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O REINO DE DEUS

E

O REINO DOS HOMENS

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Chanceler: Dom Altamiro Rossato Reitor: Ir. Norberto

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Chanceler:

Dom Altamiro Rossato

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José Antônio de C. R. de Souza João Morais Barbosa

O REINO DE DEUS

E

O REINO DOS HOMENS

As relações entre os poderes espiritual e temporal na Baixa Idade Média (da Reforma Gregoriana a João Quidort)

Coleção

Filosofia 58

Porto Alegre

1997

© by José Antonio de C. R. de Souza e João Morais Barbosa

1ª edição: 1997

Capa: José Fernando Fagundes de Azevedo

Diagramação da versão digital: Caroline Pereira

Editoração: Suliani Editografia Ltda.

lmpressão e acabamento: Evangraff

CIP - CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

S729r

Souza, José Antônio de C. R. de O reino de Deus e o reino dos Homens: as relações entre os poderes espiritual e temporal na Baixa Idade Média (da Reforma Gregoriana a João Quidort) / José Antônio de C. R, de Souza e João Morals Barbosa. Porto Alegre EDIPUCRS, 1997. 204p. (Coleção Filosofia; 58)

1. Religião 2. Igreja : História Média 3. Papas: História 1. Barbosa, João Morais II. Título III. Série

CDD

270.5

262.13

Elaborada pelo Setor de Processamento Técnico da BC-PUCRS

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Introdução / 9

SUMÁRIO

1 O PERÍODO GREGORIANO / 11

1.1 A hierocracia: evolução dos fundamentos teóricos / 11

1.2 Os antecedentes da Reforma Gregoriana / 15

1.3 Gregório VII e Henrique IV / 22

Coletânea de Documentos / 32

2 A HIEROCRACIA E A TEOCRACIA RÉGIA NO SÉCULO XII /53

2.1 Ainda as questões das investiduras e da libertas Ecclesiae / 53

2.2 Hugo de São Victor (1096-1141) / 54

2.3 O Direito Canônico / 55

2.4 São Bernardo e a alegoria dos dois gládios / 57

2.5 Hierocracia e Teocracia na metade do século XII.

Os Pontífices e o Imperador / 60

2.6 Ius Antiquum / 68

2.7 As Contribuições de Gero de Reichersberg e de João de

Salisbúria / 70 Coletânea de documentos / 73

3 HIEROCRACIA E TEOCRACIA NO SÉCULO XIII / 88 3.1As idéias políticas de Inocêncio III / 88

3.2 Ius Novum / 95

3.3 Os pastores e a águia / 98

3.4 As contribuições do Ostiense e de S. Thomás de Aquino / 104

Coletânea de documentos / 110

4 NA AURORA DO SÉCULO XIV / 125

4.1 Edígio Romano / 135

4.2 Tiago de Viterbo / 140

4.3 João Quidort / 145

Coletânea de Documentos / 150

APRESENTAÇÃO

Entre a eleição de Gregório VII para o pontificado (1073) e a morte de Bonifácio VIII (1303), a história das idéias políticas encontra farto material. De fato, com Gregório inicia-se um período de afirmação também teórica da supremacia do pontífice romano, graças à qual o papa é considerado como autoridade-mor dentro da cristandade. Ao vazio existente devido à pouca coesão interna do império, e pelo fato de serem precários os esboços de organização nacional nos estados que começavam a surgir, contrapunha-se a sólida estrutura da sé romana que, recuperada das agruras de séculos anteriores, via suceder-se na direção da Igreja uma série de indivíduos altamente preparados para o cargo, tendo todos eles um projeto comum de reforma eclesiástica que abrangia quer aspectos puramente espirituais (como a prática religiosa dos cristãos), quer de organização (como a formação e a disciplina do clero), quer de relações com o poder que hoje chamaríamos de ―civil‖ (como no caso das investiduras). Se, no século IX, Carlos Magno considerava-se e agia como senhor supremo dentro do império, tratando o papa como ―ministro do culto‖, no século XI invertiam-se as posições, e o monge Hildebrando, respeitado por todos, e temido por quase todos, ascendia ao sólio pontifício e passava a tratar as autoridades políticas da cristandade, a começar pelo imperador, como simples vassalos. Carlos era senhor da Igreja e, sem dúvida, se houvesse surgido um conflito entre o império e o papado, não teria hesitado em depor o sumo pontífice; Gregório era senhor do império e, quando surgiu o conflito, depôs o imperador e obrigou-o a humilhante penitência as portas do castelo de Canossa. O arcabouço teórico a sustentar as lutas do século XI é relativamente fraco, como fracos eram os centros de estudo disseminados pelo Ocidente. Mas os tempos mudaram, os estudos de direito, tanto eclesiástico como civil, passaram a fazer parte do projeto de vida de muitos intelectuais, e no final do século XII e durante o século XIII a política readquire seu caráter de ciência, para o que foi de fundamental importância a tradução dos textos aristotélicos. De início, os grandes teóricos encontram-se quase todos do lado da Igreja, salientando-se, entre outros, o Ostiense e o papa Inocêncio III. No decorrer dos tempos, porém, os estudos de direito civil, o surgimento de estados modernos na Inglaterra e na França e a experiência de governo das comunas italianas possibilitaram o surgimento de um corpo de intelectuais capazes de questionar teoricamente o projeto de supremacia dos pontífices romanos. Inocêncio III foi o verdadeiro imperador do Ocidente no início do século XIII. Gregório IX e Inocêncio IV seguiram seus passos. Mas quando, no fim do século, Bonifácio VIII foi entronizado na sé de Pedro, o mundo já era outro o que o velho cardeal Gaetani não percebeu. Em sua luta contra Filipe, o Belo, o povo francês, juntamente com boa parte do clero e da universidade de Paris, ficou do lado do monarca. A polêmica atingiu um nível teórico muito mais elevado que o do século XI e esboçou os argumentos que Dante, Marsílio de Pádua e Ockham haveriam de desenvolver pouco depois.

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As idéias políticas que medeiam entre Gregório VII e Bonifácio VIII, principalmente no que tange à supremacia de um ou outro poder, são o tema de O reino de Deus e o reino dos homens. Como os autores muito bem observam, a interdisciplinaridade própria dos medievais faz com que se seja difícil, senão impossível, separar teologia, filosofia, direito, política a história, e por isso mesmo a obra que estão publicando, ao situar-se em u m mundo diferente do nosso, é acima de tudo u ma obra de história das idéias. A competência dos autores e o valor intrínseco da obra, principalmente em um país que tão pouco conhece da Idade Média, são algo a respeito de que dispenso comentários. Permito-me tão somente ressaltar a importância para a vida acadêmica da coletânea de documentos que acompanha cada capítulo.

Porto Alegre, 30 de janeiro de 1997.

Luis Alberto De Boni Presidente da Comissão de Filosofia Medieval do Brasil.

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INTRODUÇÃO

As relações entre os poderes, ou melhor, entre os seus detentores, não importa quando tenham ocorrido, muito menos onde tenham acontecido, sempre foram um tema candente, seja pela luta travada entre seus protagonistas, seja pelas idéias que foram propostas em favor deste ou daquele ponto de vista. Neste livro trataremos das relações entre os detentores dos poderes espiritual e temporal na Baixa Idade Média. Não significa que iremos simplesmente examinar a convivência pacífica ou conflitante entre eles naquele momento histórico. Com certeza, os acontecimentos servirão de pano de fundo. Entretanto, nossa atenção irá especialmente convergir para o exame, ainda que muitas vezes conscientemente superficial, das idéias apresentadas pelos defensores da supremacia de um poder sobre o outro ou pelos propositores dum relacionamento harmônico entre os detentores de ambos, cada um deles respeitando o âmbito de atuação específico da sua competência, bem como os motivos que suscitaram essas diferentes atitudes, e, ainda, o suporte teórico que as fundamentaram. Além disso, é preciso ressaltar desde já que esse suporte teórico, como foi peculiar à Idade Média, dada a interdisciplinaridade vigente àquela época, era simultaneamente de natureza teológica, jurídica, filosófica, histórica, nunca tendo normalmente prevalecido apenas um desses aspectos teóricos na elaboração do discurso, cuja intenção nem sempre foi necessariamente política. Esta obra, portanto, não versa sobre a teologia ou a filosofia política medieval, nem desconhece a história da Idade Média. Não versa sobre a teologia ou filosofia política medieval, porque tais subáreas do conhecimento, consideradas de maneira autônoma, pura e simplesmente não existiram aquela época. Não desconhece a história do medievo, porque seria um absurdo fazê-lo ao abordar o pensamento político então produzido, uma vez que os autores medievais que escreveram sobre o objeto deste livro viveram naquele subperíodo histórico que iremos abordar, não tendo formulado as suas teorizações independentes das circunstâncias sócio-político-culturais nas quais estiveram inseridos.

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E, pois, um livro de história das idéias, no que isso implica quanto ao conhecimento da História, da Teologia, da Filosofia, do Direito Canônico e Civil, enfim da cultura. Em vista desses motivos, ao concebermos este livro, resolvemos que ele também devia ter um bom elenco documental, selecionado e organizado conforme os capítulos em que está estruturado, elenco esse que mostrasse plenamente aquelas características referidas nos parágrafos acima. Escolhemos, pois, cinqüenta documentos, cuja maior parte teve de ser traduzida do latim para o vernáculo, porque nos países de expressão portuguesa em geral, há pelo menos vinte anos, infelizmente não se estuda mais esse idioma, de modo que se não tivéssemos adotado esse procedimento, nos inspirando na atitude tornada pela Comissão de Filosofia Medieval do Brasil, relativa aos livros que produziu sobre Filosofia Medieval, bem como pela Editora Vozes, publicando na coleção Clássicos do Pensamento Político obras de alguns renomados autores políticos do medievo, os jovens interessados pelos estudos medievais, ate mesmo os que já estejam a freqüentar a pós- graduação, não teriam acesso aos mencionados documentos. Para quem, então, se destina este livro? Precipuamente ele foi escrito para todas aquelas pessoas apaixonadas pela Idade Média, como é o caso de seus autores. Particularmente, no entanto, ele foi feito para quem se interessa pelo ou se dedica ao estudo das idéias, das teorias e das filosofias políticas na Baixa Idade Media, seja ele aprendiz, iniciado ou mestre. Para os mestres, com efeito, só estaremos oferecendo nossas modestas interpretações hauridas nas correntes filosóficas do medievo no subperíodo em questão o neoplatonismo, o aristotelismo e o aristotelismo neoplatonizado , lacuna encontrada na maioria das obras escritas pelos grandes especialistas que abordaram o tema em apreço. Com referência aos aprendizes e iniciados, este livro tenta superar um vazio existente nos países de expressão portuguesa, pois, quando muito, encontramos alguns artigos esparsos nos volumes organizados pela Comissão de Filosofia Medieval do Brasil, ou, ainda, neste ou naquele número de algum periódico, de modo que ele lhes apresenta uma visão sistematizada e articulada a respeito da temática que aborda. Por sinal, a major parte das notas fornece indicações quanto a livros e a artigos a consultar, se quiserem ampliar o seu saber. Escolhemos um período rico, mas cronologicamente limitado, da história das idéias políticas medievais. Começamos expondo os fatos e as teorias que antecederam imediatamente a Reforma Gregoriana; terminamos abordando a querela envolvendo Bonifácio VIII e Filipe IV, o Belo, e as teses políticas defendidas pelos ideólogos favoráveis ao Papa ou ao Rei. Privilegiamos as relações entre os poderes, perspectivadas no confronto entre duas concepções políticas a hierocracia e a teocracia , seja inicialmente na querela entre a Igreja e o Império, seja ao final, na disputa ocorrida entre a Igreja e a monarquia nacional francesa. Por isso, concebemos e organizamos este livro em quatro capítulos, dos quais o primeiro e o último são indiscutivelmente os mais importantes.

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Ao tratar aqui deste assunto, poderíamos ter recuado mais ou ido além no tempo. No entanto, julgamos que os séculos XIV e XV, dadas as suas características peculiares, merecem um volume específico. Com referência a Alta Idade Media, em 1988 foi publicado um volume intitulado Pensamento político na A/ta Idade Média, e mais recentemente um outro, O reino e o sacerdócio: o pensamento político na Alta Idade Media; por isso, fizemos referências a fatos e a documentos vinculados a épocas anteriores apenas quando tal se tornava imperativo para a compreensão do assunto que

se estava a tratar ou ia ser abordado mais adiante. Finalmente, devemos esclarecer que, embora a nossa motivação para escrever este livro tenha surgido há mais de vinte anos, a pesquisa e a redação do mesmo aconteceram em várias etapas, em face das inúmeras responsabilidades profissionais e vicissitudes pelas quais passamos. A primeira etapa, após dois anos de trabalho descontínuo, foi concluída no princípio de 1989. A segunda etapa, resultante dos esforços do Dr. João Morais Barbosa, ex-Presidente do Conselho Cientifico da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e ex- membro da Academia Portuguesa de História, até sua morte prematura em dezembro de 1991, se estendeu de março de 1990 a fevereiro de 1991. A última e definitiva, de julho de 1994 a agosto de 1995. Entretanto, desde a conclusão da primeira etapa, este livro tinha a mesma organização interna de agora. Era desejo do Dr. Morais Barbosa, como o é o meu também, que nos países de expressão portuguesa, a semelhança do que acontece na Europa e na America do Norte,

haja pessoas que venham a se dedicar a investigação das idéias políticas que floresceram no medievo e a publicação do resultado de suas pesquisas. O jovem leitor esteja atento, porém, ao fato de que as doutrinas políticas medievais foram pensadas num contexto em que o espiritual e o temporal, o imanente e

o transcendente, o sagrado e o profano formavam um corpo único, sem as distinções

teóricas que nos, contemporâneos, somos relativamente capazes de estabelecer. Não podemos julgar o passado a luz do presente. Os nossos critérios não foram os que predominaram na Idade Media. Esperamos que as páginas deste livro tornem isso mais

claro para os nossos leitores. E que, mais do que julgar, sejamos capazes de compreender

o passado.

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O PERÍODO GREGORIANO

1.1

A HIEROCRACIA:

EVOLUÇÃO DOS FUNDAMENTOS TEÓRICOS

A Igreja, durante a Idade Média, sempre assumiu, relativamente à questão das

relações entre os poderes espiritual e temporal, uma posição bem definida, que pode ser considerada como o seu pensamento oficial. Desse modo, os vários pronunciamentos

papais a tal respeito não refletiram posições pessoais, mas veicularam uma estratégia

peculiar deste ou daquele Pontífice quanto a enfrentar concretamente uma disputa com o poder temporal.

A Igreja gradualmente elaborou e possuiu um programa de pensamento e de

ação acerca das relações entre os poderes espiritual e secular, de que os Papas foram, durante os seus respectivos pontificados, de acordo com as circunstâncias da época, os seus intérpretes. 1

É inegável que durante o citado período alguns Pontífices, entre os quais, por

exemplo, Gregório VII, Inocêncio III, Bonifácio VIII, dotados de uma capacidade de ação política excepcional e apoiados em teóricos de enorme gabarito, souberam definir o programa da Igreja de modo ímpar. Mas, em maior ou menor grau, todos eles fizeram

parte duma escola de pensamento eclesiológico-político que os transcendia e que, ela sim, procurava impor-se na sociedade medieval. Designamos essa escola de hierocrata, e a teoria política que gradualmente foi sendo elaborada e defendida, hierocracia.

O programa da Igreja essencialmente dizia respeito, de um lado a sua ação

pastoral no mundo, e, de outro, a sua própria organização interna, na qual avultava a definição da instância juridicamente capaz de a dirigir. Entretanto, isso não ocorreu repentinamente. As concepções relativas ao governo da Igreja e da sociedade que foram brotando durante o medievo encontraram, na

1 Cfr. ULLMANN, W. M ed i eva l political thought (London: Penguin Books, reprinted 1979), em especial o capítulo 4, ―The hierocratic doctrine in its maturity‖, p. 100-129.

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tradição de séculos, abundante material de apoio. Em parte, logo no início do Cristianismo e, depois, ao longo da Alta Idade Média, os teóricos do poder espiritual e do poder temporal souberam combinar idéias bebidas na Revolução, no Direito Romano

e na filosofia neoplatônica. Em lugar de relevo, estava, naturalmente, a Palavra Revelada. O Novo Testamento afirmava ter sido S. Pedro escolhido por Cristo para chefiar a Igreja e, simultaneamente, cuidar de todos os fiéis. Em Mateus (16, 16-19) lemos: ―Respondeu- lhe Simão Pedro: Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo. E Jesus respondeu-lhe: Bem- aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas meu Pai que está nos céus. Ora, também eu te digo: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus, e o que ligares na terra ficará ligado nos céus; e o que desligares na terra ficará desligado nos céus.‖ Por outro lado, no Evangelho de João (21, 15-18) está escrito: ―Depois de comerem, pergunta Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me tu mais do que estes? Respondeu-lhe ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo! Diz-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Volta a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Sim, Senhor, responde ele, tu sabes que te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. Pergunta-lhe pela terceira vez:

Simão, filho de João, tu me amas? Entristeceu-se Pedro por lhe ter perguntado pela terceira vez: Tu me amas?, e respondeu-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo. Diz-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas.‖ Esses textos bíblicos no período medieval sempre foram entendidos como que significando que o Senhor outorgou a Pedro o governo de toda a Igreja e igualmente confiou-lhe o supremo pastoreio de todos os fiéis, ainda que o segundo passo há pouco citado estabelecesse uma distinção entre ovelhas e cordeiros. No início da Idade Média Tardia, porém, os hierocratas, ampliando a dimensão

e a esfera do mandato petrino, explicitamente irão defender a tese segundo a qual o Papa, na condição de vigário de Cristo e de sucessor e herdeiro de São Pedro, é o ―monarca do mundo‖ de iure et de facto entre os cristãos, apenas de iure sobre os infiéis. 2 A mencionada passagem evangélica alusiva ao poder das chaves irá servir de base para eles afirmarem também a supremacia do Papa sobre o Imperador, dado que ao primeiro está confiado o ingresso dos fiéis no Reino celeste, independentemente da sua posição hierárquica sócio-política. Os chefes temporais aspiram a conseguir alcançar a mesma meta sobrenatural que qualquer homem e, como tal, estão as suas vidas confiadas ao Supremo Pastor da Igreja. Voltemos às origens da Alta Idade Média dirigindo nossa atenção as primeiras teses propostas com referência à organização interna da Igreja. Não foi absolutamente inusitado o fato de o Papa Leão Magno (440-461), profundo conhecedor da cultura

2 Cfr. o capítulo 4 deste livro, em particular, os tópicos relativos a Egídio Romano e o seu livro Sobre o poder eclesiástico e a Tiago de Viterbo e o seu tratado De regimine christiano, bem como as teses propostas por Bonifácio VIII nas bulas Ausculta fili e Unam sanctam.

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jurídico-política romana e experiente homem público, ter afirmado, por diversas vezes, que a Sé Apostólica era um principatus e que ele detinha a plenitudo potestatis. Quanto à plenitude do poder, note-se que se trata de uma plenitudo potestatis in spiritualibus, atribuída ao Papa, enquanto os demais bispos dispõem apenas de uma parcela do poder espiritual, como no Século XII igualmente o sustentará S. Bernardo de Claraval no De consideratione. Mas é bom saber de antemão que a passagem e a

dilatação da plenitude do poder in spiritualibus para o âmbito da temporalidade ocorrerão depois sem maior dificuldade. Para tanto, contribuiu fortemente o neoplatonismo e sua perspectiva de que as realidades superiores contêm em si, como em seu princípio, as inferiores; portanto, no poder papal, dada a sua superioridade espiritual, preexiste o poder temporal, ligado à materialidade das necessidades concretas da vida humana em sociedade.

As idéias acima referidas quanto à supremacia espiritual da Sé Apostólica ou do

Papado no seio da Igreja significavam, porém, àquela época, que, numa disputa de caráter doutrinal, moral ou disciplinar, desde que a mesma tivesse repercussão em toda a Igreja, a sentença definitiva cabia sempre ao Papa. É de então a bem conhecida expressão Roma locuta, causa finita.

A monarquia papal era tida como a forma mais perfeita de governo, dado

inspirar-se em Deus, senhor único do universo, o qual o dispôs harmonicamente através duma única lei, a divina, em si mesma eterna e imutável. Tal paradigma devia igualmente aplicar-se ao corpo eclesiástico, no qual, desde então, o Pontífice Romano ocupa o primeiro lugar. Baseado no mesmo princípio, o pensamento político medieval da segunda metade do século XIII, que irá brotar da pena de Tomás de Aquino, 3 conquanto diferentemente respaldado na Metafísica, na Ética e na Política de Aristóteles, proporá a monarquia como a melhor forma de regime político ou governo temporal. No entanto, mais tarde, tanto a hierocracia, como a teocracia régia, ao conceberem a organização da humanidade num corpo unitário, defenderão a tese segundo a qual apenas uma pessoa deverá conduzir a Christianitas, seja o Papa na

perspectiva hierocrática, seja o imperador na perspectiva teocrática. Mas, no respeitante à vida e à organização eclesial, as orientações dadas pelo Sumo Pontífice deveriam abarcar todos os fiéis, porque toda a autoridade provinha da caput, de modo que os batizados, sem exclusão de ninguém (como acima vimos), tinham o dever de obedecer-lhe. Portanto, como afirma Anthony Black, a relação entre o Papado e as idéias da monarquia absoluta remonta ao século V; no entanto, é necessário distinguir sempre que soberania legal, refere-se a uma corte de apelo final, base do

ademais, nenhum órgão político podia, na prática como

conceito de Principatus. ―[

]

3 Cfr. as principais teses políticas do Aquinate apresentadas no final do capítulo 3 deste livro. Na parte documental relativa ao mesmo, incluiremos alguns textos de sua autoria que se encontram no De regimine principum

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se pretendia no pensamento político do neoplatonismo , ficar fora do sistema social no qual atua [ Quase ao término do século V, o Papa Gelásio I (492-496), procurando frear o cesaropapismo bizantino, dado que ainda não haviam sido explícita e oficialmente definidos pela Igreja de Roma os respectivos campos de atuação dos poderes espiritual e temporal, o fez magistralmente numa carta 5 dirigida ao Imperador Anastácio I (491-

518).

Desse texto legal quatro teses básicas irão marcadamente influenciar o pensamento político medieval relativo à questão das relações entre os poderes: a) O Papa possui a auctoritas; o imperador e os Reis detêm a potestas. b) O primeiro, juntamente com os demais ministros eclesiásticos, é o responsável pela salvação de todos os seres humanos, de modo que sua missão é de natu reza espiritual e transcendente. É da competência dos demais propiciar-lhes o bem-estar de seus súditos neste mundo. c) A missão dos sacerdotes e, por extensão, de seu líder é mais importante do que a desempenhada pelos senhores do mundo, de mod o que, por conseguinte, a posição ocupada pelos primeiros é mais relevante do que a dos segundos. d) As esferas de atuação próprias do espiritual e do temporal são distintas entre si. 6 Não nos alongaremos mais na investigação de como o pensamento hierocrático foi se enriquecendo e ampliando durante a Alta Idade Média. Com vista ao nosso objetivo, é suficiente estar atento a o que foi exposto nos parágrafos anteriores. 7 A par desses fatos, porém, outro acontecimento simultâneo, alheio à vontade dos papas e dos bispos, contribuiu outro tanto para a ampliação de seu poder terreno. Com a desagregação das províncias ocidentais do Império e o conseqüente estabelecimento de vários reinos ―bárbaros‖, o Bispo de Roma e os demais antístites,

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4 ―A influência do conceito de monarquia absoluta sobre o modo de entender a exercer autoridade papal.‖ Concilium, n. 7, 1972, p. 943. 5 SOUZA, José Antonio de. ―O pensamento gelasiano a respeito das relações entre a Igreja e o

Império Romano Cristão.‖ Leopoldianum, n. 31, 1984, p. 15- 41, em especial p. 36-37. 6 WECKMANN, Luís. El pensamiento politico medieval y las bases para un nuevo Derecho Internacional. México: Universidad Autonoma, 1950, 4: ―A diferencia de la Antiguedad, en donde la esfera eclesiástica se subordina al estado y se confunde en él, la tendencia ortodoxa medieval es

Ambos poderes, sin embargo, en cuentran un paradigma en

Cristo, Sumo Sacerdote y Rey de Reyes, con lo cual la distinción entre lo espiritual y lo temporal teóricamente formulada por el papa Gelasio, se vuelve en la práctica poco precisa. Si bien el Sacerdocio y la Realeza son en el Medioevo dos dignidades distintas, el Sacerdocio es en su esencia no menos regio que la Realeza es sacerdotal. Esto produce una confusio entre ambas esferas, una ‗transparencia‘ que se entiende en virtud de la noción, prevalente en el Medioevo de que la ‗Iglesia‘ y el ‗Estado‘ tienen hasta cierto punto el mismo fin: la primera, la salvación de las almas; el segundo, crear las condiciones de paz y justicia que hagan factibie esta salvación [ 7 O leitor interessado em aprofundar seus conhecimentos acerca deste assunto poderá no entanto, ler, de Francisco Bertelloni, ―El pensamiento politico papal en la Donatio Constantini‖ e ―As raízes da hierocracia no De institutione regia de Jonas de Orleans‖. In: SOUZA, José Antônio de (org.). Pensamento político na Alta Idade Média. Santos, São Paulo, Ed. Unv. Leopoldianum, Loyola, 1988, respectivamente p. 33-53, 54-59, 101-126, 127-145.

la de separar ambas potestatades [

]

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especialmente por causa de sua cultura, experiência, prestígio e comportamento virtuoso singular, passaram a exercer também funções políticas, de modo que a influência da Igreja, não apenas no aspecto religioso e moral, mas também em todas as outras atividades sociais, tornou-se uma realidade cada vez mais intensa. Aos poucos, foi então desaparecendo a concepção de Estado, alicerçada no direito natural e romano. Também, paulatinamente, os teóricos medievais foram esboçando, em seu lugar, a noção de Christianitas, cujos membros eram todos os batizados e cujo principal fator de união era a profissão da mesma fé e que, socialmente, se fundamentava na justiça e na paz cristãs, de modo que, progressivamente, o imanente foi sendo absorvido no transcendente e o secular no espiritual. No entanto, a participação dos eclesiásticos nos destinos políticos da sociedade medieval custou à Igreja um preço elevado. Muitos prelados transformaram-se em príncipes temporais e, como reverso da medalha, os filhos de nobres, para sobreviverem às vicissitudes feudais, foram investidos em funções de párocos, abades, bispos e até mesmo papas. Tais fatos provocaram generalizada indisciplina clerical, acompanhada de relaxamento moral e incompetência em matéria doutrinal. Além disso, passado o período de bom relacionamento entre Igreja e Império, que Carlos Magno promoveu e sustentou, seus sucessores mostraram-se incapazes de prestar auxílio efetivo à Sé Apostólica, não tendo meios para coibir a repetição dos mencionados abusos, quando não eles mesmos os apoiavam, pois encontravam-se envolvidos em disputas feudais com os seus vassalos e parentes e, ainda, com os muçulmanos nos confins da Francia Occidentalis com a Península Ibérica, com os eslavos nas fronteiras da Francia Orientalis e, igualmente, com os normandos e piratas na costa noroeste do Império.

1.2

OS ANTECEDENTES DA REFORMA GREGORIANA

Mas o próprio dinamismo sócio-religioso no interior da Igreja, aliado à firme convicção que muitos eclesiásticos possuíam de que a origem e a missão da Igreja eram divinas, suscitaram um desejo sincero de nela promover reformas religiosas e sociais profundas. Para tanto, era imperativo purificar e espiritualizar o clero, pondo fi m à investidura laica, à simonia e ao nicolaísmo, com todo o cortejo de funestas conseqüências desses males que desabavam sobre a sociedade. Tal anseio reformista nasceu entre os monges de Cluny, ainda no século IX, e, a partir daquela abadia, aos poucos, se irradiou por toda a Europa. Os reformadores tencionavam primeiramente fazer dos eclesiásticos um grupo constituído exclusivamente por pessoas de fato vocacionadas para a vida clerical, movidas pelo amor a Deus e ao próximo, inspiradas no Evangelho, podendo, assim, vir a servir posteriormente de modelo exemplar para os leigos. Com o decurso dos tempos, o movimento reformador ampliou seus objetivos, pretendendo também espiritualizar a própria sociedade como um todo. O processo histórico daí nascido implicava transformações políticas profundas, pelas quais a Igreja viria a se libertar da tutela dos príncipes seculares e dos imperadores germânicos, os quais, nos territórios sob a sua autoridade, continuavam a nomear dignitários

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eclesiásticos por sinal, muitos deles também imbuídos do mesmo espírito reformista, porém, orientado e dirigido pelo Imperador. Mas tal fato não era aceito pacificamente pelos que desejavam uma reforma abrangente, visto a missão sacerdotal ainda continuar, em parte, nas mãos de pessoas que serviam à política imperial. Era urgente, pois, que os leigos assumissem o compromisso de se limitar à execução das tarefas da sua competência, sempre movidos pelo amor a Deus, concretizado no cumprimento das diretrizes éticas e religiosas emanadas da Igreja. Todavia, o clero alemão, que também aderira ao espírito e ao programa reformistas, fundamentando-se na literatura produzida na época carolíngia respeitante à tarefa do Imperador e da nobreza e à missão dos bispos, estava convicto de que o sucesso da reforma só poderia vir a ser alcançada se a autoridade imperial fosse plenamente restaurada. Como sabemos, os monarcas germânicos dos séculos X e XI conseguiram tal desiderato, tanto na própria Alemanha como na Itália Setentrional e Central. 8

Coexistiam, pois, duas tendências no interior do movimento reformador quanto aos meios a utilizar para alcançar os objetivos. Uma era de natureza exclusivamente clerical e anticesaropapista, inspirada teoricamente no pensamento gelasiano sobre as atribuições específicas do sacerdócio e da realeza. A outra, cujos partidários viviam nas regiões sob controle político do Império, defendia a idéia segundo a qual tinha de ser o Imperador a dirigir a reforma, pelo que a investidura dos dignitários eclesiásticos praticada por ele era como que um mal necessário. Mas à véspera do início da segunda metade do século XI a situação começou mudar. A corrente reformadora clerical, graças a suas convicções e lutas, ampliou consideravelmente seu espaço político e prestígio. Assim, conquanto Leão IX (1049- 1054), pertencente ao clero reformado alemão, tenha sido investido na cátedra de Pedro por Henrique III (1039-1056), sentindo que desfrutava do apoio das duas correntes, desencadeou uma campanha de acordo com o que a mesma protagonizava. Assim, reuniu um sínodo em Reims, onde tomou severas providências contra a simonia e a investidura efetuada pelos leigos, além de estabelecer normas relativas ao comportamento sócio-religioso e moral do clero e dos fiéis em geral, as quais iriam nortear a atuação dos seus sucessores. Entre elas, estabeleceu que: o governo duma igreja só podia ser exercido por quem houvesse sido previamente eleito pelo clero e pelo povo; as ordens sagradas e os ofícios eclesiásticos não podiam ser objeto de negociatas; nenhum leigo podia exercer qualquer ofício clerical; os clérigos não deviam levar armas consigo. 9 Na execução do programa reformista, os primeiros papas do período em exame aproveitaram-se do fato de o rei Henrique IV ser criança e, por isso, incapaz de se opor ao mesmo. Foram muito bem auxiliados, especialmente por três monges de qualidades notáveis Hildebrando, Frederico de Lorena e Humberto de Moyenmotier, abadia da

8 Cfr. SOUZA, José Antonio de. A teocracia imperial no fim da Alta Idade Média. In: - (org.). O reino e a sacerdócio; o pensamento político na Alta Idade Média. Porto Alegre: Edipucrs, 1995, p.

211-234

9 Cfr. Documento 1

16

diocese de Toul , os quais, depois, irão ocupar os mais altos cargos da hierarquia eclesiástica. Humberto, aliás, logo em seguida, nomeado Cardeal de Silvacandida, entre 1056-1058 escreveu uma obra intitulada Três livros contra os simoníacos. Num passo do livro III, cap. VI, não só criticou violentamente a prática usual da investidura, como também aludiu ao modo correto do só efetivar a eleição episcopal, cujos procedimentos seriam: escolha de alguém efetuada pelo clero da diocese local, pessoa essa cuja vida fosse um exemplo de integridade religiosa e moral; solicitação da parte do povo do

lugar; e, finalmente, sagração episcopal conferida pelo arcebispo metropolita.

pastor, legitimamente escolhido e consagrado, seria um exemplo de edificação para os fiéis, instruindo-os pela palavra e pelo exemplo na doutrina cristã. Teria competência para corrigi-los, caso fosse necessário, através de exortações ou, ainda, com castigos mais severos. Um pouco mais adiante, há um outro passo desse capítulo que também só reveste de certa dimensão política. Nele a Igreja é comparada à alma e o Reino ao corpo, sendo estabelecido um princípio que bem irá servir, mais tarde, à corrente hierocrática, sempre propensa a esse tipo de comparações e de analogias, para alicerçar as suas idéias. Enquanto sociedade perfeita, a Igreja dispõe de todos os meios para bem desempenhar seu ofício. Não necessita, pois, do poder temporal para promulgar suas próprias leis ou escolher seus ministros; é igualmente capaz do corrigi-los e castigá-los, mesmo que exerçam também funções na administração imperial. Mas existe um aspecto relevante na obra de Humberto: o de sobrevalorizar o espírito e afirmar explicitamente sua superioridade em relação à matéria. Essa afirmação está haurida no pensamento filosófico da Alta Idade Média, genericamente considerado, e deve naturalmente suas origens ao Cristianismo e ao neoplatonismo. Curiosamente, no entanto, a filosofia neoplatônica, em seus aspectos mais relevantes, bom como em sua inspiração de base, fazia correr sérios perigos à fé cristã, conduzindo normalmente a teses de natureza panteísta. Por isso, o Pseudo-Dionísio Areopagita teve o grande cuidado de salvaguardar a absoluta transcendência de Deus, protegendo-a das conseqüências funestas duma doutrina emanatista ao bom modo neoplatônico. E, mais tarde, João Escoto Eriúgena, após traduzir o Corpus areopagyticum, compôs o seu De divisione naturae, claramente influenciado pelo Areopagita, cujas tendências (pelo menos) imanentistas e panteístas são assaz evidentes. Mas, apesar desses perigos, o neoplatonismo foi a ferramenta fundamental para a constituição da teologia católica, por exemplo, relativamente à explicação racional do

Tal

10

mistério da Santíssima Trindade. Ademais, a afirmação da existência e da subsistência de realidades puramente espirituais, oferecida pelo neoplatonismo, fez dele a principal corrente filosófica para a sustentação da fé cristã, carente, durante alguns séculos, duma sólida base intelectual que a firmasse no terreno cultural, abundantemente povoado de filosofias pagãs provenientes da Antigüidade.

10 Cfr. Documento 2.

17

O primado do espírito sobre a matéria revelou-se mais tarde como o nervo teórico mais apreciável da hierocracia medieval. E Humberto foi o primeiro teórico da Baixa Idade Média a assumi-la, como dissemos, ao tratar das relações entre os poderes, afirmando a importância das realidades espirituais, enquanto as mesmas possuem um valor intrínseco em razão da sua natureza e finalidade. Como reverso da moeda, as coisas mundanas e o corpo são meramente instrumentos para a consecução do fim último da vida humana, a bem-aventurança eterna. Por isso, o Cardeal Humberto defendeu a precedência do sacerdócio em geral, e do Papa em particular, no tocante ao poder terreno e imperial. São os sacerdotes, com efeito, os conhecedores por excelência da Revelação, os seus intérpretes privilegiados. Estão, pois, em condições de promulgar normas reguladoras sobre o comportamento moral e religioso dos fiéis. Estes, desde o mo mento do Batismo, transformam-se em homines spirituales-renati, isto é, em cristãos, filhos de Deus, membros da Ecclesia- Christianitas e, como tal, obrigados a observar tanto os desígnios da Providência (a ordem do universo e da sociedade, a divisão dos ofícios no seu interior) quanto as leis eclesiásticas. 11 Daí, os próprios dirigentes seculares terem de obedecer às normas emanadas do Evangelho, interpretado pela Igreja, se quiserem salvar-se. A preeminência da alma sobre o corpo e a matéria e a comparação entre a Igreja equivalendo à alma e o Império correspondendo ao corpo, à primeira vista banais, se constituirá, mais tarde, como uma das traves-mestras da hierocracia, cuja lógica é irrefutável: se a alma prevalece sobre o corpo e o dirige, então a Igreja deve controlar o poder real e imperial. Além das idéias acima referidas, Humberto com vista a mostrar a preeminência do sacerdócio, em particular do Sumo Pontífice, sobre o Imperador, serviu-se, outrossim, de outra analogia, que será utilizada, mais tarde, com muita freqüência, pelos hierocratas, qual seja, a comparação entre a magnitude do sol, simbolizando a autoridade sacerdotal (da Igreja), e a claridade da lua, representando o poder secular, 12 dado que este último recebe daquele sua luminosidade, propondo dessa maneira a subordinação do poder real ao espiritual, bem como a íntima colaboração que entre ambos deve existir. O nosso Autor ainda enquadra os poderes régio e imperial na esfera da autoridade da Igreja e lhes atribui a faculdade de, pela força, submeter os fiéis aos ditames dos sacerdotes, em particular do Sumo Pontífice. Este ponto merece um pouco mais da nossa atenção. Sob a ótica da Igreja, é oportuno recordar que as Renovationes Imperiales de 800 e de 962 denotavam precipuamente que o Império e o Imperador eram criaturas da Igreja, estabelecido com os propósitos de defender a fé cristã, a Sé Romana e as demais dioceses contra os seus inimigos e punir fisicamente os mais graves transgressores dos mandamentos divinos e eclesiásticos. É evidente, porém, que tanto Carlos Magno (742-814) quanto os imperadores germânicos jamais se consideraram como tal e, por isso, obrigados a exercer sempre um ministerium religioso que a Igreja lhes impunha. Ao contrário, eles se consideravam

11 ULLMANN, W. Principios de gobierno y politica en Ia Edad Media. Madrid: Ed. Revista de Occidente, 1971, p. 122-123.

12 Cfr. Documento 3

18

como supremos líderes incontestes da Christianitas, na condição de sucessores dos antigos imperadores romanos. Tanto era assim, como estamos a ver, que se julgavam no direito de indigitar direta ou indiretamente quem lhes aprouvesse para exercer cargos eclesiásticos de relevância, pois os interesses políticos do Império e/ou da dinastia reinante se sobrepunham a quaisquer outros. Mas, por agora, estamos a examinar, como desabrochou e veio a se consolidar nos meios eclesiásticos a idéia de que os detentores do poder secular, e o Imperador, em especial, tinham de ser ministri Ecclesiae. Isso aconteceu a partir da absorção do princípio paulino non est potestas nisi a Deo (Rm 13, 1) como postulado de toda a teorização sócio-política, que transferia para a esfera da transcendência a ratio originalis do Império Romano Cristão e, mais tarde, dos outros principados terrenos. Ora, desaparecido o Império Romano, até que ele novamente viesse a ser restaurado, e mesmo depois, a Igreja efetivamente foi, na Idade Média, a única instância de unificação sócio-político-religiosa, pois a unidade de uma mesma fé congregava o homem europeu de então, e a catolicidade de sua missão a fazia universal. Era, portanto, inadmissível a idéia, e muito menos a efetivação de uma unidade social com fundamento na temporalidade e no âmbito do político. Além disso, a progressiva edificação da Igreja numa estrutura monárquica de governo centralizado no Papa fez dela igualmente a única instância universal de poder. A este naturalmente estava vinculada a coercividade, pelo que ao Sumo Pontífice e aos demais ministros eclesiásticos competia punir espiritualmente os fiéis, sendo a excomunhão o castigo extremo que separava o excluído daquela comunidade e, caso ele não viesse a se reconciliar com a mesma enquanto vivesse, estava fadado à condenação eterna após sua morte. Ademais, a fé cristã, ao propor para o homem como sua meta última de vida a salvação e a beatitude eternas, projetava na transcendência toda a ação desenvolvida neste mundo, relativizando assim as atividades sócio-políticas. Entretanto, a Igreja atuava neste mundo; por isso, os seus dirigentes, com o passar do tempo, acharam por bem que os fiéis também deviam ser castigados com penas materiais, mas desde sempre os textos canônicos proibiram que os clérigos se envolvessem com ―causas de sangue‖, pelo que a coerção física lhes estava desde logo vedada. Ela necessitava, pois, estabelecer uma instância a quem a coerção física fosse entregue. Essa instância em grau supremo foi o Imperador. Ademais, o sistema neoplatônico subjacente, como dissemos, em muitas das teses que já examinamos, tinha como uma de suas vigas-mestras a idéia da convergência de tudo para a unidade, de modo que o modelo de governo monárquico da Igreja foi transposto para o terreno da sociedade laica, entendendo seus teóricos que a mesma devia ser dirigida por um único chefe na esfera temporal, evidentemente colocado abaixo de seu criador. Quando, então, nos séculos XII e XIII os Sumos Pontífices passaram a dizer que o Imperador era o filho, defensor e advogado da Igreja, a assertiva se enquadrava perfeitamente no genuíno território mental da concepção eclesiástica de Imperium, a cujo dirigente a Igreja tinha confiado o exercício do gladius materialis, o qual de direito pertencia ao Papa, a quem, no entanto, estava proibido o uso.

19

Os curialistas medievais, para justificar sua tese, que concebia o Imperador como instância de poder delegado, competente para executar as sanções materiais em benefício dos fins espirituais da Igreja, fundamentaram-se na conhecida alegoria das duas espadas, que se encontra no Evangelho de S. Lucas, 13 sobre a qual iremos tratar no próximo capítulo. Assim, o Imperador era visto como o braço ―armado‖ da Igreja. Todavia, é preciso estar atento ao fato de que a história das idéias, aliada freqüentemente à história dos interesses políticos, normalmente segue seu rumo próprio. Daí, a figura do Imperador como braço armado da Igreja e, portanto, como delegado do poder papal em causas espirituais que exigissem uma intervenção de força material, ter sido progressivamente absorvida pela esfera da política, de modo que não foi só a amplitude da coerção a única coisa que passou a ser considerada, mas também todo seu poder temporal, o qual, nos séculos seguintes, irá acabar por subsumir-se naquela função ministerial. As relações entre os poderes espiritual e temporal na Idade Média extrapolaram igualmente o mero campo das esferas respectivas de atuação, associando-se com as questões relativas à terra e à problemática do direito de propriedade. 14 Quer na perspectiva original, quer na dos séculos XII, XIII e XIV, o Império subsumia-se na Igreja, e esta se identificava com a própria Cristandade Latina, pois todos os seus membros faziam parte de ambas as instituições. Aí está, pois, o motivo da afirmação de Humberto de Silvacandida que mencionamos algumas páginas atrás. Entretanto, voltando efetivamente à segunda metade do século Xl, o primeiro grande passo para a completa libertação do Papado no tocante a tutela imperial foi dado em 2 de agosto de 1057, quando o clero e os romanos, sem a interferência da nobreza, elegeram como papa Frederico de Lorena, abade de Monte Cassino, que tomou o nome de Estêvão IX. A Igreja tinha efetivamente de demonstrar a superioridade da sua missão e os direitos que possuía inerentes à mesma, a fim de se autogovernar em plena liberdade. No entanto, após a morte do Pontífice, em 1058, a nobreza romana tentou novamente intrometer-se na eleição papal. Hildebrando, com os seus inegáveis dotes diplomáticos, conseguiu que fosse eleito papa Gerardo, arcebispo de Florença, que tomou o nome de Nicolau II (1058-1061). O novo Papa procurou consolidar a ameaçada autonomia do clero na eleição pontifícia, prevenindo casos futuros. Para tanto, convocou um sínodo a se reunir em S. João de Latrão, durante o qual promulgou, em 13 de abril de 1059, a decretal In nomine domini. 15 Este documento foi provavelmente redigido por Humberto de Silvacandida. 16 Definiu, inequivocamente, a competência dos cardeais quanto à eleição do Pontífice, ameaçando com a excomunhão, não apenas quem não aceitasse o que estipulava a mencionada decretal, mas também a pessoa que viesse a ascender de outro modo a Sé Apostólica.

13 Lc 22, 38: ―Disseram eles: ‗Senhor, eis aqui duas espadas‘. Ele respondeu: ‗E suficiente!‘‖

14 Cfr, COLEMAN, J. The two jurisdictions: theological and legal justifications of church property in the thirteenth century. Studies on Church History, n. 23, 1987, p. 75-109.

15 Cfr. Documento 4

16 Cir. BIHLMEYER-TUECHLE. História da Igreja. São Paulo: Paulinas, 1964, p. 155. v. 2.

20

Numa outra decretal, 17 igualmente promulgada por ocasião do referido sínodo, Nicolau II, dirigindo-se ao clero e ao povo em geral, remeteu-lhes as decisões tomadas durante o mesmo. Após, no primeiro ponto, determinar competir aos cardeais bispos a eleição do Sumo Pontífice, prosseguiu reiterando enfaticamente a condenação da simonia e do nicolaismo. Como é fácil de se imaginar, grande parte da nobreza ítalo- germânica opôs-se a ambas as decretais, que contrariavam os seus interesses político- feudais, pois ―C‘était là la condenation de l‘investiture, la prise en mains de la reforme par Rome et, le cas échéant, le conflit avec les pouvoirs civils qui entendaient disposer des fonctions ecclésiastiques‖. 18 Por isso, o Papa e Hildebrando procuraram auxílio junto dos normandos, assinando com eles, em 1060, o tratado de Amalfi. No mesmo, estabelecia-se que os normandos protegeriam militarmente a Igreja Romana contra seus adversários, especialmente garantindo a liberdade nas eleições pontifícias, enquanto o Papa reconheceria como legítimas as conquistas efetuadas por eles na Itália Meridional sobre os territórios pertencentes aos muçulmanos, comprometendo-se, outrossim, a enfeudar seu chefe, Roberto Guiscardo, como senhor da Sicília, no caso de este conseguir a vitória sobre os islâmicos que dominavam a ilha. Contudo, pouco depois, o jovem rei da Alemanha, Henrique IV, pressionado pela alta nobreza, que desejava manter os privilégios e a autonomia em face do poder central, adquiridos durante a sua menoridade, retomou a prática da investidura episcopal com fins políticos, na Germânia e na Itália Setentrional, de modo a restabelecer e ampliar sua autoridade. Assim, a nobreza romana que apoiava o Rei, opondo-se ao novel Papa eleito legitimamente pelos cardeais, Alexandre II (1061- 1073), escolheu Cadalo, bispo de Parma, para assumir a Sé Apostólica, o qual tomou o nome de Honório II. Pedro Damião (1007-1072), outro importante líder do partido reformista eclesiástico, opôs-se firmemente contra esse ato, manifestando sua desaprovação nu ma carta dirigida a Henrique IV. 19 Nesse documento, o cardeal-monge claramente apontou, como aliás em ocasiões semelhantes sempre acontecia, as esferas próprias de competência do sacerdócio e da realeza e a necessidade de ambos os poderes se ajudarem mutuamente na condução da sociedade cristã. A autoridade sacerdotal e o poder secular têm sua origem em Cristo e estabelecem entre si uma espécie de pacto. O sacerdócio é defendido pela proteção real, enquanto o rei e o povo se beneficiam das orações dos sacerdotes. No texto, uma vez mais, é reiterada a afirmação segundo a qual o rei tem por missão coagir pela força das armas os inimigos da Igreja. A função primacialmente atribuída à realeza é o ofício de fazer justiça, pelo qual os maus são punidos. E, se a dignidade régia deve ser reverenciada, será, no entanto, merecedora de desprezo se quem a exercer agir em benefício de seus interesses pessoais em detrimento da Igreja.

17 Cfr. Documento 5.

18 PACAUT, Marcel. La théocratie, l‘Église et le pouvoir au Moyen Age. 2. ed. Paris: Desclée, 1989, p. 61.

19 Cfr. Documento 6.

21

Portanto, a missão régia novamente acaba, por ser considerada ancilar no que tange à sacerdotal Assim, o rei Henrique IV, desde que venha a tomar medidas efetivas contra o antipapa Honório II, se tornará merecedor de receber a coroa imperial; caso contrário, as conseqüências serão terríveis para o monarca germânico. 20 Henrique IV, porém, não deu a mínima importância para a missiva de Pedro Damião, continuando a apoiar Cadalo e a investir mais pessoas que lhe eram devotadas como bispos.

1.3

GREGÓRIO VII E HENRIQUE IV

No ano de 1073, o antigo monge e cardeal Hildebrando (* 1020), cuja ação se desenvolvia, há muito, no interior da corrente reformista clerical, como vimos, foi eleito papa, escolhendo para si o nome do Gregório VII. ―Dal papa que ha dato il suo nome alla riforma è certa la notevole tempra di uomo pratico, di instancabile lottatore, di tenace assertore di alcuni principi generali: non pensatore politico, non grande teologo appare.‖ 21 Oferecia-se-lhe, pois, a oportunidade de, agora mais do que nunca, prosseguir a obra de reforma dos seus imediatos antecessores, no sentido da espiritualização da Ecclesia-Christianitas. 22 Para Gregório VII, a fé cristã estabelecia normas de comportamento que todos os fiéis deviam observar. 23 Tais normas estavam igualmente alicerçadas no princípio de

20 LLORCA et al. Historia de la Iglesia Católica II. Madrid: BAC, 1963, p. 145: ―San Pedro

Damiani jamás puso en duda los derechos históricos del emperador a intervir en las elecciones pontificias y creyó útil y conveniente para la Iglesia la última decisión de aquél en casos dificiles y pensaba que mutuamente podían e debían ayudarse [

21 CAPITANI, O. Papato e imperio nei secoli XI e XII. In: FIRPO, Luigi (org.). Storia delle idee politiche, economiche e sociali. Torino: Unione Tipografico-Editrice Torinese, 1983, p. 134. v. 2.

22 Cfr. MIETHKE, J. La teoria della monarchia papale nell‘Alto e Basso Medioevo: mutamenti di funzioni. In: DOLCINI, Carlo (org.). Il pensiero politico del Basso Medioevo. Bologna: Pàtron, 1983, p. 122-123: ―Certamente, anche la cerchia dei riformatori che stavano attorno a Gregorio VII faceva riferimento alle antiche rivendicazioni ed alle formule tradizionali, che attribuivano alla chiesa romana un posto al vertice di tutte le altre chiese. Ma le antiche formule non spiegano, da sole, il risveglio che si può osservare in questo periodo. L‘impeto della lotta per la libertas ecclesiae, la libertà della chiesa (e ci significava anche di ogni singola chiesa locale) dal controllo laicale, risultò da una nuova volontà, che con un élan rivoluzionario si sbarazzò delle resistenze

tradizionalistiche. Dominus dicit: ‗Ego sum veritas et vita‘, non ait ‗Ego sum consuetudo‘ [

] Con

l‘espressa assunzione di questo ‗slogan‘ di Tertuliano da parte di Gregório VII venero posti i limiti del raporto di continuità con una tradizione divenuta ormai di difficili interpretazione complessiva. Nella verità difesa con energia, si ritrova un criterio che consentiva di dare un nuovo ordine ermeneutico ai testi antichi [

23 ULLMANN, W. Principios de gobierno y politica en la Edad Média. Madrid: Ed. Revista de Occidente, 1971, p. 97-98: ―La existencia de la fe cristiana medieval es uno de los hechos más sorprendentes de la historia del derecho: la fe en la divindad de la institución dio origen al derecho

22

justiça ―dar a cada um o que lhe é devido‖. Mas era necessário esclarecer, não apenas o significado desse princípio, mas também como devia ele concretizar-se na sociedade cristã, especialmente no tocante às respectivas missões do sacerdócio e da realeza e ao seu relacionamento, atendendo ao fim último dos integrantes da mesma, cuja natureza transcendente a salvação eterna se admitia com facilidade. Para que tal sucedesse, cada indivíduo, pouco importava o seu lugar naquela sociedade hierarquizada, devia cumprir rigorosamente suas obrigações para com a mesma, procedimento esse que iria redundar no bem comum. Este prevalecia, portanto, sobre os bens meramente individuais, mas não os anulava, já que a pessoa humana, ao contribuir para a realização do bem da comunidade no seu todo, estava em condições de, em troca, receber a justa medida de seu bem privado. Estamos ainda longe do século XIII, em que S. Tomás de Aquino sistematizará de modo sólido e coerente a teoria do bem comum e da sua relação com o bem individual. Embora com intuito diferente, Gregório VII propôs o mesmo princípio, ao sustentar que um monge não era a pessoa mais indicada para liderar tropas na luta contra os muçulmanos, como o rei também não o era para impor ao arcebispo o cerimonial da sagração episcopal.

Além disso, bem ao gosto da mentalidade medieval, o Papa via a sociedade como um organismo, que era em si mesmo um reflexo da ordem querida por Deus. Cada pessoa e cada grupo social tinha a sua própria ordo, cujos limites não devia transpor, já que ao fazê-lo estava a atentar contra os desígnios do autor divino da organização da sociedade em ordens estáveis e, como dissemos, organicamente estruturadas. Esta concepção, que corresponde ao imaginário do feudalismo, 24 assegurava, pois, a estabilidade social, tanto mais que a mesma se fundamentava, quanto a este particular, num esquema ternário: as ordines dos oratores, bellatores e laboratores. Se um quarto elemento fosse introduzido, não apenas o esquema viria conseqüentemente a ser aniquilado, bem como a estabilidade reinante cederia seu lugar para o desequilíbrio sócio-político.

O que importa realçar no pensamento e na ação deste político da

Ecclesia/Christianitas é a sua adesão à idéia da comunidade humana, concebida como um organismo ordenado segundo os desígnios do seu próprio Criador. O ordenamento social, e a correspondente condenação da ultrapassagem dos limites próprios de cada ordem, possui assim o seu fundamento na transcendência: daí sua indiscutibilidade. Logo no início do seu pontificado, Gregório VII enviou uma carta a Henrique IV. 25 O Papa, na primeira parte da missiva, adotou um tom conciliador, elogiando inclusivamente o rei por suas atitudes quanto a extirpar a simonia do seu território e a ter

recebido amistosamente os delegados pontifícios.

No entanto, a parte final da missiva é altamente crítica para com o Monarca,

dado que ele continuava a praticar a investidura, especialmente na diocese de Milão. Por

de la misma institución que, a su vez, regulaba a dicha fe. He aquí una demonstración patente del

anima operando como diretora del corpus [

24 Cfr. DUBY, G. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Lisboa: Estampa, 1982.

25 Cfr. Documento 7

23

]‖.

último, Gregório solicitou a ajuda do Rei, quanto a intimar alguns bispos a comparecerem num sínodo previsto para a Quaresma de 1074, onde teriam de explicar o modo como foram eleitos para os seus cargos. Nota-se, pois, que Gregório VII assumiu efetivamente o posicionamento de seus antecessores no sentido de conferir à Igreja a completa autonomia na condução dos negócios espirituais, considerando o rei germânico, tal como acima expusemos, isto é,

um delegado seu em causas com incidência no foro secular. No mencionado sínodo, realizado na data prevista em Roma, foram reiterados os decretos pontifícios dos papas precedentes contra a simonia, o nicolaísmo e a investidura. Vários bispos de dioceses germânicas foram destituídos e um bom número de clérigos excomungados. Estes, revoltados com as medidas repressivas do Papa, protestaram junto de Henrique IV, o qual se via igualmente enfraquecido pelos decretos sinodais. De fato, havia mais de um século, os prelados depostos exerciam cargos de relevo no Império e prestavam colaboração à política imperial. Assim, o Imperador e os bispos destituídos passaram a criar sérias dificuldades à efetivação da reforma gregoriana. Como nos diz J. Quillet, ―toute la querelle des investitures est, en effect, centrée autour du problème du contenu religieux du pouvoir temporel. Vouloir le retirer

26 O atrito entre o Papa e o Rei estava

à l‘empereur c‘est le priver de sa préeminence [

começando. Em 1075, pouco antes de um novo sínodo quaresmal, Gregório VII ampliou e expôs, de modo sistemático, seu pensamento e seu programa de ação para aquela circunstância, no chamado Dictatus Papae. 27 Este documento é de suma importância para a compreensão das relações entre

os poderes espiritual e temporal à época daquele Pontífice. J. Miethke, a seu respeito, diz

o seguinte: ―Se questo testo, come oggi la critica generalmente riconosce, ha il carattere

di una perduta, o più verosimilmente solo progettata, raccolta di canoni, allora diviene

anch‘esso una testimonianza particolarmente incisiva di questo attegiamento spiritualmente ambivalente nei confronti della Tradizione: Gregorio non aveva dubbi che nella Tradizione autentica si potessero ritrovare quelle che erano le sue massime. In effeti, è stato possibile rinevenire predecessori nel campo della tradizione giuridica patristica ed alto-medioevale per quasi ogni sua singola proposizione. Tuttavia, nella sua composizione e compettezza, nell‘accentuazione e coloritura energica, il testo, preso

nella sua totalità, assume un valore programmatico, quasi che tracciasse linee fondamentali di una politica che avvrebbe dovuto portare molto al di là del suo autore [ ].‖

Em razão de ter escrito o Dictatus, Gregório VII não pôde mais deixar de ser uma figura controversa, tanto no seu tempo como nos atuais. Vários estudiosos viram e condenaram este Papa como o usurpador prepotente dos direitos legítimos do Império. Muitos outros, porém, encarando-o com simpatia, conquanto não tenham negado haver ele sido um político, cujas idéias marcaram uma época, afirmaram que não se pode

].

28

26 Cfr. Les clefes du pouvoir au Moyen Age. Paris: Flamarion, 1972, p. 44.

27 Cfr. Documento 8.

28 MIETHKE, J. La teoria della monarchia papale

, p. 124-125.

24

examinar e analisar as teses relativas à evolução da hierocracia pontifícia formuladas mais tarde, sem considerar seu pensamento como um ponto de referência obrigatório. Quanto a esta última opinião, consideremos novamente o que afirma J.

Miethke: ―Naturalmente sarebbe un equivoco affermare di aver ritrovato nella attitudine

um ‗piano‘,

che poi, nel corso dei due secoli successivi, doveva essere a poco a poco posto in atto.‖ 29

Vejamos também, afinal, o próprio Gregório VII falando de si mesmo e nos revelando talvez as autênticas dimensões da sua figura de homem da Igreja: ―Devido aos embustes do inimigo, a Igreja do Oriente apostasiou da fé católica. Se eu penso interiormente no Ocidente, se olho para os lados do Oeste, do Norte e do Sul, poucos são os bispos que encontro como regularmente empossados e conduzindo-se de modo

Quanto ao meio que me envolve, romanos, lombardos e normandos, são

E se então olho para mim próprio, encontro-me tão

submergido pelo peso das minhas ações que não me resta outra esperança que não a

misericórdia divina [ A minha vida não passa, para dizer a verdade, de uma morte contínua.‖ 30

É importante que, entre os numerosos autores que estudaram a reforma

gregoriana, consideremos as posições assumidas por dois deles. O primeiro é Morghen, para quem o Dictatus papae de Gregório VII e a magna charta do Catolicismo Romano

e, ao mesmo tempo, do pensamento político papal de cariz teocrático. Nele estão

subjacentes implicitamente os ideais do regale sacerdotium de Inocêncio III e a doutrina

da Bula Unam sanctam de Bonifácio VIII. O ideal da fuga do mundo, próprio do

ascetismo medieval, Gregório VII o substituiu pelo ideal do domínio sobre o mundo, enquanto a realidade espiritual da Igreja, que toda a Idade Média identificara com a Cidade do Deus agostiniana, devia transformar-se na consciência do novo poder da Igreja Romana, com as suas coleções canônicas e os seus tribunais supremos, com a exclusividade do seu magistério e as suas preocupações disciplinares, com o seu temporalismo e os seus interesses políticos. 31

O outro autor é H. X. Arquillière; no nosso entendimento, quem melhor

compreendeu a figura de Gregório VII. Segundo o estudioso francês, devemos estar atentos as idéias preconcebidas acerca dos gestos daquele Papa do século XI e não os julgarmos à luz de critérios contemporâneos, que evidentemente não eram os seus. Para ele, o Dictatus Papae lançava os alicerces inovadores da teoria segundo a qual o sacerdócio tem uma missão mais relevante, do que a realeza, no interior da cristandade, tese esta progressivamente enriquecida ate alcançar a maturidade no século XIV. É esta a concepção que Marcel Prelot defende acerca do que se deve entender por hierocracia:

―determinados homens, consagrados a Deus pelo sacramento da Ordem, exercem sobre

os outros homens, por instituição divina, o poder mais eminente que [existir] possa‖, 32 de

normal [

piores do que judeus e pagãos [

di Gregorio VII nei confronti della tradizione normativa della Chiesa [

]

]

]

]

29 Art. cit., p. 126.

30 Regist. II, 49 citado por ALQULLIÈRE, H. X. L‘augustinisme polítique. Paris: J. Vrin, 1972, p.

28.

31 Medioevo Cristiano. Roma: Laterza, 1972.

32 As doutrinas políticas I. Lisboa: Presença, 1973, p.283

25

modo particular o Sumo Pontífice, em virtude de ser a cabeça da Igreja. Tal fato confere- lhe uma superioridade nos âmbitos religioso-moral e sócio-político. Mas os decretos do sínodo de 1075 produziram forte reação da parte do Henrique IV, que julgava estar sendo progressivamente lesado nos seus direitos. Em seguida a ter subjugado a rebelde nobreza da Saxônia, em junho do mesmo ano, o Rei sentiu-se suficientemente fortalecido para continuar a investir os seus partidários em várias dioceses, tentando inclusive impor para a arquidiocese de Colônia um candidato

que havia sido recusado pelo clero e pelo povo daquela cidade.

Gregório VII escreveu de novo a Henrique IV admoestando-o por tal desobediência. Desta vez, porém, a resposta do Rei foi radical. Estava convicto, tal como

os seus predecessores, de ser rex et sacerdos, escolhido para tal por Deus 33 e detendo,

por esse fato, o total controle da Igreja e em particular do clero germânico. A situação

política nos seus domínios exigia que ele continuasse a prática da investi dura, para manter a centralização do poder contra os anseios de autonomia dos duques. Boa parte

dos dignitários eclesiásticos, enquanto funcionários da coroa, além de apoiarem a

atuação do Rei, desejavam manter os privilégios conquistados. Henrique IV não podia, pois, deixar de investir dignitários eclesiásticos, fundamentado em teorias eclesiológico-

políticas contrárias às do Papado. Além do mais, segundo o Rei, Gregório VII tinha sido eleito Papa sem que a corte germânica houvesse opinado a propósito, violando assim o privilegium Otonis, que, aliás, a Igreja anteriormente já havia rejeitado. Podemos afirmar que Henrique IV, apoiado pelos seus teóricos, defendia direitos conquistados por seus predecessores no século anterior, dialeticamente opostos à política centralizadora da Sé Apostólica. Esses direitos, no entender deles, só fundamentavam na Sagrada Escritura, em particular na doutrina estabelecida por S. Pedro e S. Paulo, 34 segundo a qual todo o poder constituído tem origem em Deus; as pessoas investidas com o poder político, ainda que seja o terreno, o possuem por que Deus assim o quer e em Seu nome devem fazer justiça, premiando os bons e castigando os maus, devendo, portanto, os súditos ter a obrigação do obedecer às autoridades. Em 27 de janeiro de 1076, Henrique IV reuniu um sínodo em Worms, ao qual compareceram vinte e seis prelados e outros partidários seus. Foi durante esse sínodo

que eles proclamaram a deposição de Gregório VII. 35 Se examinarmos o texto com atenção, veremos que, exceto na saudação nada

cordial, sua estrutura é muito semelhante a um documento elaborado por um hierocrata. O monarca, partindo do princípio de que é rei pela graça de Deus, desenvolveu toda sua argumentação fundamentado nesse princípio, com as mesmas conseqüências

que

um Papa faria derivar da sua condição do caput Ecclesiae/Christianitatis. Gregório

VII

caiu em heresia ao não obedecer aos preceitos apostólicos, ao não reconhecer a

origem divina do poder régio, ao permitir que os bispos fossem julgados pelo povo. Por

33 Remetemos o leitor novamente para nosso texto intitulado ―A teocracia imperial no fim da Alta Idade Média‖. In SOUZA, J. A. de C. R. de (org.) O reino e o sacerdócio; o pensamento político na Alta Idade Média. Porto Alegre: Edipucrs, 1995, p. 211-234.

34 Cfr. Respectivamente Rm 13, 1-7; 1Tm 2, 1-2 e 1Pd, 2, 13-15.

35 Cfr. Documento 9.

26

causa desses atos ele tem de ser destituído, pois não é um verdadeiro Papa, mas um usurpador. Ademais, Henrique IV reclamou para si próprio, na condição de vicarius Dei, a competência e o direito de julgar e depor o Papa. Na resposta de Gregório VII à ação inusitada de Henrique IV, verificamos também o que acabamos de afirmar. O Papa dirigindo-se a S. Pedro, na condição de seu sucessor na chefia da Igreja e herdeiro do poder das chaves, em face dos pecados que o Rei cometeu, o excomunga e, em conseqüência, o destitui do trono germânico e liberta os seus súditos do juramento de fidelidade que lhe haviam prestado. É aqui, precisamente, que entra em jogo a penetrante análise de Arquillière.

Como vimos, o autor francês chamara a atenção para a impossibilidade de compreender a Idade Média e a atitude de Gregório VII à luz de preconceitos políticos hodiernos. Na mencionada sentença de 1076 coexistem dois atos: por um lado, um ato religioso, a excomunhão, sempre da competência do Papa; e por outro, um ato político, a deposição do um chefe temporal. No entendimento de Arquilière, para Gregório VII ―les deux aspects de la

sentence [

unité transcendante qui dominait à la fois la juridiction pontificale et le pouvoir royal:

l‘Église. Et l‘autorité suprê me de l‘Eglise résidait, alors comme aujourd‘hui, dans la personne du pape. Il est remarquable même que, dans l‘énoncé de sa condamnation de 1076, il commence par la déposition du roi; puis il délie ses sujets de leur serment de fidélité; enfin il prononce contre lui l‘anathème. Tout cela lui parait sortir immédiatement de son pouvoir spirituel, de son pouvoir des clés.37 Noutras palavras, o Papa acreditava não estar ultrapassando os limites do seu do mínio espiritual. A seus olhos, os chefes temporais faziam parte da Igreja, de quem ele era o chefe. Ademais, o primeiro dever dos reis é de ordem espiritual: salvar-se e contribuir para a salvação de seus súditos. De novo, devemos acenar à estreita ligação que há entre as noções de Império, Igreja e Cristandade e recordar ao leitor o que a propósito já dissemos. Para nós, contemporâneos, trata-se de realidades distintas e autônomas. Para o homem medieval, era uma só realidade político-religiosa vista sob três perspectivas diferentes. 38

étaient associés, liés dans sa pensée par les liens les plus intimes, dans une

36

]

36 Cfr. Documento 10.

37 ARQUILIÈRE, H.X.L‘augustinisme politique, p. 30-33.

38 Cfr. WECKMANN, L. op. cit., p. 88-89: ―Iglesia y Estado, como modernamente se los entiende,

es decir como dos corporaciones separadas y em competencia una dualidad en este caso no existen em la Edad Media, por lo menos antes da recuperación y voga de los escritos aristotélicos. Todos los hombres agrupados bajo la autoridad religiosa del Papa, Forman la Ecclesia universalis; los mismos bajo la ideal autoridad secular del Emperador constituyen El Imperium universale; ambos, Ecclesia e Imperium son la Respublica Christiana, sociedad ecumênica religioso-secular,

que abarca a todos los cristianos [

existe grac ias al común

equivalentes, si bien non sinónimos. Esta correlación de conceptos [

punto de apoyo religioso em la Christianitas y al común legado cultural y político de la Romanitas

[

27

]

Imperio e Iglesia son asin, en la Edad Media, términos

]

Se aparentava haver pretensões análogas entre o Papa e o Rei quanto a governarem respectivamente o Império e a Igreja, no fundo o verdadeiro conflito não se travava entre o poder espiritual do Pontífice e o poder temporal de Henrique; esgrimia- se, na verdade, entre as aspirações de ambos quanto a serem os legítimos vigários de Deus na terra, cujo poder, por sua própria natureza espiritual , subsume em si as realidades temporais que à espiritualidade se sujeitam, e é somente nesta perspectiva, então, que esse vicariato divino, esse regime político exercido sobre a terra pode ser chamado teocracia. Havia, no entanto, uma diferença significativa entre as concepções de Henrique

IV e do Gregório VII: o Pontífice tinha consciência de que seu poder

sacerdotal/sacramental, recebido diretamente do Filho de Deus, com vista a desempenhar um ofício mais excelso, era mais relevante do que aquele outro exercido pelo Rei, porque ele era ―heir of all spiritual authority entrusted by Christ to Peter for the welfare of the human souls of which he was shephered. He based his deposition of Henry specifically in his spiritual power.‖ 39 Essa diferença é justamente o que de fato caracateriza o conceito hierocracia ou sacerdotalismo. Acerca da deposição/excomunhão do Rei alemão, vejamos a opinião de Marcel

Pacaut: ―C‘est pour cette raison et pour ses iniquités qu‘il est excomunié, mais, bien que cette sanction soit citée après la condamnation politique, c‘est elle qui est fondamentale:

Henri IV est deposé parce que qu‘il est excomunié et ses sujets ne peuvent pas — ne doiverit pas — lui obéir, puisqu‘il est retranché de la communion de l‗Eglise. Le spirituel entrane le temporel [ Em agosto de 1076, Gregório VII, numa primeira carta dirigida a Herman, bispo do Metz e fiel partidário da reforma, explicou os motivos da sua atitude em relação ao Rei. Este, ao desobedecer-lhe, não receou unir-se a clérigos e leigos simoníacos, que já haviam sido excomungados. O Pontífice é o supremo pastor de todos os fiéis e detém o ápice do poder espiritual. Além disso, o sacerdócio é mais digno do que a realeza, pois foi instituído por Deus para a salvação humana. Pelo contrário, a realeza surgiu por causa da maldade dos homens e, normalmente, os reis buscam para si próprios as honrarias e a glória terrena, esquecendo- se da vida eterna. Por conseguinte, ao decretar a excomunhão de Henrique, ele exercia um direito legítimo e, como juiz do tribunal da consciência, só o absolveria se ele se mostrasse arrependido dos seus pecados. O clero reformista alemão, os saxões e parte da nobreza ítalo-germânica, aproveitando-se do decreto papal, rebelaram-se contra Henrique IV, deflagrando uma guerra civil. A situação veio a agravar-se quando, em setembro do mesmo ano, Gregório

VII endereçou uma carta à nobreza e ao episcopado germânicos recomendando-lhes

generosidade para com o Rei, desde que ele afastasse os seus conselheiros excomungados e modificasse o seu comportamento. Caso tal não acontecesse, deveriam

40

39 LEWIS, E. Medieval political ideas, II New York: Cooper Square Publishers, 174, p 510.

40 La théocratie, l‘Église et le pouvoir au Moyen Age 2. ed. Paris: Desclée, 1989, p 67.

28

então escolher outrem para substituí-lo como Rei, informando o Papa acerca do resultado dessa eleição. 41 Os príncipes e os bispos germânicos fiéis ao Papa, durante a dieta de Tribur, reunida em outubro de 1076, decidiram romper definitivamente com o Rei, se não fosse levantada a sua excomunhão no prazo de um ano, e, numa outra dieta, prevista para 2 de fevereiro do ano seguinte, em Augsburgo, iriam examinar atentamente a situação, com vista à escolha de um novo Rei, caso Henrique IV não viesse a atender às determinações papais.

O Rei, percebendo a situação delicada em que se encontrava, antecipou-se e

dirigiu-se a Canossa a fim de solicitar a absolvição a Gregório VII, o qual se encaminhava, então, para a Alemanha, onde presidiria à dieta de Augsburgo. Após penitência de três dias sob intenso frio, o Rei foi absolvido pelo Papa em 28 do janeiro de 1077.

Mas os príncipes, ante a hábil manobra política de Henrique IV, ficaram revoltados com ele. Reunidos em Forcheim, próximo de Bambergue, em 13 de março de 1077, elegeram Rodolfo da Suábia como novo Rei dos germânicos. Ele imediatamente comprometeu-se a obedecer a Gregório VII e a respeitar os decretos da Sé Apostólica

concernentes à liberdade das eleições episcopais. No entanto, tal ato, ao invés de resolver a questão político-religiosa germânica, contribuiu para o prosseguimento da guerra civil. Henrique IV, para vencer os inimigos, recorreu de novo à simonia e à investidura, conseguindo os seus intentos. Gregório VII, durante o sínodo quaresmal, excomungou outra vez o Rei em 7 de março de 1080.

O documento de excomunhão possui uma estrutura interna e um conteúdo

muito semelhante ao que examinamos antes. Na primeira parte, o Papa define claramente que, por desígnio da Providência, fora escolhido para sucessor de Pedro; assim, podia exercer a suprema chefia da cristandade. Na segunda parte, Gregório VII justifica o seu gesto, historiando as razões que a tal o levaram e recorda os pecados de Henrique IV cometidos contra a Igreja e os seus súditos. A terceira parte engloba as sentenças de excomunhão e de dissolução do juramento de fidelidade que os vassalos do Rei lhe haviam prestado. No final do texto, o Papa, baseando-se em várias passagens do Novo Testamento alusivas aos atributos do poder espiritual e salientando a preeminência deste em relação ao poder secular, conclui afirmando que a interferência da autoridade

espiritual no âmbito temporal é legítima, quando o detentor do poder secular se torna indigno de o exercer. Henrique IV então reuniu um conciliábulo em 25 de junho de 1080 em Brixen. Nele tomaram parte trinta bispos germânicos e lombardos, excomungados, os quais firmaram o ato de deposição de Gregório VII, acusando-o de simoníaco. Em seguida, elegeram papa Gilberto, o então excomungado arcebispo de Ravena, o qual tomou o nome de Clemente III (1080-1110). No entanto, a nobreza germânica passou a criticar Gregório VII, pois via que a sua interferência na esfera temporal, em vez de pôr termo à guerra civil, estava a contribuir para a sua continuação, acarretando assim graves prejuízos para o Reino.

41 Cfr. Documento 11.

29

Gregório VII, informado da situação, escreveu (1081) uma segunda e longa carta 42 ao seu amigo Herman, bispo de Metz, a qual, sob o ponto de vista da teorização política, não amplia as teses defendidas pelo Papa noutros textos.

A carta a Herman inclui-se mais no terreno das concepções eclesiológicas do

que no da teoria política, ou melhor, as teses políticas nela sustentadas são decorrência tanto duma visão da estrutura eclesial organizada monarquicamente e alicerçada no

primado petrino quanto duma perspectiva da sociedade em geral cuja natureza nos recorda, a cada passo, a origem monástica de Gregório . De fato, o contemptus mundi leva-o a desvalorizar sobremaneira a vida terrena (e os chefes temporais) como sendo o domínio próprio do pecado: os príncipes buscam exclusivamente a sua glória terrena, com total desprezo pela glória divina; tanto assim é que os santos canonizados pela Igreja contam-se exclusivamente dentro da ordo sacerdotalis e, mesmo os imperadores que a Igreja louva e venera, não fazem parte da lista dos santos e, à semelhança de outros príncipes que não foram condenados para a eternidade, devem a sua salvação unicamente à misericórdia divina. Estamos perante uma rígida distinção entre o mundo do século e o mundo do claustro, próprio da mentalidade monástica do Papa Hildebrando. Tal como no plano político, também neste outro devemos analisar as posições de Gregório VII à luz da mentalidade clericalista de sua época, não segundo as perspectivas atuais, e, principalmente, repetimo-lo, tomando em consideração o projeto reformista que, neste Papa como na maioria dos outros reformadores de seu tempo, era obra de monges. As referências explícitas ao Rei são escassas, embora o monarca germânico esteja implicitamente suposto em todo o documento. Todavia, o Santo Padre se fundamentou mais amplamente em passagens da Escritura e em exemplos de antecessores seus que excomungaram e depuseram chefes seculares com vista a legitimar suas atitudes contra o Monarca.

A carta em apreço, no entanto, se reveste dum outro aspecto que merece um

destaque especial. A supremacia da Igreja no tocante ao Império deriva da missão soteriológico/sacerdotal que lhe foi confiada por Cristo, na pessoa de seus dirigentes, em especial, na do Papa, enquanto mediadora entre Deus e os homens, missão essa que também deve ser exercida sobre os príncipes terrenos. Não se trata, pois, dum problema

de relacionamento entre o poder da Igreja e o do Soberano na esfera temporal, ainda que subsumido na esfera espiritual; trata-se, na verdade, da questão relativa à subordinação de um fiel, ainda que fosse o Rei dos germânicos, e especialmente por essa razão, nos planos religioso e moral, às diretrizes estabelecidas pelo Romano Pontífice quanto à disciplina eclesiástica bem ordenada. Não negamos, entretanto, que essa concepção, mais tarde, servirá de base para o exercício efetivo da hierocracia.

O clima desfavorável a Gregório VII, tanto na Alemanha quanto na Itália

Setentrional, favoreceu a que alguns partidários/assessores de Henrique IV tomassem de

pena para defendê-lo e atacar o Papa.

42 Cfr. Documento 12.

30

Entre essas pessoas se destacaram três nomes: Pedro Crasso, Benzo de Alba e Guido de Ferrara. Pedro Crasso, em 1084, redigiu um opúsculo denominado Defensio Henrici Regis, cuja major parte consistiu num ataque mordaz a Gregório VII e à sua ação. Entretanto, nos capítulos V e VI, de expôs uma teoria acerca das relações entre os dois poderes, a qual, inspirada quer no Novo Testamento, quer no Código de Justiniano, contém os seguintes pontos fundamentais:

a) Os seres estão separados em espirituais e temporais; por isso, conforme

ensinou o Papa Gelásio I, há dois poderes correspondentes. Mas, conquanto o poder

espiritual seja soberano em sua esfera própria de atuação, não lhe compete jamais interferir no âmbito secular. Por isso, como Henrique IV não era clérigo, não se enquadrava na esfera da jurisdição papal.

b) O imperador romano cristão é chefe inconteste da cristandade, não apenas

em razão de seu poder ter uma origem divina, embora seja transmitido

hereditariamente, 43 mas também porque devia guardá-la e protegê-la contra os seus adversários políticos e os inimigos da fé.

c) As leis promulgadas pelo imperador revestiam-se, pois, de um caráter

sagrado, de modo que a sua transgressão era um sacrilégio, visto o seu objetivo consistir em manter a ordo existente no Imperium/Christianitas. Ora, Gregório VII estava a violá- las, faltando-lhe, portanto, legitimidade para exercer o Sumo Pontificado.

d) Os cânones eclesiásticos, pelo contrário, estavam circunscritos à vida clerical

e à prática religiosa, só devendo ser obedecidos no caso de não contrariarem os decretos imperiais. Um outro ideólogo da teocracia régia foi Benzo de Alba. Na obra intitulada Liber ad Henricum, concluída entre 1085-1086, em que reuniu vários textos anteriormente escritos, satirizou o Papa e enalteceu o Rei, a quem considerava o ungido de Deus e o único vigário do Criador na face da terra. Sustentava, outrossim, a idéia segundo a qual os transgressores dos decretos reais se assemelhavam àqueles que renegavam os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos sobre as autoridades seculares. Em suma, propôs a renovação imperial/eclesiástica de acordo com o pensamento dos Otônidas. Gregório VII, dado o prosseguimento do embate co m Henrique IV e seus partidários, e os sofrimentos morais que o mesmo lhe causou, veio a falecer em Salerno, no exílio, em 25 de maio de 1085. Um terceiro teórico regalista que merece referência por causa de suas idéias foi Guido de Ferrara. No tratado Sobre o Cisma de Hildebrando (1086) justificou a política dos monarcas germânicos concernente à investidura, afirmando que a missão do sacerdócio se restringia a distribuir os sacramentos, pregar a Palavra e administrar os bens oferecidos pelos fiéis à Igreja, enquanto a da realeza tinha por objetivo conduzir os homens à Cidade Eterna; por isso Deus confiou aos imperadores a tarefa de governar a Cristandade.

43 Cfr. Documento 13.

31

Entretanto, a longa controvérsia entre o Papado e o Império referente à investidura só viria a terminar com a Concordata de Worms, em 1122, celebrada entre Henrique V (1106-1125) e Calixto 11(1110-1124). Nesse documento ficou basicamente concertado o seguinte: 1) os arcebispos e bispos seriam eleitos pelo clero local e confirmados pelo Papa; 2) os abades seriam eleitos pelos monges da abadia e confirmados pelo Papa; 3) após a sagração, os dignitários eclesiásticos seriam empossados nos benefícios eclesiásticos pelo Imperador ou por legados seus. Como conseqüências mais relevantes do primeiro grande conflito medieval entre a Igreja e o Império, temos que a Igreja se libertou definitivamente do cesaropapismo germânico; o ideal reformista fortaleceu o prestígio moral e a autoridade política dos papas sobre toda a cristandade e, finalmente, os dignitários eclesiásticos e senhores feudais germânicos perderam a anterior parcela considerável da influência político-social que exerciam sobre o território imperial.

Coletânea de Documentos relativa ao Capítulo 1

DOCUMENTO 1

Determinações do Papa Leão IX no sínodo de Reims. In: GALLEGO BLANCO. Relaciones entre Ia Iglesia y el Estado en la Edad Media. Madrid: Revista de Occidente, 1973, p.91.

1 Que ninguém seja elevado ao governo de u ma igreja sem ter sido primeiramente eleito pelo clero e pelo povo. 2 Que ninguém compre ou venda as ordens sagradas ou os ofícios eclesiásticos ou igrejas; e, se algum clérigo comprou algo, que o restitua ao seu bispo e faça a penitência devida. 3 Que nenhum leigo exerça qualquer ofício eclesiástico ou receba alguma igreja, e que os bispos não consintam que tais fatos aconteçam. 4 Que ninguém se atreva a pedir esmolas às portas das igrejas sem autorização do bispo diocesano ou do seu representante. 5 Que ninguém solicite qualquer pagamento por haver ministrado o Batismo, celebrado a Eucaristia, ou por ter visitado os enfermos ou por celebrar exéquias. 6 Que os clérigos não transportem armas e tampouco se dediquem às atividades seculares. 7 Que nenhum clérigo ou leigo seja usurário. 8 Que nenhum clérigo ou leigo abandone o seu ministério ou função. 9 Que ninguém se atreva a atacar uma pessoa consagrada a Deus, mesmo que esta se encontre em viagem. 10 Que ninguém prejudique os pobres, ou roubando-os ou enganando-os. 11 Que não haja união incestuosa entre quaisquer pessoas. 12 Que ninguém abandone a sua esposa e se una a outra mulher.

DOCUMENTO 2

32

Humberto de Silvacandida. Três Iivros contra os simoníacos, III, cap. 6, MGH, Libelli de Lite, I, Hanoviae, 1891, p. 205-208.

Segundo os decretos dos Santos Padres, a pessoa que é consagrada bispo deve primeiramente ter sido eleita pelo clero, depois solicitada pelo povo e finalmente consagrada pelo antístite da província eclesiástica com a anuência do povo.

Ninguém pode ser considerado e chamado bispo legítimo e verdadeiro, se não tiver uma porção do clero e do povo para governar e se não tiver sido consagrado pelos outros bispos daquela província eclesiástica, com a autorização do Metropolitano que esteja à frente da mesma, em nome da Sé Apostólica. Aquele que tiver sido consagrado sem se adequar a estas três regras não pode ser considerado um legítimo bispo, estabelecido de modo indiscutível, nem poderá ser contado entre os bispos eleitos e nomeados canonicamente; pelo contrário, deve ser chamado pseudobispo. Considerando que o antístite é um governador e um supervisor, como pode alguém governar uma porção do clero e do povo, quando estes dois segmentos não o escolheram para os dirigir e tampouco foram autorizados a fazê-lo pelo arcebispo metropolitano e demais bispos daquela província eclesiástica? [ ]

Embora homens veneráveis de todo o mundo e Sumos Pontífices inspirados pelo Espírito Santo tenham declarado que a eleição episcopal feita pelo clero deve ser confirmada pelo julgamento do Metropolitano, mediante a solicitação dos nobres, do povo e com a aquiescência do príncipe, agora tudo isso é feito desordenadamente, do modo que a primeira das condições ocorre em último lugar, e a última delas em primeiro, a tal ponto que os sagrados cânones são desrespeitados e toda a disciplina eclesiástica é conspurcada. O poder secular é o primeiro a eleger e a confirmar os bispos. A solicitação dos nobres e do povo, a eleição pelo clero e a confirmação do Metropolitano, queiram eles todos ou não, ocorre posteriormente. E por esse motivo, conforme escrevemos antes, que as pessoas elevadas ao episcopado dessa maneira não devem ser consideradas bispos, pois o modo de serem corretamente

indicados é bem outro. [

sacramentos eclesiásticos e a graça episcopal e pastoral, isto é, entregar a alguém o báculo e o anel, símbolos do trabalho e da atuação da Igreja?

Com efeito, os báculos com a parte

superior arredondada e curva significam o chamamento dirigido ao povo e, por outro

lado, aguçados em forma de arma na parte inferior, representam a admoestação e o castigo.

Os báculos indicam aos bispos os cuidados pastorais que lhes foram confiados e lhes sugerem o que deve ser feito para se manterem na justiça e retidão dos costumes e ainda condescendentes com o povo que devem atrair. Indicam igualmente que os antístites devem se esforçar ao máximo para tornar suave e brando o áspero e difícil caminho do bem agir e da oração. [ ]

]

Com que autoridade os leigos podem ministrar os

] [

33

A parte inferior dos báculos sugere aos pastores que atemorizem os desobedientes com severas advertências e, se persistirem no erro, que os expulsem da Igreja, como a mais severa das punições. O Apóstolo confirma isso quando diz o seguinte: Pedimo-vos que corrijais os desobedientes, que consoleis os pusilânimes, sustenteis os fracos e sejais pacientes com todos. O anel, selo dos segredos celestiais, por outro lado, sugere e indica aos pastores

que, a exemplo do Apóstolo, ma rquem co m um sinal distinto a sabedoria de Deus e a difundam entre os perfeitos, mas, como se estivesse selada, não a ensinem aos imperfeitos, cujo alimento não é a comida sólida, mas o leite, e que expliquem e preguem incansavelmente esta fé do Esposo à Esposa, que é a Igreja. Portanto, quem conduz uma pessoa ao exercício do ministério pastoral, por meio da entrega do báculo e do anel, reivindica seguramente toda a autoridade pastoral. Ora, com tal procedimento, que juízo livre sobre esses pastores já designados podem fazer o povo, o clero e o Metropolitano que vai consagrá-los? Os indicados dessa forma irrompem violentamente, procurando subverter a ordem laica tanto como a clerical, antes mesmo de serem conhecidos e requisitados por ambas. Além disso, ofendem o Metropolitano, enquanto não são avaliados pelo mesmo; aliás, pelo contrário, estão a julgá-lo, pois não solicitam e tampouco requerem a sua

confirmação, mas reivindicam e dele exigem submissão [

Toda a consagração episcopal realizada pelo Metropolitano e seus bispos sufragâneos completa-se com a entrega do báculo e do anel, sem os quais os ordenados pastores não recebem a autoridade e, por isso mesmo, não são bispos legítimos e verdadeiros, visto que, sem a unção do Crisma e mediante a concessão daqueles objetos, não podem ser considerados como antístites [ ]

]

DOCUMENTO 3

Humberto de Sivacandida. Três Iivros contra os simoníacos, III, cap. 6, MGH, Libelli de Lite, I, Hanoviae, 1891, p. 225-226.

Entre outras coisas absurdas com que os sicofantes, como se fossem caçadores

de pássaros, apanham os incautos, cita-se a exaltação do poder terreno, particularmente

enaltecendo-o com freqüência acima da autoridade sacerdotal,

como se a lua fosse superior ao sol [

Qualquer pessoa que deseje comparar ambas as dignidades de modo irrepreensível pode

corretamente dizer que, na nossa época, a Igreja é semelhante à alma e o reino ao corpo,

e cada um deles exige e presta auxílio ao outro. No entanto, do mesmo modo que a alma é mais importante do que o corpo e o dirige, assim também a dignidade sacerdotal supera a real, isto é, a dignidade celeste

precede a terrena. Por conseguinte, a fim de que todas as coisas se mantenham ordenadas

e não haja confusão, o sacerdócio, como se fosse uma alma, deve orientar os fiéis acerca do que eles têm que fazer. E no reino, por sua vez, a cabeça deve governar todos os membros do corpo e dirigi-los para onde têm de ir, porque, assim como os reis devem

34

do imperial e do real [

],

]

e minimizando a dignidade da Igreja [

].

seguir a orientação dos sacerdotes, igualmente os leigos têm de acatar as decisões dos seus monarcas, para o bem da Igreja e do povo. Desse modo, o povo deve ser orientado e governado por um e outro poder e tem

de firmemente obedecer-lhes. [

Ademais, no interior da Igreja não seria necessário o

poder secular, se o mesmo não tivesse de impor pela forca o que o sacerdote não consegue fazer através da pregação da Palavra. Por isso, com freqüência o reino celestial

beneficia do reino secular, enquanto aqueles que, no interior da Igreja, atuam contra a fé

a quem Cristo confiou o seu

e a disciplina, são coibidos pelo poder dos príncipes [ cuidado e proteção [

]

]

DOCUMENTO 4

Decretal In nomine domini. In: MGH, Constituciones et acta, I, 539.

1. Em nome do Senhor Deus, Jesus Cristo, Nosso Salvador, no ano de 1059 de

Sua Encarnação, na duodécima indição, perante os Santos Evangelhos, sob a presidência

do reverendíssimo e beatíssimo Papa apostólico, Nicolau, na Patriarcal Basílica Lateranense, chamada Basílica de Constantino, com todos os reverendíssimos arcebispos, bispos, abades e veneráveis presbíteros e diáconos, o mesmo venerável Pontífice, decretando com autoridade apostólica, disse:

2. Vossas Eminências, diletíssimos bispos e irmãos, conheceis, e igualmente o

sabem os membros de categoria hierárquica inferior, quanta adversidade esta Sé Apostólica, a qual por vontade divina sirvo desde a morte de Estêvão, nosso predecessor

de feliz memória, suportou, quantos golpes e ofensas os traficantes simoníacos lhe infligiram, até ao ponto em que a coluna do Deus vivo, sacudida, parecia quase vacilar, e

a Sé Pontifícia aparentava estar prestes a mergulhar nas profundezas do abismo. Por isso, que seja do agrado de meus irmãos o dever que temos de enfrentar os eventos futuros, com a ajuda de Deus, e fazer uma constituição eclesiástica que resista aos males que acaso venham a ocorrer, a fim de que nunca prevaleçam. Por conseguinte, apoiando-nos na autoridade dos nossos predecessores e na de outros Sumos Pontífices, decretamos e estabelecemos o seguinte:

3. Quando o bispo desta Igreja Romana universal vier a falecer, os cardeais

bispos decidam entre si, com a atenção devida, chamando posteriormente os cardeais

sacerdotes, e igualmente se associem aos outros membros do clero e ao povo, com vista

a proceder a uma nova eleição, evitando assim que a triste moléstia da venalidade não tenha oportunidade de se perpetrar.

4. Portanto, sejam os varões mais insignes que promovam a eleição do futuro

Pontífice, e todos os demais os sigam. E este procedimento eleitoral seja considerado justo e legítimo, visto que observa as regras e os procedimentos de inúmeros Santos Padres e se resume naquela frase do nosso bem-aventurado antecessor Leão, que disse:

Nenhum motivo autoriza que se considerem como bispos aquelas pessoas que não foram eleitas pelos clérigos, aclamadas pelo povo e consagradas pelos bispos sufragâneos com

a aprovação do Metropolita. Já que a Sé Apostólica está acima de toda a Igreja espalhada

35

pelo orbe, e não pode ter nenhum Metropolita sobre si própria, não há dúvida de que os cardeais bispos desempenham a função de metropolitas, levando o sacerdote eleito ao cume da dignidade apostólica.

5. Escolham-no de entre os seus próprios membros, se encontrarem alguém

digno; caso contrário, tomem-no de outra igreja qualquer.

6. Guardem a reverência e a honra devida ao nosso querido filho Henrique, que

agora é rei e que se espera será, com a ajuda de Deus, o futuro Imperador, e igualmente aos seus sucessores que impetrarem pessoalmente este privilégio à Sé Apostólica. 7. Se a perversidade dos homens iníquos e maus prevalecer, a tal ponto que seja impossível realizar uma eleição livre, justa e genuína, na Urbe, os cardeais bispos, com

os sacerdotes e os leigos católicos, têm o direito de escolher o Pontífice da Sé Apostólica onde julgarem mais oportuno fazê-lo.

8. Se, concluída a eleição, uma guerra ou qualquer tentativa dos homens se

opuser a que o escolhido tome posse da Sé Apostólica, segundo o costume, não obstante

isso, o eleito terá toda a autoridade pontifical para dirigir a Santa Igreja Romana, dispondo plenamente das suas prerrogativas, como sabemos que o bem-aventurado Gregório o fez antes da sua consagração.

9. Mas se alguém, contrariando este nosso decreto, promulgado em sínodo, for

eleito, consagrado e entronizado mediante a audácia, a revolta ou qualquer outro meio, ninguém o considere papa, mas Satanás, nem apóstolo, mas apóstata e excomungado perpetuamente, pela autoridade divina e dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, e juntamente com os seus instigadores, partidários e sequazes, seja expulso da Santa Igreja de Deus, como anticristo, inimigo e destruidor do toda a Cristandade. E não se lhe conceda nenhum crédito, mas permaneça eternamente privado da dignidade eclesiástica, não importando o grau a que pertença. Por outro lado, qualquer pessoa que lhe render

homenagem, considerando-o como pontífice verdadeiro, ou tentar defendê-lo como tal, será castigado com a mesma sentença. Quem temerariamente se opuser a esta nossa decretal e tentar prejudicar a Igreja Romana, violando o que foi estabelecido, seja condenado com um anátema perpétuo e excomungado, e seja contado entre os ímpios que não ressuscitarão no Juízo Final. Sinta sobre si a ira do Onipotente Pai, Filho e Espírito Santo e, nesta e na outra vida, sofra a indignação dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, cuja Igreja tentou perturbar [ 10. Os que observarem este nosso decreto sejam protegidos pela graça de Deus onipotente e absolvidos do vínculo do todos os seus pecados pela autoridade dos bem- aventurados bispos e Apóstolos Pedro e Paulo. Eu, Nicolau, bispo da Santa Igreja Romana Católica e Apostólica, subscrevi este decreto por nós promulgado, conforme se lê acima. Eu, Bonifácio, pela graça de Deus bispo albanense, subscrevi. Eu, Humberto, bispo da Santa Igreja de Silvacandida, subscrevi. Eu, Pedro, Bispo da Igreja de Óstia, subscrevi. E outros bispos, no total de setenta e seis, com presbíteros e diáconos, subscreveram.

DOCUMENTO 5

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Decretal de Nicolau II. In: GALLEGO BLANCO, op. cit., p. 96-98.

Nicolau, bispo, servo dos servos de Deus, a todos os bispos católicos, a todo o clero e ao povo, saudações afetuosas e a bênção apostólica. Visto a necessidade de sermos diligentemente solícitos para com todos os homens, e preocupados com a vigilância peculiar do nosso encargo universal dirigido à vossa salvação, tomamos o cuidado de vos enviar os decretos promulgados no sínodo recentemente celebrado em Roma, na presença de cento e treze bispos, sob a nossa presidência, embora sejamos indigno, vo-los remetemos co m a autoridade apostólica, pois queremos que os façais cumprir em ordem à vossa salvação.

1. Primeiramente, ficou estabelecido, na presença de Deus, que a eleição do

Pontífice Romano será realizada pelos cardeais bispos, de modo que a pessoa que for entronizada sem a sua anuência prévia e a eleição canônica não será considerada papa e apóstolo, mas apóstata.

2. Que ao morrer o Bispo de Roma, ou de qualquer outra cidade, ninguém se

atreva a saquear os seus bens, pois os mesmos devem ser mantidos intactos para os seus

sucessores.

3.

Que ninguém assista à Missa de um sacerdote do qual se sabe com certeza

que mantém uma concubina, ou vive com uma mulher qualquer. Por esse motivo, este santo sínodo decretou, sob pena de excomunhão, o seguinte: o sacerdote, diácono ou subdiácono que, depois da constituição relativa à castidade clerical, promulgada pelo nosso santíssimo predecessor, o Papa Leão, de feliz memória, tome ou tenha concubina,

se não a deixar, da parte de Deus Onipotente e pela autoridade dos bem-aventurados Pedro e Paulo, Apóstolos, ordenamos e nos opomos a que celebre Missa ou cante o Evangelho, ou leia a Epístola, ou sequer tome parte no presbitério dos ofícios divinos em companhia dos que observam a mencionada constituição, ou receba algo da Igreja ate que sentenciemos, com a ajuda de Deus, sobre essa questão.

4. Decretamos firmemente que os clérigos pertencentes àqueles graus da

hierarquia acima referidos que, obedecendo a nossos predecessores, se mantêm castos,

durmam e comam em comunidade, nas proximidades da igreja para a qual foram ordenados, segundo convém ao clero piedoso, e que tenham em comum as entradas que procedam da igreja, e lhes pedimos encarecidamente que se esforcem por cumprir e seguir o estilo de vida apostólico que se caracteriza pela vida em comunidade.

5. Que os dízimos, as primícias e as ofertas de pessoas vivas e das que já

faleceram sejam entregues fielmente pelos leigos à igreja e que estejam à disposição do bispo. Aqueles que os retiverem serão excomungados.

6. Que nenhum clérigo ou sacerdote obtenha das mãos dos leigos uma igreja,

sob qualquer pretexto, ou livremente ou em troca de dinheiro.

7. Que ninguém receba o hábito de monge com a esperança ou a promessa de

ser nomeado abade.

8. Que nenhum sacerdote obtenha simultaneamente duas igrejas.

9. Que ninguém seja ordenado ou promovido a algum cargo eclesiástico através

da heresia simoníaca.

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10.

Que

nenhum

leigo

julgue

ou

expulse

das

igrejas

os

clérigos,

independentemente do grau hierárquico a que pertençam.

DOCUMENTO 6

Carta de Pedro Damião a Henrique IV, Patrologia latina, v. 144, p. 440-442.

Assim como os dois poderes, o real e o sacerdotal, estão em primeiro lugar unidos um ao outro em Cristo, pela verdade especial de um sacramento, igualmente

estão unidos no povo cristão por uma espécie de pacto, e cada um deles necessita do auxílio e serviço do outro.

O Sacerdócio é defendido pela proteção real, enquanto a realeza é favorecida

pela santidade do ofício sacerdotal. O rei é cingido com uma espada, para que vá armado

contra os inimigos da Igreja. O sacerdote ora, durante muitas vigílias, para obter as graças de Deus para o monarca e para o povo.

O primeiro deve conduzir as questões terrenas com a lança da justiça; o

segundo tem de proporcionar ao sedento a água do manancial da eloqüência divina. O rei foi estabelecido para coagir os que fazem o mal e os criminosos, com o castigo das sanções legais. O presbítero foi ordenado para atar alguns com o zelo do rigor canônico, mediante as chaves do Reino que ele possui, e para absolver outros pela clemência da piedade eclesiástica.

Presta atenção ao que Paulo afirma sobre os reis e a como ele define o papel específico do ofício régio. Após aludir a muitas coisas, o Apóstolo diz o seguinte: Ele é o instrumento de Deus para te conduzir ao bem. Se, no entanto, praticares o mal, teme, porque não é em vão que ele traz a espada. O rei é, pois, o ministro de Deus, um vingador que descarrega a sua ira sobre aquele que faz o mal.

Um rei deve ser reverenciado sempre que obedecer ao Criador. Mas, se ele

não acatar as ordens divinas, é justo que os seus súditos o desprezem, pois se estiver convencido de que deve governar apenas como rei e em seu próprio interesse, e não pela causa de Deus, não estará a lutar ao lado da Igreja, e no dia da luta levará muito mais em conta os seus objetivos terrenos, em vez de vir em socorro da mesma quando esta se

encontrar em perigo.

Portanto, ó rei, considera-me como alguém que te dá um conselho fiel. Não

me julgues insolente ou um adversário da honorabilidade do poder e da majestade real, ou, se te convém, pensa a meu respeito como uma pessoa que perdeu a razão por causa da dor gerada pólo assassinato de sua Mãe. Contudo, oxalá eu fosse declarado réu de traição perante o teu tribunal, desde que só tu, árbitro da eqüidade, também castigasses os inimigos da Sé Apostólica. Que as espada do verdugo caia sobre o meu pescoço, se a Igreja Romana, restaurada por ti, puder ascender à eminência da sua dignidade. Além disso, se tu destruíres imediatamente a Cadalo, à semelhança do que Constantino fez com Ário, e lutares para devolver a paz à Igreja, pela qual Cristo morreu, Deus prontamente fará com que sejas elevado à dignidade imperial e ganhes de todos os teus inimigos os títulos de

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[ ]

] [

glória. Mas sucederá o contrário se fores desleal e recusares pôr termo ao erro que faz periclitar o mundo, quando tens o poder para fazê-lo. Contenho o meu espírito e deixo

aos meus leitores adivinhar as conseqüências [

].

DOCUMENTO 7

Carta de Gregório VII a Henrique IV, Patrologia latina, v. 144, p. 142-143.

Gregório, bispo, servo dos servos do Deus, ao rei Henrique, saúde e bênção apostólica. Amado filho, embora não tenhas resolvido o caso da Igreja de Milão, conforme as tuas cartas e promessas, todavia, ouvimos com grande satisfação que trataste amavelmente os nossos legados, que corrigiste determinados assuntos eclesiásticos e que

nos enviaste saudações por meio dos referidos legados e a certeza do teu devoto serviço.

Também nos regozijamos ainda mais, porque [

completamente do teu reino a heresia simoníaca e a usar de todo o teu empenho para curar a inveterada enfermidade do nicolaísmo que grassa entre os clérigos [ Fomos levado a escrever-te esta carta por sugestão e conselho da tua santíssima e augusta Mãe. Assim, embora pecador, tenho-me recordado e recordar-me-ei de ti, por ocasião das Missas solenes celebradas sobre os túmulos dos Apóstolos, pedindo com humildade que Deus Onipotente te confirme nas tuas presentes boas intenções, e que ainda te conceda melhores coisas para o bem da Igreja. Entretanto, filho excelentíssimo, advirto-te e exorto-te, com afeto sincero, a que escolhas assessores que te amem e que desejem o teu bem, não os seus bens, não o seu próprio interesse. Se observares este conselho, o Senhor Deus, cuja função desempenhas na tua presença, será o teu protetor cheio de graça. Ainda em referência à Igreja de Milão, se nos enviares homens sábios e piedosos, que nos apresentem o seu parecer baseado em sólidos argumentos, que nos convençam de que os decretos da Igreja Romana, aprovados duas vezes pela autoridade sinodal, podem e devem ser modificados, não deixaremos de seguir os seus conselhos ponderados e tornaremos uma atitude mais conciliatória. No entanto, se, pelo contrário, isto não for possível, peco e conjuro tua Alteza, por amor a Deus e por tua reverência a S. Pedro, que restituas o direito de liberdade àquela igreja. Saberás então que ganhaste finalmente o verdadeiro poder de um rei, se te humilhares perante Cristo, Rei dos reis, empenhando-te na restauração e na defesa das Suas igrejas. Lembra-te das palavras que Ele disse: Amarei os que me amam, honrarei os que me honram e não estimarei os que me desprezam. Queremos que saibas que enviamos cartas ao arcebispo Sigefredo de Mogúncia, requerendo a sua presença no sínodo que, com a graça de Deus, pretendemos realizar na próxima Quaresma. Se ele não puder comparecer, que envie legados que no mesmo o representem. Ordenamos igualmente aos bispos do Bamberga, Estrasburgo e Espira que se apresentem pessoalmente e nos relatem como foram nomeados e vivem. Mas, como é

estás disposto a extirpar

]

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típico dos insolentes, se, porventura, não vierem, pedimos-te que os obrigues, por meio da tua autoridade régia, a fazê-lo. Desejamos que envies com eles embaixadores de confiança, que nos informem realmente a respeito da sua indigitação para o episcopado e da maneira como vivem, a fim de que, sabendo da verdade pelos seus próprios lábios, possamos decretar uma sentença inquestionável.

DOCUMENTO 8

Dictatus Papae, de Gregório VII, Patrologia latina, v. 148, p. 407-408.

1. Só a Igreja Romana foi fundada por Deus. 2. Só o Pontífice Romano, portanto, tem o direito de ser chamado universal. 3. Só ele pode nomear e depor bispos. 4. Um seu emissário, mesmo que inferior em grau hierárquico, tem precedência relativamente a todos os bispos reunidos em sínodo e pode decretar uma sentença de deposição contra eles. 5. O Papa tem o direito de destituir os ausentes. 6. Não se deve estar em comunhão ou permanecer na mesma casa com aqueles que foram excomungados pelo Pontífice. 7. Só a ele é ilícito promulgar novas leis, do acordo com as necessidades do momento, reunir novas congregações, converter um canonicato em abadia e vice-versa, dividir um bispado rico e unir vários que sejam pobres. 8. Só ele pode usar a insígnia imperial. 9. Todos os príncipes devem beijar só os seus pés. 10. O seu nome deve ser recitado em todas as igrejas. 11. O seu título é único no mundo. 12. É- lhe lícito destituir o Imperador. 13. Também lhe é ilícito, conforme as necessidades, transferir bispos de uma sé para outra. 14. Só ele tem o poder de ordenar que um clérigo de qualquer igreja vá para onde lhe aprouver. 15. Aquele que é sagrado por ele pode governar qualquer igreja, sem se subordinar a ninguém, e não pode receber de bispo algum qualquer grau hierárquico superior. 16. Nenhum sínodo poderá ser considerado geral se não for convocado por ele. 17. Nenhum livro ou capítulo pode ser considerado canônico sem a sua confirmação. 18. Ninguém pode revogar as suas sentenças; só ele próprio pode fazê-lo. 19. Ninguém pode julgá-lo. 20. Ninguém pode censurar quem apela para a Sé Apostólica. 21. As causas de importância maior de qualquer igreja devem ser-lhe apresentadas, para que ele as julgue. 22. A Igreja Romana, segundo testemunha a Escritura, nunca errou e jamais errará. 23. O Romano Pontífice, escolhido conforme a eleição canônica, será indubitavelmente santificado pelos méritos do bem- aventurado Pedro, segundo afirma Santo Enódio, bispo de Pavia, em consenso com muitos Santos Padres, conforme está escrito nos decretos do Papa Símaco. 24. É lícito aos subordinados, de acordo com a sua ordem e autorização, fazer acusações. 25. Ele pode depor e nomear bispos sem uma reunião sinodal. 26. Não deve ser considerado católico quem não está em comunhão com a Igreja Romana. 27. O Pontífice pode libertar os súditos do juramento de fidelidade feito a um monarca iníquo.

DOCUMENTO 9

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Destituição de Gregório VII pelo rei Henrique. MGH, Const. et acta, I, 535.

Henrique, rei, não por usurpação, mas pela piedosa disposição divina, a Hildebrando, não já apostólico, mas falso monge. Por causa da desordem que provocaste, mereceste esta saudação, pois aboliste a ordem na Igreja, fazendo-a mergulhar na confusão e na desonra e não compartilhar da bênção, mas da maldição. Com efeito, embora não pretenda tecer muitas considerações, apesar de as mesmas serem dignas de atenção, não hesitaste somente em tocar nos dirigentes da Santa Igreja, os arcebispos, bispos e presbíteros, ungidos do Senhor, mas os submeteste a teus pés, como se fossem meros servos que não sabem o que faz o seu senhor e, ao humilhá- los, recebeste o aplauso popular. Pensaste que nada sabiam, enquanto apenas tu te consideravas a par de tudo, Como te esforçaste, não para a edificação desta doutrina, mas para a sua destruição, a ponto de acreditares precisamente no que o bem-aventurado Gregório, de quem apropriaste o nome, profetizou sobre ti, declarando: A alma do prelado geralmente alvoroça-se com o grande número de fiéis e, por isso, julga saber mais do que todos eles, ao constatar que pode mais do que eles. Na verdade, suportamos essa situação porque estávamos empenhado em preservar a honra da Sé Apostólica. Mas tu pensaste que a nossa humildade era fruto do temor e, por isso, não receaste em insurgir-te contra este poder régio que nos foi concedido por Deus, ousando ameaçar que dele nos deporias, como se tivéssemos recebido o reino de ti, como se estivesse nas tuas mãos, e não nas de Deus, o reino e o império. Deus, Nosso Senhor, chamou-nos para o governo do reino, mas não te chamou para o sacerdócio. Sem dúvida alguma, foi pela astúcia execrada pela vida monástica que ascendeste ao Papado, galgando os seguintes degraus: obtiveste dinheiro, pelo dinheiro os favores; por meio destes a espada, e graças a esta a Sé da Paz. E perturbaste a sua paz, na medida em que armaste os súditos contra os prelados, ensinando-os a desprezar os nossos bispos, chamados por Deus, embora tu não tivesses sido chamado; na medida, também, em que conferiste indistintamente aos leigos poder sobre os sacerdotes, do modo que pudessem condenar e depor aqueles que, para os instruir, mediante a imposição das mãos haviam recebido de Deus o múnus sacerdotal. Eu mesmo, ainda que indigno, ungido entre os cristãos para reinar, fui atingido por ti; eu, que a tradição dos ensinamentos dos Santos Padres propôs que devia ser julgado somente por Deus, exceto se cometesse o crime do me afast ar da fé, fui ameaçado do deposição por ti. Ora, até a Providência poupou Juliano, o Apóstata, de ser julgado pelos Santos Padres, reservando-o exclusivamente para o seu próprio juízo. O bem-aventurado Pedro, legítimo Papa, ensinou igualmente: Tornei a Deus, honrai o rei. Tu, porém, que não temes a Deus, transgrediste a sua lei em mim personificada. O bem-aventurado Paulo, que afirmou que não pouparia um anjo do Céu, se este porventura pregasse um outro Evangelho, também foi ignorado por ti, pois estás a

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ensinar u ma doutrina diferente. Na verdade, ele disse: Se alguém, eu ou u m anjo do Céu, vos pregar um outro Evangelho diferente daquele que vos ensinamos, seja condenado. Por isso, foste condenado por aquele anátema, pelos nossos bispos e pelo nosso julgamento; portanto, desce da Sé Apostólica que usurpaste. Suba ao trono do bem- aventurado Pedro uma outra pessoa que não obscureça a religião com a violência, mas que ensine a verdadeira doutrina pregada pelo Príncipe dos Apóstolos. Eu, Henrique, rei pela graça de Deus, juntamente com os nossos bispos, dizemos-te: desce de onde estás, pois foste condenado pelos séculos.

DOCUMENTO 10

Sentença de deposição do rei Henrique IV, Patrologia latina, v. 148, p. 790.

Oh bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos, nós te pedimos, inclina os teus piedosos ouvidos para nós e escuta-me, a mim que sou teu servo. Tu me nutriste desde a infância e, até hoje, me livraste da mão dos iníquos que me odeiam e odiarão, por causa da fidelidade que te guardo. Tu és minha testemunha, bem como a minha Senhora, a Santa Mãe de Deus, e ainda o bem-aventurado Paulo, teu irmão, entre todos os santos, que foi tua Santa Igreja Romana que me levou, contra a minha vontade, à sua chefia; eu nunca pensei que fosse um ato de usurpação ascender à tua sede, e desejei muito mais terminar a minha existência a peregrinar de um lado para o outro do que arrebatar o ter lugar através de meios seculares por amor à gloria terrena. Por isso, devido à tua graça, e não por meus méritos, creio que desejaste e queres que este povo cristão, especialmente a ti confiado, igualmente me obedeça de modo particular, em razão do vicariato que me foi confiado. Por tua graça, Deus me deu o poder de ligar e desligar no céu e na terra. Apoiando-me nesta verdade, para honra e defesa da tua Igreja e em nome de Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, por meio do teu poder e autoridade, retiro do rei Henrique, filho do Imperador Henrique, o poder sobre todo o reino da Germânia e da Itália, porque ele ergueu-se contra a tua Igreja com inaudita soberba, e liberto todos o cristãos do juramento de fidelidade que lhe tiverem feito ou que venham a fazer e os proíbo de o servirem como rei. É justo castigar aquele que procura diminuir a dignidade da tua Igreja, fazendo- o perder as honrarias que devia ter. Como ele me desdenhou e se recusou a obedecer às leis cristãs e não quis voltar ao Senhor, a quem desprezou, unindo-se aos excomungados, além de ter cometido muitas iniqüidades e desprezado as minhas admoestações como bem podes testemunhar, o fiz para sua salvação, porque se afastou da tua Igreja e a tentou dividir. Assim, por ti o liguei pelo ví nculo do anátema e, confiando em ti, assi m o ligo, para que os povos possam ver e reconhecer que tu és Pedro e que sobre esta pedra o Filho de Deus vivo construiu a sua Igreja e que as portas do Inferno não prevalecerão sobre ela.

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DOCUMENTO 11

Carta de Gregório VII ao clero e povo germânicos, Patrologia latina, v. 148, p.

245-247.

Gregório, bispo, servo dos servos de Deus, a todos os amados irmãos em Cristo, bispos, duques, condes, e a todos os defensores da fé cristã que vivem no reino da Germânia, saúde e absolvição de todos os pecados, através da bênção apostólica. Se considerardes atentamente o decreto pelo qual Henrique, chamado rei, foi excomungado durante o santo sínodo, através do julgamento do Espírito Santo, vereis indubitavelmente que medida se deve tomar neste caso. Constatareis por que ele foi ligado com os laços do anátema e deposto da sua dignidade régia e porque todo o povo que lhe estava sujeito pelo vínculo do juramento de fidelidade até aquele momento foi por nós libertado do mesmo. Entretanto, Deus o sabe, considerando que não agimos contra ele movido pelo

orgulho ou pelo vão desejo das coisas terrenas, mas sim levado apenas por causa do zelo da Santa Sé e por nossa Mãe comum a Igreja, admoestamo-vos, em nome do Senhor Jesus, e rogamo-vos, caríssimos irmãos, que o acolhais bondosamente se ele regressar a Deus de todo o coração. Peço-vos que lhe mostreis a justiça que o proibiu de reinar e que o trateis com clemência, pois a mesma perdoa muitos crimes. Tende em conta a fragilidade da nossa comum natureza humana, e não vos esqueçais da piedosa e nobre memória de seus pais, governantes sem par, nos nossos dias. Aplicai, no entanto, o óleo da bondade nas suas feridas, de tal modo que as cicatrizes não apodreçam por causa do abandono do vinho da ordem, evitando assim que

a honra devida à Igreja e ao Império Romano caiam na ruína completa por causa da

nossa indiferença. Afastai para longe dele os maus conselheiros que, apesar de excomungados em razão da heresia simoníaca, não têm escrúpulos em contaminar o seu próprio senhor com tal enfermidade e ainda o estimularam a cometer vários crimes, dividindo a Santa Igreja,

e atraíram sobre ele a ira divina e de S. Pedro. Desejamos que Henrique se rodeie de outros assessores, que levem mais em conta os seus interesses do que os próprios, que o amem e que sobreponham a causa de Deus às ambições terrenas. Que tais homens não pensem jamais que a Santa Igreja é sua súdita ou serva, mas, pelo contrário, que a reconheçam como sua superior e senhora. Que não se encham de vaidade com o espírito orgulhoso, nem defendam os costumes inventados para restringir a liberdade da Santa Igreja, mas que observem a doutrina dos papas que lhes foi ensinada sobre o poder divino em vista da nossa salvação. Mas, se vos ouvirem, atendendo fielmente a estas e outras exigências que se lhes puderem impor com justiça, desejamos que nos informeis imediatamente, através de mensageiros de confiança, a fim de que, examinando-as juntos, possamos, com o auxílio divino, agir retamente.

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Proibimos de modo especial, pela autoridade de S. Pedro, que algum de vós se atreva a absolver Henrique da excomunhão, até que tenhamos sido informados acerca do que foi acima estipulado, e tenhais recebido a nossa resposta contendo a permissão da Sé Apostólica, pois desconfiamos das sugestões contraditórias dadas por pessoas diferentes, bem como suspeitamos, tanto do favor quanto do temor dos homens. Entretanto, se, por causa dos crimes de muitos, Henrique não se voltar para Deus oxalá Ele não permita isso , que se procure, com o favor divino, um outro governante para o reino, o qual se comprometa firmemente a executar as medidas que indicamos e outras que venham a ser necessárias para a segurança da religião cristã e de todo o Império. Além disso, caso seja oportuno fazer uma eleição para escolher um novo rei, a fim de que o confirmemos pela autoridade apostólica e apoiemos a nova ordem, conforme sabemos que fizeram os Santos Padres nossos antecessores, informai-nos quanto antes sobre tal pessoa e o seu caráter. Procedendo assim, com intenção piedosa e útil, vos Seremos gratos quanto ao caso presente e merecereis, pela graça divina, o favor da Sé Apostólica e a bênção de S. Pedro, príncipe dos Apóstolos. [ ] Quanto aos excomungados, recordo que já vos dei, a vós que defendeis a fé cristã, as diretrizes sobre como devem agir os bispos e a respectiva licença para os absolver, e, agora, confirmamos tudo isso, sob a condição de que os mesmos se arrependam verdadeiramente e solicitem humildemente penitência.

DOCUMENTO 12

Carta de Gregório VII a Herman. Patrologia latina, v. 148, p. 453-467.

Gregório, servo dos servos de Deus, ao dileto irmão cm Cristo, Herman, bispo de Metz, saudação e bênção apostólica. Sabemos que estás sempre disposto a trabalhar e a suportar perigos em defesa da verdade, e não duvidamos que isso é um dom de Deus. Com efeito, faz parte da sua graça inefável e da sua infinita misericórdia nunca permitir que os seus escolhidos se extraviem ou caiam por completo e tampouco sejam derrubados [ Tu nos pedes que te ajudemos e te apoiemos contra a loucura daqueles que pairam com a boca sacrílega, dizendo que a autoridade da Santa Sé Apostólica tanto não tinha o poder de excomungar o rei Henrique, homem que não faz caso da lei cristã, destruidor de igrejas e do Império, fautor e companheiro de hereges, assim como a faculdade de libertar qualquer pessoa do juramento de fidelidade que lhe tinha sido prestado. Não nos parece necessário refutar esses pontos, visto que na Sagrada Escritura há inúmeras e convincentes provas a tal respeito. Tampouco acreditamos efetivamente que aqueles que contradizem e detratam imprudentemente a verdade, para sua condenação, acrescentando tais afirmações à audácia da sua defesa, o façam levados mais por ignorância do que por insana e desesperada loucura. Nem nos devemos admirar disso. Com efeito, é costume dos perversos agir assim para ocultar as suas próprias iniquidades, julgando que os outros

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são como eles, pois não se preocupam com merecer o castigo da perdição reservada aos mentirosos. Para citar apenas uma das muitas provas do que dizemos, basta referir a seguinte: quem ignora as palavras de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, ditas no Evangelho: ―Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.‖

Porventura estão os reis excluídos, ou não fazem parte das ovelhas que o Filho de Deus confiou ao bem-aventurado Pedro? Quem, pergunto eu, se julga fora dessa universalidade do poder de ligar e desligar, conferido a S. Pedro? Somente um infeliz que, não desejando suportar o jugo do Senhor, prefere sujeitar-se ao peso de Lúcifer e se nega a ser contado entre as ovelhas de Cristo. No entanto, isso não proporcionará nada de bom à sua mísera liberdade, pois se recusa orgulhosamente a admitir o poder concedido divinamente a S. Pedro e, entregando-se ao pecado da soberba, se nega a suportá-lo, será obrigado a sofrê-lo muito mais duramente, por causa da sua condenação no dia do Juízo Esta instituição da vontade divina, esta fundação do governo da Igreja, este privilégio outorgado e especialmente ratificado através de um decreto celestial dado ao bem-aventurado Pedro, Príncipe dos Apóstolos, foi aceita e mantida com grande reverência pelos Santos Padres, que deram à Igreja Romana o nome de Mãe universal, tanto nos concílios gerais quanto nos seus escritos e nas medidas que tomaram. E, da mesma forma que aceitaram as suas exposições e instruções doutrinais relativas à religião, acolheram igualmente as suas decisões judiciais, admitindo e consentindo, como se fossem uma só voz e um só espírito, baseados no princípio segundo o qual todos os assuntos especialmente relevantes, todas as causas maiores e todos os juízos sobre as demais igrejas devem ser encaminhados para a Igreja de Roma, Mãe e cabeça, pois das suas sentenças não há apelação, e não podem as mesmas, nem devem, ser revistas e revogadas por ninguém. Por isso, o Papa Gelásio, apoiado na autoridade divina, instruindo o Imperador Anastácio acerca do que devia saber a respeito do principado da Santa Sé Apostólica, lhe escreveu: ―Embora seja conveniente que todos os fiéis se submetam aos sacerdotes que desempenham corretamente a sua missão divina, com muito mais razão devem igualmente aceitar o juízo daquele prelado que foi eleito como supremo governante divino para chefiar todos os presbíteros, e a quem a fidelidade de toda a Igreja reconheceu como tal. A tua sabedoria vê claramente que não há ninguém que se possa igualar àquela pessoa que a palavra e o testemunho de Cristo instituiu sobre as demais, e que a Santa Igreja Romana confessou e reconheceu sempre como sua cabeça.‖ Igualmente o Papa Júlio, escrevendo aos bispos orientais sobre o poder da Santa Sé Apostólica, disse: ―Irmãos, devíeis ter falado respeitosamente e sem ironia a respeito da Santa Romana e Apostólica Igreja, considerando que Nosso Senhor Jesus Cristo se lhe dirigiu com todo o respeito, dizendo ‗tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; darte-ei as chaves do reino dos céus‘.‖ Com efeito, ela possui o poder que lhe foi concedido mediante um

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privilégio especial, o de abrir e fechar as portas do reino celeste a quem desejar. Não pode, então, aquele que recebeu o poder de abrir e fechar as portas do Céu julgar aqui na terra? Que não seja de outro modo. Recordai ainda o que o santo Apóstolo Paulo disse:

―Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais as coisas terrenas.‖ Também o Papa S. Gregório estabeleceu que os reis que se atrevessem a desobedecer aos decretos da Sé Apostólica perderiam a sua dignidade. Ele escreveu estas palavras a um senador e a um abade: ―Se um rei, ou um sacerdote, ou um juiz, ou ainda um leigo qualquer, desrespeitar este nosso decreto e tentar agir contrariamente, será privado do seu poder, ofício e dignidade e deve saber que igualmente será réu do julgamento divino por causa da iniqüidade cometida. E, a menos que repare o mal que tiver cometido e faça a penitência devida por causa dos seus atos ilícitos, será afastado da comunhão do Corpo e Sangue sacratíssimos de Nosso Senhor e Redentor, Jesus Cristo, e receberá no Juízo Final o castigo que merecer.‖ Se o bem-aventurado Gregório, o mais suave dos doutores, estatuiu que os reis que desobedecessem aos seus decretos, no respeitante a um hospital para estrangeiros, seriam não só depostos e excomungados, mas também condenados no Juízo Final, por que nos censuram por havermos deposto e excomungado Henrique IV, que violou não apenas as sentenças apostólicas da sua própria Mãe, a Santa Igreja, mas também, na medida em que pôde, pisou, destruiu e saqueou as igrejas e todo o reino? Só admitindo- se a hipótese de tais pessoas serem semelhantes a ele. Conforme sabemos, graças ao ensinamento do bem-aventurado Pedro, na epístola sobre a ordenação de S. Clemente lemos: ―Se há alguém amigo daqueles com quem ele aludindo ao próprio Clemente não se relaciona, tal pessoa é uma das que gostariam de exterminar a Igreja de Deus, e, embora aparente corporalmente estar conosco, na verdade está contra nós no coração e no espírito e, ainda, é um inimigo pior do que os que estão fora e se manifestam claramente hostis, pois tal pessoa, sob o disfarce da amizade, age como inimigo, arruinando e destruindo a Igreja.‖

[ Mas voltemos à questão principal. Porventura a dignidade real, instituída

por leigos, ignorantes das coisas divinas, não está subordinada àquela que a Providência de Deus onipotente estabeleceu para sua honra e gratuitamente ofereceu ao mundo? Cremos que seu Filho, Deus e homem e igualmente Sumo Sacerdote, cabeça do todos os sacerdotes, está sentado à direita do Pai, intercedendo sempre por nós. Ele, no entanto, recusou o poder terreno, o qual sempre faz com que os filhos deste mundo se encham de orgulho, e espontaneamente se ofereceu como vítima para o sacrifício da Cruz. Quem ignora que os reis e os príncipes descendem de pessoas desconhecedoras de Deus? Quem não sabe que se exaltam a si próprios relativamente aos semelhantes, através do orgulho, do saque, da traição, do assassinato, em suma, graças a toda a espécie de crimes, instigados por Lúcifer, príncipe deste mundo? Quem desconhece que tais pessoas são cegas, movidas pela avareza, e que são igualmente escravas do orgulho e de uma presunção intolerável? Elas empenham-se em submeter os sacerdotes de Deus à sua vontade e, agindo assim, só podem ser adequadamente comparadas àquele que é o príncipe de todos os filhos da soberba. Este, ao tentar o Filho do Altíssimo, Sumo Sacerdote e cabeça de todos os presbíteros, prometendo-lhe os reinos deste mundo, disse: ―tudo isto te darei se

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te prostrares e me adorares‖. Quem pode descrer de que os sacerdotes de Cristo devem ser considerados como pais e mestres dos reis, dos príncipes e de todos os fiéis? Não se consideraria loucura digna de compaixão se um filho tentasse subjugar o seu pai, ou se um discípulo ousasse dominar o mestre, ou ainda a pessoa que tenta submeter ao seu controle, por meio de laços iníquos, justamente quem pode ligá-la e desligá-la, não só na terra, mas também no Céu? S. Gregório, numa carta dirigida ao Imperador Maurício, lembra-nos que o Imperador Constantino Magno, senhor de quase todos os reis e príncipes do mundo inteiro, compreendendo perfeitamente o que dissemos a respeito dos sacerdotes, sentou- se, durante o sínodo de Nicéia, num lugar inferior em relação ao ocupado pelos bispos aí presentes e não ousou promulgar nenhuma sentença contra eles, mas, dirigindo-se aos mesmos, reverenciou-os como deuses, estatuindo que não estavam subordinados ao seu tribunal, mas sim ele, Constantino Magno, acataria as suas decisões.

O prelibado Gelásio, papa, admoestando o Imperador Anastácio, antes citado, a

fim de não o ofender com a verdade que lhe devia ensinar, disse: ―Há dois poderes, ó augusto Imperador, mediante os quais o mundo é governado, a autoridade sagrada dos pontífices e o poder real. Destes, é mais pesado o encargo dos sacerdotes, pois eles deverão prestar contas, por ocasião do Juízo divino, não apenas de si próprios, mas também pelos reis da humanidade.‖ E, mais adiante, acrescentou: ―Deves submeter-te ao seu juízo, e não eles à tua vontade.‖ Portanto, muitos pontífices, apoiados nessas autoridades e em tais declarações, excomungaram reis e imperadores. Citamos, como exemplos especiais, alguns casos.

Santo Inocêncio, papa, excomungou o imperador Arcádio, porque este consentiu que S. João Crisóstomo fosse expulso da sua Sé episcopal. O Pontífice Romano Zacarias depôs um rei franco, não tanto por haver cometido iniqüidades, mas pelo fato de ser incapaz de exercer tão importante encargo, e o substituiu por Pepino, pai do Imperador Carlos Magno, desligando todos os francos do juramento de fidelidade que lhe tinham prestado.

A Igreja também faz isso com freqüência, quando, pela sua autoridade, desliga

os soldados do juramento de fidelidade prestado aos bispos que foram destituídos da sua função, pelo poder apostólico. O bem-aventurado Ambrósio, que, embora fosse santo, não era bispo da Igreja Universal, excomungou da mesma o Imperador Teodósio Magno, por causa de um delito que não pareceu aos demais sacerdotes ser tão grave. Ele ainda nos ensina nos seus escritos que o Sacerdócio é bem superior ao poder régio, da mesma forma que o ouro é mais precioso que o chumbo, dizendo, no princípio da sua carta pastoral: ―Irmãos, é incomparável a honra e a dignidade dos bispos. Se os confrontarmos com o fulgor dos reis e com o diadema dos príncipes, será bem menos do que se

compararmos o chumbo ao esplendor do ouro. Com efeito, constata-se que os reis e os príncipes inclinam as suas cabeças diante dos joelhos dos sacerdotes e, após beijarem a sua mão direita, consideram-se fortalecidos por meio das suas ora ções.‖ E adiante acrescenta: ―Recordai, irmãos, que dizemos isto para vos mostrar que neste mundo nada há mais excelente do que os sacerdotes e mais sublime do que os bispos.‖ Caríssimo irmão, deves lembrar-te de que, no momento da ordenação de um exorcista, se lhe confere um enorme poder, como se fosse um imperador espiritual, para

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expulsar os demônios, poder esse muito maior do que o conferido a qualquer leigo para o exercício do domínio secular. Na verdade, todos os reis e príncipes deste mundo, que não vivam piedosamente e nas suas ações se não revelem tementes a Deus, estão infelizmente dominados pelo jugo de Lúcifer e encontram-se numa servidão miserável. Tais pessoas, de fato, não querem governar conduzidas pelo amor divino, como fazem os sacerdotes, tendo em apreço a honra de Deus e o bem das almas. Elas querem o domínio, tendo em vista comprovar a sua intolerável soberba e satisfazer a luxúria dos seus espíritos. O bem-aventurado Agostinho, falando sobre elas, na sua Doutrina Cristã, Livro I, diz:

―Aquele que aspira a dominar os semelhantes, isto é, as criaturas humanas, atua, na verdade, co m uma soberba intolerável.‖ Ora, se os exorcistas det êm u m poder divino sobre os demônios, conforme se disse, quanto mais sobre aquelas pessoas que pertencem e estão subjugadas pelos mesmos. Portanto, se os exorcistas são superiores aos que dominam os semelhantes, muito mais o são os presbíteros. Além disso, todos os reis cristãos, quando sentem aproximar-se a morte, chamam em socorro um sacerdote, pois se encontram na condição de miseráveis suplicantes, com vista a apresentarem-se perante o tribunal divino absolvidos dos vínculos do pecado e a poderem escapar da prisão do inferno e logo passarem das trevas à luz. Na verdade, quem de entre os leigos ou os sacerdotes, na hora final, solicita o socorro de um rei terreno para salvar a sua alma? Quem, entre reis e imperadores, em razão do encargo que exercem, é igualmente capaz de resgatar uma pessoa do poder de Lúcifer mediante o Santo Batismo, e ainda confirmá-la como filha de Deus e fortalecê-la espiritualmente co m o Crisma? Quem, de entre eles, pode por si mesmo transformar o pão e o vinho no Corpo e Sangue do Senhor, o maior ato da religião cristã? A quem, de entre os soberanos, foi alguma vez concedido o poder de ligar e desligar nos céus e na terra?

Mediante estes exemplos, nota-se claramente quanto a dignidade sacerdotal é superior em poder. Quem, entre os reis e imperadores, pode ordenar um clérigo da Santa Igreja ou depô-lo da sua função, por qualquer falta que por acaso haja cometido? Com efeito, na hierarquia eclesiástica reserva-se um poder maior para depor do que para ordenar, de modo que os bispos, ainda que possam ordenar outros antístites, absolutamente não têm o poder de depô-los sem a autorização da Sé Apostólica. Portanto, quem, ainda que pouco esclarecido, duvida que os sacerdotes precedem os reis? Se estes, em razão dos seus pecados, são julgados por aqueles, com muito mais justiça podem vir a ser julgados pelo Sumo Pontífice. Numa palavra, todo bom cristão pode mais corretamente ser denominado rei do que os maus príncipes, pois estes, ao buscarem os seus próprios interesses e não as coisas de Deus, são inimigos de si próprios e ainda oprimem tiranicamente os semelhantes, enquanto aqueles, ao procurarem a glória de Deus, se autogovernam com severidade e constituem o Corpo de Cristo, Rei verdadeiro, e, ao assim procederem, reinarão eternamente juntamente com o Supremo Imperador. Os maus príncipes são a falange de Satanás, e o seu poder acabará na condenação eterna, juntamente com o príncipe das trevas, que reina sobre todos os filhos da soberba.

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Decerto não causa grande espanto o fato de maus bispos concordarem com um rei iníquo, a quem amam, temem e seguem por causa das honrarias que dele indignamente receberam. Tais pessoas, ao ordenarem simoniacamente qualquer indivíduo, vendem Deus até mesmo por um valor desprezível. Ora, como os escolhidos canonicamente estão indissoluvelmente unidos à sua cabeça, igualmente os maus estão firmemente ligados àquele que é a fonte de toda a maldade, para agir especialmente contra os bons. No entanto, não convém discutir com tais pessoas; é melhor suplicar a Deus por elas, com lágrimas e pranto sincero, a fim de que Ele as livre dos laços do demônio, aos quais se encontram presas, e em seguida à provação as conduza ao conhecimento da verdade. Fizemos referência aos reis e imperadores que, inchados pela vanglória, não exercem o poder conforme a vontade de Deus, mas em benefício próprio. Entretanto, como é obrigação do nosso encargo admoestar e animar a todos, qualquer que seja a ordem a que pertençam ou a função que desempenhem, ousamos, com a graça de Deus, proporcionar aos príncipes seculares as armas da humildade, para que saibam conter as ondas do mar e as torrentes da soberba. Sabemos efetivamente que a glória terrena e as preocupações com as coisas mundanas tentam principalmente àqueles que governam, levando-os à jactância, de modo que se esquecem da humildade e buscam a própria honra, querendo imperar sobre os semelhantes. Especialmente útil aos reis e imperadores, embora as suas mentes estejam voltadas para a glória e honra pessoais, é descobrir um meio de se humilharem e de se afastarem do prazer terreno. Portanto, que eles ponderem atentamente quão perigosa e temível é a dignidade régia e imperial, porque alguns poucos que as exercem alcançam a salvação, e os que pela misericórdia divina a atingem não vêm a ser glorificados pela Santa Igreja através do juízo do Espírito Santo, da mesma forma como acontece com os pobres.

Na verdade, até hoje, desde o início do mundo, não encontramos nos registros fidedignos sete reis ou imperadores cujas vidas hajam sido assinaladas com os sinais da virtude e religiosidade, embora acreditemos que muitos deles, por causa da misericórdia divina, tenham obtido a salvação. Por outro lado, é diferente a situação do incontável número de pessoas que desprezam as coisas deste mundo. De fato, não considerando os Apóstolos e Mártires, qual de entre os reis e imperadores se notabilizou pelos seus milagres, como os bem-aventurados Martinho, Antão e Bento? Qual de entre eles ressuscitou mortos, purificou leprosos ou curou cegos? É bem verdade que a Santa Igreja louva e venera os imperadores Constantino, de piedosa memória, Honório, Teodósio, Carlos e Ludovico, amantes da justiça, propagadores da religião, defensores das igrejas, mas, entretanto, não declara que brilharam com tanto esplendor, porque não receberam o dom dos milagres. Além disso, a Santa Igreja não dedicou a nenhum deles basílicas ou altares, nem ordenou que se celebrassem Missas em seu louvor. É oportuno que os monarcas sejam cautelosos, pois, quanto mais se alegrarem pelo fato de, neste mundo, estarem acima dos semelhantes, correrão muito maior risco de, na outra vida, serem lançados no fogo eterno. Daí estar escrito: ―os poderosos sofrerão duramente os tormentos‖.

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Os monarcas, efetivamente, terão de prestar contas a Deus por todos os súditos

que estiverem sob o seu poder. Como não é fácil aos simples fiéis salvar a própria alma,

é muito mais difícil a missão dos príncipes, que têm o encargo de milhares de seres

humanos. Se a Santa Igreja julga e pune severamente aquele que cometeu um assassinato, como será então o caso daquelas pessoas que, impelidas pela glória deste mundo, levam muitos milhares à morte? Devido ao assassinato de muita gente, embora às vezes façam uma prece, dizendo ―minha culpa‖, no entanto, alegram-se intimamente da amplitude da sua fama, não se lamentam do que fizeram e tampouco se arrependem de haver mandado os seus irmãos para o Tártaro. Por isso, enquanto tais monarcas não se arrependerem de todo o coração e não largarem tudo o que adquiriram derramando sangue, a sua penitência aos olhos de Deus não produzirá os frutos da verdadeira contrição. Convém, pois, que sejam cautelosos e recordem sempre o que acima dissemos: desde os primórdios do mundo, em todos os reinos da terra, na incontável multidão dos reis, muito poucos foram encontrados verdadeiramente santos. Por outro lado, se considerarmos os bispos da Sé Romana, que se sucederam uns aos outros até chegarmos ao primeiro deles, o bem-aventurado Pedro, poderemos enumerar entre os mais santos pelo menos uma centena, sem receio de

errarmos. E por que isto? Porque os reis e os príncipes da terra, seduzidos pela vanglória, conforme escrevemos antes, preferem as suas próprias coisas às espirituais, enquanto os piedosos bispos, desprezando a glória terrena, colocam as coisas de Deus acima de tudo. Aqueles punem facilmente as ofensas recebidas e toleram sem nenhum pejo o desrespeito e o pecado cometido contra Deus. Estes perdoam imediatamente aqueles que os ofenderam, mas não punem com a mesma rapidez os delitos cometidos contra Deus. Os primeiros, bem mais inclinados para as coisas terrenas, pensam muito pouco nas coisas espirituais; os últimos, meditando sempre nas coisas celestes, não fazem caso dos bens terrenos. Logo, todos os reis cristãos que desejam governar com Cristo têm de ser admoestados, a fim de que não reinem atraídos pelas ambições do poder secular, antes estejam atentos ao conselho do santíssimo Papa Gregório, que declara, no seu livro Sobre o ofício pastoral: O mais importante de tudo o que deve ser observado consiste nisto: quem age de acordo com as virtudes está obrigado, em razão das mesmas, a aceitar

o seu encargo, mas aquele que não é virtuoso não assuma qualquer função, embora a

tanto seja estimulado.‖ Ora, se pessoas tementes a Deus, embora amedrontadas e coagidas, ascendem à Sé Apostólica, onde os que foram eleitos legitimamente se aperfeiçoam, graças aos méritos do bem-aventurado Pedro, com quanto receio e tremor devem os homens subir ao trono, onde mesmo boas pessoas humildes como não se ignora de David e Saul

se tornaram imperfeitos. O que acima foi dito relativamente à Sé Apostólica, embora o saibamos pela própria experiência, está escrito nos decretos do Papa S. Símaco: ―Ele (isto é, o bem- aventurado Pedro) transmitiu um dote perene de méritos aos seus sucessores, juntamente com uma herança de inocência.‖ E adiante acrescenta: ―Na verdade, quem se julga santo, duvide, pois a pessoa elevada ao ápice de tanta dignidade, no qual se necessita da virtude adquirida pelos méritos pessoais, basta a que lhe foi transmitida pelo seu antecessor, pois

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ou eleva homens de distinção capazes de suportar o peso do ministério, ou exalta posteriormente os que foram escolhidos.‖ Aqueles, portanto, a quem a Santa Igreja chama espontaneamente e por iniciativa própria para governar ou dirigir, não para a glória passageira, mas para a salvação de muitos, aceitem humildemente o chamado e nunca se esqueçam do que S. Gregório diz no citado livro Sobre o ofício pastoral: ―Na verdade, quando um homem despreza a semelhança com os demais, torna-se igual a um anjo apóstata.‖ Assim ocorreu com Saul. Após ter possuído o mérito da humildade, encheu-se de soberba, quando no auge do poder. Com efeito, primeiramente foi exaltado por causa da sua humildade, mas reprovado mais tarde, em razão do seu orgulho, conforme o testemunho de Deus que assim diz: ―Não te constituí à frente das tribos de Israel, embora aos seus olhos fosses pequeno?‖ E adiante: ―Admiro-me como na ocasião em que ele era pequeno aos olhos deles, era de fato grande perante Deus, mas quando se pareceu como tal a si próprio, tornou-se pequeno diante do Senhor.‖ Que eles atentem o que Jesus Cristo diz no Evangelho: ―Não busco a minha própria glória‖ e ―aquele de entre vós que desejar ser o primeiro, seja o vosso servo.‖ Oxalá ponham sempre o louvor a Deus acima do próprio, abracem e conservem a justiça, resguardando os direitos de cada pessoa, não atuem ouvindo os conselhos dos ímpios, mas adiram no íntimo às palavras dos bons, não queiram dominar e submeter a Santa Igreja a si mesmos, como se ela fosse uma serva, mas procurem antes de tudo prestigiá-la adequadamente e reconhecer nos seus sacerdotes, aos olhos de Deus, como pais e mestres. Com efeito, se somos obrigados a honrar nossos pais segundo a carne, quanto mais aos nossos pais espirituais? Se aquele que amaldiçoa o seu pai ou a sua mãe carnais merece o castigo da morte, o que não merece então aquele que maldiz a sua Mãe e o seu pai segundo o espírito? Que os monarcas, levados pelo amor paterno, não coloquem os seus filhos à frente do rebanho pelo qual Cristo derramou o seu sangue, se puderem encontrar alguém melhor e mais útil, pois, embora amem muito mais os seus filhos do que Deus, não devem prejudicar enormemente a Igreja. É notório que a pessoa que, de acordo com as suas capacidades, não provê às próprias necessidades, demonstra não amar a Deus e ao próximo, como deve fazer qualquer cristão. Se lhe falta a virtude da caridade, pouco importa o bem que venha a praticar, pois carece igualmente do fruto da salvação. Mas, se pratica todas as virtudes com humildade e observa o amor a Deus e ao próximo, segundo convém, poderá esperar a misericórdia d‘Aquele que disse ―aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração‖. Se o imitar humildemente, passará deste reino servil e transitório para o verdadeiramente livre e eterno.

DOCUMENTO 13

Pedro Crasso, em defesa do rei Henrique IV. MGH, Libelli de Lite, I, p. 444.

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Mediante a autoridade das leis não ficou suficientemente demonstrado que o reino

foi transmitido de maneira inviolável ao rei Henrique? Por acaso, há na face da terra, entre os mortais, uma pessoa tão ignorante, tão fraca de entendimento, tão desprovida de

razão, tão imprudente, tão louca, a ponto de pensar que é permitido ousar atentar contra um Rei tão importante, o que, aliás, as sanções legais proíbem fazer a qualquer pessoa?

O rei Henrique, por acaso, não possui o reino tanto de direito quanto pessoalmente?

Sua legítima possessão tem a mais justa origem, cujo testemunho são a paz profunda e a tranqüilidade em que o reino se encontra desde o tempo de seu avô, o Imperador Conrado, de divina memória, que o recebeu com a bênção apostólica e transmitiu a sucessão a seu filho Henrique III, de gloriosa memória. Enfim, de acordo com a legítima sucessão de seu pai, o reino passou a Henrique IV co m a mesma bênção apostólica [ ]

] [

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2

A Hierocracia e a Teocracia Régia no Século XII

2.1

AINDA AS QUESTÔES DAS INVESTIDURAS E DA LIBERTAS ECCLESIAE

Fora da Alemanha, as questões da investidura e da libertas Ecclesiae não atingiram as mesmas proporções: de um lado, porque a realeza era fraca relativamente à nobreza feudal; de outro, porque os reis não souberam criar ―igrejas nacionais‖. No entanto, o Tractatus Eboracensis, escrito provavelmente no início do século XII, compreendendo trinta e um opúsculos, cujo autor desconhecido é comumente denominado Anônimo de York, constitui uma peça documental de primeira grandeza para a compreensão de tais problemas, bem como a respeito da concepção relativa ao poder régio teocrático e às suas relações com a autoridade espiritual, no tocante à Inglaterra e à Normandia. As teses mais originais e mais elaboradas, aliás bastante avançadas para a época, acerca de tais assuntos, encontram-se nos opúsculos De Consecratione Pontificum et Regum e Apologia Archiepiscopi Rotamagensis. 1 As principais teses enunciadas nesses opúsculos são as seguintes:

a) O poder da Igreja Romana não provém de uma instituição feita diretamente

por Jesus Cristo, mas, pelo contrário, decorreu de uma decisão político-religiosa dos

homens. Isto significa que o Papa não pode reivindicar, em todas as circunstâncias, uma jurisdição ilimitada a ser exercida sobre toda a Igreja.

b) Os reis, devido à ação da Providência, são escolhidos e consagrados para

governar o povo de Cristo, incluindo a própria Igreja. É por esse motivo que o poder

régio teocrático é superior à autoridade pontifícia.

c) O poder religioso do monarca provém de Deus, através da sagração e unção

com o óleo do Crisma, transformando-o num cristo do Senhor, cujas obrigações consistem na proteção da Igreja contra os hereges e cismáticos e no governo do povo de Deus, segundo a lei evangélica. A realeza, superior ao sacerdócio, identifica-se com a

1 Cfr. MGH, Libelli de Lite, III. Apologia Episcopi Rotomagensis, p. 659-660; De Consecracione Pontificum et Regum, p. 670, 674, 676.

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natureza divina de Cristo, idêntica à do Pai. Assim sendo, os monarcas têm o direito de investir os dignitários eclesiásticos, os quais lhes devem ser submissos, do mesmo modo que o Mestre, Sumo Sacerdote, sempre esteve subordinado à vontade de Deus Pai, criador e senhor do universo. 2 Como vemos, a concepção teocrática defendida em tais opúsculos, atribuindo ao monarca a suprema liderança em seu reino, simultaneamente secular e espiritual, dado

que ele era ungido para tal, em nome de Cristo, defrontava-se, porém, com uma questão prática: era um prelado, detentor da autoridade espiritual que ungia o monarca. Neste pormenor, que não é de somenos importância, só fundamentaram os hierocratas para sustentar o dirigismo papal em questões mesmo de natureza secular. Por isso, reiteramos

o que já dissemos no capítulo anterior: ao moverem-se no terreno teórico da hierocracia, os defensores da teocracia régia jogavam no campo do adversário.

2.2

HUGO DE SÃO VICTOR (1096-1141)

Hugo fazia parte da conhecida Escola de São Víctor, da qual foi um dos maiores expoentes. Tal escola foi um dos esteios do conhecido ―Renascimento do século XII‖. Esta expressão encontra-se no renomado trabalho de Charles Haskins intitulado La rinascità del dodicesimo secolo, 3 que obviamente não poderemos analisar aqui em toda a sua amplitude, mas que, enfim, ressaltou, sob o ponto do vista cultural, um dos momentos áureos da Idade Média. De um modo geral, digamos que em S. Víctor de Paris se praticou essencialmente a chamada mística especulativa; assim, os seus monges, e entre eles Hugo, não estavam particularmente vocacionados, ou sequer interessados, para o tratamento da problemática política. Entretanto, numa das suas obras, o De sacramentis fidei, 4 nosso Autor abordou, embora apenas em alguns fragmentos, temas candentes no tempo, de natureza política. Se, noutros pensadores, as teses políticas decorrem de um discurso filosófico, ético ou mesmo metafísico, em Hugo surgiram integradas numa concepção englobante da Igreja; quer dizer, ele propôs teses eclesiológicas com conseqüências políticas. Hugo definiu a Igreja como o Corpo Místico de Cristo, tese de origem paulina (1Cor 12, 12-28) que não constituía novidade para a época. A marca essencial de tal corpo é a unidade da fé e da obediência ao Espírito Santo. Este primado da unidade contribuirá decisivamente para a tese da unidade na chefia da Sociedade Cristã e para a conseqüente afirmação hierocrática do Papa como detentor da plenitudo potestatis, não só no plano eclesial, mas também no âmbito sócio-político. Para Hugo, neste momento,

o que está sendo objeto de análise é a Igreja, concebida de um modo orgânico, em que cada membro, clérigo ou leigo, desempenha uma função específica, à semelhança do organismo humano, em benefício do todo, não em proveito de si mesmo.

2 Cfr. Documento 14

3 Bolonha, II Mulino, 1972. A edição original foi publicada em Nova Iorque em 1927.

4 Cfr. Documento 15

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Esta universalidade de membros da Igreja organiza-se fundamentalmente em duas ordens: a dos leigos, que constituem o lado esquerdo do corpo e provêm às necessidades materiais e temporais do todo, e a dos clérigos, à direita e com a responsabilidade de distribuir pelos vários membros o que lhes é espiritualmente necessário. E é precisamente dessa divisão que decorrem os dois poderes que regem o povo, o espiritual e o temporal, cada um dotado de uma estrutura hierárquica, mas submetendo-se ambos, como convém a um corpo único, a uma só cabeça, que é o Papa. De fato, a vida espiritual é mais digna do que a secular, e o espírito, dada a sua natureza, é superior ao corpo. Daí decorre e assim entramos decididamente no terreno da hierocracia a faculdade que o Papa tem de instituir e julgar os dignitários seculares, bem como o seu privilégio de não ser julgado por ninguém senão por Cristo. Este argumento estará presente nos textos de posteriores autores hierocratas, como o estará também aquele, referido por Hugo, segundo o qual o poder espiritual precede o temporal no tempo e em dignidade. A conclusão é óbvia: ―na Igreja, a dignidade sacerdotal deve instituir, consagrar e santificar, por meio da sua bênção, o poder secular‖.

2.3

O DIREITO CANÔNICO

Merece especial consideração, no período histórico em exame, o Direito Canônico, porque as proposições por nós já analisadas, e outras ainda, vieram a ser incluídas na legislação oficial da Igreja e nos trabalhos de jurisprudência à mesma

atinentes. Desde o século IV, a Igreja dispunha de coleções de cânones reunidas a partir dos decretos conciliares, dos sínodos convocados pelos Papas e de normas isoladas por eles estatuídas. Tais cânones referiam-se à doutrina, à liturgia, à moral e à disciplina clerical e dos fiéis como um todo.

A coleção de cânones mais antiga, ampla e sistematizada de que há notícia foi

preparada por Burcardo, clérigo de Mogúncia e posteriormente bispo de Worms. No início do Século XI, reuniu em vinte livros, contendo 1785 capítulos, inúmeros documentos autênticos e outros tantos forjados por ele mesmo, com o propósito de viabilizar a reforma eclesiástica. Essa coleção recebeu depois o nome de Decretum Burchardi. Burcardo era adepto da corrente reformista filoimperial, conquanto defendesse ao mesmo tempo a preeminência sacerdotal nos âmbitos doutrinal e espiritual, e a possibilidade de os leigos possuírem benefícios eclesiásticos. Apesar disso, ele foi ―um

reformador sincero, que procurou tomar como ponto de partida a realidade existente na sociedade‖. 5

A geração de canonistas posterior a Burcardo foi bastante influenciada pelos

reformadores gregorianos, especialmente por Gregório VII. Eles procuraram nos

arquivos italianos documentos e fórmulas estatuídos pela Igreja Romana que justificavam o programa reformador, conseguindo encontrar farto material.

5 KNOWLES-OBOLENSKY. Nova história da igreja. Petrópolis: Vozes, 1976, v.2 p. 154

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A coletânea de cânones organizada pelo cardeal Deusdedit (1087), disposta em

quatro livros, reunia 1175 documentos relativos em particular ao primado romano e às propriedades da Santa Sé.

Ivo, bispo de Chartres entre 1091 e 1116, por volta do 1093-1094, organizou a sua coletânea de cânones a partir daqueles estatuídos na época de Carlos Magno e de seus sucessores, bem como dos já recolhidos por Burcardo.

Nessa obra, Ivo serviu-se do método dialético, que na época gozava do grande prestígio. Graças ao mesmo, inferiam-se de princípios logicamente estabelecidos as proposições derivadas dos mesmos, descobrindo assim as contradições eventualmente existentes nos textos canônicos. Desde de então, o Direito Canônico e a Dialética foram consideradas disciplinas didática e intelectualmente organizadas, apresentando técnicas e métodos de ensino específicos. João Graciano, monge camalduense, é considerado o pai do Direito Canônico. Professor de teologia no studium da sua Ordem em Bolonha, aí redigiu, por volta de 1140, a Concordia discordantium canonum, conhecida mais tarde como Decreto de Graciano. 6 Além do reunir textos, Graciano inspirando-se nos tratados filosóficos e teológicos surgidos no momento, alicerçados no método dialético, citou, transcreveu e analisou cânones e decretais pontifícias, mostrando a coerência existente entre os mesmos, apesar das suas aparentes discordâncias e contradições. A importância do uso do método dialético no século XII é sobejamente conhecida. Das artes do Trivium foi então considerada a fundamental, depois do primado da Gramática no Renascimento Carolíngio.

O Decreto, reunindo principalmente os textos relacionados com o programa

reformista no respeitante à disciplina clerical, está organizado em três partes. A primeira divide-se em 101 distinctiones. Começa por um discurso sobre a noção e a divisão do direito. Seguidamente, trata das fontes do direito canônico: os cânones conciliares e

sinodais, as decretais, além dos comentários a tais documentos escritos pelos Padres da Igreja. O Decreto discorre depois sobre o status clerical nos seus vários graus, prerrogativas e obrigações dos seus membros e especialmente a respeito das qualidades requeridas para alguém poder ser eleito bispo.

A segunda parte do Decreto compreende 36 casus, subdivididos em questões.

Aborda os negócios eclesiásticos, o poder episcopal e a sua jurisdição, os direitos, deveres e obrigações do clero regular e trata ainda acerca dos bens da Igreja. A terceira parte está estruturada em 5 distinctiones, abordando tudo no concernente ao culto, aos sacramentos e aos sacramentais.

6 MIETHKE, J. La teoria della monarchia papale nell‘ Alto e Basso Medievo. Mutamenti di funzione. In: DOLCINI, Carlo (org.). Il pensiero politico Del Basso Medievo. Bologna: Pàtron, 1983 p. 128: ―Il Decretum si impose nelle scuole superiori di diritto d‘Europa, e soprattutto nel luogo del suo sorgere, Bologna come libro di texto paradigmatico, anzi conquistò addirittura il monopolio. Come i ‗legisti‘ si occupavano del Corpus iuris giustianeo, come i teologi commentavano la Bibbia così anche i ‗decretisti‘, come essi stessi si facevano chiamare, interpretavano il Decretum com il método della glosa in apparati, summae e quaestiones‖.

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Seria, porém, difícil encontrar no Decreto o fio condutor de um pensamento político, em razão de o mes mo estar disperso nas análises e comentários ao longo da obra.

No entanto, um dos documentos mais importantes para o pensamento hierocrático recolhido por Graciano é a célebre Donatio Constantini 7 forjada na chancelaria papal entre os séculos VIII e IX, com vista a legitimar especialmente a jurisdição temporal do Papado sobre os territórios que constituíam o Patrimonium Petri. Segundo esse documento, 8 o Imperador Constantino (305-337), após ter sido curado de lepra pelo Papa S. Silvestre I (314-337), por gratidão, entregou-lhe o governo do Império do Ocidente e da cidade de Roma, retirando-se para Constantinopla. Enfim, a partir do texto do Decreto, aos poucos, foram surgindo duas correntes de pensamento canonista: uma defensora da autonomia e independência entre os poderes espiritual e temporal, no tocante, às respectivas esferas de atuação de cada um deles; a outra, defensora da preeminência moral, político-jurisdicional e legal do poder espiritual sobre o temporal. Esta última irá contribuir efetivamente para a evolução do pensamento hierocrático. 9

2.4

SÃO BERNARDO E A ALEGORIA DOS DOIS GLÁDIOS

Entretanto, quando se deseja ter um conhecimento amplo e exato do pensamento político medieval, no que respeita ao tema que estamos a examinar, de modo algum podemos ignorar a contribuição progressiva das idéias dos canonistas, de

modo particular no que concerne aos vários significados e interpretações atribuídos à alegoria dos dois gládios, cuja origem os estudiosos normalmente imputam a São

assunto esse que ele tratou no seu livro titulado De

Bernardo de Claraval (109l-1153),

consideratione ad Eugenium Papam.‖ 11 Antes, porém, de vermos como o Doutor Melífluo abordou esse tema, examinemos o teor geral daquela mencionada obra. Ela foi redigida em várias etapas e,

na verdade, teve como objetivo precípuo, não a defesa de uma preeminência política do

10

7 Cfr. BERTELLONI, Francisco. El Pensamiento politico papal en la Donatio Constantini. In:

SOUZA, José Antônio de (org.). Pensamento político na Alta Idade Média. Santos, São Paulo:

Leopoldianum-Loyola, 1998, p. 33-59. Texto em português, p. 54-59

8 Cfr. Documento 16.

non se seguirà nei dettagli la

disputa tra le due correnti principali, quella che la critica definisce dei ‗dualisti‘ (che accordavano al potere temporale um diritto indipendente, associato però al dovere di collaborazione, anche se uma preminenza indiscussa, quanto alla dignità, rimaneva attribuita al potere spirituale) e quella degli ‗ierocratici‘ (che sustenevano di vedere nell‘ Imperatore solo um incaricato del papa, dotado di uma autorità non solo secondaria, ma anche derivata.‖ 10 Cfr. MARTINS, Waldemar. S. Bernardo de Claraval e o De gratia et libero arbitrio. In:

9 MIETHKE, J. La teoria della monarchia

,

op. cit., p. 135: ―[

]

SOUZA, José Antônio de (org.). Filosofia medieval estudos e textos. Santos, São Paulo:

Leopoldianum-Loyola, 1986, p. 176-191.

11 Servimo-nos da edição dessa obra que se encontra na Patrologia latina, volume 182.

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Papa sobre a Cristandade; tal é, por exemplo, o conteúdo do capítulo VI do Livro I, em que Bernardo insiste com Eugênio III (1145-1153) seu antigo discípulo, para que reconheça a competência própria dos príncipes seculares no tocante ao julgamento dos litígios temporais. Ao contrário, seu Autor quis definir, ou melhor, relembrar qual é o verdadeiro papel do Sumo Pontífice no interior da Igreja, chamando o Papa à consideratio acerca desse assunto e de outros problemas com os quais estava envolvido, incompatíveis com o seu status e que o afastavam de sua missão principal. No tocante ao supremo governo da Igreja e à preeminência jurisdicional do Papa sobre os outros dignitários eclesiásticos, no Livro II da obra em apreço há um longo passo 12 que ilustra muito bem o pensamento de Bernardo acerca deste assunto. Todavia, não há qualquer dúvida de que textos, cuja finalidade era apenas ressaltar o específico poder papal relativo ao governo da Igreja, hajam sido entendidos, mediante um processo habitual na Baixa e Tardia Idade Média, como respeitantes ao exercício do supremo poder político do Sumo Pontífice sobre a Cristandade, dado que, aos poucos, como teremos ocasião de ver, esta passou a ser identificada com aquela. 13 E textos desse tipo nas mãos dos hierocratas se prestavam muito bem a formular uma interpretação de acordo com sua ótica e interesse político. Isto posto, é no Livro IV, cap. 111, 14 do De consideratione que o Abade de Claraval se referiu à alegoria dos dois gládios, passo esse que, como sabemos, se encontra no Evangelho de Lucas, o qual, mais tarde, alguns dos hierocratas irão utilizar para atribuir ao Papa o direito de uso de ambos, mas confiando a utilização do material aos governantes seculares e reservando para si o uso do espiritual e igualmente a competência para instituir e destituir os governantes seculares. 15 A par e em conseqüência disso, para um bom número de estudiosos, a citada alegoria significou, ao longo da Idade Média, a temática das relações entre o poder da Igreja e o do Imperador ou do Sacerdotium com o Imperiuin. Tal temática estaria na senda comecada com o Papa Gelásio I, ao estabelecer, de um lado, as esferas de atuação e competências específicas dos dois poderes, e, de outro, a preeminência do poder espiritual sobre o temporal, por causa de sua missão específica ser mais excelsa. Mas a alegoria das duas espadas originária e verdadeiramente de modo algum significou esse confronto entre a Igreja e o Império. De fato, os textos canônicos falam- nos de um gládio material ou gládio de sangue, cuja denotação corresponde à potestas regia temporalis, atribuída à Igreja, como também lhe compete o gládio espiritual. A espada (gladius ou mucro) é o símbolo da coerção própria do poder régio; no caso do gládio espiritual, significa a faculdade que a Igreja detém de impor penas de natureza espiritual (a excomunhão, em casos extremos); quanto ao gládio material, significa, também alegoricamente, a competência para impor penas de natureza material. Esta

12 Cfr. Documento 17

13 Sirvam de exemplo, a propósito, os textos de Inocêncio IV, Egídio Romano, Tiago de Viterbo, de Bonifácio VIII.

14 Cfr. Documento 18.

15 Tal foi, por exemplo, como veremos no próximo capítulo, a tese proposta pelo canonista inglês Alano.

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faculdade foi transmitida por Cristo à Igreja, embora o seu exercício deva necessariamente ser delegado por esta ao Imperador, porque de jure os sacerdotes não podem se envolver com causas de sangue. Desta concepção, ainda no século XII, como veremos, nos ambientes eclesiásticos, ira derivar uma outra idéla, segundo a qual o Imperador é filho, defensor e advogado da Igreja. Esta afirmacão, originariamente decerto que não exprimia de modo necessário nenhum suporte para as estruturas hierocráticas de pensamento. Mas está igualmente fora de dúvida que a referida tese, mais tarde, foi defendida enfaticamente apenas pelos defensores da hierocracia. Assim sucedeu, não só porque o processo histórico do pensamento político a tanto chegou, mas também devido ao fato de o conceito de Imperium, na sua amplitude teórica global, dever ser entendido a partir de sua natureza, ao menos parcialmente, espiritual, por exemplo, quanto às suas causas eficiente e final, como no século XIII irão propor Inocêncio III e Inocêncio IV, a qual conduz, por forca dos seus próprios elementos constitutivos, à teoria hierocrática. Se integrado no organismo teórico da teocracia régia na acepção de plena autonomia do poder temporal e do seu dirigismo relativamente ao poder espiritual os seus fundamentos de apoio acabam por reverter em favor da própria hierocracia. Desvinculado da inspiração teocrática régia ou eclesiástica , é simplesmente impensável para uma mente medieval. O Imperador recebeu do Papado o officium de ser o braço ―armado‖ da Igreja. Não se tratava, por assim dizer, de reinar sobre os outros reis. Significava, na verdade, exercer, por delegação papal, a coerção material sobre todos os leigos, missão essa canonicamente vedada aos sacerdotes. A tarefa do Imperador, mesmo que remetida ao terreno secular, tinha uma finalidade religiosa, espiritual e sobrenatural. Ora como omnes actiones christianorum sunt ordinatae ad consequendam vitam aeternam, postulado e fonte a partir da qual se desenvolveu toda a especulação política medieval, e se os súditos do Império também eram membros da Igreja, e igualmente ainda era um fato inquestionável que toda a ação de qualquer fiel, mesmo num plano temporal, tinha uma finalidade sobrenatural, já que estava - ou devia estar - ordenada para a vida eterna, conseqüentemente, o poder universal não era apenas, portanto, aquele que não só de jure mas também de facto submetia a si todos os homens. A potestas universalis era sobretudo um poder que subordinava a si cada homem na universalidade do seu ser e do seu agir. Entendido assim, tal poder só podia permanecer nas mãos da Igreja. O Imperador era considerado então como um ministro da Igreja numa determinada esfera de competência. Por isso, a autonomia do poder imperial/secular só será adquirida à custa da aniquilação da alegoria dos dois gládios. Mas a hierocracia teve à sua disposição a alegoria mediante uma transformação sutil do seu significado de origem, expressa na substituição das palavras gladius materialis por gladius temporalis (surgida, pela primeira vez, mais tarde, em 1209, num texto de Inocêncio III). A par da expressão gladius temporalis aparece a de gladius saecularis, embora a primitiva expressão, gladius materialis, se mantivesse nalguns textos juntamente com essas outras. Devemos, pois, estar atentos ao mo mento em que a corrente de pensa mento canonista que defendia, inicialmente de modo discreto, a supremacia pontifícia sobre a

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Cristandade nos planos espiritual e secular passou a modificar sutilmente o significado da alegoria dos dois gládios e a usar em proveito próprio a expressão espada material. Por sinal, Rosario Castilio Lara nos esclarece como isso aconteceu: ―El estrecho parentesco entre el poder coactivo y el poder político en general, del cual el primero viene a ser una subespecie, es la clave para explicar cómo se pasó de un sentido primario coactivo a otro político en la aplicación de la figura [do gládio material]. El poder coactivo material estatal no es sino una parte de la potestad que el soberano ha recibido de Dios, así como el poder coactivo espiritual no es sino parte de la plenitudo potestatis del Romano Pontífice. Era, pues, fácil pasar insensiblemente de la parte al todo, y tomar todo el poder en lugar de una faceta: la coactiva.‖ 16 Enfim, a alegoria, mesmo em sua pureza original, continha todos os elementos para a edificação da teoria política hierocrática.

2.5

HIEROCRACIA E TEOCRACIA NA SEGUNDA METADE DO SECULO XII:

Os Pontífices e o Imperador

A problemática relativa à hierocracia e à teocracia régia, na segunda metade do

Século XII, envolveu, por um lado, os papas Adriano IV (1154-1159) e Alexandre III (1159-1181) e, por outro, Frederico Barba Ruiva (1152-1190) e Henrique Plantageneta

(1154-1189), rei da Inglaterra, e os seus respectivos assessorcs e aliados. Em 1152, Frederico Staufen, duque da Suábia, foi eleito rei da Alemanha, sucedendo ao seu tio Conrado III (1138-1152). Desde então, quis ser chamado de Imperador, com a intenção evidente de atribuir à coroação pontifícia um simples valor de reconhecimento.

O Barba Ruiva tinha como objetivos políticos fortalecer o poder imperial, à

semelhança do que fora feito por Constantino I, Justiniano I (527-565), Carlos Magno, Otão I (936-972) e Henrique III (1039- 1056), bem como restabelecer a hegemonia territorial do Império sobre Roma e a Península Itálica. Isso, de um lado implicava superar a desagregação feudal, então dominante em seu país, e, de outro, controlar as comunas italianas e o Papado. Se, nos séculos X e XI, tais metas foram atingidas graças à investidura, esta estratégia tornara-se ao menos legalmente inviável desde a Concordata de Worms (1122), celebrada entre o Império e o Papado. Urgia encontrar um outro meio prático para a concretização de tais objetivos, embora existisse a oposição de

grande parte dos nobres, das comunas italianas e do Papado, que não desejavam perder as suas liberdades político-econômicas relativamente à tutela germânica.

16 CASTILLO LARA, R. Coación eclesiastica y Sacro Romano Imperio. Estúdio jurídico- histórico sobre la potestad coactiva material suprema de la Iglesia em los documentos conciliares y pontificios del período de formación del Derecho Canónico Clasico como um presupuesto de las relaciones entre sacerdotium y imperium. Torino, 1956, p 233-234

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Uma das primeiras medidas tomadas por Frederico I foi, não ignorando a estrutura feudal de seu país, proclamar uma trégua com vista a pacificar o reino. Os transgressores da mesma seriam duramente castigados, correndo o risco de até perder seus bens fundiários que seriam anexados ao domínio suevo, isto é, do Imperador. Um outro procedimento adotado pelo Barba Ruiva, na linha em que acabamos de mencionar, consistiu em ampliar o patrimônio familiar, base do território imperial, adotando a política de casamento de interesse para sua família. Baste mencionar apenas dois exemplos: ele próprio, pouco depois, casou com Beatriz, herdeira do condado da Borgonha; e, mais tarde, articulou o casamento de seu primogênito Henrique com Constança de Altavilla, herdeira dos reis normandos da Sicília. Em 18 de junho de 1155, Adriano IV coroou Frederico I como Imperador Romano-Germânico. Desde logo, o novo monarca, devido à ascendência política que rapidamente passou a exercer na Alemanha e à força militar de que dispunha, começou a preparar um exército para levar a bom termo os seus intentos com referência à península italiana.

O Imperador igualmente auxiliado pelos Glosadores de Bolonha e por seus assessores políticos, cuja personagem mais expressiva era o teólogo Rinaldo de Dassel, passou a incluir no Corpus Juris Civilis as leis que ia promulgando, com o propósito de demonstrar ser o legítimo herdeiro dos antigos Césares, aos quais atribuía o epíteto de ―divinos‖, bom como a procurar no citado texto subsídios teóricos e fórmulas que confirmassem a preeminência da autoridade imperial, como a suprema no plano temporal, inclusive sobre o poder sacerdotal. Aliás, é oportuno ressaltar, para o Barba Ruiva essa autoridade não era apenas um fato político, mas seguramente religioso e sagrado, a ponto de estar igualmente convencido de que, só fosse necessário, dada a sua amplitude, podia intervir no âmbito espiritual. A autoridade imperial, em contrapartida, impunha a Frederico I uma consciência plena do dever inerente à mesma, que o obrigava a trabalhar continuamente em proveito do bem da sociedade, o qual para ele se materializava na obtenção e manutenção da pax e da iustitia. Assim, desde 1157 a cúria do monarca passou a acrescentar o termo Sacro à expressão Império Romano em todos os documentos que expedia, pretendendo desse modo reforçar a idéia da origem divina do poder imperial e vincular as tradições romana e judaico-cristãs relativas ao mesmo. Como é evidente, e já fizemos notar, o império latino medieval reforçava-se na proporção em que se atribuísse a si mesmo uma natureza sagrada: assim se distinguia na sua especificidade do império pagão da Antigüidade; mas, assim também, se colocava numa posição de relativa fragilidade face à instância sagrada por excelência: a Igreja e, à cabeça desta, o Papado. Para Frederico I, o Império era único e universal; quer dizer, o seu titular possuía e exercia uma auctoritas 17 moral sobre os demais príncipes da Chistianitas, o que não atentava contra a autonomia dos mesmos nos seus próprios territórios, desde que eles não tolhessem a e efetivação dos objetivos da política imperial, os quais, conforme

17 FREISING, Oto de. Gesta Friderici I Imperatoris, 1, II, cap. 21, MGH Ss, XX, p. 405:

―Legitimus possessor sum. Eripiat quis, si potest, clavam de manu Herculis‖.

61

antes fizemos referência, se resumiam no exercer, de fato e de direito, uma autoridade plena e indivisa sobre a Alemanha e a Itália. Como estamos a ver, a contribuição dos juristas bolonheses para a eleboração do pensamento político do Barba Ruiva foi deveras significativa. Se a doutrina também proposta por eles, de que ambos os poderes eram autônomos nas suas respectivas esferas de ação (cfr. Glossa Acursiana, à Novella 6), dado que ambos provinham diretamente de Deus (Novella 73), havia, no entanto, certas questões práticas que necessitavam duma solução. Tais eram os casos relativos à competência legislativa e jurisdicional do Imperador; quer dizer, por exemplo, até que ponto o clero realmente não devia pagar impostos às autoridades seculares, costume esse ainda não legalizado àquela época (só o será durante o IV Concílio de Latrão em 1215), ou qual era a extensão jurisdicional do tribunal imperial em matéria civil e penal. A solução para tais problemas os glosadores a apresentaram discutindo uma tese, já referida por nós, proposta no Decreto: a Doação de Constantino. Para eles, Constantino, embora devesse toda honra e respeito à Igreja, não podia primeiramente impor um desejo seu aos sucessores (par in parem non obligat); em segundo lugar, aquela doação carecia de fundamento legal, porque ela estaria pondo em risco a estabilidade do Império; e, em terceiro, porque a lex digna (Institutas, 2, 17, 8) determinava que os Imperadores tinham a obrigação moral de governar de acordo com a legislação em vigor. Estabelecido o princípio doutrinal, mediante o qual os glosadores atacavam diretamente o fundamento que os decretistas alegavam em favor da legalidade e validade da Doação, então ficava fácil definir que as leis imperiais, no tocante às questões seculares, tais como as anteriormente mencionadas, eram soberanas, e o Imperador tinha ainda a obrigação moral de as respeitar e fazer com que fossem cumpridas. No entanto, da teoria à prática há sempre uma enorme distância a ser transposta. Neste caso, para tanto, havia a vontade política de Frederico I e certamente ele tinha consciência de que, para levar adiante seus projetos, iria entrar em atrito com muitos adversários. Nesse momento, o cardeal Rolando Bandinelli, após uma brilhante carreira como professor de Direito Canônico em Bolonha, desempenhava o cargo de chanceler da Igreja Ro mana, tendo realizado com êxito importantes missões diplomáticas em nome da Sé Apostólica. Em outubro de 1157, Frederico I veio a Besançon tomar parte numa Dieta, na qual os nobres do condado de Borgonha lhe deviam prestar homenagem pelo seu casamento com Beatriz, herdeira desse território. Para aí se dirigiram também os cardeais Rolando e Bernardo, portadores de uma carta do Papa para o Imperador. A missiva papal foi lida e traduzida por Rinaldo de Dassel aos membros do alto clero e da alta nobreza presentes na assembléia. Adriano IV censurava o Imperador por não haver tornado as medidas necessárias para a libertação do arcebispo Esquil, de Lund, que tinha sido assaltado e aprisionado por bandidos ao passar pela Borgonha. O Papa via aqueles crimes como pecados graves, considerando que haviam sido cometidos contra uma pessoa consagrada ao serviço de Deus e, por isso mesmo, a gravidade daqueles atos exigia uma reparação moral na mesma proporção por quem não apenas exercia a

62

autoridade sobre a região, mas também desempenhava uma função ética especial em favor da Igreja-Cristandade. Do fato, algum tempo antes, Adriano IV havia elevado Lund à Categoria de arcebispado, redistribuindo e criando novas dioceses sufragâneas, para algumas das quais nomeou bispos, sem consultar Frederico I, o qual ficou muito irritado com esses procedimentos nocivos ao jogo do poder numa área de influência do Império. O Santo Padre, a propósito do papel de minister Ecclesiae a ser exercido pelo Imperador, lhe recordava que não bastava só a eleição efetuada pelos príncipes eleitores do Reich para que o escolhido fosse considerado Imperador e passasse a ter o direito de governar o Império. Era indispensável que essa pessoa fosse sagrada e coroada pelo Sumo Pontífice ou seu representante. Sob a ótica eclesiástica, o poder secular só revestia, pois, de uma qualidade, diaconal ou subdiaconal, nunca sacerdotal, transmitida mediante a unção, cuja origem remontava aos reis de Israel e, depois, aos soberanos visigodos, merovíngios e carolíngios. Adriano IV dava a entender que, tendo a Igreja Romana restaurado o Império, possuía o direito de exigir do respectivo titular o cumprimento fiel dos seus deveres de advocatus et minister da Igreja; assim, a atitude de Frederico I revelara ingratidão e, pior ainda, negligência e irresponsabilidade. 18 Na carta, o Pontífice dizia também que, se apesar do incidente envolvendo o arcebispo Esquil fosse mantida uma convivência harmônica entre o Papado e o Império, ia conceder outros tantos beneficia, ainda maiores, além dos que já concedera a Frederico, em especial a coroa imperial. Ora, aquela palavra latina possuía dois significados completamente diferentes em alemão: um deles (Wohltat,), no sentido genérico, queria dizer vantagens, benefícios; o outro (Lehen), ao contrário, na terminologia jurídica da época, denotava feudos. Foi empregando este segundo significado que Rinaldo traduziu a palavra usada por Adriano IV, que dava à sua expressão genérica de benevolência o valor jurídico de promessa de um senhor para com seu vassalo, no tocante a aumentar o número de seus feudos. Este passo da missiva papal incomodou profundamente o Imperador e a nobreza germânica, que protestaram enfaticamente, declarando que o Império não provinha do Papado nem era um feudo da Sé Romana. Pouco depois, Frederico I, numa circular dirigida aos bispos da Alemanha, 19 para além de expor longamente os acontecimentos de Besançon e a traição dos legados pontifícios, que, apresentando-se como portadores de uma mensagem do Papa muito honrosa para com ele, acabaram por insultá-lo desrespeitosamente, proclamando que devia o benefício da coroa imperial ao Sumo Pontífice, de maneira solene afirmava ser o ungido de Deus, para governar o reino e o Império, de quem diretamente havia recebido o poder para tal, através da escolha dos príncipes eleitores, e não do Papa. Como foi usual entre defensores da teocracia régia, Frederico I apelava para o imperativo de S. Pedro ―temei a Deus, honrai o Rei‖ (1Pd 2, 17) e acusava o Santo Padre

18 Cfr. Documento 18.

19 Cfr. Documento 19.

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de assim desobedecer à vontade de Deus, pela qual o mundo seria governado pela espada material e pela espiritual, sem que houvesse intromissões do Pontífice na esfera secular. No ano seguinte (1158), o Imperador reuniu todo o episcopado alemão em Ratisbona e reiterou a sua visão sobre o problema em causa. Por sugestão dos prelados, escreveu uma carta ao Papa perguntando-lhe qual significado ele tinha atribuído à palavra beneficia contida na sua epístola. Adriano IV respondeu, aludindo somente aos favores que a Igreja concedera ao Império através dos tempos, sem tocar no assunto em debate.

Este clima de incerteza e desconfiança mútuas agravou-se quando o monarca, em julho daquele ano, partiu para Itália a fim de submeter o norte da Península ao seu controle político-fiscal. Em novembro, após longa e vitoriosa campanha militar, Frederico I alcançou os seus objetivos. O evento não era feliz para o Papado, cujos territórios ao forte estavam cercados pelas forças de um adversário em potencial. 20 Nessa ocasião, o Imperador reuniu uma Dieta em Roncaglia. De novo apoiado nos romanistas, proclamou os seus direitos supremos com tal amplitude que chegou a exigir ―la restitution des droits de la couronne impériale sur les villes italiennes en appliquant les règles du Droit Romain au droit féodal [ Ainda na mesma Dieta, mediante a Constitutio de regalibus, Frederico I declarou que o seu poder abrangia o próprio Patrimônio de S. Pedro, passando a exigir que os seus habitantes lhe pagassem impostos. Simultaneamente, ordenou que os bispos italianos, a partir desse momento, se considerassem seus vassalos. Em seguida, passou a exercer uma influência mais direta nas eleições episcopais na Alemanha e Itália Setentrional. Assim se anulou praticamente o estipulado na Concordata de Worms. Foi então que, graças a esta medida, Rinaldo de Dassel veio a ser eleito arcebispo de Colônia em 1159, acumulando a função de chanceler do Império. O cesaropapismo germânico ressurgia de novo. Os protestos de Adriano IV não surtiram quaisquer efeitos, o que levou o Papa a organizar a liga das cidades da Itália Setentrional, sob a liderança de Milão, para oferecer resistência ao Imperador. Adriano IV morreu em 1º de setembro de 1159. No dia 7, os cardeais reuniram- se na Basílica de S. Pedro e a maioria escolheu Rolando Bandinelli como novo Papa, o qual tornou o nome de Alexandre III. Outros deram o voto a Otaviano de Monticelli que imediatamente arrebatou o manto pontifício e, em seguida, se apresentou ao clero e ao povo ro mano como sendo o eleito, sob o nome de Vítor IV. Os eleitores de Alexandre III mantiveram a sua posição e se refugiaram em Ninfa, onde o mesmo foi coroado. Os partidários de Vítor IV igualmente o coroaram. Em outubro, vinte e dois cardeais escreveram uma carta a Frederico I, relatando-lhe o que se passara. Poucos dias depois, o antipapa e cinco cardeais seus partidários escreveram também ao Imperador e a todo o clero latino. Ele procurou fingir

21

20 Cfr. PACAUT, Marcel. Alexadre III. Paris: Vrin, 1956, p. 80-86

21 QUILLET, J. Lês clefs du pouvoir au Moyen Age. Paris: Flammarion, 1972, p. 48. Cfr. Também PARADISI, Bruno. Il pensiero político dei giuristi medievali. In: Storia delle idee politiche, economiche e sociali. Torino: Unione Tipográfica Torinese, 1983, v.2, p. 236

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neutralidade em face da questão, conquanto o cisma lhe conviesse bastante, por causa de seus objetivos políticos, apesar de tratar Vítor IV como Papa e Alexandre III como o ―chanceler Rolando‖ 22 mas a fim de dirimir a contenda, como se fosse o árbitro supremo da Cristandade e da Sé Apostólica, ele, por auto-iniciativa, certamente inspirado em Constantino e no Concílio de Nicéia, convocou um concílio a se realizar em Pavia. Nesse ínterim, Alexandre III excomungou o antipapa e os seus partidários eclesiásticos, por atentarem contra a unidade da Igreja e assim estarem a provocar um cisma na Cristandade.

O Concílio de Pavia foi aberto em 5 de fevereiro de 1160, com a presença de

um número razoável de dignitários eclesiásticos da França, da Inglaterra, da Itália e da

própria Alemanha. O Imperador justificou seu procedimento quanto a convocá-lo e a instaurá-lo, alegando que seus predecessores, diante de problemas semelhantes, haviam adotado medida análoga. Alexandre III, dizendo que tinha sido eleito canonicamente de acordo com a bula In nomine Domini de Nicolau II, recusou-se a comparecer e, em 24 de março, excomungou Frederico I e desligou os seus súditos do juramento de fidelidade que regularmente lhe deviam, visto ele ter ilegalmente convocado um concílio 23 e igualmente aderido ao cisma do antipapa.

O pensamento de Alexandre III a este propósito está expresso na bula Licet

omnes, 24 de agosto de 1164, endereçada ao arcebispo de Upsala, na qual, certamente inspirado em Hugo de São Víctor, sustenta em substância a tese do primado petrino e a concepção orgânica da Igreja, segundo a qual, à semelhança do que se passa com os órgãos do corpo humano, cada membro desempenha uma função específica, em conseqüência das quais o Papa detém a plenitudo potestatis in spiritualibus. Como vemos, uma vez mais, as querelas políticas medievais concernentes à relação entre os poderes casaram-se freqüentemente com questoes eclesiológicas. Nesta época, porém, o espírito e as conseqüências dos ideais da reforma gregoriana tinham-se alargado a todos os aspectos da vida quotidiana, dilatando o âmbito de influências e de atuação de um clero piedoso e dinâmico e da autoridade espiritual, de modo que ―d‘une part, elle n‘agit temporellement qu‘au nom de l‘idéal chrétien et elle ne

prétend jamais à une souveraineté directe et absolue sur le monde, particulièrement sur

22 LLORCA et al. Historia de la Iglesia Catolica. Madrid: BAC, 1963, v.2, p. 447.

23 PACAUT, M. La théocratie, l‘Eglise et le pouvoir au Moyen Age. Paris: Desclée, 1989, p. 97:

―En excomuniant Barberousse, coupable d‘avoir convoqué le concile san son avis et d‘avoir ainsi, en usurpant un droit appurtenant exclusivement a l‘Eglise, porté gravement atteinte à celle -ci – done d‘avoir commis contre elle une faute jugée finalement en function de critères religieux - ,il exerce sa souveraineté religieuse. Il souligne…qu‘en réunissant de lui-même l‘assemblée conciliaire le monarque a contredit la prérrogative dogmatiquement reconnue au pape et aux evêques sucesseurs dês Apôtres, tenant d‘eux (et plus spécielement le pape) le magistère supreme,

et qu‘il s‘est donc rendu coupable d‘un péche, aggravé encore par le schisme qui favorise le mal,au point que sa conduite doit être sanctionné par une punition religieuse (l‘excommunication). En revanche, il ne le depose pas, parce que la déposition serait une mesure politique arrête em

consideratión d‘une faute religieuse

24 Cfr. Documento 21.

65

et

parce qu‘il estime ne pas avoir le droit de le faire [

]‖.

l‘empereur et les princes, d‘autre part elle ne s‘exerce pas négativement, contre l‘erreur ou contre le peché, mais pour promouvoir l‘idéal chrétien [ ].‖ Esta observação de Marcel Pacaut nos ajuda a compreender o pensamento de Alexandre III, não só quanto à autoridade pontifícia, mas também no respeitante à firmeza da sua atitude para com Henrique II Plantageneta, rei da Inglaterra, quando este promulgou as Constituições de Clarendon e tentou que as mesmas fossem rigorosamente cumpridas em todo o reino a partir de 1164. Henrique sucedera a Estêvão de Blois (1135-1154), em cujo governo a Igreja se libertara da tutela régia e gozara de total liberdade e autonomia jurisdicionais em relação à nobreza, ao ponto de os clérigos, mesmo se cometessem crimes de natureza civil, estarem isentos do ser julgados pela Coroa. No entanto, o novo monarca quis que a situação retrocedesse nos seus domínios insular e continental, pretendendo anular os abusos e controlar o clero e a nobreza, tendo em vista centralizar o poder político e a administração pública. Para atingir tais objetivos, alegou os antigos costumes caídos em desuso e passou a intervir discretamente nas eleições episcopais, sugerindo candidatos da sua confiança, os quais esperava viessem a ajudá-lo no seu programa político, e igualmente exigiu que os bispos eleitos the prestassem homenagem antes da sagração. Henrique II também julgava que poderia manobrar a Igreja do reino com mais facilidade. Assim, indigitou Tomás Becket, seu antigo auxiliar, que trocara a carreira pública pela eclesiástica, para arcebispo de Cantuária. O novo arcebispo primaz, ao contrário do que o rei esperava, mostrou-se um ardente defensor dos direitos e privilégios da Igreja e contestou a pretensão do monarca no que se referia a ter o tribunal régio o direito de julgar os clérigos criminosos, defendendo com vigor o privilegium fori para os mesmos. Henrique II e seus assessores juristas reagiram elaborando e posteriormente sancionando as Constituiçães de Clarendon, nas quais explicitavam antigos direitos da Coroa relativamente, quer ao todo social, quer em particular ao clero. As Constituições 26 estão estruturadas em três partes, das quais a segunda é a mais importante. Ela contém 16 normas consuetudinárias coerentemente donominadas capítulos. Uma análise global das mesmas evidencia que Henrique II, procurando centralizar a administração da justiça, tinha consciência de que captaria e ampliaria o seu poder. Isto ocorreria também se o Rei aumentasse seus rendimentos, por meio dos quais ainda viria a saldar as novas despesas públicas, advindas com a reorganização da máquina governamental. Uma análise mais profunda, no entanto, mostra além desses aspectos que Henrique II pretendia se fazer respeitar como soberano em seus do mínios; tal é o que preceituam os artigos 2°, 10°, 11 e 12. Revela que, na proporção em que há uma determinação quanto a ampliar o poder judiciário do monarca, há igualmente a sua contrapartida inversa, isto é, a restringir a competência judicial dos dignitários eclesiásticos. É o que propõem os artigos 1°, 3°, 6°, 7°, 8°, 9° e 13.

25

25 PACAUT, Marcel. Alexadre III. Paris: Vrin, 1956, p. 258

26 Cfr. Documento 22.

66

Alexandre III condenou dez capítulos das Constituições. O Arcebispo Tomás Becket, após a decisão pontifícia, voltou atrás quanto à posição que tinha tornado a favor da política do Rei, o qual então passou a persegui-lo, bem como aos seus partidários, obrigando-os a se exilarem por seis anos na França. Tomás Becket, após regressar à Inglaterra, continuou a fazer oposição a Henrique II. Por isso, acabou sendo assassinado por asseclas do Monarca quando celebrava Missa na catedral de Cantuária (1170). Este fato levou o Papa a exigir de Henrique II a punição dos malfeitores, ameaçando-o com a excomunhão no caso de o não fazer, o que levou o Rei, não só a acatar a determinação papal, mas ainda a fazer uma peregrinação ao túmulo de Becket e a revogar as Constituições do Clarendon. Quanto a Frederico I, em 1169, fez eleger o seu filho Henrique, ainda adolescente, rei da Alemanha e dos Romanos. Embora a cisão com a Santa Sé ainda perdurasse, tentou obter do Alexandre III a aprovação daquele ato. O Santo Padre, então exilado em Benevento, negou-se a fazê-lo, a menos que o Imperador anulasse as nomeações e sagrações episcopais que Otaviano de Monticelli, seus sucessores e aliados haviam efetuado. Dado que o impasse entre o Papa e o Imperador se prolongava indefinidamente, este resolveu rumar para a Itália disposto a liquidar a resistência da Liga Lombarda e assim minar a sustentação do Alexandre III. Todavia, os exércitos adversários se enfrentaram durante seis anos, terminando finalmente o conflito em 1176 com a vitória da Liga na batalha de Legnano. Frederico I, derrotado, resolveu apelar para as negociações diplomáticas com a Santa Sé e seus adversários e buscar outros caminhos menos desgastantes para consolidar sua política na Itália. Assim, em 1177, em Veneza, as partes celebraram a paz e assinaram um tratado em que o Imperador reconhecia Alexandre III como Papa verdadeiro e ficavam estabelecidos os termos para solucionar

as questões relativas à restituição mútua de bens apropriados durante o cisma, assim

como aos dignitários eclesiásticos nomeados durante a vigência do mesmo. 27 Alexandre III, fundamentado nos mesmos princípios teóricos do outros Papas, seus antecessores, estabelecia assim a arquitetura sólida da hierocracia, apoiando-se também em normas do direito romano, e reclamava para o Papado uma plenitudo potestatis que extravasava o domínio das causas espirituais. Assim, reconheceu a autenticidade do título régio solicitado por Afonso Henriques de Portugal em 1179, e reivindicou a autoridade para condenar os monarcas que não obedecessem às normas dimanadas da sua condição do Sumo Pontífice. Foi igualmente com base nesses princípios que o Papa explicou aos lombardos 28 as razões do anterior diferendo que fora

obrigado a manter com o Império. Como podemos notar, para Alexandre III, os conflitos entre os poderes espiritual e temporal inserem-se sempre no próprio âmbito da estrutura eclesial. A identificação da Ecclesia com a Christianitas, e a submissão do Imperium à Igreja, visto

o Imperador ser considerado como um defensor e advogado da mesma, estavam

27 Cfr. Documento 23.

28 Cfr. Documento 24.

67

presentes no pensamento do Papa e constituíam as pedras do edifício hierocrático que aos poucos ia sendo erguido. Entretanto, seria incorreto ver nessa problemática um simples jogo de interesses materiais e particulares, mas sim a decorrência de princípios teóricos interpretados de modo diferente pelos príncipes eclesiásticos e seculares perante situações concretas. Frederico I e Henrique II, cada um a seu modo, em seus respectivos territórios, representaram por suas concepções e atitudes o elo de ligação entre as antigas manifestações da teocracia unida ao cesaropapismo e a evolução da mesma externada, mais tarde, nas teses de Frederico II, Filipe ―O Belo‖ e Ludovico da Baviera e seus assessores. Por outro lado, a doutrina de Alexandre III 29 pode e deve ser considerada como o elo de ligação entre as teses hierocráticas esbocadas pelos reformadores gregorianos e aquela explicitada juridicamcnte por Inocêncio III, Inocêncio IV, no século XIII, Bonifácio VIII e João XXII no século XIV. Como dissemos antes, a Igreja tinha um programa a cumprir, sendo os Pontífices, como Alexandre III, os seus intérpretes, de acordo com as circunstâncias históricas de determinado momento.

2.6

O IUS ANTIQUUM

A partir dos anos 50, alguns estudiosos do pensamento político medieval, entre os quais A. M. Stikler, J. A. Watt, B. Tierney e W. Ullmann, 30 também dirigiram sua atenção para os textos produzidos pelos canonistas medievais com o propósito de descobrir e, mais tarde, pôr em relevo suas influências e contribuições não apenas quanto às teorias concernentes às relações entre os poderes espiritual e temporal, mas também à formulação, desenvolvimento e ampliação jurídica da hierocracia. Foram esses especialistas que, sob o aspecto didático, após o labor de João Graciano, dividiram a história do Direito Canônico medieval em alguns períodos, dos quais nos interessam particularmente os dois primeiros: o designado por lus Antiquum

29 PACAUT, M. Op. cit., p.180: ―[…] [Alexandre III] exerce avant tout, sa jurisdiction au nom de la preéminence spirituelle de son autorité, pour la défense de l‘Église et dans toutes causes assimilées à l‘intérêt de celle-ci. En ce sens, il ne fait qu‘étendre le système des grégoriens et il annonce directment l‘argumentation ratione peccati d‘Innocent III.

30 Cfr. STIKLER, A.M. ―Sacerdotium et regnum nei decretisti e primi decretalisti‖. Salesianum, 15 (1953), p. 572-612; ULLMANN, W. Medieval papalism. London: 1950; Idem, Medieval political thought. London: Penguin Books, 1972; Idem, The growth of papal government in the Middle Age. London 1955; TIERNEY, Brian. Foundations of the conciliar theory, the contribuition of the medieval canonists from gratian to the Great Schism. Cambridge:CUP, 1955; PARADISI, Bruno. Il pensiero politico dei giuristi medievali. In: Storia delle idee politiche, economiche e sociali. Torino: Unione Tipográfica Torinese, 1983, v. 2, p. 211-342. Da página 343 à 366, o autor apresenta uma ampla bibliografia especializada, relativa aos 18 subtítulos tratados em seu estudo.

68

(1150-1200) e o outro denominado Ius Novum (1200-1234). Sobre este último, iremos dizer algo no próximo capítulo. Aliás, foi entre 1150-1220 que vieram a lume as primeiras glosas ou comentários 31 ao Decreto de Graciano, cujos autores, por esse motivo, são chamados decretistas. Em geral, todos eles convergiram especialmente sua antenção para a Distinção 96, em que se trata acerca das diferenças que há entre os dois poderes, e a Distinção 4, que impõe a obrigação de só obedecer às autoridades seculares. Entre esses glosadores, o primeiro a se destacar foi Rufino, colega de Rolando Bandinelli e, como ele, professor na Escola de Direito em Bolonha. Entre 1157 e 1159, Rufino escreveu uma obra intitulada Suma. Uma das teses lapidares aí encontrada é a de que a Cristandade é governada por dois tipos de jurisdições: a do Papa (espiritual) e a do Imperador e dos reis (secular). Estes comandam a esfera temporal e recebem o seu poder diretamente de Deus. Quanto ao Pontífice, ele possui a Auctoritas, quer dizer, a soberania espiritual, dirige o âmbito religioso e ainda confirma o nome do Imperador eleito. Um outro decretista famoso foi Estêvão, bispo de Torunai, o qual escreveu seu comentário ao Decreto, entre 1169-1171. Sua principal contribuição ao assunto em exame consistiu em propor que os dois poderes e as respectivas competências se reduzem apenas a um só, pelo fato de a Christianitas se identificar com a Ecclesia; quer dizer, trata-se de uma sociedade espiritual governada por leis religiosas. Simão de Bisignano redigiu um comentário ao Decreto que ainda permanece sob a forma manuscrita, 32 após celebração da ―concordata‖ (1177) entre Alexandre III e Frederico I. Esse canonista, interpretando literalmente a passagem do Evangelho de Lucas relativa aos dois gládios, ressaltou quo os dois poderes e suas respectivas competências são distintos. Além disso, comentando o cânon 1° da Distinção XXII, que ressalta o poder de ligar e desligar conferido por Cristo a São Pedro, e nele, aos papas seus sucessores, diz que Graciano apenas deduziu que a Igreja possui a superioridade espiritual e, em conseqüência, uma autoridade superior às demais, mas disto não resulta que um poder seja dependente do outro. Entretanto, o mais famoso de todos os canonistas de então foi Hugucião, igualmente professor em Bolonha, cuja Suma, escrita em 1188, também ainda não foi impressa. 33 As principais teses defendidas por ele, no tocante aos assuntos que estamos a examinar, foram as seguintes:

a) A opinião segundo a qual o Papa recebeu poderes tanto sobre o Império celeste quanto sobre o terrestre significa apenas que ele possui e exerce a plenitudo potestatis in spiritualibus.

31 Cfr. Fragamentos de textos de vários canonistas sobre o tema deste livro estão reunidos no Documento 25.

32 PACAUT, M. La théocratie, l‘Église et le pouvoir au Moyen Age. Paris: Desclée, 1989, p. 103.

33 Op. cit., p. 105.

69

b) Disto não se pode inferir que o Pontífice seja competente para criar o

Imperador, do mesmo modo que este último não tem o direito de se imiscuir nas eleições papais.

c) Quem elege o Imperador são os príncipes eleitores que criam o poder

imperial, manifestando assim a vontade de Deus. Os fatos de o Papa confirmar o eleito e depois o ungir não mudam a essência da eleição efetuada pelos eleitores nem

acrescentam nada ao poder imperial.

d) O poderes imperial e papal são autônomos e reciprocamente independentes

nas suas esferas próprias de ação; entretanto, caso o Imperador peque gravemente contra a fé e a moral cristãs ou viole os cânones eclesiásticos, ele poderá vir a ser excomungado

pelo Pontífice. Na hipótese de ele se manter pertinazmente no erro, causando graves prejuízos à cristandade e à religião, por causa de seu mau exemplo, o Papa poderá tomar parte em sua deposição, cuja competência para tanto é da alçada dos príncipes eleitores, pois são eles que lhe conferem o poder

c) A Sé Apostólica possui uma Auctoritas nuda, quer dizer, um direito de

preeminência na Christianitas sobre quaisquer outros potentados, que permite ao seu titular julgá-los em circunstâncias extraordinárias, por exemplo, quando não aceitam

serem julgados pelas autoridades estabelecidas ou quando estas são impedidas de o fazer.

2.7

AS CONTRIBUIÇÕES DE GERO DE REICHERSBERG E DE JOAO DE SALISBÚRIA

Gero (1093-1169) foi um dos mais destacados reformadores e intelectuais alemães do século XII, bem como ardoroso defensor da libertas Ecclesiae. Natural de Polling, na Baviera, em 1119 foi indicado para assumir a Escola Episcopal de Augsburgo. Desde 1132 até sua morte passou a dirigir um grupo de cônegos regulares em Reichersberg. No tocante às relações entre os poderes temporal e espiritual, além dos supra mencionados pressupostos, Gero sempre defendeu a origem divina do poder secular, bem como ser moral e legalmente proibido aos eclesiásticos exercerem funções laicas, para as quais nunca foram chamados por Cristo. Nos diversos tratados que escreveu, tais como, De aedificio Dei (c. 1126-1132), De ordine donorum (c. 1142-1143), De novitatibus huius temporis (c. 1153-1156), De investigatione antichristi (c. 1161-1162), De quarta vigilia noctis (c. 1167), tratou amplamente daquelas e de outras tantas idéias. No primeiro dentre os mencionados livros, por exemplo, concebeu a Igreja como um edifício planejado por Deus, mas construído através dos tempos pelos seus membros. Infelizmente, muitos deles, especialmente os bispos, misturaram indevidamente os bens espirituais com os materiais. Estes, doados pelos fiéis à Igreja, não pertencem aos prelados, muito menos aos potentados seculares; destinam-se ao sustento e ao amparo dos necessitados.

70

Os bispos, conquanto sejam hierarquicamente superiores aos monges, devem viver como eles, quer dizer, ser obedientes à vontade de Deus, isto é, cumpridores fiéis do seu ofício, castos e completamente desapegados dos bens materiais. Por isso, Gero combateu enfaticamente a atitude daqueles eclesiásticos que, em troca das regalia reais ou imperiais, prestavam juramento de fidelidade e homenagem ao Imperador e a membros da alta nobreza, tornando-se seus vassalos de direito e de fato. Os clérigos e especialmente os prelados que agiam daquela forma não passavam de simoníacos e estavam contribuindo para que a Igreja continuasse a ser tutelada pelo poder temporal. Na segunda obra, censurou duramente muitos bispos alemães pelo fato de, fiéis à política imperial de fortalecimento do Reich, comandarem tropas e lutarem ao lado do Imperador e igualmente porem os bens e a infra-estrutura da diocese a serviço do poder temporal, porque tais atitudes eram uma violação explícita da lei evangélica e canônica, onde está escrito que ―sacerdotibus Christi in gladio percutere licitum non est‖. Ademais, exercendo direta ou indiretamente a jurisdição civil e penal, esses prelados se transformavam em corresponsáveis pela efusão de sangue dos condenados e, por isso, tornavam-se indignos do ministério sacerdotal. Noutras palavras, não é da alçada dos sacerdotes exercer qualquer poder mundano, apenas, abençoar, e a quem competir de direito, coroar os soberanos, os quais, recebem de Deus o seu poder, mediante a eleição ou a sucessão hereditária. Por isso, os eclesiásticos mantêm uma superioridade em relação aos senhores temporais, devido à dignidade da função que exercem na sociedade e na Igreja, mas tal preeminência espiritual não significa que possuem direitos sobre os potentados seculares. A suprema autoridade espiritual na Igreja e na sociedade compete ao Papa. Ela lhe faculta, quando for necessário, excomungar e depor tanto os maus prelados quanto os príncipes incapazes e injustos, porque estão a prejudicar os fiéis ou os seus súditos. Mas essa intervenção papal na esfera secular deve acontecer excepcionalmente e visa a restabelecer a ordem moral, a assegurar a salvação eterna dos cristãos e a manter a justiça e a paz. No último dos tratados que escreveu, intitulado De quarta vigilia noctis (1167), contemporâneo da querela entre Alexandre III e Frederico I, e de suas conseqüências, como o cisma que dividia a Igreja e a Cristandade, Gero, ao mesmo tempo em que censurou qualquer espécie de interferência laica nos assuntos e questões espirituais, como a pretensão dos governantes relativa a indicar e ou a depor bispos, também criticou asperamente as tendências de certos membros do clero quanto a reivindicar o direito de exercer ofícios temporais, bem como a considerar o Imperador como vassalo do Papa. Quaisquer dessas idéias não tinham absolutamente fundamento algum no Novo Testamento, de modo que seus propositores e defensores estavam a incorrer no castigo divino.

João de Salisbúria (c. 1110/1120-1180), certamente um dos mais destacados intelectuais de seu tempo e grande conhecedor dos autores clássicos da antigüidade, estudou em Paris (com Abelardo) e depois em Chartres, para onde foi designado bispo em 1176.

71

Legou-nos, entre outras obras, um tratado político intitulado Polycraticus, provavelmente redigido entre 1155/1159, durante o pontificado de Adriano IV, cujo tema central versa acerca da conduta do bom e do mau governante, a quem o pensador inglês designa por tirano. Para entender e avaliar a importância das doutrinas de João de Salisbúria, é preciso ressaltar que de possuía uma visão extremamente crítica da realidade e que, na senda dos antigos, em especial de Cícero, adotou a atitude teórico-metodológica designada por ―critério do conhecimento provável‖, com os propósitos de evitar, de um lado, as controvérsias estéreis sem fim e, de outro, o perigo de uma adesão cega às doutrinas tradicionais, conquanto nunca tivesse posto em dúvida as verdades apresentadas pela Revelação. Algumas idéias inovadoras na teoria política do medievo, por sinal, brotaram da pena de João de Salisbúria. Vamos examiná-las. De acordo com o que Túlio Cicero outrora havia ensinado, ele propôs como alicerce para a origem da vida em sociedade o acordo mútuo e recíproco entre os integrantes da mesma, sedimentado na eqüidade e na lei naturals, cujo autor é Deus, igualmente fonte de todo poder. Usando a reta razão os seres humanos percebem com

clareza o que a lei e a eqüidade naturais estipulam, de modo que os membros da comunidade têm a obrigação de respeitar as leis. Ora, a vida em sociedade implica que as pessoas que dela faziam parte tenham igualmente escolhido alguém para liderá-las, tornando-o seu chefe. Isso sempre aconteceu com todas as comunidades humanas naturais. João de Salisbúria compara o reino ao corpo humano, cujo vigor depende da saúde de todos os órgãos e membros, os quais são importantes para o conjunto. Assim, os trabalhadores rurais e urbanos se assemelham aos pés desse corpo, porque lhe dão sustentação; as mão se comparam ao exército, porque o protege; o coração, à cúria régia, porque auxilia o governante por meio de seus conselhos; a cabeça, ao príncipe, porque a primeira dirige toda a pessoa, enquanto ele governa todo o reino; a alma se compara à religião porque, de um lado, ela inspira todos os movimentos do corpo, e, de outro, a religião deve impulsionar todos os movimentos daquela comunidade política.

O clero tem por obrigação moral e legal precípua anunciar a Boa Nova e

distribuir os Sacramentos para os governantes e súditos. Deve, entretanto, fazer isso com

dedicação especial no tocante aos governantes, porque estes, em face dos cargos que desempenham, têm responsabilidade maior para com a sociedade, por isso, se não forem bem instruídos para tal, não apenas toda comunidade sofrerá as conseqüências nocivas desse fato, mas os eclesiásticos, no dia do Juízo, também serão duramente castigados por Deus.

Os bons governantes, pouco importa se leigos ou eclesiásticos portanto, não se

transformam em tiranos quando observam o que as leis determinam e sempre têm como objetivo proporcionar a todos o membros da comunidade os bens materiais e espirituais

de que necessitam. Os tiranos, ao contrário, só pensam em si mesmos e nas vantagens que podem tirar do cargo que ocupam. Ora, quem porta a espada temporal, esquecendo-se de que a recebeu de Deus, para punir os maus e recompensar os bons, desrespeitando as leis,

72

assim procedendo está a aniquilar a justica, daí não possuírem nem exercerem nenhum direito sobre o povo e, portanto, não são dignos de governar e têm de ser julgados com extremo rigor, a ponto de ser perfeitamente justo e lícito matá-los. Respaldado nesses princípios, João de Salisbúria igualmente tratou das relações entre os poderes com bastante originalidade e coerência. Ambos os poderes são reciprocamente independentes nas suas esferas próprias

de ação; por isso, um absolutamente não deve interferir na alçada do outro, bem como têm de respeitar os direitos e privilégios respectivos. Entretanto, o poder sacerdotal goza de uma autoridade e dignidade moralmente superiores em relação ao temporal, devido à sua missão específica ser mais relevante. Daí, as leis que os potentados seculares editam deverem estar em consonância não só com a lei divina mas também com os cânones. É por essa razão também que a Igreja fez dos príncipes seculares o seu braço armado, 34 dado que os clérigos estão proibidos de usar o gládio material. Apesar de ter defendido essa preeminência relativa do poder sacerdotal, João de Salisbúria em seu tratado igualmente denunciou com muita ênfase as pretensões e os abusos cometidos pelos clérigos, especialmente no tocante a desejarem o poder terreno e

as riquezas. João de Salisbúria ainda recomendou ao Papa Adriano IV que nomeasse para os cargos eclesiásticos aqueles cristãos que se notabilizassem pela piedade e humildade, com o fito de edificarem o povo pelo seu exemplo.

Coletânea de documentos relativa ao capítulo 2

DOCUMENTO 14

Anônimo de York, sobre os poderes temporal e espiritual.

A essa afirmação responderei, dizendo o seguinte: se os Sumos Pontífices,

que aliás foram bispos da Igreja Romana, e seus partidários defendem tal ponto de vista, isso decorre do poder que o Império Romano detinha e da importância de Roma, que

estava à frente do orbe universal. Todavia, no princípio da história da Igreja não sucedeu assi m. Cristo não a considerava como tal, nem os Apóstolos, muito menos os setenta e dois discípulos, bem como o protomártir Estevão e os seus companheiros, e ninguém, a menos que seja um

], de modo que

ignaro, nega que eles todos foram os primeiros Padres de todos os fiéis [

a citada medida foi tomada pelos homens, não por Cristo-Deus ou pelos Apóstolos.

―[

]

34 Cfr. Documento 26.

73

Portanto, a causa da nossa salvação não depende necessariamente daquela instituição

pois não se trata de um mandato legíti mo e essencial, e, se assim fosse, ou Jesus o teria estabelecido na sua Lei, ou o Senado Apostólico o haveria estatuído. Com efeito, essa medida constituiu-se numa usurpação imposta pela

pois

aconteceu que algumas pessoas pensavam que aqueles que as haviam batizado não o

fizeram em nome de Cristo, mas no seu próprio. Por isso, foi decidido para toda a terra que um dos presbíteros seria escolhido para chefiar os demais, competindo-lhe daí por diante velar por toda a Igreja, a fim de que as sementes do cisma fossem extirpadas. Por conseguinte, os cismas foram a razão pela qual o Pontífice Romano foi colocado à frente

dos outros presbíteros [

Os Santos Pontífices estão subordinados aos reis e aos príncipes, porque

receiam transgredir a ordem divina sobre tal matéria e dessa forma virem a ser castigados terrivelmente. Se agissem de outro modo, violando o mandato divino, e não

Os Pontífices

não ignoram que o poder dos reis sobre todos os homens lhes foi conferido do alto e que

Deus lhes concedeu exercer um domínio não apenas sobre os leigos e os soldados, mas

ainda sobre os seus sacerdotes. [

] eles detêm um

poder sacrossanto inclusive sobre os Pontífices do Senhor, bem como exercem o governo eclesiástico [ ].‖

A Igreja de Deus é a comunidade dos fiéis que conjuntamente vivem a

mesma fé, esperança e caridade [

poder de Deus para governá-la, confirmá-la na justiça e julgamento, e administrá-la

segundo o estatuído pela lei cristã, pois eles reinam na Igreja, que é o povo de Deus, e

Foi por essa razão que os Padres da

Igreja e os Pontífices Romanos, compreendendo tal fato, mediante as luzes da Providência divina, passaram a ungi-los, a fim de que eles protegessem a Igreja e a fé cristã, pois, se os gentios e os hereges não fossem reprimidos pelo poder régio, tê-las-

iam destruído e aniquilado [

sacerdotes e, por isso, estes necessitam do poder régio para se defender e proteger, de modo que no interior da Igreja reinem a paz e a segurança. Portanto, nestas circunstâncias, o rei e o sacerdote representam a imagem de Cristo. O bem-aventurado Agostinho, no 1° livro da sua obra intitulada Sobre o consenso entre os evangelistas, declara: ―Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro e único rei-sacerdote, revelou aos nossos antepassados estas duas pessoas, cada uma delas como

tendo nascido à sua imagem, uma destinada ao nosso governo, outra à nossa remissão.

No entanto, tais misteres não podem ser executados pelos

exercem essa missão juntamente com Cristo. [

de modo que os reis, ao serem ungidos, recebem o

proteção da Igreja e velarem por ela não é contrário à justiça, porque [

O fato de os monarcas estabelecerem leis para a

obedecessem aos príncipes, incorreriam também em graves prejuízos. [

necessidade, antes que surgissem facções impelidas pelo instinto diabólico [

[

],

],

].‖

[

]

]

]

[

]

],

]

]

Lemos também no Antigo Testamento que essas duas pessoas eram ungidas e consagradas com o óleo abençoado, prefigurando o ministério de Cristo à frente do seu

povo [

O sacerdote desempenha um ministério

santo, em nome de Deus e de Jesus Cristo [

proveniente da natureza inferior de Jesus, a humana; o rei, pelo contrário, desempenha

Alguns julgam que o rei e o

seu poder é maior e mais importante do que o sacerdote e a sua autoridade, no

74

uma função de origem naturalmente superior, a divina. [

];

é por tal razão que o rei e o sacerdote são igualmente ungidos com o óleo

]

]

respeitante à missão que desempenham junto do povo [

]

É por isso que afirmam que a

dignidade real institui a sacerdotal e esta deve ser-lhe submissa, e tal fato não contraria a

Na verdade, se o padre é

instituído por um monarca, isso não ocorre através do poder de um homem, mas por

meio do poder do Deus, visto o mesmo provir do Criador, d‘Ele pela natureza, do rei

pela graça divina [

Jesus Cristo e prestam-lhes homenagem, porque sabem perfeitamente que, mediante os

Não é um leigo que concede

a investidura, mas um monarca, o cristo do Senhor, co-reinando pela graça divina com Ele, ungido do Senhor por natureza, e como esses dois cristos reinam juntamente, ambos

além disso, o bispo

reis, é Ele que reina e exerce o seu domínio sobre todos [

Os Sumos Pontífices estão subordinados tanto aos reis quanto a

justiça divina, porque o mesmo acontece com Jesus Cristo [

]

]

]

concedem simultaneamente o que é necessário ao seu reino [

]

recebe juridicamente do rei as suas possessões; e não só isso, mas também a missão de

guardar a Igreja e o direito de governar o povo de Deus [ ].‖

DOCUMENTO 15

Hugo de S. Victor, De Sacramentis fidei, Livro II, capítulo IV. In: P. L., 176, 416-

418.

A Santa Igreja é o Corpo de Cristo, vivificada por um só Espírito, unida e

santificada por uma só fé. Os cristãos são os membros deste Corpo e todos, embora sejam muitos, constituem um único corpo em virtude de serem animados por uma só fé e um único Espírito. Do mesmo modo que, no corpo humano, cada membro tem uma função própria e específica, e cada qual não a desempenha exclusivamente em benefício próprio, assim também os dons da graça foram distribuídos no corpo da Santa Igreja, e cada pessoa, sem dúvida alguma, não retém particularmente para si mesma o que recebeu isoladamente.

Com efeito, os olhos são os únicos órgãos que vêem, mas decerto não vêem

somente para si, mas para todo o corpo. Igualmente os ouvidos são os únicos órgãos que

todos eles o fazem em

proveito do corpo [ Esta universalidade de pessoas compreende duas ordens, a dos leigos e a dos clérigos, como se fossem os dois lados do um mesmo corpo. Os leigos, à esquerda, constituem o lado esquerdo do Corpo de Cristo e são os que servem às necessidades da vida presente. Os clérigos, pelo contrário, incumbidos da vida espiritual, formam a parte direita do Corpo de Cristo. Este, portanto, que é a Igreja Universal, consta de ambas as partes. [ ] Há duas vidas: uma terrena, outra celeste. Uma do corpo, outra do espírito. Uma para que o corpo viva da alma, e a outra para que esta viva de Deus. Ambas procuram bens, por meio dos quais possam subsistir. A vida terrena alimenta-se com as boas coisas do mundo, e a vida espiritual com bons meios espirituais.

escutam [

[

]

],

os pés são os únicos membros que caminham [

];

75

O que é secular pertence à vida terrena e as coisas espirituais relacionam-se

com a vida espiritual. Para que em ambas as espécies de vida se respeite a justiça e se produzam coisas úteis, é necessário primeiramente que haja pessoas que, mediante o seu trabalho e entusiasmo, proporcionem os bens indispensáveis à sobrevivência de todos. Em segundo lugar, que haja pessoas que, mediante a autoridade do seu cargo, distribuam tais bens de modo eqüitativo, para que ninguém se aproveite e abuse do seu irmão, e assim respeitar-se-á a justiça. Os leigos ocupam-se e interessam-se pela obtenção dos bens indispensáveis à vida terrena. Eles exercem o poder secular ou terreno. Os clérigos, por sua vez, tem por incumbência distribuir os bens relativos à vida espiritual. Eles possuem o poder espiritual ou divino. Num e no outro poder há vários graus e hierarquia de dignidades, mas ambos estão sob a chefia de uma só cabeça, como se procedessem e se dirigissem para um mes mo princípio. O rei é a cabeça do poder terreno; o Sumo Pontífice, do poder espiritual. O poder régio, voltado para a vida secular, dirige o que é terreno. Ao contrário, sob o governo do Papa estão as coisas necessárias à vida espiritual. Na medida em que a vida espiritual é mais digna do que a terrena, e o espírito

superior ao corpo, assim também o poder espiritual precede em honra e dignidade o secular. Além disso, o primeiro tem o dever de ensinar e o direito de julgar o segundo, se este não for bom. Todavia, o poder espiritual, estabelecido exclusivamente por Deus, ainda que erre, só poderá vir a ser julgado por Ele mesmo, conforme está escrito, de modo que o poder espiritual pode julgar tudo, mas não deve ser julgado por ningué m.

É notoriamente evidente que o poder espiritual, considerado como uma

instituição divina, precede no tempo e em dignidade o outro, pelo fato de o Sacerdócio ter sido primeiramente instituído por Deus e só mais tarde, por ordem celestial, o poder secular foi estabelecido pelo Sacerdócio. Por esse motivo, agora, na Igreja, a dignidade sacerdotal deve instituir,

consagrar e santificar, por meio da sua bênção, o poder secular. Ora, como diz o Apóstolo, aquele que abençoa é maior do que o abençoado, inferindo-se claramente daí que o poder secular, pelo fato de ser abençoado pelo poder espiritual, é inquestionavelmente inferior ao mesmo.

DOCUMENTO 16

Doação de Constantino. In: Decreto, Parte I, dist. 96, c. 11.

Nós doamos, a partir de agora, ao nosso pai Silvestre, o nosso palácio

o colar, as vestes, o cetro, os ornamentos, enfim, as demais

insígnias do nosso poder imperial. [

mas, pelo contrário, a fim de que a sua glória e poder sobressaiam à dignidade do Império terreno, damos e legamos ao bem-aventurado Silvestre, não apenas o nosso

e

imperial de Latrão [

E, para que a Sé Pontifícia não seja inferiorizada,

] [

],

]

palácio, mas todas as províncias, cidades e territórios da Itália e do Ocidente [

julgamos oportuno transferir para o Oriente o nosso Império, na magnífica cidade de

76

],

Bizâncio, e lá edificar uma cidade que terá o nosso nome, e exercer sobre o mesmo a

nossa jurisdição e autoridade, pois não é justo, de modo algum, que o imperador terreno

a exerça onde o imperador celeste estabeleceu a suprema autoridade religiosa e a preeminência do Sacerdócio [

DOCUMENTO 17

Deconsideratione, II, P. L., 182: 751a, 751d, 752a-b

Devemos, a partir de hoje em diante, investigar as dúvidas que por acaso

possam existir acerca do que ora tratamos, se estas persistirem. Muito bem, indaguemos

diligentemente quem és tu, quero dizer, qual é o papel que neste mundo desempenhas na Igreja de Deus. Quem és tu? Tu és o grande Sacerdote, o Sumo Pontífice. Tu és o

primeiro dentre os bispos, o herdeiro dos Apóstolos. Tu te comparas a Abel no primado,

a Noé no governo da arca, a Abraão no patriarcado, a Melquisedeque no sacerdócio, a

Aarão na dignidade, a Moisés na autoridade, a Samuel por tua função de juiz, a Pedro no

poder, a Cristo na unção.

Tu és o único pastor, não apenas de todas as ovelhas, mas também de todos

os pastores. Perguntais como o posso comprovar? Mediante as palavras do Senhor:

―Pedro, se tu me amas, apascenta as minhas ovelhas‖. Por que, não indago a qual dos

bispos, mas, a qual dos Apóstolos, todas as ovelhas absoluta e indistintamente foram

confiadas?

Para quem não é evidente que Cristo não lhe atribuiu apenas um certo

número, mas que simplesmente lhe confiou todas as ovelhas? Onde Ele não fez nenhuma

É por isso que a cada um dos outros Apóstolos foi dada em

partilha uma nação particular, pois eles conheciam o sinal. E enfim, Tiago, que era uma

das colunas da Igreja, se contentou com Jerusalém, deixando a Pedro a universalidade.

Portanto, segundo os teus cânones, tu foste chamado à plenitude do poder;

os outros foram chamados apenas a compartiihar da solicitude. Enquanto o poder dos outros pastores se confina a determinados limites, o teu se estende igualmente sobre os deles. Não poderias, por um motivo razoável, exciuir do céu um bispo, depô-lo de suas

funções, e até entregá-lo a Satanás? Por conseguinte, que teu privilégio permaneça inabalável, tanto em relação às chaves que te foram dadas, quanto às ovelhas que te foram confiadas.

exclusão, nada se exclui [

] [

] [

[

]

]

] [

DOCUMENTO 18

De consideratione, IV, 3, P. L., 182: 776.

Por que deverias brandir de novo a espada que estás obrigado a meter na bainha? Mas se alguém nega que essa espada é tua, parece-me que não presta atenção às palavras de Deus: ―Mete a tua espada na bainha‖. Portanto, ela é também tua e deve ser

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desembainhada talvez por indicação tua, mas não pela tua mão. Se a espada não te pertencesse, então, quando os discípulos disseram ―Eis aqui duas espadas‖, o Senhor não teria respondido: ―Bastam‖, mas são demais. Ambas as espadas, a saber, a espiritual e a material, pertencem à Igreja. Mas a material deve decerto ser brandida em favor da

Igreja, e a espiritual pela própria Igreja. Aquela pela mão do sacerdote, esta pela mão do

soldado, mas por indicação do sacerdote e por ordem do rei. [

Brande por agora a

espada que [Deus] te deu para percutir [a espiritual], e percute com golpes que tragam a salvação, se não a todos, se não a muitos, pelo menos àqueles que puderes.

]

DOCUMENTO 19

Carta de Adriano IV a Frederico I, MGH, Const. et Acta, II 229-230.

Adriano, bispo, servo dos servos de Deus, ao seu amado filho Frederico, ilustre Imperador dos Romanos, saúde e bênção apostólica.

Tua serena Alteza sabe que não podemos estar tranqüilo, quando nos

lembramos do modo pelo qual o nosso venerável irmão Esquil, arcebispo de Lund, foi capturado nessa terra por alguns celerados e ímpios, quando regressava da Sé Apostólica, embora estivesse sob custódia. Além disso, os criminosos malfeitores somente por maldade empunharam violentamente as suas espadas desembainhadas contra ele e os seus companheiros, e trataram o Arcebispo de maneira torpe e vergonhosa, despojando-o de tudo o que tinha consigo.

Sabes igualmente que a notícia de tão grande crime já chegou às regiões mais distantes e remotas. Entretanto, permitiste que a monstruosidade de uma ação tão nefanda ocorresse, sem teres tomado as devidas medidas exigidas pelas circunstâncias. Segundo cremos, amas o bem e odeias o mal e, assim, devias ter manifestado grande empenho em punir tal crime, pois com a espada que te foi concedida pelo poder divino tinhas de castigar os maus e recompensar os bons. Devias ter punido o orgulho dos blasfemos e destruído corajosamente os presunçosos. Todavia, corre de boca em boca que não te importaste com o fato, escamoteando-o, e que declaraste que os celerados não tinham motivo algum para Sé arrependerem de haverem praticado aquele sacrilégio, pois supuseram que não seriam castigados por causa dele. Ignoramos totalmente a causa dessa negligência e dissimulação, pois nada na nossa consciência nos acusa de termos ofendido, por qualquer modo, a glória de tua Serenidade; pelo contrário, sempre amamos a tua pessoa na condição de nosso filho dileto e especial e príncipe cristianíssimo, de cujo poder não duvidamos e afirmamos ter sido consolidado por Deus na pedra da confissão apostólica. Estamos certos de que sempre te tratamos com o afeto da caridade e da benignidade que te é devida. Deves, portanto, gloriosíssimo filho, recordar quão graciosa e alegremente, no ano passado, a Sacrossanta Igreja Romana te recebeu e com quanto afeto ela te tratou, com que plenitude de dignidade e de honra te revestiu, e como, concedendo-te muito

78

[ ]

graciosamente a distincão da coroa imperial, se empenhou em te conservar no seu regaço fertilíssimo, no ápice da tua sublimidade, certa de não ter nada que viesse a causar o mais pequeno descontentamento à tua vontade real. Tampouco nos arrependemos de haver satisfeito em tudo os desejos do teu coração, mas alegrarmo-nos-íamos, não sem motivo, se a tua Excelência tivesse recebido das nossas mãos benefícios maiores ainda, se tal fosse possível, considerando, como sabemos, quão grande auxílio e vantagens a Igreja de Deus e nós mesmos podemos receber de ti.

Portanto, em face do exposto e de outras questões que agora nos

preocupam, julgamos que, nesta ocasião, seria oportuno enviar-te, da nossa parte, duas

pessoas das melhores e mais caras que nos rodeiam, os nossos diletos irmãos Bernardo, cardeal presbítero do título de S. Clemente, e Rolando, nosso chanceler e cardeal

presbítero do título de S. Marcos, homens que se destacam pela sua piedade, honestidade

e prudência. E pedimos [

e esperamos que os acolhas,

como se proviesse da nossa própria boca tudo o que eles te disserem em nosso nome à tua Majestade Imperial, no referente a este assunto e a outros mais relativos à honra de Deus, da Santa Igreja Romana, e também à glória e exaltação do Império. E não duvides

da verdade das suas palavras, como se fôssemos nós mesmos que as estivéssemos a proferir [

] [

]

que sejam bem tratados [

]

DOCUMENTO 20

Circular de Frederico I aos bispos do Império, MGH, Const. et acta, II 231-232.

Visto a autoridade divina, fonte de todo o poder, tanto no céu como na terra, nos ter confiado, como a seu ungido, o governo do reino e do Império, e decretado que a paz das igrejas seja mantida graças às nossas armas, somos forçados, não sem uma enorme dor de coração, a queixar-nos a vós, amados bispos, pois parece que os motivos da discórdia, as sementes da maldade e o veneno de uma enfermidade pestífera emanam da cabeça da Santa Igreja, na qual Cristo imprimiu o caráter da sua paz e amor. Se Deus não o impedir, tememos que, por causa disso, todo o corpo da Igreja venha a ser maculado, a unidade se rompa e acabe por haver uma cisão entre o Reino e o Sacerdócio. Não há muito, com efeito, enquanto estávamos reunidos em Dieta na cidade de Besançon e tratávamos com a devida solicitude da honra do Império e da segurança das igrejas, chegaram legados apostólicos dizendo trazer uma mensagem de tal natureza que, devido à mesma, a honra da nossa Majestade seria muito enaltecida. Recebemo-los no primeiro dia da sua chegada, com a honra que lhes competia e, no segundo dia, como é costume, concedemos-lhes juntamente com os nossos príncipes uma audiência, para ouvirmos a mensagem que traziam. No entanto, eles, como que inchados com o espírito do orgulho e da iniqüidade, entregaram-nos arrogantemente, cheios de uma alegria execrável, uma mensagem em forma de carta apostólica, a tentar lembrar-nos que devíamos ter sempre em mente a

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maneira como o Papa nos havia concedido a distinção da coroa imperial, e que nos sentiríamos lisonjeados se dele recebêssemos maiores benefícios ainda. Era este o conteúdo da mensagem de paternal doçura que devia manter a unidade entre a Igreja e o Império, que pretendia uni-los com o vínculo da paz, que tencionava suscitar no ânimo dos presentes a concórdia e a obediência recíprocas. Não somente a nossa Majestade Imperial revelou uma justa indignação contra aquela mensagem arrogante e vazia, mas também todos os príncipes aí presentes, os quais ficaram tão irritados que, sem sombra de dúvida, teriam condenado à pena de morte aqueles dois iníquos presbíteros, se a nossa presença os não detivesse. Além disso, foram encontradas com eles cartas de teor semelhante à mencionada, e fórmulas sigilosas para serem completadas, segundo o seu arbítrio, através das quais, de acordo com o seu procedimento habitual, pretendiam ir a todas as igrejas da Alemanha para esparramar o vírus engendrado pela sua iniqüidade, desnudando os altares, apoderando-se dos vasos da casa de Deus e despojando as cruzes. Nós, então, obrigamo-los a voltar à Urbe pelo mesmo caminho por onde haviam chegado, o que não teriam feito se lhes fosse dada oportunidade para irem mais longe no seu ato vilipendioso. Tendo em vista que, pela eleição dos príncipes, recebemos o reino e o Império somente de Deus, o qual, por meio da Paixão de Cristo, seu Filho, submeteu este Orbe ao governo das duas espadas necessárias, e considerando, paralelamente, que o Apóstolo Pedro ensina a todos a seguinte doutrina: ―Temei a Deus e honrai o Rei‖, aqueles que afirmam termos recebido a coroa imperial através do Senhor Papa, ao modo de benefício, contradizem a instituição divina, bem como o ensinamento do bem- aventurado Pedro, e por isso devem ser considerados mentirosos. Além disso, como nós temos afincadamente dedicado, até hoje, a livrar das mãos dos egípcios a liberdade e a honra da Igreja, oprimida durante muito tempo pelo jugo de uma servidão imerecida, e continuando a esforçar-nos para lhe preservar todas as prerrogativas da sua dignidade, pedimo-vos, como a pessoas capazes de sentir conosco a ignomínia que nos foi infligida, bem como ao Império, e confiando na sinceridade total da vossa lealdade, que não permitais que a honra do Império, que permaneceu glorioso e sem sofrer humilhação desde a fundação de Roma e o estabelecimento da religiao cristã até aos nossos dias, seja ultrajada por tão inaudita novidade e orgulho presunçoso, e que saibais indubitavelmente que estamos dispostos inclusive a correr o risco da vida, mais do que a tolerar agora o opróbrio de tanta confusão [

DOCUMENTO 21

Alexandre III, Bula “Licet omnes”, In: PACAUT, M. Alexandre ill. Paris: Vrin, 1956, p. 258.

[ ]

desligar, se bem que Ele, único Mestre verdadeiro e especial, os tenha incumbido de

pregar o Evangelho a todos os homens, no entanto, o Senhor estabeleceu entre os

embora todos os Apóstolos tenham recebido de Cristo o mesmo poder de ligar e de

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mesmos uma certa diferença hierárquica, pois o bem-aventurado Pedro, mediante um privilégio singular, recebeu a missão de apascentar os cordeiros do próprio Cristo, privilégio esse que lhe foi concedido quando Ele lhe disse: ―Pedro, tu me amas? Apascenta os meus cordeiros.‖ Pedro obteve, igualmente, de entre todos os Apóstolos, o título de Príncipe e recebeu de Jesus a missão especial de confirmar na fé os seus irmãos. Desse modo, foi dado a toda a posteridade compreender que, embora todos eles tenham sido instituídos para conduzir a Igreja, apenas um, no entanto, ocupa o lugar e o cargo da suprema dignidade, competindo-lhe a honra de governar e de julgar a todos. Assim se conservou na Igreja a diversificação dos ministérios, do mes mo modo pelo qual, no corpo humano, os diversos órgãos existem de acordo coma variedade de funções, pois, no interior da Igreja, pessoas diferentes foram estabelecidas nos diversos graus do sacramento da Ordem, conforme os vários ministérios a exercer. Acima de todas elas, porém, o Romano Pontífice, como Noé na arca, conforme se sabe, ocupa o primeiro lugar. Ele, gracas ao privilégio que lhe foi concedido para sempre na pessoa do Príncipe dos Apóstolos, julga e regula as questões respeitantes a todos os homens, e não cessa de confirmar os filhos da Igreja por todo o Orbe, mantendo a unidade na fé e cuidando de se mostrar sempre digno de ser o sucessor daquele que teve o mérito de ouvir do Senhor: ―E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos ‖

DOCUMENTO 22

Constituições de Clarendon. In: GALLEGO BLANCO. Relaciones entre Ia Iglesia y el Estado en Ia Edad Media. Madrid: Ed. Revista de Occidente, 1973, p. 238-240.

Capítulo 1: Na hipótese de surgirem controvérsias entre leigos ou entre estes e clérigos, ou ainda entre clérigos, relativamente à criação ou fusão de igrejas paroquiais, tais controvérsias serão tratadas e decididas no tribunal do rei. Capítulo 2: As igrejas dos feudos pertencentes ao rei não podem ser concedidas perpetuamente sem a sua anuência e autorização. Capítulo 3: Os clérigos acusados de terem cometido qualquer delito, quando forem convocados pela justiça do rei, deverão comparecer no seu tribunal para aí responderem às perguntas consideradas oportunas; igualmente deverão comparecer ao tribunal eclesiástico, se tal for conveniente, e aí serão inquiridos, desde que a justiça do rei envie alguém como observador ao tribunal da Santa Igreja, para verificar o motivo por que a causa deve aí ser tratada. Se, porém, o clérigo confessar o seu delito ou vier a ser declarado culpado, a Igreja não lhe concederá proteção. Capítulo 4: Os arcebispos, bispos e outras pessoas que vivem no reino não poderão dele sair sem a devida autorização do rei. Se este, porém, vier a permitir tais viagens, os supracitados prometerão não prejudicar o monarca e o reino, enquanto durar a permanência no exterior, bem como durante as viagens de ida e retorno.

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Capítulo 5: Os excomungados não podem fazer promessa e juramento perpétuos; apenas deverão oferecer garantias de comparecimento ao tribunal eclesiástico, para ali obterem a sua absolvição. Capítulo 6: No tribunal diocesano, para que o arquidiácono não perca o seu direito e o que lhe é devido, os leigos só poderão ser acusados de alguma falta na forma da lei e por pessoas e testemunhas dignas de confiança. Se houver culpados e ninguém quiser indicá-los, o visconde, solicitado pelo bispo, providenciará doze homens bons da vizinhança ou da vila, os quais, sob juramento feito na sua presença, prometerão agir conscientemente e em vista à obtenção da verdade. Capítulo 7: Nenhum vassalo direto do rei e nenhum dos seus prepostos será excomungado ou poderá ter as suas terras colocadas sob interdito sem antes haverem solicitado justiça ao monarca, se estiver no reino, ou ao seu [Ministro da] Justiça, se estiver ausente, a fim de que tudo se desenvolva corretamente. Desse modo, tudo o que é da competência do tribunal régio ou do eclesiástico deve ser encaminhado, tratado e resolvido por quem de direito. Capítulo 8: Caso haja apelações, dirigir-se-ao do arquidiácono ao bispo, e deste ao arcebispo. Se este não fizer justiça, as apelações deverão ser encaminhadas ao rei, para que ele lhes ponha fim no tribunal arquidiocesano, evitando delongas posteriores sem o seu consentimento. Capítulo 9: Se ocorrer uma disputa entre um clérigo e um leigo, ou vice-versa, a respeito de uma doação que o primeiro deseja acrescentar à sua propriedade religiosa e o segundo ao seu feudo, serão escolhidos doze homens de bem para estudar o litígio e averiguar se a referida doação está ligada à propriedade religiosa ou ao feudo. Em seguida, será prolatada decisão pelo principal encarregado da justiça real na presença dos litigantes. Se for comprovado que a doação se vincula à propriedade religiosa, a questão será levada ao tribunal diocesano. Diversamente a causa será encaminhada para o tribunal do rei, se as partes estiverem sob a jurisdição de um mesmo bispo ou de um mesmo barão. Se os contendores, no entanto, apelarem nessa questão junto do mesmo bispo ou barão, o litígio será resolvido no tribunal eclesiástico, de modo a que, concretizada a identificação do proprietário, não venha ele a perder o seu direito, até que a disputa seja resolvida judicialmente. Capítulo 10: Quem residir numa cidade, distrito, castelo ou burgo pertencentes diretamente ao rei e vier a ser chamado ou pelo arquidiácono ou pelo bispo, por causa de crime cometido e pelo qual deva responder, se se recusar a atender à convocação, essa pessoa legalmente poderá ser colocada sob interdito, mas não deverá ser excomungada antes que o oficial mais importante do rei nos citados lugares o obrigue a atender à convocação. Se este, porém, não cumprir o seu ofício, a pessoa ficará sob a proteção do rei, mas o bispo poderá, então, coagir o acusado, valendo-se dos castigos e procedimentos eclesiásticos. Capítulo 11: Os arcebispos, bispos e todas as pessoas que receberam benefícios diretamente do rei, e que os conservam como se fossem uma baronia, deverão responder pelos mesmos perante os representantes da justiça real, observando e cumprindo, ainda, todas as obrigações e costumes devidos para com o monarca, tal como o fazem os demais barões, inclusive tomando parte no tribunal régio, com esses últimos, enquanto

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durarem as sessões de julgamento, sejam elas para absolver ou condenar à morte os culpados. Capítulo 12: Quando vagarem um arcebispado, bispado, abadia ou priorado nos domínios do rei, deverão permanecer sob o controle do monarca, que deverá ser informado sobre as entradas e saídas de rendimentos, recebendo as primícias como se lhe pertencessem. O rei, quando providenciar a nomeação de um responsável por uma igreja, deverá convocar os principais membros do clero para realizarem, a eleição na capela real, os quais deverão ouvir também a opinião dos súditos que tiverem sido convocados para essa finalidade. Em seguida, o eleito deverá prestar homenagem e jurar fidelidade ao rei, como se este fosse o seu senhor feudal. O juramento abrangerá a sua vida, os seus membros e a sua honra, com exceção dos votos religiosos da Ordem a que pertencia antes da consagração. Capítulo 13: Se algum dos altos dignitários do reino vier a impedir a u m arcebispo, bispo ou arquidiácono de recorrer à justica em nome próprio ou dos seus subordinados, o rei deverá levá-lo ao seu tribunal. Se alguma pessoa impedir o monarca de fazer justiça, os arcebispos, bispos e arquidiáconos devem obrigá-la a dar satisfação ao rei desse ato. Capítulo 14: Contra a decisão real, nenhuma igreja ou cemitério poderão conservar os bens móveis que estejam sob a sua responsabilidade, porque eles pertencem ao rei, mesmo que se encontrem no interior da igreja, ou fora delas. Capítulo 15: As questões relativas aos débitos não pagos, feitos sob promessa de pagamento ou não, são da competência jurisdicional do rei. Capítulo 16: Os filhos dos camponeses não deverão ser ordenados sem a concordância do senhor em cuja terra tenham nascido.

DOCUMENTO 23

Tratado de paz entre Frederico I e Alexandre III. MGH, Const. et acta, II, 362-

365.

O senhor Imperador Frederico, tendo reconhecido o senhor Papa Alexandre como pontífice católico, prestar-lhe-á a devida reverêcia, como fizeram os seus

antecessores cristãos aos predecessores do mencionado Papa, e fará o mesmo quanto aos seus sucessores entronizados canonicamente.

O senhor Imperador também restabelecerá a paz, não só com o Papa Alexandre,

mas igualmente com a Igreja Romana, e mantê-la-á, outrossim, com os sucessores do

Santo Padre. Por isso lhe restituirá de boa fé, salvo o que pertencer ao Império, as possessoes, bens, dignidades ou algo que lhe pertencia e de que se tenha apropriado pessoalmente ou por meio de outrem. Por sua vez, a Igreja Romana, de boa fé, devolverá a Frederico I, exceto os seus próprios direitos, todas as possessões e bens que lhe tornou pessoalmente ou por meio de outrem.

O Imperador ainda auxiliará a Igreja Romana a conservar tudo o que lhe vier a

restituir, devolvendo-lhe e ao Papa Alexandre todos os seus vassalos que, ou capturou,

ou recebeu como reféns durante a vigência do cisma.

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Além disso, o Imperador e o Papa ajudar-se-ão reciprocamente no tocante à conservacão da honra e dos direitos do Império, o Sumo Pontífice, na condição de pai bondoso em relação a seu devotado e muito amado filho, o cristianíssimo Imperador.

Este, por sua vez, agirá da mesma forma em relação ao seu amado e reverendíssimo pai, o vigário do bem-aventurado Pedro.

O Imperador e os seus partidários devolverão às igrejas tudo o que lhes tiver

sido tomado, em razão do cisma e durante o período da sua vigência, ainda que a apropriação haja ocorrido sem a devida autorização judicial. Beatriz, a imperatriz, e o seu filho Henrique, igualmente reconhecerão o Papa Alexandre e os seus sucessores, como Pontífice católico, e prestar-lhe-ão a reverência devida, fazendo-lhe o mesmo juramento que o Imperador vier a lhe prestar.

O Imperador e seu filho, o rei Henrique, firmarão uma verdadeira paz por

quinze anos com o ilustre rei da Sicília, de acordo com o que foi estabelecido e escrito pelos mediadores da mesma. Firmarão também uma paz verdadeira com o Imperador de

Constantinopla e com todos aqueles que ajudaram a Igreja Romana, e não lhes farão mal algum, pessoalmente ou por meio dos seus partidários, por causa da ajuda que lhe prestaram. Quanto às pendências e litígios surgidos entre o Império e a Igreja antes do pontificado de Adriano, constituir-se-ão mediadores em representação das partes, os quais serão investidos de todo o poder, com vista a resolvê-los por meio de acordo ou sentença arbitral. No entanto, se os mediadores não conseguirem entender-se, os

conflitos serão dirimidos pelo julgamento do Imperador e do Romano Pontífice, ou pelas pessoas que escolherem para tal propósito.

A Cristiano, chanceler do Império, será concedido o arcebispado de Mogúncia,

mas o de Colônia será confiado a Filipe. Ambos serão confirmados em toda a plenitude da dignidade e do múnus arquiepiscopal. A Conrado, se lhe convier, será concedido o primeiro arcebispado que vagar no reino da Ale manha, por meio da autoridade do Sumo Pontífice e com o auxílio do Imperador. Calisto receberá igualmente uma abadia. Os assim chamados cardeais do antipapa terão de regressar aos lugares que ocupavam antes da sua escolha para tal dignidade, a menos que espontaneamente renunciem aos cargos que exerciam ou tenham sido destituídos, mas permanecerão no mesmo grau hierárquico em que estavam antes da eclosão do cisma. Gero, considerado atualmente bispo de Alberstadt, será deposto incondicionalmente, e Ulrico, legítimo prelado daquela diocese, será reintegrado na função. As alienações feitas e os benefícios concedidos por Gero, bem como outros atos semelhantes feitos pelos demais intrusos, serão anulados pela autoridade papal e

imperial. Tais bens deverão ser devolvidos às igrejas que os possuíam. Far-se-à uma investigação sobre o modo como se realizou a eleição do bispo de Brandemburgo, indicado para o arcebispado de Bremen, e se a eleição e a indicação tiverem ocorrido simultaneamente, o prelado será transferido para esta última igreja. Tudo o que tiver sido alienado ou dado em benefício por Balduíno, que atualmente dirige o arcebispado de Bremen, será restituído a esta igreja, desde que seja canonicamente justo. Tudo o que foi tomado à igreja de Salzburgo, por ocasião do cisma, ser-lhe-á igualmente devolvido.

84

Todo o clero da Itália e o de outras regiões que não fazem parte do reino da Alemanha permanecerão à disposição do Papa Alexandre e dos seus sucessores para fins de julgamento, levando-se em conta, no entanto, que, se aprouver ao Imperador interceder por aquelas dez ou doze pessoas que foram ordenadas canonicamente, poderão elas vir a ser posteriormente reintegradas nas suas funções. Garsidônio de Mântua será reintegrado na posse daquele bispado, e quem atualmente o dirige será deslocado para o de Trento pela autoridade papal e com o auxílio do Imperador. O arcipreste de Saco será plenamente reintegrado na posse do seu arciprestado, usufruindo de todos os benefícios de que gozava antes do cisma. Todos os clérigos ordenados pelos bispos católicos ou por legados seus na reino da Alemanha serão também reintegrados nos respectivos graus do sacramento da Ordem e não serão castigados por causa do cisma. Quanto à situação daqueles considerados bispos de Estrasburgo e de Basiléia, que foram sagrados por Guido de Cremona, será conferida autoridade aos citados mediadores ou a oito ou dez senhores que indicarem, para estudar a questão. Em seguida, jurarão que o conselho que vierem a dar ao Papa e ao Imperador pode ser canonicamente dado, sem causar mal nem às suas próprias almas, nem à do Papa e à do Imperador. O Romano Pontífice posteriormente seguirá o predito conselho. À semelhança do que Alexandre e os cardeais fizeram, ao acolherem Frederico como Imperador Romano e Católico, assim deverão proceder com Beatriz, sua serena esposa, na condição de Imperatriz Católica dos Romanos [ Todavia, se o Santo Padre for o primeiro a falecer, oxalá Deus não o permita, o Imperador e o rei Henrique, seu filho, e os príncipes respeitarão firmemente este acordo e tratado de paz, mantendo-o com os seus sucessores, com a Igreja Romana, com todos os cardeais, com o ilustre rei da Sicília, com os lombardos e com os demais que lhe estiveram unidos. Igualmente, se o Imperador vier a falecer primeiramente, que Deus não o permita, o Sumo Pontífice, os cardeais e a Igreja Romana manterão firmemente a mencionada paz com o seu sucessor, com Beatriz sua esposa sereníssima, com o rei Henrique, seu filho, com todos os seus partidários e com todos os habitantes do reino germânico, de acordo com o estabelecido nos parágrafos anteriores. Os sucessores do Papa assim também procederão quanto aos termos deste acordo, assinado por Wiemann, arcebispo de Magdeburgo, Filipe, arcebispo de Colônia, Cristiano, arcebispo de Mogúncia, Arnoldo, arcebispo de Treves. Eu, Arduíno, protonotário imperial, o lavrei.

DOCUMENTO 24

Carta de Alexandre III aos lombardos. In: PACAUT, M., op. cit, p. 180.

O Imperador Romano tinha a obrigação de defender e proteger a Igreja,

como seu advogado. Todavia, combateu-a, porque escutou a voz da ambição e não a da

―[

]

85

razão. Dividiu a Igreja na sua unidade, opondo o altar ao altar, e não receou cortar a túnica inconsútil de Cristo-Deus. Daí, por estar rompida a unidade da Igreja e desfeito o vínculo de paz, a dignidade da Igreja Romana foi quase aniquilada e ela, que tinha sido a mestra dos povos e a monarca das províncias, foi submetida um pesado tributo. Foi igualmente aviltada na sua autoridade, por causa daquela perseguição terrível e violenta, e parecia não haver mais ninguém capaz de corrigir os erros e as faltas dos delinqüentes que se afastaram completamente dos seus deveres, rompendo com os estatutos dos Santos Padres e violando os cânones por eles estabelecidos. Assim, por causa daquele cisma e desavença, um grande número de mosteiros e igrejas foram destruídos, a honestidade parcialmente desapareceu e a religião foi conspurcada. Houve numerosos adultérios e fornicações, homicídios e roubos foram cometidos sem julgamento e castigo. Vilas e castelos ficaram à mercê do saque e da rapina [ ].‖

DOCUMENTO 25

Textos de alguns dos decretistas

Rufino

[Graciano] chama império celeste aquele dos cavaleiros celestes, quer

dizer, o corpo clerical com o que lhe pertence. Ele designa por reino ou império terrestre

os leigos e as coisas seculares. Isto demonstra, portanto, que o Sumo Pontífice, o vigário do bem-aventurado Pedro, possui um direito sobre o reino terrestre. Mas é preciso ressaltar que, de um lado há o direito de autoridade, e de outro, o de administração.

[ O Patriarca Supremo possui, portanto, um direito sobre o império terrestre

quanto à autoridade, de modo que é por esse motivo que ele, mediante sua autoridade, confirma o Imperador, ao consagrar o reino terrestre, e, igualmente, porque ele impõe

um castigo mais severo ao Imperador do que aos outros leigos, que abusam das coisas

deste mundo, a quem ele absolve depois de terem feito penitência. Quanto ao Príncipe,

(In: PACAUT, M. op. cit.,

depois dele, possui a autoridade para governar os leigos [ p. 102).

] [

]

].

Estêvão de Tournai

Há na mesma cidade, sob a autoridade do mesmo rei, dois povos, e de

acordo com os mesmos, dois gêneros de vida, segundo esses dois gêneros de vida, dois tipos de governo, e de acordo com eles funciona uma dupla ordem jurisdicional. A cidade é a Igreja, o rei da cidade é Cristo, os dois povos são as duas ordens existentes na Igreja, a dos clérigos e a dos leigos, os dois gêneros de vida são o espiritual e o material, os dois tipos de governo são o sacerdotal e o real, as duas jurisdições são o direito divino e o direito humano. Dai a cada um o que lhe compete e tudo ficará em

perfeita harmonia [

] [

].

(Ibidem, p. 103).

86

Simão de Bisignano

] [

Nenhum dos dois poderes é reciprocamente dependente, porque foi dito:

―eis aqui os dois gládios‖ [

mas antes de Deus, e ele é mais importante do que o Papa na esfera temporal [ (Ibidem, p. 103).

]

O Imperador não recebe do Papa o poder sobre o gládio,

Hugucião

Algumas pessoas afirmam que o Imperador recebe o gládio e a dignidade

imperial do Papa e que ele o estabelece e que por isso pode depô-lo. Eu, no entanto,

afirmo que o Imperador possui o poder do gládio e a dignidade imperial não do Papa,

mas dos príncipes e do povo, mediante a eleição. Com efeito, o Imperador existiu antes do Papa e o Império antes do Papado [

Por acaso o Papa pode julgar o Imperador por causa de delitos cometidos

Na verdade, se bem que o Imperador

seja mais importante do que o Papa na esfera temporal, por causa de seu orgulho, lhe

está submisso no âmbito espiritual [

acredito que seja verdade, desde que os príncipes o queiram e dêem o seu assentimento,

Ao

contrário, o Papa, caso cometa um delito temporal, não pode ser julgado pelo Imperador

porque o Imperador

não exerce nenhuma espécie de jurisdição e direito de preeminência sobre o Papa [

(Ibidem, p. 106).

no âmbito secular, e com muito mais razão, na esfera espiritual [

caso o Imperador tenha sido acusado perante o Papa e reconhecido culpado [

No entanto, quanto a afirmar que possa depô-lo,

na sua própria esfera de ação? Penso que sim [

] [

] [

]

]

]

]

DOCUMENTO 26

João de SaIisbúria: Subordinação do poder laico ao eclesiástico Polycraticus, livro IV, cap. 3. In: P. L., 199, p. 516.

Portanto, o príncipe recebe sua espada das mãos da Igreja, porque esta

última absolutamente não pode usar o gládio de sangue. Entretanto, o possui também, embora faça uso dele, através do príncipe, a quem concedeu o poder para corrigir os corpos. Por conseguinte, o príncipe, de certo modo é um ministro do sacerdote, e quem

exerce aquela parte dos ministérios sagrados que parece lhe ser indigna de a exercer, pois todo ofício das leis sagradas é religioso e pio. Todavia, é algo inferior o que ocorre no tocante à punição dos crimes e parece representar certa imagem de verdugo.

ao presidir o Concílio dos sacerdotes

ocorrido em Nicéia, não ousou ocupar o primeiro lugar, mas procurou um secundário, nem quis se intrometer com as assembléias dos presbíteros, e as decisões que foram tomadas por eles as acolheu e as reverenciou de tal modo, como se tivessem sido promulgadas pela Majestade Divina [

] [

Foi por esse motivo que Constantino [

]

87

3

Hierocracia e Teocracia

no século XIII

3.1

AS IDÉIAS POLÍTICAS DE INOCÊNCIO III

Em 1198, foi eleito Papa o Cardeal Lotário Segni, então com trinta e sete anos, o qual tomou o nome de Inocêncio III (1198-1216). Discípulo brilhante de Hugucião em Bolonha, fez, como se pode imaginar, uma rápida carreira eclesiástica. Muitas páginas excelentes já foram escritas 1 sobre o pensamento e a atuação política deste Papa, tido na conta de suserano universal. Nosso propósito reside em salientar exclusivamente a sua contribuição para a sedimentação e ampliação do Sacerdotalismo. O pensamento político de Inocêncio III se encontra espalhado tanto em seus escritos e sermões como em suas cartas. Muitas dessas cartas foram mais tarde incorporadas ao Direito Canônico sob a forma de decretais. Tomemos como ponto de partida a decretal Solitae, 2 dirigida ao Imperador bizantino Aleixo III (1195-1203). No § 2º da mesma, o Papa, comeca a responder aos argumentos que o Imperador Bizantino havia apresentado, numa outra carta que lhe tinha escrito antes, em que tentava demonstrar a superioridade do poder imperial sobre o sacerdotal. Aleixo III, para fundamentar sua tese, havia se apoiado naquele passo da 1 a Epístola de São Pedro [2, 13-17] em que o Príncipe dos Apóstolos exorta os fiéis em

1 Cfr. a propósito: MACCARONE, M. Chiesa e Stato nella Dottrina di Papa Innocenzo III. Roma, 1940; Idem, Studi su Innocenzo III. Padova, 1972; LAUFS, M. Politik und Recht bei Innocenz III. Koln-Vien, 1980; WATT, J. A.The theory of Papal Monarchy in the thirtheenth century. Traditio,

20 (1964), particularmente p. 190-235

2 O texto original foi publicado na Patrologia Latina (PL), v. 216, p. 1182-1185. Traduzimo-lo para o vernáculo no artigo entitulado ―Contribuição de Inocêncio II à hierarquia‖, Leopoldianum,

45 (1989), p. 107-122. Cfr. Documento 27.

88

geral, a serem submissos às autoridades constituídas, uma vez que elas existem, conforme o desígnio de Deus, para castigar os maus e recompensar os bons. O Santo Padre, no mencionado parágrafo, redarguindo a Aleixo, argumenta alicerçado em três pares de binômios, cujos termos estão relacionados entre si Sumo Pontífice/Imperador; espiritual/temporal; alma/corpo e visam a ressaltar a preeminência do Sacerdócio pelo fato de seus ministros, em particular o Papa, desempenharem uma tarefa cuja natureza é espiritual e, assi m, mais excelsa, conforme a essência da alma e para seu proveito. É importante notar que o Papa, no fundo, apóia-se no mesmo argumento metafísico em que Hugo de São Victor havia se inspirado, como já tivemos ocasião de ver.

Ainda no mesmo parágrafo, o Papa redarguiu outros argumentos hauridos no Antigo Testamento, apresentados pelo Imperador Bizantino com vista a demonstrar a sua tese.

Desde este passo da decretal, vemos o Papa dar à teoria hierocrática novos elementos para robustecê-la: mesmo que na época do Antigo Testamento os reis tenham mandado nos sacerdotes, agora, na época do Novo Testamento, é diferente, porque o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, Cristo, redimiu os homens através de sua paixão e morte, e deixou na terra um Vigário, para que prossiga na tarefa que ele começou. O sacerdócio tem, portanto, uma função soteriológica, bem mais relevante, pela sua finalidade e transcendência, do que a desempenhada pelo poder régio, daí, outrora, os reis terem exercido um poder supremo e exclusivo sobre toda a sociedade. No § 4º, Inocêncio III, mantendo o mesmo estilo de argumentação, fundamenta sua tese, concernente à supremacia do Sumo Pontificado sobre o poder temporal, recorrendo a novos pares de binômios, que estão relacionados com os anteriores, cujo suporte é um passo do Gênesis [1, 14-17]: sol/lua; dia/noite; espiritual/temporal; alma/corpo; pontífices/reis. Um pouco mais adiante, no § 6º, Inocêncio III arremata suas considerações sobre a preeminência do sacerdócio sobre a realeza, citando os conhecidos passos evangélicos que sustentam a commissio Petri ou o Primado Pontifício, o qual foi concedido por Cristo a S.Pedro, e deve ser exercido sobre todos os batizados, leigos e clérigos, reis e servos, e que faculta ao seu detentor corrigir aquelas ovelhas que se desviam do caminho reto. A Igreja é, portanto, a única sociedade a se ter em conta, pois dela, mediante o batismo, fazem parte todos os fiéis, e, por isso mesmo, tem de ser governada por uma só cabeça que, de acordo com o Evangelho, é o Papa. Trata-se, na verdade, de um organismo espiritual com uma dimensão temporal subsidiária, não de um corpo bipartido, ―quase um monstro‖, para empregarmos a comparação usual entre os medievais. O único objetivo desta comunidade universal dos fiéis reside em alcançar a salvação eterna; daí o Papa tratar o Imperador como filho, pelo fato de na esfera espiritual ele indubitavelmente estar subordinado ao Romano Pontífice.

89

Um outro documento da lavra de Inocêncio III que merece nossa atenção, pelo seu pragmatismo político, é a decretal Venerabilem, 3 escrita em março de 1202 e endereçada aos príncipes eleitores, dos quais três eram eclesiásticos, os arcebispos de Treves, Mogúncia e Colônia, competindo a este último ungir, coroar e sagrar o Imperador em nome do Papa, e os outros quatro leigos. Todos, em conjunto, eram tidos como os sucessores e herdeiros dos senadores romanos. Essa decretal concerne às relações entre o Papado e o Sacro Império Romano Germânico. Desde a morte do Imperador Henrique VI Staufen, em 1197, dois príncipes alemães disputavam pelas armas e pelo voto a coroa imperial: Filipe Staufen e Otão, duque de Brunswick. A guerra entre eles causara já a morte de muitas pessoas, bem como a destruição de cidades, castelos, plantações e propriedades na Alemanha e na Itália. Além disso, o sistema cleitoral germânico não previa uma solução para casos como este. Nessa decretal, logo no § 3º, o Sumo Pontífice oficializou a teoria da Translatio Imperii, segundo a qual foi o Papa Leão III (795-816) que transferiu o Império dos gregos para os germânicos, na pessoa de Carlos Magno (800-814), no natal de 800, dado que os bizantinos, naquela oportunidade, eram governados por uma mulher, Irene. Inocêncio III apoiava a sua teoria num relato acerca deste acontecimento, registrado nos Anais da Cúria Romana, escrito em 801. Assim, o Império ficava sob a auctoritas pontifícia, perspectivado como um beneficium eclesial, outorgado de acordo com o direito canônico, ficando, pois, o Imperador na condição de beneficiário (vassalo) da Igreja, e com a obrigação de defendê-la. Outrossim, o Sumo Pontífice ressaltou que sequer teve a intenção de reivindicar um direito que não lhe pertencia, uma vez que eram os príncipes eleitores que tinham o dever de escolher algum como rei da Alemanha, o qual depois ira ser promovido a Imperador. No parágrafo seguinte, Inocêncio III estabeleceu, pela primeira vez, que o exame quanto à aptidão e ao caráter do candidato ao trono imperial cabia ao seu consagrante, isto é, o próprio Papa, adaptando para a esfera das relações entre o Papado e o Império uma prática usual e institucionalizada no tocante à confirmação dos bispos eleitos pelos cabidos diocesanos, efetuada ou pelo Metropolita ou pelo Santo Padre. O que essas medidas denotavam, conquanto o documento não o diga explicitamente? Significavam que, na concepção do Pontífice explicitada desde Alexandre III (1159-1181), a Igreja era a causa eficiente do Império e do poder imperial e que o Imperador era u m advocatus et protector Ecclesiae. Aliás, no § 6º, o Sumo Pontífice indaga se é justo que a Sé Apostólica fique sem um protetor por causa da negligência dos príncipes eleitores. Nesse mesmo parágrafo, Inocêncio III estabeleceu um outro ponto lapidar da teoria política relativa à preeminência do poder pontifício sobre o imperial, que irá se consagrar no transcurso do próprio século XIII e durante boa parte do XIV, afirmando que nu ma eleição imperial, quando não houver acordo entre os eleitores, o Papa, em

3 Esta decretal encontra-se publicada na P. L., 216, p. 1065-1067. Igualmente traduzimos alguns trechos da mesma, no artigo supra citado, p. 114-115. Cfr. Documento 28.

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seguida a ter chamado à ordem os príncipes, dando-lhes um certo tempo para que exercitem o seu direito, se isto não ocorrer, poderá então favorecer a uma das partes, dado que o escolhido irá ser ungido, coroado e consagrado por ele próprio. 4 Ademais, este princípio irá permitir que, doravante, os papas reivindiquem o direito de só tratarem alguém como Imperador depois de a sua eleição para o cargo real ter sido sancionada pela lgreja, ou, melhor, depois de o Sumo Pontífice, reconhecendo sempre o direito de os príncipes elegerem o rei da Alemanha como candidato à coroa imperial, por saber que tal direito é uma concessão da Santa Sé, sagrar o eleito como legítimo Imperador, até aí simples candidato. Uma outra decretal famosa de Inocêncio III, por causa das teses políticas aí enunciadas, é a Per venerabilem, 5 igualmente escrita em 1202. Esse documento veio a lume face à solicitação do conde Guilherme de Montpellier dirigida ao Sumo Pontífice, através do Arcebispo de Arles, que desejava que seus filhos bastardos fossem legitimados a fim de que pudessem herdar seus bens. Como se percebe, trata-se de uma questão com múltiplas facetas, entre as quais a sócio-econômica, a ético-religiosa e a jurídico-política feudal. Sob este último aspecto, de acordo com o entendimento de Guilherme, o Papa era competente para legitimar filhos adulterinos e naturais, porque assim procedera com a prole do Rei Filipe Augusto (1180-1223), tida com Inês de Meran, e, ainda, porque ele era vassalo da Sé Apostólica, em vista de ter recebido territórios da diocese Magalonense. Sob o angulo ético-religioso, os filhos adulterinos eram o fruto de uma união pecaminosa, de modo que só o juiz na esfera espiritual era competente para examinar e julgar casos envolvendo tal tipo de pessoas. Por último, considerada sob o aspecto econômico-social, Guilherme não queria deixar seus únicos filhos desamparados, uma vez que naquela época os bens da raiz eram os únicos que asseguravam o poder, o status social e o prestígio. Inocêncio III comecou a responder ao conde afirmando que, em princípio, a Santa Sé poderia vir a atender tal solicitação, com vista a um objetivo temporal, pois tinha pleno direito de legitimar bastardos e adulterinos para que estes pudessem vir a ser consagrados bispos, cujas tarefas que irão desempenhar, muito mais importantes, são de natureza espiritual, e como estas se sobrepõem àquelas, em vista do primazia do espírito sobre a matéria, era natural que a autoridade competente para legitimar na esfera superior também o fosse na inferior. Uma vez mais, o Papa retoma o argumento

4 PACAUT, M. La théocratie, l‘Eglise et le pouvoir au Moyen Age. Paris: Desclée, 1989, p. 119:

―[…] Iorsque les électeurs son divisés et élisent deux personnes, comme cela se produit em 1197, il revient au pape, causa urgente, de les examinar l‘un et l‘autre et de discerner lequel des deux est le plus apte à exercer l‘office suprême selon la volonté divine, donc de dénoncer le vote en faveur de l‘auter comme um peché. Au nom de son droit prééminent (principaliter), qui est d‘essence spirituelle mais s‘exerce à ce niveau dans le domaine politique, comme lors du transfert de l‘Empire, le pontifice reconnaît le premier uniquement em fonction de sés mérites en adéquation avec la fin rechée (finalter), et non em fonction dês conditions jurisdiques (respect des règles) de l‘élection [ ].‖

5 Esta decretal encontra-se publicada na P. L., 214, p. 1130-1134. Também traduzimos alguns trechos da mesma, no artigo acima referido. Cfr. Documento 29.

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metafísico da superioridade dos seres espirituais sobre os materiais para embasar sua argumentação jurídico-política. No entanto, em seguida, o Sumo Pontífice passou a analisar e a refutar os argumentos apresentados por Guilherme. O Rei da França, então viúvo da primeira esposa, dela já tinha tido um herdeiro legítimo e naquele momento estava separado da nova esposa, tendo alegado, para tanto, impedimento de afinidade, sentença essa que fora sancionada pelo Legado Apostólico em Paris. O Conde, ao contrário, teve filhos com outra mulher, estando casado com sua legítima esposa. Com referência aos filhos que o Rei tivera com Inês, enquanto questão do grau de afinidade parental com Ingebergue não fosse definitivamente resolvida, permanecia a dúvida se os mesmos eram legítimos ou não. Mais adiante, Inocêncio III afirmou que o Rei dos Francos, pelo fato de não admitir que não possuía nenhum superior na esfera temporal, então recorreu à autoridade pontifícia com aquele propósito, sem que estivesse a lesar o direito de ninguém, conquanto talvez pudesse legitimar os próprios filhos, não como pai, mas como príncipe em relação aos súditos. Por isso, o Papa diz que atendeu à solicitação de Filipe, levado por esses motivos, e considerando que em face de certas circunstâncias ele também exercia a jurisdição secular noutras regiões. Na parte final desse documento, Inocêncio III, para fundamentar sua tese quanto a ter o direito de intervir casualmente na esfera secular, recorreu a uma passagem do Deuteronômio [17, 8-13] alusiva à organização sócio-político-religiosa hebraica, associando-a com aquele passo do Evangelho de Mateus (16, 16-20) relativo ao mandato

e primado petrinos. Segundo o Papa, o lugar escolhido por Cristo, conforme a mencionada passagem do Deuteronômio, para a Respublica Christiana ser dirigida é a Sé Romana. Os levitas e o Sumo Sacerdote aí mencionados simbolizam respectivamente os sacerdotes da Nova Aliança e o Romano Pontífice, a quem o Senhor, na pessoa de Pedro, estabeleceu como seu vigário sobre a terra, dando-lhe assim uma posição singular em relação aos demais fiéis. No tocante às três espécies de causas/julgamentos referidas naquele passo do Deuteronômio, a primeira diz respeito às civis/criminais, as quais compete exclusivamente aos juízes seculares examiná-las e julgá-las; a última relaciona-se com as questões atinentes à esfera espiritual, obviamente da alçada do foro eclesiástico; a do meio refere-se às questões mistas, isto é, simultaneamente espirituais e seculares, por exemplo, causas tratando de dote, de herança, de divórcio, associadas ao sacramento do Matrimônio. Ante esse tipo de causa, nas hipóteses de os juízes subalternos terem alguma dúvida quanto à medida mais justa a ser tomada, ou decidirem lesando o direito de uma das partes, devia-se recorrer ao Sumo Pontífice, cujas sentenças tinham de ser cumpridas

à risca, sob pena de se incorrer no castigo eterno.

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Uma outra decretal de Inocêncio III, a Novit Ille, 6 escrita em 1204, forneceu mais subsídios teóricos para a posterior ampliação da jurisdição pontifícia na esfera secular.

Em boa parte desse documento, Inocêncio III discorreu sobre a origem divina do poder papal dado por Cristo a Pedro e na pessoa dele aos seus sucessores; falou também das atribuições de competência específica da autoridade pontifícia: corrigir qualquer cristão que peca mortalmente e castigá-lo com as penas eclesiásticas; conduzir o pecador do vício à virtude, do erro à verdade; enfim, propiciar a todos os homens os meios para que alcancem a salvação eterna. A novidade doutrinária acerca da competência jurisdicional do poder papal, introduzida por Inocêncio III nesta decretal consistiu em ele ter afirmado que o rei João (1199-1216) da Inglaterra denunciara à Igreja que o seu suserano, Filipe Augusto, tinha pecado contra ele, fato esse que obrigava o Sumo Pontífice, por dever de ofício, a ouvi- lo e a apresentar uma solução para aquela disputa entre os dois príncipes cristãos. Não se tratava, portanto, de judicare de feudo, cuja responsabilidade era do Rei dos Francos, mas decernere de peccato, incumbência essa inerente ao poder sacerdotal, e, de acordo com o estabelecido pela Lei Divina, todos os batizados que pecassem tinham de ser julgados da mesma maneira pelos ministros eclesiásticos. Ora, naquele caso, como se tratava de dois monarcas em conflito, era natural que o Sumo Pontífice interviesse na contenda, não apenas por um motivo de precedência hierárquica e de neutralidade da parte da Sé Romana, mas igualmente ainda, pelos fatos de a iminência de uma guerra que poderia vir a ocorrer entre ambos, ser um pecado mortal gravíssimo, e porque João e Filipe, conquanto tivessem firmado tratados de paz sob juramento, não os haviam cumprido. Se considerarmos, portanto, que na Societas Christiana qualquer delito, em princípio, era um pecado, ao menos teoricamente, esta e a decretal anteriormente referida conferiam ao Sumo Pontífice uma plenitudo potestatis tanto na esfera espiritual quanto na temporal. Noutras palavras, o Pontífice Romano, possuindo uma autoridade regular para julgar os pecadores e os pecados que estes cometeram, no fundo de modo implícito estava insinuando ter competência para interferir na esfera secular quando lhe parecesse que convinha fazê-lo em proveito da política papal. Em termos efetivo-práticos, bastava então que o Papa tivesse prestígio e força política para de fato exercer uma suserania sobre a Cristandade Latina. Tal foi o caso, por exemplo, do próprio Inocêncio III, de Inocêncio IV (1243-1254) e de João XXII

(1316-1334).

Há ainda uma outra importante decretal política de Inocêncio III. É a Licet ex suscepto dirigida ao bispo de Vercelli, no ano de 1206 7 . Concerne ao problema se uma causa qualquer poderia ser examinada pelo próprio antístite, ou pelo Papa ou pelos juízes da comuna.

6 Esta decretal se encontra na P. L., 215, p. 325-328. Igualmente a traduzimos no antes artigo citado, Cfr. Documento 30.

7 Corpus Iuris Canonici, ed. AEMILIUS. FRIEDBERD, Akademische Duruk U. Verlagsansalt, Graz, 1995, p. 250-251. Cfr. Documento 31.

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O Papa estabeleceu que se porventura os cônsules não a quisessem examinar, ou fossem incapazes de fazer justiça, ou se suspeitasse de que poderiam vir a favorecer uma das partes, e considerando também que se o trono imperial estivesse vago, instância à qual se devia normalmente recorrer, então a causa poderia vir a ser examinada pelo tribunal diocesano ou pela Sé Apostólica, a fim de que a justiça viesse a ser feita. Em suma, podemos resumidamente afirmar que:

a) Inocêncio III deu continuidade e ampliou o programa político-eclesial de

seus antecessores, adequando-o de maneira realista ao momento histórico em que viveu, e preparando, outrossim, o caminho teórico para o futuro desenvolvimento da hierocracia à época de Inocêncio IV e de seus sucessores.

Isso ainda ocorreu graças às seguintes atitudes que tomou:

b) Ao intitular-se, por exemplo, Vigário de Cristo, e não mais vigário de Pedro,

como o tinham feito Gregório VII e seus predecessores, introduziu na terminologia eclesiológico-política um conceito lapidar, dado que a frase paulina Omnis potestas a Deo [Rm 13, 1], desde então, nos círculos hierocráticos durante o medievo, sempre irá significar que, na Sociedade Cristã, todo poder vem de Cristo e, por extensão, que todo poder vem do Vigário de Cristo. 8 De fato, o Papado tenderá a ampliar o seu vicariato em

vários aspectos: quer se transformando progressivamente a si próprio na fonte de todo o poder, ao se atribuir uma