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COMENTARIO DO NOVO TESTAMENTO Mateus Volume 2 WILLIAM HENDRIKSEN COMENTARIO DO NOVO TESTAMENTO WILLIAM HENDRIKSEN ENC a ese eM OAC os een O MCU Cn asec (ae a uel nd Dn ee oN eee Oe Re cuer mUM tenon rece M ai com OS encase sa Road SU om cree Cue One Mle OMe as Melt Cea ee Sennen ecm en Lea pesquisa, e o leitor em geral, inspitacio para a vida crista, Caracterfsticas Notaveis Introdugao ee eC Ree noc RoR ed car escent Coe en) COUR Me CIMT eC le Ulu CRC cer a cme Mo Lemar ONC co uamMc Ue eCe gs) Pron Oe AT ay ean eee aU TCM ea cee na ced eRe aay Nova tradugéio fOr PMc n USCaCOn ae OMe CoeueL CCM nO CM Ice in mere (ee OM tt TOU Cem Crem (OR Co Cce) LST eee Ce N Cen era nO TC Tie R Sone eMe Mee COREL UM Cire) a Cace ts oM cme ATT usta Po Een ae eee eRe ee oat annie tt mee oT too ics Lereseotsete-be le) LONE CO RM RE R mca ean Rar Gnas uence ody retiie a cea esl Careel nen rio lo texto biblico um valiose instrumento de trabalho, seja para o erudito, seja para o leitor em geral. Resumo ren Re oer emt on oe enc mT Te ee ST oom Ma od versiculos e os paragrafos; em seguicla, ao término de cada unidade de pensamento, a maneira de Sic ce eC ESRC CCC Un Gee Onna) ence eeu ncaa Esbogo fe oc IM Ca Mos Coe Og eco RD eS ec nea ee tc here oe Ren Oa Deca Macnee MeN M ed UeniTe a O NACo Notas criticas ACRE Cae ene ee ee he ee arom Lancome eae) completo ¢ adequado do texto: isto é feito de forma paralela ao comentario: para que o leitor em geral possa seguir seu curso sem dificuldade Teologia Met eae OL ene al Pets eee te noun nena nna Te eMC ee Rene em SU One CCR Mace Coa nM Pee cee ecg SCE ToC Obst is | ' ear ee rea neeyis ee eC m eee CAM aue a octets kar a rito de profunda piedade cristé. O leitor se sentiré, com frequéncia, arrebatado aus pincaros da comunhio como Deus da Revelagio, cujo insondavel amor nos deu Cristo, a gléria eterna da Igreja. © 2000, Editora Cultura Crista © original desta obra foi publicado por Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, U.S.A.. sob o titulo New Testament Commentary. Exposition of the Gospel -lccording to Mathew. Os direitos para publicagao em lingua portuguesa foram cedides por Baker Book House a Editora Cultura Crista. I‘ edigdo em Portugués — 2001 3,000 exemplares Tradugdo: Valter Graciano Martins Revisao: Gordon Chown Claudete Agua de Melo Editorugdo: Rissato Capa: Expressdo Exata Impressio e Acabarmento ‘Assabi Griffon e Editor. Publicugay apruvada pelo Cousctho Editorial: Claudio Marra (Presidente) Aproniano Wilson de Macedo Augustus Nicodemus Lopes Femando Hamilton Costa Sebsstido Bueno Olinto Rua Miguel Teles JUnior, 382/304 - Cambuct (01540-040 - Sao Paulo - SP - Brasil C Postal 15.136 - Cambuci - S40 Pauio - SP - 01699-970 Fone: (0°11) 270-/0aH - Fax: (0°11) 2791255 wwww.cap.o7g.br - cap@cep.org.b Superinterdente: Vaycraldo Ferreira Vargas Editor: Claudio A.B, Marra INDICE Relagdo de Abreviaturas ..0......cccesesecescseeeeeereeecneeenees 5 Capitulo 12 9 Capitulo 13 - Terceiro Grande Discurso . 63 Capitulo 14... Nz Capitulo 15.1-20... 149 B. O Retiro e os Ministérios em Peréia oo.cccc 168 Capitulo 15.21-39. 169 Capitulo 16 187 Capitulo 17 227 Capitulo 18 — Quarto Grande Discurso 255 Capitulo 19 295 Capitulo 20 329 II. Seu Climax ou Culminagdo Capitulos 21-28.20 ... 359 A. A Semana da Paixdo 360 Capitulo 21 361 Capitulo 22 405 Capitulo 23 - Quinto Grande Discurso ..... 441 Capitulos 24, 25 — Sexto Grande Discurso 479 Capitulo 26 we. $53 Capitulo 27 619 B.A Ressurreigdo.... 682 Capitulo 28 .... 683 ‘’ Bibliografia Selecionada 707 Bibliografia Geral ........ 709 MATEUS Volume J Relagao de Abreviaturas .. Introdugao aos Evangelhos ]. Introdugdo aos Quatro Evangellios Mateus, Marcos, Lucas ¢ J080 0. IL. Introdugao aos Tres Evangelho Mateus, Marcos e Lucas (os Sindticos) .. A. Sua Origem (0 Problema Sindtico, B. Sua Confiabilidade Introdugdo ao Evangelho Segundo Mateus .. I. Caracteristicas ......... Il. Autoria, Data e Lugar Ill. Propésito .... : “ TV. Tema @ Esb0G0 o.....eecccsssesseeeeneessnnecescenseeneennensernns TEMA GERAL: A obra que lhe deste para fazer ... 1. Seu inicio ou Inauguragao Capitulo 1 . Capitulo 2 . Capitulo 3 . Capitulo 4.1-11 Il. Seu Progresso ou Continuagao Capitulos 4.12—20.34 A. O Grande Ministério Galileu - Capitulo 4.12-25 .. a Capitulos 5—7 — Primeiro Grande Discurso . Capitulos 8, 9 .. Capitulo 10 - Segundo Grande ‘Discurso Capitulo 11 15 15 82 117 119 137 145 147 151 151 153 aN 275 309 331 332 333 355 543 629 681 RELACAO DE ABREVIATURAS — —-© ee ee As abreviaturas de livros da Biblia so aquelas da tradugao Almeida Revista e Atualizada no Brasil. As letras usadas em abreviaturas de outros livros sfo seguidas de pontos. Nas abreviagées de periddicos naéo constam pontos e elas esto em itdlico. Assim € possivel distinguir de relance se a abreviatura se refere a livro ou periddico. A. Abreviagées de Livros ARV. AY. C.N.T. Gram.N.T. (BL.-Debr) Grk.N.T. (A-B-M-W) ISB.E. L.M.T. (Th) LNT (A. and G.) American Standard Revised Version Authorized Version (King James) A.T. Robertson, Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research F. Blass and A. Debrunner, 4 Greek Grammar of the New Testament and Other Early Christian Literature The Greek New Testament, organizado por Kurt Aland, Matthew Black, Bruce M. Metzger, and Allen Wikgren International Standard Bible Encyclopedia Thayer’s Greek-English Lexicon of the Testament W. F. Amdt and F. W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature 5 M.M. N.AS.B. (N.T.) NN N.E.B. N.T.C. R.S.V. S.BK. S.H.E.R.K. ThD.N.T. W.B.D. W.H.A.B. B. Abreviaturas de Periédicos ATR BG BIRL Br BW BL CT CTM EB EQ ET MATEUS The Focabulary of the Greek Testament Ilustrated from the Papyri and Other Non-Literary Sources, Exp por James Hope Moulton and George Milligan GIT New American Standard Bible (New Testament) JBL Novum Testamentum Graece, organizado por D. JR Eberhard Nestle, revisado por Erwin Nestle e Kurt JTS Aland New English Bible NedTT W. Hendriksen, New Testament Commentary NTStued Revised Standard Version Strack and Billerbeck. Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch The New Schaff-Lerzog Encyclopedia of Religious PTR Knowledge RSR Theological Dictionary of the New Testament th (organizado por G. Kittel e F. Friedrich, traduzido TAG do Alemao por G. W. Bromiley Westminster Dictionary of the Bible TR Westminster Historical Ailas to the Bible TS TSK TT Anglican Theological Review WIS Bibel und Gemeinde ZNW Bulletin of the John Rylands Library Bible Translator Biblical World Biblische Zeitschrft Cuadernos teolégicos Concordia Theological Monthly Estudios biblicos Evangelical Quarterly Expository limes 6 MATEUS The Expositor Gereformeerd theolugisch tijdschrift Journal of Biblical Literature Journal of Religion Journal of Theological Studies Nederlands theologisch tijdschrift New Testament Studies; an International Journal publicudo trimestralmente sob os auspicios da Studiorum Novi Testamenti Societas Princeton Theological Review Recherches de science religieuse Theology: A Journal of Historic Christianity Theologie un Glaube Theologia Reformada Theologische studién Theologische Studién und Kritiken Theologisch tjdschrift Westminster Theological Journal Zeitschrift fiir die neutestamentliche Wissenschafi und die Kunde des Urchristentums Essoco po Capituto 12 Tema: 4 Obra Que lhe Deste Para Fazer 121-14 Q Filho do Homem Assevera Sua Autoridade como Senhor do Sabado 12.15-21 0 Servo Escolhido 12.22-37 Milagres de Cristo: Prova do Dominio de Belzebu ou de Sua Condenagao? 12,38-45 Repreendida a Avidez por Sinais 12.46-50 A Mae e os Irmios de Jesus CaPiTuLo 12 MATEUS 12.144 I ) 1 Ora. naquele tempo Jesus, no sabado, passou pelos cam- pos de cereal. Seus discipulos estavam famintos, e comegaram 4 colher espigas de gros e a comé-las, 2 Os fariseus, porém, vendo-o. disse- ram: “Olha, teus discipulos estéo fazendo 0 que nao € permitido aos saba- dos.” 3 E ele lhes disse: “Vocés nao leram o que fez Davi quando ele e os que com ele estavam tiverain forme? 4 como entraram na casa de Deus ¢ comeram o pao consagrado, o qual nem ele nem aos que com ele estavam era permitide comer. scnéo somente os sacerdotes? 5 Ou vocés ainda ndo leram na lei como no sdbado os sacerdotes, no templo, transgridem o saba- do sem serem culpados? 6 E eu thes digo que aqui est4 algo maiar que o templo. 7 Contudo, se vocés tivessem conhecida isto: *misericérdia quero, e naa sacrificio’, nao teriam condenado inocentes. 8 Porque o Filho do ho- mem é Senhor do sabado.” 9 Ele saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 E ali estava um homem com a mao atrofiada! “E certo curar no sabado”?, perguntaram-Ihe [a Je- sus], procurando um motivo para acusa-lo. 1] Ele thes disse: “Qual de vocés, tendo uma ovelha, ¢ ela, no sdbado, cair numa cova, ndo a apanhard ¢ a tirard de 14? 12 De quanto maior valor é um homem do que uma ovelha! Portanto, é certo fazer o bem no sabado™. 13 Ent&o disse ao homem: “Esten- da sua mao.” Ele a estendeu, e ela foi restaurada, ficando como a outra. 14 Os tariseus, porém, sairam € tomaram consetho contra ele sobre como 0 destruiriam. 12.1-14 O Filho do Homem Assevera Sua Autoridade como Senhor do Sabado Cf. Marcos 2.23-3.6; Lucas 6.1-11 Entre o final do capitulo 11 ¢ 0 inicio do capitulo 12 ha uma dupla conexdo. Primeiro, a frase “naquele tempo” de 12.1 9 121-14 MATEUS lembra 11.25. Embora as palavras sejam bastante indefinidas, clas indicam que os eventos introduzidos nav podiam estar muito afastados uns dos outros quanto ao tempo."”' FE, segundo, quan- to ao contetido material, o “fardo” do legalismo imposto, do qual Jesus prometeu libertar a tantos quantos viessem a ele (11.28-30) recebe uma dupla ilustragaéo em 12.1-14, passagem que subentende que nos ombros do povo fora colucado pelos escribas e fariseus uma pesada carga de regras ¢ preceitos. 1. Ora, naquele tempo Jesus, no sdbado, passou pelos campos de cereal. Os graos, segundo parece, estavam amadu- recendo. Esse processo, variando com a altitude do local, se dava durante um periodo que se estendia desde a primavera do ano até meados do verdo. Na Palestina, no calido Vale do Jord&o, a ccvada amadurece durante o més de abril: na Transjordania ¢ na regido oriental do Mar da Galileia, 0 trigo é colhido em agos- to. Nao esta expresso no texto exafamente quando Jesus € seus discipulos passaram pelos campos de graos. O local ¢ ainda mais indefinido do que o tempo. A sugest&o de A. T. Robertson, de que o fato ocorrcu “provavelmente na Galiléia, no regresso de Jerusalém”, pode ser t4o boa quanto qualquer outra conjctura."” Mas nao passa de uma conjetura. WW Jogo ainda seria procedente. mesmo que © que se acha registrado em 12.1-21 houvesse ocorride pouco tempo anes da pregagao de Sermao do Monte. Por exemplo. mesmo que as conirovérsias sobre 0 sdbado, registradas em Jo 3 ¢ Mt 121-14, seguissem ima 4 ontra numa suvessao bastante estreila ¢ ocorressem em abril e principios de maiv, ¢ mesmo que a pregagdo do sermio ¢ os eventos registrados no capitulo 11 ocorressem algum tempo em fins de maio até jutho. Mateus ainda seria plenamente justificado em descrever tados esses eventos como tendo acontecido “naguele tempo”. Essa bem que poderia ter sido a estaga maveraa meio verao do ano 28 d.C.”. Ver A. T. Robertson, Harmony of the Gospels. pp. 42-55. £ ver C.N.T. sobre o Evangelho Segundo Joao. Vol. 1. pp. 188,189. Com referéncia a essa cronologia. muito pouce pode ser estabelecide com certe~ za, Em seu favor estao estes fatos: a. Jo 5.1.16 pressupoe que a primeira das controvérsias acerca do sabado se dera depois de uma festa” (provavelmente uma Pascoa, ¢ se assim foi. nao a primeira Pascua do ministério de Cristo: para isso ver Jo 2.23): b. Lucas 6.11.12 pressupoe que a iidrinu das trés controsérsias foi seguida pela pregayaw do Sermao do Monte: ¢ ¢, Mateus: 12.1 mostra que o seguede conirovérsia acerca do sibado ocorreu durante a estagao do amadureci- mente dos graos. ” Harmony of the Gospels. p. 44, 10 MATEUS 12.1 A traducao, “campos de cereal”. é justificada somente pelo contexto. Literal e etimologicamente, a referéncia é simples- mente a “o que foi semeado™. Entretanto, o contexto revela que, quando bouve aquela passagem pelos campos de cereal. ou a colheila havia chegado ou estava proxima. Seus discipulos estavam famintos ... Isso é relatado s6 por Mateus, ainda que esteja também implicito em Marcos (2.25) e Lucas (6.3). Como nao estavam mais trabalhando em suas ocupagées anteriores, ndo surpreende que naqueles dias os dis- cipulos — ndo se indica dessa vez quantos eram — tinham (ou “ficaram com”) fome. Jesus também, ndo s6 experimentou sede (Jo 4.6,7), mas igualmente fome (Mt 21.18). Esse pequeno gru- po era pobre, necessitado ¢ agora também faminto. Para pessuas em tais condigées, a lei fizera uma disposi- go especial (Dt 23.25): “Quando entrares na seara do teu pro- ximo, com a mao arrancaras as espigas; porém na seara ndo meteras a foice.” O que os discipulos fizcram para abrandar sua fome esta relatado de forma variada nos Sinéticos. Marcos simplesmente menciona que “comecaram a colher espigas”, Mateus: entra- ram a colher espigas e a comer. O ato de comer esta também implicito em Marcos (2.26). Lucas, mais completo nesse ponto du que ambos us outros, tem: “Seus discipulos colhiam e€ co- miam espigas, debulhando-as com as maos.” Quanto a essas “espigas”, alguns preferem “... de trigo”." Uma vez que para nds o trigo geralmente parece mais estreita- mente relacionado com o “alimento basico”. de modo que pen samos imediatamente nele em conexdo com o saciar a fome, e também porque o fato registrado nao deve ser datado 140 no inicio do ano (a cevada amadurece antes do trigo), nao é dificil perceber a razio pela qual alguns favorecem a tradugio “trigo”. Isso bem que pode ser correto. N&o obsiunlte, € vportune acres- Assim, A. T, Robertson, Hord Pictures. Vol. 1. p. 93: ef. @ mesmo autor. .f Translation of Luke s Gospel. Nova York. 1923. p. 40. Williams, em sua tradugdo do Novo Testamento. tem “espigas de trigo”, assim também iraduzido por [.N.T. {A.eG.}, p. 773. ia 12.2 MATEUS centar que A. T. Robertson, sem seu Word Pictures (ver nota de rodapé supra), deixa margem 4 possibilidade de que 0 grdo a que Mateus se refcre fosse cevada. Ver Jo 6.9,13. Cf. Rt 1.22: 3.2,15,17. Se soubéssemos de uma forma mais especifica onde e quando se deu o fato relatado em Mateus 12.1.2, seria mais facil comprovar que gro era esse. Para saciar sua fome c estar plenamente em concordancia com a lei de Deuterondémio, como ja ficou demonstrado, os dis- cipulos comegaram a colher as espigas € a comer 0 grao, depois de debulha-los com suas m4os. Houve imediata reagdo por par- te daqueles que odiavam a Cristo e tudo faziam para encontrar alguma justificativa para condend-lo, como se demonstra no versiculo 2. Os fariseus, porém, vendo-o, disseram: “olha, teus discipulos estio fazendo o que nao é permitido aos sa- badus.” Sobre a atitude hostil dos fariseus para com Jesus, ver o que foi explicado em conexao com 3.7; 5.17-20; 9.41, 34. Por meio de scu legalismo excessivamente minucioso, esses homens estavam constantemente sepultando a lei de Deus debaixo do pesado furdo de suas tradigSes, como sc tem visto claramente a luz da explicagao de 5.21-48; ver também sobre 15.1-11 © subre 0 capitulo 23. Dominados pela inveja, eles estavam sempre de olho em Jesus para ver se ele diria ou faria algo que pudesse ser usado come acusag’o contra ele, ¢ com isso o destruir. No to- cante aos fariseus aqui mencionados, nao ha como saber se vie- ram de bem longe — tendo seguido Jesus bem de perto, talvez desde a Judéia em seu regresso para a Galiléia - ou das vizi- nhangas uma coisa ¢ certa: suas intengdes nao cram nobres. Havia homicidios no coragdo deles. Ver o versiculo 14. Cf. Jo 5.18; 7.19; 8.40. De repente se defrontaram com Jesus, acusando-o por per- mitir que scus discipulos profanassem o sabado. Nao era proibi- do trabathar no dia de sabado? (Ver fx 20.8-11; 34.21, Dt 5.12- 15.) Nao tinham os rabinos elaborado um catdlogo de 39 obras principais, subdivididas em diversas categorias menores, de sorte que, por exemplo, arrancar espigas era considcrado colher, e 12 MATEUS 12.2 extrair 0 grao, debulhar?*”’ E eis os discipulos atarefados nes- sas mesmas atividades, e ainda desfrutando do resultado de seus pecados: estavam comendo desse grao mal adquirido! De acor- do com a pussagem ora em estudo (cf. Mc 2.24, a acusagdo foi dirigida ao proprio Jesus. Segundo Le 6.2, 08 acusados eram os discipulos. Uma vez que todos estavam envolvidos, nao ha ne- nhuma discrepancia aqui (ver também Mt 10.24, 25: Jo 15.20). Em sua resposta, Jesus, que em outro lugar deu a verdadei- ra interpretagao espiritual do primeiro ¢ segundo mandamentos (Ex 20.1-6; cf. Mt 22.37, 38, que sumaria toda a primeira tabua da lei), do terceiro e do nono mandamentos (Ex 20.7; Lv 19.12: Nm 30.2; Dt 23.21: ef. Mt 5.33-37), do quinto e do oitavo (Ex 20,12, 15; cf. Mt 15.3-6), do sexto (Ex 20.13: cf. Mt 5.21-26; 38-42), do sétimo (Ex 20.14; cf. Mt 5.27-32; 19.3-12), e do dé- cimo (Ex 20.17; ef. Le 12.13-21; 16.14, 19-31; ver também Mt 22.39, onde se acha sumariada toda a segunda tabua). agora re- vela o verdadeiro sentido do quarto mandamento (Ex 20.8-11). Em sua interpretacao esta implicita, mas nav expresso em mui- tas palavras, uma condenacdo da falsa interpretacado que os ra- binos haviam imposto sobre este mandamento, e que nos dias da peregrinaco terrena de Cristo ela era amplamente propaga- da pelos escribas ¢ fariseus. Ou desconsideram completamente ou néo davam suficiente espago em seu ensino — as seguintes verdades, as quais também sumariam o ensino de Cristo ora apresentado. a. A necessidade ndo conhece nenhuma lei (Mt 12.3 ¢ 4) b, Toda regra iem sua excegdo (wv. 5 ¢ 6) c. E sempre certo demonstrar misericordia (vv. 7 € WN) d. O sdbado foi instituido por causa do homem, e néo vice- versa (Mc 2.27) e. O Soberano Adminisirador de tudo, inclusive do sdba- do, € 0 Filho do homem (Mt 12.8; cf. v. 6). *" Segundo a Mishna. ¢ culpado de profanar o sabado quem no dia de sibado “apa- nhar espigas equivalente a dar um bocado para um cordeiro” (Shabbaih 7.4: cf. 7.2), Ver também S.BK., Vol. 1. pp. 615-618: ¢ A. T. Robertson. The Pharisees and Jesus. Nova York. 1920, pp. 87.88. 13 12.3 MATEUS a. A necessidade ndv conhece nenhuma lei 3, 4. E ele Ihes disse: Vocés nae leram o que fez Davi quando ele ¢ os que com ele estavam tiveram fome? como entraram na casa de Deus ¢ comeram 0 pao consagrado, 0 qual nem ele nem os que com ele estavam era perimitido co- mer, senao somente os sacerdotes? “Vacés ndo leram?” Como dizendo: “Vocés se orgulham cm scr as proprias pessoas que defendem a lei, ¢ se julgam tao profundamente versados nela que podem ensiné-la a outros, e naéo tomaram ciéncia do fato de que essa mesma lei permitiu que sua restrighes cerimoniais fos- sem deixadus de lado em casos de necessidade? Vocés nao le- ram acerca de Davi e os paes?” Essa referéncia € aos pdes con- sagrados. aos paes da proposi¢ao, literalmente “paes da presen- ga”, aos doze pies que eram postos em duas fileiras e exibidos na “mesa da proposigdo” diante do Senhor. Os doze paes repre- sentavam as doze tribos de Israel, e simbolizavam a constante comunhdo do povo com seu Deus, recebendo dele seu pao, co- mendo com ele, consagrando-se a ele e reconheeendo com gra- tiddo, por meio dessa ulerenda, sua divida para com ele. A cada sabado esses paes eram trocados por paes frescos. Qs paes velhos eram comidos pelos sacerdotes (Ex 25.30; 1Sm 21.6). A regra era que esse “santo” pao fosse para “Araa e seus filhos”, ou seja, para o sacerdécio, certamente nao para qual- quer pessoa (Lv 24.9). Todavia, quando Aimeleque exercia suas funcdes nos dias de Abiatar, o sumo sacerdote (1Sm 21.1-6: Mc 2.26). compreendeu que Davie seus homens estavam famintos, € se convenceu de que o homem a quem Deus ungira para scr rei sobre Israel (1Sm 16.12,13) tinha a incumbéncia de uma misséio sagrada (1Sm 21.5), entregou a esse futuro rei ¢ a seu séquito o pio de que necessitavam. Davi, havendo entrado na “casa de Deus”, ou seja. 0 taberndculo que se achava em Nobe (1Sm 21.1; 22.9), comeu esse pao. Se, pois, Davi tinha o direito de deixar de lado uma provisde cerimonial divinamente orde- nada, quando a necessidade 0 exigia — pois, com toda certeza. o ungido do Senhor tinha o direitu e o dever de nutrir-se fisica- 4 MATEUS 12.5,6 mente, bem como seus famintos assistentes! —, entao, ndo tinha o grande antilipo de Davi, Jesus, o Ungido de Deus num sentido muito mais profundo, o direito de por de lado uma regra huma- na totalmente injustificada acerca do sdbudo? A adequacaio dessa referéncia histérica surge muito mais claramente quando se considera v falo de que aqui se traga um paralelo entre Davi c seus seguidores., de um lado. e Jesus ¢ seus discipulos. do outro. Ainda que, naturalmente, durante a antiga dispensagdo as leis cerimoniais foram instituidas para ser obedecidas. contudo se- ria dificil comprovar que mesmo ent&o uma lei superior — nesse caso o principio de que a vida e o bem-estar humanos devem ser preservados (Ex 20.13: Mt 22.39b; 1Co 6.19) — nao pudesse em certas circunstancias invalidar ou pelo menos modificar uma ordenanca de menor importancia. Com maior razdo havia bons motivos, no caso de Jesus e seus discipulos, para desconsiderar uma regra puramente rabinica acerca da observancia do sdbado. regra esta que no tinha por base nada mais sdlido do que uma ma interpretagdio e ma aplicagao da santa Ici de Deus. b. Tada regra tem sua excegdo O principio enunciado nos versiculos 3 ¢ 4 se aplica sem- pre, seja com referéncia ao sabado ou nao. O que Davi fez ao comer o pao consagrado era certo e necessario, quer fosse feito no sAbado ou em qualquer outro dia da semana. Voltando agora especificamente para as ordenangas divinas relativas ao sabado, Jesus prossegue: 5, 6. Ou vocés ainda no leram na lei como no sdbado os sacerdotes, no templo, violam o sabado sem serem culpados? No sdbado, os sacerdotes se mantinham mui- to ocupados (Lv 24.8.9; Nm 28.9,10; 1Cr 9.32; 23.31; 2Cr 812- 14; 23.4; 31,2,3), tudo isso a despeito do mandamento referente ao sabado achar-se em Exodo 20.8-11; Deuteronémio 5.12-15. O que ocorre em tal caso é que uma lei superior, que exigia que tudo fosse feito para tornar possivel a realizagéio do culto divine pelo povo, modifica e restringe a interpretagao por demais lite- ral da ordenanca relativa ao dia de repouso. Assim também hoje 15 12.7 MATEUS ninguém, em sa consciéncia, culparia um ministro por pregar e/ou administrar os sacramentos no Dia do Senhor. O problema com os fariseus, quando colocavam deteito em Jesus e seus dis- eipulos, era que no sé punham a tradi¢ao rabinica em pé de igualdade com a Ici de Deus, o que as vezes na pratica equivalia a eleva-la acima da lei escrita, mas que, além disso, atribuiam. um valor quase absoluto a tradigGes especificas. Nem mesmo a lei divina, como se acha registrada no Decalogo, parece dizer Jesus, era para scr aplicada com tal rigidez. De outra sorte, como poderiam os sacerdotes ter executado seu trabalho no sabado? FE conhecida a observacio: “Toda regra tem sua excegao. Essa é uma regra. Pertanto, ela tem sua excecao.” No presente caso, a excegio ¢, naturalmente, o principio basico expresso por Jesus em Mateus 22.37-40, Marcos 12.29-31, Lucas 10.27, qualquer que seja a forma de se expressar esse principio. Esse principio basico se aplica sempre e em toda parte. De uma forma autoritativa, Jesus acrescenta: E eu lhes digo que aqui esta algo maior que o templo. Significando: se mes- mo um templo terreno, que nao passava de Antitipo demandava modificag’o do quarto mandamento, literalmente interpretado, no teria seu Antitipo muito superior, a saber, Jesus Cristo. que se dirigia aos fariseus aqui e agora, e em quem “habita toda a plenitude da divindade” (C1 2.9; cf. Jo 10.30), muito maior di- reito de fazer semelhante exigéncia? Seguramente, algo maior gue o templo, um tesouro infinitamente mais precioso, um dom celestial imensuravelmente mais valioso, uma autoridade dota- da de direitos muito mais magistrais lhes estava falando. c. E sempre certo demonstrar misericérdia Reiterando o que havia dito em outra ocasiao — por conse- guinte, quanto ao significado da passagem, ver sobre 9.13 —, 0 Senhor prossegue: 7. Contudo, se vocés tivessem conhecido istu: misericordia quero, ¢ nao sacrificio, nao teriam conde- nado inocentes. Esse era precisamente 0 problema com esses fariseus: eram destituidos de compaixdo. Nao eram amantes da 16 MATEUS 12.8 bondade. Portanto, a fome que afligia os discipulos de Jesus n&o podia acender nos coragées de seus criticos qualquer senti- mento de ternura ou solicitude para socorré-los. Ao contrario, sé sabiam condenar os discipulos. Quanto a Jesus, nao sé 0 con- denavam, mas secrelamente regozijavam-se em haver desco- berto outra razo, segundo eles o viam, para leva-lo 4 destrui¢ao. Com respeito ao que os discipulos estavam fazendo com aquelas espigas, esses homens famintos eram totalmente “ino- centes”. Em nenhum sentido estavam transgredindo qualquer mandamento divino. No entanto, os fariseus, esses hipdcritas, com intengdes homicidas em seus coracdes, os condenavam. “A eles”, sim, mas especialmente a seu Mestre (cf. Tg 5.6). Se pelo menos tivessem recehido sinceramente as palavras de Oséias 6.6, teriam cntcndido que demonstrar misericérdia é certo em qualquer dia da semana, incluindo, com toda a certeza, 0 sabado! d. O sdbado foi feito para o homem, e ndo vice-versa Essa afirmagao de nosso Senhor, também cm defesa de seus discipulos, se encontra em Marcos 2.27. onde imediatamente precede as palavras: “Portanto, o Filho do homem ¢ Senhor tam- bém do sdbado”, com paralelo em Mateus 12.8. O sabado foi instituido para ser uma béngdo para o homem: para a conscrva- ao de sua satide, para fazé-lo feliz e para tornd-lo santo. O ho- mem nao foi criado para ser escravo do sdbado. e. O Soberano Senor de tudo, inclusive do sabado, é 0 Filho do homem Em harmonia com a expressdo do versiculo 6 (“aqui esta algo maior que o templo”), Jesus conclui essa controvérsia sabatica do campo de cereal, dizendo: 8. Porque o Filho do homem é Senhor do sabado. A conjuncao, “porque”, nao é de dificil compreensao. Jesus acaba de declarar seus discipulos “ino- centes”. De fato estavam destituidos de culpa com respeito 4 acusagao dos fariseus pronunciada contra eles, “porque”, ao colherem e (depois de debulharem o gro) comerem esse ali- iv 12.8 MATEUS mento, estavam fazendo o que Jesus Ihes permitia e queria que fizessem. Estavam reconhecendo o senhorio de Jesus acima do senhorio dos fariseus e suas tradigées muitas vezes tolas. Os discipulos estavam certos em agir assim, “porque” 0 Filho do homem é€ de fato Senhor do sabado. Estavam certos quando puseram a obediéncia devida a ele acima de uma eseravizadora observancia de um arbitrario ritual sabatico de invengao huma- na, Nao é o Filho do homem — para esse termo ver sobre 8.20 — Senhor de tudo? (11.27; 28.18.) Nao seria ele. portanto, tam- bém Senhor do sdbado? Culpados sho aqueles que imaginam que podem honrar 0 saébado enquanto desonram seu Senhor! Jesus, como Senhor do sabado, ndo $6 o honrava assistin- do regularmente aos cultos da sinagoga nesse dia, mas também As vezes tomando parte importante neles (Le 4.16-27) Além disso, o honrava realizandy atos de misericordia ¢ curando nes- se dia (12.9-14; Le 13.10-17; 14.1-6; Jo 5.9; 7,23: 9.14). Tam- bém o santificou ao descansar no timulo nesse dia, com isso santificando a sepultura para seus seguidores (Mt 27.57-60: Mc 15.42,46; 16.1; Le 23.53,54; 24.1). Além do mais. ele 0 tratou a altura, cumprindo sua importancia simbélica. Ao longo da antiga dispensagao, a semana come¢ava com seis dias de TRABALHO. Estes eram seguidos de um dia de DESCANSO. Depois, pelo trabalho de seu softimento vicario, Cristo, o grande Sum Sacerdote, alcangou para “o povo de Deus” “o eterno descanso sabatico” (Hb 4.8,9,14). Pela fé nele, os crentes ainda agora (em principio!) entram nesse DESCAN- SO, que constantemente é seguido por sen TRABALHO de amor, ou seja, por suas obras de gratidao pela salvagio ja obtida para eles como um dom gratuito. A ordem, TRABALHO-DESCAN- SO, portanto se inverte para DESC. ANSO-|RABALHO: muito apropriadamente, a semana agora comeca com o dia de DES- CANSO. Em suma, Jesus asseverou sua autoridade sobre o sa- bado, interpretando-o por meio de palavras c atos como sendo um dia de verdadeira liberdade, um dia de jubilo, um dia de prestar servico de amor a cada um ¢ a todos, ¢, nisso € por meio de tudo isso, cultuando a Deus acima de todas as coisas! 18 MATEUS 12.9,10 As verdades mencionadas acima, nos itens }. c¢, de e. se aplicam também a préxima controvérsia sabatica. Nao tdo dire- tamente no item a, pois nao sc torna imediatamente aparente que o homem da mao mirrada necessitusse ser curado no sdbu- do. Humanamente falando, alguém poderia argumentar que a restauragao de uma mao paralitica poderia esperar até o dia se- guintc, Aqui, pois, parcee gue os fariscus pisavam em terreno mais firme, Agarraram a oportunidade, nem mesmo esperaram que Jesus tomasse a iniciativa. Note bem sua precipitacao: 9, 10. Ele saiu dali e entrou na sinagoga deles. E ali estava um homem com a mio atrofiada! EF. certo curar no sabado?, perguntaram-lhe [a Jesus], procurando um motivo para acusd-lo. Saindo do campo da lavoura, a acdo agora se desloca para a sinagoga. E sdbado. Entra na sinagoga um homem com uma mao aleijada. Além de tudo, é sua mao direita (Lc 6.6). O evangelho apocrifo segundo os Hebreus afirma que o homem era um pedreiro que suplicou a Jesus que o curasse para que nao tivesse de passar sua vida como mendigo. Seja como for, a ques- to € que esse é um sabado, ¢ embora houvesse diferenga de opiniao entre os discipulos de Shammai, com sua interpretagdo mais rigorosa sobre a observancia do sdbado, ¢ os de Hillel, com seu ponto de vista mais flexivel — a posigiio mais rigorosa se radicava em Jerusalém, a mais flexivel na Galiléia —, naquele tempo quase todos aceitavam a regra de que somente no caso de que a vida de um homem pudesse estar realmente em perigo, podia permitir-se curd-lo no sébado.’"* Ousaria Jesus opor-se a essa regra, considerada pelos fariseus como um principio ao basico e tdo bem estabelecido que ndo podia ser violado? Os oponentes esperam secretamente que, por palavra e/ou por agiio Jesus venha a pisotear a regra de conduta que eles ha- viam estabelecido. E assim maquiavelicamente motivados (ver v. 14), eles Ihe perguntam: “FE certo curar no sébado?” Seu pro- posito é “formular uma acusacao contra ele”. No conseguiam compreender que sua prépria motivagao perversa constitui a mais Ver S.BK.. Vol. 1. pp. 622-629. 19 42.11,12 MATEUS crassa profanagdo do sabado, pecado este tao condenavel ante ‘9s olhos do Todo-Poderoso, que constitui uma dentncia crimi- nal muitissimo grave contra eles? Além disso, nao conseguem compreender que Jesus conhece os pensamentos deles? (Le 6.8.) O Senhor do sdbado (ver v. 8) ordena ao homem pér-se de pé diante de toda a assembléia (Mc 3.3: Le 6.8). como se qui- sesse dizer a todos cles: “Olhem para ele; mirem bem sua mao e ponderem sobre o que significa para ele sua condigaa. Nao des- perta ele, porventura, a compaixao de vocés?” Em seguida Je- sus responde A pergunta de seus criticos. Ele age de forma que, por assim dizer, vira a mesa contra eles. Formulando uma con- tra-pergunta, ele forca lais fariseus a responderem a propria per- gunta deles: 11, 12. Ele Ihes disse: Qual de vocés, tendo uma” ovelha, e ela, no sbado, cair numa cova, nao a apanhara ea tirara de 14? De quanto maior valor é um homem do que uma ovelha! Pode inferir-se com seguranga, a luz da pergunta formulada por Jesus, que pelo menos naquele tempo ¢ regio néio se considerava erréneo resgatar uma ovelha que houvesse sofrido tal infortinio, sem levar em conta se o acidente ocorres~ se no sdbado vu em qualquer outro dia. Sendo assim, um ser humano nao é de muito maior valor que uma ovelha? Se é per- mitido fazer o bem a um animal no dia de sabado, entéo com muito maior raz4io é correto e oportuno demonstrar nesse dia bene- voléncia a um homem, que ¢ portador da imagem de Deus! Deve oferecer-se tal socorro somente quando a vida csta - correndo perigo? Jesus nem sequer entra no mérito da questo, salvo por inferéncia. E tal inferéncia é muito clara: mostrar mi- sericérdia € sempre certo (ver supra, p. 13, item ¢.). A conduta ética é sempre muito mais importante do que a obediéncia ceri monial, Se os fariseus houvessem téo-somente feito um estudo mais cuidadoso e imparcial de suas proprias Escrituras realmente 2 Tssq hem que poderia ser um caso de eg (aqui. naturalmente &). tendo a fungdo de artigo indefinido. 0 signilicado nao precisa ser “apenas uma”, ou “uma em distingao de mais que uma”. ou “uma unica ovelha™ (Lenski. op. cit p. 453), mas, simptesmente “uma” Jartigo indefinido|. Ver Gram. N,T.. pp. 674. 675. Nav obstante, a Lradugdo “uma [numeral] ovelha” pode ser correta! 20 MATEUS 12.11,12 sagradas (ver, por exemplo, Mq 6.6-8), teriam tido consciéncia de tal fato! Indubitavelmente, visto que um homem ¢ incomipa- ravelmente mais valioso, aos olhos de Deus, que uma ovelha. Portante é certo fazer o bem no sabado, ou seja, scr uma bén- ao a alguém, nao se mostrando indiferente ante suas necessi- dades. Para esse tipo de argumento, ver também 6.26.30; 10.29,31 (ef. Le 12.6.7). Estas palavras — “Portanto € certo fazer o bem no saébado” -- devem ter sido ditas com profunda gravidade. Podem ter sido expressas como uma declaragao positiva (como em Mateus) ou em forma de pergunta: “Aos sabados ¢ licito fazer o bem, ou causar danos? salvar a vida, ou matar?” (Mc 3.4; cf. Le 6.9). Mas se fosse usada somente a forma interrogativa, nao suben- tenderia que Cristo estava afirmando a tese de que é realmente certo fazer o bem no sabado? Portanto, nao se pode comprovar que exista contlite real entre os escritores dos Evangelhos. Era o proprio Jesus quem estava para fazer 0 bem a esse homem. Os criticos de Cristo, por outro lado, nutriam intengdes homicidas: o assassinato do Benfeitor (v. 14). O que era melhor? Jesus, olhando ao redor, perscruta as fisionomias de seus oponentes e 1é seus segredos intimos (Lc 6.8,1U). As faces de Jesus estao rubras com santa indignacao. Sente-se triste ante a dureza do coragao deles (Mc 3.5). Ninguém tem a capacidade de responder-The. Os fariscus nao tém comu negar que fazer o bem em qualquer dia, ¢ indiscutivelmente no sabado, € certo e oportuno. Nao obstante, admitir isso publicamente significa ren- digdo para eles. Portanto, prevalece em suas fileiras um emba- racoso e deprimente siléncio (Mc 3.4). Com a respiragao conti- da, o resto do povo se poe também a observar, indagando sobre © que acontecera entao. A atmosfera na sinagoga esta saturada de constrangimento, de um lado, e de expectativa, do outro. O homem da mao “mirrada™ esta ainda de pé ali, ante os olhares de todo o auditério. __ Jesus esta para efetuar o mi lagre que a situaco exigia. Deve agir agora, nfio mais tarde. Caso deixasse para o dia seguinte, 21 12.13 MATEUS poderia facilmente ter-se interpretado como um reconhecimen- to de sua parte que os atos de cura so. afinal de contas. erro- neos quando realizados aos sdbados. Tal prorrogacdo, conse- qiientemente, teria agravado o erro. Tal coisa era inadmissivel. Agora & a oportunidade certa. E assim, depois desse olhar perscrutador em todos ao redor, o Mestre volta sua aten¢do para o homem aleijado. 13. Entao disse ao homem: Estenda sua mo. Ele a estendeu, e ela foi restaurada,”” ficando como a outra. A cura é instantanea e completa. Dispensam-se subse- qiientes tratamentos e quaisquer check-ups médicos. A mao di- reita estA agora tao sadia quanto a csquerda. Deve enfatizar-se também que a cura ocorreu em conexao com 0 alo de obedién- cia do homem. Nao obstante, no tocante ao milagre em si, deve- se dar a Jesus todo o crédito e toda a gléria, e a cle somente. Ele nao tocou o homem. Alias. nem sequer pronunciou uma unica sitaba, ordenando que a m&o fosse curada (contrastar com Mc 7.34). Simplesmente disse ao homem que estendesse sua mao € ela foi restaurada, De uma mancira misteriosa demais para qual- quer mortal compreender, 0 Salvador concentrou sua mente na condigdio desse pobre homem, enchendo-se de compaixdy, € vista de todos os presentes ele quis ¢ efetuou a cura! Esse estupcndo ato de poder e misericérdia convenceu os fariseus de seu erro? Confessaram sua culpa? De forma algu- ma! Odiaram a Jesus ainda mais pelo que fez no sabado. Segun- do seu conceito, comunicar satide e felicidade a um homem, removendo sua invalidez, se constituia um crime por ser reali- zado no sabado; contudo, tramar ne mesmo dia a destruigao do Médico dos médicos equivalia a um ato meritorio. 14. Os fariseus, porém, sairam e tomaram conselho contra ele so- bre como o destruiriam. Se hes fosse possivel, teriam todo Sw GmecazeotéOn. tere pes. sing, aor, indic. pas. de émoxu6lormr O verbo si ago em viride da qual algo é posto (laze) abstixo (kid) ou estaheleciclo ao libertado de (énd) sua condigdo conturbada. No presente contexte (ef. Me 3.3: Le 6.10). énexaceatdén signitica “foi restaurado™ ou “foi curade” ou “ficou bem Num sentido ums pouco diferente, “restaurade” ¢ amber 0 sentido em Hb 13.19. Ver também sobre Mt 17.11 (ef. Mc 9.42). 22 MATEUS 12.14 prazer de matar Jesus ali mesmo, porquanto cstavam domina- dos de furor (Le 6.11). Dois obstaculos tornavam-lhes dificil levar a cabo imediatamente seu intento perverso: a. 0 governo romano (Jo 18.3) eb. os espectadores. O auditério da sinagoga. profundamente impressionado, nao teria tolerado qualquer ago drastica contra Jesus naquele momento. O que se poderia fazer em tal conjuntura? A fim de achar uma solugdo para seu proble- ma, os fariseus, esses mesmos homens que estavam sempre van- gloriando-se de sua extraordinaria santidade, levando as vezes a elevada opiniao de si mesmos ao proprio trono de Deus (Le 18.11.12), agora consultam com ... imaginem quem? os com- pletamente profanos e mundanos herodianos (Mc 3.6), partido politico que apoiava a dinastia herodiana! A dcsgracga produz estranhas confrarias, especialmente quando esta vinculada a in- veja. Reunidos os dois grupos, agora tramam como aniquilar Jesus. Ver também sobre 3.7 e sobre 22.16 (cf. Mc 12.13). Es- ses amargos inimigos do Senhor deveriam ter lido e levado a sério o Salmo 2. 15 Jesus, sabendo disso, retirou-se daquele lugar. Muitos o seguiram, e ele curoua todos. 16 E os advertia que niio o fizessem conhccida. 17a fim de que se cumprisse o que fora dito por Isaias, o profeta: 18 “Eis aqui meu servo, a quem escolhi, meu ainady, em quem minha alma se sente prazerosa, Porei sobre ele meu Espirito, ¢ ele proclamara justi¢a aos gentios. 19 Nao discutira nem gritara, € ninguém ouvira sua voz nas ruas. 20 Nao quebrara o cani¢o esmagado, nao apagara o pavio fumegante. até que leve a justica a vitéria. 21 E em seu nome os gentios esperarao.” 12.15-21 O Servo Escolhido Cf. Marcos 3.7-12 7 Visto que Jesus estava plenamente ciente dos intentos ho- micidas de seus inimigos, e visto que ele também sabia que 0 Momento de sua partida da terra nao havia ainda chegado, nao 23 1217 MATEUS nos causa surpresa lermos: 15. Jesus, sabendo disso, retirou- se daquele lugar. Mas, mesmo em sua retirada, ele nao se preo- cupava apenas consigo mesmo, mas também com aqueles de outras regides para qucm poderia ser uma béngiio: Muitos 0 seguiram, e ele curou a todos. Para explicagao, ver sobre 4.23- 25; 9.35; 11.5. Ele fez tudo isso pelas pessoas, muitas das quais iriam rejeité-lo depois. Cf 11.20-24; Jo 6.66. Quanto ao versiculo 16. E 0s advertia que nao o fizessem conhecido, ver a expli- cacao detalhada de 8.4, especialmente alineas b.,c. ed. Vertam- bém sobre 9.30. Jesus nao buscava fama. Fle nao desejava sobressair-se como operador de milagres. A exibigao va, a gloria terrena, € questdes como essas, nao constituiam a razao para sua encarna- go ¢ peregrinacao entre 0s homens. Eram todas completamen- te destoante com o humilde “Servo do SeNHOR” das profecias de Isaias. Isso explica o versiculo 17. A fim de que se cumprisse 0 que fora dito por Lsaias, 0 profeta. Para demonstrar a natureza modesta, mansa ¢ discreta de Cristo, talvez bastasse uma refe- réncia a Isaias 42.2,3, mas o desejo de Mateus era citar também 0 contexto precedente € seguinte, a fim de que a gloria do Mes- sias pudesse tornar-se evidente de uma forma ainda mais cxtra- ordinaria, e a impiedade de seus oponentes se sobressa{sse mais claramente pelo contraste. Conseqiientemente, 0 que se oferece aqui em 12.18-21 é Isaias 42.1-4, como interpretado por Mateus, 0 apéstolo plenamente inspirado de Cristo. Nao é uma reprodu- go palavra por palavra, mas 0 resultado de uma profunda refle>> xao compassiva. E uma cuidadosa com paracio do original hebraico com a versau de Mateus nao deixa divida sobre o fata de que o ex-coletor de impostos havia cerlamente captado o sig- nificado da descrigdo extraordinariamente bela que Isaias faz da vinda de Cristo. 0 Traduzide de forma bastante literal do original hebraico. Isaias 42.1-4 diz assim: 42,1 “Eis aqui meu servo. a quem sustenho. meu escolhido. em quem minha alia se deleita tenho posto sobre ele meu E: ele anunciara justiya as nagdes, 24 MATEUS 12.18 Is 42.1-4 é a primeira de quatro profecias relativas a “o Servo do Senior”. As outras sao Is 49.1-9a; 50.4-9; e 52.13— 53.12 (todavia, cf. também Is 61.1-11). A verso de Mateus co- mega assim: 18. Eis que meu servo, a quem escolhi, meu amado, em quem minha alma se compraz. Porei sobre ele o meu Espirito, . ¢ proclamarei a justi¢a aos gentios. E obvi a luz de todo 0 contexto que quando Mateus, a seu proprio modo, cita Isaias 42.1-4, ele aplica essa profecia dircta- mente a Jesus Cristo, o Filho amado de Deus, o Mediador entre Deus e o homem. Mateus interpreta Isaias 42 como Filipe, 0 evangelista, ¢ comu os apdstulus Joao e Pedro interpretaram 2 Ele nao gritaré nem levantara sua voz. nem deixaré que ela seja ouvida na rua, 3 Um canigo lascado nao quebrara. ¢ um pavio que tremula nao se apagara: em verdade cle anunciara justia. 4 Ete ndo fraquejara e nem se quebrara, alé que se estabelega a justiga na terra. E os litorais aguasduau sua lei.” Note-se o seguinte: a. Em Isaias 42.1a. cf Mateus 12.182, embora “meu servo, a quem sustenho™ ‘Ao seja literatmente reproduzido por Mateus. a expressto completa de Isaias “meu servo. a quem sustenho. meu escolhido. em quem minha alma se deleita” daa Mateus todo o direito de dizer: "meu amado. em quiem minha alma se sente prazcrosa™ (ou “meu amado. em quem me deleito™). b. Quanto a Isaias 42.2b, cf. 12.19b, seguramente nao ha diferenca essencial entre “Nao se fard ouvir na rua”. de Isaias, ¢“¢ ninguém ouvird sua voz nas ruas™ de Mateus. , c. Um momento de reflexdo provara que Is 42.3b ¢ 4a habilita Mateus a dizer (12.20b) ~até que ele leve a justiga 4 vitéria”. d. Os “litorais” de Isaias 42.4b representam as regiGes mais distantes, ou seja. as Nagoes fora do territorio de Israel: dai corretamente traduzido por Mateus ( 12.21 ‘as gentios”. E o “aguardar™ do texto hebraico é um aguardar com confiante ante- cipagao, um esperar (cf. Mt 12.21}. _ Mateus segue a tradugao da LLXX, quando no versiculo 18 ele usa a pulavra Taig en ver de dodo Isso. contudo, mde faz diferenya. visto que aeig amidde significa "servo". Ver sobre Mateus 8.6. Deve notar-se. contudo, que Mateus evi- ta Yaed meu servo ... israe! meu elvito” (LXX), ¢ corretamente aplica Is 42.1-4 diretamente a Cristo. 25 42.49 MATEUS Isaias 53 (At 8.26-35; Jo 12.37-43; 1Pe 2.24). De fato, Isaias 42 no pode ser separado de Isaias $3. Fm razao de 42.6.7 (cf. 9.2.6). é simplesmente impossivel interpretar Isaias 42.1-4 inteligivel- mente, a nao ser como referéncia a Cristo e se cumprindo nele. Além do mais, quanto as coisas grandiosas ditas sobre “o Servo do SenHoR” em Isaias 49.6; 53 (tado o capitulo); e 55.3-5. a quem se poderia referir tais declaragdes sendo ao Filho de Deus que é também o Filho do homem? Os que dizem que tais passa- gens se aplicam a Israel se esquecem de que 53.6 traga uma nitida distingdio entre a. © povo que se extraviou € hb. o Servo sobre quem o Senhor depositou 0 fardo da iniqiidade deles (ver também vv. 4, 5, 8 e 12). Mateus, pois, traga um nitido contraste entre a. os impios oponentes de Cristo, nesse caso os fariseus que buscavam des- trui-lo (12.14), e 6. Cristo mesmo, o amado Fitho do Pai (Mt 3.17; Le 9.35; Cl 1.13; 2Pe 1.17, 18; cf. St 2.6-12), sempre dispos- to a fazer a vontade daquele que o enviou (Jo 4.34; §.30,36; 17.4). E sobre essc divino ¢ humano Redentor que o Pai derrama seu Espirito, e isso “sem medida” (Mt 3.16; Jo 3.34, 35; cf. SI 45.7: Is 11.2; 61.1-11). Como resultado (Le 4.18), 0 Mediador realiza plenamente sua atividade profética, a saber, a de procla- mar a “justiga”, o que € juste, o que esta em harmonia com a vontade de Deus: que os pecadures se arrependam, venham a (isto é, creiam em) o Salvador, encontrem nele a salvac4o € com gratiddo vivam para a gléria de seu benfeitor. Ver mais sobre o versiculo 21. Em estreita conexdo com 0 versiculo 16, agora se realga a atitude do Mediador, cheio do Espirito, entre Deus e o homem. Sua disposig&o de mente ¢ coragdo é precisamente 0 oposto da de seus inimigos: 19. Ele nao discutira nem gritara, e ninguém ouvira sua voz nas ruas. O grito que aqui se menciona nio é o de jubilo religioso ($15.11; 32.11; is 12.6; Ze 9.9 etc.), nem o de batalha ou vitdria (Ex 32.18; Am 1.14; cf. Js 6.20). Ao cuntrario, ele Iembra 0 26 MATEUS 12.20 esbravejar de “quem governa entre tolos”, cm contraste com “as palavras de sabedoria™ expressas e recebidas numa atmos- fera de bendita quietude (Ec 9.17). E como o revoltoso grito que acrenca popular atribuia aos satiros (Is 34.14). F como a pre- sente passagem (Mt 12.19) claramente o demonstra, 0 tipo de grito que se acha associado a uma disputa. Pense na odiosa altercagao publica entre aqueles que esto perdendo 0 jogo, a ruidosa explosdo do demagogo quando agita a multidao nas ruas. a turbulenta ostentagdo e agressividade do desfile de Baco (ver C.N.T. sobre Galatas 5.21), etc. Completamente diferente é 0 manso € terno Salvador. Ver (em adigdo a Is 42.1-4) Is 57.15; Ze 9.9; IRs 19.11,12; Mt 5.7-9; 21.5; Le 23.34. E prossegue: , 20. Ndo quebrara o canigo csmagado, E nao apagara o pavio fumegante.™ Num contexto que fala de justica sendo proclamada aos gentios, e dos gentios esperando em seu nome, é quase certo que os termos canigo™ esmagado™ c pavio™ fumegante™ tem de ser considerados em sentido figurado, como referéncia aos que esto longe, aos fracos e desamparados, aos de pequena fé etc. Que contraste entre a crueldade dos fariseus e a bondade de Jesus, entre a futilidade deles ¢ a discrig&o dele, 0 amor que devotavam a exibi¢ao e a mansidao dele! Eles planejam matar (12. 14) e so insensiveis, indiferentes 4 agonia dos que pade- cem incapacidades (12.10). “E licito? E licito?” é seu constante clamor; nunca perguntam: “E bom?” Ele é completamente dife- rente, Alids, to diferente que seria incorreto interpretar as pala- vras do versiculo 20 de uma maneira puramente negativa, como se simplesmente quisessem indicar 0 que ele ndo faria aos que 2 Ver - ve ree Dik “Het gekrookte riet en de rookende viaswiek™. GTI, 23 (1923). . cree KeAcpiog (acusativo wow), of. latin catamus. : “ nee acus, sing. masc. part. perf. pas. de vviipifw: quebrar. Tego Livev: fibra, linho: também algo feito de tais materiais (el. Ap 15.6). no wn ooo um pavio de lampada, SeVOV, part. pas. pres. de tipo produzir fumaga, queimar sem ehama, 27 12.21 MATEUS temessem que sua fé fracassasse ou que 0 tentador prevalecera. Ao contrario, tais expressdes pertencem a figura de linguagem chamada /itotes, por meio da qual uma verdade positiva € trans- mitida pela negagdo de seu oposto. Portanto, o verdadeiro signi- ficado de “canigo esmagado”, que ele nao quebrara, e do “pavio fumegante”, que ele no apagara, consiste em que ele tratara com profunda e genuina simpatia, com terna solicitude, a todos quantos se acham em extrema exaustao. Ele comunicara forga ao fraco, a todo aquele que se consome de desgosto ¢ lhe implo- ra socorro. Ele curara os docntes (4.23-25; 9.35; 11.5, 12.15), buscard ¢ salvard os publicanos e pecadores (9.9,10), confortara os que choram (5.4), animard aos temerosos ( 14.13-21), enche- ra de convicgao os que tém dévidas (112-6). alimentara os fa- mintos (14.13-21) e concedera perdao aos que se arrependem de seus pecados (9.2). Ele é 0 genuino Emanuel (ver supra. so- bre 1.23). Ele jamais ccssaré de fazer tudo isso, até que leve a justi- ga a vitéria, ou seja, até que, finalmente, na grande consuma- ¢4o, o pecado e suas conseqiiéncias tenham sido banidos para sempre do universo redimido de Deus. Entéo ajustica de Deus (ver supra, sobre v. 18) triunfaré completamente, pois “a terra se enchera do conhecimento do SenHuK como as Aguas cobrem o [fundo do] do mar” (Is 11.9; ef. 61.2, 3, 11; Jr 31.34). Nao surpreende, pais, que segundo o plano divino aproxi- mava-se o tempo quando o mandamento de nao tornar Jesus conhecido (12.16) seria removido. O Salvador de Israel se con- verteria em “‘o Salvador do mundo” (Jo 4.42; 1Jo 4.14). Portan- to, o seguimento ¢ natural: 21. EF em seu nome, ou seja, em “Cristo como revelado” ao mundo, os gentios esperarao. Eles poro sua confianga firmemente ancorada (cI. Hb 6.19) no Se- nhor Jesus Cristo. O periodo de sigilo (Mt 12.16) sera gradual- mente substituido por aquele de ampla publicidade, quando a igreja cumprir sua missaio cntre os gentios.*” A prelibagio des- STE G. W. Barker, W.L. Lange]. R. Michaels. The New Testament Speaks. Nova York. 1969, p. 269 28 MATEUS 12.21 ta era evangélica de proclamacio ¢ salvacao aos gentios, tanto quanto aos judeus, predita porém ainda nao amplamente reali- zada durante a antiga dispensacdo (Gn 22.15-18; SI 72.8-11: 87; Is 54.103: 60.3; MI 1.11), pode ser visualizada em Mateus 2.1, 2, 11; 8-10-12; 15.21-28: Lucas 2.32a; Jodo 3.16; cap. 4: 10.16. Para uma maior medida de cumprimento, ver Mateus 28,18-20; Atos 22.21; E’tésios 2.11-22. Para o resultado final ou “vitoria”, ver Apocalipse 7.9-17. ; 22 Entao the trouxeram um homem possesso de demonio que nao podia nem ver nem falar. E ele o curou, de modo que o mudo falou e viu. 23 Todo o povo estava aténito € dizia: “Nao seria este, porventura, o Fi ilho de Davi?” 24 Quando, porém, os fariseus ouviram [isso], disseram: “Esse homem nao expulsa os deménios sendo por Belzebu, 0 principe dos demé- nios.” 25 Conhecendo seus pensamentos, ele hes disse: “Todo reino dividi- do contra si mesmo se destina a ruina, e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma subsistira. 26 Se Satanas esté empeniado em expulsar a Satanas, ele esta dividido contra si mesmo; como, pois, seu reino subsistira? 27 E se € por Belzebu que eu expulso deménios, por quem os filhos de vocés os expulsam? Portanto. eles serdo. seus juizes. 28 Mas se é pelo Espi- Tito de Deus que eu expuiso demanios, entéo o reino de Deus chegou 2 vocés. 29 Ou, como pode alguém entrar na casa do homem forte e levar seus bens, a nda ser que primeiro ele amarre o homem forte? Somente entau & que ele saqueara sua casa. 30 Aqucle que no é por mim & contra mim: aquele que comigo nao ajunta, espalha. 31 Portanto lhes digo, todo pecado e blasfémia sero perdoados aos homens, as a blasfémia contra © Espirito nao sera perdoada. 32 Todo aquele que disser uma palavra contra o Fitho. ihe sera perdoado; mas aquele que falar contra 0 Espirito Santo, no Ihe sera perdoado, nem nesta era nem na era por vir. , ; 33 Ou considerem a arvore boa e seu fruto bom, ou considerem a arvore enferma e seu fruto doentio. pois pelo fruto se conhece a Arvore. ¥ Raga de viboras, como podem falar o que é bom quando vocés mesmos fer mats? Pais é da abundancia do coragao que a boca fala. 35 O homem teens su bom leposito, tira o que ¢ bom, eo homem mau, de seu mau it e. que é mau. 36 Eu, porém, lhes digo que, para cada palavra prudente que os homens falarem, darao conta no dia do juizo. 37 Por- que por suas palavras vocé sera justi: justifica 5 denado.” J do, ¢ por suas palavras serd con- 12.23 MATEUS 12.22-37 Milagres de Cristo: Prova do Dominio de Belzebu ou de Sua Condenagdo? Quanto a 12.22-32, cf. Marcos 3.19-30; Lucas 11.14-23, 12.10 Quanto a 12.33-37. cf. Lucas 6.43-45 22. Entdo lhe trouxeram um homem possesso de demé- nio que n&o podia ver nem falar. O advérbio “entao” é, uma vez mais, muito indefinido. Como em 12.2,10 € 14, assim tam- bém aqui Jesus se encontra na companhia de seus oposilores. Trazem-lhe um aflito endemoninhado com a perda da vista e da fala. Para a possessio demonjaca em geral e para a relagdo entre elaeas afligdes fisicas, ver sobre 9.32, E ele o curou, de modo que o mudo falou e viu. Jesus o curou instantanea e completa- menie, de sorte que o homem que havia sido até entio grave- mente afligido, nao mais era endemoninhado, nem era cego nem mudo. Efeito sobre os espectadores: 23. Todo o pove estava aténito e dizia: Nao seria este, porventura, o Filho de Davi? AS pessoas que testemunharam esse milagre se viam completa- mente aturdidas. Um sentimento de perplexidade associado, sem duvida, a certa dose de medo na presenga desse ser que acabava de realizar tao estupendo feito tomou posse deles. Se nao fosse, talvez, um tanto coloquial, poderiamos dizer: “Seus sentidos foram nocauteados.” Isso, ou algo semeihante, preserva o sabor do original. Mediante a pergunta se Jesus nao seria o Filho de Davi, é dbvio que atengdo dos espectadores, havendo-se pri- meiro concentrado no homem que estava para receber a triplice béng&o, de repente fixou-se no proprio Benfeitor. Quanto ao sig- nificado deste titulo, “Filho de Davi”, ver sobre 9.27. A. pergun- ta foi exprimida com tal énfase que se esperava uma resposta negativa modificada, algo mais ou menos assim: “Nao, prova- velmente ele nao é o Filho de Davi ... no entanto, quem mais ele poderia ser para realizar tal milagre?” De fato a pergunta era importante! Talvez se pudesse descrever assim 0 estado de espi- rito daquelas pessoas: o assombroso carater do milagre os convencera de que este Jesus bem que poderia ser 0 Messias, 30 MATEUS 12.24 mas ndéo ousavam externar tal pensamento em termos vocais € detinidos, especialmente por causa da presenga dos amargos opositores de Cristo. os fariseus. Sua pergunta pode também ser assim traduzida: “Poderia ser este o Filho de Davi?™ Ainda que a possibilidade de ser Jesus o Messias fosse expressa de manei- va hesitante, sem duvida é um progresso em referencia a pergunta mais ou menos neutra: “Que espécie de pessoa € esta?” (8.27). Mas, embora devamos precaver-nos contra atribuirmos pouca importancia a pergunta, é preciso igualmente refrear-nos de lhe atribuir demais. Deve ter-se em mente que, mesmy em se admitindo que cssas pessoas, ou pelo menos al gumas delas, viam em Jesus 0 Messias, ainda assim ter-se-ia que responder a per- gunta: “Que tipo de Messias? Meramente um libertador de pe- nirias terrenas, tais como enfermidades c defeitos corpurais, sim, até mesmo de deménios, possivelmente também um potencial libertador do jugo romano, e dai da degradago e opressdo. tudo isso ... mas ndio do pecado? Nao do mal que é a base de todas as demais misérias, isto é, a alienaggo do homem de Deus?” A concep¢ao messidnica de muitas pessoas, inclusive em certa medida de alguns dos préprios discipulos, era distintamente materialista, terrena, judaica (Mt 20.21; 23.37-39; Le 19.41, 42: At 1.6; Jo 6.15, 35-42). , _ A propria Sugeslao da possibilidade, nao importa quao imperfeita e remotamente concebida ou apresentada, de que Je- Sus pudesse ser 0 Messias havia tanto tempo esperado, cra ve- neno para os fariseus; particularmente também Pata Os escribas, que haviam percorrido todo caminho desde Jerusalém (Mc 3.22 . sem ditvida para apanhar Jesus em suas palavras e/ou atos, E Prossegue: 24. Quando, porém, os fariseus ouviram [isso], disseram: Esse homem nao expulsa os deménios senao por Belzebu, o principe dos deménios. Dessa vez, diferentemente de 12.2,10, os opositores nao se dirigem a Jesus diretamente, mas o caluniam pelas costas. Vilmente atribuem sua acdo de expulsar deménios ao poder de Belzebu, 0 principe dos demé- nlos. Para o estudo do titulo, Belzebu (Satands), ver sobre 10,25, 31 12.25,26 MATEUS inclusive nota de rodapé 450. Ver também sobre 9.34. A acusa- cao dirigida contra Jesus pelos escribas ¢ fariseus era maligna. Era fruto de inveja. Cf. Mateus 27.18. Sentiam que comegavam a perder scus seguidores, ¢ tal fato era-Ihes impossivel de su- portar. Quao completamente diferente havia sido a atitude de Joao Batista (Jo 3.26, 30). O carater totalmente vilipendioso da acusagiio torna-se patente também a luz do fato de que ela con- siderava Belzebu, nado como sendo um espirito mal a exer- cer sua sinistra influéncia sobre Jesus, vindo do lado de fora; ao contrario, Satanas é considerado como que habitando na alma de Jesus. Diz-se posswir este um espirito imundo (Me 3.30; cf. Jo 8.48); alias, que cle proprio é Belzebu (Mt 10.25). Revidando a acusagdo de expulsar ele os deménios pelo poder de Belzebn, Jesus realga que tal coisa a. € absurda (vv. 25, 26); b. ¢ igualmente inconsistente (v. 27); ¢. ela obscu- rece a real situacdo (vv. 28-30); d. ¢ também imperdodvel (vv, 31, 32); € e. ela desmascara a malignidade daqueles que a formularam, revelando de quem tais blasfemos realmente sao filhos, da mesma mancira que os bons atos e atitudes de outros fornecem evidéncia para comprovar que género de individuos tais pessoas boas sao interiormente (vv. 33-37). Antes de tudo, pois, a acusag4o é absurda. 25,26. Conhecendo seus pensamentos, ele Ihes disse: Todo reino dividido contra si mesmo se destina 4 ruina, € nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma subsisti- ra. Se Satands esté empenhado em expulsar a Satands, ele esta dividido contra si mesmo; como, pois, seu reino subsis- tira? A calunia é ridicula, totalmente irracional, porquanto, se assim fosse, entdo Satands estaria opondo-se a Satands. Ele es- taria destruindo sua propria obra. Primeiro, estaria enviando seus representantes, os deménios, causando devastacdo no coragao ¢ na vida dos homens. Em seguida, com vil ingratiddo e loucura suicida, estaria outorgando a Jesus 0 proprio poder indispensa- vel para a expulsio de seus préprios servos ohedientes! E assim estaria langando abaixo seu proprio império, Nenhum reino, 32 MATEUS 12.27 cidade ou familia assim dividida contra si mesma pode man- ter-se de pé. Em segundo lugar. tal acusago é igualmente incunsistente. 27, E se é por Belzebu que eu expulso deménios, por quem os filhos de vucés os expulsam? Portanto, eles serao seus juizes. Havia outros. além de Jesus e seus discipulos, que reivindicavam o poder de expulsar deménios. Nao é necessério debater se ocasionalmente uma bem sucedida conjuragdo de maus espiritos. pelos “filhos” ou disc{pulos dos fariseus. pode- tia realmente ocorrer, Ver sobre 7.22. Entretanto, nao ha neces- sidade de comprovar ou refutar tal coisa. Eis a questia: ami gos e seguidores dos fariseus alegavam possuir tal poder. e por ra- zbes procedentes ou improcedentes essa alegacdo era geralmente aceita. Naturalmente. os mestres desses reputados exoreistas s6 estavam demasiadamente ansiosos por receber uma fatia do cré- dito, ou seja. destrutar da gléria refletida. Se os fariseus, porém, estavam Certas em proceder assim, como podcriam eles, sem thes faltar totalmente a coeréncia, opor-se a Jesus por acupar-se no mesmo tipo de obra? Portanto, que os “filhos” julguem se é ou no correto 0 que seus mesires disseram acerca da fonte do poder de Jesus para expulsar deménios. Se esses filhos julga- rem correta a acusacao, afirmando, pois, que ele realmente ex- pulsava deménios pelo poder dos deménios. estariam conde- nando a si préprios. Em contrapartida, se julgassem a acusacao falsa, ent&o estariam condenando a seus mestres e defendendo a Jesus. Qualquer que fosse seu veredito, ele seria muito embara- Geso para Os opositores de Cristo. Outro exemplo desse método de argumentagdo que o Mes- lre usava, segundo o qual os inimigos perderiam, qualquer que fosse sua resposta, esta registrado em 2123-27. Por outro lado. quando e/es — nesse caso os fariseus apoiados pelos herodianos > confrontam Jesus com um dilema, ele nao so rompe suas ar- cle ae ns também. ao fazer isso, lhes ensina uma li¢do que s Is as pessoas de todos os lugares. deviam ler a sério (22.15-22). Jesus é situacd : ele eouliaggy ‘sus € 0 Mestre de toda situacdo. Portanto, que seja we oc 12.28 MATEUS Em terceiro lugar, tal acusagao obscurece. A calinia difundida pelos adversarios nao era um leve des- vio da apresentacdo dos fatos, mas um perverso obscurecimento. Era o proprio oposto da verdade, pois ndo era pelo poder de um espirito mau que Jesus expulsava demdnivs, €, sim, pelo Espiri- to de Deus. De que outra maneira poderia ser? 28. Mas se é pelo Espirito de Deus que eu expulso deménios, entio 0 rei- no de Deus chegou a vocés. Este “se” significa: “se, como € realmente o caso.” O proprio fato de que o reino de Satands esta se mostrando vulneravel — pois seus mensageiros estao sendo expulsos do coragdo e da vida dos homens — demonstra que o reino de Deus (ver sobre 4.23) esta fazendo sentir sua prescnga. Estd em vias de obter vitéria sobre o reino de Satanas. E muito evidente a luz dessa passagem que 0 termo “reino de Deus” (a designagao mais usual em Mateus ¢ “do céu”, ver supra, p.130 do volume I) indica a realidade que nao é meramente fulura, mas também presente. E uma realidade crescente, uma existén- cia em desenvolvimento, sendo cada uma de suas béngfios pre- cursura de maiores béng&os ainda por vir, até que 0 cterno cli- max seja atingido na grande consumacio, e ainda entao a “per- feigao” sera, em certo sentido, progressiva.“® Ainda agora, du- rante o ministério terreno de Cristo, os enfermos estavam sendo curados, os mortos ressuscitados, os leprosus purificados, os deménios expulsos, os pecadas perdoados, a verdade difundi- da, as mentiras refutadas. Em vez de opor-se a esse reino e combaté-lo, que os homens de todos os lugares entrem nele (7.13, 14; 11.28-30: 23.37; Jo 7.39). E “pelo Espirito de Deus” que o poder de Cristo esta, por- tanto, se manifestando na terra. Quanto a este titulo, “o Espirito de Deus”, ver também 3.16; Romanos 8.9b, 14; 1 Corintios 2.11b (cf. 2.12b); 2.14; 3.16; 6.11; 7.40; 12.3; 2 Corintios 3.3 ("o Es- pirito da Deus vivo”); 1 Pedro 4.14; | Joao 4.2a. O paralelismo *§ Very livey do autor, 4 Vide Futura Segundo « Biblia, Editora Cultura Cristi. Sao Paulo, SP, 34 MATEUS 12.29 em | Corintios 12.3 comprova que esse “Espirito de Deus” é a terceira pessoa da Trindade, “o Espirito Santo”, E assim indubita- velmente também aqui em Mateus, como o revela uma compa- ragao de 12.28 com 12.32. Que esta explicacao da fonte do poder de Cristo é a dnica légica, vé-se luz do versiculo 29. Ou, como pode alguém entrar na casa dv homem forte e levar seus bens, a nao ser que primeiro ele amarre o homem forte? Sé entao é que ele saqueara sua casa. Na vida comum, o ladrao ndo recebe ajuda voluntaria do dono da casa. Pelo contrario, a fim de obter o que quer, primeiro 0 intruso amarra o proprietario, Ent&o o saqueia. Jesus, por meio de palavras ¢ atos, esta privando Satands daque- les bens que o Maligno considera seus, ¢ sobre os quais ele exerce scu sinistro controle (Le 13.16). © Senhor esta expulsando os servos de Belzebu, os deménios, e esta restaurando aquilo que, por meio de sua atuacdo, Satands tem feito a alma e ao corpo dos homens. Jesus esta fazendo tudo issu porque, por meio de Sua encama¢ao, de sua vitdria sobre o diabo no deserto da tenta- go, de suas palavras de autoridade pronunciadas contra os de- monios, sua total atividade, ele comegou a amarrar Belzebu, Processo este de atamento yu restrigado de poder que estava para ser muito mais reforgado pela sua vitéria sobre Satands na cruz (Cl 2.15) e na ressurreicio, ascensio e coroagae (Ap 12.5,9- 12). Ele tem feito, esta fazendo e fara isso pelo poder, nao do proprio Belzebu, mas seguramente do Espirito Santo, justamente como acaba de dizer (v, 28). Sim, o diabo esta sendo, e esta Progtessivamente para ser, privado de seus “acessérios”, ou seja, da alma e do corpo dos homeus, e isso nao sé por meio das curas, mas também por meio de iam poderoso programa missio- nario, que alcangard primeiro os judeus, mas subseqiientemente também as nages em geral (Jo 12.31, 32; Rm 1.16). Nau é essa Precisamente a chave para se compreender Apocalipse 20.3259 Note-se como também em Lucas 10.17.18 a “queda de Sata- bo - Ver meu livro Mats Que Vencedores, Interpretagdo do Livro de Apocalipse. 33 12.31,32 MATEUS nas como relampago do céu™ se acha registrado em conexao com 0 regresso e relatério dos setenta missionarios. Nesta luta entre Cristo e Satanas, a nentralidade é impossi- vel (assim também Me 9.40; Le 9.50). como se revela no versiculo 30. Aquele que nao é por mim é contra mim. Ra- ZAo: sO existem dois impérios: a. o de Deus ou do céu, com Cristo como Cahega, e b. o de Satanas. Cada pessoa pertence ou a.um ou ao outro. Conseqiientemente, se ela ndo esté em intima associacéo com Cristo, entao lhe é Aostil*'° ¢ contra Ele. Ser “com” Jesus significa ajuntar, ser-lhe hostil significa espalhar: aquele que camigo no ajunta, espalha. Ser “com” Jesus significa ser instrumento para arregimentar pessoas para serem seus seguidores (Pv 9.40, Du 12.3; Mt 9.37, 38; Le 19.10; Jo 4.35, 36; 1Co 9.22). Ser “contra” ele significa indisposigfo para segui-lo em sua missdo de ajuntar os perdi- dos. Significa deixa-los ser apriscos, espalhados, presa faci] de Satands (ver sobre 9.36; ef. Jo 10.12). Em quarto lugar, tal acusacao € imperdoavel. Jesus prossegue: 31,32. Portanto lhes digo, todo peca- do ¢ blasfémia serio perdoados aos homens, mas a blasfé- mia contra uv Espiritu nau sera perdoada. Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho, Ihe sera perdoado; mas aquele que falar contra o Espirito Santo, nao lhe sera per- doado, nem nesta era nem na era por vir. Todo ¢ qualquer pecado do qual os homens sinceramente se arrependem, lhes sera perdoado (assim também Mc 3.28: Le 12.10). E verdade que em nenhuma dessas passagens se men- ciona a condig&o do arrependimento. Nao obstante, o proprio contexto (12.41), Mateus 4.17 e, talvez ainda mais espccifica- mente, Lucas 17.3.4, a tornam claramente implicita. Ver tam- bém SI 32.1.5: Pv 28.13; Tg 5.16; 1Jo 1.9. Esta regra também é valida a respeito deste nefando pecado, a saber, a blasfémia Nesse contexto, contudo, é preciso precaver-nos, tendo cm mente que as Escrituras as vezes usam essa palavra num sentido mais “* Em grego, as duas preposigdes sf eve: versus xecté. 36 MATEUS 12.31,32 amplo do que o fazemos. Entre nds, “blasfémia” poderia ser definida como “irreveréncia desafiante”. A propésito disso, pen- samos, por exemplo, em crimes como amaldigoar a Deus ou ao rei que reina pela graga de Deus, ou a degradacao voluntaria de coisas consideradas santas, rebaixando-as 4 esfera secular, ou a reivindicagao para o que é secular ou puramente humano a hon- ra que pertence exclusivamentc a Deus. Em grego, contudo, um sentido mais geral era também atribuido a palavra “blasfémia”. ou seja, o uso de linguagem insolente dirigida contra Deus ou contra o homem. difamacio, xingamento, injaria (Ef 4.31; C13.8; 1Tm 6.4). Conseqiicntcmente, quando Jesus nos assegu- ra que “toda (vu “toda espécie de”) blasfémia sera perdoada aos homens”, ele esta usando 0 termo “blasfémia” no sentido mais geral. Entretanto. ao fazer uma excegiio — “mas a blasfémia con- tra o Espirito Santo nao scra perdoada” -, ele estd se referindo a um pecado que mesmo em nossa lingua seria considerado “blas- fémia”. Ver também sobre 9.3. Cf. Marcos 2.7: [ucas 5.21: Jofio 10.30, 33: Apocalipse 13.1, 5, 6: 16.9. 11: 17.3, , Nao obstante, ha perdao para todu género de irreveréncia desafiante, menos para um, como é evidente a luz do que Jesus diz: “Todo aquele que disser uma palavra contra a Filho, lhe sera perdoado.” Se isso nao fosse verdade, como 0 pecado de Pedro teria sido perdoado (Mc 14.7), € como poderia ter sido testaurado? (Jo 21.15-17.) Como poderia Saulo (Paulo) de Tarso ter sido perdoado? (Tm 1.12-17.) Em contrapartida, para a blasfémia contra o Espirito Santo”, isto é “falar contra o Espirito Santo”, declara-se nao haver perdao algum, nem agora nem na “era por vir”, De passagem, deve sublinhar-se que essas palavras, de for- wae ee implica que havera perdao para certos pecados na vo Ann ra. m nenhum sentido apyiam a doutrina do purgato- jon Pressdo simplesmente Significa que o pecado indicado ‘ais sera perdoado. Quanto a doutrina do purgatatio, supos- famente o lugar onde as almas dos que nao se perdcram eterna- Mente pagam o resto de sua divida sofrendo 0 castigo pelos pe- 37 12.34,32 MATEUS cados que cometeram enquanto ainda viviam na terra, € clara- mente refutado pela Escritura, a qual ensina que “Jesus 0 pagou todo” (Hb 5.9; 9.12. 26; 10.14, 1 Jo 1.7; Ap 1.5; 7.14). Fica a pergunta: “Como se deve entender que a blasfémia contra o Espirito Santo é imperdoavel?” Quanto aos demais pecados, nav importa quao graves € horriveis sejam, ha perdao para eles. Ha perdio para o pecado de Davi. de adultério, desonestidade e homicidio (28m 12.13; SI 51; ef. S132); para os “muitos” pecados da mulher descrita em Lucas 7; para o “vi- ver dissoluto” dos filhos prédigos (Le 15.13, 21-24), para a triplice negag&o por Simao Pedro seguida de maldigdes (Mt 26.74, 75; Le 22.31, 32; Jo 18.15-18, 25-27, 21.15-17); e paraa impiedosa perseguigao dos cristaos movida por Paulo antes de sua conversao (At 9.1; 22.4; 26.9-[1; 1Co 15.9; Ef 3.8; Fp 3.6). Mas para a pessoa que “fala contra o Espirito Santo” nado ha perdao algun. Por que nao?! Aqui, como sempre quando o texto em si niio é imediatamente claro, o contexto deve ser nosso guia. Dele aprendemos que os fariseus estfo atribuindo a Satandas 0 que o Espirito Santo, por meio de Cristo, esta realizando. Além do mais, esto agindo assim voluntariamente, deliberadamente. A despeito de todas as evidéncias ao contrario, ainda afirmam que Jesus esld expulsando deménios pelo poder de Belzebu. Nao s6 isso, mas est&o fazendo progresso no pecado, conforme uma comparagiio entre 9.11; 12.2 ¢ 12.14 o revela claramente. Ora, como ja foi indicado, ser perdoado implica que o pecador se arrependa verdadeiramente. Entre os furiseus aqui descritos tal genuina tristeza pelo pecado esta totalmente ausente. Substitui- ram o arrependimento pelo endurecimento; a confissao, pela conspiracao. E assim, por meio de sua pessoal e criminosa in- sensibilidade, completamente inescusdvel, cles esto condenandu asi proprios. Seu pecado é imperdoavel porque sao indispostos a trilhar a vercda que conduz ao perddo. Para um ladrao, um adultero e um homicida ha esperanga. A mensagem do evange- lho pode leva-lo a clamar: “O Deus, sé propicio a mim, peca- 38 MATEUS 12.31,32 dor.”* Mas quando uma pessoa se torna empedernida, de tal ma- neira que se predispSe a ndo mais prestar atenc4o aos impulsos do Espirito, nem sequer ouve mais sua voz que pleiteia e exorta, ela se poe na vereda que conduz 4 perdigdo. Ela pecou 0 pecado “para morte” (1Jo 5.16; ver também Hb 6.4-8). Para alguém que é realmente arrependido, por mais vergo- nhosa que tenha sido sua transgressdo, néo ha motivo para de- sespero (S] 103.12; Is 1.18; 44.22; 55.6.7; Mq 7.18-20; iJo 1.9). Em contrapartida, nao ha justificativa para o cultivo da indife- renga, como se o assunto do pecado imperdoavel nao fosse motivo de preocupagao para o membro mediano da igreja. A blasfémia contra o Espirito é 0 resultado de gradual progressa no pecado. Entristecer o Espirito (Ef 4.30), sc nao ha arrependi- mento, leva a resisténcia ao Espirito (At 7.51), a qual, se persistida, se desenvolve até que o Espirito é apagado (1Ts 5.19). A verdadei- ra solugdo se encontra em Salmo 95.7b, 8a: “Hoje, se ouvirem sua voz, nau enduregam seu coragao!” Cf. Hebreus 3.7.84. Finalmente, tal acusacao desmascara. Essa acusagao desmascara a perversidade daqueles que a formulam. Ela revela de quem esses blasfemos realmente sao filhos. Semelhantemente, as obras e atitudes boas dos genuinos filhos de Deus revelam que género de individuos essas boas pessoas sdo interiormente, A luz do versiculo 34 (“raga de vibo- Tas”) se faz evidente que também nesse breve paragrafo (vv. 33- 37) Jesus ainda tem em mente os fariseus. Nao obstante, é tam- bém evidente que aqui ele avanga do particular para o geral, ou seja, desse grupo particular de pessoas ele faz uina transigiiv para “o homem mau”, sejam ou nado os fariseus, versus “o ho- mem bom”, qualquer que seja ele (v. 35). Fle conclui cam uma veemente palavra de adverténcia dirigida dirctamente a cada in- dividuo em contradistingdo dos demais; observe-se a mudanca de “vocés” (“eu thes digo”, v. 36) para “vocé” (“Porque por suas palavras”, v. 37). O paragrafo cumega assim: 33. Ou considerem a drvore boa e seu fruto bom, ou considerem a drvore enferma e seu 39 12.34 MATEUS fruto doentio, pois pelo fruto se conhece a arvore. O frutoe a Aarvore formam um sé conjunto. Nao devem separar-se. Portan- to, dizer que. cmbora os feitos de Jesus, tais como expulsar de- mOnios, curar enfermos, etc., sejam benéficos, cle resino, po- rém, é mau, é instrumento de Belzebu, nao faz qualquer senti- do. Quem Jesus ¢ deve ser determinado pelo que ele fus: uma arvore € julgada por scus frutos. Literalmente. 0 original diz: “Ou facam a arvore boa e seu truto bom, ou fagam a arvore enferma e seu fruto doentio”, em que “fazer” significa “consi- derem ser”. Ver também Jo 5.18: 8.53; 10,33. Em nossa tingua ha um uso semelhante. por exemplo: “Ele nao é 0 génio que alguns fazem dele”, ou seja: “... que alguns consideram ser.” Para o restante, ver sobre 7.16-20. O fruto doentio comprova que algo esta errado com a ar- vore, Os fariseus produziam fruto doentio: linguagem blasfema (ver v. 24). Nao se pode esperar nada melhor de uma arvore — ou coragao — enferma: 34, Raga de viboras — ver sobre 3.7 -, como podem falar o que ¢ bom quando vocés mesmos sao maus? Visto que o cubo de onde saem todos os raios da roda do ser deles, visto que a propria fonte de seus pensamentos, sentimen- tos e vontade é totalmente depravada, como seria possivel que sua boca pronuncie algo que nao seja mau? Pois é da abundan- cia do coragdo que a boca fala. Literalmente. “do transborda- mento”, da sobra, do excessv. Cumo uma populagao prolifica que transborda para o territério adjacente, e como uma cisterna demasiadamente cheia que transborda para uma bica. assim tam- bém os excessos do corac&o irromperao cm palavras, como indu- bitavelmente faziam esses perversos fariseus. O oposio € tam- hém veridico: quando o coracdo esta cheio de boas e nobres intengdes, 0 que o homem bom fala comprovara ser isso um fato. A regra segundo a qual tudo o que o homem almeja em seu coragdo. de sorte que 0 préprio cerne e centro de seu ser ¢ saturado disso, mais cedo ou mais tarde ser4 revelado em seu modo de falar, € aplicavel ao bem ou ao mal igualmente: 35. O homem bom, de seu bom depésito, tira o que é bom, e 0 ho- 40 MATEUS 12.36 mem mau, de seu mau tesouro, tira o que é mau. O coracdo de uma pessoa é um reservatério, um armazém ou, como 0 ori ginal literalmente expressa, um /esourv. Cumparar com Mateus 2.11, onde a palavra é usada para indicar um cofre ou caixa da qual os sabios tiraram ouro, incenso e mirra.‘!' O que o homem extrai desse depdsito interior, seja bom, seja mau. precioso ou barato, depende do que esta levandu uele. Isso, contudo, nado oferece qualquer justificativa para um conceito fatalista da vida. Nao justifica que uma pessoa diga: “Eu nao fui meu préprio criador. Posso evitar ser como sou. 0 que penso, o que falo € determminar a maneira de fazé-lo?” Ao contrario, diz Jesus: 36. Ku, porém, lhes digo que, de cada palavra imprudente que os homens falarem, darao conta‘? no dia do juizo. Cada pessoa permanece plenamente responsd- vel pelo que ela &é, pensa, fala e faz, pois embora seja verdade que ela nado pode mudar seu prdprio coracio, é também verdade que, com o poder que Deus lhe confere, tem a capacidade de apelar para aquele que renova coragécs ¢ vidas. O Senhor esté sempre disposto e desejoso de conceder gratuitamente aos ho- mens tudo quanto ele exige deles. Se os homens nao 0 recebem. € por culpa de/es, no de Neus (SI 81.10; Is 45.22: 55.6,7; Mt 7.7; 11.28-30; Le 22.22; Jo 7.37; At 2.23; Tg 4.2b; Ap 3,18; 22.17b). Ora, sc até mesmo por cada palavra “imprudente” — segun- do 0 original mera “conversa” que ndo produz nenhum trabalho (proveitoso), e 6 portanto ineficaz para produzir qualquer bom resultado — os homens prestarao contas no dia do juizo final, udo serao porventura chamados a dar uma razao satisfatoria por suas palavras falsas, ferinas, blasfemas, tais como as que se acham registradas em 12.24? Quanto ao carater abrangente do juizo final, ver a lista de passagens mencionada na p. 664 do volume I, em conexao com a exposigdo de 10.26. “4A mesma palavra pode também indicar 0 proprio tesoure (Mt 619-21: D4: Hb 11.26: C1 2.3). Literalmente: "... cada palavra displicente que os homens falarem prestardo conta deta, ete anacoluto, se alguém desejar assim o chamar. dido. Ver Gram. N.T.. p. 718. Fle acarre em grego 4] sn facilmente enten- é freqiiente em hebraico. 12.37 MATEUS Dirigindo-se enfaticamente a cada pessoa individualmente no auditério, como se tal individuo nado mais fizesse parte do grupo, mas estivesse sozinho e face a face com o Senhor. Jesus, usando agora a segunda pessoa do singular, conclui ¢ culmina suas palavras, dizendo: 37. Porque por suas palavras vocé sera justificado, e por suas palavras sera condenada. O juizo pro- nunciady sobre o individuo no dia final (ver v. 36) ir ser “por”, no sentido de “de conformidade com”, “em concordancia com”, “em harmonia com” suas palavras, consideradas como espelhos do corag&o. Essas palavras revelardo se ele era um crente pro- fesso ou um inerédulu; se era un crente professo, elas revelardo se sua fé era genuina ou falsificada. E verdade que uma pessoa é salva unicamente pela graga, mediante a fé, a parte de quais- quer obras considcradas como merecedoras da salvagao. Nao obstante, suas obras — e isso inclui suas palavras — furnecem a evidéncia necessdria, demonstrando se ela era e é, ou nao, filha de Deus. Além do mais, se esse juizo resulta ser favoravel, as obras, refletindo o grau de lealdade humana a scu Mestre e Re- dentor, influi na determinagao de seu grau de gloria, Elas in- fluem semelhantemente para estabelecer o grau de punigao para os que perecem. Jesus quer que cada individuo medite nessa importante verdade, para que s¢ja justificado (declarado justo a vista de Deus) e ndo condenado. 38 Entdo alguns dos escribas ¢ fariseus Ihe responderam, dizendo: “Mestre, queremos ver um sinal feito por ti.” 39 Respondendo, ele lhes disse: “Uma geragao ma e adilltera procura um sinal, mas nenhum sinal Ihe sera dado, exceto aquele de Jonas o profeta. 40 Pois como Jonas esteve no ventre do monstro marinho trés dias ¢ trés noites, assim também o Filho do homem estard no coragao da terra trés dias e trés noites. 41 Hamens de Ninive sc levantariio no juizo com esta geragdo, ¢ a condenarao, pois sé atrependeram com a pregagao de Jonas; cis aqui, porém, algo maior que Jonas. 42 A rainha do sul se ergueré no juizo com esta geragéio, ¢ a condena- 1A, pois ela veio dos confins da terra para vuvis a sabedoria de Salomao; ¢ eis aqui algo maior que Salomao. 43 Ora, quando o espirito imundo sai de um homem, ele perambula por lugares aridos, buscando descanso, mas nao o encontra. 44 Entdo diz: ‘Voltarei para minha casa que deixei.’ Ele vai e a encontra desocupada, 42 MATEUS 12.38 varrida ¢ em ordem. 45 Entao vai e leva consigo outros sete espiritos mais perversos que ele, e entram e vivem ali. E a condigao final dessa pessoa se torna pior que a anterior. Assim sera também com esta geragdo perversa.” 12.38-45 Repreendida u Avidez por Sinais Para 12.38-42, cf. Marcus 8.11.12, Lucas 11.29-32, Para 12.43-45, ct. Lucas 11.24-26. 38. Entiio alguns dos escribas ¢ fariscus Ihe responde- ram, dizendo: Mestre, queremos ver um sinal feito por ti. E provavel que os fariseus hajam se ressentido com sua total der- rota. Jesus comprovara que a noticia que haviam espalhado so- bre ele (ver 12.24) era tanto perversa quanto absurda. Além dis- so, também os chamara de “raga de viboras”. Portanto agora os fariseus, que um pouco antes se haviam aliado com os herodianos (Me 3.6), buscam o socorro daqueles a quem profundamente admiram (pelo menos fingiam admirar), a saber, os escribas, reconhecidos expositores e mestres do Antigo Testamento e das tradigdes que haviam vinculado a ele. Ver mais acerca da seita dos fariscus ¢ da profissdo dos escribas, nas notas sobre 3.7; 5.20; 7.29. Esses fariseus e escribas vio juntos a Jesus e lhe dizem que queriam ver um sinal feito por ele. Atitude completamente judaistica! (1Co 1.22.) Ao apresentarem sua solicitag4o, obser- vam as formas exteriores da cortesia e do respeito.‘" Tal poli- dez, contudo, néio passava de mera aparéncia. Esses homens odiavam Jesus (cf. Le 11.16). O que realmente estavam dizendo era que nenhuma das prodigiosas obras de cura que Jesus até entdo realizara, inclusive aquela descrita no versiculo 22, era suficiente para comprovar que ura pelo poder do Espirito que 38 Pode-se muito bem duvidar se ¢ correta a teoria segundo a qual o uso do indicative. @édouer, indica brusquidao ~queremos de ti” (Lenski). "yueremos ver” (N.AS.) =. de sorte que a solicitagdo equivale a uma exiganeia. De acorde com o fato de ‘que esses homens se dirigem respeitosamenie a Jesus como “Mestre”, pareceria mais provavel que, quanto d forma. a solicitagao foi cortés: “queriamos ver™ (A.V. c ASV), "queremos ver” (R.S.V.), “gostariamos de ver" (Williams), tradu- Ges essas certamente dentro da harmania com 0 uso do indicative do verho 9:0 Ver L.N.1.(A. €G.). p. 355. 43 12.39,40 MATEUS ele as fizera. Kes tinham uma explicacao diferente (12.24). No fundo, portanto. sua solicitagao era insultuosa e impudente. Ja haviam sido fornecidas todas as comprovagdes necessarias das reivindicagdes de Cristv. Haviam sido fornecidas por mcio de milagres em conex4o com os quais se haviam abragado a eficd- cia e a compaixdo. Sim. também a compaixao, o amor, a graca para com os pobres pecadores perdidos. Os inimigos, porém, nao estavam interessados em compaixdo, e, sim, em prodigios; nao por curas, mas por aquilo que apelava para os sentidos. O sinal teria de ser diferente de tudo quanto fora feito previamen- te. Tinha de ser emocionante, excitante, sensacional. Muito bem, o que eles queriam mesmo? Queriam que Jesus fizesse mudar o lugar das constelacées celestes no zodiaco’ Queriam que ele fizesse o Toura (Taurus) alcangar o Gigante Cacador (Orion)? Devia. quem sabe, fazer resplandecer seu nome pelo céu inteiro com enormes letras douradas? Espera-se que ele reproduza no céu, acima deles, uma visio de Miguel deixando subitamente sua morada celestial e descendo para libertar os judeus do amargo jugo dos romanos? A exigéncia deles é perversa, pois além de ser insultante e impudente, era também hipocrita, porque se sen- tiam seguros de que, o que de forma tao polida haviam solicita- do a Jesus que fizesse, ele de forma alguma o poderia fazer. L prossegue: 39, 40. Respondendo, ele Ihes disse: Uma geracdo ma e adultera procura um sinal, mas nenhum sinal Ihe sera dado, exceto aquele de Jonas o profeta. Pois como Jonas esteve no ventre do monstro marinho trés dias e trés noites, assim também o Filho do homem cstara no coracio da terra trés dias e trés noites. Jesus, longe de se deixar enga- nar pela polidez exterior exibida diante dele por esses adversa- rios, discerne seus verdadeiros motivos, a saber, reprimir sua influéncia entre o povo e, havendo desmascarado o quc por cles seria considerado fracasso e incapacidade, destrui-lo como um falso pretendente aos direitos e prerrogativas messianicas (12.14). FE ébvio a luz das palavras. “uma geragao ma e adtiltera”, que o Senhor se dirige nao sé aos fariseus ¢ escribas, mas tam- bém a seus seguidores. Ele denomina esses contemporaneos de AM MATEUS 12.39,40 “maus”, isto é, moralmente corruptos: igualmente de “adtilte- ros”. infiéis ao seu legitima Esposo. Jeova (Is $0.1-11; Jr 3.8: 13.27; 31.32; Ez 16.32, 35-43; Os 2.1-23). Ver também sobre Mateus 9.15. Foi precisamente a uma tal geracao adultera que o Messias. segundo uma opiniao judaica bastante generalizada, se manifestaria.*4 N&o surpreende, puis. que Jesus recuse dar a esses inimi- gos, fariseus e escribas e seus adeptos. o sinal que pediram. Ele. 0 Pai em conexfa com ele, [hes oferece seu proprio sinal. sinal este no qual cle triunfard totalmente sobre eles. para sua vero- nha eterna, isto é, 0 sinal de Jonas, o profeta, o qual foi restitu- ido do ventre do monstro marinho depois de “trés dias e trés noites”. (Ver Jn 1.17 —2.1 no original hebraico —: 2.10.) E evi- dente que Jesus aceita esse relato do Antigo Testamento como o registro de um fato histrico. Ora, 0 Senhor diz que o Filho do homem ~ quanto ao titulo, ver sobre 8.20 —. semelhantemente. ficara no coragao da terra, na sepultura, durante trés dias e trés noites. A li¢do central consiste em que, como Jonas fora traga- do pelo monstro marinho, assim ele. Jesus, seria tragado pela terra; e como Jonas fora libertado de scu encarceramento, assim também o grande Antitipo de Jonas sairia da sepultura. Exatamente como, no caso de Jonas. esses trés dias e trés noites foram computados, a Escritura em parte alguma revela. Toram trés dias ¢ trés noites inteiros, 72 horas ao todo, ou foi o periodo de sua estada no ventre do “peixe™, um dia inteiro mais Partes de dois outros dias? Nao sabemos, No entanto, sabemos, a luz de Ester 4.16, que o terceiro dia nao pode ter sido um dia inteiro (ver 5.1, “ao terceiro dia”, nao “apos 0 terceiro dia”). Ver também o livro apécrifo de Tobias. 3.12.13. Portanto. é fora de propésito dizer que. para interpretar corrctamente Matcus 12.40, Jesus teria permanecido na sepultura trés dias inteiros mais trés Noites inteiras. E contrario ao uso judaico desses termos. Nao obstante, reiteradamente — 4s vezes em pequenos pan fletos — advoga-se a opinido de que, segundu Maieus 12.40, Je- “4S.BK. Vol. lp. ff. - 45 42.39,40 MATEUS sus teria morrido e teria sido sepultado na quinta-feira. Issu, contudo, é decididamente erréneo. pois os registros inspirados nos contam que esses eventos se deram na sexta-feira, isto é, na Paraskeué, a mesma palavra ainda usada no grego moderno para indicar sexta-feira (Mc 15.42, 43; Le 23.46, 54; Jo 19.14, 30, 42), Além disso, se os proponentes da teoria, “Jesus foi sepulta- do na tarde de quinta-feira”, exigem que “trés dias” significam trés dias inteiros, sua teoria ainda ficara sendo insuficiente; e, em contrapartida, se, como consideram, uma parte de um dia seria equivalente a um dia, o resultado seria: dias demais! Tampouco ¢ inteiramente satisfatério dizer que, embora seja verdade que Jesus morreu na sexta-feira ¢ ressuscitou no domingo de manh§, a solugdo precisa ser encontrada no fato de que, como ja se comprovon. 05 judeus contavam uma parte do dia como equivalente a um dia, e uma parte da noite como equi- valente a uma noite. No que conceme aus “dias”, esta scria uma explicagao satisfatoria, mas ainda nos deixaria com apenas duas noites, nao trés. Ecumo fica? Alguns, scm esperanga de encontrar solucdo, declaram que o dito, ainda que fosse parte do Evangelho desde o principio, é espurio, nao havendo sido nunca pronunciado peto préprio Jesus. Entretanto, nfo ha uma raz4o plausivel para se cortar o n6 gordio. A verdadeira solugao acha-se, provavelmen- te, numa diregdo diferente. Quando dizemos, “o universo”, os antigos diriam, “céu e terra”. Assim também, nao deveria sua expressio, “um dia e uma noite”, ser tomada no sentido de uma unidade de tempo, um periodo de dia,** uma parte de tal perio- do ser tomada como um todo? Na verdade ele esieve no coragao da terra “trés-dias-e-trés-noites”, isto é, durante trés dessas uni- dades de tempo. Nessa passagem, a predi¢do de Cristo com referéncia 4 sua ressurreic¢do vindoura ainda era um tanto velada. Subsegiiente- mente, a profecia seria expressa com crescente clareza (ct. 16.21; 20,17-19; Me 9.31; Le 9.22; 18.31-33). 58 Cf 9 termo holandés eumaal (um periodo de 24 horas — a partir de qualquer horario). 46 MATEUS 12.41 : O poderoso evento da gloriosa ressurrei¢&o de Cristo de- veria levar todos os homens ao arrependimento. E se arrepende- rho? Com respeito a muitos deles. aqueles que haviam se endu- recido completamente (12.24.31,32), Jesus de forma alguma o espera, pois tais pessoas séo muito mais impias do que os ninivitas que foram por meio de Jonas chamados ao arrependi- mento: 41. Homens de Ninive se leyantarao no juizo com esta geragao, ¢ a condenarao, pois se arrependeram com a pre- gagao de Jonas; eis aqui, porém, algo maior que Jonas. Se até mesmo ninivitas*!® arrependeram-se, nao deveriam as ju- deus fazer o mesmo? , Comparagdo Entre Aqueles a Quem Jesus Se Dirige e os Ninivitas Quanto aos escribas e fariseus Quanto aos ninivitas: e seus seguidores: a. Eo proprio Filho do homem —_ a. Foi um profeta menor quem que, reiteradamente, se lhes lhes pregou. dirige e os convida ao arrepen- dimento (Mt 4.17; 11.28-30; 23.37). b. Este Cristo € completamente _, Esse profeta era pecador, in- sem pecado (12.17/-21; Jo sensato e rebelde (Jn 1.3; 8.46), cheio de sabedoria e 4.3, 9b). compaixao (Mt 11.27-30; 15.32; 1Co 1.24). ¢. Ele apresenta a mensagem de graca e perddo, de salvacgao completa e gratuita (Mt 9.2: 11.28-30; Le 19.10; Jo 7.37). c. Sua mensagem era de conde- nacio. Embora indubitavel- mente contivesse um chama- do ao arrependimento, a énfa- se estava nisto: “Daqui a qua- renta dias, © Ninive sera sub- oe vertida™ (Jn 3.4). si Oe nf a Nao “os” homens de Ninive, como sc todos eles houvessem se arrenendido, mas homens de Ninive™, Assim também em Lucas 11.32. F provivel que a propria omissdo do artigo enfatize a natureza ou cardter dessas pessoas em comparagao com os judeus. como a dizer: “Pensem ; Meros ninivitas se arrependeram, entao nao deveriam vocés fazer o mesmo? 47 12.41 MATEUS d. Essa mensagem esta sendo cor- d. Nao havia milagres ou outros roborada pelos milagres, nos sinais autenticadores para con- quais as profecias esta se cum- firmar a mensagem de Jonas. prindo (Mt 11.5: Le 4, 16-21: ef. Is 35.5, 6; 61.1-3: Jo 13.37). a e. Esta sendo levada a um povo. e. A mensagem de Jonas foi diri- que tem sempre destrutado de —-gida a. um povo que nao dest u- infindaveis béngdos espirituais tava de nenhuma das béngaos de (Dt 4, 7, 8; 19.4; S! 147, 19,20; que os escribas, fariseus € seus Is 5.1-4; Am 3.2a; Rm 3.1.2: seguidores desfrutavam. 9.4.5). ° Os ninivitas. contudo, se arrependeram; a maioria dos israelitas, no (Jo 1.11; 12.37). Pessoas menos iluminadas obe- deceram a uma pregagio menus iluminada;, em contrapartida, pessoas mais iluminadas se recusam a obedecer a Luz do mun- do. Surge a pergunta: “O arrependimento dos ninivitas. contu- do, foi genuino, isto é, para a salvago?” A resposta freqiiente- mente apresentada, € que ndo foi, senao os ninivilas nao teriant sido destruidos. Objec4o: a destruigdo dessa grande cidade ocor- reu cerca do ano 612 a.C., isto é, cerca de um século ¢ meio depois da pregacaio de Jonas. Portanto, seria injusto culpar 0s ninivitas dos dias de Jonas dos pecados de uma geragao muito posterior.*!” A Escritura em parte alguma alega que o arrependimento de todos os ninivitas foi genuino, tampouco deixa a impressdo de que nenhum deles fosse salvo: muito ao contrario. Que hou- ve deveras conversécs genuinas em Ninive, provavelmente muitas, parece achar-se implicito tanto no livro profélicu quan- to aqui em Mateus 12.41. A idéia de que o arrependimento dos ninivitas no foi genuino, que ndo passou de mera mudanca dos vicios para a virtude. se ubre a és outras objegdcs: a. sc a0 falar da necessidade de arrependimento em Mateus 4.17, Jesus 5? Concorde plenamente. pois, com o juizo de FE. Gacbelein sobre esse tema. Ver seu livra, Four Minor Prophets. Chicago. 1970. p. 109, Para o ponto de vista contrario. ver Lenski. op. cit, pp. 433. 481. 48 MATEUS 12.42 tinha em mente uma genuina tristeza pelo pecado, por que ndo aqui em Mateus 12.41?: 6. em 11.20-24 (ef. Le 10.13-15: 11.30) Ninive nao se acha inclusa na lista das cidades impenitentes do Antigo Testamento; ¢ c. se o arrependimento referido em Mateus 12.41 nao foi genuino. torna-se dificil explicar a declaragiio: “Homens de Ninive se levantardo no juizo com esta geragio ea condenarao.” E oportuno observar-se que acerca desses “homens de Ninive™ nao se diz, como no caso dos de Sodoma e Gomorra. Tiro € Sidom, que no juizo havera “maior tolerancia™ para com eles (10.15: 11.22.24), sendo que, como a rainha do sul (17.42). se levantar&o no juizo e condenardo “esta” geragdo, ou seja, a geraydo dos escribas, fariseus ¢ seus seguidores. Visto ser o en- sino da Escritura (Dn 7.22: Mt 19.28; 1Co 6.2; Ap 15.3. 4; 20.4) que os filhos de Deus tomario parte no juizo final (por exem- plo, louvando a Deus em Cristo por scus juizos?), cssa declara- g&o de Jesus acerca do papel de certos ninivitas na sessio do Grande Tribunal sé sera compreensivel se o arrependimento deles tivesse sido genuina De novo. em palavras semelhantcs as de 12.6 (ver sobre essa passagem), os fariseus e escribas sao lembrados da profun- didade de seu pecado em rejeitarem e blasfemarem do Cristo: e eis aqui, porém, algo maior que Jonas. Essa grandeza supe- rior ja foi cxplicada supra; ver a comparacao, alineas a. b, ced. pp. 47, 48. Em concordancia com os ninivitas. como um exemplo que deveria deixar os fariseus envergonhados, esta “a rainha do sul”, isto ¢, “a rainha de Saba”. Ver 1 Reis 10.1-13 (2Cr 9.1-9). 42. A rainha do sul se erguera no juizo com esta geragao, ea condenara, pois ela veio dos confins da terra ouvir a sabe- doria de Salom4o. E eis aqui algo maior que Salomao. Desde tempos antigos, interessantes anedotas té1 circulado com refe- réncia a essa rainha. Se existe ou nao algum vestigio de verdade nelas, que o investigador julgue. O ponto de partida dessas his- térias é matéria de fato. Na verdade essa rainha veio de muito longe para ouvir a sabedoria de Salumao, para testa-lo com enig- mas ¢ perguntas dificeis (1 Ks 10.1). 49 12.42 MATEUS De acordo com uma das lendas, Salom&o se enamora da rainha, ela, porém, resiste a seus galanteios. Ela ainda diz ao rei que, a menos que os desejos dela sejam respeitados no tocante a essa matéria, ela estaria ausente do bauquete de despedida que seria dado em sua homenagem. Ela o faz prometer com jura- mento. Em contrapartida, ele a fay prometer que ela nao levara do paldcio nada além do que lhe fora dado. Ela concorda, dizen- do que ele poderia fazer com ela o que quisesse, caso ela que- hrasse o juramento. O banquete é servido e a rainha participa, embora, segundo o costume, ela nao coma com os homens. Sua comida, contudo, recebe um tratamento especial. Foi tempera- da de forma a provocar-ihe muita sede. Ela de noite se retira para seu dormitério, porém acorda com uma sede ardente. Ela bebe agua de um jarro de ouro que estava por perto. Nao obstante, ele ndo lhe havia sido dado! Subitamente ela ouve nma voz: “Vocé quebrou seu juramento.” Depois de uma eve discussiio, cla admite que de fato cometeu um erro. Conseqiientemente, ela libera Salom&o de seu jura- mento... Mais tarde, de volta a seu pais, ela da a luz um filho, e Ihe dé o nome de Ebna E! Hakim (filho do sabio). A pergunta tem sido [eita: “Seria essa a razéo de haver na Etiépia uma tribo de antigos judeus de origern desconhecida?” Também se poderia fazer uma contra-pergunta: “Foi a propria presenga desses judeus que porventura dcu origem 4 Ienda?”5!* Outras perguntas também se tém formulado; por exemplo, a viagem dela a Jerusalém tem algo que ver com a busca de protegao para as exportagdes de mercadorias que saiam de seu pais com destino a Siria, Fenicia, etc., e que devia passar pela terra de Israel? Entretanto, pisamos em terreno firme quando voltamos ao relato que se encontra nas passagens ja indicadas dos repistros inspirados. A curiosidade da rainha havia sido des- "8 Para esta e outras lendas — por exemplo. com respeito a Salomao como o inventor do avido, ¢ a Ebna El Hakim demonstrando sua extraordindria sabedoria em reco- nhecer seu pai em seu primeiro encontro, mesmo quando Salomao, para prova-lo, disfarcou-se de mendigo — ver S. Bergsma, Rainbow Empire, Grand Rapids, 1932, pp. 194-198, 200. 244. 50 MATEUS 12.42 pertada. Era uma curiosidade do melhor género. Ela ouvira acerca “da fama de Saloméo em relac&o com o nome do Senhor™. E assim ela veio a Jerusalém com uma imensa caravana de came- los carregados de especiarius, ouro em grande abundancia e pe- dras preciosas. Salomao forneceu resposta satisfatoria a todas as suas perguntas. Ao observar sua grande sahedoria, a casa que cle construira, o asscntar de scus servos, o modo de sc vestirem, etc., “sentiu-se perplexa... E entao disse ao rei: ‘E verdade o que ouvi na minha terra, acerca dos teus feitos ¢ da sua sabedoria. Contudo eu nao acreditava, até que vim ¢ os meus olhos o vi- ram. E eis que nay me disseram metade™. A rainha presenteou ao rej ouro, pedras preciosas e especiarias. Em contrapartida, ele também lhe deu presentes carissimos. Ora, uma das expressdes mais notaveis dessa rainha, em harmonia com o propésito para o qual ela fizera a viagem (ver 1Rs 10.1), foi sua exclamagao que se acha registrada préximo ao final do relato: “Bendito seja o Senhor teu Deus, que se agra- dou de ti e te colocou no trono de Israel! Porquanto o Senhor amou Israel para sempre, por isso te estabeleceu rei, para execu- tares juizo e justica.” Em concordaéncia coin tudo isso, nav devemos sentir-nos surpresos ao ler aqui em Mateus 12.42 a declaracgao de Jesus de que no juizo final essa rainha, também, se levantaré e condena- ra scus perversos contemporancos. Em que aspecto a rainha envergonhou esses judeus? Observe o seguinte: Os escribas, fariseus ¢ seus A rainha do sul: seguidores: a. Para eles a verdade esta a. Ela enfrentou bravamente as difi- perto, de facil alcance (Mt culdades de uma longa viagem em 26.55). terreno dificil. Provavelmente ela viesse da regido que hoje é lémen, na parte sudoeste da peninsula ara- bica, na costa asiatica do Mar Ver melho, defronte a Etidpia (Africa). Sua viagem teria coberto pelo me- nos dois mil quilometros. 3 42.42 MATEUS b. Eles tém acesso a alguém mais b. Ela veio ouvir a sabedoria de sabio. melhor e muito maior — Salomao “em conex4o com o que Salomao. nome do Senhor™, mesmo quando a verdade concernente a Deus cra apenas muito im- perfeitamente refletida em Salomao c. Bles do dao nada, pelo con- c. Ela dew a Salomao, de seus te- trdrio, conspiram para firara = souros, um Imenso presente propria vida de Cristo. (IRs 10.10). ; d. Desfrutavam de muitas béngdos 4. Ela sitmplesmente ouvira as no- religiosas. ticias. e. Estavam senda convidados come. Nao se informaem absoluto que muita insisténcia a aceitarema _ela recebera algum convite. Jesus ¢ a verdade nele (Mt 11. 28-30; of. 22.1-5). Enquanto eda veio, eles recusaram-se a vit. / Que tipo de “religido” esses fariseus e seus seguidores pu- seram no lugar daquela que esto rejcitando? E enfaticamente uma religido de negacdes, tais como: “Cuidado para ndu se as- sociarem com publicanos e pecadores e para ndo quebrarem um juramento feito ao Senhor. No sabado. ndo arranquem esplgas. ndo as debulhem com suas m&os nem as comam. Ndo curem a ninguém nesse dia, a menos que haja risco de que possa morrer antes do amanha. Nao comam um ovo botado no sdbado, a me- nos que pretendam matar a galinha™, ete. / 7 Houvera um tempo quando a nota mais positiva, “Arre- pendam-se”, ressoada por Joao Batista, ganhara muitos segui- dores (Mt 3.5). [Im pouco mais tarde. a mesma admoestagao procedente dos labios de Jesus (4.17). juntamente cam outros de seus ensinamentos bem positives, fora recebida com entu siasmo (Jo 3.26). Poderia parecer por certo tempo como se um deménio houvesse sido expulso de um homem. sendo esse ho- mem uma representagdo do Israel daqueles dias. Mas sob a in- fluéncia dos escribas ¢ fariseus, homens invejosos, o quadro mesmo agora estava mudando rapidamente. Nesse exato mo- §2 MATEUS 12.43-45 mento, esses lideres perversos estavam tramando a destrnigaio de Cristo (Mt 12.14). E. por fim, o povo judeu, representado diante da cruz, gritara: “Crucifique-o, crucifique-o” (27.20-23). Eles o farao induzidos por seus lideres (Jo 19.6. 15. 16). Um nico deménio terA sido substituido por oito. Cf. 11.7-19. A luz desse fato, a ilustrag4o agora usada por Jesus é clara: 43-45. Ora, quando o espirito imundo sai de um homem, ele perambula por lugares aridos, buscando deseanso, mas nao o encontra. Entao diz: Voltarei para minha casa que deixei. Ele vai e a encontra desocupada, varrida e em ordem. Entae vai e leva consigo outros sete espiritos mais perversos que ele, e entram e vivem ali. E a condi¢ao final dessa pessoa se torna pior que a anterior. Assim sera também com esta ge- racao perversa, Muitas perguntas vém imediatamente a tona; por exem- plo: “Por que se descreve esse deménio como a vagar por luga- res dridos ou desérticos?” “Qual a razdo de nao encontrar ele descanso ali?” “O que exatamente esta implicito por esses ou- tros sete espiritos piores do que ele?”. etc. Trés fatos, contudo, se deve ter em mente: a. A Escritura nos fala muito pouco acer- ca das peculiaridades e costumes dos deménios. e especular afoitamente acerca de tais matérias no serviria a nenhum pro- Posito util. 6. O Senhor nao nos esté apresentando um discurso sobre demonologia. O que ele quer é que nao pensemos tanto acerca desses dem6nios, ¢, sim, acerca “desta geragdio perver- sa” (v. 45, ef. v. 39). simbolizada pelo homem que primeiro foi Ppossuido por um sé deménio, entao libertado e finalmente de novo possuido, sé que dessa vez ndo por apenas um, mas por oito demdnios. ¢. Se essa ilustragdo é da mesma natureza de uma parabola, como pode muito bem ser, entdo seria err6neo insistir em cada detalhe como ela devesse set interpretada sepa- rada e literalmente. No caso da parabola do Rico e Lazaro (Le 16.19-31a), a insisténcia rigida cm isolar cada item ¢ impri- mir-Ihe um sentido figurado leva a absurdos. Com esses princi- Pios como guia, a li¢o pode ser reproduzida como se segue: 53 42.43-45 MATEUS Satands € solicito em enviar seus deménios para os cora- goes humanos, para yue assumam 0 controle sobre esses cora- Bes, sempre em sujeigdo ao principe do mal. Puis € doloroso para um deménio viver fora da atmosfera terrena, e especial- mente fora do coragaio humano, onde ele pode levar a cabo seus maus designios, visto ser ele um sadico de primcira classe. Quanto aos “lugares aridos” ou desérticos (ver também Is 13.21; 34.14; Mt 4.1; Ap 18.2), apenas isto: se estamos acos- tumados a associar os anjus bons com lugares em que prevalece a ordem, a beleza ¢ a vida, ndo parece natural associat os anjos maus com regides onde predomina a desordem, a deso- lag&o e a morte? Ser libertado de um deménio é uma béngao. Esse tipo de condic&o, como ja foi indicado, pode muito beni descrever Is- rael durante os dias do ative ministério de Joao Batista, ¢ logo depois. Mas em si mesmo ¢ por si mesmo isso ndo é suficiente. Nao basta ter medo de ir para o infemo, e por medo, talvez, confessar os pecados e aceitar o batismo. Isso apenas deixariaa alma vazia: “desocupada, varrida, posta em ordem”. Tal condi- ao nao pode satisfazer as necessidades mais profundas do co- ragdo humano. Vida inofensiva ndo € a mesma que vida santa. Desistir do erro difere muitissimo de ser uma béncdo. O que Jesus exige ¢ a total devogaio do corayao, de tal mancira que este dé espontanea ago de gragas a Deus € seja, por amora ele, uma béngao ao proximo. Nao se requer nada menos que isso. Uma figueira que nada produz senao folhas é amaldigoada, mesmo quando nao produza nenhum fruto podre (Mt 21.19). A pessoa que sepulta seu talento é rejeitada (25. 18, 26-28). Os que duran- te esta vida nada fazem pelos famintos, pelos sedentos, etc., ja- mais entrarao nos atrios da gloria (25.41-45). Cf. Tiago 4.16.0 que Jesus quer é uma vida plena e positiva. vida que, por grati- dao pela salvagéio exclusivamente pela graca, se torna uma bén- cdo. Ele nao quer nada menos que isso. E por essa mesma raz&o que sempre houve choque entre Jesus e os fariseus. O que era enfatizado pela maioria dos fariseus, 54 MATEUS 12.46 em obediéncia as normas estabelecidas pelos escribas, nao era o aspecto positivo da lei. e, sim, o negativo. Jesus era inteiramen te diferente. E foi assim que a bondade comegou a debater-se com a frieza, a tolerancia com o exclusivismo, a liberalidade (o amor) com 0 egoismo, a énfase sobre o sentido mais profun- do da lei coma insisténcia sobre a letra dela. Estes dois- Cristo co fandtico — ndo podem habitar juntos em unidv. Além do mais, os fariseus tinham seus intimeros seguidores entre 0 povo em geral. Nao tinha Jesus, também, seus seguidores? Sim, sem duivida! E, aos olhos dos fariseus invejosos, isso tornava as coi- sas ainda piores. O fim é como ja se observou. A referéncia a “esta geragio perversa”, no versiculo 45, uma reflexdo sobre uma descrigdo semelhante dos hastis con- tempordneos de Cristo, no versiculo 39, mostram que toda a segdo (vv. 38-45; em certo sentido ainda os wy, 22-45; ver o vy. 24) € uma unidade, uma intima correspondéncia. Os fariseus acusaram Jesus de estar ligado a Satands (v. 24)? Jesus respon- de que eles ¢ seus seguidores lembram um homem possesso de ndo menos que vito deraénios! Nao obstante, ao longo de toda a segao nao podemos deixar de detectar um convite 4 conversdo (ver especialmente os vv. 28, 35a, 41, 42). 46 Enquanto ainda falava as multiddes, eis que sua mae e seus irmaos chegaram do lado de fora, tentando falar com ele. 47 E alguém Ihe disse: Eis que tua mae e teus irmdos estao I4 fora, tentando falar contigo. ~ 48 Ele. porém, respondeu ao que Ihe falava (isso) e disse: “Quem é minha mie ¢ quem so meus irmaos?” 49 F estendendo sua mao para seus discipulos. disse: “Fis minha mae e meus irmaos! 50 Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai celestial, esse é meu irmao e irma e mac.” SSS 12.46-50 A Mae e os Irmdos de Jesus Cf. Marcos 3.31-35; Lucas 8.19-21 46 Enquanto ainda falava as multidées, eis que sua mae € seus irmaos chegaram do lado de fora, tentando falar com ele. Nao foi revelado a exata razio por que a mac ¢ os irmaos de Jesus enlraram em cena, tentando fazer contato com ele. E pos- Sivel que Marcos 3.21,22 derrame alguma luz sobre isso, Se for 5S 12.47 MATEUS © caso, é também possivel que declaragdes perturbadoras sobre Jesus — por exemplo, que scus opositores o considerassem ende- moninhado. e que até mesmo seus amigos pensassem que cle estava fora de si — os tenham induzido, movidos de natural afe- to, a tentar remové lo da vista do publico e Ihe providenciar um lugar de repouso e refrigério. Mesmo que tal conjetura sobre os motivos deles fosse correta. isso nao autoriza a ninguém a dizer, como o fazem alguns comentaristas, que Maria e seus outros filhos compartilhavam do conccito dos “amigos”. realmente nutriam a opinidio de que seu ente tao querido se tornara mental- mente desequilibrado. Quanto a identidade desses irmaos de Jesus, tal matéria ja foi examinada em conex4o com 1.25, Os nomes dos irmaos es- to registrados em 13.55; cf. Marcos 6.3. © fato de Maria e os irmaos de Jesus estarem do lado de “fora” parece indicar que aquele com quem tentavam fazer con- tato estava dentro de uma casa, pelo menos durante os eventos registrados na tltima parte do capitulo 12 (desde o v. 38 em diante?), se ainda no antes que isso. Cf. também Marcos 3.19b. Isso também parece estar apoiado por Mateus 13.1, que descre- ve Jesus quando “saiu da casa”.*”° Isso explica a situagdo descrita no versiculo 47, E alguém The disse: Eis que tua mae ¢ teus irmaos esto 14 fora, ten- tando falar contigo.*“’ Visto que por causa da multidao (Le 8.19) era impossivel aos recém-chegados se aproximarem de Jesus — a casa estava chcia - . alguém que estava perto da porta transmite a noticia a Jesus. 5 Qutro ponto de vista ¢ aquele de Lenski, que interpreta “a casa de 13.1 como se referindo ao lar da mae e dos irmaos de Cristu. c eré que a [ras ‘estando do lado de tora” de 12.46 no sentido de ~fura uit muitidao apinhada” Embora esse me pareca o mais desnatural dus Uvis pontos de vista, a diferenga nao é muito impar- tante. = Seria esse versiculy auléntico? A evidéneia textual é inconclusiva. Nao ohstante, o-que se ucha declarado no versiculo 47 ¢ provavelmente © que realmente suce- deu, puis ele fornece uma explicagdo muito natural da maneira em que a informa- pao relativa a mac ¢ aos irmaos de Jesus Ihe foi comunicada. 56 MATEUS 12.49 Fis aqui. pois, uma daquelas interrupgdes sobre as quais comentamos previamente. Ver sobre 9.20. Aqui também, como sempre, longe de Jesus ficar de alguma forme constrangido com ela, cle a agatra como uma oportunidade para converté-la nunia conquista espiritual: 48. Ele, porém, respondeu ao que the falava (isso) e disse: Quem é minha mie ¢ quem s4o meus irmavs? Ele deseja indicar que nem a Maria nem a esses irmaos se permite desvid-lo de sua predeterminada tarefa. Cf. 10.37: Lucas 2.49; Jodo 2.4; 7.6. , a Jesus formula uma pergunta. Como os versiculos 49 ¢ 50 indicam, o que ele pretendeu dizer foi: “Quem séo os que per- tencem 4 minha familia espiritual”. a “familia de Deus” ou “da t€"? Ele esta indicando que os lacos espirituais so mais impor- tantes do que os lagos de sangue. Para outras referéncias a essa familia espiritual, ver Jofo 1.13; Gdlatas 6.10: Efésios 2.19: N.T.C. sobre Efésios 3.15. Jesus responde a sua propria pergunta, Essa resposta é bre- vee bela, e acima de tudo consoladora: 49. E estendendo sua mo para seus discipulos, disse: Eis minha mae e meus ir- mios! Foi para scus discipulos, 0 circulu intimo, que ele amoraveimente estendeu sua mao. Foi a eles que ele deu este titulo de honra: “minha mae e meus irmfos”; sim, e também “minhas irmas” (ver v. 50 e cf. Mc 3.35), pois na mais impor- tante funilia 0 sexo ndo faz qualquer diferenga. Essa resposta. acompanhada desse significativo gesto, nao sé comprova qual telagiio importa mais a Jesus, a fisica ou a espiritual, mas tam- bém comprova o carater altruista ¢ maravilhoso de seu amor, pois mesmo admitindo que a designagdo pudesse ter sentido somente para aqueles que eram seus verdadeiros discipulos. ou seja, para aqueles que estavam fazcndo a vontade do Pai celestial (v. 50) — dai nao poder aplicar-se a Judas Iscariotes! —, quem eram esses homens? Com toda certeza. tinham deixado tudo ¢ 0 seguido! Nao obstante, eram homens “de pequena fé". fracos em muitos aspectos, coro jd foi demonstrado em conexao com 10.2-4. Contudo Jesus nao se envergonhava de chamé-los “ir- 57 12.50 MATEUS maos” (Hb 2.11; ef. Rm 8.17.29). Que comentario proporciona Jesus para uina porgao da Santa Escritura que iria ser escrita por um de seus futuros embaixadores, 0 apstolo Paulo! (1Co 13.4- 8a.) Concluindo: 50. Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai celestial, esse é meu irmao ¢ irmd € mae. O termo “pois” indica uma conexdv com o precedente, mais ou menos assim: “Esses discipulos pertencem 4 minha familia, porque sio membros daquele grande grupo que consiste de todos os que fazem a voritade de meu Pai celestial.” Quanto 4 Gltima frase (“meu Pai celestial”), ver sobre 7.21-23. Observe-se o carater amplo deste “todo aquele”. Quer di- zet negro ¢ branco, feminino e masculino, jovem e idoso, rico € pobre, escravo e livre, culto ¢ inculto, extraido do mundo dos judeus ou do mundo dos gentios. Nao obstante, observe-se tam- bém a exclusividade: aqueles, ¢ somente aqueles, que fazem a vontade do Pai! Para Jesus é muito natural dizer, “de meu Pai”, purquanto tem ele um relacionamento muito peculiar com seu Pai, sendo por natureza o Filho do Pai, conseqiientemente o Mediador en- tre Deus e o homem. A “vontade” do Pai a que se faz referéncia aqui €, natural- mente, sua vontade revelada, a vontade que pode ser “feita” pelo homem, pela capacitadora graga de Deus. Resumidamente, essa vontade pode ser assim sumariada: a. que 0 homem se arrepen- da de seu pecado; b. que aceite a Jesus como seu Salvador e Senhor; e c. que no Espirito c em gratidao viva para a gloria de Deus. Umas poucas, dentre as muitas passagens nas quais essa vontade do Pai é mais plenamente descrita, sao: Mateus 3.2: 4.17; caps. 5~7; 10.7, 32: 11.28-30, cap. 13; cap. 18; 19.4, 5, 9 14; 22.37-40; 24.42-44; 25.13; paralelos nos demais sinéticos, Jofio 3.16; 6.29, 40, 47, 48; 13.12-20, 34: 14.1ss.: 15.4, 12, 16. 17, 27; 16.188. A essas passagens podem acrescentar-se outras nos demais livros do Novo Testamento, como Atos 2.38.39; 4.12: 16.31; Romanos 12-15; 1 Corintios 13; 2 Corintios 6.14-18,; 58 MATEUS Cap. 12 8.7, 8; Galatas 5; Efésios 4-6; Filipenses 2.12-18; Colossenses 3, 1 Timdteo 2.4; Hebreus 4.14-16; cada capitulo de Tiago; 1 Pedro 2.9, 21-25; 2 Pedro 3.9, Ainda que, naturalmente, se deva reconhecer que as divi- soes dos capitulos nao sfo de forma alguma infalivelmente ins- piradas, ndo é surpreendente qudo freqlientemente os capitulos nesse Evangelho terminam com um climax emocionante’? Ver os capitulos 1, 2, 3, 5, 6, 7, 9, 10, 11, 12, 14, 16, 18, 19, 22, 25 26, 27.¢ 28. _ Sumdrio do Capitulo 12 A todos quantos vdo a ele, isto é, a todos quantos 0 aceitam pela [&, Jesus (11.28-30) prometeu descanso, inclusive isencdo do fardo do legalismo imposto. E assim, na primeira secdo do presente capitulo (12.1-14) Ele mostra como a aceitagao dele e de sua doutrina livrara as pessoas do jugo das normas sabaticas engendradas pelo homem. Quando, em certo sAbado, seus fa- mintos discipulos, ao caminhar pelas lavouras, apanharam al- gumas espigas ¢ as comeram, depois de debulhd-las com suas mos, 0s fariseus o culparam pela violacdo das normas sabaticas infringida por seus discipulos. Fle, porém, formulando uma re- futag&o com cinco itens — ver pp. 13-18 -, demole sua critica ¢ se declara Senhor do sabado. Ele ainda cura no sabado um ho- mem com uma mao paralitica. Esse ato de restauraciio ocorre na sinagoga, ¢ a despeito de nfo haver nenhum pcrigo de 0 parali- tico perder a vida. Eis a norma de Cristo: “E certo fazer o bem no sdbado.” Se era certo resgatar uma ovelha que no sdbado caisse numa cova, quanto mais se devia demonstrar benevolén- cia a um homem necessitado de ajuda. Reagao por parte dos fariseus: tomaram conselho contra ele, sobre como o destruiriam. . Embora Jesus houvesse realizado um grande milagre, e, a0 partir, fizcsse muitos outros além desse, nao era seu deseju se tornar conhecido primordialmente como Operador de milagres. Granjear fama terrena nfo era seu alvo. Ao contrario, coma se 59 Cap. 12 MATEUS vé na proxima segao (vv. 15-21), ele era o “o Servo Escolhide” de Isaias 42.1-4, modesto, manso e por natureza retraido. Na proxima segéio (vv. 22-37), é conduzida a Jesus outra pessoa em horrivel necessidade. Essa pessoa dolorosamente ator- mentada era um endemoninhado, 0 qual nada podia ver nem falar. Foi operady nele um triplice c assombroso milagre, de tal sorte que as pessoas perguntavam se Jesus nao seria porventura o Filho de Davi, o Messias. Tal ato irritou os fariseus, que entéo disseram que Jesus expulsava os deménios pelo poder de Belzebu (Satanas), o principe dos demGnios. Jesus mostra que tal acusa- ao é absurda e inconsistente, que obscurece a verdade, que per- sistir nela é imperdoavel c desmascara a perversidade daqueles que a formulam. Os caluniadores nao passam de “raga de vibo- ras”. e no tiltimo dia tero de responder por sua impiedade. Como se vé na proxima segdo (vv. 38-45), os fariseus se ressentiram dessa severa censura. Aliando-se com os escribas, pediram a Jesus que lhes mostrasse um sinal, como se os mila- gres quc ja havia realizado realmente no bastassem. O Senhor thes diz que o unico sinal que podem esperar € 0 do profeta Jonas, isto é, sua ressurreigéo dentre os mortos ao terceiro dia, sinal este por meio do qual triunfaré completamente sobre eles. Ele prediz, que no juizo final homens de Ninive os condenarao, pois que esses ninivitas se arrependeram pela prega¢ao pouca iluminada de Jonas, enquanto eles, escribas e fariseus, esto re- jeitando a Luz do mundo. Por uma razéo um tanto semelhante, a rainha do sul, entdo, também condenara esta geragao. Sob a lideranga dos escribas ¢ fariseus, os judeus vao indo de mal a pior, como um homem que, posscsso de um espirito mau, é inicialmente libertado desse demGnio, mas depois pos- suido de novo por ele ¢ por mais outros sete espiritos ainda mais perversos que © primeiro. Como se vé no paragrafo final (vv. 46-50), neste ponto ha ainterferéncia de sua mie e seus irmdos. A intengio deles pare- ce ter sido afasta-lo por algum tempo do publico. Quando infor- 60 a MATEUS Cap. 12 mam a Jesus, que nesse momento se acha dentro de uma casa. de que sua mac ¢ scus irmaos estio do lado de fora querendo ve. lo, ele estende sua mao para seus discipulos e diz: “Eis minha mae e meus irmaos.” Com isso ele enfatiza o fato de que os lagos espirituais so muito mais importantes do que 0s fisicos. 61 CAPITULO 13 Tema: A Obra Que the Deste Para Fazer Sete Parabolas do Reino O Terceiro Grande Discurso CAPITULO 13 MATEUS B-58 1 3 | Naquele dia Jesus deixou a casa @ assentou-se a beira- mar. 2 As multidées que se reuniram em seu redor erari tio numerosas que ele entron num barco e sentou-se ali, enquanto todo © povo ficou na praia. 3 Ent&o, por meio de parabolas, ele thes contou muitas col- sas. Disse ele: “Certa vez o scmeador saiu a semear. 4 Enquanto semeava, algumas sementes cairam 4 beira do caminhy. Os passaros vieram e as devoraram. 5 Algumas cairain em terreno rochoso, onde havia pouca terra. Visto que o solu ndo era profundo, nasceram imediatamente. 6 Quando, porém, saiu o sol, se queimaram, e visto que nao tinham raizes, secaram. 7 Algumas cai- ram entre os espinhos. Os espinhos cresceram e as sufocaram. 8 Algumas sementes, porém, cairam em boa terra, Produziram boa safta: algumas a cem, outras a sessenta € outras a trinta. 9 Quem tem ouvidos, ouga.” 10 Os discipulos aproximaram-se dele e perguntaram: “Por que Ihes falas por parébolas?” 11 Ele respandeu: “A vocés foi dado conhecer og mistérios do reino do cén, mas a eles isso ndo foi dado. 12 Poisa quem tem, a esse ser dado, e tera em abundancia; mas a quem nao tem, até o que tem Ihe sera tirado. 13 E por essa razfio que cu Ihes falo por parabolas, porque, vendo, nao vejam, c, ouvindo, nao ougam nein entendam. 14 E é por causa deles que a profecia de Isaias esta se cumprindo, a quai diz: “Voces ouvirao, ouvirdo, mas nunca entenderao, E vocés verao, verfo, mas nunca perceberdo. 15 Porque 0 coracao deste povo se tornou insensivel, E seus ouvidos (se tornaram) surdos, E seus olhos se fecharam, Para que ndo percebam com seus olhos, E nao ougam com seus ouvidos, E nao entendam com seu coragao, e nfo se convertam, E eu nfo os cure.” 63 13.158 MATEUS 16 Bem-aventuradas, porém, sao os olhos de vocés, porque véem, & SeUus ouvidos, porque ouvem. 17 Pois solenemente Ihes declaro, muitos profetas © pessoas justas gostariam de ver o que voces estio vendo, mas nao a viram: e ouvir o que vocés ouvem, mas nao o ouviram. 18 Ougam. pois, o que significa a parabola do semeador. 19 Quando alguém ouve a mensagem do rcino, mas nao a entende, o maligno vem € arrebata o que foi semeado em seu coragao. Este $0 que foi semeado 4 heira do caminho. 2U E 0 que foi semeady em terreno rochoso é aquele que, a0 ouvir a mensagem, imediatamente a aceita com jubilo. 2) Contudo nao tem raiz em si mesmo, e dura apenas pouco tempo. Quando surge a afligao ou a perseguigdo por causa da mensagem, imediatamente apostata, 22 E aquele que foi semeado entre os espinhos ¢ aquele que ouve a Inensagem, Mas as prencupagées deste presente mundo, e a enganosa fascinagéio das riquezas, sufocam a mensagem. tornando-a infrutifera. 23 E aquele que foi semeado em boa terra ¢ aquele que ouve e entende a mensagem. Esse da fruto, produ- zindo, em um caso, a cem, noutro, a sessenta, e noutro, a trinta.” 24 Ele thes apresentou outra parabola, dizendo: *O reino do céu é semelhanie a um homem que semeou boa semente em sua lavoura. 25 Mas enquanto os homens estavam dormindo, veio seu inimigo e semeon joio no meio do trigo e se foi, 26 E assis, quando o trigo brotou ¢ comecou a for- mar espigas, 0 joio foi também percebide. 27 Entao os servos do proprieta- rio aproximaram-se dele ¢ disseram: “Senhor, nav semeaste boa semente em tua lavoura? Entao, donde veio 0 joio?’ 28 E ele Ihes disse: “Um inimigo fez isso.’ Os servos lhe disseram: ‘Ent&o queres que vamos € 0 arranqueruos?” 29 Disse ele: ‘Nao, pois enquanto vocés arrancam 0 Jo10, pode suceder que também arranquem o trigo juntamente com ele. 30 Deixem ambos cresce- rem juntos até a colheita. Entao no tempo da colheita direi aos ceifeiros: ‘Ajuntem primeire o joio, e amarrem-no em feixes para ser queimado; 0 trigo, porém, ajuntem-no em meu celeiro."” 31 Ele Ihcs apresentou outra parabola, dizendo: “O reino do céu é semethante & semente de mostarda que um homem tomou e semeou em sua horta. 32 Ela é. a menor de todas as scmentes, contudo, quando esta plena- mente desenvolvida, ¢ a maior de todas as hortaligas, ¢ se transforma numa arvore, de modo que as aves do ar vém ¢ s¢ abrigam em scus ramos.” 33 Ele contou-thes outra parabola: “O rein do céu € semclhante ao fermento que uma mulher toma ¢ introduz em trés medidas de farinha de trigo, até que toda a massa fique levedada.” 34 Todas essas coisas Jesus disse as multiddes por parabolas. e nada thes divia sem usar de parabola, 35 cumprindo assim o que fora dito por meio do profeta: “Abrirei minha boca em parabolas, Proclamarei mistérios desde os tempos antigos.” 64 MATEUS 13.1-58 ; 36 Entao despediu as multiddes e foi para casa. Seus disciputos apro. xinarain-se dele, dizendo: “Explica-nos a parabola das pragas da \avour * 37 Ele respondeu e disse: “Aquele que semeia a boa semente €o Fitho do homem. 38 A lavoura ¢ 0 mundo; a boa semente sao os filhos do reino: a: pragas sdo os filhos do matigno; 39 0 inimigo que as semeou é 0 diabo: : colheita € 0 fim desta era; e os ceifeiros sdo os anjos. 40 Como as pra aS pois, sdo colhidas e queimadas, assim acontecera no fim desta ee iO Filho do homem enviard seus anjos, e eles tirarao de seu reino tudo quanto éofensivo etodos Os que perpetuam a iniqiiidade. 42 ¢ os lancarao na forna- tha ardente. Ali havera choro e ranger de dentes. 43 Entao, no reina de seu Pai, os justos brilharao como o sel. Aquele que tem onvides, entio ouga. 44 “0 reino do céu é semelhante a um tesoura oculto no campo. que um homem encontron ¢ 0 escondeu. Entdo, em sua alegria, vai e vende tudo 0 que tem e a compra. ; 450 reino do céu é também semelhante a um negaciante em busca de pérolas preciosas. 46 Havendo encontrado uma pérola de grande val foi e vendeu tudo o que tinha ¢ a comprou. “ 470 reino do céu é ainda semelharte a uma rede que toi lancada ao mar ¢ apanhou peixes de toda espécic. 48 Quando ficou cheia. os homens a arrastaram pala a praia; se sentaram e separaram os bons para © cesio, mas vs ruins jogaram fora. 49 E assim sera no fim desta era. Os anjos virgo e separarao os maus dos bons. 50 ¢ os langarao na fornalha ardente, Ali have- rd choro e ranger de dentes™. ‘ ms jt “Nocés entenderam tudo isso?” Responderam: “Sim.” Entdo thes disse: 52 “Por isso, todo escriba que tem sido treinado para o reino do céu assemelha-se ao chefe de uma familia que tira de seu depdsito coisas e velhas.” mes ; 33 Ora, ao terminar Jesus (de contar) essas parabolas. ele deixou aquele wee st Ee chegou a sua cidade e passou a ensinar 0 povo na sinagoga S, de ta modo que ficaram perplexos. Pergantavam: “Onde adquiriu ele essa sabedoria € (0 poder para fazer) esses milagres?” 55 Nao ¢ els o filho do carpinteiro? N&o chaina sua me Maria, e ndo sao Tiago, José, Simao e Judas seus irmaios? 56 Endo vivem todas as suas irmas aqui conosco? Onde. Tals. adquiriy ele tuto isso?” 57 E se escandalizaram nelc. Jesus, porém, disse: “Nao hd profeta sem honra, scndo cm sua cidade ¢ em sua prdpria familia.” 58 E por causa de sua incredulidade ele nav fez uli muitos milagres. 13.1-58 As Sere Pardbolas do Reino Com 13.1-23, cf. Marcos 4.1-20; Tucas 8.4-15. Com 13.31-33, of, Marcos 4.30-32; Lucas 13.18-21. Coni 13.3435, cf. Marcos 4.33,34. Com 13.53-58, cf. Marcos 6.1-6; Lucas 4.16-31. 65 13.1-58 MATEUS Introdugdo O namero e distribuigdo das pardbolas ja foram considera dos, e seu carter j4 foi descrito. Ver pp. 35-39 do volume !. Seu propésito era a. revelar e b. ocultar. Entre os ouvintes de Cristo havia aqueles que, pela graga, haviam sido levados a confiar em Cristo a tal ponto que no so creram no que podiam prontamen- te entender, mas mesmo naquilo que ainda se Thes constituia um mistério. Havia também aqueles que, por sua constante recusa em 0 aceitar, haviam endurecido 0 coragéo. A vida de Jesus. inclusive suas palavras e obras, deixaram muitissimo claro que ele era aquele de quem os profctas haviam predito. ¢ que quan- do cle ensinava, estava falando a verdade. Os opunentes, po- rém, intencionalmente rejeitaram o dbvio. Portanto Jesus agora, como nunca antes,”’! comcega a falar em parabolas, com o fim de a. revelar de forma mais plena a verdade aqueles que aceita- ram o mistério,e h. oculté-la daqueles que rejeitaram o dbvio, sendo ambos esses propésitos claramente indicados em 13.10-17. Aqui em Mateus 13, 0 Senhor ensina verdades preciosas concernentes ao reino. Quanto ao significado nem sempre idén- tico desse 1crmo, ver supra, p. 348 do volume |. Noutras parabo- las, ele detalha mais plenamente o carater do proprio Rei, a ma- neira como ele trata seus siiditos; como se faz evidente a luz de Os Trabalhadores na Vinha (Mt 20.1-16), As Bodas do Filho do Rei (22.1-14) e Os Talentos (25,14-30). Noutras, ele descreve 0 carater que devia ser evidenciado pelos stiditos do Rei; dai, le] Bom Samaritano (Le 10.29-37) e A Vitva Perseverante (Le 18.1- 8). Estes trés temas — 0 reino, o Rei co siditos do Rei— as vezes se justapdem. E assim, por exemplo, pode argumentar-se que todos os trés temas sao tratados na parabola de O Joio (Mt 13.24- 30, 36-43): aqui se aprescnta o cardter heterogéneo e atual do reino e sua consumacao futura em pureza € esplendor. como € também a ordem do Rei a seus anjos e o dever dos siiditos do =) Como nunca antes”: Mateus 7.24-27 contém em si uma paribola: ver tambem 12.43-45. Mas o uso extensivo de parabolas comeya aqui no capitulo 13. 66 MATEUS 131-58 Rer de exercerem a paciéncia com respeito 4 forma em que ele dispora de todas as coisas. Sumario O Reino a. A mensagem, como é recebida: 0 Semeador (vv. 3-9) explicagao (vv. 18-23). , b. Cardter heterogéneo atual ¢ consumacao futura em pu- teza ¢ esplendor: O Joio (vv. 24-30), explicagdo (vv. 36-43); A Rede (vv. 47-50). - t. Crescimento e desenvolvimento, tanto exterior: A Se- mente de Mostarda (vv. 31,32), quanto interior: A Levedura ou Fermento (v. 33). , d. Preciosidade: O Tesouro Escondido (v. 44); A Pérola de Grande Prego (vv. 45,46). Ao todo, essa materia abrauge 38 versiculos, ou seja, cerca de dois tergos de todo o capitulo. Os vinte versiculos restantes sao dedicados a um par de linhas de introdugao (vv. | e 2; estri- tamente falando, 1-3a); varios versiculos apresentando 0 propd- sito © uso das parabolas (vv. 10-17,34.35); uma descri¢do do escriba genuino (vv. 51,52); e um breve pardgrafo conclusivo (wv. 53-58) que descreve a rejeigiio de Cristo em Nazaré, de- monstrando a amarga e injusta oposi¢ao contra ele, que ali se desenvolvera. Essa foi uma das duas principais razdes (raziin h. mencionada supra, isto é, ocultar) que o levaram a fazer uso de parabolas. Assim considerado, notamos que todo 0 capitulo for- ma uma s6 unidade, ; A luz de 13.1,2,36, é 6bvio que Jesus pronunciou as quatro primeiras parabolas as multidées estando num barco, um pouco fora da praia (Mc 4.1), e que a seguir despediu as multidées, desceu Na praia e entrou numa casa. Aqui ele explicou aos dis- cipulos a parabola do semeador ¢ a do joio (titulu completo: O Joio no Meio do Trigo) ¢ acrescentou outras trés pardbolas. 67