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O Popular - Organização Jaime Câmara 13/02/10 00:48

Goiânia, 17 de novembro de 2006

I NICIAL

ÚLTIMAS
NOTÍCIAS Uma política cultural para Goiás
EDITORIAS Em matéria publicada pouco antes do segundo turno das eleições, este
Capa jornal mostrou a precariedade das propostas para a cultura dos então
Opinião candidatos. Eleito o governador, como assegurar que a próxima
Cidades
Política administração vá além da limitação da campanha?
Economia
Mundo Marcus Fidelis
Esporte
Magazine
Classificados Antes de mais nada, ter claro o objetivo: o desenvolvimento econômico não
é nada sem o desenvolvimento social e intelectual, que vem
COLUNAS fundamentalmente da possibilidade de produzir e fruir os bens culturais. O
Giro que se pretende é garantir ao cidadão o exercício pleno de sua capacidade
Direito e Justiça
Coluna social
humana, de sua criatividade e sensibilidade.
Memorandum
Crônicas e Para alcançá-lo, o caminho é a construção democrática, com a participação
outras histórias
de artistas e produtores culturais, de uma verdadeira política cultural – um
SERVIÇOS conjunto de ações consistentes e permanentes, integradas entre si, com
E-mail mecanismos transparentes de alocação de recursos, impessoais e
Cartas dos leitores baseados no mérito e na qualidade –, criando um círculo virtuoso que
Assinatura
Acontece permita a produção e fruição cultural em maior quantidade e qualidade.
Tempo hoje Noção fundamental é de que cabe ao Estado permitir que se tenha acesso
Indicadores àquilo que o mercado não oferece, garantindo a diversidade na oferta de
Na telinha
Cinema bens culturais. Como bem sintetizou numa canção o ministro Gilberto Gil:
Horóscopo “O povo sabe o quer, mas o povo também quer o que não sabe”. Nos
Guia do Assinante termos normalmente colocados, uma política que promova: a diversidade
Central
do Assinante cultural; a democratização do acesso à cultura; a defesa e preservação da
identidade local; e, o desenvolvimento econômico, baseado na cultura.
CHARGE
Essa é uma construção que exige vontade e capacidade extremas. São
ESPECIAIS vários os entraves. Um, da própria lógica da política atual, que busca
Mestre Rosa
Agenda Goiânia
sempre visibilidade máxima, para a qual nada se compara aos eventos.
Prêmio Propaganda Outro, da cultura política local, que é:
Pensar 2006

1. personalista, buscando benefícios individuais ou de grupos, em


detrimento do interesse público – basta comparar as sedes de nossas
academias literárias com as instalações de nossas bibliotecas públicas, ou
os acervos precários destas com as toneladas de obras editadas com
recursos públicos anualmente;

2. autoritária, criando projetos de cima para baixo, desconsiderando o que a


sociedade tem a dizer e suas contribuições.

Resultado disso, ao final da gestão estadual que mais atenção dedicou à


cultura, temos um calendário de grandes eventos: três anuais (Fica, Canto
de Primavera, Tenpo) e a Bienal do Livro, mais um projeto menor, semanal
– Um Gosto de Sol. Junto a isso, obras de restauração do patrimônio,
alguns centros culturais inacabados no interior e outro, faraônico, em
Goiânia. Ações que, se tanto, devem chegar a uma dúzia dos 246
municípios do Estado. Não esquecendo uma lei de incentivo, para dizer o
mínimo, problemática.

Como ir além? Não há grandes receitas. Trata-se de colocar Goiás em dia


com o restante do Brasil nessa área.

Primeiro, adequar a estrutura legal e administrativa do Estado à nova


realidade surgida com a aprovação da emenda constitucional que instituiu o
Plano Nacional de Cultura. Cumprir a promessa de criar a Secretaria
Estadual de Cultura, requisito legal para que Goiás integre o Sistema
Nacional de Cultura. Imediatamente após, realizar a Conferência Estadual
de Cultura, para definir democraticamente as prioridades da área que
deverão subsidiar a elaboração do Plano Estadual de Cultura, a ser
executado pela secretaria. Além de Goiás, Amazonas, Pará, Rondônia,
Roraima, Sergipe, São Paulo e o Distrito Federal deixaram de fazer suas
conferências em 2005, mas só aqui não houve sequer as municipais. No
mesmo âmbito, regulamentar e dar início à operação do Fundo Cultural,
aprovado este ano, e reformular a Lei Goyazes, para que possam atuar
complementarmente no fomento à produção cultural no Estado.

Segundo, eliminar a dicotomia educação e cultura, fruto do modelo de


educação que seguimos nas últimas décadas, preocupado com conteúdos e
habilidades técnicas e não com o desenvolvimento do ser humano em sua

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plenitude. Nesse sentido, integrar a política educacional com a política


cultural, e criar instâncias de ligação entre as duas secretarias.

Terceiro, reformular o Conselho Estadual de Cultura, de forma a conferir-


lhe representatividade e legitimidade, dando-lhe condições de exercer de
fato suas atribuições, complementarmente à conferência, na elaboração e
fiscalização da execução do Plano Estadual de Cultura e na avaliação de
projetos do Fundo Cultural e da Lei Goyazes.

Quarto, subordinar a Televisão Brasil Central e as Rádios Brasil Central AM


e FM à Secretaria Estadual de Cultura, vinculando-as à política cultural do
Estado e orientando-as para a produção de uma programação pautada pelo
interesse público, em especial financiando a produção independente, pois
na era da informação, não há como separar a cultura da comunicação. A
atuação do Estado na radiodifusão só faz sentido se tiver um caráter
educativo e cultural, se for instrumento de formação e consolidação de
valores e da cidadania, oferecendo aquilo que o mercado não oferece.
Esses são pilares da Rede Pública de TV, cuja programação obedece
rigorosamente aos princípios éticos, definidos pelos associados, em
respeito à sociedade brasileira, que merece assistir a uma programação de
qualidade, com conteúdo que enriqueça seus conhecimentos e proporcione
entretenimento e diversão saudáveis. Além de Goiás, os únicos Estados
cujas emissoras públicas não pertencem à rede são Mato Grosso, Acre,
Rondônia, Amapá, Roraima, Paraíba e Piauí.

Quinto, criar políticas de patrocínio para as empresas estatais, vinculadas


aos objetivos do Plano Estadual de Cultura. Celg e Saneago, se tiverem
recursos para aplicar em projetos, têm de fazê-lo a partir de regras claras,
impessoais, transparentes, que premiem o mérito e garantam a igualdade
de oportunidades. Desde 2003 a Petrobras trabalha assim, no que foi
seguida por outras estatais. Mesmo empresas privadas, que em tese não
devem satisfação ao público, têm seguido essa tendência. O grupo
Votorantim, por exemplo, acaba de lançar sua política cultural. Os números
são eloqüentes: ao longo de quatro anos a Lei Goyazes, que exige a
aprovação prévia do projeto pelo Conselho Estadual de Cultura, apoiou 162
projetos, num total de R$ 11.324.038,73. A Celg apenas no ano passado,
sem qualquer critério conhecido, aplicou R$ 10,19 milhões em cultura.

Sexto, assegurar um corpo de funcionários em número suficiente,


qualificado e interessado, atraído por bons salários, perspectivas de carreira
e formação, e admitido por concurso público. Na gestão, nomear um quadro
de diretores escolhidos pelo titular da pasta, leais, afinados com suas
diretrizes e pautados pelo interesse público. Criar uma estrutura
governamental que produza estudos para subsidiar a avaliação permanente
da execução e do alcance das metas estipuladas pelos programas,
garantindo sua melhoria contínua.

Finalmente, recursos, pois sem eles, nada se fará.

Possível? Claro, desde que se tenha vontade política.

Marcus Fidelis é produtor cultural e mantém o blog entreatos


www.entreatos.blogspot.com

ÍNDICE

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