore s o u pelo s conquis ­ tadores , da s quai s s e sab e qu e terrívei s devastaçõe s fizeram , chegand o a elimina r populaçõe s inteira s nu m praz o d e pou ­ co s dia s o u d e pouca s semanas , o s povo s dito s primitivo s pare ­ ce m goza r d e um a imunidad e notáve l à s sua s própria s doen ­ ça s endêmicas . Explica­s e est e fenômen o pel a muit o grand e intimidad e d a crianç a pequen a co m o corp o d a su a mã e e co m o mei o ambiente . Est a exposiçã o precoc e a tod a a espé ­ ci e d e germe s patogênico s garantiri a um a transiçã o mai s fáci l d a imunidad e passiv a — adquirid a d a mã e durant e a gesta ­ çã o — à imunidad e activa , o u seja , desenvolvid a po r todo s o s indivíduo s a parti r d o nascimento . At é a o momento , apena s encare i o s factore s d e equilíbri o interno , d e orde m simultaneament e demográfic a e socioló ­ gica . A isto , é precis o acrescenta r aquele s vasto s sistema s d e fito s e crença s qu e no s pode m aparece r com o superstiçõe s ridículas , ma s qu e tê m po r efeit o conserva r o grup o human o e m equilíbri o co m o mei o ambient e natural . Qu e um a plant a seja tid a com o u m se r a respeita r qu e nã o s e colh e se m u m motiv o legítim o e se m qu e s e tenh a apaziguad o antecipada ­ ment e o se u espírit o po r mei o d e oferendas ; qu e o s animai s qu e s e caça m par a come r seja m colocados , conform e a espé ­ cie , so b a protecçã o d e outro s tanto s dono s sobrenaturais , qu e punirã o o s caçadore s culpado s d e abus o devid o a matan ­ ças e m excesso , o u porqu e nã o poupa m a s fêmea s o u o s ani ­ mai s jovens ; qu e reine , enfim , a idéi a d e qu e o s homens , o s animai s e a s planta s dispõe m d e u m capita l comu m d e vida , po r form a a qu e qualque r abus o cometid o sobr e um a espéci e s e traduz a necessariamente , n a filosofi a indígena , po r um a diminuiçã o d a esperanç a d e vid a do s próprio s homens , eis outro s tanto s testemunhos , talve z ingênuos , ma s muit o efi­ cazes , d e u m humanism o sabiament e concebid o qu e nã o começ a pel o home m propriament e dito , ma s qu e lh e d á u m luga r razoáve l n a natureza , e m ve z d e o institui r e m don o e senho r qu e a saqueia , se m seque r te r e m cont a a s necessida ­ de s e o s interesse s mai s evidente s do s qu e virã o depoi s dele .

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Seri a necessári o qu e o noss o sabe r evoluíss e e qu e nó s tomássemo s consciênci a d e novo s problema s par a reconhece r u m valo r objectiv o e u m significad o mora l ao s modo s d e vida , costume s e crença s qu e anteriorment e nã o recebera m d a noss a part e senã o zombaria s ou , n o máximo , um a curiosidad e con ­ descendente . Ma s co m a entrad a d a genétic a da s populaçõe s n a cen a d a antropologia , deu­s e um a outr a reviravolta , cujas implicaçõe s teórica s talve z seja m aind a maiores . Todo s o s

facto s qu e acabe i d e evoca r dize m respeit o à cultura ; concer ­

ne m à maneir a com o certo s grupo s humano s s e divide m e s e

volta m a formar , à s modalidade s qu e o costum e impõ e ao s indivíduo s d e ambo s o s sexo s par a a uniã o e a reprodução , à

maneir a prescrit a d e recusa r o u da r à lu z a s criança s e a s criar , a o direito , à magia , à religiã o e à cosmologia . Ma s vimo s que , d e maneir a direct a o u indirecta , esses factore s modela m

a selecçã o natura l e orienta m o se u curso . Desd e então , o s dado s d o problem a relativ o à s ligaçõe s entr e a s noçõe s d e raç a e d e cultur a fora m subvertidos . Durant e tod o o sécul o XI X e

a primeir a metad e d o sécul o XX , perguntámo­no s s e a raç a

influenciav a a cultur a e d e qu e maneiras . Depoi s d e s e veri ­ ficar qu e o problem a post o dest e mod o er a insolúvel , aperce ­ bemo­no s agor a qu e a s coisa s s e desenvolve m nu m outr o sentido : sã o a s forma s d e cultur a qu e o s homen s adopta m aqu i e além , a s sua s maneira s d e vive r ta l com o prevalecera m n o passado , o u prevalece m aind a n o presente , qu e determi ­ nam , num a muit o vast a medida , o ritm o d a su a evoluçã o biológic a e d a su a orientação . Muit o par a alé m d a necessidad e d e no s interrogarmo s sobr e s e a cultur a é o u nã o funçã o d a raç a — o u daquil o qu e geralment e s e entend e po r est e term o — , nó s descobrimo s qu e a raç a é mai s um a entr e a s funçõe s d a cultura . Com o poderi a se r d e outr o modo ? É a cultur a d e u m grup o qu e determin a o s limite s geográfico s qu e el e s e atribu i o u a qu e s e circunscreve , a s relaçõe s d e amizad e o u d e hos ­ tilidad e qu e manté m co m o s povo s vizinho s e , consequente ­ mente , a importânci a relativ a da s troca s genéticas , a s quai s graça s ao s intercasamento s permitidos , encorajado s o u proi ­ bidos , poderã o produzir­s e entr e eles . Mesm o na s nossa s sociedades , sabemo s qu e o s casamento s nã o intervé m com ­

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pletament e a o acaso : factore s consciente s o u inconscientes ,

tai s com o a distânci a entr e a s residência s do s futuro s cônju ­ ges , a su a orige m étnica , a su a religião , o se u níve l d e educa ­ ção , pode m desempenha r u m pape l determinante . S e é permi ­ tid o extrapola r a parti r d e uso s e costume s qu e apresentaram ,

at é um a dat a recente , um a extrem a generalidad e entr e o s

povo s se m escrit a e qu e s e pode m crer , po r est a razão , inscri ­

to s n a muit o long a duração , poder­se­ á admiti r que , desd e

o s primeiro s alvore s d a vid a e m sociedade , o s nosso s ante ­ passado s tivera m d e toma r conheciment o e d e aplica r regra s d e casament o muit o rígidas . Com o a s qu e equipara m o s pri ­ mo s dito s paralelo s — o s filho s d e doi s irmão s o u d e dua s

irmã s — a irmão s e irmã s verdadeiros , po r iss o cônjuge s inter ­ ditado s pel a proibiçã o d o incesto , enquant o qu e o s primo s dito s cruzado s — respectivamente , filho s d e u m irmã o e d e um a irm ã — são , pel o contrário , cônjuge s autorizados , quand o

nã o mesm o prescritos ; ist o e m oposiçã o a outra s sociedade s

e m qu e qualque r laç o d e parentesco , po r muit o afastad o qu e seja, cri a u m impediment o qu e anul a o casamento . O u entã o

a

regra , aind a mai s subti l qu e a s precedentes , que , entr e paren ­

te

s cruzados , diferenci a a s prima s e m dua s categorias , a filh a

d a irm ã d o pai , po r u m lado , e a filh a d o irmã o d a mãe , po r outro , um a apena s permitida , a outr a absolutament e proibida , ma s se m se r sempr e e po r tod o o lad o a mesm a — com o é qu e tai s regras , aplicada s durant e gerações , nã o agirã o d e maneir a diferent e sobr e a transmissã o d o patrimôni o genético ? Ist o nã o é tudo ; porqu e a s regra s d e higien e praticada s c m cad a sociedade , a importânci a e a eficácia relativa s do s cui ­ dado s dispensado s a cad a tip o d e doenç a o u d e deficiência , permite m o u previne m e m diverso s grau s a sobrevivênci a d e determinado s indivíduo s e a disseminaçã o d e u m materia l genétic o que , se m isso , teri a desaparecid o mai s cedo . O mesm o s e pod e dize r da s atitude s culturai s perant e certa s anomalia s hereditária s e , com o vimo s já , perant e prática s com o a d o infanticídio , qu e atinge m indiscriminadament e o s doi s sexo s e m conjuntura s determinada s — nascimento s dito s anormais , gêmeos , etc . — o u mai s particularment e a s raparigas . Enfim , , i idad e relativ a do s cônjuges , a fertilidad e e a fecundidad e diferenciai s segund o o níve l d e vid a e a s funçõe s sociai s são ,

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pel o meno s e m parte , direct a o u indirectamente , sujeitada s a regra s cuj a orige m últim a nã o é biológica , ma s si m social . Est a inversã o d o problem a da s relaçõe s entr e raç a e cul ­ tura , a qu e s e assist e desd e h á algun s anos , encontro u um a ilustraçã o particularment e agud a n o cas o d a drepanocitose , o u sicklemia : anomali a congênit a do s glóbulo s vermelhos , fre ­ qüentement e fata l quand o é herdad a do s doi s pai s a o mesm o tempo , ma s d a qua l s e sabe , desd e h á apena s um a vinten a d e anos , que , quand o herdad a d e u m só , confer e a o portado r um a protecçã o relativ a contr a a malária . Trata­se , assim , d e u m desse s traço s qu e a princípi o s e acredito u desprovid o d e valo r adaptativo , um a espéci e d e fóssi l biológic o qu e permite , segund o o s seu s gradiente s d e freqüência , restitui r a s ligaçõe s arcaica s qu e teria m existid o entr e populações . Esta s esperan ­ ça s d e te r enfi m post o a mã o sobr e u m critéri o estátic o d e identificaçã o racia l afundaram­s e co m a descobert a qu e indi ­ víduo s heterozigótico s par a o gen e d a sicklemi a podia m pos ­ sui r um a vantage m biológic a e , dess e modo , reproduzir­s e a u m níve l comparavelment e mai s elevad o d o qu e o do s homo ­ zigótico s par a o mesm o gene , biologicament e condenados , po r u m lado , e , po r outro , o s indivíduo s nã o portadores , exposto s a morre r joven s devid o à su a maio r sensibilidad e a um a determinad a form a d e malária . Coub e a F . B . Livingston e desenvolver , nu m memoráve l artig o ( 5 ) , a s implicaçõe s teórica s — quas e gostaríamo s d e dize r filosófica s — d a descobert a do s geneticistas . U m estud o comparativ o d a tax a d e malária , d a d o gen e d a sicklemia , d a distribuiçã o da s língua s e da s culturas , tud o ist o n a Áfric a Ocidental , permit e a o auto r articula r pel a primeir a ve z u m conjunt o coerent e constituíd o po r dado s biológicos , arqueo ­ lógicos , lingüístico s e etnográficos . El e demonstr a assim , d e um a maneir a devera s convincente , qu e o apareciment o d a malári a e a subsequent e difusã o d a sicklemi a s e deve m te r seguid o à introduçã o d a agricultura : a o expulsa r o u destrui r

( 5 )

F . B . Livingstone , «Anthropologica l Implications o f

Sickle Cell Gen e Distributio n in West África», American Anthro- pologist, vol . 60, n. ° 3, 1958.

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a fauna , o s arroteamento s intensivo s provocara m a formaçã o d e terreno s pantanoso s e d e charco s d e águ a estagnada , favo ­ rávei s à reproduçã o d e mosquito s contaminadores ; levara m este s insecto s a adaptar­s e a o homem , transformad o n o mai s abundant e do s mamífero s qu e podia m parasitar . Conside ­ rand o igualment e outro s factores , a s taxa s variávei s d a sickle ­ mi a conform e o s povo s sugere m hipótese s plausívei s sobr e a époc a e m qu e eles s e estabelecera m no s locai s qu e presente ­ ment e ocupam , sobr e o s movimento s da s tribo s e a s data s relativa s e m qu e ela s adquirira m a s sua s técnica s agrícolas . Assim , verificamo s simultaneament e qu e um a irregulari ­ dad e genétic a nã o poder á da r testemunh o d e u m passad o muit o longínqu o (um a ve z que , pel o meno s e m parte , el a s e propa ­

go u n a razã o direct a d a protecçã o fornecid a contr a a s conse ­

qüência s biológica s d e mudança s culturais) , mas , e m contra ­ partida , el a ilumin a u m passad o mai s próximo , nã o podend o

a introduçã o d a agricultur a e m Áfric a remonta r a mai s d e

algun s milênios . O qu e s e perd e nu m quadr o ganha­se , pois ,

noutro . Renuncia­s e a explica r atravé s d e característica s raciai s a s enorme s diferença s que , a o considerá­la s a um a escala dema ­ siad o vasta , s e cri a discerni r entr e a s culturas ; ma s essa s mes ­ ma s característica s raciai s — qu e nã o pode m se r considerada s com o tai s quand o s e adopt a um a escal a d e observaçã o mai s

fin a — , combinada s co m fenômeno s culturai s d e qu e sã o

meno s a caus a d o qu e o se u resultado , fornece m informaçõe s preciosa s sobr e período s relativament e recente s e que , a o contrári o d a outr a história , ao s dado s d a arqueologia , d a lin ­ güístic a e d a etnografi a pode m corroborar . Co m a condiçã o d e passa r d o pont o d e vist a d a «macroevoluçã o cultural » par a a d a «microevoluçã o genética» , tornar­s e possíve l a colaboraçã o entr e o estud o da s raça s e o da s culturas .

Co m efeito , esta s nova s perspectiva s permite m situa r o s doi s estudo s na s sua s relaçõe s respectivas . Ele s sã o e m part e análogos , e m part e complementares . Análogos , e m primeir o luga r porque , e m diverso s sentidos , a s cultura s sã o compará ­ veis à s dosagen s irregulare s d e traço s genético s qu e s e desig ­ na m geralment e pel o nom e d e raça . Um a cultur a consist e num a multiplicidad e d e traços , do s quai s algun s sã o comuns , embor a e m grau s diversos , a s cultura s vizinha s o u afastadas ,

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enquant o qu e outro s separam­na s d e maneir a mai s o u meno s

marcada . Esse s traço s equilibram­s e n o sei o d e u m sistem a que , nu m e noutr o caso , dev e se r viável , so b pen a d e s e ve r progressivament e eliminad o po r outro s sistemas , mai s apto s

a propagar­s e e a reproduzir­se . Par a desenvolve r diferenças ,

par a qu e o s limiare s qu e permite m distingui r um a cultur a da s sua s vizinha s s e torne m suficientement e diferenciados , a s condiçõe s sã o grosso modo a s mesma s d o qu e aquela s qu e favo ­ rece m a diferenciaçã o biológic a entr e a s populações : isola ­ ment o relativ o durant e u m temp o prolongado , troca s limita ­ das , que r seja m d e orde m cultural , que r genética . N o gra u próximo , a s barreira s culturai s sã o d a mesm a naturez a qu e a s barreira s biológicas ; ela s prefiguram­na s d e um a maneir a tant o mai s verídic a quant o toda s a s cultura s imprima m a su a marc a a o corpo : po r estilo s d e costumes , po r mutilaçõe s cor ­ porai s e po r comportamento s gestuais , elas mima m diferen ­

ças comparávei s àquela s qu e pode m existi r entr e a s raças ; a o preferire m certo s tipo s físico s a outros , elas estabilizam­no s e , eventualmente , espalham­nos . H á pert o d e vint e anos , nu m folhet o escrit o a pedid o d a UNESC O ( 6 ) , e u fazia apel o à noçã o d e coalizã o par a explica r

qu e cultura s isolada s nã o poderia m espera r criare m sozinha s

a s condiçõe s d e um a históri a verdadeirament e cumulativa .

E necessário , par a isso , dizi a e u então , qu e cultura s diversa s

combinem , voluntári a o u involuntariamente , a s sua s maneira s respectiva s e qu e s e ofereça m dess e mod o um a melho r opor ­ tunidad e d e realizar , n o grand e jog o d a história , a s série s

longa s qu e permite m qu e est a progrida . O s geneticista s pro ­ põe m actualment e ponto s d e vist a muit o aproximado s sobr e

a evoluçã o biológic a quand o mostra m qu e u m genom a cons ­

titu i n a realidad e u m sistem a e m qu e determinado s gene s desempenna m u m pape l regulado r e outro s exercem! um a acçâ o concertad a sobr e u m únic o caracter , o u o contrário , s e diverso s caractere s s e encontra m so b a dependênci a d e u m

( 6 ) C. Lévi­Strauss , Race e t Histoire, Paris , UNESCO , 1952.

1973,

Reeditad o em Anthropologie Structurale Deux, Paris , Plon , capítulo XVIII.

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mesm o gene . O qu e é verdadeir o a o níve l d o genonom a indi ­ vidua l é­o també m a o d e um a população , qu e dev e se r d e ta l

maneira , pel a combinaçã o qu e s e oper a n o se u sei o d e diverso s patrimônio s genéticos , ond e ante s s e teri a d e reconhece r u m tip o racial , qu e u m equilíbri o óptim o s e estabeleç a e melhor e as sua s probabilidade s d e sobrevivência . Nest e sentido , pod e dizer­s e qu e a recombinaçã o genétic a desempenh a u m papel , n a históri a da s populações , comparáve l àquel e qu e a recom ­ binaçã o cultura l desempenh a n a evoluçã o da s forma s d e vida ,

da s técnicas , do s conhecimento s e da s crença s po r cuja parti ­

lh a s e distingue m a s sociedades . É evident e qu e nã o s e pode m sugeri r esta s analogia s senã o

so b reserva . Po r u m lado , co m efeito , o s patrimônio s culturai s evolue m muit o mai s rapidament e d o qu e o s patrimônio s gené ­ ticos : u m mund o separ a a cultur a qu e o s nosso s antepassa ­

do s conhecera m d a nossa , e contud o nó s perpetuamo s a su a

herança . Po r outr o lado , o númer o d e cultura s qu e existem , o u existia m aind a h á vário s século s à face d a terra , ultrapass a incomparavelment e o da s raça s qu e o s mai s meticuloso s obser ­ vadore s s e deleitara m a inventariar : vário s milhare s contr a alguma s dezenas . Sã o esta s enorme s distância s entr e a s orden s d e grandez a respectiva s qu e fornece m u m argument o decisiv o contr a o s teóricos , qu e pretende m qu e e m últim a análise , 0 materia l hereditári o determin a o curs o d a história ; porqu e est a mud a muit o mai s rapidament e e segund o via s infinita ­ ment e mai s diversificada s d o qu e aquele . O qu e a hereditarie ­ dad e determin a n o home m é a aptidã o gera l d e adquiri r um a cultur a qualquer , ma s aquel a qu e vir á a se r a su a depender á

do s acaso s d o se u nasciment o e d a sociedad e d e qu e receber á

a su a educação . Indivíduo s predestinados , pel o se u patrimôni o

genético , a nã o adquiri r senã o um a determinad a cultura , teria m descendente s singularment e desfavorecidos , um a ve z qu e a s variaçoe s culturai s a qu e este s estaria m exposto s sobreviria m mai s rapidament e d o qu e o se u própri o patrimôni o genétic o poderi a evolui r e diversificar­se , e m respost a à s exigência s desta s nova s situações .

Assim , nã o ser á demai s insisti r nu m facto : s e a selecçã o permit e à s espécie s viva s adaptarem­s e a u m mei o natura l o u existi r melho r à s sua s transformações , quand o s e trat a d o

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home m ess e mei o deix a d e se r natura l e m primeir o lugar ; el e retir a o s seu s caractere s distintivo s d e condiçõe s técnicas , econômicas , sociai s e mentais , a s quais , pel a operaçã o d a cul ­ tura , cria m par a cad a grup o human o u m mei o ambient e par ­ ticular . A parti r daí , pod e se r dad o mai s u m pass o e conside ­ rar­s e qu e entr e evoluçã o orgânic a e evoluçã o cultura l a s relaçõe s nã o serã o s ó d e analogia , ma s també m d e comple ­ mentaridade . Diss e e demonstre i qu e traço s culturais , qu e nã o sã o geneticament e determinados , pode m afecta r a evoluçã o orgânica . Ma s afectá­la­ã o e m sentido s qu e provocarã o acçõe s d e retorno . Ne m toda s a s cultura s exige m do s seu s membro s exactament e a s mesma s aptidõe s e se , com o é provável , algu ­ ma s tê m um a bas e genética , o s indivíduo s qu e a s possue m e m mai s alt o gra u encontram­s e favorecidos . S e o se u númer o aumenta r po r est e facto , ele s nã o deixarã o d e exerce r sobr e a própri a cultur a um a acçã o qu e a far á inflecti r cad a ve z mai s n o mesm o sentido , o u e m sentido s novo s ma s indirectament e ligado s a ele . N a orige m d a humanidade , a evoluçã o biológic a talve z tenh a seleccionad o traço s pré­culturai s com o o d a posiçã o vertical , a destrez a manual , a sociabilidade , o pensament o simbólico , a aptidã o par a vocaliza r e comunicar . E m contra ­ partida , e desd e qu e a cultur a existe , é el a qu e consolid a esse s traço s e qu e o s propaga ; quand o a s cultura s s e especializam , consolida m e favorece m outro s traços , com o a resistênci a a o fri o o u a o calo r po r part e d e sociedade s qu e tiveram , a be m o u a mal , d e s e adapta r a extremo s climáticos , a s disposiçõe s agressiva s o u contemplativas , a engenhosidad e técnica , etc . Ta l com o o s apreendemo s a níve l cultural , nenhu m deste s traço s pod e se r clarament e conectad o a um a bas e genética , ma s nã o poderemo s exclui r qu e ele s o seja m po r veze s d e form a parcia l e pel o efeit o afastad o d e ligaçõe s intermediárias . Ness e caso , seri a correct o dize r qu e cad a cultur a seleccioh a aptidõe s genética s que , po r retroacção , influencia m a cultur a qu e primeirament e tinh a contribuíd o par a o se u reforço .

A o faze r recua r at é u m passad o cad a ve z mai s afastado , qu e actualment e s e cifra e m milhõe s d e anos , o s primeiro s

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alvore s d a humanidade , a antropologi a física par a a s especula ­

çõe s racista s d e um a da s sua s base s fundamentais , um a ve z qu e

a part e d o qu e nã o é possíve l conhece r va i aumentand o tam ­

bé m muit o mai s rapidament e qu e o númer o d e ponto s d e

referênci a disponívei s par a assinala r o s itinerário s seguido s

pelo s nosso s longínquo s antepassado s n o decurs o d a su a evolução . O s geneticista s desferira m sobr e esta s especulaçõe s golpe s aind a mai s decisivo s quand o substituíra m a noçã o d e tip o

pel a d e população , a noçã o d e raç a pel a d e reserv a genética ,

e quand o demonstrara m qu e u m abism o separ a a s diferença s

hereditárias , consoant e ela s possa m se r atribuída s à actuaçã o d e u m únic o gen e — pouc o significativa s d o pont o d e vist a racial , porqu e provavelment e dotada s d e u m valo r adapta ­ fivo — , o u à acçã o combinad a d e vários , o qu e a s torn a pra ­ ticament e indetermináveis .

Mas , um a ve z exorcizado s o s velho s demônio s d a ideolo ­

gi a racista , ou , pel o menos , depoi s d e te r sid o provad o qu e el a

nã o pod e reivindica r qualque r bas e científica , abre­s e o cami ­ nh o a um a colaboraçã o positiv a entr e geneticista s e etnólogos , par a um a procur a conjunt a d o com o e d e qu e maneir a o s mapa s

d e distribuiçã o do s fenômeno s biológico s e do s fenômeno s

culturai s s e aclara m mutuament e e no s esclarece m sobr e u m

passad o que , se m pretende r recua r at é à s origen s primeva s da s diferença s raciai s cujo s vestígio s estã o definitivament e for a

d e alcance , pode , atravé s d o presente , imbricar­s e n o futur o e

permiti r a distinçã o do s seu s contornos . Aquil o a qu e aind a h á pouc o s e chamav a o problem a da s raça s escap a a o domí ­ ni o d a especulaçã o filosófic a e da s homília s morai s co m qu e no s contentávamo s demasiad o freqüentemente . Escap a tam ­ bé m a o da s primeira s abordagens , graça s à s quai s o s etnólogo s s e esforçara m po r deitá­l o po r terra , a fi m d e lh e dare m respos ­ ta s provisórias , inspirada s pel o conheciment o prátic o da s diferente s raça s e pelo s dado s d a observação . Num a palavra ,

0 problem a deix a d e esta r so b a alçad a d a antig a antropologi a físic a tant o quant o d o d a etnologi a geral . Torna­s e assunt o par a especialistas , que , e m contexto s limitados , s e põe m ques ­ tõe s d e orde m técnic a e lhe s dã o resposta s qu e nã o serve m par a fixa r ao s povo s lugare s diferente s num a hierarquia .

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Fo i soment e h á um a dezen a d e ano s qu e começámo s a compreende r qu e discutíamo s o problem a d a relaçã o entr e evoluçã o orgânic a e evoluçã o cultura l e m termo s qu e Augus t Comt e teri a chamad o metafísicos . A evoluçã o human a nã o é u m subprodut o d a evoluçã o biológica , ma s també m nã o é

completament e distint a dela . A síntes e entr e esta s dua s atitu ­

de s tradicionai s é agor a possível , n a condiçã o de , se m qu e s e

satisfaça m co m resposta s à priori e soluçõe s dogmáticas , o s

biólogo s e o s etnólogo s tome m consciênci a d a ajud a qu e pode m da r un s ao s outro s e da s sua s limitaçõe s respectivas . Est a inadequaçã o da s resposta s tradicionai s talve z expli ­

qu e porqu e razã o a lut a ideológic a contr a o racism o s e reve ­

lo u tão­pouc o eficaz n o plan o prático . Nad a indic a qu e o s preconceito s raciai s diminue m e tud o lev a a pensa r que , apó s breve s acalmia s localizadas , eles ressurja m noutr o lad o co m um a maio r intensidade . Da í a necessidad e experimentad a pel a UNESC O d e retoma r periodicament e u m combat e cuj o des ­ fech o parece , pel o menos , incerto . Ma s estaremo s tã o certo s

d e qu e a form a racia l assumid a pel a intolerânci a resulta , ante s d e mai s nada , da s idéia s falsas qu e um a o u outr a populaçã o formar á sobr e a dependênci a d a evoluçã o cultura l relativament e à evoluçã o orgânica ? Essa s idéia s nã o fornecerã o simplesment e um a cap a ideológic a a oposiçõe s mai s reais , fundada s n a von ­ tad e d e sujeiçã o e e m relaçõe s d e força ? Fo i este , certamente ,

o cas o n o passado ; mas , mesm o supond o qu e essa s relaçõe s

d e forç a s e atenuem , a s diferença s raciai s nã o continuaria m a servi r d e pretext o à dificuldad e crescent e d e vive r e m con ­ junto , inconscientement e sentid a po r um a humanidad e qu e enfrent a a explosã o demográfic a e qu e — ta l com o esses ver ­

me s d a farinh a qu e s e envenena m à distânci a pela s toxina s

qu e segregam , muit o ante s d e a su a densidad e excede r o s

recurso s alimentare s d e qu e dispõe m n o sac o qu e o s encerr a — s e começari a a odia r a s i própria , porqu e um a presciênci a secret a a adverti u d e qu e s e est á a torna r demasiad o nume ­

ros a par a qu e cad a u m do s seu s membro s poss a usufrui r livre ­

ment e desse s ben s essenciai s qu e sã o o espaç o livre , a águ a

pura , o a r nã o poluído ? O s preconceito s raciai s atingira m a su a intensidad e máxim a perant e grupo s humano s circunscri ­ to s po r outro s a u m territóri o demasiad o apertado , a um a

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porçã o demasiad o restrit a d e ben s naturai s par a qu e a su a

dignidad e nã o seja atingida , tant o a seu s próprio s olho s com o

ao s do s seu s poderoso s vizinhos . Ma s a humanidad e moderna ,

n o se u conjunto , nã o tender á a expropriar­s e a s i própri a e , nu m planet a demasiad o pequeno , nã o estar á a reconstitui r à

su a própri a cust a um a situaçã o comparáve l à qu e algun s do s

seu s representante s infligira m à s infelize s tribo s america ­

na s o u d a Oceania ? Qu e seria , enfim , d a lut a ideológic a contr a

o s preconceito s raciais , s e viess e a verificar­s e qu e sempr e e

po r tod o o lado , com o o sugere m certa s experiência s condu ­

zida s po r psicólogos , bastari a reparti r pessoa s d e qualque r orige m po r equipa s e colocá­la s num a situaçã o competitiv a par a qu e s e desenvolva m e m cad a um a dela s u m sentiment o d e parcialidad e e d e injustiç a face à s sua s rivais ? Comunidade s minoritária s qu e hoj e s e v ê surgire m e m diverso s ponto s d o mundo , com o o s hippies, nã o s e distingue m d o gross o d a

populaçã o pel a raça , ma s soment e pel o estil o d e vida , pel a moralidade , pel a maneir a d e s e pentea r e vestir ; o s sentimen ­

to s d e repulsa , po r veze s d e hostilidade , qu e elas inspira m

à s maioria s serã o substancialment e diferente s do s ódio s raciai s

e faríamo s entã o a s pessoa s progredi r verdadeirament e s e no s

contentássemo s e m dissipa r o s preconceito s especiai s sobr e o s quai s s e pod e dize r qu e esse s ódio s isolados , entendido s n o sentid o mai s estrito , assentam ? E m toda s esta s hipóteses , a contriibuiçã o qu e o etnólog o poss a traze r à soluçã o d o pro ­ blem a racia l revelar­se­i a irrisóri a e nã o é cert o qu e a qu e s e pediss e ao s psicólogo s e ao s educadore s foss e mai s fecunda , tant o é verdad e que , com o no s ensin a o exempl o do s povo s dito s primitivos , a tolerânci a recíproc a supõ e realizada s dua s

condiçõe s qu e a s sociedade s contemporânea s estã o mai s long e d o qu e nunc a d e conhecerem : po r u m lado , um a igualdad e relativ a e , po r outro , um a distânci a físic a suficiente .

Hoje , o s geneticista s interrogam­s e co m ansiedad e sobr e o s risco s qu e a s actuai s condiçõe s demográfica s traze m a est a retroacçã o positiv a entr e evoluçã o orgânic a e evoluçã o cul ­ tural , d e qu e de i algun s exemplos , e qu e permiti u à humani ­ dad e garanti r o primeir o luga r entr e a s espécie s vivas . A s

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populaçõe s crescem , ma s diminue m e m número . Entretanto ,

o desenvolviment o d a assistênci a mútu a n o sei o d e cad a popu ­ lação , o s progresso s d a medicina , o prolongament o d a vid a humana , o direit o cad a ve z maio r qu e s e reconhec e a cad a membr o d o grup o d e s e reproduzi r com o entender , aumen ­

ta m o númer o da s mutaçõe s nociva s e oferecem­lhe s o s meio s

d e s e perpetuarem , a o mesm o temp o qu e a supressã o da s barreira s entr e pequeno s grupo s exclu i a possibilidad e d e experiência s evolutiva s susceptívei s d e assegura r à espéci e a oportunidad e d e novo s ponto s d e partida .

É clar o qu e ist o nã o signific a qu e a humanidad e cess e o u venh a a cessa r d e evoluir ; qu e el a o faz n o plan o cultura l é evident e e mesm o n a falt a d e prova s directa s atestand o qu e

a evoluçã o biológic a — soment e demonstráve l a long o praz o —

persiste , a s relaçõe s estreita s qu e el a mantém , n o homem ,

co

m a evoluçã o cultura l garante m que , s e est a estive r presente ,

a

outr a dev e necessariament e continuar . Ma s a selecçã o natu ­

ra

l nã o pod e se r julgad a unicament e pel a maio r vantage m qu e

oferec e a um a espéci e par a s e reproduzir ; porqu e s e est a mul ­ tiplicaçã o destró i u m equilíbri o indispensáve l co m aquil o a qu e s e cham a hoj e u m ecossistema , e qu e é necessári o encara r sempr e n a su a totalidade , o cresciment o demográfic o pod e revelar­s e desastros o par a a espéci e particula r qu e nel e viss e

a prov a d o se u sucesso . Mesm o supond o qu e a humanidad e

tom e consciênci a do s perigo s qu e a ameaçam , consig a ultra ­ passá­lo s e s e torn e senhor a d o se u futur o biológico , nã o vemo s com o é qu e a prátic a sistemátic a d a eugeni a escapar á a o dilem a qu e a mina : o u s e engana m e faze m um a cois a com ­ pletament e diferent e d a qu e s e propunham , o u tê m sucess o e , ness e caso , um a ve z qu e o s produto s sã o superiore s ao s seu s autores , é inevitáve l qu e eles nã o venha m a descobri r qu e este s deveria m te r feit o um a cois a muit o diferent e daquil o qu e fizeram , o u seja , eles .

A s consideraçõe s precedente s acrescentam , assim , razõe s

suplementare s à s dúvida s qu e o etnólog o poss a te r quant o à

su a capacidad e par a resolve r po r s i mesmo , e armad o s ó do s

recurso s d a su a disciplina , o s problema s posto s pel a lut a con ­ tr a o s preconceito s raciais . Desd e h á un s quinz e ano s qu e el e tom a um a consciênci a cad a ve z maio r d e qu e este s problema s

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reflecte m à escala human a u m problem a muit o mai s vast o e

cuj a soluçã o é aind a mai s urgente : o da s relaçõe s entr e o

home m e a s outra s espécie s vivas , e qu e nã o servir á par a nad a

pretende r resolvê­l o n o primeir o aspect o s e el e nã o fo r tam ­

bé m abordad o n o outro , send o absolutament e verdad e qu e o

respeit o qu e desejamo s obte r d o home m e m relaçã o ao s seu s semelhante s nã o é senã o u m cas o particula r d o respeit o qu e el e deveri a senti r po r toda s a s forma s d e vida . A o isola r o home m d o rest o d a criação , definindo­lh e co m demasiad a estreitez a o s limite s qu e del a o separam , o humanism o ociden ­ ta l herdad o d a Antigüidad e e d o Renasciment o privou­ o d e um a camad a protector a e , prova­ o a experiênci a d o sécul o passad o e d o presente , expô­l o se m defes a suficient e a assalto s lançado s dentr o d a própri a praça­forte . El e permiti u qu e sejam rejeitadas , par a for a da s fronteira s arbitrariament e esta ­

belecidas , fracçõe s cad a ve z mai s próxima s d e um a humani ­ dad e a qu e s e podi a co m tant o maio r facilidad e recusa r a mesm a dignidad e qu e a o resto , quant o no s viemo s a esquece r que , s e

o home m é par a respeitar , é­ o acim a d e tud o com o se r viv o

muit o mai s d o qu e com o don o e senho r d a criação : primeir o reconheciment o qu e o teri a obrigad o a da r prova s d e respeit o par a co m todo s o s sere s vivos . Nest e aspecto , o Extrem o Orient e budist a permanec e depositári o d e preceito s qu e seri a desejáve l qu e o rest o d a humanidad e n o se u conjunt o seguisse , o u nele s aprendess e a inspirar­se .

Finalmente , h á um a últim a razã o par a qu e o etnólog o hesite , nã o decert o n o combat e ao s preconceito s raciai s — um a vez qu e a su a ciênci a j á contribui u poderosament e par a ess a

lut a e ela nã o s ó continu a com o continuar á a fazê­l o — , ma s

e m crer , com o o incita m co m demasiad a freqüênci a a crer ,

qu e a difusã o d o sabe r e o desenvolviment o d a comunicaçã o

entr e o s homen s conseguirã o u m di a fazê­lo s vive r e m bo a harrmonia , n a aceitaçã o e respeit o pel a su a diversidade . N o decurs o dest a exposição , sublinhe i po r diversa s veze s qu e a fusã o progressiv a d e populaçõe s at é a o present e separada s

pel a distânci a geográfica , be m com o po r barreira s lingüística s

e culturais , marcav a o fi m d e u m mund o qu e fo i o do s homen s

durant e centena s d e milênios , quand o ele s vivia m e m peque ­

no s grupo s durant e long o temp o separado s un s do s outro s e

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cad a u m evoluind o d e maneir a diferente , tant o n o plan o bio ­ lógic o com o n o plan o cultural . A s convulsõe s desencadeada s pel a revoluçã o industria l e m expansão , a rapide z crescent e do s meio s d e transport e e d e comunicaçã o destruíra m esta s barreiras . A o mesm o temp o desaparecera m a s oportunidade s qu e ela s oferecia m par a qu e s e criasse m e fosse m posta s à prov a nova s combinaçõe s genética s e nova s experiência s cul ­ turais . Po r isso , nã o s e pode m esconde r que , apesa r d a su a urgent e necessidad e prátic a e do s elevado s fin s morai s qu e ela s e propõe , a lut a contr a toda s a s forma s d e discriminaçã o particip a dess e mesm o moviment o qu e condu z a humanidad e par a um a civilizaçã o mundial , destruidor a desse s velho s par ­ ticularismo s a qu e cab e a honr a d e tere m criad o o s valore s estético s e espirituai s qu e dã o à vid a o se u valo r e qu e nó s recolhemo s preciosament e na s biblioteca s e no s museu s po r no s sentirmo s cad a ve z meno s capaze s d e o s produzir . É inegáve l qu e no s embalamo s n o sonh o d e qu e a igual ­ dad e e a fraternidad e reinarã o u m di a entr e o s homens , se m qu e a su a diversidad e seja comprometida . Ma s s e a humani ­ dad e nã o s e resigna r a tornar­s e a consumidor a estéri l do s único s valore s qu e soub e cria r n o passado , unicament e capa z d e da r à lu z obra s bastardas , invençõe s grosseira s e pueris , el a dever á reaprende r qu e tod a a verdadeir a criaçã o implic a um a cert a surde z a o apel o d e outro s valores , podend o i r at é à su a recusa , senã o mesm o at é à su a negação . Porqu e nã o s e pode , a o mesm o tempo , fundir­s e n o goz o d o outro , identificar­s e co m ele , e manter­s e indiferente . Plenament e alcançada , a comunicaçã o integra l co m o outr o condena , mai s tard e o u mai s cedo , a originalidad e d a su a criaçã o e d a minha . A s gran ­ de s época s criadora s fora m aquela s e m qu e a comunicaçã o s e tornar a suficient e par a qu e parceiro s afastado s s e estimulas ­ sem , se m qu e n o entant o foss e excessivament e freqüent e e rápid a par a qu e o s obstáculos , tã o indispensávei s entr e o s indivíduo s com o entr e o s grupos , s e reduzissem , a pont o d e troca s demasiad o fáceis vire m a iguala r e confundi r a su a diversidade . A humanidad e encontra­se , pois , expost a a u m dupl o perigo , cuj a ameaç a o etnólog o e o biólog o avalia m d e igua l modo . Convicto s d e qu e a evoluçã o cultura l e a evoluçã o

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orgânic a sã o solidárias , ele s sabe m qu e o regress o a o passad o é impossível , claro , ma s també m qu e a vi a pel a qua l o s homen s enveredara m hoj e acumul a tensõe s tai s qu e o s ódio s raciai s oferece m um a image m muit o pobr e d o regim e d e intolerânci a exacerbad a qu e corremo s o risc o d e ve r instaurad o amanhã , mesm o se m qu e a s diferença s étnica s possa m vi r a servir­lh e d e pretexto . Par a contorna r este s perigos , o s d e hoj e e os , aind a mai s temíveis , d e u m futur o próximo , é precis o qu e no s convençamo s d e qu e a s sua s causa s sã o muit o mai s profunda s d o qu e aquela s simplesment e imputávei s à ignorânci a e ao s preconceitos : nã o podemo s pô r a noss a esperanç a senã o num a mudanç a d o curs o d a história , aind a mai s difíci l d e alcança r d o qu e u m progress o n o da s idéias .

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CAPÍTUL O I I

O ETNÓLOG O PERANT E A CONDIÇÃ O HUMAN A

A etnologi a — o u a antropologia , com o s e prefer e dize r presentement e — ­ assum e o home m com o object o d e estudo , ma s difer e da s outra s ciência s humana s po r aspira r a com ­ preende r o se u object o na s sua s manifestaçõe s mai s diversas . É po r est a razã o qu e a noçã o d e condiçã o human a fic a po r ela marcad a co m um a cert a ambigüidade : pel a su a generali ­ dade , o term o parec e ignorar , ou , pel o menos , reduzi r à uni ­ dade , diferença s qu e a etnologi a te m po r finalidad e essencia l (orna r e isola r par a sublinha r o s particularismos , ma s nã o se m postula r u m critéri o implícit o — exactament e o d a con ­ diçã o humana— , s ó el e permitind o circunscreve r o s limite s externo s d o se u objecto . Toda s a s tradiçõe s intelectuais , incluind o a nossa , s e defrontara m co m est a dificuldade . O s povo s estudado s pelo s etnólogo s nã o concede m a dignidad e d e um a condiçã o ver ­ dadeirament e human a senã o ao s seu s membro s e confunde m o s outro s co m a animalidade . Encontra­s e est e costum e nã o soment e entr e o s povo s dito s primitivos , com o també m tant o n a Gréci a antiga , com o n a antig a Chin a e n o antig o Japão , onde , num a curios a aproximaçã o qu e seri a bo m aprofundar , a s língua s do s povo s qualificado s com o bárbaro s era m simul ­ taneament e comparada s co m o chilrea r do s pássaros . Nã o s e

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dev e esquecer , co m efeito , qu e par a o humanism o antig o a cultur a (cuj o sentid o primeiro , muit o temp o considerad o o único , s e refer e a o trabalh o d a terra ) te m po r objectiv o o aperfeiçoament o d e um a naturez a selvagem , que r sej a a d o solo , que r seja a d o indivídu o aind a «po r cultivar» ; perfecti ­ bilidad e que , n o últim o caso , libert a o indivídu o da s servidõe s mentai s inerente s a o se u passad o e a o se u grup o e qu e lh e permit e ascende r a o estad o civilizado . Mesm o a etnologi a n a fase inicia l nã o hesit a e m enfileira r o s povo s qu e estud a e m categoria s separada s d a nossa , pon ­ do­o s o mai s próxim o d a natureza , com o o implic a a etimolo ­ gi a d o term o «selvagem » e , d e maneir a mai s explícit a a expres ­ sã o alem ã Naturvõlkern; o u entã o for a d a história , quand o o s denomin a «primitivos » o u «arcaicos» , o qu e constitu i u m outr o mod o d e lhe s recusa r u m atribut o constitutiv o d a condiçã o humana . A parti r do s seu s início s n o começ o d o sécul o XIX , at é à primeir a metad e d o sécul o XX , a reflexã o etnológic a consa ­ grou­s e largament e a descobri r com o concilia r a unidad e pos ­ tulad a d o se u object o co m a diversidade , e muita s veze s a incomparabilidade , da s sua s manifestaçõe s particulares . Par a isso , fo i necessári o qu e a noçã o d a civilização , conotand o u m conjunt o d e aptidõe s gerais , universai s e transmissíveis , cedess e

o luga r à d e cultura , tomad a num a nov a acepção , poi s el a

denot a entã o outro s tanto s estilo s d e vid a particulares , nã o transmissíveis , compreendido s so b a form a d e produçõe s concreta s — técnicas , usos , costumes , instituições , crença s — , mai s d o qu e d e capacidade s virtuais , e correspondend o a valo- res observávei s e m luga r d e verdades, o u com o ta l supostas .

Demorari a demasiad o temp o volta r a traça r aqu i a s origen s

filosófica s dest a iniciativa . El a proced e manifestament e d e um a dupl a origem . Primeiro , a escol a históric a alemã , que , d e Goeth e a Ficht e e d e Ficht e a Herder , s e afasto u progressiva ­ ment e da s pretensõe s generalizante s par a atingi r a s diferença s mai s d o qu e a s semelhanças , e defender , contr a a filosofi a d a história , o s direito s e a s virtude s d a monografia . Nest a pers ­ pectiva , ser á bo m nã o esquece r qu e o s grande s paladino s d a

tes e d o relativism o cultura l n o sécul o XX , Boas , Kroeber ,

Malinowsk i e m parte , era m d e formaçã o alemã . Um a outr a

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corrent e tev e a su a font e n o empirism o anglo­saxã o ta l com o el e s e manifest a e m Lock e e , depois , e m Burke . Importad o e m Franç a po r d e Bonald , mistura­s e a í co m a s idéia s d e Vic o —ess e anti­Descarte s d e qu e s e descobr e hoj e o pape l d e percurso r d o pensament o etnológic o — , pár a desemboca r n o empreendiment o positivista , demasiad o impacient e e m cons ­ titui r u m sistema , a parti r d e um a bas e experimenta l aind a sumária , a diversidad e do s modo s d e agi r e d e pensa r d a humanidade .

sécul o XX , a

etnologi a procur a n a noçã o d e cultura , acim a d e tudo , u m critéri o qu e permit a reconhece r e defini r a condiçã o humana , d e um a maneir a paralel a àquel a co m qu e Durkhei m e a su a escola , n a mesm a époc a e co m um a intençã o comparável , recorria m à noçã o d e sociedade . Ma s a noçã o d e cultur a põ e imediatament e doi s problema s qu e são , s e assi m o poss o dizer , o s d a su a utilizaçã o n o singula r e n o plural . S e a cultur a — n o singula r e mesmo , eventualmente , co m maiúscula — é o atribut o distintiv o d a condiçã o humana , quai s o s traço s uni ­ versai s qu e el a inclu i e com o defini r a su a natureza ? Ma s se , po r outr o lado , a cultur a s e manifest a apena s so b forma s pro ­ digiosament e diversa s qu e ilustram , cad a um a dela s à su a maneira , a s quatr o mi l o u cinc o mi l sociedade s qu e existe m o u existira m sobr e a Terr a e sobr e a s quai s nó s possuímo s informaçõe s úteis , serã o essa s forma s toda s equivalente s ape ­ sa r da s aparências , o u serã o passívei s d e juízo s d e valo r que , e m cas o afirmativo , s e repercutirã o inevitavelment e sobr e o sentid o d a própri a noção ?

J á e m 1917 , nu m célebr e artig o intitulad o The Superor- ganic, o grand e etnólog o american o Alfre d Kroebe r s e empenhav a e m responde r à primeir a interrogação . A cul ­ tur a constitui , a seu s olhos , um a orde m específica , tã o dife ­ rent e d a vid a com o est a o é d a matéri a inanimada . Cad a orde m implic a a qu e a precede , ma s a passage m d e um a par a a outr a é marcad a po r um a descontinuidad e significativa . U m pouc o á maneir a d e u m recif e d e cora l continuament e segregad o pelo s indivíduo s qu e alberga , anterior , contudo , ao s seu s actuai s ocupante s qu e outro s po r se u turn o substituirão , a cultur a dev e se r concebid a com o um a concrecçã o d e técnicas ,

Ta l com o s e desenvolv e n o decurs o d o

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d e costumes , d e idéia s e d e crenças , se m dúvid a engendrada s po r indivíduos , ma s mai s duráve l d o que , qualque r deles , À segund a interrogação , a etnologi a respond e tradicio ­ nalment e co m a teori a d o relativism o cultural . Nã o s e neg a a realidad e d o progresso , ne m a possibilidad e d e ordena r a s cultura s encarada s uma s e m relaçã o à s outras , nã o d e maneir a global , ma s si m so b aspecto s isolados . Considera­s e todavi a que , mesm o restrita , est a possibilidad e s e submet e a trê s limi ­ tações :

1 ) Incontestáve l quand o s e encar a a evoluçã o d a huma ­ nidad e num a perspectiv a aérea , o progress o nã o s e manifesta , n o entanto , senã o e m sectore s particulare s e , mesm o aí , d e maneir a descontínua , se m prejuíz o d e estagnaçõe s e d e regressõe s locais ; 2 ) Quand o examin a e compar a e m detalh e a s sociedade s d e tip o pré­industria l qu e sã o ò se u estud o preferen ­ cial , a etnologi a falh a n a descobert a d e u m métod o qu e permit a ordená­la s a toda s num a escal a comum ; 3 ) Finalmente , a etnologi a reconhece­s e incapa z d e faze r u m juíz o d e orde m intelectua l o u mora l sobr e o s valore s respectivo s dest e o u daquel e sistem a d e crenças , o u sobr e est a o u aquel a form a d e organiza ­ çã o social , send o par a el a o s critério s d e morali ­ dade , po r hipótese , sempr e funçã o d a sociedad e e m particula r e m qu e ele s fora m enunciados .

Durant e pert o d e mei o século , o relativism o cultural , e a separaçã o prejudicia l qu e el e implic a entr e a orde m d a natu ­ rez a e a orde m d a cultura , tivera m quas e o valo r d e u m dogma . Ma s est e dogm a viu­s e progressivament e ameaçad o e m diver ­ sas frentes . E m primeir o lugar , d o interior , devid o à s excessi ­ va s simplificaçõe s imputávei s à escol a dit a funcional , que , principalment e co m Malinowski , acabo u po r vi r a subestima r a s diferença s entr e a s culturas , ind o at é a o reenvi o d a diversi ­ dad e do s costumes , da s crença s e da s instituiçõe s par a outro s tanto s meio s equivalente s d e satisfaçã o da s necessidade s mai s elementare s d a espécie ; d e ta l mod o qu e pôd e te r sid o dit o que , nunc a ta l concepção , a cultur a nã o é mai s d o qu e um a imens a metáfor a d a reproduçã o e d a digestão

Po r outr o lado , o s etnólogos , inspirado s po r u m pro ­ fund o respeit o pelo s povo s qu e estudavam , proibira m a s i próprio s a formulaçã o d e juízo s sobr e o valo r comparad o da s sua s cultura s e d a nossa , n o moment o e m qu e esse s povos , ascendend o à independência , nã o pareciam , po r se u lado , alimenta r qualque r dúvid a acerc a d a superioridad e d a cul ­ tur a ocidental , pel o meno s n a boc a do s seu s dirigentes . Este s chega m mesm o a acusar , po r vezes , o s etnólogo s d e prolon ­ gare m insidiosament e o domíni o colonial , contribuind o assim , pel a atençã o exclusiv a qu e lhe s prestam , par a o perpetua r da s prática s antiquada s qu e constituem , segund o eles , u m obstá ­ cul o a o desenvolvimento . O dogm a d o relativism o i cultura l é , assim , post o e m caus a po r aquele s mesmo s e m benefíci o

do s quai s o s etnólogo s tinha m acreditad o edictá­ló .

Mas , acim a d e tudo , a noçã o d e cultura , a descontinuidad e d o superorgânico , a diferenciaçã o fundamenta l entr e o domí ­

ni o d a naturez a e o d a cultura , sofreram , apó s cerc a d e vint e

anos , o s assalto s convergente s d e especialista s pertencente s a disciplina s vizinha s e qu e põe m à frent e trê s orden s d e factos .

Po r u m lado , a descobert a n a Áfric a Orienta l d e resto s

d e hominídeo s qu e fabricava m utensílio s parec e prova r qu e a emergênci a d a cultur a antecede u o Homo sapiens vário s milha ­

re s d e anos . Mesm o um a indústri a lític a tã o complex a com o

a d o achenliano , velh a d e centena s d e milhare s d e ano s é hoj e atribuíd a a o Homo erectus, j á homem , ma s co m um a morfolo ­

gi a cranian a nitidament e diferent e d a nossa . Mai s grav e ainda , a descobert a d e qu e o s chimpanzés ,

vivend o e m estad o selvagem , fabrica m e utiliza m um a ferra ­ ment a primári a e d e qu e s e pod e ensina r a chimpanzé s e gori ­

la s e m cativeir o um a linguage m gestual , com o a do s surdos ­

­mudos , o u basead a n a manipulaçã o d e ficha s d e forma s e core s diferentes , invalida , ao s olho s d e alguns , a crença , at é entã o indiscutida , d e qu e o us o d e utensílio s e a poss e d a lin ­ guage m articulad a constitue m o s doi s atributo s distintivo s d a condiçã o humana .

Enfim , sobretud o desd e h á um a dezen a d e anos , fo i ofi­ cialment e constituíd a no s Estado s Unido s um a nov a disci ­ plina , a sociobiologia , qu e refut a a própri a noçã o d a condi ­ çã o humana , um a ve z que , segund o o se u fundador , Edwar d

55

O . Wilso n (1975 : 4) , «a sociologia e outras ciências sociais, como

também as ciências humanas, são os últimos ramos da biologia que

ainda falta integrar na síntese moderna". Eminent e especialist a d a

vid a socia l do s insectos , à qua l consagro u um a obr a e m 1971 ,

Wilso n estendeu , mai s tarde , a s sua s conclusõe s ao s vertebra ­ dos ; a seguir , num a terceir a fase —marcad a pel a últim a part e d o se u livr o d e 1975 e pel a su a obr a mai s recente , On Human Nature (1978) , qu e acabo u d e se r traduzid a par a o francês— ,

à própri a humanidade .

A taref a inscreve­s e n o quadr o d o neodarwinismo , o u

seja, d o darwinism o esclarecid o e afinad o pel a genética . Ma s

el a nã o teri a sid o possíve l se m um a teori a qu e dat a d e 1964 ,

graça s à qua l o matemátic o inglê s W . D . Hamilto n acredito u pode r resolve r um a dificuldad e da s hipótese s darwinianas .

À aproximaçã o d e u m predador , o primeir o gai o qu e del e s e

aperceb e lanç a u m grit o especia l par a alerta r o s seu s congêne ­

re s e o coelh o faz a mesm a coisa , tamboriland o o solo ; poder ­

­se­i a cita r outro s exemplos . Com o explica r esta s conduta s

altruísta s d a part e d e u m indivídu o qu e s e expõ e a o assinala r

a su a presenç a e , po r isso , s e arrisc a a se r a primeir a vítima ?

A respost a dad a é dupla : primeiro , postula­s e qu e a selecçã o

natura l actu a a o níve l d o indivídu o mai s d o qu e a o d a espé ­

cie ; e m seguida , qu e o interess e biológic o d e u m indivídu o é ,

sempr e e po r tod a a parte , o d e assegura r a perpetuaçã o e , s e possível , a expansã o d o se u patrimôni o genético . Ma s u m indivídu o qu e s e sacrific a pel a salvaçã o d e parente s próximo s

o u mesm o afastado s — o s quai s sã o portadores , n o tod o o u e m parte , do s mesmo s gene s — pode , com o cálculo s muita s veze s complicado s o demonstram , assegura r melho r a sobre ­ vivênci a d o se u patrimôni o genétic o a o fazê­l o d o qu e s e escapass e sozinh o à destruiçã o d e todo s o s seu s parentes .

Co m efeito , u m indivídu o partilh a metad e do s seu s gene s

co m o s seu s irmão s e irmãs , um a quart a part e co m o s seu s

sobrinho s e sobrinhas , u m oitav o co m o s seu s primos . O se u patrimôni o genétic o será , assim , beneficiad o s e el e s e sacrifica r

à salvaçã o de , pel o menos , trê s germanos , cinc o sobrinho s o u

nov e primo s

A o criare m o term o inclusive fitness, o s socio ­

56

biólogo s anglo­saxõe s quisera m dize r qu e a adaptação d o indi ­ víduo , entendid a n o sentid o mai s egoísta , s e defin e e m relaçã o ao s seu s gene s e inclui, pois , a o mesm o títul o qu e ele , o s vecto ­ re s d o mesm o patrimôni o biológico . A parti r daí , tud o s e torn a possíve l par a o teórico . Um a abelh a te m metad e do s seu s gene s e m comu m co m a su a mãe , ma s trê s quarto s co m a s sua s irmã s (devid o à haploidi a d a espécie : o s macho s nasce m d e ovo s nã o fecundados , a s fêmea s d e ovo s fecundado s durant e o vo o nupcial) ; assim , cad a obreir a perpetu a melho r o se u patrimôni o genétic o permanecend o estéril , condiçã o qu e lh e permit e cuida r da s irmã s e m luga r d e da r à lu z filhas . Nad a é mai s tentado r d o qu e alarga r est e tip o d e raciocí ­ ni o à s sociedade s humanas , e m qu e tanta s conduta s institu ­ cionalizada s parece m aberrante s quand o encarada s pel o ângul o d o darwinism o clássico . Bast a remete r toda s esta s conduta s par a a adaptaçã o inclusiva : o s hábitos , o s costumes , a s institui ­ ções , a s lei s sã o outro s tanto s dispositivo s qu e permite m ao s indivíduo s perpetua r melho r o se u patrimôni o genético ; n o cas o contrário , ele s servem­lhe s melho r par a perpetua r o do s seu s parentes . E s e nenhu m surgi r n o horizonte , com o n o cas o d o soldad o qu e s e sacrific a par a salva r o s seu s camarada s d e combate , portadore s d e outro s patrimônio s genéticos , intro ­ duzir­se­á , a o lad o d o «altruísm o duro» , a hipótes e d e u m "altruísm o mole» : o sacrifíci o d o heró i co m o objectiv o d e mante r e reforça r u m clim a mora l ta l que , nu m futur o inde ­ terminado , o s portadore s d o se u patrimôni o genétic o seja m beneficiado s pel o sacrifíci o simila r d e u m concidadão . É verdad e qu e Wilso n pretende , e m vária s ocasiões , nã o quere r explica r senã o um a part e d a cultura , d a ordem , afirma , do s de z po r cento . Ma s afirmaçõe s surpreendente s desmente m a iod o o instant e est a modésti a fingida : qu e a ideologi a do s direito s d o home m deriv a directament e d a noss a naturez a d e mamíferos ; qu e a moralidad e te m po r únic a funçã o mante r intact o o materia l genético ; qu e s e pod e analisa r e explica r d e maneir a sistemátic a a art e e a religiã o com o produto s d a evo ­

luçã o d o cérebr o

"Se o cérebro evoluiu por selecção natural, mesmo a escolha de juízos estétícos e de crenças religiosas devem, na suà particularidade, resul-

Co m efeito , escrev e Wilso n (197 8 : 2) :

57

tar do mesmo mecanismo[

O espírito humano é um

dispositivo para assegurar a sobrevivência e a reprodução." A homossexualidad e põe , entretanto , est e problema : com o

A. espécie não conhece qualquer objec-

tico exterior à sua natureza biológica[

]

]

é

qu e o s gene s qu e a el a predispõe m o s seu s portadore s pode ­

o perpetuar­s e se , po r definição , o s homossexuai s nã o tê m

filhos ? Imperturbável , o sociobiólog o respond e que , na s

sociedade s arcaicas , o s homossexuais , se m encargo s familia ­

re s próprios , podia m po r iss o mesm o ajuda r melho r o s seu s

parente s próximo s a cria r u m maio r númer o d e crianças , a s

quai s contribuiria m par a propaga r o patrimôni o genétic o comum . Colega s d e Wilso n encontra m mesm o um a justifica­

çã o biológic a par a o infanticídi o da s raparigas , praticad o e m

diversa s sociedades : a s rapariga s poupada s teria m um a van ­ tage m biológic a n o fact o d e o filh o mai s velh o d a famíli a se r

u m rapaz , qu e protegeri a a s sua s irmã s mai s novas , assegura ­ ri a o çeu casament o e emprestari a esposa s ao s seu s irmão s mai s novo s (Alexander , 1974 : 370) . Joven s antropólogo s segue m esta s pisada s e descobre m razõe s biológica s par a a s diversa s maneiras , n o entant o mui ­

tíssim o pouc o naturais , com o o s povo s qu e ele s estuda m concebe m a s relaçõe s d e parentesco . A s sociedade s patrilinea­ .

re s nã o reconhece m o parentesc o uterin o e a s sociedade s matri ­ lineare s faze m um a discriminaçã o e m sentid o inverso . N o entanto , o s único s progenitore s reconhecido s partilha m co m

o s outro s o mesm o patrimôni o genético . L á po r iss o nã o seja

a dúvida : é­no s explicad o qu e a filiaçã o unilinea r oferec e tai s vantagen s d e simplicidad e e d e clarez a qu e permit e a milhõe s d e indivíduo s assegura r melho r um a selecçã o sempr e preten ­

did a inclusiva , embor a el a exclua , d e facto , metad e do s seu s

parentes . Mai s pert o d e nós , segund o o s mesmo s autores , a s revoluçõe s tê m u m significad o acim a d e tud o biológico : com o manifestaçõe s d e concorrênci a entr e grupo s par a controla r recurso s raro s o u rarefeitos , cuj a posse , e m últim a análise , determin a a su a capacidad e d e reprodução .

É evident e qu e co m esta s hipótese s par a todo s o s gosto s

s e pod e explica r nã o import a o quê : tant o um a situaçã o com o

o se u contrário . É a vantage m e o inconvenient e da s teoria s

redutoras . A psicanális e j á no s tinh a habituad o a este s exercí ­

58

cio s d e funanbulism o e m que , pel o preç o d e um a cert a agili ­ dad e dialéctica , s e te m a certez a d e volta r a cai r sobr e o s próprio s pés . Ma s o s argumento s do s sociobiólogo s nã o sã o apena s simplistas . Ele s contradizem­s e n a própri a formulaçã o qu e é oferecid a pelo s seu s autores . Com o poderi a a ideologi a do s direito s humano s deriva r d a noss a naturez a d e mamífero s (long o temp o d e gestação , pouca s cria s po r parto , incitand o a atribui r a cad a indivídu o u m valo r particular) , s e — o própri o Wilso n o destac a (197 8 : 198) — a idéi a do s direito s humano s nã o te m aplicaçã o geral , ante s surgind o com o um a invençã o recent e d a civilizaçã o euro­americana ? Par a explica r a persis ­ tênci a do s gene s responsáveis , segund o ele , pel a homossexua ­ lidad e ( e cuj a existênci a parec e muitíssim o hipotética) , o noss o auto r vê­s e obrigad o a postula r qu e «as práticas sexuais são, primeiro que tudo, meios para estabelecer um laço durável entre indi- víduos acasalados e, a título secundário, apenas, meios para garantir a procriação»; d e ond e conclu i qu e o judaísm o e o cristianismo , e m particula r a Igrej a Católica , nã o compreendera m nad a d o «significado biológico do sexo» (ibidem : 141) . Ma s qu e aconteci ­ ment o este , o d o cristianism o encarad o so b um a óptic a socio ­ biológica . O pensament o sociobiológic o encerr a um a contradiçã o mai s grav e e qu e parec e fundamental . Po r u m lado , afirma­s e qu e toda s a s forma s d a actividad e d o espírit o sã o determina ­ da s pel a adaptaçã o inclusiva ; po r outro , qu e nó s podemo s modifica r o destin o d a espéci e a o escolhermo s consciente ­ ment e entr e a s orientaçõe s instintiva s qu e o noss o passad o biológic o no s legou . Ma s da s duas , uma : o u esta s escolha s sã o elas própria s ditada s pela s exigência s d a todo­poderos a adaptaçã o inclusiva , e obedecemos­lh e aind a quand o acredi ­ tamo s escolher , o u est a possibilidad e d e escolh a é rea l e nad a permit e continua r a dize r qu e o destin o human o é exclusiva ­ ment e regid o pel a su a heranç a genética . É sobretud o est a maneir a d e pensa r froux a o qu e inquiet a uns sociobiólogos ; porqu e s e a s sua s reflexõe s ingênua s e implista s ne m sempr e o s leva m muit o long e n o se u impuls o — d a consideraçã o d a linguage m e m geral , o u d a aptidã o gera l par a a cultura , à pretensã o exorbitant e d e explica r pel a gené ­

59

tic a o s caractere s particulare s dest a o u daquel a cultur a —

concordar­se­ á facilment e co m ele s e m qu e a pesquis a do s papéi s respectivo s d o inat o e d o adquirid o n a condiçã o human a constitu i u m problem a d e primordia l importânci a e e m qu e é possíve l abordá­l o co m seriedad e depoi s d e a antig a antropo ­ logi a física e a s sua s hipótese s raciai s tere m dad o luga r à genétic a da s populações .

Pod e lamentar­s e qu e o s debate s e m torn o d a sociobio ­ logi a tenha m tomad o d e imediat o um a inclinaçã o passional ,

cuj o caracte r largament e factíci o est á muit o relacionad o co m

o fact o d e e m Franç a tere m sid o autore s d e tendência s esquer ­ dista s que m primeir o s e deixo u seduzi r pel a sociobiologia , e m qu e via m u m meio , d e inspiraçã o neorousseauniana , par a integra r o home m n a natureza ; ist o n o mesm o moment o e m qu e o s círculo s liberai s do s Estado s Unido s denunciava m

a sociobiologi a com o um a doutrin a neofascist a e lançava m

um a verdadeir a interdiçã o sobr e qualque r pesquis a destinad a

a descobri r n o home m particularidade s hereditária s e distin ­

tivas . Nã o seri a necessári o dize r que , co m muit a rapidez , a s

posiçõe s política s s e alinhara m e m ambo s o s lado s d o Atlân ­ tico , ma s nad a seri a mai s deploráve l par a o progress o d o conheciment o d o qu e decretar , nest e domíni o com o e m qual ­ que r outro , qu e h á assunto s tabus .

Hoj e sã o o s progresso s d a neurologi a qu e dã o a espe ­ ranç a d e pode r vi r a resolve r muit o velho s problema s filosófi­ cos , com o o d a orige m da s noçõe s geométricas . Porqu e s e o olh o e m primeir o luga r e o s corpo s geniculado s e m seguida ,

nã o fotografa m o s objecto s ma s reage m selectivament e a rela ­

çõe s abstractas : direcçã o horizontal , vertica l o u oblíqua , opo ­ siçã o entr e figur a e fundo , etc . — dado s primário s a parti r do s quai s o s objecto s sã o reconstruído s pel o córte x — , a questã o d e sabe r s e a s noçõe s geométrica s pertence m a u m mund o

d e idéia s platônica s o u s e sã o tirada s d a experiênci a deix a d e te r sentido : elas estã o inscrita s n o corpo . D o mesm o modo , s e a universalidad e d a linguage m articulada , n o homem , te m

a ve r co m a existênci a d e certa s estrutura s cerebrai s própria s

d a noss a espécie , da í result a que , com o essa s mesma s estruturas ,

60

a aptidã o par a a linguage m articulad a dev e te r um a bas e

genética . Nã o s e te m o direit o d e fixa r baliza s à s pesquisa s dest e

tipo , n a condição , n o entanto , d e no s convencermo s d e qu e o s problema s posto s pel a diversidad e do s grupo s humano s requere m po r part e do s investigadore s um a prudênci a qu e

lhe s te m faltad o co m demasiad a freqüência . Mesm o n o cas o

e m qu e certo s fenômeno s observávei s dependam , direct a o u indirectamente , d e factore s genéticos , te m d e saber­s e qu e este s consistirã o e m dosagen s infinitament e complexa s qu e o

biólog o s e declar a incapa z d e defini r e analisar .

Acim a d e tudo , jamai s no s devemo s esquece r d e que , n a orige m d a humanidade , s e a evoluçã o biológic a pôd e seleccio ­

na r traço s pré­culturai s com o a postur a vertical , a destrez a manual , a sociabilidade , o pensament o simbólico , a aptidã o par a vocaliza r e comunicar , muit o depress a o determinism o

entro u e m funcionamento , e m sentid o inverso . Diversament e d a maio r part e do s sociobiólogos , o s geneticista s sabe m muit o

be m qu e cad a cultura , co m a s sua s eoacçõe s fisiológica s e

(técnicas, a s sua s regra s d e casamento , o s seu s valore s morai s

e estéticos , a su a maio r o u meno r disposiçã o par a acolhe r imi ­ grantes , exerc e sobr e o s seu s membro s um a pressã o d e selec ­

çã o muit o mai s viva , cujo s efeito s s e faze m senti r també m

mai s rapidament e d o qu e a lent a evoluçã o biológica . Par a da r

u m exempl o muit o simples : nã o é o gen e qu e confer e um a

bo a resistênci a à s temperatura s polare s (supond o qu e el e

existe ) qu e de u ao s Inui t a su a cultura ; é , pel o contrário , est a

cultur a qu e favorec e o s mai s resistente s nest e aspect o e des ­ favorec e o s outros . A s forma s d e cultur a qu e o s homen s adopta m aqu i o u além , a s sua s maneira s d e vive r ta l com o prevalece m n o passad o o u prevalece m aind a n o present e

determina m o ritm o e a orientaçã o d a su a evoluçã o biológica , muit o mai s d o qu e sã o determinada s po r elas . O qu e dispensa ,

poi s a pergunt a sobr e s e a cultur a é o u nã o funçã o d e factore s

genéticos , porqu e é a selecçã o desse s factores , a su a dosage m relativ a e o s seu s arranjo s recíproco s qu e constitu i ante s u m efeito,entr e outros , d a cultura . O s sociobiólogo s raciocina m com o s e a condiçã o human a nã o obedecess e senã o a doi s tipo s d e motivações : umas , incons ­

61

ciente s e determinada s pel a heranç a genética , a s outra s saída s

d o pensament o raciona l e d e qu e s e nã o vê , dentr o d a própri a óptic a d a sociobiologia , com o nã o seria m redutívei s à s perce ­ dentes . Efectivamente , explicam­nos , aquel e qu e nã o sab e o

qu e faz te m um a vantage m genétic a sobr e aquel e qu e o sou ­

besse , poi s par a el e é proveitos o qu e o se u cálcul o egoíst a

sej a encarado , pelo s outro s e po r el e próprio , po r verdadeir o

altruísm o (Alexander , 1974 : 337) . Nã o s ó est e cálcul o egoísta ,

a qu e toda s a s conduta s humana s estaria m reduzidas , evoc a

curiosament e o espectr o d o velh o homo oeconomicus, hoj e e m

di a travestid o e m homo geneticus — u m fazend o o cálcul o do s

seu s proveitos , o outr o o do s seu s gene s — , com o é desco ­ nhece r qu e o qu e é própri o à condiçã o human a s e situ a intei ­ rament e num a terceir a ordem : a d a cultura , à qua l retornamo s apó s u m long o rodeio .

Or a a cultur a nã o é ne m natural , ne m artificial . El a nã o

di z mai s respeit o à genétic a d o qu e a o pensament o racional ,

poi s consist e e m regra s d e condut a qu e nã o fora m inventada s

e da s quai s aquele s qu e lh e obedece m nã o compreendem ,

regr a geral , a função : e m part e resíduo s d e tradiçõe s adquiri ­

da s no s diverso s tipo s d e estrutur a social , pelo s quais , n o

decorre r d e um a muit o long a história , cad a grup o human o passou ; e m part e também , regra s aceite s o u modificada s cons ­ cientement e co m vist a a u m fi m determinado . Ma s h á pouca s

dúvida s d e que , entr e o s instinto s herdado s d o noss o patri ­ môni o biológic o e a s regra s d e inspiraçã o racional , a mass a

da

s regra s inconsciente s permaneç a com o a mai s important e

e

continu i a se r a mai s eficaz, poi s a própri a razã o é , com o

Durkhei m e Maus s compreenderam , muit o mai s u m produt o d o qu e um a caus a d a evoluçã o cultural . Ist o continu a a se r verdade , mesm o qu e a linh a d e demar ­ caçã o entr e naturez a e cultur a no s surj a hoj e mai s tênu e e mai s sinuos a d o qu e s e imaginav a anteriormente . Elemento s daquil o qu e entendemo s po r cultur a aparece m aqu i e além , e m diversa s família s animais , nu m estad o disjunt o e e m orde m

dispersa . Chamfor t j á o dizia : « A sociedad e nã o é , com o habi ­ tualment e s e crê , o desenvolviment o d a natureza , ma s si m a

su a decomposição . É u m segund o edifício , construíd o co m

o s escombro s d o primeiro » {Máximas e Pensamentos, 8) . O qu e

62

caracteriz a o home m seria , assim , meno s a presenç a dest e o u daquel e element o d o qu e um a retomad a sintétic a d o se u con ­ junt o so b a form a d e totalidad e organizada . N a proporçã o

do s seu s nov e décimos , o home m e o chimpanz é partilha m o s

mesmo s cromossoma s e dev e tomar­s e e m consideraçã o o s seu s arranjo s respectivo s par a tenta r explica r a s diferença s d e

aptidõe s qu e separa m a s sua s espécies . Ma s nã o bast a defini r a cultur a po r propriedade s formais . S e devemo s ve r nel a o atribut o essencia l d a condiçã o humana , e m toda s a s época s e e m todo s o s povos , a cultur a deveri a lambe m exibi r aproximadament e o mesm o conteúdo . Po r

outra s palavras , haver á universais d a cultura ? Viço , qu e parec e

te r sid o o primeir o a pôr­s e a questão , distingui a três : a

gião , o casament o e m combinaçã o co m a proibiçã o d o incesto ,

reli­

e

o enterra r do s mortos . Traço s universai s d a condiçã o humana ,

se

m dúvida , ma s qu e nã o no s ensina m grand e coisa : todo s o s

tovo s d o mund o tê m crença s religiosa s e regra s d e casamento . Constatá­l o nã o é suficiente ; é també m precis o compreende r po r qu e razã o essas crenças , essas regras , difere m d e um a sociedad e par a outra , po r qu e razã o ela s sã o po r veze s con ­ traditorias . O cuida r do s mortos , po r recei o o u respeito , é universal ; ma s tant o s e manifest a e m prática s destinada s a afastá­lo s definitivament e d a comunidad e do s vivo s po r sere m perigosos , como , muit o pel o contrário , e m acçõe s destinada s a apoderar­s e deles , a implicá­lo s a tod o o moment o no s com ­ ­­­­­ do s vivos .

Atravé s d e registo s d e marcaçã o incidind o sobr e vária s centena s d e populações , o s etnólogo s —sobretud o o s ameri ­ canos , ­ ­ enriquecera m consideravelment e o inventári o e pro ­

pusera m um a list a d e traço s universais : classes etárias , despor ­

to s e atléticos , adornos , calendário , aprendizage m d a higien e

corporal , organizaçã o colectiva , cozinha , trabalh o d e coope ­ ração . cosmologia , galantaria , dança , art e decorativa , etc . Par a alé m d a facécia qu e é o reportóri o alfabético , este s deno ­ minadore s comun s nad a mai s sã o d o qu e categoria s vaga s e sem significação. Tal como se põe hoje aos etnólogos, o pro­ blema da cultura, logo da condição humana, consiste em des­ cobri r leis d e ordem , subjacente s à diversidad e observáve l da s crença s e da s instituições .

63

A s língua s d o mund o difere m e m diverso s grau s pel a

fonétic a e pel a gramática ; mas , po r mai s afastada s qu e sejam , ela s obedece m a coacçõe s que , essas sim , sã o universais . Seja qua l fo r a língu a considerada , a presenç a d e determinado s fonema s implic a o u exclu i a d e outro s fonemas : nenhum a língu a te m vogai s nasai s s e nã o tive r també m vogai s orais ;

a presença , num a língua , d e dua s vogai s nasai s qu e s e opõe m

implic a qu e dua s vogai s orai s nel a s e possa m defini r pel a pel a mesm a oposição ; e a presenç a d e vogai s nasai s implic a

a d e consoante s nasais . Nenhum a língu a distingu e o s fonema s

u e i s e nã o possui r u m fonem a a, a o qua l s e opõe m e m con ­

junt o o s outro s dois . Numerosa s língua s marca m o plura l acrescentand o à pala ­

vr a u m morfem a suplementar ; nenhum a faz o inverso . Um a

língu a qu e possu i um a palavr a par a «vermelho » te m necessa ­

riament e dua s par a «branco » e «negro» , o u «claro » e «escuro» ;

a presenç a d e um a palavr a par a «amarelo » implic a a d e um a

palavr a par a «encarnado» , etc . Inquérito s feito s parece m indi ­

ca r que , e m qualque r língua , a presenç a d e um a palavr a par a «quadrado » pressupõ e a d e um a palavr a par a «círculo»

N o princípi o d a minh a carreira , ocupei­m e da s regra s d o casamento . Esforcei­m e po r demonstra r qu e a s regra s aparen ­ tement e mai s oposta s ilustra m realment e variada s modalidade s

d e troca s d e mulhere s entr e grupo s humanos , que r seja d e

maneir a direct a e recíproca , que r d e maneir a diferida , seguind o ciclo s longo s d e reciprocidade , o u ciclo s curto s qu e sã o pos ­ sívei s d e determinar , apesa r d a diversidad e aparent e da s cren ­ ça s e do s costumes .

O s capítulo s qu e s e segue m ilustra m est a tentativa . Ver ­ ­se­ á assi m d e qu e maneir a a etnologi a contemporâne a s e empenh a e m descobri r e e m formula r dessa s lei s d e orde m e m diverso s registo s d o pensament o e d a actividad e humanas . Invariante s atravé s d e época s e d e culturas , s ó ela s poderã o permiti r qu e s e ultrapass e a antinomi a aparent e entr e a unici ­ dad e d a condiçã o human a e a pluralidad e aparentement e ines ­ gotáve l da s forma s so b a s quai s nó s a apreendemos .

64

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1970 Basic Color Terms: Their Universality and Evolution, Uni ­ versit y o f Califórni a Press .

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65

FAMÍLIA , CASAMENTO , PARENTESC O

«H á pouca s ocupaçõe s tã o interessantes , tã o absorventes , tã o plena s d e surpresa s e d e reve ­ laçõe s par a u m crítico , par a u m sonhado r cuj o espírit o estej a virad o par a a generaliza ­ ção , be m com o par a o estud o do s detalhes , e , par a dize r aind a melhor , par a a idei a d a orde m e d a hierarqui a universal , d o qu e a compara ­ çã o da s naçõe s e do s seu s respectivo s pro ­ dutos. »

B AUDELAiRE , Exposition Universelle de 1855 , i n Oeuvres Complètes, Bibl . d e I a Plêia ­ d e : 953 .

CAPÍTUL O II I

A FAMÍLI A

Tã o clar a parec e a palavra , tã o próxim a d a experiênci a

quotidian a a realidad e qu e el a encobre , qu e o qu e s e di z sobr e a família nã o deveri a constitui r mistério . N o entanto , o s etnó ­ bgo s descobre m a complicaçã o at é na s coisa s «familiares» .

A

verdad e é qu e o estud o comparad o d a famíli a suscito u entr e

ele

s discussõe s encarniçada s e qu e el e resultou , par a a teori a

etnológica , num a reviravolt a espectacular . Durant e a segund a metad e d o sécul o XI X e um a part e d o sécul o XX , so b a influênci a d o evolucionism o biológico , o s etnólogo s procurara m dispo r e m séri e unilinea s a s instituiçõe s qu e observava m po r tod o o mundo . Partind o d o postulad o

d e qu e a s nossa s era m a s mai s complexa s e a s mai s evoluídas ,

ele s via m na s instituiçõe s do s povo s dito s primitivo s a ima ­

ge m daquela s qu e teria m podid o existi r e m período s anteriore s d a históri a d a humanidade . E , um a ve z qu e a famíli a modern a assent a essencialment e sobr e o casament o monogâmico , infe ­

ria m daí qu e o s povo s selvagens , assimilado s pela s necessidade s

d a caus a a um a humanidad e aind a n a infância , nã o poderia m te r tid o senã o instituiçõe s d e característica s exactament e opostas. Foi entã o precis o trata r e deforma r o s facto s par a qu e ele s s e vergasse m à s hipóteses . Inventaram­s e pretenso s estado s

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arcaicos , com o a «promiscuidad e primitiva » e o «casament o d e grupo» , par a guarnece r um a époc a e m qu e o home m er a aind a tã o bárbar o qu e simplesment e nã o teri a podid o concebe r essa s forma s requintada s e enobrecida s d a vid a socia l cuj a fruiçã o pertenci a unicament e a o civilizado . Arrumad o n o luga r previst o d e antemão , devidament e etiquetado , cad a costum e diferent e do s nosso s podi a ilustra r um a da s etapa s percorrida s pel a humanidad e desd e a su a orige m at é ao s nosso s dias . Est a posiçã o foi­s e tornand o cad a ve z meno s sustentáve l à medid a qu e a etnologi a s e fo i enriquecend o co m novo s dados . Este s demonstrava m qu e o gêner o d e famíli a caracterizado , na s sociedade s contemporâneas , pel o casament o monogâmico , pel a residênci a independent e do s joven s esposos , pela s relaçõe s

afectiva s entr e pai s e filhos , etc . — traço s po r veze s difícei s d e destrinça r n o emaranhad o qu e par a nó s constitue m o s costume s do s povo s selvagen s — també m exist e nitidament e

na s sociedade s qu e permaneceram , o u qu e regredira m a u m

níve l cultura l qu e julgamo s rudimentar . Par a no s limitarmo s

a algun s exemplos , o s insulare s Andaman , d o Ocean o Indico ,

o s Fuegianos , d a pont a meridiona l d a Améric a d o Sul , o s Nambikwara , d o Brasi l central , o s Bosquímano s d a Áfric a d o Sul , vivia m e m pequeno s bando s seminómadas ; quas e nã o tinha m organizaçã o polític a e o se u níve l técnic o er a muit o baixo : algun s deste s povo s ignorava m o u nã o praticava m a tecelagem , a cerâmica , e nã o construía m habitaçõe s permanen ­ tes . Entr e eles , contudo , a únic a estrutur a socia l dign a dess e nom e er a a família , muita s veze s mesm o monogâmica . O obser ­ vado r nã o tinh a qualque r trabalh o e m identifica r o s pare s casados , estreitament e unido s po r laço s sentimentais , po r um a cooperaçã o econômic a d e todo s o s instante s e po r u m interess e comu m qu e prestava m ao s seu s filhos .

A famíli a conjuga i predomina , pois , na s dua s ponta s d a

escal a e m qu e s e pod e ordena r a s sociedade s humana s e m fun ­

çã o d o se u gra u d e desenvolviment o técnic o e econômico .

O fact o fo i interpretad o d e dua s maneiras . Na s sociedade s qu e colocava m n o fund o d a escala , algun s vira m o s último s tes ­ temunho s d e um a espéci e d e «idad e d e ouro» , qu e teri a rei ­ nad o ante s d e o s homen s tere m sofrid o o s rigore s e sid o expos ­

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to s à s perversõe s d e um a vid a mai s civilizada . Nest e estádi o arcaico , pretendeu­se , a humanidad e conhece u o s benefício s d a famíli a monogâmica , par a e m seguid a o s esquecer , at é o cristianism o o s te r voltad o a descobrir . Mas , s e exceptuarmo s a Escol a d e Viena , d a qua l tenh o estad o a referi r a posição , a tendênci a gera l é mai s a d e admiti r qu e a vid a d e famíli a exist e n o conjunt o da s sociedade s humanas , mesm o naquela s ond e o s costume s sexuai s e educativo s parece m o s mai s afastado s do s nossos . Assim , depoi s d e tere m afirmado , durant e pert o d e u m século , qu e a família , ta l com o s e observ a na s socie ­ dade s modernas , é u m fenômen o d e apariçã o relativament e recente , produt o d e um a long a e lent a evolução , o s etnólogo s inclinam­s e hoj e par a um a opiniã o oposta : a família , basead a n a uniã o mai s o u meno s duradoura , ma s socialment e aprovada , d e doi s indivíduo s d e sexo s diferente s qu e funda m u m lar , procria m e educa m o s seu s filhos , aparec e com o u m fenômen o praticament e universal , present e e m todo s o s tipo s d e socie ­ dades . Esta s posiçõe s extrema s peca m pel o simplismo . Conhe ­ cem­s e casos , raros , é verdade , e m qu e o s laço s d e famíli a ta l com o nó s o s concebemo s parece m nã o existir . Entr e o s Nayar , important e populaçã o d a índi a d a cost a d o Malabar , o s homens , absorvido s pel a guerra , nã o podia m funda r um a família . Ceri ­ môni a purament e simbólica , o casament o nã o criav a laço s per ­ manente s entre os cônjuges : a mulhe r casad a tinh a tanto s amante s quanto s quisess e e a s criança s pertencia m à linh a materna . A autoridad e familiar , o s direito s sobr e a terra , nã o era m exercido s pel o marido , personage m apagada , ma s si m pelo s irmão s da s esposas . E com o um a cast a inferio r a o ser ­ viç o do s Naya r aliviav a este s do s trabalho s agrícolas , o s irmão s d e um a mulhe r podia m consagrar­s e a o ofíci o da s arma s tã o livrement e com o o se u insignificant e marido . Desprezam­s e muita s veze s esta s instituiçõe s bizarras , vendo­s e nela s u m vestígi o d e um a organizaçã o socia l muit o arcaíca, outror a comu m à maio r part e da s sociedades . Alta ­ ment e especializada , est a do s Naya r é o produt o d e um a long a evoluçã o históric a e nã o pod e ensinar­no s seja o qu e fo r sobr e a s etapa s antiga s d a vid a d a humanidade . E m contra ­ partida , nã o s e pod e pô r e m dúvid a qu e o s Naya r fornece m

71

um a image m ampliad a d e um a tendênci a mai s freqüent e na s sociedade s humana s d o qu e geralment e s e crê . Se m ire m tã o long e quant o o s Nayar , numerosa s socieda ­

de s restringe m o pape l d a famíli a conjugai : reconhecem­na ,

ma s com o um a fórmul a entr e outras . É o caso , e m África ,

do s Masa i e do s Chagga , entr e o s quai s o s homen s d a classe

adult a mai s jovem , destinado s à s ocupaçõe s guerreiras , vivia m e m formaçõe s militare s a estabelecia m relaçõe s sentimentai s

e sexuai s muit o livre s co m a s rapariga s adulta s d a class e cor ­ respondent e à sua . Er a soment e quand o saía m dest e períod o activ o qu e s e podia m casa r e funda r um a família . Dentr o d e u m sistem a destes , a famíli a conjuga i acompanh a portant o um a promiscuidad e institucionalizada .

Embor a po r razõe s diferentes , o mesm o dupl o regim e exis ­ ti a entr e o s Boror o e outra s tribo s d o Brasi l central , entr e o s Múri a e outra s tribo s d a índi a e d o Assame . Poder­se­i a arru ­ ma r todo s o s exemplo s conhecido s num a orde m e m qu e o s Naya r representaria m o cas o mai s coerente , mai s sistemátic o

e levad o at é à s sua s última s conseqüências . Ma s a tendênci a

qu e el e ilustr a manifesta­s e també m noutro s locai s e vemo­l a

reaparece r so b um a form a embrionári a mesm o na s nossa s sociedade s modernas . Fo i o cas o d a Alemanh a nazi , ond e a célul a familia r s e começo u a cindir : d e u m lad o o s homens , entregue s ao s tra ­

balho s político s e militare s e gozand o d e u m prestígi o socia l

qu e lhe s vali a um a grand e liberdad e d e conduta ; d o outro ,

a s mulheres , a que m o s «trê s K » resumia m tod a a vocação :

Küche, Kirche, Kinder, a cozinha , a igreja , o s filhos . Est a sepa ­ raçã o da s funçõe s masculina s e da s funçõe s femininas , pro ­ longad a durant e século s a o mesm o temp o qu e aumentav a a desigualdad e do s estatuto s respectivos , teri a podid o vi r a desemboca r nu m tip o d e organizaçã o socia l se m célul a fami ­

lia r reconhecida , com o entr e o s Nayar . O s etnólogo s j á tivera m muit o trabalh o par a demonstra r

qu e mesm o entr e o s povo s qu e pratica m o empréstim o d e

mulhere s (aquand o d e festa s religiosas , ou , d e maneir a mai s regular , entr e o s membro s d e aliança s privada s qu e compor ­ ta m tai s direito s recíprocos) , este s costume s nã o constitue m sobrevivência s d o «casament o po r grupo» : eles coexiste m co m

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a famíli a conjuga i e implicam­na . É verdad e que , par a pode r

empresta r a su a mulher , é precis o primeir o te r uma . N o entanto , diversa s tribo s australianas , com o o s Wunambal , n o Noroest e d o continente , julga m «muit o avarento » u m home m qu e s e recus e a empresta r a su a mulhe r a outro s marido s potenciai s n o decurs o d e cerimoniais : el e procur a guarda r par a s i pró ­

pri o u m privilégi o que , ao s olho s d o grupo , pod e se r reivin ­

dicad o po r todo s aquele s que , po r muit o numeroso s qu e possa m ser , lh e tê m igualment e acesso . Com o est a atitud e é

acompanhad a po r um a denegaçã o oficial d a paternidad e fisio ­

lógica , é a u m dupl o títul o qu e esta s populaçõe s nã o reconhe ­

ce

m o s laço s entr e o marid o d e um a mulhe r e o s filho s desta .

A

famíli a nã o é mai s d o qu e um a associaçã o econômic a e m

qu

e o home m contribu i co m o s produto s d a caça , a mulhe r

co m o s d a colect a e d a apanha . Quand o s e afirm a qu e um a

ta l célul a social , fundad a e m prestaçõe s d e serviço s recíprocos , prov a qu e a famíli a exist e e m tod a a parte , nã o s e est á a defen ­

de r um a tes e mai s convincent e d o qu e aquel a segund o a qua l

a «família» assi m definid a nã o te m absolutament e mai s nad a

e m comu m co m a família , tomad a n a acepçã o corrent e d o

termo , d o qu e o nome . É convenient e se r també m prudent e n o qu e respeit a à

família polígama , ist o é , aquel a e m qu e prevalec e tant o a poli ­ gini a — uniã o d e u m home m co m diversa s mulhere s — , com o

a poliandri a — uniã o d e um a mulhe r co m diverso s homens ,

lista s definiçõe s sumária s deve m se r graduadas . Po r vezes , a

família polígam a consist e e m vária s família s monógama s jus ­ tapostas : o mesm o home m é o espos o d e u m cert o númer o d e mulheres , cad a um a dela s instalada , co m o s seu s filhos , num a morad a e m separado . Ist o observa­s e co m freqüênci a e m África . Pel o contrário , entr e o s Tupi­Kawahi b d o Brasi l central , o chef e desposa , simultaneament e o u e m sucessão ,

várias irmã s o u um a mulhe r e a s sua s filha s qu e tenha m nas ­

cid o d e um a uniã o precedente . Esta s mulhere s cria m e m con ­

junt o o s seu s respectivo s filho s se m s e preocupare m muito , n o qu e parece , co m o fact o d e a crianç a d e qu e s e ocupa m se r o u nã o a sua . Alé m disso , o chef e emprest a d e bo a vontad e a s sua s mulhere s a irmão s mai s novos , ao s seu s companheiro s o u a hóspede s d e passagem . Trata­se , pois , d e um a combina ­

73

çã o d e poligini a e d e poliandria , qu e o s laço s d e parentesc o

entr e o s co­esposo s vê m aind a complicar . Conhec i entr e este s

índio s um a mulhe r e a su a filh a casada s co m o mesm o homem ; ela s cuidava m conjuntament e do s filhos , qu e era m a o mesm o temp o enteado s par a a s duas , neto s par a um a e meios­irmão s o u meias­irmã s par a a outra . Quand o à poliandri a propriament e dita , el e pod e reves ­ tir­s e d e forma s extremas , com o entr e o s Tod a d a índia , e m qu e vário s homens , e m gera l irmãos , partilhava m a mesm a mulher . Quand o nasci a u m filho , er a o pa i lega l que m cele ­

brav a um a cerimôni a especia l e el e continuav a a sê­l o d e toda s a s criança s qu e viessem , at é qu e u m outr o marid o decidiss e cumprir , po r se u turno , o s rito s d a paternidade . N o Tibet e

e n o Nepal , a poliandri a parec e explicar­s e po r razõe s socioló ­ gica s d a mesm a orde m qu e a s j á encontrada s no s Nayar : par a homen s submetido s à vid a errant e d e guia s o u d e carregado ­

res , a poliandri a oferec e um a oportunidad e d e have r sempr e

u m marid o e m cas a par a zela r pelo s assunto s domésticos . Ne m a poliandri a ne m a poligini a impede m qu e a famí ­ li a conserv e a su a identidad e legal , econômica , o u mesm o sentimental . O qu e s e passar á no s caso s e m qu e a s dua s fór ­

mula s coexistem ? At é u m cert o ponto , o s Tupi­Kawahi b ilustra m est a conjuntura : o chefe , com o j á s e viu , exerc e u m privilégi o poligâmic o e emprest a a s sua s mulhere s a diversa s categoria s d e indivíduos , membro s o u nã o d a su a tribo .

O laç o entr e o s esposo s difere , mai s e m gra u d o qu e e m natu ­

reza , d e outro s laços , qu e pode m se r alinhado s e m orde m

decrescente : amante s regulares , semipermanentes , ocasio ­

Mas , nest e caso , contudo , s ó o casament o verdadeir o

determin a o estatut o do s filhos , a começa r pel a su a filiaçã o

n o clã . A evoluçã o do s Tod a n o decurs o d o sécul o XI X aproxi ­ mar­nos­i a mai s daquil o a qu e s e chamo u «casament o po r grupo» . O s Tod a praticava m um a form a d e poliandri a favo ­

recid a pel o infanticídi o da s raparigas , qu e criav a à partid a

u m desequilíbri o entr e o s sexos . Quand o a administraçã o

britânic a proibi u est e últim o costume , o s Tod a continuara m

a pratica r a poliandria , co m a diferenç a d e que , e m ve z d e s e

partilha r um a únic a mulher , o s irmão s poderia m toma r várias .

nai s

74

Com o n o cas o do s Nayar , nã o s e poderi a interpreta r u m sis ­ tem a tã o afastad o d a famíli a conjuga i com o um a sobrevivên ­ cia . El e surgi u num a époc a relativament e recente , resultad o inesperad o d e u m conflit o entr e o s costume s locai s e a von ­ tad e d o colonizador . Seri a poi s errad o aborda r o estud o d a famíli a co m u m espírit o dogmático . A cad a instante , o object o qu e s e pen ­ sav a entende r oculta­se . Do s tipo s d e organizaçã o socia l qu e prevalecera m e m etapa s muit o antiga s d a históri a d a humani ­ dad e nã o conhecemo s muito . Mesm o n o qu e respeit a a o paleo ­ lític o superio r — nã o considerand o a s obra s d e arte , difícei s d e interpretar— , o s resto s d e ossada s e utensílio s líticos , velho s d e um a a dua s dezena s d e milênios , sã o pouc o pró ­ prio s par a no s esclarecere m sobr e a organizaçã o socia l e sobr e o s costumes . També m a o percorre r o imens o reportóri o da s sociedade s humanas , sobr e a s quai s possuímo s informaçõe s desd e Heródoto , tud o quant o s e pod e dizer , d o pont o d e vist a qu e no s interessa , é qu e a famíli a conjulga l surg e nela s co m muit a freqüênci a e que , ond e que r qu e seja qu e el a pareç a faltar , s e trat a geralment e d e sociedade s muit o evoluída s e não , com o s e poderi a espera r nest e caso , d e sociedade s mai s rudimentare s e mai s simples . E m contrapartida , existe m tipo s d e famíli a nã o conjuga l (polígam a o u não) ; s ó est e fact o bast a par a convence r d e qu e a famíli a conjuga i nã o prové m d e um a necessidad e universal , sendo , pel o menos , concebíve l qu e um a sociedad e poss a existi r e manter­s e se m ela . Da í o problema :

s e a universalidad e d a famíli a nã o é o efeit o d e um a le i natu ­ ral , com o explica r qu e a encontremo s po r quas e tod o o lado ? Par a avança r n a direcçã o d e um a solução , tentemo s defi ­ nir a família , nã o d e maneir a indutiva , adicionand o a s infor ­ maçõe s recolhida s na s sociedade s mai s diversas , ne m no s limitand o à situaçã o qu e prevalec e n a nossa , ma s si m cons ­

ruind o u m model o reduzid o d e alguma s propriedade s inva ­ riante s qu e u m rápid o golp e d e vist a no s permiti u j á discernir . Essa s propriedade s invariantes , o u caractere s distintivo s d a familia , sã o o s seguintes :

1 ) A famíli a te m a su a orige m n o casamento ;

75

2 ) El a inclu i o marido , a mulher , o s filho s nascido s d a su a união , formand o u m núcle o e m torn o d o qua l outro s parente s s e podem , eventualmente , agregar ;

3 ) O s membro s d a famíli a estã o unido s entr e s i por :

a) Laço s jurídicos ;

b) Direito s e obrigaçõe s d e naturez a econômica , religiosa , o u outra ;

c) Um a red e precis a d e direito s e proibiçõe s se ­ xuai s e u m conjunt o variáve l e diversificad o d e sentimentos , com o o amor , o afecto , o respeito , o medo , etc .

Examinemos , u m apó s outro , este s trê s aspectos .

Diferenciámo s doi s grande s tipo s d e casamento : monogâ ­ mic o e poligâmico , e é precis o sublinha r qu e o primeiro , d e long e o mai s vulgar , é­ o aind a mai s d o qu e u m inventári o rápid o deixari a pensar . Entr e a s sociedade s dita s poligâmicas , u m bo m númer o são­n o n o plen o sentid o d a palavra ; mas , outra s estabelece m um a diferenç a entr e a «primeira » espos a gozand o sozinh a d e toda s a s prerrogativa s d o estad o matri ­ monial , e a s esposa s secundárias , qu e nã o sã o nunc a mai s d o qu e concubina s oficiais . Po r outr o lado , e m toda s a s socie ­ dade s polígama s pouco s homen s podem , d e facto , te r vária s mulheres . O qu e é fáci l d e perceber , um a ve z que , e m qual ­ que r população , o númer o d e homen s e mulhere s é aproxima ­ dament e o mesmo , co m u m desníve l norma l d e cerc a d e de z po r cent o e m favo r d e u m o u outr o sexo . A prátic a d a poli ­ gami a depende , assim , d e determinada s condições : que r por ­ qu e s e suprim a voluntariament e a s criança s d e u m do s doi s sexo s (costum e verificad o e m algun s casos , com o o infanti ­ cídi o da s rapariga s entr e o s Toda) , que r porqu e a esperanç a d e vid a difer e conform e o sexo , como , po r exemplo , entr e o s Inui t o u e m vária s tribo s australiana s e m qu e o s homen s morre m mai s ced o d o qu e a s mulheres , devid o ao s perigo s a qu e s e expõe m n a caç a à balei a o u entã o n a guerra . També m é precis o considera r o cas o d e sociedade s fortement e hierar ­

76

quizadas , ond e um a class e privilegiad a devid o à idade , à

riqueza , o u po r prerrogativa s mágico­religiosas , s e atribui u

um a fracçã o substancia l da s mulhere s d o grupo , e m desfavo r

do s membro s mai s joven s o u meno s be m aquinhoados .

Conhecem­s e sociedades , sobretud o e m África , e m qu e é precis o ser­s e ric o par a te r muita s mulhere s (devid o a o casa ­ ment o po r compra) , ma s onde , a o mesm o tempo , um a plura ­ lidad e d e esposa s permit e a o home m enriquece r aind a mais :

el e dispõe , dess e modo , d e u m excedent e d e mão­de­obra , constituíd o pela s própria s mulhere s e pelo s seu s filhos . N o entanto , é evident e qu e a poligami a erigid a e m sistem a encon ­ trari a automaticament e o se u limit e na s modificaçõe s d e estru ­

tur a qu e el a iri a impo r à sociedade . A predominânci a d o casament o monogâmic o nã o tem ,

pois , nad a d e surpreendente . Qu e a monogami a nã o é u m atribut o d a naturez a humana , bast a a existênci a d a poligami a e m numerosa s sociedades , e so b modalidade s diversas , par a

o confirmar . Ma s s e a monogami a constitu i a form a mai s

freqüent e iss o acontec e simplesment e porque , num a situaçã o

norma l e n a ausênci a d e um a disparidad e voluntári a o u invo ­ luntariament e introduzida , qualque r grup o human o com ­ preend e mai s o u meno s um a mulhe r par a cad a homem . Na s sociedade s modernas , razõe s morais , religiosa s e econômica s confere m a o casament o monogâmic o u m estatut o oficial (nã o se m proporciona r tod a a espéci e d e meio s par a contorna r a

regra : liberdad e pré­nupcial , prostituição , adultéri o

sociedade s ond e nã o exist e qualque r tip o d e preconceit o contr a a poligamia , o u qu e at é mesm o lh e concede m honras , a falt a d e diferenciaçã o socia l o u econômic a pod e conduzi r a o mesm o resultado : cad a home m nã o te m ne m o s meio s ne m o pode r d e s e oferece r mai s d e um a mulher ; assim , é precis o faze r d a necessidad e virtude .

Que r o casament o seja monogâmic o o u poligâmic o (e , nest e últim o caso , poligínic o o u poliândrico , o u mesm o o s doi s a o mesm o tempo) , que r s e obtenh a u m cônjug e po r livr e escolha , que r po r respeit o d e um a regr a prescritiv a o u preferencial , que r aind a po r obediênci a à vontad e do s seu s ascendentes , e m todo s o s caso s s e impõ e um a distinçã o entr e o casamento , laç o legal , socialment e aprovado , e a s uniõe s

) E m

77

temporária s o u permanente s resultante s d a violênci a o u do­ consentimento . Pouc o import a qu e a intervençã o d o grup o

sej a express a o u tácita ; o qu e cont a é qu e cad a sociedad e dis ­

ponh a d e u m mei o par a distingui r a s uniõe s d e fact o da s uniõe s legítimas . Iss o consegue­s e d e vária s maneiras . N o se u conjunto , a s sociedade s atribue m u m grand e valo r a o estad o conjugai . Ond e que r qu e exista m classe s etá ­ rias , so b um a form a difus a o u institucional , tende­s e a enfi ­

leira r num a categori a o s joven s adolescente s e o s adulto s sol ­ teiros , num a outr a o s adolescente s mai s velho s e o s marido s

se m filhos , num a terceir a o s adulto s casado s n a plen a poss e

do s seu s direitos , regr a gera l apó s o nasciment o d o primeir o

filho : distinçã o tripartid a reconhecid a nã o s ó po r muito s povo s dito s primitivos , com o també m pela s comunidade s cam ­ ponesa s d a Europ a ocidental , quant o mai s nã o foss e po r oca ­

siã o d e cerimônia s e banquetes , at é a o princípi o d o sécul o XX . Aind a hoje , n o su l d a França , o s termo s «rapa z novo » e «sol ­ teiro » sã o muita s veze s tomado s com o sinônimo s (ta l como ,

no . francê s vulgar , o s termo s «rapaz » e «solteiro») , dand o

com o resultad o qu e a expressã o corrente , ma s j á significativa ,

«u m solteirão» , s e torn a aí , d e maneir a aind a mai s reveladora ,

e m «u m rapa z velho » (1) . O celibat o surg e mesm o com o repugnant e e condenável , par a a maio r part e da s sociedades . Nã o é exager o dizer­s e qu e

o s solteiro s nã o existe m na s sociedade s se m escrita , pel a sim ­ ple s razã o d e qu e ele s nã o poderia m sobreviver . Lembro­m e d e te r reparad o u m dia , num a aldei a boror o d o Brasi l central ,

nu m home m co m cerc a d e trint a anos , d e aspect o descuidado ,

aparentement e ma l alimentado , trist e e solitário , qu e comece i

(1) Sendo difícil de traduzi r co m complet a correcção palavras

co m sentido s subjacentes po r vezes muit o diversos do s das mes ­

mas palavra s n a nossa língua , optámo s po r «rapaz novo » par a «jeune homme» , cujos sinônimos em portuguê s são rapaz, jovem, novo, moço. Par a a palavr a «garçon», os sinônimo s e m portuguê s

são mais o u meno s o s mesmos , pel o qu e optámo s po r rapaz. Pare ­ cem­nos estes os termo s mais adequado s ao sentid o subjectivo das palavras francesas, n o context o e m qu e surgem . O mesm o quant o

a «un vieu x jeun e liomme», qu e optámo s po r traduzi r po r «um rapaz velho» . (N. do T.)

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po r cre r esta r doente . «Ah , não» , respondera m à s pergunta s qu e fiz , « é u m solteiro» . E a verdad e é que , num a sociedad e e m qu e rein a a divisã o d o trabalh o entr e o s sexo s e e m qu e s ó o estad o conjuga i permit e a o home m goza r do s produto s d o trabalh o feminin o — incluindo­s e a í o cata r do s piolho s e outro s cuidado s a da r ao s cabelos , a pintur a d o corpo , alé m d a jardinage m e d a cozinh a (um a ve z qu e a mulhe r boror ó cultiv a o sol o e faz cerâmicas ) — , u m solteir o é soment e metad e d e u m se r humano . O qu e é verdadeir o par a u m solteir o é­ o também , nu m meno r grau , par a o casa l se m filhos . Nã o h á dúvid a qu e o s esposo s poderia m leva r um a vid a norma l e prove r à s sua s necessidades , ma s muita s sociedade s recusam­lhe s u m luga r integral , nã o soment e n o sei o d o grupo , com o també m par a alé m d o grup o n a sociedad e do s antepassados , tã o importante , senã o mais , qu e a do s vivos ; porqu e ningué m pod e espera r ascende r a o luga r d e antepassad o s e nã o houve r descendente s qu e lh e renda m culto . Po r fim , o órfã o partilh a muita s veze s 0 luga r d o solteiro . Alguma s língua s faze m da s dua s pala ­ vra s o s mai s grave s insultos ; equiparam­s e po r veze s o s sol ­ teiro s e o s órfão s ao s doente s e ao s feiticeiros , com o s e esta s condiçõe s resultasse m d e um a mesm a maldiçã o sobrenatural . Pod e acontece r qu e a sociedad e exprim a d e maneir a solen e o interess e qu e atribu i a o casament o do s seu s mem ­ bros . Assi m acontec e entr e nós , e m qu e o s futuro s esposos , tivere m a idad e estabelecid a pel a lei , deve m publica r o s banho s e depoi s garanti r o s serviço s d e u m representant e autorizad o d o grup o par a celebra r a su a união . A noss a socie ­ dad e nã o é certament e a únic a qu e subordin a o acord o do s seu s indivíduo s a o d a autoridad e pública , ma s o mai s freqüent e é o casament o interessa r nã o tant o a pessoa s privadas , po r u m lado , e a sociedad e global , po r outro , ma s ante s a s comunida ­ de s mai s o u meno s inclusiva s d e qu e cad a particula r é um a parcela : famílias, linhagens , clãs ; e é entr e este s grupos , nã o entr e a s pessoas , qu e o casament o cri a u m laço . H á vária s razõe s par a tal . Mesm o sociedade s d e níve l técnic o e econômic o muit o baix o atribue m um a tã o grand e importânci a a o casament o qu e o pais preocupam­s e desd e muit o ced o co m encon ­

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tra r u m cônjug e par a o s seu s filhos ; assim , este s fica m pro ­

metido s a parti r d a infância . Alé m disso , e po r u m paradox o sobr e o qua l no s ser á necessári o vi r a debruçar­nos , s e cad a casament o d á luga r a o nasciment o d e um a nov a família , é a família , o u melhor , sã o ante s a s família s qu e produze m o casa ­ mento , principa l mei o socialment e aprovad o d e qu e dispõe m par a s e aliare m uma s à s outras . Com o s e costum a dize r n a Nov a Guiné , o casament o te m meno s po r objectiv o a procur a d e um a espos a d o qu e o d e obte r cunhados . Desd e qu e fo i reconhecid o qu e o casament o un e mai s o s grupo s qu e o s indivíduos , muito s costume s ficara m esclarecidos . Compreen ­ de­s e porqu e razão , e m diversa s regiõe s d a Áfric a qu e traça m

a descendênci a e m linh a paterna , o casament o nã o s e torn a

definitiv o senã o quand o a mulhe r d á à lu z u m filho : s ó co m

est a condiçã o é qu e o casament o cumpri u a su a função , qu e

é perpetua r a linhage m d o marido . O levirat o e o sororat o

depende m do s mesmo s principios : s e o casament o cri a u m

laç o entr e o s grupos , este s pode m ser , logicamente , obrigado s

a

substitui r o cônjug e e m falta , qu e tinha m fornecid o antes ,

po

r u m irmã o o u um a irmã . Po r mort e d o marido , o levirat o

consist e nu m direit o preferencial , do s seu s irmão s solteiro s sobr e a viúv a (ou , express o po r outra s palavras , u m dever ,

partilhad o pelo s irmão s sobrevivos , d e toma r cont a d a viúv a

e do s seu s filhos) . D e igua l modo , o sororat o constitu i u m

direit o preferencia l sobr e a s irmã s d a mulhe r s e o casament o

fo r poligâmico , ou , e m cas o d e monogamia , permit e a o marid o

qu e exija um a irm ã e m luga r d a su a mulhe r s e est a fo r estéril ,

s e a su a condut a justifica r o divórcio , o u s e el a morrer . Mas ,

sej a qua l fo r a maneir a com o a sociedad e s e declar e part e

interessad a n o casament o do s seu s membro s — pel o cana l do s grupo s particulare s ao s quai s este s pertençam , ou , mai s direc ­ tament e pel a intervençã o d o pode r públic o — , continu a a se r verdad e qu e o casament o nã o é , jamai s foi , ne m pod e vi r a se r u m assunt o privado .

É precis o recorre r a caso s tã o extremo s com o o do s Naya r par a enconta r sociedade s e m qu e nã o existe , ne m qu e seja tem ­ porariamente , um a uniã o d e fact o entr e o marido , a mulhe r

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e o s filhos . Ma s nã o esqueçamo s qu e s e est e núcle o constitui ,

entr e nós , a famíli a legal , muita s sociedade s decidira m d e outr o modo . Que r po r instinto , que r po r tradiçã o ancestral , a mã e cuid a do s seu s filho s e é feliz po r fazê­lo . É prováve l qu e disposiçõe s psicológica s explique m també m qu e u m homem , vivend o e m intimidad e co m um a mulher , sint a afect o pela s criança s qu e est a d á à lu z e da s quai s el e segu e d e pert o o

cresciment o físic o e o desenvolviment o mental , mesm o qu e a s crença s oficiais lh e negue m qualque r pape l n a su a procria ­ ção . Alguma s sociedade s procura m unifica r este s sentimento s atravé s d e costume s com o o d a cuvada : qu e o pa i partilh e simbolicament e a s indisposiçõe s (naturai s o u imposta s pel o uso ) d a mulhe r grávid a o u e m trabalh o d e part o fo i muita s vezes explicad o pel a necessidad e d e consolida r tendência s e atitude s que , tomada s po r s i sós , talve z nã o ofereça m um a grand e homogeneidade . N o entanto , a maio r part e da s sociedade s nã o dã o muit a

atençã o à famíli a elementar , tã o important e par a alguma s d e entr e elas , incluind o a nossa . Regr a geral , com o vimos , sã o o s grupo s qu e conta m e nã o a s uniõe s particulare s entr e indiví ­ duos . Alé m disso , muita s sociedade s insiste m e m determina r

o parentesc o da s criança s que r pel o grup o d o pai , que r pel o

d a mãe e conseguem­n o co m a nítid a separaçã o do s doi s tipo s d e laços , reconhecend o u m e m exclusã o d o outro , o u entã o atribuindo­lhe s campo s d e aplicaçã o distintos . Po r vezes , o s direito s sobr e a terr a sã o herdado s d e um a linha , o s privilégio s religioso s e a s obrigaçõe s d e outra ; outra s vezes , o estatut o socia l e o sabe r mágic o sã o igualment e repartidos . Podería ­ mos cita r inúmero s exemplo s d e toda s a s fórmulas , provenien ­ t e d a África , d a Ásia , d a Améric a o u d a Oceania . Par a cita r apena s um , o s índio s Hopi , d o Arizona , divide m cuidadosa ­ ment e diferente s tipo s d e direito s jurídico s e religioso s entr e a s tinha s patern a e materna ; mas , a o mesm o tempo , a frequên ­

ci a do s divórcio s tornav a a famíli a tã o instáve l qu e muito s

pai s nã o vivia m so b o mesm o tect o qu e o s seu s filhos , poi s a s casa s pertencia m à s mulhere s e a s criança s seguiam , e m direito , a linh a materna . A fragilidad e d a famíli a conjuga i parec e se r muit o vul ­ ga r na s sociedade s estudada s pelo s etnólogos , o qu e não imped e

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qu e nela s s e atribu a valo r à fidelidad e entr e o s esposo s e ao s

laço s afectivo s entr e pai s e filhos . Ma s este s ideai s morai s situam ­ ­s e nu m regist o diferent e da s regra s d e direito , a s quais , co m grand e freqüência , traça m o parentesc o exclusivament e e m linh a patern a o u e m linh a materna , o u entã o distingue m o s direito s e a s obrigaçõe s respectivament e afectada s a cad a linha . Conhecem­s e casos­limite , com o o do s Émerillons , pequen a trib o d a Guian a Francesa , a qual , h á un s trint a anos ,

nã o excedi a o s cinqüent a membros . Nest a época , o casament o

er a tã o precári o qu e cad a indivíduo , durant e a su a existência , poderi a desposar , e m sucessão , todo s o s d o outr o sexo : tam ­

bé m s e cont a qu e a língu a tinh a nome s especiai s par a distin ­

gui r d e qua l das , pel o menos , oit o uniõe s consecutiva s tinha m saíd o a s crianças . Trata­s e nest e caso , provavelmente , d e fenô ­ meno s recentes , explicávei s pel o muit o pequen o númer o d e pessoa s d o grup o e pela s condiçõe s d e existência , gravement e alterada s desd e h á u m o u doi s século s atrás . Mas , po r exem ­ plo s com o este , é evident e qu e existe m caso s e m qu e a famíli a conjuga i s e torn a praticament e inatingível .

E m contrapartida , outra s sociedade s dã o um a bas e mai s

ampl a e mai s firm e à instituiçã o familiar . Assim , po r veze s at é a o sécul o XIX , havi a vária s regiõe s européia s e m qu e a família , unidade­bas e d a sociedade , er a d e u m tip o a qu e s e pod e chama r mai s doméstic o d o qu e conjugai . O mai s velh o

do s ascendente s aind a vivo , o u um a comunidad e d e irmão s

saído s d e u m mesm o ascendent e j á falecido , detinh a o con ­

junt o do s direito s d e fundiários , exerci a a su a autoridad e sobr e

o grup o familia r e dirigi a a exploraçã o agrícola . O bratsvo

russo , a zadruga do s Eslavo s d o Sul , a maisnie francesa , era m grande s família s constituída s e m torn o d e u m velh o pelo s

seu s irmãos , pelo s filhos , sobrinho s e neto s e sua s esposas ,

a s filhas , sobrinha s e neta s solteiras , e assi m sucessivamente , at é ao s bisnetos . E m inglês , chama­s e joints families, e m fran ­ cês «famílias extensas» , a tai s formações , qu e inclue m at é vária s dezena s d e pessoa s qu e vive m e trabalha m so b um a autoridad e comum : termo s cômodos , ma s enganadores , poi s leva m a acredita r qu e essa s enorme s unidade s s e compõem , desd e o início , d e diversa s pequena s família s conjugai s associa ­ das . Ora , mesm o entr e nós , a famíli a conjuga i nã o obtev e u m

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reconheciment o lega l senã o a o cab o d e um a evoluçã o histó ­

ric a muit o complexa , s ó e m part e atribuíve l a um a progressiv a

tomad a d e consciênci a d o se u fundament o natural ; porqu e

est a evoluçã o consisti u e m dissolve r a famíli a extensa , par a

del a nã o deixa r subsisti r senã o u m núcleo , n o qual , a pouc o e pouco , s e concentro u u m estatut o jurídic o qu e anteriorment e regi a conjunto s muit o mai s vastos . Nest e sentido , nã o caire ­ mo s e m err o s e rejeitarmo s termo s com o este s d e joint family; o u d e «família extensa» : é a famíli a conjuga i qu e convé m denominar , d e preferência , d e «família restrita» .

Vimo s qu e quand o a famíli a te m u m frac o pape l funcio ­

na l tend e a desce r abaix o d o própri o níve l conjugai . N o cas o

inverso , ela actualiza­s e po r cima . Ta l com o exist e na s nossa s sociedades , a famíli a conjuga i nã o é , pois , a expressã o d e um a necessidad e universa l ne m est á tão­pouc o inscrit a n o âmag o d a naturez a humana : el a represent a um a soluçã o intermédia , u m cert o estad o d e equilíbri o entr e fórmula s qu e s e opõe m

a ela e qu e outra s sociedade s efectivament e preferiram . Par a completa r o quadro , é necessário , enfim , considera r

o s caso s e m qu e a famíli a conjuga i existe , ma s so b forma s qu e certament e nã o seríamo s o s único s a julga r incompatívei s

co m o s fin s qu e o s humano s s e propõe m quand o funda m u m

lar . O s Tchuktche c d a Sibéri a orienta l nã o via m inconvenient e

n o casament o d e um a raparig a d e vint e e ta l ano s co m u m peti z

d e doi s o u trê s anos . A jove m mulher , muita s veze s j á mãe , s e tivess e amantes , criav a a o mesm o temp o o se u filh o e o

se u pequenin o marido . N a Améric a d o Norte , o s Mojav e

observava m a prátic a inversa : u m home m adult o desposav a um a rapariguinh a d e tenr a idad e e tomav a cont a del a at é esta r c m condiçõe s d e cumpri r o s seu s devere s conjugais . Consi ­ derava­s e qu e tai s casamento s era m muit o sólidos : a recor ­ daçã o do s cuidado s paternai s prodigalizado s pel o marid o à pequen a espos a reforçava , acreditavam , o afect o natura l entr e o s esposos . Conhecem­s e caso s análogo s na s regiõe s andina s e nas regiõe s tropicai s d a Améric a d o Su l e també m n a Melanésia.

Po r muit o bizarro s qu e no s possa m parecer , este s tipo s d e casament o aind a tê m e m cont a a diferenç a do s sexos , con ­ dirã o essencia l a nosso s olho s par a a fundaçã o d e um a famíli a

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(embor a a s reivindicaçõe s do s homossexuai s comece m a abrir ­ filies fendas) . Mas , e m África , mulhere s d e alt a posiçã o tinha m muita s veze s o direit o d e desposa r outra s mulheres , qu e aman ­ te s autorizado s engravidavam . A mulhe r nobr e tornava­s e o «pai» lega l da s criança s e , segund o a regr a patrilinea r e m vigor , transmitiam­lhe s o se u nome , a su a posiçã o e o s seu s bens . E m outro s casos , a famíli a conjuga i servi a par a procria r a s

crianças , ma s nã o par a a s criar , poi s a s família s rivalizava m entr e s i par a adopta r o s seu s respectivo s filho s (se possível , d e um a posiçã o mai s alta) ; assim , aconteci a po r veze s qu e um a famíli a retinh a o filh o d e um a outr a mesm o ante s d e el e nascer . Costum e er a freqüent e n a Polinési a e num a part e d a Améric a d o Sul . Podemo s aproximar­lh e o hábit o d e confia r o s rapaze s

a u m ti o materno , testemunhad o entr e o s povo s d a cost a

noroest e d a Améric a d o Nort e at é um a époc a recent e e entr e

a nobrez a européi a d a Idad e Média .

Durant e séculos , a mora l crist ã tev e o comérci o sexua l

po

r u m pecado , s e nã o s e produziss e dentr o d o casament o e

co

m a finalidad e d e funda r um a família . Conhecem­s e outra s

sociedades , aqu i e ali , qu e limita m d a mesm a form a a sexua ­ lidad e lícita , ma s sã o raras . N a maio r part e do s casos , o casa ­ ment o nad a te m qu e ve r co m o praze r do s sentidos , poi s exist e tod a a espéci e d e possibilidade s a est e respeito , for a d o casament o e po r veze s e m oposiçã o a ele . N a índi a central , o s Muria , d e Bastar , mete m o s rapaze s e a s rapariga s púbere s e m casas comuns , ond e goza m d e um a complet a liberdad e sexual ; ma s quand o cheg a o temp o d o casament o proibem­n a entr e aquele s e aquela s qu e anteriorment e era m amantes , d e mod o qu e n o sei o d a comunidad e alde ã todo s o s homen s desposa m mulhere s qu e ele s sabe m tere m sid o amante s d o se u o u do s seu s vizinhos .

Regr a geral , a s preocupaçõe s d e orde m sexua l intervé m assi m pouc o no s projecto s matrimoniais . Pel o contrário , sã o a s d e orde m econômic a qu e desempenha m u m pape l d e pri ­ meir o plano , poi s é sobretud o a divisã o d o trabalh o entr e o s sexo s qu e torn a o casament o indispensável . Or a ist o tant o acontec e co m a divisã o sexua l d o trabalho , com o co m a famí ­

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lia : est a també m assent a mai s sobr e u m fundament o socia l d o qu e sobr e u m fundament o natural . É evident e que , e m todo s o s agrupamento s humanos , sã o a s mulhere s qu e traze m a s criança s a o mundo , qu e a s alimenta m e a s criam , enquant o qu e o s homen s encarregam­s e d a caça e d a guerra . N o entanto , mesm o est a divisã o aparentement e natura l da s tarefa s ne m sempr e fo i nítida : o s homen s nã o dã o à luz , mas , na s socieda ­ de s e m qu e s e pratic a a cuvada , eles deve m conduzir­s e com o s e o fizessem . E h á um a grand e diferenç a entr e u m pa i Nam ­ bikwar a qu e vel a ternament e o se u bebê , qu e o limp a quand o ele s e suja , e o nobr e europeu , a quem , nã o h á muit o tempo , levava m cerimoniosament e o s filhos , saído s po r algun s ins ­ tante s do s aposento s da s mulhere s ond e ficava m confinado s at é estare m e m idad e d e aprende r a equitaçã o e a esgrima . E m contrapartida , a s joven s concubina s d o chef e Nambikwar a desdenha m o s trabalho s doméstico s e prefere m acompanha r 0 espos o na s sua s expediçõe s aventurosas . Talve z u m costum e d o mesm o gênero , assinalad o e m outra s tribo s sul­americanas , ond e um a categori a especia l d e mulheres , semicortesãs , semi ­ ­servas , ficava m solteira s e seguia m o s homen s par a a guerra , tenh a estad o n a orige m d a lend a da s Amazonas . Quand o s e consider a ocupaçõe s qu e s e opõe m d e maneir a meno s marcad a d o qu e o s cuidado s par a co m a s criança s e a guerra , torna­s e aind a mai s difíci l d e compreende r regra s gerai s qu e reja m a divisã o d o trabalh o entr e o s sexos . A s mulhe ­ re s Boror o cultiva m a terra , ma s entr e o s Zun i sã o o s homens ; conform e a trib o considerada , a construçã o da s casa s o u do s abrigos , a cerâmina , a tecelagem , a cestari a compete m a u m o u a o outr o sexo . É entã o precis o distingui r o fado d a divisã o d o trabalho , praticament e universal , e a s modalidades segund o n s quais , aqu i e além , a s tarefa s sã o repartida s entr e o s sexos . Essa s modalidade s dependem , també m elas , d e factore s cul ­ turais ; ela s nã o sã o meno s artificiai s d o qu e a s forma s d a própri a família . Um a ve z mais , po r conseqüência , no s vemo s confrontado s co m o mesm o problema . S e a s razõe s naturais , qu e poderia m explica r a divisã o sexua l d o trabalho , nã o parece m decisiva s a parti r d o moment o e m qu e no s afastamo s d o terren o sólid o da s diferença s biológicas , s e a s modalidade s d a divisã o d o

trabalh o varia m d e um a sociedad e par a outra , po r qu e razã o existe ? J á no s pusemo s a mesm a questã o a propósit o d a famí ­ lia : o fact o d a famíli a é universal , a s forma s so b a s quai s ela s e manifest a nã o tê m qualque r pertinência , pel o meno s n o qu e res ­ peit a à necessidad e natural . Mas , apó s termo s encarad o o pro ­ blem a so b vário s aspectos , talve z estejamo s e m melho r situaçã o par a no s apercebermo s o qu e ele s tê m e m comu m e d e discerni r algun s traço s gerai s qu e fornece m u m princípi o d e resposta . N o domíni o d a organizaçã o social , a famíli a surgi u com o um a realidad e positiv a (h á mesm o que m dig a a única ) e , po r est e facto , nó s somo s levado s a defini­l a exclusivament e po r mei o d e caractere s positivos . Mas , d e cad a ve z qu e tentamo s demons ­ tra r o qu e é a família , devíamos , a o mesm o tempo , da r a per ­ cebe r o qu e ela nã o é , e talve z esse s aspecto s negativo s tenha m tant a importânci a com o o s outros . O mesm o par a a divisã o d o trabalho : verifica r qu e u m sex o est á encarregad o d e deter ­ minada s tarefa s eqüival e a verifica r qu e ela s estã o proibida s a o outr o sexo . Vist a nest a perspectiva , a divisã o d o trabalh o institu i u m estad o d e dependênci a recíproc a entr e o s sexos . Est e carácte r d e reciprocidad e també m pertence , eviden ­ temente , à famíli a encarad a so b o ângul o da s relaçõe s sexuais . Nó s proibimo­no s d e o reduzi r a est e aspecto , pois , com o s e viu , a maio r part e da s sociedade s nã o estabelece m entr e famí ­ li a e sexualidad e est a ligaçã o íntim a qu e s e afirmo u n a nossa . Mas , com o s e acab a d e faze r par a a divisã o d o trabalho , tam ­ bé m pod e definir­s e a famíli a po r um a funçã o negativa : desd e sempr e e e m tod a a parte , a existênci a d a famíli a implic a proi ­ bições , tornand o impossíveis , ou , pel o menos , condenáveis , certa s uniões . Essa s restriçõe s à liberdad e d e escolh a varia m considera ­ velment e d e um a sociedad e par a outra . N a antig a Rússia , existi a u m costume , chamad o snokatchesvo, qu e concedi a a o pa i direito s sexuai s sobr e a jove m espos a d o se u filho . E m outras , o filh o d a irm ã exerci a u m direit o simétric o sobr e a espos a d o se u ti o materno . Nó s próprio s j á nã o levantamo s objecçõe s a u m nov o casament o d e u m home m co m a irm ã d a su a mulher , prátic a incestuos a n a óptic a d o direit o inglê s aind a e m vigo r e m plen o sécul o XIX . E é bo m nã o esquece r qu e qualque r sociedad e conhecida , antig a o u actual , afirma

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qu e s e a relaçã o entr e cônjuge s (e , eventualmente , quaisque r outros , com o acabámo s d e ver ) implic a direito s sexuai s recí ­ procos , outro s laço s d e parentesc o — també m eles funçã o d a estrutur a familia r — torna m a s relaçõe s sexuai s imorais , pas ­ sívei s d e sançõe s legais , o u simplesment e inconcebíveis . A proi ­ biçã o universa l d o incest o proclam a qu e o s indivíduos , na s relaçõe s d e pai s e filho s o u d e irmão s e irmãs , nã o pode m te r relaçõe s sexuai s e aind a meno s casar­se . Alguma s sociedade s — o antig o Egipto , o Per u pré­colombiano , diverso s reino s africanos , polinésio s e d o Suest e asiátic o — definia m o incest o d e maneir a meno s rígid a e permitiam­n o (o u mesm o prescre ­ viam­no) , so b certa s formas , à famíli a reinant e (n o antig o Egipt o talve z foss e mai s alargado) , ma s nã o se m lh e fixa r limites : co m a meia­irmã , ficand o excluíd a a irm ã germana , o u então , e m cas o d e casament o co m a irm ã germana , er a a

mai s velha , ficand o excluíd a a mai s nov a Depoi s d e est e text o te r sid o escrit o e publicado , h á pert o d e vint e anos , diverso s autores , especialista s d e etnologi a animal , quisera m ve r n a proibiçã o d o incest o u m fundament o natural . Parece , co m efeito , qu e diversa s espécie s d e animai s sociai s evita m a s uniõe s sexuai s entr e indivíduo s estreitament e aparentado s (esta s uniõe s o u nã o s e produzem , o u produzem­s e muit o raramente) , mesm o qu e seja apena s porqu e o s mai s velho s d o grup o expulsa m o s joven s log o qu e este s atinge m

a idad e adulta . Supond o qu e este s factos , ignorado s o u incompletament e publicado s h á u m quart o d e século , tenha m sid o correctament e interpretado s pelo s observadores , menosprezou­se , a o extra ­ polá­los , a diferenç a essencia l qu e separ a a s conduta s animai s

da s instituiçõe s humanas : s ó esta s põe m sistematicament e e m

prátic a regra s negativa s par a cria r laço s sociais . O qu e disse ­

mo s acerc a d a divisã o sexua l d o trabalh o pod e ajudar­no s a compreender : d o mesm o mod o qu e o princípi o d a divisã o d o trabalh o estabelec e um a dependênci a mútu a entr e o s sexos ,

obrigando­o s assi m a colabora r n o sei o d e u m casal , també m

a proibiçã o d o incest o institu i um a dependênci a mútu a entr e

a s família s biológica s e força­a s a engendra r nova s famílias ,

po r cujo s ofícios , somente , o grup o socia l conseguir á per ­

petuar­se .

87

Teríamo s apreendid o melho r o paralelism o entr e a s dua s iniciativa s se , par a a s designarmos , nã o tivéssemo s recorrid o a termo s tã o dissemelhante s com o divisão, po r u m lado , e proibi- ção, po r outro . S e nó s tivéssemo s chamad o à divisã o d o tra ­ balh o «proibiçã o da s tarefas » o se u aspect o negativ o teri a

sid o igualment e o únic o apercebido . Inversamente , poríamo s

e m evidênci a o aspect o positiv o d a proibiçã o d o incest o s e a definíssemo s com o «divisã o d e direito s d e casament o entr e famílias» . Porqu e a proibiçã o d o incest o estabelec e apena s qu e a s família s (qualque r qu e seja a concepçã o qu e cad a sociedad e

del a tenha ) nã o pode m aliar­s e senã o uma s co m a s outra s e

nã o cad a um a dela s po r su a própri a conta , consig o mesma . Nad a seria , pois , mai s fals o d o qu e reduzi r a famíli a à

su a bas e natural . Ne m o instint o d e procriação , ne m o instint o maternal , ne m o s laço s afectivo s entr e marid o e mulhe r e entr e

pa i e filhos , ne m a combinaçã o d e todo s este s factore s o expli ­

cam . Po r muit o importante s qu e eles sejam , este s elemento s

o poderiam , po r s i sós , da r nasciment o a um a família , e

ist

o po r um a razã o muit o simples : e m toda s a s sociedade s

humanas , a criaçã o d e um a nov a famíli a te m com o condiçã o absolut a a existênci a prévi a d e dua s famílias , pronta s a for ­ necer , uma , u m homem , outr a um a mulher , d e cuj o casament o nascer á um a terceir a família , e assi m indefinidamente . Po r

outra s palavras , o qu e diferenci a o home m d o anima l é que , entr e o s humanos , um a famíli a nã o poderi a existi r s e primeir o nã o houvess e um a sociedad e — pluralidad e d e família s qu e reconhece m a existênci a d e laço s alé m do s d a consaguini ­ dad e — e qu e o process o natura l d a filiação nã o pod e segui r

o se u curs o senã o integrad o n o process o socia l d a aliança . Com o é qu e o s homen s chegara m a o reconheciment o dest a dependênci a socia l d a orde m natura l é cois a que , pro ­ vavelment e ignoraremo s par a sempre . Nad a h á qu e permit a supo r qu e a humanidade , quand o emergi u d a su a condiçã o

animal , nã o estivess e dotad a log o à partid a d e um a form a d e organizaçã o socia l que , na s sua s linha s fundamentais , e m

nad a diferi a daquela s qu e viri a a conhece r mai s tarde . N a ver ­

dade , haveri a dificuldad e e m concebe r o qu e poderi a ser um a organizaçã o socia l elementa r se m lh e da r po r alicerc e a proi ­ biçã o d o incesto . Porqu e est a proced e sozinh a a um a refor ­

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mulaçã o da s condiçõe s biológica s d o acasalament o e d a pro ­ criação . El a nã o permit e à s família s qu e s e perpetue m senã o encerrada s num a red e artificia l d e proibiçõe s e d e obrigações . É apena s a í qu e s e pod e situa r a passage m d a naturez a par a a cultura , d a condiçã o anima l par a a condiçã o human a e é ape ­ na s po r a í qu e s e pod e compreende r a su a articulação . Conform e Tylo r o tinh a j á compreendid o h á u m século , a explicaçã o fina l encontra­s e provavelment e n o fact o d e o home m te r sabid o desd e muit o ced o qu e lh e er a necessári o escolhe r entr e «either marrying-out or being killed-out»: o melhor , senã o o único , mei o par a a s família s biológica s nã o sere m empurrada s par a o extermíni o recíproc o é unirem­s e entr e s i po r laço s d e sangue . Família s biológica s qu e pretendesse m vive r isoladas , justaposta s uma s à s outras , formaria m cad a um a dela s u m grup o fechado , perpetuando­s e po r s i próprio , inevitavelment e e m direcçã o à ignorância , a o med o e a o ódio . A o opor­s e à s tendência s separatista s d a consangüinidade , a proibiçã o d o incest o consegu e tece r rede s d e afinidad e qu e dã o à s sociedade s a armaçã o se m a qua l nenhum a dela s s e manteria .

Nã o sabemo s aind a co m exactidã o o qu e é a família , ma s po r aquil o qu e precede , entrevimo s j á quai s sã o a s sua s condi ­ çõe s d e existênci a e quai s pode m se r a s lei s qu e comanda m a su a reprodução . Par á assegura r est a interdependênci a socia l da s família s biológicas , o s povo s dito s primitivo s aplicam , n o qu e lhe s di z respeito , regras , simple s o u complexa s ma s sempr e engenhosas , qu e po r veze s no s sã o difíceis d e compreen ­ de r co m o s nosso s hábito s d e pensa r adaptado s a sociedade s incomparavelment e mai s densa s e mai s fluida s qu e a s deles . Par a no s assegurarmo s d e qu e a s família s biológica s nã o s e fecharã o sobr e s i mesma s e nã o constituirã o outra s tanta s célula s isoladas , basta­no s proibi r o casament o entr e parente s muit o próximos . A s grande s sociedade s oferece m a cad a indi ­ vídu o a ocasiã o d e contacto s múltiplo s for a d a su a famíli a restrita , garanti a suficient e d e qu e a s centena s d e milha r o u d e milhõe s d e família s qu e constitue m um a sociedad e modern a nã o virã o a corre r o risc o d e estagnarem . A liberdad e d e escolh a d o cônjug e (salv o n o sei o d a famíli a restrita ) manté m

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abert o o fluxo da s troca s entr e famílias ; produz­s e um a mistur a contínu a e dess e moviment o d e vaivé m result a u m tecid o socia l suficientement e homogêne o na s sua s graduaçõe s e n a

su a composição . Condiçõe s muit o diferente s prevalece m na s sociedade s dita s primitivas . O efectiv o demográfic o pod e varia r d e algu ­ ma s dezena s a vário s milhare s d e pessoas , ma s continu a a ser pequen o e m relaçã o a o nosso . Po r outr o lado , um a meno r fluide z socia l imped e cad a indivídu o d e a í encontra r muito s outro s for a d a povoaçã o o u do s terreno s d e caça . Numerosa s

sociedade s tentara m multiplica r a s ocasiõe s d e contact o aquand o

da s festa s o u da s cerimônia s tribais . Ma s este s encontro s ficam ,

regr a geral , circunscrito s a o círcul o tribal , ond e a maio r part e

do s povo s se m escrit a vêe m um a espéci e d e famíli a extensa ,

e m cujo s limite s s e detê m a s relaçõe s sociais . É mesm o fre ­ qüent e qu e ess e povo s vã o at é a o pont o d e negare m a dignidad e human a ao s seu s vizinhos . Existe m se m dúvida , n a Améric a d o Su l e n a Melanésia , sociedade s qu e prescreve m o casament o

co m tribo s estrangeira s e , po r vezes , inimigas ; ness e caso ,

explica m o s indigena s d a Nov a Guiné , «nã o s e procur a um a espos a senã o entr e aquele s co m que m s e est á e m guerra» . Ma s

a red e d e troca s assi m alargad a permanec e pres a nu m mold e

tradiciona l e , mesm o qu e inclu a diversa s tribo s e m luga r d e um a só , a s sua s fronteiras , traçada s d e um a form a rígida , rarament e sã o ultrapassadas .

So b u m regim e destes , pod e aind a conseguir­s e qu e a s família s biológica s s e funda m num a sociedad e homogêne a

mediant e procedimento s análogo s ao s nossos , o u seja, proi ­ bind o simplesment e o casament o entr e parente s próximo s e

se m recorre r a regra s positivas . N o entanto , e m sociedade s

muit o pequenas , est e métod o nã o ser á eficaz s e nã o s e com ­

pensa r a frac a dimensã o d o grup o e a falt a d e mobilidad e socia l

po r u m alargament o do s impedimento s a o casamento . Par a

u m homem , este s estender­se­ã o par a alé m d a mãe , d a irm ã e d a filha , at é inclui r toda s a s mulhere s co m a s quais , po r muit o longínqu o qu e seja, lh e possa m estabelece r u m laç o d e paren ­ tesco . Pequeno s grupo s caracterizado s po r u m níve l cultura l rudimenta r e po r um a organizaçã o socia l e polític a ma l esbo ­

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cad a (com o certa s populaçõe s da s regiõe s semidesértica s da s dua s Américas ) oferece m exemplo s dest a solução . A grand e maiori a do s povo s dito s primitivo s adopto u u m outr o método. E m luga r d e s e remetere m a o jog o da s proba ­ lidade s par a qu e impedimento s a o casament o suficientement e numeroso s assegurasse m automaticament e a s troca s entr e família s biológicas , preferira m estabelece r regra s positivas , obrigatória s par a o s indivíduo s e par a a s famílias , a fi m d e qu e entr e esta s o u aquele s s e fizesse m aliança s d e u m deter ­ minad o tipo . Nest e caso , o camp o inteir o d o parentesc o torna­s e num a espéci e d e tabuleir o d e xadrez , n o qua l s e desenrol a u m jog o complexo . Um a terminologi a adequad a distribu i o s membro s d o grup o po r categorias , e m virtud e d e princípio s segund o o s quai s a o u a s do s pai s determina m direct a o u indirectament e a s do s seu s filho s e , e m conformidad e co m a s sua s categoria s respectivas , o s membro s d o grup o poderã o o u nã o casar­s e entr e si . Povo s n a aparênci a ignorante s e selvagen s inventara m assi m código s qu e teríamo s muit a dificuldad e e m decifra r se m a ajud a do s nosso s melhore s lógico s e matemáticos . Nã o entraremo s no s pormenore s deste s cálculos , po r veze s tã o lon ­ go s qu e o recurs o à s máquina s d a informátic a s e impõe , e limitar­nos­emo s a algun s caso s simples , a começa r pel o d o casament o entr e primo s cruzados . Est e sistem a repart e o s colaterai s e m dua s categorias :

colaterai s «paralelos» , s e o se u parentesc o ascend e a germano s d o mesm o sexo : doi s irmão s o u dua s irmãs ; e colaterai s «cru ­ zados » s e el a ascend e a germano s d e sexo s opostos . O ti o patern o e a ti a matern a são , e m relaçã o a mim , parente s para ­ lelos ; o ti o matern o e a ti a paterna , parente s cruzados . O s primo s saídos , respectivamente , d e doi s irmão s o u d e dua s irmã s sã o paralelo s entr e s i e o s qu e saíram , respectivamente , d e u m irmã o e d e um a irm ã sã o cruzados . N a geraçã o seguinte , o s filhos d a irm ã — par a u m home m — e o s d o irmã o — par a um a mulher — sã o sobrinho s cruzados ; serã o sobrinho s para ­ lelos s e — par a u m home m — nascere m d o se u irmã o e — par a uma mulher — d a su a irmã . Quas e toda s a s sociedade s qu e aplica m est a distinçã o assimila m o s parente s paralelo s ao s parente s mai s próximo s n a

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mesm a geração : o irmã o d o me u pa i é u m «pai» , a irm ã d a minh a mã e é um a «mãe» ; cham o ao s meu s primo s paralelo s

«irmãos » o u «irmãs » e design o o s meu s sobrinho s paralelo s com o meu s próprio s filhos . Co m qualque r parent e paralelo , o casament o seri a incestuos o e , po r conseqüência , proibido .

E m contrapartida , o s parente s cruzado s recebe m designaçõe s

diferente s e é entr e eles qu e obrigatoriament e ou , d e preferên ­ cia a não­parentes , s e escolh e o se u cônjuge . Po r outr o lado ,

é freqüent e nã o existi r senã o um a únic a palavr a par a designa r

a prim a cruzad a e a esposa , o prim o cruzad o e o esposo . Alguma s sociedade s leva m a distinçã o aind a mai s longe . Umas , proíbe m o casament o entr e primo s cruzado s e impõem ­

­n o o u autorizam­n o soment e entr e o s seu s filhos : primo s

cruzados , também , ma s e m segund o grau . Outras , requinta m

a noçã o d e prim o cruzad o e subdivide m esse s parente s e m

dua s categoria s qu e compreendem , uma , cônjuge s permitido s

o

u prescritos , a outr a cônjuge s proibidos . Aind a qu e a filh a

d

o ti o matern o e a d a ti a patern a seja m d o mesm o mod o pri ­

ma s cruzadas , encontram­se , estabelecida s po r veze s lad o a

lado , tribo s qu e proíbe m o u prescreve m que r uma , que r outra .

Alguma s tribo s d a índi a considera m a mort e preferíve l a o crim e qu e constituiria , segund o elas , u m casament o conform e

à regr a d a su a vizinha .

Dificilment e explicávei s po r razõe s d e orde m biológic a o u psicológica , esta s distinções , e outra s qu e lhe s poderíamo s acrescentar , parece m privada s d e sentido . Ela s tornam­s e claras , n o entanto , à lu z da s nossa s consideraçõe s precedente s

e

s e no s lembrarmo s d e qu e o s impedimento s a o casament o

m essencialment e po r objectiv o estabelece r um a dependênci a

mútu a entr e a s família s biológicas . Expressa s e m termo s mai s fortes , essa s regra s traduze m a recusa , po r part e d a sociedade , d e reconhece r à famíli a um a realidad e exclusiva . Porqu e todo s este s sistema s complicado s d e distinçõe s terminológicas , d e interdições , d e prescriçõe s o u d e preferência s nad a mai s sã o d o qu e processo s destinado s a reparti r a s família s po r campo s

rivai s o u aliados , entr e o s quai s poder á e dever á desenrolar­s e

o grand e jog o d o casamento . Consideremo s brevement e a s regra s dest e jogo . Toda s a s sociedade s aspira m acim a d e tud o reproduzir­se ; assim , ela s

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deve m possui r um a regr a qu e permit a estabelece r a posiçã o

do s filho s n a estrutur a socia l e m funçã o d a (o u das ) do s pais ,

A regr a d a descendênci a dit a unilinea r é , nest e aspecto , a mai s

simples : ela torn a a s criança s membro s d a mesm a subdivisã o d a sociedad e globa l (família , linhage m o u clã) qu e a d o pa i e

o s seu s ascendente s masculino s (descendênci a patrilinear) , o u a d a mã e e o s seu s ascendente s feminino s (descendênci a matri ­ linear) . També m s e pod e te r e m conta , simultaneamente , dua s pertenças , o u combiná­la s par a defini r um a terceira , n a qua l

s e ir á coloca r o s filhos . Po r exemplo , co m u m pa i d a subdivisã o

A e um a mã e d a subdivisã o B , o s filho s serã o d a subdivisã o C ;

serã o d a D n o cas o inverso . Indivíduo s C e D poderã o casar­s e e tant o procriarã o filho s A com o B , e m funçã o da s sua s per ­ tença s respectivas . Podemo s ocupa r o s nosso s ócio s a imagina r

regra s dest e gêner o e ser á d e surpreende r nã o s e encontra r a o meno s um a sociedad e qu e no s ofereç a dela s u m exempl o n a

su a prática . Depoi s d e te r sid o determinad a a regr a d a descendência , põe­s e um a outr a questão : quanta s formaçõe s exógama s com ­

preend e a sociedad e considerada ? Estand o o casament o inter ­ dito , po r definição , n o sei o d o grup o exógamo , dever á haver , pel o menos , u m outro , a o qua l o s membro s d o primeir o s e dirigirã o par a consegui r u m cônjuge . Cad a famíli a restrit a d a noss a sociedad e constitu i u m grup o exógamo ; o númer o desse s grupo s é tã o elevad o qu e s e pod e espera r qu e cad a u m

do s seu s membro s ter á um a oportunidad e d e encontra r ond e

s e casar . Na s sociedade s dita s primitivas , ess e númer o é muit o mai s pequeno , po r u m lad o devid o à s reduzida s dimensõe s

da s própria s sociedade s e , po r outr o lado , també m porqu e o s

laço s d e parentesc o s e estende m muit o mai s long e d o qu e é

o cas o entr e nós . Vejamos , primeiro , o cas o d e um a sociedad e d e descen ­ dênci a unilinea r e qu e compreend a apena s doi s grupo s exóga ­ mos , A e B . Únic a soluçã o possível : o s homen s A casa m co m mulhere s B , a s mulhere s A casa m co m homen s B . Podemos , pois , imagina r doi s homens , respectivament e A e B , trocand o entr e s i a s sua s irmãs , qu e s e tornarão , cad a um a delas , a espos a d o outro . S e o leito r quise r faze r o favo r d e s e muni r d e um a folh a d e pape l e d e u m lápi s par a estabelece r a genealogi a

teóric a resultant e d e um a ta l combinação , verificar á que , seja qua l fo r a regr a patrilinea r o u matrilinea r d e descendência , o s germano s e o s primo s paralelo s cairã o nu m do s doi s gru ­

po s exógamo s e o s primo s cruzado s n o outro . É po r iss o qu e

s ó o s primo s cruzado s (s e o jog o fo r feit o entr e doi s o u qua ­ tr o grupos) , o u o s filho s d e primo s cruzado s (nu m jog o entr e

oit o grupos ; o jog o entr e sei s constitu i u m cas o intermédio )

satisfarã o a condiçã o inicial , segund o a qua l o s cônjuge s deve m pertence r a grupo s diferentes .

At é aqui , limitámo­no s ao s caso s d e grupo s exógamo s e m númer o par : dois , quatro , seis , oito , e oposto s doi s a dois .

Qu e aconteceri a s e a sociedad e foss e compost a po r u m númer o impa r d e grupos ? Co m a s regra s precedentes , u m grup o per ­ maneceria , s e assi m s e pod e dizer , «e m branco» , se m parceir o

co m que m pudess e trocar . Assim , é precis o introduzi r outra s

regras , susceptívei s d e funcionare m co m nã o import a qu e número , pa r o u ímpar , d e parte s obrigada s à s troca s matri ­ moniais .

Esta s regra s pode m toma r dua s formas . O u a s troca s con ­ tinuarã o simultâneas , tornando­s e a o mesm o temp o indirec ­

tas , o u permanecerã o directas , ma s co m a condiçã o d e s e esca ­

lonare m n o tempo . Primeir o caso : u m grup o A d á a s sua s

filhas o u a s sua s irmã s e m casament o a u m grup o B , B a C ,

C a D , D a n e , finalmente , n a A . Quand o o cicl o s e fecha ,

cad a grup o de u e recebe u um a mulher , embor a o grup o a qu e s e d á nã o seja o mesm o qu e aquel e d e qu e s e recebeu . U m esquem a fácil d e traça r mostr a que , co m est a fórmula , o s pri ­ mo s paralelo s recaem , com o anteriormente , n o grup o e m qu e estã o o s irmão s e a s irmãs ; e m virtud e d a regr a d a exogamia , eles nã o s e pode m casar . Ma s — e est á a í o fact o essencia l —

o s primo s cruzado s subdividem­s e e m dua s categorias , segund o provenha m d o lad o d a mã e o u d o lad o d o pai . Dest e modo , a prim a cruzad a matrílateral , o u seja, a filh a d o ti o materno , encontra­s e sempr e n o grup o qu e d á a s mulheres : A s e e u fo r B , B s e e u fo r C , etc ; e , inversamente , a prim a cruzad a

patrilateral , filh a d a irm ã d o pai , est á sempr e n o outr o grup o

a qu e o me u grup o d á mulheres , ma s d o qua l ela s nã o sã o

recebidas : B , s e e u fo r A , C , s e e u fo r B , etc . Co m u m sis ­ tem a destes , po r conseqüência , é norma l qu e s e despos e um a

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prim a cruzad a d o primeir o tipo , ma s é contrári o à regr a qu e s e despos e um a prim a cruzad a d o segundo .

A outr a fórmul a conserv a o carácte r direct o d a troca ,

ma s est e actu a entã o entr e geraçõe s consecutivas : o grup o A

receb e um a mulhe r d o grup o B ; n a geraçã o seguinte , el e d á

a B a filh a nascid a d o casament o anterior . S e s e continua r a

,

dispo r o s grupo s n a orde m convencional , A , B , C , D ,

n, o sistem a funcionar á com o s e segue : a u m nive l d e geração ,

o grup o C (tomad o com o exemplo ) d á um a mulhe r a D e

receb e um a d e B ; n a geraçã o seguinte , C compens a B , po r assi m dizer , e receb e a su a própri a compensaçã o d e D . Aind a

aqui , o leito r armad o d e u m pouc o d e paciênci a verificar á

qu e o s primo s cruzado s s e subdivide m e m dua s categorias ,

ma s que , a o contrári o d o cas o precedente , a filh a d a ti a patern a

é o cônjug e permitid o o u prescrito , enquant o qu e a filh a d o

ti o matern o é o cônjug e proibido .

A pa r deste s caso s relativament e claros , existe m u m

pouc o po r tod o o mund o sistema s d e parentesc o e regra s d e casament o sobr e cujas natureza s s e continu a a especular : sã o o s caso s d e Ambrym , na s Nova s Hébridas , do s Murngin , o u

Miwuyt , n o Noroest e d a Austrália ; e d o vast o conjunt o for ­ mad o pelo s sistemas , principalment e americano s e africanos ,

a qu e s e cham a Crow­Omaha , o nom e da s populaçõe s e m qu e

eles fora m primeirament e observados . Mas , par a s e decifra r este s e outro s códigos , ser á necessári o procede r com o temo s vind o a fazer , considerand o qu e a anális e da s nomenclatura s d e parentesco , do s grau s permitidos , prescrito s o u proibido s desvend a o s segredo s d e u m jog o muit o particular , qu e con ­ siste , par a o s membro s d e um a famíli a biológica , o u supost a sê­lo , e m troca r mulhere s co m outra s famílias , dissociand o a s j á constituída s par a i r forma r outras , a s quais , chegad o o momento , serã o dissociada s par a o s mesmo s fins .

Est e trabalh o incessant e d e destruiçã o e reconstruçã o nã o

implic a qu e a descendênci a seja unilinear , ta l com o havíamo s postulad o a o princípi o par a facilita r a exposição . É suficient e que , e m virtud e d e u m princípi o qualquer , qu e pod e se r a des ­ cendênci a unilinear , ma s também , d e maneir a mai s vaga , o s

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laço s d e sangu e o u outros , concebido s d e qualque r outr a maneira , u m grup o cessionári o d e um a mulhe r sobr e a qua l pens a te r autoridade , s e consider e credo r d e um a mulhe r qu e

substitu a aquela , que r est a provenh a d o mesm o grup o a o qua l fo i cedid a um a filh a o u um a irmã , o u d e u m terceir o grupo ; o u ainda , e m termo s aind a mai s gerais , contant o qu e a regr a socia l seja a d e qu e tod o o indivídu o possa , e m princípio , obte r u m cônjug e par a alé m do s grau s proibidos , po r form a

a qu e entr e toda s a s família s biológica s s e instaure m e per ­ petue m relaçõe s d e permut a que , n o tota l e n o camp o d a sociedad e global , s e encontre m aproximadament e equilibradas .

Qu e a s leitora s alarmada s po r s e vere m reduzida s a o pape l d e objecto s d e troc a entr e parceiro s masculino s s e tran ­ qüilizem : a s regra s d o jog o seria m a s mesma s s e s e tivess e adoptad o a convençã o inversa , fazend o do s homen s objecto s d e troc a entr e parceiro s femininos . Alguma s rara s sociedade s d e u m tip o matrilinea r muit o desenvolvid o formulara m a s coisas , e m cert a medida , dess a maneira . E o s doi s sexo s pode m acomodar­s e a um a descriçã o d o jog o u m pouc o mai s com ­ plicada , a qua l consistiri a e m dize r qu e grupos , cad a u m dele s formado s po r homen s e po r mulheres , troca m entr e s i rela ­ çõe s d e parentesco . Ma s seja qua l fo r a formulaçã o po r qu e s e opte , a mesm a conclusã o s e impõe : a famíli a restrit a nã o é o element o d e bas e d a sociedad e e ne m tão­pouc o é o se u produto . Seri a mai s just o dize r qu e a sociedad e nã o pod e existi r senã o opon ­ do­s e à família , embor a respeitand o a s sua s imposições : socie ­ dad e algum a s e manteri a n o temp o s e a s mulhere s nã o desse m

à lu z criança s e s e nã o beneficiasse m d e um a protecçã o mas ­

culin a durant e a gravide z e enquant o amamenta m e cria m i

su a progenitura ; enfim , s e nã o existisse m regra s precisa s par a

reproduzi r o s contorno s d a estrutur a social , geraçã o apó s geração . E m relaçã o à família , n o entanto , a sociedad e nã o te m com o cuidad o primeir o o d e a protege r e perpetuar . Tud o demonstra , pel o contrário , qu e a sociedad e desconfi a d a fati a li a e qu e lh e contest a o direit o d e existi r com o um a entidad e separada . A sociedad e nã o permit e à s família s restrita s qu e dure m senã o po r u m determinad o espaç o d e tempo , mai s

curt o o u mai s long o segund o os casos , ma s co m a condiçã o imperativ a d e qu e o s seu s membros , que r dizer , o s indiví ­ duo s qu e a s compõem , sejam , se m tréguas , deslocados , empres ­ tados , apropriados , cedido s o u devolvidos , po r form a a qu e

co m o s bocado s da s família s desmantelada s outra s possa m

se r construída s ante s de , po r se u turno , caíre m e m pedaços .

A relaçã o da s família s restrita s co m a sociedad e globa l nã o é

estética , com o a do s tijolo s co m a casa cuja construçã o ele s ajudara m a fazer ; est a relaçã o é dinâmica , reún e e m s i ten ­

sõe s e oposiçõe s qu e s e equilibra m d e maneir a sempr e precá ­

ria . O pont o e m qu e s e estabelec e est e equilíbrio , a s possibili ­

dade s qu e el e te m d e durar , varia m at é a o infinito , conform e a s época s e o s lugares . Mas , e m todo s o s casos , a s palavra s da s

Escrituras : «Deixará s o te u pa i e a tu a mãe» , fornece m a regr a d e our o (ou , s e s e preferir , a su a dura lex) a o estad o d e sociedade . S e a sociedad e depend e d a cultura , a famíli a é , n o sei o d a sociedade , a emanaçã o d e exigência s naturai s co m a s quai s

é absolutament e necessári o compor ; senão , sociedad e alguma ,

ne m a própri a humanidade , poderi a existir . Nã o s e venc e

a natureza , ensino u Bacon , senã o submetendo­s e à s sua s leis .

També m a sociedad e te m d e reconhece r a famíli a e nã o é d e surpreende r que , com o o s geógrafo s demonstrara m par a a Utilização do s recurso s naturais , a maio r deferênci a par a co m

a naturez a s e manifest e no s doi s extremo s d a escal a e m qu e s e Bode alinha r a s culturas , e m funçã o d o se u gra u d e desenvol ­ viment o técnic o e econômico . A s qu e estã o n o pont o mai s baix o nã o possue m o s meio s par a paga r o preç o qu e seri a necessári o par a s e libertare m d a orde m natural ; a s outras ,

ensinada s pelo s seu s erro s passado s (pel o menos , é o qu e s e lhe s deseja) , sabe m qu e a melho r polític a é aind a aquel a qu e

permit e te r e m cont a a naturez a e a s sua s leis . Assi m s e explic a

qu e a pequen a famíli a monogâmica , relativament e estável ,

ocupe , nas sociedade s julgada s muit o primitiva s e na s socíe ­ dade s modernas , u m luga r muit o maio r d o qu e n o cas o do s níveis: , a que , po r comodidade , s e pod e chama r intermédios . Todavia , este s deslocamento s d o pont o d e equilíbri o nã o afecta m o quadr o d e conjunto . Quand o s e viaj a lentament e e

co m dificuldade , é necessári o faze r paragen s freqüente s e pro ­

97

longadas ; e s e s e fo r capa z d e viaja r muit o e depressa , dever ­ ­se­á igualment e fazê­lo , embor a po r razõe s diferentes , muita s veze s par a ganha r fôlego . É també m verdad e qu e quanta s mai s estrada s há , mai s numerosa s sã o a s probabilidade s d e elas s e cruzarem . A sociedad e impõ e ao s seu s membro s indi ­ viduais , e ao s grupo s ao s quai s o se u nasciment o o s liga , con ­ tínua s contradanças . Considerad a so b est e ângulo , a vid a d e famíli a nã o correspond e a nad a mai s qu e à necessidad e d e retarda r a march a na s encruzilhada s e te r nela s u m pouc o d e repouso . Ma s a recomendaçã o é d e prossegui r a march a e a sociedad e nã o consist e e m famílias , tant o quant o a viage m nã o s e resum e à s paragen s qu e momentaneament e interrom ­ pe m o se u percurso . Família s n a sociedade , pod e dizer­se , com o pausa s n a viagem , qu e sã o a o mesm o temp o a su a con ­ diçã o e a su a negação .

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U M «ÁTOM O D E

CAPÍTUL O I V

PARENTESCO » AUSTRALIAN O

Recentement e um a mod a espalhou­s e entr e o s nosso s colega s d e língu a inglesa : a d e repudia r toda s a s aquisiçõe s d a noss a disciplina , d e difama r o s seu s fundadore s e o s qu e s e lhe s sucederam , d e afirma r qu e é precis o «repensar » a etnologi a d e alt o a baix o e que , d o se u passado , nad a subsiste . Vimo s est a embirraçã o exercer­s e sucessivament e sobr e Frazer , Mali ­ nowski , Radcliffe­Brow n e algun s outros . Devid o a o luga r ocupad o po r Radcliffe­Brow n no s estudo s australianos , é especialment e a ele qu e s e atira m o s joven s etnólogo s daquel e país . Cheg a a causa r espant o qu e a s sua s análise s e a s sua s conclusõe s seja m recusada s e m bloco , e d e maneir a tã o des ­ trutiva , po r investigadore s po r veze s d a mai s alt a qualidade , ma s qu e a s actuai s condiçõe s condena m a nã o conhece r senã o grupo s indígena s cuja cultur a tradiciona l est á profundament e deteriorada : encerrado s e m missões , d e qu e sofre m a influên ­ cia desd e h á décadas , o u levand o um a vid a precári a n a orl a das cidades , acampado s e m terreno s vago s o u entr e a s via s

férrea s d e qualque r estaçã o d e triage m

A tai s reservas , o s

vilipendiadore s d e Radcliffe­Brow n opõe m acidament e qu e ele jamai s encontro u outr a cois a qu e nã o indígena s tã o acul ­ turado s com o o s d e hoje . Talvez ; mas , mesm o se m experiên ­ cia da s realidade s australianas , estamo s n o noss o direit o d e

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conjectura r qu e u m estad o d e aculturaçã o diferi a muitíssimo ,

e m 1910 , d e u m estad o d e aculturaçã o d e quarent a ano s mai s tarde . Ist o porque , durant e esse s quarent a ano s mai s tarde .

Ist o porque , durant e esse s quarent a anos , mesm o n a ausênci a

d e contact o direct o ( o qu e rarament e fo i o caso) , a influên ­

ci a d a civilizaçã o ocidenta l fez­s e senti r cad a ve z mai s dura ­

mente : durant e tod o est e período , a ecologia , a demografi a

e a s própria s sociedade s mudaram .

Gostari a d e mostrar , atravé s d e u m exemplo , com o pes ­ quisa s d e h á mei o século , long e d e estare m invalidada s pela s mai s recentes , pode m completa r esta s e com o uma s e outra s s e enriquece m mutuamente . U m artig o publicad o h á algun s ano s po r u m jove m e talentos o etnólogo , Davi d McKnight , confirma , apesa r d o

se u to m polêmico , u m pont o essencia l do s estudo s d e Mis s

McConne l sobr e a s regra s matrimoniai s do s Wikmunkan ; estudo s esse s a qu e do u tant o mai s apreç o quanto , n o passado ,

o s utilize i largamente . McKnigh t (1971:163 ) reconhece ,

co m efeito , que , alé m d o casament o co m um a prim a cruzada ,

o s Wikmunka n permit e o casament o co m um a filh a d e um a filh a classificatória . Deix o d e lado , po r agora , o s erro s d e interpretaçã o cometido s a me u respeit o (1) , par a m e limita r àquele s qu e incide m sobr e a obr a d e McConnel . Ele s expli ­ cam­se , pel o meno s e m parte , pel o fact o de , nu m sistem a d e geraçõe s alternada s (d e qu e a nomenclatur a wikmunka n for ­ nec e vário s indícios) , have r equaçõe s terminológica s qu e s e repete m intervaladamente . McConne l nã o pecava , pois , con ­

tr a a lógic a quand o afirmav a qu e u m home m tant o despos a

(1 ) N a verdade , jamais pretend i qu e o átom o d e parentesc o existisse em toda s as sociedades a parti r do moment o em qu e elas fossem patrilineares ou matrilineares . De facto, escrevi precisa­ ment e o contrário : « O avunculat o nã o está present e e m todo s o s sistemas matrilineares e patrilineares ; e encontramo­l o po r vezes

em sistemas qu e nã o são ne m uma coisa nem outra» L.­S. , 1958 : 50).

E os «dois grupos» , que McKnigh t pensa representare m o con­

junt o das sociedades respectivament e patrilineare s e matrilineare s

designam , sem o meno r equívoco , duas sociedades particulares :

a do s Tcherkese s e a dos Trobriand . Acerca deste gêner o de con ­ fusões, cf. Anthropologie Structurale Deux, 1973 : 103­138.

100

um

a prim a cruzada , com o um a filh a d a su a filha nã o um a

net

a verdadeira , com o é evidente , conform e tiv e o cuidad o d e

sublinhar , acompanhand o McConnel , a o escreve r (1967 : 243) :

«Quand o Eg o cas a co m um a prim a d o se u neto , etc» , n. b. um a prim a paralel a e nã o um a irmã . A s dua s fórmula s d e casament o nã o sã o incompatíveis , porque , devid o à tendênci a d o sistema par a alterna r a s gera ­ ções , indivíduo s qu e nã o s e encontra m a mesm a distanci a genealógic a relativament e a Eg o podem, apesa r disso , per ­ tence r à mesm a categori a d e parentes . Nu m sistem a d e casa ­ ment o «e m espiral» , e m qu e o s homen s s e casa m abaix o d o

se u níve l d e geraçã o e a s mulhere s acima, nad a imped e qu e

o s laço s genealógico s e a s categoria s d e parentesc o seja m

periodicament e reajustadas . Segund o McConne l (1940:436) , «Eg o cas a co m um a

mulhe r d e um a geraçã o mai s nov a nu m ram o mai s velho ,

o qual , po r est a razão , est á vedad o a o filh o d o filh o d e Ego ,

o qua l soment e pod e casa r co m um a mulhe r d e u m ram o mai s nov o n a su a própri a geração» ' Est e enunciad o nad a te m d e contraditório . N o entanto , McKnigh t recusa­o , co m

o pretext o d e qu e s e poderi a desenha r o diagram a do s casa ­

mento s tant o colocando­s e n a perspectiv a d o net o d e Eg o com o n a d o se u avô , d e ond e s e poderi a inferi r qu e o qu e u m pod e faze r é igualment e permitid o a o outro . Nã o s e con ­ testa , claro , qu e o filh o d o filh o d e Eg o estar á igualment e n o direit o d e casa r co m um a mulhe r d e um a linh a mai s velh a num a geraçã o mai s nova , ma s McConne l tinh a outr a cois a e m vista : a saber , qu e a s mulhere s e m questão , filh a d e filh a clas ­ sificatóri a par a Eg o e filh a d e irm ã d o pa i classificatóri o par a

o filh o d o filh o d e Ego , são , po r est e facto , esposa s permitida s

a ambo s o s homens . Este s poderã o entã o entra r e m concorrên ­ cia — conform e o própri o McKnig k (1971 : 163 ) aponta ,

co m razã o — , a menos que o sistem a nã o coloqu e esta s mulhe ­

re s e m categoria s diferentes , distinguind o a mulhe r prove ­ nient e d e u m ram o mai s velho , proibid o a o net o d e Ego , e a provenient e d e u m ram o mais novo , in terdito a Ego . E m Structures élémentaires de la parenté (190 7 : 243) e u j á tinh a compreendid o a argumentaçã o d e McConne l dest a maneira . Contud o h á um a precisão , necessária : s e Eg o quise r desposa r

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um a mulhe r d e u m ram o mai s velho , el a dever á se r d e um a

geraçã o mai s nova ; e s e el e quise r desposa r um a mulhe r d e u m ram o mai s novo , est a dev e pertence r à su a própri a geração . Isto , é evidente , tant o val e par a Eg o pa i d e pai , com o par a

Eg o filh o d e filho , ma s com o o av ô s e cas a ante s d o neto ,

a escolh a feit a e m primeir o luga r nã o s e far á se m conseqüên ­ cias par a o outro .

Post o isto , h á tanta s discordância s entr e o s dado s d e McConne l e o s d e Thomso n — outr o observado r d a mai s

alt a qualidad e — que , a meno s qu e ponh a este s autore s d e

costa s u m par a o outro , o qu e m e recus o a fazer , teremo s qu e

reconhece r qu e o sistem a wikmunka n apresent a enigma s qu e

nã o estamo s pert o d e resolver . U m pont o n o entant o m e

parece , claro : nã o pod e tratar­s e d e u m sistem a d e dua s linha ­

gens . A interpretaçã o d e McConne l exig e pel o meno s três ; e a s análise s d e Thomso n també m exclue m est a hipótese , pois , segund o ele , o casament o correct o é aquel e qu e é feit o co m

um a filh a d a irm ã d o pa i classificatóri o qu e seja, a o mesm o tempo , um a prim a paralel a e m segund o grau ; est a condiçã o

implic a qu e o clã d o pa i e o d a mã e d a esposa , po r u m lado ,

e

o cl ã d a mã e e o d o pa i d o esposo , po r outro , seja m diferen ­

te