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Capa: Renato Xavier Projeto Gráfico: Casa de Jdeias Produção Gráfica: Adalmir Caparrás Fa

2" Edição Revista- 2005 - Ia Reimpressão - 2010

tulo Original: Lettre sur l'humanisme

Tradução: Rubens Eduardo Frias

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Heidegger, Martin, 1889 - 1976 Carta sobre o humanismo / Martin Heidegger. - 2 ed. Tradução de Rubens Eduardo Frias. São Paulo: Centauro - 2005 Título original: Lettre sur l'humanisme.

rev.

ISBN 978-85-88208-64-3

Bibliografia 1. Filosofia alemã 2. Humanismo

05-7532

I. Título

CDD-193

Índices

para catálogo

sistemático:

1. Filosofia alemã 193

e 2010 CENTAURO EDITORA

Travessa Roberto Santa Rosa, 30 - 02804-0IO - São Paulo - SP Te!. Ii - 3976-2399 - Te!'lFax 11- 3975-2203 E-mail: editoracentauro@terra.com.br

www.centauroeditora.com.br

SUMÁRIO

 

"

b

"o re O

C'

"H

umarusmo

.

7

.

.arta a Jean Beaufret (Paris)

87

ilossario Português-Alemão

91

SOBRE O "HUMANISMO"

CARTA A JEAN BEAUFRET (Paris)

STAMOS AINDA LONGE DE PENSAR, COM SUFI-

ciente radicalidade, a essência do agir. Conhecemos o agir apenas como o produzir de um efeito. A sua reali-

.

.

l'P

\.

dade efetiva segundo a utilidade que oferece. ~as a es- T:;e ~ sência do agir é o consuma!. Consumar significa des- C/'t.o ro.JL

dobrar alguma coisa até à plenitude de sua essência; levá-la à plenitude, producere. Por isso, apenas pode

o, (te IGMO

ser consumado, em sentido próprio, aqui o que já é. O-que todavia ", antes de tudo, ~ o ser. O pensar consuma a relação do ser com a essência do homem. O pensar não produz nem efetua esta relação. Ele ape-

nas a oferece ao ser, como aquilo que

a ele próprio foi

Clarfa sobre o qumanismo

~

confiado pelo ser. Esta oferta consiste no fato de, no

pensar, o ser ter acesso

à linguagem. ~ linguagem é a \'

casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. \

Os pensaaores e os poetas são os guar as desta ha- I"

1/

bitação. A guarda que exercem é o ato de con~nar

a manifestação CIo ser, na me i a em que

a levam à

~uagem

e nela a conservam. Não é por ele irradiar

um efeito, ou por s~r aplic;do, que o pensar se trans-

forma em ação. O pensar age enquanto exerce como

s mos capazes de pressentir o que se esconde neste

I rocesso. A libertação da

'..g1!,êg!..mdos

~~a

Gramática e a abertura de um es aço essencialI!!~§

-

o

o riginal está reservado

--

.._

_.

~..

.S,.omQJf!.tefa_ºillJL2.....2~r_.

e

o poetiza . O pensar não é apenas l'engagement dans

r

cl'action em favor e através do ente, no sentido do

efetivamente real da situacão presente. O pensar é

,

~

...~

..--....

l'engagement

~

através e em favor da verdade ~r.

-------.

.....

"""",-.-"",,

."."

._..

..""""'"

A sua história nunca é completa, ela sempre está na

pensar. Este agir é provavelmente o mais sirlg~12..e,

iminência

de vir a ser. A história do ser sustenta e

ao me~m;-tt.rr112~:_O~_~~_elevado .l2orgue interessa à

determina

cada conclition et' situation humaine.

relação do ser com_o

l-:!.'2...D.:Toda

lep;1. a eficácia, porém,

~-se

no ser e espraia-se sobre o ente. O pensar,

pelo contrário, deixa-se requisitar pelo ser para dizer a

verdade do ser. O pensar consuma este deixar. Pensar

é L'engagement par L'Être. Ignoro se do ponto de vis-

ta lingüístico é possível dizer ambas as coisas ("par"

e "pour"), numa só expressão, a saber: penser, c'est

L'engagement de l'Être. Aqui, a palavra para o genitivo

"de

1'...

" visa expressar que o genitivo é, ao mesmo

tempo, genitivus subjectivus e objectivus. Mas nisto não

se deve esquecer que "sujeito e objeto" são expressões

inadequadas da Metafísica que se apoderou, muito

cedo, da interpretação da linguagem, na forma da

"Lógica" e "Gramática" ocidentais. Mesmo hoje, mal

8

Para primeiro aprendermos a experimentar, na

sua pureza, a cita essência do pensar, o que significa,

ao mesmo tempo, realizá-Ia, devemos libertar-nos da in-

terpretação técnica do pensar, cujos primórdios recuam

até Platão e Aristóteles. O próprio pensar é tido, ali,

como 'tEXU'11, o processo da reflexão no serviço do fazer

e do operar. A

reflexão, já aqui, é vista desde o ponto

de vista da rrpaçtç e rroil1mç. Por isso, o pensamento,

tomado em si, não é "prático" . A caracterização do pen-

sar como Oecopic e a determinação do conhecer como

postura "teórica" já ocorrem no seio da interpretação

"técnica" do pensar. É uma tentativa de reação, visando

salvar também o pensar, dando-lhe ainda uma autono-

mia em face do agir e do operar. Desde então, a "Filo-

9

<rar{a sobre o humanismo

roartin }Ceiaegger

sofia" está constantemente na contingência de justificar

a sua existência em face das "Ciências". Ela crê que

com as ciências, o rigor do pensar não consiste só na

exatidão artificial, isto é, técnico-teórica dos conceitos.

isto se realizaria da maneira mais segura, elevando-se

ela mesma à condição de uma ciência. Este empenho,

O rigor do pensar repousa no fato de o dizer permane-

cer, de modo puro, no elemento do ser, deixando im-

porém, é o abandono da essência do pensar. A Filo-

~

sofia é perseguida pelo temor de perder em prestígio e

importância se não for ciência. O não ser ciência

é con-

siderado uma deficiência que é identificada com

a falta

de cientificidade. Na interpretação técnica do pensar, o

perar o simples das múltiplas dimensões. Mas, por ou-

tro lado, a forma escrita oferece a salutar

coerção para

formulações lingüísticas cuidadosas. Por hoje, gostaria

I escolher apenas uma das suas questões. A análise

ti sta fará também uma luz sobre as outr~as.

CO~

of.-a.A <h

'"

/J A

C C<...o'GO

"""

ser é abandonado como o elemento do pensar. A "Ló-

gica" é a sanção desta interpretação que coma com a

~

~

~,

Sofistica e Platão. Julga-se o pensar de acordo com uma

medida que lhe é inadequada. Um tal julgamento asse-

melha-se a um procedimento que procura avaliar a na-

Vopergunta: Comment redonner

se s au mot ~~~.

rtIIILmanisme"? Esta questão nasce da intencão de con- 1/11. c-,

, I VIII' a palavra "Humanismo". Pergunto~me se isto ~~

I 1H'II'Ssári . Ou será que não se manifesta, ainda,

,li 1111111s0uficiente, a desgraça que expressões desta

~

tureza e as faculdades do peixe, sobre a sua capacidade

de viver em terra seca. Já há muito tempo,

demasiad

tempo, o pensar está fora do seu elemento. Será pos í-

o ato de reconduzir

s~

~,J

i~ vel chamar de "irracionalismo"

pensar ao seu elemento?

As questões levantadas na sua carta poderiam

r

1 1111111 pr v cam? Não há dúvida de que há muito

.\ \ IIIIf i\ I s "-ismos". Mas o mercado da opinião

111I1 I 1

li' mstanternente novos. E sempre se está

  • 111 I I nhl'ir .sta necessidade. Também os nomes

'I

I I'

,

I

"11

I

"

~t1 a,

(',

" "F"

~lSLca apenas surgem quan-

11111!lI Ir 1\1\I'io h ga ao fim. Na sua gloriosa

~

mais facilmente

elucidadas numa conversa dir ta. N

11 fi I p' 11111'11li1))111 tais titulos. Nem mesmo

papel, o pensar

sacrifica facilmente a sua mobili a I .

ti 11 111I111111V::1IIIl 0 pensar. Este termina ao

Mas, sobretudo, nestas condições, só com muita li!

culdade o pensar poderá conservar a pluridirn 1 si lI)II

lidade do âmbito que lhe é pr no,

1111 [\1'1\ 'I

tI 111111111(11) ,('ll'llH 'nIO "aquilo a partir do,

11 11I 1111'11 dI' :1l'1'11111p '115:11'. O elemento I

'

Ijll 1111111111'11111()': pudn. I2l r assum

o I

  • I I

I

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A.I

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10

;.

((

I

(f

(

(t-

 

I

(

D

~arta sobre

o qumanismo

pensar e o conduz, assim,

para a sua

essência. Dito de

sem dúvida, pensados, sob o império da "gica" e

maneira

simples, o pensar é o pensar do ser. O g niti-

vo tem duplo significado. O pensar é do ser na m dida

em que o pensar, apropriado e manifestado p t

r,

pertence ao ser. O pensar é, ao mesmo temp , p nsar

do ser, na medida em que o pensar, pertenc I d

ser, escuta o ser. Escutando o ser e a ele pert n nd ,

o ser é aquilo que ele é, conforme sua origem ss n-

cial. O pensar é - isto, quer dizer: o ser encarr g u-

se, dócil ao destino e por ele dispensado, da

d

o pensar.

E

ncarregar-se

de uma " ."

e uma coisa

u

d

ncia

uma

"pessoa" significa: amá-Ias, querê-tas. Est qu rer sig-

nifica, quando pensado mais originariam nt : d m da

essência. Tal querer é a essência própria d poder, o

qual não é apenas capaz de produzir isto ou aquilo,

mas é capaz de deixar que algo desdobre o seu ser em

sua proveniência, isto significa que é capaz de fazer-ser.

O poder do querer é a graça pela qual alguma coisa é

propriamente capaz de ser. Este poder é propriamente

o possível; aquele possível cuja essência repousa no

querer. É a partir deste querer que o ser é capaz de

pensar. Aquele possibilita este. O ser como o que pode

e quer é o "possível". O ser como o elemento é a "força

tranqüila" de poder que quer dizer, isto é, do possí-

vel. Os nossos termos "possível" e "possibilidade" são,

12

da "Metafísica", distinguindo-se da "atualidade"; isto

significa, a partir de uma determinada

interpretação

do ser - a metasica - actus e potentia, distinção que

é identificada com a de existentia e essentia. Quando

falo de "foa tranqüila do posvel", não me refiro ao

possibile de uma possibilitas apenas representada, nem

à potentia enquanto essentia de um actus da existentia;

refiro-me ao próprio ser que, pelo seu querer, impera

com seu poder sobre o pensar e, desta maneira, sobre

a essência do homem, ou seja, sobre a sua relacão com

o ser. Poder algo significa, aqui: guardá-lo na sua essên-

cia, conser-Ío no seu elemento.

Quando o pensar chega ao fim, na medida em

que sai do seu elemento, compensa esta perda valori-

zando-se como 't-EXv'll, como instrumento de formação

e, por este motivo, como atividade acadêmica e aca-

bando como atividade cultural. A Filosofia vai trans-

formar-se em uma técnica de explicação pelas causas

últimas. Não se pensa mais; ocupamo-nos de "Filoso-

fia". Na concorrência destas ocupações elas então exi-

b m-se publicamente

como "ismos", procurando uma

s rbrepujar a outra. O domínio destas ex ressões não

t' 'usual. Ele res.ide, e ist~ particularmente nos tem os 1i

  • III I rnos, na singular al~~U~Z~i;I~,J

'larfa sobre o qumanismo

assim chamada "existência privada" não é, entretanto,

ainda o ser-homem essencial e livre. Ela simplesmente

crispa-se numa negação do que é público. Ele man-

tém o chantão dele dependente e alimenta-se apenas

do recuo diante do que é público. Ele atesta, assim,

contra sua própria vontade, a sua subjugação à opinião

pública. Ela mesma, porém é a instauracão e domina-

,

.

ção metafisicamente condicionadas - porque se origi-

nando do domínio da subjetividade - da abertura do

ente, na incondicional objetivação de tudo. Por isso, a

linguagem põe-se ao servico da meditacão das vias de

.

.

comunicação, nas quais se espraia a objetivacão, como

o acesso uniforme de tudo para todos, com ~de~.

de qualquer limite. Deste modo, a linguagem cai sob a

ditadura da opinião pública. Esta decide previamente o

que é compreensível e o que de~e ser d;;prezado com

incompreensível.

i

Aquilo que se diz, em Ser e Tempo (1927) § § 27

e 35, sobre o "a gente" não quer fornecer, de maneira

alguma, apenas uma contribuição incideni:al para a So-

ciologia. Tampouco o "a gente" significa apenas a figura

oposta, compreendida de modo ético-existencialista, ao

ser-em-si-mesmo da pessoa. O que foi dito contém, ao

contrário, indicação, pensada a partir da questão da

verdade do ser, para o pertencer

originário da palavra

14

~~--------------

ao ser. Esta relação permanece oculta sob o domínio

da

subjetividade que se apresenta como a opinião pú-

blica. Se, todavia, a verdade do ser se tornou digna

de ser pensada pelo pensar, deve também a reflexão

sobre a essência da linguagem alcançar um outro nível.

Ela não pode continuar sendo apenas simples filosofia

da linguagem. É somente por isso que "Ser e Tempo"

34) contém uma indicação para a dimensão essencial

da linguagem e toca a simples questão: em que modo

do ser, afinal, a linguagem, enquan,to linguagem, é em

cada situação? O esvaziamento da linguagem que gras-

sa, em toda a parte e rapidamente, não corrói apenas a

responsabilidade estética e moral em qualquer uso da

palavra. Ela provém de uma ameaça à essência do ho-

mem. Um simples uso cultivado da linguagem não de-

monstra, ainda, que conseguimos escapar a este perigo

essencial. Um certo requinte no estilo poderia hoje, ao

contrário, até significar que ainda não vemos o perigo,

nem somos capazes de

o ver, porque ainda não ousa-

mos nunca enfrentar o seu olhar. A decomposição da

linguagem, atualm!12!.etão fa.1as!ae isto bastante tarde,

;;'ão é ~ntudo, a razão, mas

~~'""----'------

já uma conse üência do

-

-

fato de que a linguagem, sob o domínio da metafísi~a

moderna da subjetividade, se extravia quase irresistivel-

  • --------------------------- -------

.

mente do seu elemento. A linguagem recusa-nos ainda

~--_--..

,

..

~

--

.

15

<larIa sobre o ijumanismo

a sua essência: isto é, que ela é a casa da verdade do

ser. A linguagem abandona-se, ao contrário, ao nosso

puro quZrer e à nossa atividade, como um instrumev.to

de dominação sobre.o.enre. Este próprio ente aparece

Não reside, no entanto, neste apelo ao homem,

o se esconde nesta tentativa de preparar o homem

para este apelo,

um empenho e urna solicitude pelo ho-

mem? Para onde se dirige "o cuidado", senão no sentido

como o efetivamente real, no sistema de atuação de

causa e efeito. Abordamos o ente como o efetivamente

de reconduzir o homem nova!?ente p~ra a sua essência? ..

----------~--

Que outra coisa significa isto, a não ser

ue o homem

-

real, tanto quando calculamos e agimos, como quando

(homo) se torne humano (b-.Jimgnusl Deste modo então,

 

-----

procedemos cientificamente e filosofamos

com expli-

_.

co~tudo, a humanitas permanece no coracão de um tal

 

r-

cações e fundamentações.

A elas também

pertence o

pensar; pois humanismo é isto: meditar e cuidar para

..:::;.--

garantir que algo seja inexplicável. Com tais afirma-

ções pensamos estar diante do mistério. Como se já

estivesse estabelecido que a verdade do ser se pudesse

fundamentar, de qualquer modo, sobre causas

e razões

explicativas, ou, o que dá no mesmo, sobre a impossi-

bilidade da sua apreensão.

Caso o homem encontre, alguma vez, o caminho

para a proximidade do ser, então deve antes aprender

q~u:e=-=o:....:h:.::o:.::m=e.:.:m~s;.e::.:ja=-:.:h::u:.:m~a~::-.n:.:o::.....:e:....n:.:;:::ã.:::o_d:::.

no, isto é, situado fora da sua essência. Entretanto, em

ue consiste a humanidade

sua essên.,cia...

,

do hom~m? Ela repousa Q.a

Mas de onde e como se determina a essência

do

homem? Marx exige que o "homem humano" seja co-

nhecido e reconhecido. Ele encontra-o na "sociedade".

O homem "social" é para ele o homem "natural". É

a existir no

inefável. Terá que reconhecer, de maneira

na "sociedade" que

a "natureza" do homem, isto é, a

igual, tanto

a sedução pela opinião pública, quanto a

totalidade das "suas necessidades naturais" (alime nta-

impotência do que é privado. Antes

de falar, o homem

deve novamente escutar, primeiro, o apelo do ser, sob o

risco de, dócil a este apelo, pouco ou raramente algo que

restar a dizer. Somente assim será

devolvida à palavra o

valor da sua essência e o homem será agraciado com a

\l.volução da casa para habitar na verdade do ser.

16

.ão, vestuário, reprodução, subsistência econômica) é

.itativarnente assegurada. O cristão vê a humanidade

10 homem, a humanitas do homo, desde o ponto

vista da sua distinção da Deitas. Ele é, sob o ponto

de

de

vista da história da salvação, ~omem como "filho de

Deus", que, em Cristo, escuta e \esponde ao apelo do

1-~~hílv- oÚ'LI/~-

  • 17 j - kJlJ(

<larra sobre o humanismo

Pai. O homem não é deste mundo, na medida em que

o "mundo", pensado teórica e platonicamente, é apenas

uma passagem provisória para o Além.

Somente na época da república romana, huma-

nitas foi, pela primeira vez, expressamente pensada e

visada sob este nome. O homo humanus contrapõe-se

ao homo barbarus. O homo humanus é, aqui, o roma-

no que eleva e enobrece a virtus romana através da

"incorporação" da l1atÚEta herdada dos Gregos. Estes

Gregos são os Gregos do helenismo cuja cultura era

ensinada nas escolas filosóficas. Ela refere-se a eruditio

et institutio in bonas artes. A l1atÚEla assim entendida

é traduzida por humanitas. A romanidade propriamen-

te dita do homo romanus consiste nesta tal humanitas.

Em Roma, encontramos o primeiro humanismo. Ele

permanece, por isso, na sua essência, um fenômeno

especificamente romano, que emana do encontro da

romanidade com a cultura do helenismo. Assim, a cha-

mada Renascença dos séculos XIV e XV, na Itália, é

uma renascentia romanitatis. Como o que importa é a

romanitas, trata-se da humanitas e, por isso, da rratÚEta

grega. Mas a grecidade é sempre vista na sua forma

tardia, sendo esta mesma vista de maneira romana.

Também o homo romanus do Renascimento está em

oposição ao homo barbarus. Todavia, o inumano é, age-

18

ra, o assim chamado barbarismo da Escolástica gótica

-Ia Idade Média. Do humanismo, entendo histórica-

,--------

,

mente, faz sem re parte um studium humanitatis; este

estudo recorre, de uma certa maneira, à~Antigiiidade,

-

-- -

_.

-----_.---,..-

tornando-se assim, em cada caso, também~~~~ci-

mente da-gr~d.d~~ Isto é ~vidente no humanismo do

culo XVIII, aqui entre

nós sustentado por Winckel-

mann, Goethe e Schiller.

Holderlin, ao contrário, não

faz parte do "humanismo" e isto pelo fato de pensar o

destino da essência do homem mas radicalmente do

que este "humanismo" é capaz.

Se, porém, por humanismo se entende, de modo

~

--.......

~_.

.

geral, o empenho para que o homem se torne livre para

~ ~--

-----------

a sua huma~iaade, para nela encon~

a

s~~_digni- "'<:---~

..-

.-

-- = .;~- ,

dade..:.então

o humanis;o-distin@~-~t;, em cada casç,

s~gundõaConcepção da "liberdade" e da "natureza"

do~m.

Distinguem-se, então, do mesmo modo,

as vias para a sua realização. O humanismo de Marx

não

carece de retorno à Antigüidade, como também

I

não o humanismo que Sartre concebe, quando fala

em Existencialismo. Neste sentido amplo, em questão,

também o Cristianismo é um humanismo, na medida

em que,

segundo a sua doutrina, tudo se ordena à sal-

vação da alma (salus aeterna) do homem, aparecendo

a história da humanidade na moldura da história da

19

crarfa sobre o qumanismo

salvação. Por mais que se distingam estas espécies de

humanismos segundo as suas metas e fundamentos,

a

maneira e os meios de cada realização, e a forma da sua

doutrina, todas elas coincidem nisto: que a hum~itas

do homo humanus é determinada a p~tir do ponto de

r

~

vista de uma inter retacão fixa da natureza, da história

~

'----.

:>o,

,

do mundo e do fundamento do mundo, isto é, do pon-

----=------

>

to de vista do ente na sua totalidade.

~ --

(

Todo o humanismo se funda ou numa Metafísica

ou ele mesmo se postula como fundamento de uma tal

metafísica. Toda a determinação

que já pressupõe a interpretação

da essência do homem

do

ente, sem a questão

da verdade do ser, e o faz sabendo ou

não sabendo

 

,

é Metafísica. Por isso, mostra-se, e isto no tocante

ao

modo como é determinada a essência do homem

o

,

elemento mais próprio de toda a Metafísica, no fato de

ser "humanística". De acordo com isto, qualquer hu-

manismo permanece metafísico. Na determinação da

humanidade

do homem, o humanismo

não só deixa

de questionar a relação do ser com o ser humano, mas

o humanismo tolhe mesmo esta questão, pelo fato de,

por causa de sua origem metafísica, não a conhecer

  • II nem a compreender.

E vice-versn, a necessidade e a

natureza particular da questão da verdade do ser, es~

. quecida na Metafísica e através dela, só pode vir à luz

20

I.vantando-se no próprio seio da Metafísica a questão:

[ue é Metafísica? De início, questões acerca do "ser" e

s bre a verdade do "ser" podem ser apresentadas como

questões "metafísicas".

O primeiro humanismo,

r--.....

o romano, e todos os

tipos do humanismo

g~e, desde ~p~ão até~ pres~n~

te m .surgi o, pressupõem como o via a essencia

--

..

~d

'b'"

"

mais universal do homem. O homem é tomado como

----

_._..-..,,-

.

animal rationale, Esta determinacão

não é apenas a

I

tradu cão latina da expressão grega S<POU Â,óyou EXOU,

.

I mas uma interpretação metafísica. Esta determinação

iessencial do homem não é falsa. Mas ela é condi-

ci6nada pela Metafísica, cuja origem essencial e nã-;;.

apêrlãSãs seus limites s~ tOE~ar~ml contudo, em S~r e,

Temp-;,dignos de serem 9uestio~_s.

O digno de ser

questionado

foi, primeiro, confiado ao pensar como

aquilo que ele deve pensar, mas de maneira alguma

atirado ao consumo de uma dissolvente compulsão

de dúvida.

A Metafísica representa realmente o ente em seu

ser e pensa assim o ser do ente. Mas ela não pensa a

diferença de ambos (Vide "Sobre a Essência do Funda-

mento", 1929, pág. 8; "Kant e o Problema da Metafísi-

ca", 1929, pág. 225, e ainda, "Ser e Tempo", 1927, pág.

230). A Metafísica não levanta a questão da verdade do

--

21

<larIa sobre o qumanismo

ser-ele-mesmo. Por isso ela também jamais questiona o

modo como a essência do homem pertence à verdade

pr ceder-se assim, pode situar-se, desta maneira, o ho-

mem, no interior do ente, como um ente entre outros.

do ser. Esta questão até agora não foi levantada pela

Metafísica. Esta questão é inacessível para a Metafísica

om isto se poderá afirmar, constantemente, enuncia-

dos certos sobre o homem. É preciso, porém, ter bem

enquanto Metafísica. O ser ainda está à espera de que

  • ----~--------~--~~----- .lararnente presente que o homem permanece assim

ele mesmo se torne digno de ser pensado pelo homem.

relegado definitivamente para o âmbito essencial da

Seja qua or a maneira de determinar a ratio do animal

e a razão do ser vivo, tendo em mira a determinação

essencial do homem, quer como "faculdade dos princí-

animalitas; é o que acontecerá, mesmo que não seja

equiparado ao animal e se lhe atribuírmos uma dife-

rença específica. Pensa-se, em princípio, sempre o homo

pios", quer como "faculdade das categorias" ou de outra

maneira, em toda parte e sempre a essência da razão

funda-se no fato de que, para toda a percepção do ente

no seu ser, o ser-em-si-mesmo já se iluminou e acontece

historicamente na sua verdade.

animalis, mesmo que anima seja posta como animus

sive mens e mesmo que estes, mais tarde, sejam

postos

como sujeito, como pessoa, como espírito. Uma tal po-

sicão é o modo próprio da Metafisica. Mas com isto a

essência do

homem é minimizada e não é pensada na

Do mesmo modo com animal, ç<po'Ujá se propôs

uma interpretação da "vida" que repousa necessaria-

mente sobre uma interpretação do ente como çoolÍ e

<{mole;'em meio à qual se manifesta o ser vivo. Além

disto, e antes de mais, resta, enfim, perguntar se a es-

sência do homem como tal, originalmente - e com

isto decidindo previamente tudo - realmente se funda

na dimensão da animalitas. Estamos nós no caminho

  • I certo para a essência do homem quando distinguimos

\ I

o homem, e enquanto o distinguimos como ser vivo,

entre outros, da planta, do animal e de Deus? Pode

sua origem. Esta origem essencial permanecerá sempre

a origem essencial para a humanidade historial. ~;:

tafísica pensa o homem a partir da animalitas, ela não

pensa em ireçao a sua umanitas.

~

 

;

.

A metafísica fecha-se à simples noção essencia~~

de que o homem somente desdobra o seu ser n sua-~--'

essência, enquanto recebe o apelo do s~r. Somente na

i~timidade dest;;~~l~ já "tem" ele enco~trado sempre

aquilo em que mora a sua essência. Somente deste

morar "possui" ele "linguagem" como a habitação que

preserva o ex-stático para a sua essência. O estar pos-

,

22

23

'larta sobre o humanismo

tado na clareira do ser é o que eu chamo a ex-sistência

do homem. Este modo de ser só é próprio do homem.

A ex-sistência assim entendida não é apenas o funda-

mento da possibilidade da razão, ratio, mas é aquilo

em que a essência

do homem conserva a origem de

sua determinação.

A ex-sistência somente se pode dizer da essência

do homem, isto é, somente a partir do modo huma-

"

no e ser; pois, apenas o ornem, ao menos tanto

d

".

h

quanto sabemos, nos limites da nossa experiência, está

iniciado no destino da ex-sistência. É por isso que a

ex-sistência nunca poderá ser pensada como uma ma-

neira específica de ser entre outras espécies de seres

vivos; isto naturalmente supondo que o homem foi as-

sim disposto, o que deve pensar a essência do seu ser

e não apenas elaborar relatórios sobre a natureza e a

história da sua constituição e das suas atividades. Desta

maneira, funda-se na essência da ex-sistência também

aquilo que atribuímos ao homem, mediante a compa-

ração com o "animal". O cor o do homem é algo de-

essencialmente diferente de um organismo animal. O

~

d'rro do biologismo não está

supera-o quan o se j~-nta

ao elemento corporal do homem a alma e à alma o

espírito e ao espírito o aspecto existencial, pregando

ainda alto como até agora o apreço pelo espírito, para,

24

:rnnal, deixar tombar tudo de volta na vivência da vida,

n lmoestando-se ainda, com ilusória segurança, que o

pensar destrói, pelos seus conceitos rígidos, o fluxo

Ia vida e que o pensar do ser deforma a existência.

fato de a Filosofia e a química fisiológica poderem

_ _

_

r

examinar O homem como organismo, sob o ponto de

vista dãsCiências

a

atureza, não é rova_de Que

nesteeIem~t~

.-----

"orgânico", isto é, de que no corpo ex- ~

_

...-

. -- -- ~--

...

,

.•• - -

..

-~

plicado cientificamente resida a essência do ho~I11..._

Isto vale tampouco como a opiciã;-de que, na energia

amica, esteja encerrada a essência da natureza. Pois,

poderia mesmo acontecer que a natureza escondesse

precisamente a sua essência, naquela face que oferece

ao domínio técnico do homem. Como a essência do

homem não consiste em ser um organismo animal,

assim também não se pode eliminar e compensar esta

insuficiente determinação da essência do homem, ins-

trumentando-o com uma alma imortal ou com as facul-

dades racionais, ou com o caráter de pessoa.

Em cada

caso, passa-se por alto a essência, e isto em ~

~

mesmo prqjeto metafisiço.

.-

~quilo que o homem é, o que na linguagem tra-

dicional da Metafísica se chama a "essência" do ho-

mem, reside na sua ex-sistência. Mas a ex-sistência, as-

~'

sim pensada, não é idêntica ao conceito tradicional do

.25

crarta sobre o qumanismo

existentia, que significa realidade efetiva, na diferença

com a essentia enquanto possibilidade. Em Ser e Tempo

(pág.

42), encontra-se a frase grifada: "A essência do

ser-aí reside na sua existência". Aqui não se trata

de

uma contraposição de existentia e essentia, porque, de

maneira alguma, ainda estão em questão estas duas

determinações metafísicas do ser, nem se fale então da

sua relação. A frase contém, ainda muito menos, uma

afirmação geral sobre a existência (dasein), na medida

em que esta designação surgiu, no século XVIII, para

a palavra "objeto" deveria expressar o conceito metafí-

sico de realidade efetiva do real. Ao contrário, a frase

diz: O homem desdobra-se assim no

seu ser (west) que

ele é o "aí", isto é, a clareira do ser. Este "ser" do aí, e

somente ele, possui o traço fundamental da ex-sistên-

cia, isto é, significa o traço fundamental da in-sistên-

cia ex-sratíca na verdade do ser. A essência ex-srática

do homem reside na sua ex-sistência, que permanece

distinta da existentia pensada metafisicamente. Esta é

compreendida pela Filosofia Medieval como actuali-

tas. Kant representa a existentia como a realidade efe-

tiva no sentido da objetividade da experiência. Hegel

determina a existentia como a idéia que se sabe a si

mesma, a idéia da subjetividade absoluta. Nietzsche

concebe a existentia como o eterno retorno do mesmo.

26

(~v rdade que ainda fica aberta a questão se através do

tVI'ITIO "exístentíu", em suas interpretações, diferentes

'I 'nas à primeira vista, como realidade efetiva, já é

P insado com suficiente exatidão o ser da pedra ou

111 smo a vida como ser da flora e da fauna. Em todo

'ns , os seres vivos são como são, sem

que, a partir do

, 'LI ser como tal, estejam postados na

verdade do ser,

Ifl.l(udando numa tal postura o desdobramento essen-

ial do seu ser. Provavelmente, causa-nos a máxima

dificuldade, entre todos os entes que são, pensar o

li r vivo, porque, por um lado possui

conosco o pa-

r .ntesco mais próximo, estando, contudo, por outro

Indo, ao mesmo tempo, separado por um abismo da

~--------~----,---

nossa essência ex-sistente. Em comparação pode até

n s parecer que a essên~ia do divino nos é mais próxi-

ma, como o elemento estranho do ser vivo; próxima,

quero dizer, numa distância essencial, que, enquanto

lisncia, contudo, é mais familiar para a nossa essên-

.ia ex-sistente que o abissal parentesco corporal com

o animal, quase inesgotável para o nosso pensamento.

Tais considerações lançam uma estranha luz sobre

a

determinação corrente e, por isso, sempre provisória e

apressada, do homem como animal rationale. Porque

-

-'-

as plantas e os animais estão mergulhados, cada qual

'--~"""-

---_

....

.no seio de seu ambiente próprio, mas nunca estão in-

~----------------------------------

27

crarta sobre o qumanismo

seridos livremente na clareira do ser - e só esta -- clareira

c----

-,""'"

__

é 11mundo 11 -, por isso, falta-Ihes a lingu;g~m. E n~

porque lhes falta a linguagem estão eles s~sos

sem

mundo no seu ambiente. Mas nesta palavra "