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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE ARQUITETURA
MESTRADO EM ARQUITETURA E URBANISMO

Pirajá: Um Bairro e Um Parque


A vegetação como fator de aumento da biodiversidade e da qualidade
de vida nos biomas urbanos.

Dissertação submetida ao Programa de Pós


Graduação da Universidade Federal da Bahia,
Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, área de
concentração Desenho Urbano, como parte dos
requisitos par obtenção do título de Mestre.

Fábio Henrique Soares Angeoletto


Orientador: Professor Doutor Angelo Serpa

SALVADOR, BAHIA
2000
ANGEOLETTO, Fábio. Pirajá: Um Bairro e um Parque – A Vegetação Como
Fator de Aumento da Biodiversidade nos Biomas Urbanos. Mestrado em
Arquitetura e Urbanismo da UFBA. XXX p. ilust.
2

BANCA EXAMINADORA:

Prof. Dr. Angelo Serpa (Orientador)

Prof ª Dr ª Evelyn Hartoch (UFBA)

Prof. Dr Sílvio Soares Macedo (USP)


3

Página par avaliação:

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AGRADECIMENTOS
Listas de agradecimentos são muito difíceis de se elaborar. Há um risco de
chafurdar-se em uma pieguice lacrimosa, ou, o que é pior, esquecer de alguém
cujo auxílio foi valioso. Corramos o risco.

Encabeçando esse rol, agradeço ao professor, educador e ex-reitor da


Universidade Federal da Bahia, Luis Felippe Perret Serpa, pela participação em
minha banca de defesa de projeto de dissertação. Ele me fez compreender que
meu discurso era bipartido (ecologia / urbanismo), e que o grande desafio dessa
dissertação era unir temas aparentemente opostos num todo coerente.

Muitos são os colegas, poucos os amigos: a arquiteta Ida Matilde Pela,


companheira de mestrado, revelou-se uma amiga rara. Quase sempre nos
deixávamos levar em conversas mui produtivas, não importando o lugar. O croqui
do projeto inicial de uma praça em Pirajá foi talentosamente desenhado por ela.
Sua ajuda na inserção de mapas e fotos neste trabalho foi fundamental. Ida é um
dos poucos seres humanos com os quais conviver vale a pena. Com Francisco
Amaral, um apaixonado pelas árvores, também travei diálogos bastante
estimulantes, que resultaram em algumas das idéias aqui expostas.

Minha história aqui na Bahia é bastante ligada ao professor Angelo Serpa,


orientador desta dissertação, que conheci assim que cheguei, em 1994. Para
mim, o Angelo é um exemplo de jovialidade acadêmica, que, com suas finas
idéias, vem disseminando mudanças.

Á Solange Albuquerque, meu reconhecimento ao seu trabalho, superando as


muitas difculdades em fazer trabalhar a contento uma biblioteca com problemas,
como a falta de um fichário. Á Jandira Borges, secretária acadêmica do Mestrado,
um outro exemplo de profissionalismo, resolvendo com presteza e agilidade os
problemas burocráticos comuns aos mestrandos.

À colega de mestrado Liliane Araújo, à professora Lectícia Scardino Scott Faria


5

(UFBA) e ao professor Roberto Luís de Monte-Mór (UFMG) pelas dezenas de


importantes referências bibliográficas gentilmente cedidas. Aos estudantes do
Colégio Estadual Alberto Santos Dumont, que participaram dos plantios de mudas
nos quintais de Pirajá; e aos moradores de Pirajá, especialmente aos situados no
entorno do "Buraquinho" pelo entusiasmo e perseverança. À Ana Marcia
Domingues, pelo auxílio na formatação do texto.

À professora Evelyn Hartoch, pela participação na banca de defesa de projeto e


de defesa pública da dissertação; e ao professor Sílvio Soares Macedo, da
Universidade de São Paulo, pela participação na banca de defesa pública. Á
Maria, e à Bebel, pela inspiração. Ao Tinoco por ser o que é, e à Lena, por ser
seu oposto, meus reconhecimentos.
6

Esta dissertação é dedicada às árvores


7

RESUMO
A dissertação Pirajá: Um bairro e um Parque - A Vegetação como fator de Aumento da
Biodiversidade e da Qualidade de Vida nos Biomas Urbanos é dividida em duas partes. Na
primeira, é realizada uma discussão teórica sobre o ideário que classifica as cidades como a
antítese da natureza, e as conseqüências negativas desse ideário no planejamento urbano.
Procura-se demonstrar que essa oposição é falsa, uma vez que as cidades também são
ecossistemas, e que, apesar destes sistemas ocuparem uma área ínfima da biosfera - cerca de
3% - seus impactos sobre os demais sistemas são bastante grandes, pois as aglomerações
urbanas importam uma miríade de materiais (cuja obtenção via de regra descaracteriza o meio
ambiente) e exportam grandes quantidades de dejetos e outros poluentes causadores de diversos
impactos ao ambiente. Também é discutida a importância da presença de vegetação - sobretudo
árvores - aos ecossistemas urbanos, pelos inúmeros benefícios proporcionados pelos vegetais
(eles atuam retirando poluentes do ar, proporcionando microclimas mais aprazíveis, estruturando
espaços livres. Há ainda outras benesses); bem como a freqüentemente incorreta e insuficiente
utilização de vegetação nos projetos arquitetônicos e paisagísticos.

Na segunda parte são apresentados os resultados de um estudo de caso realizado no bairro de


Pirajá (Salvador, BA). Os dados nortearam um plano de arborização para os quintais (dados
obtidos através de mapeamento dos quintais) e para espaços livres (dados obtidos através do
método de sintaxe espacial). Pirajá, um bairro habitado por moradores de baixa renda, é contíguo
ao Parque Metropolitano de Pirajá, uma área de mata atlântica com cerca de 1550 ha. A
vegetação utilizada nos quintais e espaços livres foi selecionada pela maior capacidade de
atração e manutenção de polinizadores e dispersores de sementes - animais imprescindíveis à
recomposição de áreas desmatadas no interior do Parque (além de, obviamente, redundarem nos
benefícios acima comentados). Os moradores participaram do planejamento de pequenas praças
arborizadas, sendo que uma foi de fato executada. Espera-se que esses moradores contribuam
para a gestão da praça, uma vez que o bairro é periférico e pouco assistido pelos poderes
públicos.

Palavras chave: planejamento urbano, planejamento ambiental, planejamento participativo,


ecologia urbana, paisagismo, arborização urbana, gestão participativa de espaços públicos,
educação ambiental.
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ABSTRACT
The thesis Pirajá: a District and a Park - The Vegetation like a Tool to the Increase of
Biodiversity and life Quality in the Cities is divided into two parts. The first part is a
theorical discussion on the common/traditional classification of cities and
nature as opposing entities, and the resultant negative consequences to urban planning. It has
demonstrated that this antagonism is false.

Cities are also ecosystems and (these systems occupy a small area in the planet,
bur their impacts over other ecosystems are to large. The importance
of arborization to cities is also addressed.

The second part shows the results of a case study realized in Pirajá
(Salvador, Bahia, Brazil), a poor district adjacent to the urban, tropical
forest Parque Metropolitano. The main goal of the study case was increase
the presence of trees in the district, to improve quality of life of
Pirajá's residents, and to attract insects, birds and bats: animals
indispensable to the Park's reforestation

Key-words: urban planning, environmental planning, urban arborization,


environmental education.
9

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...................................................................................................................................9
SALVADOR, BAHIA.........................................................................................................................1
2000.................................................................................................................................................1
5.1 O MÉTODO DE SINTAXE ESPACIAL.................................................................................................121
5.2 AS CATEGORIAS SINTÁTICAS .......................................................................................................122
5.2.1 Espaço Convexo Médio (Y)...................................................................................122
5.2.2 Integração dos espaços convexos pelas linhas axiais (C / L)...............................123
5.2.3 Conectividade (Co)................................................................................................123
123
5.2.4 Relativa assimetria do sistema axial (RA).............................................................123
5.2.5 ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE O USO DO MÉTODO DE SINTAXE ESPACIAL COMO FERRAMENTA PARA O
PLANEJAMENTO DA ARBORIZAÇÃO URBANA.............................................................................................125
10

INTRODUÇÃO
A reprodução de modelos urbanos que ignoram ou menosprezam fatores
biológicos tem ocasionado diversos impactos ambientais e má habitabilidade, em
parte devido ao despreparo de planejadores, e a atuação de forças político-
econômicas às quais a observação desses fatores é um empecilho.

Um outro motivo para a repetição desses modelos está no ideário que classifica
as cidades e a natureza como entidades separadas. De acordo com esse ideário,
a natureza situaria-se fora dos limites das cidades, ou no máximo, encontraria-se
somente em enclaves, cerceada pelo urbano.

Essa antítese traduz-se na execução de planos que, ao desconsiderarem


premissas ambientais, provocam impactos negativos, cuja escala varia do local ao
global. As Ciências Biológicas, em particular a Ecologia, renegam essa oposição,
ao classificar as cidades como ecossistemas, cujos ambientes de entrada e de
saída provocam substanciais alterações na biosfera.

Dada a crescente complexidade das cidades, propusemos que as cidades sejam


classificadas como biomas, isto é, não como ecossistemas, mas como mosaicos
de ecossistemas com diversidade biológica variável.

No segundo capítulo discutiram-se as forças sócio-econômicas que influenciam o


crescimento das cidades. Estas desenvolvem-se sobretudo através da
urbanização da pobreza e da riqueza, cada qual produzindo impactos ambientais
diversos. Também debateu-se as atuais tendências de urbanização, no mundo e
no Brasil.

No terceiro capítulo, defendeu-se o uso da arborização urbana como um


instrumento para a resolução de desequilíbrios ecológicos causados pelas
cidades, e para a obtenção de maior qualidade de vida.

Após essas considerações teóricas, um estudo de caso é apresentado, tendo


11

como objeto o bairro de Pirajá (Salvador, Bahia). Inicialmente procedeu-se a


descrição do subúrbio ferroviário, região onde está inserido o bairro. A seguir foi
descrito o bairro, principalmente sob o ponto de vista da arborização. O Parque
Metropolitano de Pirajá (contíguo ao bairro), e sua importância são discutidos;
bem como os projetos e tentativas de sua preservação por parte dos governos
municipais e organizações não governamentais.

Apresentado o objeto de estudo, os resultados da aplicação de uma abordagem


metodológica que possibilitou a elaboração de estratégias de aumento da
diversidade vegetal em Pirajá são expostos e discutidos. Finalmente, a aplicação
dessas estratégias (plantio de árvores nos quintais e planejamento participativo
para a execução de uma praça arborizada no bairro) são detalhadas e discutidas.
12

CAPÍTULO 1
Cidades e Natureza: Uma Antítese?

A natureza na cidade é uma brisa noturna, um redemoinho girando contra a fachada de um


edifício, o sol e o céu. A natureza na cidade são cães e gatos, ratos no porão, pombos nas
calçadas, ratazanas nos bueiros, falcões encastelados nos arranha-céus. É a consequência de
uma complexa interação entre os múltiplos propósitos e atividades dos seres humanos e de outras
criaturas vivas e dos processos naturais que governam a transferência de energia, o movimento
do ar, a erosão da terra e o ciclo hidrológico. A cidade é parte da natureza.
(Anne Whiston Spirn, 1995)

Cidades não são naturais.


(Lester Brown, fundador e diretor do World Watch Institute, 2000)

1.1 A oposição entre cidades e natureza


Os últimos anos registram um crescente interesse por um corolário de questões
conhecido como Problemática Ambiental. Ressalte-se que tal interesse não é
manifestado apenas por parte das universidades e dos institutos de pesquisa,
mas também por outros setores da sociedade, como as ONG's (organizações
não governamentais). No discurso dessas entidades ambientalistas, uma grande
ênfase é dada às questões ecológicas globais, como a destruição da camada de
ozônio, o desmatamento das florestas tropicais, entre outras.

Entretanto, predomina um senso comum que classifica as cidades como a


negação da natureza. Essa oposição parece balizar as ações do Poder Público
Federal. O Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), do Governo Federal
instituiu um fundo para financiar propostas que

devem buscar a recuperação, manutenção ou melhoria da qualidade ambiental e o


uso racional e sustentável dos recursos naturais. Espera-se que desenvolvam, de
13

forma clara e objetiva, ações que utilizem sustentavelmente o potencial natural de


uma região e que contribuam para solucionar e/ou minimizar problemas ambientais
relevantes, visando contribuir com a Política Nacional do Meio Ambiente (FNMA,
1999).

O Projeto Espaço Livre1 (ao qual esse trabalho de pesquisa está vinculado)
solicitou ao Fundo Nacional - que os negou - recursos para a instalação de um
viveiro - escola com capacidade de produzir 6 mil mudas / ano. As mudas seriam
usadas para aumentar a presença de vegetação nos bairros contíguos ao Parque
Metropolitano de Pirajá, um fragmemento florestal com cerca de 1550 hectares,
localizada na capital da Bahia, e assim dinamizar a presença de polinizadores e
dispersores de sementes, vetores que poderiam auxiliar a recuperação de áreas
degradadas no interior do Parque. A justificativa do Fundo para a recusa da
liberação dos recursos foi o fato de tratar-se de um projeto de arborização
urbana.

Diante dos benefícios da presença de vegetação à qualidade ambiental urbana, e


dos inúmeros estudos que atestam a importância de corredores de vegetação nas
cidades para a manutenção de espécies da flora e fauna que muitas vezes tem
papéis relevantes em paisagens ecológicas (vide classificação de GILBERT,
neste capítulo) fica transparente a negação da cidade como parte da natureza na
política ambiental federal.

A análise das páginas na rede mundial de computadores do Greenpeace e do


World Wildlife Fund (WWF), que são organizações não governamentais com
ramificações em todo o planeta, é bastante reveladora. Em nenhum dos "sites"
encontra-se qualquer menção às cidades como ecossistemas. A WWF (1999)
descreve todos os principais sistemas ecológicos brasileiros, menos as cidades.
Elas só aparecem em discursos vagos sobre desenvolvimento sustentável.

1
Nas palavras do professor Angelo Serpa, coordenador do projeto, o Projeto Espaço Livre de
Pesquisa-Ação se insere nas atividades de pesquisa do Mestrado em Geografia e do Programa
de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA, e visa experiementar novas
possibilidades de intervenção no espaço construído para habitação, em Salvador. O projeto
integra estudantes de graduação, pós-graduação e pesquisadores com atuação em áreas de
urbanização popular (SERPA, 1999-e).
14

No sítio do GREENPEACE (1999-a; GREENPEACE, 1999-b), há inclusive uma campanha


que sugere que os visitantes enviem mensagens eletrônicas ao Presidente da
República Federativa do Brasil pedindo o fechamento da Estrada do Colono. Com
aproximadamente 17 km, ligando Capanema e Serranópolis do Iguaçu, a Estrada
atravessa o Parque Nacional do Iguaçu. Por pressões de movimentos
ambientalistas, foi fechada em 1986, através de uma decisão da Justiça Federal.
Em 12 de janeiro de 1998 ela foi reaberta ao tráfego, permanecendo assim até
hoje (SINCRO, 1999) .

O Greenpeace enumera várias razões para o fechamento da Estrada, como a


possibilidade de morte de animais no seu percurso, a caça e a extração de
espécies da flora; e a presença de venenos como agrotóxicos e aqueles
provenientes dos motores dos veículos. Estranho, em se tratando de uma ONG
ambientalista, é não haver nenhuma menção ao fato de que os veículos, ao
passarem pela Estrada, deixam de circular cerca de 150 Km, em estradas
próximas ao Parque, evitando assim a emissão de centenas de toneladas anuais
de poluentes que afetariam-no mais amiúde (ANGEOLETTO, 1999-a).

Também não se discutem os benefícios da Estrada para a população da região


oeste paranaense, particularmente para a micro-região do entorno da Estrada,
nem as iniciativas das prefeituras vizinhas ao Parque para preservá-lo, como por
exemplo a criação de duas entidades, a Associação dos Municípios Pró
Reabertura da Estrada do Colono, que fiscaliza as áreas do Parque que são
contíguas às cidades-membro; e o Movimento Amigos do Parque, que
estabeleceram normas para a utilização da estrada e cuidam da sua
fiscalização2.

Pouco se discute sobre as cidades, como se seus problemas não guardassem


relação com a preservação do ambiente: seriam problemas urbanos; inerentes à
urbanização, e não problemas ambientais. É ainda corrente a idéia de natureza

2
Para BUSARELLO (1990), embora a crise ambiental do planeta venha sendo amplamente
discutida, questões inerentes ao ambiente urbano são relegas a segundo plano pelos movimentos
ambientalistas.
15

como natureza bruta ou museu natural (SERPA, 1995, p. 114; SERPA, 1998, p.
49, 50). Ocorre que, como afirma ELLEN (1989 in DIEGUES, 1996, p. 14),
SPIRN (1995, p. 20) e SERPA (1995, p. 114; SERPA, 1998, p. 49, 50), não existe
natureza em estado puro, e mesmo os mais recônditos ecossistemas sofrem
influência antrópica – direta ou indireta.

O cidadão comum partilha desse ideário: para ele, a natureza situa-se fora dos
limites da cidade, natureza são as praias paradisíacas que o recebem nas férias,
ou a mais inatingível floresta tropical, salva da mácula do urbano. Assim, no
imaginário da sociedade brasileira a questão ambiental refere-se a problemas de
uma ordem distante (a camada de ozônio, as chuvas ácidas, etc. RODRIGUES,
1998, p. 136).

Esse imaginário é alimentado pelos meios de comunicação, que veiculam


reportagens sobre esses problemas, aparentemente desconexos da realidade
urbana, ou sobre pitorescas viagens à natureza, que sempre está situada fora dos
limites das cidades. Essa maneira de abordar os problemas, que é repercutida
constantemente pelo mass media, alimenta tendências políticas e ideologias de
caráter fortemente conservador, e obscurecem a aceleradíssima devastação
ambiental urbana que vem ocorrendo sobretudo nas metrópoles do 3 º mundo
(PACHECO & LOUREIRO, 1992, p. 47).

Há também poucas publicações abordando os problemas ambientais urbanos do


terceiro mundo, geralmente os livros sobre ambiente discutem apenas o
desmatamento das florestas tropicais dos países em desenvolvimento, o buraco
da camada de ozônio, etc, isto é, a maior parte do debate ambiental concentra-se
nas questões globais que ameaçam o planeta e os grandes ecossistemas,
deixando-se num plano secundário, os efeitos nefastos da degradação ambiental
no contexto sócio-urbano (JACOBI, 1993 in SILVA & FERNANDES, 1996, p. 54;
16

ENVIRONMENT and URBANIZATION, 1989, p. 76).

CAMPBELL (1992, p. 191) e FRANCO (1997, p. 212) não escondem a ironia


dessa situação distorcida: enquanto que problemas imediatos, circunscritos ao
ambiente mais próximo (a casa / o bairro), como a falta de saneamento3, são
freqüentemente ignorados por grupos ambientalistas e poderes públicos; as
atenções internacionais voltam-se para questões como o buraco na camada de
ozônio e etc.

Quando o tema Ecologia é mencionado, salta aos olhos o fato de que poucas
referências são feitas ao problema árboreo nas cidades, como se os problemas
ecológicos só estivessem circunscritos fora do perímetro urbano. Quando há, o
planejamento é pouco eficiente no tocante ao aumento e conservação das
árvores urbanas (KNIJNIK, 1985, p. 199). Em suma, enquanto cresce a
preocupação com o ambiente, ainda enxerga-se a cidade como um lugar de
negação da natureza, ou como o local onde sua presença é restrita a poucos
espaços.

É provável que essa percepção, que classifica a cidade e seu entorno como
categorias antagônicas, seja explicada em parte pela ruptura dos estreitos
vínculos e compromissos que unem os citadinos ao meio ambiente. O indivíduo é
independente em um nível sem precedentes da luz do dia e das condições
metereológicas, das estações do ano e das matérias primas autóctones, assim
como de quase todos os ciclos naturais. É evidentemente uma independência
ilusória. As cidades sobreviveriam poucos dias se o fluxo de matéria e energia
vindo de ecossistemas próximos e distantes cessasse (QUEIJO & MONTAÑEZ,
1989, p. 69).

3
Ou no caso de Salvador, a falta de uma adequada arborização nas encostas. O
desmoronamento de encostas acarreta tragédias previsíveis e que se repetem, como a de maio de
1999, quando toneladas de terra soterraram a Av. Suburbana, matando várias pessoas. É claro
que a atenção não deve ser desviada das questões globais, o fato é que elas necessariamente
serão resolvidas à partir das cidades.
17

Há outras explicações plausíveis para a desvinculação entre os habitantes das


cidades e a natureza. Na história da relação das sociedades com a natureza
quase sempre tem estado presente a idéia de que esta deva ser dominada para
servir ao homem. A natureza é tida como recurso exterior ao homem, que é criado
à imagem e semelhança de Deus, e, portanto, superior à natureza, que deve
serví-lo (RODRIGUES, 1998, p. 18, 40). Esse ideário está implícito inclusive nos
programas dos partidos políticos brasileiros. Para RODRIGUES (1998, p. 34),
tanto a esquerda como a direita brasileiras enxergam a natureza como um
recurso a ser explorado, ou então como um mero obstáculo a ser transposto.

A aparente independência do urbanita em relação aos ciclos naturais está


materializada no urbanismo moderno (HAHN, 1998), cujo ideário prega um
absoluto desprezo pelo meio físico: ele é apenas um substrato a ser moldado. O
CIAM (Congresso Internacional de Arquitetos Modernistas ) de 1951 declara que
a natureza do núcleo urbano é uma paisagem cívica, que é produto do homem, e,
portanto, oposta à paisagem natural4. E ainda que na paisagem cívica em alguns
casos os elementos naturais - árvores inclusive - estariam fora de lugar (sic)
(CIAM, 1951 in SIMEOFORIDIS, 1997, p. 11).

Nas palavras da bióloga Maria Angela Faggin Pereira LEITE (1994, p.140):

As práticas do urbanismo (...) não fazem uso do conjunto de características naturais e


sociais de um lugar - da natureza desse lugar - para avaliar, selecionar, emitir juízo ou
implantar concepções de organização urbana, mas parecem procurar perpetuar,
numa atitude temerária, a reprodução de modelos parciais, generalizantes e
dogmáticos, que apesar de reduzir a natureza ao urbano, não têm a capacidade de
integrar o natural e o construído (...)

4
No período modernista, a arquitetura de exteriores era considerada uma atividade periférica. Os
arquitetos dessa época estavam ligados às idéias de progresso, geometria, ordem, e a imagem da
máquina, o que tornava difícil incorporar a natureza orgânica à paisagem construída. Infelizmente,
até hoje o termo paisagismo carrega uma conotação cosmética em relação ao projeto
arquitetônico (FRANCO, 1997, p. 9, 19; LEITE, 1996, p. 62, SOARES, 1984, p. 91).
18

Le Corbusier previa que os arranha-céus seriam a salvação da paisagem,


separando a população do solo e permitindo que a paisagem se espalhasse por
debaixo dos edifícios. A partir dessa formulação corbusiana se desenvolveu uma
visão ideológica da paisagem, considerada como o cenário passivo da escultura
(o edifício). Esse modelo simplista, inflexível e destrutivo da paisagem, que
separa o edifício em artificial e a paisagem em natural, ainda persiste na prática
da Arquitetura. Freqüentemente projetos paisagísticos com formas deliberadas
são criticados por "competirem" com a forma esculptórica dos edifícios próximos
(SCHWARTZ in ROSSEL, 1997 p. 125, 126).

Mesmo os arquitetos e planejadores que procuraram introduzir a natureza na


cidade, através de parques e jardins, entendiam a cidade como algo estranho à
natureza, e seus projetos como enclaves naturais na urbe (SPIRN, 1995, p. 21).

A oposição entre cidades e natureza ecoa na prática da arquitetura, cuja relação


com a paisagem ainda é dominada pelas tradições do desenho modernista: os
edifícios são concebidos como artefatos esculptóricos isolados, como se não
trocassem energia e materiais com o meio. Quanto à vegetação, parece haver um
receio de que a folhagem prejudique a arquitetura, daí sua sub-utilização 5. Isso
reforça a visão da natureza como um local para onde os citadinos dirigem-se nos
finais de semana, mas nunca como algo associado às edificações de uma cidade.
As implicações estéticas negativas que decorrem desta visão são óbvias, e mais
dramáticas são as conseqüências para a saúde6 das populações urbanas (WINES
1997, p. 32).

Uma pequena digressão faz-se necessária, na discussão da relação entre o


desenho urbano modernista e a natureza. No século XIX, nos Estados Unidos,
havia uma percepção muito forte que ligava a época heróica dos pioneiros à
imagem de uma natureza intocada. Por isso, inicia-se uma tradição antiurbana
com Thomas Jefferson. Outros intelectuais levam adiante as idéias de Jefferson,
5
É pertinente ressaltar que o paisagismo modernista – ao menos no Brasil – contrapõe-se a essa
postura. Vide por exemplo a obra de paisagistas como Rosa Kliass ou Roberto Burle Marx.
6
Os benefícios da arborização no ambiente urbano serão tratadas no capítulo 3.
19

como R. Waldo Emerson, Thoreau, Henry Adams, entre outros. Esses autores
criticam a cidade, sob diferentes perspectivas, e defendem a restauração de um
estado rural compatível com a sociedade industrial (CHOAY, 1992, p. 17).

As idéias antiurbanas cristalizam-se no século XX, em um novo modelo, a


Broadacre City, proposto pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright.
Influenciado por Emerson, Frank Lloyd acusa a cidade de alienar o indivíduo no
artifício, e afirma que só o contato com a natureza pode permitir um
desenvolvimento humano harmonioso. Apesar do nome "city", a proposta de
Wright, elimina não só as metrópoles, mas também a idéia de cidade em geral,
pois a natureza volta a ser um meio contínuo, onde as funções urbanas
encontram-se dispersas (CHOAY, 1992, p. 29).

A tentativa de Wright de não negar a diversidade topográfica, mas, ao contrário,


procurar preservar a natureza em suas particularidades (CHOAY, 1992, p. 31), é
louvável. Porém nota-se claramente em suas idéias a antítese cidade / natureza,
cujos ecos ainda são percebidos nos discursos de planejadores. O que Lloyd
Wright defendia era a reintrodução da natureza na vida dos citadinos, sem
aperceber-se que ela nunca esteve ausente.

É interessante que, apesar de Wright entender que a arquitetura está


subordinada à natureza (CHOAY, 1992, p. 31), não há no seu esforço teórico
contribuições da Ecologia (ciência constituída desde o século XIX), que permitam-
no descrever técnicas urbanas de menores impactos ambientais. Impactos que
invariavelmente estariam presentes caso Broadacre City tivesse sido realmente
adotada como modelo de cidade, pois Wright defendia o automóvel, o avião, e
técnicas de comunicação para vencer o isolamento das funções urbanas
(CHOAY, 1992, p. 31). Em suma, apesar dos equívocos, houve entre os
modernistas quem pregasse uma outra relação entre arquitetura e natureza,
diferente daquela materializada nas obras de Le Corbusier e seguidores.

Em grande medida, os arquitetos comungam do ideário o qual preconiza que as


cidades são forjadas principalmente por forças sociais e econômicas, e que a
natureza desempenha um papel meramente estético, de embelezamento da urbe,
20

através da criação de parques e espaços arborizados (SPIRN, 1995, p. 17). É


preciso esclarecer que felizmente tem crescido o número de profissionais -
arquitetos, urbanistas e planejadores, cuja atuação é pautada em premissas
ambientais. Não obstante, é preciso generalizar o modus operandi desses
profissionais.

Entre os urbanistas persiste a crença de que cidades são a antítese da natureza.


Essa crença dominou a forma pela qual a cidade é percebida e continua a afetar a
forma como ela é construída (SPIRN, 1995, p. 21). Poucas vezes a cidade é
pensada como parte do ambiente natural onde está inserida: uma pesquisa
realizada no URBANDATA, que agrupa mais de dez mil referências de pesquisas
urbanas, encontrou apenas 97 classificáveis como ambientais (TORRES, 1995, in
RODRIGUES, 1998, p. 111).

A negação da cidade como uma parte da natureza constitui o que DIEGUES


(1996, p. 13) classifica como mito moderno da natureza intocada, uma tentativa
de reedição do paraíso perdido. O conceito de natural/selvagem é
fundamentalmente uma percepção urbana. Daí a dicotomia urbano/natural, sendo
o natural áreas que devem ser preservadas como templos intocáveis, segundo
esse ideário (DIEGUES, 1996, p. 53). O ideário a que se refere Diegues
transparece na análise feita por aquele autor em documentos do IBAMA dos anos
80, onde descobriu-se que este Instituto propunha até mesmo a retirada de
populações tradicionais (como ribeirinhos, caiçaras e indígenas) das reservas
ecológicas, ignorando que esses povos contribuíram para o aumento da
biodiversidade dos sistemas que eles têm habitado há séculos (segundo
OLIVEIRA, 1992, in DIEGUES, 1996 há vários estudos que apontam nesse
sentido).

1.2 Conseqüências da oposição entre cidades e natureza para o


planejamento
O ideário da cidade como um artefato, em oposição à natureza, evidentemente
tem ocasionado erros na condução do planejamento das cidades. A UNESCO
(1981 in DIAS, 1994, p. 96) preconiza o planejamento de base ecossistêmica
como um pré-requisito essencial para a sobrevivência e o bem estar das
21

populações humanas no futuro. Enquanto que a estabilidade dos ecossistemas


"naturais" aumenta com o crescimento de sua complexidade, o oposto ocorre com
os sistemas urbanos.

Parte dessa vulnerabilidade deve-se ao fato do não reconhecimento das


comunidades urbanas como ecossistemas: o planejamento das cidades
carece de uma visão sistêmica (DASMANN 1972, in DIAS, 1994, p. 19). O
planejamento urbano tem sido feito muito mais a partir dos critérios econômicos
do que os ecológicos (MOTA in LIMA, 1993, p. 19; ZAREMBA, 1986, p. 80). Para
LOMBARDO (1997, p. 46), é preciso repensar os conceitos ambientais no urbano,
visando o estabelecimento de novas metodologias e técnicas aplicáveis ao
planejamento do ambiente urbano.

Ao desconsiderar critérios ambientais, o planejamento das cidades agravou


alguns problemas e mesmo causou outros: água e ar poluídos, recursos
dilapidados, demandas crescentes de energia. Na verdade, os problemas
ambientais urbanos não são diferentes daqueles que afetavam as cidades
antigas, exceto quanto ao grau e à extensão de terra urbanizada (SPIRN, 1995,
p. 21).

Um exemplo de como a desconsideração de critérios ambientais podem ser


prejudiciais: recentemente a cidade de Boston inaugurou um centro de compras e
uma torre de escritórios. Investidores esperavam um lucro maciço obtido por uma
explosão de vendas. Esse retorno não ocorreu, pois as ásperas condições de
vento, criadas pela torre, afastaram os consumidores. A parte aberta do shopping
era sistematicamente fustigada por ventos fortes que atiravam partículas de areia
nas pessoas. A maioria das lojas do shopping foram fechadas (SPIRN, 1995, p.
44, 45).

Outro bom exemplo de um planejamento equivocado, que desconsidera


processos naturais está materializado na barragem de Assuã. Ao ser erigida no
alto do rio Nilo, no Egito não foi levada em conta a ecologia do caramujo
transmissor da esquistossomose. Antes da barragem, os caramujos eram levados
pelas águas do Nilo. Com a barragem aumentou o número de canais onde os
22

caramujos puderam proliferar, e a doença espalhou-se rapidamente pelo Egito


(SPIRN, 1995, p. 261).

Para a arquiteta e paisagista Anne W. Spirn, não é comum que arquitetos e


urbanistas projetem para a economia de energia e diminuição de danos a saúde
(poluentes, etc). Arquitetos, paisagistas, engenheiros muitas vezes não têm noção
de como seus projetos irão afetar o ambiente da cidade como um todo (SPIRN,
1995, p. 76, 79, 255). A maioria dos arquitetos e planejadores têm demonstrado
desconhecer (ou desconsiderar) a dependência de nossa espécie em relação aos
ecossistemas da biosfera, bem como o inter-relacionamento entre esses sistemas
(FITCH, 1976, in NERY, 1992, p.1).

Embora o número de profissionais, cuja prática da profissão leva em


consideração critérios ambientais venha aumentando, frequentemente não
conseguem levar as suas idéias e conceitos integrados a termo. Muitas vêzes
eles se esbarraram em decisões contrárias, baseadas menos em premissas
técnicas do que em considerações de ordem político-econômica, tanto de grupos
de interesse fortes, como também por parte das instituições que os empregam.

Contribui para essa prática de planejamento equivocada a falta de compreensão


de aspectos ecológicos da urbanização (SILVA, 1996, p. 310; ZAREMBA, 1986,
p. 96), bem como uma insuficiência de instrumentos e políticas mobilizadoras
para entender, intervir, e transformar a realidade ambiental (PAULA & BRITO,
1997).

Uma boa parte da mão de obra qualificada não está preparada para as realidades
e problemas do ambiente urbano. Além disto, há uma falta de comunicação entre
a comunidade científica e os responsáveis pelo planejamento, gestão e tomada
de decisões, por isso, apenas uma pequena parte da pesquisa ambiental é
23

aplicada em planejamento e gestão (CELECIA, 1994, p. 3; CELECIA, 1997, p. 6).

Outro fato preocupante é o caráter quase sempre corretivo, e não antecipativo,


das políticas urbanas (ALVA ,1995, p. 40, 46), o que contribui para agravar os
problemas ambientais enfrentados especialmente pelas grandes cidades.

Felizmente, no campo das políticas urbanas vem ganhando espaço, ainda que de
maneira incipiente, a idéia de que uma abordagem integrada dos problemas
urbanos, enfocados sob a óptica do meio ambiente, pode gerar uma nova agenda
de questões a serem contempladas no planejamento e gestão das cidades.

SPIRN (1995, p. 21) preconiza uma nova atitude para com a cidade. Esta precisa
ser reconhecida como parte da natureza e ser projetada de acordo com isso.
Essa desconsideração dos processos naturais tem sido onerosa e perigosa.
Houston é devastada por enchentes, causadas pela urbanização das nascentes,
as árvores de Boston e Detroit morrem pelo excesso de poluição, tornando cara a
sua reposição (SPIRN, 1995, p. 26).

1.3 A cidade do ponto de vista ecológico


ODUM (1985, p. 45) desarma a separação cidade / natureza quando classifica a
cidade como um ecossistema7 heterotrófico. Isso significa que, sob o prisma da
Ecologia, as cidades8 estão para a natureza assim como estão as mais recônditas
florestas tropicais.

7
Ecossistemas ou sistemas ecológicos, segundo ODUM (1985, p. 10-11) são sistemas abertos
compostos pôr: (1) substâncias inorgânicas; (2) compostos orgânicos, que ligam os fatores
abióticos (ambiente) e os bióticos (seres vivos); (3) os ambientes atmosférico, hidrológico e do
substrato, incluindo o regime climático e outros fatores físicos; (4) produtores; (5) consumidores; e
(6) decompositores

8
Diversos autores corroboram ODUM: FORATINNI, DIAS, GILBERT, CESTARO, ULTRAMARI,
CIUDADES PARA UN FUTURO MÁS SUSTENIBLE.
24

Anne Spirn defende a idéia de uma natureza contínua, com diferentes gradações
que vão da floresta à cidade. A autora prossegue afirmando que o conceito de
ecossistema é uma ferramenta poderosa pois permite a cada morador perceber
seu impacto cumulativo sobre a cidade, e ao arquiteto de cada edifício ou parque
perceber o lugar de seus projetos no todo (SPIRN, 1995, p. 269).

Todos os ecossistemas são sistemas abertos, ou seja, representa parte


importante dos estudos de um sistema ecológico reconhecer que existe um
ambiente de entrada (entrada no sistema de energia, materiais e organismos) e
um ambiente de saída (exportação de energia e materiais processados e
emigração de organismos). Assim, não é tão importante a delimitação da caixa
central de um ecossistema, até porque, se a caixa fosse um recipiente
impermeável (um lago ou uma cidade, por exemplo), o seu conteúdo vivo não
sobreviveria a um fechamento dessa natureza. Um ecossistema, para que seja
funcional, precisa de uma entrada para que sejam mantidos os processos vitais e
um meio para exportação da energia e materiais processados.

Atualmente, com o planeta se urbanizando rapidamente, as cidades serão melhor


compreendidas do ponto de vista ecológico se forem classificadas como biomas9,
ou seja, como conjuntos de sistemas ecológicos freqüentemente bastante
variados, que abarcam desde o quintal de uma residência até reservas de mata,
áreas verdes, e também paisagens com um alto grau de edificação, mas que
abrigam diversas formas de vida além da humana.

9
RAVEN & EVERT (1996, p. 612) definem um bioma como um conjunto de ecossistemas
terrestres, climaticamente controlados, que são caracterizados por uma vegetação própria e entre
os quais existe um intercâmbio de água, nutrientes, gases e componentes biológicos, incluindo
pessoas.
25

GILBERT (1989, p. 2) identifica 3 tipos principais de ecossistemas no ambiente


urbano: a paisagem tecnológica, onde a paisagem biológica foi
substancialmente trocada por substitutas artificiais; a paisagem jardim, onde
elementos biológicos podem subsistir desde que haja um contínuo manejo e a
paisagem ecológica onde elementos naturais persistem sem qualquer
intervenção.

Um aspecto surpreendente dos biomas urbanos, é que estes apresentam um


maior número de espécies vegetais e animais que sistemas agrícolas e
reflorestados, perdendo apenas para biomas "naturais".

A grande Londres, por exemplo, apresenta cerca de 1850 espécies de vegetais e


200 de aves. É mister afirmar que essa biodiversidade não necessariamente
corresponde a uma riqueza ecológica, já que é baixa a percentagem de espécies
raras ou de ambientes específicos (CESTARO, 1985, p. 54).

Os assentamentos humanos sempre se constituíram em alguma forma de


transformação do meio natural preexistente. Desde a pré-história o meio natural
vem sendo modificado, transformado ou comprometido10 (MOHR, 1985, p. 31).

10
É bastante significativo que a primeira grande crise ambiental registrada historicamente tenha
ocorrido na região onde pela primeira vez surgiu uma aglomeração urbana, em 3500 a.C., na
Baixa Mesopotâmia (POITING,1992 in TUR, 1997).
26

Porém, a rápida urbanização que temos assistido nos últimos 50 anos tem
mudado a fisionomia do planeta mais do que qualquer outra atividade humana.
Para WHITE (1985, p. 13) a urbanização é atualmente a maior força ecológica,
que envolve amplas transformações do solo, água, ar, recursos energéticos e de
populações humanas; suficientes para influenciar o clima e os ciclos
biogeoquímicos globais.

Essa constatação da força de influência da urbanização pode parecer um


equívoco, quando verifica-se que a área ocupada pelos biomas urbanos situa-se
entre somente 1 e 5% da parte terrestre do globo11. Ocorre que, por possuírem
extensos ambientes de entrada e saída, estes sistemas alteram sobremaneira a
natureza de rios, florestas, campos, oceanos e a própria atmosfera. Segundo
JOHNSON (1999), WORLDWATCH INSTITUTE (1999) e GIRARDET (1997, p. 9),
as cidades ocupam cerca de 2% da superfície terrestre, mas contribuem para o
consumo de 76% da madeira industrializada e 60% da água doce12.

Isto significa que embora as cidades sejam descritas como entidades geográficas
isoladas, elas dependem dos recursos naturais de vastas regiões muito além de
suas fronteiras. Para quantificar o volume de recursos consumidos pelas cidades,
REES & WAKERNAGEL criaram um conceito, a pegada ecológica (ou
ecological footprints) para medir a dependência entre as cidades e seus
hinterlands. A pegada ecológica é definida como o total da área de terra produtiva
e água requeridos permanentemente para produzir todos os recursos consumidos
e absorver todos os dejetos produzidos por uma determinada população. Desde o

11
Mesmo após a intensa urbanização ocorrida nos últimos 100 anos, a área ocupada pelos
espaços urbanos é uma pequena fração da superfície dos continentes. Os EUA, por exemplo, têm
53% de sua população ocupando apenas 0,7% do território nacional (DAVIS, 1977, in SERRA,
1987, p. 7). 50% da população mundial vive em cidades com mais de 20 mil habitantes, e ocupam
uma área inferior a 2% dos continentes. No Brasil, em apenas 9 regiões que ocupam menos de
5% do território nacional, vivem aproximadamente 45% da população (CESTARO, 1985, p. 51).

12
Para se ter uma idéia da magnitude do ambiente de saída dos biomas urbanos: cientistas que
estudam a neve da Antártida, os peixes de mares profundos e as águas subterrâneas encontram
resíduos químicos feitos pelo homem (SANTOS, 2000)
27

começo deste século, a pegada ecológica cresceu 5 vezes nos países


industrializados (ALBERTI, 1997, p. 3).

A pegada ecológica de cidades como Los Angeles ou Londres provavelmente


possui área entre 100 e 300 vezes maior do que a área ocupada pelos próprios
assentamentos. A pegada ecológica de Londres, com 12% da população
britânica, estende-se hoje por cerca de 20 milhões de hectares, o que equivale ao
total de terras produtivas da Grã-Bretanha (GIRARDET, 1999, p. 11). Se o padrão
dos londrinos fosse estendido ao resto das populações urbanas do mundo, seriam
necessários três planetas Terra para sustentarem a todos (JOHNSON, 1999).

DARLING & DASMANN (1972, in DIAS, 1994, p. 19) defendem que as cidades
ocupam o mesmo nicho global dentro da biosfera, explorando os mesmos
recursos, das mesmas maneiras. Isso gera uma competição muito forte, que
fomenta crescentes pressões ambientais, ao mesmo tempo em que a qualidade
de vida de boa parte dos citadinos deteriora-se.

1.4 Impactos dos biomas urbanos sobre a biodiversidade


Um impacto dos biomas urbanos sobre a biosfera, a contínua perda de
biodiversidade, merece especial atenção, pelas conseqüências deletérias que
poderão advir.

Áreas urbanas são sinônimos de perturbação de ecossistemas e de erosão de


diversidade biológica (MURPHY, 1997, p. 89-97) aqui entendida como o grau de
variedade na natureza, incluindo tanto o número quanto a freqüência de gens,
espécies e ecossistemas em determinada região. É normalmente considerada em
três níveis diferentes: diversidade genética, de espécies e de ecossistemas
(PAULA, 1997, P. 246)].

Historicamente, as áreas urbanas foram as primeiras regiões onde houve


matança excessiva de vida selvagem para obtenção de alimento, peles e penas.
Essas áreas foram pioneiras também no sentido de terem programas de
derrubadas e erradicação de "ervas daninhas". Outro fator de redução de
biodiversidade é a introdução de espécies animais exóticas que caçam as
28

populações nativas, competem por recursos limitados e agem como vetores de


doenças e parasitas para os quais os organismos nativos muitas vezes são
bastante suscetíveis. A biodiversidade pode ser impactada de outros modos
através da emissão de poluentes na atmosfera e em cursos d’água.

Esse conjunto de fatores contribui para perturbações nos ecossistemas presentes


em áreas urbanas e para o desaparecimento de populações de organismos
nessas e em outras áreas. A taxa natural de extinção de espécies, que durante os
últimos 600 milhões de anos foi de cerca de uma espécie por ano, hoje é cerca
de 100 vezes ou talvez milhares de vezes maior (EHRLICH & EHRLICH, 1981;
MYERS, 1986; SOULÉ, 1986; RAVEN, 1987; WESTERN & PEARL, 1987,
WILSON, 1987 in MYERS, 1997, p. 36).

Com a redução da biodiversidade, serviços ecológicos essenciais, como a


regulamentação da qualidade e quantidade da água, a regeneração de plantas e
animais, a ciclagem de nutrientes e a exclusão de extremos climáticos podem ser
prejudicados ou totalmente perdidos (BRADY, 1997, p. 522), o que é
preocupante.

Essa é a razão antropocêntrica mais importante para a preservação da


biodiversidade: o papel que os microrganismos, as plantas e os animais
desempenham no fornecimento de serviços livres sem os quais não é possível a
sobrevivência da humanidade, assim a manutenção de reservas de água doce,
estabilização climática global, a polinização de lavouras, a manutenção da
fertilidade dos solos pelos microrganismos, a diminuição da poluição atmosférica
são exemplos desses serviços aos ecossistemas, inclusive às cidades [EHRLICH,
1997, p. 28, 31]).

São consensos à comunidade científica: a necessidade imperiosa da manutenção


da biodiversidade, bem como a dificuldade imposta pelas atividades antrópicas
nessa manutenção (CHALLINOR, 1997, p. 629).

À medida em que os serviços dos ecossistemas começarem a faltar, a


mortalidade de doenças epidêmicas e respiratórias, os desastres naturais e
29

especialmente a fome diminuirão a expectativa de vida humana, que entrará em


colapso e provavelmente desaparecerá em algum ponto antes do final do século
XXI. A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica
em um desfecho para a civilização nos próximos 100 anos, algo similar a um
inverno nuclear (EHRLICH, 1997, p. 28, 32).

As afirmações do professor Paul Ehrlich, da Universidade de Standford, apesar de


serem deveras apocalípticas, não são fruto de nenhuma profecia visionária de
Nostradamus, mas simplesmente de suas observações científicas (derivadas das
conseqüências da diminuição dos serviços ecológicos). Talvez a humanidade não
pereça, dada sua notável capacidade de adaptação aos mais diversos habitats e
situações. Não obstante, caso continue em vigência as atuais relações
econômicas frente aos processos sócio-ambientais, é certo que a qualidade de
vida será cada vez mais restrita a poucos.

Os biomas urbanos influenciam negativamente a biosfera, mas há também


diversos aspectos positivos a serem destacados. A idéia da cidade como um
conjunto de ecossistemas torna possível visualizá-la como um lugar em que uma
grande variedade de recursos - naturais, humanos e sociais - são entrelaçados,
criando-se uns, consumindo-se outros, enquanto alguns são deixados como
resíduos (CAMPBELL, 1992, p. 183). É portanto uma idéia valiosa para as
práticas de educação ambiental, pois contribui para a negação da oposição
cidade / natureza.

Do ponto de vista ecológico, é melhor que as pessoas concentrem-se em cidades,


pois suas necessidades são atendidas mais facilmente. O uso de energia é mais
eficaz nas cidades do que em assentamentos dispersos (ALBERTI, 1997, p. 3;
SPIRN, 1995, p. 272, de la BARRA, 1999). Também é mais fácil corrigir eventuais
impactos ambientais, bem como melhorar a qualidade de vida dos urbanitas
30

(LUGO, 1991, p.34). À despeito das muitas vantagens da concentração de


pessoas nas cidades, é preciso contudo discutir seus limites.

O arquiteto Sílvio Soares MACEDO (1987, p. 14) lista uma série de


desvantagens na adoção de torres de apartamentos como o principal padrão de
habitação, entre eles: perda definitiva do jardim e do quintal particular e perda da
rua como espaço de "estar", pois esta passa a servir quase que exclusivamente
como eixo de circulação de veículos. A verticalização é uma solução interessante
às grandes cidades, mas é questionável sua adoção em pequenas e médias
cidades.

Do ponto de vista da sociedade, as cidades produzem uma grande quantidade de


informações, conhecimento, cultura e tecnologia, exportando-os para outros
sistemas (CELECIA, 1994, p. 2; CELECIA, 1997, p. 5).

O gigantismo das cidades não é em si um problema. Na medida em que seus


citadinos podem aproveitar os recursos de informação disponíveis nas cidades, é
nelas onde podem ser encontradas as soluções para uma boa parte de seus
problemas (CAMPBELL, 1992, p. 182). E as ferramentas disponíveis para
enfrentar os problemas ambientais urbanos são variadas e sofisticadas, é preciso
apenas que sejam aplicados (SPIRN, 1995, p. 27).

Essas afirmações contradizem totalmente o ambientalismo romântico e ingênuo


que prega a "volta" à natureza através da ruralização da sociedade. Populações
difusas seriam muito mais difíceis de serem sustentadas, e as insídias aos
ecossistemas provavelmente seriam maiores. A filosofia do "preservar a qualquer
custo", comum nesse categoria de ambientalismo, é muito difícil de ser
implementada, quando a humanidade depara-se com um crescimento contínuo de
sua população, que precisa de recursos para sobreviver (LUGO, 1991, p. 27, 34).
31

Para concluir, o problema não está nas cidades em si, mas na maneira ecológica
e socialmente desequilibrada pela qual são construídas. Urge que sejam
abandonadas formulações simplistas como a de EDE (1999) e SOBRAL (1994),
que classificam as cidades como um câncer, como uma doença progressiva e
sem cura, que se espalha pelo mundo. Pensá-las como compartimentos
destacados da natureza contribui para o agravamento de seus impactos, pois
corrobora uma inércia dos planejadores, preocupados apenas em verificar as
condições técnicas para a execução de uma obra, e não em discutir, por exemplo,
limites ecossistêmicos para a urbanização ou a elaboração de técnicas
arquitetônicas que permitam uma coexistência entre diversos ecossistemas que
compõem os biomas urbanos.

Também é desanimadora a posição dos biólogos13 e ambientalistas ao insistirem


numa ideologia onde o humano aparece sempre como vilão, como um destruidor,
necessariamente incompatível com qualquer outro sistema que não os urbanos,
sendo necessário sempre criar reservas que o excluam. Afinal, com a expansão
do fenômeno urbano (vide discussão sobre as atuais tendências de urbanização
no capítulo 2), torna-se impossível a compreensão (e resolução) dos grandes
temas nacionais (entre eles a questão ambiental) sem relacioná-los com a
questão urbana (FERREIRA, 1995, p. 74).

Para corrigir essa visão distorcida dos problemas ambientais, CAMPBELL (1992,
p. 192) propõe a adoção de um novo ethos ambiental, que leve em conta tanto o
bem estar de populações humanas quanto a importância da preservação da
diversidade biológica. Na prática da arquitetura e do urbanismo essa ethos
poderia traduzir-se em combinações mais adequadas entre as três categorias de
sistemas ecológicos mais comuns nas cidades (MONTE-MÓR,1994, p. 178).

13
Essa posição é influenciada por falhas no ensino de graduação. Na minha graduação tive 180
horas de Ecologia, repartidas em três cadeiras e não fazia parte do currículo de nenhuma delas o
tópico ecossistemas urbanos. Em 1997 e 1999 ministrei dois cursos em Encontros de Estudantes
de Biologia, um nacional e um regional e mesmo alunos oriundos de graduações em Biologia
consideradas excelentes ignoravam a noção de cidade como ecossistema.
32

Afinal, a urbanização não é uma catástrofe a ser evitada, mas um processo a ser
dirigido e regulado dando-se prioridade à organização do ambiente humano.
Atitudes ecológicas em relação à prática do urbanismo não devem ser
identificadas como uma restrição ao crescimento urbano. A Ecologia deve criar
com a Tecnologia novas formas de urbanização favoráveis ao homem e seu bem
estar (ZAREMBA, 1986, p. 70, 104), bem como a seus parceiros responsáveis
pela manutenção da vida: os microrganismos, plantas e animais.

CAPÍTULO 2
Urbanização e Degradação Ambiental

Vejo o mundo como um organismo vivo do qual somos parte, não os donos, não os inquilinos,
sequer os passageiros. Explorar esse mundo na escala que fazemos seria tão tolo quanto
considerar supremo o cérebro e dispensáveis as células dos outros órgãos. Seríamos capazes de
minerar nosso fígado em busca de nutrientes para algum benefício de curta duração?
(James Lovelock, 1997)

Cidades são conjuntos de ecossistemas onde não apenas influem dinâmicas


naturais, mas sobretudo dinâmicas sociais. Essas dinâmicas ou forças são
determinantes para a existência de inúmeros problemas ambientais que
manifestam-se por toda a biosfera, como ficou explicitado no capítulo anterior.
33

Mas as forças sócio-econômicas que promovem a urbanização também são


responsáveis por problemas ambientais inerentes ao âmbito urbano.

Para Patrícia BORJA (1997, p. 18), as cidades têm crescido segundo duas lógicas
distintas: a social e a econômica. A primeira - e mais representativa - produz as
cidades dos excluídos, a cidade informal, produto do processo de apropriação do
espaço por um extrato populacional que não tem acesso à terra, moradia,
emprego e renda, através da ocupação de áreas geralmente pobres e insalubres.
A segunda está a mercê dos interesses do capital imobiliário.

A classificação de Patrícia Borja, que divide as forças de urbanização em sociais


e econômicas, não é totalmente adequada. A urbanização realizada pela pobreza
também têm uma importância econômica relevante, pois permite a manutenção,
dos trabalhadores nas cidades, que, obviamente, são as peças fundamentais de
qualquer sistema produtivo.

2.1 A urbanização da pobreza


A urbanista Erminia MARICATTO (1996, p. 16) observa que nas cidades
brasileiras a ocupação ilegal de terras é informalmente consentida, e mesmo
incentivada pelo Estado, que no entanto não admite o acesso formal à terra e à
cidade. Isso se dá por conta da articulação entre legislação, mercado e renda
imobiliária. Permite-se a ocupação em áreas de proteção ambiental, de modo
oficioso, ao não exercerem-se represálias14 (KOWARICK, 1979, p. 89). Isto
raramente ocorre em áreas valorizadas pelo mercado imobiliário baseado em
relações capitalistas. Quer dizer: setores mais pauperizados da população
habitam áreas mais sujeitas aos agravos ambientais (JACOBI, 1996, p. 19, de la
BARRA, 1999).

14
Os assentamentos empobrecidos em beiras de mananciais, parques, fundos de vale, margens
de córregos têm recrudescido, segundo SACHS (1989 in SILVA & FERNANDES, 1996).
34

MARICATTO (1996, p. 26) conclui que enquanto os imóveis não têm valor como
mercadoria, ou têm valor irrisório, a ocupação ocorre sem intervenção do Estado.
Este só interfere, através da legislação e do direito oficial, quando as áreas
adquirem valor de mercado, isto é, as leis do mercado são mais efetivas que as
normas legais. É comum a remoção de bairros sub-normais15 pelo poder público,
quando seus terrenos adquirem valor de mercado ou causem algum tipo de
constrangimento a bairros abastados que situem-se nas proximidades
(KOWARICK, 1979, p.79).

É exatamente o que tem ocorrido no Alto de São João, um bairro sub-normal, e


que está literalmente encravado dentro de uma área de Mata Atlântica - o Parque
de Pituaçu. O Parque situa-se próximo à orla, faz divisa com diversos bairros de
classe média. Moradores do bairro denunciam pressões da prefeitura para que
desocupem a área, usando inclusive expedientes ilegais, como a demolição de
barracos, à noite, por pessoas não identificadas. A Prefeitura argumenta que se
trata de uma área pública e de proteção ambiental16.

Se esta é realmente a razão, pergunta-se: por que as sucessivas administrações


municipais não têm dado a mesma atenção à imensa área de Mata Atlântica que
é um Parque Metropolitano desde 1978? Esta área - o Parque Metropolitano de
Pirajá, está completamente cerceado por mais de 36 bairros e ocupações, onde
impera a pobreza e em alguns casos, a pobreza crítica. Houve inclusive uma
proposta, idealizada pelo prefeito Renan Baleeiro, de derrubada da mata (sic)
para a construção de bairros populares17 (ANGEOLETTO, 1999). Em tempo: não
se defende aqui a retirada de moradores, mas a negociação. Os dois Parques
têm populações consolidadas, que têm ou deveriam ter direitos sobre o solo que
ocupam. De outro ângulo, não é aceitável que os Parques simplesmente
15
PELLEGRINI (1982, p. 16) define bairros sub-normais como aqueles onde o nível de vida é
decisivamente mais baixo do que o da cidade no qual se inserem.
16
Para a retirada de moradores de baixa renda instalados nos arcos da Av. Contorno, próximos ao
Solar do Unhão, ponto turístico de Salvador, a prefeitura usou como argumento a falta de conforto
ambiental, e mesmo com um laudo do Laboratório de Conforto Ambiental da UFBA atestando o
contrário, eles foram relocados (HARTOCH, 1997).
17
Uma discussão sucinta sobre este episódio é encontrada no capítulo 4.
35

desapareçam.

O assentamento de moradores em terras impróprias, encostas, manguezais,


matas, é uma característica das grandes cidades. Esses assentamentos são
gerados pelos altos preços da terra urbana, que obrigam os pobres a
estabelecerem-se em áreas marginais, que via de regra são importantíssimas do
ponto de vista ambiental. Há, portanto, uma conexão evidente entre problemas
ambientais e sociais das cidades. As classes populares buscam moradia mais
barata, avançando sobre áreas frágeis, enquanto na cidade há infra-estrutura já
instalada, mas inacessível a elas, porque as cidades crescem excluindo as
classes populares (TAGNIN, 1999, in LOPEZ, 1999).

Para se ter uma idéia dessa inacessibilidade, dados da cidade de São Paulo são
bastante esclarecedores. Na capital paulista, nos últimos cinco anos, foram
lançados cerca de 61 mil apartamentos de médio e alto padrão, mais de R$ 75 mil
a unidade, contra 47,5 mil unidades para pessoas de "baixa renda" até R$ 75 mil
a unidade, segundo a Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio. Enquanto
isso, o número de favelados subiu de 1,07 milhão,11% da população em 91, para
1,9 milhão, 19% da população em 93 (FLORESTA, 1999).

Os que não participam das condições adequadas de qualidade de vida são


aqueles que partilham dos "resíduos" do processo de urbanização brasileira:
habitam em situação precária, muitas vezes em bairros que não contam com
fornecimento adequado de água, luz e esgotamento sanitário (RODRIGUES,
1998, p. 108; FERNANDÉZ, 1998; EHRLICH, 1974, p. 190, 192; JACOBI, 1996,
p. 19). Outros equipamentos imprescindíveis, como praças, áreas verdes e ruas
arborizadas são raras ou inexistentes. É o que ocorre nas cidades indianas
(CENTRE FOR SCIENCE AND ENVIRONMENT, 1989, p. 13), como em Bangkok
(PHANTUMVANIT & LIENGCHARERNSIT, 1989, p. 38), Accra (capital de
Ghana), São Paulo (STEPHENS & AKERMAN, 1997, p. 196), Bogotá
(CASTAÑEDA, 1989, p. 18), bem como na esmagadora maioria dos centros
urbanos dos países em "desenvolvimento", e em menor proporção nas cidades
do primeiro mundo.
36

Se fossem confeccionados mapas das cidades do 3º mundo mostrando os índices


de perigos para a saúde ocasionados por variáveis ambientais, certamente na
maioria das cidades, as áreas de maior risco seriam aquelas ocupadas pelas
populações de menor renda (SATTERTHWAITE, 1993, p. 103).

Segundo PEDRÃO (1996, p. 18), as grandes cidades sofrem com o agravamento


da tensão ambiental, causada pela concentração industrial e pela urbanização da
pobreza. Evidentemente há um preço há pagar pelas calamidades desse tipo de
urbanização, um preço que é maior para os pobres urbanos, que às vezes o
pagam com as próprias vidas, seja quando toneladas de terra de uma encosta
desabam sobre eles, ou quando a proximidade com fontes de poluição vão aos
poucos minando sua saúde.

Porém, as demais classes sociais também pagam um preço. A depredação


ecológica e urbana refletem-se negativamente no processo de expansão do
capital, pois implicam na canalização de recursos que poderiam ser dirigidos para
investimentos produtivos e sociais (KOWARICK, 1979, p.52).

2.2 A urbanização da riqueza


A relação entre moradia pobre e degradação ambiental é evidente, o que não
significa que a produção do ambiente construído pela iniciativa privada ou pelo
Estado não provoque danos. A construção do Conjunto Habitacional José
Bonifácio, em São Paulo (SP) com mais de 250 mil habitantes, é um excelente
exemplo da insipiência estatal no que tange ao ambiente urbano: para seu
assentamento, o relevo foi arrasado, resultando em gigantescos movimentos de
terra (MACEDO, in SERPA, 1996-b, p. 162).

Na esfera privada são comuns os aterramentos de mangues para a construção


de condomínios de luxo (MARICATTO, 1996, p. 65), já que a especulação
imobiliária ignora os impactos ambientais e sócio-econômicos do crescimento
urbano que ela promove (CELECIA, 1994, p. 2; CELECIA, 1997, p. 5).

Arembepe, no litoral norte baiano é um exemplo de práticas de especulação


imobiliária que resultam em empobrecimento dos ecossistemas e paisagens
37

locais. O balneário, bem como outros pontos do litoral norte, vem experimentando
um processo de urbanização qualificado pela arquiteta Eline MENEZES (1999, p.
102) como convenientemente mal ordenada ou, em termos ainda mais
explícitos, ordenada para o lucro, no qual o aterramento de lagoas de água doce
próximas às praias para fins de construção é uma constante.

Uma prática comum dos especuladores é a retenção de terrenos, o que contribui


para um processo de produção de espaços urbanos segregados. Os vazios
(lotes) são um dos principais fatores de crescimento desordenado das cidades,
pois criam periferias cada vez mais distantes. E a valorização desses vazios está
associada à implementação de melhorias promovidas pelo poder público, que
desempenha um papel fundamental na dinâmica da especulação imobiliária.
(KOWARICK, 1979, p. 80, 81).

A construção do Shopping Center Iguatemi, em Fortaleza, é um exemplo


extremamente representativo da urbanização promovida pela riqueza. E mais do
que isso, descreve com perfeição a subordinação completa do poder público à
esfera privada, e ainda, a linha cada vez mais tênue que separa o público e o
privado, quando interesses particulares prevalecem sobre a esfera pública.

O Shopping foi construído no manguezal banhado pelo Rio Cócó, numa zona de
expansão de classe média. É de propriedade do então governador Tasso
Jereissati. Após o término das obras, Jereissati conseguiu aprovar uma lei
estadual impedindo que qualquer outra edificação se instalasse naquela
imediação, usando a argumentação de "proteção ambiental". Depois de
promulgada a lei, o próprio governador infringiu-a, ao construir a via Sebastião de
Abreu, que liga o Shopping aos bairros de Papicu e Dunas, onde localizam-se
residências de classe média alta e mansões. Enquanto isso, em um imenso
manguezal banhado pelo Rio Ceará, numa zona de expansão da pobreza,
centenas de pessoas estão continuamente instalando-se sobre o mangue, sem
que haja uma lei de proteção ou qualquer ação do poder público nesse sentido
(José Clewton Nascimento, comunicação pessoal, 1999).
38

2.3 A urbanização extensiva


A urbanização promovida por ricos especuladores ou por aqueles que muitas
vezes vivem abaixo da linha da pobreza é hoje um fenômeno planetário (BORJA,
1997, p. 16; BORJA, 1996, p. 81). Segundo MONTE-MÓR (1994, p. 171),
vivemos, atualmente, uma urbanização extensiva dos territórios, definida pelo
professor mineiro como a

urbanização que estende-se para além das cidades, em redes que penetram
virtualmente todos os espaços, integrando-os em malhas mundiais, o que representa
a forma sócio-espacial dominante que marca a sociedade de Estado contemporânea
(...).

Em outra oportunidade, este autor aprimora esse conceito, ao afirmar que

formas contemporâneas de produção do espaço (...) têm gerado um processo de


extensão das condições gerais de produção para além dos limites das cidades e
áreas urbanas. Tal extensão pode dar-se de modo contíguo às áreas urbanizadas,
por crescimento extensivo do tecido urbano, ou por fragmentos concentrados no
território regional, urbano e rural. Há uma ubiqüidade de serviços e práticas, antes
restritas à vida urbana, o que faz com que diversas características do consumo
coletivo humano existam quase indiscriminadamente tanto nas áreas rurais como
urbanas. (MONTE-MOR & COSTA, 1997, p. 109).

Para MILTON SANTOS,

designações como "região urbana" ou "zona rural" ganham um novo conteúdo. Numa
área onde a composição orgânica do capital é elevada, onde quantidade e qualidade
das estradas favorece a circulação e as trocas, onde a proximidade de uma grande
cidade e a especialização produtiva e espacial conduz a complementariedades, o
campo se industrializa, torna-se objeto de relações capitalistas avançadas (...).
(SANTOS, 1992, p. 69).
39

O arquiteto e político italiano Giulio Carlo Argan, conseguiu, de maneira sucinta e


poética, explicitar como as cidades, com a globalização, espalham suas
ramificações por sobre toda a biosfera ao afirmar que

a natureza não esta mais além dos muros da cidade; as cidades não têm mais muros,
mas estendem-se em desesperadores labirintos de cimento, desfiam-se nas sórdidas
periferias de barracos e, para lá da cidade, ainda é cidade, a cidade das auto
estradas e dos campos cultivados industrialmente (ARGAN, 1993).

Outrossim, não é mais possível sustentar a distinção entre meio ambiente natural
e construído, uma vez que as paisagens ecológicas tendem a ser ilhadas pelas
redes da urbanização extensiva (ANGEOLETTO & SERPA 1997, p. 84).

2.4 Alguns dados reveladores


O crescimento em número e extensão das cidades, sem que seus benefícios
fossem estendidos a todos os urbanitas, e com um aumento espantoso da
exclusão social e espacial - uma característica marcante da urbanização
extensiva - pode ser melhor visualizado nos dados compilados nos parágrafos
que se seguem.

A partir da fundação de Jericó, a população urbana demorou cerca de 9 mil anos


para chegar a 38% do total mundial, em 1975. Desde então, já saltou para 47% e,
segundo projeções das Nações Unidas, chegará a 55% em 2015 e a 61% em
2025, sendo que na América Latina essa proporção será de 77% (ONU, 1991, p.
9-11). Ou seja: em apenas 50 anos, os moradores das cidades terão sido
multiplicados de 1,5 bilhão para 5 bilhões de pessoas - o equivalente a 500
cidades de São Paulo. No início do próximo milênio, em 2006, pela primeira vez
na história da humanidade a quantidade de pessoas morando em cidades será
maior do que a população rural do planeta. (TOLEDO, 1999). As cidades estão
40

crescendo em número e tamanho.

A tendência à urbanização, que hoje presenciamos, vem acompanhada de uma


outra, manifestada principalmente no terceiro mundo18, onde vivem 75% da
população mundial: a marginalização social e cultural de uma significativa parcela
dos habitantes dos centros urbanos (DIAS, 1994, p. 13; VERAS, 1996, p. 556).

Um bilhão de pessoas vão morar em barracos de madeira, amontoadas em


cortiços ou em instalações sem as mínimas condições de higiene. Esse é o
prognóstico urbano menos pessimista para o próximo século, segundo a ONU e a
WATER-AID (organização inglesa de desenvolvimento sanitário). Esse cenário deve
predominar em países em desenvolvimento, onde estima-se que 50% da
população urbana passe a viver em sub-habitações. (FLORESTA, 1999). Há 800
milhões de famintos no mundo e, a cada ano, a população famélica aumenta em
25 milhões (TOGNOLLI, 1999, p. 30).

Dados do relatório do Banco Mundial, intitulado "Política Urbana e


Desenvolvimento Econômico - Uma Agenda para os Anos 90", indicam que: 1) até
o ano 2000, 20 dos 25 maiores núcleos urbanos mundiais se encontrarão no
Terceiro Mundo; 2) a OMS calcula que nos anos 90 cerca de 30 milhões de
crianças terão morrido de diarréia e pneumonia, provavelmente a maior parte nas
grandes cidades (SERVA, 1993, in SILVA, 1996, p. 314)19.

No Brasil, em pouco mais de 50 anos, a população urbana praticamente triplica,


saltando de 26,35% para atuais 75% (SANTOS, 1994, p. 135). No 2000, estima-

18
De acordo com uma projeção das Nações Unidas, apenas 7% da população do 3 o mundo será
rural em 2010 (CAMPBELL, 1992, p. 184).
19
Segundo cálculos da ONU, 1 bilhão de crianças poderão tornar-se adultos incapacitados em
2020, a menos que uma agressiva campanha de alimentação seja lançada em todo o planeta
(ZEEK!CLIP, 2000) .
41

se que 80% da população viverá em centros urbanos. Esse percentual deve


chegar a 88% em 2025 - segundo projeções das Nações Unidas (FOLHA de SÃO
PAULO, 1999-b).

Em 1996, 66% dos urbanitas brasileiros (cerca de 75 milhões) não dispunham de


esgoto sanitário, 18% não contavam com água encanada e 47% não dispunham
de coleta de lixo. Somente 3% do lixo coletado tem disposição final adequada,
enquanto outros 63% são lançados em cursos d'água e 34% a céu aberto.
(SILVA, 1996, p. 314). Atualmente 70,8% dos pobres e 57,6% dos indigentes
brasileiros concentram-se nas cidades e metrópoles (RODRIGUES, 1998, p. 107).

2.5 A urbanização extensiva e a globalização econômica


A sustentabilidade ecológica das metrópoles é dificultada pela aceitação cega das
regras do mercado internacional, que militam contra os interesses da maioria das
populações das cidades (ALVA, 1995, p. 53). SANTOS (1994, p. 79) afirma com
precisão que o planejamento urbano, obediente aos parâmetros das cidades
internacionais, comandantes da economia globalizada, termina por estabelecer
as condições para uma modernização que negligencia a maior parte das cidades
e de suas populações.

O Estado, com a globalização econômica, redefine-se para a satisfação das


exigências do sistema econômico mundial, mostrando-se

(...) em conseqüência, ineficiente para a satisfação das demandas que


tradicionalmente a sociedade dele espera. (FIGHERA, 1994, p. 112).

Nesses espaços de racionalidade, o mercado é tornado tirânico e o Estado tende a


ser impotente. Tudo é disposto para que os fluxos hegemônicos corram livremente,
destruindo e subordinando os demais fluxos. Por isso, também, o Estado deve ser
enfraquecido, para deixar campo livre à ação soberana do mercado. (SANTOS, 1994,
42

p. 33-34)

No mundo globalizado, as metrópoles subdesenvolvidas concentrarão não


apenas população, mas também miséria. Crescendo num ritmo veloz, terão
muitas dificuldades para administrar as necessidades básicas de tanta gente,
multiplicando as carências de habitação, transportes e saneamento básico. Mas
não serão as únicas a enfrentar esses dilemas. Mesmo metrópoles do topo da
hierarquia da rede global de cidades, como Nova Iorque, também sofrem com
congestionamentos, poluição e violência (FOLHA de SÃO PAULO, 1999-a).

2.6 Urbanização versus superpopulação


Dezenas de autores, dos mais ilustres àqueles que opinam sem qualquer base
científica, em diversas publicações, que abarcam desde livros, artigos em
periódicos até publicações em revistas e jornais, têm expressado sua
preocupação com o aumento contínuo da população, o que ocasionaria um
aumento quantitativo e qualitativo dos impactos ambientais, sobretudo num
período no qual a humanidade experimenta uma urbanização nunca antes vivida.

De fato, a partir dos anos 1990, os seres humanos têm gastado apenas 11 anos
para dobrar sua população20 (SUPERINTERESSANTE, 1993, p. 28, 29).

Entretanto, essa discussão está fora de foco. Quase sempre quando o tema
superpopulação vem à tona, há uma mensagem subliminar (ou, às vezes,
explícita) que diz: interrompa-se o crescimento da população humana. Ora, o
crescimento vegetativo da humanidade per se não é o problema, e é risível

20
Porém, a reprodução da população urbana é apenas uma das causas da explosão urbana. Na
média mundial, 40% do crescimento da urbanização se deve à migração do campo para a cidade
(TOLEDO, 1999). E ao que parece, o crescimento populacional caminha para um cenário de
estabilização. As projeções sobre crescimento da população vêm sendo revisadas para baixo pela
ONU, porque a taxa de fecundidade tem caído rapidamente (LEITE, 1999).
43

atribuir à natureza (isto é, à capacidade reprodutiva do Homo sapiens sapiens) a


culpa pelos inúmeros desastres sócio-ambientais que temos continuamente
produzido e reproduzido .

E este é precisamente o foco: estamos crescendo num sistema que prima pelo
desperdício e pela desigual distribuição de recursos, onde cada recém-nascido é
ou um novo perdulário ou um novo miserável, e, ambos, cada qual a seu modo,
irão contribuir para a destruição daquilo que LOVELOCK (1997, p. 622) afirma ser
nossos órgãos externos, tão importantes quanto os internos: os sistemas
ecológicos.

Felizmente, a idéia do crescimento populacional como o maior fator de pobreza e


degradação ambiental aos poucos vem sendo substituída por uma visão que
incorpora a tecnologia e a distribuição de recursos. Se 25% da população mundial
consome 75% da energia e 89% da produção de madeira do planeta, a relação
população/ambiente deve ser vista sob uma perspectiva mais complexa (HOGAN,
1993, in RODRIGUES, 1998, p. 120).

As cidades do hemisfério Norte são responsáveis pela utilização de grande


parcela dos recursos, consumo de energia e poluição ambiental, enquanto que no
hemisfério Sul as cidades sofrem com a pobreza (MMA, 1988 in BORJA, 1997, p.
16, 170). No terceiro mundo, a acelerada urbanização e o aumento da pobreza
propiciam demandas que dificilmente são resolvidas pelo Poder Público. Tanto os
padrões de consumo no Norte como a pobreza gritante do Sul são
comprovadamente insustentáveis do ponto de vista ecológico (ALBERTI, 1997, p.
3).

Não por acaso, pesquisa do historiador Arnold TOYNBEE (1972, in SAHTOURIS,


1996, p. 289; SAHTOURIS, 1998) demonstrou que o declínio de 27 civilizações
44

teve em comum a inflexibilidade frente a situações de estresse social, ambiental,


econômico e a concentração de recursos.

É evidente que as cidades globais21, aquelas que concentram poderio econômico,


tentarão impedir, inclusive pelo uso da força, que o resto do mundo alcance o
mesmo padrão de consumo, o que aliás seria impossível, pois viveríamos um
colapso de recursos e energia. Muito tem se alardeado que o consumo per capita
de energia mundial permaneceu quase estável na última década, querendo-se
indicar com isso que o sistema global estaria começando a corrigir suas
disfunções.

Mas, sem dúvida, como assinalou ESTEVAN (1998, in ESPÍ, 1998), uma análise
mais meticulosa dos dados disponíveis demonstra que o consumo per capita de
energia cresceu nos países "desenvolvidos" cerca de 10%, enquanto que os
países pobres foram obrigados a reduzi-lo em 7% (ESPÍ, 1998). As afirmações de
Mariano Vásquez Espí traduzem-se em uma equação muito simples: menos
recursos e energia para os países em desenvolvimento, menores possibilidades
de resolução de seus problemas urbanos e ambientais.

2.7 Algumas conclusões


Os problemas ecológicos parecem se referir apenas aos homens e às suas
relações com a natureza, e não às relações dos homens entre si (RODRIGUES
1998). O fato é que os problemas ambientais não estão circunscritos nem
geográfica, nem socialmente. Diferentes em escala, em conseqüências, em poder
de difusão, há problemas ambientais gerados pela opulência e pela miséria
(PAULA & BRITO, 1997, p. 206).

Os agressores do ambiente urbano podem ser tanto uma determinada indústria


quanto o conjunto de proprietários de veículos de um município (PACHECO &

21
Nova Iorque, Londres e Tóquio são exemplos de cidades globais.
45

LOUREIRO, 1992, p. 49), ou ainda famílias miseráveis que ocupam terras do


Parque Metropolitano de Pirajá, em Salvador. Não há maniqueísmos na questão
ambiental: atores e interesses interpenetram-se numa teia ambígua.

Também há uma ambigüidade, no que concerne a atribuição de


responsabilidades pelos problemas ambientais urbanos. Geralmente o citadino é
responsabilizado e punido (RODRIGUES, 1998, p. 31, 32), quando na verdade
grande parte da responsabilidade pertence ao poder público e ao capital.

Um exemplo bastante ilustrativo desse desvio de responsabilidades pode ser


obtido numa rápida análise dos freqüentes desmoronamentos de encostas em
Salvador. São comuns declarações de técnicos de nível superior da prefeitura,
que se dizem perplexos com a insistência dessas pessoas em construírem seus
barracos nas encostas (sic)22. Quando, em maio de 1999, seis dias consecutivos
de chuva provocaram a morte de 12 pessoas na Região Metropolitana de
Salvador, os prefeitos da região culparam a intensidade das chuvas, o dobro da
média de maio, e as invasões pelos deslizamentos que provocaram as mortes
(REVISTA ÉPOCA, 24/05/1999).

Novamente, como no caso da superpopulação, atribui-se à natureza a culpa por


décadas de não ação, de abandono, como se chover fosse uma aberração, uma
fatalidade contra a qual não há remédio nem prevenção. E é possível prevenir:
cerca de 95 a 99% dos danos causados por deslizamentos de solo poderiam ser
evitados por um melhor planejamento e projetos e construções apropriados. Os
elementos básicos para a preservação de deslizamentos são conhecidos a
séculos (SPIRN, 1995, p. 120, 131). Entretanto, como foi dito acima, não cabe
aqui nenhum maniqueísmo: os moradores das encostas têm uma parcela de
responsabilidade, ao desmatarem as encostas, deixando o solo vulnerável à ação
da água das chuvas.

22
A respeito da enchente que desabrigou milhares de pessoas em janeiro de 2000, na região
Sudeste, o coordenador da Defesa Civil do estado de São Paulo, coronel Jorge Lopes, declarou:
"O poder público (...) não mandou ninguém construir sua casa de forma irresponsável", referindo-
se às moradias localizadas próximas ao rio Paraíba do Sul (FOLHA DE SÃO PAULO, 10/01/2000).
46

Mesmo assim, é preciso que fique claro que é o capital - e não a sua força de
trabalho, e muito menos os elementos naturais - o grande responsável pela
deterioração da vida metropolitana (KOWARICK, 1979, p. 53). O capital deteriora
a metrópole, ao não dar acesso à cidade para as classes trabalhadoras e ao
promover diretamente a urbanização da especulação e, indiretamente, aquela
realizada pela pobreza, ambas cegas às premissas ambientais.

Contando com a participação da população, os planejadores poderiam ao menos


consolidar bairros instalados sobre manguezais, áreas verdes, matas, áreas
próximas a mananciais, promovendo melhorias urbanas, e traçar com seus
moradores limites para o seu crescimento, protegendo deste modo o valor
ambiental desses ecossistemas, a exemplo do que foi feito em um bairro
construído sobre um manguezal em Vitória, Espírito Santo.

Na capital capixaba, uma parceria sólida entre prefeitura e ocupantes de um


manguezal, cuja área ocupa cerca de 10% do território do município, possibilitou a
preservação do sistema ecológico, com a concomitante melhoria da qualidade de
vida dos envolvidos. Todas as ações do projeto tiveram a participação da
população local. A aliança permitiu que se estabelecesse um limite à ocupação, e
em troca, o bairro foi urbanizado (PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA, 1997).

Todavia, desafortunadamente, o controle do uso do solo e o desenvolvimento


urbano têm sido insatisfatório, pois seus instrumentos - destaca-se aí o
planejamento - são enfraquecidos nos países em "desenvolvimento" pela
corrupção, pelo poder da demanda de novos assentamentos (especulação
imobiliária) e por interesses diversos (CAMPBELL, 1992, p. 195, 196). Disso
resulta que os problemas ambientais urbanos têm se avolumado a passos
gigantescos, enquanto sua resolução é assaz lenta (JACOBI, 1996, p. 20), ou
nem mesmo ocorre.

Multiplicam-se os problemas urbano-ambientais na mesma proporção em que


assistimos a ingerência dos poderes públicos sobre eles. Por um lado, assiste-se
a disseminação de práticas administrativas incrementalistas que, maquiando a
cidade, dão a impressão de dinamismo e operância aos gestores urbanos. Troca-
47

se um planejamento integrado pela construção de um urbanismo pontual e


fragmentado, muitas vezes erigido para corroborar ações demagógicas em
vésperas de eleições (PAVIANI, 1994, p. 182-183, 187).

Nos anos 90, a urbanização brasileira tem tomado novos rumos. Estudo inédito
mostra que há uma interiorização do crescimento: as cidades médias, entre 100
mil e 500 mil habitantes, foram as que registraram o maior crescimento absoluto
nos anos 90, superando as metrópoles (FOLHA de SÃO PAULO, 1999-a; FOLHA
de SÃO PAULO, 1999-b). Essa tendência pode ser bastante positiva, se as
municipalidades conseguirem tramar uma sólida parceria entre os diversos
segmentos do poder público, incluídas aí as universidades, organizações civis e
população, pois as cidades médias que contarem com esse pacto poderão obter
significativos progressos através do planejamento participativo, inclusive a
redução de custos na implantação e manutenção de projetos.

A urbanização extensiva impõe desafios colossais aos profissionais interessados


em contribuir para a obtenção de cidades mais equilibradas, do ponto de vista
social e ambiental. Há muito o que fazer.

Uma medida que não é custosa e que dá resultados em pouco tempo é a


arborização urbana. Não apenas o ato de arborizar calçadas e passeios, mas de
usar a vegetação como elemento de projetos paisagisticos, visando estruturar,
nos bairros com problemas de infra-estrutura e ambientais, espaços públicos
densamente arborizados, que sirvam ao lazer e à socialização, onde antes
haviam apenas vazios que acumulavam lixo. A vegetação, sobretudo as árvores
podem, se adeqüadamente usadas, proporcionar vários benefícios aos biomas
urbanos, e às populações humanas, como a redução da poluição e atração de
vida silvestre.
48

CAPÍTULO 3
Arborização Urbana: Uma Ferramenta para a Melhoria da Qualidade de Vida
e Atração de Biodiversidade

"A umbaúba é uma árvore que não serve para nada"


(Declaração de um engenheiro civil à reportagem do jornal A Tarde (edição de 7/2/1988), quando
questionado da derrubada de uma mata de umbaúbas no bairro de Brotas, à revelia do IBDF, que
previa a preservação de 30% dessas árvores).
49

GREY & DENEKE (1978, in MILANO, 1994, p. 210) definem a arborização urbana
como o conjunto das terras públicas e privadas revestidas de vegetação
predominantemente arbórea que uma cidade apresenta. Para Sattler, arborização
urbana é o conjunto da vegetação arbórea natural e cultivada que uma cidade
apresenta. (SATTLER, in SANCHOTENE, 1994, p.16).

Os vegetais são seres complexos, que por suas características biológicas e


ecológicas desempenham uma série de funções sumamente importantes para
uma maior qualidade de vida dos urbanitas. É fato que a arborização contribui
para a melhoria da saúde física e mental das populações urbanas. Características
artificiais do ambiente urbano, como microclimas, qualidade do ar e paisagem
geralmente determinam a ocorrência de aspectos negativos à qualidade de vida
humana; estes problemas podem ser bastante minimizados pela arborização
(MILANO, 1994, p. 209, 210; DETZEL, 1994, p. 50).

São impressionantes os benefícios oriundos da presença de vegetação no


ambiente urbano. Não obstante, ainda é majoritário entre os arquitetos,
paisagistas e planejadores o uso decorativo dos vegetais, talvez pela falta de
informações a respeito dessas benesses. Em geral a vegetação ocupa espaços
residuais dos projetos arquitetônicos, e sua presença tímida impede a
maximização dos benefícios. Nem mesmo as várias possibilidades de uso das
plantas como estruturadoras de espaços, através da manipulação de um cabedal
de técnicas que, teoricamente, deveria ser de domínio dos arquitetos - parecem
ser convenientemente exploradas. Seu mal (pouco) uso vem ocasionando
deseconomias, como desastres ecológicos, aumento da poluição sonora,
atmosférica e visual e danos à saúde (MACEDO, 1997, p.38).

3.1 Pequeno histórico da arborização


O burgo medieval ou a pequena cidade renascentista caracterizavam-se pela total
ausência de árvores em seus espaços abertos, o que era justificável, pois a
"natureza" era encontrada praticamente intacta a poucas centenas de metros das
cidades daqueles momentos históricos. Com o advento das grandes cidades
essas transformações passam a ser permanentes, acentuando-se a partir da
50

Revolução Industrial. Nesse momento, a virtual ausência de vegetação passa a


constituir-se em um problema. (MOHR, 1985, p. 31).

Para MEIRA FILHO, 1976; WALLACE, 1939 e BLOSSFELD, 1983 (in LIMA,
1993, p. 5) a primeira notícia sobre arborização no Brasil data do século XVIII,
onde o arquiteto e naturalista Antônio José Landi teria plantado mangueiras em
Belém do Pará. Estes autores também assinalam como data provável o início do
século XIX, no Rio de Janeiro, época em que os plantios de árvores nas cidades
difundiam-se pelo mundo.

De qualquer sorte, já no início do século XX, os projetos de reforma urbanística


atribuíam grande importância à vegetação na composição urbana (MARX, 1980,
in LIMA, 1993, p. 6)

Não obstante, de um modo geral, há pouco tempo as plantas passaram a fazer


parte da imagem do espaço público das cidades brasileiras. Até o século XIX a
vegetação era limitada pelos muros dos quintais, pois seria uma atitude
incoerente reintroduzi-la no tecido urbano, depois de "árduas batalhas" para
manter as ruas e praças livres do "mato". No início do século XX, estas cidades
são bem cuidadas e arborizadas, com um número impressionante de parques,
praças e jardins. Infelizmente esse conjunto se perde com a introdução da
"ditadura do automóvel", com o previsível e conseqüente alargamento das vias
públicas, redundando na retirada da arborização e destruição de parques. A
diminuição das áreas verdes também se deu pela implantação de sistemas de
distribuição elétrica e de bondes (GOYA, 1994).

Como consequência deste processo de desenvolvimento, em inúmeras cidades


brasileiras, a arborização foi gradativamente extinguindo-se, relegada ao
abandono, ou sequer chegou a compor efetivamente os ecossistemas urbanos
(VERAS, 1985, p. 189).

3.2 Benefícios da vegetação aos biomas urbanos


3.2.1 Possibilidades de uso arquitetônico
A vegetação proporciona melhoria estética do ambiente urbano (MILANO, 1984;
51

MILANO 1988) e mitiga a poluição visual (DETZEL, 1994, p. 50). Os arbustos e


árvores são formas arquitetônicas que podem reforçar funcional e esteticamente
o projeto urbanístico. Também contribuem dando um aspecto mais estável e
consolidado às intervenções recentes (GREATER LONDON COUNCIL, 1985, p.
15).

Para SERPA & MUHAR (1996, p. 19-25), as características visuais das plantas,
podem alterar a percepção de um usuário no espaço aberto. Plantas de textura
fina, por exemplo, aparentam ser maiores e estarem mais distantes do
observador, deste modo dando a impressão de um espaço ser maior do que de
fato é. Essa ilusão de ótica pode ser usada a favor do planejador, quando este
seleciona vegetação adequada aos espaços para os quais planeja, evitando que
os usuários possam desenvolver sensações de claustrofobia devido ao pouco
espaço ou de desolação por estarem em área muito grande.

A vegetação urbana pode ser usada como cortina, bloqueando vistas


indesejadas, ou separando espaços que possuem utilizações diversas.
(REETHOF & HEISLER, 1976, in SMARDON, 1988, p. 90; LEMENHE, 1997, p.
165-166; CAVALHEIRO, 1994, p. 228; MILANO, 1994, p. 209, 210).

Os vegetais podem direcionar o movimento através da paisagem. A arborização


de vias públicas pode orientar motoristas, fornecendo-lhes perspectiva (LIMA,
1993, p. 206).

Entre os principais usos arquitetônicos da vegetação (de acordo com BOOTH,


1983, p. 69-82; LEMENHE, 1997, p. 165-166; SANTOS & CARVALHO, 1997 e
LACOMBE, 1993 p. 1) estão a organização do ambiente externo e a criação de
espaços. A vegetação pode ser usada como muros, tetos e pisos numa
paisagem, pode definir e organizar o espaço. O senso de espaço depende de
delimitações criadas por modificações, seja no nível do solo ou em outro plano.
Sem uma definição física por barreiras, pode-se criar, no nível do solo, espaços
implícitos com o uso de grama ou arbustos de pequeno porte.

No plano vertical, as plantas podem influenciar a percepção do espaço de


52

diversos modos. Conjuntos de árvores com troncos largos podem criar muros,
tão perceptivos quanto maior for a largura dos troncos. A folhagem das árvores é
outra maneira de criação desses muros. A densidade e altura das folhas afeta a
sensação de cerceamento. Quanto mais altas forem as árvores, e mais próximas
e grandes suas folhas, maior é essa sensação.

No plano aéreo, acima da altura média de um ser humano, podem ser criados
tetos que obstruem total ou parcialmente a visão do céu, afetando a escala
vertical do espaço. A sensação de teto é mais forte quando a copa das árvores
estão sobrepostas.

Outro uso interessante da vegetação no ambiente construído é a estruturação de


espaços. No caso dos espaços semi-abertos, o campo de visão do usuário é
parcialmente obstruído, de um ou mais ângulos, a partir do uso de plantas de
maior porte, atuando como muros que remetem à visão precisamente aos ângulos
desejados. Esses espaços são apropriados para residências, onde a privacidade
é requerida em uma direção, e não em outras.

Os espaços fechados são obtidos pelo uso de conjuntos de árvores com copas
densas. Deste modo obtemos tetos fechados, com a vista orientada para as
aberturas entre os troncos. Pode ser criado um túnel de árvores ao longo de uma
estrada, contribuindo para a orientação do tráfego. Para obtenção de privacidade,
arbustos podem ser plantados entre as árvores de copas densas, obstruindo a
visão do usuário e de observadores externos a ele.

Espaços verticais são criados com árvores de copas afiladas, que orientam a
vista para o céu. Em resumo, o paisagista pode criar diferentes tipos de espaço
usando plantas como elemento de definição. Ele pode ainda usar as plantas para
criar espaços seqüenciais interligados. Podem negar ou acentuar espaços criados
pelo relevo. As plantas podem ser usadas para modificar espaços criados pelas
edificações, originando subespaços em uma escala mais aprazível e humana, o
que é recomendável para grandes espaços abertos.

As plantas também podem ser usadas como pontos focais dominantes, como
53

conexões visuais entre espaços. Podem ser usadas para complementar a


definição espacial e/ou organização de edificações. Destaca-se neste caso o
cerceamento, que é o cercamento de espaços próximos a edificações. Vegetais
podem conectar espaços, ao defini-los e separá-los de espaços mais externos ao
entorno da edificação. Conjuntos de edificações podem ligar-se através do
plantio no seu entorno imediato (BOOTH, 1983, p. 69-82; LEMENHE, 1997, p.
165-166).

3.2.2 Benefícios físicos


Talvez o benefício proporcionado pela arborização mais conhecido é a sua
capacidade de alterar o clima das cidades. O clima urbano é um sistema que
abrange o clima de um dado espaço terrestre e sua urbanização, sendo
constituído por um conjunto de microclimas existentes no interior do espaço
urbano (MONTEIRO, 1976, in HASENACK, 1985, p. 47).

Dentre as principais modificações climáticas produzidas pela urbanização


destacam-se: 1) a alteração das características térmicas da superfície pela
substituição de áreas verdes por áreas construídas, que absorvem mais energia
térmica e impermeabilizam a superfície, gerando uma menor evaporação das
águas da chuva, que escorrem rapidamente pelo sistema de esgoto pluvial; 2) o
aumento da rugosidade urbana que dificulta a penetração do ar da periferia para o
interior da cidade, e 3) as atividades humanas: processos produtivos,
deslocamentos diários dos habitantes, climatização dos prédios que adicionam
calor e materiais particulados à atmosfera, alterando-a, e contribuindo para a
intensificação do efeito estufa.

Isto explica a diferença de temperatura entre as cidades, que pode chegar a 6


graus celsius ou mais em dias de sol (HASENACK, 1985, p. 48, 49; SPIRN, 1995,
p. 67; HEISLER, 1974; LOMBARDO, 1985; in LIMA, 1993, p. 7).
54

A vegetação contribui significativamente ao estabelecimento de microclimas mais


aprazíveis, reduzindo variações climáticas induzidas pelas atividades urbanas,
entre outros fatores, pelo processo de fotossíntese, que auxilia na umidificação
do ar através do vapor d'água que libera. Geralmente a vegetação tende a
estabilizar o clima sobre seus arredores imediatos, nivelando extremos ambientais
(ROMERO, 1988, p. 31; SATTLER, in SANCHOTENE, 1994, p.16; MILANO,
1984, 1988; TAKAHASHI & MARTINS, 1987; BARTEINSTEIN, 1981; GREY &
DENEKE, 1978; SMITH & DOCHINGER, 1976; BERNATZKI, 1980; IN DETZEL,
1994 p. 50; NAGINO, 1995, p. 27; GATTI, 1999, p. 76; SPIRN, 1995, p. 189;
SILVA & BRANCO, 1987, p. 208; BRASIL, 1997, p. 57; ANDRADE, 2000;
LOMBARDO, 1997; DUARTE, 1997; BUENO & LABAKI, 1997; LOMBARDO &
NETO, 1990). SATLLER, 1992 (in LIMA, 1993, p. 9) indica 30% de cobertura
vegetal como índice recomendado para um adequado balanço térmico na urbe.

É comum, em regiões de clima quente e baixos índices de umidade relativa do ar,


o surgimento de infecções no aparelho respiratório. As árvores mitigam essas
infecções, pois funcionam como bombas hidráulicas, absorvem água do solo e
liberam-na na atmosfera, aumentando a umidade do ar. Uma única árvore pode
transpirar, desde que suficientemente suprida de água no solo, até 400 litros de
água por dia / m2 de área, resultando no mesmo efeito térmico produzido por 5
condicionadores de ar com capacidade de 2500 kcal / h cada um funcionando 20
horas por dia (KRAMER & KOSLOWSKI, 1972, in LIMA, 1993, p. 10; SPIRN,
1995, p. 195; MACEDO, 1997, p. 38; CAVALHEIRO, 1994, p. 230).

A vegetação pode reduzir as despesas com condicionamento térmico nos


ambientes construídos (MASCARÓ 1996, p. 67; SANCHOTENE, 1994, p.16). Em
outras palavras, uma arquitetura de exteriores conseqüente contribui efetivamente
para a economia de energia elétrica. A demanda crescente de energia produz
impactos, representados pela construção de hidroelétricas e pelos milhares de
hectares de terras de interesse agrícola, social e ecológico que são inundadas.
55

A vegetação urbana possui grande capacidade de alterações de microclima, pois


produz sombra (MELLO FILHO, 1985, p. 119) e filtra ou bloqueia claridade do sol,
é uma grande produtora de vapor d’água, contribuindo para manter o ar dos
ecossistemas urbanos mais úmidos; e ainda, as grandes massas de vegetação,
por exemplo as florestas urbanas - caso do Parque Metropolitano de Pirajá - têm
a capacidade de atuarem como termostato, amenizando altas e baixas
temperaturas.

A influência da vegetação na temperatura do ar está relacionada ao controle da


radiação solar, do vento e da umidade do ar. Sob grupamentos arbóreos, a
temperatura do ar é menor que nas áreas expostas a radiação solar direta. A
diferença se acentua com o aumento do porte da vegetação. A vegetação
também altera a concentração da umidade na atmosfera e nas superfícies
adjacentes. A umidade dos ambientes vegetados está relacionada com a
evapotranspiração.

A umidade relativa do ar sob a vegetação é maior que nos espaços sem ela, entre
3 e 10%, sendo os maiores valores obtidos no verão, devido a maior densidade
foliar verificada nessa estação e os menores valores verificados na primavera,
devido à existência de vazios nas copas (período de floração). O sombreamento
da vegetação ajuda a atenuar condições extremas de frio e calor intenso nos
espaços urbanos (MASCARÓ, 1996, p. 77, 79, 86)

Outra alteração microclimática provocada pela vegetação urbana é a redução da


velocidade do vento (SMARDON, 1988, p. 87; MASCARÓ, 1996, p. 82). A
vegetação pode atuar como uma barreira natural ao vento. Há quatro efeitos
básicos de barreira: obstrução, onde a barreira bloqueia o fluxo do ar; deflexão,
onde a direção do fluxo do ar é alterada; a filtragem, que reduz a velocidade do
56

vento conforme a permeabilidade da barreira e a condução, que direciona o fluxo


do ar, modificando sua velocidade (MASCARÓ, 1996, p. 82, 199; DIAS, 1994, p.
57); FOX & KOEPPEL, 1985, p. 10, 11; CAVALHEIRO, 1994, p. 230; MILANO,
1994, p. 209-210).

O fenômeno ilha de calor urbana, assim denominado porque em geral as


temperaturas decrescem do centro para a periferia, ocorre com maior intensidade
com o céu límpido e sem vento. A destruição das matas, aliada ao irregular
alinhamento de ruas e construções, favoreceu a alteração do relevo e clima,
gerando a formação de ilhas de calor (ROCHA, 1996, p. 3, 4).

Durante o dia, os materiais de que são feitos os edifícios absorvem enormes


quantidades de energia que é liberada à noite. As superfícies pavimentadas ou
edificadas refletem de 15 a 50% da radiação de onda longa sobre ela incidente.
(SPIRN, 1995, p. 71; SATTLER, 1992; in LIMA, 1993,p. 6). As áreas verdes, pela
menor energia armazenada23, e também pela utilização de parte daquela para a
realização da evapotranspiração, liberam menos energia que as superfícies
pavimentadas, o que explica as temperaturas mais amenas registradas nas áreas
vegetadas (HASENACK, 1985, p. 48; SPIRN, 1995, p. 68).

Até mesmo em grandes edificações como shopping centers com grandes


estacionamentos asfaltados e em geral, desprovidos de árvores, já foram
verificadas ilhas de calor. (LIMA, 1993, p. 7) Pequenas ilhas de calor foram

23
A pavimentação irradia 50% a mais de calor que a grama (SPIRN, 1995, p. 71). Idéias simples
e pouco onerosas, como a utilização de blocos entremeados por grama na pavimentação de
estacionamentos, podem reduzir as ilhas de calor (SPIRN, 1995).
57

detectadas até em pequenos pátios (SPIRN, 1995, p. 69). Isto quer dizer que as
ilhas não estão circunscritas a grandes ou pequenas escalas. Mesmo um
pequeno quintal sepultado pelo concreto pode gerar uma ilha de calor.

AKBARI (1988, in KIELBASO, 1994, p. 5-6) demonstrou que as árvores tem um


efeito positivo no fenômeno das ilhas urbanas de calor. SPIRN (1995, p. 67)
relaciona as ilhas de calor com um aumento dos derrames cerebrais e mortes, no
verão, quando as cidades são atingidas por prolongadas ondas de calor. Além
disso, as árvores proporcionam conforto lumínico, pois protegem as pessoas do
ofuscamento, comuns em dias de acentuada luminosidade (LIMA, 1993, p.11).

Não somente as áreas vegetadas, mas também a arborização viária pode


abrandar as ilhas. Árvores de copa rala interceptam até 80% da radiação solar, e
as de copa espessa, 98% (HEISLER, 1974, in LIMA, 1993, p. 7). Para abrandar o
calor das ilhas, SATLLER, 1992 (in LIMA, 1993, p. 7) recomenda que as árvores
sejam locadas o mais próximo possível das superfícies refletoras.

Um estudo desenvolvido em Piracicaba verificou que, em ruas arborizadas, o


interior das residências tende a mostrar uma menor temperatura, nas manhãs e
tardes, em relação às casas de ruas não arborizadas (CARVALHO, 1982, in
LIMA, 1993, p. 8).

Ruas arborizadas não somente proporcionam proteção da radiação solar, como


58

também protegem as pessoas das radiações de ondas longas emitidas pelas


construções. Tal proteção é particularmente importante durante as tardes de
verão (HEISLER, 1974, in LIMA, 1993, p. 9).

Outro fenômeno relacionado ao clima que tem conseqüências diretas aos


urbanitas é aquele conhecido como inversão térmica. As inversões são
ocasionais e breves em todas as cidades, mas freqüentes e prolongadas em
cidades com predisposição climática ou topográficas. Podem ocorrer na escala de
uma metrópole ou mesmo de uma rua desfiladeiro. Muitas vezes, inversões
formadas nessas ruas prendem os poluentes ao nível da respiração durante
horas, sobretudo nas cidades mais frias (SPIRN, 1995, p. 64, 72)

As áreas verdes diminuem o escoamento superficial de áreas impermeabilizadas,


embora esse efeito seja de pequeno alcance (CAVALHEIRO, 1994, p. 230; FOX
& KOEPPEL, 1985, p. 10, 11).

3.2.3 Melhoria das condições do ciclo hidrológico e do solo


Perdas por erosão são atenuadas na maioria dos solos devido à proteção
representada pela cobertura vegetal. A manutenção dessa cobertura pode reduzir
as perdas por erosão em 98%, em relação ao solo descoberto, proteger rios e
mananciais, estabilizar o solo e renovar a água subterrânea. (MACEDO, 1997,
p.38; TEIXEIRA & SILVA, 1994, p. 156).
3.2.4 A vegetação no combate à poluição
59

A capacidade da vegetação em bloquear ruídos é controversa, pois existem


autores que a defendem e outros que a negam. SATTLER (in LIMA, 1993, p.11)
descreve um mecanismo que atua na amortização de ruídos. Segundo este autor,
em ruas arborizadas, ocorrem inversões de temperaturas sob a copa das árvores
e isto determina a refração das ondas sonoras e a interação dessas ondas com o
solo, resultando em redução de ruídos. Em conseqüência ruídos podem ser
reduzidos em até 50%. (DETZEL, 1994, p. 50; MILANO, 1994, p. 209, 210;
MILANO, 1984; MILANO, 1988; MESQUITA, 1996, p. 6; LEMENHE, 1997, p. 165,
166; MELLO FILHO, 1985, p. 119; CAVALHEIRO, 1994, p. 228, 230; KIELBASO,
1994, p. 4).

Segundo HERRINGTON, 1974; REETHOF & HEISLER, 1976 in SMARDON


(1988, p. 87) a vegetação urbana não é eficiente para reduzir ou bloquear
barulhos indesejáveis. Entretanto, para MILANO (1988, p. 6) (que cita os mesmos
autores lidos por Richard SMARDON), para MESQUITA (1996, p. 6) e para
LEMENHE (1997, p. 165, 166) os vegetais são efetivamente capazes de diminuir
a poluição sonora. Para Angelo Serpa (comunicação pessoal, 2000), a
capacidade da vegetação em neutralizar ruídos é sobretudo psicológica.

Muito importante é a capacidade da vegetação urbana em interceptar e reduzir a


presença de partículas sólidas em suspensão no ar (SMARDON, 1988, p. 88;
SCHUBERT, 1979; SMITH & DOCHINGER, 1976, IN MILANO, 1988, P. 5;
MILANO, 1994, p. 209, 210).
60

A vegetacão no ambiente urbano tem a capacidade de fixar poluição e poeira,


através do processo de fotossíntese e a partir de seus próprios elementos
constitutivos: materiais oleosos em suspensão nas folhas. Cortinas vegetais
implantadas dentro das cidades indicam que as árvores são capazes de diminuir
em 10% o teor de poeira do ar. Estima-se em 68,2 e 31,9 toneladas de pó por
hectare a capacidade de remoção dos gêneros Fagus e Picea, respectivamente.
Cada hectare das folhas de árvores, arvoretas e arbustos pode fixar dezenas de
quilogramas de poeira/ano. Ruas arborizadas apresentam até 70% menos poeira
em suspensão em relação às ruas não arborizadas.
Quanto aos poluentes químicos, as espécies vegetais têm a capacidade de
biofiltração e mesmo metabolização de compostos tais como SO2, NO2, O3 e
derivados de cloro e flúor.24

SPIRN (1995, p. 86) recomenda a criação de uma zona tampão formada por
árvores entre áreas residenciais e ruas, como forma de diminuir a concentração
de poluentes no ar. É preferível que as árvores estejam plantadas em áreas não
pavimentadas, pois o solo também é um eficiente absorvente de poluentes.

Estudos franceses indicam que a arborização pode diminuir a taxa de CO2 na


atmosfera25, bem como a quantidade de níquel, cloro, azoto, cádmio; além de
reter de 30 a 40% de poeiras e fumaças no ar. (MACEDO, 1997, p.38; FOX &
KOEPPEL, 1985, p. 10, 11; FELDMANN, 1996, p. 1; SATTLER, 1992 in LIMA,
1993, p. 12; SMITH & DOCHINGER, 1976; ROBERTS, 1980, in LIMA, 1993, p.12;
MELLO FILHO, 1985, p. 119; CESTARO, 1985, p. 54; CAVALHEIRO, 1994, p.
228; BERNATZKY (1980); GREY & DENEKE (1978); HEISLER (1974); JENSEM
& Outros (1976); LAPOIX (1979); POLYNGTON (1977) e SCHUBERT (1979); in
MILANO 1994, p. 209-210; MILANO, 1984, 1988; TAKAHASHI & MARTINS,
24
É evidente que há um limite à capacidade dos vegetais em biofiltrar o ar. Na madrugada do dia
8 de março de 2000, resíduos tóxicos lançados pela Caraíba Metais, empresa situada no pólo
petroquímico de Camaçari, provocaram a morte de dezenas de árvores e de plantações de aipim,
andu e coentro em Leandrinho, distrito de Dias D'avila, Bahia (A TARDE, 12/03/2000).

25
Cerca de 200 árvores são suficientes para absorver o CO2 expelido por um carro que percorra
16 mil quilômetros anuais em jornadas para o trabalho, compras, etc.(VALE & VALE, 1996, p. 174)
61

1987; BARTEINSTEIN, 1981; GREY & DENEKE, 1978; SMITH & DOCHINGER,
1976; BERNATZKI, 1980; IN DETZEL, 1994 p. 50; YOKOHARI & KATO, 1995, p.
19; SMARDON, 1988, p. 88; LAPOIX (In: MILANO, 1988, p. 6); JENSEN (In:
MILANO, 1988, p. 6); ROBERTS, 1980 (In: MILANO, 1988, p. 6); CESTARO,
1987 (In: MILANO, 1988, p. 6); SPIRN 1995, p. 75; KIELBASO, 1994, p. 4; VALE
& VALE, 1996, p. 174; DIAS, 1994, p. 57; ROMERO, 1988, p. 97; CAVALHEIRO,
1994, p. 228; FOX & KOEPPEL, 1985, p. 10, 11; LOVELOCK, 1991, p.
151;LOMBARDO, 1990; FIRKOWSKI, 1990; ANGEOLETTO, 1999-b; CIUDADES
PARA UN FUTURO MÁS SOSTENIBLE, 1998-A).

Árvores com pecíolos grandes, numerosas folhas, e folhas com pelos têm uma
maior capacidade de absorção de poluentes. Árvores e folhas mais velhas ou
árvores de folhas largas resistem mais a poluição (LIMA, 1993, p. 21).

Uma redução do nível médio de poluição por partículas inaláveis26 na atmosfera


até o patamar de 50 g / m3 implicaria evitar a morte de 6,7% pessoas que hoje
morrem por doenças respiratórias (FELDMANN, 1996, p. 1).

Além da capacidade de retirar poluentes da atmosfera, LAPOIX (1979, In:

26
Para FELDMANN (1996, p. 1), a indústria já não é a principal responsável pela degradação
atmosférica. O ex-secretário de meio ambiente de São Paulo sustenta que atualmente as
emissões veiculares são responsáveis por cerca de 90% da poluição do ar, em parte pelo
planejamento (inconseqüente) que estimulou o transporte individual em detrimento do coletivo.
KOSLOWSKI (1980, in LIMA, 1993, p.20) aponta outros dados: são 30% da poluição seria
causada pelas indústrias e 28% pelos veículos.
62

MILANO, 1988, p. 6) afirma que as árvores possuem também uma ação anti-
microbiana. Comparando a quantidade de germes no ar de uma floresta em
Fontainnebleau, com a quantidade existente no ar de uma grande loja de Paris, o
autor chegou as seguintes cifras: 50 germes / m3 na floresta, contra 4.000.000
germes / m3 na loja.

3.2.5 Benefícios psicológicos


Desde o passado remoto, dos tempos em que o primata homem apenas iniciava
seu afastamento do tronco central dos hominídeos, existe uma relação clara entre
humanos e árvores, inclusive com implicações de natureza psicológica (MELLO
FILHO, 1985, p. 117).

As nuances psicológicas da convivência entre humanos e plantas podem ser


esboçadas nos trabalhos de pesquisa que se seguem. GETZ et al. (1982. In:
ULRICH, 1986) pesquisando moradores de Detroit de etnia negra e branca
constatou que ambos os grupos demonstraram extrema simpatia pela presença
de árvores na cidade. Grupos de árvores de uma mesma espécie podem possuir
um valor simbólico bastante intenso, tornando-se imediatamente associadas a
certos lugares - o que ocorre no litoral do nordeste brasileiro, sempre lembrado
pelos seus coqueirais.

A vegetação é considerada pela maioria dos usuários de espaços públicos


esteticamente e psicologicamente importante (KAPLAN & KAPLAN. In: CARR,
1995, p. 11). Vistas naturais tendem a ser terapêuticas, quando comparadas a
63

cenas tipicamente urbanas. Visões de vegetação reduzem significativamente o


medo e potencializam outros sentimentos como a afeição. Ao contrário, paisagens
urbanas agravam a ansiedade e o stress. Estas implicações são válidas para
ambos os sexos, e também para populações rurais e urbanas (SMARDON, op.
cit., ULRICH, 1986). Grupos de adultos pesquisados por ULRICH (1986, p. 29-44)
demonstraram preferência por paisagens naturais em relação às urbanas,
sobretudo se essas últimas apresentam escassez de vegetação. Para CESTARO
(1985, p. 54), a vegetação proporciona satisfação psicológica.

ULRICH (1984. In: SMARDON, 1988; ULRICH, 1986; ULRICH, 1990, in


KIELBASO, 1994, p. 4) submeteu à observação pares de pacientes que haviam
sofrido um mesmo tipo de operação, e que tinham em comum variáveis como
sexo, idade, uso de tabaco e hospitalização anterior. Cada um dos pares foi
colocado em 2 quartos absolutamente idênticos, exceto pela vista que se tinha da
janela: um muro de tijolos no primeiro e árvores no segundo. Os pacientes do
segundo quarto tiveram um período pós-operatório menor, menos complicações
pós-cirúrgicas e precisaram de menos doses de analgésicos, o que sugere que a
vista da vegetação teve influência terapêutica nestes pacientes.
64

ULRICH (op. cit., 1986) estima que os pacientes submetidos à vista com árvores
tiveram um período pós-operatório 8,5% menor do que aqueles submetidos a
outra vista, o que representa um benefício econômico inquestionável,
recomendando a adoção de um planejamento paisagístico que leve em conta
esse fator. Muito dinheiro pode ser economizado, se o arquiteto optar por um
projeto que não trate a edificação como algo descolado do seu entorno.

MOORE (In: CARR, 1995, p. 227) constatou que prisioneiros cujas celas tinham
vistas para paisagens naturais precisavam de menos cuidados médicos do que
aqueles prisioneiros que não tinham acesso àquelas vistas. Essas pesquisas
reforçam o senso comum, segundo o qual elementos naturais podem relaxar,
acalmar e refrescar o espírito, especialmente quando a experiência diária de um
usuário envolva estresse, super estimulação, trânsito por ruas abarrotadas de
pessoas etc. A sensação de relaxamento é fortalecida se o cenário natural do
parque ou praça "remova" o usuário, ainda que temporariamente, dos ruídos da
sua agitada vida urbana.
65

Características da natureza - o céu, a floresta, uma área selvagem, uma praia,


água, desertos - têm significados especiais para as pessoas, pois elas sentem-se
vinculadas a essas características (CARR, 1995, p. 227). Há uma considerável
evidência que, uma vez dada a oportunidade aos usuários para que escolham as
qualidades de futuros espaços públicos, eles irão solicitar a presença de
elementos naturais (BALLING & FALK, 1982; BUKER & MONTARZINO, 1983;
DRIVER & GREENE, 1977; KAPLAN, 1983. In: CARR, 1995, p. 225).

Um estudo sociológico de plantio de árvores urbanas descobriu que residentes


participantes de um projeto de plantio de árvores nas ruas de um bairro de baixa
renda em Oakland, EUA, sentiram um aumento do senso de comunidade, um
melhor entendimento entre seus vizinhos e um maior controle sobre seu próprio
ambiente (AMES, 1980, in KIELBASO, 1994, p. 4). LEWIS (1990, in KIELBASO,
1994, p. 4) reportou vários desses projetos em Chicago, Filadélfia, Boston e Nova
66

Iorque, e concluiu que essas atividades melhoram a auto-imagem e auto-estima


dos moradores.

3.2.6 Benefícios econômicos


As árvores contribuem significativamente para o aumento do valor de venda dos
imóveis, representando cerca de 6 a 9% de seu preço final (MORALES, 1980; in
DETZEL, 1994 p. 51; SANCHOTENE, 1994, p.16). Nos EUA, cerca de 5 a 15%
do valor de propriedades são atribuídos à presença de árvores, o que contribui
para o aumento da taxa de propriedade (no Brasil, IPTU) (KIELBASO, 1994, p. 4)

Segundo GOLD (in: MILANO, 1988, p. 6) e BOOTH (1983, p. 70) as árvores nas
cidades aumentam a satisfação dos usuários de parques e praças e contribuem
para o aumento do valor das propriedades. Há uma relação direta entre o
aumento de preço de lotes residenciais e a proximidade de áreas verdes, parques
67

e espaços abertos. Geralmente, quando confrontados com a possibilidade de


espaços abertos destituídos de, ou com vegetação, seus usuários preferem a
segunda hipótese.

Áreas comerciais com falta de vegetação geralmente são preteridas por aquelas
com vegetação abundante. Construções cujo entorno é vegetado são
freqüentemente mais lembradas pelos passantes, pois isto aumenta sua
68

atratividade, tornando-as mais notáveis (SMARDON, op. cit.; ULRICH, op. cit.,
1986). ULRICH (op. cit., 1986) argumenta que paisagens construídas tal qual
áreas residenciais tendem a ser valorizadas quando contém árvores
proeminentes e que há preferência por vias de circulação residenciais que
contenham abundância de vegetação.

Praças, ruas e outros espaços que incluem em seu desenho combinações de


69

árvores, flores, grama e outras plantas, podem atrair um maior número de


transeuntes. A atração popular por características naturais são um bom suporte à
vida pública. Vegetação, ruas arborizadas e jardins são partes altamente
valorizadas das cidades (FRANCIS, 1987b; SPIRN, 1984; ULRICH, 1979. In:
CARR, 1995, p. 41-42).

Árvores localizadas estrategicamente entre os edifícios podem reduzir o consumo


de energia utilizada para refrigeração em 50%. Cada 100 milhões de árvores
70

plantadas perto de residências podem poupar eletricidade correspondente a 22


bilhões de kilowatts / hora, o que traduzem-se em US$ 2,3 bilhões anuais e 9
milhões de toneladas de CO2 retirados da atmosfera (KIELBASO, 1994).

3.2.7 Benefícios ecológicos


A diversidade vegetal é um aspecto benéfico aos ecossistemas urbanos. Quanto
maior o número de espécies vegetais, maior será a chance de instalação
definitiva de uma fauna mais diversificada, pois a vegetação oferece abrigo e
alimento à uma fauna variada, que inclui insetos, pássaros, morcegos e
organismos que habitam o solo. Também maior será a capacidade das plantas
de resistir a variações e de absorver impactos negativos como a poluição ou as
adversidades climáticas. Ao mesmo tempo, uma maior diversidade diminui a
possibilidade de pragas e doenças que afetam fauna e flora. Quanto mais
heterogênea for a vegetação usada na arborização, menor será a probabilidade
de monotonia na paisagem urbana27 (CESTARO, 1985, p. 54; MELLO FILHO,
1985, p. 119; MILANO, 1984, 1988; TAKAHASHI & MARTINS, 1987;
BARTEINSTEIN, 1981; GREY & DENEKE, 1978; SMITH & DOCHINGER, 1976;
BERNATZKI, 1980; IN DETZEL, 1994 p. 50; VOSS, 1985, p. 113; SANCHOTENE,
1994, p. 16, 22; ZELAZOWSKI, 1985, p. 186).

Estimular o aumento da diversidade e da abundância da vida silvestre é positivo.


Além dos serviços ecológicos prestados (vide capítulo 1), um maior número de
espécies nas cidades determina uma competição com animais nocivos -
pombos28, baratas, ratazanas, etc - diminuindo a disponibilidade de alimentos e
27
Contudo, o que em geral ocorre nas cidades brasileiras é uma baixa diversidade vegetal (LIMA,
1993, p. 64; SOUZA, 1994-a, p. 8). Em Curitiba 18 espécies representavam 92% da população
arbórea total (MILANO, 1984) e em Maringá, 15 espécies representavam 96% (MILANO, 1988).
Em Piracicaba, 20 espécies representavam 90% da população arbórea total, sendo que a espécie
mais comum representava 52,3% dos 4904 indivíduos levantados (LIMA, 1993, p. 138). Em
Vitória, em levantamento realizado pela Prefeitura, apenas 3 espécies não atingiam mais de 15%
dos indíviduos da população de árvores (PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA, 1992, p. 15).

28
Os pombos são hospedeiros de vários parasitas e do toxoplasma gondi, protozoário causador
da toxoplasmose, uma infecção que pode atingir vários órgãos, inclusive do sistema nervoso
central e do aparelho da visão (RAMOS, 2000). Sua proliferação é um entrave à conservação do
patrimônio arquitetônico
71

reduzindo a população desses animais (SPIRN, 1995, p. 240).

A presença per si de muitas áreas verdes podem ter pouco valor à diversidade
biológica, se melhorias para atração de fauna e flora não forem um objetivo do
planejamento (NATURE CONSERVANCY COUNCIL, 1989, p. 39).

Logo, o paisagista não pode negligenciar a oportunidade de "construir" ambientes


específicos ou aproveitar fragmentos de ecossistemas em seus projetos,
viabilizando a permanência e o aumento da vida silvestre. É sempre essencial
saber para quais espécies da vida selvagem se está projetando, a fim de que o
habitat inclua os organismos e os requisitos espaciais apropriados (SPIRN, 1995,
p. 245).

Entretanto, isso é particularmente difícil, pois os dados sobre a vida na Terra são
ainda escassos e inconclusos. Não se conhece nem o número total de espécies
vivas do planeta - as estimativas variam entre 5 e 30 milhões - e muito menos se
sabe sobre sua ecologia.

Geralmente, no processo de urbanização, a vegetação nativa é derrubada e


novas plantas são introduzidas. Disso resulta que, ao redor do mundo, cidades
com climas semelhantes abrigam virtualmente as mesmas espécies vegetais
(SPIRN, 1995, p. 29). Esse fato é evidentemente pouco interessante para a
atração e manutenção de biodiversidade nas cidades e nos ecossistemas
circunvizinhos a elas.

A variabilidade de espécies nativas brasileiras, de suas cores e formas, é


surpreendente. Infelizmente sua utilização em projetos é limitada porque falta
pesquisa básica no Brasil, sobre o uso de nossas espécies para fins urbanísticos
e paisagísticos (IRGANG, 1985, p. 57).

Existem na flora brasileira cerca de 5 a 6 mil árvores merecedoras de estudos,


visando sua introdução na arborização urbana no Brasil. Menos de 100 espécies
são usadas com essa finalidade (MELLO FILHO, 1985, p. 123; MELLO FILHO,
1994, p. 75) e 80% das árvores plantadas nas cidades brasileiras são exóticas
72

(LORENZI 1992 in RODRIGUES & BREDT, 1994, p. 312).

Para MAGNUSSON & LIMA (1999)

Grande parte das árvores plantadas nas cidades brasileiras, em parques e ruas, não
é nativa, mas importada de outros continentes. Essa estratégia de paisagismo impede
que os próprios brasileiros conheçam a riqueza de sua flora e que os turistas
identifiquem o local em que estão. Selecionar e utilizar espécies nativas, ornamentais
ou frutíferas, poderia trazer uma série de vantagens para as cidades beneficiadas e
valorizaria a natureza brasileira aos olhos das futuras gerações.

3.3 Pressões urbanas sobre árvores


73

Nas cidades, as plantas são submetidas à condições prejudiciais, como:


compactação e impermeabilização do solo, o que dificulta a penetração das
raízes; deficiências minerais do solo; poluição do solo por metais pesados
como chumbo, níquel e cádmio provenientes da queima de combustível e de
resíduos de pneus; poluição do ar excessiva por poluentes como SO2, NO2,
O3, CO2, CO e Cl2; impactos mecânicos (podas, vandalismo29, construção de
edifícios, etc); grandes aglomerados de construções, que funcionam como
barreiras biogeográficas difíceis de serem transpostas por organismos silvestres
nos seus movimentos de polinização e dispersão de sementes (CESTARO, 1985,
p. 55; MOTTA, 1985, p. 64).

O calor emitido por ruas asfaltadas aquece a superfície das árvores e pode até
matá-las, se as plantas estiverem sob condições de pouca drenagem
(ANDRESEN, 1976, in LIMA, 1993, p. 24).

Pequenas diferenças no ambiente físico das ruas fazem uma enorme diferença na
taxa de sobrevivência. As ruas poderiam ser projetadas para fornecer, às raízes,
espaço, ar e água. Em vez disso, práticas correntes agravam as condições já
hostis. As ruas do centro são pavimentadas de uma fachada a outra. A
pavimentação diminui a quantidade de água que chega às raízes. Nessas ruas,
as árvores são plantadas em pequenas covas, que em caso de chuvas
prolongadas podem ficar inundadas, apodrecendo as raízes (SPIRN, 1995, p.
194, 196).

Ao invés de plantadas em espaços pavimentados, SPIRN (1995, p. 210) sugere


que substitua-se o concreto por pó de pedra poroso, que é um subproduto da
britagem. A faixa de pó de pedra permite um maior acesso de ar e água às raízes
das árvores.

29
BIONDI (1985, in LIMA, 1993, p. 35) constatou que Recife, mais 1 / 3 das árvores plantadas nas
ruas e avenidas apresentavam danos físicos causados por atos de vandalismo, embora a autora
tenha constatado posteriormente uma melhora do quadro (BIONDI, 1990). Em Curitiba, 37% das
2750 mudas plantadas em 1999 foram arrancadas; esse percentual chegou a 60% em alguns
bairros (GAZETA DO POVO, 22/12/1999).
74

Os vários fatores de estresse a que as árvores urbanas estão submetidas provoca


a síndrome de resposta das árvores urbanas ao estresse, cujos sintomas são:
menor crescimento, amadurecimento prematuro, menor tempo de vida, maior
suscetibilidade à ataques de fungos, vírus e insetos (FOSTER, 1977 in LIMA,
1993, p. 26). Isto traduz-se em diminuição dos benefícios supracitados e gastos
na recomposição dos vegetais mortos ou senescentes.

3.4 Problemas causados pela arborização


Os principais problemas originados pela prática da arborização são o
escurecimento noturno e diurno de ruas jardins e fachadas de casas; entupimento
de calhas e quebra de telhas; ruas calçadas e propriedades com o piso destruído;
canalizações deslocadas, obstruídas ou quebradas; avarias em fios da rede
75

elétrica (em algumas cidades as árvores representam cerca de 50% das causas
de interrupção do fornecimento de energia e de telefonia); emboloramento e
danos nas fachadas da edificações e encobrimento de letreiros e placas de
sinalizações. É importante salientar que esses problemas não podem ser
atribuídos aos vegetais e sim ao planejamento, que é falho ou mesmo inexistente
(FERREIRA, 1985, p. 92; MAGALHÃES 1990 in LIMA 1993, p. 43; PEDROSA,
1983; SANTINI & BUENO, 1987 in LIMA, 1993, p. 33; HOEHNE, 1944, in LIMA,
1993, p. 33; MELLO FILHO, 1985, p. 120).
76

O entupimento de bueiros, por exemplo, pode ser evitado com a coleta regular
dos resíduos orgânicos das árvores: esses resíduos podem ser aproveitados em
programas de compostagem. Toneladas de composto orgânico seriam produzidos
anualmente nas cidades e poderiam ser utilizados na própria arborização, na
adubação das mudas.

3.5 Algumas reflexões


HUDSON (1994, in KIELBASO, 1994, p. 5) calculou que somente os benefícios
77

oriundos da mitigação da poluição cobrem cerca de 60% dos custos de


manutenção das árvores urbanas. Somando-se a isto a capacidade da
arborização urbana em reduzir o consumo de energia, este percentual eleva-se
para 72%, o que por si só já justifica economicamente o plantio e manutenção da
arborização urbana. É bastante provável que o percentual de retorno aos cofres
públicos seja ainda maior, se forem incluídos nos cálculos de Kielbaso os
serviços ecológicos prestados pela arborização.
78

Os benefícios são incontestáveis, contudo, o planejamento da arborização é


incipiente. Mesmo nos EUA, que têm uma sólida tradição em arborizar suas
cidades, apenas 38% delas podiam estimar o número de suas árvores, e 17%
possuíam um plano de manejo (KIELBASO, 1990, in KIELBASO 1994, p. 8).

No Brasil, apesar de existirem publicações sobre arborização urbana datando de


79

1944, só a partir da segunda metade dos anos 1980 começam a se organizar


encontros e sistematizar as informações (SANCHOTENE, 1994, p. 23). Não é
leviano afirmar que a situação brasileira, no que refere-se ao planejamento e
manutenção da vegetação urbana, é mais desalentadora do que a norte-
americana.

A falta de planejamento origina mitos relacionados à arborização, como aquele


que diz que a melhor medida para a avaliação de um sistema de áreas verdes
é o índice de quantidade de espaço verde por habitante30. Mais importante
que a área total do sistema de espaços verdes é o potencial de oportunidades
que esses espaços oferecem, sendo que a magnitude deste potencial depende da
facilidade de seu acesso visual e físico ao público. Nesse sentido, as áreas
verdes ao longo de corredores terrestres de transporte contribuem bem mais que
blocos maciços de florestas na periferia (WHITE, 1968, in GRIFFITH & SILVA,
1987, p. 37).

A proposição de White é correta. Porém é preciso não esquecer que apesar da


importância da vegetação em estruturar espaços livres para o lazer, ela também
cumpre outros papéis igualmente importantes, como demonstramos nesse
capítulo.

CAPÍTULO 4
Pirajá: Um Bairro e um Parque

Ilusora de pessoas de outros lugares


A cidade e sua fama vão além dos mares
E no meio da esperteza internacional,
A cidade até que não está tão mal
E a situação, sempre mais ou menos

30
Para MACEDO (1997, p. 38) o índice da ONU de 12 metros quadrados de área verde por
habitante é defasado, pois não esclarece critérios de cálculo, distribuição espacial e de
características climáticas. É preciso que ele seja substituído por parâmetros onde o clima tropical
e a realidade das cidades (adensamento, circulação de veículos, poluições e morfologia) sejam
criadores de critérios que definam melhorias ambientais eficientes.
80

Sempre uns com mais, e outros com menos


A cidade não pára, a cidade só cresce
O de cima sobe e o de baixo desce...
(Francisco de Assis França, o Chico Science)

A cidade do Salvador, com cerca de 2.300.000 habitantes, detém


aproximadamente 18% da população baiana. Dois fatores principais
determinaram o crescimento urbano da cidade: a expansão do capital imobiliário,
coordenada pelo poder público; e o povoamento de baixa renda, realizado de
modo informal, pelos fluxos migratórios de áreas rurais ou da própria cidade, o
que resultou num elevado contingente de assentamentos espontâneos
(CENTRO DE ESTUDOS SÓCIO AMBIENTAIS, 1997).

Salvador reflete a pobreza que predomina na Bahia, que ocupa a 20ª posição no
ranking de índice de desenvolvimento humano (IDV) da ONU, em comparação
com as outras 26 unidades da Federação. Se fosse um país, a Bahia ocuparia o
106º lugar, num ranking de 174 países (FOLHA DE SÃO PAULO, 9/9/1998). As
elevadas taxas de subemprego e desemprego e a questão habitacional estão
entre os principais problemas da cidade (CENTRO DE ESTUDOS SÓCIO
AMBIENTAIS, 1997, p. 4).

A primeira invasão de Salvador, a do Corta Braço, hoje o bairro do Pero Vaz,


surgiu em 1946. Desde então a ocupação informal do solo urbano ampliou-se
continuamente e se tornou “solução” de moradia para grande parte da população
segregada economicamente. Com a ampla consolidação das áreas habitacionais
ocupadas informalmente, acentuaram-se as diferenças sociais no espaço
construído, mantendo-se a gênese da desigualdade social (GORDILHO in A
TARDE, 12/12/1999-c).

Com cerca de 80% de sua área constituída por encostas, Salvador vem
experimentando um crescimento acentuado. Diariamente surgem novas
ocupações paupérrimas, sem esgoto sanitário, coleta de lixo ou água tratada,
muitas das quais localizadas em áreas de declividade acentuada. Cerca de 70%
81

da área urbana é ocupada de forma oficiosa31 (SERPA, 1996-d, p. 279; SERPA &
SERPA, 1990, p. 36). Nesse conjunto de áreas moram atualmente cerca de
73,1% da população, afirma a professora Angela Gordilho (GORDILHO in
BANDEIRA, 2000).

BRITO (1995, p. 98-99), observa que, com o crescimento acelerado de Salvador,


especialmente a partir dos anos 70, a urbanização foi se adequando como era
possível à demanda crescente por novas moradias e serviços. Essa demanda
implicou (implica ainda) em dois padrões de construção opostos. Um é aquele
feito por profissionais, os quais, geralmente, procedem menosprezando o entorno
e as oportunidades oferecidas por ele, prevalecendo a construção como único
elemento a ser valorizado na paisagem. E há a arquitetura sem arquitetos,
causadora de problemas diversos, tais como, ocupação irracional das encostas,
insuficiência de espaços abertos nos bairros, entre outros. É realizada pela
população de baixa renda e é dominante em Salvador32.

Como é comum a todas as metrópoles brasileiras, o crescimento urbano de


Salvador deu-se através de um planejamento parcial, que contemplava alguns
loci em detrimento de outros, aliado a um desenvolvimento econômico de base
industrial que atraiu uma corrente migratória contínua. Desta feita, Salvador
apresenta hoje um desenho urbano problemático, com o solo sendo ocupado de
maneira desordenada, com a diminuição de áreas verdes e aumento da
poluição sonora e das praias, pela grande deposição de esgotos (SILVA &
FERNANDES, 1996, p. 57).

31
O termo oficiosa significa que a lei do uso do solo é raramente aplicada: a legislação exige que,
para cada construção, elaborem-se um perfil topográfico, cálculo de volume de desmonte,
relatórios de sondagem, projetos geotécnicos e de escoamento de águas pluviais (SERPA &
SERPA, 1990, p. 36).
32
É mister esclarecer que nos bairros populares residem muitos pedreiros, que, apesar da pouca
escolaridade, são competentes na construção de moradias. Assim, parte dos problemas citados
pela arquitetura popular, podem ser explicados pelas dificuldades topográficas ou outras
peculiaridades que desvalorizam uma área, tornando-a possível de ser ocupada por famílias de
baixa renda.
82

Apesar das condições ecológicas originalmente excelentes, no tocante à


temperatura, pluviosidade, insolação e luminosidade, umidade relativa, textura e
fertilidade dos solos, que permitem uma variada e luxuriante vegetação
paisagística, a arborização de Salvador é deveras modesta. Há uma escassez de
arborização em numerosas avenidas e bairros, principalmente os periféricos
(FARIA, 1987, p. 80, 81).

4.1 O subúrbio ferroviário de Salvador (baseado em PEDRÃO, 1998, p. 76 -


93, salvo onde indicado).
O Subúrbio Ferroviário de Salvador, onde localizam-se o bairro de Pirajá e o
Parque Metropolitano de Pirajá, é um dos vetores de expansão de pobreza da
cidade. Do ponto de vista urbanístico, o subúrbio caracteriza-se por possuir
habitações em geral precárias33; pela ausência de um sistema de saneamento
básico; pela baixa qualidade dos serviços públicos, principalmente educação,
saúde, transporte coletivo e coleta de lixo; altas taxas de desemprego e
subemprego e renda familiar média de dois salários mínimos (CENTRO DE
ESTUDOS AMBIENTAIS, 1997, p. 4).

Localizado na parte ocidental de Salvador, próximo à Baía de Todos os Santos, o


Subúrbio Ferroviário tem uma área de aproximadamente 4145 ha, bordeando a
Baía de Todos os Santos. O censo do IBGE de 1991 apontava uma população de
217.361, com projeção de 285.500 pessoas para 200034. O subúrbio é uma área
de concentração de pobreza, que redunda nas agressões ambientais (discutidas
no capítulo 2), sendo considerada a região urbana mais problemática de
Salvador.

Sua ocupação foi inicialmente promovida pelos engenhos de cana-de-açúcar nos


núcleos de Paripe, Plataforma e Periperi. Até a implantação da rede ferroviária, a
área onde está assentado o Subúrbio pouco diferenciava-se do restante do
Recôncavo, onde imperava a produção açucareira.

33
A precariedade do subúrbio traduz-se na pouca valorização de seu solo urbano, cujo metro
quadrado é o mais barato da cidade do Salvador (BRITO, 1997).
34
A FABS (Federação das Associações de Bairros de Salvador) estima, no entanto, que a
população atual do subúrbio gire em torno de 600.000 habitantes.
83

A transição da economia agro-exportadora para a industrial marca o primeiro


impulso de urbanização da área. O setor agrícola é desestruturado, e desenvolve-
se o setor secundário. Esses fatos, aliados a transformações na infra-estrutura
rodoviária do Subúrbio, como a construção da avenida Suburbana em 1969,
originam uma corrente migratória a partir de 1955, a qual reflete-se em uma
expansão significativa da mancha urbana inicial, composta pelos bairros de
Plataforma, Periperi, Coutos e Paripe.

Nos anos 80 implanta-se o loteamento Fazenda Coutos, para onde foram


relocados os invasores das "Malvinas" e surgem duas grandes invasões: a de
"Bate Coração" e "Nova Constituinte". Nesta década fica evidente a falta de
espaço para grandes iniciativas habitacionais. A partir de então intensificam-se as
ocupações de áreas muito acidentadas ou encharcadas, impróprias para habitar,
realizadas por grupos de pobreza extrema.

A designação "Subúrbio Ferroviário" não é precisa, pois projeta uma falsa


impressão de unidade, de homogeneidade da mancha urbana, quando o que se
84

verifica é o oposto: trata-se de uma região urbana com espaços bastante


diferenciados, de bairros estruturados a invasões, onde predomina a quase total
ausência de infra-estrutura urbana.

Reiteradas pressões de degradação, decorrentes da predominância da pobreza,


têm tornado esta parte da cidade do Salvador progressivamente inadequada ao
habitar. O Subúrbio vem perdendo progressivamente seu valor, pois ficou à
margem de investimentos públicos e privados, que elevaram os preços da terra e
dos espaços urbanizados na parte leste da cidade (orla marítima), com a
previsível desvalorização da parte oeste. A falta de investimentos reflete-se na
deficiência de infra-estrutura e na conseqüente impossibilidade de
desenvolvimento de um setor de comércio e serviços, o que caracteriza o
subúrbio como uma região predominantemente de baixa renda.

Nos bairros do subúrbio predomina um padrão de ocupação construtiva quase


total do território, o que resultou em uma quase ausência de áreas verdes; estas
85

são poucas e concentradas, localizadas basicamente nas fronteiras do subúrbio,


destacando-se o Parque Metropolitano de Pirajá (PMP) e a área da Base Naval
de Aratu (que é área vedada à circulação de populares). Essa "má distribuição"
dificulta a maximização dos benefícios da presença de espaços vegetados.

O Subúrbio Ferroviário compartilha problemas ambientais comuns a outras


periferias brasileiras: a coleta de lixo é inexistente ou deficiente e a rede de
esgoto não contempla todos os bairros. O parcelamento irregular dos lotes, bem
como a freqüente inexistência de calçadas, problemas características das
periferias brasileiras (ULTRAMARI & MOURA, 1996, p. 1, 3) dificultam e
desestimulam a arborização.35

4.2 O bairro de Pirajá


Pirajá é um bairro periférico, outrossim, dado o conceito de periferia ser nebuloso,
cabe aqui breve conceituação.

35
Segundo SANTANA (1996, p. 79), as ruas dos bairros periféricos de Salvador quase sempre
são estreitas, e não estão devidamente preparadas para desempenhar suas funções.
86

O dicionário MICHAELIS apresenta várias definições para o vocábulo periferia

pe.ri.fe.ri.a sf (gr periphéreia) 1 Geom Contorno de uma figura curvilínea. 2


Estereometria. 3 Superfície de um sólido. 4 Circunferência. 5 Anat Superfície externa
do corpo ou de um órgão. 6 Bot Extremidade marginal da folha. 7 Urb Região distante
do centro urbano, com pouca ou nenhuma estrutura e serviços urbanos, onde vive a
população de baixa renda (DICIONÁRIO MICHAELIS ON LINE, 1999).

Em todas as definições está explicita a oposição centro / arredores. Contudo, a


distância não é o melhor critério para a definição de áreas periféricas da urbe.
BONDUKI & ROLNIK (1979, p. 84, 85) definem periferia como as parcelas do
território que têm baixa renda diferencial.

Apresentar baixa renda diferencial significa uma série de características


conjugadas, onde a distância é apenas uma delas. Quanto maior é o número de
melhorias, maior será a renda diferencial, o que explica a valorização dos
87

terrenos. Ao relacionar espaço a preços, a renda de terra impõe padrões de


ocupação que segregam o território urbano, produto do trabalho coletivo. A
elevação da renda diferencial de um terreno torna-o cada vez menos acessível às
parcelas menos remuneradas da força de trabalho, que acabam por ser
"expulsas" para periferias cada vez menos urbanizadas (BONDUKI & ROLNIK,
1979, p.77, 79, 80).

Segundo PAVIANI (1994, p. 183), atualmente nem sempre a periferia ocupa os


anéis mais externos da metrópole. Paviani afirma que, em muitas grandes
cidades, os empobrecidos ocupam espaços intercalares do tecido urbano. Ao
mesmo tempo, processos recentes tem gerido periferias nobres, ou, no linguajar
dos empreendedores imobiliários, condomínios fechados, villages ou cidades
jardins, que são ocupados pela classe média ou alta, com capacidade de pagar
pela qualidade ambiental em pontos diferenciados da metrópole.

Para VILLAÇA:

Nossa história urbana é não só a história da espoliação da maioria popular, mas


também a da participação do Estado nessa espoliação, por intermédio das obras
públicas que privilegiam os bairros dos mais ricos; da transferência dos órgãos
públicos para esses bairros; da legislação urbanística que privilegia esses mesmos
bairros; da história das prioridades na destinação dos recursos públicos (VILLAÇA,
1999).

Na evolução urbana do subúrbio ferroviário houve uma ausência de planejamento


dos espaços públicos de uso coletivo, como calçadas, pontos de ônibus, praças,
ou seja: ausência de planejamento, ausência ou insuficiência de injeção de
recursos, como afirmou Villaça no parágrafo anterior (PEDRÃO, 1998).

O bairro de Pirajá adequa-se à visão clássica de periferia, sendo, deste modo, o


registro visível no espaço, dos mecanismos de segregação e exclusão, que
traduzem-se em: habitações insuficientes e de má qualidade, inexistência de
infra-estrutura básica e transporte coletivo deficiente (PAVIANI, 1994, p. 182;
GROSTEIN, 1990, p. 33). Além da falta de infra-estrutura, o bairro sofre com os
altos índices de criminalidade, sendo considerado o mais violento do subúrbio
88

(Projeto Ecoscâmbio, in ANGEOLETTO; SERPA & SOUZA, 1996, p. 18)

O termo Pirajá significa chuva ou garoa miúda em linguagem indígena. No século


XVI já existiam Engenhos de cana na região onde hoje está situado o bairro de
Pirajá, a exemplo do Engenho de Simão de Andrade. Lá travou-se a batalha de
Pirajá, ganha pelo exército dos libertadores, em novembro de 1822 (TEIXEIRA,
1999). Nessa batalha, decisiva para a definitiva expulsão das tropas portuguesas,
um episódio peculiar garantiu a vitória dos brasileiros. Foi nela que o corneteiro
Luís Lopes teve uma marcante e anedótica participação, dando o toque de
"Avançar Cavalaria e Degolar", ao invés do toque de recuar, como havia sido
ordenado. Com o ataque renovado dos brasileiros, os portugueses debandaram
(CORREIO DA BAHIA, 2/7/1998-a).

A história do bairro é marcada pela exclusão sócio-espacial comum às periferias


brasileiras. Falta de arborização, de equipamentos de consumo coletivo, de
emprego, de saneamento básico são problemas que resistem aos anos, e que
têm sido reportados pela imprensa soteropolitana (FOTOS 01 e 02) {TRIBUNA DA
BAHIA (8/5/1988-a);TRIBUNA DA BAHIA (8/5/1988-b); TRIBUNA DA BAHIA
(8/5/1988-c); A TARDE (8/2/1988); A TARDE (12/7/1982-a); A TARDE (9/7/1982-
b); A TARDE (20/6/1975); A TARDE (7/3/1972)}.

À segregação espacial e às carências somam-se as poucas opções de lazer.


Parece haver, segundo a FOLHA DE SÃO PAULO de 27-08-1996, uma relação
entre a falta dessas opções e o aumento da violência urbana. A paisagem é
bastante árida e escassos são os espaços públicos, há no bairro somente duas
praças. Em contraposição à exuberância da vegetação do Parque contíguo ao
bairro (o Parque Metropolitano de Pirajá - PMP), este apresenta grande parte dos
seus eixos de circulação desprovidos de arborização.

O bairro pode ser subdividido em três tecidos urbanos distintos: um de


crescimento não planejado (Pirajá) e dois planejados e construídos pela URBIS
(Companhia de Habitação e Urbanização da Bahia) (Pirajá I e II). Entretanto, dada
a homegeneidade e a origem comum dos tecidos planejados, e para efeito de
comparação com o tecido espontâneo, resolvemos agrupá-lo em uma só massa,
89

doravante chamada de Pirajá I.

Tanto em Pirajá, quanto em Pirajá I, é flagrante a escassez de arborização e de


espaços de lazer e socialização. Se no tecido espontâneo essa escassez é em
grande parte conseqüência da produção não planejada das moradias e de seus
espaços livres (FOTOS 03, 04, 05, 06), em Pirajá I não houve qualquer preocupação
da URBIS em arborizar as ruas. Quando entregue aos moradores, em 1981,
coube aos mesmos as iniciativas para arborização do tecido planejado (FOTOS 07,
08, 09, 10).

Pirajá tem apenas uma praça (FOTOS 11, 12) assim como Pirajá I (FOTOS 13, 14),
com o agravante de ser mal localizada, em mais um erro grave da URBIS.

Estranhamente, a URBIS reproduz em Pirajá I problemas comuns no tecido


espontâneo: grande parte das ruas são vielas estreitas - o que dificulta a
arborização - e uma boa parte das residências não têm quintal ou ao menos uma
nesga de terra que pudesse comportar alguma vegetação. Muitos moradores
abriram a golpes de picareta o concreto que revestia a porção de área livre de
suas casas, com o intuito de cultivar plantas medicinais, ornamentais e mesmo
frutíferas.

Em Pirajá, grande parte dos lotes é de propriedade da família Martins Catharino36,


e foram ocupados. Com a despoluição da Baía de Todos os Santos, até 2003,
através das obras de saneamento do Governo do Estado da Bahia (projeto
conhecido como Bahia Azul), espera-se uma valorização das praias do subúrbio
(SERPA, 1999-C, p. 18; PEDRÃO, 1998 P. 84). Este fato tem causado
preocupação à moradores cujos lotes estão em situação irregular. Com a
valorização, é possível que muitos moradores sejam obrigados a comprar os
terrenos ou abandoná-los (SERPA, 1999-C, p. 18).

4.3 O Parque Metropolitano de Pirajá

36
A situação fundiária dos bairros do subúrbio é em grande medida irregular. A família Martins
Catharino vem reclamando o direito de posse de uma propriedade cuja área engloba Plataforma e
estende-se a outros bairros, inclusive Pirajá (SERPA, 1999-c, p.18)
90

O Parque Metropolitano de Pirajá, contíguo ao bairro, possui área de 1.550


hectares (FOTOS 15, 16). Seu valor ecológico é elevado. Uma das últimas grandes
áreas verdes do Salvador, o PMP caracteriza-se por apresentar uma grande
variedade de ambientes: floresta ombrófila densa (mata atlântica, com
aproximadamente 900 ha), ecossistemas fluviais e marinhos, pântanos e
manguezais. O PMP contém um subespaço de 75 ha, conhecido como Parque
São Bartolomeu (PSB).

Estimativas preliminares para a Mata Atlântica indicam uma diversidade vegetal


mínima de 10.000 espécies, das quais 53% das árvores, 74% das bromélias e
64% das palmeiras são endêmicas. Também são endêmicas, ou seja, só ocorrem
neste ecossistema 214 espécies de aves, das 940 registradas e 73 espécies de
mamíferos (260 espécies registradas); bem como 92% das 183 espécies de
anfíbios (IEF, 1994 in FONSECA, 1997, p. 456).

Em um único hectare de Mata Atlântica no sul da Bahia, podemos encontrar 454


diferentes espécies de plantas, enquanto nas florestas temperadas registram-se
apenas 10 espécies por hectare. É um dos biomas mais ricos em biodiversidade e
também o segundo mais ameaçado do planeta. Calcula-se que 70% da
população brasileira vivem em áreas de ocorrência de Mata Atlântica. "É uma
floresta que está no nosso quintal e seu processo de degradação é contínuo e
contemporâneo. Acontece hoje em ritmo duas vezes mais acelerado do que o
registrado na Amazônia'', alerta Mário Mantovani, diretor da SOS Mata Atlântica
(MUNIZ, 1999)37.

A manutenção das florestas tropicais (como é o caso daquela presente no


parque), segundo LOVELOCK (1991 p. 170-171; 1997, p. 622) é imprescindível,
pois elas atuam na regulação climática global, bombeando à atmosfera
fantásticas quantidades de água em estado gasoso, formando-se nuvens que
amenizam o calor nos trópicos e aquecem regiões distantes (frias) pela liberação
da energia contida no vapor d’água.

37
Estudo realizado pela organização ambiental americana Conservation International (CI), sobre
os pontos biologicamente mais atingidos do planeta, aponta a Mata Atlântica como a área mais
ameaçada do Brasil e a quinta em todo o mundo (REVISTA GALILEU, 1999).
91

Parte da Bacia do Rio do Cobre também compõe esse bioma. A EMBASA


(Empresa Baiana de Águas e Saneamento) mantém uma estação de tratamento
no interior do Parque, sendo responsável pelo abastecimento diário de cerca de
110.000 pessoas. É a mais importante reserva de água potável do Subúrbio
Ferroviário38 (CENTRO DE ESTUDOS SÓCIO AMBIENTAIS, 1997, p. 2), de cuja
existência depende, evidentemente, a preservação do Parque.

Uma digressão é pertinente neste ponto. Há uma importância estratégica na


manutenção de reservas de água nos ecossistemas urbanos. As cidades
importam mais água do que todos os outros bens e matérias primas combinados
(SPIRN, 1995, p. 145). Por manejo inadequado, a oferta desse recurso diminui
rapidamente, sendo provavelmente o principal problema ambiental a ser
enfrentado pelas cidades do planeta, nos próximos 30 anos, segundo
pesquisadores das Universidades de Cambridge e Standford (NOVAES, 1996, p.
52). Segundo a Revista do CREA paranaense (1998, p. 18), a ONU estima que,
em 2005, dois terços da população mundial sofrerão com a falta de água.

O Brasil, a despeito de sua notável disponibilidade de água (cerca de 8% da


água doce disponível no planeta), corre riscos de enfrentar crises de
abastecimento em virtude da acelerada degradação dos recursos hídricos,
principalmente nas regiões metropolitanas (PAULA. In: PAULA, 1997, p. 208).
O abastecimento de água é problema grave em grande parte das metrópoles do
terceiro mundo, ou porque o recurso não existe ou porque é difícil trazê-lo para o
usuário (CAMPBELL, 1992, p. 197).

Outra razão para a conservação dos fontes de água doce é o custo de tratamento
para garantir o suprimento de água potável: US$ 2,00 para tratar 1000 m3 de
água de boa qualidade contra US$ 8,00 para tratar o mesmo volume de água
degradada (TUNDISI & BARBOSA, 1995 in BARBOSA & PAULA, 1997, p. 260).
Além disso, lagoas e rios são uma fonte importante de alimentos (BARBOSA &

38
PARÉS & BORJA (1996, p. 85), em pesquisa no bairro de Ilha Amarela, dectaram que a quase
totalidade dos esgotos do bairro é despejada no rio Mané Dendê, efluente do Rio do Cobre, e
formador da Cachoeira de Oxum , no interior do Parque.
92

PAULA, 1997, p. 260).

Distribuída de forma desigual pelo planeta, a água chega a ser motivo de conflito
entre países. O mais crítico deles envolve israelenses e palestinos, cujos
mananciais disponíveis dependem de acordos entre Jordânia, Síria, Líbano, Egito
e Arábia Saudita (LOPES, 1999; BÓ, 1999).

Entre os decênios de 70/80 e 80/90, enquanto que a cidade do Salvador


apresentou, para os mesmos períodos, taxas de crescimento de 48,79% e
38,58%; o subúrbio apresentou taxas de crescimento de 87,41% e 68,07%,
respectivamente (CENTRO DE ESTUDOS SÓCIO AMBIENTAIS, 1997, p. 4).

É evidente que o crescimento do subúrbio torna o Parque Metropolitano de Pirajá


(caracterizado adiante) um vetor preocupante de ocupação. De fato, fímbrias do
bairro de Pirajá estendem-se sobre a mata ( FOTOS 17, 18) (ANGEOLETTO;
SERPA & SOUZA, 1996 p. 18). Em 1996, 3 hectares de mata ciliar do Rio do
Cobre foram derrubadas39, nas proximidades da barragem da EMBASA.

Para PEDRÃO (1998, p. 82)

(...) a realidade do Parque é hoje a diária ameaça de seu contorno atual, devido, por
um lado, à demanda de solo para habitação, e por outro lado à intensificação de
ocupação lindeira à BR 324 (localizada a leste do parque), principalmente de
equipamentos industriais (...)

Além de possuir uma reserva de água estratégica, o parque detém um precioso


fragmento de floresta ombrófila densa - ecossistema cuja biodiversidade está
entre os maiores do planeta. As florestas tropicais são o lar de dois terços dos
organismos do mundo (RAVEN, 1997, p. 153), e seu patrimônio genético pode vir

39
As agressões ao patrimônio hídrico do Parque não partem apenas dos excluídos que derrubam
mata ciliar para construir. A URBIS (Urbanização e Habitação da Bahia S/A) foi acionada pelo
Ministério Público da Bahia e Ministério Público Federal, devido a construção de um conjunto
habitacional às margens do Rio do Cobre. Também foram acionadas empresas que exploram
arenoso na região da Lagoa da Paixão, nascente do Rio do Cobre (TRIBUNA DA BAHIA,
09/10/1999).
93

a ser uma fonte importante de divisas ao Brasil. Os benefícios da preservação do


parque são inúmeros. Diante da evidente importância da sua manutenção, qual
tem sido a atuação do poder público municipal e das organizações não
governamentais?

Como no caso da falta de infra-estrutura em Pirajá, a imprensa baiana também


tem registrado o abandono do Parque São Bartolomeu, bem como sua
progressiva descaraterização (A TARDE, 9/2/1978; DIÁRIO DE NOTÍCIAS,
6/11/1975; A TARDE, 17/7/1979; TRIBUNA DA BAHIA, 24/1/1988-e; JORNAL DA
BAHIA, 10/12/1987; A TARDE, 16/8/1987; A TARDE, 2/8/1982-e; A TARDE,
11/9/1988; CORREIO DA BAHIA, 8/8/88; TRIBUNA DA BAHIA, 28/5/1988-e;
TRIBUNA DA BAHIA, 21/10/1992; A TARDE, 9/9/91; A TARDE, 26/8/1991; A
TARDE, 17/2/1973).

A municipalidade, desde que o Parque foi criado, através do Decreto 5363 de


28/04/1978, apresentou várias propostas para a preservação do Parque, das
quais 4 são aqui analisadas.

Em março de 1982 a Superintendência de Parques e Jardins (SPJ), vinculada à


Secretaria de Urbanismo e Obras Públicas da prefeitura municipal do Salvador
publicou um documento com propostas para a questão do parque, entre as quais
destacam-se:

 a eliminação na área do Parque de uma faixa de aproximadamente 100


metros, em sua porção sudoeste;
 a construção de uma cerca observando-se a nova delimitação proposta;
 definição de espaços específicos reservados às manifestações do candomblé;

A justificativa da 1ª proposta era relocar os moradores para fora do Parque, sem


dispender recursos para tanto. Nas palavras dos autores do documento:

A PMS (Prefeitura Municipal do Salvador) estará, de uma forma realista, atingindo o


objetivo de evitar moradias na área do PSB (Parque São Bartolomeu), sem dispender
recursos financeiros significativos (SUPERINTENDÊNCIA DE PARQUES E
94

JARDINS, 1982, p. 7).

Fica nítida nessa proposição a ingenuidade de fiar-se apenas em medidas do


poder executivo para estancar a prática de ocupação de solo do Parque.

Em todo o caso, redefinindo-se os seus limites legais, a SPJ defendeu o


cercamento, para, com essa medida, garantir a proteção do Parque contra
qualquer futura invasão.

Poucos meses depois da elaboração do documento da SPJ, o então prefeito


Renan Baleeiro propôs que o Parque fosse loteado para a construção de
moradias. Percebe-se aqui uma contradição entre as proposições da SPJ, um
órgão da prefeitura, e a proposta do prefeito Baleeiro.

O fato é que sua idéia despertou muitas controvérsias. Houve muita pressão
contrária, mas é provável que tenha pesado muito mais o fato dos próprios
beneficiários do loteamento se negarem a ocupá-lo, pois segundo eles o Parque
era moradia de Orixás - divindades do candomblé, e os mesmos não queriam
correr o risco de uma profanação (SERRA, 1984, p. 106).

O jornal A TARDE (11/8/1982-c) noticiou o affair :

Objeto de muita polêmica, o Parque foi ameaçado de desapropriação para dar lugar à
instalação de famílias sem residência, mas os representantes dos cultos afro lutaram
para preservar o que consideram um local sagrado para suas práticas religiosas,
chegando agora ao convênio que dará condições a que seja construído o Templo
dos Orixás40, no local.

O convênio foi assinado entre a FEBACAB - Federação Baiana dos Cultos Afro -
e o prefeito Renan Baleeiro. Provavelmente visando reparar sua imagem,
arranhada com a proposta de loteamento do Parque, além de assinar o convênio,
o prefeito Baleeiro criou o Conselho de Administração do Parque São
Bartolomeu, tendo como presidente Mãe Menininha do Gantois, e como vice o
escritor Jorge Amado. O objetivo do Conselho era analisar, estudar, sugerir e
40
O Templo não foi construído.
95

viabilizar normas para a regulamentação do uso do Parque. O Conselho era


composto por: 1 membro do Centro de Estudos Afro-Orientais; 1 membro do
Órgão Central de Planejamento;1 membro da Superintendência de Parques e
Jardins; 1 membro da FEBACAB; 1 membro da Fundação Museu da Cidade do
Salvador (A TARDE, 23/8/1982-d). Não há nos periódicos notícias de alguma
deliberação do Conselho.

Na gestão da prefeita Lídice da Mata (1993 - 1996), a Secretaria Municipal de


Planejamento (SEPLAN, s/d) tornou público um documento com diversas
propostas para o Parque São Bartolomeu. Não há menção ao Parque
Metropolitano de Pirajá. Entre as principais propostas cita-se:

 a construção de uma cerca de arame farpado visando impedir qualquer


invasão futura
 instalação de equipamentos urbanos de apoio ao turismo e às práticas rituais
do candomblé
 recuperação da cobertura vegetal da zona oeste do Parque, numa extensão
de 85 hectares.

Essas propostas, bem como outras menos significativas e não comentadas aqui,
têm caráter endógeno, isto é, dizem respeito ao Parque, ou melhor dizendo à uma
porção ínfima do Parque Metropolitano, o Parque São Bartolomeu, com seus 75
hectares, que perfazem apenas 4,84% da área total do Parque. Não há menção
ao cinturão de pobreza que o margeia, e não há propostas que atentem para a
melhoria da qualidade das vidas dos moradores do seu entorno.

Também não há indicativo da metodologia para a recuperação da cobertura


vegetal. É importante ressaltar que a completa recuperação de um ecossistema
complexo como a floresta presente no Parque não se obtém apenas plantando-se
árvores, é preciso estimular a sucessão de grupos de plantas que culminem na
"arquitetura" original da mata, um processo de muitos anos. E afinal, o que
garantiria o cessar dos desmatamentos? São pontos não abordados pela
SEPLAN.
96

As propostas da gestão seguinte, do prefeito Antonio Imbassahy (1997 - 2000),


abrangem o Parque Metropolitano de Pirajá, e não apenas seu fragmento mais
significativo para o turismo - o Parque São Bartolomeu. O documento (PMS,
1997) apresenta propostas específicas ao Parque Metropolitano e ao Parque São
Bartolomeu.

Para o Parque Metropolitano foram propostas as seguintes ações:

 reflorestamento das áreas desmatadas;


 implantação de um horto para o cultivo de mudas visando o reflorestamento e
instalação de um apiário, com utilização da mão de obra local nas duas
atividades;
 implantação de lojas para a venda de produtos diversos, cuja renda seria
revertida para a manutenção do parque;
 cercamento da área do Parque Metropolitano;

Para o Parque São Bartolomeu foram propostas as seguintes ações:

 remoção de 427 famílias do interior do parque;


 retirada de barracas de comércio próximas a Cachoeira de Oxum;
 cercamento da área do Parque São Bartolomeu.

As propostas da gestão Imbassahy, ao contrário das anteriores, aborda o Parque


como um todo, e reconhece que é preciso intervir também em seu entorno,
gerando emprego e renda. No entanto, a proposta da prefeitura não apresenta
alternativas nesse sentido PELA & ANGEOLETTO (1998). Em suma, são
proposições insuficientes, que não alterariam as pressões antrópicas que a área
vem sofrendo. Quanto ao candomblé, não há qualquer proposta que estimule e
garanta sua prática, apesar deste ser um dos objetivos do projeto.

A partir do anos 80, a sociedade, através das organizações não governamentais,


vem apresentando propostas para a preservação do Parque. Em 1987, a AMPLA
(Associação dos Moradores de Plataforma, bairro do entorno do Parque)
promoveu um seminário sobre os problemas do Parque. No documento publicado
97

(AMPLA, 1987), reconhece-se a impossibilidade de preservação do Parque sem a


adoção de medidas que garantam melhores condições de vida aos moradores do
subúrbio. Entre as propostas defendidas no seminário destacam-se:

 o cercamento do Parque;
 ações educativas (educação ambiental) nos bairros;
 promoção sistemática de eventos culturais que garantissem a freqüência dos
moradores do subúrbio.

A promoção de eventos culturais no Parque não visa apenas atender à demanda


dos moradores por cultura. A ex-coordenadora e uma das fundadoras da AMPLA,
Antonia Garcia, é enfática ao defender que a apropriação do Parque pelos
moradores do subúrbio é a medida mais importante para a sua preservação
(Antonia Garcia, comunicação pessoal, 1999). Para ela, é preciso que os
suburbanos adotem o Parque como seu, descubram seus encantos e
possibilidades de lazer, pois essa forma de apropriação contribuiria enormemente
para inibir a violência no Parque; bem como facilitaria o desenvolvimento de
projetos para sua preservação.

Em 1991, a ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DO PARQUE SÃO BARTOLOMEU / PIRAJÁ, inicia a


formação de um corpo de guias e guardiães do Parque. Foram selecionados 35
adolescentes de escolas públicas do subúrbio. Estes adolescentes eram
remunerados e freqüentavam palestras onde evidenciavam-se aspectos sociais,
ecológicos e culturais relativos ao Parque.

A atuação dos guias e guardiães deveria envolver:

 educação ambiental junto à comunidade e usuários;


 vigilância sistemática do Parque;
 levantamento de flora e fauna;
 participação em projetos de produção de mel e mudas para a recomposição
de áreas desmatadas

O documento da Associação é permeado pelo discurso de integração


98

moradores / Parque. Contudo, também esse conjunto de propostas é marcado


pelo seu caráter endógeno, não há propostas para a resolução dos problemas do
entorno, e é claro o que LEONARDI (1996, p. 18, 19) classifica como
ingenuidade, o fato dos educadores da Associação defenderem a educação
ambiental como a solução para todos os problemas do parque.

Mesmo no campo em que a Associação dispõe-se a atuar - a educação


ambiental - é bastante questionável sua proposta dos guias como difusores do
conhecimento adquirido em sua formação. É evidente a necessidade de difusão
dos conhecimentos relativos ao Parque, mas é pouco plausível confiar essa
tarefa a poucas dezenas de adolescentes, que habitam um universo de milhares
de pessoas.

Quanto ao intento de vigilância por parte dos menores, ele é francamente risível.
Participei da formação de um grupo desses adolescentes em 1995, como
educador, e meus pedidos para excursionar com os "guias e guardiães" dentro
do Parque eram negados, por questões de segurança. Nas poucas vezes que
educadores e coordenadores do projeto caminharam pelo parque, sempre havia
uma escolta da polícia militar.

O GERMÉN (Grupo de Recomposição Ambiental) tornou público, em 1993, um


projeto de recuperação ambiental destinado ao parque. De todos os documentos
aqui analisados, este é o único onde há a real intenção - embasada por uma
metodologia e contratação de pessoal qualificado - de se realizar um diagnóstico
das reais condições sócio-ecológicas do Parque. Por isso, o projeto é bastante
evasivo quanto a propostas de ações, estas são relegadas a um segundo
momento, quando os dados do diagnóstico norteariam intervenções.

Em 1994, a ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DO PARQUE SÃO BARTOLOMEU / PIRAJÁ lança o


Projeto São Bartolomeu / Memorial Pirajá. O objetivo da Associação foi o de
construir uma proposta de Educação Ambiental ampliada, ou seja, não só com
adolescentes mas também com professores e estudantes das escolas públicas
do subúrbio.
99

Indubitavelmente constata-se um avanço na tentativa de difusão das


características e problemas do Parque a um número maior de pessoas, embora a
defesa da educação ambiental como solução para todos os problemas do Parque
continue transparecendo neste segundo projeto da Associação.

Mais recentemente, a partir de 1996, o Centro de Educação São Bartolomeu


(CEASB) inicia suas atividades. Como está explícito em sua denominação, o
CEASB dedica-se a projetos de educação ambiental, em escolas públicas do
subúrbio ferroviário de Salvador. Outra área de atuação do CEASB é a promoção
de atividades de "sensibilização da mídia" (segundo declarações de seus
membros, em matéria de A TARDE de 23/11/96) para os problemas do parque.

No intuito de alertar a população baiana acerca dos problemas do Parque, o


CEASB levou ao Parque Carlinhos Brown e Margareth Menezes, em outra
ocasião havia levado Daniela Mercury, que se declararam aliados de sua
preservação. Em outra reportagem (CORREIO DA BAHIA, 24/8/1996), o CEASB
afirmou que a segurança é atualmente o principal e mais urgente problema do
Parque. A segurança, ou melhor dizendo, a falta dela, é certamente um problema,
mas não o principal nem o mais urgente. A insegurança é somente um reflexo das
condições aviltantes a que estão submetidos os moradores do entorno do Parque.

Em 1999, uma passeata e um abaixo assinado foram promovidos pelo CEASB.


Ambas manifestações tinham como objetivo o reconhecimento do Parque como
Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (CORREIO DA BAHIA,
21/8/1999).

Cabem aqui duas perguntas. Quais serão os resultados práticos dessa


campanha? Qual é a diferença entre ser um Parque Metropolitano, Federal ou
Patrimônio da Humanidade quando há um histórico de propostas não realizadas
por vários governos municipais desde que o Parque foi fundado? A proposta do
prefeito Renam Baleeiro, acima comentada, demonstra com perfeição a pouca
atenção que o mesmo recebe por parte do poder público.

Nas ações do Associação dos Amigos do Parque São Bartolomeu, e mais


100

recentemente do CEASB, a maioria dos problemas ambientais do parque está


ocultada pela idéia de que educação ambiental é preservá-lo; está implícita a
idéia de que quem destrói o Parque são os soteropolitanos, e a eles é remetida a
responsabilidade por sua preservação. Não atenta-se para o processo de
produção e reprodução da cidade, que originou o quadro de bairros sub-normais
margeando o Parque41.

Essas práticas, que contribuem para obnubilar as reais responsabilidades e


possibilidades de atuação de cidadãos e poderes públicos, não podem ser
classificadas como educativas. Paula BRÜGGER (in RODRIGUES, 1998, p. 136,
202) define esse tipo de "educação" como adestramento ambiental.

4.4 Algumas conclusões sobre a atuação de poderes públicos e ong's no


Parque
Em tese, não há soteropolitano contrário à preservação do Parque, a não ser,
talvez, os excluídos que habitam suas entranhas. O que se constata, porém, é o
isolamento do subúrbio, e a virtual desconsideração do Parque pelos cidadãos de
classe média. Por isso, sensibilizações da mídia ou qualquer outro nome que se
dê à tentativa de chamar a atenção daqueles que estão social e geograficamente
de costas para o subúrbio - concentrados na parte leste da cidade, voltados para
a orla atlântica - são tentativas vãs de resolução dos problemas do Parque.

Tampouco se resolverão esses problemas em atividades tópicas de educação


ambiental em escolas. É fácil convencer escolares e professores sobre a
importância da preservação do Parque. Muito mais complexo é envolver a
esmagadora maioria da população do subúrbio que está fora das escolas em um
trabalho de educação permanente, consorciada à melhoria da qualidade de suas
vidas, através de múltiplas ações, como a estruturação de espaços arborizados
de lazer, tão escassos no subúrbio, ou a estabilização de encostas com o uso de
vegetação arbórea.

41
Em tempo: a Associação foi financiada pela prefeitura do Salvador e o mesmo dá-se quanto o
CEASB, daí a ausência de críticas por parte dessas organizações quanto a omissão das gestões
municipais, cujos planos para o Parque não se concretizaram.
101

Ao invés de maquinar planos que quase sempre não são executados, as gestões
municipais poderiam selecionar projetos e estabelecer parcerias que
redundassem em benefícios permanentes aos moradores do entorno do Parque.
Ressalta-se que muitas das ações de melhoria das condições de vida dos
suburbanos são de baixo custo.

Ao contrário do que às vezes transparece nos discursos de poderes públicos e


ong's, não há uma "fragilidade ecológica" inerente aos ecossistemas do Parque.
Estancando-se as pressões antrópicas, em alguns anos reestabeleceriam-se as
áreas desmatadas, o mangue, a potabilidade das águas. Daí a ineficácia de
propostas de recomposição da flora que ignoram a enorme demanda por solo
urbano para a construção de moradias, presente no subúrbio.

Uma intervenção defendida tanto pelas gestões municipais quanto pelas ong's é o
cercamento do parque. O fato é que a idéia da cerca , por si só é inútil: ela não irá
deter invasores. Mas o cercamento com alambrado ou a colocação de marcos
regulares que delimitassem o parque pode ser uma iniciativa interessante, desde
que se trabalhe com o entorno um contrato natural (faço uso aqui de uma idéia
do filósofo Michel SERRES): os moradores atuariam na fiscalização desse limite
(que, afinal, faz o parque "existir", pois o dá forma) e parcerias diversas
desenvolveriam projetos distintos: arborização de espaços livres, reciclagem de
lixo, teatro, saneamento, educação ambiental42. Isso atingiria o também aquele
cidadão que está fora das escolas.

SERPA (1996-d, p. 281) defende uma alternativa original para o cercamento do


Parque. No lugar de arame, seriam criados pomares de uso coletivo que
funcionassem como "zona tampão", protegendo a mata do interior. Há cerca de
10 anos a FEBACAB sugeriu que grandes estátuas de orixás circundassem o
Parque, demarcando seus limites (Angelo Serpa, comunicação pessoal, 2000).
São idéias interessantes, que poderiam ser fundidas.

4.5 O candomblé e o Parque

42
A exemplo das experiências do Projeto Espaço Livre de Pesquisa / Ação
(www.ufba.br/~esplivre) nos bairros de Plataforma e Pirajá.
102

Outra proposta recorrente nos documentos acima analisados é a garantia de


espaço e infra-estrutura que garantam a prática do candomblé no Parque. Uma
proposta coerente, dada a importância do candomblé para a preservação do
PMP. O Parque São Bartolomeu (FOTOS 19, 20) é a maior referência dos cultos
afro-brasileiros da cidade e do Estado. A floresta, as nascentes, as cachoeiras -
Nanã, Oxum e Oxumaré - e as rochas - Pedra do Tempo e Pedra de Omolu - são
consideradas áreas sagradas, objeto de culto e peregrinação dos praticantes do
candomblé (FOTO 21) desde a metade do século XIX (CENTRO DE ESTUDOS
SÓCIO AMBIENTAIS, 1997, p. 2).

Segundo Angelo Serpa, as ações dos praticantes do candomblé no Parque


exprimem um profundo sentido estético, religioso e até mesmo ecológico, uma
vez que os sacrifícios e oferendas aos orixás; romarias às cachoeiras sagradas e
a coleta de plantas rituais no interior do Parque demonstram uma ligação muito
forte do candomblé com a natureza.

Assim, para seus praticantes, a mata e outros elementos naturais do parque são a
morada de vários orixás: Oxumaré, orixá do arco íris; Nanã, orixá da lama, das
águas subterrâneas e dos pântanos; Oxum, orixá da água doce e da fertilidade;
Obaluaiê, orixá das doenças que mantêm estreitas ligações com a terra e os
troncos das árvores; e Tempo, orixá bantu da caça. Ocorre uma sacralização do
espaço físico, a natureza é humanizada. (SERPA, 1996-c, p. 181, 185; MAMNBA,
1982) Não por acaso, disse certa feita a ialorixá Obá Biyi (in RISÉRIO, 1993) que

Enquanto católicos adoram imagens, a gente do candomblé adora a natureza.

O coordenador do Instituto Nacional de Tradições e Culturas Afro-Brasileiras,


Francelino de Shapanan, afirma que

(...) diferentemente do que muitos pensam, estamos muito preocupados com a


natureza, porque sem ela não há como cultuar os orixás (CABRERA, 1999).

O Candomblé é uma religião que privilegia a natureza, que considera, integra,


incorpora a natureza ao seu repertório simbólico. Árvores, matas e fontes são
103

monumentos, são referências sagradas (SERRA, 1984, p. 101). É uma religião


que tem como elemento importante a existência de áreas verdes (SERPA &
CORREIA, 1999), daí todo terreiro possuir um espaço com plantas litúrgicas.
Essa característica do Candomblé maximiza a presença de vegetação na cidade
do Salvador, que tem cerca de 3500 terreiros registrados na FEBACAB
(Federação Baiana dois Cultos Afro-Brasileiros).

Por sua singular característica de possuir um vasto espaço natural contíguo ao


bairro, Pirajá é, sem dúvida, um laboratório promissor para a criação de uma
nova relação entre o ambiente construído e o natural , através de um estudo de
caso. Seus dados permitirão a elaboração de um plano de arborização composto
de espécies que aumentem o conforto ambiental no bairro e que possuam
compatibilidade ecológica com a floresta ombrófila densa do Parque, no sentido
de atração e sustentação de vetores ecológicos - polinizadores e dispersores de
sementes, contribuindo dessa maneira para a recomposição de áreas
desmatadas.

FOTOS 01 e 02: Problemas de infra-estrutura no bairro de Pirajá


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999
104

FOTOS 03 e 04: Escassez de arborização no tecido espontâneo.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
105

FOTOS 05 e 06: Escassez de arborização no tecido espontâneo.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
106

FOTOS 07 e 08: Escassez de arborização no tecido planejado.


107

FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.

FOTOS 09 e 10: Escassez de arborização no tecido planejado.


108

FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999


109

FOTOS 11 e 12: Praça General Labatut.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.

FOTOS 13 e 14: Praça do tecido planejado.


110

FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.

FOTO 15 : O Parque visto do bairrro


FONTE: Fábio H. S. Angeolleto, 1999
111

FOTO 16: O bairro visto do Parque


FONTE: Fábio H. S. Angeolleto, 1999

FOTOS 17 e 18: Ocupações no interior do Parque.


112

FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.


113

FOTO 19 e 20: Cachoeira de Oxumaré no Parque São Bartolomeu.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
114

FOTO 21: Ritual do Candomblé no Parque São Bartolomeu.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.

CAPÍTULO 5
Abordagem Metodológica

Neste capítulo serão discutidas as abordagens metodológicas utilizadas no bairro


de Pirajá, com o intuito de obter dados que norteadores para a elaboração de um
115

plano de maximização da vegetação no bairro.

Nos ecossistemas urbanos há dois tipos de espaços onde é preferencial a


introdução de vegetação: os espaços livres de edificações públicos (ruas, praças,
largos etc), quer dizer, qualquer espaço onde não há barreiras físicas que
impeçam a movimentação; e os quintais (espaços privados).

Sabendo que Pirajá é extremamente pobre em espaços públicos de lazer e


socialização, decidiu-se pela aplicação do método de sintaxe espacial como forma
de descobrir vazios urbanos no bairro, que tivessem "vocação" para serem
transformados em pequenas praças arborizadas. As centralidades dos bairros são
as que geralmente sofrem intervenções por parte do poder público, pois são áreas
que concentram um grande número de pessoas, e as obras realizadas têm
"visibilidade".

O mesmo não se verifica em outros espaços de caráter local, isto é, cujos


usuários são principalmente moradores, pessoas cujas casas estão próximas a
esses espaços. Não obstante, a construção de praças locais pode contribuir para
desafogar o uso de espaços centrais.

Para descobrir esses espaços, que são em geral contíguos às edificações de


seus usuários, lançou-se mão do método de sintaxe espacial. O pioneiro na
utilização deste método como uma ferramenta para o planejamento paisagístico e
ambiental foi o professor Angelo Serpa, em um estudo de caso nos bairros de
Plataforma e Cajazeiras [(Salvador, Bahia), SERPA, 1998, p. 189-216].

Uma digressão é necessária para que fiquem claras as razões, motivações e


limitações da utilização desta abordagem metodológica.

O método é derivado da Teoria de Sintaxe Espacial. Esta teoria propõe que


determinadas condições de contato social no espaço público e a apropriação
social do espaço urbano são, em grande parte, condicionadas por arranjos
morfológicos, ou seja, a maneira como se dispõem e se relacionam entre si os
diversos elementos arquitetônicos, que abrigam as atividades humanas e o
116

espaço público, espaço de relação. Esses arranjos morfológicos, dependendo de


suas regras compositivas propõem, eles mesmos, um certo potencial de contato
social (RIGATTI, 1991, IN RIGATTI, 1995, p. 144).

As premissas da sintaxe espacial tem sido desenvolvidas pela Bartlett Scholl of


Graduated Studies, da University College of London (UCL), capitaneados
sobretudo pelos arquitetos Bill HILLIER e Julienne HANSON, desde a década de
70. O principal objetivo é investigar e compreender melhor a relação entre o
comportamento humano e o ambiente construído. Para os teóricos da sintaxe
espacial, a compreensão do movimento e a comunicação são essenciais para o
sucesso de espaços públicos e privados e para tanto é a configuração do espaço,
sobretudo, quem determina o movimento e a interação das pessoas no ambiente
construído. Atualmente, os pesquisadores do Space Syntax Laboratory, na UCL,
usando técnicas computacionais, podem simular e predizer, por exemplo, os
efeitos mais desejáveis no que concerne a movimentação de pedestres e veículos
nos centros urbanos. Para Bill Hillier, a maneira como os espaços estão
conectados determina o quanto eles serão usados, e esta relação pode ser
prevista matematicamente (NEW SCIENTIST, 1999).

Segundo PEPONIS (1992, p. 81), a teoria de sintaxe espacial surgiu primeiro


como uma tentativa de descrever as propriedades significativas do espaço
urbano. Dados os constituintes elementares do sistema espacial, a sintaxe define
e mede o padrão de suas relações. O objetivo é descrever como o sistema como
um todo se relaciona a cada uma de suas partes constituintes, e como a
multiplicidade dessas relações produz uma estrutura subjacente. A propriedade
fundamental envolvida é a integração.

Pesquisas citadas por PEPONIS (1992, p. 82) em várias cidades mundo afora -
Londres, Brasília e cidades-satélite, Porto Alegre, algumas cidades gregas,
algumas cidades suecas - demostram que o forte grau de integração de um
espaço está correlacionado com o número de pessoas que se movem nele.
Assim, a movimentação pelos eixos de circulação tem uma lógica espacial
probabilística. As pessoas tem liberdade para escolher seus percursos. Sem
uma outra coordenação, a estrutura espacial parece gerar padrões de difusão,
117

modulação e convergência que assimilam os percursos individuais a uma lógica


global. A lógica espacial do movimento também possui uma dimensão social, pois
a movimentação gera uma interface entre pessoas para quem um dado percurso
é a origem ou o destino do seu trajeto, e pessoas para quem ele é apenas um
local de passagem.

Segundo HOLANDA (1988), há duas classes de fatores que contribuem para a


utilização, pelas pessoas, dos espaços abertos de uso coletivo. Existem os
fatores extra-morfológicos - como por exemplo o controle policial sobre
determinado espaço, o que impede a circulação de pessoas - e fatores
morfológicos relacionados com a presença ou ausência de pessoas em espaços
abertos. São os fatores morfológicos que interessam à teoria de Sintaxe Espacial.
Dos vários níveis de análise derivados desse fatores destacam-se três, que
relacionam-se: a morfologia física de determinado locus; a categorização
social de um espaço e os modos de apropriação de um locus.

A morfologia física compreende o estudo da forma física da cidade (ou fração


estudada). Proximidade ou vizinhança, circunscrição, continuidade ou
descontinuidade, permeabilidade, separação. Esses são os aspectos que,
segundo a teoria, relacionam-se mais diretamente com a constituição de uma
determinada ordem social a partir e em função da arquitetura urbana.

Por categorização social de um espaço, entende-se as categorias sociais -


práticas e agentes - que se encontram impressas nos arranjos espaciais: uma
casa, uma escola são exemplos de categorias sociais espacializadas e é
justamente a estruturação espacial dessas categorias que interessa ao
desenvolvimento da teoria.

Quanto aos modos de apropriação de um locus, eles estão bastante


relacionados com os níveis anteriores, uma vez que, se outros fatores não
intervierem, a morfologia física e a categorização social do espaço implicam num
sistema de co-presença - em outras palavras, um sistema de encontros que
permita a fluidez das relações sociais - nos espaços abertos de uso coletivo. A
maior ou menor co-presença em uma cidade ou fração depende diretamente de
118

sua sintaxe – seu sistema de barreiras e permeabilidades ao movimento


(HOLANDA, 1997-a, p. 147).

Normalmente, o sistema de encontros é congruente com a morfologia física que o


sanciona. Em caso de incongruência, ou seja, uma forma de assentamento
incoerente com as práticas sociais que ali vicejam, o que comumente ocorre é
uma adaptação do espaço à rede de relações existentes.

De acordo com os postulados da Teoria de Sintaxe Espacial, só haverá um bom


desempenho da forma urbana em relação aos grupos sociais que nele
encontram-se se existir uma congruência entre os estilos de vida dos agentes
sociais e sua capacidade de desenvolverem, nos espaços abertos do
assentamento, um sistema de encontros interpessoais que produza e reproduza
aqueles estilos. A ausência dessa congruência traduz-se em custos sócio-
econômicos elevados, com é o caso por exemplo de problemas de desertificação
de espaços livres de uso coletivo, causados por problemas morfológicos
(HOLANDA, 1988).

Há, desta feita, uma interdependência clara entre as práticas sociais cotidianas e
os lugares onde estas ocorrem. Em Sintaxe Espacial, define-se práticas sociais
como o campo de encontros das pessoas de um locus.

A co-presença pode dar-se entre pessoas de categorias diferentes. Distingue-se


os habitantes e os visitantes – pessoas estranhas ao lugar. É importante
esclarecer que o habitante não é somente o morador dos edifícios residenciais,
mas também os professores de uma escola, funcionários de um mercado etc.

Tem-se portanto três tipos distintos de co-presença: habitante – habitante,


habitante – estranho e estranho – estranho. Os atributos morfológicos da fração
estudada é que determinarão o predomínio de um ou outro tipo. Além dos
diferentes níveis de co-presença, percebe-se nos assentamentos humanos dois
tipos de integração entre as categorias sociais. A integração espacial ocorre
quando um certo número de pessoas se identifique com o "grupo" pelo fato de
ocuparem uma mesma porção do território, um bairro residencial, por exemplo.
119

Desta feita, a continuidade do território promove a integração. É o tipo de


integração que verifica-se em Pirajá; e da qual, evidentemente, derivam
numerosas redes formadas a partir do tecido social comunitário que
necessariamente devem ser contactadas, uma premissa para o êxito do
planejamento ambiental participativo que propõe-se para o bairro (cuja discussão
é realizada no 6º capítulo).

No caso da integração transpacial, as pessoas integram-se antes pelos


relacionamentos de classe do que pela continuidade do território. Segundo
PEPONIS (1992, p. 82), em geral os atores sociais pertencem não a uma, mas a
várias comunidades, baseadas no local de residência, de trabalho, ou ainda em
valores e interesses culturais. Exemplificando: os atores sociais de uma
universidade - professores, funcionários, acadêmicos - ali se integram
transpacialmente, pois o grupo não se identifica pelo locus, e sim pelas relações
ali desenvolvidas. Evidentemente, todo grupo social integra-se das duas
maneiras, quer ocupem ou não uma parcela continua do território. Todavia, para a
produção e reprodução da vida cotidiana de determinada classe social, a
tendência é de predomínio de um ou outro tipo de integração, e para o desenrolar
desta, é fundamental uma morfologia física adequada.

Frederico de HOLANDA (1997-B) analisa os aspectos de co-presença de maneira


bastante esclarecedora, primeiro, ao longo da história, citando HOBSBAWN
(1977) que, em um texto no qual lida com as relações entre comportamentos
sociais e estruturas urbanas, comenta que: "as revoluções surgem de situações
políticas, e não porque as cidades são estruturalmente adequadas a elas". Mas
imediatamente acrescenta que as barricadas de maio de 1968 em Paris
aconteceram nas mesmas ruas daquelas de 1944, 1871, 1848 e 1830.

Em outras palavras, ele afirma que a arquitetura e o urbanismo não comandam a


vontade de ninguém, mas que a organização espacial das cidades também
funciona como variável independente, ou seja, os padrões espaciais de Paris não
determinaram eles próprios as insurreições, mas sim determinaram os locais onde
as barricadas foram levantadas.
120

É pertinente reproduzir aqui alguns aspectos de co-presença pesquisados por


HOLANDA (1997-b) em Brasília. O bordão cidade sem esquinas, traduz-se, à
luz da sintaxe espacial, em poucos pontos de acessibilidade onde possa haver
uma condensação de urbanidade. Quase não há diferenciações de acessibilidade
para o pedestre, o que ocasiona um número elevado de fluxos fracos de
pedestres, mesmo nas áreas mais densas e centrais da cidade. Os eixos de
circulação são entendidos como estradas, não como ruas e avenidas, ou seja
como espaços que permitam uma utilização ambígua - movimento +
permanência, tornando tais espaços e seu entorno mais imediato extremamente
áridos, e mesmo perigosos, para um passante ocasional. Apesar de HILLIER &
HANSON terem proposto uma radical redução da semântica à sintática da
arquitetura (no livro The social logic of space), evidentemente, à sintaxe,
superpõe-se um conjunto de regras e convenções que, em geral, não são
inteligíveis, aparentes, na configuração espacial.

Um exemplo dado por HOLANDA (1997-b) dessa semântica arquitetônica é o


fato de algumas culturas preferirem orientar a entrada principal de suas
edificações em direção ao nascente, outras ao poente, o que implica obviamente
em configurações diferenciadas. Desta feita, as implicações sintáticas dos
espaços abertos de uso coletivo independem da semântica desses loci, ou seja,
mesmo que esses espaços adquiram outra semântica, a aridez a que se refere
Holanda tende a persistir.

Uma das premissas básicas da Teoria de Sintaxe Espacial, segundo a qual a


maior ou menor co-presença em um assentamento está inerentemente
relacionada com a sua configuração espacial, traz à tona o espectro do
determinismo arquitetônico - a forma moldando as relações sociais, um tema
recorrente na literatura relacionada à arquitetura e ao urbanismo, segundo
HOLANDA (1997-B). Outrossim, cabem aqui, ainda que de maneira breve,
algumas considerações a respeito.

Para PEPPONIS (1992, p. 82), a configuração do espaço é importante, não


porque produza diretamente este ou aquele aspecto da cultura, mas porque o
tecido urbano joga um papel fundamental relacionado com a decisão de como
121

identidades diferenciadas coexistem, expõem-se a comparações e formam parte


da consciência cívica. As propriedades configurativas globais dos arranjos
urbanos ocasionam encontros, não necessariamente interações, entre pessoas
reconhecidamente diferentes, ocasiona a experiência do contato com outros
modos de vida. Em outras palavras, a configuração espacial determina o "notar
potencial dos outros", o que é o pano de fundo para uma sociedade ativa.

Logo, o papel do espaço é limitado, mas não negligenciável, do ponto de vista


cultural, se entende-se o espaço não apenas como um direito político abstrato,
mas também como algo disponível como fato da experiência cotidiana. HILLIER
(1984) propõe que "a forma espacial cria um campo de encontros e co-presença
provável".

Para HOLANDA (1997-b) o debate sobre o determinismo arquitetônico tem sido


colocado de maneira imprecisa, bem como o estudo das relações entre
sociedade e espaço. Para este autor, espaço significa a sintaxe das
configurações urbanísticas, o que quer dizer essencialmente o sistema de
barreiras e permeabilidades ao movimento sobre o chão. Por outro lado,
sociedade significa modos de utilização dos espaços abertos de uso coletivo dos
assentamentos humanos. Tem-se acumulado muitas evidências que apontam
para claras determinações entre a sintaxe dos lugares e a maneira pela qual eles
são utilizados.

5.1 O método de sintaxe espacial


RIGATTI (1995, p. 144) argumenta que a sintaxe espacial "tem-se mostrado como
importante instrumento tanto de análise como de intervenções urbanísticas pelas
possibilidades de estabelecer relações entre as instâncias sociais e espaciais."
Disto deriva que o método de sintaxe espacial tem sido aplicado por
pesquisadores de áreas distintas, tais como: planejamento urbano e ambiental,
antropologia, sociologia, geografia urbana.

Nas linhas que seguem-se, o método de sintaxe espacial será detalhado, bem
como sua aplicação, para a obtenção de dados que permitam a elaboração de um
plano de vegetação para o bairro de Pirajá. Para a aplicação do método
122

utilizaram-se cartas cartográficas da CONDER, 1:2000. A sintaxe do bairro será


estudada em dois momentos distintos, utilizando-se cartas de 1976 e 1992.
Espera-se que a aplicação do método nas cartas de 76 e 92 aponte, entre outros
dados, qual é a direção de crescimento tomado pelo bairro.

O método de sintaxe espacial propõe uma análise bidimensional da estrutura


espacial urbana baseado no sistema de espaços abertos de edificação existentes
em cada fração estudada, bem como a sua integração por eixos de circulação -
linhas axiais. É a profundidade e a largura de cada unidade de espaço aberto -
denominado espaço convexo - bem como a disposição dessas unidades na
fração estudada que definem os critérios básicos para análise da forma espacial
urbana (SERPA, 1996-a).

De acordo com o método, cada ponto do sistema analisado possui uma


dimensão local e uma global, podendo estar mais ou menos integrado aos demais
pontos da fração. Cada fração possui, portanto, um grupo de espaços melhor
integrados e um grupo de espaços mais segregados do todo (HILLIER, 1984, in
SERPA, 1996-a).

5.2 As categorias sintáticas


Para o desenvolvimento deste método são propostas várias categorias de análise:
as categorias sintáticas. Segue-se um detalhamento das diversas categorias
utilizadas na análise da morfologia do bairro de Pirajá, de acordo com HOLANDA
(1988).

5.2.1 Espaço Convexo Médio (Y)


O sistema de espaços abertos pode ser dividido em unidades elementares,
obtidas a partir da inserção do menor número possível dos maiores polígonos
convexos possíveis, na planta baixa da fração, obtendo-se um mapa de
convexidade. Cada espaço convexo é uma porção de espaço aberto definida
pelos espaços fechados. Y é a área média dos espaços convexos de um
assentamento estudado. Pirajá apresenta dois tecidos morfológicos distintos,
segundo as cartas cartográficas de 1992: uma área planejada pelo poder público
(A); e outra de crescimento espontâneo (B). Em A, temos Y=523 m2, e em B,
123

Y=177 m2. Estes dados indicam que é preferencial o uso de vegetação de grande
porte para os espaços livres do tecido planejado. O oposto ocorre em B: é
preferível o uso de vegetação de pequeno e médio porte para os espaços abertos
do tecido espontâneo (ANGEOLETTO, 1998).

Em 1976, a extensão planejada de Pirajá ainda não existia, e a área média de


seus espaços convexos era de 354 m2. A constatação é óbvia: o crescimento da
porção "espontânea", que se deu sem um input de planejamento, em pouco mais
de 15 anos reduziu à metade a área média de seus espaços, reduzindo as
possibilidades de arborização e da realização de projetos paisagísticos que
perpetuassem espaços livres em espaços públicos, e portanto não passíveis de
ocupação para a construção de moradias. A realização destes projetos são de
extrema importância, já que há uma demanda intensa por solo no subúrbio (vide
capítulo 4).

5.2.2 Integração dos espaços convexos pelas linhas axiais (C / L)


A partir do mapa de convexidade, e através da inserção do menor número
possível das maiores linhas axiais possíveis perpassando os espaços convexos,
obtém-se o mapa de axialidade. Quanto mais segmentado é este mapa, mais
segregadas serão as subunidades do bairro.

5.2.3 Conectividade (Co)


Considera a intensidade de conexões de cada linha axial. Quanto maior a
conectividade, maior a integração das subunidades do bairro, já que espaços
fortemente conectados ao seu entorno, muito provavelmente são espaços onde é
intensa a movimentação de pessoas.

5.2.4 Relativa assimetria do sistema axial (RA)


Categoria obtida por fórmula matemática que divide a profundidade média pelo
número de linhas axiais. Profundidade média é a média das distâncias, isto é, o
número mínimo de linhas axiais a serem percorridas entre uma linha qualquer e
todas as outras do sistema.
124

Para a Teoria de Sintaxe Espacial, o binômio simetria / assimetria diz respeito à


maior ou menor integração entre as várias partes de um assentamento analisado.
A categoria sintática Relativa Assimetria do Sistema Axial, cujos valores
costumam variar entre 0 e 1, revela-nos quais são as frações mais integradas e
as mais segregadas de determinada área. Um programa de computador 43 calcula
a RA de todas as linhas axiais da fração.

Em Pirajá (tomados o tecido planejado e o "espontâneo") , esses valores variaram


entre 1,48 e 4,35, o que revela portanto um sistema de espaços livres bastante
segregados entre si. Tomando-se os tecidos separadamente temos relativa
assimetria real média em A= 1,65 e B=2,32, ou seja, o tecido planejado é menos
segregado que o espontâneo, embora ambas as frações tenham revelado
espaços bastantes segregados entre si. Em 1976 os valores de relativa assimetria
variavam entre 1,07 e 4,05 (média de 1,65), revelando, portanto, um sistema
ligeiramente menos segregado, que caminhou progressivamente para uma maior
segregação.

Cruzando os dados de Co e RA, foi possível promover a hierarquização dos eixos


de circulação e dos espaços livres que eles percorrem, ou seja, foi possível
selecionar eixos e espaços mais integrados, de importância global, aqueles que
concentram, por exemplo, o tráfego mais intenso, e os de importância local, que
conduzem o morador / visitante aos “recantos” mais segregados do bairro. Para
os eixos que perpassam espaços livres mais integrados, cujo número de pessoas
circulando é grande, recomenda-se o uso de espécies arbóreas, mais propícias
ao fornecimento de sombra. É importante lembrar que as pessoas deslocam-se
pelo bairro predominantemente a pé, e que Salvador apresenta temperaturas
elevadas durante todo o ano.

Os espaços perpassados pelos eixos locais foram investigados quanto a área e


ao relevo. Alguns espaços com vocação para serem transformados em praças,
foram detectados, e um desses espaços foi escolhido para um exercício de
planejamento ambiental participativo (discutido no capítulo seguinte) entre

43
O programa axial 3, foi desenvolvido pela equipe do professor Frederico de Holanda, na
Universdade de Brasília
125

pesquisadores do projeto Espaço Livre e os moradores do local.

5.2.5 Algumas observações sobre o uso do método de sintaxe espacial


como ferramenta para o planejamento da arborização urbana.
A aplicação do método de sintaxe espacial permite a visualização de todos os
espaços livres do bairro, quais são as suas áreas, qual o grau de sua integração /
segregação face aos outros espaços. Isto permite um planejamento que articule
todas essas áreas, respeitando-se suas particularidades. Assim sendo, com
essas informações é possível propor um sistema de espaços vegetados para
Pirajá.

Cabem aqui duas observações importantes sobre o método de sintaxe espacial. A


análise morfológica promovida pelo método é bidimensional, uma vez que o
movimento de usuários no meio ambiente urbano dá-se sobretudo num
espaço que é bidimensional (negrito meu) (HILLIER, 1984. In: SERPA, 1996-b).
Uma variável importante é esquecida , o relevo. Em Pirajá, cujo relevo é bastante
acidentado, este deve ser levado em conta ao menos como um possível formador
de barreiras que impeçam a livre movimentação, ocasionando a formação de ilhas
espaciais. MERLIN (1988, in DEL RIO, 1991, p. 80) argumenta que o problema
fundamental com o enfoque da teoria de sintaxe espacial é que ela compreende a
morfologia do espaço urbano apenas através de suas duas dimensões planares,
ignorando fatores essenciais como tipologias arquitetônicas, usos de edificações
e legibilidade, ou seja, a facilidade com que as partes podem ser reconhecidas e
definidas em um padrão coerente de conjuntos edificados.

SERPA (1996-b, p. 167) afirma que:

a noção de axialidade sugerida por Hillier & Hanson se revela na prática incompleta,
já que a axialidade do sistema é muitas vezes ‘quebrada’ por barreiras físicas como
ruas e avenidas de tráfego intenso, barreiras muitas vezes intransponíveis para
determinados grupos etários e não considerados pelos autores no desenvolvimento
da metodologia proposta. Na verdade, quando se fala de eixos de acessibilidade,
nem sempre é clara a distinção entre o sistema de percursos motorizados e as vias
de pedestres (...).
126

Um eixo fortemente conectado pode canalizar o tráfego, mas concentrar poucos


pedestres. Pode ocorrer que a aplicação do método revele dados que não
encontrem correspondência no locus estudado, devido a fatores que escapam
aos estritamente morfológicos. O método de sintaxe espacial não pode ser
aplicado apenas na prancheta. Visitas de campo são imprescindíveis para a
confirmação dos dados obtidos.

5.3 Mapeamento dos quintais (De acordo com ANGEOLETTO & SERPA, 1998,
p. 250)

Há uma escassez de espaços livres públicos em Pirajá. Por isso uma estratégia
de aumento da presença de vegetação no bairro precisa necessariamente incluir
os quintais das residências. Para tanto, traçou-se uma abordagem metodológica
para obtenção de dados sobre a presença de espécies vegetais nos quintais
(FOTOS 22, 23, 24, 25, 26, 27).

Inicialmente optou-se por pesquisar os quintais mais próximos ao Parque


Metropolitano de Pirajá, pois havia a intenção futura de plantios nos quintais, para
a atração de polinizadores e dispersores de sementes. Contudo, a literatura sobre
esses animais descreve uma grande capacidade de movimentação para obtenção
de alimentos, não ocorrendo portanto a necessidade de concentrar os plantios.
Tinhamos como hipótese que os quintais mais próximos ao Parque seriam mais
vegetados. Contudo verificamos que não há uma segmentação nítida, ou seja,
quintais com alta diversidade vegetal ocorrem próximos e distantes do Parque.

Os moradores foram entrevistados em relação a :

 Vegetação existente nos quintais.

 Interesse em participarem da proposta de plantio para o aumento da


diversidade vegetal nesses espaços.

Os quintais visitados foram discriminados quanto à presença de vegetação :


127

 Quintais com diversidade vegetal inexistente - no mapa em cor preta.

 Quintais com diversidade vegetal baixa -1 a 5 espécies - no mapa em cor


vermelha.

 Quintais com diversidade vegetal média - 6 a 15 espécies - no mapa em cor


azul.

 Quintais com diversidade vegetal alta - mais de 15 espécies - no mapa em cor


verde.

142 quintais foram visitados e mapeados; e os resultados obtidos foram os


seguintes:

 18,3% - 26 quintais - não possuem qualquer espécie vegetal


 39,43% - 56 quintais - possuem baixa diversidade vegetal
 28,87% - 41 quintais - possuem média diversidade vegetal
 13,4% - 19 quintais - possuem alta diversidade vegetal
 79,57% das famílias entrevistadas - 113 famílias - declararam-se interessadas
em receber mudas para plantio em seus quintais (PROJETO ESPAÇO LIVRE,
1999-b http://www.ufba.br/~esplivre/primeiro.html).

É significativo o número de quintais com nenhuma ou baixa diversidade vegetal -


57,73%. Tal fato pode ser explicado em parte pela grande demanda por espaço:
as famílias crescem e acabam construindo nos espaços ociosos de seus lotes.
Em algumas edificações - sobretudo no tecido planejado - não há nem mesmo
quintais. Mas há também outras explicações.

A falta de conhecimento dos moradores dos benefícios advindos da presença de


vegetação em seus lotes, leva-os a atitudes extremas, como arrancar todas as
árvores e arbustos e cimentar as áreas livres de seus quintais, o que certamente
contribui para um aumento da temperatura das residências, causando desconforto
ambiental e aumento do consumo de energia elétrica. A prática de cimentar os
quintais em parte deve-se ao anseio dos moradores - muitos dos quais são
128

originários da zona rural - em adquirir um status de citadino, moradores das


urbes, da terra do cimento em contraposição ao "mato" que habitavam antes.

Também é importante comentar que parte dos quintais com média ou alta
diversidade apresentam grande parte das plantas em vasos, isto significa que
nesses quintais a área para plantio de arbóreas é diminuto ou inexistente. Dada a
afinadade desses moradores às plantas, recomenda-se o estímulo ao cultivo de
vegetação em vasos, os quais podem contribuir para o abrandamento de
pequenas ilhas de calor geradas nas residências.

Foi significativo constatar o grande interesse pelo recebimento de mudas -


presente em quase 80% dos entrevistados (vide no capítulo 6 discussão
detalhada sobre o plantio de frutíferas nos quintais). Seguramente pode-se
estabelecer uma relação entre as famílias entrevistadas que não possuem
qualquer tipo de planta (18,3%) e os 20% que declararam não estar interessados
em receber mudas, pela falta de espaço.

5.4 Mapeamento dos Pomares.


Os mapas da CONDER assinalam 180 pomares no bairro de Pirajá, ou seja,
áreas públicas - algumas são cercadas - onde existem árvores frutíferas
plantadas. Foi realizada uma pesquisa por amostragem, onde verificou-se que
cerca de 60% desses pomares, 108 ainda persistem.

Sugere-se que investigue-se em uma outra oportunidade se há um usufruto


público dessas áreas, que, em alguns casos, poderiam receber mobiliário urbano,
aumentando a oferta de áreas de lazer e socialização. Nem todos os pomares são
acessíveis. Alguns estão localizados em terreno acidentado, não obstante,
pomares privados e públicos poderiam ser investigados quanto ao número de
espécies, procedendo-se a seguir o plantio de indivíduos de novas espécies,
aumentando-se assim a biodiversidade nestes locais.
129
130

FOTOS 22 e 23: Quintais com baixa diversidade vegetal.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.

FOTOS 24 e 25: Quintais com média diversidade vegetal.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
131

FOTOS 26 e 27: Quintais com alta diversidade vegetal.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
132

CAPÍTULO 6
Arborizando Pirajá

"Se é a destinação maior e o objetivo essencial da Universidade, particularmente da Universidade


Pública, produzir conhecimento, não é menor nem menos essencial este seu outro e
complementar objetivo, que é o de socializar o conhecimento produzido
(Magda Becker Soares, 1996).

Não é possível considerar a reestruturação urbana ecológica apenas de um ponto de vista


exclusivamente teórico. A obtenção de uma solução factível depende de uma relação estreita
entre a teoria e a prática, assim como da cooperação entre as diversas disciplinas, e dos
principais agentes sociais. Os novos procedimentos de planejamento e as novas tecnologias
devem ser desenvolvidos e analisados em situações urbanas reais (...)
(Ekhart Hahn, 1998)
133

Nos capítulos anteriores, discutimos os benefícios originados do aumento da


vegetação nos biomas urbanos; bem como delineou-se uma abordagem
metodológica, cujos dados permitiram a elaboração de um plano de ações para o
aumento da diversidade vegetal no bairro de Pirajá.

Doravante, serão relatadas as ações de fato executadas, que redundaram em


mais de 200 novas árvores plantadas nos quintais de Pirajá.

As implicações da manutenção de espaços vegetados sobre a biodiversidade


serão explicitadas. Discutir-se-ão as vantagens e dificuldades do estabelecimento
de parcerias - planejamento participativo e execução conjunta dos planos - entre
planejadores e comunidade, o que possibilitou os plantios nos quintais do bairro.
Também é oportuna uma descrição da situação da presença de vegetação no
bairro.

No que tange à arborização, uma insuficiência de planificação (cujas causas são


abordadadas no capítulo 4) é facilmente constatada em Pirajá, tanto na porção de
crescimento espontâneo quanto na porção construída pela URBIS. Como foi dito
anteriormente, são apenas duas praças, e há uma generalizada falta de espaço,
em ambos os tecidos, para o plantio de árvores, pois são comuns as vielas
estreitas onde não há calçadas, ou onde estas são reduzidas.

As praças de Pirajá são um excelente material didático para uma aula de


procedimentos a serem veementemente evitados pelos urbanistas.

A praça General Labatut, na porção "espontânea" do bairro, foi reformulada em


1998, no bojo das comemorações dos 450 anos da cidade do Salvador. Na praça
foi usado cimento importado do México, por ser mais propício às técnicas de
pigmentação. Na praça, que tem área total de 1500 m2, a prefeitura plantou duas
palmeiras e 144 m2 de área gramada (CORREIO DA BAHIA,14/9/1998). Quanto
ao disperdício de recursos ao importar-se cimento do México fica evidente o
pouco zelo ao erário.

Quanto ao paisagismo, a reforma evidencia pouco interesse dos técnicos por


134

questões inerentes à ecologia urbana e ao paisagismo, no que refere-se à sua


decisão de gramar quase 10% da área da praça. Grama é um tipo de vegetação
que requer cuidados intensivos, principalmente regas, grande consumo de água,
e é pouco atrativo à fauna silvestre (BUGIN & MARTERER, 1990). Frondosas
amendoeiras que sombreavam a praça foram arrancadas, e no seu lugar foram
plantadas duas tímidas palmeiras, que sucumbiram. O mesmo destino teve
grande parte do gramado.

A virtual ausência de vegetação na praça motivou um protesto formal de uma


associação de moradores do bairro, denominada Pirajá Rumo ao Terceiro Milênio,
a qual depois de várias solicitações de replantio desconsideradas pela
Superintendência de Praças e Jardins da prefeitura, plantou no dia da árvore de
1999, uma muda de pau-brasil, onde antes fora plantada uma das palmeiras.

A praça da área planificada, construída pela URBIS, por ser mal localizada - no
início da única via de acesso ao tecido - atrai poucas pessoas, é mal arborizada,
está abandonada, e os moradores não sabem nem mesmo qual é seu nome, ou
se há algum.

6.1 Pirajá e o Parque Metropolitano: considerações sobre arborização,


diversidade biológica e qualidade de vida
John Celecia defende que ações ambientais devem ser direcionadas para o
aumento da eficiência e da auto-suficiência nas cidades, e para a minimização de
seu impacto sobre o entorno, tanto próximo quanto distante (CELECIA, 1994, p. 2;
CELECIA, 1997, p. 5). A maximização da vegetação em Pirajá atende às
proposições defendidas por Celecia, uma vez que o aumento da vegetação
implica em menor consumo de energia elétrica e contribui para a manutenção de
polinizadores e dispersores de sementes, vetores ecológicos imprescindíveis à
recuperação de áreas desmatadas no interior do Parque.

Ecossistemas florestais sujeitos a altos níveis de fragmentação e isolamento dos


remanescentes estão especialmente susceptíveis a um severo processo de
erosão de biodiversidade (FONSECA, 1997, p. 458). No entanto, áreas cujo solo
135

não foi degradado ao extremo e que fiquem próximas a fontes de colonizadores44,


estão aptas a experimentar um vigoroso processo de regeneração. Dados obtidos
no campo mostram que matas secundárias serão capazes de abrigar flora e fauna
bastante diversificadas após um período mínimo de 10 anos (FONSECA, 1997, p.
466).

Promover o aumento da presença de vegetação nos espaços livres das cidades,


principalmente com espécies arbóreas, é contribuir para uma homeostase
ecológica e climática45. É evidente que mesmo uma cidade fartamente arborizada
não pode substituir uma floresta, mas é preciso que se tenha em mente que
sistemas ecológicos não são compartimentos estanques, há entre eles uma
interligação complexa cujo intuito é a manutenção da vida (ANGEOLETTO, 1998).

É mister enfatizar que a proposta aqui defendida para a preservação do Parque


inclui a melhoria das condições de existência dos moradores do bairro 46 , e por
extensão, do subúrbio ferroviário, caso um dia outros bairros do entorno do
Parque venham a ser beneficiados com um programa de arborização similar;
superando métodos de priorização e seleção de áreas para preservação de
espécies que geralmente excluem populações humanas.

Esses métodos, que visam apenas minimizar o problema da perda de espécies


causada pela fragmentação dos habitats naturais são abordagens limitadas, por
não serem capazes de incorporar as atividades antrópicas, e por não
considerarem as questões éticas ligadas à sobrevivência das populações
humanas (PAULA. In: PAULA, 1997, p. 224).
44
No caso do Parque, propõe-se que estabeleçam-se tais fontes através do adensamento da
vegetação em quintais e espaços livres do bairro.
45
A ameaça do aquecimento global tem ocasionado o surgimento de propostas de criação de
florestas urbanas, com milhões de árvores a serem plantadas nas próximas décadas
(SCHOEREDER, 1989. In: CARR, 1995 p. 11-12). A fábrica de automóveis Peugeot iniciou em
1999, no Mato Grosso, o plantio de 10 milhões de árvores, com o objetivo de retirar da atmosfera
183 mil toneladas anuais de dióxido de carbono, durante 40 anos (ZEEK!CLIP, 1999).
46
Sylvia Mitraud, coordenadora de diversos projetos do Fundo Mundial para a Natureza, o WWF,
defende que uma das melhores formas de preservar o meio ambiente é investir em comunidades
locais que, em geral, sempre estiveram à margem do desenvolvimento econômico (REVISTA E,
1997).
136

É evidente que a conservação da biodiversidade em ambientes urbanos passa


pela preservação das maiores extensões possíveis de paisagens ecológicas (de
acordo com classificação proposta por GILBERT, vide capítulo 1) . A receita é
simples, mas sua aplicação, complexa. As pressões para a diminuição do
tamanho de paisagens ecológicas é muito forte, o custo da terra é elevado e a
grande maioria do espaço urbano é propriedade particular. Os poucos espaços
abertos de uso público estão submetidos a usos geralmente não compatíveis
com a preservação da diversidade biológica47 (MURPHY, 1997).

Não trata-se apenas de preencher espaços com árvores e arbustos, mas usar os
vegetais como elementos de desenho, para que possam ser criados espaços de
lazer, de socialização, onde antes haviam apenas sobras, vazios permeando a
massa construída. No entanto, é necessário não ceder à tentação da política
simplista do quanto mais, melhor, pois aparentemente, o plantio de imensas
quantidades de vegetação obtém efeitos estéticos menos satisfatórios do que
níveis mais moderados de árvores e outras plantas (ULRICH, 1986, p. 40).

Há que se perseguir um ponto de equilíbrio, onde todo potencial estético dos


vegetais possa ser explorado, com o plantio do maior número possível de
indivíduos de variadas espécies. E essa vegetação, escolhida a partir de certas
características que são atrativas a polinizadores e dispersores de sementes, pode
contribuir para a manutenção da diversidade biológica no Parque, como veremos
adiante.

Uma maior diversificação das espécies vegetais utilizadas garante uma paisagem
esteticamente menos monótona (WEBSTER, 1971; RHOADS, 1981; TYZNIK,
1981 in LIMA, 1993, p. 62; LEME & ALMEIDA, 1997, p. 32), além de evitar
problemas biológicos, ecológicos e por extensão, econômicos48. Cada espécie

47
Para uma discussão sobre a importância da manutenção da diversidade biológica, vide capítulo
1.
48
Entre 1955 e 1966, 90% das árvores de Illinois morreram pela pouca diversidade de sua
arborização (SPIRN, 1995, p. 198).
137

deve ter menos de 5% do total da população de árvores plantadas (HIMELICK,


1976 in LIMA, 1993, p. 63).

Por esses motivos a diversificação é fator de fundamental importância para uma


arborização bem sucedida (SANTAMOUR Jr, 1976; FOSTER, 1977 in LIMA,
1993, p. 62).

Maximizar a diversidade vegetal em Pirajá significa estabelecer corredores de


ligação entre bairro e parque. Esses corredores são áreas que possuem uma
continuidade na cobertura vegetal, da periferia para o centro, e que possibilitam
um livre transitar das aves (VOSS, 1985, p. 113).

Ligando ecossistemas, os corredores têm grande potencial para aumentar a


biodiversidade, quando permitem o movimento da vida animal da periferia ao
centro e entre ilhas de habitats, que, de outro modo, ficariam isoladas (SPIRN,
1995, p. 245).

Muitas críticas têm sido feitas à aplicação dos corredores verdes urbanos, pois
argumenta-se que as zonas edificadas que separam espaços livres vegetados
não são uma barreira absoluta, como os oceanos. Contudo, para SUKOPP &
WERNER, (1982 e 1987, in NATURE CONSERVANCY COUNCIL, 1989, p. 17), o
grau de isolamento de um sítio pode determinar uma diminuição do seu número
de espécies, e, portanto, há uma justificativa ecológica para a "construção" e
manutenção desses corredores - ademais há outros fatores, como os benefícios
que a vegetação proporciona.

Em Salvador, esses corredores poderiam ser "construídos" ligando as paisagens


ecológicas entre os bairros, e permitindo o fluxo gênico entre elas

Todo conhecimento sobre a execução de espaços livres de edificação


densamente arborizados, os quais permitem a atração e manutenção de uma
fauna silvestre mais diversificada, não tem sido aplicado em Salvador. Os novos
projetos de parques na capital baiana pecam pela ausência de vegetação de
porte (SERPA, 1998, p. 55; SERPA, 1999-a, p. 15). A pouca consideração à
138

premissas ecológicas em projetos paisagísticos parece, infelizmente, não estar


restrita à Bahia. A arquiteta norte-americana Anne Spirn, em análise de projetos
recentes de parques, constatou que as árvores tem desempenhado um papel
meramente decorativo (SPIRN, 1995, p. 190).

A acessibilidade dos usuários aos espaços livres vegetados é outro fator ao qual
os urbanistas precisam estar atentos. Há uma discussão estéril, e recorrente,
sobre um suposto índice mínimo de área verde / habitante que deveria existir nas
cidades. O propalado índice teria sido elaborado pela Organização Mundial de
Saúde (OMS), e seria de 16 m2 / habitante. Em Salvador, o índice estaria na casa
dos 5 m2 / habitante (CARVALHO, 1996)

No entanto, segundo Angelo Serpa

O professor Felisberto Cavalheiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências


Humanas, da Universidade de São Paulo, fez, há alguns anos, uma consulta formal à
OMS e não recebeu nenhuma confirmação sobre a existência do índice. Desconhece-
se também a metodologia que permitiu o cálculo da tão propalada cota de 16 metros
quadrados por habitante. Para o professor titular de paisagismo da FAU / USP, Sílvio
Soares Macedo, não se tem notícia da veracidade de tal índice, e seu uso irrestrito e
irresponsável como referência para o planejamento de áreas verdes tem levado a
equívocos, colocando, por exemplo, canteiros centrais de avenidas e rotatórias em pé
de igualdade com praças e parques (...) Tais índices não têm valor algum, se não
estiverem associados a critérios de distribuição e acessibilidade, específicos para
cada cidade ou lugar (SERPA, 2000).

Em Salvador, a distribuição e o acesso às áreas verdes é desigual e muitas vezes


excludente (SERPA, 1999-A, p. 15). O bairro de Pirajá é um bom exemplo da
inutilidade de tal índice e da exclusão a que se refere Serpa: sua contiguidade
com os 1550 hectares do Parque Metropolitano certamente o credenciariam ao
título de bairro com a maior metragem de área verde por habitante de Salvador. O
que se verifica é o oposto: completamente abandonado, o Parque é refúgio de
latrocidas e estupradores, por isso os moradores do bairro evitam-no. Ademais,
não há uma infra-estrutura que permita um fluxo considerável de pessoas.
139

Atração de vida silvestre e acessibilidade aos usuários: duas idéias norteadoras


para projetos paisagísticos. Praças e parques com essas características são
excelentes para práticas de educação ambiental. Esses espaços, se
adequadamente projetados, é óbvio, podem ser excelentes oportunidades para
educação ambiental de crianças e adultos, pois estes podem acompanhar os
ciclos naturais de animais e plantas (EKBLAD, 1993, p. 127). Crianças podem ser
ensinadas a compreender as dinâmicas de ambientes naturais visitando um
jardim ou parque; e podem compreender que os vegetais crescem no solo, e não
em latas ou supermercados (FOX & KOEPPEL, 1985, p. 10, 11).

Além do mais, as plantas não manifestam comportamento exigente, raramente


são perigosas aos seres humanos, costumam ter aromas agradáveis e são
culturalmente vistas como benignas, sendo por isso bem aceitas nas cidades
(ASHTON, 1997).

6.2 Planejando com e para os moradores de Pirajá


Dentre os principais problemas enfrentados na implantação e manutenção da
arborização, dois não são resolvidos no âmbito técnico: a omissão da comunidade
em relação ao plantio e à conservação de áreas verdes e a tímida prioridade
política - poucos recursos - atribuída aos programas de arborização (MESQUITA,
1996, p. 85).

Uma alternativa para contornar a falta de recursos é o envolvimento da população


na execução dos plantios, de modo a estabelecer-se uma relação afetiva entre a
comunidade beneficiada e a vegetação plantada, facilitando assim a manutenção
do arvoredo (MESQUITA, 1996, p. 87).

As proposições de Mesquita estão corretas, porém, é desejável ir além, e buscar


a participação da população não apenas na execução, mas também no
planejamento da arborização, principalmente quando a vegetação será usada
para estruturar espaços para o usufruto dessas pessoas. FOX & KOEPPEL
(1985, p. 80) recomendam que o desenho dos espaços públicos tenham uma
maior participação comunitária.
140

O planejamento deve obedecer a princípios que permitam a apropriação do


espaço urbano pela população. O planejador deve atuar fomentando um processo
participativo de planejamento. É preciso que os planejadores se detenham mais
no cotidiano daqueles para quem planejam, e é necessária uma linguagem de
conciliação de interesses entre os planejadores e membros de uma comunidade
(SERPA, 1995, p. 135; SERPA, 1996-d, p. 284).

Os planejadores, se atuarem como facilitadores, podem contribuir para que


membros da comunidade para a qual se está planejando tenham voz ativa, quer
dizer, interfiram de fato na montagem do plano, revelando seus anseios em
relação às futuras modificações que seu bairro sofrerá (SERPA, 1999-b, p. 17).

A esta categoria de planificação chamaremos planejamento participativo, e os


próximos parágrafos serão dedicados à sua conceituação, à explicitação de suas
vantagens e dificuldades.

O planejamento participativo constitui um processo político, uma ampla discussão


da construção do futuro da comunidade na qual participe o maior número possível
de membros das categorias que a constituem. Mais do que uma atividade
meramente técnica, é um processo político vinculado às decisões de uma maioria,
em benefício dessa maioria. Assim, o planejamento participativo passa a
constituir-se como um conjunto de instrumentos técnicos a serviço de uma causa
política, pois usam-se essas técnicas para atingir de modo mais rápido e eficaz os
objetivos determinados pela coletividade. Esta passa a ser sujeito da história, pois
compreende que desenvolvimento não é um pacote de benefícios dados à
população, mas um processo no qual a população adquire maior domínio sobre
seu próprio destino (CORNELY, 1980, p. 1-3).

Não há paralelo, portanto, entre o planejamento participativo e simples reuniões


entre planejadores do poder público e a comunidade, para que esta legitime
determinadas decisões tomadas nos gabinetes, sem sua participação. Tampouco
é participativo um planejamento que contacta setores comunitários apenas para a
execução de planos previamente preparados sem qualquer participação popular
(CORNELY, 1980, p. 1-3).
141

Algumas vantagens do planejamento participativo:

1) proporciona uma imagem favorável da população envolvida junto ao plano ou


projeto em elaboração;
2) com a participação maciça, é possível a obtenção de dados qualitativos,
evitando que o conhecimento sobre a área e a comunidade sejam apenas
quantitativos, ou seja, retratem apenas parte da realidade;
3) estimula a comunidade a tomar conhecimento de seus problemas reais e
desenvolver sua criatividade na busca de soluções;
4) como produto de um processo participativo, tem-se um plano de metas mais
adaptado à realidade que se quer mudar;
5) o risco de abandono do(s) plano(s) por uma posterior administração municipal
é diminuído, pois a comunidade, organizada, terá condições de pressionar os
administradores a levarem o(s) plano(s) avante. (CORNELY, 1980, P. 4-5)

Na execução dos planos é em geral solicitada a participação ativa da


comunidade, com trabalho ou materiais, dependendo do tipo de projeto. A
descoberta da realidade em que vivem principia a motivação, que é um
mecanismo psicossocial que faz com que almejem modificar essa situação
(CORNELY, 1980, p. 10-12). As principais diferenças entre o planejamento
técnocrático e o participativo estão delineadas na tabela que se segue.

Tabela 1 - Planejamento Tecnocrático X Planejamento Participativo


Planejamento Tecnocrático Planejamento participativo
1 - Baseia-se puramente na racionalidade. 1 - É um processo político.

2 - É de inspiração funcionalista, com visão de 2 - É de inspiração dialética, de sociedade em


sociedade de ordem. movimento e em construção.

3 - É um método de controle social. 3 - É um método de libertação de


potencialidades.

4 - Segue um modelo autoritário e elitista, 4 - Usa modalidades democráticas, dialogadas,


concentrador de decisões e excludente das de negociação entre os atores sociais.
maiorias.
142

5 - Os técnicos sabem o que é certo e bom, 5 – Os técnicos vão ao povo, debatem os


pensam e projetam as decisões, o povo deve interesses de diferentes grupos, e dispõem seu
obedecer e executar saber específico a serviço das causas
populares.

6 - É verticalista e descendente: a base não tem 6 - É horizontal e ascendente: os grupos da


formação para decidir sobre a forma mais base aprendem a defender seus interesses e
racional de organizar a sociedade. participar. Seu conteúdo é pedagógico.

7 - Diz-se politicamente neutro. 7 - É finalista: uma seqüência de ações técnicas


a serviço das mudanças sociais.

8 - É tecnicamente complicado e pouco 8 - Bem assessorado, é altamente eficaz.


produtivo
FONTE: CORNELY, 1980; CORNELY, s/d

Um bom exemplo de como o planejamento tecnocrático é pouco produtivo: entre


1976 e 1982, o HPD, um órgão do município de Nova Iorque, planejou e
executou, sem qualquer participação dos futuros usuários, 96 espaços abertos ao
custo de US$ 3,6 milhões. O resultado: a maioria desses espaços foi
completamente abandonada e / ou sofreu ação de vândalos. Nova Iorque
compreendeu que é melhor trabalhar com a comunidade do que apenas fazer
coisas para ela. O processo de participação popular não é simples, mas resulta
em maiores benefícios à comunidade. As atividades de planejamento de espaços
abertos podem ser o germe para outras atividades que requeiram participação
popular (FOX & KOEPPEL, 1985, p. 77, 78).

A participação popular é o fator mais importante para o sucesso dos espaços


públicos arborizados. Em Nova Iorque, 73% dos participantes em projetos de
praças, parques, hortas e jardins declararam como principal motivo de seu
envolvimento a possibilidade de limpar e embelezar seu bairro. Usando plantas
para mudar a imagem dos bairros, os espaços criados desenvolveram um senso
de orgulho nos moradores. Pessoas que movimentam-se nesses locais chegaram
a mudar suas rotas, caminhando mais apenas para poder passar/passear por
esses espaços (FOX & KOEPPEL, 1985, p. 68). Para ARAÚJO & ARAÚJO,
(1997, p. 25), programas municipais de arborização que não contem com o apoio
143

e a participação da população estão fadados ao fracasso.

O êxito de planos de arborização de cidades como Maringá e Curitiba, cidades


paranaenses que estão entre as mais arborizadas do Brasil, são principalmente
uma conseqüência do forte apoio popular (MILANO, 1994, p. 212-213). A
arborização de espaços abertos é uma ótima atividade de organização da
comunidade, porque proporciona um rápido e pouco custoso símbolo visual do
esmero comunitário (FOX & KOEPPEL, 1985, p. 69).

As vantagens de proceder-se um planejamento que leve em conta a real


participação da população a ser beneficiada pelo projeto são muitas, e a tabela 1
explicita essas vantagens. O que Mesquita, Cornely, Milano e Fox & Koeppel não
explicitam são as dificuldades de se levar a cabo essa categoria de planejamento.
Nos anais de Encontros e Congressos sobre arborização urbana, vários autores
defendem a participação popular na prática da arborização, sem contudo delinear
um método de trabalho que permita o sucesso na planificação e execução de
projetos de maximização da diversidade vegetal nos biomas urbanos.

Outrossim, entendemos que é útil registrar a seguir algumas dificuldades


inerentes ao planejamento participativo. Também é pertinente descrever uma
experiência de planejamento conjunto entre os pesquisadores do projeto Espaço
Livre e moradores de Pirajá que resultará na execução de uma pequena praça
arborizada (FOTOS 28, 29), como forma de contribuir para o estabelecimento de
uma abordagem metodológica que facilite a adoção do planejamento participativo
pelos urbanistas, o que desafortunadamente não tem sido uma constante
(YAMADA, 1995, p. 36).

A principal dificuldade está na apatia da população, a qual para Hannah Arendt é


um fruto do fraco engajamento sociopolítico da moderna sociedade de massas
(ARENDT, 1990, in FORATTINI, 1996, p. 332). A apatia também tem como causa
a relação viciada entre poderes públicos e comunidades. Os moradores de Pirajá
já acostumaram-se a promessas abortadas, não cumpridas, feitas pelos poderes
públicos e por candidatos. Isso foi bastante perceptível nas primeiras
aproximações com aqueles que habitam o entorno da área escolhida, a partir da
144

aplicação do método de sintaxe espacial, para o planejamento ambiental


participativo49.

Além das promessas não concretizadas, é comum que os moradores recebam


materiais de candidatos - é comum a "doação" de cimento para asfaltar vielas do
bairro - numa prática perniciosa: o clientelismo.

Conjugadas à apatia estão as diferenças culturais entre planejadores - estes


vindos de um ambiente acadêmico e de bairros onde os problemas que buscam
resolver em geral não existem - um outro "mundo", portanto - e os moradores. Os
técnicos têm uma linguagem e uma motivação diferentes daquelas dos grupos
locais, pois estão vinculados às esferas de poder, e não às redes locais.

Esse desencontro de linguagens torna o relacionamento entre planejador e


comunidade superficial (VILLASANTE, in SERPA, 1999-b, p. 17). As distinções
entre aspirações e linguagens podem produzir um autêntico diálogo de surdos,
resultando na não participação da comunidade, o que, óbvio, determina o
fracasso da planificação conjunta.

6.3 Definindo uma metodologia de planejamento participativo


Uma medida fundamental a ser tomada pelo planejador que busca uma real e
efetiva participação comunitária na elaboração de um projeto é a identificação das
redes que determinam as relações sociais do grupo. É vital que uma maior
atenção seja dada a estruturas, como redes de parentesco, grupos de
trabalhadores, cooperativas, associações; que são usadas para disseminar
informações e conhecimento, bem como para recrutar participação na melhoria de
bairros (CAMPBELL, 1992, p. 182, 194).

As relações sociais são muito complexas e continuamente escapam aos técnicos,


por isso necessitamos entender o jogo de suas redes complexas, com seus

49
De fato, na última reunião realizada, quando os materiais tinham sido comprados, e os
trabalhos, iniciados, uma moradora comentou que eu não tinha sido o primeiro a acenar com a
possibilidade de uma área de lazer no local, e que como as outras propostas não se realizaram, os
moradores davam como certo o fracasso dos nossos esforços.
145

variados tipos de vínculos, estes, freqüentemente variáveis. Em um primeiro


olhar, de maneira muito imediata e cotidiana, vemos a existência de redes
primárias (redes familiares de amizade ou vizinhança), vujos vínculos são fortes, e
cuja convivência tem suas próprias regras peculiares (VILLASANTE, 1998).

Tomás Villasante distingue três redes: A rede do poder; a dos grupos organizados
(ong's, associações populares etc), que perfazem no máximo 5% da população; e
as redes submersas, onde estão a esmagadora maioria da população. Estas
redes informais, do cotidiano, são facilmente construídas (VILLASANTE, 1996, p.
131).

FISCHER (1993 in SCHERER-WARREN, 1996, p. 169), afirma que do tecido


social de base informal (vizinhança, parentesco, amizade) podem se formar redes
submersas com maior estabilidade e permanência do que as redes associativistas
que tem como unidade focal a associação de moradores. É o que se verifica em
Pirajá, cuja associação de moradores não influencia as redes submersas

O planejador, quando aproxima-se dos membros das redes submersas, percebe


que não tardam a aparecer os porta-vozes, líderes informais, que falam pelo
grupo. Esses comunicadores são essenciais para o desenvolvimento de um
processo de participação, de cidadania (VILLASANTE, 1996, p. 131).

Ao anunciarmos nossa intenção de estabelecer uma parceria que redundasse na


construção de uma pequena praça arborizada, logo se destacou uma moradora,
Gorette, que desde o primeiro contato abraçou entusiasticamente a idéia. A
moradora atuou organizando as reuniões, sempre que solicitávamos um novo
contato com os moradores interessados.

Foram 6 reuniões, com participação média de 13 pessoas (FOTOS 30, 31). Em


todas as reuniões era majoritária a participação de mulheres. Seus maridos,
amigos ou parentes muitas vezes estavam presentes, mas preferiam não
participar diretamente. Na primeira reunião, foi apresentado aos presentes um
projeto prévio, a sugestão dos planejadores para a área, um ponto de partida na
negociação dos anseios dos técnicos e da população envolvida. Cópias do projeto
146

foram distribuídas, com as devidas explicações, para apreciação geral, mesmo


daqueles que não haviam participado.

Na segunda reunião foram registradas as opiniões dos moradores a respeito do


projeto prévio; bem como suas idéias e desejos para o espaço que estava
nascendo. Duas reivindicações prevaleceram neste encontro: que o espaço
tivesse algum equipamento de lazer infantil e que um córrego poluído que corta a
área da praça fosse canalizado (ANGEOLETTO, 2000-a). As mães declararam-se
bastante aflitas com seus filhos pequenos, que muitas vezes costumavam
frequentar um descampado onde era comum a presença de usuários de drogas.
Também as deixava aflitas o contato das crianças com as águas contaminadas do
córrego, daí a veemência de suas aspirações em transformar o espaço em um
local seguro para seus filhos50.

Cópias da planta baixa da fração foram distribuídas aos participantes da terceira


reunião, para que os mesmos desenhassem o que imaginavam para a praça.
Algumas casas da planta foram marcadas, para facilitar o reconhecimento do
terreno. Houve uma resistência considerável dos moradores, pois eles alegaram
que "não sabiam desenhar"; "que iria ficar feio", etc. Foi preciso explicar que não
importava a beleza do traço, e sim as idéias registradas nas cópias. Os
participantes ficaram responsáveis pelo levantamento da situação fundiária do
espaço, isto é, se a área não pertencia a um ou mais donos.

A maioria dos desenhos contém quadras esportivas, vegetação e equipamentos


para o lazer infantil. As quadras esportivas, cimentadas, pelo desejo dos
moradores, estava fora das possibilidades financeiras, além de contrariar as
metas do Projeto Espaço Livre (maximização da vegetação em Pirajá [SERPA &
ANGEOLETTO, et alii, 1997, p. 66, 67]).

Planejamento participativo demanda insumos na forma de educação, para a

50
Para CAVALCANTE & LIMA (1995), é comum a carência de espaços livres de edificação
privados em bairros periféricos. Isso somado à falta de recursos contribuem para que espaços a
contíguos às residências sejam usados como área de lazer. No caso do "Buraquinho" infelizmente
a presença do esgoto impossibilitava o brincar.
147

capacitação progressiva dos comunes. É bastante provável que a comunidade


cometa erros, cabendo ao técnico argumentar e defender seus pontos de vista
perante a mesma, mas isso deverá ser feito de forma didática, demonstrando
claramente o raciocínio e munindo a comunidade de instrumentos que a
permitirão decidir melhor (CORNELY, 1980, p. 9). E desta forma procedeu-se,
explicando aos participantes a importância da arborização, suas vantagens em
relação à hipotética pavimentação da área.

Boas e más notícias permearam a quarta reunião. Os participantes foram


informados de que haveriam recursos da União Européia garantidos para a praça
- cerca de US$ 850,00 - o que lhes causou grandes júbilos. Dois "donos" 51 foram
identificados. Um permitiu sem problemas a execução da praça em seu terreno;
porém, o outro negou permissão, o que diminuiu a área livre disponível 52. Não
fora a primeira negativa à realização do projeto. Antes de contactarmos os
moradores do "Buraquinho" - nome dado por eles ao entorno imediato de suas
casas - houve uma tentativa anterior de realização da praça em um outro espaço,
cujo "dono" negou-se veementemente a ceder o terreno, a não ser em caso de
compra. Na sua argumentação o "proprietário" questionou a validade de "fazer
uma praça para 'vagabundos'" (no caso, seus vizinhos), poucas horas após esse
diálogo tenso, imediatamente cercou sua posse com arame farpado.

Vale observar que esse terreno está localizado em uma área de extrema pobreza
do bairro. Não é precipitado afirmar que naquele locus a miséria é desagregadora,
fragilizando a existência de redes submersas.

A quinta reunião foi a que registrou um maior número de participantes, 26. Seu

51
o vocábulo donos aparece entre aspas porque na verdade poucos são os reais proprietários dos
lotes que habitam. Em geral os terrenos são ocupados.
52
Senhor José, o proprietário do terreno, ao notar a movimentação para a limpeza da área, para a
execução da praça, permitiu que seu lote fosse incorporado ao projeto - não para o plantio de
árvores e locação de bancos, como estava previsto originalmente - mas ao menos para a
colocação de duas pequenas traves de metal para a prática do "bába" (pelada, futebol) pelas
crianças e adolescentes. Essa concessão foi muito importante, pois um espaço abandonado num
bairro com alta densidade populacional pode rapidamente transformar-se num depósito de lixo
(FOX & KOEPPEL, 1985, p. 68).
148

objetivo foi o estabelecimento de um cronograma de ações. Pela primeira vez a


presença masculina foi grande (cerca de 10 participantes). Uma surpresa
agradável foi a capacidade de organização dos interessados. Ao longo das 2
horas de reunião, logo se formou uma comissão de pedreiros, que se
responsabilizou pela execução da canalização do esgoto e da construção dos
bancos. As mulheres tomaram a si a tarefa de limpeza da área e de auxiliar os
plantios, numa etapa posterior à canalização. Ao responsável técnico coube a
tarefa de comprar os materiais necessários, cuja lista foi fornecida pela comissão
de pedreiros.

No final da sexta reunião, onde decidiu-se pela construção de uma gangorra e


um balanço para o lazer infantil, um dos participantes me perguntou se eu tinha a
intenção de candidatar-me a vereador. Diante da minha surpresa, ele se explicou:
disse que "nada era de graça", e que portanto algum propósito eu deveria ter. Eu
lhe respondi que não ambicionava me candidatar a nada, e que meu próposito era
relatar a experiência na minha dissertação de mestrado. Esse diálogo releva o
clientelismo ao qual os moradores estão acostumados, onde geralmente a
concessão de benefícios está vinculada a uma troca - votos, apoio à campanha
de determinado candidato.

Os moradores pediram a iluminação da praça, já preocupados com possíveis


ações de vandalismo. Foi interessante constatar que eles mesmos resolveram a
questão. Conseguiram a doação de uma lâmpada de sódio, e a instalaram.
Obtiveram também, por meio de doações, as varas de ferro necessárias à
canalização. Trabalharam na canalização do esgoto sem a minha presença.
Segundo seus relatos, foi um trabalho realizado por 16 homens, coordenados
pela comissão de pedreiros. Prefiri estar ausente nesta fase, de modo a estimular
a auto-organização dos cômunes. Fica evidente aqui que, se nos primeiros
contatos foi necessário um input de mobilização (apesar das reuniões serem
marcadas com antecedência, era preciso chamar as pessoas em suas casas), a
partir do momento em que eles assumiram a parceria, passaram a agir sem a
presença do técnico.

Outros fatos corroboram essa afirmação. A decisão de transformar o terreno do


149

senhor José em uma quadra de chão batido para a prática de futebol e volei foi
dos dos moradores, e eles construíram pequenas traves de madeira e compraram
uma rede. É uma solução interessante, pois durante o dia crianças e
adolescentes batem o "bába" (futebol) e à noite, com a iluminação, os adultos
jogam voleibol.

Registre-se que esses usos já estão ocorrendo, mesmo antes do término das
obras, atraindo crianças e adultos de outros recantos do bairro, mesmo dado o
caráter local da praça. Também é digna de menção uma festa de inauguração,
que as mulheres estão organizando. Elas arrecadaram algum dinheiro, que será
usado para a confecção de doces e salgados e para a compra de refrigerantes.

A preocupação com vândalos e a "auto-organização" dos moradores sinaliza um


comprometimento com a gestão da futura praça, e este na verdade é o maior
desafio: a manutenção do espaço. Mais complexo do que transformar um antigo
ponto de lixo em uma praça arborizada, é garantir sua permanência.

No relato de uma experiência similar de planejamento urbano participativo


ocorrida em Plataforma (Salvador, Bahia), Angelo SERPA (1999-e) demonstra
sua preocupação em associar os trabalhos a um morador, pois conflitos latentes
entre vizinhos podem originar práticas de retaliação e não participação.

Como dissemos anteriormente, a moradora Gorette atuou como porta-voz do


grupo, em parte por sua adesão incondicional ao projeto e também por ser uma
das poucas pessoas da área com telefone, o que facilitava o andamento dos
trabalhos.

Inicialmente esta escolha troxe alguns problemas. Surgiu o boato de que a praça,
após concluída, seria cercada com arame farpado, e só Gorette e os demais
participantes poderiam utilizá-la. Ato contínuo, sacos de lixo começaram a
reaparecer53 na área. Foi uma clara reataliação à possibilidade de "privatização"

53
Durante anos a área foi um ponto de lixo, pois os moradores preferiam deixar o lixo acumular
próximo às suas casas, do que subir uma ladeira para depositá-lo no container da LIMPURB.
Alguns moradores resolveram reverter a situação, e conseguiram, não sem alguns conflitos.
150

do local. Felizmente a questão foi contornada, explicitando-se nas reuniões o


caráter público da praça, e esclarendo-se o papel de Gorette.

Até a finalização dessa dissertação a situação dos trabalhos era a seguinte: a


canalização do esgoto estava concluída, e a construção dos bancos havia sido
iniciada. A artista plástica e acadêmica do Mestrado em Belas Artes da UFBA,
Sheilla Dias de Souza, fará, em caráter voluntário, com as crianças do entorno,
mosaicos com pedaços de azulejos coloridos, nos bancos. Resta ainda plantar as
mudas de árvores frutíferas e de hera, trabalho que será realizado com as
moradoras; e construir a gangorra e o balanço.

6.4 Alguns comentários sobre os aspectos técnicos da execução da praça


Geralmente, quando existem planos urbanos para áreas verdes, eles não
proporcionam instrumentos que permitam explorar o potencial da árvore como
estruturadora de espaços urbanos nem tampouco a conquista de novos espaços
de socialização (MALINSKI, 1985, p. 37). No projeto final da praça, procurou-se
explorar não só o potencial arquitetônico da vegetação, mas também sua
capacidade de propiciar microclimas mais amenos e de atração e manutenção de
polinizadores e dispersores de sementes, vetores ecológicos imprescindíveis à
recomposição de áreas desmatadas no interior do PMP.

Algumas populações de vida selvagem mantidas pelos grandes parques urbanos


se estenderão às áreas residenciais, mas apenas quando o planejamento
paisagístico oferecer essa possibilidade. O Rock Creek Park, em Washington, D.
C., fica num grande vale ribeirinho. Dois bairros muito diferentes confinam com o
parque a leste e a oeste. A oeste ficam ruas arborizadas com casas residenciais e
jardins paisagísticos, bem como alguns conjuntos de casas e apartamentos. A
leste está um bairro muito mais denso, com poucas árvores e quase nenhum
paisagismo. No leste encontram-se pardais, pombos e estorninhos - considerados
nocivos - em abundância, e poucos pássaros silvestres. Nos espaços arborizados
do oeste, dá-se o oposto: poucas aves nocivas e muitos piscos-de-peito-ruivo,
cardeais, tordos e gaios (SPIRN, 1995, p. 243, 244).

Para a atração e manutenção dos vetores ecológicos, optou-se pelo uso de


151

árvores frutíferas. As árvores frutíferas, geralmente produzem copiosos


suprimentos de pólen e néctar, o que atrai várias espécies de insetos (GILBERT,
1989). Essa grande variedade de insetos é um atrativo a mais para pássaros, que
também são atraídos pelas oportunidades de nidificação e acomodação com
segurança (GILBERT, 1989, p. 252).

A capacidade da vegetação em atrair e manter uma fauna de polinizadores 54 e


dispersores de sementes55 deve ser tomado como um critério de planejamento
paisagístico, assim como atenta-se para a cor, textura e forma dos vegetais. Por
isso elaboramos duas tabelas de preferências de polinizadores e dispersores de
sementes em relação às flores e frutos, que foram levados em conta na
arborização da praça em Pirajá (ANGEOLETTO,1998).

Tabela 2 – Preferências dos polinizadores em relação às flores


POLINIZADORES CARACTERÍSTICAS FLORAIS QUANTO A FLORAÇÃO
INSETOS Flores que abrem-se durante o 1) Produção de flores grande e
(especialmente abelhas) dia, têm cores claras (creme, azul, evidente, por um curto período
lilás, amarelo), odor agradável, de tempo (polinização não
em geral não muito forte, tamanho específica por variadas espécies
variável (pequenas, médias ou de insetos)
grandes). Geralmente produzem 2) Pequena e pouco evidente.
algum recurso floral que é Produção de flores por um
oferecido ao polinizador período prolongado (polinização
(como por exemplo néctar). específica por grandes
mariposas, borboletas e
abelhas).
PÁSSAROS Flores em geral tubulares, cores Pequena e pouco evidente

54
Segundo JANZEN (1980, p. 21), do ponto de vista do vegetal, polinização é uma maneira de
aumentar ao máximo o fluxo de genes para as outras flores e a recepção de genes de outras
plantas (obviamente de uma mesma espécie). Isso garante a produção de sementes que
possibilitam a continuidade da espécie.

55
MORELATTO (In: MORELATTO, 1995, p. 64-65, 67) explica que a dispersão é o transporte das
sementes para longe da planta-mãe. Este processo de retirada ou saída do diásporo (unidade que
será dispersa, seja o fruto ou a semente) da planta mãe pode ser realizado por animais, vento e
mais eventualmente pela própria planta-mãe ou pela água. Na maioria das florestas tropicais, a
maior parte das sementes é dispersa por animais (cerca de 40,8%). Os dispersores mais comuns
são aves, morcegos e macacos.
152

(especialmente variando entre o laranja e o produção de flores, por um período


beija-flores) vermelho, e localizadas na prolongado (polinização
superfície da copa da planta específica).
MORCEGOS Flores produtoras de néctar, que Pequena e pouco evidente
abrem-se durante a noite, produção de flores, por um período
grandes, esverdeadas, brancas prolongado (polinização
ou roxas específica).

Tabela 3 – Preferências dos dispersores em relação aos frutos


DISPERSORES CARACTERÍSTICAS DOS FRUTOS DISPERSADOS
PÁSSAROS Geralmente oleaginosos ou açucarados. Cores vivas. Carnosos, suculentos ou
frutos secos que, quando abertos, apresentam sementes com arilo (polpa
nutritiva)
MORCEGOS Geralmente oleaginosos ou açucarados. Verdes ou verde-amarelados.
Obs.: os morcegos podem carregam frutos grandes, que normalmente não são
consumidos pelo tamanho excessivo, através de suas garras.
Fonte (T2 e T3): ANGEOLETTO (1998), baseado em JANZEN (1980) e LEITÃO FILHO &
MORELATTO (1995).

Não há dúvidas sobre a capacidade das árvores frutíferas em atrair polinizadores


e dispersores, contudo, seu uso na arborização de espaços públicos tem
defensores e detratores.

Para Mello Filho, o uso de frutíferas depende do grau de cultura da população


citadina. Assunção, no Paraguai, tem laranjeiras na sua arborização, na Suíça
são comuns as cidades arborizadas com macieiras e pereiras (MELLO FILHO,
1985, p. 122).

SANCHOTENE (1985, p. 111), defende o uso de frutíferas na arborização de


espaços públicos contrapondo-se a autores que desaconselham a presença
dessas árvores, por serem um convite a depredação. A autora argumenta que já é
hora de viabilizar uma arborização mais racional, mesmo com a carência de
educação ambiental de grande parte da população do Brasil.

MANICA (1985, p. 102), sugere o uso de frutíferas como abacateiros, caquizeiros,


caramboleiras, coqueiros, figueiras, jaqueiras, jaboticabeiras, nespereiras,
nogueiras, pereiras e goiabeiras na arborização de praças, parques e jardins.
153

É sabido que superfícies de concreto cobertas com vegetação irradiam 50% a


menos de calor (SPIRN, 1995, p. 71), o que obviamente torna o clima do entorno
mais aprazível. Sabendo-se que grande parte da área da praça é cerceada por
muros, optou-se pela utilização abundante de hera para cobrir os muros, o que
torna o espaço mais agradável, do ponto de vista visual e climático56.

Grande parte dos usuários da praça serão crianças. Outrossim, adotar-se-ão as


sugestões de FERREIRA, que recomenda que, ao selecionar-se árvores para
espaços de recreação infantil, é preciso que elas apresentem ramos resistentes,
folhas caducas, ausência de espinhos, raízes pivotantes, frutos comestíveis,
floração vistosa, crescimento rápido, fácil cicatrização dos ramos, etc
(FERREIRA, 1985, p. 90).

Espaços de recreação infantil contribuem enormemente para o desenvolvimento


das crianças. Estudos com animais jovens e evidências indiretas provindas de
crianças indicam que um ambiente sensorial rico no início da existência pode
determinar a extensão do futuro desenvolvimento mental (EHRLICH, 1974, p.
192, 193; NATURE NEUROSCIENCE, in FOLHA de SÃO PAULO, 22/02/2000).

As desvantagens das grandes cidades - poluição, falta de infra-estrutura,


pouquíssimas oportunidades de recreação, entre outros - são bastante
intensificados para os pobres. Muitos desses problemas poderiam ser sanados ou
abrandados por um projeto mais criativo das casas e seus arredores
(EHRLICH, 1974, p. 190, 192)57.

56
Espaços livres de edificação têm sido projetados com mais área pavimentada e menos árvores,
e por isso têm menor potencial em melhorar a qualidade do ar e o conforto climático (SPIRN,
1995, p. 76).
57
O professor de economia da Universidade de Chicago, Alexandre Sheinkman, comparou vários
indicadores sociais com as taxas de violência em centenas de cidades americanas. Não há
nenhuma relação entre renda e crime, constatou. Daí o sucesso da tese do capital social, a
medida das relações que um indivíduo tem, capazes de integrá-lo, evitando a marginalidade. É
medido pela força das igrejas, da família, da escola, dos centros comunitários, dos espaços para
lazer (DIMENSTEIN, 1999). Há, portanto, uma relação entre o fato de Pirajá ser considerado o
bairro mais violento do subúrbio e sua extrema escassez de espaços de socialização.
154

Entretanto, espaços livres de edificação devem ser projetados para atender a


múltiplas funções, que não apenas a recreação: as árvores e demais plantas
desses espaços podem atuar retirando poluição do ar, contribuindo para o
estabelecimento de climas mais amenos (SPIRN, 1995, p. 273), e atraindo uma
diversidade maior de animais selvagens.

A integração de todas as áreas livres de uma cidade num plano unificado que
inclua praças e parques, corpos d'água e correntezas, várzeas, encostas,
afloramentos rochosos e até estacionamentos e rodovias podem resultar num
sistema de espaços abertos coeso, cuja finalidade será melhorar o clim a, atrair a
fauna silvestre etc (SPIRN, 1995, p. 287).

6.5 Arborizando os quintais de Pirajá


MELLO FILHO (1985, p. 118, 122), classifica a arborização de espaços privados
como importante, pelo aumento da concentração de árvores cujo custo de
manutenção não onera o erário público. Há inclusive cidades como Recife, onde
a arborização de quintal, supera em muito a massa vegetal dos espaços
públicos, o mesmo ocorrendo nas pequenas cidades brasileiras.

O espaço que muitas vezes falta nas calçadas e passeios pode sobrar nos
espaços privados, daí a importância de plantios nesses loci (KNIJNIK, 1985, p.
199, 200).

O primeiro passo para concretização de plantios de mudas de frutíferas nos


quintais do bairro foi a elaboração e realização de um minicurso aos estudantes
do ensino médio do colégio estadual Alberto Santos Dumont, em Pirajá.

O curso denominado A importância da vegetação para o nosso bairro, com 6


horas-aula de duração, teve cerca de 60 participantes. Os conteúdos ministrados
versaram sobre a cidade do ponto de vista ecológico; o Parque Metropolitano de
Pirajá; sobre os benefícios da arborização e sobre os resultados da pesquisa
sobre diversidade vegetal realizada nos quintais do bairro (capítulo 5).
155

No final do minicurso os estudantes foram convidados a participar como


voluntários de um plantio de 200 mudas de árvores frutíferas (FOTOS 32, 33) (cujas
espécies estão discriminadas na tabela 4) em 29 dos quintais pesquisados.

Tabela 4 - Espécies plantadas nos quintais


Nome popular Nome científico
Abio Lucuma sp
Abricó Prunus sp
Ameixa Prunus sp
Amora Morus sp
Fruta-do-conde Annona sp
Groselha Rubus sp
Graviola Annona sp
Jambo Jambosa sp
Laranja Citrus sp
Manga Mangifera sp
Pitanga Eugenia sp
Tamarindo Tamarindus sp
Tangerina Citrus sp

Cinco estudantes participaram do plantio. O número é pequeno, diante do grande


entusiasmo verificado por ocasião do convite. A evasão provavelmente deu-se
pelo pouco tempo de contato com os estudantes - o minicurso teve duração de 3
dias; e também pelo temperamento instável, próprio da adolescência. Porém o
mais importante foi a seriedade dos cinco participantes, sempre pontuais nos
compromissos assumidos e desdobrando-se para efetivar os plantios. Um dos
adolescentes inclusive dirigiu o veículo que transportou as mudas pelo bairro.

A maior dificuldade dos plantios foi o deslocamento das mudas pelo bairro.
Mesmo com o aluguel de uma Kombi para o transporte, havia alguns quintais
onde só se chegava a pé, descendo ladeiras íngremes. Isso limitou os quintais
contemplados em 29, de um total de 142 pesquisados.

Por outro lado, a receptividade dos moradores foi ótima, mesmo que muitos não
se lembrassem mais de nossa visita anterior, pois a distância de tempo entre o
final da pesquisa nos quintais e os plantios foi considerável (17 meses). Muitas
pessoas nos abordavam, perguntando se éramos do "governo", da "prefeitura" ou
156

do IBAMA. E a maioria dessas pessoas solicitava uma ou mais mudas para


plantio em seus quintais. Tais fatos são indicativos de que um programa de
plantios nos espaços privados do bairro terão maciço apoio popular.

6.6 Comentários sobre os plantios nos quintais


Os quintais com alta diversidade de espécies vegetais, atuam como pequenos
fragmentos florestais capazes de cumprir com eficiência as funções atribuídas à
arborização e às áreas verdes urbanas (MACEDO & JOSÉ, 1997, p. 23). Por isso
não optou-se somente por plantios em quintais de baixa diversidade, mas também
naqueles de alta diversidade vegetal.

Os quintais e jardins presentes nos espaços livres de edificação privados estão


entre os mais frágeis ecossistemas presentes nos biomas urbanos. Eles são
compostos em muitos casos por espécies exóticas, que vegetam em condições
de clima e solo diferentes. A continuidade desses sistemas requer contínua
manutenção. A falta de manejo leva a uma extinção local, acompanhada de
simplificação. Não obstante, os jardins e quintais freqüentemente são o habitat de
dezenas de espécies (GILBERT, 1989, p. 5, 262).

Depreende-se das informações dos parágrafos anteriores, que quintais


arborizados podem atrair uma grande variedade de animais silvestres, com o
devido manejo. No caso de Pirajá, espera-se que os quintais sejam pródigos na
atração de insetos, aves e principalmente morcegos.

Estes mamíferos voadores são polinizadores de um conjunto de espécies de


plantas, nunca de uma única espécie. Eles podem viajar grandes distâncias em
busca de alimento. Os morcegos voam até 16 km em visita às flores. Outro
fato interessante é que esses animais podem memorizar trajetos, o que permite
que eles voltem às mesmas plantas diariamente58 (JANZEM, 1980, p. 24).

Vários estudos demonstram que mais de 95% das sementes de espécies


pioneiras e secundárias que chegam às clareiras, ou áreas desmatadas, no caso

58
Os beija-flores também são capazes de percorrer grandes distâncias na procura por alimento
(JANZEM, 1980, p. 24, 26).
157

do Parque, são trazidas pelos morcegos, deixando clara a importância destes


animais para a recomposição natural das florestas tropicais (FARIA. In:
MORELATTO, 1995, p. 103)

Nas cidades de regiões tropicais é comum a presença de morcegos nectarívoros


e frugívoros que utilizam as plantas como abrigo e fonte de alimentos (SAZIMA &
SAZIMA, 1977; UIDA, 1980; MULLER & REIS, 1992, in RODRIGUES & BREDT,
1994, p. 312). Sua presença provavelmente deve-se à arborização urbana.

RODRIGUES & BREDT (1994, p. 316) alertam para os transtornos que morcegos
podem trazer à população, que em geral tem aversão aos mamíferos voadores,
por desinformação. O mesmo ocorre com as corujas, eficientes predadores
urbanos de ratos e ratazanas, e que infelizmente são perseguidas em
praticamente todo o mundo, inclusive no Brasil, por serem tidas como agourentas
(COSTA-NETO, 1999). Cabe aos educadores a tarefa de desmistificar lendas e
preconceitos, esclarecendo o papel importante que esses animais desempenham
nos biomas urbanos.

Nossa intenção inicial era de promover plantios somente em quintais no limite


entre o Parque e o bairro, mas dada a grande capacidade de deslocamento dos
polinizadores vertebrados, entendemos que qualquer quintal estava apto a
receber as mudas.

6.7 Conclusões
Quanto às áreas verdes urbanas, GRIFFITH & SILVA (In: MILANO, 1988, p. 8;
MILANO, 1990, p. 62) afirmam que, embora a maioria das cidades brasileiras
tenham praças, parques e outras áreas verdes, poucas têm estes espaços
organizados de modo que não sejam apenas mais uma coleção avulsa de
espaços abertos. Muitas áreas verdes podem ter pouco valor para a
biodiversidade, por isso, melhorias progressivas para atração de fauna e flora
devem ser um objetivo do planejamento (NATURE CONSERVANCY COUNCIL,
1989, p. 39). Uma dessas melhorias é a instalação de corredores verdes. Em
Salvador, o Parque Metropolitano de Pirajá poderia ser ligado a outros fragmentos
de mata atlântica, como o Parque de Pituaçu.
158

GILBERT (1989, p. 311, 316) defende a manutenção de paisagens ecológicas,


por exemplo áreas de mata, mediante um input de desenho que permita uma
congruência com usos antrópicos, porém com o mínimo de alterações. MILANO
(1994, p. 213) recomenda enfaticamente o emprego de soluções alternativas
para a preservação do maior número de áreas verdes possíveis, como o
aproveitamento de áreas "marginais": fundos de vale que foram transformados em
parques, ruas de pouco tráfego transformadas em áreas verdes, aproveitamento
de áreas de mineração desativadas como espaços livres públicos, a exemplo do
que ocorreu em Curitiba (MILANO, 1994, p. 213).

Mesmo as ervas daninhas em terrenos baldios são importantíssimas, e deveriam


ser mantidas, pois: retêm a umidade, protegem o solo contra a evaporação,
fertilizam-no com raízes, folhas e flores e sementes mortas, apressam a
decomposição de restos de argamassa e cascalho e criam um ambiente
favorável aos microrganismos e outras plantas. Se não forem perturbadas,
processa-se o fenômeno de sucessão vegetal, e em alguns, anos as árvores
estabelecem-se (SPIRN, 1995, p. 206, 218).

Uma vez estabelecida a comunidade arbórea, uma manutenção mínima é


requerida, ou mesmo não é necessária qualquer manutenção. (SPIRN, 1995, p.
206, 218). Spirn está certa, o problema no caso dos terrenos baldios é a imagem
de desleixo - o que pode ser mudado pela prática de educação ambiental - e o
problema da segurança, pois poderiam esconder meliantes.

Não apenas nos espaços livres deve se planejar para o aumento da


biodiversidade. Edifícios não precisam atuar necessariamente como barreiras à
sua presença. Em áreas densamente edificadas, um aumento dos habitats da
vida silvestre pode ser obtido pelo cultivo de jardins nos telhados, e do plantio de
trepadeiras nos muros. Cavidades para o descanso de morcegos ou para a
nidificação de aves podem ser desenhados nos projetos das edificações
(NATURE CONSERVANCY COUNCIL, 1989, p. 25), embora projetos dessa
natureza possam sofrer oposição dos incorporadores imobiliários.
159

Muitas fundações originadas na iniciativa privada têm um papel importante na


arborização de espaços abertos, contribuindo, a fundo perdido, para a execução
de inúmeros projetos. Segundo uma diretora da "Vincent Astor Foundation", que
financia projetos que variam de grandes parques a jardins e hortas comunitárias
em Nova Iorque, é compensador observar que pequenas quantias de dinheiro
permitem a execução de um espaço comunitário (FOX & KOEPPEL, 1985, p. 26).

Este argumento talvez seja o mais importante na defesa de projetos de


arborização, pois é aquele que consegue sensibilizar burocratas. Em Pirajá, com
os US$ 1193,00 repassados pela União Européia, foi possível executar uma
pequena praça arborizada (custo de US$ 850,00) e plantar 200 mudas de árvores
frutíferas nos quintais (custo de US$ 393,00). Vale ressaltar que, no caso da
praça, 54% dos recursos foram utilizados para a canalização do esgoto, sem o
que não seria possível a execução do projeto.

Se futuramente obtivermos outros recursos, algumas idéias poderiam ser postas


em prática no bairro. Em outras áreas detectadas pela aplicação do método de
sintaxe espacial, poderiam ser transformadas em praças locais, através de
exercícios de planejamento participativo que estimulassem a gestão comunitária
dos espaços.

Como o bairro (incluída a porção planejada) em geral possui ruas estreitas, o


plantio de árvores ou arvoretas nestas vias poderia ser feito em recipientes
funcionais e estéticos (HOEHNE, 1944; GOLD, 1987; PALERMO Jr, 1987 in
LIMA, 1993, p. 83).

São comuns edificações de um ou dois pavimentos com a laje descoberta (FOTOS


34, 35). Como a demanda por solo é intensa, o aumento das famílias geralmente
implica no sacríficio da vegetação dos quintais, para a construção de novas
unidades habitacionais. Uma campanha poderia ser realizada no bairro,
envolvendo os moradores para que eles separassem garrafas plásticas de água
mineral e refrigerantes. As garrafas poderiam ser transformadas em "porta-
mudas", e milhares delas poderiam preencher os espaços das lajes. Uma
solução, entre outras necessárias, para o problema de acúmulo de plástico na
160

biosfera, e, sobretudo, uma maneira de amealhar espaço para a vegetação, onde


este é escasso.

Em comparação com outras intervenções urbanas, a arborização possui um baixo


custo por habitante, e sua execução pode contar com apoio e participação
comunitária, principalmente no plantio e na fiscalização e manutenção das mudas
plantadas (SOUZA, 1994, p. 233). A participação cidadã na vida da comunidade é
um dos direitos assinalados na Declaração Universal de 1948 (ALVES, 1996, p.
447); e projetos como o executado em Pirajá são uma forma de estímulo ao
exercício deste direito.
161

FOTOS 28 e 29: Área selecionada para o exercício de planejamento participativo.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
162

FOTO 30 e 31: Reuniões de planejamento participativo.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
163

FOTO 32 e 33:.Plantios nos quintais.


FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.
164

FOTOS 34 e 35: Lajes das edificações, espaços possíveis par o aumento de vegetação no bairro
FONTE: Fábio H. S. Angeoletto, 1999.

CONSIDERA ÇÕES FINAIS


É preciso gestar as antíteses de Bauci, uma das cidades invisíveis de CALVINO
(1991). Nessa hipotética urbis, há apenas contato visual com a natureza: a cidade
ergue-se sobre longas pernas de flamingos.

A ficção de Calvino descreve muito bem o ideário que separa o urbano e a


natureza, e que acaba por traduzir-se, nas ações ou não ações de arquitetos,
planejadores, ambientalistas e moradores, em cidades reais, onde a pouca
atenção dada à premissas ambientais redundam em desperdícios energéticos;
destruição de ecossistemas próximos e distantes; e má habitabilidade.

A pouca consideração dispensada aos fatores biológicos no planejamento urbano


pode em parte ser explicado pela falta de uma cadeira de ecologia urbana nos
cursos de arquitetura, biologia, geografia, administração, entre outros. Trata-se de
165

uma disciplina que deveria ser introduzida nos currículos não como optativa, mas
como obrigatória. O jargão ecológico, dominado pelos biólogos, precisa ser de
uso corrente entre os arquitetos59; assim como os biólogos precisam ter como
parte de sua formação noções de planejamento urbano e paisagístico. É preciso
descartar o raciocínio que enxerga a arquitetura e a biologia como profissões
antagônicas, exatamente como enxerga-se cidades e natureza.

Há um diálogo que precisa ser travado mais amiúde entre a arquitetura e o


urbanismo e as ciências naturais. O aprofundamento desse diálogo é contudo
dificultado pelo corporativismo e pela excessiva departamentalização da Ciência.
A arquiteta e paisagista Anne Whiston Spirn lamenta a falta de comunicação entre
ecológos, engenheiros civis, planejadores, arquitetos e paisagistas. As barreiras
que separam as disciplinas acadêmicas são mais fortes que suas ligações, fato
que constitui um obstáculo à compreensão dos biomas urbanos. Conhece-se
muito mais sobre botânica, geologia, sociologia e economia do que sobre as
ligações entre elas. As recompensas por se manter dentro de uma disciplina
acadêmica e as punições por se trabalhar fora da principal corrente dessa
disciplina excedem em muito qualquer vantagem e garantem que qualquer
trabalho interdisciplinar será, antes, uma exceção do que a norma por muito
tempo ainda.

ΘΘΘ

Uma das metas desta dissertação foi contribuir par a generalização de um


urbanismo atento aos fatores biológicos, através da criação de novas
combinações entre os diversos ecossistemas que compõem os biomas urbanos,
atentando para o incremento da biodiversidade no ambiente urbano, sem que isso
implique necessariamente em prejuízos ao fator antrópico. Sabemos que os
vegetais iniciam praticamente todas as cadeias alimentares da biosfera, e as
árvores também são habitats para dezenas de espécies. A melhoria da qualidade
de vida no bairro pode ser obtida em parte com o aumento da vegetação nos seus
59
Se é fato, como afirma o professor Décio Pignatari (2000), que mesmo a tecnologia em conforto
ambiental é, em grande medida, ignorada pelos arquitetos brasileiros, há muito a se reformular
nos currículos dos cursos de arquitetura e urbanismo.
166

espaços abertos.

Por sua condição de bairro escassamente arborizado, e pela proximidade com o


Parque Metropolitano de Pirajá, o bairro de Pirajá pode servir de paradigma para
um planejamento que procure a maximização da biodiversidade no bioma urbano
e dos benefícios originados da presença de vegetação nestes mosaicos de
ecossistemas que são as cidades.

Uma grande ênfase foi dada à importância da arborização aos biomas urbanos, e
aos vários dilemas ambientais que a vegetação pode resolver ou ao menos
atenuar. Contudo é preciso esclarecer que as árvores não são o remédio
universal, a panacéia para todos os problemas ambientais urbanos.

Veja-se por exemplo o caso da poluição atmosférica. A literatura sobre poluição


do ar é fértil em artigos que defendem o uso do solo ou das árvores como
absorvedores da poluição atmosférica, sem considerarem o que será dos
contaminantes depois que não mais estiverem em suspensão no ar. Ocorre que
os poluentes fluem através dos sistemas, do ar para solo, para a água e para os
organismos; do solo para a água e para os alimentos.

A conclusão é simples: árvores não são a solução para a poluição atmosférica


urbana, elas são paliativos eficazes. A solução definitiva está no uso de energias
menos poluentes e no estímulo ao transporte coletivo de massa.

Do mesmo modo, advogamos enfaticamente o planejamento, e novamente cabe


a advertência: a planificação não soluciona todas as mazelas ambientais urbanas,
mas um input de planejamento é necessário; principalmente se vinculado à busca
de soluções não onerosas, e que contribuam para dirimir os impactos causados
pelos grandes ambientes de entrada e saída dos biomas urbanos.

ΘΘΘ

Defendemos nessa dissertação a maximização da vegetação nos bairros, de


167

modo a criarem-se corredores de ligação entre as áreas verdes (no caso de


Salvador, entre o Parque Metropolitano de Pirajá; Parque de Pituaçu; Parque da
Cidade, entre outros). Essa idéia é corrente nos Estados Unidos e Inglaterra.

Evidentemente, sua transposição para o Brasil esbarra em alguns poréns. Nossa


diversidade biológica é muito maior do que aquela encontrada nos países do
hemisfério norte. Contudo, opostamente a esses países, grande parte de nossa
flora urbana é exótica, e não é possível simplesmente, retirar espécimes arbóreas
de nossas matas e plantá-las nas cidades.

É preciso antes testar a resistência dessas espécies às condições ambientais dos


biomas urbanos, que incluem poluição, calor excessivo, solos compactados, entre
outros problemas. Também é preciso estudar características como crescimento
da copa e das raízes, de modo a previnir contratempos como rachaduras em
calçadas e muros.Não obstante, trata-se de um campo de pesquisas promissor e
necessário.

ΘΘΘ

Talvez nunca tenhamos necessitado tanto de mudanças de mentalidades. De


novas maneiras de pensar, para entender que o que está em jogo não é a
preservação do mico-leão dourado ou dos simpáticos ursinhos panda. Não é a
natureza, esta entidade tão abstrata, tão longe de nós, "escondida" na floresta
amazônica ou nas geleiras preferidas dos pinguins antárticos, a ameaçada.

A diminuição da diversidade biológica e de seus serviços ecológicos,


surpreendentemente, não põe em risco a natureza, mas apenas nossa espécie.
Mesmo que alteremos tanto o ambiente a ponto de inviabilizar nossa continuidade
na Terra, mesmo que neste caminho suicida levemos milhares de outras formas
de vida, a natureza é suficientemente dinâmica, e responderá às nossas
alterações produzindo novos seres, que reestabelecerão as condições de clima,
fluxos biogeoquímicos, etc, mais propícias à manutenção da vida
168

(ANGEOLETTO, 2000).

O tempo médio de recuperação da natureza nos casos de extinção em massa de


espécies, como a que atualmente temos provocado, é de 10 milhões de anos
(FERRONI, 2000). Isto significa que os próximos anos serão decisivos, pois se
não formos hábeis para estancar imediatamente essa erosão de biodiversidade,
os danos terão um caráter de perpetuidade.

Os problemas dos seres humanos, e que redundam em diminuição da


biodiversidade, são problemas biológicos em sua origem: destruição de habitats,
deterioração do solo, e mesmo a falta de moradia e comida (WILSON, 1997, p.
19; RAMOS, 1997, p. 545). Eles podem ser resolvidos parcialmente ao se fazer
com que a biodiversidade seja usada como fonte de riqueza econômica
(WILSON, 1997, p. 19).

ΘΘΘ

É preciso empreender uma restauração ecológica em escala planetária. Para isto,


a "Ecologia da Restauração" (uma ciência que ainda ensaia seus primeiros
passos) terá que se tornar uma importante atividade econômica. Uma de suas
metas será a provisão de uma ampla variedade de produtos comercializáveis
como um subproduto da restauração (TODD, 1997).

A recuperação de uma floresta como o Parque Metropolitano de Pirajá, poderia


ser realizada introduzindo-se espécies que contribuam para a manutenção
daquele sistema, e também desempenhem papéis econômicos. Tal ecossistema
seria um cruzamento entre uma floresta e um pomar, e diversas famílias poderiam
ser beneficiadas no subúrbio.

Entre o arcabouço teórico para a construção de uma ciência e uma prática de


restauração de hábitats, TODD (1997, p. 444) cita o paisagismo como um dos
campos mais relevantes. De qualquer sorte, está claro que a melhor abordagem
metodológica para maximizar a vida silvestre nas cidades ainda é incerta, e
169

requer habilidades que planejadores, paisagistas e ecólogos não têm, e que


precisam ser buscadas. Este é um novo campo científico, deveras excitante, que
apenas começa a ser praticado, ainda há poucos e incompletos dados (GILBERT,
1989, p. 7, 8). Daí a importância do aprofundamento do diálogo entre arquitetura e
ciências naturais, como foi dito acima.

ΘΘΘ

Ao mesmo tempo em que a economia abandona progressivamente os limites do


Estado nacional, formando blocos que extrapolam seus limites econômicos e
políticos, cresce também, em importância, a ação localizada, comunitária, como
forma de evitar ou controlar problemas de ordem universal (inclusive, os
relacionados ao ambiente) (TENÓRIO, 1996, p. 106).

CAMPBELL (1992, p. 191, 197) sinaliza como positivo o fato de prefeitos


brasileiros estarem implementando projetos baseados em fortes alianças entre
governos locais e grupos comunitários. Não por acaso, agências internacionais
começam a focalizar os governos municipais como novo alvo de suas operações
de empréstimo na América Latina.

Alianças entre o poder público municipal e a iniciativa privada podem significar um


impulso na criação ou recuperação de espaços livres arborizados. Em Salvador,
já existe um projeto dessa natureza, o Programa de Adoção de Praças, Áreas
Verdes, Monumentos e Espaços Livres, conduzido pela prefeitura de Salvador. O
"calcanhar-de-aquiles" do programa é a lógica da visibilidade: as empresas
escolhem áreas para intervenção na expectativa de retorno imediato através de
propaganda e marketing. Obviamente empresas não se interessão por espaços
localizados em bairros "periféricos" (SERPA, 1999-d, p. 15).

Essa falha, é claro, pode ser sanada. A prefeitura poderia estabelecer parcerias
específicas com os comerciantes dos bairros populares, que mesmo não tendo a
pujança econômica de empresários abastados, sabem o valor da propaganda.
Parcerias também poderiam ser estabelecidas com universidades e ong's, no
170

sentido de difundir-se a prática de planejamento participativo que, mais do que


apenas recuperar praças, criasse espaços de lazer e socialização densamente
arborizados nos espaços livres desses bairros.

Outra falha grave do programa - esta, muito mais difícil de ser sanada, por
questões de concepção de projetos paisagísticos - é a pouca importância dada ao
aumento da vegetação, principalmente árvores, nas praças "adotadas" por
empresas. O bingo Rio Vermelho, adotou parte do Largo da Mariquita, que é
contíguo à edificação onde a casa de jogos de azar está localizada. Uma de suas
"providências" foi o corte de algumas árvores que atrapalhavam a visualização
de um letreiro eletrônico que faz a propaganda do bingo (CELESTINO, 2000). É
preciso que a prefeitura reveja os critérios adotados para a arborização, se é que
eles existem.

ΘΘΘ

Em pesquisa com 1000 famílias do município de São Paulo, JACOBI (1996, p.


19-20), constatou que a maioria dos domicílios, de todos os estratos sócio-
econômicos, embora esteja ciente tanto das soluções e possibilidades existentes
para a prevenção dos impactos decorrentes da degradação ambiental,
geralmente aceitam a convivência com esses impactos, assumindo uma atitude
passiva face à existência do problema. Por outro lado, o autor registra um volume
significativo de respostas que enfatizam a relevância da ação governamental
enquanto principal responsável pela preservação ambiental.

Para SILVA & FERNANDES, (1996, p. 61, 62) apesar de uma tímida
conscientização da população soteropolitana de que a problemática ambiental
não será resolvida somente através de ações do poder público, mas também
através de ações da sociedade, onde ainda predomina a crença de que basta a
criação de leis para assegurar-se uma adequada preservação ambiental. Essa é a
opinião de 52,8% dos entrevistados de todas as classes sociais em pesquisa de
Silva & Fernandes.
171

É óbvio que não se pode isentar o Estado de suas obrigações, mas é urgente que
os citadinos assumam responsabilidades com seu ambiente mais próximo.
Diversificar a cobertura vegetal dos quintais, reciclar o lixo orgânico, dar outras
serventias a garrafas e latas, evitar o desperdício de energia elétrica são atitudes
simples, não onerosas, ao alcance de todos.

Em grande medida essas ações não são correntes porque falta um input de
educação. É preciso que discursos abstratos de preservação do meio ambiente
deêm lugar a ações concretas e cotidianas. É um contrasenso os soteropolitanos
preocuparem-se com a distante floresta amazônica e ignorarem um dos maiores
parque de mata atlântica do Brasil, que fica na sua cidade.

Uma das ações que precisam fazer parte do dia a dia das pessoas é o plantio de
árvores, arbustos e arvoretas. Nos EUA, país com larga tradição em arborização
urbana, para cada árvore existente nas cidades, uma outra poderia ser plantada.
No rítmo atual dos programas de arborização norte-americanos, dobrar o número
de árvores nas cidades levaria 267 anos. Somente um ostensivo programa de
plantios poderia alterar essa realidade (KIELBASO, 1997, p. 8). Não há dados
correlatos sobre a situação brasileira, contudo é bastante provável que o déficit de
árvores nas cidades brasileiras seja maior.

ΘΘΘ

O mundo se urbaniza velozmente, e a urbanização mais corrente é aquela


efetivada pela pobreza, a qual freqüentemente ocupa áreas de significativo valor
ecológico. Um primeiro olhar sobre essas questões poderia atribuir à distribuição
perversa da renda e a uma política incompetente de saneamento, a
responsabilidade por grande parte das mazelas ambientais urbanas.

A questão é, no entanto, mais complexa. A urbanização promovida pela riqueza


geralmente não atenta à preservação de ecossistemas. São comuns os
aterramentos de manguezais ou devastação de matas para a construção de
grandes complexos urbanos. Além do mais, as cidades são centros de difusão da
172

cultura do consumo de bens inúteis, cuja fabricação provoca alterações


ambientais significativas. Se distribuir renda significar apenas habilitar os pobres
ao consumismo e disperdício de recursos, não será esta uma solução para os
dilemas ambientais vividos pela humanidade.

Do mesmo modo, formas tradicionais de saneamento apenas resolvem o


problema da insalubridade para criar outros contratempos. Veja por exemplo o
caso de Salvador. O programa Bahia Azul de saneamento tem como meta dotar a
maior parte da cidade de sistemas de esgotamento sanitário. Mas pouco se
discute sobre o destino final dos dejetos: o oceano atlântico.

Um projeto mais atento à questões ambientais daria outro destino aos dejetos. Na
China, são comuns sistemas que aproveitam as fezes humanas para a obtenção
de gás metano, que pode ser usado para cozinhar. As soluções existem, mas
muitas vezes esbarram em imperativos político econômicos.

ΘΘΘ

A década de 90 marcou uma virada nas tendências de urbanização brasileira,


com um maior crescimento das cidades pequenas e médias, em relação às
grandes cidades. Muitos dos problemas ambientais freqüentes nas metrópoles
não existem, ou são incipientes, nas cidades menores. É preciso que voltemos
nossas atenções à estas aglomerações, desenvolvendo programas e parcerias
com os governos municipais e populações, com o intuito de não repetir as
mazelas das grandes cidades.

Essas parcerias poderiam inclusive mitigar o desemprego crônico que vêm


afetando até mesmo trabalhadores com alto grau de escolaridade. Programas de
arborização podem empregar de jardineiros a paisagistas, têm um baixo custo, e
os benefícios da maior presença de vegetação nas cidades são muitos.

Recomendamos veementemente para as cidades pequenas e médias o


desestímulo a verticalização. O poder público poderia agir estimulando a
173

manutenção de quintais arborizados mediante redução de IPTU (maior número de


árvores, maior o desconto), incentivando incorporadores a canalizar investimentos
na criação de bairros de residências com quintais e espaços livres de edificação
densamente arborizados e de múltiplos usos. Isso estenderia um pouco os limites
das cidades, mas um bom projeto de transporte coletivo de massas solucionaria o
aumento das distâncias.

Sobretudo, recomenda-se o incentivo econômico às práticas ambientalmente


corretas. Deste modo outras idéias também poderiam ser implantadas, como a
criação de florestas urbanas para a produção de madeira, como ocorre em
Zurique e Frankfurt; a transformação de resíduos sólidos de esgoto em adubo,
como acontece na Filadélfia; e Woodlands, no Texas usou seu sistemas de
espaços livres públicos e privados para a drenagem águas das chuvas e
prevenção de enchentes (SPIRN,1995, p. 26). Incentivos também poderiam ser
dados às empresas e ou particulares que construíssem casas ecológicas,
definidas por GRECCO (2000), como habitações construídas com materiais
naturais, renováveis e, acima de tudo, não poluentes. Essa prática é recente no
Brasil, mas em outros países ela é corrente, como na Austrália, onde cerca de
20% das novas construções são de taipa de pilão, ou como na Colômbia e Costa
Rica, onde o bambu é utilizado como estrutura de prédios em lugar de ferro e
concreto.

Em suma, muitas das atividades antrópicas acabam produzindo ambientes


degradados nas cidades, mas com criatividade e respeito ao erário, poderiam ser
desenvolvidos projetos que primassem por uma visão ecossistêmica, gerando
qualidade de vida e renda.
174

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GLOSSÁRIO DE TERMOS

Planejamento

Espaço público

Espaço privado
191

ÍNDICE REMISSIVO DE AUTORES

ALBERTI, Marina pp. 25, 28, 42, 155 BOOTH, Norman K. pp. 49, 51, 156
ALVA, Eduardo Neira pp. 39, 155 BORJA, Patrícia C. pp. 31, 36, 41, 156
ALVES, José Augusto Lindgren pp. 144, 155 BRADY, Nyle C. pp. 26, 157
AMPLA (Associação dos Moradores de BRASIL, Heliana M. S pp. 52, 157
Plataforma) pp. 84, 155 BUGIN, Alexandre & MARTERER, Bernd pp.
ANGEOLETTO, Fábio pp. 33, 100, 115, 149, 114, 157
155 CABRERA, Valéria pp. 91, 157
ARAÚJO, Michiko & ARAÚJO, Antonio J pp. CALVINO, Ítalo pp. 147, 157
123, 155 CAMPBELL, Tim pp. 28, 44, 79, 126, 157
ARGAN, Giulio Carlo pp. 37, 155 CARR, Stephen pp. 59, 60, 61, 157
ASHTON, Peter S. CARVALHO, Maria Lúcia A. M pp. 119, 157
ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DO PARQUE CASTAÑEDA, Fernando Casas pp. 34, 157
SÃO BARTOLOMEU / PIRAJÁ PP. 85, 86, CAVALCANTE, Eunádia; LIMA, Verônica pp.
155 127, 157
A TARDE PP. 46, 67, 68, 73, 80, 82, 86, 156 CAVALHEIRO, Felisberto pp 49, 52, 53, 55,
56, 57, 119, 157
BANDEIRA, Cláudio pp. 68, 156 CELECIA, John pp. 114, 157
BARBOSA, Francisco R. & PAULA, João CELESTINO, Samuel pp. 150, 157
Antonio de pp. 69, 156 CENTRE FOR SCIENCE AND
de la BARRA, Ximena pp.28, 32, 156 ENVIRONMENT pp. 34, 157
BÓ, Dino Dal pp. 79, 156 CENTRO DE ESTUDOS SÓCIO-
BÓGUS, Lúcia M. M. pp. 38, 156 AMBIENTAIS pp. 67, 69, 78, 79, 82, 89, 158
BONDUKI, Nabil & ROLNIK, Raquel pp. 77, CESTARO, Luis Antonio pp. 24, 57, 62, 64,
156 117, 158
192

CHALLINOR, David pp. 27, 158 99, 160


CHOAY, Francoise pp. 18, 158
CIUDADES PARA UN FUTURO MÁS IRGANG, Bruno pp. 63, 161
SUSTENIBLE pp. 22, 57, 158
CORNELY, Seno pp. 121, 122, 123, 124, JACOBI, Pedro pp. 14, 32, 33, 44, 151, 161
129, 158 JANZEM, Daniel H. pp. 141, 161
CORREIO da BAHIA pp. 73, 80, 87, 113, 158 JOHNSON, Liana pp. 24, 25, 161
COSTA-NETO, Eraldo Medeiros pp. 141, JORNAL da BAHIA pp. 80, 161
158
KIELBASO, J. James pp. 54, 56, 57, 59, 60,
DEL RIO, Vicente pp. 103, 158 61, 65, 152, 161
DETZEL, Valmir pp. 47, 49, 52, 57, 60, 62, KOWARICK, Lucio pp. 32, 34, 35, 44, 161
158
DIÁRIO de NOTÍCIAS pp. 80, 158 LACOMBE, Fanny Talice pp. 49, 161
DIAS, Genebaldo Freire pp. 19, 25, 38, 53, LEITE, Marcelo pp. 41, 161
57, 158 LEITE, Maria Angela F. P. pp. 16, 161
DICIONÁRIO MICHAELIS pp. 110, 111, 158 LEMENHE, José Antonio P. pp. 49, 51, 56,
DIEGO, Margarita de Luxán pp. 21, 158 161
DIEGUES, Antonio C. pp. 13, 14, 19, 158 LEONARDI, Maria Lucia pp. 85, 161
DIMENSTEIN, Gilberto pp. 134, 158 LOMBARDO, Magda pp. 19, 51, 161
LOPEZ, Immaculada pp. 33, 161
EDE, Sharon pp 29, 158 LOVELOCK, James pp. 31, 41, 57, 78, 161
EHRLICH, Paul pp. 26, 27, 33, 133, 159 LUGO, Ariel E. pp. 28, 29, 162
EKBLAD, Solvig pp 119, 159
ENVIRONMENT and URBANIZATION pp. MACEDO, Maria I. A pp. 47, 52, 55, 57, 162
15, 159 MACEDO, Renato L. G. pp. 140, 162
ESPÍ, Mariano Vásquez pp. 42, 159 MACEDO, Silvio Soares pp. 3, 28, 34, 119,
162
FARIA, Lecticia S. S. pp. 69, 159 MAGNUSSON, Willian E. & LIMA, Albertina
FELDMANN, Fábio pp. 57, 159 pp. 63, 162
FERREIRA, Lair pp. 65, 133, 159 MALINSKI, Rogério pp. 130, 162
FERREIRA, Juca pp. 29, 159 MAMNBA pp. 90, 162
FIGHERA, Delfina T. 40, 159 MANICA, Ivo pp.132, 162
FLORESTA, Cleide pp. 33, 38, 159 MARICATTO, Ermínia pp. 31, 32, 35, 162
FNMA pp. 13, 159 MASCARÓ, Lúcia pp. 52, 53, 162
FOLHA de SÃO PAULO pp. 39, 40, 45, 67, MELLO FILHO, Luiz E. pp. 52, 56, 57, 58,
73, 133, 159 62, 63, 65, 132, 134, 162
FONSECA, Gustavo pp. 77, 115, 159 MENEZES, Eline V. pp. 35, 162
FORATINNI, Oswaldo P. pp. 22, 160 MESQUITA, Liana B. pp. 56, 120, 124, 162
FOX, Tom & KOEPPEL, Ian pp. 53, 55, 57, MILANO, Miguel S. pp. 46, 47, 49, 52, 53,
120, 123, 124, 143, 160 56, 57, 58, 60, 62, 117, 124, 141, 142, 162
FRANCO, Maria de Assunção R. pp. 15, 147, MOHR, Udo pp. 24, 47, 162
160 MONTE-MÓR, Roberto Luís de M. pp. 30,
36, 163
GATTI, Marcelo pp. 52, 160 MORELATTO, Patrícia pp.132, 141, 163
GAZETA do POVO pp. 64, 160 MOTTA, Enio P. pp. 64, 163
GÉRMEN pp. 86, 160 MURPHY, Dennis D. pp. 26, 116, 163
GILBERT, Oliver pp. 13, 23, 116, 131, 140, MUNIZ, Marize pp. 78, 163
142, 151, 160 MYERS, Norman pp. 26, 163
GIRARDET, Herbert pp. 24, 25, 160
GOYA, Claudio R. 48, 160 NAGINO, Yoshiaki pp. 52, 163
GREATER LONDON COUNCIL pp. 49, 160 NATURE CONSERVANCY COUNCIL pp.
GREENPEACE pp. 10, 11, 12, 13, 160 62, 118, 142, 143, 163
GRIFFITH, James & SILVA Sebastião pp. NERY, Jussana Fahel Guimarães pp. 20,
66, 141, 160 163
GRONSTEIN, Marta D. pp. 71, 160 NEVES, Gervásio pp. 112, 163
NEW SCIENTIST pp. 93, 163
HAHN, Ekhart pp. 16, 110, 160 NOVAES, Washington pp. 79, 163
HASENACK, Heinrich pp. 51, 54, 160
HOLANDA, Frederico pp. 94, 95, 96, 97, 98, ODUM, Eugene P. pp. 22, 163
193

ONU pp. 37, 38, 67, 79, 163 CESAR, Sebastião F pp. 52, 166
PACHECO, Regina S. & LOUREIRO, Maria SILVA, Paulo R. G. pp. 21, 39, 69, 152, 166
R. pp. 14, 21, 43, 163 SIMEOFORIDIS, Yorgos pp. 16, 166
PARÉS, Maria Isabel & BORJA, Patrícia C. SMARDON, Richard C. pp. 49, 53, 56, 57,
pp. 78, 163 59, 61, 167
PAULA, João Antonio de & BRITO, Fausto SOARES, Magda B. pp. 110, 167
R. pp. 21, 42, 163 SOBRAL, Helena R. pp. 29, 167
PAULA, João Antonio de pp. 26, 79, 116, SOUZA, Maria A. L. B pp. 71, 144, 167
164 SOUZA, Hermes M. pp. 117, 167
PAVIANI, Aldo pp. 45, 71, 111, 164 SPIRN, Anne W. pp. 10, 14, 17, 18, 19, 20,
PELA, Ida & ANGEOLETTO, Fábio pp. 84, 21, 22, 23, 28, 43, 51, 52, 54, 55, 56, 57, 58,
164 61, 62, 63, 64, 78, 118, 130, 133, 134, 142,
PELLEGRINI, Giacomo C. pp. 32, 164 148, 154, 167
PESCI, Rubens pp. 21, 164 STEPHENS, Carolyn & AKERMAN, Marco
PEPONIS, John pp. 93, 94, 96, 164 pp. 34, 167
PHANTUMVANIT, Dira pp. 34, 164 SUPERINTENDÊNCIA de PARQUES e
PIGNATARI, Décio pp. 148, 164 JARDINS pp. 81, 82, 114, 167
PMS (Prefeitura Municipal de Salvador) pp. SUPERINTERESSANTE pp. 41, 167
81, 83, 164
PREFEITURA MUNICIPAL DE VITÓRIA pp. TAKAHASHI, Leide & MARTINS, S. S. pp.
44, 117, 164 52, 57, 62, 167
TEIXEIRA, Cid pp. 72, 167
QUEIJO, Maria del Carmen & MONTAÑEZ, TEIXEIRA, Wenceslau & SILVA JR, José P.
Margarita pp. 15, 164 pp. 55, 167
TENÓRIO, Fernando pp. 149, 167
RAMOS, Mário pp. 150, 164 TODD, John pp. 150, 151, 167
RAVEN, Peter H. 26, 80, 164 TOGNOLLI, Cláudio pp. 38, 167
RAVEN, Peter H. & EVERT, Ray pp. 23, 164 TOLEDO, José R. 38, 40, 167
REVISTA E pp. 115, 164 TRIBUNA da BAHIA pp. 73, 80, 167
REVISTA ÉPOCA pp.43, 164 TUR, Antonio Aledo pp. 24, 168
REVISTA do CREA / PR pp. 79, 164
REVISTA GALILEU pp. 78, 164 ULRICH, Roger S. pp. 58, 59, 61, 116, 168
RIGATTI, Décio 93, 98, 164 ULTRAMARI, Clóvis pp. 71, 168
ROCHA, Aristides pp. 63, 164 ULTRAMARI, Clóvis & MOURA, Rosa pp.
RODRIGUES, Arlette M. pp. 14, 16, 19, 33, 71, 168
39, 41, 43, 88, 111, 165
RODRIGUES, Maria G. R. & BREDT, VALE, Brenda & VALE, Robert pp. 57, 168
Angélika pp. 63, 141, 165 VERAS, Lúcia M. S. C. pp. 38, 48, 168
ROMERO, Marta Bustos pp. 52, 57, 165 VILLAÇA, Flávio pp. 111, 112, 168
ROSSEL, Quim VILLASANTE, Tomás R. pp. 125, 126, 168
VOSS, Walter
SAHTOURIS, Elisabet pp. 42, 165
SANCHOTENE, Maria do C. C. pp. 46, 52, WHITE, Anne pp. 24, 38, 66, 168
60, 62, 66, 132, 165 WILSON, Edward pp. 26, 150, 168
SANTANA, Marcos Jorge Almeida pp. 71, WINES, James pp. 17, 168
165 WORLDWATCH INSTITUTE pp. 24, 168
SANTOS, Aurora G. F. A. & CARVALHO, WWF pp. 10, 168
Adilson de pp. 49, 165
SANTOS, Laymert G pp. 25 YAMADA, Takashi pp. 124, 168
SANTOS, Milton pp. 36, 37, 39, 40, 165 YOKOHARI, Makoto pp. 57, 168
SATTERTHWAITE, David pp. 34, 165
SEPLAN 82, 83, 165 ZAREMBA, Piotr pp. 19, 21, 30, 169
SERPA, Angelo pp. 2, 14, 34, 37, 49, 68, 71, ZELAZOWSKI, Valdemar Hugo pp. 62, 169
75, 80, 89, 90, 91, 92, 99, 102, 103, 118,
119, 120, 121, 125, 150, 165
SERPA, Angelo & SERPA, Bela pp. 68, 165
SERRES, Michel pp. 89, 166
SERRA, Geraldo pp. 24, 166
SERRA, Olympio pp. 82, 91, 166
SILVA, Jair R. da; BRANCO, Ilda H. D. C.;
194

ÍNDICE REMISSIVO DE ASSUNTOS

Ação anti-microbiana das árvores pp. 58


Accra pp. 34
Acessibilidade às áreas verdes pp. 118, 119
Adestramento ambiental pp. 88
Agrotóxicos pp. 11, 12
Alto de São João pp. 32
Ambientalistas pp. 10, 11, 15, 29, 147
Ambiente de entrada pp. 22
Ambiente de saída pp. 22
Ambiente urbano pp. 19, 21, 23, 34, 43, 47,
49, 56, 102, 147
América Latina pp. 37, 40, 149
Angela Gordilho pp. 67, 68
Angelo Serpa pp. 2, 89, 92, 119
Antônia Garcia pp. 85
Antônio Imbassahy pp. 83, 84
Antônio José Landi pp. 47
Arábia Saudita pp. 79
Arborização pp. 5, 7, 8, 9, 13, 45, 46, 47, 48,
49,51, 54, 57, 63, 65, 66, 69, 73, 74, 89, 91,
100, 110, 112, 113, 116, 117, 120, 123, 124,
131, 132, 133, 134, 140, 141, 143, 152, 153
Áreas de proteção ambiental pp. 32
Arembepe pp. 35
Arnold Toynbee pp. 42
Arquitetos pp. 9, 16, 17, 18, 20, 46, 47, 68,
93, 147, 148
Arquitetura pp. 2, 17, 18, 21, 30, 52, 68, 94,
97, 98, 148, 151
Árvores pp. 2, 4, 5, 7, 9, 12, 15, 16, 22, 46,
47, 48, 49, 50, 52, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60,
61, 63, 64, 65, 77, 83, 90, 91, 110, 113, 116,
117, 118, 130, 131, 132, 133, 134, 142, 143,
147, 150, 152, 153
Avenida Suburbana pp. 70

Bacia do Rio do Cobre pp. 78


Bahia Azul pp. 75
Baía de Todos os Santos pp. 69, 75
Banco Mundial pp. 39
Barragem de Assuã pp. 20
Belém-do-Pará pp. 47
Benefícios da arborização pp. 49, 51, 58, 60,
61, 65
Bill Hillier pp. 93, 97, 98, 99, 102, 103
Biodiversidade pp. 7, 9, 13, 24, 26, 27, 46,
63, 78, 80, 109, 110, 114, 115, 116, 118,
142, 147, 148, 150
Biólogos pp. 29, 46, 148
Bioma pp. 7, 9, 23, 24, 26, 27, 29, 46, 49, 78,
195

110, 114, 117, 124, 140, 141, 147 Fauna pp. 13, 61, 62, 85, 114, 115, 117, 118,
Biosfera pp. 5, 9, 20, 25, 26, 27, 31, 37, 143, 131, 134, 140, 142, 151
147 FEBACAB pp. 82, 89, 91
Bogotá pp. 34 Filadélfia pp. 60, 154
Boston pp. 20, 22, 60 Flora pp.13, 62, 63, 85, 89, 115, 117, 142,
Brasil pp. 10 151
Brasília pp. 94, 97 Floresta tropical pp. 10, 14, 22, 78, 80, 141
Broadacre city pp. 18 Fortaleza pp. 35
Frank Lloyd Wright pp. 18
Camada de ozônio pp. 10, 14, 15 Fundo Nacional do Meio Ambiente pp. 13
Candomblé pp. 7, 81, 82, 83, 84, 89, 90, 91
Capanema pp. 11 Gestão pp. 5, 21, 82, 83, 84
Carlinhos Brown pp. 87 Globalização pp. 37, 39, 40
Categorias sintáticas pp. 99 Governo Federal pp. 13
CEASB pp. 86, 87
Chuva ácida pp.14 Homo sapiens sapiens pp. 41
CIAM pp. 16
Ciclos naturais pp. 15, 16, 24, 58, 119 IBAMA pp. 12, 13
Clima pp.24, 51, 52, 53, 55, 63, 133, 134, IBGE pp. 69
140, 149 Ilha de calor pp. 53, 54
Conjunto Habitacional José Bonifácio pp. 34 Impactos ambientais pp. 9, 18, 28, 35, 40
Corredores de vegetação pp. 13, 66, 118, Inversão térmica pp. 55
142
Corujas pp. 141 Jordânia pp. 79
José Clewton Nascimento pp. 36
Daniela Mercury pp. 87
Degradação ambiental pp. 7, 14, 31, 34, 41, Largo da Mariquita pp. 150
152 Le Corbusier pp. 17, 18
Desenho ambiental pp. 147 Líbano pp. 79
Desenvolvimento sustentável pp. 10 Lídice da Mata pp. 82
Desmatamento pp. 10, 12, 14, 83 Londres pp. 24, 25, 94
Detroit pp. 22, 58 Los Angeles pp. 25
Direita pp. 16
Dispersores de sementes pp. 5, 91, 115, Margareth Menezes pp. 87
116, 130, 131 Maringá pp. 124, 175
Diversidade vegetal pp. 9, 61, 77, 104, 110, Mata atlântica pp. 5, 13, 32, 75, 76, 77, 78,
117, 118, 124, 135, 140 142, 152
Maurício de Nassau pp. 48
Ecologia pp. 2, 5, 15, 18, 20, 21, 22, 30, 62, Mercado imobiliário pp. 32
114, 148 Microclima pp. 5, 47, 51, 52, 130
Ecologia da restauração pp. 148 Modernistas pp. 18
Ecossistemas pp. 5, 10, 14, 15, 19, 20, 22, Morcegos pp. 6, 132, 140, 141, 143
23, 26, 27, 28, 29, 31, 35, 44, 46, 48, 52, 61,
62, 63, 78, 88, 92, 114, 115, 118, 140, 147, Nanã pp. 89, 90
148 Natureza pp. 2, 5, 7, 9, 10, 13, 14, 15, 16, 17,
Educação ambiental pp. 5, 28, 84, 85, 86, 87, 18, 19, 22, 24, 26, 28, 29, 37, 41, 42, 43, 47,
88, 89, 119, 132, 142 58, 60, 63, 90, 91, 143, 147, 148, 149
Egito pp. 20, 79 Nova Iorque pp. 40, 60, 123, 143
EMBASA pp. 78, 80
Encostas pp. 43, 88 Omolu pp. 89
Ervas daninhas pp. 26, 142 Organizações não governamentais (ong's)
Especulação imobiliária pp. 35, 44 pp. 7, 10, 88, 89, 126, 150,
Esquerda pp. 16 Orixás pp. 82, 89, 90, 91
Esquistossomose pp. 20 Orla pp. 70, 88
Estado pp. 34, 36, 40, 75, 112, 149, 152 Oxum pp. 84, 89, 90
Estrada do Colono pp. 10, 12 Oxumaré pp. 89, 90
E.U.A.pp. 17
Evapotranspiração pp. 53, 54 Paisagem pp. 16, 17, 23, 47, 49, 62, 68, 73,
117
Família Martins Catharino pp. 75 Paisagem ecológica pp. 23
196

Paisagem jardim pp. 23


Paisagem tecnológica pp. 23 R. Waldo Emerson pp. 17, 18
Paisagismo pp. 63, 119, 151 Recursos naturais pp. 13, 25
Parques pp. 17, 18, 48, 60, 61, 63, 119, 123, Redes pp. 36, 37, 96, 126, 129
130, 133, 134 Renan Baleeiro pp. 33, 81, 82, 87
Parque de Pituaçu pp. 18, 142 Reservas ecológicas pp. 13
Parque Metropolitano de Pirajá pp. 43, 52, Rio de Janeiro pp. 48
69, 71, 73, 75, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, Rio do Cobre pp. 78, 80
85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 114, 115, 116, Rio Iguaçu pp. 12
116, 117, 118, 119, 135, 141, 142, 151, 152 Rio Nilo pp. 20
Parque Nacional do Iguaçu pp. 11
Parque São Bartolomeu pp. 76 Salvador pp. 5, 6, 7, 9, 13, 43, 67, 68, 69, 70,
Pegada ecológica pp. 25 81, 82, 86, 91, 92, 102, 103, 118, 119, 142,
Periferia pp. 40, 51, 66, 71, 118 149, 150, 176
Piracicaba pp. 55, 117 São Paulo pp. 33, 34, 35, 37, 38, 151
Pirajá (bairro) pp. 2, 3, 5, 6, 7, 8, 9, 33, 67, Segregação espacial pp. 73, 112
69, 71, 73, 74, 75, 79, 80, 91, 92, 96, 79, Serranópolis do Iguaçu pp. 11, 12
100, 101, 102, 103, 109, 110, 112, 113, 114, Serviços ecológicos pp. 26, 27, 62, 65, 149
118, 119, 120, 124, 126, 131, 134, 140, 143, Shopping center pp. 20, 35, 36, 54
144 Sintaxe espacial pp. 5, 7, 92, 93, 94, 95, 97,
Pirajá Rumo ao Terceiro Milênio pp. 114 98, 99, 101, 102, 103
Planejadores pp. 17, 20, 44, 47, 110, 120, Síria pp. 79
121, 127 Subúrbio Ferroviário de Salvador pp. 7, 69,
Planejamento pp. 5, 7, 8, 9, 15, 19, 20, 21, 86
39, 43, 44, 45, 59, 62, 65, 66, 68, 82, 92, 96, Superpopulação pp. 7, 40, 41, 43
99, 100, 102, 110, 112, 114, 119, 120, 123,
124, 125, 130, 131, 142, 147, 148 Tasso Jereissati pp. 36
Planejamento participativo pp. 8, 9, 45, 121, Tempo (orixá) pp. 89, 90
122, 124, 126, 128, 150 Terceiro mundo pp. 14, 34, 38, 39, 41, 79
Planejamento tecnocrático pp. 122, 123 Thomas Jefferson pp. 17
Poder público pp. 5, 7, 15, 45, 88, 124 Thoreau pp. 17
Polinizadores pp. 5, 91, 115, 116, 130, 131
Políticas urbanas pp. 21 UNESCO pp. 19, 87
Poluição pp. 7, 22, 27, 34, 40, 41, 47, 49, 55, União Européia pp. 129, 143
56, 57, 58, 61, 63, 65, 69, 75, 117, 133, 134 Urbanismo pp. 2, 16, 21, 30, 45, 81, 97, 98,
Pomares pp. 8, 89, 109 148
Porto Alegre pp. 94 Urbanistas pp. 19, 20, 21, 46, 113, 118, 124
Praças pp. 5, 34, 46, 48, 60, 61, 73, 92, 102, Urbanização pp. 7, 9, 14, 21, 22, 24, 29, 30,
112, 113, 114, 119, 123, 133, 134, 141, 149, 31, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 44, 45,
150 51, 62, 68, 70, 73, 153
Pressões urbanas sobre as árvores pp. 7, 63 Urbanização extensiva pp. 7, 9, 36, 37, 39,
Problemas causados pela arborização pp. 7, 45
65 URBIS pp. 73, 74, 113, 114
Problemática ambiental pp. 10, 152
Programa de adoção de praças Vitória (ES) pp. 44, 117
Projetos pp. 2, 5, 9, 13, 17, 20, 22, 43, 44,
45, 46, 47, 48, 59, 60, 62, 63, 75, 84, 85, 86, Washington pp. 130
88, 89, 100, 118, 119, 121, 122, 123, 124, Woodlands pp. 154
126, 127, 129, 130, 133, 143, 146, 147, 149,
150, 153, 154 Zurique pp. 154
Projeto Espaço Livre pp. 13, 102, 104, 124

Quintais pp. 3, 5, 8, 9, 48, 92, 102, 103, 104,


105, 106, 107, 108, 110, 134, 135, 136, 137,
138, 139, 140, 141, 143, 152, 153
Qualidade de vida pp. 7, 8, 9, 25, 27, 28, 33,
44, 46, 47, 103, 112, 114, 147, 154
Qualidade ambiental pp. 13, 111
Questão urbana
197

Breve Biografia do Autor

Nasci em Maringá (PR), uma das cidades mais arborizadas do Brasil, em 9 de setembro
de 1970. Dois fatores foram decisivos na minha vida: ter estudado em um bom colégio
particular (graças aos esforços de minha mãe, e a uma bolsa parcial), e ter vivido em um
ambiente onde a leitura era muito estimulada. A pouca escolaridade dos meus pais não
os impediu de gostarem muito de ler, revistas, gibis e jornais, o meu pai, e romances,
minha mãe. Assim, desde cedo me habituei a ler e ser curioso.

Entre 1989 e 1994, cursei Biologia na Universidade Estadual de Maringá. Anos de


aventuras, viagens, posições iconoclastas, primeiros contatos com o “fazer” Ciência.
Trabalhei em projetos de extensão em Maringá e em assentamentos do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, no interior do Paraná. Fui bolsista de iniciação
científica do CNPq, com o projeto Medicina Popular em Bairros de Maringá / PR.

Logo após colar grau, diploma na mochila e até logo Paraná. Chegando em Salvador, em
poucas semanas me deparo, maravilhado, com o amálgama tão peculiar entre o Parque
198

Metropolitano e o seu entorno de atividades humanas. Conhecer essa mistura mudou


minha maneira de agir como biólogo. Essa dissertação é um dos frutos dessa mudança.

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