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Viagem a Moscou

APRESENTAÇÃO

Por Luiz Carlos Mendes

Viagem a Moscou APRESENTAÇÃO Por Luiz Carlos Mendes Maristela nasceu Maria Stela, - nome que significa

Maristela nasceu Maria Stela, - nome que significa estrela -, no distante vilarejo de Sítio dos Nunes, no sertão de Pernambuco. Na década de 50, fez o caminho que muitos outros nordestinos já haviam feito: deixou o sertão e veio para o Sul, escolheu Goiás, escolheu Anápolis.

Aqui sua estrela brilhou, fez sua vida, casou, teve filhos, lutou, lutou muito. Lutou para estudar, para criar seus filhos, construir sua família e lutou contra a ditadura. Lutou e venceu.

Este livro conta uma parte desta história, conta uma viagem para Moscou. Para Moscou? Mas como? De Sítio dos Nunes para Moscou? Como foi isso?

Descendente de holandeses, Maristela nasceu em uma família grande, filha de Mariinha e Juvenal, e teve oito irmãos e irmãs. Isto foi em 1934, no dia 22 de julho, e na sua infância Maristela já demonstrava o brilho de sua inteligência, da vivacidade que marcou sua personalidade. Cresceu em um engenho de cana-de-açúcar, na pequena Sítio dos Nunes, onde a família produzia rapadura.

Lá no sertão aprendeu a ler e chegou a trabalhar. Mas ainda moça, sem perspectivas de crescimento, veio para Goiás lutar pela vida. Aqui aportou em Anápolis, onde trabalhou no Banco Hipotecário e depois casou-se com o advogado e odontólogo Claudio Mendes, um comunista de carteirinha, dirigente do Partido Comunista Brasileiro, que lhe deu quatro filhos e lhe ensinou o que era o capitalismo, a exploração do homem pelo homem.

E foi o casamento que levou Maristela para Moscou. Veja como foi:

Claudio Mendes nasceu na cidade de Goiás e ainda jovem foi o Rio de Janeiro, onde se formou em Odontologia, na Faculdade de Farmácia e Odontologia de Niterói, mais tarde incorporada à Universidade Federal Fluminense (UFF). De volta a Goiás veio para Anápolis, onde montou seu consultório, na Rua 15 de Dezembro e logo em seguida conheceu e casou-se com Maristela (uma pernambucana bonita e de dentes fortes). Do Rio trouxe, além do diploma de dentista, a paixão pelo Botafogo e a carteirinha do Partido Comunista Brasileiro.

Cláudio e Maristela viveram os dias intensos da vida política brasileira no governo de Juscelino Kubitschek, eleito em 1956 e que em 1960 inaugurou Brasília, a grande capital brasileira plantada em Goiás. Viveram os dias intensos do governo de João Goulart, as lutas do povo brasileiro e os sonhos de um comunista em Anápolis.

Sobre este período de sua vida, Maristela revela como surgiu a viagem

para Moscou:

- Vim de Pernambuco para Goiás na década de 1950. Em 1954, casei- me com o odontólogo e advogado Cláudio Mendes, que faleceu em 1965. Com ele tive quatro filhos: Luiz Carlos, Nádia, Luiz Roberto e Luiz Eduardo. Como Cláudio era filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1963 ele me incentivou a participar do Congresso Mundial de Mulheres em Moscou, do qual participaram 54 brasileiras de todos os estados.

O Golpe Militar de 64 interrompeu os sonhos e mudou o Brasil. Não saberemos jamais como seria o Brasil sem o Golpe, mas sabemos como foi o Brasil depois do Golpe. Vidas foram interrompidas e os planos mudaram: uma geração inteira viu os seus sonhos acabarem na prisão, na tortura, no exílio. Com Maristela não foi diferente e sua vidou mudou para sempre.

Cláudio, o companheiro de vida e de lutas políticas foi preso uma vez, duas vezes, foi torturado e não resistiu. Um infarto tirou-lhe a vida, em junho de 1965, um mês depois de deixar as prisões do regime militar.

Viúva e com quatro filhos pequenos Maristela foi à luta. Já então morando na Rua Dona Doca, - endereço que nunca abandonou - Maristela, enquanto trabalhava para criar os filhos, retomou os estudos, fazendo o curso de madureza, a

Escola de Comércio e finalmente o curso de Direito, na Faculdade de Direito de Anápolis (FADA), que concluiu em 1974, em uma das primeiras turmas.

Com o diploma de advogado, Maristela fechou o curso ABC, instalado em prédio próprio, na Rua Dr. Genserico, 252, e abriu o escritório de advocacia. Botou banca e advogou com brilhantismo por mais de três décadas, conquistando o respeito da comunidade jurídica anapolina e goiana. A carreira jurídica foi fecunda: fez cursos de Especialização na Universidade Federal de Goiás Direito Agrário e Direito Processual Civil -, exerceu o cargo de Procuradora do Município de Anápolis e ainda fundou e presidiu por vários anos o Clube dos Advogados de Anápolis.

Muitas lutas e muitas vitórias. Formou os quatro filhos, dois advogados e dois odontólogos, uma espécie de homenagem ao Cláudio Mendes, odontólogo, pela Faculdade de Odontologia de Niterói, mas também advogado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás, onde concluiu o curso em 1958 e logo em seguida deixou a odontologia para se dedicar à advocacia.

Esta vida de lutas teve os seus reconhecimentos, como o título de Cidadã Anapolina, concedido em 1982, pela Câmara Municipal de Anápolis. Nessa jornada há um outro título, de grande valor histórico e político: em 2006, Maristela foi considerada anistiada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, um gesto que também foi estendido ao seu marido Cláudio Mendes. O Estado Brasileiro pediu desculpas formais, concedeu a anistia.

Este livro conta como foi a viagem a Moscou, uma parte desta história de lutas e vitórias. Maristela explica porque somente agora, depois de muitos anos, acontece a publicação: “Somente agora foi possível publicar as impressões de viagem, porque, após 1963, aconteceu o Golpe de 1964. Como, na época, todos os comunistas foram perseguidos, mantive estes originais escondidos. Se os deixasse em casa, os militares teriam confiscado e destruído tudo, como fizeram com todos os livros que tínhamos. Esses originais ficaram em outra cidade e somente agora me foram devolvidos.

Lembrando toda esta vida de luta e perseguições, a autora conclui:

Foi nesse clima de perseguição que me senti obrigada a esconder os originais sobre a minha participação no Congresso Internacional de Mulheres, na Rússia. Hoje, livre daquela ditadura, encontro-me anistiada pela Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002, e por isso mesmo posso publicar tudo que vi nos países socialistas. É o que vocês lerão nas páginas seguintes.