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UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL E

HISTÓRIA CULTURAL

ROSELI TEREZINHA BERNARDO

RECREIO DO TRABALHADOR: UM PATRIMÔNIO HISTÓRICO


2

CRICIÚMA, NOVEMBRO 2005


ROSELI TEREZINHA BERNARDO

RECREIO DO TRABALHADOR: UM PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Monografia apresentada à Diretoria de Pós-


graduação da Universidade do Extremo Sul
Catarinense - UNESC, para a obtenção do
título de especialista em História Cultural e
História Social.

Orientadora: Prof. MSc. Marli de Oliveira Costa.


CRICIÚMA, NOVEMBRO 2005

Ao meu pai que está vivo em meu coração, à


minha mãe que sempre me espera com um
gostoso abraço e ao meu filho na impaciência
de sua adolescência. A eles dedico meu
trabalho.
AGRADECIMENTOS

Quando caminhamos acompanhados a distância parece ser menor, por

isso gosto de estar sempre acompanhada por muitos e, durante a realização deste

trabalho não foi diferente, pois estive na companhia da minha família sempre

apoiando, ajudando e compreendendo.

Agradeço a minha mãe Catarina, ao meu filho, ao meu companheiro, a

meus irmãos, sobrinhos, cunhadas, enfim a essa família maravilhosa que tenho. Aos

meus amigos Rodrigo e Jailson que estão comigo desde a graduação, no qual

vivenciamos momentos diversos; de alegria, de tristeza, de vitória, dentre outros,

pois estávamos sempre juntos. As amigas Ana Cristina, Cristiane, essas mais

recentes, porém grandes companheiras. Meus agradecimentos também, as pessoas

que colaboraram por meio de entrevistas e emprestando fotografias e documentos.

Agradeço a uma amiga-mãe-irmã “Maria de Fátima Dal Toe de Oliveira”.

Aos professores Carlos Renato Carola, João Henrique Zanelatto, Antonio Luiz

Miranda, Nivaldo Goularte, Lucy Cristina Osteto, que além de professores foram

amigos que deixaram fortes referencias. Não negligenciando o professor Alcides

Goulartti, membro do grupo “Memória e Cultura do Carvão”, que proporcionou um

grande aprendizado.

Agradeço em especial a professora Marli de Oliveira Costa, a Lili, a quem

agradeço como amiga, como orientadora e como referencial de pesquisadora, de

historiadora, pois meu aprendizado e crescimento como historiadora pesquisadora,

tem muito da Lili.

Meu agradecimento a todos vocês.


Os Antigos e a Memória

Os antigos gregos consideravam a memória


uma identidade sobrenatural ou divina: era a
deusa Mnemosyne, mãe das musas, que
protegem as artes e a história. A deusa
memória dava aos poetas e adivinhos o poder
de voltar ao passado e de lembra-lo para a
coletividade. Tinha o poder de conferir
imortalidade aos mortais, pois quando o artista
ou historiador registra em suas obras a
fisionomia, os gestos, os atos, os efeitos e as
palavras de um humano, este nunca será
esquecido e, por isso, tornando-se memorável,
não morrerá jamais.
Marilena Chauí, 1998.
RESUMO

O trabalho que segue objetiva dar visibilidade e sensibilizar para a preservação de


um patrimônio histórico chamado Recreio do Trabalhador, uma sede recreativa que
fez parte na formação de uma comunidade identificada como operários mineiros da
Companhia Siderúrgica Nacional- CSN, em Rio Fiorita localizado em Siderópolis-SC.
Assim como a preservação desse patrimônio material, se faz necessário à
preservação de um bem imaterial, a memória coletiva, da comunidade do Rio Fiorita
sobre a memória do lazer. A utilização da fonte oral, da pesquisa em documentos e
em fotografias, foram de grande importância na realização do trabalho, pois
possibilitou a identificação e a problematização dos diferentes lazeres ali
desenvolvidos, permitindo a visualização das formas de controle e preconceito
existente nessa Vila operária. No entanto as pessoas colocaram nessas atividades
seu jeito de viver e conviver, se apropriaram do que lhes era imposto, e
desenvolveram formas de lazer acessíveis para todos os moradores da vila.

Palavras-chave: Patrimônio; preservação; memória; lazer.

.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO........................................................................................................07

2 MEMÓRIA E PATRIMÔNIO HISTÓRICO...............................................................11

2.1 guardiões de identidades.....................................................................................11

2.2 O Recreio e sua Arquitetura.................................................................................16

2.3 Criação e Uso do Espaço.....................................................................................18

3 O RECREIO NO COTIDIANO DA VILA OPERÁRIA.............................................31

3.1 Lazer, Transgressões e Imposições.....................................................................31

3.2 O Recreio do Trabalhador como espaço de controle das famílias operária........32

3.3 Preconceito no espaço de sociabilidade..............................................................36

3.4 No espaço cultural................................................................................................38

3.5 No interior do Recreio acontecia..........................................................................40

CONSIDERAÇOES FINAIS.......................................................................................50

REFERENCIAS..........................................................................................................52
7

1 INTRODUÇÃO

A sociedade transforma-se pelo emaranhado de várias relações: culturais,

econômicas e sociais. Os sujeitos históricos agem sobre seu cotidiano por meio de

ações que geram transformações lentas e constantes, muitas vezes imperceptíveis e

aceitas como natural. O historiador atento a essas transformações, procura intervir

nessa ação humana, alertando para a necessidade de preservação de referenciais

do passado, corporificado em construções materiais ou repassado por gerações por

meio da oralidade, constituindo-se em construções imateriais, que não traduzem a

ideologia de uma elite.

Neste sentido, a preocupação com essa preservação, objetiva garantir a

continuidade de grupos sociais que ficaram invisíveis na história oficial,

possibilitando a visibilidade da ação desses grupos que nela atuaram.

Portanto, instigada pelo desejo de sensibilizar para a preservação de um

evocador de fragmentos de tantas memórias, motivei-me a pesquisar o “Recreio do

Trabalhador”, na vila operaria mineira da CSN, pois os habitantes desta vila

produziram práticas cotidianas que foram faladas, apontadas, censuradas,

elogiadas, assim como foram partícipes de um período em que o país caminhava

para o desenvolvimento da indústria brasileira. Essas práticas cotidianas guardadas

na memória da comunidade emergiram a tona no transcorrer do trabalho realizado.

Entretanto, a escolha do Recreio do Trabalhador como objeto de pesquisa

foi também por considerar a relevância do mesmo dentro do contexto da Vila

Operária Mineira da CSN, pois esse local foi testemunho de momentos de troca, de

convivência, de experiência, de aprendizado e ficou por um longo período “invisível”


8

dentro da vila operária, passando despercebido pelo poder público local,

evidenciando o descaso com a memória de uma população que ali se constituiu.

Diante desse contexto, a proposta deste trabalho é oferecer visibilidade a

um patrimônio material que está cristalizado na memória dessa comunidade, que se

reconhece neste local e que foi parte de um cotidiano constituído e vivenciado a

partir da instalação da empresa estatal na década de 1940.

A pesquisa foi delimitada no período entre as décadas de 1941-1989,

sendo que por meio de estudos já realizados, este tempo delimitado estará

contemplando o período em que as atividades da Cia estavam iniciando no antigo

distrito de Belluno, atualmente o município de Siderópolis e também, o período em

que a mesma estava paralisando suas atividades neste local.

A pesquisa foi realizada por meio de fontes escritas, por meio da pesquisa

bibliográfica, com leituras e fichamento das mesmas; fontes orais, utilizando-se de

entrevistas com antigos moradores que lá permanecem até os dias de hoje, como

também aqueles que já não moram mais no local; fontes fotográficas, procurando

reconhecer nas fotos as falas dos entrevistados e também com a visita no local onde

está construído o Recreio do Trabalhador.

Neste sentido, para a elaboração do trabalho se fez necessário à

utilização de referenciais teóricos que concebem um novo olhar sobre a história, o

que direciona esse trabalho de pesquisa numa perspectiva voltada para a nova

história, pois nesta perspectiva permite-se que as vozes que por muito tempo não

tiveram a oportunidade de se fazer ouvir conseguissem se manifestar.

Desta forma a base teórica da pesquisa esta pautada em autores que

discutem não apenas o viés econômico, religioso, político e militar, de uma dada

sociedade para contar sua história, e sim categorias como o cotidiano e a memória
9

que permitem tornar visíveis práticas produzidas por diversos sujeitos históricos.

Portanto, a investigação tornou possível a percepção das formas de sociabilidade

que se desenvolveram na comunidade estudada.

Neste sentido, com vistas à explanação do trabalho, a presente pesquisa

encontra-se dividida em dois capítulos, introdução e considerações finais. A parte

introdutória discorre sobre as considerações do trabalho e da pesquisa realizada.

O primeiro capítulo apresenta uma discussão sobre a preservação do

patrimônio histórico, de como se pensou a preservação de locais que serviram de

referenciais em determinados períodos da história do Brasil, da preocupação atual

de estudiosos com a preservação não apenas do patrimônio material (de pedra e

cal), mas também do imaterial (saberes, costumes, rituais), da importância de se

preservar a memória e da sua representação para o ser humano. Além desta

discussão esse capítulo oferece ao leitor uma descrição detalhada da parte física do

Recreio do Trabalhador, pois no período pesquisado essa construção se diferencia

das demais pelo seu estilo arquitetônico, e pela localização geográfica. Outra

discussão deste segmento centra-se na formação de espaços de lazer, formas de

lazer e do uso destes espaços nas vilas operárias do Brasil em períodos anteriores,

relacionando-os com a vila operária da CSN.

O segundo capítulo procura dar visibilidade às manifestações culturais

produzidas na vila por seus habitantes e pela empresa mineradora, assim como a

utilização do Recreio do Trabalhador como espaço de controle das famílias

operárias. Essa discussão, respaldada em referenciais teóricos, permitiu perceber

que determinadas práticas, utilizadas na vila operária da CSN, para a disciplina do

operário foram encontradas em vilas operárias da cidade de São Paulo, sendo que
10

as formas de preconceito, as transgressões, as imposições ocorridas nos espaços

de lazer também estão contempladas nesse capitulo.

Neste sentido, pesquisar esse espaço de convívio social foi perceber a

importância que ele adquiriu para as famílias daquela vila operária, foi encontrar

diversas formas de lazer que foram sucumbidas pelo tempo e que permaneceram na

memória de um grupo, foi perceber as lembranças revividas quando em contato com

o evocador de memória, pois desta forma pretende-se justificar e sensibilizar para a

necessidade de preservar como patrimônio histórico esse espaço guardião de

recordações, o Recreio do Trabalhador.


11

2 MEMÓRIA E PATRIMÔNIO HISTÓRICO

O presente capítulo aborda questões sobre o patrimônio histórico cultural

buscando oferecer visibilidade às atividades recreativas realizadas no Recreio do

Trabalhador. Bem como, apresenta a arquitetura, a criação e a utilização do Recreio

no contexto das atividades carboníferas.

2.1 Guardiões de Identidades

A idéia de preservação do patrimônio histórico tornou-se mais significativa

no Brasil durante o século XX, entretanto na Europa esse movimento de

preservação do patrimônio histórico foi iniciado em meados do século XIX. Nos dois

momentos, pensou-se na preservação de bens materiais que tivessem significativa

relação com alguns fatos históricos determinados pela historiografia oficial. Neste

sentido, a idéia seria a preservação de construções materiais que dariam

legitimidade às construções históricas de uma parcela da sociedade, ou seja, “(...)

trataram de cristalizar uma memória que reside em poucos lugares e pertencem a

muitos poucos” 1.

Dessa forma, pode-se afirmar que se preservou a Casa Grande, mas não

se cogitou a preservação da Senzala, porque na história oficial o personagem

escravo não tinha visibilidade, não tinha história e conseqüentemente não poderia

ter um ícone representativo.

CUNHA, Maria Clementina Pereira. Patrimônio Histórico e cidadania: uma


1

discussão necessária. Secretaria Municipal de Cultura. Departamento do Patrimônio


Histórico. O direito à memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo: DHF,
1992.
12

A história oficial ganhou maior visibilidade e legitimidade a partir da

criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – na

década de 1930, no governo de Getulio Vargas. Este governo entre outras ações

priorizou a identificação e a formação da brasilidade, do ser brasileiro, assim como

consolidação de elementos que pudessem dar sentido de ser “brasileiro”. Portanto,

houve a ação direta do Estado na formação da brasilidade através da imposição de

ideais nacionalistas.

Neste contexto, de acordo com Myrian Sepúlveda dos Santos pensou-se

(...) na preservação do patrimônio cultural da nação. Mas a “cultura


estadonovista” excluiu a representação mais ampla da sociedade em favor
de uma política de patrimônio vigiada, controlada e regida pelos valores dos
setores dominantes que se aglutinaram no poder 2.

Pode-se inferir então, que a historia oficial teria assegurado sua

continuidade e legitimidade. Maria Clementina Pereira Cunha demonstra sua

preocupação quando diz que o Brasil é “(...) um país obcecado pelo moderno (...)”, e

que essa busca pela modernização vai se refletir na construção de órgãos públicos

de proteção ao patrimônio histórico. No entanto, esta preocupação em preservar o

patrimônio estava intrínseca na legitimação de um passado “de glória” de uma elite

brasileira, ou como diz Maria Clementina P. Cunha “(...) para afirmar o triunfo daquilo

que se auto-intitulava como novo”.

Marilena Chauí 3
também observa com preocupação as propostas de

órgãos de esfera federal e estadual de preservação do patrimônio histórico, pois

entende que o cidadão comum talvez não se reconhecesse naquela “identidade e

símbolos celebrativos”.
2
SANTOS, Myrian Sepúlvera dos Santos. Do Museu imperial: a construção do império pela
República. In: Memória e patrimônio. Org. ABREU, Regina; CHAGAS, Mario. Rio de Janeiro: DP&A,
2003.
3
CHAUI, Marilena. Política Cultural, Cultura Política e Patrimônio Histórico. Secretaria Municipal de
Cultura. Departamento do Patrimônio Histórico. O direito à memória: patrimônio histórico e cidadania.
São Paulo: DHF, 1992.
13

Nesta direção, José Ricardo Oria Fernandes4 também entende que na

sociedade moderna, o homem ainda não conseguiu um equilíbrio entre o progresso

e a preservação do passado; passado esse cheio de significados culturais para

futuras gerações. Sendo assim, em nome do que é moderno, destrói-se um passado

que poderia servir de referência para a construção do presente e futuro.

(...) todo cidadão tem direito à cultura, a memória coletiva e ao passado


histórico. A memória social ou coletiva, evidenciada através dos registros,
vestígios e fragmentos do passado – os chamados bens culturais de uma
dada coletividade-constitui-se em referencial de nossa identidade cultural e
instrumento possibilitador do exercício da plena cidadania. 5

É com satisfação que percebo várias pesquisas preocupando-se com a

categoria do patrimônio, pois estas falam da necessidade da preservação dos bens

culturais que foram parte de uma coletividade, não apenas das elites, mas também

de grupos que ficaram por muito tempo a margem da história oficial.

Neste contexto, José Ricardo Santos Gonçalves6, fala no caráter milenar

da categoria patrimônio:

(...) ela não é simplesmente uma invenção moderna. Está presente no


mundo clássico e na Idade Média, sendo que a modernidade ocidental
apenas impõe contornos semânticos específicos que, assumidos por ela,
podemos dizer que a categoria “patrimônio” também se faz presente nas
sociedades tribais. E completa (...) estamos diante de uma categoria de
pensamento extremamente importante para a vida social e mental de
qualquer coletividade humana.

Apoiada nesses estudiosos entendo que se faz necessário o

desenvolvimento de uma consciência preservacionista de locais de memória,

enquanto referencial de nossa identidade, pois segundo Myriam Santos7, em

referência ao filme Blade Runner, no qual os andróides não satisfeitos com a forma

4
FERNANDES, José Ricardo Oria. Revista Brasileira de História. Memória, História, Historiografia. In:
Educação Patrimonial e Cidadania: uma proposta alternativa para o ensino da história. Dossiê Ensino
da História. v.13, no.25,25. ANPHU. Ed. Marco Zero, São Paulo, 1992.
5
Idem.
6
GONÇALVES José Ricardo Santos. O patrimônio como categoria de pensamento. In: Memória e
patrimônio. Org. ABREU, Regina; CHAGAS, Mario. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
7
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. O pesadelo da Amnésia Coletiva. Revista Brasileira de Ciências
Sociais, São Paulo, v.23, n 8, p.16-32, 1993.
14

corporal humana perseguiam aquilo que lhes dariam a humanização plena, ou seja,

a memória, a capacidade de recordação, pois o que os diferenciava dos seres

humanos era ausência da memória, entendo então que a memória seria a

sustentação de nossa condição de ser humano.

O Recreio do Trabalhador, objeto de estudo desta pesquisa, está

localizado em Rio Fiorita, no município de Siderópolis, Sul do Estado de SC, numa

área onde foi construído todo o complexo da Companhia Siderúrgica Nacional, ou

seja, o escritório central, a farmácia, o ambulatório, a padaria, o açougue, o

armazém, o estádio de futebol Eng. Mozart Vieira, e ainda o local no qual foram

instalados a oficina mecânica, e o transporte, configurando-se na Vila de Operária

Mineira da CSN 8.

As fotografias abaixo mostram parte desse complexo:

Figura 1: Açougue

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

Figura 02: Ambulatório

8
Esse formato de vila operária não era exclusividade de Fiorita, mas sim um modelo vindo da
Inglaterra e que foi implantado nas vilas operárias no Brasil, no inicio da industrialização.
15

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

Figura 03: Padaria

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

2.2 O Recreio e sua Arquitetura

O Recreio do Trabalhador pode ser visto como uma construção que se

diferenciava das demais construções pela sua imponência, visto que na “Vila

Operária” as casas eram de madeira e sua arquitetura não possuía traços

exuberantes.

Atualmente, a parte externa é toda revestida de uma textura de gesso

decorada, e parte do prédio teve sua cor modificada recentemente, no mês de abril
16

do ano de 2005, sendo que a cor original era branca, na parte dos fundos ainda

mantém essa tonalidade.

O seu interior pode ser descrito da seguinte forma: 9


O salão principal

mantém a pintura original branca com detalhes em azul, o teto de madeira é formado

por retângulos. Nas laterais do forro, as madeiras tipo costaneira envernizada

compõem um outro trabalho de ornamento. Em uma das laterais, bem no alto perto

do teto, existem aberturas utilizadas para a projeção de filmes.

Neste salão há um palco em madeira trabalhada, de formato ondulado

que ainda apresenta as características de sua construção original. Um alçapão no

chão indica a entrada para os artistas que pisaram naquele palco. Há vestígios da

iluminação e do som, já bem danificados. Nas janelas de vidros quadriculadas se

observam os detalhes que acompanham o forro.

A construção apresenta no todo dez janelas de vidro e uma porta lateral

também de vidro. No hall de acesso ao salão principal encontra-se o teto de madeira

envernizada que traz no centro uma figura geométrica em formato oitavado, ou seja,

com oito lados. O Recreio do Trabalhador possui dois banheiros, um masculino e um

feminino e uma escadaria em forma de caracol que dá acesso a parte superior onde

eram projetados os filmes.

O bar é composto de um balcão em forma curvada, onde se misturam

tijolos e madeira trabalhada, e na base é de azulejos na tonalidade verde escuro

com brilho. Seu teto em madeira envernizada também é decorado. Na parede

prateleiras de concreto sustentam vários troféus, alguns bem antigos, dos anos de

1944, 1952.

Numa outra sala, localizada entre o bar e uma das entradas da lateral, o

teto e a metade das paredes são decorados, sendo que a decoração de madeira de
9
Ver fotos no final do capítulo I.
17

costaneira envernizada dá volume a parede. O teto possui a decoração semelhante,

a do salão principal, mas o que o diferencia é a ausência de figuras geométricas.

Torna-se interessante ressaltar que em cada peça a decoração se

diferencia no estilo; na minha percepção, algumas das decorações deixavam o

ambiente mais sofisticado que outras, sendo que esta percepção tornou-se mais

evidente no cômodo onde está localizado o bar.

Na sala de jogos, cinco ao todo, não foi possível o acesso por que o clube

está passando por reformas e este lado estava fechado, entretanto foi possível

visualizar através das janelas e porta que nestas salas o forro não tinha detalhes. É

um forro comum, sem decoração, de madeira pintada de branco.

Salienta-se que esse local de memória foi representativo na vila operária

porque seus habitantes o entendiam como preocupação da empresa com seu

conforto e bem estar. As lembranças do senhor Gilson Martins, além de evidenciar

essas representações, mostram que a construção física do Recreio do Trabalhador

foi acompanhada com entusiasmo e expectativa por parte dos moradores, no qual

muitos se sentiam orgulhosos em ver e pensar naquela construção como parte de

suas vivências.

2.3 Criação e Uso do Espaço


18

O “Recreio do Trabalhador” foi fundado como clube recreativo no dia 4 de

dezembro de 1952, e sua construção física é posterior, consolidando-se no ano de

1954. Como consta na Ata de fundação do clube, essa associação era um pedido

dos funcionários da Cia e também um desejo da administração da mesma, sendo

que se direcionava a objetivos esportivos, sociais e culturais e “(...) oferecer aos

seus associados tudo aquilo que é indispensável neste setor da vida, especialmente

na cidade de Siderópolis”.

Anterior a constituição do Recreio como espaço de lazer dos funcionários

da Cia, existiam cinco clubes recreativos na Vila. Eram eles: G.E. Vera Cruz, SER

União Mineira, Sul Catarinense FC, Clube Atlético Siderúrgica, Sider Club

Siderópolis, todos com a diretoria composta por empregados da Companhia

Siderúrgica Nacional, e que recebiam verba de manutenção da Cia.

Entendo, então que o Recreio do Trabalhador constitui-se como um

patrimônio material de uma comunidade que se formou a partir da instalação da

Companhia Siderúrgica Nacional – CSN na década de 1940, e que foi parte da

vivência de gerações de homens, mulheres e crianças que utilizavam suas

dependências nos mais variados momentos de seu cotidiano.

Neste contexto, o Recreio do Trabalhador constitui-se num patrimônio que

serve como evocador da memória para pessoas que o freqüentaram, sendo que as

lembranças daqueles que moraram ou ainda moram na comunidade de Rio Fiorita

estão enraizadas neste que foi um espaço de sociabilidade, de troca, de

experiências.

Esta exposição aproxima-se das reflexões de Maurice Halbwachs10

quando argumenta que necessitamos da memória de outras pessoas tanto para

confirmar nossas próprias recordações como para dar a ela legitimidade. Mesmo
10
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.p.25-52.
19

que o ato de lembrar possa ser pensado como a reconstrução no presente de

experiências que foram vivenciadas anteriormente, de forma afetiva, ou seja, onde o

sujeito se coloca como parte daquela memória.

Entretanto, a memória é muito mais que um ato de lembrar e segundo

Pierre Nora:

A memória é vida, sempre carregada por grupos vivos, (...) ela está em
permanente evolução, aberta a dialética da lembrança e do esquecimento,
(...) a memória não se acomoda a detalhes que a confortam, ela se alimenta
de lembranças vagas (...) a memória se enraíza no concreto, no espaço, no
gesto, na imagem, no objeto11.

Pierre Nora mostrou também sua preocupação com o que ele chamou de

aceleração da história, pois segundo o autor, “nas sociedades antigas as pessoas

viviam a memória ao repetir atos e sentidos e desta forma não necessitavam de

lugares de memória” 12.

Neste sentido, os lugares de memória que aparecem na fala de Pierre

Nora seriam os locais onde se cristalizariam um arsenal de evocadores, gerando,

dessa forma, visibilidade a memória de grupos que já não existissem mais, sendo

que o autor ainda lamenta: “se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos

necessidade de lhe consagrar lugares” 13.

Com relação ao papel da história em relacionado à memória, Pierre Nora

pontua que “no coração da história trabalha um criticismo destruidor de memória

espontânea, pois a memória é sempre suspeita para a história, cuja verdadeira

missão é destruí-la e a repelir configurando-se na desligitimação do passado

vivido”.14

11
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Revista do programa de
história – PUC/SP, 1993.
12
Idem.
13
Ibidem.
14
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Revista do programa de
história – PUC/SP, 1993.
20

Entretanto, ressalta-se é necessário narrar a história e para isso é

necessário dessacralizar a memória, pois a memória é absoluta, somente com a

intervenção do historiador é que ela se torna história. É, portanto, no momento que o

historiador problematiza a memória que ela se torna história. Sendo através da

história que se pode entender o ato de preservar. Por isso é necessário Preservar

aquilo que serve de evocadores da memória para uma determinada sociedade.

Como citei anteriormente, a fusão, ou seja, a união desses clubes que

havia na cidade, segundo consta na ata de formação do clube, deu-se por

solicitação dos empregados, desejosos de ter um clube que agregasse a todos,

assim como também era um desejo dos diretores da Cia.

Pode-se pensar nessa fusão, como sendo uma forma de controle da Cia

sobre seus empregados, afinal controlar os operários em cinco sedes recreativas era

muito mais difícil, do que se fossem concentrados em um local. Desta forma

colocou-se a disposição das famílias mineiras um espaço de lazer, com atividades

recreativas, e sociais, que garantiria a ocupação do tempo livre em atividades

denominadas “saudáveis”.

Isso pode ser evidenciado no pensamento de Maria Auxiliadora D’

Decca”,15 que analisou a situação do operário em São Paulo nos anos de 1920-

1930, estudo no qual percebeu o surgimento de iniciativas de “disciplinar o lazer”,

sendo que para ela, o lazer disciplinado era traduzido “(...) no patrocínio do futebol

pela empresa, ou através de festas religiosas, procissões, romarias”, todas de forma

organizada.

15
DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo. Ávida Fora das Fábricas: Cotidiano Operário em São Paulo
1920/1934. São Paulo: Paz e Terra, 1987.
21

Neste contexto, Maria Auxiliadora D’ Decca afirma: “a disciplina do lazer

(...) foi buscada pelos poderes públicos de forma idealizadora nos cuidados

formativos com a criança, principalmente a dos meios operários” 16.

Denise Bernuzzi de Sant’Ana17, em sua publicação, coloca que

“Determinadas noticias de jornais expressam o receio da reversão do tempo livre

num tempo de algum modo pernicioso à sociedade, caso ele viesse se tornar maior

que o tempo de trabalho sem os cuidados necessários”. Neste contexto a autora

descreve a notícia publicada no jornal Correio da Manhã, editado no Rio de Janeiro

nos anos de 1970, que assim se manifesta:

(...) a sociedade futura estaria composta quase totalmente de hippies, vistos


como pessoas entregues ao uso de drogas – conseqüência provável da
ociosidade – renunciando às estruturas sociais mais elementares como as
convenções na maneira de vestir, a manutenção do “casal como base da
sociedade, a diferenciação sexual. 18

Sendo assim, os capitalistas buscaram estabelecer uma forma de controle

desse tempo disponível, pois os meios operários, isto é, os locais onde os operários

se encontravam depois do trabalho, eram vistos como “focos de agitação e revolta

social”, 19 pelos donos das fábricas e indústrias.

Portanto, a prática de construir local de lazer nas vilas operárias não foi

apenas uma peculiaridade da Cia Siderúrgica Nacional, foi o seguimento do modelo

europeu nas vilas de industrialização, porque no Velho Mundo a massa trabalhadora

havia tomado consciência de sua situação de exploração com jornada de trabalho

extensa. Então, por meio de fortes movimentos sociais conseguiram uma lenta, mas

16
Idem.
17
SANT’ANA , Denise Bernuzzi. O prazer justificado. História e Lazer (São Paulo 1969/1979). Ed.
Marco Zero. São Paulo, 1994.
18
Idem.
19
Ibidem.
22

constante diminuição das horas de trabalho. Com isso surge frente ao tempo de

trabalho, um tempo excedente, definido como tempo disponível do trabalho 20.

Neste sentido, a Cia Siderúrgica Nacional seguiu o “modelo de poder e

controle que emergiam pontual e ‘inconsciente’, no interior da sociedade capitalista

visando conformar o operariado à ordem burguesa”.21

Ao analisar o cotidiano do operário fora do local de trabalho em São Paulo

nas décadas 1920-1930 Maria Auxiliadora Guzzo Decca, afirma que: “nos bairros

operários as diversões da população (...) eram cinema, futebol, baile e o teatro

amador”.22

Essa referência remete a visão do cotidiano da Vila Operária mineira em

Siderópolis, pois se percebe algumas semelhanças com os modelos das vilas

operárias do maior centro urbano do país, nos quais encontrava-se como diversão: o

cinema, o futebol, o baile e o teatro amador também nesses espaços.

Por conseguinte, no tempo disponível do trabalho, que se traduz no final

do expediente, o operário mineiro utilizava o Recreio do Trabalhador para uma

partida de dama, dominó, ping pong, snoocker, ou então para leitura na biblioteca do

clube, sendo que nos domingos ou feriados, era então o momento em que se

assistia e torcia uma partida de futebol no estádio, sendo que nestes dias também

se freqüentava o Recreio para assistir o cinema, o teatro, ou participar dos bailes.

Todas estas especificidades são ilustradas de maneira mais evidente nas

figuras que seguem abaixo:

Figura 04: Construção do Recreio do Trabalhador (1954)


20
SANTINI, Rita de cássia Giraldi. Dimensões do lazer e da recreação. Questões espaciais, sociais e
psicológicas. São Paulo: Angeloti, 1993.
21
Idem.
22
DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo. A vida fora das fábricas: Cotidiano operário em São Paulo
1920/1934. São Paulo: Paz e terra, 1987.
23

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

Figura 05: Vista parcial da frente do Recreio do Trabalhador (2005)

Fonte: arquivo da autora.


24

Figura 06: Salão principal (2005)

Fonte: arquivo da autora.

Observação: na figura 06, a cor original da parede era branca no salão principal,
porém após a visita no local em julho de 2005, parte da cor original foi modificada.

Figura 07: Palco do Salão Principal

Fonte: Arquivo da autora


25

Figura 08: Alçapão para entrada dos artistas a manivela, no palco.

Fonte: Arquivo da autora.

Figura 09: Janelas laterais com detalhes em alto relevo na parede

Fonte: Arquivo da autora.


26

Figura 10: Vista parcial do local de saída para projeção dos filmes no cinemascope

Fonte: Arquivo da autora.

Figura 11: Vista parcial do teto do salão principal

Fonte: Arquivo da autora.


27

Figura 12: Piso do salão Principal com as iniciais do Itaúna Atlético Clube

Fonte: Arquivo da autora.

Figura 13: Vista parcial do teto do bar

Fonte: Arquivo da autora.


28

Figura 14: Balcão do bar

Fonte: Arquivo da autora.

Figura 15: Parte do teto do Hall de acesso ao salão principal

Fonte: Arquivo da autora.


29

Figura 16: vista da janela como foi apresentada pelas lembranças. p. 44.

Fonte: Arquivo da autora.

Figura 17: Vista parcial dos fundos sem restauração.

Fonte: Arquivo da autora.


30

Figura 17: Contraste entre a parte do prédio reformada e a parte original.

Fonte: Arquivo da autora.


31

3 O RECREIO NO COTIDIANO DA VILA OPERÁRIA

O presente capítulo aborda questões que envolvem a vida da comunidade

da vila operária no Recreio do Trabalhador, destacando o lazer, as transgressões,

as imposições e o preconceito neste espaço social e cultural. Para tanto as

memórias dos moradores foram imprescindíveis.

3.1 Lazer, Transgressões e Imposições.

No conjunto de bens culturais produzidos por homens e mulheres de

diversas faixas etárias e culturas diferentes, o espaço físico de uma construção pode

constituir-se como testemunho na formação da memória histórica e na formação da

identidade de uma comunidade.

Desta forma o local é testemunho sedimentado e acumulado dos modos

de vida, não só daqueles que o conceberam, mas também dos que ali viveram

através dos tempos e lhe conferiram usos e significados.

Neste contexto o Recreio do Trabalhador é um desses espaços, pois está

carregado de sentimentos, de lembranças de atividades ali vivenciadas. Atividades

cotidianas como eventos culturais e sociais que ocorriam periodicamente, ou então

jogos de ping pong, dominó ou xadrez.

Além de diferente na aparência, como foi apontado no primeiro capítulo, o

recreio se estabelecia como lugar de lazer, visto que os demais locais do complexo
32

da CSN que haviam sido construídos na vila operária eram locais de trabalho. Mas,

como se constituiu ou se inventou o lazer nas vilas operárias? O lazer era intrínseco

ao cotidiano na vila?

Para discutir o lazer e cotidiano, houve a necessidade de dialogar com

alguns autores que escrevem dentro de uma perspectiva da nova história cultural.

Nessa perspectiva teórica Mafessolini23 afirma que; “a vida cotidiana se dá numa

relação de aparência”, Sendo o cotidiano um espaço de convivência diária dos

operários mineiros, por isso salienta-se que nessas relações de sociabilidade, a

“relação de aparência” que Mafessolini fala venha se manifestar.

Outras questões são levantadas por Mafessolini, como a idéia colocada

por ele de que “cria-se uma arte de viver que têm como centro a distância que

permite o jogo duplo”. Entretanto, será que a concepção de jogo duplo permeava as

relações entre operários mineiros e empresa mineradora estatal?

Para responder esta questão, salienta-se que além do jogo duplo, o autor

também fala também em astúcia. Para esse termo ele coloca como sendo “o

resultado das atitudes e das situações cotidianas” pois ao lado daquele que

transgride pode estar aquele que se conforma. Entendendo esse “conformismo”

como tática, astúcia, pois o autor, diz:

Vemos nascer uma série de práticas originais nas quais de maneira “fluida”
e sem agitação,cada individuo assegurar a soberania sobre sua própria
vida. é, portanto, na reduplicação, na pluralidade, que se situa a resistência
e não no choque frontal24.

3.2 O Recreio do Trabalhador como espaço de controle das famílias operárias.

23
MAFESSOLINI, Michel. A conquista do presente. Natal:Argos,2001.
24
Idem.
33

A construção de sedes recreativas foi comum nas vilas operárias

mineiras, assim como foram comuns em vilas operárias direcionadas a outras

atividades econômicas, diferentes da mineração. Maria Auxiliadora Guzzo de

Decca25 em seu estudo sobre o cotidiano dos operários em São Paulo entre os anos

de 1889 a 1940, afirma que “os meios operários foram vistos por instituições e

grupos dirigentes, desde os fins do século XIX, como extremamente perniciosos

para a ”moral e disciplina do trabalho” “(...). Hábitos operários no escasso tempo de

lazer eram considerados vícios e a recreação do operariado era considerada

“improdutiva”.

Desta forma Maria Auxiliadora G. de Decca pontua que “(...) edificaram

todo um sistema destinado à recreação de quem era necessário reter e controlar na

produção”. Sendo assim, além de necessário reter e controlar a mão de obra

operária era preciso um controle nas formas de lazer que esse operariado

desenvolvia. Então na busca desse controle, os capitalistas legitimaram toda “uma

retórica (...) de ”um lazer mais saudável e produtivo” para o operariado no sentido de

torná-lo mais “disciplinado e ordeiro”.

Nesta direção, a autora descreve as tentativas de “disciplinar o lazer“,

percebi nessa descrição questões presentes em meu objeto de estudo como o

patrocínio no futebol, ou seja, a empresa respaldava a formação de time de futebol

de várzea com a participação dos operários, pois essa tática ocorria também na vila

operária da Companhia Siderúrgica Nacional.

Como foi colocado anteriormente a construção do Recreio ocorreu dois

anos após a formação do “Itaúna Atlético clube” – IAC – este time de futebol

disputava campeonatos regionais, portanto, dentro das colocações de Maria

25
DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo. A vida fora das fábricas: Cotidiano operário em São Paulo
1920/1934. São Paulo: Paz e terra, 1987.
34

Auxiliadora, posso inferir que o futebol foi uma forma utilizada pela Companhia para

disciplinar o lazer e que a construção do Recreio como sede recreativa foi uma

forma de controlar, impor regras, moralidade, bons costumes, não somente aos

operários, mas também a sua família.

Penso que essa prática vem ao encontro com o que Michel Foucault 26,

que aponta como “instituições de normas, a naturalização de verdades, as

construções dentro das normas, que a verdade é colocada não no objeto, mas sobre

ele”.

O Recreio do Trabalhador abrigava um salão principal onde se realizavam

os bailes, salas de jogos, biblioteca, restaurante, e o bar. O bar do clube que

funcionava diariamente era o local de encontro dos operários após o expediente da

Companhia. Lá eles discutiam sobre o trabalho, futebol, as condições de vida, as

novidades da vila, e também combinavam a “boca pequena” a ida na “zona do

meretrício” da cidade vizinha, espaço visto como pecaminoso.

Os operários transgrediam as normas estabelecidas, e tinham

consciência disto, portanto utilizavam táticas de resistência que não se constituíam

em choque frontal, pois a prática de freqüentar a “zona do meretrício” foi encontrada

em outras vilas operárias da região carbonífera, como sugere o estudo da

historiadora Marli de Oliveira Costa27.

Em seu estudo, Marli de Oliveira Costa, aponta que em Criciúma, na Vila

Operária da Próspera “As mulheres dos mineiros apelavam para a autoridade do

padre para poder controlar o comportamento dos maridos”.

Isso vêm mostrar, nesses locais de lazer o preconceito de uma sociedade

que rotulava, apontava e punia aquele que não se “enquadrasse” no “padrão

26
Foucault, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de janeiro: Nau Ed.1996.
27
COSTA, Marli de Oliveira. “ Artes de viver” recriando e reinventando espaços – memórias das
famílias operárias mineira Próspera Criciúma(1945-1961). Dissertação –UFSC, 1999.
35

estabelecido” por essa sociedade que vigiava atos e ações dos indivíduos.

Margareth Rago28, nesta mesma direção, analisando o espaço das vilas operárias de

São Paulo coloca que nessas vilas “(...) estabelece-se todo um código de condutas

que persegue o trabalhador em todos os espaços de sociabilidade, do trabalho ao

lazer”.

Dessa forma salienta-se que no Recreio do Trabalhador as condutas dos

indivíduos, mais especificadamente das mulheres, era vigiada para julgar ou

condenar determinados comportamentos.

3.3 Preconceito no espaço de sociabilidade.

No entanto, o preconceito da sociedade não se limitava àquele que

estava fora do enquadramento de padrões estabelecidos. Outra prática

preconceituosa foi a da divisão étnica. Essa divisão não se evidenciou apenas no

Recreio do Trabalhador na Vila Operária da CSN, mas também em outras

sociedades recreativas da região mineira, segundo informações do senhor Osvaldo

Tancredo29, integrante da banda American Night, que animava os bailes na região

carbonífera. Na vila operária da Companhia, como reportam os narradores que

entrevistei da empresa mineradora, a divisão se dava por sede recreativa.

Por meio das entrevistas e de pesquisa nas atas do clube, verifiquei que

na vila da CSN foram construídas duas sedes recreativas; uma para os operários

não negros e outra para os operários negros. Em outras vilas, onde não havia duas

sedes, a separação entre negros e brancos nos bailes era feita por uma corda ou um

28
RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar: A utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 3ª. Ed. 1997. Cap. IV. A desvalorização do espaço urbano.
29
TANCREDO Osvaldo. Entrevista concedida em 07.03.2003.
36

tipo de cerca que marcava o limite de cada etnia, prática que ficou evidenciada em

trabalho anterior do grupo de pesquisa Memória e Cultura do Carvão30.

Esta separação no meio do salão onde se realizavam os bailes, conforme

informações do senhor Osvaldo Tancredo, na década de 1970 já não existia, foi

sustentada até meados da década de 1960. Posteriormente, o negro habitante da

vila operária que não tivesse duas sedes, precisava se deslocar para a vila que

oferecia um clube para negros ou freqüentar os salões de baile de particulares. O

que demonstra que a empresa mineradora reforçava a divisão étnica quando

construía duas sedes recreativas.

Junto com a construção do Recreio do Trabalhador, criou-se uma sede

recreativa chamada União Mineira para lazer dos operários negros, no entanto esta

sede não teve uma construção específica e transformou-se uma casa de moradia da

vila em sede recreativa.

Durante a pesquisa, alguns entrevistados falaram desta separação, sendo

que cada um expressava sua opinião e, a cada opinião uma nova leitura da

sociedade era vivenciada. Na entrevista do senhor Gilson Martins31, que foi o

primeiro presidente do Recreio do Trabalhador, pontuou-se que a construção de

uma sede específica para os negros foi uma solicitação dos próprios negros, porque

esses não se “sentiam bem em freqüentar o mesmo lugar que os brancos”.

Nesta direção, no oficio de no. 1 de 05.12.1952 enviado ao senhor

Fernando Fonseca de Araújo, chefe do DSS/S (departamento de serviço social

setor) de Siderópolis comunicando a decisão de se construir sedes diferenciadas,

encontra-se que:

30
BERNARDO, Roseli. O tempo e os espaços de entretenimento das famílias operárias mineiras. In:
Memória e Cultura do Carvão em Santa Catarina. Ed. Cidade Futura.
31
MARTINS Gilson. Ex-funcionário da CSN e membro da diretoria do Recreio do Trabalhador.
Entrevista concedida a Roseli Bernardo em 31.08.05.
37

A terceira sede foi estabelecida, não tanto pela distância, mas


especialmente pela insistência dos homens de cor em ter uma sede onde
pudessem manter suas atividades sociais em Siderópolis, já que se sentem
deslocados entre os restantes serventuários. Toda argumentação
apresentada por nós foi vencida por esta afirmação. Os homens de cor
ficariam privados de festas e bailes, pois definitivamente não freqüentariam
as outras sedes. Acreditamos que, (...) gradativamente poderemos eliminar
em Siderópolis esta separação instável de cores. Não encontramos outra
solução no presente, pois é certo que a união forçada não nos aproximará
da solução almejada.

Esse documento pode ser analisado de duas formas a partir das reflexões

de Mafessolini32. A primeira, mostra que a posição dos negros em relação a ter um

clube recreativo próprio implicava em tornar uma situação de discriminação em

tática de resistência, que não era o choque frontal, mas que lhe garantiria uma certa

soberania sobre sua própria vida; a segunda diz respeito, as ações daquele que

domina, como podemos perceber no documento acima, que oculta uma prática não

legítima, mas naturalizada como tal, ( discriminação racial) muito freqüente no

período em questão, e que ainda se evidenciam na sociedade.

Portanto, os vestígios mostrados pela fonte pesquisada deixam um viés

para estudos posteriores, para serem cotejados com outras fontes, de uma questão

vivenciada e experimentada por homens e mulheres que traziam na cor de sua pele

a marca da diferença, num período onde as diferenças eram vistas como

inferioridades.

É importante ressaltar que além do preconceito étnico presente nesta

sociedade, as mulheres também eram alvos de vigilância e punição, pois vigiava-se

o namoro dentro da sede recreativa, e puniam-se as mulheres acusadas pelos

homens, de não serem mais “direitas”.

Nesta direção, as palavras de seu Gilson Martins evidenciam o controle

da sociedade sobre os indivíduos: “(...) uma moça quando tinha relação com o

namorado não entrava mais no clube”. Quando questionado sobre essa afirmação
32
MAFESSOLINI, Michel. A Conquista do Presente. Natal: Argos, 2001.
38

em relação à moça mencionada ele respondeu: “(...) o lugar era pequeno e todo

mundo sabia”.

Numa outra situação falada pelo entrevistado, ficou evidente que as

normas colocadas pelo clube não tinham respaldo legal. Gilson Martins pontua que:

Um casal chegou para entrar no baile, e já passava da meia noite. O fiscal


barrou na porta. A gente sabia que a moça não era direita. Não ia deixar
entrar. Só que a moça foi dar parte no juiz em urussanga. O fiscal foi
chamado pelo juiz para dar explicações. Foi instruído a dizer para o juiz que
ela não entrou porque já passava da meia noite e o rapaz não era sócio do
clube.

Outro momento lembrado pelo senhor Gilson Martins foi à tentativa da

diretora social, uma assistente social vinda do Rio de Janeiro para trabalhar na CSN,

de interferir nas normas de conduta do clube:

(...) tinha dona Vilma que era diretora social, veio do Rio. Ela queria botar
uma moça lá a força, que essa moça entrasse. Essa moça já tinha tido um
caso com um rapaz. O problema foi eu com ela. Eu conversei, eu não sou
contra, não tem nada. Mas se a senhora botar essa moça lá no salão, ela
entra numa porta e as outras vão todas embora.

Perguntei então o motivo alegado pela assistente social para tal tentativa,

e a resposta foi “a dona Vilma queria integrar essa moça na sociedade”. Desta forma

percebe-se que o entendimento de sociedade de dona Vilma transcendia a

realidade vivenciada por aquela comunidade.

3.4 No espaço cultural

Não posso deixar de mencionar que no Recreio do Trabalhador também

se assistia cinema. Na entrevista com o Sr. Osvaldo Tancredo ele contou como

funcionava o cinema:

A CSN também no final dos anos 60 adquiriu máquinas e colocava-se uma


tela, era cinemascope, tela menor que subia e descia. Lá nós assistíamos a
semana toda cinema. Tínhamos, inclusive, uma programação mensal dos
filmes. E nos finais de semana quando não tinha baile, o cinema funcionava
(...)
39

Outra afirmação neste sentido diz que:

(...) o Recreio do Trabalhador apresentava sessões às noites de terça–feira,


quinta-feira e sábado quando não aconteciam bailes. Haviam seriados
tradicionais, (...) dos mais variados tipos. Filmes brasileiros eram uma
constante, principalmente as “chanchadas”.33 (...).34

A implantação de cinema na sede recreativa, como espaço de

entretenimento, pode ser entendida como estratégia para evitar que a família

operária mineira saísse da “Vila Operária” para assistir os filmes no cinema do

centro da cidade ou outras atividades.

Essa estratégia de controle era por diversas vezes ludibriada pelos

operários, porém a Cia controlou essa subversão ao ceder um ônibus da empresa

para levar os operários a assistirem o cinema no centro da cidade. Percebi, então

que a concepção de “jogo duplo” colocada por Mafessolini permeava as relações

entre o operário mineiro e empresa mineradora estatal, pois a empresa assumia

uma “pedagogia paternalista” ao colocar o transporte a disposição dos operários,

mas com o intuito de vigiar, mas, o operário garantia a soberania sobre seus atos,

na intenção de não se deixar moldar.

3.5 No interior do Recreio acontecia...

33
Chanchada – filmes, peças ou espetáculos com sátira e deboches.
34
BERNARDO, Rosania Terezinha. Movimentos Culturais: Tradições transformadas.
Especialização em Metodologia de Ensino e Pesquisa em Educação Artística. Faculdades Integradas
de Amparo. 2001.
40

No filme “Narradores de Jave”,35 os moradores da pequena cidade

precisavam visitar suas memórias e encontrar a história dos primeiros moradores.

Nessa história a cidade precisava provar que tinha um valor de patrimônio histórico ,

pois somente assim a cidade estaria livre de ser inundada com a represa da

hidrelétrica que ali viria se instalar.

Da mesma forma, os narradores de Fiorita, contam suas lembranças,

talvez na tentativa de alimentar um passado que (...) não reconhece o seu lugar,

está sempre no presente” 36, passado que marcou a vida de meninos e meninas -

jovens - que viviam numa vila com regras de condutas elaboradas por adultos, e

muitas vezes, não entendido e portanto ludibriado pelos adolescentes. Era o

namoro, a paquera, os olhares enamorados, tudo muito discreto, pois a censura era

atuante.

Além da censura e disciplina existia no Recreio regras de formalidades na

elaboração de seus eventos. Por exemplo, para a realização de um baile, era

escolhido um tema específico e a temática selecionada era acompanhada da

indumentária dos participantes, da decoração do salão, e do uniforme da banda, ou

seja, os músicos da banda, necessariamente teriam que estar vestidos de acordo

com o tema do baile.

Em entrevista com o professor Kika 37


, os bailes lembrados foram de

debutantes, com o traje social (camisa, gravata, paletó – vestido longo, cabelos

alinhados, maquiagem), o baile junino, no qual a peça que não poderia faltar era o

lenço no pescoço, que era vendido junto com o bilhete de entrada para aqueles

desavisados, na secretaria do clube. Havia também o baile de carnaval, com blocos

carnavalescos, que fantasiados faziam coreografia no salão.

35
Narradores de Jave. Drama. Direção: Eliane Caffé. Lançamento 2003. Distribuição: Riofilme.
36
QUINTANA, Mario. Da Riqueza de Estilos. Caderno H. Porto Alegre: Globo, 1983.
37
ROSSO, Rosemar Romualdo -entrevista concedida a Roseli Terezinha Bernardo em 07.10.05.
41

Durante a entrevista o professor lembrou de um momento específico dos

bailes: o intervalo. Esse momento comentado pelo professor que como músico,

tocava nos bailes do Recreio do trabalhador, era o momento de chegar perto da

menina que se estava namorando, pegar nas mãos, conversar, sendo no intervalo

que os jovens com interesses comuns aproveitavam para se conhecer, conversar, e

muitas vezes, tentar sair do salão para um namoro mais quente e discreto.

Essa tentativa que se entende como burladora, aparece na fala do senhor

Gilson Martins como “difícil de acontecer”, pois a vigilância exercida pelos diretores

do clube, não permitia a saída de casais de namorados, ou então de moças

sozinhas, a não ser para ir embora.

Neste contexto, Edson Bernardo38, morador da comunidade de Rio Fiorita,

e colaborador da pesquisa, relatou em sua entrevista que os pais deixavam as filhas

na porta do clube e a partir dali a responsabilidade na vigilância com as garotas

recaia sobre dos diretores. Essa prática era vista como confiança mútua entre os

habitantes daquela localidade, ou seja, o zelo pelo ser querido é estendido para

além das quatro paredes do lar e da família.

No entanto fica evidenciado que as normas eram de alguma forma

transgredidas, visto que um número considerável de penalidade foi registrado,

principalmente durante a década de 1980, tendo como motivo “(...) ter praticado ato

indisciplinar não aceitável pela sociedade, durante o transcorrer do baile (...)”.

Encontrei essa penalidade citada imposta a uma moça, cujo nome por motivos de

ética não será citado nessa monografia .

38
BERNARDO, Edson. Foi diretor do Recreio do Trabalhador no final dos anos 1970 e meados de
1980. Entrevista concedida em 20/10/05.
42

A vigilância também era exercida pela polícia, pois nas fontes encontrou-

se registro de diferentes períodos solicitando policiamento tanto no futebol como nos

bailes.

A pesquisa mostrou, ainda uma ativa participação dos moradores nas

atividades disponíveis no Recreio. Num dos relatórios do ano de 1964 consta que

de julho a dezembro houve 1.546 participantes no jogo de snoocker, 579 de ping

pong, 530 de dama, 5.223 de dominó, e 131 freqüentaram a biblioteca.

O fato de o Recreio possuir uma biblioteca chamou a atenção e foi

surpreendente constatar que essa biblioteca possuía algumas obras, ainda hoje,

consideradas clássicas, por exemplo: Os Miseráveis de Vitor Hugo, Germinal de

Emile Zola, ou então obras de Alexandre Dumas, Miguel de Cervantes, Julio Werne,

Shakespeare. Num levantamento feito em 31.12.1959, essa biblioteca possuía 657

livros.

Outra informação relevante diz respeito a assinatura de um jornal

chamado “Atualidades Francesas”, pois encontrou-se um oficio solicitando a

permissão para essa assinatura, colocando que era do interesse dos empregados

ter esse informativo a seu dispor. Essa informação pode ser indício do desejo de

alguns operários que estavam em processo de alfabetização, pois segundo as

fontes em 1959 o curso de alfabetização contava com 24 inscritos.

Entre as atividades que aconteciam no Recreio do Trabalhador, duas

foram registradas na entrevista com o senhor Valmir Cardoso, Dona Joaquina, sua

esposa e a vizinha Dona Laura Bittencourt39.

39
Valmir Cardoso, Joaquina Cardoso e Laura Bitencourt. Entrevista concedida a Roseli T.Bernardo
em 17/04/04, Siderópolis.
43

O senhor Valmir comenta que “passava muitos filmes bons. Vinha artista

de fora aqui no Recreio, eles faziam aquelas festas; a siderúrgica mandava buscar

os artistas, vinha mágico... (...)”.

Dona Laura lembra:

(...) veio às mulatas do Sargenteli aqui (...) uma vez passei vergonha porque
elas foram todas passar o rio e iam puxando a roupa para não molhar na
água, e eu tava com medo, porque eu tava com o Francisco e tinha o
compadre Gregório e eu tinha vergonha que elas estavam levantando o
vestido”.

A observação de Dona Laura deixa margem para pensar-se que as

mulatas do Sargenteli usavam saias compridas, mas será que era desta forma que

se apresentavam no palco?

Outro episódio lembrado foi à vinda do professor de hipnotismo Rosman,

em 1958. Uma das lembranças que trouxe o sorriso nos rostos dos narradores foi o

comentário jocoso sobre o assunto “a mulher do engenheiro Álvaro dançava no

palco, (hipnotizada) porque ele hipnotizava”.

O Senhor Valmir lembra que “(...) Tinha matiné, as crianças iam o

matiné”. Porém não era somente nos matinés que as crianças iam, pois nos bailes

noturnos elas também participavam. Essa participação acontecia pelos olhares

através das janelas aonde as meninas que iam em companhia das moças, que por

algum motivo não adentravam no clube, ficavam na ponta dos pés ou através das

frestas da porta de vidro, por entre a cortina vermelha entreabertas ou não,

observando o baile. Essa observação permitia o olhar curioso de garotinha e sua

imaginação em conhecer um pouco do mundo adulto.

Essas lembranças estão cristalizadas na memória da narradora Sonia

Sebben 40, que ainda se emociona em recordá-las, diz ela:

40
SEBBEN Sônia Maria B. Ex-moradora da comunidade. Entrevista cedida em 20.10.05
44

(...) eu lembro que eu ficava pendurada, a janela era bem alta daí tinha uma
beiradinha, eu subia ou então a gente levava um toco de madeira e botava
para subir em cima para enxergar dentro do recreio e às vezes ali tem a
parte que era porta só que as caras botavam aquela cortina vermelha que a
gente não conseguia ver nada (...).

Esses momentos de lembranças emocionadas, incorporadas, recontadas

são refeitas quando o provocador da memória, é visto e sentido não apenas como

uma construção material, mas como um “lugar de memória”.

Nesta direção é importante mencionar as ocasiões de comemoração de

aniversário da Companhia. Observe-se que no dia 9 de abril de 1962, foram

expedidos convites com os seguintes dizeres:

Carta convite
A Cia Siderúrgica Nacional convida os seus empregados e suas exmas
famílias para as festividades de seu 21º aniversário, a serem realizadas em
Siderópolis conforme programação abaixo:
Dia 8 - 20h: partida de voleibol entre as equipes da Vila residencial X
Beluno, em disputa de jogo de camisa. Dia 9 -8h celebração do santo oficio
da missa na capela de Santa Bárbara. As 9:30 entrega de prêmios aos
empregados que completaram 10 anos de bons serviços prestados a CSN
no Recreio do Trabalhador. As 11h coquetel no Recreio do Trabalhador aos
empregados e autoridades. 14h Hora da arte no recreio. 15:30 jogo
amistoso (obs: com portões abertos), as 18h sessão cinematográfica
gratuita no recreio, para menores de 14 anos. As 20h sessão
cinematográfica gratuita para os empregados e dependentes maiores de 14
anos.

A leitura deste convite, assim como outros documentos pesquisados do

clube deixaram dúvidas em relação a gratuidade de algumas atividades recreativas

oferecidas pela Cia no Recreio do Trabalhador. Observe-se que se em dia de

festividades anunciavam a gratuidade das atividades no Recreio do Trabalhador,

como exemplo a entrada no cinema, como consta na carta convite, pode significar

que em outras ocasiões, os operários pagavam para participar das mesmas; idéia

que não encontra respaldo nos entrevistados, mas que as fontes escritas trazem

fortes indícios.

Como exemplo, pode-se citar os brinquedos encomendados pela Cia

junto à “Manufatura dos Brinquedos Estrelas S. A“, para os pais presentearem as


45

crianças no natal que eram descontados na folha de pagamento, no seu valor

integral, inclusive com frete, imposto, embalagens, e também “(...) os impostos

devidos a CSN para desconto na folha do mês de dezembro”.

Portanto, se os brinquedos eram pagos, para as crianças pouco

importava, afinal era natal! A música que tocava no alto-falante do Recreio do

Trabalhador logo pela manhã, não deixava dúvidas. Toda a comunidade acordava

com o som natalino. Edson lembrou que os alto falantes colocados na parte externa

das paredes do Recreio permitiam que o som ou a música natalina chegasse em

todos os lares da comunidade, acordando crianças e adultos lembrando a todos do

nascimento do menino Jesus.

Segue uma seqüência de fotos que mostram as situações feitas no

decorre deste estudo:

Figura 18: Homenagem ao dia dos pais (12/08/1962)

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão


46

Figura 19: Semana da criança (16/10/1959)

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

Figura 20:Semana da criança (1959)

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

Figura 21: Baile Junino (1968)

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão


47

Figura 22: Baile de Carnaval (Fev de 1965)

Fonte: Arquivo Histórico de Tubarão

Figura 23: Carnaval infantil (anos de 1970)

Fonte: Arquivo Particular de Gilson Martins.

Figura 24: Baile de Debutantes (Anos de 1960)

Fonte: Arquivo Particular de Gilson Martins.


48

Figura 25 :Baile de Debutantes (Anos de 1960)

Fonte: Arquivo Particular de Gilson Martins.

Figura 26: Comemoração do natal no Recreio do Trabalhador

Fonte: Arquivo Particular de Gilson Martins.


49

Figura 27: Atividade no Recreio do Trabalhador

Fonte: Arquivo Particular de Gilson Martins.


50

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A família operária da Vila da CSN em Siderópolis criou, recriou,

participou, elaborou, reelaborou, as mais variadas formas de lazer no Recreio do

Trabalhador. Na vila a comunidade construiu uma rede de sociabilidade por meio

deste espaço que a empresa criou num referencial de paternalismo. A condição de

operário da CSN criou uma identidade que julgava privilegiada em relação aos

operários de outras carboníferas.

No entanto esse envolvimento, esse entrelaçamento daquela comunidade

foi vítima do tempo e o tempo não pára, deixou as lembranças, a saudade, e seguiu

adiante. Por motivos diversos muitos alçaram outros vôos, jovens foram em busca

de outras oportunidades, aposentados voltaram para as cidades de onde vieram

quando jovens, outros permanecem na localidade.

A Cia foi extinta no final dos anos de 1989, por determinação do governo

Fernando Collor de Melo e atualmente parte do local que comportava o complexo da

CSN foi reconfigurado, reelaborado para outras funções, outras representações

gerenciados pela iniciativa privada. A construção que abrigava o escritório central

esta fisicamente abandonada. As ruínas deste local retratam ações de uma

sociedade pragmática e utilitária que abandona os lugares quando, na concepção

desta sociedade, esses lugares já não lhes são mais úteis.

O Recreio do Trabalhador, após um período de abandono, foi apropriado

pela comunidade que lhe devolveu o uso para o lazer. Outra geração, outros jovens

estão colocando no Recreio do Trabalhador seu jeito de viver, estão o adaptando ao

seu modo de vida, redefinindo a memória coletiva daquela comunidade.


51

Entretanto, quando fazem uso do Recreio, em momentos de lazer,

inconscientemente ou não provocam lembranças, David Lowenthal41 afirma que

estamos constantemente em contato com algum momento do passado, pois “(...)

somente concentração intensa numa ocupação imediata pode impedir o passado de

vir espontaneamente à mente”.

Desta forma os narradores de Fiorita, seguem contando sua história.

História que não fica dissociada da Companhia Siderúrgica Nacional, na memória

daqueles que com ela conviveram em seu cotidiano, a voz de Eclea Bosi 42 ecoa “As

lembranças (...) tem assento nas pedras da cidade”. “As pedras da cidade, enquanto

permanecem , sustentam a memória”.

Quantas lembranças ficaram adormecidas! Quantas foram recordadas!

A memória é assim, seletiva. Homens e mulheres que trazem suas

íntimas vivências que pertencem ao passado, mas que se manifestam quando são

instigadas, quando lhe é oferecida a oportunidade de refazê-las.

Portanto, preservar o Recreio do Trabalhador como patrimônio histórico é

dar visibilidade às lembranças, é preservar um patrimônio imaterial que nos permite

a condição humana: a memória.

41
LOWENTHAL, David. Como conhecemos o passado. (tradução de Lucia Haddad). Projeto
História/PUC. São Paulo, 1998. Pág. 64.
42
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembrança de velhos. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 1987.
52

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Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v.23, n 8, p.16-32, 1993.

Documentos do acervo do Recreio do Trabalhador e do acervo do grupo de


pesquisa Memória e Cultura do carvão.

Nota de fornecimento material.


Requisições de compras de materiais da sede recreativa Recreio do Trabalhador.
Recibos de pagamentos por serviço prestado à sede.
Autorização para desconto em folha de pagamento dos serventuários da CSN.
Programação de atividades mensal / anual do Recreio do trabalhador
Inventário de bens do Recreio do Trabalhador
Ofícios enviados e recebidos.
Convocações
Correspondências recebidas pela sede recreativa.
Anúncios publicitários.
Punições a sócios do Recreio do Trabalhador.
Ficha de bufet do restaurante e bar do Recreio do Trabalhador.
Ata do Itaúna Atlético clube.

Entrevistas

BERNARDO, Edson. Ex-funcionário da CSN. Foi diretor do Recreio do Trabalhador


no final dos anos 1970 e meados de 1980. morador de Siderópolis. Nasceu em
Siderópolis em 31/07/1957.Entrevista concedida a Roseli T. Bernardo em 20/10/05.

BITENCOURT, Laura. Moradora da comunidade de Rio Fiorita. Nasceu em Imaruí


em 14/05/1928. Entrevista concedida a Roseli T.Bernardo em 17/04/04.

CARDOSO Joaquina da Rocha. Esposa de Valmir Cardoso. Nasceu em Maracajá


em 08/03/1934.
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CARDOSO,Valmir Cardoso. Ex-funcionário da CSN. Morador da comunidade de Rio


Fiorita, nasceu Imbituba em 11/05/1934.
MARTINS, Gilson. Ex-funcionário da CSN e Foi primeiro presidente do Recreio do
Trabalhador. Nasceu em Imbituba em 18/05/1923. Entrevista concedida a Roseli
Bernardo em 31.08.05.

ROSSO, Rosemar Romualdo. Diretor da E.E.B. Sílvio Ferraro. Morador de


Siderópolis. Nasceu em Siderópolis em 14/02/1959. Entrevista concedida a Roseli T.
Bernardo em 07.10.05.

SEBBEN, Sônia Maria B. ex-moradora da comunidade de Rio Fiorita, nasceu em


Siderópolis em 01/11/1955 . Entrevista concedida em 20.10.2005, para Roseli
T.Bernardo.

TANCREDO, Osvaldo.Morador de Siderópolis. Foi musico da banda American Night


de Siderópolis. Nasceu em 25/09/1945 Entrevista concedida a Roseli T.Bernardo em
07.03.2003