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XII Conferência Anual da Associação Internacional para o Realismo Crítico

“Capital, técnica e morte:

diálogo entre Marx, Ellul e Saramago”

Javier Blank

julho de 2009

Capital, técnica e morte: diálogo entre Marx, Ellul e Saramago Javier Blank

Introdução

Karl Marx publica o Livro I do Das Kapital (O Capital), em 1867.

Jacques Ellul publica La technique ou l'enjeu du siècle (A técnica e o desafio do século), em

1954.

José Saramago publica As intermitências da morte, em 2005.

Um na segunda metade do SXIX, em alemão; outro na metade do SXX, em francês; o último, já iniciado o SXXI, em português. Três séculos e três pensadores que escolhem diferentes objetos como centro de sua reflexão: em Marx é o capital; em Ellul, a técnica; em Saramago, a morte.

Este trabalho propõe uma interlocução entre esses três objetos tal como construídos por esses autores. Capital, técnica e morte aparecem como estruturas com características semelhantes. A partir daí, percebe-se que a construção que cada autor faz de uma dessas estruturas ilumina a compreensão das outras duas. Isso revela-se ainda ao atentar para a maneira como se processa socialmente a autonomização dessas estruturas e a sua crise. Os processos de mundialização do capital e da técnica, explicáveis por sua autonomização, são um traço fundamental para compreender o mundo contemporâneo e os desafios postos para re- atualizar um horizonte emancipatório.

Parte-se do pressuposto de que a imaginação é condição necessária para a elaboração de uma teoria revolucionária. É, portanto, extremamente instigante trazer para a elaboração teórica a imaginação romanesca de Saramago, que começa assim: “No dia seguinte ninguém morreu”.

Palavras-chave: Marx – Ellul – Saramago – Capital – Técnica

A morte, segundo Saramago

Um dia a morte, num determinado país, deixa de funcionar. Não é que não exista mais. Simplesmente, ninguém morre. A morte não acontece, mas a existência da morte continua. A morte tem um caráter dual no romance: é, por um lado, o ato de morrer; por outro, um personagem que produz esse ato, um sujeito. 1 A morte é um sujeito que se expande, ocupa todos os lugares, espalha-se em todos os sentidos. De fato, é tremendo o esforço que tem de fazer sobre si mesma quando não quer ver tudo, quando precisa reprimir a tendência expansiva que é inerente à sua natureza 2 . E as vezes tem que reprimi-la porque faz parte de sua ilimitada virtude expansiva 3 uma precária e instável unidade que é a sua, com tanto custo agregada. Assim, corre o risco de se relaxar e dispersar 4 . É uma unidade expansiva carente de medida fora dela mesma 5 . Talvez é por isso que o trabalho da morte seja o mais monótono, uma atividade repetitiva, sem pausa, sem interrupções, sem soluções de continuidade, no fundo sempre igual a si mesma 6 . A morte não dorme, só descansa 7 . E leva adiante esse trabalho de maneira irreflexiva. É fácil, do ponto de vista dos homens, avaliar a atividade da morte como sendo cruel. É por isso que os jornais têm-se excedido em furiosos ataques contra ela, acusando-a de impiedosa, cruel, tirana, malvada, sanguinária, vampira, imperatriz do mal, drácula de saias, inimiga do gênero humano, desleal, assassina, traidora, serial killer 8 . A morte parece cruel, é verdade, mas não o é. Aqueles que fazem essa denúncia estão mal informados sobre a natureza profunda da morte, cujo outro nome é fatalidade. Não compreendem que a morte não tem qualquer necessidade de ser cruel, é o que é. Por isso, não adianta reclamar diante dela, nem pedir, nem chorar: a morte nunca responde. E não é porque não queira, é só porque não sabe o que há-de dizer diante da maior dor humana 9 . É, portanto, um trabalho de uma impessoalidade asséptica. Aliás, ela faz abstração de diferenças por demais evidentes para os seres humanos. Aos olhos da morte todos somos da mesma maneira feios 10 .

1 Uma analogia percorre de maneira silenciosa, sutil, o nosso texto: à dualidade da morte-sujeito e morte-ato corresponde à dualidade do capital enquanto sujeito e enquanto ato, imposição da lei do valor.

2 Saramago, 2005: 147-8.

3 Idem: 166.

4 Idem: 148-9.

5 “La circulación del dinero como capital es, por el contrario, un fin en sí, pues la valorización del valor existe únicamente en el marco de este movimiento renovado sin cesar. El movimiento del capital, por ende, es carente de medida” (Marx: 2002, 186).

6 Saramago, 2005: 138.

7 Idem: 139.

8 Idem: 114.

infrutuosamente: o capital não sabe o

9 Idem: 126. Pergunta-se da mesma maneira ao capital sobre a dor humana que dizer.

10 Idem: 169.

Expansiva, ilimitada, ininterrupta, repetitiva, impessoal, abstrata. A morte é um verdadeiro sujeito automático 11 .

Suponhamos que não aceitamos essa desculpa de impessoalidade, de irreflexividade desse sujeito. É com a morte mesmo. Com ela queremos falar. Para ela vamos a exigir. Ou pelo menos negociar. Mas, onde a encontraríamos? Ela permanece invisível. Era preciso começar por encontrá-la e ninguém sabia como nem onde. A morte, em privado é um esqueleto embrulhado num lençol. Mas é discreta: em público torna-se invisível 12 .

Existem certas coisas que têm a peculiar característica de serem menos percebidas, de chamarem menos a atenção, de serem ainda mais invisíveis, quando elas melhor funcionam. Assim é por exemplo com o juiz de futebol. Assim é com a engrenagem interna de um motor. E assim acontece com a morte. É claro que quem num dia qualquer tivesse perto algum familiar, amigo ou conhecido que por fatalidade fosse morrer, se depararia com o ato da morte. Mas eis que a morte decide um dia, num determinado país, deixar de matar. A morte faz com que o ato da morte não aconteça 13 . Em primeiro lugar, o fato de, de repente, ninguém morrer, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme 14 . Esse choque inicial se dá muito antes de se pensar nos possíveis desdobramentos dos acontecimentos; se deve tão- somente ao caráter de excecionalidade do fenômeno. A morte se torna mais visível na sua falha. Nesse momento não há quem não perguntasse, Que diabos acontece com a morte? Aqueles que tivessem por qualquer motivo a intuição ou percepção ou compreensão da morte enquanto sujeito, poderiam perguntar então com mais rigor, Que é que faz a morte não matar?

Além da perturbação, começa a se desenvolver uma primeira polêmica em relação à permanência no tempo desse fenômeno excepcional.

11 Essa caracterização da morte, que construímos em base ao próprio texto de Saramago, é idêntica a construção que Marx faz do capital. Unidade instável, expansiva, ilimitada. O movimento incessante de valorização do valor também faz do capital um sujeito automático (Marx: 2002, 188). São também esses atributos que, como veremos na segunda parte deste trabalho, definem a técnica na análise que Jacques Ellul faz da civilização técnica (Cfr. Ellul, 1968). Assim, capital, técnica e morte são estruturas análogas na construção desses autores.

12 Saramago, 2005: 145.

13 Um primeiro passo é a demonstração das analogias mais ou menos evidentes entre as estruturas. Podemos ir além disso ao extrair da caracterização de uma delas elementos que nos ajudem a compreender o funcionamento das outras. O romance de Saramago descreve o processo social desencadeado diante da ausência da morte. Podemos aprender muito aqui da maneira como se processam socialmente as crises de diferentes estruturas. No caso, esse desenvolvimento se revela muito fecundo para pensar a crise do capital.

14 Idem: 11.

Alguns advertem que não deveria excluir-se a hipótese de se tratar de uma casualidade fortuita. Apela-se também a vaguidades pseudocientíficas, destinadas a tranqüilizar, pelo incompreensível, o alvoroço que reinava no país; outros já se declaram preparados para enfrentar os complexos problemas sociais, econômicos, políticos e morais que a extinção definitiva da morte inevitavelmente suscitaria 15 Faz-se alusão à situação em outros lugares como demonstração de que o normal ainda não se retirou de todo do mundo 16 . Procuram-se formular teses otimistas que tentam tranqüilizar a população, prometendo a volta à normalidade, para daqui a pouco. No caso, planeja-se pôr em circulação uma nova tese, a da morte adiada, Sem mais explicações 17 . Podemos supor que vaguidades pseudocientíficas ou teses sem fundamento não seriam levadas em consideração pela população em um momento crítico em que a normalidade é posta em questão e se precisa de respostas radicais e consistentes para compreender a situação e agir nela. No entanto, algumas pessoas que, por temperamento natural ou educação adquirida, preferiam acima de tudo a firmeza de um optimismo mais ou menos pragmático, mesmo se tivessem motivos para suspeitar de que se trataria de uma mera e talvez fugaz aparência uniram-se à maré alta de alegria colectiva. Percebe-se que elas não precisam ser convencidas com esses argumentos. Simplesmente essas teses ou formulações vagas e pouco convincentes vão ao encontro de uma disposição para o otimismo, de uma necessidade de acreditar, mesmo contra toda evidência. Por outro lado, eram pouquíssimas as pessoas que tinham a coragem de pôr assim, publicamente, o dedo na ferida 18 .

Faz parte daquele otimismo a idéia segundo a qual, de repente, depende da vontade de cada um se deixar levar pela morte ou continuar vivendo. Mesmo diante do fato incontornável de que ninguém morria, nem mesmo aqueles que desejavam a morte, essa é uma reação comum. É o próprio narrador quem desestima essa ingênua ilusão, quem bota o dedo na ferida, advertindo que as palavras que o feliz neto havia efetivamente pronunciado, Como se se tivesse arrependido de morrer, eram radicalmente diferentes de um peremptório Arrependeu-se. Portanto, umas quantas luzes de sintaxe elementar e uma maior familiaridade com as elásticas subtilezas dos tempos verbais teriam evitado o qüiproquó. Esse equívoco, que parece ser meramente gramatical, pode ter desdobramentos inusitados, como por exemplo a criação de um movimento de cidadãos firmemente

15 Idem: 17.

16 Idem: 74.

17 Idem: 20.

18 capital adiado: assim pode ser lida a ambigüidade de parte da intelectualidade de esquerda, no

Brasil e no mundo, até finais de 2008, para falar da crise do capital. Era preciso uma mistura de lucidez e coragem para tocar no assunto. Até que explodiu a crise e não foi mais possível continuar evitando-o. Antes disso, era difícil

botar o dedo na ferida, ir contra a maré do otimismo desta recessão, voltaremos a uma fase expansiva.

e depois disso também, pois, dizem, fiquem tranqüilos, depois

Idem: 23-5. Ou

convencidos de que pela simples ação da vontade será possível vencer a morte 19 .

Assim, ao debate sobre a permanência do fenômeno no tempo, acrescenta-se a polêmica sobre a sua natureza. Estamos na porta do inferno, ou do paraíso? Não se sabe. Fora das fronteiras do nosso país se continua a morrer com toda a normalidade, e isso é um bom sinal, Questão de ponto de vista, eminência, talvez lá de fora nos estejam a olhar como um oásis, um jardim, um novo paraíso, Ou um inferno, se forem inteligentes 20 . Isso leva ainda a pensar que talvez a palavra crise não seja certamente a mais apropriada para caracterizar os singularíssimos sucessos que temos vindo a narrar, porquanto seria absurdo, incongruente e atentatório da lógica mais ordinária falar-se de crise numa situação existencial justamente privilegiada pela ausência da morte 21 . Há uma indefinição. Trata-se de uma crise disfarçada de situação privilegiada ou de uma situação privilegiada disfarçada de crise? Ou é uma situação privilegiada ao se tratar de uma crise? Essa dificuldade na caracterização da situação provoca uma indecisão entre uma atitude de alarme ou de esperança. No caso que estamos tratando, uma segunda natureza, para não dizer automatismo 22 , movimento mecânico, levou o responsável pela pasta de saúde a rematar a conversa dizendo que não existe qualquer motivo para alarme. Foi questionado: agora que não se encontra quem esteja disposto a morrer, é quando o senhor ministro nos vem pedir que não nos alarmemos, convirá comigo que, pelo menos, é bastante paradoxal. E ele responde: Foi a força do hábito, reconheço que o termo alarme não deveria ter sido chamado a este caso; se corrigindo, finaliza pedindo que não alimentemos falsas esperanças 23 . O paradoxo da atitude de alarme em face de uma situação aparentemente promissora, no caso da ausência do ato da morte 24 , se dá pelo simples fato de sair da normalidade que, não interessa se boa ou ruim, pelo menos é normalidade 25 .

Contudo, e a despeito das diferentes percepções sobre o fenômeno em curso, há uma atitude

19 Idem: 15.

20 Idem: 20.

21 Idem: 15. No célebre texto “A situação revolucionária”, Lenin destacava como um dos três pressupostos principais de uma situação revolucionária a impossibilidade das classes dominantes de manter seu domínio sob forma imutável. Do ponto de vista da necessidade da revolução, então, podemos pensar numa situação “privilegiada pela crise do capital”, ou pela perda da aparência de equilíbrio dessa ordem social; situação diante da qual, de novo desde um ponto de vista revolucionário, “seria atentatório da lógica mais ordinária falar-se de crise”. É crise da morte. É crise do capital. Mas não é crise para-nós.

22 Segunda natureza e automatismo são expressões muito caras a Marx e a certa tradição marxista!.

23 Idem: 16-7.

24 No caso do capital, o paradoxo é objetivo. O fato de assumirmos a crise do capital como uma situação de crise para- nós, que se exprime em amplos setores numa atitude de alarme desesperada e conservadora, deve-se, em grande parte, à ausência de um impulso que leve a superar essa forma social; a crise do capital torna-se, por conta da não- atualidade de um impulso revolucionário, uma crise social gravíssima.

25 Em espanhol existe um ditado popular que expressa exatamente essa atitude conservadora: “mejor malo conocido que bueno por conocer”; parece não existir ditado com sentido idêntico em português.

comum: as intermitências da morte aparecem como um autêntico mistério; isso explica o debate entre três especialistas em fenômenos paranormais, a saber, dois bruxos conceituados e uma famosa vidente, convocados a toda a pressa para analisarem e darem sua opinião sobre o que já começava a ser chamado por alguns graciosos, desses que nada respeitam, a greve da morte 26 . Mais do que sobre-natural, o fenômeno na verdade aparece como absolutamente natural. Não no sentido de corriqueiro, mas no de nossa incapacidade de intervenção. Temos tanto a fazer em face dele quanto em face das tormentas, das secas. Planejam-se procissões a pedir a morte, da mesma maneira que já as fazíamos ad petendem pluviam, para pedir chuva 27 . As leis que regem esses acontecimentos tão diversos parecem da mesma ordem. Se não voltarmos a morrer não temos futuro. É preciso que alguma cousa aconteça 28 . Estamos librados à graça de deus ou ao acaso. Seja como for, não controlamos a situação 29 .

Até agora só falamos das reações intelectuais. Mas a vida, ainda mais com a morte em greve, continua seu passo. Ela não espera por conceitos e pede resoluções práticas. É uma necessidade se desfazer dos moribundos. Levar eles para a morte, mesmo que a morte não queira. E, nova manifestação da inesgotável capacidade inventiva da espécie humana, mesmo não sendo filósofos, ao menos no sentido mais comum do termo, alguns conseguiram enganar a morte de outros, ajudando-a 30 . E o fizeram por meio do expediente de ir despejar o pai ou o avô em território estrangeiro, onde a morte ainda estava em vigor; isso resultou uma maneira limpa e eficaz, radical seria um termo mais exato, de se verem livres dos autênticos pesos mortos que os seus moribundos eram lá em casa 31 . Procura-se uma solução técnica: aproveitar os nichos de normalidade ainda existentes. De qualquer maneira, isso não acontece sem tensões nem contradições. É que com a visibilidade que a morte ganha com a sua ausência, também faz-se evidente a funcionalidade que

26 Idem: 13-4.

27 Idem: 38.

28 Idem: 86.

29 É impressionante perceber como se fala da crise do capital da mesma maneira que se fala do clima: veio frente fria,

a crise chegou, ninguém sabe até quando vai ficar, nem quão fundo ela vai. “O ministro da

Fazenda, Guido Mantega, admitiu nesta quinta, pela primeira vez, que a economia brasileira pode ter crescimento zero em 2009. O governo vinha mantendo o discurso de progresso mesmo com os efeitos da crise internacional. Depois de ponderar que 'já saímos do fundo do poço', Mantega afirmou que o primeiro trimestre foi péssimo e o segundo será de retomada, com o Produto Interno Bruto acelerando” (http://www.mpbfm.com.br/noticias.asp? s=30948; 15/05/09). No mesmo dia, a previsão do tempo para o Rio de Janeiro era de “sol com muitas nuvens a nublado com chuva no fim da manhã. Tarde e noite chuvosas” (http://www.climatempo.com.br; 15/05/09). Marx já tinha analisado a naturalização das relações sociais que fogem do controle dos homens: “Por un lado se advierte aquí cómo el intercambio de mercancías arrasa las barreras individuales y locales del intercambio directo de productos y hace que se desarrolle el metabolismo del trabajo humano. Por otra parte, se desenvuelve toda una serie de vinculaciones sociales de índole natural, no sujetas al control de las personas actuantes” (Marx 2002: 137).

30 Saramago, 2005: 38.

31 Idem: 48.

até quando vai chover

tinha, para muitos setores, instituições, grupos, a situação de normalidade perdida. É um encadeamento lógico: sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja 32 . Assim, se por um lado estavam os filósofos, divididos, como sempre, em pessimistas e optimistas, por outro lado, os delegados das religiões apresentaram-se formando uma frente unida comum com a qual aspiravam a estabelecer o debate no único terreno dialéctico que lhes interessava, isto é, a aceitação explícita de que a morte era absolutamente fundamental para a realização do reino de deus 33 . O normal estado de coisas beneficia a alguns que, no momento de explosão da crise, têm que se expor, mais ou menos sutilmente, mais ou menos abertamente. Foi também o caso de importantes sectores profissionais, seriamente preocupados com a situação, notadamente as empresas do negócio funerário, que ficaram, de repente, brutalmente desprovidos da sua matéria- prima 34 . Reclama-se ao Estado a resolução dos problemas econômicos que a crise traz para esses setores. Entre outras boas idéias, e para evitar na medida do possível, o despedimento de centenas senão milhares de abnegados e valorosos trabalhadores os empresários propõem a concessão de empréstimos a fundo perdido que ajudem a viabilizar a rápida revitalização de um sector cuja sobrevivência se encontra ameaçada 35 . Mas, o que alguns percebem é que a maneira de administrar a crise social não é só financeira. Os responsáveis hospitalares dão-se conta que a decisão, no caso de vir a ser tomada, não poderá ser nem médica nem administrativa, mas política 36 . Essa administração política é exatamente a difícil decisão de que fazer com os que sobram. Que virá a ser um futuro sem morte. Como atuar diante dessa imparável sobreocupação de internados. Que acontecerá com os lares da terceira e quarta idades 37 . No processo, torna-se difícil acreditar que os que sofrem diretamente essa ausência do ato da morte, esse não-funcionamento, essa crise, continuem vivos; aqueles que de acordo com a lógica matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos; aquela que nem melhorou nem piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe por que estranho capricho, continuava a segurar. E, ao mesmo tempo, nem valia a pena perder tempo a operá-lo 38 . Ficam ali, mortos-vivos, ocasionando um problema para a

32 Idem: 18.

33 Idem: 35.

34 Idem: 25.

35 Idem: 7.

36 Idem: 28.

37 Idem: 28-30.

38 Idem: 11-2.

sociedade que não sabe o que fazer com eles. 39 Claro que essa administração política também inclui uma fundamental dimensão econômica

que mostra a falta de autonomia da política para resolver os problemas sociais. Por isso, o problema bicudo, e para ele nos sentimos no dever de chamar a atenção de quem de direito, é que, com o passar do tempo, não só haverá cada vez mais idosos internados nos lares do feliz ocaso, como também será necessária cada vez mais gente para tomar conta deles, dando em resultado que o rombóide das idades virará rapidamente os pés pela cabeça 40 . O estado pode vir a derrubar-se, simplesmente, como um castelo de cartas. Tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que venha a conseguir 41 , pois a tendência é a própria bancarrota do estado, o salve-se quem puder, e ninguém se salvará. Impõe-se essa demonstração por cima das polêmicas acirradas, e perante este quadro aterrador não tiveram outro remédio os metafísicos que meter a viola no saco 42 . O que aí nos vem em cima é o pior dos pesadelos que alguma vez um ser humano pôde haver sonhado, nem mesmo nas escuras cavernas, quando tudo era terror e tremor, se terá visto semelhante cousa [ ]

para alguma cousa a imaginação nos haveria de servir, [

ministro, antes a morte que tal sorte 43 . Não adianta ficar esperando, achando que são tendências de longo prazo, pois o futuro é já hoje 44 !. Infelizmente, a partir da percepção da gravidade da situação a atitude da população saudável para com os padecentes terminais começou a modificar-se para pior 45 . Acontece que quando se avança às cegas pelos pantanosos terrenos da realpolitik, quando o pragmatismo toma conta da batuta e dirige o concerto sem atender ao que está escrito na pauta, o mais certo é que a lógica imperativa do aviltamento venha a demonstrar, afinal, que ainda havia uns quantos degraus para descer 46 .

]

antes a morte, senhor primeiro-

Mas mesmo com essa quádrupla crise, demográfica, social, política e econômica 47 , impressiona a maneira como a sociedade continua tentando funcionar como se nada acontecesse. Há uma inercia, um automatismo que faz impor ao novo conteúdo a mesma forma social em crise. As companhias de seguros, por exemplo, diante da alarmante situação da ausência da morte,

39 Vejam os que sobram na ordem do capital. Quando não são empurrados para o último passo, ficam na beira da

morte. Não podemos acreditar que nessas circunstâncias continuem vivos. Nós ficaríamos? E que podemos fazer por eles? Estão mais mortos que vivos.

40 Idem: 31.

41 Idem: 85. Mostra a insustentabilidade da tendência do processo em curso. O estado já não da conta (civilizadamente) da sobreprodução de massas sobrantes quando o capital entra em crise.

42 Idem: 78.

43 Idem: 32.

44 Idem: 37.

pena de morte, em lugar dos anteriores bons desejos de emprego, integração,

45 Idem: 78. Para os que sobram educação.

46 Idem: 59.

47 Idem: 63.

resolveram de maneira brilhante fixar a idade de oitenta anos para morte obrigatória, obviamente em sentido figurado. Desta maneira, chegado o momento, cada um, convertido em alguém virtualmente morto, mandaria proceder à cobrança do montante integral do seguro, o qual lhe seria pontualmente satisfeito. Resultado: ninguém perdia e todos ganhavam. Em especial as companhias de seguros, salvas da catástrofe por um cabelo 48 . A expressão morte obrigatória em sentido figurado, que devemos aos especializadíssimos assessores jurídicos das companhias, e à pluma de Saramago que soube dar-lhes o destaque que mereciam, condensa exatamente essa im-posição de uma forma, uma abstração, que já não responde à realidade, posto que a morte está ausente, mas que se reproduz com inúmeros desdobramentos, tornando-se real, no processo de crise 49 .

Mas, ao lado da re-produção inovadora das antigas instituições, surgem outras novas, típicas dos momentos de crise. No processo, antigas e novas entram em contato e fazem acordos, com ganhos para ambas partes. Essa tal organização os leva lá, Exactamente, Trata-se de uma organização benemérita, Ajuda-nos a retardar um pouco a acumulação de padecentes terminais, mas, como eu disse antes, é uma gota de água no oceano, E que organização é essa. O primeiro- ministro respirou fundo e disse, A máphia, senhor 50 . Faz parte da procura dos nichos de normalidade, quando se dá num nivel mais sofisticado, a busca das brechas do sistema jurídico. A maphia se aproveita de que a justiça do país em que não se morre se encontra desprovida de fundamentos para atuar judicialmente contra os enterradores. Não os pode acusar de homicídio porque, tecnicamente falando, homicídio não há em realidade, e porque o censurável ato, classifique-o melhor quem disso for capaz, se comete em países estrangeiros 51 .

Contudo, apesar desses rearranjos todos, a experiência da crise não deixa de ser incômoda, lamentável, até catastrófica, dependendo para quem dirijamos o nosso olhar. Por isso, a volta à normalidade, anunciada pela própria morte, é festejada pelo primeiro-ministro, devido à quantidade de problemas que isso vem a resolver 52 .

48 Idem: 33-4.

49 É isso mesmo, a abstração torna-se real. O filme “À Vida, à Morte!” de Robert Guèdiguian, do ano 1995, desenvolve sua trama em cenas de desemprego; uma família sem perspectiva nenhuma e com a impossibilidade de construir um futuro. A mulher fica grávida e o marido se mata. Com o que vão a obter do seguro de vida, pensa ele, o restante da família poderá sobreviver uns anos e fazer o filho crescer. É a técnica da morte, o seguro de vida, uma forma abstrata, que faz com que o marido se mate para garantir à família um pouco de dinheiro.

50 Idem: 85.

51 Idem: 68. Os capitais vão e vêm, driblando a justiça local e cometendo atos censuráveis em países estrangeiros. Aparentemente conseguindo o impossível: esconder o fato de que todo país estrangeiro é também um país local.

52 Idem: 97.

A morte só tinha dado um respiro para, segundo a sua própria justificativa pública, oferecer a

esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver

sempre 53 .

A vivência do caráter problemático da ausência da morte, faz não só comemorar a sua volta,

mas naturalizar a normalidade e a bondade da sua presença. Isso é acompanhado de uma sensação de alívio, de legítimo desafogo 54 . Na verdade, a aparente volta à normalidade não é senão a continuidade de um processo de

dissolução que tenta se disfarçar de estabilidade. Nele, confundem-se as instituições e mecanismos do periodo de calma com os de crise. A maphia, por exemplo, adquirindo funções novas, visa o monopólio absoluto das mortes e dos enterramentos dos seres humanos, assumindo no mesmo passo a responsabilidade de manter a demografia nos níveis em cada momento mais convenientes para o país 55 .

É um processo fora do controle total dos antigos detentores do poder. Tanto é assim que a

morte volta matando também a quem se beneficia dela, e o presidente da associação das funerárias é o primeiro a morrer, com a última badalada da meia-noite 56 . Veremos depois como foge do controle não só dos homens, mas da própria morte.

A morte faz a morte voltar, mas agora por outros métodos. Já dissemos que não há crueldade

nesse trabalho impessoal que leva adiante a morte. No entanto, mesmo na sua impessoalidade e automaticidade irreflexiva, a morte parece ter uma memória nostálgica de um tempo em que ela mesma, a morte, era vida. A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste. O que ela traz à vista é um esgar de sofrimento, porque a recordação do tempo em que tinha boca, e a boca língua, e a língua saliva, a persegue continuamente 57 . Talvez seja por isso que ela decide renovar seus métodos, torná-los mais humanizados. Ela reconhece que o injusto e cruel procedimento que vinha seguindo, que era tirar a vida às pessoas à falsa-fé, sem aviso prévio, sem

53 Idem: 100.

54 Idem: 115. A crise do capital oferece uma amostra aos seres humanos que o detestam do que significa viver sem ele. A experiência de sua ausência é lamentável. Quando não pode ser superada nesse momento por outra forma, a crise do capital gera, paradoxalmente, uma adesão mais forte a essa ordem social.

55 Idem: 117.

56 Idem: 105. A acumulação do capital também mata os próprios capitalistas, pelo menos enquanto capital personificado (Marx, 2002: 187); o bem do capital geral as vezes é o mau para um capital em particular. A crise é um momento de falência para muitos capitais particulares, é um momento fundamental de concentração de capital.

57 Idem: 139. O dinheiro já fez parte, enquanto meio de circulação, da circulação mercantil simples; esta tinha como objetivo a satisfação de determinadas necessidades (Marx: 2002, 185). A técnica já esteve ao nível do homem; assim sendo, seu peso material não era sobre-humano (Ellul, 1968: 80). Só destacamos aqui a analogia do que chamamos metaforicamente de nostalgia de um momento passado de essas estruturas. É mais complexa a determinação de se esse momento existiu historicamente no caso do dinheiro. E também se seria possível manter a função do dinheiro enquanto meio de circulação. De fato, Marx encarrega-se de demostrar a metamorfose necessária do dinheiro em capital (Cfr. Marx, 2002: capítulo 4).

dizer água-vai, se tratava de uma indecente brutalidade. Avisa, então, que a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana 58 . Ao lado da nostalgia, podemos encontrar outras razões, até mais importantes, dessa mudança de métodos. A morte explica para a gadanha, sua eterna companheira: com esse teu gosto pelos métodos expeditivos, a questão já estaria resolvida, mas os tempos mudaram muito ultimamente, há que actualizar os meios e os sistemas, pôr-se a par das novas tecnologias, por exemplo, utilizar o correio electrónico, tenho ouvido dizer que é o que há de mais higiénico 59 . É uma certa eficiência técnica, que está por trás disso. É que, pensando bem, matar de maneira mais higiênica não deixa de ser matar. Essa atualização só poderia trazer benefícios reais para a reputação da própria morte entre os homens. Pelo menos aqueles que se deixassem levar por essa propaganda enganosa.

A morte se decide pelo envío de cartas personalizadas. Não o correio eletrônico, mas as cartas tradicionais. Na verdade, não exatamente tradicionais, posto que de cor violeta e que levam como texto: Caro senhor, lamento comunicar-lhe que a sua vida terminará no prazo irrevogável e improrrogável de uma semana, aproveite o melhor que puder o tempo que lhe resta, sua atenta servidora, morte 60 . A morte envía cada uma dessas cartas, incessantemente, sem respiro e sem problemas.

Até que, um dia, se registra uma falha operacional 61 , na qual alguém que tinha que morrer, não morre. Mesmo contra a vontade do sujeito-morte, vontade que na verdade não é mais que a execução exitosa de uma fatalidade já predefinida, sem margem de decisão por parte dela 62 , o ato- morte não acontece. Na verdade, nunca se viu que não morresse quem tivesse de morrer. E agora, insolitamente, um aviso assinado pela morte, de seu próprio punho e letra, um aviso em que se anunciava o irrevogável e improrrogável fim de uma pessoa, tinha sido devolvido à origem 63 . Isso põe em questão a inexpugnabilidade da morte soberana, em que, por simples definição do conceito, seria inadmissível que se pudesse apresentar qualquer absurda excepção 64 .

58 Idem: 100.

59 Idem: 137. O capital apaga a memória da violência extra-econômica que implicou a imposição inicial dessa forma social. No processo de sua consolidação foi higienizando seus métodos, ainda que sempre restasse a violência como recurso sempre disponível. No momento de crise, os “métodos expeditivos” voltam a ter mais centralidade. Também

a técnica foi se humanizando. Foi se adaptando ao homem. Mas na civilização técnica o homem nunca passou de

objeto para a técnica (Cfr. Ellul, 1968). Em ambos os casos, é um processo de aparente humanização que, na verdade, acaba integrando mais o homem a um sistema que o submete.

60 Saramago, 2005: 125.

61 Idem: 142.

62 A morte que se especializa nos seres humanos é, junto às mortes dos outros reinos, uma personificação da Morte.

um dia virão a saber o que é a Morte com letra grande, nesse

momento, se ela, improvavelmente, vos desse tempo para isso, perceberíeis a diferença real que há entre o relativo e

“Eu não sou a Morte, sou simplesmente morte [

]

o absoluto (Idem: 112).

63 Idem: 138.

64 Idem: 135.

O caráter insólito, absurdo, excepcional do acontecimento, deixa à morte perplexa e furiosa:

Uma força alheia, misteriosa, incompreensível, parecia opor-se à morte da pessoa, desacreditando assim o destino, a fatalidade; ninguém no mundo ou fora dele teve alguma vez mais poder do que eu, eu sou a morte, o resto é nada. Mas, fora essa arrogação de onipotência provocado pela reputação manchada, a morte também fica aparentemente enfraquecida: a morte parece agora muito mais pequena, como se a ossatura se lhe tivesse encolhido, ou então foi sempre assim e são os nossos olhos, arregalados de medo, que fazem dela uma giganta. Coitada da morte 65 .

Como é que uma carta enviada pela morte pode voltar dessa maneira? Ora, as cartas só podem ir aonde as levam, não têm pernas nem asas, e, tanto quanto se sabe, não foram dotadas de iniciativa própria, tivessem-na elas e apostamos que se recusariam a levar as notícias terríveis de que tantas vezes têm de ser portadoras 66 . Então, a morte vai enfrente para resolver a falha. E o faz com meios absolutamente excepcionais, jamais usados em toda a história 67 . Para entregar a carta cor violeta nas próprias mãos do homem que tem que morrer, a morte se faz mulher, transforma-se num exemplar da espécie de quem é inimiga 68 .

Mimetiza-se com o inimigo, com o intuito de combatê-lo. Torna-se corpo humano, com suas características, até com suas fragilidades; tira da bolsa uns óculos escuros e com eles defende os seus olhos agora humanos dos perigos de uma oftalmia 69 . Mas os acontecimentos não se dão como a morte previu. No processo, que foge do seu controle, a morte acaba se contrapondo à sua natureza assassina, acaba se humanizando.

Há, no final, um momento de aparente escolha. A morte desiste da tarefa que a tinha levado até a casa daquele homem que se resistia a morrer e se entrega definitivamente ao processo de humanização. Ela pensa que já não é preciso esse lugar que ela ocupa, que a partir de agora haverá de suceder com a vida, que por si mesma vai preparando o seu fim, sem precisar de nós 70 , dela e das outras mortes, aquelas que não se dedicam aos humanos. E percebe que até ela mesma pode acabar um dia, e pela primeira vez pensar nisso lhe causou este sentimento de profundo alívio, como alguém que, havendo terminado o seu trabalho, lentamente se recosta para descansar 71 .

65 Idem: 140-3.

66 Idem: 136. Impossível não ouvir aqui ecoando as palavras de Marx: “Las mercancías no pueden ir por sí solas al mercado ni intercambiarse ellas mismas. Tenemos, pues, que volver la mirada hacia sus custodios, los poseedores de mercancías.” (Marx, 2002: 103)

67 Saramago, 2005: 165.

68 Idem: 181.

69 Idem: 183.

70 Idem: 160.

71 Idem: 168.

Mas foi antes disso que sentiu uma espécie de obscuro temor, como se começasse a ter medo de si mesma 72 . Foi antes disso que o cão se levantou do tapete e subiu para o seu regaço que parecia de menina, e então a morte teve um pensamento dos mais bonitos, pensou que não era justo que a outra morte viesse um dia apagar o brasido suave daquele macio calor animal 73 . Foi antes disso que, sem controlá-lo, deixou cair uma lágrima 74 . Antes disso, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher 75 .

Esta sala, esta hora, esta mulher em que se tornou a morte. A concretude inmensurável desses momentos, que numa batalha permanente fogem à abstração da forma opressora, foi o que acabou de transformar a morte em mulher. E, no seu quarto do hotel, a morte, despida, está parada diante do espelho. Não sabe quem é 76 .

Perplexa, ela percebe pela primeira vez o automatismo irreflexivo da sua prática. Já não consegue recordar-se de quem foi que recebeu as instruções indispensáveis ao regular desempenho da operação de que a incumbiam. Puseram-lhe o regulamento nas mãos, apontaram-lhe a palavra matarás como único farol das suas atividades 77 . Percebe pela primeira vez que estava sendo uma marionete de um poder superior tal vez inexistente, ou pelo menos existente tão-somente no momento em que se acredita nele. São estes, diz o narrador, os perigos do automatismo das práticas, da rotina embaladora, da práxis cansada 78 .

O romance começa assim: No dia seguinte ninguém morreu 79 . E acaba desta maneira: No dia

seguinte ninguém morreu 80 .

É verdade, as frases são idênticas. Mas o seu sentido é totalmente diferente. Em ambos casos

ninguém morre. Mas, no segundo, o lugar da morte não existe mais.

72 Idem: 188.

73 Idem: 156.

74 Idem: 192.

75 Idem: 207.

76 Idem: 200.

77 Idem: 160-1.

78 Idem: 162. Infelizmente, a esta altura dos acontecimentos o capital e o sistema técnico são poderes objetivos, existem ainda que não acreditemos neles. O processo pode até fugir do seu controle. Mas não pode acontecer ao capital e à técnica o que aconteceu à morte de Saramago. Não podem, pela sua própria natureza, se entregar à humanização. São os homens que compreendendo a não-necessidade eterna desses poderes, e sobrepondo-se ao automatismo das práticas, devem acabar com o lugar do capital e do sistema técnico, humanizando assim as relações sociais.

79 Idem: 11.

80 Idem: 207.

A imaginação romanesca e a elaboração teórica

Só restam dizer algumas palavras ao respeito do diálogo construído neste trabalho entre a elaboração teórica e a imaginação romanesca. A fecundidade desse entrecruzamento não pode ser justificada a priori ou a posteriori. Deve ser sustentada no próprio texto, e é isso que tentamos fazer.

No entanto, é interessante trazer para a superfície algumas reflexões sobre a relação da obra de arte com a realidade que se encontram disfarçadas no romance de Saramago. Esse romance é um texto que se pensa a si mesmo. Define-se como uma, embora certa, inverídica história sobre as intermitências da morte 81 . Essa conjunção do certo e do inverídico sintetiza toda uma reflexão sobre a natureza do realismo da criação artística, que pelas mediações da ficção busca dizer algo sobre o real. Ainda mais, se diz que pela congênita irrealidade da fábula, compreendemos sem custo que tais faltas prejudicam seriamente a sua credibilidade. O interessante aqui é que o campo em que se combate essa irrealidade é o próprio romance; alude-se a fatos que estão imersos e que provam sua existência na própria ficção: Não pode haver melhor prova dele que a imagem da própria morte que temos diante dos olhos, sentada numa cadeira e embrulhada no seu lençol, e tendo na orografia da sua óssea cara um ar de total desconcerto 82 . É a forma 83 da obra de arte que faz com que ela fale do real. E é a forma que encanta à própria morte quem, no brevíssimo estudo de chopin, opus vinte e cinco, número nove, em sol bemol maior teve pela primeira vez na sua longuíssima vida a percepção do que poderá chegar a ser uma perfeita convizinhança entre o que se diz e o modo por que se está dizendo, transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana 84 .

81 Idem: 40.

82 Idem: 136.

83 “A fidelidade realista [do romance], se é que existe, não é da ordem do documento [

Prende-se à intuição e

figuração de uma dinâmica histórica profunda” (Schwarz: 1987: 131). É “formalização estética de um ritmo geral da sociedade” (idem: 132). Trata-se da “imitação de uma estrutura histórica por uma estrutura literária” (idem: 135). “A junção de romance e sociedade se faz através da forma, princípio mediador que organiza em profundidade os dados

da ficção e do real, sendo parte dos dois planos” (Idem: 141).

]

84 Idem: 172.

A Técnica, segundo Ellul

Ellul percebe que é um lugar comum dos romancistas fantásticos imaginar o que seria de nós se fosse subitamente interrompido o uso dos instrumentos 85 . Se a Morte deixava de funcionar em Saramago, se o Capital dá alarmantes sinais de crise, aqui podemos respirar aliviados. Ellul não é romancista, e felizmente nos mostra um mundo no qual a Técnica sim funciona. Ellul consegue na trajetória do livro tornar o alívio do leitor em desespero, baseado exatamente no fato da Técnica funcionar, de uma maneira mais poderosa e onipresente que nunca, conformando uma Civilização Técnica. Tentamos expor aqui os fundamentos do seu desespero, que é também nosso. Depois analisamos analogias da estrutura da Técnica tal como apresentada por Ellul com a estrutura do Capital tal como desenvolvida por Marx. Finalmente propomos encaminhamentos para pensar a relação entre ambas estruturas.

Marx começava sua exposição d'O Capital com a análise da mercadoria, por ser a forma elementar da riqueza nas sociedades nas quais domina o modo de produção capitalista 86 . Aliás, ele atentava para o fato de que a mercadoria parecia ser uma coisa trivial, de compreensão imediata, e a sua análise demonstrava que era um objeto endemoninhado, cheio de sutilezas metafísicas e de argúcias teológicas. 87 Quase um século depois, Ellul decide começar pelo fato técnico. Isso não é casual nem arbitrário. Nenhum fato tem, para ele, tanta importância no mundo moderno e nenhum fato é mais mal conhecido 88 . Ele pretende ir além da compreensão trivial do técnico. Mostrará também como é um fenômeno endemoninhado, metafísico, teológico. A percepção dessa complexidade parece fugir não só do olhar do homem comum, mas também dos próprios pensadores da técnica.

É por conta disso que Ellul precisa superar uma série de reducionismos das concepções correntes de técnica. Distingue técnica de máquina. Se a existência da máquina foi o ponto de partida para a técnica, atualmente a segunda tem assumido autonomia quase completa em relação à primeira, e aplica-se a domínios muito além da vida industrial. Por isso, não se pode abordar tão somente na máquina a questão da técnica em sua totalidade 89 .

85 Ellul, 1968: 310.

86 Marx, 2002: 43.

87 Idem: 87.

88 Ellul, 1968: 1.

89 Idem: 2.

Julga limitada a atribuição do caráter exclusivo da produtividade à técnica. Ele observava que grandes progressos na época, por exemplo, em certos métodos referentes ao homem como a cirurgia, a psico-sociologia, que nada tinham a ver com a produtividade. E ainda atentava para o

monstruoso desenvolvimento das técnicas de destruição 90 .

Observa também que a maior parte das operações técnicas não eram mais operações manuais. Seja porque a máquina se substitui ao homem, seja porque a técnica se torna intelectual 91 . Vincula a técnica à magia, analisadas comumente em oposição. Por um lado, aceita a demonstração de Mauss de que a magia é rigorosamente uma técnica: exprime a vontade do homem em obter certos resultados de ordem espiritual suficientemente precisos, e o faz através do formalismo e do ritualismo 92 . A magia corresponde também, para Ellul, aos caracteres da técnica primitiva trabalhados por Leroy-Gourhan: um envelope do homem, uma espécie de vestuário cósmico, órgão intermediário entre ele e o meio, que serve como meio de defesa e de assimilação e permite-lhe tirar proveito dos poderes que lhe são estranhos ou hostis. Aliás, é provavelmente na magia que a tecnicidade inicialmente se exprime 93 . E o inverso também é verdadeiro, pois a magia também se exprime na técnica atual: com as técnicas do homem, nós nos ligamos à imensa corrente das técnicas mágicas 94 . Portanto, a técnica não se opõe na origem à magia e atualmente a continua.

Ellul não pretende, através dessas problematizações, formular na teoria uma concepção mais elaborada ou complexa de técnica. O conceito do qual ele parte é muito simples: nada mais é do que meio ou conjunto de meios 95 . Junto à superação dos reducionismos esse conceito permite apreender na realidade o fenômeno em toda a sua abrangência e extensão. Assim, é possível apreender também como técnicas toda uma série de práticas não manuais, não mecânicas, não exclusivamente produtivistas. Fundamentalmente aquelas em rápido e profundo desenvolvimento que tem como foco o homem. No caso da propaganda em que a operação é de carater moral, psíquico e espiritual, por exemplo, não deixa, no entanto, de ser técnica 96 .

A in-comum concepção de técnica que Ellul mobiliza tem importantes desdobramentos na caracterização que ele faz do mundo contemporâneo. O leva a polemizar com contemporâneos sobre as tendências sociais em andamento. Toynbee, por exemplo, a partir de uma concepção restrita de técnica, faz uma distinção entre a idade da técnica e a idade da organização e propõe que

90 Idem: 15.

91 Idem: 13.

92 Idem: 24.

93 Idem: 25.

94 Idem: 26.

95 Idem: 19.

96 Idem: 14.

as sociedades têm superado a fase da técnica. Para Ellul, diferentemente, a organização é a técnica aplicada à vida social, econômica ou administrativa. É exatamente o mesmo fenômeno que assume um aspecto novo, ou ainda, seu verdadeiro aspecto, e se desenvolve em escala mundial, na escala universal da atividade. A noção de organização, que sucede à da técnica, é de certo modo seu contrapeso, seu remédio, é uma visão consoladora da história 97 . Desta maneira, a civilização atual aparece como sendo não menos senão mais técnica que qualquer uma das precedentes. Qual é a importância disso? Contrária ao consolo, permite perceber que os mesmos problemas suscitados pela técnica mecânica serão levados à potência x 98 . E ainda que haverá novos problemas derivados do próprio fenômeno técnico. A distinção entre técnica e máquina, por exemplo, permite perceber que a situação da técnica é radicalmente diferente da situação da máquina. O homem pode tomar posição em relação à máquina. Ao contrário, a técnica deixa de ser ela mesma objeto para o homem, torna-se sua própria substância:

não é mais colocada em face do homem, mas nele se integra e o absorve progressivamente 99 . A chave de leitura que Ellul desenvolve permite que os desafios ou dilemas do mundo atual venham mais à tona. Que a técnica seja concebida tão somente como conjunto de meios não diminui a importância do problema, pois nossa civilização é antes de mais nada uma civilização de meios e tudo leva a crer que, na realidade da vida moderna, os meios sejam mais importantes do que os fins. 100

Para compreender essa reviravolta na qual os meios ganham premência, Ellul precisa fazer um pouco de história. Ele reconhece a importância das obras de Leroy-Gourhan, Lafèvre de Noëttes, Bloch. Mas são ainda focadas na técnica mecânica. A história da técnica, em sua forma plena aqui indicada, ainda é desconhecida 101 No entanto, ainda que há história no livro de Ellul, ele não pretende realmente fazer um livro

histórico. Ellul se propõe fazer uma biologia da técnica 102 , concebida nesses termos amplos. Como entender essa idéia de biologia? É possível pensá-la como uma fenomenologia, no sentido hegeliano 103 . Ou como um desenvolvimento dialético e lógico-histórico de um conceito, tal como é feito por Marx com o capital.

97 Idem: 10-11.

98 Idem: 11.

99 Idem: 5.

100Idem: 19. 101Idem: 23. 102Idem: 22. 103Para John Wilkinson, tradutor para a edição em inglês do livro de Ellul, essa obra pode ser considerada uma fenomenologia do estado de animo técnico [a phenomenology of the technical state of mind] (Cfr. Ellul, 1964: xiii).

A técnica, segundo os antigos

Ellul faz um percurso por algumas experiências históricas procurando observar a relação que elas estabeleceram com a técnica. Mais rigorosamente, o lugar real da técnica nas diversas civilizações que nos precederam 104 .

A virtude grega do autodomínio, da moderação fez com que a atividade técnica seja mantida sob suspeita porque apresenta sempre um aspecto de dominação bruta ou de desmesura. A preocupação com o equilíbrio, a harmonia, a medida, choca com o poder da desmesura incluso na técnica e recusa-se todo o conjunto por causa de suas virtualidades. Isso resulta num esforço consciente de economia dos meios e de redução do domínio técnico 105 . No caso do direito romano enquanto técnica, ele não é o fruto de um pensamento abstrato, mas de uma visão exata da situação concreta, que se procura utilizar com o mínimo possível de meios. Procura-se um equilíbrio entre o fator puramente técnico e o fator humano. E tem uma finalidade precisa: a coerência interna da sociedade. É uma técnica que não se justifica por si mesma, que não tem sua razão de ser no próprio desenvolvimento 106 . Nos séculos X a IV, Ellul encontra que a procura da justiça diante de Deus, essa medida da técnica com critérios diferentes dos da própria técnica, é o grande obstáculo oposto pelo Cristianismo a esse progresso 107 . Relativizando as conseqüências econômicas atribuídas à Reforma, afirma que será em um mundo já subtraído à influencia preponderante do Cristianismo que se vai desenvolver o momento técnico 108 . No humanismo do SXVII, oriundo do humanismo do Renascimento, Ellul destaca não apenas o conhecimento e respeito mas autêntica supremacia dos homens, que se afirma em relação aos meios. Esse humanismo, ligado a um universalismo do homem, não permite a eclosão das técnicas. Observa-se aqui uma recusa permanente em submeter-se a uma lei uniforme, mesmo em seu benefício 109 .

Ellul então resgata de épocas passadas o fato da técnica se orientar por critérios externos a ela própria; de se encontrar um equilíbrio entre o fator técnico e o humano; da técnica não se justificar por ela mesma. Moderação, economia de meios, finalidade externa à técnica. Recusa a se submeter a uma lei uniforme. Supremacia dos homens que se afirmam em relação aos meios.

104Ellul, 1968: 67. 105Idem: 29-30. 106Idem: 31-2. 107Idem: 39. 108Idem: 36. 109Idem: 43.

Por conta disso, naquelas civilizações a técnica aplicava-se apenas a domínios bastante limitados, tanto no plano social quanto no individual 110 . Ellul lembra que mesmo muito tarde na história, o trabalho é uma condenação. Assim, o tempo em que se utilizam as técnicas é reduzido em relação ao tempo vazio consagrado ao sono, à conversa, aos jogos 111 .

Por outro lado, na idade média, por exemplo, o conforto não estava ligado à ordem técnica; era um sentimento de ordem estética e moral, cujo primeiro elemento era o espaço 112 . No século XV, a técnica está subordinada a uma visão plástica do mundo que lhe impõe ao mesmo tempo limites e exigências. Trata-se do funcionamento de um complexo 'arte-técnica' 113 . Por uma preocupação estética, não se podia admitir que um instrumento não fosse belo. Isto comporta a introdução da gratuidade e da inutilidade no aparelho eminentemente útil e eficaz 114 . A limitação do domínio da técnica se manifesta também na tendência a utilizar até o fim os meios que se possui, enquanto possam servir. A civilização não está orientada no sentido da criação de novos instrumentos, que correspondessem às novas necessidades, mas em uma aplicação cada vez mais extensa, mais perfeita, e mais requintada dos meios. A ênfase está posta no homem que utiliza e não na coisa utilizada; desta maneira, procura-se a perfeição do homem e não a do instrumento 115 . Outra característica fundamental do mundo técnico anterior ao século XVIII, que tem a ver ainda com seu domínio limitado, é a da técnica ser sempre local. Isto é, como uma civilização não é permutável com outra, a técnica permanecia fechada nesse quadro e não podia tornar-se universal assim como a civilização na qual estava inserida. Geograficamente não podia haver transmissão técnica porque a técnica não era mercadoria anônima, mas trazia a marca de toda uma civilização 116 . A técnica era subjetiva em relação à civilização. Evoluía, então, na dependência de todo um conjunto de fatores que com ela deviam variar 117 .

Isso tudo gera uma extrema diversidade de técnicas de acordo com os lugares, para atingir um mesmo resultado, diversificação até irracional dos modelos e uma evolução muito lenta 118 .

110Idem: 67. 111Idem: 67-8. 112Idem: 68. 113Idem: 72. 114Idem: 75. 115Idem: 69-70. 116Idem: 70-1. Retenhamos a idéia de que a técnica não era mercadoria anônima, pois será importante em um momento posterior do nosso raciocínio. 117Idem: 72. 118Idem: 72-4.

Domínio limitado e evolução lenta da técnica. Ellul afirma que se trata de civilizações pobres. No entanto, no passo imediato posterior o conceito de pobreza ou riqueza é tacitamente problematizado. Ellul tem a capacidade de ver o avesso do que, desde uma perspectiva moderna, estamos acostumados a ver tão só como atraso: naquelas civilizações, em compensação, as atividades técnicas nelas ocupam lugar restrito. Os homens não ligavam seu destino ao progresso técnico. A técnica era um instrumento relativo e não um deus 119 . Isso implica que o homem achava- se sempre à altura de suas técnicas, dominando seu uso e suas influências 120 o que lhe permite repudiá-las ou dispensá-las. Há uma possibilidade de escolha, não apenas quanto à sua vida interior mas quanto à forma de sua vida. E essa escolha depende de uma decisão e uma tomada de consciência, pois o peso material das técnicas ainda não é sobre-humano 121 . Podemos afirmar que essa submissão das técnicas ao homem 122 constitui uma verdadeira medida de riqueza para aquelas civilizações. Eis um fator de equilíbrio da civilização ao mesmo tempo que de morosidade da evolução geral 123 . Mas morosidade não e estagnação. Nessas experiências, a evolução é uma interação da eficácia técnica e da decisão eficaz do homem em face dela. Ellul parece estabelecer assim um modelo de relação entre o homem e a técnica. Também prevê a possibilidade de apagamento de um dos pólos de interação. Assim, quando a eficácia técnica desaparece, a estagnação social e humana é forçada. E se for o contrário? se desaparecer a decisão eficaz do homem em face da técnica? Quanto à outra hipótese, é a que estamos vivendo 124 .

Em que mundo vivemos?

No século XVIII verificamos a eclosão brusca do progresso técnico 125 . A percepção fundamental de Ellul é que a mudança não é só quantitativa ou de aceleração. Para compreender essa mudança, é preciso distinguir operação técnica, fenômeno técnico e civilização técnica. A operação técnica engloba todo trabalho feito com certo método tendo em vista atingir um resultado. Aqui intervém a razão, na procura da maior eficácia.

119Idem: 68.

120Idem: 74.

121Idem: 80.

122Idem: 74.

123Idem: 74.

124Idem: 80.

125Idem: 43.

O fenômeno técnico é a 'procura do melhor meio em todos os domínios'. É produzido pela dupla intervenção da razão e da tomada de consciência de todos os homens das vantagens da técnica. Consiste na preocupação da imensa maioria dos homens de nosso tempo em procurar em todas as coisas o método absolutamente eficaz, não mais o meio relativamente melhor. Isso produz uma rápida e quase universal extensão da técnica. Finalmente, é o acúmulo desses meios que produz uma civilização técnica 126 .

Desta maneira, o fenômeno técnico atual quase nada mais tem em comum com o fenômeno técnico até os tempos modernos. Por que? A técnica não encontra mais limitação alguma: estende- se a todos os domínios. Além da ilimitada multiplicação dos meios, essa técnica, tornada perfeitamente objetiva, que se transforma como uma coisa, seja qual for o meio ou o país, conduz à unidade da civilização 127 .

Entrar no mistério dessa coisa aparentemente simples que é a mercadoria, levou Marx a analisar a ordem do capital. Em Ellul, a biologia da técnica leva-o à análise da civilização técnica. Ilimitada, expansiva, objetiva, unitária. Esses são caracteres que a técnica assume no quadro dessa civilização, diferentemente das anteriores. A importância é aqui não da técnica em si, mas da ordem social na qual a técnica funciona. Em outros termos, não são os caracteres intrínsecos da técnica que nos podem revelar a mudança ocorrida, mas os caracteres da relação entre o fenômeno técnico e a sociedade 128 . O que Ellul em verdade está analisando para distinguir a civilização técnica das civilizações anteriores é a situação da técnica na sociedade 129 . E de fato essa análise o leva a afirmar que não há nenhuma medida comum entre a técnica atual e a anterior; quase não se trata do mesmo fenômeno 130 . Portanto, as suas conclusões só servem para a sociedade atual enquanto mantenha sua estruturação. Não levar isso a sério conduz a uma interpretação ao meu ver equivocada e infecunda das formulações de Ellul como sendo fatalistas, a-históricas, abstratas, tecnófobas, críticas da técnica em si 131 . O debate é análogo às polêmicas em relação ao caráter histórico-concreto ou ontológico-

126Idem: 20-1. 127Idem: 82. 128Idem: 65. 129Idem: 66. 130Idem: 148. 131Por exemplo, Andrew Feenberg, reconhecido estudioso contemporâneo da tecnologia, quem em seu balanço dos estudos sobre o assunto situa a Ellul, junto a Heidegger, entre os defensores da teoria substantiva; e os califica de fatalistas. Nota curiosa: Feenberg chegou a ser aluno de Marcuse na Universidade de Berkeley, nos anos '60 (Cfr. Feenberg, 2002: 3-35).

universal da obra do Marx. Ele, a rigor, analisa a especificidade do modo de produção capitalista.

Racionalidade e artificialidade são caracteres da técnica que Ellul quase não trabalha por considerar evidentes. Ele se detém nos seguintes caracteres essenciais do fenômeno técnico atual:

automatismo, auto-crescimento, unicidade (ou insecabilidade), universalismo, autonomia 132 . Veremos no final como esses caracteres fazem da técnica na civilização técnica uma estrutura muito semelhante ao capital.

Caracteres da técnica moderna

No interior mesmo do campo técnico, o automatismo consiste em que a orientação e as escolhas técnicas se efetuam por si mesmas. Entre dois métodos, um se impõe fatalmente porque seus resultados são contados, medidos, patentes e indiscutíveis. Por conta disso, o homem não é mais, de modo algum, o agente da escolha 133 .

Ora, quando saímos do propriamente técnico encontramos todo um conjunto de meios não técnicos em relação aos quais funciona uma espécie de liminação prévia 134 . Aqui, não se trata da possibilidade ou não de escolha entre dois métodos técnicos, mas da relação entre um meio técnico

e um meio que não o é. Parece que estamos, portanto, fora do domínio do automatismo. Na verdade,

o encontramos novamente. Não há escolha possível em presença de um resultado a obter entre o meio técnico e o meio não técnico. Aqui também a escolha é feita a priori. Isto porque a uma potência técnica só se pode opor outra potência técnica. E ainda, o meio em que penetra uma técnica torna-se todo ele, e às vezes de um só golpe, um meio técnico. Isso leva Ellul a avaliar o momento em que escreve como sendo a fase da evolução histórica de eliminação de tudo aquilo que não é técnico 135 . Esse caráter exclusivo da técnica nos revela uma das razões de seu progresso fulminante. Ter a resposta técnica é hoje em dia uma questão de vida e morte para todos 136 .

Outro caráter da técnica moderna, vinculado com o anterior, é o auto-crescimento. Ellul polemiza com as previsões de amortecimento do progresso técnico que estavam sendo feitas na

132Ellul, 1968: 82. 133Idem: 85. 134Idem: 85. 135Idem: 87. 136Idem: 88.

época e que são, segundo ele, desmentidas pelos fatos. O que estava acontecendo era uma mudança de setor da atividade técnica para o setor terciário. Aliás, ele previa por conta da mecanização desse setor a mesma crise social do não-emprego que se verifica no setor secundário. Ao contrário então do suposto amortecimento, Ellul propõe duas leis para as sociedades na

civilização técnica: nelas, o progresso técnico é irreversível; e ele tende a efetuar-se de acordo com uma progressão geométrica. Essas leis não são arbitrárias nem resultado tão somente de uma comprovação empírica. Ele chega a elas pela análise da conformação de um sistema técnico e dos seus desdobramentos. É importante nessa análise a distinção do nível individual e geral para pensar a progressão do desenvolvimento técnico. Ela permite enxergar o seguinte: se para cada técnica tomada individualmente, há barreiras, que podem ou não ser transpostas; e há ainda um desenvolvimento desigual, entre as diversas áreas de expansão, e também em cada área, entre os diversos setores da técnica. Ao mesmo tempo, em relação ao fenômeno técnico em conjunto há atualmente uma ilimitada abertura para o progresso. Um ponto fundamental na argumentação de Ellul é que esse progresso não é simplesmente uma possibilidade, mas uma necessidade. Vejamos como explica isso: a técnica, desenvolvendo-se, apresenta problemas inicialmente técnicos, os quais, por isso mesmo, só podem ser resolvidos pela técnica. O nível atual reclama um novo progresso e esse progresso aumenta, ao mesmo tempo, os inconvenientes e os problemas técnicos, exigindo em seguida, ainda outros progressos. Ellul mobiliza exemplos que têm a ver com a relação da técnica com os recursos naturais. Pelo progressivo esgotamento das riquezas naturais que provoca o desenvolvimento técnico, é indispensável preencher esse vazio por um progresso técnico mais rápido 137 . Ou então, a poluição que resulta do desenvolvimento técnico, gera a necessidade da técnica para purificar a água. Vemos como o autocrescimento se dá pela solidariedade das técnicas que se combinam entre elas. Em outros termos, eis como a técnica se engendra a si mesma. 138 De fato, o desenvolvimento técnico se torna pesquisa anônima, coletiva. E assim, se transforma e progride quase sem intervenção decisiva do homem 139 . Não só anônima, mas abstrata e portanto

empobrecedora: é

tem de superior e de particular, pois as qualidades que a técnica requer para evoluir são precisamente qualidades adquiridas, de ordem técnica e não uma inteligência particular 140 .

o homem, em sua realidade mais comum, inferior, que pode agir e não no que

137Podemos desdobrar daqui mais uma problematização do conceito de riqueza: o desenvolvimento técnico esgota as riquezas naturais. É, portanto, um fator de pobreza. 138Idem: 92-96. 139Idem: 88-90. 140Idem: 96.

Nesse processo, toda uma espontaneidade, cujas leis e fins ignoramos, cria-se nesse domínio. Nesse sentido, pode falar-se de 'realidade' da técnica, com seu corpo, sua entidade particular, sua vida independente de nossa decisão. A evolução das técnicas torna-se então exclusivamente causal, perde qualquer finalidade. Causal e que perde qualquer finalidade quer dizer que não são os desejos dos produtores que comandam, é a necessidade técnica da produção que se impõe aos consumidores. Produz-se aquilo que a técnica pode produzir, tudo o que ela pode produzir, e é isso que o consumidor recebe 141 .

Essa necessidade técnica comandando o processo leva Ellul a outro caráter fundamental para compreender o moderno fenômeno técnico, o da autonomia. Ellul analisa o caráter de autonomia da técnica em relação a diferentes poderes. Condiciona e provoca as mudanças sociais, políticas e econômicas. E no sentido inverso, não são mais as necessidades externas que determinam a técnica, são suas necessidades internas, com suas leis particulares e suas determinações próprias. Não aceita limitação alguma em relação à moral e aos valores espirituais. Procura dominar as leis físicas ou biológicas, ainda que não tenha verdadeira autonomia em relação a elas. Cada vez que a técnica entre em choque com o obstáculo natural, tende a contorná- lo, seja substituindo o organismo vivo pela máquina, seja modificando esse organismo de modo a que não mais apresente reação específica 142 . Em relação ao homem, a técnica tem por objeto eliminar toda a variabilidade, a elasticidade humana, pois toda intervenção do homem é uma fonte de erro e de imprevisão. A combinação homem-técnica só é bem sucedida quando o homem não tem responsabilidade nenhuma. Ellul atentava para o avanço da cibernética e do processo de automação 143 . Não é autônoma em relação ao tempo medido pelo relógio. As máquinas, como as regras técnica abstratas, estão submetidas à lei da rapidez, e a coordenação supõe o ajustamento dos tempos. Temos, então, uma obediência ao cronômetro 144 .

Os caráteres até aqui desenvolvidos conduzem a outro mais. A expansão que víamos no auto- crescimento como acumulação de meios pela solidariedade entre eles, completa-se agora com uma expansão universalizante. Faz parte também do automatismo, pelo qual não só se acumula internamente, mas invade os espaços externos, os meios não-técnicos.

141Idem: 96-7.

142Idem: 135-6.

143Idem: 137-8.

144Idem: 140.

Geograficamente, o universalismo técnico refere-se à simples verificação de que a técnica alcança progressivamente país após país, e que sua área de ação identifica-se com o mundo. Em todos os países tende-se a aplicar os mesmos processos técnicos.

Mas há um segundo aspecto, menos evidente, por trás do geográfico. É o aspecto qualitativo do universalismo que implica que ao passo que havia caminhos de civilizações diferentes, todos os povos estão hoje no mesmo caminho. Ainda, situam-se em pontos diferentes da mesma trajetória. No entanto, é fundamental a advertência de que a universalização não gera uma homogeneidade total. Não produz as mesmas sociedades e os mesmos homens, enquanto isso não seja preciso para que a técnica funcione. A técnica não precisa, para ser utilizada, de um homem 'civilizado'; seja qual for a mão que a utilize, produz seu efeito, mais ou menos totalmente 145 . Além disso, quanto mais requintada é a técnica, mais varia seus meios de ação. Portanto, há uma universalização da forma, mas que im-põe conteúdos heterogêneos. O importante resultado disso é que teremos a aparência de civilizações diferentes mas da mesma natureza técnica. As diferenças serão o acidente da técnica essencial. Isso gera uma ilusão da liberdade, mas que é apenas a expressão da unicidade técnica 146 . Ainda, a relação que se estabelece entre as potências e os países menos poderosos é a de uma simples subordinação técnica. Essa predominância dos fatores técnicos, que fazem com que todas as explicações políticas e mesmo econômicas sejam superficiais e irrisórias 147 faz Ellul avaliar, entre outros exemplos históricos, que não é sob o efeito ideológico do comunismo que o Budismo desaparece, mas por motivos técnicos 148 .

As civilizações atualmente ameaçadas pela nossa, afirma Ellul se incluindo nesse nós, não podem resistir porque não são técnicas 149 . Precisamos levar a sério essa idéia de ameaça. Vejamos:

Ellul ataca a idéia muito freqüente de pensar que 'basta proporcionar aos povos atrasados os processos técnicos e os bens acumulados para soerguê-los, como se dá uma injeção em um doente''. O que acontece é que considerando a cultura como um todo percebe-se que a transformação de determinado elemento por efeito das técnicas acarreta choques em todos os setores: todos os povos do mundo vivem atualmente uma dilaceração cultural, provocada pelos conflitos e as discussões internas resultas da técnica. Ellul observa que, na época, uma organização geralmente otimista como a UNESCO, diagnosticava o seguinte: não trazemos

145Idem: 119.

146Idem: 132.

147Idem: 121.

148Idem: 123.

149Idem: 127.

conosco nenhum meio de civilização, nenhum valor aceitável, capaz de substituir o que se destrói. Pela invasão da técnica, destroem-se os modos de vida tradicionais: a técnica não traz em si mesma seu equilíbrio, ao contrário 150 . Essa percepção significa uma verdadeira auto-crítica desde o centro difusor dessa civilização técnica 151 , dessas forças destruidoras civilizadas, como as chama também Ellul. 152

Não se trata aqui necessariamente de saudosismo ou apologia daquelas civilizações que se desmoronam em contato com a técnica. Há consciência da passagem de um tipo de servidão para outra. Assim, no domínio político, é a passagem brutal das formas elementares de sociedade para a forma evoluída de ditadura moderna. Ou então, da servidão e do feudalismo à estrutura mais meticulosa do Estado ditatorial, em virtude e por exigência das técnicas de produção e de administração 153 . Trata-se da elucidação dos traços desse novo tipo de servidão. Ele caracteriza-se pela imposição da complexidade e densidade de estrutura provocadas pela indispensável aplicação das técnicas. O aparente bem-estar que traz a técnica supõe uma transformação da totalidade da vida. Por exemplo, supõe trabalho onde só havia preguiça. A técnica, no seu universalismo, é totalitária. Isto é, nada pode deixar intacto em uma civilização: tudo lhe diz respeito 154 .

Um traço importante dessa transformação da vida que faz Ellul perceber essa imposição como uma ameaça destrutiva que provoca uma dilaceração cultural, é o processo pelo qual de um lado, as comunidades constituídas se desagregam, de outro novas comunidades não chegam a formar-se 155 .

Agora, que acontece com a organicidade dessas sociedades dilaceradas, desagregadas? Uma resposta é encontrada ao tratar da religião. Falando do Budismo, Ellul analisa que não se deixa esse povo religioso sem religião, mas à religião transcendente opõe-se hoje em dia a religião 'social'

150Idem: 124-5. 151No ano 1953, um ano antes da publicação do livro de Ellul, Chris Marker e Alain Resnais produziam Les statues meurent aussi [As estatuas também morrem]: na forma de ensaio cinematográfico, uma auto-crítica radical da invasão cultural-econômica-técnica da Europa na Africa. Analisando a recepção da arte africana na França e a própria intromissão da França no fazer artístico africano, mostravam como dessa maneira a técnica separa a arte da cultura aniquilando nesse ato a humanidade da obra de arte. Mostravam como o binômio técnica/capital se espraiava pelo mundo, se impondo com o poder da eficácia que des-humaniza. Vale perfeitamente como resumo desse filme a idéia de que não é levado nenhum meio de civilização, nenhum valor aceitável, capaz de substituir o que se destrói. 152Idem: 119. 153Idem: 125. Marx definia em termos semelhantes a passagem das sociedades pré-capitalistas à ordem do capital, cada uma com sua brutalidade específica de produzir: sobre los horrores bárbaros de la esclavitud, de la servidumbre de la gleba, etcétera, se injerta el horror civilizado del exceso de trabajo (2002: 283). Horror civilizado. Forma evoluída de ditadura moderna. 154Ellul, 1968: 127. 155Idem: 128.

que não passa de uma expressão do progresso técnico 156 . A técnica, então, tem o papel de re-criar essa agregação, mas agora em outros termos, que tem a ver com a própria forma da técnica. Vejamos: a técnica é um meio de apreensão da realidade, de ação sobre o mundo, que permite precisamente desprezar toda diferença individual, toda subjetividade. É rigorosamente objetiva. Portanto, a técnica é uma ponte entre a realidade e o homem abstrato. Os que agem todos de acordo com a mesma técnica estão ligados uns aos outros por uma fraternidade informulada. A técnica, desta maneira, estabelece as rupturas e refaz as pontes; constituindo-se no laço entre esses homens. É por seu intermédio que se comunicam. E é a linguagem universal que supre todas as deficiências e separações. Isso mostra para Ellul a razão desse grande impulso da técnica na direção do universal 157 .

Na época em que Ellul escrevia, comunidades e associações floresciam numa espécie de reconstituição da sociedade. Ao contrário daqueles encontravam nisso motivo de júbilo, Ellul percebia que não se tratava de coletividades autônomas, de grupos com orientação e valor específicos, mas, ao contrário, de organismos que só existem para a técnica. Aqui aparece a técnica mediando. Nessas associações, o homem não está situado em relação aos outros, mas em relação à técnica 158 . A técnica enquanto laço mediador entre os homens não faz senão reforçar seu traço universalizante.

Por outro lado, nessa universalização o fator técnico cumpre um duplo papel: os fatores de expansão são evidentemente favorecidos por fatos técnicos elementares, como a rapidez e a intensidade dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, pela infra-estrutura que precisam os meios de comunicação, eles também, supõem por si mesmos essa unificação, material e também uma certa unidade de formação intelectual 159 . A idéia de que a expansão dos fatores técnicos supõe por si mesma a unificação exprime uma identidade entre a técnica e a própria civilização. O que isso revela é uma mudança no lugar da técnica na civilização. Como vimos ao tratar das sociedades pré-modernas, a técnica pertencia a uma civilização, era um elemento dela, englobada em uma multidão de atividades não técnicas. Atualmente, a técnica englobou toda a civilização 160 . Daí a designação de civilização técnica, que tem que ser compreendida em toda sua significação: ela indica que nossa civilização é construída pela técnica (faz parte da civilização

156Idem: 123. 157Idem: 133-4. 158Idem: 310-11. Hoje isso se verifica com clareza nas comunidades criadas através de internet. Era tão evidente naquele momento? É impressionante que isso tenha sido escrito faz mais de 50 anos. 159Idem: 122-3. 160Idem: 130.

unicamente o que é objeto de técnica), que é construída para a técnica (tudo o que está nessa civilização deve servir a um fim técnico), que é exclusivamente técnica (exclui tudo o que não o é ou o reduz à sua forma técnica) 161 . Desta maneira, quando a técnica se torna ela própria civilização, e esta não existe mais por si mesma, dimensões como a intelectual, artística, moral, que antes tinham uma relação de certa exterioridade com a técnica, fazendo junto a ela parte da civilização, passam a não ser mais do que uma parte da técnica 162 .

De alguma maneira resultado dos caráteres anteriormente desenvolvidos, encontramos a idéia de unicidade ou insecabilidade, central na construção teórica de Ellul. Com esse caráter, ele faz referência à unidade profunda que constitui o fenômeno técnico, essencial, sob a extrema diversidade de suas aparências.

Ainda que não esteja construído explicitamente dessa maneira, é fecundo abordar o livro de Ellul distinguindo entre os planos objetivo e subjetivo. Pois é possível perceber no seu desenvolvimento, sutilmente diferenciados e ao mesmo tempo vinculados, por um lado, uma crítica ao processo histórico-social na sua objetividade; e, por outro lado, uma crítica ao posicionamento subjetivo dos homens em relação a essa objetividade. Particularmente a maneira como os homens enfrentaram a questão da técnica.

Dito isso, vemos que no caráter de unicidade é onde esses dois planos aparecem mais vinculados. Pois é a incompreensão da unicidade enquanto caráter objetivo da técnica moderna que gera as críticas mais fortes de Ellul ao posicionamento subjetivo em relação ao fenômeno técnico. Levar a sério esse caráter nos deveria conduzir ao seu corolário: é impossível separar este ou aquele elemento. No entanto, Ellul percebe como era uma verdade essencial particularmente ignorada. O era naquele momento, e também agora. Assim, a principal tendência de todos aqueles que pensam nas técnicas é distinguir: distinguir entre os diversos elementos da técnica, dos quais uns poderiam ser mantidos, os outros afastados. Uma distinção comum é entre a técnica e o uso. Ela convida à percepção freqüente de que não é a técnica que é má, mas o uso que o homem dela faz. E, portanto, desde que se modifique o uso, não haverá mais inconvenientes com a técnica. Para Ellul, essas distinções são rigorosamente falsas e provam que nada se compreendeu do

161Idem: 129.

162Idem: 131.

fenômeno técnico. Ele mostra como na técnica o uso é inseparável do ser 163 . Para começar, a técnica é, por si mesma, um modo de agir, exatamente um uso. Dizer que se faz mau uso de determinado meio técnico, significa que dele não se faz um uso técnico, que não se faz dele produzir o que pode e deve produzir 164 . Ainda, os caracteres que o fenômeno técnico adquire na civilização técnica aprofundam a impossibilidade da distinção entre ser e uso. O automatismo e a autonomia fazem perceber que a técnica é rigorosamente autônoma em relação à moral. O auto-crescimento desmente que a técnica evolua em vista de um fim, e que esse fim seja o bem do homem. Ela evolui de modo puramente causal: a combinação de elementos precedentes fornece novos elementos técnicos. É uma ordem de fenômenos cega em relação ao futuro, em um domínio de causalidade integral. Assim sendo, atribuir arbitrariamente este ou aquele fim a esta técnica, propor uma orientação, é negar a própria técnica, é arrancar-lhe a natureza e a força 165 .

Há uma outra distinção que se faz freqüentemente: uma orientação positiva ou uma negativa do desenvolvimento técnico. Ellul desmonta a idéia de que simplesmente se poderia orientar a técnica na direção do que é positivo, construtivo, enriquecedor, deixando de lado o que é destruidor, negativo, esterilizante 166 . Ele contra-argumenta com um exemplo histórico convincente: não tem como desenvolver pesquisas atômicas sem gerar a disponibilidade da bomba. Lembremos que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki eram um acontecimento recente na época em que Ellul escreve, e marcavam as reflexões daquele momento. Por que não seria utilizada uma técnica eficaz (até radical, no caso de acabar dessa maneira uma guerra) se ela está disponível. Podemos facilmente pensar em outros exemplos menos visivelmente dramáticos, mas muito profundos na conformação da sociedade atual. Por que não usar o telefone celular se ele está ai? A disponibilidade provoca o uso. Tudo o que é técnico, sem distinção de bem e de mal, é forçosamente utilizado quando está ao nosso dispor. Tal é a lei principal de nossa época. Na civilização técnica, se tem tendência a utilizar todas as invenções quer se tenha ou não necessidade 167 . No caso da relação entre técnica e guerra, não se trata só de um exemplo isolado. Ellul argumenta que o industrialismo não pode fazer outra coisa senão desenvolver as guerras. Não se trata de um acidente, mas de uma relação orgânica. Não apenas por causa da influência direta sobre os meios de destruição, mas pela influências nos meios de sobrevivência. A questão é que

163Idem: 98-9.

164Idem: 101.

165Idem: 100.

166Idem: 102.

167Idem: 103.

toda indústria, toda técnica, por mais humana e pacífica que sejam suas intenções, tem um valor militar 168 . Mas o fundamental aqui é que essa relação orgânica atravessa o sistema técnico como um todo. Ellul afirma que a técnica não pode ser considerada em si mesma, separada de suas condições de existência 169 , e ela conduz a certo número de sofrimentos, de flagelos, que não podem de modo algum ser separados dela 170 . É que a própria condição de existência da técnica, na civilização técnica, é essa relação orgânica indicada pelo caráter de unicidade. Não existe cada técnica separada das outras. A produção torna-se um fenômeno cada vez mais complexo 171 , e Ellul mostra de maneira convincente como o resultado de uma técnica demanda o surgimento de outra, e assim por diante; as técnicas vão se encadeando umas às outras e o desenvolvimento desse processo vai produzindo um sistema de necessidades técnicas, relacionadas organicamente.

Vejamos como Ellul relata o preparo desse sistema técnico: da combinação das máquinas no interior de uma mesma empresa se passa à organização da produção; à criação de técnicas comerciais, financeiras, de transportes. Isso gera o acúmulo das multidões em torno da máquina, para produzir e consumir. Dali o fenômeno espantoso da grande cidade, a técnica do urbanismo, a técnica das distrações, para fazer aceitar todo o sofrimento urbano ao preço de divertimentos, cinema. É um período de desordem que conduz a uma ardente procura da ordem. É preciso um mecanismo de distribuição e de consumo tão rigoroso, tão preciso quanto o mecanismo de produção. Surge a técnica econômica que supõe a técnica do trabalho. É preciso compensar o cansaço proveniente do trabalho técnico: de novo, necessidade de distrações de massa. O homem não aceita espontaneamente o que é necessário à máquina, e portanto é preciso uma disciplina. Aparecem, então, as técnicas do Estado, militares, policiais, administrativas e, em seguida, políticas. Se percebe que essa ação sobre o exterior do homem é ainda insuficiente. Pede-se ao homem um imenso esforço; só poderá fornecê-lo se estiver convencido, e não apenas coagido. Dali, as diversas técnicas da propaganda, da pedagogia, da psicologia. À medida que as técnicas materiais se tornam mais precisas, tornam as técnicas intelectuais e psicológicas mais necessárias. Assim se completa o edifício 172 .

Essas técnicas intelectuais e psicológicas que completam o edifício são o que Ellul chama

168Idem: 113. 169Idem: 109. 170Idem: 107. 171Idem: 114. 172Cfr. Idem: 115-118.

Técnicas do Homem. São um desdobramento particularmente importante na sua compreensão da civilização técnica e explicam em grande medida o desespero do autor. Surgem, como vemos, pela necessidade de disciplina, de ordem, e de adequação do homem a esse sistema técnico, que não se dá de maneira espontânea. É que o quadro do homem contemporâneo é para Ellul simplesmente abrumador: o trabalho exige dele uma ausência ativa, que compromete a totalidade do homem; mergulha cotidianamente nesse anormal e excepcional parecido a uma guerra. Vive asfixiado ainda pelo anonimato das ruas 173 . Sofre o fenômeno espantoso da grande cidade. As técnicas do homem procuram exatamente tornar vivível pelo homem o que não o é; buscam criar artificialmente condições psicológicas para fazer suportar o insuportável em face das terríveis condições de vida em que se encontra em conseqüência da técnica 174 .

As técnicas do homem preenchem o vazio entre os homens e as técnicas. Poderia se pensar que isso ajuda o homem a viver melhor e alguns até avaliam esse processo como sendo uma humanização das técnicas 175 . Ellul, ao contrário, chama a atenção de que o homem só é levado em consideração na medida em que perturba a técnica, e como objeto de técnica. Portanto, não há nisso nenhum interesse pelo homem 176 . A técnica respeitará ou desprezará o homem de acordo com seu desenvolvimento autônomo. Por isso, para Ellul é impossível falar de um humanismo técnico 177 . Ellul analisa diferentes âmbitos onde essas técnicas se apresentam com fins humanistas. Os resultados valem como avaliação geral das técnicas do homem. O projeto pedagógico da escola nova, cria homem felizes em meio que normalmente deveria torná-los infelizes 178 . No trabalho, a psicotécnica, orientação profissional, organização do trabalho, fisiologia do trabalho, procuram o equilíbrio psicológico do trabalhador, o que reage diretamente sobre a produtividade; buscam integrar o operário na empresa 179 , reproduzindo artificialmente as condições naturais para que as relações humanas possam estabelecer-se. Desta maneira, aliviam, sem dúvida, a dureza da condição, embora submetendo o homem mais profundamente à própria condição. A principal palavra dessas técnicas é adaptação. Vemos que os instrumentos compensatórios que permitem ao homem sobreviver o submetem ainda mais fortemente ao ideal técnico 180 .

173Idem: 326-7.

174Idem: 328.

175Idem: 344.

176Idem: 346.

177Idem: 348.

178Idem: 356.

179Idem: 358-9.

180Idem: 364.

Portanto, Ellul é convincente ao mostrar que o que parece o ápice do humanismo é na realidade, o apogeu da submissão do homem 181 . Mas de fato deve adaptar-se a esse novo organismo sociológico, para não tornar-se cada vez mais inadaptado, cada vez mais neurotizado. Mas isso requer um imenso esforço de mutação psíquica 182 . Esse é o papel das técnicas do homem. Essa adaptação forçada e necessária conduz a um processo fundamental na avaliação de Ellul, o da massificação da sociedade. Essa conjunção entre o individual e o coletivo, que não se faz espontaneamente, é hoje em dia, uma das condições essenciais ao desenvolvimento das técnicas 183 .

Para Ellul a questão de fundo é que não há técnica possível com um homem livre. Isso porque o homem enquanto servo da técnica deve ser estritamente inconsciente de si próprio. Mas, ao mesmo tempo, esse enquadramento se dá de modo tal que a verdadeira técnica saberá preservar uma aparência de liberdade, de escolha e de individualismo que satisfaça as necessidades de liberdade, de escolha e de individualismo do homem. Mas é só aparência. Estamos numa situação na qual o homem não pode desprender-se da sociedade. Materialmente porque os meios são tão numerosos que invadem sua vida, impedindo-o de escapar ao ato coletivo. Não há mais deserto, nem refúgio. Estamos obrigados a participar de todos os fenômenos coletivos 184 .

Não é arbitrário o uso que Ellul faz de termos como mutação psíquica ou inconsciência. É que as técnicas do homem se dão na conjunção entre duas categorias técnicas: as técnicas mecânicas (imprensa, rádio, cinema), e as técnicas psicológicas e mesmo psicanalíticas, que permitem conhecer com bastante exatidão as molas do coração humano para agir sobre ele com grande segurança 185 . Ellul não hesita a usar o termo manipulação, tão desprezado por outras correntes pela sua visão supostamente unilateral e simplificadora. Para ele, vivemos em um universo totalmente subversivo do ponto de vista psicológico. Na paixão coletiva criada pela técnica ocorre a exclusão do espírito crítico que é sempre específico da organização intelectual do indivíduo. Para Ellul isso implica a incapacidade de discernir o verdadeiro do falso, o individual do coletivo, o homem no inimigo, a ação do discurso, a realidade da estatística. 186 Ainda, a magnitude dos meios empregados provocam a naturalização do fenômeno, fazendo-o

181Idem: 356.

182Idem: 341.

183Idem: 342.

184Idem: 140-2.

185Idem: 372.

186Idem: 376-7.

imperceptível desde a própria experiência, e dificultando a objetivação do conhecimento sobre o mesmo 187 . Isso leva Ellul afirma que o próprio desses meios é agir no subconsciente e deixar ao homem a ilusão completa de sua liberdade 188 . Aqui temos um terrível desdobramento do caráter de unicidade da técnica: em proveito de um ditador ou em benefício de uma democracia, a propaganda manipula do mesmo modo o subconsciente e leva a formar o mesmo tipo de homem. Então a propaganda, independente do fim ideológico ao qual é aplicada conduz de fato à desvalorização da democracia 189 .

Outro domínio das técnicas do homem é o divertimento. Ellul analisa em detalhe a fuga para dentro que provoca o cinema; o monólogo permanente do radio e da televisão, enchendo o silêncio. Ali a técnica repara, constrói um mundo que anda bem, serve como refugio para o homem. Também analisa as férias, nas quais ninguém tem que ficar entregue a si mesmo; a mecanização dos gestos e dos aparelhos no esporte e o princípio do recorde se espalhando nas massas 190 . O fundamental nessas atividades é que os lazeres são tecnicamente preenchidos, não se trata de um tempo vazio no qual o homem se reencontra 191 . Em momento algum o homem é independente das técnicas. E na medida em que todos os elementos humanos são envolvidos, recalcados pela técnica, tendem a transpor o limiar inferior da consciência. O que tem como resultado que haja cada vez mais participação do inconsciente na conduta da vida 192 . Esse fato reforça ainda a ação da propaganda.

Ainda, Ellul mostra a ação da máquina transformando o que há de mais imediato para o homem, sua casa, seu mobiliário, sua alimentação, em função das necessidades das próprias máquinas 193 . Mostra também, como pela ação das máquinas, o espaço, o tempo e o movimento tornam-se abstratos 194 . A conjunção entre o individual e o coletivo que daí deriva, construída artificialmente dessa maneira por meio das técnicas e das máquinas é hoje em dia, uma das condições essenciais ao desenvolvimento das técnica 195

187Idem: 374. Uma implicância disso, não trabalhada por Ellul nesses termos, é a limitação da apreensão espontânea e direta do real e a necessidade de uma elaboração teórica para abordá-lo. 188Idem: 381. 189Idem: 382-4. 190Cfr. 388-393. 191Idem: 411. 192Idem: 413. 193Idem: 333. 194Idem: 335-8. 195Idem: 342.

Ellul mostrava na conformação do sistema técnico a maneira como os fatores se engendravam mutuamente, e como a necessidade caracterizava esse universo. As técnicas do homem, mencionadas aqui rapidamente, são um dos resultados desse processo. Ainda, na sua biologia da técnica, Ellul vai desdobrando os caracteres do fenômeno técnico em outras dimensões da vida social: na economia, na política, na estrutura do estado, nas doutrinas políticas, no homem mesmo. Assim como o capital se desenvolvia logicamente na obra O Capital de Marx, aqui o que se desenvolve é o fenômeno técnico, modificando cada dimensão na qual ele se introduz. As análises feitas anteriormente em termos mais gerais e simples se reproduzem em termos mais concretos em cada uma dessas dimensões. Resumimos aqui o tratamento detalhado que Ellul dá a cada um dos assuntos.

Ellul percebe uma dependência crescente da vida econômica em relação ao desenvolvimento técnico. Esse é um fenômeno próprio da civilização técnica e é cada vez mais acentuado. Isso se dá porque a descoberta e a aplicação técnica, que renova os produtos e acentua as necessidades, é o caminho para evitar a crise que consistiria na impossibilidade em que se encontra um sistema econômico de progredir indefinidamente, do ponto de vista técnico, com o mesmo ritmo em todos os setores. É uma dependência que se produz irracionalmente 196 . Aqui vemos um desdobramento da autonomia da técnica. Nesse processo, o fato de tornar-se os meios cada vez mais consideráveis e mais caros, leva a uma concentração de capitais, seja por parte do Estado ou de grandes corporações. Ellul argumenta que a força que leva a essa concentração é apenas técnica, pois salienta que os seus efeitos humanos e sociais são nefastos, e que ainda não há acréscimo nos lucros 197 . Ellul não deixa de perceber o fenômeno de universalização da economia. Mas no seu entendimento, é o desenvolvimento das técnicas que está na origem dessa absorção pelo econômico de todas as atividades sociais. É por intermédio da técnica que tudo se tornou função e objeto da economia 198 . Outra relação entre a técnica e a economia é a formação de uma técnica econômica. Por um esforço de separação rigorosa entre o que é e o que deveria ser, um interesse exclusivo no fato, a economia política perde todo caráter doutrinal ou moral, torna-se técnica 199 . É interessante nesta percepção de Ellul como o que parece ser simplesmente uma maneira de apreender a realidade, acaba se tornando a própria forma de intervir nela. O plano e as normas são

196Idem: 153-6.

197Idem: 157-8.

198Idem: 161.

199Idem: 163-4.

exatamente o ponto de passagem das técnicas de compreensão às técnicas de ação 200 . Sem essa intervenção, a técnica econômica perde a sua eficácia, que é a própria lei de qualquer técnica. Ao contrário, intervindo não só se liberta essa busca da eficácia mas, ao mesmo tempo, a própria realidade se faz mais eficazmente apreensível pela técnica econômica que funciona tanto melhor quanto maior é a integração dos homens na massa 201 . E o plano aprofunda essa integração. O homem social considerado pelo plano é um homem cada vez mais integrado em nossa sociedade, quer dizer, cujas necessidades são cada vez mais coletivizadas; pela publicidade, a estandartização dos produtos, pela uniformização intelectual, a estandartização do gosto, se da um mecanismo de uniformização das necessidades, e, portanto, não é necessário compelir as necessidades sociais, pois estão preparadas com antecedência 202 . A técnica econômica gera a massificação da sociedade, pois o conjunto social, em contato com a técnica, torna-se massa, fica disponível em relação às necessidades, tanto econômicas quanto técnicas 203 .

Uma contribuição notável de Ellul é mostrar como a técnica econômica não só modela a sociedade, tornando-a uma massa, mas realiza a modelagem do próprio homem. O homem econômico, era uma criação abstrata para efeito de estudo, na qual se reduzia o homem a seu aspecto econômico de produtor e consumidor, sem negar a existência de outras dimensões. Ora, quanto mais a técnica econômica se desenvolve, mais reintegra na realidade a noção abstrata do homem econômico. O que era apenas hipótese de trabalho tende a tornar-se incarnação. O homem modifica-se lentamente sob a impressão mais pesada do meio econômico até tornar-se esse homem de extrema delgadeza que o economista liberal fazia entrar em suas construções. A modelagem do homem pela técnica faz essa passagem da imagem teórica à sua reprodução em carne e osso. Aqui de novo, como no caso do plano, a técnica passa de instrumento de compreensão à instrumento de reprodução empobrecedora da realidade. A abstração torna-se real. Ainda, isso se dá em um momento em que o economista toma consciência da densidade real do homem, mas de uma densidade que ele está em vias de perder, se é que já não a abandonou totalmente 204 .

200Idem: 175. 201Idem: 169. 202Idem: 180. 203Idem: 213. 204Idem: 223-4. Carlos Nelson Coutinho mobilizava as dimensões gnoseológica e histórico-ontológica para compreender a ampliação do conceito de Estado em Gramsci. Nesse caso, a dimensão gnoseológica de Estado ia se ampliando, acompanhando no mesmo sentido um processo histórico-ontológico de ampliação do objeto (Cfr. Coutinho, 1996: 14-17). Pode ser fecundo pensar a partir disso o fenômeno atual. Agora, as dimensões se cruzam em sentidos opostos: a dimensão gnoseológica (imagem teórica, hipótese de trabalho, do homem econômico) se amplia no momento em que a dimensão histórico-ontológica (o homem real, de carne e osso) se reduz. Podemos entender nesses termos o processo analisado por Paulo Arantes no qual o atual curso do mundo tornou-se um pastiche do marxismo vulgar (Arantes, 2004: 119). O que era uma hipótese de trabalho limitada, pobre, se incarna na realidade. Portanto, não podemos supor que a dimensão gnoseológica se enriqueça linearmente e, autonomizada, sirva para

A incarnação do homem econômico é uma verdadeira vitória da concepção burguesa de homem, aquela pela qual o homem não passa de uma máquina de produzir e consumir. E a vitória consiste para Ellul em que essa concepção se torna consenso. O proletariado não foge dela, alienado, espécie de autômato recheado pelas engrenagens econômicas. Essa condição do proletariado está longe de ser garantia da inexorabilidade da revolução: ao contrário, sua subordinação sem esperança exige a criação do mito revolucionário. É um mito que não é acompanhado na realidade, pois no proletariado concreto (e não idealizado) toda a preocupação é a de tomar o lugar do burguês; o meio para a revolução são os sindicatos que subordinam um pouco mais rigorosamente seus membros à função econômica, satisfazendo sua vontade revolucionária e esgotando-a em objetivos puramente econômicos 205 . Os sindicatos, na avaliação de Ellul fazem parte do conjunto dos organismos técnicos de despersonalização e por esse meio o operário se torna cada vez mais 'organizável' 206 .

Os processos analisados vão se encadeando e se demandando os uns aos outros. Assim, o homem econômico, hipótese de trabalho, enquanto a economia foi doutrina, deve tornar-se realidade quando a economia se torna técnica 207 . O que a técnica econômica produz, em definitiva, é uma verdadeira adaptação mutua da sociedade e do homem, agora com as medidas necessárias para entrar no paraíso artificial, fruto minucioso e necessário dos meios que havia disposto para si mesmo 208 . É possível uma adaptação plena? Ellul abre a possibilidade de pensar em uma situação na qual os paraísos artificiais não são mais necessários, pela perfeita adaptação do individuo na técnica. Isso acontecia, segundo ele, naquele momento, com os suecos, os mais 'integrados' de todos os homens, os mais adaptados 209 . De qualquer maneira, é um processo ainda inacabado, pois ele vê também que as freqüentes neuroses são o sinal de que tudo ainda não foi completado no processo de absorção do homem; refazer a unidade, porém, é completar esse processo 210 . E aqui voltamos às técnicas do homem, que consistem precisamente em tornar imperceptíveis os inconvenientes das outras técnicas; em outros termos, submeter o homem a uma outra técnica, de

analisar o objeto seja como ele estiver. Assim, o economicismo, o determinismo tecnológico, a falta de mediações políticas, em outro momento denunciados como limitações teóricas grave, podem ter se tornado fiel re-presentação do objeto atual, empobrecido realmente, compreensão atualíssima dos processos sociais em curso. Talvez estejamos assistindo a um empobrecimento real ao mesmo tempo do homem, que se torna homem econômico (Ellul), e das mediações das estruturas econômicas, políticas, sociais, culturais (é possível ler nesse sentido as contribuições de diferentes autores contemporâneos como Fredric Jameson, Robert Kurz, Paulo Arantes, Francisco de Oliveira). 205Ellul, 1968: 226. 206Idem: 366. 207Idem: 229. 208Idem: 232. 209Idem: 391. 210Idem: 422.

tal ordem que não sinta mais as engripagens da precedente 211 .

Para Ellul, não há mais democracia possível em face de uma técnica econômica aperfeiçoada. Por um lado, a técnica econômica gera uma aristocracia de técnicos que implica uma perda do controle da vida econômica por parte da maioria dos homens 212 . Por outro, o aumento da participação dos homens na economia se dá na medida exata em que estão submetidos à máquina, em que perdem a radicalidade. A vontade do povo só pode exprimir-se dentro dos limites que lhes são antecipadamente traçados pelas necessidades técnicas 213 . Voltamos a encontrar, no terreno econômico, o efeito já estudado de modo geral a propósito da técnica. Assim, o homem participa sem dúvida da técnica, mas a técnica o faz participar como se fosse uma coisa 214 . No avesso de uma suposta humanização, agora da economia, Ellul encontra uma submissão dos fins às técnicas. Com este raciocínio Ellul mostra um limite efetivo da socialização da participação nos marcos da civilização técnica. E também da sonhada socialização dos meios. Ellul se pergunta se em face dessa imposição das necessidades técnicas na vida econômica, poderia o povo fazer o que quiser com os meios de produção 215 .

Começamos a falar da economia e terminamos na participação, na vontade do povo, na democracia, em definitiva, na política. Não é casual. Dizer que a técnica tem desdobramentos na dimensão da política é pouco. Na verdade, para Ellul a própria oposição entre política e economia tende a tornar-se menos real à medida que essas duas forças encontram uma medida comum, ou melhor, um denominador comum que é a técnica. Para Ellul, nos países que adotavam o planejamento, e ele via isso particularmente na União Soviética, mas também no bloco ocidental, a política tem tendência a tornar-se técnica 216 . Se na dimensão econômica a técnica leva à concentração de capitais, na política leva a outro tipo de concentração. A técnica supõe sempre uma organização centralizada. Se torna uma necessidade, por exemplo, que o Estado centralize todas as estatísticas. Essa tendência centralizadora da técnica no âmbito político leva Ellul a afirmar naquele momento histórico que a idéia de descentralização, mantendo o progresso técnico, é pura utopia 217 . Ellul reconstrói o papel fundamental dos particulares no desenvolvimento técnico e na expansão

211Idem: 424-5. 212Idem: 165-6. 213Idem: 215. 214Idem: 221. Nesse tipo de formulação se percebe claramente a semelhança com a lógica de exposição que Marx realiza n'O Capital. Aqui, caracteres analisados na técnica em geral aparecem novamente quando ela se desenvolve e tecniciza a economia. 215Idem: 214. 216Idem: 192. 217Idem: 199-201.

de sua aplicação a novos domínios, durante o SXIX. Destaca a concorrência capitalista como um aspecto que favoreceu esse processo. Ainda, foi a iniciativa privada que levou a aplicação das técnicas ao homem 218 . Mas, ao atingir certo grau, esse desenvolvimento apresenta problemas que somente o Estado pode resolver. Isto pelos recursos em dinheiro 219 . Assim, por exemplo, pela hipertrofia das indústrias produtoras de máquinas, só o Estado parece ser capaz, e ainda com dificuldades, de absorver essa superprodução 220 . Mas tem mais do que o dinheiro. É que só um poder superior, sem limites, tendo todos os instrumentos em mãos, pode proceder à adaptação da sociedade à economia 221 . De maneira fecunda, Ellul mostra como o lugar do mercado e do Estado foi mudando na mesma medida em que foi se transformando o fenômeno técnico 222 . Essa conjunção entre a técnica e o Estado é, para Ellul, do ponto de vista político, social e humano, o fenômeno mais importante da história. Ele explica a totalidade dos acontecimentos políticos modernos 223 . Técnica e Estado aparecem assim reforçando-se mutuamente e produzindo uma civilização total, aparentemente indestrutível 224 . Ora, contra a idéia corrente de que essas técnicas servem ao Estado para pôr ordem, garantir certas liberdades, dominar melhor o destino político, Ellul percebe, transpondo aqui os caracteres do fenômeno técnico, que o desenvolvimento técnico é de tal ordem que não é mais um simples instrumento passivo nas mãos do Estado 225 . As razões políticas não dominam os fenômenos técnicos, é o contrário. O Estado torna-se em seu conjunto um imenso organismo técnico 226 , no qual impera a agora a procura da eficiência. Diante disso, o homem político acha-se em situação de menoridade pela magnitude das técnicas à disposição do Estado. Acontece isso até com os homens de Estado que se movem impotentes em torno da máquina que parece funcionar sozinha 227 . E cada progresso realizado pelas técnicas de pesquisa, administração e organização, reduz ipso facto a função e o poder do político 228 . Elas não só possibilitam, mas obrigam a constituir uma técnica política 229 .

218Idem: 246-7. 219Idem: 242. 220Idem: 159-60. 221Idem: 243. 222Ao contrário por exemplo de um Manuel Castells que, na sua preocupação pelas condições que favoreceram e podem promover o modo de desenvolvimento informacional em países e regiões diferentes, parece tratar o Estado e o mercado como entidades a-históricas e explicativas em si mesmas. Castells parece querer chegar a uma fórmula eterna e universalizável do modelo de sinergia tecnológica, com doses homeopáticas de intervenção estatal e de atividade privada (Cfr. Castells, 2003) 223Ellul, 1968: 238. 224Idem: 323. 225Idem: 253. 226Idem: 256-7. 227Idem: 259-60. 228 Mais uma problematização do conceito de pobreza e riqueza. O desenvolvimento da técnica gera perda de poder, de controle. 229Idem: 265.

Encontramos aqui um desdobramento dos caráteres da técnica. A autonomia da técnica que tende a eliminar o homem aparece transposta aqui no campo da política: uma organização perfeita funciona com um mínimo de decisão. Para Ellul, isso parece indicar uma eliminação real dos poderes políticos, tornados puramente espetaculares e formais 230 Por outro lado, a importância fundamental desse encontro entre as técnicas e o Estado consiste na materialização daquele caráter expansivo analisado por Ellul na técnica moderna. O uso das técnicas, contido pelo Estado no caso do particular, torna-se sem freio para o Estado. O Estado passa de barreira a alavanca do fenômeno técnico 231 . Isso aparece concretizado de diferentes maneiras. Uma delas é que, considerar a nação desde o ponto de vista técnico, como um negócio a gerir, como um poder econômico a explorar, leva à supressão progressiva das barreiras ideológicas e morais que se opõem ao progresso técnico 232 . Ainda, forma-se um sistema complexo mediante o qual o Estado supera as objeções individuais ao progresso técnico. Por exemplo, a constituição daqueles circuitos do tipo: a criança não vacinada não pode inscrever-se na escola, e a criança que não vai à escola não tem direito às alocações familiares. Isso acaba obrigando, seja cada um a favor ou contra, a aceitar a vacinação 233

Outra contribuição importante de Ellul é a de mostrar que a técnica transforma não só a estrutura do Estado, mas as próprias doutrinas políticas. De ordenadora e constitutiva, critério de ação, no século XIX, com o progresso técnico inserido no Estado, passa a cumprir uma função explicativa e justificativa. Não apresenta mais o fim, agora determinado pelas técnicas. O importante aqui é notar que a doutrina agora interfere para justificar essa ação determinada por necessidades técnicas, para demonstrar que ela corresponde também a princípios ideais e morais. Essa transformação no papel da doutrina política revela para Ellul a perfeita inocuidade das teorias políticas atuais. Limitam-se, com verdadeiras, acrobacias intelectuais, a acrescentar aos fatos uma aparência de justiça 234 . Trata-se de construções ideológicas a partir de fatos concretos, técnicos e verdadeiros, que, no entanto, não comportam de modo algum essas conseqüências, que pertencem ao domínio da fabulação teórica. Ellul atribui a responsabilidade dessas construções a políticos, economistas, sociólogos. Um exemplo de fabulação: o homem não pode admitir que a barragem produza apenas eletricidade e nasce o mito da barragem 235 . Neste ponto, a estética tem para Ellul uma evolução semelhante à moral. Com a consolidação de uma técnica obediente à eficácia, procurou-se reintroduzir, subrepticiamente, os indispensáveis

230Idem: 284.

231Idem: 272.

232Idem: 269-71.

233Idem: 317.

234Idem: 285-9.

235Idem: 329-30.

fatores estéticos e morais. Mas o que resulta disso é uma união artificial, absurda. Pois de fato, em uma sociedade que se orienta por motivos puramente técnicos, não pode mais haver preocupação estética gratuita na atividade prática 236 A partir desse raciocínio, podemos dizer que vivemos em uma sociedade técnica com uma fachada estética e moral.

Nesse marco, Ellul analisa também a inocuidade da ação política ou intelectual de oposição. Ele precisa explicar por que os ataques à moral burguesa transformaram-se em puro verbalismo, puro formalismo. Ou então a oposição entre as pretensões de um André Breton, que ele usa como exemplo, e a pavorosa mediocridade dos resultados. A inscrição desses movimentos na civilização técnica transforma essas tentativas, pois elas são separadas de seus efeitos pela intervenção de meios que se tornou impossível dispensar. Há dois maneiras pelas quais Ellul analisa a intermediação das técnicas como causa da esterilização progressiva da vida intelectual no mundo moderno. Por um lado, pela própria censura segundo a qual os métodos de comunicação excluem toda produção intelectual a não ser as convencionais e sem valor decisivo 237 . Outra é a desativação de qualquer conseqüência séria dessa produção pela sua inserção no meio técnico. Essa inserção as torna materialmente eficazes, mas espiritualmente ineficazes: a sua visibilidade satisfaz aquele que poderia tornar-se um revoltado. Desta maneira, a técnica difunde a revolta de alguns e aplaca assim a sede de milhões. Essa revolta estéril é para Ellul o supremo luxo dessa civilização de necessidade. E ainda tem essa função sociológica perfeitamente definida de castrar as forças que ameaçariam a ordem. Mas é uma função involuntária. Portanto, o que pode ser criticado àqueles que se encontram nesse lugar é, para Ellul, uma terrível falta de lucidez quanto ao lugar que ocupam nessa sociedade 238 .

Esses desdobramentos dos caracteres da técnica que analisamos em diferentes dimensões da vida social, como o Estado, a economia, as doutrinas políticas, a estética, até o próprio homem, mostram que se deu uma transformação na própria relação entre os planos objetivo e subjetivo. Podemos ver isso também na mudança do papel da consciência em dois momentos diferentes:

na eclosão da civilização técnica nos países onde isso primeiro acontece, e na invasão por essa civilização daquelas outras civilizações anteriores.

236Idem: 76. Cabe notar que no capitalismo tardio volta a preocupação estética não como gratuidade nem como união artificial absurda, senão capturada pela lógica mercantil: trata-se da estetização da mercadoria, analisada por pensadores contemporâneos. 237Idem: 428-31. 238Idem: 437-9.

Para Ellul, a eclosão da civilização técnica se explica pela conjunção, única na história de cinco fenômenos: o desfecho de uma longa experiência técnica, o crescimento demográfico, a aptidão do meio econômico, a plasticidade do meio social interior, o aparecimento de uma clara intenção técnica 239 Não entraremos aqui na análise de cada fenômeno. Precisamos distinguir que enquanto os quatro primeiros são aspectos objetivos, com o quinto fenômeno, o da clara consciência técnica, Ellul faz referência a um aspecto subjetivo, que ele avalia como uma das condições fundamentais para o surgimento da civilização técnica. Essa consciência técnica implica a visão precisa das possibilidades da técnica, a vontade de atingir seus objetivos, a aplicação em todos os domínios, a adesão de todos à evidencia desse objetivo 240 . É um mérito da análise de Ellul abordar esse 'todos' que aderem ou não à técnica de maneira diferenciada. Na relação que estabelecem com a técnica, geralmente distingue o ponto de vista da burguesia, do Estado, dos operários e seus líderes, das massas, e dos técnicos, que surgem

geralmente da burguesia. Assim fazendo, consegue perceber que o interesse é o grande móvel da consciência técnica, embora não necessariamente o interesse capitalista ou interesse de dinheiro 241 . Também permite analisar o processo histórico de conformação da 'clara intenção técnica', no seu desenvolvimento desigual, nas suas tensões e impasses. Como se chega a essa adesão de todos, ou seja, de cada um desses grupos diferenciados, à evidência da técnica? Há um primeiro momento no qual, enquanto havia um claro interesse do Estado na técnica, pela procura de poder, e da burguesia pela avidez por dinheiro, existiam fortes reações populares contra

o progresso. Ainda em 1848, uma das reivindicações operárias é a supressão do maquinismo.

Naquele momento, Ellul distingue a voz de Kieerkegard fazendo uma advertência profética contra

a técnica que mal desabrochava. Mas, depois de um corte histórico, vemos como se forma depois daquele momento uma vontade comum de explorar ao máximo as possibilidades da técnica. Interesses divergentes (Estado e indivíduos, burguesia e classe operária) convergem e se reúnem para glorificar a técnica. E não é esse um dos menores milagres da técnica. Todos estão de acordo sobre sua excelência 242 . Como se deu essa transformação? Como foi possível? Que aconteceu com a reação popular contra a técnica? A explicação de Ellul tem dois planos, o dos fatos e o das idéias. No plano das idéias, segundo Ellul, Marx reabilita a técnica aos olhos dos operários, ao ser o primeiro em convencê-los que eles não são vítimas da técnica mas de seus senhores. E ainda que a

239Idem: 49.

240Idem: 54.

241Idem: 55

242Idem: 57.

classe operária não será libertada por uma luta contra a técnica mas, ao contrário, pelo progresso técnico que acarretará fatalmente o desmoronamento da classe burguesa e do capitalismo 243 . No plano dos fatos, de 1850 a 1914 os chamados benefícios da técnica começam a ser difundidos no povo: comodidades da vida, diminuição progressiva da duração do trabalho, facilidades para os transportes e a medicina, possibilidades de fazer fortuna (os Estados Unidos, as colonias), melhoramento do habitat. Isso produz uma prodigiosa transformação que a todos convence da excelência desse movimento técnico que produz tantas maravilhas e que, ao mesmo tempo, muda a vida dos homens. Os dois planos se juntam, o fato e a idéia estão uma vez de acordo. Ellul se pergunta, então,

como poderia a opinião resistir. Então, também por interesse pessoal (ideal do conforto massas aderem à técnica: assim, o conjunto da sociedade é convertido. O raciocínio de Ellul revela que aquele se tratava de um momento no qual as idéias tinham um papel fundamental ao incarnar-se nas massas enquanto força material. Por isso, para ele, essa reconciliação da técnica e das massas, obra de K. Marx, é decisiva na história do mundo 244 .

)

as

Passamos agora ao momento em que a civilização técnica invade outras civilizações. Nos povos que são conquistados por ela, não se trata mais de circunstâncias favoráveis à sua eclosão, como foi o caso da origem. Neles, a técnica se impõe, seja qual for o meio. As correntes que provocam historicamente essa invasão são o comércio e a guerra 245 . Percebemos como muda o papel da consciência no processo. Se no caso da eclosão da civilização técnica, um dos requisitos fundamentais foi o espalhamento pelos diferentes setores sociais de uma clara intenção técnica, na invasão de outros povos por essa civilização minimiza-se o fator subjetivo, de consciência, em relação a uma premência do fator objetivo, prático. As resistências cedem forçosamente em face de uma adaptação técnica e também muito simplesmente em face da abundância. É interessante aqui a referência a uma conjunção de coerção (a resistência que cede forçosamente) e de um certo consenso (a resistência que também cede muito simplesmente). Acabar abrindo mão da autonomia em face da abundância de recursos é em certo grau um ponto de escolha. É importante, frisar esse momento. Agora, completa Ellul, a enormidade dos meios destrói todas as razões tradicionais e individuais 246 . Não que a consciência não exista. De fato, como parte desse processo, a técnica logo produz, em toda parte, essa consciência clara que é a mais fácil de suas criações 247 . Mas aqui ela já não condição senão resultado da civilização técnica.

243Idem. 57.

244Idem: 57.

245Idem: 120.

246Idem: 121.

247Idem: 129.

Onde fica a crítica da técnica no fim desse processo histórico? Depois de 1914, Ellul só enxerga algumas críticas desprezíveis, manifestações de um idealismo muito vago e de um humanismo sentimental sem valor 248 .

Ao meu ver, os diagnósticos da perda do peso do subjetivo em face da técnica e da ausência de uma crítica substantiva dela, obrigam Ellul a complementar no plano subjetivo sua crítica das mudanças objetivas da civilização técnica. Isso implica uma crítica radical das ilusões do progresso técnico; e também uma crítica da compreensão abstrata da técnica que sustenta aquela ilusão.

Crítica da ilusão do progresso técnico

Ellul problematiza pertinentemente a idéia de progresso como evolução linear, a partir do desenvolvimento técnico. Afirmar simplesmente que há progresso de 1250 a 1950, significa comparar coisas incomparáveis. Para ele, seria o mesmo que dizer que um avião representa um progresso em relação a uma lembrança. Essa afirmação, que pode soar um tanto exagerada ou jocosa, é perfeitamente coerente no raciocínio de Ellul. Trata-se de uma questão de julgamento e de civilização. Entre 1250 e 1950 há uma mudança civilizacional que diz respeito não só ao tempo de trabalho mas à sua intensidade que faz com que não haja nenhuma medida comum entre as sete horas do trabalho do mineiro de 1950, e as quinze horas de trabalho de um artesão medieval. Diz respeito ao próprio gênero de vida, onde por exemplo a procura da justiça ou da pureza fazem a situação incomparável fazendo uso dos parâmetros da civilização técnica vigente. Para Ellul, pode-se dizer que há um progresso desde o começo da era industrial que nasceu sobre a ruptura e a destruição da antiga ordem, incomparável e desaparecida. No entanto, nem por isso o tempo das grandes esperanças chegou 249 . Que esperanças eram essas? Esse progresso, já historicamente datado, e civilizacionalmente restrito, foi base das imensas esperanças que a intervenção da técnica na economia despertou no coração dos homens. Particularmente importante é nesse sentido o fim do século XIX que presenciou, ao alcance da

248Idem: 57. É muito curioso que Ellul não trave diálogo explícito, nem nesta obra nem em posteriores, com as formulações da Escola de Frankfurt, sendo que, ao meu ver, seus insights tem importantes pontos de contato. Benjamin, Horkheimer, Adorno e Marcuse mantiveram, de diferentes maneiras, uma crítica radical da ilusão do progresso técnico e do lugar que a ciência e a tecnologia vieram a ganhar no decorrer do século XX. Antes de La technique ou l'enjeu du siècle, de '54, já tinham sido produzidas obras importantes ao respeito como o texto de Marcuse “Algumas implicações sociais da tecnologia moderna”, em '41; A Dialética do Esclarecimento, em '47; As teses sobre a história, em '40; O homem unidimensional, em '54, o mesmo ano que o livro de Ellul. 249Idem: 198-9.

mão, o momento em que tudo estaria à disposição de todos, e em que o homem, totalmente substituído pela mecânica, não teria mais para si mesmo senão prazeres e jogos. Mas escrevendo já em meados do século XX, Ellul atenta para o fato de que as coisas na prática não se apresentaram tão simples assim. A questão é se é possível aprender algo desse processo, se há alguma lição a extrair dele. Ellul ironiza sobre aqueles que achavam que os acontecimentos da primeira metade do

século não diziam respeito à manutenção intacta dessas esperanças: duas guerras, dois azares, que não afetam de modo algum essa gloriosa avançada; duas impertinências da fatalidade ou dois erros do homem, mas, sobretudo, não toquemos nesse maravilhoso caminho do progresso que penetra no futuro e o ilumina. Para Ellul, aquela esperança de fins do século XIX subsiste no Milenium hitleriano ou no Progresso burgues. Mas o seu funcionamento muda quando a possibilidade da concretização da promessa co-existe com a frustração da mesma: esse sentimento de frustração do que é possível, ao alcance da mão e subitamente retirado, faz a atrocidade das guerras atuais quando se localizou o inimigo que nos roubou o Paraíso. Ainda, essa produtividade da qual o homem é testemunha constitui uma das razões da explosão dos mitos que comporta o mundo moderno 250 . Esses mitos

servem ao homem para orientar e justificar sua ação

de ação acham assim raízes subterrâneas nesse encontro do homem e das promessas técnicas, em seu deslumbramento. Mas essa atitude não é exclusiva do homem médio; olhando para os economistas, veremos que não negam de modo algum essas esperanças. Situam-nas alhures, impõem-lhes condições, modalidades, mas o fundo permanece o mesmo e a técnica é sempre o instrumento da abundância e do lazer 251 .

e sua atual servidão; mito destruidor e mito

É que um dos mitos modernos é exatamente o da adoração da técnica. Ela tem a ver com a

autonomia que a técnica revela em relação a um outro poder, ainda não analisado: o sagrado. Pelo seu caráter autônomo, para a técnica não há sagrado. A técnica dessacraliza o mundo do homem, e ele transfere seu senso do sagrado para aquilo mesmo que destrói tudo o que era seu

objeto do sagrado, para a técnica. No nosso mundo, a técnica se tornou o mistério essencial, e provoca uma admiração misturada de terror uma adoração primitiva.

É uma adoração que se revela em diferentes grupos sociais: as classes proletárias, operária ou

camponesas têm uma atitude de orgulho em relação ao pequeno deus que é seu escravo:

motocicleta, rádio, aparelhos elétricos; no caso do proletariado consciente, basta que a técnica progrida para que o proletariado se liberte um pouco mais de suas cadeias. Trata-se de uma

250Idem: 197.

251Idem: 198.

crença no sagrado, na qual acredita porque seus milagres ao menos são visíveis e em progressão. É apenas uma fórmula da fé; os técnicos das classes burguesas são sem dúvida os mais intensamente fascinados, pois não esperam libertação, nada esperam dela e, no entanto, sacrificam-se e dedicam sua vida; mesmo aqueles que a criticam ou a atacam, não encontram em si mesmos nem fora deles uma força compensadora daquilo que põem em dúvida. Esse é para Ellul o fato mais relevante dessa atual sacralização da técnica 252 . Essa adoração não é passiva mas realmente mística. E, sem ela, é todo o edifício social que seria posto em questão 253 .

Ellul percebe que, a pesar dos acontecimentos da primeira metade do século XX, o automatismo técnico não só se impus como força objetiva, mas também se tornou desejável socialmente. Assim, salienta que a pior reprovação a uma pessoa ou sistema no mundo moderno é que impede esse automatismo técnico 254 . De fato, essa é, na análise de Ellul, a crítica fundamental contra o regime capitalista desenvolvida pelo comunismo: freia o progresso técnico, ou orienta o progresso técnico por motivos que nada tem a ver com a técnica. Ao contrário, o regime comunista caminharia no mesmo sentido que o progresso técnico. É instigante, em primeiro lugar, a percepção de Ellul de que se o comunismo faz dessa crítica do capitalismo um meio de propaganda, é porque aos olhos dos homens de hoje é uma crítica procedente 255 .

Mas, por outro lado, é legitimo problematizar se é essa efetivamente a relação que Marx e o comunismo propõe estabelecer com a técnica. Devemos voltar agora à idéia de que Marx faz uma reconciliação da técnica e das massas,

252Idem: 145-8. 253Idem: 309. 254Idem: 83. 255Idem: 85. A referência de Ellul para atribuir essas opiniões ao comunismo é neste ponto um tal Rubinstein, da União Soviética, do qual não se fornecem mais dados. Parece evidente que se trata de Modest Yosifovich Rubinstein, um dos integrantes da delegação soviética enviada a participar do II Congresso Internacional de História da Ciência em Londres em 1931. Foi membro do Presidium da Academia Comunista de Moscou e Membro do Presidium da Comissão Estatal de Planejamento, o chamado Gosplan. No texto “As relações entre a ciência, a tecnologia e a economia sob o capitalismo e na União Soviética”, apresentado no congresso, ele escreve: “Esta tendencia a impedir y obstruir el desarrollo técnico y consecuentemente también el desarrollo científico, es particularmente significativa en la etapa final del capitalismo monopolista”. E também “La Unión Soviética se ha propuesto como objetivo alcanzar y superar a los países capitalistas avanzados en el tiempo histórico más breve”. E ainda, “Todo esto promete proporcionar un estímulo nuevo y poderoso al «incesante, y todavía más rápido desarrollo de los procesos de producción», profetizado por Engels como resultado de la liberación de las cadenas del capitalismo. Este desarrollo de las fuerzas productivas postula un desarrollo de la ciencia igualmente incesante y aun más rápido. Este panorama no corresponde a un futuro lejano, no es un ánimo vago y nebuloso. Es la verdadera realidad en la que estamos viviendo, trabajando, construyendo.” (http://www.nodulo.org/ec/2008/n081p11.htm)

decisiva na história do mundo 256 . Ainda, para Ellul, diante da verdadeira vida espiritual que se desenvolve até 1900 na classe operária, Marx opera uma manobra de envolvimento, pois integra a revolução no mundo econômico. Neste ponto, Ellul opõe Marx a Proudhon e Bakounine, que põem em conflito os poderes espirituais e a ordem econômica. Ao contrário, Marx sustenta a ordem burguesa do primado econômico, não só na história, mas no coração do homem. Assim fazendo, consagra teoricamente o sentimento comum de todos os homens de seu século 257 . Ellul adjudica finalmente a Marx o esquema segundo o qual o que põe em perigo o regime capitalista, o que garante seu desaparecimento, é esse automatismo técnico 258 . Ellul chama a atenção para a transformação que o comunismo faz do marxismo, de doutrina em método 259 . Ainda, chega a estabelecer uma relação de traição entre eles, ao afirmar que uma economia fundada na estatística é necessariamente antidialética, o que representa uma das profundas traições do comunismo moderno em relação ao marxismo 260 . No entanto, a pesar de sugerir com essas rápidas passagens a necessidade dessa distinção, ela se apaga no resto da obra e não é devidamente trabalhada. Ao meu ver, Elull não distingue suficientemente a obra de Marx do que fizeram com ela; a obra de Marx da dos marxistas; a obra teórico-política de Marx e o uso dela enquanto ferramenta de propaganda ou justificação política. Ele parece aceitar acriticamente a auto-identificação dos marxistas da sua época, sobretudo os soviéticos, e o desenvolvimento concreto da revolução russa, como legítimos porta-vozes da obra do Marx. Considero que essas obras e experiências históricas merecem tratamento diferenciado para poder estabelecer a relação que elas propunham com a técnica. Sem poder tratar agora aprofundadamente esses assuntos, é preciso reconhecer que correntes centrais do marxismo ligaram a emancipação aos rumos da técnica. É possível então que tenham tido um papel importante no fechamento do círculo da clara intenção técnica que abrange todos os setores sociais. É evidente também, em experiências históricas concretas identificadas com o comunismo, o fenômeno de fascinação com o poder extraído das técnicas 261 .

É importante perceber agora que essa identificação que Ellul destacava na propaganda comunista entre os caminhos do comunismo e do progresso técnico, não é uma simples propaganda enganosa, que não seja fiel aos fatos. Ellul percebe que a linha de progressão histórica que tende à universalização da civilização técnica está poderosamente reforçada pela evolução, que queima a

256Idem: 57. 257Idem: 227-8. 258Idem: 85. 259Cfr. 266 e 288. 260Idem: 212. 261Idem: 296.

história, da URSS 262 . De fato, a experiência da União Soviética condensou em algumas décadas um processo que tinha sido feito muito mais demoradamente em ocidente; provocou um desenvolvimento acelerado e inédito das forças produtivas 263 . O central aqui é que para Ellul isso não é necessariamente motivo de orgulho. Ao trabalhar ao favor do automatismo técnico, o progresso se torna automático. E assim sendo, o homem renuncia a controlá-lo, a interferir, para executar ele próprio a escolha 264 . Ora, para Ellul, e essa percepção é interessante, o marxismo apresenta um ensaio de conciliação dialética com a técnica 265 . Isso não significa hipotecar a emancipação ao rumo de uma técnica sem controle. Essa conciliação se apresenta em alguns momentos da obra de Marx como a possibilidade, pelo desenvolvimento das forças produtivas, de superar o reino da necessidade. E essa superação como uma condição para atingir o reino da liberdade. Ainda que Ellul não trabalha essas passagens marxianas, é interessante perceber que no diagnóstico que Ellul faz da civilização técnica estão embutidas reflexões que implicam uma crítica radical à aposta na teleologia do desenvolvimento técnico como caminho para a emancipação. Podemos observar isso em diversas dimensões.

Ellul percebe, de maneira notável, que o socialismo perde cada vez mais sua consistência específica em virtude da técnica. Em outras palavras, a técnica esvaziou progressivamente o socialismo de seu conteúdo. Como desdobramento do caráter de unicidade do fenômeno técnico e do enquadramento da política pelo efeito das técnicas, Ellul atenta para o fato freqüentemente observado de que os ministros socialistas quando chegam ao poder fazem mais ou menos a mesma coisa, em quase todos os países, que seus predecessores capitalistas. Isso não é devido a pretensas traições do marxismo ou a uma fraqueza de caráter, mas ao peso das técnicas 266 . Ellul mostra como a centralização e o estatismo ao que levam o desenvolvimento técnico não são um evidente caminho ao socialismo. Os fins humanitários desaparecem, o processo de socialização é falseado pelo excesso das técnicas, a propriedade dos meios de produção deixa de ser a questão central, a igualdade torna-se um mito em virtude da aristocracia técnica 267 . Em definitiva, enquanto o socialismo supõe a supressão do Estado, a economia ao passar para

262Idem: 149. Na evolução da URSS que queima a história ecoa claramente a idéia de Trotsky dos saltos do desenvolvimento desigual e combinado. 263O próprio Trotsky escrevia em La revolución traicionada, em 1936, que “el socialismo ha demostrado su derecho a la victoria, no en las páginas de El Capital, sino en una arena económica que cubre la sexta parte de la superficie del globo; no en el lenguaje de la dialéctica, sino en el del hierro, del cemento y la electricidad” (s/d). 264Ellul, 1968: 85. 265Idem: 296. 266Idem: 250-2. 267Idem: 204.

as mãos do Estado cria apenas um capitalismo de Estado e não um socialismo 268 .

Ainda, diante da promessa de reduzir drasticamente o tempo de trabalho socialmente necessário pelo progresso técnico, gerando tempo livre, Ellul se pergunta se para essa época, o homem não terá sido a tal ponto transformado que terá sido destruída a sua capacidade de criação e de responsabilidade? 269 Com isso chama a atenção de que a emancipação não só precisa de meios materiais, mas também de seres humanos aptos a ela. Não se pode apostar só no progresso técnico a futuro pois no processo não muda tão somente o ambiente criado pela técnica, mas é o próprio ser do homem que se transforma, e essa mudança pode ser regressiva. Somos capazes de reconstituir a totalidade do homem de outro modo que há cem anos 270 .

Se por um lado os sentidos e os órgãos da máquina multiplicaram os sentidos e os órgãos do homem, ao mesmo tempo, seus sentidos são substituídos por aparelhos que o informam sobre tudo o que acontece. Desta maneira, liberado pouco a pouco dos constrangimentos físicos, escravizou-se mais aos constrangimentos abstratos. Agindo sobre todas as coisas por meio de intermediários, perde o contato com a realidade 271 . Sua percepção fundamental é que à necessidade natural que é vencida, substitui-se uma nova necessidade, que obedece a outras leis. Quanto mais se desenvolve o aparelho que nos permite escapar à necessidade natural, mas nos submete às necessidades artificiais 272

Crítica da compreensão abstrata da técnica

O caminho de crítica à aposta na teleologia mostra de novo a co-existência de enormes potencialidades da técnica e da frustração delas. Esse descompasso, como vimos fonte dos mitos modernos, entre eles a própria adoração da técnica, é vivenciado socialmente, mas não é devidamente apreendido. Neste ponto, Ellul constrói o que podemos chamar uma critica da compreensão abstrata da técnica, que sustenta a ilusão do progresso técnico.

Analisando as transformações do espaço pela técnica moderna, Ellul percebe como só uma

268Idem: 250.

269Idem: 412.

270Idem: 331.

271Idem: 332.

272Idem: 442.

pequena minoria vê alargar-se diante dela o espaço. Enquanto isso, o homem de nosso tempo conhece apenas um horizonte limitado, uma dimensão reduzida. Chega assim a uma formulação sintética e fecunda das contradições atuais que dizem respeito à natureza das promessas técnicas e sua possibilidade de concreção: à conquista abstrata do Espaço pelo Homem (com maiúscula) corresponde a limitação do espaço para os homens. O fundamental aqui é que ambos lados do processo são desdobramento das técnicas, pois a diminuição do 'Lebensraum' é um produto indireto (aumento da população) ou direto (aglomeração urbana e industrial) delas 273 . Desta maneira, Ellul mostra de uma só vez a contradição entre as potencialidades abstratas da técnica e os resultados concretos. A contradição é evidenciada quando Ellul opõe as possibilidades do Homem em abstrato e a concretude da vida dos homens. O descompasso não se deve à incompletude do avanço da técnica, mas ao caráter contraditório desse avanço. Essa análise desmonta a ilusão, derivada dessa compreensão abstrata da técnica, de que é possível superar a contradição completando o processo de desenvolvimento técnico. Ainda, esses homens comuns são invisibilizados no processo social. As técnicas obedecem à lei da especialização. Cada uma trabalha com uma pequena parcela de carne viva (tão pequena que jamais é um homem) trabalha em nome de um ser superior: o Homem. Na realidade prática, técnica, nunca se focam os homens, que ficam num nível intermediário apagado. Há um salto desde as parcelas dos homens trabalhadas pelos técnicos, para o Homem que é o mito que orienta suas ações 274 . No entanto, ainda que invisibilizados, os homens sofrem a convergência de sistemas ou complexos de técnicas. Ellul usa uma metáfora lumínica: o efeito real não pode ser apreciado do ponto de vista de cada projetor, mas do ponto de vista do objeto iluminado. E esse efeito real é que, em definitivo, não haja parte do homem indene, livre e independente da técnica 275 .

A lição que podemos tirar disso é que para avaliar os desdobramentos do desenvolvimento técnico e ponderar assim suas potencialidades e seus perigos, devemos atentar para os seus efeitos nos homens em sua concretude. Não é a adaptabilidade do Homem que importa, mas dos homens. Se o Homem parece ter uma adaptabilidade quase infinita, se tratando do homem, há circunstâncias em que pode subsistir, mas perdendo tudo aquilo que faz dele um homem 276 .

273Idem: 335.

274Idem 397-9.

275Idem: 401.

276Idem: 407.

A compreensão da contradição entre promessa e concreção, da distinção e relação dialética entre

as possibilidades do Homem e a concretude dos homens, demostra ser fecunda ao analisar exatamente a situação do homem em casos concretos. Assim, por exemplo, onde outros vêem o Homem chegando na beira da inteligência artificial, ele vê como pela ação das técnicas do homem a inteligência humana não pode resistir à manipulação do subconsciente 277 . Ou então, no mesmo momento que o homem tem meios cada vez mais poderosos à sua disposição, também pela ação das técnicas do homem age sobre o mundo real, mas age exatamente em um sonho 278 .

É fundamental advertir que não são as técnicas materiais isoladas que provocam esses fenômenos que estamos salientando, mas a conjunção delas com as técnicas psicanalíticas, atuando sobre esse homem dilacerado e massificado, com suas paixões recalcadas, tal como diagnostica Ellul. Problematizando a oposição que Mumford faz entre a grandeza da máquina impressora e o horror do jornal, se pergunta se o conteúdo não é justamente exigido pela forma social imposta ao homem pela máquina. Posto que se trata de um conjunto técnico destinado a adaptar o homem à maquina, para embotar o senso da revolução 279 . As técnicas não impõem um conteúdo só pela sua materialidade. Essa imposição é de todo o complexo técnico-social. Não compreender o processo dessa maneira implica também uma compreensão abstrata da técnica. As técnicas do homem estão condicionadas, na realidade (não na abstração filosófica em que a liberdade é sempre possível) pelo econômico, pelo político, pelo mecânico 280 . Essa idéia fica clara com o seguinte exemplo: não é a formação do gosto e da inteligência que domina o espectador, mas o obscurecimento de sua consciência. Portanto, um filme só terá exito se puser a arte a serviço dessa empresa sociologicamente necessária, tecnicamente possível 281 .

É fundamental, então, compreender que o processo consiste em uma necessidade sociológica

aliada com uma possibilidade técnica. Isso é o que pode ser chamado complexo técnico-social.

Tratando da crítica à compreensão abstrata, devemos analisar uma conceituação da técnica que, ainda que não seja trabalhada como um caráter diferenciado por Ellul, atravessa seu raciocínio: a

277Idem: 377.

278Idem: 380.

279Idem: 99.

280Idem: 404.

281Idem: 390.

técnica é uma forma abstrata. Isso não é contraditório com o dito até agora. A análise das condições específicas de existência que assume a técnica na civilização técnica levam o autor a afirmar que a técnica é o único lugar em que a forma e o ser são idênticos. É apenas uma forma e tudo nela vem modelar-se. Ainda, quem penetra nessa forma acha-se compelido a adotar as suas características. Modifica o que toca, sendo ela mesma refratária à contaminação. Por essas características, para Ellul nada há, nem na natureza, nem na vida social ou humana, que lhe possa ser comparado 282 . Essa apreensão da técnica enquanto forma abstrata faz perceber que seus limites têm características peculiares: eles são pressupostos pelo seu objeto e pelo seu próprio método, a técnica traça ela mesma seus limites e modela sua imagem. Enquanto a perfeição à qual se dirige no seu movimento incessante não é alcançada, a técnica avança, eliminando tudo o que tem menos força. Revela-se, assim, destruidora e criadora ao mesmo tempo. Nesse seu percurso, as dificuldades parecem obrigá-la a tornar-se não outra coisa, porém cada vez mais ela própria. Tudo o que assimila, a reforça em seus traços. Portanto, não há esperança de vê-la transformar-se em um ser sutil e gracioso 283 . Se a técnica estabelece seus próprios limites, se o que assimila a reforça ainda mais, como freá- la? O freio precisa ser da mesma natureza que a força contrária. Tendo virado um fenômeno sociológico, só pode freá-la são rédeas e barreiras de caráter sociológico. Mas Ellul demostra exatamente que tudo o que apresentava esse caráter foi resolvido pela técnica. Tudo o que constituía tradicionalmente um freio em relação à técnica, o Estado, a opinião pública, as comunidades, inverteu-se depois do século XX. Esses obstáculos tornaram-se atualmente poderosos meios de ação da própria técnica. Agora pode avançar à vontade, não tendo outro limite senão o das suas próprias forças 284 . Foi a própria técnica que se transformou, que seguiu a sua lei, que o homem ignorava, no entanto, no começo desse período glorioso. E o homem se depara com que a técnica é agora um poder que não tem mais freio algum 285 . É uma abstração formal que se torna terrivelmente real 286

O que fazer?

Ellul se pergunta pela autoridade que o homem tem diante do simples mas contundente reconhecimento de que os fatos tem sua forma e seu peso específico 287 .

282Há sim na vida social algo análogo à técnica neste ponto: é o capital. Voltaremos a isso. 283Idem: 88 e 97-8. 284Idem: 311-2. 285Idem: 307. 286Idem: 292. 287Idem: 152.

Como desdobramento necessário de sua análise objetiva, Ellul não deixa de insistir na falsidade e na comodidade de negar a unidade do conjunto técnico, que gera a ilusão de suprimir o lado negativo da técnica, conservando o positivo. Ellul se recusa a chamar liberdade o que não passa de obediência à necessidade técnica 288 . Situa-se assim a contracorrente da atitude que, na maior parte dos intelectuais ocidentais, os leva, depois de ter verificado os fatos, a negá-los logo em seguida por declarações de esperança e uma espécie de certeza da liberdade humana que nada mais têm de científico 289 .

A conclusão disso tudo arremete mais uma vez contra as ilusões abstratas em relação à técnica:

esse sistema é complexo e delicado demais para que alguma de suas partes seja modificável isoladamente. Nada é possível suprimir, nada modificar, sem modificar todo o resto 290 .

A questão não é se a técnica pode ou não ser boa, mas de como se libertar do sistema técnico

que o submete. Isso permite evitar uma leitura da obra de Ellul como sendo fatalista em relação à

técnica nos seus caracteres intrínsecos. Mais uma vez, é a situação da técnica na sociedade, o seu lugar que é problemático.

A técnica, na civilização técnica, torna-se uma segunda natureza (social) que vai ocupando o

lugar de compulsão, de opressão, que antes tinha a natureza (natural): é a necessidade da técnica que se torna tanto mais compulsiva quanto mais se apaga ou desaparece a da natureza 291 .

A obra de Ellul consiste em uma crítica radical a um sistema de adaptação compulsiva, a uma

civilização de necessidade, e não de liberdade. Não vejo isso como fatalismo ou essencialismo, senão como consciência lúcida das condições concretas e atuais para a emancipação humana. Ao meu ver, a obra de Ellul é, nesse sentido, um desdobramento da tese de Marx segundo a qual os homens fazem a história mas em condições que não escolhem. Trata-se de saber quais são essas condições.

As memórias que Ellul traz de civilizações anteriores à nossa, nas quais se estabelecia uma relação enter a decisão eficaz do homem e a eficácia das técnicas, pode ser pensada nos termos da conciliação dialética do homem e da técnica, procurada pelo marxismo. No entanto, é claro que esse modelo de relação não serve em abstrato. Seria ingenuo, pura declaração de princípio, propor simplesmente a conciliação do homem com a técnica depois de analisar exaustivamente a autonomização da técnica em face do poder do homem. Ellul exprime ao mesmo tempo a necessidade e a inatualidade do peso do subjetivo.

288Idem: 184; nota 1. 289Idem: 152. 290Idem: 118. 291Idem: 149.

Reconhece o antigo valor da ética da mesura em relação à técnica, em um tempo histórico em que a própria ética perdeu seu valor. Na verdade, Ellul enxerga desesperadamente a necessidade de um mundo social onde a conciliação do homem e da técnica seja possível.

Não deixa de ser importante, nesse sentido, a problematização do conceito de riqueza e pobreza que percebemos no raciocínio de Ellul. Acostuma-se a analisar o desenvolvimento técnico tão somente como fonte de riqueza. O avesso do poder que a técnica fornece ao Homem é o preço do seu poder 292 , exatamente a perda do controle dos homens diante da autonomização do mundo técnico. Vimos o desdobramento disso em inúmeras dimensões da vida social. Esse preço da civilização técnica é uma medida de pobreza. A submissão das técnicas ao homem, em civilizações anteriores, era uma medida de riqueza.

Ellul afirma estar convencido de que há outro caminho possível, mas não nos marcos da civilização técnica, que dita remédios técnicos para problemas técnicos 293 . Na obra de '54 Ellul não trabalha alternativas concretas talvez por considerá-las abstratas, não atuais 294 . Sua preocupação então é mostrar o estado de situação e o nível de radicalidade e de implicâncias revolucionárias das alternativas. Diante da ausência de alternativas concretas, os desafios apresentam-se para Ellul como dilemas. O dilema é entrar em concorrência com um poder contra o qual não têm defesa eficaz, sendo vencidos, ou aceitar a necessidade técnica; nessa hipótese, vencerão, submetendo-se, porém, de modo irremediável, à escravidão técnica 295 . Nessas condições, o homem não tem mais vitória

que lhe seja própria 296 .

Capital e Técnica

A tentativa de analisar a técnica, na sua aparente simplicidade, levou Ellul ao estudo da civilização técnica, dos caracteres que a técnica assume nela, e dos seus desdobramentos.

292Idem:199.

293Idem: 425. 294No decorrer do conjunto de sua obra, Ellul concretiza isso historicamente. Em '82, em Mudar de Revolução, percebe a possibilidade concreta que a microeletrônica ajude à descentralização, mas só no caso de se dar um processo de co-nascimento dessa nova tecnologia e de um novo socialismo em gestação (Cfr. Ellul, 1985). Em '88, em Le Bluff Technologique, já essa possibilidade tinha-se esgotado e a microeletrônica tinha fechado ainda mais o sistema técnico (Cfr. Ellul, 1988). 295Ellul, 1968: 87. 296Idem: 149.

É impressionante perceber a semelhança com o trabalho feito por Marx. Por um lado, no

procedimento. A abordagem da mercadoria o leva à análise da ordem do capital. Por outro, dos

caracteres da técnica, análogos em muitos pontos aos do capital. Neste apartado simplesmente destacamos esses pontos 297 .

A chave das analogias que propomos entre ambas estruturas é a compreensão por Marx do

capital enquanto sujeito automático que se autovaloriza 298 . Essa abordagem é resultado do desenvolvimento da categoria valor que Marx faz nos primeiros quatro capítulos d'O Capital e é ponto de partida para a análise posterior das transformações que o capital produz comandando o processo de valorização. A metamorfose do dinheiro em capital, assunto do capítulo 4, marca a constituição de uma ordem social que nada tem a ver com as precedentes, que tem leis próprias e específicas. Assim como o fenômeno técnico muda completamente ao entrarmos na civilização técnica, mesmo tendo existido antes a técnica, o lugar do dinheiro, da troca, do mercado se

transformam ao tornar-se o capital a estrutura dominante. A partir daí, não será mais possível se isolar dessa ordem social, assim como não o é da civilização técnica.

O capital se torna uma forma abstrata que tem a necessidade desmedida, sem limitação externa,

de acumular-se incessantemente. Não tem mais finalidade que sua causalidade interna de continuar sua reprodução ampliada. Tem um caráter expansivo. Nessa sua virtude expansiva, tende a tornar os obstáculos em alavancas. É uma forma que se im-põe. O processo histórico dos últimos séculos é a incarnação da abstração que é o capital enquanto forma social, o valor. Assim como a técnica, o capital na sua expansão, geográfica e qualitativa, não admite concorrentes nem resíduos, coloniza tudo, não pode se contentar com um meio semi-capitalista. Mas não gera homogeneidade, senão uma unidade de diversos, as formações sociais. Podem ter aparência de oposição, excentricidade,

exterioridade, até de liberdade. No entanto, são expressão da unicidade capitalista. Passamos a etapa da eliminação de tudo aquilo que não era capital.

O capital engloba a civilização como faz a técnica. Se a arte é agora expressão da técnica, a

cooperação, por exemplo, é expressão do capital, é apropriada e monopolizada por essa forma. Essa invasão do capital desagrega as comunidades anteriores e re-agrega os indivíduos, mediando-os, constituindo-se em laço entre os homens. É uma ponte entre a realidade e o homem abstrato. O capital é uma fraternidade informulada, para usar a expressão de Ellul. É um outro nome possível para o fetichismo. A reprodução social capitalista implica uma fraternidade tácita, oculta, entre os homens. Assim como a re-ligião social da técnica analisada por Ellul, o fetiche da mercadoria é a

297Aqui expõe-se como resultado sintético uma análise textual prévia feita sobre a obra do Marx, que não caberia desenvolver em toda sua extensão neste trabalho. Para verificar a validade das afirmações aqui contidas, remetemos à própria obra O Capital (Cfr. Marx, 2006). 298Cfr. Marx, 2006: 188.

análise de um mundo no qual a magia e a religião subsistem transfigurados. Assim como a civilização técnica, a ordem do capital constitui uma estrutura orgânica e irracional; sua invasão implica a imposição de uma complexidade, de um sistema de dependência multilateral e próprio de coisas 299 , que foge do controle dos homens. Como o produtor em relação à necessidade técnica, o capitalista é inconsciente de si próprio, é uma personificação do capital. A distinção objetiva entre capitais particulares e capital geral faz do capital uma força impessoal. Cada capitalista é inocente, da mercantilização global da vida, pois pega parcelas dos homens, enquanto trabalhadores em um determinado ramo, enquanto consumidores de um determinado produto. Assim como faz Ellul com a técnica, Marx supera as conceituações do capital comuns na sua época, permitindo a compreensão de fenômenos, até então avaliados como externos a essa ordem, como sendo a sua mais pura expressão. Desta maneira, consegue mostrar que o capital busca soluções capitalistas para resolver seus problemas; assim como os problemas técnicos exigem soluções técnicas, os problemas do capital só podem ser resolvidos capitalisticamente. Portanto, devemos aprender a diferenciar os problemas do capital dos problemas humanos. Ellul vê o fenômeno técnico desenvolver-se segundo a sua lei, que o homem ignorava no seu começo glorioso. O capital, no seu desenvolvimento, acaba com as promessas de liberdade e harmonia do seu início concorrencial; promessas, por outro lado, nunca cumpridas. O capital cria uma segunda natureza, social, tão opaca e impenetrável quanto a primeira. Acreditou-se poder instrumentalizar a ordem do capital como ferramenta para sua própria superação. Teve-se, e ainda hoje, a ilusão de humanizar o capital. Mas a ordem do capital tem uma finalidade virtual, não subordinável, e não há esperança de vê-la transformar-se em um ser sutil e gracioso 300

Capital ou Técnica?

Em muitas ocasiões Ellul chama a atenção da presença muito menos de um fenômeno capitalista que de um fenômeno técnico 301 . Ou afirma que é inútil deblaterar contra o capitalismo:

não é ele que cria esse mundo, é a maquina 302 Podemos pensar a partir dessas afirmações a razão da existência das analogias entre Capital e Técnica. Elas não são casuais. Ellul parece decidido a analisar em termos da técnica o que foi analisado por Marx em termos do capital. Parece pensar que a técnica ocupa agora o lugar do

299Marx, 2006: 131. 300Ellul, 1968: 97. 301Ellul, 1968: 108. 302Idem: 3.

capital. Ellul propõe a substituição da análise do capital pela análise da técnica, a minimização da compreensão dos fenômenos em andamento em termos capitalistas. A contextualização histórica do momento em que Ellul escreve pode ajudar a explicar essa insistência. Estamos em 1954, guerra fria e polarização do mundo sob influência dos Estados Unidos e da União Soviética. Ellul distingue três regimes com funções específicas da técnica em cada um deles. A técnica deve render, seja em dinheiro, seja em prestígio, seja em força, conforme nos encontremos em regime capitalista, comunista ou fascista 303 . Ellul aceita a identificação do processo soviético com o comunismo. A presença comum da técnica nos diferentes regimes faz Ellul pensar que o fenômeno técnico é supra-regime, estendendo-se portanto além das fronteiras do capitalismo.

Devemos problematizar essa substituição que Ellul propõe de uma estrutura pela outra. Indo além da análise das estruturas da Técnica e do Capital, e de suas analogias, é preciso analisar as relações que elas estabelecem entre si, cada uma com sua especificidade.

Em primeiro lugar, devemos pensar na relação de dois processos históricos: a universalização da técnica e a universalização do capital. Em um primeiro momento, segundo Ellul, a técnica era local, não universalizável por ser subjetiva em relação à civilizações específicas. Só a unificação das civilizações enquanto civilizações técnicas, possibilitaria a universalização da técnica. Posteriormente, a técnica tornada objetiva é o que conduz à unidade da civilização 304 . Então, é possível para a técnica se universalizar. Mas a técnica tornada objetiva já é a unidade da civilização. Há um salto na explicação. Não se explica como é que a técnica se tornou objetiva. Não era a técnica por si só se universalizando, mas a forma social do capital. O capital é o que torna essa técnica objetiva e conduz à unidade da civilização. E torna a técnica objetiva ao constitui- la em fator essencial de medida do tempo do valor trabalho, portanto ao situá-la no centro do funcionamento da lei do valor. A civilização que permite a universalização da técnica é a ordem do capital. Ainda que Ellul não desenvolva claramente essa relação encontramos uma sutil indicação quando afirma que não podia haver transmissão técnica porque a técnica não era mercadoria

303Idem:

304Idem: 82.

anônima 305 .

Já no marco de funcionamento da civilização técnica, vimos que para Ellul era por intermédio da técnica que tudo se tornou função e objeto da economia 306 . Tecnificação e universalização da economia são processos complementários. Podemos pensar então que a técnica não substitui o capital, como tende a propor Ellul, mas faz a mediação dessa forma social abstrata com o processo social material? o capital concretiza-se através da técnica? Vimos que Ellul faz alusão ao complexo 'arte-técnica' que funcionava no século XV, no qual uma visão plástica do mundo lhe impunha limites e exigências à técnica 307 . Partindo dessa referência, revela-se fecundo pensar atualmente no funcionamento de um complexo capital-técnica. Nele, ambas partes tentam se impor mutuamente limites e exigências.

Ellul atribui a modernização compulsória, que se antecipa à obsolescência das técnicas existentes, a um fenômeno técnico, em conflito com a rentabilidade econômica 308 . Pensando no complexo capital-técnica, podemos afirmar que é um fenômeno econômico-técnico: é na concorrência inter-capitalista pela produção de valor que se dá esse processo de modernização compulsória.

É possível encontrar algumas indicações de Ellul no sentido do funcionamento desse complexo. Por exemplo, na falta de recursos como possível limite para o auto-crescimento da técnica 309 . Ou na idéia de uma economia fundada na técnica 310 . Ou na percepção de que se as técnicas do homem acarretassem um conflito com as outras, seriam fatalmente vencidas, pois não teriam mais substância; isto é, arruinariam aquilo que permite a sua aplicação, ou seja, os homens, o dinheiro, o tempo 311 .

Restaria ainda pensar, e não é o desafio menor, nem o menos importante, o que acontece com esse complexo quando uma das partes, o capital, atinge uma crise estrutural. Ellul vê de alguma maneira isso ao perceber que o capitalista vê os bens de que é proprietário desvalorizarem-se à medida que o progresso técnico se desenvolve. A partir de então, segundo ele,

305Idem: 71. 306Idem: 161. 307Idem: 72. 308Cfr. Idem: 206. 309Cfr. Idem: 90. 310Idem: 211. 311Idem: 404.

o centro do problema econômico se desloca e o debate real consiste em saber quem será, de um lado, capaz de suportar o progresso técnico (com a capacidade de absorvê-lo aos poucos, de integrá-lo) e, de outro, capaz de oferecer-lhe condições ótimas de desenvolvimento 312 .

Na análise de Marx, por sua vez, as crises de sobreprodução geram um impulso ainda maior para a inovação tecnológica. O desenvolvimento tecnológico, inerente à lógica do capital, é ao mesmo tempo uma contradição imanente desse modo de produção que o faz entrar em crise.

Ellul não consegue estabelecer satisfatoriamente a relação entre Capital e Técnica. Mas, ao mesmo tempo, percebe melhor que muitos a abrangência e as implicações do fenômeno técnico nas sociedades contemporâneas. Isso lhe permite uma critica radical à ilusão do progresso técnico como impulso emancipatório. A tecnificação do mundo na civilização técnica é oposta à emancipação. Ainda, o conceito amplo de técnica que mobiliza, e que se desdobra na análise das Técnicas do Homem, revela-se extremamente fecundo para enxergar as técnicas de controle, que prometem aprofundar-se com a crise do capital.

Devemos continuar estabelecendo a relação entre Capital e Técnica. E analisar o que acontece com o complexo capital-técnica no processo in-superado de crise estrutural do capital.

312Idem: 204.

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