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f BoA mre amma! franco moretti atlas do romance europeu 1800-1900 franco moretti atlas do romance europeu 1800-1900 traducao sandra guardini vasconcelos Borvremre EpiTORIAL Titulo original: Atlante del romanzo europeo 1800-1900 © Giulio Finaudi, Turim, 1997 Direitos adquiridos para o Brasil pekt Boitempo Editorial Copyright © by Franco Moretti Copyright da traducio © Boitempo Editorial, 2003, Tradugao Sandra Guirdini Vasconcelos Revisdo Kiltia. Rossini Leticia Braun Capa Antonio Kehl pau D, Friedrich. Le volgen an-clessus de la mor de nuages, ISIS, sobre reparducio Europe (British Library ~ Map 197.35) Editoragao eletrinica Antonio Kehl Renata Alcides Editora Ivana Jinkings Editora asistente Sands Brazil Produgao grifica Daniel Tupinamixt Fotolites, OESP Impressao e acabamento Prol ISBN 85-7559-038-3, Todlos os direitos reservados. Nenhumat purte deste live pode ser utilizad ou feproduzicit sem a expressa autorizacho da editora PF edigao: agosto de 2003, Viagem: 3.000 exemplares BOITEMPO EDITORIAL Jinkings Editores Assockidos Ltda Rua Euclides de Andrade, 27 Pesdizes (05030-030 Sao Paulo SP Tel./Fax: (11) 3875-7250 / 3872-6869 e-mail: editora@boitempo.com site: www boitempo.con, Sumario Indice de figuras 7 Nota a edicao 10 Introdugao Para uma geografia da literatura 1. "General, 0 senhor utiliza mapas...” ae 13 2."Mas nao possuimos atlas artisticos” . = 16 Capitulo t O romance, o Estado-nacao 1. Terra natal ...... : : 23 2. A Inglaterra e seu duplo 28 3. “As recentes perdas nas propriedades das Indias Ocidentais” 34 4, Geografia de idéias ae 39 5. Longe do centro.. 43 6. Interltidio teérico: |. Sobre espaco e estilo va 52 7. Tomando a estrada principal .......... 58 8. "Um grande e portentoso rio, semelhante a uma imensa serpente desenrodilhada” : - : 68 9. Vilarejo, provincias, metrdpole ......... 75 10. Interludio tedrico: Il, Geografia do enredo : 81 Capitulo 2 Um conto de duas cidades 1. 0 problema 87 2. "Moramos em pontos tao afastados da cidade...” 89 3. "Um mosaico de pequenos mundos” = 96 4. Medo em Paris, 110 5. Interludio tedrico: Ill. Historias do Terceiro ... 113 6. Campos de poder = 120 6 Atlas do romance europey 7. A terceira Londres 124 Indice de figuras 8. Reunidas de modo muito curioso 133 9. Cidade de pistas 143 Capitulo 3 Mercados narrativos, c. 1850 1 1. "Experimentos sobre diagramas 154 2. Interluidio teérico: IV. Literatura normal 158 3. A Inglaterra se torna uma ilha 161 4, Um mercado unido e desigual : 168 5, Interlidio tedrico: V. Centro e periferia 174 I 1. A Gra-Bretanha de Jane Austen 22 a 2. Os “poemas de propriedade”, 1650-1850 24 6. As trés Europas . 182 Baseada em Robert Arnold Aubin, Topographical Poetry in Eighteenth-century England) 7. Uma investigacao bibliografica 186 Nova York. Modern Language Assocation of Amenica, 1936 Bom tetera oral vereal a ac oees 195 9 erase at Mong arg) Cote sf Torr Cs Hora Stes Fon Great 6 9. Interluidio tedrico: VI. Mercados e formas 202 Britain, Europe and the United States, 1765-1840, vol. |, Nova York, Taplingler, 1972 10. "Sustentada por seu atraso histérico” 206 F.Mairing (org, The Shiling Shockers’ Stores of Tevor from the Gothic Bluebooks, ; Londres, Galancz, 1978; C:Baldck (org), The Oxford Book of Gothic Tales, Oxford edie emesis Unversity Press, 1992: L Care org), Raccont got, NilBo, Mondacoi, 1994. ssivo 209 4, A Gra-Bretanha de Jane Austen 29 Edices em lingua portuguesa utilizadas na traducao deste Atl 2 ceeded aecane an at c gua portug c te Atlas oe 6-8, A Gra-Bretanha e 0 mundo 32 9. Riqueza colonial nos romances sentimentais britanicos 38 10. Vildes: 39 11. Romances russos de idéias a2 12. Romances historicos 44 13. A formacao das fronteiras européias aT Fonte: Peter Haagett, Geography: A Modem Synthesis, Nova York, Harper & ROW. 1983, p.477 14. Walter Scott, Waverley 49 15. A incorporacao das Terras Baixas escocesas em Waverley e Rob Roy 51 Fonte: David Liascomb, “Geographies of Progress”, Universidade de Columbia, 1998, dlissertacao inédita 16. O espaco de Os noivos 53 17. Romances picarescos espanhéis durante os séculos XVI e XVII 59 18. Gil Blas 61 19. O Mediterraneo de Lesage 62 20. O cenério geografico dos romances helenisticos 63 Fonte: Thomas Higa, The Noval in Antiquity, Berkeley-Los Angeles, Unversity of California Press, 1983 21. O cenério geografico dos romances franceses, 1750-1800 64 Baseada em dados em A, A, Martin, Boographie du genre romanesque francais, 1751-1800, Londres, Mansell, 1977 22. The Lady's Magazine 1798-1802, romances serializados 66 23. The Lady's Magazine 1798-1802, narrativas curtas 67 24, The Lady's Magazine 1798-1802, casos 67 25. The Lady's Magazine 1798-1802, “noticias estrangeiras” 68 26. Romances coloniais 69 Bee cn 27. Uma sequiéncia tipico-ideal do desenvolvimento do sistema de transportes 28. 29. 30. 31 32. 33, 34, 35, 36. 37. 38. 39. 40. a1 42. 43. 44. 45. 46a. Abb. 6c. 46d. 47. 48, 49. 50. 51 52. 53. 54. 55. 56. 57. 58 ah. 59. 61 62. Atlas do romance europeu Fonte: Paul Knox @ ioh Arnold, 1994, p, 280. As rotas transaarianas Fonte: The Times Atlas of World History, Maplewood, Hamma Jogando com a Africa Fonte: Karen E, French e Willa R. Stanley, "A Game of European Colonization in A‘rica Journal of Geography, outubro de 1974, p. 46-7 Qs trés espacos do Bi/dungsroman europeu © Bildungsroman europeu 0 cenario internacional do Bi/dungsroman europeu Husoes perdidas Vladimir Propp, Morfologia do conto: topogratia de funcées narrativas Classes sociais em Londres de acordo com Charles Booth (1889) Charles Booth, Life and Labour of the People of Londion (1889-91), cortesia da Biblioteca Publica de Nova York, Divisdo de Mapas, Fundagdes Astor, Lenox e Tilden [entre p. 76 ¢ 77] A Londres dos romances silver-fork, 1812-1840 Baseada em So Young Park, Universidade de Columbia, pesquisa inécita. Pesquisa para o mapa realizada po: So Young Park e Catherine Siemann Edward Bulwer-Lytton, Pelham A Londres de Jane Austen Oliver Twist Demografia da Paris de Balzac de acordo com Norah Stevenson Fonte: Norah Wi. Stevenson, Paris dans fa Comedie humaine de Balzac, Pars, Libraitie Georges Courville, 1938 llus6es perdidas — localizagao dos grupos sociais A Paris de Zola Lucien de Rubempré: 0 dia do sucesso (capitulos 21-25) ‘A semana fatal Parvenir! O caminho das provincias para Paris nos romances oltocentistas Chegada a Paris “Aquele mundo espléndido que ele quisera conquistar” Devaneios 0 firm Os mistérios de Paris Os cul-de-sacs de Paris, de acordo com Robert de Vaugondy (1771) Uma seccio do Plan de /a Ville et des Faubourgs de Paris de 1771, de Robert de Vaugondy Cortesia da Biblioteca Publica de Nov Lenox e Tilden © campo do poder em ilusées perdidas ‘0 campo do poder em Educacao sentimental Baseada em Pierre Bourdieu, As regras da arte: génese $0 Paulo, Companhia das Letras, 1998 A.ultima batalha de Vautrin Our Mutual Friend A terceira Londres Movimentos de quatro herdis de Dickens ‘A Grande Londres de Dickens Uma geografia dos finais de Dickens Our Mutual Friend, maio-dezembro de 1864 Our Mutual Friend Little Dorrit A casa soturna Our Mutual Friend, encontros que atravessaram as divisdes de classe ‘Agnew, The Geography of the World Economy, Londres, Edward 1978, p. 136. York, Divisdo de Mapas, Fundacées Astor, trutura do campo litera, n 72 74 7 76 78 80 82 86 90 2 92 95 97 98 100 102 103 104 106 107 108 109 rr 4 115 121 122 123 125 127 128 131 132 134 141 142 143, 144 63. 64. 65. 66. 67. 68. 69. 70. n 72. 73, 74, 75. 76. 77. 78. 79. 80. 81. 82. 83. 84 ac. 85 ab. 86 2-0. 86 p-v. 87. 88. 39. 90. 1 indice de figuras A Londres de Sherlock Holmes As classes perigosas de Booth Assassinato no campo Geogratia da “literatura de invasio” (1871-1906) Baseada em Ivichael Matin, “Securing Britain”, Universidade de Columbia, dissertacao inédita "Rache” Bibliotecas circulantes, 1838-1861 Presenga do canone em bibliotecas circulantes britanicas ' Presenca de romances estrangeiros em bibliotecas circulantes britanicas Porcentagem de romances estrangeiros em literaturas ‘européias (1750-1850) Porcentagem de romances estrangeiros em literaturas européias (1816, 1850) Romances estrangeiros na literatura francesa e britanica Baseada em dados em 1. Raven, British Fiction 1750-1770: A Chronological Check list of Prose Fiction Printed in Britain and treland, Newark, University of Delaware Press, 1987, A. A. Martin, Biblographie du genre romanesque franca, 1751-1800, Londres, Mansell 1977, ESIC (Eighteenth-Ceniury Short Tile Catalogue); Publisher's Week'y, Bibliographie de ia France, Romances estrangeiros em bibliotecas circulantes britanicas (1766-1861) ‘Amostras de gabinetes de leitura franceses, 1810-1860 Romances estrangeiros em gabinetes de leitura franceses Presenca das "Bentley's Standard Novels” em bibliotecas circulantes Porcentagem de romances em bibliotecas circulantes do final do século XVIII Porcentagem de romances em bibliotecas circulantes do final do século XVIII Locais de publicacao de romances britnicos, 1750-1770 aseada em dados em J. Raven, British Fiction 1750-1770: A Chronological Checkclst (of Prose Fiction Printed in Britain and ireland, Newark, University of Delaware Press, 1987 Locais de publicacao de trés formas literarias na Italia da metade do século XIX Baseada em Clo, Catalogo dei Libri itaiani del Ottocento (1807-1900), vols. 1-19. Milo, Aibliogratica, 1997 Locais de publicacao de romances de cavalaria da biblioteca de Dom Quixote Locais de publicacao de romances estrangeiros na Espanha, na primeira metade do século XIX aseade em J. Fernandez Montesinos, Introduccion a una historia de fe novela en Espana ‘en sel siglo XIX. sequida del Esbozo de una biblografia espafiola de traducciones de novelas (1800-1850), 48 ed., Madr, Castalia, 1980 Dom Quixote, traducdes européias aseado em T. A. Stzgeraid, "Cervantes’ Popularity Abroad”, in Modern Language Journal, 1948, 1 32, p. 171-8 Buddenbrooks, traducées européias Difusao européia de romances britanicos Difuséo européia de romances franceses | Difusdo de romances franceses e britanicos na Europa oitocentista Porcentagens de difusdo de romances franceses e britanicos Sucesso desigual de romances franceses e britanicos na Europa oitocentista © crescente barroco Fonte: 9. Fesnandez, Le Banquet des ‘© mundo de Cinderela Fonte: Carlo Guinsburg, Historie noturna: decitrando 0 Saba, Sao Paulo, Companhia as Letras, 1991 nges, Pats, Plon, 1984 145, 146 148 149 150 155 157 158 162 162 163 164 165 166 169 170 172 176 W7 178 178 183 185 188 189 193 194 196 198 199 Introdugéo Para uma geografia da literatura NOTA DA EDICAO: a traducao deste Atlas do romance europeu foi feita a partir da edicao inglesa de 1998 (Atlas of European Novel 1880-1900), publicada pela Editora Verso ¢ escrita originalmente em inglés por Franco Moretti Nas citac6es bibliograficas, sempre que possivel acrescentamos referencias de edicdes brasileiras ou em portugues. As raras excecdes, restritas a introducao do livro, devem- se aos casos em que a indicacao foi omitida pelo autor nas publicacées originais em inglés e italiano, critério que respeitamos na edicdo brasileira. Quanto aos trechos de obras classicas utilizados pelo autor ao longo do livro, 0 leitor encontrard as referéncias, bibliograficas completas das citacdes na pagina final desta edicao. Veja, meu filho, © tempo aqui se transforma em espaco. Rican Wacwer, Parsifal 1. “General, o senhor utiliza mapas Um atlas do romance. Por tras dessas palavras, ha uma idéia muito simples: a de que a geografia nao é um recipiente inerte, nio é uma caixa onde a hist6ria cultural “ocorre”, mas uma forga ativa que impregna 0 campo literério € 0 conforma em profundidade, Tornar explicita a ligacdo entre geografia € literatura, portanto — maped-la: porque um mapa € exatamente isso, uma ligacao que se torna visivel -, nos permitira ver algumas relacoes significativas que até agora nos escaparam. Essa geografia literaria, entretanto, pode se referir a duas coisas muito diferentes. Pode indicar 0 estudo do espago na literatura; ou ainda, da literatura no espago. No primeiro caso, a dominante é ficcional: a versdo de Balzac de Paris, a Africa dos romances colo- niais, o redesenho da Gra-Bretanha de Austen, No segundo caso, € um espaco hist6rico real: as bibliotecas provinciais da Gra-Bretanha vitoriana, ou a difusto européia de Dom Quixote e de Buddenbrooks. Os dois espacos podem ocasionalmente (e de modo interessante) se sobrepor, mas so em esséncia diferentes, ¢ os tratarei como tal: 0 espaco ficcional nos primeiros dois capitulos do livro e 0 espaco histérico, no terceiro. Ainda assim, a disting2o entre os dois espacos nao afeta o método de pesquisa, que é o mesmo em toda parte € se baseia no uso siste- matico de mapas. De mapas nao como metaforas, quero dizer, € menos ainda como ornamentos do discurso, mas como ferramentas analiticas: que dissecam 0 texto de uma maneira incomum, trazendo a luz relacoes que de outro modo ficariam ocultas. Um bom mapa 14 Atlas do romance europeu vale mil palavras, dizem os cartografos, ¢ eles estio certos: porque as, Coloca novas ques ele produz mil palavras: levanta dtividas, id tes € nos forca a buscar novas respostas Os mapas, portanto, sao ferramentas intelectuais. Mas em que sntido? Isso é o que diz Charles Sanders Peirce, em 1906: Avante, meu Leitor, vamos construir um diagrama para ilustrar 0 curso geral do pensamento: quero dizer um Sistema de diagramatizacto por meio do qual qualquer curso de pensamento poss ser representado com exatidao, “Mas por que fazer isso quando © préprio pensamento esti presente para nds?” Essa, substancialmente, tem sido a objecio interrogativa levantada por mais de uma ou duas inteligéncias superio- res, entre as quais destaco um eminente © glorioso General. Recluso que sou, nao tinha de pronto t contraquestao, que deveria ser mais ou © senhor utiliza mapas durante uma cam- é-lo, qundo 0 pais que cles re- menos a seguinte: “General, panha, creio. Mas por que deveria presentam esta bem ali? E, depois de uma troca brilhante em que o eminente general € completamente direcionado, aqui estao as conclusdes de Peirce Bem, General [..J, se me for permitido expor 0 assunto depois do se hor, € possivel fazer experimentos exatos sobre diagramas uniformes: ¢, quando o fazemos, devemos estar atentos 28 muckangas nao intencio- nais € inesperadas que se operam nas relagoes de diferentes partes ific: sigi ivas do diagrama umas com as outras. Essas operacdes com diagramas, quer externos, quer imagindrios, substituem os experimen- tos sobre coisas reais que se realizam na pesquisa quimica ¢ fisica. Os quimicos, nao preciso dizer, jé descreveram a experimentacdo como © questionamento da Natureza. Da mesma forma, os experimentos sobre diagramas sao questoes colocadas 4 Nutureza das relagdes envolvidas.! para a forma do romance ¢ suas relacées inter- a impressio que davam, Questdes colocads nas: isso 6 © que meus mapas tentam fazer, E com freqiiéncia, é de que eram realmente como tantos experimentos: algumas mais faceis, algumas mais dificeis, ¢ todas elas cheias de varid- veis que eu ficava mudando © tempo todo (que personagens deveria do contexto?) até fa, uma im: mapear? que Momentos narrativos? que elementos sentir que havia encontrado uma boa resposta. Uma respos gem — um padrdo que me fizesse ver um livro, ou um género, de um Prolegomena to an Apology for Pragmaticism”, The Monist, n° 16, janeiro de 1906, p. 492-3 Para uma geografia da literatura 15 modo novo € interessante € cuja clareza, logo percebi, era diretamente proporcional & simplicidade e abundancia dos dados nos quais se ba seava. O “experimento” deu certo, em outras pakavras, gracas 2 abstracao A quantificacao: séries amplas, consistentes, em que a importincia final de uma forma era sempre maior do que a soma das partes separadas. E uma das fronteiras do trabalho critico: o desafio da quantidade — dos 99 por cento de toda a literatura publicada que desaparece do campo da visio € que ninguém quer ressuscitar. Esse alargamento do campo liter’ rio, produzido pela légica interna da pesquisa geogrifica, pegou-me completamente de surpresa: 0 novo Método exigia novos dados — mas aqueles dados ainda nao existiam € nao sabia direito como encontra-los, e este livro da apenas alguns passos na nova direc4o. Mas é um clesafio maravilhoso, para todos os historiadores culturais, Nesse interim, © que os mapas literirios nos permitem ver? Duas basicamente. Em primeiro lugar, realgam 0 orlgebunden’, a natu- reza espacial das formas literdrias: cada uma delas com sua geometria peculiar, suas fronteiras, seus tabus espaciais € rotas favoritas. Em segui- da, os mapas wazem 2 luz a légica interna da narrativa: 0 dominio semiético em torno do qual um enredo se aglutina e se organiza. A forma literdria aparece, dessa maneira, como o resultado de duas forcas conflitantes € igualmente significativas: uma que funciona de fora, e a outra, de dentro. Trata-se do problema usual e, no fundo, do tinico problema real da hist6ria literdria: a sociedade, a ret6rica e sua interacao, E aqui me detenho, porque as promessas tedricas — qua promes sas, nao qua teéricas — me aborrecem profundamente. Neste livro, isto fica claro, o método é tudo*. Mas, exatamente por isso, tem de ser coisas, 7 expressio @ de Reiner Hausherr, “Kuatsgeographie ~ Aufgaben, Grenzen, Mdglichkeiten” Rheinische Viertajabrsblatter, XXXN, 1970, p. SB. [N.1: ortgebunden: iteralmente, preso, igado ou vinculado 20 lugar) Ao longo do tempo, multas pessoas me indagaram oor que eu queria fazer mapas, em vez de analisar 0s que jd exster. Eu nao compreendia que um mapa é um texto como qualquer outro — ¢ devera ser tatado como um texto? F eu néo via que aqui estava seu maior apelo, para os crticos literérios? Eu compreendia, eu via ~ também li diversos estudos que escolheram 05 mapas como um de seus objetos: John Gillis a respeito de Shakespeare (Shakespeare and the Geography of Difference, Cambridge University Press, 1994}, J. Hillis Miller a respeito de Hardy (Topographies, Stanford Univesity Press, 1995), Anne McC intock a respeito de As minas do rei Salomao imperial Leather, Londres, Routledge, 19953, Lawrence Lioking sodte Milton (The Genius of the Shore Lycidas, Ademastor, and the Poetics of Nationalism, PMLA, 1996}. Mas 0 que passo dizer ¢ que os ‘mapas nao me interessam porque eles podem ser “lidos” ma’ ou menos como um romance ~ m porque eles mudam o modo come lernos os romances. O verdadeito desi para mim, esta ai 16 Atlas do romance europeu testado seriamente, na pesquisa como um todo: em sua capacidade (ou nao) de mudar a articulagao do campo literario € a natureza dos problemas interpretativos. E 0 juiz, como sempre, € 0 leitor 2."Mas nao possuimos atlas artisticos” A idéia para este livro me surgi por acaso, @ partir de uma sen- tenca de O Mediterréneo de Braudel’, de que fiquei me lembrando durante uma longa viagem de carro no verao de 1991: nao possuimos atlas artisticos, nado possuimos atlas fiferdrios... Entio, por que nao tentar fazer um? Nos anos seguintes, decliquei a essa idéia quase todo o meu tem- po. Estudei geografia como nao o fizera desde meus anos de escola; dirigi seminarios experimentais em Columbia; convenci vinte histo- riadores literarios a formar uma comissao editorial, que se encontrou durante dois dias intensos de discussao, em dezembro de 1992, gra- cas & hospitalidade de Maristella Lorch e da Italian Academy for Ad- vanced Studies nos Estados Unidos; finalmente, escrevi um longo e detalhado projeto de pesquisa. Mas nao tenho talento para essas coi- sas € © National Endowment for the Humanities nado se convenceu, a comissao editorial se dissolveu, e 0 atlas desapareceu de vista. Mas eu ainda gostava da idéia € continuei sozinho. Limitei o campo 3 tinica area sobre a qual sei algo, que é o romance europeu do século XIX (com um pulo rapido iris até a picaresca espanhola), ¢ 0 resultado € este livro. Metade manifesto metodoldgico, metade exemplo pragmitico; interessante, esperemos; € realmente prazeroso de escre- ver, Mas minha esperanca € que ele possa recomecar 0 empreendi- mento mais amplo de um atlas hist6rico da literatura. Nesse meio tempo, também descobri humildemente que esta- va longe de ser 0 primeiro a ter essa grande idéia. A possibilidade TE todavia, © nimbo projectado ao fonge pelo Barroco foi talvez mais denso € mais espesso, mais continuo do que 0 proprio Renascimento. [..] Mas, como estabelecer a seguir sua expansao, a sue tummultuosa vida externa, sem possuir os indispensaveis mapas que faltam? Possuimos catalogos de museus, mas nao atlas artisticos.” (Fermand Braudel, The Mediterranean and the Mediterranean World in the Age of Philip 1! (1949). California University Press, 1995, p. 835.) [Edic3o em portu- gués: O Mediterraneo e o mundo mediterranico na época de Filipe Hl. Lisboa, Dom Quixate, 1984, 2° volume, p. 197 Para uma geografia da literatura 7 de *um atlas literario-hist6rico da Itdlia", por exemplo, ja havia sido esbocada por Carlo Dionisotti — 0 autor de Geografia e storia della letteratura italiana — em um artigo de 1970%. De fato, um pouco de pesquisa revelou alguns desses atlas: o primeiro, Literary and Historical Atlas of Europe, de J. G. Bartholomew, fora publica- do jé em 1910 (e reimpresso diversas até 1936); em 1964, fora a vez de um Guide littéraire de la France; em 1973, © Literary Atlas and Gazetteers of the British Isles, de Michael Hardwick; em 1979, 0 Literary Landscapes of the British Isles; A Narrative Atlas, de David Daiches; depois o Atlas zur deutschen Literatur, em 1983, editado por Horst Dieter Schlosser; 0 Grand Allas des Littératures, em 1990, editado por Gilles Quinsat ¢ Bernard Cerquiglini; e final- mente, em 1996, o Ailas of Literature, editado por Malcolm Brad- bury”. Todos muito diferentes, € todos escritos (um fato em que custo a acreditar) como se ignorassem totalmente a existéncia dos outros; mas todos com uma coisa em comum: os mapas desempe- nham neles um papel completamente periférico. Decorativo. Ha muitos deles, é certo, em especial nos livros mais recentes: mas sao apéndices coloridos, que nao intervém no processo interpre- tativo; 4s vezes, até mesmo surgem no final do texto — quando o discurso acabou Como os leitores vezes 4 devem ter adivinhado, isso, na minha visao, ¢ um erro. Situar um fendmeno literario em seu espaco especifico — maped-lo = nao é a conclusao do trabalho geogrifico; é seu inicio. Depois disso comeca, de fato, a parte mais desafiadora de todo o empreendimento: olhamos 0 mapa e pensamos, Olha-se uma conti- guracio especifica ~ aquelas estradas que se dirigem a Toledo e Sevi- Iha; aquelas montanhas, tio distantes de Londres; aqueles homens e mulheres que vivem em margens opostas do Sena — olhamos esses padroes € tentamos compreender como € que tudo isso da origem a ‘Culture regional € letteratura nazionale in Italia”, Lettere ftaliane, abrikjunho de 1970, p. 134 A Literary and Historical Atlas of Europe, Londres, Dent, 1910; Guide lirtéraire de la France, Paris, Hachette, 1964; Literary Atlas and Gazetteers of the British Isles, Detroit, Gale Research, 1973; Literary Landscapes of the British sles: A Narrative Atias, Nova York, Paddington Press, 1979; Atlas zur deutschen Literatur, Munique, Deutscher Taschenbuch, 1983, Grand Atlas des Littératures, Paris, Encyclopaedia Universalis, 1990; The Atlas of Literature, Londres, De Agostini, 1996. Um Atlas of Western Art History também foi publicado recentemente (ohn Steer e Anthony White (orgs) Nova York, Facts on File, 1994), 18 Atlas do romance europeu uma historia, a um enredo, isto é, como € que a geografia configura ad estrutura narrativa do romance europeu. Pensem nos mapas deste Ai/as como pontos de partida, portanto: para minhas reflexdes, assim como para as suas (um bom mapa de- veria permitir mais do que uma linha de pensamento); ¢ também s (muitas) legendas que esbocam ainda um outro arranjo de lo a um texto, a uma idéia critica, 40 de todos esses discursos verbais- para caminhos interpretativos: em dire auma tese histérica. A coordena visuais que se cruzam nem sempre foi facil; 0 ritmo pode ser duro, desigual. Mas gosto de pensar que, mesmo assim (¢ até mesmo, ai de mim, com todos os erros que certamente se encontrario), este livro pode vir a ser siti: um adjetivo que jamais sonhei em aplicar a mim mesmo — e do qual agora me tornei extremamente orgulhoso Se 0 livro for realmente ttil, o crédito deveria ir em primeiro lugar para Serge Bonin. Depois de dirigir uma obra que é uma maravilha de complexidade € rigor - 0 Atlas de la Révolution Francaise -, Bonin foi generoso © suficiente para oferecer sua ajuda a um total amador como eu; discutiu em detalhe cada mapa do livro; sugeriu melhorias, alterna- tivas, solugées que nunca teriam me ocorrido (e que segui tantas vezes quanto possivel), Bonin me ensinou a pensar com os instrumentos da cartografia; maravilhoso, como aprender uma outra lingua. E me con- venceu a fugir dos prazeres baratos da cor em prol da clareza jansenista do preto-e-branco. Dizer que sou grato é insuficiente. Também sou grato a David Kastan e Martin Meisel que, em 199. na Columbia, providenciaram fundos sem os quais talvez © projeto nunca teria sequer comecado; € certamente nao teria ido muito lon- ge sem a ajuda generosa e inteligente dos bibliotecarios da Columbia, da New York University e da Societa Geografica Italiana. Nos tltimos anos, também apresentei pequenas partes deste trabalho em diversas universidades americanas € européias; meu obrigado a todos aqueles que discutiram comigo nessas ocasioes © durante minhas aulas na Columbia; ¢ também a Irene Babboni, John Brenkman, Keith Clarke, Joe Cleary, Margaret Cohen, Robert Darnton, Ernesto Franco, David Lipscomb, Sharon Marcus, Michael Matin, D. A. Miller, Christopher Prendergast e James Raven. E ainda aqueles com quem troquei idéias durante toda a duracio do projeto: Perry Anderson, com sua paixao por grandes afrescos e a seriedade intensa que Ihe € tio peculiar; Carlo Ginzburg, que fez toca de meu projeto durante anos, como aqueles Para uma geografia da literatura 19 weinadores de filme que tém de acordar um boxeador preguicoso Francis Mulhern, que me explicou em detalhes © que funcionava ¢ 0 que nao funcionava e por qué; Beniamino Placido, que me apresentou a livros que jamais teria conhecido; e Tery Reynolds, que abre meus olhos todos os dias para as muitas possibilidades bizarre coisa que 0 wabalho e a vida tém a oferecer. Em retrospecto, a influéncia de Braudel sobre a génese deste livro havia sido preparada por diversas leituras prévias. O livro de Kristin Ross sobre Rimbaud, por exemplo, The Emergence of Social Space, com suas reflexdes sobre as relacdes entre geografia e a imaginacado literaria; ou 0 trabalho de Fredric Jameson, que sempre “viu" a cultura em termos espaciais = seja o enredo duplo de Noitos ou a Los Angele de Chandler, a Geopolitical Aesthetics, 0 “mapeamento cognitive” pds - a melhor moderno, retingulo semistico de Greimas, a ascensio do romance japor Voltando no tempo, consigo ver Marco D’Eramo me mos- trando os mapas de Bourdieu para Educagdo sentimental (e fico real- mente impressionado, mas sem saber o que fazer com eles), Voltando ainda mais no tempo, uma noite de verao em Londres, na metade da década de 1970, ficar acordado a noite inteira para ler do comeco ao fim Considerations on Western Marxism*, de Perry Anderson: nas pri- meiras paginas, que descrevem a distribuicao territorial de pensadores marxistas, de repente vejo como a geografia pode explicar a historia da cultura (mas, dai, para realmente entendé-la, preciso esperar vinte anos) E finalmente, ainda mais longe, a cena mais importante de todas, que deve ter ocorrido numa manha de domingo, perto do final da década de 1950, em Roma: quatro grandes mapas de marmore do Mediterr’a- neo, emparedados no baluarte que circunda o F6rum, na via dei Fori Imperiali; € meu pai, explicando para mim o que significam. Este livro foi iniciado naquele di ‘A obra Consideracdes sobre 0 marxismo ocidental, de Perry Anderson, sera republicada em nova traducao, no segundo semestre de 2603, pela Boitempo. (N. E. Capitulo 1 O romance, o Estado-nagao 22 Atlas do romance europeu 1, A Gra-Bretanha de Jane Austen 1. Abadia de Northanger See 2. Razéo e sensibilidade a 3. Orguiho e preconceito 4, Mansfield Park 5. Emma 6. Persuasion emberley) @tornton Lacey Woodston _-_/Atongboun ighbu Fullerton, Hartfielc papa. elimertallfA, Gy Norland Park Delaford ortsmouth Em Jane Austen, os vizinhos nao $40 as pessoas que moram mais perto; s80 pessoas que moram a uma distancia um pouco maior € que, em termos de reconhecimento social, podem ser visitadas. O que ela vé em todo 0 campo ¢ uma rede de casas e familias de pro- prietarios, e nos buracos dessa rede fechada situa-se a maioria das pessoas concretas, que simplesmente nao sdo vistas. Estar face a face rnesse mundo jé implica pertencer a uma determinada classe. [...] 0 campo [...] s6 se torna real na medida em que esta relacionado as casas que constituem nédulos verdadeiros, Raymono Wiuaws, O campo e a cidade 1. Terra natal Permitam-me come¢gar com um mapa de romances muito co- nhecidos: a figura 1, que mostra os lugares onde comecam e termi- nam os enredos de Jane Austen (ou mais exatamente, seu fio prin- cipal, a historia da heroina). Abadia de Northanger, por exemplo, comega em Fullerton e termina em Woodston; Razdo e sensibilida- de, em Norland Park e em Delaford; e assim por diante, nos outros (exceto Persuasion, cujo ponto final fica bastante vago). Peco que gastem alguns momentos para examinar a figura, porque no final de contas isso é que € geografia literria: selecionamos um aspecto textual (aqui, inicios e finais), encontramos dados, os colocamos no papel ~ e ai examinamos o mapa. Na esperanca de que a cons- trucao visual seja mais do que a soma de suas partes; de que ela mostre uma forma, um padrio que possa acrescentar algo 2 infor- macao que entrou na sua feitura. E realmente emerge um padrio aqui: de exclusio, primeiramen- te. A Irlanda nao aparece; nem a Escécia; nem o Pais de Gales; nem a Cornualha. Nao aparece a “franja celta”, como a chamou Michael Hetcher'; aparece apenas a Inglaterra: um espaco muito menor do que © Reino Unido como um todo. E nem mesmo toda a Inglaterra: Lancashire, 0 Norte, a Revolucao Industrial — tudo isso esta faltando. Em vez disso, temos aqui a Inglaterra muito mais antiga celebrada "Michael Hechter. internal Colonialism: The Celtic Fringe in British National Development, 1836-1966. Berkeley-Los Angeles, University of Columbia Press, 1975, 24 Atlas do romance europeu pelos “poemas de propriedade” da poesia topogrifica: colinas, par- 5 de campo... (figura 2). E um primeiro exemplo do que a geografia literéria pode nos dizer; de imediato, duas coisas: 0 que poderia estar num romance — € 0 que realmente esté ali. De um lado, ‘a “Gra"-Bretanha em processo de industrializacao da época de Austen; de outro, a Inglaterra pequena € homogénea dos romances de Austen. Uma Inglaterra pequena, dis 1 por certo; e pequena para nés, agora. Nem tanto, porem, na virada do século XVII, quando os lugares no mapa eram separados por um dia, ou mais, de viagem muito desconfortivel. E como esses lugares coincidem com as residéncias da heroina (o inicio) e com as de seus ques, eu. Menor do que 0 Reino Unido, 2. “Poemas de propriedade” 1650-1850 (0s “poemas de propriedade” ~ que descrevem e celebram uma propriedade no campo = sdo muito freqiientes nos condados do sul da Inglaterra onde os romances de Austen tipicamente se situam, enquanto a “periferia celta” esta praticamente ausente. Numero de poemas por condado: e105 © 6-10 @ 11-20 @ acima de 20 O romance, o Estado-nacao 25 futuros maridos (o fim), a distancia entre eles significa que os enre- dos de Austen juntam — “casam” — as pessoas que pertencem a con- dados diferentes. O que € novo e significativo: significa que esses romances tentam representar 0 que os historiadores sociais referem como 0 “Mercado Nacional de Casamentos”: um mecanismo que se cristalizou ao longo do século XVIII, o que exige dos seres humanos (particularmente das mulheres) uma nova mobilidade: fisica, mas mais ainda espiritual. Porque é claro que um grande mercado de casamen- tos s6 pode funcionar se as mulheres se sentirem “em casa” — na figura 1, muitos dos nomes indicam lares — no apenas no pequeno enclave de seu nascimento, mas num territ6rio muito mais amplo*. Se elas conseguirem sentir 0 Estado-nagao como uma verdadeira terra natal — se nao 0 Estado-nacio como um todo, pelo menos sua “Area central”, como a geografia social a chama: a rea mais rica e populosa (ea mais segura, onde uma jovem pode se movimentar sem medo). Abadia de Northanger: Por apaixonantes que fossem as obras da senhora Radcliffe € mesmo a de seus imitadores, nao era nelas que se deveria procurar a natureza humana, pelo menos a dos condados do centro da Inglaterra. Talvez elas dessem uma imagem fiel dos Alpes € dos Pirineus, com as suas de pinheiros e as suas perversi fica meridional fossem habituais os horrores narrados nos seus livros. Catherine nao ousava duvidar que tais coisas pudessem ocorrer além de seu pais, e mesmo nele, se a pressionassem ~ elas seriam pos- siveis no Norte e no Oeste [a franja celta!]. Mas, no Centro da Inglaterra, tanto as leis como os costumes garantiam, certamente a existéncia de uma esposa desamada. lades; e talvez na Italia, na Abadia de Northanger, 25.5 (© espaco de Austen é inglés demais para ser verdadeiramente representative da nacao briténica. Nesse aspecto, The Absentee (1812) de Maria Edgeworth, ou Marriage (1818) de Ferrier, que lidar com a Irlanda e a Escécia assim como com a Inglaterra, fornecem um cenério geogratico ‘mais completo (embora no final Edgeworth e Ferrier retornem a idéia da nacéo dentro da nacéo, renunciando a corrupcao da Inglaterra em favor da Irlanda e da Escécia, respectivamente). A ques- 180 € que a Inglaterra durante muito tempo gozou de uma posicao ambigua e privilegiada dentro do Reino Unido: parte dele (como a Escécia, a Irlanda e o Pais de Gales) - mas uma parte dominan- te, que reivindica o direito de substitir 0 todo. O sistema geonarrativo de Austen & uma verso extremamente bem-sucedida dessa sobreposicdo opaca da Inglaterra e da Gra-Bretanha (0 trechos narrativos s80 indicados pelo titulo do texto, sequido do numero de pagina. (Ed. bras. Jane Austen. Abadia de Northanger. Trad. de Ledo Wvo. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1982, p. 141.] 26 Atlas do romance europeu Mas no Centro da Inglaterra... Nao ha titulo melhor para o mapa dos romances de Austen. Quanto as imitadoras de Radcliffe, a figura 3 mostra o golfo que separa o mundo do gético do de Catherine Morland. 3. Contos goticos britanicos 1770-1840 Nesta amostra de quase sessenta textos, a maior concentracao de Contos goticas € el no trigngulo compreendldo entre o Reno, a Floresta Negra e 0 Harz (a regldo do pacto com 0 diabo}: uma distribuicae geografica que provavelmente fot influenciada pelo enorme numero de textos gaicos escritos na Alemanha. Em gera, as histeias goticas se situavam incalmente na Ita e na Franca; mudaram para o norte, para a Alemanha, por volta de 1800: depods, de novo para o norte, para a EscOcia, por volta de 1820. Exceto por um conto, localizado Londres renascentista, nenhuma outra hist6ria se situa dentro do espaco inglés de Auster ee 4 . . . . . . = . 2 ° ° . < . @ cenario Nao mostrados © Libano © Cello Reginaldo, unico herdeiro da ilustre familia Di Venoni, era conhecido, desde ‘sua mais tenra infancia, por sua indole rebelde e entusidstica [..] O chateau sombrio em que residia se situava em Suabia, nos limites da Floresta Negra. Era uma manso agreste e isolada, construida @ moda da época, no mais sombrio estilo da arquitetura gotica. A certa distancia se erguiam as ruinas do outrora célebre Castelo de Rudstein, do qual no momento restava ape- nas uma torre em ruinas; mais além, a paisagem era delimitada pelas som- bras profundas e pelos recénditos impenetraveis da Floresta Negra [... ‘Anonmo, The Astrologer's Prediction or The Maniac’s Fate (1826) ili, cell | © romance, o Estado-nacao 27 Ha muito tempo a sociologia literaria insiste, como sabemos, na relacao entre 0 romance e 0 capitalismo. Mas 0 espaco de Austen sugere uma afinidade igualmente forte (apontada pela primeira vez por Benedict Anderson, em Imagined Communities) entre 0 roman- ce ea realidade geopolitica do Estado-nacao. Uma realidade moderna, © Estado-nagao ~ e curiosamente esquiva. Porque os seres humanos podem compreender diretamente a maior parte de seus habitats: podem abarear seu vilarejo, ou vale, com um tnico olhar; 0 mesmo ocorre com a corte, ou a cidade (especialmente no inicio, quando as cidades s4o pequenas e tém muros); ou até mesmo o universo — um céu estrelado, afinal de contas, nao é uma imagem ruim dele. Mas o Esta- do-nacao? “Onde” fica? Com 0 que se parece? Como se pode vélo? E ainda: © vilarejo, a corte, a cidade, 0 vale, 0 universo podem todos ser representados visualmente — nos quadros, por exemplo. Mas o Estado-nacao? Bem, o Estado-nagao... encontrou o romance. E vice- versa: 0 romance encontrou o Estado-nacao. E, sendo a tinica forma simbélica que poderia representé-lo, tornou-se um componente es- sencial de nossa cultura Alguns Estados-nagao (notadamente a Inglaterra/Gra-Bretanha e a Franga) ja existiam, naturalmente, muito antes da ascensao do ro- mance: mas como Estados “potenciais”, eu diria, mais do que reais. Tinham uma corte no centro, uma dinastia, uma marinha, algum tipo de tributacao — mas dificilmente eram sistemas integrados; eram ain- da fragmentados em diversos circuitos locais, em que o elemento estritamente nacional nao afetara até ali a existéncia cotidiana. Mas, por volta do final do século XVIII, comeca a haver uma quantidade de processos (a onda final de cereamentos rurais; 0 surto de industria- lizagio; a ampla melhoria das comunicacoes; a unificagio do merca- do nacional; 0 recrutamento das massas) que literalmente arrasta os seres humanos para fora da dimensao local e os joga numa dimensao muito maior. Charles Tilly fala de um novo valor para esse periodo — a “lealdade nacional” -, que o Estado tenta forcar por sobre e contra as “lealdades locais™. Ele esta certo, creio, ¢ o embate entre a velha e Charles Tilly. Coercion, Capital, and European States. Cambridge-Oxford, Blackwell, 1990, p. 107. [Ed. bras.: Coercao, capital e Estados europeus: 1990-1992. Trad. Geraldo Gerson de Souza. Séo Paulo, Edusp, 1996. 28 Atlas do romance europeu a nova lealdade mostra também em que medida 0 Estado-na¢ao foi, inicialmente, um problema: uma coer¢io inesperada, muito diferente de relacdes de poder anteriores; um dominio mais amplo, mais abstra- to — que necessitava de uma nova. forma simbolica para ser entendido. E, aqui, a geografia novelistica de Austen mostra toda sua inteli géncia. Num exemplo surpreendente da voca¢ao que a literatura tem de resolver problemas, seus enredos tomam a realidade dolorosa do desenraizamento territorial - quando suas historias se abrem, o domi- Cilio familiar esta em geral prestes a ser perdido — e reescrevem-na como uma viagem sedutora: instigada pelo desejo € coroada pela felicidade. Tomam uma gentry local, como os Bennets de Orgulbo e preconceito, e a juntam a elite nacional de Darcy e sua espécie* Tomam a novidade estranha ¢ aspera do Estado-nacao € 0 transfor mam num lar grande e€ refinado. 2. A Inglaterra e seu duplo Mercado de casamentos, portanto. Como todos os outros merca dos, esse também deve acontecer em algum lugar, ¢ a figura 4 mostra onde: Londres, Bath, no litoral, Aqui as pessoas se encontram para completar suas transagoes € aqui também é onde ocorrem todas as dificuldades do universo de Austen: paixdes, escindalos, calnias, se- ducoes, fugas - desgraga. E tudo isso acontece porque o mercado de casamentos (mais uma vez, como todos os outros mercados) produziu sua propria marca de escroques: parentes de reputacao duvidosa, alpi- nistas sociais, especuladores, sedutores, aristocratas déclassés... Faz sentido, assim, que essa figura seja o inverso da figura 1. Vamos examiné-la: a primeira é uma Inglaterra introvertida, rural: uma ilha dentro de uma ilha. A segunda se abre para o mar, a grande mistura de Bath e Londres, a cidade mais movimentada do mundo. Em uma, distribuicao dispersa de propriedades independente outra, elipse com um foco em Londres e 0 outro em Bath. LA, res déncias; aqui, cidades: € cidades que sio todas reais, a0 passo que aquelas 5 eram todas ficcionais. Uma assimetria do real & residéncia Tobie as duas gentres, ver Lawrence Stone e Jeanne C. Fawtier Stone. An Open Elite? England 1540-1880. Oxford, Oxford University Press, 1986, passim. O romance, o Estado-nacao 29 4. A Gra-Bretanha de Jane Austen I complicacées narrativas Abadia de North anger Razéo e sensibilidade Orgulho e preconceito Mansfield Park Emma Persuasion auaUN sn 248) Londies (1,2,3.4.6) tyme @) ckenharm(@) Ramsgate (3) Dawish 2) og . Plymouth (2) wy Weymouth (5) “orton 18 um ano, [minha irmal] saiu do colégio e foi morar em Londres em companhia de uma senhora encarregada de superintender a sua educacéo; e no verdo passado foi com aquela senhora para Ramsgate. Mr. Wickham, sem diivida propositadamente, partiu para (© mesmo lugar; depois se descobriu que havia um entendimento prévio entre ele e Mrs. Younge, pessoa a respeito de cujo carater infelizmente nos enganamos. Gracas ao auxilio e conivéncia desta pessoa, ele se aproximou de Georgiana, em cujo coracao por natu- reza afetivo ainda estava muito vivida a impressao de bondade com cil le tata em lan se dein petal Ae ie ina apaixonada e consentiu em apstionada 6c ser raptada. Como a moga tinha ape- Jane Austen, Orguiho e preconceito, 35 30 Atlas do romance europeu do imagindrio — da geografia e da literatura — que sera recorrente ao longo da presente pesquisa’. Duas Inglaterras, onde diferentes fungOes narrativas € axiologicas so literalmente “anexadas” a diferentes espacos (figura 5): e qual das duas vai prevalecer? A elite que preservou suas raizes rurais € locais, ou o grupo mével ¢ urbanizado de sedutores? Na linguagem da épo- ca: Terra ou Dinheiro? Conhecemos a resposta de Austen: Terra (de preferéncia com muito dinheiro). Mas, mais significativo do que escolha final entre os dois espacos € 0 fato preliminar de que a Ingla- terra de Austen ndo é una. O romance funciona como a forma sim- bolica do Estado-nagao, afirmei anteriormente: e € uma forma que (diferentemente de um hino ou de um monumento) nao apenas nao Ses internas da nacio, mas consegue transformd-las em uma bistoria, Pensem nas duas Inglaterras da figura 5: formam um campo de forcas narrativas, cuja reiterada aco reciproca define a nacio como a soma de todas as suas historias possiveis: Londres, ou as complicagdes dlolorosas da vida; o interior, ou a paz do fechamento; © litoral, ¢ emogdes ilicitas; a Escécia, para os amantes secretos; a Irlanda ¢ as Terras Altas, quem sabe, talvez terras do gotico... A Inglaterra de Austen, que invencao. E digo invengao delibera- damente, porque hoje 0 escopo espacial de seus romances pode nos parecer 6bvio, mas historicamente ele nado foi nada 6bvio. Os leitores precisavam de uma forma simbélica capaz de entender © stado-nacao, tenho repetido com freqiiéncia; precisavam dela, sim — mas, antes de Austen, ninguém a havia realmente proposto. Exa- minem a figura 6: as viagens da heroina e das outras personagens principais de Adeline Mowbray, de Amelie Opie. O espaco, aqui, é tao esticado a ponto de ser quase informe: em um romance, a he- roina e as outras personagens viajam tanto quanto nos seis roman- ces de Austen somados (figura 7) — uma escolha que tem sua propria raison d’étre (uma mulher que desafia a moralidade corrente sofre- oculta as div 7 Por que os romances freqlentemente misturam locais geograficos e localidades imaginérias? Estas Sltimas s80 necessérias para alguma funcdo narrativa especfica? Ha, em outras palavras, eventos {que tendem a ocorrer em espacos reais — e outros que “preferem” os ficcionais? € cedo para dar tima resposta definitiva, mas os romances de Austen por certo sugerem que os espacos ficcionals 520 particularmente adequados aos fina felizes e a realizac3o do desejo que em geral encarnam. ‘Ao contrério, quanto mais pessimista uma estrutura narrativa se torna, menos freqUentes s8o seus espacos imaginarios. © romance, o Estado-nacao 31 5. A Gra-Bretanha de Jane Austen A inicios © finais Im complicacdes narrativas Todos os moralistas de qualquer coloracao do final do sécu- lo XVIII preferem o campo a cidade, mas a Fanny de Jane Austen 0 faz como uma conservadora tipica: porque ela 0 associa a uma comunidade na qual os individuos tém deve- res bem definidos para com o grupo e porque fisicamente ele the traz a mente o universo ordenado mais amplo ao qual pertence a comunidade inferior. A vida urbana, por outro lado, transmitiu a Mary valores egoistas: ela trai seu egots- mo quando ri dos fazendeiros que nao Ihe permitem ter urna carroca para carregar sua harpa [.... Manuyn Bune, Jane Austen and the War of ideas F Atlas do romance europeu ra uma srticis sem fim: em Lisboa, em Perpignan, em Richmond, em Londres...), mas isso certamente nao pode transformar a nagao num “lar” simbélico. Ou, mais uma vez, examinem a figura 8: a “excelente fabula de Manouvering”, como Scott a chama no prefa- cio de Ivanboé. Aqui, temos a configuracio oposta 4 de Opie: as duas heroinas estio imoveis, em Devon, dentro de duas propried: des vizinhas - enquanto seus parceiros navegam pelo mundo intei- © muito simples, muito clara do universo narrativo: as e os homens no exterior (enquanto se perde ro. Uma divi mulheres em cas: novamente a nacao de vista). A geografia de Austen é realmente diferente: é um mundo de tamanho médio, muito maior do que a propriedade de Edgeworth e muito menor do que 0 Atlantico de Opie. E 0 espaco tipicamente intermediario do Estado-nagao, “grande o suficiente para sobreviver e afiar suas garras sobre seus vizinhos, mas pequeno o suficiente para ser organizado a partir de um centro e€ sentir-se como uma enti- dade”, como disse Kiernan certa feita’. Uma construgao contingente e intermediaria (grande o suficiente ... pequeno o suficiente ...): € tal- vez, é também porque viu esse novo espaco que Austen seja ainda lida hoje, diferentemente de tantas de su: rivais. No mundo de tamanho médio de Austen, a nocgao de “distancia” adquire por sua vez um novo sentido. Em Opie, ou Edgeworth (ou Susannah Gunning, Mary Charlton, Barbara Hofland, Selina Davenport: de fato, na maior parte da ficcao sentimental), a distancia € uma cate- goria absoluta, ontolégica: 0 amado est4 Aqui — ou Distante. Em Casa ‘ou no Mundo Grande. Presente ou Ausente (e provavelmente Morto). E ainda a atmosfera dos romances gregos: 0 espaco como uma forga 6-8. A Gra-Bretanha e o mundo Nos romances sentimentais do inicio do século XIX, 0 espaco internacional (particularmente o ‘Atlantico) toma a forma de longas narrativas retrospectivas que focalizam os subenredos (pre- dominantemente masculinos): guerras em alto-mar, comércio de longa distancia, nababos in- dianos, fazendeiros das Indias Ocidentais. Comparada a seus contemporaneos, Austen aumenta consideravelmente 0 eixo central (e in- glés) do romance, de modo que a importancia do subenredo internacional é reduzida na mes- ma proporcao. WG. Kiernan. “State and Nation in Western Europe”, Past and Present, julho de 1965, p. 35. O romance, o Estado-nacao 33 Aneeue Ore ‘Adeline Mowbray (1805) Personagens: femininas = — masculinas nao mostrada: « India 6) Jane Austen Todos os romances (1803-1818) Personagens: femininas — masculinas ” Masa Eoctworn Manouvering (1809) Z Personagens: femininas — masculinas H.MSS. l'‘Ambuscade Estimados pais, Escrevo esta do mar, lat. N.44.15 — long. 0.9.45 — vento NNE - para Ihes dizer que nao me vero tao cedo quanto disse em minha tltima, do dia 16. Ontem, as 2 da tarde, alguns despa- chos foram trazidos para meu bom capitao, pela chalupa Pickle, que amanha irao, se o vento e © tempo permitirem, alterar nosso destino. Qual é a natureza deles, nao sei comunicar aos senhores [...] De minha parte, anseio por uma oportunidade de lutar com os franceses [...]. Mania Eocewort, Manouvering 34 Atlas do romance europeu mitica, contra cujo poder de separacio os seres humanos (e especial- mente as mulheres, de cujo ponto de vista a historia & contada) tém apenas uma arma: a constancia, Devem permanecer 0 que sto, apesar de toda a distincia; devem permanecer leais, pacientes — figis Contra essa genuina ideologia do espago, as heroinas de Austen descobrem a Distincia Relativa, concreta. Willoughby, Darcy 20, 40, 60 milhas; 0 mesmo ocorre com Londres ou Portsmouth. Tal- ver haja uma visita, talvez nao, porque requer tempo ¢ esforco viajar incerteza moderada mostra que a distancia foi 40 milhas. Mas ess trazida de volta & terra: pode ser medida, compreendida; no € mais uma funcao do Destino, mas do sentimento. E mais uma maneira de acrescentar um sentido ao espago nacional, por meio da “projecio literal, nele, das emogoes. Quando Darcy, que deveria estar em Lon- dres, surge em Longbourn, “um sorriso de prazer deu maior fulgor a0 prilho dos seus olhos [de Elizabeth]" (Orgutho e preconceito, 53). Se ele veio fo longe. "As recentes perdas nas propriedades das Indias Ocidentais” amentos ‘A Inglaterra, a Gra-Bretanha, o mercado nacional de ¢ Londres, Bath, a franja celta... e as coldnias¢ Edward Said, “Jane Austen e o Império": es ultramarinas de sir Em Mansfield Park, [...1, as referéncias &s posse: m por toda parte; elas Ihe ¢ Jo as riquezas, Thomas Bertram se entreme definem sua posigio social em casa © no es explicam suas ausénci rior, possibilitam seus valores, O que sustents materialmente ess: vida é a propriedade de Bertram em Antigua (..., por mais isolado ¢ ilhade que fosse 0 local inglés (por exemplo, Mansfield Park), ele requer um sustento ultramarino [...]. Os 1 Bertram nao poderiam existir sem 0 trifico de escravos, 0 acticar € » dos fazendeiros coloniais. 7 Faward Said. Culture and Imperialism, Nova York, Knopf, 1993, p. 62, 85, 89, 94. [Ed bras Cultura e imperialismo. Trad, Denise Bottman. S30 Paulo, Companhia das Letras, 1995. Tre- chos tirados de "Narrativa € espaco social”, p. 99, “Jane Austen e 0 Império”, p. 126, p. 13 e 136, respectivamente.] O romance, o Estado-nacao a Os Bertram-nao poderiam existir... Gosto do tom direto da afirma ¢ao, mas discordo dela. Isto é, discordo nao do fato de que as col6é- nias britanicas fossem muito lucrativas ¢ administradas com muita crueldade, mas da idéia de que a classe dominante inglesa “nao po- deria existir” sem elas. Excluam a Antigua, sugere Said, ¢ Sir Bertram desaparece: nenhuma “riqueza”, nenhuma “posicao social em casa € no exterior’, nenhum “valor”, nenhum “apoio material”, nenhum “sus- tento”. Mas esse é realmente 0 caso? O argumento, aqui, evidentemente tem dois lados: 0 papel eco- némico do império britanico e sua representacao ficcional. Sobre o primeiro, que esta distante do meu campo de trabalho, s6 posso dizer que fui convencido por aqueles historiadores para quem as colénias desempenharam um papel certamente significativo, mas nao indispensdvel, na vida econémica britinica’. E isso é ainda Em geral, 3 questéo historica-chave (algo aistante do proprio Mansfield Park) & se 0s lucros coloniais financiaram a Revalucao Industrial ou ngo; e se, consequentemente, 0 surto do capitalismo europeu ‘eva sido possivel sem as possessGes colonias. A resperto desse ponto, os argumentos que julguei mais persuasivos sao 05 de Patrick K. O'Brien ("The Costs and Benefits of Britsh Imperialism”, Past and Present, 120, 1988), V.G. Kiernan (Imperialism and its Contradictions. Nova York-Londres, Routledge. 1995), e Paul Bairoch (Economics and World History. Chicago University Press, 1993), embora The ‘Making of New World Slavery. From the Baroque to the Modern (Londres, Verso, 1997), de Robin Blackburn, que li quando este lvro ja estava terminado, me tenha feito reconsiderar diversas coisas Kiernan (que, naturaimente, @ um critica cortosivo do imperialismo britanico) argumenta, por exern: plo, que “os espdlios de Bengals [...] podem ter filtrado por canais tortuosos até chegar aos moinhos de Lancashire, mas nao tao imediatamente [a ponto de dar inicio & Revolucéo Industrial)"; e em sSequida, passa a salientar que, se 0s primeiros industria “tinham pouco acesso ao dinheiro Grosso, tinham, entretanto [dadas as necessidades financeiras madestas do surto industrall, iqualmente pouca necessidade dele” (p. 54-55). Quanto a Paul Bairoch, 2 tese de que a exploragio do Terceiro Mundo financiou 2 Revolusao Industrial é, para ele, um dos “mitos” da histéria econémica, e suas proprias conclusoes viram o argumento de ponta-cabeca: “durante os séculos XVll e XIX, a coloniza- 20 foi principalmente resuitado do desenvolvimento industrial e no © contrério” (p. 82). Como explica longamente o proprio Bairoch, contudo, 0 mito é tao amplamente aceito porque “se o Oeste nao ganhou muito com 0 colonialismo, isso ndo significa que o Terceiro Mundo no tenha perdido muito” (p. 85). Dito de outra forma, embora o Terceiro Mundo nao tenha contribuido muito para a Revolucao Industral, essa, ao contrério, teve efeitos catasti6ticos para o proprio Terceiro Mundo (como no caso da desindustriaizagao, & qual Bairoch dedica um capitulo intero de seu livro). Por sua vez, Blackburn mostra em grande detalhe os tucras excepcionais provenientes das fazen- das escravagistas das Indias Ocidentais e resume suas descobertas da sequinte maneira: “Vimos que 0 ritmo da industrializagao capitalista na Gré-Bretanha foi promovido de modo decisivo pelo seu sucesso em criar um regime de acumulacéo primitiva prolongada e em prosperar gracas 4 superexploracao de escravos nas Américas. Tal conclusdo certamente nao implica que a Gra-Bretanha tenha seguide algum caminho timo de acumulacao nesse periods |...) tampouco nosso estudo leva a concluséo de que a escraviddo no Novo Mundo tenha produzido 0 capitalismo. O que ele mostra que trocas com as fazendas escravagistas ajudaram o capitalismo britanico a avancar em diregao a0 industrialismo @ 4 economia global antes de seus rivais” (p. 572). 36 Atlas do romance europeu mais verdadeiro para a gentry de Northamptonshire (0 condado de Mansfield Park) que, de acordo com Stone e Stone, entre 1600 e 1800 se envolveu nas atividades comerciais (inclusive no inves- timento colonial) numa porcentagem que oscilou entre wm e dois por cento: grau em que as elites locais donas de terras eram compostas de ho- mens enriquecidos de qualquer maneira por atividades comerciais sem- ‘do, interacdo, cusamen- pre foi desprezivel. [...] As evidéncias de infiltrac (0, atividades empresariais, ¢ de outras espécies de misturas foram bas- tante baixas até 1879." Isso quanto 2 histéria econdmica. Se nos voltarmos para o pro- prio Mansfield Park, a tese de Said se torna ainda mais duvidosa Logo no inicio do romance, quando 0 filho mais velho de Bertram contrai dividas, o jogo de azar rouba imund dez, vinte, trinta anos, ou talvez para toda a vida, de mais da metade da renda a que ele tinha direito” (Mansfield Park, 3). Por outro lado, “as recentes perdas [...] em suas propriedades das Indias Ocidentais”, que so menciona- das na mesma pagina, nao deixam vestigio na vida em Mansfield Park: perdas ou nao, tudo permanece exatamente igual. Talvez aque- la proptiedade nao fosse tao indispensdvel, afinal de contas? E de- pois, aqui esta Bertram, de volta de Antigua Foi uma manha ocupada para ele. As conversagdes que tivera nao Ihe tomaram senao uma parte do dia. Tinha que se reintegrar nos afazeres habituais da vida em Mansfield; ver 6 seu mordomo e © seu administra dor, examinar e avaliar ¢, nos intervalos dos negécios, andar pelas estrebarias, pelos ji mas. Mansfield Park, 181 rdins € plantacdes mais prox Examinar e calcular, andar nos estébulos ¢ nas plantacdes, encon- trar o mordomo e o administrador (que estao encarregados de admi- nistrar 4 propriedade, coletar aluguéis, ¢ dos assuntos financeiros em geral)... Todos sinais de grandes interesses econdmicos na Gra- Bretanba e, mais provavelmente, préximo ao proprio Mansfield Park. O quadro que Said pinta parece exatamente invertido: lucros colo- niais modestos — € grandes lucros nacionais. E, contudo, quando Stone € Favitier Stone. An Open Elite?, p. 141 (inclusive grafico), 189. O romance, o Estado-nacao 37 tudo foi dito, Bertram realmente parte para Antigua ¢ fica longe du- rante muito tempo. Se Antigua nao é essencial para suas finaneas, por que cargas d'agua ele vai para 14? Jai, nao porque necessite de dinheiro, mas porque Austen preci- sa que ele fique fora do caminho. Figura de autoridade demasiada- mente forte, ele intimida 0 resto do elenco, sufocando a energia nar- rativa e deixando Austen sem uma hist6ria para contar; para o bem do enredo, ele deve ir. E a diferenga, como diriam os formalistas russos, entre a “funcao” e a “motivagao” de um episédio narrativo, entre as conseqiiéncias da auséncia de Bertram (a peca, o flerte entre Edmund e Mary, 0 adultério de Maria: em resumo, praticamente todo 5 premissas, que s40 muito menos im- portantes porque (como na “racionalizacao” freudiana, que € um conceito semelhante) uma “razao” sempre pode ser substituida por outra sem muita dificuldade. Bertram vai para Antigua, portanto, nao porque deva ir para /d — mas porque deve deixar Mansfield Park, Mas € para Antigua que ele vai, e ainda tenho de explicar a motivacao especifica do enredo de Austen. Nos romances sentimentais da virada do século, as colénias sao uma presenca verdadeiramente ubiqua: sao mencionadas em dois romances em cada trés, € as fortunas feitas no exterior chegam a um tergo, sendo mais, da rique’ textos (figura 9). Por que essa insisténcia? Poderia esse ser um traco “realista” da narrativa oitocentista, como Said sugere no caso de Jane Austen? Possivelmente. Mas, com franquez 5 fortunas ficcionais sao tao desproporcionais em relacao A historia econdmica que suspeito que estejam ali nao tanto por causa da realidade, mas por raz6es estritamente simbélicas. Porque a Jamaica, ou Bengala, remove a produgio da riqueza para mundos distantes, em cuja realidade efe tiva a maioria dos leitores do século XIX nao estava “nem um pouco interessada” (como os primos de Fanny: ver Mansfield Park, 21)! © modo como as fortunas coloniais sao apresentadas — alguns co- mentdrios apressados € ponto final — € em si mesmo um bom indi- cio do real estado de coisas; quanto as proprias colonias, nenbum o enredo do romance) € sua ZA NESSES os T Por volta de 1800, The Lady's Magazine dedica centenas de paginas a contos e “casos” do mundo colonial - mas fornece apenas um par de noticias genuinas (ver adiante figuras 22-25), eS, ae ee ONE elle 38 Atlas do romance europeu | nos romances sentimentais britanicos 9. Riqueza colo! EE B, CC, Ceph, Per AM, App, BC, GC PAM, JE, M, SDH : la sof eww Romances incluidos: AM Amelie Opie Adeline Mowbray JE Charlotte Bronté Jane Eyre App Amelie Opie Appearance Was M__ Maria Edgeworth Manouvering Against Her MP Jane Austen Mansfield Park B Maria Edgeworth Belinda MW. Barbara Hofland The Merchant's BC Mrs. Ross The Balance of Comfort Widow CC An6nimo The Castle on the Cliff Per Jane Austen Persuasion Ceph Andnimo Cephisa SDH_ Emily Eden The Semi-Detached GC Susannah Gunning The Gipsy House Countess Recebi uma carta [..] de meu sogro, na Jamaica, autorizando-me a fazer uma retirada de 900L. de sua conta bancéria e convidando-me a ir a seu encontro; como ele sente estar perdendo o vigor e deseja dar-me a administragao de sua propriedade, e de meu filho, para {quem toda a fortuna sera legada, e de cujo interesse, ele julga apro- priadamente, ninguém pode cuidar melhor do que seu proprio pai ‘Avcue Ore, Adeline Mowbray O romance, o Estado-nacao 39 dos treze romances da figura 9 as representa diretamente; no me- lhor dos casos, temos uma hist6ria retrospectiva (e duvidosa) como a de Rochester, em Jane Eyre. Essa é a geografia mitica — pecunia ex machina = de uma riqueza que nao é realmente produzida (nunca se diz nada sobre o trabalho nas coldnias), mas magicamente “en- contrada” no exterior sempre que um romance precisa. E assim, entre outras coisas, a ligac4o entre a riqueza da elite e a “multidao de pobres trabalhadores” da Inglaterra contemporinea pode ser fa- cilmente cortada: a elite é absolvida, inocente. O que é maravilhoso saber, para as heroinas que querem casar e ascender a ela - e muito melhor, naturalmente, nas décadas da mais dura luta de classes da histéria britanica moderna. Refutacao: esse € o verdadeiro significado da figura 9. Nao € a historia econémica que a explica, mas a ideologia: uma ideologia que projeta, literalmente, uma realidade desconfortavel para longe da Gra-Bretanha. E, de fato... 4. Geografia de idéias ... de fato, algo mais é freqiientemente situado no exterior, nos romances britanicos: os vildes (figura 10). Mas 0 horizonte se es- treitou. Do Caribe e de Bengala para a Franga: um inimigo a ape- nas algumas milhas, completamente 4 vista — e muito mais efic: Esse € 0 aspecto estritamente nacionalista da fic¢ao britanica. Perry Anderson: O senso de comunidade nacional, sistematicamente orquestrado pelo Estado, pode muito bem ter tido uma realidade maior na época napo- leénica do que em qualquer outro momento do século anterior [. arma principal no arsenal ideolégico [do Ancien Régime britanicol, de- 10. oes © mapa indica a origem ou destino de alguns vildes oitocentistas e a localizago de importan- tes desastres narrativos. Embora a Franca seja claramente o epicentro dos males do mundo, o mapa na realidade sub-representa seu papel simbdlico, em parte porque a Franca nem sem- pre é explicitamente mencionada (como no “pals estrangeiro” do exilio de Maria Bertram) e ‘em parte porque os sentimentos anti-franceses s3o expressos por outros meios, tais como a | 40 Atlas do romance europeu lingua (os vilées adoram falar francés; Carker, em Dombey & Filho, “fala francés como um a descricdo da personagem. pdt errs aie eeeccolhas erdticas “erradas” do Bildungsroman britanico envolvem uma mulher que ou é francesa (Céline Varen em Jane Eyre, Laure em Middlemarch) ou ae time educagao francesa (Flora Mc Wor em Waverley, Blanche Amory em Pendennis, Dora Speniow fom David Copperfield, Estella em Grandes esperancas). Resistir a seducSo parisiense se torna ddessa maneira um dos ritos decisivos de um jovem ingles ow a ee “mw. BCS, DC DF, GE,JE. MM, Mi, ML, OME. NN, OT, LD Pel, Pen, SDH. - é © oat “Wat . 2 ~~ ww sty uss . ene — principais areas de aco © capitals nacionais no momento da acéo Romances incluidos: A Jakob van Lennep An Abduction in GT Mor JOkai The Golden Age of the Seventeeth Century Transylvania BN. Henry Moke The Battle of Navarino LL Demetrius Bikelos Loukis Lara N_ Alessando Manzoni Os noivos RD Heinrich Zschoschke The Rose of BW John and Michael Banim The Boyne Disentis Water SB Enrique Gil y Carrasco El sefior de CD Alexander Pushkin The Captain's Bembibre Daughter TB Nikolai Gogol Taras Bulba , ‘C Honoré de Balzac Os Chouans ‘Wal B.S. Ingemann Waldemar W_ Walter Scott Waverley O romance, o Estado-nacao 45 hist6ricos mostram 0 padrao oposto: um puxao centripeto fraco, com a historia se afastando imediatamente para longe da capital nacional. O jovem her6i de The Captain’s Daughter, por exemplo, que sonha ir para Sao Petersburgo, é imediatamente despachado na diregao opos- ta, para a periferia leste do império czarista. Em Waverley, Charles Stewart nunca completa sua marcha em diregdo a Londres: vai parar no noroeste da Escécia, levanta o Estandarte da Rebeliao no meio das ‘Terras Altas, cruza a linha das Terras Altas, chega a Edimburgo, cruza a fronteira anglo-escocesa, chega a Derby ~ e ai para. PAra, em outr: palavras, exatamente onde a Inglaterra de Austen comeca (Pemberley, a localidade mais ao norte “vista” em seus romances, também fica em Derbyshire). O fato de o mundo de Scott terminar exatamente onde o de Austen comeca, e o de Austen terminar onde o de Scott comeca. um encaixe tao perfeito, naturalmente, é apenas uma (bela) coinci- déncia. Mas por tras da coincidéncia esta uma realidade solida: a saber, diferentes formas habitam diferentes espacos. Paul Zumthor, La mesure du monde: Cada um dos diversos géneros narrativos ativos entre os séculos XI XIV possui seu proprio espaco poético e parece dirigir seu olhar em direcao a um horizonte especifico. O amivel fabliau francés se limita a um “aqui” (o lar, a cidade) cujas sombras investiga com diversao (e as vezes com alguma raiva); as est6rias romanescas, na Franca e Alema- nha, se movem, ao contririo, em direc4o a um “la” de uma aventura incerta. Os épicos que os cantores especializados ainda estio espalhan- do pelo Ocidente tém como foco a oposigio militar entre 0 cristianismo as terras “pagas”.!° E, assim, em termos mais gerais, Mikhail Bakhtin: © cronotopo tem um significado fundamental para os géneros na litera- tura. Pode-se dizer francamente que 0 género e as variedades de género sao determinadas justamente pelo cronotopo [...” Cada género possui seu préprio espaco, portanto — e cada espa- ¢0, seu proprio género: definido por uma distribuicao espacial — por © Paul Zumthor. La mesure du monde. Paris, Seuil, 1993, p. 382 "7 Mikhail Bakhtin, “Forms of Time and of the Chronotope in the Novel”, 1937-1938, in The Dialogic Imagination, Austin, Texas University Press, 1981, p. 84-5. [Ed. bras.: “Formas de tempo e de cronotopo no romance”, Questdes de literatura e de estética. A teoria do romance. Sao Paulo, Unesp-Hucitec, 1998, p. 212.) 46 Atlas do romance europeu um mapa — que € tinica e que, no caso dos romances hist6ricos, sugere: longe do centro. E, por reflexo, na proximidade das frontei- ras. a fronteira entre a Republica holandesa e as cidades alemas (An Abduction in the Seventeenth Century); o reino dinamarqués e o Santo Império Romano (Waldemar); os russos € cossacos (The Captain's Daughter); os hingaros e 0 Império Otomano (The Golden Age of Transylvania), os gregos e os turcos (The Battle of Navarino, Loukis Laras); os protestantes e os catdlicos (The Boyne Water). Longe de ser acidental, essa constante geografica é provavelmente um importante fator do sucesso excepcional dos romances hist6ricos, porque ofere- ce 4 Europa oitocentista uma verdadeira fenomenologia da fronteira — 0 que é uma grande coisa a fazer quando as fronteiras estao ao mesmo tempo endurecendo e sendo contestadas como “nao natu- rais” pelas diversas ondas nacionalistas (figura 13) e quando, como conseqiiéncia, a necessidade de representar as divis6es territoriais da Europa se torna repentinamente mais forte. Fronteiras, portanto. Ha duas espécies delas: as externas, entre Estado e Estado; e as internas, no interior de um dado Estado. No primeiro caso, a fronteira é o lugar da aventura: cruzamos a linha e estamos frente a frente com o desconhecido, freqiientemente com 0 inimigo; a historia penetra num espaco de perigo, de surpresas, de suspense. E assim com todos os romances menos conhecidos na fi- gura 12: em An Abduction in the Seventeenth Century, por exemplo, temos toda a maquinaria da perseguigdo e em Loukis Laras, da fuga. Em Waldemar, a cidade de Schwerin, em Mecklenburg, é ganha e perdida meia dtizia de vezes, do mesmo modo que o vilarejo suigo de The Rose of Disentis. Em The Golden Age of Transylvania, cava- leiros misteriosos; em The Battle of Navarino, cativos misteriosos. E assim por diante Fronteiras externas, em outras palavras, facilmente geram narra- tivas — mas de um modo elementar: escolhem dois campos opostos e fazem com que colidam. As fronteiras internas operam de manei- ra diferente e focam um tema que € muito menos vistoso do que a aventura, mas muito mais perturbador: a trai¢do. Waverley, o filho mais novo de Taras Bulba, os herdis de Balzac e de Pushkin, Alvaro de Bembibre, Renzo (“Fique ai, pais amaldicoa- do!”): todos traidores. Eles todos tém suas raz6es, naturalmente, e sua traigao pode bem ser nao intencional, ou se dever a razGes nao poli- © romance, o Estado-nacao 47 13. A formacao das fronteiras européias Yo HS SaaS a) mais de 400 anos . 5 J b) 200-400 anos ©) menos de 200 anos A idéia da nacao, com a decorrente ideologia do nacionalismo, é 0 resultado do estabelecimento do Estado dentro de fronteiras rigorosamente definidas, que S80, como conseqiéncia, reivindicadas como tal [...] Uma soberania absoluta - e, via de regra, n3o condicionada ~ € exercida pelo Estado sobre esse territorio delimitado. Juuen Freuno, L’Ennemi et le tiers dans Etat 48 Atlas do romance europeu ticas (a curiosidade, em Scott e Malzoni; o amor, em: Balzac e Gogol). Contudo, sob uma capa ou outra, a traicao est4 presente em todos os grandes romances histéricos; assim que o herdi chega & fronteira interna, imediatamente se junta ao Rebelde, ao Tumulto, ao Preten- dente, 2 gars, aos heréticos. Rebeldia? Duvido, esses so jovens “insi- pidos” (como diz Scott a respeito de Waverley), € suas acbes mos- tram, ao contrario, qudo ténue ainda é a identidade nacional na Europa oitocentista. Uma luta entre lealdades nacionais e locais, es- creve Tilly sobre aqueles anos: € verdade, e a traico mostra a acrimOnia do conflito, que mantém a alma do herGi suspensa por muito tempo entre a nagao e a regiaio". A fronteira interna de Scott (ou de Balzac, ou de Pushkin) tem ainda uma outra peculiaridade: nao € tanto uma demarcacao politico- militar, mas antropologica. Quando Waverley deixa seu regimento para visitar Tully-Veolan, e depois Glennaquoich, nas Terras Altas, seu movimento no espago € também, e de fato sobretudo, 0 movi- mento no tempo visualizado na figura 14. Ele viaja para tras, através dos diversos estigios do desenvolvimento social descrito pelo Iluminismo escocés: a era do Comércio, da Agricultura, do Pastoreio (o pretexto para ver as Terras Altas é uma corrida de gado) e, final- mente, da Caca (a festa ritualizada de caga de Fergus — que também coincide com 0 inicio da Rebelido — encarna a esséncia da cultura das Terras Altas)”. A capacidade de Scott de ler 0 tempo no espa¢o, como disse Bakhtin em seu ensaio sobre 0 Bildungsroman™, é naturalmente um Fesa dupla lealdade & personificada na formacio conciliadora do Nobre Traidor - Fergus, Alvaro de Bembibre, o marqués de Montauran ~ com seu equillbrio precario de adjetivo e substantivo. Por um lado, essas personagens so todos inimigos do novo poder centralizado do Estado, eo roman- ce, obedientemente, os sentencia a morte; por outro lado, apresenta-os como generosos, jovens, orajosos, apaixonados — "nobres” — permitindo-se, dessa maneira, uma homenagem de despedida a velha classe dominante. + O capitulo de abertura de The Golden Age of Transylvania se intitula “A Hunt in the Year 1666": fem outra parte, a regressdo antropologica € expressa metonimicamente por roupas de pele de animal: a marche-8-terre dos Chouans veste pele de cabra e trés cascas de rvore; quando Pugacev surge pela primeira vez, em The Captain's Daughter, acabou de perder sua pele de carneiro; e, {quando o herbi de The Rose of Disents, Florian Prevost, decide recuperar sua identidade sulca, @ primeira coisa que faz € vestr-se como um cacador de camurca. O her6i de Cooper, ¢ desnecessé- fio dizer, também € um cacador, apelidado de Leatherstocking. 2 Mikhail Bakhtin, “The Bildungsroman and its Significance in the History of Realism”, in Speech Genres and Other Late Essays. Texas University Press, 1986, p. 53. © romance, o Estado-nacao 49 14. Walter Scott, Waverley ‘9 Tully-Veolan =” AGRICULTURA 7: ‘ Julfamentoeexecucs lege Investida do exército rebelde linha divis6ria das Terras Altas — fronteira anglo-escocesa Nao ha nacao européia que, no curso de meio século, ou pouco mais, tenha sofrido uma mudanca tao completa como o reino da Escécia. Os efeitos da insurreicao de 1745 — a destruicéo do poder patriarcal dos chefes das Terras Altas ~, a abolicao do poder hereditario da no- breza e dos bardes das Terras Baixas ~ a total erradicacéo do partido jacobita que, avesso a se misturar com os ingleses, ou a adotar seus costumes, continuou por muito tempo a se orgulhar de manter as antigas tradig6es e costumes escoceses -, deram inicio a esta inova- (20. 0 iinfluxo gradual de riqueza e a extensao do comércio desde entdo se uniram para tornar o atual povo da Escécia uma classe de seres 180 diferentes de seus avés como os ingleses hoje 0 s0 em relagdo aqueles do tempo da rainha Elizabeth. Wauter Scorr, "Um posfacio”, Waverley 50 Atlas do romance europeu fato conhecido — 6bvio, talvez. Nao é 6bvio, entretanto, o fato de que 0 espaco nao se torna tempo em qualquer lugar, nos romances hist6- ali se ricos, mas apenas na proximidade da fronteira interna. torna possivel “ver” uma viagem ao passado — e dessa maneira ima- ginar a propria forma do romance hist6rico, que é ele mesmo uma viagem ao passado. Afinal de contas, 0 tema “hist6rico” ja estava presente no primeiro rascunho de Waverley, em 1805 (e igualmente em muitos romances anteriores); mas sem o espaco da fronteira algo estava faltando e “deixei de lado o trabalho que havia comegado’, escreve Scott no Prefacio geral, “sem relutancia ou reclamacao”. Dez anos mais tarde, ele se volta para a geografia, manda seu jovem para as Terras Altas — e inventa o género-chave do século. |A geografia como alicerce da forma narrativa; a fronteira interna como o interruptor de ligar e desligar do romance hist6rico. E faz sentido, porque a fronteira interna € 0 espaco onde a nao-contem- poraneidade dos paises europeus (e particularmente daqueles onde © comércio € a industria avancaram mais rapido, como a Franga € a Gra-Bretanha) se torna inescapavelmente visivel: uma distancia de apenas algumas milhas, e as pessoas pertencem a épocas diferentes ‘As fronteiras internas definem os Estados modernos como estruturas compésitas, portanto, feitas de muitas camadas temporais: como Es- tados bistéricos — que precisam de romances hist6ricos. Mas precisam deles para fazer 0 qué? Para representar a desigual- dade interna, sem dtivida; e depois, aboli-la. Os romances hist6ricos nao sao apenas histrias “da” fronteira, mas de seu apagamento e da incorporagio da periferia interna na unidade maior do Estado: um processo que mistura consentimento € coercao — Amor e Guerra; Nacao e Estado -, como David Lipscomb salienta em sua discussio dos “trés Estados” de Scott (figura 15). O amor, entre o homem da Inglaterra e a mulher da propriedade das Terras Baixas: uma miniatu- ra de uma unido nacional baseada no acordo, no desejo mtituo dos espacos mais “civilizados”, Mas guerra (sem prisioneiros), contra o espago ainda “selvagem”, de modo que o Estado possa finalmente alcancar o “monopélio da violéncia legitima” de Weber, esmagando de uma vez por todas todos os Pugacev, Fergus, Bonnie Prince Charlie, Dom Rodrigo e a Signora, e o Inominado, os Chouans € os Cossacos, e os Cavaleiros do Templo. A construgao do Estado requer enqua- dramento, nos dizem os romances historicos: 0 borramento das fron- © romance, o Estado-nacao ot 15. A incorporacao das Terras Baixas escocesas em Waverley e Rob Roy 0 tom de cor das seis propriedades reproduz as designaces da Chart of the World de Clark (1822): © estado selvagem © estado semicivilizado © estado civilizado Estabeleciménto comercial de Osbalaistone linha divis6ria das Terras Altas — fronteira anglo-escocesa Nos romances de Waverley ... ha uma linha temporal cobrindo as trés propriedades, que vai de uma propriedade civiizada [..] a0 longo da estrada do rei para uma propriedade semicwilizada (ou a “propriedade das Terras Baixas”) na base de uma “formidavel barreira topogrsica” e finalmente, por sobre a barreira, para uma propriedade totalmente feu- dal (ou a “propriedade das Terras Altas", o reino de Fergus, Burley ou Rob Roy) [..] O casamento final entre o her6i de Waverley (que tem lacos politicos hanoverianos) e a herdeira jacobita no cruza a barreira topogréfica do romance [..] O que acontece exatamente com 0 espaco das Terras Altas nao fica inteiramente claro, mas sem duvida perdeu 0 aspecto amedrontador que mostra de inicio a0 heroi de Waverley [JA cultura escocesa, sob a forma da propriedade das Terras Baixas, incor- pporada 8 nacdo, mas 0 nacionalismo politico escoces ¢ deixado no pas- sado, do outro lado da barreira topogratica Davo Lescome, Geographies of Progress 52 Atlas do romance europeu teiras regionais (Scott, Balzac, Pushkin) e a submissao dos baluartes g6ticos do velho privilégio feudal. Em Os noivos, o enredo dividido de Manzoni cartografa ambos os espagos ao mesmo tempo, se mo- vendo ora em diregao ao futuro, ora em direcao ao passado: enquan- to Renzo segue em frente para encontrar a revolta urbana, e a produ- Ao protoindustrial do outro lado do Adda, Lucia, em sua viagem muito mais curta, é a Ultima vitima dos conventos e torres do velho poder local (figura 16). 6. Interludio tedrico: |. Sobre espaco e estilo Antes de deixar de lado 0 romance histérico, uma questo meto- dolégica. Ao longo de minha pesquisa, pensei nos mapas literarios como boas ferramentas para analisar o enredo, mas nao muito mais do que isso, e certamente nao o estilo. Ao trabalhar com os romances hist6ricos, porém, comecei a me perguntar. Meu ponto de partida foi um ensaio de Enrica Villari sobre a presenca recorrente de persona- gens cOmicas € “trégico-sublimes” no mundo de Scott?!. E uma idéia que se aplica igualmente bem a Pushkin, ou Manzoni, e que inclui, por sua vez, um componente espacial marcado: porque, mais uma vez, essas personagens nao sao aleatoriamente distribuidas um pou- co por todos os lugares no romance, mas sao em geral encontradas na proximidade da fronteira”. Mas, se os elementos cémicos e tragi- cos tendem a surgir perto da fronteira, isso significa que em Scott, ou Pushkin, as escolbas estilisticas sao determinadas por uma posicao geografica especial. O espaco age sobre o estilo, produzindo um des- vio duplo (em direcao a tragédia e A comédia: em direcao ao “alto” e Enrica Villar, “La resistenza alla storia nei romanzi giacobiti di Walter Scott”, in Storie su storie. Indagine sui romanzi storici (1818-1840). Verona, Neri Pozza, 1985, especialmente p. 16-30. 2 Também tendem a surgir sempre na mesma seqdéncia: para cé da fronteira, personagens cOmicas; para além, as tragicas. Algumas milhas antes das Terras Altas, Cosmo Bradwardine; além da Linha Diviséria das Terras Altas, Fergus. Antes, Pugacev, com 05 trajes de um velho campones ridiculo; ‘além, Pugacev como 0 rebelde amedrontador. Na praca de Notre Dame, Quasimodo, 0 Papa dos Bobos; dentro da catedral, Claude Frollo, 0 mestre feudal implacavel. Na estrada, Don Abbondio; dentro de seus enclaves feudais, a Signora e 0 Inominado. Como é de esperar, as personagens comicas pertencem em geral aqueles espacos que se curvam a0 novo poder central sem muita luta; a5 tragico-sublimes, aos espacos de resistencia mais forte, que sao impiedosamente esmagados. © romance, o Estado-nacao 53 16. O espaco de Os noivos —Aquela terra, além, € Bérgamo? = Sim, senhor. € a cidade de Bérgamo — = E aquela margem também é bergama- nesa? = E terra de S. Marcos = Pois viva S. Marcos! — exclamou Renzo. ‘Ausssanono Manzon, Os noivos — historia de Lucia sate hist6ria de Renzo Em Os noivos, por exemplo, a separagio dos amantes permite a Manzoni escrever duas linhas narrativas muito distintas, que podem ser lidas como dois modos genéricos diferentes, A situa- a0 dificil de Lucia, por exemplo, fornece-Ihe material para uma novela gotica, em que a vitima feminina escapa de uma armadilha para cair em outra ainda mais angustiante, confrontando viles de natureza mais negra e fornecendo a narrativa material para o desenvolvimento de um sistema sémico do mal e da redengo, bem como para uma visdo religiosa e psicolégica do destino na alma Enquanto isso, Renzo vagueia pelo grosse Welt da histéria e do deslocamento de vastas popula- ‘Ges armadas, 0 reino do destino dos povos e vicissitudes de seus governos. Freonic Jameson, O inconsciente politico 54 Atlas do romance europeu 0") daquele registro “realista’, *sério”, médio, que € tipico do embora o romance apresente uma baixa “figuratividade ncesco Orlando), perto da fronteira a figuratividade m; a retorica depende do ao “bai século XIX. (como diria F surge © espaco € os tropos se entrelag: espaco. Aqui, até mesmo os nomes prdprios perdem sua qualidade al (sua “falta de sentido”) e readquirem uma intensi- dade semantica notivel: o Filho de Joao o Grande, 0 Matador de Cervos, 0 Inominado, Sangue Morto, 0 Jardim do Diabo... Nao é por acaso que, em Os Chouans, 0 racionalismo da Paris revolucionaria tenta banir para sempre 0 uso de apelidos bretoes moderna, indi Um continuum espaco-tropo. Eis 0 que ocorre com as descrigdes de Scott — via de regra, implacavelmente analiticas — quando Waverley se aproxima das Terras Altas: A luz [J da qual cada vez mais se avizinhavam, ia-se também tornando cada vez maior, mais viva e resplandecente. Via-se que era uma fogueira, porém ainda nao se podia dlistinguir onde a haviam feito, se em alguma ilha, se em terra firme. A superficie do lago rutilava como a viva chama da fogueira, por tal maneira que Duarte imiaginava ter ante os olhos 0 igneo carro aonde 0 génio ou principio do mal, segundo se 1@ em certo conto oriental, tem por costume subir para cruzar as terras e os mares. [.] Abicava o batel a praia, € j4 entao podia Waverley ver claramente que aquela grande fogueira er: no mister em que estavam ocupados, mais se pareciam com dois diabos do que com duas criaturas humanas; achavam-se eles defronte da entrada da caverna [onde o lago parecia fenecerl; alimentada por montanheses, os qua Waverley, 17 A luz parecia claramente ser uma fogueira... Mas dai o estilo sim- ples é rapidamente descartado: viva chama, igneo carro, génio do (© impacto da fronteira gerou um repentino ros” dos mapas antig« mal, diabos, entrada. salto figural (muito semelbante aos “mons Em seguida, assim que a fronteira foi transposta: > Francesco Orlando. Fara Freudian Theory of Literature [1973], Baltimore e Londres, Johns Hopkins University Press, 1978, especiaimente p. 164 @ ss. + Aqui estdo mais dois exemplos tirados do romance histérico urbano de Hugo (as cdades tém frontel- ras, também, como ira mostrar 0 proximo capitulo): “O pobre poeta lancou os olhos em derredor Estava efetivamente nesse terrivel Patio dos Milagres onde nunca um homem de bem O romance, o Estado-nacao eS Era a caver 4 muito alta, pelo menos a entrada, ¢ estava alumiada com brandes de pinho, que ardiam crepitando e derramavam viva clarids de, € 20 mesmo tempo um cheiro algum tanto forte, mas nao desagra- davel, Além des: car 2 claridade, havia também a de um grande fogo de », 20 redor do qual estavam sentados cinco ow seis montanheses completamente armados, ¢ nas sinuosidades da caverna e viam outros muitos deitados a montao e envoltos nas mantas. Waverley, 1 Brandoes: e nos dizem de que material sao feitos; que tipo de luz produzem (qualificada por dois adjetivos distintos); que tipo de che ro (novamente qualificado por um adjetivo, que também & qualifice do, por sua vez). Nessa seqiiéncia cuidadosa de causas € efeitos, as metaforas foram totalmente expulsas pelos predicados analiticos. A descricto n “objetiva”, naturalmente (nenhuma jamais 0 €), mas interna, expositiva: em vez do impacto emocional de uma realidade desconhecida, sua forma é a de articulacio detalhada. E um exemplo do que Ernest Gellner chamou (metaforicamente) moeda corrente intelectual tinica”: de “ Por moeda corrente intelectual tinica ou comum, quero dizer que todos 0 fatos esto situados dentro de um espaco l6gico continuo tinico |...) © de modo que, em principio, uma Unica lingua descreve o mundo © é internamente unitéria; ou, pelo lado negativo, que nio ha fatos ou rei- nos especiais, privilegiados, isolados, protegidos de contaminacio ou contradicao por outrem, e vivendo em espacos independentes ¢ isola- dos préprios, Era este, naturalmente, o trago mais notivel de visdes pré modernas, pré-racionais: a coexisténcia dentro delas de submundos mitiltiplos, nao acequadamente unidos mas hierarquicamente relaciona- dos, € a existéncia de fatos privile; sacralizados e li de tratamento ordinario. iados especiais, es entrara a semelhante hora; circulo magico [...], hedionda verruga no rosto de Paris: esgoto donde saia todas as manhas e onde se recolhia todas as noites esse rio de vicios, de mendicidade e de vagabundagem, sempre transbordado nas ruas das capitals; colméia monstruosa, onde todos os zangaos da ordem social vinham depor 3 sua colheita; aslo monstruoso...” (O corcunda de Notre Dame, I 6). E, depois, no lado oposto de Paris: “E certo ainda que 0 arcediago tora assaltado duma paixdo singular pela portada simbdlica de Notre-Dame, essa pagina de magia escrita em pedra [..J, pela sua significacao, pelas esculturas da sua fachada, como 0 primeiro texto sob o segundo num palimpsesto numa palavra, pelo enigma que eternamente oferece & inteligéncia” (0 corcunda de Notre Dame, IV. 5) Ernest Gellner. Nation and Nationalism. Ithaca, Cornell University Press, 1983, p. 21. [Ed. bras Nacionalismo e democracia. Brasilia, Universidade de Brasilia, c. 1981] 56 Atlas do romance europeu Um espaco légico continuo: como a dominante analitica da se- gunda descricao de Scott. E observem a propria metéfora ampliada de Geliner: a sociedade como um sistema de espagos-lingua — cuja abertura esta sendo forcada. A construcio do Estado exige enqua- dramento, disse anteriormente: de barreiras fisicas, e dos muitos jar- goes ¢ dialetos que sao irreversivelmente reduzidos a uma Gnica lin- gua nacional. E 0 estilo dos romances oitocentistas — informal, impessoal, “comum” — contribui para essa centralizagao mais do que qualquer outro discurso, Nisso, também, o romance é verdadeira- mente a forma simbolica do Estado-nagio™. Proximo a fronteira, a figuratividade aumenta. Para além da fron- teira, diminui. A geografia realmente age sobre o estilo, nes roman- E nos outros? im e nao. Sim, porque ali também o estilo muda de 0. Mas no, porque muda com o espago — nao com a geografia. Embora as metéforas ainda aumentem proximo & fronteira, esta tiltima raras vezes € uma entidade geogréfica: geral- mente, pertence a uma escala de experiéncia para a qual o termo “geogratia” € totalmente inadequado. As escadarias do gético, a jane- la em O morro dos ventos wivantes, 0 umbral em Dostoiévski, a mina em Germinal: aqui estio algumas fronteiras de grande intensidade metaforica — nenhuma das quais é, contudo, uma fronteira geografica. Mas ha mais. Como o estilo esté de fato correlacionado com o espaco, também 0 espaco estd correlacionado com o enredo: de Propp a Lotman, o ato de cruzar uma fronteira espacial é, em geral, também um evento decisivo da estrutura narrativa. A relagio, aqui, é triangu- lar: tropos, espaco e enredo. E 0 triangulo coloca ainda mais uma ©. Os topos aumentam préximo & fronteira. Mas por qué? Nao é facil encontrar respostas nas teorias existentes sobre a meta- 10 ces historicos Nos outros, acordo com 0 espa fora, porque em geral elas focalizam 0 “que” é uma metifora — en- quanto estou perguntando “quando” ela é, ou “onde”. A metdfora viva, entretanto, num capitulo sobre “a interseccdo das esferas do discurso” (outra metdfora espacial...), oferece um inicio promissor. As F Em geral, © romance nao estimulou a polifonia social (como Bakhtin queria), mas, 20 contrario, a reduziu (como tentei mostrar aqui e ali em The Way of the World e Modern Epic}. A inegavel polifonia do romance russo de idéias 6, nesse aspecto, a excaco, nao a regra, da evolusao novelistica do por acaso gerada, como vimos na figura 11, por uma moldura européia, nao nacional. © romance, o Estado-nacao 57 metiforas se tornam indispensaveis, escreve Ricoeur, quando deve- mos “explorar um campo de referéncia que nao est diretamente acessivel”; € prossegue: Quanto a significado segunda, ativa a um campo de referénc para o qual nao hé caracterizacao direta, para o qual, conseqtientemen- te, se nao pode proceder a uma descricio identificante por intermédio de predicados apropriados. Por nao recorrer ao vaivém entre referéncia © predicagio, © intento seméntico recorre a uma rede de predicados que funcionam ja num ampo de referéncia familiar. FE nesse sentido j4 constituido que é desli- gado do seu fundeamento num campo primeiro de referéncia © projeta- do no novo campo de referéncia para cujo aparecimento da configura co contribui” Uma rede desligada do seu fundeamento e projetada num novo campo... Como Waverley, ou Pierre Gringoire, Ricoeur se encontra em territorio nao cartografado © usa uma metifora seguida de outra Ginclusive a metafora extraordinaria de Novalis — “as teorias sao re- des: s6 aquele que jogar apanhara” — que constitui a epigrafe de Logic of Scientific Discovery de Popper). F. af esta realmente a ques- tao: num espaco novo, precisamos de um “desenho semantico” de nosso entorno (mais uma vez Ricoeur) e apenas as metdforas sabem como fazé-lo. Apenas as metaforas, quero dizer, podem ao mesmo tempo expressar o desconhecido que devemos enfrentar e, contudo, também conté-lo. Expressam-no, “dizem"-no, por meio da estranhe- za de sua predicagdo — deménios nas mandibulas de um monstro, patio de milagres, palimpsesto de pedra —, que soa como uma espé- cie de alarme (algo € muito desconcertante aqui). Mas, como as meta- foras usam um “campo familiar de referéncia”, também dao forma ao desconhecido: o contém e o mantém de algum modo sob controle” * Paul Ricoeur, The Rule of Metaphor [1975]. Toronto University Press, 1979, p. 298-9. [Ed. port.: A metafora viva, Trad. Joaquim Torres Costa e Antonio M, Magalhaes, Porto, Res, 1983, p. 452.) # Sequindo Ricoeur, estou re limitando ao pape! cognitive das metaforas: mas sua fungao emacio- nal é igualmente relevante (afinal de contas, descrever as pessoas como deménios e as vieles como esgotos quase nunca @ um desenho desapaixonado). Arnaud e Nicole mostraram isso de forma inesquecivel em Logique de Port-Royal: “As express6es figurais significam, além da coisa principal, (© movimento e a paixdo do falante, e marcam ambos em nosso espirito, enquanto que as expres s6es simples indicam apenas a verdade nua” (Antoine Arnaud e Pierre Nicole, La Logique ou /'art de penser, 1662-1683, parte 1, cap. 14). A fung3o emocional da metafora esta ela propria intima- mente correlacionada ao espaco: & beira de um campo desconhecido, nosso desenho semantico 58 Atlas do romance europeu Ai esta a razAo por que as metaforas sao tao freqiientes proximo a fronteira — e tao infreqiientes, ao contrario, uma vez que esta Gltima € ultrapassada. Para além da fronteira, elas no sao mais indispen: veis: podem ser substituidas por predicados analiticos, “apropria- dos”, E como a maioria dos romances gasta a maior parte do tempo dentro desse ou daquele espaco, e nao na divisa entre eles, torna-se igualmente claro por que as metaforas desempenham um papel tao marginal nos romances. Ensinaram-me a ler romances, um aluno de Cambridge me disse certa feita, virando as paginas e esperando pelas malditas metaforas. Elas nunca, jamais apareceram. 7. Tomando a estrada principal Jane Austen € 0 “Amago” do Estado-nagao. Romances hist6ricos e fronteiras. No préximo capitulo, romances urbanos (€ no préximo li- vro, quem sabe, romances regionais). O romance, o Estado-nagao, diz © titulo desse capitulo: € como montar um quebra-cabecas, uma pega, um espaco de cada vez. E agora, com um salto para tras, de volta ao comeco do romance europeu moderno ~ estradas (figura 17). Tudo estava deslizando para o Sul, escreve Pierre Chaunu a respeito da Espanha seiscentista, e a picaresca certamente Concor- da, Castela funciona aqui como uma espécie de grande tunel que, entre Salamanca e Alcala de Henares, retine todas as personagens principais e as canaliza em direg4o a Madri, Toledo, Sevilha (ao passo que as figuras menores bosquejam a periferia da Espanha: Ledo, Asttirias, Viscaia, Aragio...). Esses romances dao as costas para ‘os peregrinos do Caminbo de Santiago para tomar estradas muito mais mundanas, apinhadas e ricas. “A vit6ria da mula, no século XVI, nao é contestivel”, escreve Braudel em O Mediterraneo”; € verdade, e, com esse animal modesto € teimoso — que também é, lembrem-se, o melhor amigo de Sancho Panga -, a narrativa euro- eve sagerir no apenas 0 que € o desconhecido ~ mas o que ele & para nds. "Nao julgamos as coisas pelo que s4o em si mesmas”, escrevem Arnaud e Nicole, “mas pelo que séo em relacao a 6s: € a verdade e utilidade sao para nds exatamente a mesma coisa” (op. cit. parte 3, cap. 20). 2» Braudel, The Mediterranean and the Mediterranean World in the Age of Philip I, op. cit., p. 284 [p. 318 na edico portuguesa} © romance, o Estado-nacao 59 17. Romances picarescos espanhéis durante os séculos XVI e XVII A largura da estrada corresponde a freqdéncia com que os picaros viajam nela. O mapa também inclui a viagem de Dom Quixote (DQ), que entretanto esta procurando aventuras cavaleirescas e Portanto nunca se aproxima das estradas prosaicas, muito trilhadas, da picaresca. La picara Justina, que é apenas um dos romances a terem uma protagonista feminina, se limita a um espaco menor e diferente do resto: limitacao espacial que lembra a viagem curta de Lucia em Os noivos (figura 16) e que retornaré no Bildungsroman europeu do século XIX. Santiago de ‘Compostela On, — Romances picarescos — Dom Quixote © Caminho de Santiago Romances incluidos: GA Mateo Aleman Guzman de Alfarache, | € 1! \T Anénimo Lazarillo de Tormes PJ Lopez de Ubeda La picara Justina RC Miguel de Cervantes Rinconete y Cortadilo ‘Sw Francisco de Quevedo The Swindler No romance, os encontros ocorrem freqdentemente “na estrada”. Ela © lugar preferido dos encontros casuais. Na estrada (“a grande estra- da") cruzam-se num tinico ponto espacial e temporal os caminhos espa~ co-temporais das mais diferentes pessoas, representantes de todas as classes, situac6es, religides, nacionalidades, idades. Aqui podem se en- ontrar, por acaso, as pessoas normalmente separadas pela hierarquia social e pelo espaco, podem surgir contrastes de toda espécie, choca- rem-se e entrelacarem-se diversos destinos. Muxiwa. Baxi, Formas de tempo e de cronotopo no romance 60 Atlas do romance europeu péia muda para sempre. Mulas contra navios, poder-se-ia dizer (e contra os corcéis aristocraticos): a maravilha do mar aberto, com suas aventuras extraordinarias, é substituida por um avango lento e regular, cotidiano, cansativo e muitas vezes banal. Mas este é exata- mente o segredo do romance moderno (do “realismo”, se quiserem): episddios modestos, com um valor narrativo limitado — e, contudo, nunca sem algum tipo de valor. No inicio de Guzman de Alfarache, nas primeiras 15 milhas, lemos sobre trés tavernas, dois encontros na estrada (um almocreve, dois padres), um caso de identidade errada, duas intervencdes por parte dos guardas e trés embustes. Em 15 milhas... Nas estradas, mulas; e, a intervalos regulares (as 15-20 milhas de um dia de viagem), tavernas: onde se podem encontrar traba lho, sexo, jogo, comida, religido, pequenos crimes, entretenimento. Todas as partes da Espanha picaresca terminam, assim, se parecendo (em todos os lugares, almocreves, taberneiros, guardas, padres, prostitutas, jovens fidalgos, jogadores, ladrdes...); mas sao também sempre um pouco diferentes, porque as doze personagens bisicas sao embaralhadas a cada nova parada, suas combinacgoes mudam, 0 romance pode continuar sem perder interesse. E entao, a regula- ridade do padrao € avivada pelas historias que se ouvem na estra- da e os embustes que ocorrem ao longo dela, num sistema narra- tivo que necessita de muito pouco combustivel para prolongar seus enredos. E a formula do sucesso moderno: baixo custo, pro- duc’o confiavel. Um pais de estradas: onde estranhos se encontram, caminham juntos, contam um ao outro a historia de sua vida, bebem do mes- mo cantil, dividem a mesma cama... E a grande realizagao simb6o- lica da picaresca: definir a nagio moderna como aquele espago onde estranhos nunca sio inteiramente estranhos — e, em todo caso, ndo permanecem como tal por muito tempo. Em Gil Blas, um classico tardio do género, a longa viagem do herdi pela Espanha se transforma numa verdadeira corrida de revezamento, em que as personagens se encontram e se separam, se encontram novamen- te, se separam mais uma vez — mas sempre sem grandes emocdes (figura 18). Diferentemente dos reconhecimentos classicos, os reen- contros de Lesage nunca sao dramAticos: nao ha pais agonizantes, ou meninas raptadas de seus bergos; apenas amigos, ou compa- © romance, o Estado-nacao 61 nheiros de viagem, ou amantes oca ionais. Essa rede de episédios agradaveis, nao problematicos, define a nacdo como 0 novo esp co de "familiaridade”, onde os seres humanos se re-conhecem uns aos outros como membros do mesmo grupo amplo. Serenamente, sem tragédias. As tragédias ocorrem em outra parte, como nas narrativas interpoladas da figura 19. Ha muita Espanha, aqui também; mas incli- 18. Gil Blas ‘Como © mapa indica, a maioria dos primeiros encontros ocorre na estrada ou em cidades muito Pequenas, enquanto as personagens se encontram por acaso em um punhado de cidades gran- des — Valencia, Granada, Madri ~ que aparecem desse modo como verdadeiros concentrados da nacéo espanhola. Como sempre ha um lapso de tempo entre o primeiro e o segundo encon- tros, ¢ 0 simples fato de ver alquém novamente encoraja longas narrativas dos anos interme- diatios, 0 mapa comprova a intuicao de Benedict Anderson de que o romance pode ser visto como “uma glosa complexa da palavra ‘entrementes’” © Primeiro encontro @ Encontro posterior Valencia Granada‘ Ora, eis-me fora de Oviedo, na estrada de Penafior, no meio do campo, senhor das minhas ac6es, de uma mula péssima e de qua- renta bons ducados, sem contar alguns mitidos, que furtei 20 meu honradissimo tio. A primeira coisa que fiz foi deixar andar a mula a seu gosto; [...] Atanraene Lesace, Gil Blas, |. 2 62 Atlas do romance europeu nada em direcao a costa (e a Portugal); e depois o Mediterraneo, o Norte da Africa, a Italia, a Grécia, trés ou quatro ilhas, meia duzia de portos... Esse cendrio muito mais amplo ainda € governado — depois de quinze séculos! - pelas convengdes do romance helenistico (figura 20): 6 um mundo de tempestades e naufragios; de guerras, traigdes, morte. De inseguranga pessoal, particularmente: onde se pode ser facilmente escravizado pelo inimigo — e a liberdade das pequenas escolhas cotidianas, tao tipica da estrada picaresca, € esmagada pelo poder do passado. O romance e 0 Estado-nacao. Que assim seja. Mas as interpolagd “mediterraneas” de Lesage mostram que seu encontro estava longe de ser inevitavel. O romance nao encontrou simplesmente a na¢ao como um espaco ficcional pré-formado, dbvio: ele teve de arrebata- lo de outras matrizes geograficas que foram igualmente capazes de gerar narrativas — e que de fato se entrechocaram ao longo do sécu- lo XVIII. Em um extremo, géneros supranacionais, como as Robin- sonades, ou os contes philosophiques, no lado oposto, histérias de amor locais, como Pamela, ou Werther; e numa posicao interme- 19. O Mediterraneo de Lesage © cenario de narrativas intercaladas © romance, o Estado-nacao 63 didria, nacional/cosmopolita, a maioria dos outros textos — inclusi- ve, digamos, Moll Flanders, Manon Lescaut, Wilbelm Meister e 0 proprio Gil Blas. De acordo com a pesquisa de Angus Martin sobre © romance francés, essas diferentes opgdes espaciais mais ou me- 20. O cenario geografico dos romances helenisticos Um mapa da regio mediterranea que mostre as rotas do heréi e da heroina de um romance inevitavelmente traz a mente o mapa da Biblia escolar das viagens de So Paulo. Aqui est mapeado © Conto de Efeso de Xenofonte. A linha continua (—) indica a viagem conjunta do herdi e da heroina de Efeso, via Samos e Rodes, para algum lugar no meio do mar, onde seu navio é atacado Por piratas. Da sede dos piratas em Tiro, a heroina (linha pontilhada:-----) é levada a Antiéquia, vendida a traficantes de escravos, naufragada perto da costa Cilicia, salva no ultimo instante de um novo casamento em Tarso, levada de volta a Alexandria, a Ménfis e Nilo acima até a fronteira etiope; depois de volta a Alexandria e pelo mar a um bordel em Tarento. Enquanto isso, 0 herdi (linha quebrada: - - ---) a esta procurando desesperadamente, as vezes préximo de seu encalco, 2 vezes perdendo completamente seu rastro. Finalmente, eles se reinem em Rodes e voltam para casa em Efeso. Tuomas HAcs, A novela na Antiguidade TRACIA MAR NEGRO. Re mm ACEDEN I Bizancio (Constantinopla) Tessalonica - . ‘Atenas Corinto rota conjunta do — herdi e da heroina rota da heroina == rota do herdi 64 Atlas do romance europeu nos se equilibram por um tempo bem longo, e € somente no final do século que a contracio do espaco narrativo se torna finalmente visivel (figura 21). Visivel, no romance. Mas as narrativas curtas permanecem em grande parte indiferentes 4 nova geografia simbélica e a assimetria interna de Gil Blas (romance “espanhol” e contos “mediterraneos”) 21. Cenario geografico dos romances franceses 1750-1800 Na segunda metade do século XVII, o papel narrativo da Franca e da Europa permanece mais. ‘ou menos 0 mesmo, enquanto o da Gra-Bretanha dobra e o dos paises ndo europeus decresce ligeiramente. A mudanca mais radical, entretanto, diz respeito a cenarios imaginarios ou utopi- cos, que em cingienta anos caem de 13 para 2 por cento. Somadas, as narrativas localizadas na Franca e na Gr8-Bretanha aumentam de 45 por cento (em 1751-1760) para 58 por cento (1791-1800) e aquelas situadas na Europa, de 68 para 85 por cento: dois sinais da contracao progressiva da geografia novelistica. % 2) FRANCA 40 36 2 28 24 20 16 ' y 1751-1760 1761-1770 «1771-1780 1781-1790 1791-1800 % ) EUROPA (excluidos Franga e Reino Unido) 25 20 15 10 5 of 1751-1760 1761-1770 1771-1780 1781-1790 1791-1800 1751-1760 1751-1760 1751-1760 © romance, 1761-1770 1761-1770 1761-1770 0 Estado-nacao ©) FORA DA EUROPA 171-1780 ) UTOPIAS 171-1780 ©) REINO UNIDO 171-1780 1781-1790 1781-1790 1781-1790 1791-1800 1791-1800 1791-1800 65 66 Atlas do romance europeu reaparece nas paginas de um famoso periédico do final do século XVIII, The Lady’s Magazine: aqui, os romances sao situados quase inteiramente na Europa (Gra-Bretanha, Franca, Alemanha, Itilia, Hungria), ao passo que os contos e “casos” sao freqiientemente localizados no Oriente Médio, india, China e nas Américas (figuras 22-24). Como sempre, a morfologia € uma raz4o poderosa para a geografia ficcional: 0 romance se inclina para a representagao do cotidiano e prefere uma realidade préxima, bem conhecida; as narrativas curtas medram no estranho, no “inaudito” (Goethe) e ficam bem a vontade em terras remotas e fabulosas, onde uma 22. The Lady’s Magazine 1798-1802, romances serializados ox Sp ex ‘+ 1-30 colunas © mais de 80 colunas 5 As 171 colunas localizadas na Gra-Bretanha, na figura 23 (geralmente, num interior “ndo especi- ficado”), s40 uma excecdo visivel a0 padréo recém-delineado. Quase todas elas S40 historias sen- timentais descomplicadas (amor & primeira vista, amor de infancia reaceso na juventude, a felicida- de restaurada pela proximidade com a natureza etc.), e me pergunto se esses materials narrativos podem ter algo que ver com o cenario geografico. © romance, o Estado-nacao 23. The Lady’s Magazine 1798-1802, narrativas curtas sp ~~, 24. The Lady’s Magazine 1798-1802, casos xy , \s * 1-10 colunas © 11-30 colunas © 171 colunas © 1-10 colunas © 11-40 colunas @ mais de 40 colunas 67 68 Atlas do romance europeu falta total de informagao genuina (figura 25) nao coloca grilhdes a imaginagao. Esse movimento para leste é um efeito de longo pra- zo, uma homenagem tardia a cultura hindu e rabe e a sua in- fluéncia formativa nas histérias curtas européias. Voltarei a isso no terceiro capitulo. 8. "Um grande e portentoso rio, semelhante a uma imensa serpente desenrodilhada” A picaresca: estradas que se cruzam, se bifurcam, convergem em Toledo ou Sevilha. Mas fora da Europa a configuragado da viagem muda abruptamente, como por exemplo nos romances coloniais da figura 26. Trata-se de uma imagem familiar para a maioria dos euro- 25. The Lady’s Magazine 1798-1802, “noticias estrangeiras” a5 Nao mostrados: © Alexandria * Estocoimo + 1S mencoes ‘* Sa Domingo © 6-20 mencoes Sse a © 21-40 mencoes * Sao Petersburgo © Filadélfia @ 82 mencdes © romance, o Estado-nacao 69 26. Romances coloniais romances briténicos — romances franceses Romances incluidos: A Pierre Benoit Atlantide BL__Louis-Charles Royer The Black Lover CSB Jules Verne Cinco semanas em also CT _ Joseph Conrad O coracéo da treva MRS H. Rider Haggard As minas do rei Salomao She H. Rider Haggard She SN Pierre Loti A Spahi's Novel SW. Paul e Victor Margueritte The Subterranean Water T _ Edgard Rice Burroughs Tarzan dos ‘macacos UTF Quida Under Two Flags Ora, quando eu era crianca, tinha paixdo pelos mapas. [..] Nessa época, havia muitos espacos vazios sobre a Terra e, quando deparava no mapa ‘com algum deles que se mostrasse particularmente atraente (todos, na verdade, se mostram assim), colocava o dedo sobre ele e dizia: “Quando crescer, irei até ai". [...] estive em alguns deles e... bem, nao é disso que vou falar. Ainda havia um deles, porém — 0 maior de todos e, por assim dizer, o mais deserto - pelo qual eu sentia poderosa atracdo. [..) Havia no entanto, ali, um rio em especial ~ um grande e portentoso rio que se podia ver no mapa semelhante a uma imensa serpente desen- rodilhada: a cabeca no mar, 0 corpo em repouso ziguezagueando ao lon- go de um vasto teritério e a cauda perdendo-se nas profundezas do inte- rior. Ao contemplar 0 mapa numa vitrine, ele fascinou-me como um réptil 2 um pdssaro, um pequenino passaro tolo. Joseer Conran, O coracao da treva 70 Atlas do romance europeu peus: um porto, uma guarnicao, um entreposto ao longo da costa: um daqueles “estabelecimentos de orla”, como a geografia do colonialismo os denomina, a partir dos quais a conquista européia comegou. O ponto final é também o mesmo: um lugar isolado no interior da Africa, desligado de todas as outras rotas, na fronteira do desconhecido (“os espacos em branco sobre a Terra” de Conrad), ou de terras inabitaveis (a floresta, o deserto). E, finalmente, a “configu- ragao” da viagem é a mesma: a linha Gnica, unidimensional que foi o signo-padrao das exploracées africanas nos mapas. Uma linha isolada, sem desvios, sem bifurcages laterais. Dos romances discutidos até agora, nenhum poderia ser visualizado des sa maneira. De Longbourn a Pemberley, a estrada de Elizabeth esta longe de ser simples: ela faz supor Londres, Kent, uma viagem (per- dida) ao distrito dos Lagos; a propria Elizabeth poderia terminar numa bifurcacao “lateral” do enredo — Brighton e depois Newcastle, no exilio com Wickham, Waverley poderia facilmente achar-se com o principe Charlie (que esta enterrado em uma igreja grande e feia em Frascati) e Gil Blas, acabar perdido no mar, como tantos em Lesage; quanto aos romances urbanos do préximo capitulo, a multiplicidade de caminhos possiveis - de cruzamentos e bifurcagées — € um de seus tracos distintivos. Mas os romances coloniais nao tém bifurcagdes. Tampouco tavernas bem iluminadas, ou oficiais brilhantes, ou castelos pitores- cos, que possam induzir alguém a desviar do caminho prescrito. Nessas hist6rias — assim como em sua imagem arquetipica: a expe- dicdo que se move lentamente, em fila nica, em diregao ao hori- zonte — h4 apenas um movimento linear: para diante ou para tras. Nao ha desvios, nem alfernativas ao caminho prescrito, mas s6 obstaculos — e, portanto, antagonistas. Amigos e inimigos. De um lado, os homens brancos, seu guia, a tecnologia ocidental, um ve- Iho mapa descolorido. Do outro... Do outro, ledes, calor, vegetacao, elefantes, moscas, chuva, doen- cas — € nativos. Todos misturados e, no fundo, todos intercambiaveis em sua fungao de obstaculos: todos igualmente desconhecidos e amea- cadores. Confusio desdenhosa do natural e do humano, que ex- pressa a mensagem final dos romances coloniais: os africanos sa animais. O texto nem ao menos precisaria dizer isso (embora quase sempre o faca, até mesmo em Conrad): 0 enredo linear é uma O romance, o Estado-nacao 71 modalizacao tao forte do espacgo que os leitores nao podem senao “ver” esses seres humanos como uma raca de (perigosas) bestas. A ideologia e a matriz narrativa, aqui, sto verdadeiramente uma tnica e mesma coisa. Uma narrativa linear. Mas como ela surgiu? Os trés diagramas da figura 27 sugerem uma possivel resposta. A experiéncia européia do espago africano comeca com os “estabelecimentos de orla” (fase A), que sao entao rapidamente ligados (fase B) aquelas 4reas inte- riores ricas naquelas matérias-primas (inclusive seres humanos) que 0 poder colonial esta ansioso por obter. E, basicamente, isso é tudo. Um regime colonial pode chegar a préxima fase (C: desenvolvi- mento de “alimentadores” laterais ao longo da linha principal), mas dificilmente consegue muito mais. O colonialismo almeja redirecionar 27. Uma seqiién transportes tipico-ideal do desenvolvimento de sistema de bbb dbo dad 4 Od NAOdd OA B Portos espalhados Linhas de penetracao e Desenvolvimento de concentracao de portos _tributarios ‘Tocavamos, as vezes, algum posto situado junto a margem, pendu- rado a orla do desconhecido, e os homens brancos que se precipi- tavam dos barracdes em ruina, numa efusio de alegria, surpresa boas-vindas, pareciam muito estranhos ~ era como se um feitico os ‘mantivesse ali cativos. A palavra "marfim" ressoaria no ar por um momento e novamente partiriamos para o siléncio, ao longo de estirOes desertos, de ermas sinuosidades, entre as altas muralhas de nosso enovelado caminho. |. A noite, por vezes, o retumbar de tambores atras da cortina de arvores chegava ao rio e ali sustinha- se tenuemente, [...] Josée Conran, O coragéo da treva 72 Atlas do romance europeu a economia local para fora: para o mar, para a metropole, para 0 mercado mundial. Uma boa distribuigao interna literalmente nao Ihe diz respeito. Se os romances coloniais mostram tais enredos geograficamente unidimensionais, entao, a razio nao € que a Africa falte um sistema de estradas; de modo algum, as estradas existiram ali durante séculos (figura 28). Mas essa rede nao serve aos interesses europeus e, desse modo, também elude a percepedo européia da Africa. Pior. Antes de 1800, escrevem Knox e Agnew, a Africa possui uma “estrutura espa- cial pré-colonial [...] de redes inter-regionais de comércio”. Mas, apos essa data e especialmente apds 1880: 28. As rotas transaarianas Observem como este intricado sistema de comércio nao tem equivalente nos romances colo- niais da figura 26 situados na mesma area (Under Two Flags, The Subterranean Water, Atlantide). Tipoli Mercadores e viajantes muculmanos atravessavam o Sara com carava~ nas de camelos, partindo dos depdsitos comerciais em uma das extremi- dades do deserto, como Sijilmassa, sul dos montes Atlas no Marrocos, € Walata, no Mali. Artigos de luxo e sal — essencial @ alimentacao nos palses tropicais — eram levados para a Africa Negra do sul. Em troca, artigos de couro, escravos e ouro iam para o norte. Grorrney Barractoucn (org,), Atlas da historia do mundo © romance, o Estado-nacao 73 essas redes sao arrebentadas & medida que a penetragao capitalista a partir da costa reorientou as economias regionais para lacos externos de longa distancia. As velhas redes inter-regionais foram dissolvidas tanto pela imposicao de novas fronteiras politicas que tinham pouca relac4o com elas como pela construgdo de ferrovias para servir a no- vas plantacdes, empresas mineiras ¢ propriedades de colonizadores.”" Penetrar; tomar; partir (e, se necessario, destruir). E a logica espa- cial do colonialismo; duplicada e “naturalizada” pela légica espacial do enredo unidimensional. E depois, no final da viagem (com exce- ao de O coragdo da treva), nao encontramos matérias-primas, ou marfim, ou seres humanos para serem escravizados. Em lugar dessas realidades prosaicas, uma entidade de conto de fadas — um “tesouro” — em que os lucros sangrentos da aventura colonial sao sublimados em um objeto quase auto-referencial, estético: pedras limpas, brilhantes — diamantes, se possivel (como em As minas do rei Salomdo). Ou, en- tao, um amante enigmatico: uma espécie de Dracula da floresta, que, em dois textos muito populares (She, Atlantide), é realmente um ser sobrenatural. Ou, ainda, e mais tipicamente, no final da viagem esta a figura do Europeu Perdido, que, em retrospecto, justifica a historia inteira como um caso de legitima defesa. O Congo, o Haggar, a Africa central, a terra dos zulus, os postos avancados do Saara: nesse conti- nente onde abundam os prisioneiros que anseiam ser libertados, a conquista ocidental pode ser reescrita como uma genuina liberacdo, com uma inversio de papéis (uma “ret6rica da inocéncia”, como a chamei em Modern Epic) que é possivelmente 0 maior truque da imaginacgao colonial. E inocéncia — isto é, 0 desejo culpado de parecer inocente — é © que vem a mente diante da figura 29. Encontrei-a por acaso, num ntimero do Journal of Geography do ano de 1974, em um artigo intitulado “Um jogo da colonizacao européia na Africa”. Como 3 Paul Knox e John Agnew. The Geography of the World Economy [1989]. Londres, Nova York, Edward Arnold, 1994, p. 84-5. © A procura do Europeu Perdido pode ter sido sugerida pela historia de Stanley-Livingstone: talvez tenha existido primeiro na realidade e s6 depois na ficg30. Por outro lado, suspeito que a figura de Livingstone tenha tido um apelo simbdlico tao excepcional porque reavivou um esteredtipo de conto de fadas (0 “rapto para um outro reino" de Propp; embora, naturalmente, Livingstone n&o tivesse sido raptado), transpondo-o para 0 solo africano, Se isso for verdade, entao um acontecimento real foi “usado” por uma convencao ficcional para fortalecer seu poder sobre a imaginacao européia 74 Atlas do romance europeu se pode ver, € um jogo de tabuleiro projetado como um auxilio educativo, uma espécie de “Monopdlio”, em que os cinco jogado- res (Inglaterra, Franca, Bélgica, Alemanha, Portugal”) jogam o dados, se movimentam, compram os diversos territ6rios (0 mais caro € o cabo da Boa Esperanga), tiram as cartas do “Destino” e da “Fortuna” (a pior, um “levante nativo”; a mais afortunada, um pre- sente de um “filantropo norte-americano”). Acrescentarei apenas isso: para vencer, € preciso construir nao casas e hotéis, mas esco- las e hospitais. 29. Jogando com a Africa woe | —— “Um jogo da colonizacao européia na Africa” O romance, o Estado-nacao 75 9. Vilarejo, provincias, metropole Estradas e cidades, na picaresca; estradas e cidades, no Bildungs- roman. Mas 0 centro de gravidade mudou. Na Espanha de Lazarillo e seus sucedaneos, a énfase recai sobre a estrada, onde a vida é livre e interminavelmente aberta, enquanto nas cidades acaba-se como um servo, com 0 estémago vazio ainda por cima. Na evolugao do Bildungs- roman, ao contrario, a estrada desaparece passo a passo € o primeiro plano € ocupado pelas grandes capitais — Londres, Paris, Sao Peters- burgo, Madri... (figura 31). Cuidado, meu filho, implora a mae do her6i em A Common Story, de Goncharov: “...] tenha cuidado, agora que vocé esta partindo para um pais estrangeiro...” E o filho: “Mae, que pais estrangeiro? Estou indo para Sao Petersburgo!” Ora, para o Bildungsroman, ambos estao certos: a cidade grande é de fato um outro mundo, se comparada ao resto do pais — mas a narrativa a vincularé de uma vez por todas as provincias, construindo-a como a meta natural de todos os jovens de talento. Em torno das grandes capitais, um cenario cosmopolita se abre, onde a ambicio da moderna Bildung — Lydgate, que vai estudar patologia no pais do grande Bichat — se entrelaca com a geografia estética da Grande Viagem — Londres, Paris, Suica, Roma, o Reno, os Pafses Baixos... (figura 32), E uma nova articulagao do espaco, cujos elementos mais signi- ficativos sio mapeados na figura 30. A disparidade de idade, em primeiro lugar: os velhos no vilarejo, os jovens na cidade. Assimetria com base na realidade, naturalmente (a urbanizacao € principalmen- te para os jovens), e através da qual o Bildungsroman redefine a nao-contemporaneidade dos Estados-nacdes europeus como um fato Jisiologico — deixando para tris as tensdes patolégicas dos romances histdricos. Entre Angouléme e Paris, ou Rochester e Londres, ou Fratta e Veneza, a diferenga nao é mais de civilizacgdes, mas de moda 30. Os trés espacos do Bildungsroman europeu Vilarejo Provincias| Capital velho Ss jovem familia _ desconhecido = escola, comércio, lei, politica, financas, literatura, funcionalismo teatro, arte, jornalismo cinco personagens _ seis personagens. quinze personagens significativas 76 Atlas do romance europeu moda, essa grande idéia metropolitana, pensada para os jovens (e por eles); esse motor que nunca para e faz as provincias se sentirem velhas, feias e enciumadas — e as seduz para todo o sempre. A oposicao velho/novo se sobrep6e a esta outra: familia e estra- nhos. No vilarejo, nao apenas as maes (ou mies substitutas) esto sempre presentes, mas cada relacionamento importante assume a forma de um laco de familia: as antigas namoradas sao figuras fraternas (a Pequena Emily, Laura em Pendennis, Biddy, Pisana, Anna em Keller, Laure em Flaubert), enquanto os antigos amigos sao como velhos irmaos (Werner, Fouqué, David Sechard, Deslauriers). Na cidade gran- de, porém, os herdis do Bildungsroman se transformam da noite para o dia de “filhos” em “jovens”: seus lacos afetivos nao sao mais verticais (entre geragdes sucessivas), mas horizontais, dentro da mes- ma geracio. Sao atraidos para aqueles rostos desconhecidos mas congeniais, vistos nos jardins, ou no teatro; futuros amigos, ou rivais, ou ambos, que se olham por detras de jornais, ou passam 0 cesto de pio em Flicoteaux - que € 0 lugar mais lindo do mundo. E 0 universo da “socializagao secundaria’; do trabalho, resumido na terceira linha da figura 30. Nas provincias, pode-se ser tutor (Julien Sorel), comerciante (Wilhelm Meister; Carlo Altoviti); funcionario pti blico (Carlo novamente; o grande Heinrich). Na cidade, além do cargo ancien régime de Julien como secretario do marqués de la Mole, as escolhas sao as financas (Frédéric Moreau), a politica (Pendennis, Frédéric mais uma vez), a lei (Pip, David Copperfield), 0 teatro (Wilhelm 31. O Bildungsroman europeu ‘Alguns lugares deste mapa so em grande parte hipotéticos: as cidades de Meister e Serlo (mapeadas aqui como Frankfurt e Hamburgo) em Wilhelm Meister; a cidade do aprendizado artistico de Heinrich em The Green Heinrich (Frankfurt novamente), enquanto o final de Wilhelm Meister e a abertura de A Common Story nao sao especificados. Essa indeterminacao geogra~ fica pode muito bem estar relacionada a0 componente utdpico do Bildungsroman, que é especialmente marcado na obra de Goethe. Nos romances que se situam na Franca, Gra-Bretanha, Russia e Espanha (isto €, em Estados- ago estabelecidos ha muito tempo), a trajetoria do herdi em direcio a capital é geralmente muito direta; nos textos alemaes, suicos e italianos, a falta de um centro nacional evidente produz, ao contrario, uma espécie de perambulacao irresoluta (que é entretanto também uma maneira de “unificar” uma nacdo que ainda nao existe). Nesses romances (e s6 aqui) também encontramos diversos “castelos”, mas esses signos residuais do velho poder feudal se tornaram um simples interludio tolo em Goethe, um sonho de curta duragao em Keller e uma memoria da’infancia (mais tarde literalmente apagada) em Confessions of an Italian. © romance, 0 Estado-nacao 77 Finalmente, nos dois textos escritos , Por e sobre mulheres, a viagem para a capital ou nao ocorre ane Br), ou quase nao desempenha papel nenhum (Midolemarch), 0 passo que as propri- edades isoladas e as instituicdes locais (igreja, escola) adquirem grande importancia. A assimetria entre 0 espaco do herdi e o da heroina é a mesma das figuras 16 e 17 a: 7 SG p . : DF = © vilarejo © Ccidades, provincias Ml capital & castelo Romances incluidos: C Wan Goncharov A Common Story Cl__ Ippolito Nievo Confessions of an Italian DC Charles Dickens David Copperfield DFI Juan Valera Doctor Faustino’s illusions ES Gustave Flaubert Educacao sentimental GE Charles Dickens Grandes esperancas GH Gottfried Keller The Green Heinrich JE Charlotte Bronté Jane Eyre IP Honoré de Balzac ilusdes perdidas Mi George Eliot Middlemarch P william Thackeray The History of Pendennis SG Gomez de Bedoya The School of the Great World VN Stendhal O vermelho e 0 negro WM Wolfgang Goethe O aprendizado de Wilhelm Meister 78 Atlas do romance europeu 32. O cenario internacional do Bildungsroman europeu ‘Onde © papel simbdlico da capital nacional é mais forte (como na Franca), as viagens ao exterior tém uma funcao periférica (O vermelho e o negro, Educaco sentimental) ou estao completamente ausen- tes (lusdes perdidas). Ao contrario, as viagens ao estrangeiro desempenham papel importante em The School of the Great World, Confessions of an italian e particularmente em Middlemarch, em que 0 fencontro com a Europa transforma em profundidade as trés personagens centrais, tornando-as impa- Cientes com a estreiteza da vida provinciana. Por outro lado, os protagonistas do Bildungsroman raras ‘vezes embarcam em viagens de longa distancia e a viagem para fora da Europa é, em geral, deixada para seus alteregos (Lothario, Judith, St. John Rivers). As Gnicas excecdes S80 Pip (que, entretanto, esté seguindo os passos de um amigo, e retorna a Inglaterra para o final do romance) e Frédéric Moreau (mas nao fica claro se ele realmente deixa a Europa; de qualquer modo, ele vai como turista e esta de volta em trés linhas). A reluténcia do Bildungsroman em deixar o velha.mundo foi expressa de modo definitivo por Goethe, nas famosas palavras de Lothario sobre o campo alemao: “Aqui, ou em nenhu- ma outra parte, esta a América!” Julien (VN) cafe, tomate eee Pendennis P) Lydgate (Mi) Federico (56) will David Copperfield (DC) ‘Lothario (WM) Lydgate Mignon (WM) (Mi) © isi de Carlo a ‘© primogenito de Carloxch) Frédéric (E5)? Estados Unidos: India Brasil: Cairo: Lothario (WM); St. John Rivers UE) 0 terceiro filho de Carlo (Cl) _Pip, Herbert (GE) Judith (GH) Romances incluidos: Cl Ippolito Nievo Confessions of an Italian P_—_ William Thackeray The History of DC Charles Dickens David Copperfield Pendennis GE Charles Dickens Grandes esperancas VN__ Stendhal O vermelho e 0 negro GH_ Gottfried Keller The Green Heinrich ES Gustave Flaubert Educacao sentimental JE Charlotte Bronté Jane Eyre SG Gomez de Bedoya The Schoo! of the IP Honoré de Balzac /lusdes perdidas Great World Mi George Eliot Middlemarch WM Wolfgang Goethe O aprendizado de Wilhelm Meister © romance, o Estado-nacao 79 Meister), a pintura (Heinrich), e, naturalmente, o jornalismo e a litera- tura (Federico, em The School of the Great World, Lucien de Rubempré, David Copperfield, Pendennis, Doctor Faustino}. Ilusdes perdidas, no fundo, diz tudo: para as provincias, a infindavel, pesada tarefa de fisi camente produzir papel; para a capital, 0 privilégio de cobrir aquelas belas paginas brancas com idéias fascinantes (¢ bobagens brilhantes’ A divisao de trabalho que apenas uma grande cidade pode se permitir da asas & imaginacdo, encorajando uma inventividade que afeta até mesmo as carreiras burguesas e acha sua maior expressio nas discus- sdes apaixonadas da juventude da metr6pole: a andlise que Wilhelm faz de Hamlet, as “ligdes” de jornalismo de Lucien, as estratégias pinturescas de Heinrich, a filosofia politica de Pendennis... Essas discussOes, com seus numerosos participantes, se desenvol- vem naquela esfera publica onde o herdi do Bildungsroman deve provar quem é. A tiltima linha da figura 30 tenta indicar esse novo ambiente apinhado mapeando o ntimero de personagens significativas presentes nos diversos espacos narrativos; ¢, notem bem, a diferenca entre cinco e quinze nao é apenas uma questao de quantidade, aqui: é qualitativa, morfolégica, Com cinco personagens (uma mae, um filho e, geralmente, uma namorada-irma, e um irmao-melhor amigo), 0 en- redo se limita em geral ao interior de um grupo social e desliza para dois arranjos opostos, mas igualmente estaveis: a paz idilica (Keller, Nievo, Goncharov, as primeiras partes de Meister, O vermelho e 0 ne- gro, Grandes esperangas), ou o despotismo insuportavel (a “opiniao publica” de Verriéres, Mr. Murdstone, Mrs. Reed, 0 monopélio dos irmaos Cointet). Com dez ou vinte personagens, por outro lado, é possivel, e de fato inevitavel, incluir no espectro sociolégico grupos distantes e abertamente hostis. O sistema narrativo torna-se complica- do, instavel: a cidade se transforma numa gigantesca mesa de roleta, onde ajudantes e antagonistas se misturam em imprevisiveis combina des, num jogo que permanece aberto por muito tempo, e tem muitos resultados possiveis (figura 33). A quantidade produziu uma nova forma: © romance de complexidade. Este ser 0 topico do préximo capitulo. 30s alteregos dos herdis reforcam o padrao: muitos comerciantes nas provincias,¢ intelectuais nas