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DOSSIER

PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO

Dislexia:
Como identificar?
Como intervir?
PAULA TELES*

A dislexia é talvez a causa mais frequente de baixo rendimento e insucesso escolar. Na grande
maioria dos casos não é identificada, nem correctamente tratada. O objectivo deste artigo é dar
a conhecer os conceitos básicos desta perturbação, de modo a permitir aos médicos de família conhe-
cer e identificar, nas crianças, os sinais de risco precoces, colocar a hipótese do seu diagnóstico e tências necessárias a essa aprendiza-
encaminhá-las para uma avaliação e intervenção especializada. gem? Quais os défices que a dificultam?
Quais as componentes dos métodos ed-
Palavras Chave: Dislexia; disortografia; perturbação da leitura e da escrita. ucativos que conduzem a um maior
sucesso?
Os Estados Unidos têm sido pionei-
INTRODUÇÃO
EDITORIAIS ros na investigação científica, na legis-
lação educativa, na orientação sobre os
métodos de ensino que provaram ser os
saber ler é uma das apren- mais eficientes. Na Europa não existe

O dizagens mais importan-


tes, porque é a chave que
permite o acesso a todos
os outros saberes. A leitura e a escrita
são formas do processamento linguís-
uma base legal comum que apoie as
crianças disléxicas. A grande maioria
continua sem ser diagnosticada e sem
beneficiar de uma intervenção especia-
lizada. No nosso país o Decreto-lei 319/
tico. Aprender a ler, embora seja uma /95, aplica-se às crianças com necessi-
competência complexa, é relativamente dades educativas especiais, mas não
fácil para a maioria das pessoas. faz qualquer referência em relação à
Contudo, um número significativo de metodologia reeducativa a adoptar.
pessoas, embora possuindo um nível Na grande maioria dos casos os alu-
de inteligência médio ou superior, mani- nos dependem da «benevolência» dos
festa dificuldades na sua aprendizagem. professores, desculpando a falta de cor-
Até há poucos anos a origem desta difi- recção, a fluência leitora, a limitação
culdade era desconhecida, era uma in- vocabular, os erros ortográficos... Uma
capacidade invisível, um mistério, que situação preocupante é a deficiente for-
gerou mitos e preconceitos estigmati- mação não só dos professores mas, o
zando as crianças, os jovens e os adul- que é ainda mais grave, a deficiente for-
tos que a não conseguiam ultrapassar. mação dos responsáveis pela formação
Nos últimos anos os estudos realiza- dos professores. Um sinal muito positi-
dos por neurocientistas, utilizando a vo é o interesse crescente que este tema
Ressonância Magnética Funcional, tem suscitado; nos últimos anos têm
(fMRI), permitiram observar o funciona- sido realizados diversos congressos,
mento do cérebro durante as activida- seminários, jornadas...
des de leitura e escrita e obtiveram um Os resultados dos estudos recente-
conjunto bastante consistente de con- mente publicados pela OCDE, sobre o
clusões sobre as seguintes questões: nível de literacia e o sucesso escolar, co-
*Psicóloga Educacional,
Como funciona o cérebro durante as locam Portugal nos últimos lugares
especialista em dislexia actividades de leitura? Quais as compe- constituindo mais um sinal de alerta e

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preocupação. Este artigo pretende ser esta perturbação tem recebido diversas
um contributo para a sinalização e denominações: «cegueira verbal congé-
orientação das crianças em risco, ou nita», «dislexia congénita», «estrefossim-
com dificuldades, nesta aprendizagem bolia», «alexia do desenvolvimento»,
tão determinante no percurso das suas «dislexia constitucional», «parte do con-
vidas. tínuo das perturbações de linguagem,
Em que medida este artigo pode in- caracterizada por um défice no proces-
teressar os médicos de família? Sendo samento verbal dos sons»...
o médico de família o especialista que Nos anos 60, sob a influência das
acompanha todos os elementos do agre- correntes psicodinâmicas, foram mini-
gado familiar, ao longo de toda a vida e, mizados os aspectos biológicos da dis-
sendo a dislexia uma perturbação com lexia, atribuindo as dificuldades leitoras
incidência familiar, encontra-se numa a problemas emocionais, afectivos e
situação privilegiada para poder inter- «imaturidade»2. Em 1968, a Federação
vir precocemente, logo que observe al- Mundial de Neurologia utilizou pela pri-
guns indicadores de risco na história meira vez a expressão «dislexia do de-
pessoal ou familiar. Não se pretende senvolvimento», definindo-a como «um
que o médico de família seja um «espe- transtorno que se manifesta por dificul-
cialista» nesta área, mas sim que conhe- dades na aprendizagem da leitura, ape-
ça os sinais de alerta, para os poder sar das crianças serem ensinadas com
identificar o mais precocemente possí- métodos de ensino convencionais,
vel e encaminhar para uma avaliação terem inteligência normal e oportunida-
especializada. A intervenção é um de- des socioculturais adequadas»3. Em
safio que se coloca a todos os responsá- 1994, O Manual de Diagnóstico e Es-
veis pela saúde e desenvolvimento in- tatística de Doenças Mentais, DSM IV,
fantil: médicos, psicólogos, investiga- inclui a dislexia nas perturbações de
dores, professores das escolas superio- aprendizagem, utiliza a denominação
res de educação, professores, pais e «perturbação da leitura e da escrita» e
governantes. estabelece os seguintes critérios de
Este artigo propõe-se sumarizar os diagnóstico4:
resultados dos recentes estudos sobre A. O rendimento na leitura/escrita,
dislexia e a nova ciência da leitura. O medido através de provas normali-
seu objectivo é contribuir para um co- zadas, situa-se substancialmente
nhecimento actualizado desta pertur- abaixo do nível esperado para a ida-
bação, alertar e sensibilizar para os si- de do sujeito, quociente de inteli-
nais indiciadores de futuras dificulda- gência e escolaridade própria para a
des, possibilitar a avaliação e interven- sua idade;
ção precoce, em síntese, prevenir o B. A perturbação interfere signifi-
insucesso antes de acontecer. cativamente com o rendimento esco-
lar, ou actividades da vida quotidi-
ana que requerem aptidões de leitu-
EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE DISLEXIA, ra/escrita;
DEFINIÇÕES E CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO C. Se existe um défice sensorial, as di-
ficuldades são excessivas em relação
Em 1896, Pringle Morgan, descreveu o às que lhe estariam habitualmente
caso clínico de um jovem de 14 anos associadas.
que, apesar de ser inteligente, tinha Em 2003, a Associação Internacional
uma incapacidade quase absoluta em de Dislexia adoptou a seguinte defi-
relação à linguagem escrita, que desig- nição: «Dislexia é uma incapacidade es-
nou de «cegueira verbal»1. Desde então pecífica de aprendizagem, de origem

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neurobiológica. É caracterizada por difi- fofonémica) e a compreensão da mensa-


culdades na correcção e/ou fluência na gem escrita. Para que um texto escrito
leitura de palavras e por baixa com- seja compreendido tem que ser lido pri-
petência leitora e ortográfica. Estas difi- meiro, isto é, descodificado. O défice fo-
culdades resultam de um défice fono- nológico dificulta apenas a descodifica-
lógico, inesperado, em relação às outras ção. Todas as competências cognitivas
capacidades cognitivas e às condições superiores, necessárias à compreensão,
educativas. Secundariamente podem estão intactas: a inteligência geral, o vo-
surgir dificuldades de compreensão cabulário, a sintaxe, o discurso, o
leitora, experiência de leitura reduzida raciocínio e a formação de conceitos.
que pode impedir o desenvolvimento do
vocabulário e dos conhecimentos COMO FUNCIONA O CÉREBRO
gerais»5. Esta definição de dislexia é a DURANTE A LEITURA?
actualmente aceite pela grande maioria Sally Shaywitz e colaborabores (1998)
da comunidade científica. utilizaram a fMRI para estudar o fun-
cionamento do cérebro, durante as tare-
fas de leitura e identificaram três áreas,
TEORIAS EXPLICATIVAS
EDITORIAIS no hemisfério esquerdo, que desem-
penham funções chave no processo de
Durante muitos anos a causa da disle- leitura: o girus inferior frontal, a área
xia permaneceu um mistério. Os estu- parietal-temporal e a área occipital-tem-
dos recentes têm sido convergentes, quer poral (Fig. 1)8,9:
em relação à sua origem genética e neu- • A região inferior-frontal é a área da
robiológica, quer em relação aos proces- linguagem oral. É a zona onde se pro-
sos cognitivos que lhe estão subjacentes. cessa a vocalização e articulação das
Têm sido formuladas diversas teorias palavras, onde se inicia a análise dos fo-
em relação aos processos cognitivos res- nemas. A subvocalização ajuda a leitu-
ponsáveis por estas dificuldades. ra fornecendo um modelo oral das pa-
lavras. Esta zona está particularmen-
1. Teoria do défice fonológico te activa nos leitores iniciantes e dis-
Nos estudos sobre as causas das difi- léxicos.
culdades leitoras a hipótese aceite pela • A região parietal-temporal é a área
grande maioria dos investigadores é a onde é feita a análise das palavras.
hipótese do défice fonológico6. De acor- Realiza o processamento visual da for-
do com esta hipótese, a dislexia é causa- ma das letras, a correspondência grafo-
da por um défice no sistema de proces- fonémica, a segmentação e a fusão
samento fonológico motivado por a uma silábica e fonémica. Esta leitura analíti-
«disrupção» no sistema neurológico ce- ca processa-se lentamente, é a via uti-
rebral, ao nível do processamento lizada pelos leitores iniciantes e dislé-
fonológico7. Este défice fonológico difi- xicos.
culta a discriminação e processamento • A região occipital-temporal é a área
dos sons da linguagem, a consciência onde se processa o reconhecimento vi-
de que a linguagem é formada por pala- sual das palavras, onde se realiza a
vras, as palavras por sílabas, as sílabas leitura rápida e automática. É a zona
por fonemas e o conhecimento de que para onde convergem todas as infor-
os caracteres do alfabeto são a repre- mações dos diferentes sistemas sen-
sentação gráfica desses fonemas8. soriais, onde se encontra armazenado
A leitura integra dois processos o «modelo neurológico da palavra». Este
cognitivos distintos e indissociáveis: a modelo contem a informação relevante
descodificação (a correspondência gra- sobre cada palavra, integra a ortografia

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Região Parietal Temporal

Análise das Palavras

Região Inferior Frontal

Articulação dos Fonemas

Região Occipital Temporal

Leitura Automática

Figura 1. Áreas cerebrais envolvidas no processo de leitura.


Adaptado de Sally Shaywitz8

«como parece», a pronúncia «como soa», das necessidades funcionais dos


o significado «o que quer dizer». Quan- leitores ao longo do seu processo evo-
to mais automaticamente for feita a lutivo.
activação desta área, mais eficiente é o As crianças com dislexia apresentam
processo leitor. uma «disrupção» no sistema neurológi-
Os leitores eficientes utilizam este co que dificulta o processamento fono-
percurso rápido e automático para ler lógico e o consequente acesso ao siste-
as palavras. Activam intensamente os ma de análise das palavras e ao siste-
sistemas neurológicos que envolvem a ma de leitura automática. Para com-
região parietal-temporal e a occipital- pensar esta dificuldade utilizam mais
-temporal e conseguem ler as palavras intensamente a área da linguagem oral,
instantaneamente (em menos de 150 região inferior-frontal, e as áreas do
milésimos de segundo). hemisfério direito que fornecem pistas
Os leitores disléxicos utilizam um visuais.
percurso lento e analítico para descodi-
ficar as palavras. Activam intensamente 2. Teoria do défice de automatização
o girus inferior frontal, onde vocalizam A teoria do défice de automatização refe-
as palavras, e a zona parietal-temporal, re que a dislexia é caracterizada por um
onde segmentam as palavras em défice generalizado na capacidade de
sílabas e em fonemas, fazem a tradução automatização10.Os disléxicos manifes-
grafo-fonémica, a fusão fonémica e as tam evidentes dificuldades em automa-
fusões silábicas até aceder ao seu signi- tizar a descodificação das palavras, em
ficado. realizar uma leitura fluente, correcta e
Os diferentes sub-sistemas desem- compreensiva.
penham diferentes funções na leitura. As implicações educacionais desta
O modo como são activados depende teoria propõem a realização de várias ta-

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refas para automatizar a descodificação los de risco, com influência na dislexia.


das palavras: treino da correspondên- As cinco localizações foram encontra-
cia grafo-fonémica, da fusão fonémica, das nos cromossomas 2p, 3p-q, 6p, 15q
da fusão silábica, leitura repetida de co- e 18p18. Os resultados de estudos post-
lunas de palavras, de frases, de textos, -mortem, realizados em cérebros de dis-
exercícios de leitura de palavras apre- léxicos, mostraram diferenças micros-
sentadas durante breves instantes11. cópicas e macroscópicas importan-
tes19,20.
3. Teoria magnocelular Os resultados de estudos, realizados
A teoria magnocelular atribui a dislexia em cérebros vivos, evidenciam diferen-
a um défice específico na transferência ças semelhantes21.
das informações sensoriais dos olhos
para as áreas primárias do córtex12.
As pessoas com dislexia têm, de acor-
PREVALÊNCIA, DISTRIBUIÇÃO
do com esta teoria, baixa sensibilidade POR SEXOS, PERSISTÊNCIA
face a estímulos com pouco contraste,
com baixas frequências espaciais ou al- A dislexia é provavelmente a pertur-
tas-frequências temporais. Esta teoria bação mais frequente entre a população
não identifica, nem faz quaisquer refe- escolar, sendo referida uma prevalência
rências, a défices de convergência bino- entre 5 a 17,5 %22. A prevalência é,
cular. O processo de descodificação contudo, variável dependendo do grau
poderia ser facilitado se o contraste en- de dificuldade dos diferentes idiomas.
tre as letras e a folha de papel fosse re- No nosso país não existem estudos so-
duzido utilizando uma transparência bre a prevalência.
azul, ou cinzenta, por cima da página13. Em relação à distribuição por sexos
Esta teoria tem sido muito contestada tem-se verificado uma evolução ao lon-
porque os resultados não são repro- go dos tempos. Inicialmente era referi-
duzíveis10. da uma maior prevalência no sexo mas-
culino, nos últimos anos passou a ser
BASES NEUROBIOLÓGICAS DA DISLEXIA referida uma distribuição igual em am-
Até há poucos anos pensava-se que a bos os sexos23. 23 Um estudo publicado
dislexia era uma perturbação compor- em Abril deste ano volta a referir que o
tamental que primariamente afectava a número de rapazes com dislexia é, pelo
leitura. Actualmente sabe-se que a dis- menos, duas vezes superior ao das ra-
lexia é uma perturbação parcialmente parigas24.
herdada, com manifestações clínicas Tem sido considerado que o défice
complexas, incluindo défices na leitu- cognitivo que está na origem da dislexia
ra, no processamento fonológico, na persiste ao longo da vida, ainda que as
memória de trabalho, na capacidade de suas consequências e expressão variem
nomeação rápida, na coordenação sen- sensivelmente. Recentemente foram re-
soriomotora, na automatização10, e no alizados estudos, com o objectivo de ava-
processamento sensorial precoce15,16. liar as modificações operadas nos sis-
Vários estudos têm procurado en- temas neurológicos cerebrais, após a in-
contrar no genoma humano a localiza- tervenção utilizando programas multis-
ção dos genes responsáveis pela disle- senssoriais, estruturados e cumulati-
xia. Diversos estudos têm demonstra- vos. As imagens obtidas através da fMRI
do a hereditariedade da dislexia17. As mostraram que os circuitos neurológi-
mais recentes pesquisas sobre genéti- cos automáticos do hemisfério esquer-
ca e dislexia referem que existem, pre- do tinham sido activados e o funciona-
sentemente, cinco localizações para ale- mento cerebral tinha «normalizado»25.

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COMORBILIDADES
EDITORIAIS 3. A dislexia só pode ser
diagnosticada e tratada depois
do insucesso na leitura?
Embora a base cognitiva da dislexia seja O conhecimento do défice fonológico
um défice fonológico é frequente a co- subjacente à aprendizagem da leitura
morbilidade com outras perturbações: permite a identificação dos sinais de aler-
perturbação da atenção com hiperacti- ta e a consequente intervenção precoce.
vidade (ADHD), perturbação específica
da linguagem (PEL), discalculia, pertur- 4. A dislexia passa com o tempo?
bação da coordenação motora, pertur- A dislexia mantém-se ao longo da vida,
bação do comportamento, perturbação não é um atraso maturativo transitório.
do humor, perturbação de oposição e É uma perturbação neurológica que ne-
desvalorização da autoestima. A ADHD cessita de uma intervenção precoce e
merece referência especial, por ser a especializada28.
perturbação que se associa com maior
frequência26. Os estudos de gémeos, 5. Repetir o ano ajuda a ultrapassar
mostram uma influência genética co- a dificuldade?
mum, já identificada no locus de risco Repetir anos de escolaridade não ajuda
6p, sendo maior para a dimensão de a ultrapassar as dificuldades, pelo con-
inatenção do que para a hiperactivi- trário, pode criar dificuldades acresci-
dade/impulsividade27. das a nível afectivo emocional: senti-
mentos de frustração, ansiedade, des-
valorização do autoconceito e da au-
MITOS E CONHECIMENTO
EDITORIAIS CIENTÍFICO
toestima. O importante é que a criança
seja avaliada e receba uma intervenção
Até muito recentemente a dislexia era especializada.
uma incapacidade sem uma base or-
gânica identificada, sendo apenas vi- 6. Deve evitar-se identificar as
síveis as suas manifestações. O des- crianças como disléxicas?
conhecimento científico contribuiu para Em alguns meios escolares e médicos
o aparecimento de diversos mitos. existe alguma relutância em avaliar e
diagnosticar, em «rotular» as dificulda-
1. Não existe dislexia? des de aprendizagem. Ignorar uma per-
A dislexia existe, é uma incapacidade turbação não ajuda a ultrapassá-la, pe-
específica de aprendizagem, de origem lo contrário, contribui para o seu agra-
neurobiológica, caracterizada por difi- vamento. Esta perspectiva reflecte a fal-
culdades na aprendizagem da leitura e ta de conhecimentos científicos sobre a
escrita. O DSM IV inclui a dislexia nas dislexia, sobre os métodos de ensino a
perturbações de aprendizagem e adop- utilizar e sobre os benefícios de uma in-
ta a denominação de «Perturbação da tervenção precoce e especializada29.
Leitura e da Escrita».
7. A dislexia é um problema visual?
2. Não existem meios de As Associações Americanas de Pediatria
diagnóstico da dislexia? e de Oftalmologia reafirmam que a
Actualmente existem conhecimentos dislexia não é causada por um proble-
que permitem avaliar e diagnosticar as ma de visão. A existência de erros de in-
crianças com dislexia. Existem provas versão, ver as letras ao contrário – p/b
específicas para avaliar as diferentes – são erros de origem fonológica (con-
competências que integram o processo fundem-se porque são duas consoantes
leitor. com o mesmo ponto de articulação,

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uma surda e outra sonora) e não de ori- cente à dislexia contribuiriam para o
gem visual30-32. surgimento de teorias explicativas e
consequentes intervenções terapêuti-
8. A dislexia é causada por cas sem qualquer validação científica.
problemas de orientação espacial?
A dislexia é uma perturbação da lin- 1. Terapias baseadas em
guagem que tem na sua génese um défi- interpretações psicológicas
ce fonológico. As dificuldades de orien- Em 1895, Sigmund Freud afirmava:
tação espacial, lateralidade, identifica- «Os mecanismos cognitivos dos fenóme-
ção direita e esquerda, psicomotoras e nos mentais, normais e anormais, po-
grafomotoras são independentes da dem ser explicados mediante o estudo
dislexia. Podem existir subgrupos que, rigoroso dos sistemas cerebrais»35. Ape-
em comorbilidade, apresentem essas sar de os seus estudos sobre neuroana-
perturbações33. tomia, não conseguiu obter respostas
que lhe permitissem compreender em
9. A dislexia está relacionada com profundidade os fenómenos psíquicos.
a inteligência? Perante a inexistência de meios com-
Dislexia é uma dificuldade específica de preende-se que tenha recorrido a expli-
aprendizagem. Os critérios de diagnós- cações puramente psicológicas, desvin-
tico do D.S.M-IV, referem explicitamen- culadas da actividade biológica cere-
te «O rendimento na leitura/escrita bral. Interrogamo-nos sobre o modo co-
situa-se substancialmente abaixo do mo teria evoluído o seu pensamento se
nível esperado para o seu quociente de tivesse tido acesso à neuroimagem, à
inteligência...» genética molecular e aos actuais conhe-
cimentos sobre neurotransmissores.
10. A dislexia existe apenas em A última década, a denominada dé-
algumas línguas? cada do cérebro, trouxe-nos uma imen-
Existe uma base neurocognitiva univer- sidade de conhecimentos sobre os fenó-
sal para a dislexia. Sendo o défice pri- menos e transtornos psíquicos de cuja
mário da dislexia um défice nas repre- interpretação se tinha apropriado a psi-
sentações fonológicas manifesta-se em canálise.
todas as línguas. As diferenças de com- Actualmente, perante a esmagadora
petência leitora entre os disléxicos de- evidência dos aspectos biológicos da
vem-se em parte, às diferentes ortogra- actividade cerebral e dos estudos do ge-
fias... Nas línguas mais transparentes, noma humano é impensável dar crédi-
em que a correspondência grafema-fo- to às interpretações psicodinâmicas so-
nema é mais regular, como o italiano e bre as perturbações de leitura e escrita.
o finlandês, são cometidos menos erros.
Nas línguas opacas, em que existem 2. Terapias Baseadas em défices
muitas irregularidades na correspon- perceptivos
dência grafema-fonema, como a língua Durante as décadas de 50 e 60 os estu-
inglesa, são cometidos mais erros. A lín- dos sobre as perturbações de aprendi-
gua portuguesa é uma língua semi- zagem procuraram encontrar explica-
-transparente34. ções a partir das perturbações percepti-
vas, visuais e auditivas. Com base nes-
tes pressupostos surgiram diversos
TERAPIAS CONTROVERSAS
EDITORIAIS
programas educativos. Treino da per-
cepção visual de Frostig; treino da audi-
O desconhecimento, até datas recentes, ção dicotómica de Tomátis; treino de de-
das causas e do tipo de défices subja- senvolvimento motor de Delacato36,37...

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3. Terapias baseadas em défices específica que se baseia no conheci-


visuais, psicomotores e problemas mento da linguagem oral, é contudo
posturais uma competência com um grau de di-
Diversos estudos referem que as crian- ficuldade muito superior à da lingua-
ças com dislexia têm os mesmos proble- gem oral. A linguagem existe há cerca
mas visuais das outras crianças38-40. As de 100 mil anos, faz parte do nosso pa-
Sociedades Americanas de Pediatria e de trimónio genético. Aprende-se a falar
Oftalmologia referem a independência naturalmente, sem necessidade de en-
entre a dislexia e problemas de visão e sino explícito.
alertam para a ineficácia do uso de lentes Os sistemas de escrita, sendo pro-
prismáticas e do treino de visão, como dutos da evolução histórica e cultural,
tratamento para dislexia31,32. A dislexia são relativamente recentes na história
não tem na sua origem um défice visual, da humanidade, existindo apenas há
pelo que não existe qualquer indicação cerca de 5 mil anos. A escrita utiliza um
para a utilização de lentes prismáticas41. código gráfico que necessita de ser en-
Em complementaridade com a prescri- sinado explicitamente. Para decifrar o
ção de lentes prismáticas, e estabelecen- código escrito, é necessário tornar cons-
do uma relação de causalidade entre dis- ciente e explícito, o que na linguagem
lexia e problemas psicomotores e postu- oral era um processo mental implícito.
rais, são propostos programas de treino Os processos cognitivos envolvidos
psicomotor, prescrita a utilização de lei- na produção e compreensão da lingua-
toris, apoios para os pés, palmilhas, sa- gem falada diferem significativamente
patos e colchões ortopédicos. Estas inter- dos processos cognitivos envolvidos na
venções proporcionam tratamentos pla- leitura e na escrita.
cebos extremamente gravosos, não só A procura de uma explicação neuro-
porque obrigam ao dispêndio de tempo científica cognitiva, para a leitura, tem
e dinheiro, mas principalmente porque sido objecto de uma imensa quantidade
adiam a recuperação e impedem uma in- de estudos. Os resultados têm sido con-
tervenção educativa especializada. vergentes apresentando um conjunto
Não existe nenhum marcador bioló- bastante consistente de conclusões42:
gico que, na prática clínica, se possa uti-
lizar para estabelecer, ou confirmar, o 1. Quais as competências necessárias
diagnóstico de dislexia. O diagnóstico à aprendizagem da leitura?
da dislexia é feito com base na história Aprender a ler não é um processo natu-
familiar e clínica, em testes psicométri- ral. Contrariamente à linguagem oral a
cos, em testes de consciência fonológi- leitura não emerge naturalmente da in-
ca, de linguagem, de leitura e da orto- teracção com os pais e os outros adul-
grafia. A realização de exames médicos, tos, por mais estimulante que seja o
electroencefalogramas, potenciais au- meio a nível cultural. Para aprender a
ditivos e visuais evocados, não tem ler é necessário ter uma boa consciên-
qualquer justificação, nem utilidade, cia fonológica, isto é, o conhecimento
para o diagnóstico e consequente inter- consciente de que a linguagem é forma-
venção na dislexia. Os exames de fMRI, da por palavras, as palavras por sílabas,
actualmente, ainda não são utilizados as sílabas por fonemas e que os carac-
como meio de diagnóstico. teres do alfabeto representam esses
fonemas. A consciência fonológica é
uma competência difícil de adquirir,
LINGUAGEM E LEITURA
EDITORIAIS porque na linguagem oral não é per-
ceptível a audição separada dos dife-
A leitura é uma competência cultural rentes fonemas. Quando ouvimos a

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palavra «pai» ouvimos os três sons con- Os factores motivacionais são muito
juntamente e não três sons individuali- importantes no desenvolvimento da ca-
zados. pacidade leitora dado que a melhoria
Para ler é necessário conhecer o prin- desta competência está altamente rela-
cípio alfabético, saber que as letras do cionada com o querer, com a vontade
alfabeto têm um nome e representam de persistir, pese embora as dificul-
um som da linguagem, saber encontrar dades sentidas e a não obtenção de re-
as correspondências grafo-fonémicas, sultados imediatos.
saber analisar e segmentar as palavras
em sílabas e fonemas, saber realizar as
SINAIS DE ALERTA
EDITORIAIS
fusões fonémicas e silábicas e encontrar
a pronúncia correcta para aceder ao
significado das palavras. Para realizar Sendo a dislexia como uma perturbação
uma leitura fluente e compreensiva é da linguagem, que tem na sua origem
ainda necessário realizar automatica- dificuldades a nível do processamento
mente estas operações, isto é, sem aten- fonológico, podem observar-se algumas
ção consciente e sem esforço. A capaci- manifestações antes do início da apren-
dade de compreensão leitora está forte- dizagem da leitura. A linguagem e as
mente relacionada com a compreensão competências leitoras emergentes são
da linguagem oral, com o possuir um os sinais preditores mais relevantes de
vocabulário oral rico e com a fluência e futuras dificuldades para a aprendiza-
correcção leitora. Todas as competên- gem da leitura; as competências per-
cias têm que ser integradas através do ceptivas e motoras não são preditores
ensino e da prática. significativos.
Existem alguns sinais que podem in-
2. Porque é que tantas crianças diciar dificuldades futuras. Se esses si-
têm dificuldades em aprender a nais forem observados e se persistirem
ler? Quais os défices que dificultam ao longo de vários meses os pais devem
esta aprendizagem? procurar uma avaliação especializada.
As dificuldades na aprendizagem da Não se pretende ser alarmista mas sim
leitura têm origem na existência de um estar consciente de que, se uma criança
défice fonológico. As crianças com dis- mais tarde tiver problemas, os anos per-
lexia, embora falem utilizando palavras, didos não podem ser recuperados. A in-
sílabas e fonemas, não têm um conhe- tervenção precoce é provavelmente o
cimento consciente destas unidades lin- factor mais importante na recuperação
guísticas, apresentando um défice a ní- dos leitores disléxicos. Sally Shaywitz
vel da consciência dos segmentos fono- refere alguns sinais de alerta43 a que
lógicos da linguagem, um défice fono- acrescentámos outros recolhidos da
lógico. nossa experiência.
As crianças que apresentam maiores
riscos de futuras dificuldades na apren- 1. Na primeira infância
dizagem da leitura são as que no jar- • Os primeiros sinais indicadores de
dim-de-infância, na pré-primária e no possíveis dificuldades na linguagem es-
início da escolaridade apresentam difi- crita surgem a nível da linguagem oral.
culdades a nível da consciência silábi- O atraso na aquisição da linguagem
ca e fonémica, da identificação das le- pode ser um primeiro sinal de alerta
tras e dos sons que lhes correspondem, para possíveis problemas de linguagem
do objectivo da leitura e que têm uma e de leitura.
linguagem oral e um vocabulário po- • As crianças começam a dizer as pri-
bres. meiras palavras com cerca de um ano

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DOSSIER
PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO

de idade e a formar frases entre os 18 3. No primeiro ano de escolaridade


meses e os dois anos. As crianças em • Dificuldade em compreender que as
situação de risco podem só dizer as palavras se podem segmentar em
primeiras palavras depois dos 15 meses sílabas e fonemas.
e dizer frases só depois dos dois anos. • Dificuldade em associar as letras aos
Este ligeiro atraso é frequentemente seus sons, em associar a letra «éfe» com
referido pelos pais como uma caracte- o som [f].
rística familiar. Os atrasos de linguagem • Erros de leitura por desconhecimen-
podem acontecer e acontecem em to das regras de correspondência grafo-
famílias, a dislexia também é uma per- fonémica: vaca/faca; janela/chanela;
turbação familiar. calo/galo...
• Depois das crianças começarem a • Dificuldade em ler monossílabos e
falar surgem dificuldades de pronún- em soletrar palavras simples: ao, os,
cia, algumas referidas como «lingua- pai, bola, rato...
gem bebé», que continuam para além • Maior dificuldade na leitura de pa-
do tempo normal. Pelos cinco anos lavras isoladas e de pseudopalavras
de idade as crianças devem pronun- «modigo».
ciar correctamente a maioria das pa- • Recusa ou insistência em adiar as
lavras. tarefas de leitura e escrita.
• A dificuldade em pronunciar uma pa- • Necessidade de acompanhamento
lavra pela primeira vez, ou em pronun- individual do professor para prosseguir
ciar correctamente palavras complexas, e concluir os trabalhos.
pode ser apenas um problema de • Relutância, lentidão e necessidade
articulação. As incorrecções típicas da de apoio dos pais na realização dos tra-
dislexia são a omissão e a inversão de balhos de casa.
sons em palavras (fósforos/fosfos, pi- • Queixas dos pais e dos professores
pocas/popicas...). em relação às dificuldades de leitura e
escrita.
2. No jardim de infância e pré-primária • História familiar de dificuldades de
• Linguagem «bebé» persistente. leitura e ortografia noutros membros
• Frases curtas, palavras mal pronun- da família.
ciadas, com omissões e substituições de
sílabas e fonemas. 4. A partir do segundo ano de
• Dificuldade em aprender: nomes de escolaridade
cores (verde, vermelho), de pessoas, de a) Problemas de leitura
objectos, de lugares... • Progresso muito lento na aquisição
• Dificuldade em memorizar canções e da leitura e ortografia.
lengalengas. • Dificuldade, necessitando de recorrer
• Dificuldade na aquisição dos con- à soletração, quando tem que ler
ceitos temporais e espaciais básicos: palavras desconhecidas, irregulares e
ontem/amanhã; manhã/a manhã; di- com fonemas e sílabas semelhantes.
reita/esquerda; depois/antes... • Insucesso na leitura de palavras
• Dificuldade em aperceber-se de que multissilábicas. Quando está quase a
as frases são formadas por palavras e concluir a leitura da palavra, omite
que as palavras se podem segmentar fonemas e sílabas ficando um «buraco»
em sílabas. no meio da palavra: biblioteca/biote-
• Não saber as letras do seu nome pró- ca...
prio. • Substituição de palavras de pronún-
• Dificuldade em aprender e recordar cia difícil por outras com o mesmo signi-
os nomes e os sons das letras. ficado: carro/automóvel...

724 Rev Port Clin Geral 2004;20:713-30


DOSSIER
PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO

• Tendência para adivinhar as pa- fonemas e sílabas.


lavras, apoiando-se no desenho e no • Alterações na sequência fonémica e
contexto, em vez de as descodificar. silábica.
• Melhor capacidade para ler palavras • Necessidade de tempo extra, dificul-
em contexto do que para ler palavras dade em dar respostas orais rápidas.
isoladas.
• Dificuldade em ler pequenas c) Evidência de áreas fortes nos
palavras funcionais como «aí, ia, ao, ou, processos cognitivos superiores
em, de...». • Boa capacidade de raciocínio lógico,
• Dificuldades na leitura e interpre- conceptualização, abstracção e imagi-
tação de problemas matemáticos. nação.
• Desagrado e tensão durante a leitu- • Maior facilidade de aprendizagem
ra oral, leitura sincopada, trabalhosa e dos conteúdos compreendidos de que
sem fluência. memorizados sem integração numa es-
• Dificuldade em terminar os testes no trutura lógica.
tempo previsto. • Melhor compreensão do vocabulário
• Erros ortográficos frequentes nas pa- apresentado oralmente, do que do vo-
lavras com correspondências grafo- cabulário escrito.
fonémicas irregulares. • Boa compreensão dos conteúdos
• Caligrafia imperfeita. quando lhe são lidos.
• Os trabalhos de casa parecem não ter • Capacidade para ler e compreender
fim, ou com os pais recrutados como melhor as palavras das suas áreas de
leitores. interesse, que já leu, praticou, muitas
• Falta de prazer na leitura, evitando vezes.
ler livros ou sequer pequenas frases. • Melhores resultados nas áreas que
• A correcção leitora melhora com o têm menor dependência da leitura:
tempo, mantém a falta de fluência e a matemática, informática, artes vi-
leitura trabalhosa. suais...
• Baixa autoestima, com sofrimento,
que nem sempre é evidentes para aos 5. Sinais de alerta em jovens e adultos
outros. a) Problemas na leitura
• História pessoal de dificuldades na
b) Problemas de linguagem leitura e escrita.
• Discurso pouco fluente com pausas, • Dificuldades de leitura persistentes.
hesitações, um’s... A correcção leitora melhora ao longo
• Pronúncia incorrecta de palavras dos anos, mas a leitura continua a ser
longas, não familiares e complexas. lenta, esforçada e cansativa.
• Uso de palavras imprecisas em subs- • Dificuldades em ler e pronunciar pa-
tituição do nome exacto: a coisa, aqui- lavras pouco comuns, estranhas, ou
lo, aquela cena... únicas, como nomes de pessoas, de
• Dificuldade em encontrar a palavra ruas, de lugares, dos pratos, na lista do
exacta, humidade/humanidade... restaurante...
• Dificuldade em recordar informações • Não reconhecer palavras que leu ou
verbais, problemas de memória a cur- ouviu quando as lê ou ouve no dia se-
to termo: datas, nomes, números de te- guinte.
lefone, sequências temporais, algorit- • Preferência por livros com poucas
mos da multiplicação… palavras por página e com muitos es-
• Dificuldades de discriminação e paços em branco.
segmentação silábica e fonémica. • Longas horas na realização dos tra-
• Omissão, adição e substituição de balhos escolares.

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PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO

• Penalização nos testes de escolha É possível identificar a dislexia em


múltipla. crianças antes de iniciarem a aprendi-
• A ortografia mantém-se desastrosa zagem da leitura, se estes sinais forem
preferindo utilizar palavras menos com- observados atentamente, bem como em
plexas, mais fáceis de escrever. jovens e adultos que atingiram um
• Falta de apetência para a leitura determinado nível de eficiência, mas
recreativa. que continuam a ler lentamente, com
• Sacrifício frequente da vida social esforço e com persistentes dificuldades
para estudar as matérias curriculares. ortográficas. Se apenas alguns destes
• Sentimentos de embaraço e des- sinais forem identificados, não é moti-
conforto quando tem que ler algo oral- vo para alarme: todas as pessoas se en-
mente com tendência a evitar essas ganam às vezes; há sim que estar aten-
situações. to à existência de um padrão persis-
tente ao longo de um longo período.
b) Problemas de linguagem
• Persistência das dificuldades na lin-
guagem oral.
AEVALIAÇÃO
DITORIAIS
• Pronúncia incorrecta de nomes de
pessoas e lugares, saltar por cima de Se existe suspeita da existência de dé-
partes de palavras. fices fonológicos e ou de dificuldades de
• Dificuldade em recordar datas, nú- leitura e escrita, deve ser realizada uma
meros de telefone, nomes de pessoas, avaliação. É importante avaliar para di-
de lugares... agnosticar, para delinear as dificul-
• Confusão de palavras com pronún- dades específicas, as áreas fortes e para
cias semelhantes. intervir. A avaliação pode ser feita em
• Dificuldade em recordar as palavras, qualquer idade; os testes são seleccio-
«está mesmo na ponta da língua». nados de acordo com a idade.
• Vocabulário expressivo inferior ao vo- Não existe um teste único que possa
cabulário compreensivo. ser usado para avaliar a dislexia, de-
• Evita utilizar palavras que teme pro- vendo ser realizados testes que avaliem
nunciar mal. as competências fonológicas, a lingua-
gem compreensiva e expressiva (a nível
c) Evidência de áreas fortes nos oral e escrito), o funcionamento inte-
processos cognitivos superiores lectual, o processamento cognitivo e as
• A manutenção das áreas fortes evi- aquisições escolares. Os modelos de
denciadas durante a escolaridade. avaliação que se revelam mais eficientes
• Melhoria muito significativa quando são os que conduzem directamente à
lhe é facultado tempo suplementar nos implementação de estratégias de inter-
exames. venção que tenham em conta os dados
• Boa capacidade de aprendizagem, obtidos na avaliação44-49.
talento especial para níveis elevados de
conceptualização.
• Ideias criativas com muita originali-
INTERVENÇÃO
EDITORIAIS
dade.
• Sucesso profissional em áreas alta- Avaliar sem intervir não faz sentido,
mente especializadas como a medicina, porque não permite ultrapassar as di-
direito, ciências políticas, finanças, ar- ficuldades. Após a avaliação e com
quitectura... bases nos resultados obtidos são im-
• Boas capacidades de empatia, resi- plementadas as medidas de intervenção
liência e de adaptação. adequadas a cada caso.

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DOSSIER
PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO

1. A importância da intervenção 2. É possível melhorar as


precoce competências leitoras?
A identificação e intervenção precoce Sendo a dislexia uma perturbação de
são o segredo do sucesso na apren- origem neurobiológica e genética, sendo
dizagem da leitura. A identificação de as diferenças cerebrais e os processos
um problema é a chave que permite a cognitivos «herdados» pode inferir-se
sua resolução. Quanto mais cedo um que as dificuldades das crianças com
problema for identificado mais rapida- dislexia são permanentes e imutáveis?
mente se pode obter ajuda. A iden- Pensamos que não; acreditamos que é
tificação, sinalização e avaliação das possível introduzir melhorias através de
crianças que evidenciam sinais de fu- uma intervenção especializada. Como já
turas dificuldades antes do início da referimos, os resultados dos estudos de
escolaridade permite a implementação Sally Shaywitz provam que é possível
de programas de intervenção precoce «reorganizar» os circuitos neurológicos
que irão prevenir ou minimizar o in- se for implementado um programa
sucesso. reeducativo concebido com base nos
Na geração passada pensava-se que novos conhecimentos neurocientíficos.
o processo de aprender a ler e escrever Os novos conhecimentos sobre o mo-
não começava, e não devia começar, do como os leitores iniciantes apren-
antes das crianças iniciarem a escolari- dem a ler e sobre os défices que impe-
dade formal. O processo de aprendiza- dem o sucesso nesta aprendizagem ti-
gem da leitura começa bastante cedo, veram implicações importantes nas
em muitos casos antes da pré-primária. práticas educativas. Actualmente verifi-
Estudos recentes comprovam que as ca-se um grande consenso, quer em
crianças que apresentam dificuldades relação aos princípios orientadores, es-
no início da aprendizagem da leitura e tratégias educativas, quer em relação
escrita dificilmente recuperam se não ti- aos conteúdos, o que ensinar.
verem uma intervenção precoce e espe-
cializada. Os maus leitores no primeiro 3. Quais os princípios orientadores
ano continuam invariavelmente sendo componentes dos métodos educativos
maus leitores, e as dificuldades acu- que conduzem a um maior sucesso?
mulam-se ao longo dos anos. Após os Estudos realizados por diversos investi-
nove anos de idade, o tempo e o esforço gadores mostraram que os métodos
dispendidos na reeducação aumentam multissensoriais, estruturados e cumu-
exponencialmente42. lativos, são a intervenção mais eficien-
Stanovich refere no seu conhecido te47,48,51-54. As crianças disléxicas, para
artigo sobre o «Efeito de Mateus» que os além do défice fonológico, apresentam
ricos ficam cada vez mais ricos e os dificuldades na memória auditiva e vi-
pobres cada vez mais pobres, asso- sual, bem como dificuldade de automa-
ciando-o com as dificuldades em tização Os métodos de ensino multis-
adquirir as competências leitoras pre- sensoriais ajudam as crianças a apren-
coces50. Estas consequências são múlti- der utilizando mais do que um sentido,
plas: atitudes negativas em relação às enfatizando os aspectos cinestésicos da
actividades de leitura, desvalorização aprendizagem e integrando o ouvir e o
do autoconceito escolar e pessoal, baixo ver com o dizer e o escrever.
rendimento escolar, baixo nível de A Associação Internacional de Disle-
vocabulário, diminuição de actividades xia promove activamente a utilização
de leitura, perda de oportunidades dos métodos multissensoriais, indica
de desenvolver estratégias de com- os princípios e os conteúdos educativos
preensão... a ensinar:

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DOSSIER
PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO

Aprendizagem multissensorial: A leitu- tigo, facultando-me a possibilidade de


ra e a escrita são actividades multis- partilhar com os seus leitores os co-
sensoriais. As crianças têm que olhar nhecimentos e experiência que ao lon-
para as letras impressas, dizer, ou sub- go dos anos tenho construído.
vocalizar, os sons, fazer os movimentos À minha colega Dr.a Leonor Macha-
necessários à escrita e usar os conheci- do, minha «parceira» de estudo e traba-
mentos linguísticos para aceder ao sen- lho, pelos comentários pertinentes.
tido das palavras. São utilizadas em si- À Dr.a Luísa Carvalho, pela disponibi-
multâneo as diferentes vias de acesso lidade e empenhamento na revisão
ao cérebro; os neurónios estabelecem deste artigo.
interligações entre si facilitando a A todos os profissionais que comigo
aprendizagem e a memorização. têm colaborado, às crianças disléxicas
e às suas famílias, pelo apoio, colabo-
Estruturado e cumulativo: A organização ração e estímulo.
dos conteúdos a aprender segue a se-
quência do desenvolvimento linguístico
e fonológico. Inicia-se com os elemen-
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
EDITORIAIS
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