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ABORDAGENS DA LINGÜÍSTICA CONTEMPORÂNEA DA ESTRUTURA AO USO Jan Edson Rodrigues Maria Leonor Maia dos
ABORDAGENS DA LINGÜÍSTICA CONTEMPORÂNEA
DA ESTRUTURA AO USO
Jan Edson Rodrigues
Maria Leonor Maia dos Santos

Introdução

Nesta disciplina, vamos estudar algumas áreas de pesquisa lingüística atuais:

Sociolingüística, Lingüística Interacional, Lingüística Funcional e Lingüística Cognitiva. Cada uma será apresentada por alguns princípios básicos, aspectos metodológicos, e um panorama do que é feito atualmente na área. Para iniciarmos o estudo, é interessante tomar conhecimento da distinção entre o formalismo e o funcionalismo em Lingüística.

Forma e função

Em lingüística, várias correntes são ditas formalistas, e várias outras são ditas funcionalistas. Algumas vezes elas são apresentadas como inconciliáveis por aqueles autores que optaram por alguma das duas denominações. Vamos tentar aqui apresentar uma caracterização geral dessas atitudes de pesquisa, a formalista e a funcionalista, para entender suas diferenças, e, ao final, gostaríamos de defender que, apesar de diferentes, ambas são úteis e corretas em Lingüística. Podemos nos aproximar inicialmente da oposição entre o formalismo e o funcionalismo em Lingüística pensando no papel central atribuído à forma ou à função da linguagem. Será que as línguas humanas têm uma certa forma, uma natureza intrínseca, e por isso servem para fazer certas coisas, ou será que as línguas têm certas funções, e por isso ganham determinada forma? Pense numa faca: ela tem uma forma de faca e por isso serve para cortar (a forma veio antes e determina o uso) ou ela tem

a função de cortar e por isso foi feita com essa forma (o uso veio antes e determina a

forma)? No caso da faca, que é um objeto fabricado e não da natureza, parece óbvio que foi o uso pretendido que motivou a forma. Mas imagine que você está num lugar onde não há facas, e sim muitas pedras, e precisa cortar com cuidado alguma coisa. Uma fruta bem grande e madura, como uma jaca, por exemplo, ou uma fruta-pão. Que tipo de pedra será melhor? Podemos pensar que as pedras que tiverem uma borda comprida e afiada serão a melhor escolha. A forma da pedra já está lá, e por isso ela serve para cortar a fruta. A forma, nesse caso, foi o que permitiu o uso. Isso se parece, é claro, como lembra José Borges Neto (BORGES NETO 2004:83) com o popular dilema do ovo e da galinha. O que veio primeiro? A forma, e então podemos usar algo para certo propósito, ou a função, e então modificamos as coisas para fazer o que queremos? Como o dilema do ovo e da galinha, essa é uma questão difícil de decidir, talvez impossível. No caso aqui, primeiro precisamos conhecer um pouco o que motiva as

decisões dos formalistas e dos funcionalistas em Lingüística, a história dessas posições

e o tipo de pesquisa que se faz em cada uma delas. Vamos começar pelo formalismo. Na verdade, há várias concepções de formalismo, o que é importante para entendermos as diversas reações funcionalistas.

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Se caracterizarmos o formalismo de uma maneira bem ampla como a atitude de dar

mais importância à forma da linguagem, vemos que essa é uma posição muito antiga.

O estoicismo foi uma escola filosófica antiga, iniciada em Atenas por Zenon (ou

Zenão) de Cítia, no início do século III a.C.

Podemos citar como exemplo o trabalho dos filósofos estóicos, que nos séculos

III e II a.C. se ocupavam, entre outras coisas, com o que há de comum em exemplos

como os abaixo:

1. Se não temos a última aula, os alunos podem ir pra casa mais cedo. De fato, não temos a última aula. Então, os alunos podem ir pra casa mais cedo.

2. Se o salário não foi depositado, minha conta está sem fundos. De fato, meu salário não foi depositado. Então a minha conta está sem fundos.

É claro que os exemplos dos filósofos estóicos eram outros, mas a idéia era encontrar uma forma comum a esses conjuntos de frases, alguma coisa como:

Se acontece ISSO, acontece AQUILO. De fato, acontece ISSO. Então acontece AQUILO.

Eles consideravam que era a forma comum que permitia que exemplos assim fossem usados de maneira eficiente numa argumentação. Não importa o assunto, se você construir frases seguindo o esquema, vai sempre ter o que ficou conhecido como um argumento válido, que deveria servir para convencer alguém.

Numa definição informal, um argumento válido é um conjunto de afirmações seguido de uma conclusão, que tem a seguinte característica: se todas as afirmações fossem verdadeiras, a conclusão seria obrigatoriamente verdadeira.

O silogismo é um tipo de argumento válido.

Claro que você percebeu: a forma é o que permite certo uso, certa função, que nesse caso era uma argumentação. Aristóteles, que viveu entre 384-322 A.C e ficou conhecido, entre outros feitos, como o criador da lógica, também estudou formas semelhantes de argumentos válidos, como os seus famosos silogismos:

3. Todos os professores de Letras da UFPB virtual são brasileiros. Jan e Leonor são professores de Letras da UFPB virtual. Portanto, Jan e Leonor são brasileiros.

Também nesse caso, a idéia era encontrar a forma subjacente que faz com que o

argumento seja válido, não importando qual assunto abordado (compare com “Todos os mamíferos têm coração. As girafas são mamíferos. Portanto as girafas têm coração”). Tanto os estóicos como Aristóteles estavam interessados em caracterizar, nesse caso, a forma da linguagem usada na argumentação. Um exemplo diferente de formalismo muito antigo nos estudos da linguagem – ainda definindo o formalismo de uma maneira bastante frouxa – é a descrição gramatical tradicional. A preocupação em descrever paradigmas de flexão e unidades

da oração são bons exemplos de preocupações formais. De algum modo, na descrição

gramatical tradicional, supõe-se que há uma forma inerente à língua, e que essa forma

pode ser descrita de maneira independente das situações de uso. A forma, nesse caso,

pode ser o padrão de flexão de um verbo (amava, amavas, amava, etc.), ou as partes da oração (sujeito, predicado, complementos, adjuntos, etc.). O que está em jogo é encontrar uma regularidade que já estava na língua e que não depende de estarmos conversando sobre futebol, preenchendo o requerimento de matrícula ou reclamando porque o vizinho deixou a calçada suja. Novamente, nesse caso, o que é importante é a forma, que existe antes da função e não é modificada pelo uso. Na Lingüística no século XX a situação é bastante complexa, porque nem todos concordam com o que é formalista e o que não é. Em primeiro lugar, vamos mencionar a preocupação de Ferdinand de Saussure, no Curso de Lingüística Geral, com a oposição entre língua e fala. A língua é geral, comum aos indivíduos de uma comunidade falante, em oposição à fala, que é individual e heteróclita, ou seja, composta por elementos variados e não homogêneos. O objeto da Lingüística, diz Saussure no Curso, é a língua, que não varia de uma situação de comunicação para outra, nem de um falante para outro. Vejamos o que diz Rodolfo Ilari acerca dessa opção saussureana:

“Saussure opôs claramente o sistema, entendido como entidade abstrata, e os episódios comunicativos historicamente realizados. Além disso, estabeleceu com toda clareza que o objeto específico da pesquisa lingüística teria que ser a “regra do jogo”, isto é, o sistema, e não as mensagens a que ele serve de suporte.” (ILARI 2004: 57-58)

É claro que a posição de Saussure é muito mais complexa do que a simples definição do par língua/fala, mas a caracterização da Lingüística como o estudo da língua (e não da fala) pode coexistir com uma postura formalista, ou pode ser interpretada como favorecendo uma postura assim. Aqui, não estamos mais pensando no formalismo da maneira ampla que utilizamos nos parágrafos anteriores. Formalismo aqui já não é simplesmente a atitude de valorizar e descrever a forma lingüística, mas vai além disso. A forma, nesse caso, além de importante, existe fora do uso e não depende dele, sendo mais estável do que a diversidade de enunciados possíveis, e é escolhida como objeto de estudo justamente por essa relativa estabilidade.

É curioso observar, por outro lado, que o surgimento do funcionalismo também está muitas vezes associado às propostas saussureanas e aos seus seguidores, mas não vamos tratar disso nesta introdução.

Como um segundo exemplo de formalismo mais próximo de nós, podemos lembrar o esforço dos lingüistas norte-americanos da primeira metade do século XX em descrever uma grande quantidade de línguas indígenas da América do Norte (como navajo, cherokee, choctaw, chickasaw, creek e seminole). Essas línguas eram ágrafas (não tinham escrita) e nunca haviam sido descritas, ou não havia descrições conhecidas. Um grande esforço foi feito então para elaborar métodos que permitissem aos lingüistas coletar grandes quantidades de dados, gravando ou anotando o que os falantes diziam, e depois “descobrir” a gramática da língua que estivesse sendo estudada. Por motivos que não vamos discutir aqui, alguns dos principais autores da época, como Leonard Bloomfield (1887-1949) e Zellig Harris (1909-1992), consideraram que toda descrição devia ser feita exclusivamente a partir dos dados, ou seja, o lingüista que estava estudando uma certa língua indígena não devia usar seu conhecimento de outras

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línguas para fazer nenhuma hipótese acerca das palavras, sons ou sintaxe da língua estudada.

Se você sabia, por exemplo, que muitas línguas têm uma distinção entre adjetivos e verbos, ou uma ordem básica sujeito-predicado, mesmo assim não podia usar isso na descrição, a não ser que esses padrões aparecessem nas falas que você tinha gravado ou anotado.

Além disso, esses autores consideravam que o significado das palavras, frases e textos não devia ser levado em conta para se fazer a descrição. O lingüista deveria observar quais partes da língua combinavam com quais outras partes, sem precisar saber o significado dos enunciados, de maneira que a tarefa era perceber regularidades formais, sem se preocupar com a interpretação. As formas (fonéticas, morfológicas, sintáticas) já estavam todas nos dados coletados, era preciso descobri-las. Nem mesmo a significação das palavras e frases devia ser levada em conta, e portanto nada podia ser dito acerca do texto completo, ou de uma conversação. Mais uma vez, temos uma preocupação com extrair uma forma que já está na língua, e que independe do uso, da função. Você certamente notou que aqui há um aspecto do formalismo que é diferente, por exemplo, da gramática tradicional, ou da proposta saussureana. Nem a gramática nem Saussure propunham que o significado fosse deixado de lado para se fazer a descrição da língua. É claro que os estruturalistas norte-americanos que seguiam os métodos propostos por Bloomfield ou Harris sabiam que as palavras e frases têm significado, mas – talvez motivados pela necessidade de descrever tantas línguas diferentes – propunham que o estudo fosse feito sem levar isso em conta. Se o estudo devia ser feito sem levar em conta o significado (e muito menos as situações de uso, as intenções das pessoas, etc.) é claro que eles deviam pensar que a organização da língua não é influenciada pelo significado. Esse é um tipo de formalismo um pouco mais radical, porque o significado está sendo excluído do estudo.

Entretanto, isso que estamos chamando de estruturalismo americano não era um grupo tão homogêneo. Aqueles que seguiam Edward Sapir (1884-1939) – e entre eles o brasileiro Mattoso Câmara Jr. (1904-1970) – não tentavam excluir o significado das descrições. Além disso, tanto os seguidores de Sapir, como de Bloomfield ou Harris, concordavam em considerar as línguas como intrinsecamente ligadas às culturas dos povos.

Outro exemplo sempre citado de formalismo no século XX é a posição de Noam Chomsky (1928) e dos gerativistas. Eles não estão preocupados, como os estruturalistas da primeira metade do século, em descrever as línguas a partir de grandes quantidades de dados gravados. Pelo contrário, o trabalho dos lingüistas, no gerativismo, é tentar propor um padrão abstrato que explique não só as sentenças que já existem, que alguém já pronunciou, mas também todas as sentenças possíveis na língua. Além disso, o gerativismo mantém a hipótese de que as línguas são a manifestação de uma capacidade inata para a linguagem. Essa capacidade é biológica, típica da espécie humana:

“vamos postular que o ser humano possui em seu aparato genético alguma coisa como uma faculdade de linguagem,

alocada no cérebro humano, uma hipótese plausível que se presta a marcar a diferença fundamental entre a espécie humana e todos os outros seres do planeta.” (MIOTO et al.

2007:22)

Temos aqui então um tipo de formalismo diferente dos mencionados anteriormente: não só as características da linguagem são independentes do uso, da função, como são originadas na mente e na biologia, e não na cultura. Por outro lado, de uma maneira que lembra um pouco as preocupações dos estruturalistas com a exclusão do sentido, os gerativistas propõem a modularidade da descrição, isto é, sustentam que

a descrição da sintaxe da língua é – ao menos na teoria – independente da fonologia e

da semântica. Como você pode ver, temos grandes preocupações formais nessas três correntes lingüísticas estudadas. Mas formalismo não significa a mesma coisa em todas as ocasiões. Às vezes temos apenas uma preocupação com a descrição de formas, outras vezes se diz que o significado não deve ser utilizado na descrição, e outras vezes a natureza da língua é explicada a partir de características da mente. Os vários funcionalismos lingüísticos vão se opor a algumas dessas opções, ou a todas elas.

Formalismo e Funcionalismo em Lingüística

As teorias da linguagem sempre refletem concepções particulares do fenômeno

lingüístico, concebidas em função das posturas científicas da tradição cultural em que estavam inseridas (o que é a língua, quem é o sujeito da linguagem, o que é lingüístico, o que é extralingüístico, etc.). Em cada época, as teorias lingüísticas definem, ao seu modo, a natureza e as características relevantes do fenômeno investigado. Podemos afirmar que os estudos do fenômeno lingüístico inserem-se em duas grandes tradições científicas, que correspondem a dois grandes paradigmas: o formalista

e o funcionalista. O primeiro privilegia a estrutura interna da língua e o outro, cada vez mais forte em nossos dias, busca relacionar o lingüístico e o social. A Lingüística do século XX teve um papel decisivo na consideração da relação entre linguagem e sociedade: em um momento exclui do seu método toda consideração sobre a natureza social, histórica e cultural na observação, descrição, análise e interpretação do fenômeno lingüístico (referimo-nos, aqui, à constituição da tradição estruturalista, iniciada por Saussure em seu Curso de Lingüística Geral, em 1916). Em outro momento, traz para o centro dos estudos da linguagem a preocupação com toda sorte de fenômenos capazes de afetar, em situações comunicativas concretas,

o uso que os falantes fazem da língua, seja a cultura, seja a sociedade, a história, a

ideologia, etc. (esse momento corresponde parcialmente à introdução da Pragmática no fazer lingüístico). A relação entre linguagem e sociedade, reconhecida, mas nem sempre assumida como relevante, encontra-se diretamente ligada à questão da determinação do objeto de estudo da Lingüística: a língua. Isto é, embora se admita que a relação entre linguagem- sociedade seja evidente por si só, é possível privilegiar uma determinada óptica (“o ponto de vista determina o objeto”), e esta decisão repercute na visão que se tem do fenômeno lingüístico, de sua natureza e caracterização. Saussure define a língua, por oposição à fala, como objeto central da Lingüística. Na visão do autor, a língua é o sistema subjacente à atividade da fala, mais concretamente, é o sistema invariante que pode ser abstraído das múltiplas

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variações observáveis da fala. Da fala, se ocupará a Estilística, ou, mais amplamente,

a

Lingüística Externa. A lingüística, propriamente dita, terá como tarefa descrever

o

sistema formal, a língua. Inaugura-se, assim, a chamada abordagem imanente da

língua, que, em termos saussurianos, significa afastar “tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema”.

o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema”. Saussure privilegia o caráter formal e

Saussure privilegia o caráter formal e estrutural do fenômeno lingüístico, embora reconheça a importância de considerações de natureza etnológica, histórica

e política. Saussure institucionaliza a distinção entre uma Lingüística Interna oposta

a uma Lingüística Externa. É essa dicotomia que dividirá, de maneira permanente, o campo dos estudos lingüísticos contemporâneos, em que orientações formais se opõem

a orientações contextuais, sendo que estas últimas se encontram fragmentadas sob

o rótulo das muitas disciplinas inter-relacionadas: Sociolingüística, Etnolingüística, Psicolingüística etc.

Etnolingüística, Psicolingüística etc. Dentro da perspectiva funcionalista, a língua é

Dentro da perspectiva funcionalista, a língua é conceituada como forma de interação social realizada por meio de enunciações: é um produto sócio-histórico. A concepção de língua como interação social influenciou os estudos que hoje se desenvolvem sobre a interação verbal, como a pragmática, a teoria da enunciação e a análise do discurso, e que adotam o princípio de que linguagem é ação e não meramente instrumento de comunicação. Assim, os dois grandes paradigmas da lingüística (formalismo e funcionalismo) têm diferentes concepções sobre a natureza geral da linguagem (natureza dos dados e evidências empíricas), os objetivos da lingüística, os métodos de estudo da ciência da linguagem.

Segundo Leech (1983, p.46), os formalistas (como Chomsky), tendem a observar

a linguagem principalmente como fenômeno mental. Já os funcionalistas (como

Halliday) tendem a percebê-la como um fenômeno social. Sobretudo, os formalistas estudam a linguagem como um sistema autônomo, enquanto os funcionalistas a estudam na relação com sua função social. Para Schiffrin, o funcionalismo está baseado em duas concepções básicas:

a) a linguagem tem funções que são externas ao próprio sistema lingüístico; b) as funções externas influenciam a organização interna do sistema lingüístico.

Para o formalismo, a língua é vista enquanto signo, sistema de regras estático, transparente, determinada, a-histórica, homogênea. Nesse sentido, sua unidade de análise é a gramatical, notadamente nos níveis fonológico, morfológico e sintático, no plano descritivo e explicativo das formas. Para o funcionalismo, a língua é tida como

atividade sócio-histórica, opaca, indeterminada, heterogênea e, sua unidade de análise

é a função que a língua exerce em contexto. Com isso, o objeto de estudo do formalismo é a competência lingüística, o papel do código na comunicação, as regularidades nas combinações dos constituintes, a identificação de enunciados bem formados ou não. Já o objeto de estudo do funcionalismo é a competência sócio-comunicativa, a análise de ações performativas dos usuários com um objetivo específico, em determinado contexto cultural e social, tendo em vista os conhecimentos partilhados. A língua, nesse sentido, não é usada apenas para descrever o mundo, mas para realizar ações dos usuários sobre o mundo ou mesmo sobre outros usuários. Não se trata apenas de atos de dizer, mas de atos de fazer no uso da língua. Ainda que os formalistas não neguem que a língua possua funções sociais

e cognitivas, essas não interferem no sistema, nem constituem objeto de estudo da

Lingüística. Por sua vez, ainda que os funcionalistas não neguem a forma, o discurso

não é percebido apenas como uma seqüência de unidades lingüísticas, mas envolve, sobretudo, o contexto. De qualquer modo, os dois paradigmas ratificam uma visão dicotômica na relação entre forma/função; individual/social; sujeito/objeto; subjetivo/objetivo. Atualmente, os estudos lingüísticos e das ciências em geral buscam superar essa dicotomia, pleiteando uma visão holística dos fenômenos.

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Síntese das características dos paradigmas Formalista e Funcionalista

ASPECTO

FORMALISTA

FUNCIONALISTA

CONTEXTO

Texto

Texto + informações extralingüísticas

UNIDADE DE ANALISE

Gramatical (morfema, fonema etc).

Funcional (atos de fala)

OBJETO DE ESTUDO

Competência lingüística

Competência sócio- comunicativa

AQUISIÇÃO

Capacidade inata

Inferência a partir do uso

LÍNGUA

Código/sistema

Atividade

UNIVERSAIS

Decorrentes das propriedades inatas

Decorrentes dos usos

LINGUÍSTICOS

OBJETIVO DA ANÁLISE

Descrever as regularidades e regras de boa ou má formação

Explicar a adequação ou inadequação

Hymes (1974) sugere que os aspectos abaixo indicados contrastam a abordagem estrutural e funcional:

 

Paradigma estrutural

 

Paradigma funcional

1.

Estrutura da linguagem (código) como

1.

Estrutura a língua como realização

gramática.

da fala

2.

Análise do código antecede a análise

2.

A análise do uso é prioritária à do

do uso

código

3.

Função referencial – preenchimento

3. Há um conjunto de funções estilísticas ou sociais

dos usos semânticos como norma

4.

Elementos e estruturas são

4.

Elementos e estruturas como

analiticamente arbitrários

etnograficamente apropriados

5.

Equivalência funcional entre

5.

Diferenciação funcional entre as

as línguas. Todas as línguas são essencialmente iguais

línguas, variedades, estilos

6. Há relação de homogeneidade entre código e comunidade

6. Comunidade de fala como matriz do código ou dos estilos de fala (organização da diversidade)

7.

Conceitos fundamentais como:

7.

Conceitos básicos são tidos

comunidade de fala, ato de fala, fluência,

como problemáticos e merecem ser

funções da língua são dados como garantidos ou arbitrariamente postulados

investigados

Dik (1978) também faz uma comparação detalhada entre formalismo e funcionalismo:

PARADIGMA FORMAL

 

PARADIGMA FUNCIONAL

1. Uma língua é um conjunto de sentenças

1.

Uma língua é um instrumento de

interação social

2. A função primária de uma língua é a

2.

A função primária de uma língua é

expressão de pensamentos

comunicação

3.

O correlato psicológico de uma

3.

O correlato psicológico de uma

língua é a competência: a capacidade de produzir, interpretar e julgar sentenças

língua é a competência comunicativa:

habilidade promover interação social por meio da linguagem

a

4.

O estudo da competência tem

4.

O estudo do sistema da linguagem

prioridade lógica e metodológica sobre o

deve estar inserido dentro do seu

estudo do desempenho

sistema de uso

5.

As sentenças de uma língua devem ser

5.

A descrição dos elementos

descritas independentemente do contexto

lingüísticos do uso da língua deve apresentar pontos de contato para a

do funcionamento, dada a situação em que estão sendo usadas

e

descrição do seu contexto.

6. A aquisição de linguagem é inata

6. A criança descobre o sistema subjacente à língua e ao seu uso, auxiliada por uma entrada de dados lingüísticos extensiva e altamente estruturada, apresentados em contextos naturais.

a entrada de dados é restrita e não estruturada (teoria da pobreza de estímulo)

7.

Os universais lingüísticos são

7.

Os universais lingüísticos são

propriedades inatas ao organismo

coerções inerentes aos objetivos da

biológico e psicológico humano

comunicação, à constituição dos

usuários da língua e aos contextos onde

a

língua é usada.

8.

Sintaxe é autônoma com respeito

8.

A pragmática é o esquema no qual

à semântica; sintaxe e semântica são autônomas com relação à pragmática e as prioridades vão da sintaxe via semântica em direção à pragmática.

a

semântica e a sintaxe devem ser

estudadas; a semântica é subordinada

à

pragmática e as prioridades vão da

pragmática via semântica para a sintaxe.

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UNIDADE I UNIDADE I SOCIOLINGÜÍSTICA 1. A sociolingüística e o paradigma funcionalista
UNIDADE I
UNIDADE I
SOCIOLINGÜÍSTICA
1. A sociolingüística e o paradigma funcionalista

A Sociolingüística se posiciona no paradigma lingüístico representado pelo modelo teórico funcionalista. As várias definições de Sociolingüística como “o estudo da linguagem em relação à sociedade”; como uma “tentativa de construir um discurso coerente sobre o relacionamento entre uso da linguagem e os modelos sociais de vários tipos”; como “parte da lingüística que se interessa pela linguagem enquanto um fenômeno social e cultural”; como “o estudo da linguagem como fenômeno social”; como “o estudo das características das variedades da linguagem, as características de suas funções e as características de seus falantes, como estes três elementos interagem constantemente, mudam, e mudam um ao outro dentro de uma comunidade de discurso”; ou como o “estudo das várias realizações lingüísticas dos significados socioculturais em que a ocorrência de interações sociais cotidianas é relativa a culturas particulares, a sociedades, a grupos sociais, a comunidades lingüísticas, línguas, dialetos, variações, estilos” (Figueroa, 1994, p. 25) confirmam o objeto da Sociolingüística como sendo o mesmo do paradigma mencionado. Desta forma, levando-se em conta a natureza social da linguagem, as áreas de interesse da Sociolingüística incluem alguns fenômenos sociais e culturais, tais como as estruturas e padrões sociais; as variedades lingüísticas, como os dialetos e estilos; os grupos sociais, como as comunidades lingüísticas; as funções da linguagem na sociedade; a mudança lingüística; o sentido sociocultural e a interação social. O tema da Sociolingüística é definido por Aracil (1978) como sendo o “uso da língua – o enfoque sociolingüístico obviamente difere daquele da lingüística propriamente dita, centralizado nas condições existenciais. Enquanto a lingüística separa a língua das estruturas socioculturais não-lingüísticas, a sociolingüística a relaciona com elas”. Do mesmo modo, Romaine (1982) escreve: “O contraste entre lingüística

propriamente dita e sociolingüística repousa no fato de que a estrutura da língua constitui

o tema da lingüística, enquanto o uso da língua é deixado para a sociolingüística.

Uma teoria sociolingüística, entretanto, pressupõe uma teoria lingüística; se é para ser verdadeiramente interativa, deve-se relacionar estrutura e uso.” Ao afirmar que “o tema da sociolingüística é o uso da linguagem” Figueroa (1994, p. 26) ressalta também que, em sendo a sociolingüística o estudo da enunciação (falada, escrita, simbolizada), várias questões precisam ser levadas em consideração:

uma enunciação é a realização da língua em um contexto particular e não pode haver uma descrição adequadamente contextualizada de enunciação que exclua os agentes que produzem a enunciação, bem como os contextos em que a enunciação ocorre. A Sociolingüística moderna tem base nas teorias desenvolvidas por William Labov, na década de 1960, no contexto cultural dos Estados Unidos da América. A teoria de Labov, conhecida como Sociolingüística Variacionista – porque estuda os processos de variação e mudança lingüística segundo uma metodologia quantitativa,

a partir de variáveis sociais e lingüísticas – é apenas um desdobramento da

preocupação dos estudos da linguagem a partir da realidade social. Outros teóricos,

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simultaneamente a Labov, desenvolveram disciplinas sociolingüísticas, abordando dimensões diferentes da relação linguagem-sociedade. Um deles é Dell Hymes, que adota a dimensão interdisciplinar da linguagem, ocupando-se de aspectos culturais e etnográficos relativos aos usos lingüísticos de uma comunidade, sob forte influência da antropologia lingüística. Outro é John Gumperz, que se ocupa da dimensão interacional dos usos da linguagem, em eventos lingüísticos face a face. Essa teoria é denominada Sociolingüística Interacional.

2. Premissas da Sociolingüística:

1. Relativismo

cultural

2. Equivalência funcional de todas as línguas

3. Heterogeneidade lingüística regular

4. Igualdade essencial entre as variedades lingüísticas

Princípio que prega que uma crença e/ ou atividade humana individual deva ser interpretada em termos de sua própria cultura. Defende a validade e a riqueza de qualquer sistema cultural e nega qualquer valorização moral e ética dos mesmos

Defende a validade e a riqueza de qualquer sistema cultural e nega qualquer valorização moral e

A equivalência funcional entre línguas ou variedades significa que essas se equivalem, tanto em sua estrutura quanto em seu uso, ou seja, todas as línguas têm igual complexidade

Diferentemente do que sugerem as gramáticas pedagógicas, a língua não é um fenômeno homogêneo. A regra é a variação, a mudança, a heterogeneidade.

Não apenas as línguas são funcionalmente equivalentes. Dentro de uma comunidade lingüística, as variedades empregadas por grupos sócio-culturais diferentes são equivalentes, não podendo ser descritas como melhores, mais complexas ou mais bonitas do que outras variedades.

Stella Bortoni aponta que o relativismo cultural é uma postura adotada nas Ciências Sociais, inclusive na Lingüística, segundo a qual uma manifestação de cultura prestigiada na sociedade não é intrinsecamente superior a outras. Quando consideramos que as variedades da língua portuguesa, empregadas na escrita ou usadas por pessoas letradas quando estão prestando atenção à fala, não são intrinsecamente superiores às variedades usadas por pessoas com pouca escolarização, estamos adotando uma posição culturalmente relativa e combatendo o preconceito baseado em mitos que perduram há muito tempo em nossa sociedade. Ainda no dizer de Bortoni (1997, p. 2), desde os anos sessenta a Sociolingüística vem lutando em favor do que chama de igualdade essencial das variedades lingüísticas e teve que lidar com as correlações entre os dialetos das crianças e seu sucesso educacional. Como exemplo, cita a pesquisa realizada por Kelmer Pringle e associados

(Stubbs, 1980), que trata do desempenho na leitura, abaixo da média nacional, de crianças consideradas de classes sociais inferiores ou de minorias étnicas. Essa pesquisa

agrupou 11.000 alunos na faixa de sete anos em três grupos: leitores bons, médios e pobres, usando como parâmetro, sua performance no Teste de Reconhecimento de Palavras Southgate. A porcentagem de leitores fracos na classe alta foi de 7,1%; na classe média, 18,9% e na classe baixa, mais que 26,9%. O esforço da Sociolingüística tem sido o de tratar os conflitos dialetais como apenas diferenças e não deficiências. Para William Labov (1987, p. 10), no entanto, “a causa primária do fracasso escolar não é a diferença entre as linguagens, mas o racismo institucional”.

3. Dimensões da Variação/Mudança Lingüística:

Uma concepção idealizada de norma nega qualquer tipo de validação às variedades lingüísticas. Estas, ao contrário da norma ideal, dizem respeito aos parâmetros lingüísticos que cada comunidade adota em função não apenas nas necessidades comunicativas, sociais e contextuais, mas em respeito a regras lingüísticas de mudanças, que operaram no decorrer do tempo sobre os princípios gerais daquela língua.

Por exemplo, a língua portuguesa falada no Brasil sofreu, ao longo dos quinhentos anos de seu uso em nosso território, inúmeras transformações, seja pelo contato com outras línguas da colonização (as línguas indígenas, as línguas africanas, as línguas dos invasores), seja pelo convívio com as línguas dos imigrantes (japoneses, italianos, alemães), seja pela distância geográfica em relação aos centros onde as mudanças sociais eram mais freqüentes (os sertões em relação às capitais do Império, por exemplo), seja pelas necessidades de cada lugar (a instalação das indústrias no sudeste, a agricultura de subsistência no norte-nordeste, a produção canavieira nos litorais). Essas transformações são observadas com muita clareza no Brasil, basta que constatemos os contrastes entre as diversas regiões. O resultado é que temos um país em que a língua utilizada pela maioria dos falantes é o Português, e que no entanto, não se pode considerar essa língua como homogênea, já que apresenta variações que a tornam muito particular em relação às comunidades que as adotam. Essas variedades têm normas diferentes umas das outras, e essas normas são consensualmente utilizadas pelos falantes. Não se pode dizer, portanto, que uma variedade do português seja mais bem empregada do que outra, visto que seu uso é sempre coerente com a norma. Variedade lingüística não é erro ou desvio. É uma forma legitima de uso de uma língua que sofreu processos naturais de variação e mudança no seu desenvolvimento. A variação lingüística não ocorre apenas no Brasil, todas as línguas do mundo passam por esse processo, mas é mais fácil de notá-la em um país com a dimensão do nosso, pois o processo de mudança não é homogêneo, ou seja, não ocorre ao mesmo tempo em todas as regiões em que a língua é falada. As variações lingüísticas são, pois, as diferentes realizações de uma dada língua, que resultam de fatores de natureza histórica, regional, social ou contextual. Essas variações podem ocorrer nos níveis fonético e fonológico (a realização efetiva de um determinado som na língua, por exemplo o R retroflexo, utilizado no interior de São Paulo, para indicar pejorativamente a fala caipira), morfológico (a realização de uma concordância de número, em que apenas um termo recebe a marca do plural, como em as meninaØ), sintático (como a colocação pronominal, amplamente usada no Brasil, em orações do tipo “me dá um cigarro”) e semântico (encontrada na diferença lexical de diversas regiões, como os adjetivos doce e melado). O estudo da variação lingüística pode ser feito a partir da observação das

261

262

mudanças sob vários aspectos: a) o aspecto diacrônico (do grego dia+kronos = ao longo do tempo), que explica as manifestações diferentes de uma língua através dos tempos. No português brasileiro, é possível observar a mudança do português colonial com relação ao português moderno, especialmente pela presença de dados escritos daquela variedade, como também pelo uso de formas típicas do português colonial, preservadas nas variedades de algumas regiões do Brasil. b) o aspecto sincrônico (do grego sy’n = simultaneidade), que explica as variações num mesmo período de tempo, como os usos de uma variedade da atualidade em relação a outra, a exemplo do português falado no sul e no nordeste. Os demais aspectos, por sua relevância na explicação do Português Brasileiro, serão analisados em seção própria.

3.1. Variação diatópica, diafásica e diastrática.

Entre os diversos processos de variação que ocorrem em uma determinada língua, destacaremos aqueles que dizem respeito aos contextos sociais que impõem a essa língua, normas de uso específicas, diferentes de outras normas encontradas em outras variedades.

A variação diatópica (do grego topos = lugar), também reconhecida como

variação geolingüística ou variação dialetal, é o tipo de processo relacionado a fatores

geográficos, como o uso de pronúncia diferente em diferentes regiões, diferentes palavras para designar os mesmo conceitos, acepções diferentes de um termo de região para região, expressões ou construções frásticas próprias de uma região, etc. A variação diatópica diz respeito aos processos de identificação da norma lingüística com os usos aceitáveis em lugares ou regiões diferentes de onde se fala a língua padrão. Assim, pode-se perceber que os lugares que se afastam geograficamente do centro onde se usa a variedade padrão, adotam normas lingüísticas diferentes daquele. Isso pode acontecer por diversos motivos: as regras lingüísticas que afetaram a padrão podem não ter afetado essa variedade, os usos sociais da língua nessa região

podem ser diferentes de outra, influências de outras línguas podem ser mais presentes no centro do que na região onde se fala a variedade não-padrão, etc. O exemplo clássico da variação diatópica é o falar rural em oposição ao urbano. Nesse exemplo, percebe- se que a mudança ocorreu com menos freqüência na variedade rural, que preserva várias formas do português medieval, enquanto que o falar urbano sofreu influências de diversos tipos, como processos de industrialização, de imigração, etc.

A variação diafásica (do grego phasis = fala) é relacionada às diferentes

situações de comunicação e a fatores de natureza pragmática e discursiva, que são

impostos em função do contexto de uso da língua. Esses fatores levam o falante a adaptar-se às circunstâncias comunicativas, por meio da variação do registro de língua, seja para mais formal, ou para mais informal. Em lingüística, o termo registro designa a variedade da língua definida de acordo com o seu uso em situações sociais. Assim, registros lingüísticos são os diversos estilos que um falante pode usar em uma situação comunicativa dada. Em uma conversa informal com os amigos, por exemplo, utilizará um registro diferente do que utiliza em família, ou no emprego, ou na Universidade.

A variação diastrática (do grego stratos = camada, nível) refere-se aos modos

de falar que correspondem a códigos de comportamento de determinados grupos sociais. A variedade diastrática corresponde ao uso lingüístico partilhado por um grupo

social, cujos membros mantêm entre si relações de identidade que os diferenciam em relação a outros grupos (por exemplo, o uso de gírias, de jargão profissional, etc.).

Entre os fatores relacionados à variação social, encontramos a classe social, situação ou contexto social, idade, sexo, etc. A classe social é um fator que tem estreita ligação com a escolha de variedades lingüísticas de uso. Em países como a Índia, em que o sistema de estratificação social

é bastante fechado, a língua utilizada por uma casta superior, não pode ser usada por

uma inferior. No Brasil, alguns membros da elite intelectual insistem em identificar

a variedade padrão da língua com a classe alta. Essa identificação não procede, uma vez que tal classe se define em termos de poder econômico, e não em função de

escolaridade. Pode-se dizer que num país mais agrícola do que industrializado, como

o Brasil, o poder econômico se concentra mais nas mãos dos grandes produtores e

fazendeiros e dos altos empresários da indústria do que na elite intelectual. Assim, a

variedade lingüística em torno de classes, no Brasil, é mais aberta, não podendo ser identificada com uma classe apenas. Assim, é importante que se compreenda que um falante de uma variedade social pode utilizar outra variedade para comunicação, o que destaca a relevância de todas as variedades e sua adequação às necessidades de uso. A situação ou contexto social define a variedade lingüística a ser utilizada

a partir da relação mutua entre dois falantes ao discutir um dado assunto, em uma

dada situação. Há contextos que exigem maior formalidade, como os institucionais, relacionados à escola, ao trabalho, às atividades públicas; e contextos em que a informalidade é a regra a se seguir, como nos contextos privados. Assim, em relação à pessoa a quem se dirige, o falante pode utilizar uma variedade mais ou menos formal, dependendo se o seu interlocutor é mais velho, ou superior hierarquicamente, ou se trata de um par; dependendo também do lugar onde os falantes se encontram, se em um bar, uma igreja ou uma escola; bem como do tema sobre o que se conversa, um assunto sério, amenidades, etc. No que diz respeito à variação social, segundo os fatores sexo e idade, observa- se que alguns recursos expressivos, como o alongamento de vogais, o uso freqüente de diminutivos, entre outros são mais comuns na fala da mulher do que na do homem, enquanto que o registro social por meio de gírias, palavrões, etc. são mais freqüentes na variedade usada por esses. Gírias, palavrões e outras marcas do registro informal são também mais freqüentes nas variedades usadas por jovens (homens e mulheres) do que na faixa etária de mais idade. O uso de certos pronomes (como o tu) ocorre com mais freqüência entre jovens, enquanto certas pronúncias (como senhora, com o fechamento da vogal o) são mais comuns entre os mais velhos.

Categorias de análise da sociolingüística

Variante

Identificação de formas usadas simultaneamente sem alteração de sentido

Variável

Fator ou grupo de fatores que determinam o uso de uma variante

Variação

Processo comum e natural às línguas. Pode ser instável ou estável.

A análise das variantes define:

1.

A co-existência estável entre variantes – ocorre assim o fenômeno da Variação;

263

264

2.

A competição entre variantes com aumento do uso de uma delas – ocorre assim

a Mudança em curso

 

1.

Sexo

2.

Idade

3.

Nível de Escolaridade

Variáveis sociais (extralingüísticas):

4.

Contexto Lingüístico (Região)

5.

Classe Social Etnia

 

6.

7.

Rede social

O peso dos fatores sociais tem sido minimizado, pois reformulações na teoria

variacionista destacam motivações essencialmente lingüísticas para a variação/

mudança. Diante de duas variantes, por exemplo, /cantandu/ e /catanu/ (ambas referindo- se ao gerúndio do verbo cantar), o sociolingüista considera:

Qual o contexto social de uso de uma das variantes pelo mesmo falante

Em que contextos específicos uma forma tende a ser usada pela comunidade lingüística

Há diferença no uso de uma das formas, de acordo com faixa-etária do falante?

Há diferença no uso de uma das formas, segundo o nível de escolaridade do falante?

Há diferença no uso de uma das formas, de acordo com o nível socioeconômico do falante?

Há diferença no uso de uma das formas, de acordo com o nível registro de linguagem (formal ou informal) empregado pelo falante?

4. A Sociolingüística Interacional

A Sociolingüística Interacional pode ser considerada como um desenvolvimento contemporâneo da Sociologia da Linguagem, da Etnografia da Comunicação e da própria Sociolingüística do tipo variacionista da qual William Labov (1966, 1972) é o principal representante. Atuantes da área de Sociologia como Goffman (1967, 1974) e Garfinkel (1967) contribuíram para alguns dos fundamentos da Sociolingüística Interacional, especialmente no que diz respeito à análise da conversação. Este primeiro influenciou muitos teóricos da Sociolingüística Interacional através de seus trabalhos sobre interação social. O último também o fez através de um modo particular de lidar com a sociologia, ao qual ele denominou Etnometodologia. Os filósofos da linguagem cotidiana (ou Ordinary Language Philosophers) como Strawson (1950), Austin (1962) e Grice (1968), estabelecidos principalmente em Oxford e que buscavam esclarecimento de conceitos à luz do emprego corrente dos termos da linguagem comum que os designam, também tiveram grande influência na fundamentação da teoria da Sociolingüística Interacional, no que diz respeito à pragmática e às teorias sobre atos de fala. As noções de contexto e competência comunicativa desenvolvidas por Hymes (1962) para sua Etnografia da Comunicação também forneceram subsídios para a análise interacionista proposta pela Sociolingüística Interacional, mas foi John

Gumperz (1971, 1982) quem desenvolveu e definiu o tipo particular de sociolingüística que é reconhecido atualmente como um paradigma distinto. Consoante Figueroa (1994) a Sociolingüística Interacional de Gumperz se

diferencia das teorias que a precederam por ocupar-se do comportamento do indivíduo numa situação de comunicação face a face ao tratar a linguagem enquanto fenômeno social. Prática que até então não havia sido levada em conta por Labov e outros nomes

da sociolingüística, preocupados especialmente com os “agregados populacionais”.

Os pontos que separam Gumperz de Labov e tornam a Sociolingüística Interacional uma teoria distinta dos modelos anteriores são, em primeiro lugar, a escolha deste tipo de comunicação face a face, ou seja, um tipo que elege o indivíduo para ser o ponto de interesse da análise lingüística. Esta escolha exclui a análise baseada

nas médias obtidas em comunidades de falantes, o que, na maioria das vezes, produz apenas generalizações estatísticas baseadas em dados coletados segundo métodos de inquéritos e não dados validados pela análise profunda da competência lingüística. O segundo ponto de divergência consiste no fato de o interesse de Gumperz concentrar- se no conhecimento individual e suas problemáticas: o que é partilhado desse conhecimento, como ele é distribuído e até que ponto ele é significante e generalizável; esta preocupação não se verifica no nível do discurso da comunidade lingüística.

O terceiro ponto refere-se à aceitação, por Gumperz, da teoria do ‘comportamento

individual’ que vê na interação uma constituinte da realidade social. Assim, a teoria de Gumperz se situa no terreno das interações humanas onde os significados, ordens e estruturas não são predeterminados, mas se desenvolvem na interação e se baseiam num conjunto complexo de fatores materiais, experienciais e psicológicos (Figueroa, 1994, p.113). Gumperz rejeita a separação de língua do seu contexto social e se interessa pelo conhecimento de como o comportamento lingüístico cria interpretações, de como as intenções individuais levam ao comportamento lingüístico, e de como o sucesso da comunicação está relacionado ao conhecimento sociolingüístico. A teoria da Sociolingüística Interacional enfoca diretamente “as estratégias que governam o uso, por parte do falante, dos conhecimentos lexicais, gramaticais, sociolingüísticos ou de outra natureza, na produção e interpretação das mensagens em

contexto” (Figueroa, 1994, p.113). Este processo só é possível pelo uso de pistas de contextualização, ou “qualquer traço de forma lingüística que contribui para assinalar pressuposições contextuais”, que permitem acessar a forma como a intenção do locutor está sendo comunicada e interpretada. De forma um pouco diferente dos etnometodologistas, que ao analisar um ato conversação, procedem à seqüenciação do ato, à verificação de como este ato é conseqüência de um anterior, ou como é seguido sistematicamente por outro, Gumperz

se ocupa mais da interpretação da intencionalidade conversacional do que da análise

estrutural de ordem social. Os etnometodologistas desenvolveram unidades de análise, tais como turnos, pares adjacentes, tópicos, ações de reparo, entre outros, que também são utilizados por Gumperz ao fazer Sociolingüística Interacional, mas este inclui em sua análise traços lingüísticos de ordem supra-segmental, como entoação, ritmo, que são usualmente ignorados pelos analistas da conversação. A unidade mínima de significação social de que se ocupa a análise da Sociolingüística Interacional é a atividade ou evento de fala, termo definido como um “conjunto de relações sociais realizadas segundo um conjunto de esquemas em relação a algum propósito comunicativo” (Figueroa, 1994, p.13). A atividade de fala pressupõe a análise da interação entre os participantes, porque é através dela que as expectativas

265

266

dos participantes sobre as atividades subseqüentes, em relação ao curso de um evento de interação, são reavaliadas, desenvolvidas e até mudadas. Sendo assim, a interação produz um processo de interpretação de sentido dinâmico. A interação produzida através das trocas conversacionais é dotada de algumas propriedades dialógicas que permitem ao analista chegar a processos de inferência de sentido. Uma destas propriedades é a possibilidade de negociação das interpretações entre falante e ouvinte, cujos julgamentos são confirmados ou mudados segundo as reações que eles produzem no interlocutor. Assim, não é possível que um único enunciado produzido pelo falante seja suficiente para que o ouvinte faça inferência de tal ou qual interpretação. A segunda propriedade é a afirmação de que a conversação contém em si mesma, evidências internas do que será seu resultado. Gumperz dá como exemplo dessa propriedade a possibilidade de os participantes compartilharem ou não das convenções interpretativas, ou de serem bem sucedidos ou não em atingir os fins da teoria comunicativa. A Sociolingüística Interacional, vista deste modo, é uma teoria fundamentada no discurso e não no nível da sentença, e se interessa mais pela comunicação de intencionalidade do que de gramaticalidade. Os traços básicos de uma língua são classificados por Gumperz como traços nucleares ou centrais e traços marginais ou periféricos. A Sociolingüística Interacional se concentra no estudo dos traços considerados marginais, que tratam da função expressiva da linguagem e envolvem aspectos supra-segmentais como entoação, ritmo, escolha entre opções lexicais, fonéticas e sintáticas, além de sempre basear sua análise em termos de linguagem contextualizada, servindo aos propósitos da comunicação. A teoria lingüística vigente, por outro lado, considera apenas os traços nucleares que carregam informações referenciais. Estes traços são de cunho segmental e funcionam apenas ao nível da sentença. São alguns deles os fonemas segmentais, os marcadores gramaticais ou afixos, as categorias sintáticas básicas e alguns elementos de acentuação, que tratam da linguagem de forma descontextualizada e idealizada.

UNIDADE II UNIDADE II LINGÜÍSTICA INTERACIONAL 1. A noção de interação na Lingüística:
UNIDADE II
UNIDADE II
LINGÜÍSTICA INTERACIONAL
1. A noção de interação na Lingüística:

O interesse pelo fenômeno da interação social na Lingüística é geralmente

atribuído à abordagem da linguagem verbal humana, em sua modalidade oral, por meio

da análise das ações comunicativas entre os falantes e os ouvintes. Várias correntes teóricas da Lingüística, como as análises do discurso, a sociolingüística, a análise da conversação, etc. ao abordar o fenômeno interacional renovaram o enfoque dos estudos da linguagem, passando a ocupar-se com a chamada gramática oral.

O funcionamento e o uso da língua em situações concretas no cotidiano dos

falantes, assim como a função sócio-comunicativa das produções lingüísticas, nesse novo enfoque, passaram a ter prioridade sobre a análise formal das estruturas da língua. Essa mudança de foco de análise é geralmente denominada de mudança ou virada pragmática (do inglês, “pragmatic turn”).

Virada pragmática: na virada pragmática o funcionamento e o uso da língua em situações concretas no cotidiano dos falantes têm prioridade sobre a análise formal, assim como a função sócio-comunicativa e o enquadre cognitivo das produções lingüísticas e não-lingüísticas.

Entretanto, antes da própria virada pragmática, outras abordagens denominadas interacionistas já haviam se estabelecido no campo de estudos da linguagem, voltadas especialmente para a investigação da fala infantil (Lev Vygotsky, 1896- 1934) e dos processos sociais que motivam a produção dos enunciados verbais (Mikahil Bakhtin, 1895-1975).

 

Lev Semionovitch Vygotsky

Mikhail Mikhailovich Bakhtin

A perspectiva de Vygotsky (1896-1934),

Bakhtin se opõe a uma noção de língua que seja fundada tanto em sua forma objetiva como na subjetividade pura. Ao invés disso, adota a concepção de dialogismo ou interação. Para o autor, a linguagem tem natureza sócio-ideológica. Há, portanto, entre linguagem e sociedade relações dinâmicas e complexas que se materializam nos enunciados constituídos em discursos.

denominada sócio-interacionismo ou interacionismo sociocultural, trata do papel das interações sociais aplicadas à gênese da linguagem e ao desenvolvimento cognitivo

da

criança. Em sua abordagem, a interação

social e a linguagem são fundamentais para

o

desenvolvimento humano. O indivíduo,

em sua opinião, não é apenas ativo, mas

interativo, porque constrói conhecimentos e

 

constitui como sujeito a partir de relações intra e interpessoais.

se

“A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas lingüísticas nem pela enunciação monológica e isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema lingüístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes” (BAKHTIN, 1992, p. 109-110)

O

desenvolvimento cognitivo se processa

na internalização da interação social com

os

dados disponíveis culturalmente, em um

processo construído de fora para dentro, ou seja, trata-se de um processo que caminha

do

plano social (relações interpessoais) para

o

plano individual interno (relações intra-

pessoais). Nessa perspectiva, internalizamos conhecimentos, construímos papéis e funções sociais, no intercâmbio com outros

sujeitos e conosco próprios.

267

268

Os estudos da interação social consideram que a conversação (fenômeno lingüístico de base) é um dos lugares fundamentais onde se estabelecem o vínculo e a ordem social; onde se realiza a socialização dos indivíduos; onde os falantes adquirem suas capacidades comunicativas; e onde a língua é usada de maneira prototípica. Em razão disso, a organização da conversação não pode ser indiferente à organização social nem à estruturação dos recursos lingüísticos. Postula-se, então, que o fenômeno interacional integra, em termos lingüísticos, as dimensões pragmáticas (funcionais) e estruturais (formais) da linguagem. Duas hipóteses sobre essa questão são formuladas por Lorenza Mondada, lingüista suíça (2001, p.15):

1. As formas lingüísticas são usadas como o recurso à interação. A organização da interação explora estes recursos de acordo com suas especificidades e suas características formais. Em termos práticos, gerenciamos a interação através do emprego de estruturas lingüísticas (marcas sintáticas, discursivas, lexicais) que se organizam por modelos interativos seguidos em nossas práticas de linguagem.

2. As formas lingüísticas não são apenas exploradas interacionalmente, mas são configuradas também pela interação. Sua adequação à atividade de conversação não seria uma mera possibilidade, mas uma conseqüência do fato de que os falantes estruturam os recursos da língua para a interação.

Ao propor as bases de uma Lingüística Interacional, teóricos como Lorenza Mondada reflete sobre as conseqüências de se adotar integralmente a dimensão interacional dos fenômenos lingüísticos. Algumas destas conseqüências são:

o reconhecimento do papel constitutivo da interação social na própria estruturação dos recursos lingüísticos, ou seja, a interação social não apenas estabeleceria os modelos para o uso da língua em suas situações comunicativas, mas a própria escolha dos recursos lingüísticos que usamos (as estruturas, os sentidos, a organização sintática) seria feita de acordo com a dinâmica interacional.

o fato de que a análise interacional permite conceber um modelo de práticas sociais dos falantes que expliquem os fenômenos dinâmicos e emergentes da linguagem, ou seja, os processos locais de variação social e as mudanças lingüísticas (sintáticas, semânticas, pragmáticas) seriam decorrentes de alterações nos modelos interacionais utilizados nas práticas sócio-comunicativas dos falantes.

Duas grandes tradições lingüísticas se estabeleceram fortemente a partir da segunda metade do século XX: a tradição do produto e a tradição da ação.

 

Tradição do Produto

 

Tradição da Ação

Iniciada ainda no século XIX com os

A

tradição da ação foi postulada,

neogramáticos se estendeu até Saussure

sobretudo,pelospragmaticistas,analistas da conversação e etnometodólogos, que

e

Chomsky, tornando-se paradigmática

a partir do tratamento dado à língua pelo gerativismo, como sendo um produto bem definido da fonologia, da morfologia,

definem o funcionamento da língua em níveis de ação, desde os níveis estritamente lingüísticos até os da

da semântica e da sintaxe. Esta tradição tem como características o fato de que

enunciação, da modalidade, da cognição,

da

situacionalidade, etc. A lingüística

o

aspecto estrutural é mais básico do

interacional subscreve essa tradição, em

que o aspecto do uso e de que a língua é autônoma e suficiente para centrar sua análise no nível da frase.

vista de seu objeto de estudo tratar-se de

um

tipo de ação intersubjetiva.

Para Herbert Clark (1992, 1996) o uso da linguagem é, de fato, uma forma de ação conjunta, e por ação conjunta entende-se aquela que é levada a efeito por um conjunto de pessoas agindo coordenadamente em relação às outras. O uso da linguagem, portanto, incorpora ambos os processos individuais e sociais da interação social.

2. Objeto de Estudo da Lingüística Interacional:

A comunicação face a face

O que as pessoas fazem ao usar linguagem é realizar ações intencionalmente. Em um dado nível de abstração elas negociam e conhecem uns aos outros, etc., em outro nível, fazem afirmações, pedidos, promessas, pedem desculpas, categorizam objetos, referem-se às pessoas e situam as coisas. Todas essas ações são conjuntas. Mas, o que são e como funcionam as ações conjuntas? Alguns dos traços mais elementares usados para entender a linguagem e seu uso como ação conjunta são apresentados por Clark (1996, p. 23), abaixo resumidos:

A linguagem é fundamentalmente usada para propósitos sociais.

O uso da língua é essencialmente performativo, isto é, todos os usos da língua envolvem atividades sociais sem as quais não haveria sentido em usá-la. Ilustra esta asserção o questionamento feito por Salomão (1999, p. 65):

“A rigor, para que existiria linguagem? Certamente não para gerar seqüências arbitrárias de símbolos nem para disponibilizar repertórios de unidades sistemáticas. Na verdade, a linguagem existe para que as pessoas possam relatar a estória de suas vidas, eventualmente mentir sobre elas, expressar seus desejos e temores, tentar resolver problemas, avaliar situações, influenciar seus interlocutores, predizer o futuro, planejar ações”.

269

270

A linguagem é uma espécie de ação conjunta.

Não pode haver uso solitário da língua, mas as ações de no mínimo dois indivíduos são exigidas para que as atividades lingüísticas tenham sentido. As ações conjuntas constituem a coordenação das ações individuais de pelo menos dois sujeitos, que podem estar face a face, ou distantes no tempo e no espaço.

O

uso da linguagem sempre

Esta afirmação põe em evidência o fato de que os significados não estão estavelmente nas estruturas das palavras, mas se revelam na situação comunicativa concreta. A compreensão lingüística depende do significado do falante associado às especificidades contextuais em que os enunciados são produzidos. Isto quer dizer que qualquer sentença, para ser compreendida, envolve o reconhecimento das intenções do falante dentro de um contexto situado sócio- culturalmente.

envolve a significação do

falante e a compreensão do

interlocutor

O

uso da linguagem

Há muitos domínios de ação em uma única atividade discursiva. Cada um destes domínios (ou camadas de atividade) é definido por um conjunto de participantes, um lugar, um tempo, e um conjunto de ações executadas. A conversação em sua forma mais simples tem apenas um domínio de ação. No entanto, no decurso desta atividade, os participantes podem introduzir novas camadas de ação quando, por exemplo, contam uma história, uma piada, imitam uma personagem ou uma terceira pessoa, enfim, fazem da conversação um contexto rico para os diversos usos da linguagem.

geralmente tem mais de uma camada de atividade.

Para os estudos da comunicação face a face, talvez o traço mais elementar a partir do qual entendemos o objeto da lingüística interacional seja:

O locus básico da linguagem é a conversação face a face.

Esta afirmação aponta para o fato de que o contexto de uso da língua mais básico é aquele da conversação face a face. Toda uma tradição dos estudos da linguagem tem se voltado para a investigação deste contexto, a fim de elucidar os mais diversos propósitos, desde a aquisição da linguagem até os usos sócio-dialetais de variedades lingüísticas.

Koch (1992, p. 9; 66), por exemplo, encara a linguagem como atividade, forma de ação interindividual e lugar de interação que possibilita aos membros de uma comunidade executar ações, ‘jogar um jogo’.

Bange (1983, p. 3) afirma que se a “conversação pode ser considerada a forma de base da organização da atividade de linguagem”, tal ocorre porque ela é, de fato, a forma de vida cotidiana, interativa, inseparável da situação.

Para Fillmore (1981, p.152) a língua da conversação face a face é o uso mais básico e primário da linguagem, todos os outros sendo mais bem descritos em termos do modo como se desviam desta base.

Clark (1996, p. 11) também reafirma a condição da conversação face a face como cenário básico de uso da língua. Para ele, a conversa é universal, não requer habilidade especial, e é essencial na aquisição da língua materna. A prioridade da conversação face a face sobre os demais cenários ocorre porque nestes faltam traços como a imediaticidade, o meio e o controle da interação face a face, os quais devem ser supridos por técnicas ou práticas especiais. A natureza destes traços dá à conversação face a face características que faltam aos cenários não básicos, como a co-presença, visibilidade, audibilidade e instantaneidade no enquadre da imediaticidade; a evanescência, a não registrabilidade e a simultaneidade como característicos do meio; e a improvisação, autodeterminação e auto-expressão, no quadro do controle das ações da linguagem.

Traços da conversação face a face (CLARK & BRENNAN, 1991):

 

1. Co-presença

Os participantes partilham o mesmo contexto físico.

IMEDIATICIDADE

2. Visibilidade

Os participantes se vêem mutuamente.

3. Audibilidade

Os participantes ouvem um ao outro.

4. Instantaneidade

Os participantes percebem as ações dos demais sem atraso perceptivo.

MEIO

5. Evanescência

O meio é evanescente – os sinais lingüísticos e não-lingüísticos são transitórios e desaparecem no espaço e tempo.

6.Não-

As ações dos participantes não deixam marcas ou vestígios físicos.

registrabilidade

7.

Simultaneidade

Os participantes podem produzir e receber ações lingüísticas imediatamente e simultaneamente

271

272

CONTROLE DAS AÇÕES

8. Improvisação

Os participantes formulam e executam suas ações de maneira improvisada, em tempo real.

9. Autodeterminação

Os participantes determinam por si mesmos quais ações são tomadas e quando são tomadas.

10. Auto-expressão

Os participantes atuam por expressão própria.

Em nossa opinião, ao enfatizar a não exigência de habilidade especial no uso face a face da linguagem, Clark deixa de reconhecer que as ‘habilidades básicas’, presentes neste cenário, exigem um nível complexo de operações cognitivas e sociais. O modo de interagir no contexto social não é um dado de que os falantes dispõem; eles o constroem no dia-a-dia de suas experiências culturais e na relação como os outros interlocutores. A habilidade da conversa face a face não exige, por exemplo, a escolarização formal, mas os falantes que dela fazem uso tiveram que aprender a manipular recursos interacionais desde cedo. Operações cognitivas como a inferência, a referenciação e a interpretação também desempenham papel crucial na interação face a face. Considerá- las básicas seria negar a complexidade dos processos neurocognitivos e sócio- cognitivos que elas executam. A conversa é organizada de modo que haja interação entre os participantes, ou seja, para que estes negociem o sentido social das atividades em que estão envolvidos. A organização da conversação é dotada de uma complexidade que permite conceber uma gramática própria: a gramática oral ou interacional. Para fins didáticos, apresentamos alguns itens que estruturam a gramática interacional, os quais serão tratados no decorrer deste capítulo:

Tópicos

Os diversos assuntos abordados pelos falantes são denominados, segundo a análise etnometodológica da conversação, ‘tópicos’. Numa situação de interação os tópicos podem continuar, mudar ou simplesmente chegar ao fim, pela negociação dos falantes.

Turnos

Para falar sobre os ‘tópicos’, os participantes organizam a conversação em ‘turnos’, que constituem a oportunidade que cada um tem de dar sua contribuição para a conversação, é ‘a vez’ que cada falante tem de se expressar sobre dado ‘tópico’.

Tomada de

Os turnos geralmente não são distribuídos automaticamente aos falantes. Um interlocutor pode, em dado momento, querer tomar a palavra de quem está falando e, para isso, sobrepõe sua voz até que o outro ceda. Este procedimento é denominado ‘assalto ao turno’.

Turno ou

Assalto ao

Turno

Simetria

Em ‘interações simétricas’, todos os participantes têm direitos iguais ao uso dos turnos; isto se verifica em conversações informais entre amigos ou familiares.

interacional

Assimetria

interacional

Pares

Adjacentes

Relevância

Condicional

Em interações consideradas ‘assimétricas’, como entrevistas de emprego, consultas médicas, e até em sala de aula, um dos integrantes da conversação possui o domínio sobre os turnos e os distribui a seu critério. As interações assimétricas são típicas dos ambientes institucionais e as relações entre profissionais e leigos se dão em termos de ‘pares adjacentes’, ou seja, os profissionais determinam os tópicos e controlam os turnos através de perguntas, as quais os leigos somente respondem, mas não opinam sobre tópico, nem fazem ‘assalto aos turnos’

de perguntas, as quais os leigos somente respondem, mas não opinam sobre tópico, nem fazem ‘assalto

São dois turnos emparelhados (do tipo bom dia/bom dia) e constituem principal unidade de análise interacional. São encontrados tanto em interações assimétricas (entrevistas médico-paciente; inquiridor-testemunha) quanto em interações simétricas, freqüentemente através de expressões cristalizadas (alô/alô; tudo bom/tudo bom, etc.)

em interações simétricas, freqüentemente através de expressões cristalizadas (alô/alô; tudo bom/tudo bom, etc.)

Nos pares adjacentes a produção de um turno condiciona a realização do segundo. Nos pares: pergunta-resposta; saudação- saudação; convite-aceitação; pedido-concordância, a não- ocorrência do segundo par, embora possível, causaria estranheza ou sanção social.

pedido-concordância, a não- ocorrência do segundo par, embora possível, causaria estranheza ou sanção social.

O contexto interacional

A noção de contexto tem sido abordada na Lingüística, especialmente nos campos da pragmática, a partir da referência ao uso da linguagem em situações interacionais. As escolhas lingüísticas de um falante são definidas contextualmente e são definidoras do contexto, ou seja, linguagem e contexto se alimentam mutuamente um do outro. As escolhas lingüísticas do falante são pistas de contextualização que acionam um conjunto de expectativas, atitudes e processos inferenciais associados com o tipo de atividade de que são índices. Deste modo, contexto e linguagem são concebidos como uma relação dinâmica e evolutiva, na qual as palavras são mediadoras de diferentes versões do mundo e normalmente permitem mais de uma versão co-existir em uma atividade de fala. Em seus estudos sobre o uso da linguagem e as arenas nas quais os falantes agem conjuntamente, Clark apresenta cenários de uso da língua, classificando-os de acordo com as cenas e os meios em que ocorrem, ou seja, os lugares (contextos) e os canais de produção lingüística (falada, escrita, gestual). Da combinação dos dois, o autor sugere a noção de contexto falado e contexto escrito. Clark (1996, p. 5) propõe sete tipos de cenários no âmbito do contexto falado: não-pessoais, pessoais, institucionais, prescritivos, ficcionais, mediados e privados:

273

274

Tipologia dos Cenários de Uso da Língua (CLARK, 1996, p. 8):

 

CENÁRIOS FALADOS

CENÁRIOS ESCRITOS

Não-pessoais

Professor A profere palestra a alunos B

Jornalista A escreve artigo informativo para leitores B

Pessoais

A

conversa face a face

A escreve carta a B

com B

Institucionais

Promotor A interroga testemunha B no tribunal

Gerente A escreve carta comercial a cliente B

Prescritivos

Noivo A faz voto ritual de matrimônio a noiva B em frente de testemunhas C

A assina formulários oficiais para B em frente a notário público C

Ficcionais

A

atua em peça teatral

Escritor A escreve romance para leitores B

para espectadores B

Mediados

C

simultaneamente traduz

C, enquanto ghost-writer, escreve um livro de A para leitores B

para B o que A diz a B

Privados

A

fala consigo mesmo

A escreve lembrete a si mesmo sobre seus planos

sobre seus planos

Nos cenários não-pessoais os monólogos são bastante representativos. Referem- se à prática na qual uma pessoa fala com pouca ou nenhuma possibilidade de interrupção ou tomada de turno por parte dos membros da audiência. As diversas variedades do monólogo não excluem a presença de uma audiência, mas a natureza deste cenário não é conversacional: “as pessoas falam para si mesmas, enunciando palavras formuladas por elas para a audiência a sua frente, e da audiência não se espera interrupção”. Os cenários pessoais, por sua vez, são típicos da conversação face a face, e mesmo da conversação telefônica. Trata-se de trocas de turno relativamente livres entre os participantes, que são no mínimo dois, e constituem a unidade básica de uso da linguagem. O cenário pessoal, de fato, inclui os demais cenários, já que se trata de uma modalidade em que as características sócio-interacionais da linguagem parecem se atualizar com muita freqüência. Os demais cenários são sempre definidos com relação ao modo como compartilham características dos cenários pessoais e ao modo como diferem destes. Nos cenários institucionais, por exemplo, os participantes se engajam em trocas discursivas que lembram a conversação cotidiana, face a face, mas estas trocas são limitadas por regras da instituição controladora (conjunto de coerções construídas anteriormente às atividades de fala) – o uso da língua na sala de aula enquadra-se também neste tipo de cenário. Os turnos de fala, geralmente, são controlados por um líder, e apresentam outros tipos de restrição, especialmente no que se refere à estrutura de participação dos falantes.

Estrutura de Participação

Modelo de participação de falantes e ouvintes em uma atividade de fala. Veja a próxima seção para exemplos.

Os cenários prescritivos são característicos dos eventos religiosos, rituais sagrados e jurídicos, a exemplo dos membros de uma igreja recitando palavras de um livro de oração, de noivos fazendo seus votos na cerimônia de casamento, entre outras. Há um alto grau de dependência em arranjos feitos anteriormente, normalmente fixados em cenários escritos, ou em ritos transmitidos verbalmente de geração a geração. Ilustrativo dos cenários ficcionais, que também têm alta dependência de cenários escritos, elaborados por outras pessoas de antemão, é o uso da linguagem por um ator num ato teatral, representando Hamlet. A ficção representa um nível de atividade que se sobrepõe ao uso pessoal da linguagem no dia-a-dia das conversações. No entanto, não é raro, ver que a ficção se beneficia da realidade quando, por exemplo, os atores improvisam em sua atuação ou interagem com o público, etc. O que dizer, por exemplo, do cenário de linguagem utilizado pelos participantes de um reality show? O

cenário ficcional parece configurar-se mais um suporte para o uso da linguagem, que ocorre sempre de forma pessoal, seja institucional, seja prescritiva, seja mediado pela escrita, como é o caso de um executivo que dita uma carta a sua secretária endereçada

a um parceiro de negócios e faz uso característico do cenário mediado. Cenários

ficcionais são, portanto, um caso em que a audiência se configura como espectadora sem interferência na atividade desenvolvida e o uso de linguagem concerne tão somente

aos participantes envolvidos no suporte ficcional. Já em cenários privados, segundo Clark, as pessoas falam consigo mesmas sem

a intenção de que os outros reconheçam o enunciado como um turno de fala. Um dos

exemplos apresentados é quando se xinga um outro motorista por ter ultrapassado pela direita, mesmo sabendo que ele não pode ouvir. Mesmo nos cenários privados,

o falar consigo mesmo, não deixa de ser dialógico. Quando digo um impropério

contra alguém que não pode me ouvir, ainda assim me dirijo a esta exata pessoa, ou ao conjunto de todas as pessoas, que naqueles termos, possam representar o meu interlocutor ‘surdo’. Todos os demais cenários são, em nossa opinião, subtipos dos cenários pessoais mais básicos, já que envolvem, em maior ou menor grau, uma atividade verbal de interação face a face. Os cenários não-pessoais, por exemplo, não podem prescindir uma audiência interlocutora, ainda que relativamente se realizem sem a interação verbal freqüente entre falantes e ouvintes.

3. Métodos de Investigação em Lingüística Interacional

Princípios de Análise Etnometodológica da conversação

A Análise da Conversação preocupa-se particularmente com os recursos lingüísticos. Isto não significa fazer uma descrição geral de uma gramática, mas dos processos usados pelos falantes para construir o sentido, assegurar a compreensão mútua e tornar possíveis as atividades de linguagem ordinárias. A organização da conversação pode ser descrita como uma realização coletiva, interna e metódica dos participantes. A organização dos recursos lingüísticos é coordenada com a própria organização da conversação, que se estrutura a partir de

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elementos como os turnos de fala, os tópicos discursivos, o sistema de participação dos falantes, e regras de simetria e assimetria, os papéis sociais de falantes e ouvintes, dentre outros. Segundo Marcuschi (1986, p.), a Análise da Conversação teve seu início na década de 60 a partir da Etnometodologia e Antropologia Cognitiva e seu estudo era eminentemente organizacional, pois se ocupava da descrição das estruturas da conversação e seus mecanismos organizadores. A partir de J.J. Gumperz (1982) e da Sociolingüística Interacional, tendeu à observação de aspectos como a “especificação dos conhecimentos lingüísticos, paralingüísticos e socioculturais que devem ser partilhados para que a interação seja bem sucedida. Esta perspectiva ultrapassa a análise de meras estruturas e atinge os processos cooperativos presentes na atividade conversacional: o problema passa da organização para a interpretação” (grifo do autor).

A conversa, sob esta perspectiva, é organizada de modo que haja negociação entre

os participantes, ou seja, para que realmente ocorra interação. Os diversos assuntos abordados pelos falantes são denominados, segundo a análise etnometodológica,

‘tópicos’. Numa situação de interação os tópicos podem continuar, mudar ou simplesmente chegar ao fim, pela negociação dos falantes. Para falar sobre os ‘tópicos’, os participantes organizam a conversação em ‘turnos’ que constituem a

oportunidade que cada um tem de dar sua contribuição para a conversação, é ‘a vez’ que cada falante tem de se expressar sobre dado ‘tópico’. Os turnos geralmente não são distribuídos automaticamente aos falantes. Um interlocutor pode, em dado momento, querer tomar a palavra de quem está falando e, para isso, sobrepõe sua voz até que

o outro ceda. Este procedimento é denominado ‘assalto ao turno’. Em ‘interações

simétricas’, todos os participantes têm direitos iguais ao uso dos turnos; isto se verifica em conversações informais entre amigos ou familiares. Já em interações consideradas ‘assimétricas’, como entrevistas de emprego, consultas médicas, e até em sala de aula, um dos integrantes da conversação possui os domínio sobre os turnos e os distribui a seu critério. Para Drew e Heritage (1992) as interações assimétricas são típicas dos ambientes institucionais e as relações entre profissionais e leigos se dão em termos de ‘pares adjacentes’, ou seja, os profissionais determinam os tópicos e controlam os turnos através de perguntas, as quais os leigos somente respondem, mas não opinam sobre tópico, nem fazem ‘assalto aos turnos’. Desse modo, a conversa é iniciada, mantida e concluída pela vontade de apenas um dos interlocutores.

a) organização seqüencial da fala

Galembeck (2003) 1 aponta como principal característica da conversação “o fato de que os interlocutores alternam-se nos papéis de falante e ouvinte”. O turno conversacional seria então “a participação de cada um dos interlocutores”, ou seja, é o exercício da fala, que ocorre quando um interlocutor passa de ouvinte a falante.

O turno de fala constitui a organização de base da conversação e da interação

em geral. Ele permite saber como os participantes realizam de forma local e conjunta

a coordenação de suas condutas conversacionais. Essa coordenação é a condição

fundamental das atividades socialmente organizadas (Cf. CLARK, 1992, 1996). A fim de procederem à tomada, transição e manutenção da fala, os interlocutores investigam o desenvolvimento do turno para identificar ou produzir, de

1 GALEMBECK, P. T (2003). O Turno Conversacional. In: Preti, D. (Orgs).

Análise de Textos Orais. São Paulo: Humanitas, FFLCH/USP, pp 65 – 92.

modo reconhecível, os pontos em que um turno termina e o outro começa. A tarefa de reconhecimento da finalização de um turno revela uma multiplicidade de dimensões sintáticas, pragmáticas, prosódicas, mas também gestuais, visuais e motrizes. Os turnos têm função essencialmente interacional. Os interlocutores acompanham o desenvolvimento do tópico conversacional através da inserção de elementos fáticos (mostrando o funcionamento do canal comunicativo), como os marcadores conversacionais: uhn, uhn, né? certo?; ou das tentativas de transição e tomada da fala. Nesses momentos, os falantes identificam momentos no turno do outro em que a colaboração do interlocutor é solicitada e assumem a vez na conversação. Muito freqüentes também são os assaltos ao turno – um falante invade a fala do seu interlocutor e toma a posse do turno. As regras que regulam a organização dos turnos de fala são geralmente utilizadas, sem que os falantes necessariamente as mencionem: elas remetem a um saber tácito, que se espera que o falante adquira na prática de interação. O caráter ordenado da conversa se torna observável por sua manifesta obediência aos princípios organizacionais, mas também quando as expectativas normativas são violadas e pelas técnicas disponíveis para reparar as violações e restabelecer a ordem. Um falante pode entender como inacabados os enunciados do outro falante e ler as hesitações que marcam o final do segmento do interlocutor como manifestando uma busca de palavras ou mesmo um pedido de ajuda. Mesmo que haja a impressão de que a conversação se desenrola de forma caótica, ela possui, não obstante, caráter ordenado, que é manifestado no fato de que há a passagem da fala de um falante ao outro, e que esta passagem se realiza de forma metódica, segundo um mecanismo sistematicamente organizado (Cf. KOCH, 1992).

b) conversação tópica

O tópico da conversação é apresentado como o assunto sobre o qual se fala no evento comunicativo. Pode-se dizer que a análise da conversação desenvolve uma abordagem do tópico articulado em torno das três propriedades seguintes (MONDADA, 2003, p.2):

O tópico é uma categoria dos falantes – ou seja, trata-se de um elemento pelo qual os falantes se orientam durante a atividade interacional, dando atenção não somente aos propósitos da interação, mas também aos processos e aos recursos que tornam possível assegurar a continuidade, a coerência e o desenvolvimento dos temas da conversação.

O tópico é uma realização da interação – ele surge de uma maneira dinâmica na interação, podendo ser estabilizado ou transformado por ela. Assume formas e contornos específicos, de acordo com a organização seqüencial da interação. Além de ser um fenômeno dinâmico, o tópico não surge de um só falante, nem de processos enunciativos ou cognitivos individuais, mas é definido coletivamente pelos participantes na interação. Fávero (2003) afirma que ele “é uma atividade construída cooperativamente, isto é, há uma dependência – pelo menos parcial – de objetivos entre os interlocutores”.

O tópico é configurado pelos processos elaborados durante a interação

277

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– o tópico é construído nas atividades interacionais dos falantes, que exploram, de maneira situada, recursos lingüísticos variados relativos à organização seqüencial da interação.

Fávero (2003, p.47) atribui ao Tópico (em sua terminologia, tópico discursivo) duas propriedades: centração e organicidade. A centração define-se como ‘falar-se acerca de alguma coisa, implicando a utilização de referentes explícitos ou inferíveis”, ou seja, as marcas no texto para se remeter a algo que já foi dito ou algo que, embora não tenha sido dito, seja do conhecimento dos interlocutores. Essa prioriedade norteia o tópico de tal forma que, a cada nova centração é possível falar-se em um novo tópico. A propriedade da organicidade refere-se à relação de interdependência que um tópico – denominado supertópico (ST) – tem como seus “tópicos co-constituintes” (T) e seus “subtópicos” (SbT). Esses conceitos se organizam em uma estrutura denominada Quadro Tópico, abaixo ilustrada (FÁVERO, 2003, p.55):

(SbT). Esses conceitos se organizam em uma estrutura denominada Quadro Tópico, abaixo ilustrada (FÁVERO, 2003, p.55):
(SbT). Esses conceitos se organizam em uma estrutura denominada Quadro Tópico, abaixo ilustrada (FÁVERO, 2003, p.55):

O processo de segmentação do tópico, seus limites de conteúdo, é feito através de marcas conversacionais que apontam para a continuidade ou a descontinuidade de um tópico em andamento. Essas marcas podem ser: facultativas – que têm a função especializada de alterar ou manter o tópico em andamento; e multifuncionais – marcas que têm função genérica, não determinada, podendo ora mudar ora manter a continuidade do tópico. Fávero enfatiza que “a conversação não é um enfileiramento aleatório de enunciados, ao contrário, ela é altamente estruturada e passível de uma análise formal”. Assim, o tópico é coerente com a natureza dinâmica e estruturada do fluxo conversacional.

c) estrutura de participação e ordenação dos turnos de fala

De acordo com Goffman (1974, p. 565), os interlocutores de uma interação face a face são do tipo ‘ratificados’ e ‘não-ratificados’.

Ratificados

Grupo de ouvintes presentes na interação a quem um falante está efetivamente dirigindo a palavra. Isto pode ocorrer de modo geral – o falante dirige-se a todos os participantes – ou focalizadamente – quando o falante se dirige a indivíduos específicos.

Não-ratificados

São os que, em um dado momento da conversação, o falante não lhes dirige a palavra.

Mesmo entre os ouvintes ratificados há aqueles que são endereçados e não- endereçados. Numa conversação entre pares o interlocutor é necessariamente endereçado. Mas em se tratando de conversa entre mais de duas pessoas, caso muito freqüente no dia-a-dia, ocorrerão momentos em que apenas um deles será endereçado, enquanto os outros, apesar de ratificados serão não-endereçados (GOFFMAN, 1979, p. 78). A ratificação de interlocutores pode se dar através de pistas não-verbais do falante, como o ajuste do corpo e da cabeça na direção do ouvinte focalizado ou a freqüência e duração com que os falantes olham para os interlocutores ratificados. Estes, muito provavelmente, serão os próximos falantes. Pode haver também a escolha de participantes ratificados através de pistas verbais, como os encadeamentos dos pares adjacentes, dos mecanismos de categorização do grupo social (SACKS, 1972), e ainda pela identificação dos interlocutores ratificados através de seus nomes. Além da distinção entre participantes ratificados e não-ratificados, Goffman (1979, 1998, p. 77) considera que mesmo que não sejam participantes oficiais de uma conversação, as pessoas podem ‘ouvir por acaso’, ou fazê-lo propositadamente, resultando em uma ‘intromissão’. Tal ocorre porque mesmo os participantes ratificados podem não estar prestando atenção e alguém pode estar escutando mesmo sem ser um participante ratificado. Goffman classifica estes ouvintes em participantes eventuais ou ‘circunstantes’ que, dependendo da forma como exploram a oportunidade de acesso à conversação, subdividem-se em ‘ouvintes por acaso’ (circunstanciais) e não autorizados. Fundamentado nesta base teórica, Clark (1996, p. 14) apresenta uma estrutura global de participação nas atividades conjuntas que envolvem participantes e não- participantes. Semelhantemente a Goffman, ele classifica os participantes ratificados

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como o conjunto que envolve tanto o(s) falante(s) como os ouvintes endereçados. Também são ratificados os participantes que estão envolvidos no presente momento

da

conversação, mas que não são correntemente endereçados. A estes, Clark denomina

de

participantes secundários (side participants). Todos os outros ouvintes que estão

fora desta tríade são circunstantes (ou overhearers). Os circunstantes não têm direitos

ou responsabilidades na atividade em curso e podem fazer parte da audiência por acaso

(bystanders), devido à proximidade física não intencional com a atividade conjunta

em curso, ou aproveitar-se da situação de forma sub-reptícia, intencionalmente, sem

o conhecimento dos participantes. Clark denomina estes últimos de eavesdroppers

– nós os chamaremos, nos termos de Goffman, de audiência não autorizada, ou intrometidos.

Estrutura de participação (Adaptado de CLARK, 1996, p. 14):

de participação (Adaptado de CLARK, 1996, p. 14): No pensamento de Philips (1976), com os ouvintes

No pensamento de Philips (1976), com os ouvintes ocorre o mesmo tipo de comportamento em relação aos seus interlocutores (falantes): podem ser ratificados e

não-ratificados. Em sala de aula, por exemplo, os alunos para os quais os professores se dirigem de forma focalizada, também olham para eles com maior freqüência e duração.

O sujeito focalizado demonstra maior número de pistas não verbais, consideradas

‘sinais de ouvinte’ – um índice que indica ao professor que ele está sendo ouvido, e por isso, ratificado. Ocorre, também, que alguns alunos, quando não são focalizados, podem apresentar comportamento idêntico ao daqueles focalizados. Tal comportamento indica que o professor está sendo ratificado e, portanto, pode selecionar tais alunos como interlocutores focalizados. Estes “bons ouvintes” assumem um comportamento empático com relação ao professor, já que este, na falta de ratificação dos alunos diretamente focalizados, selecionará aqueles que estiverem prestando atenção a fim de evitar falar sozinho (Cf. PHILIPS, 1976, 1998, p. 22).

d) alinhamento dos participantes

Gumperz (1982) destaca o caráter interativo da comunicação, por apontá-la como uma atividade social, onde os esforços coordenados de dois ou mais indivíduos são exigidos. Desse modo, a comunicação só é atingida, quando os movimentos de um interlocutor provocam respostas por parte de outro, e isto com base em um inter- relacionamento entre um processo inicial de inferência global e as inferências locais geradas pelas trocas conversacionais subseqüentes.

Este julgamento inicial é feito através do enquadramento da interação num modelo global. O indivíduo apresenta, inicialmente, uma série de expectativas acerca do que está se passando no contexto comunicativo antes de fazer qualquer inferência sobre o sentido do que está ocorrendo. A esse conjunto de expectativas dá-se o nome de ‘Frame’, ou enquadramento, ou ainda, moldura.

Frame (freime) ou Enquadre

O conceito de ‘Frame’ foi utilizado por Goffman (1972)

para designar o quadro do qual os participantes de uma interação face a face fazem parte em uma atividade de fala. As interpretações de sentido dos enunciados são feitas com base no que ocorre ao tempo da interação, e esta é definida como um quadro ou esquema identificável e familiar aos participantes.

Juntamente à noção de ‘frames’, Gumperz aponta a teoria do alinhamento, ou ‘footing’, com o interesse de definir o papel ou a postura adotada pelos participantes da interação. O alinhamento ocorre toda vez que há uma mudança no enquadramento da situação vivida pelo falante. O indivíduo que tem um papel social no trabalho, outro ou outros em casa, como marido, pai, filho, etc., outro com os amigos, está constantemente submetido ao alinhamento e à tomada de uma nova postura, cada vez que muda o enquadramento de sua interação com outros falantes da comunicação. Assim, ele assume uma postura no trabalho, outras em casa e outras no clube, com os amigos, de acordo como os vários enquadramentos possíveis nos processos interacionais.

 

Footing diz respeito ao alinhamento, a postura, a posição, a projeção de um participante em relação ao outro, a si mesmo

Footing (futin) ou Alinhamento

e

ao discurso em construção. A projeção pode ser mantida

através de uma faixa de comportamento, comumente vinculada à linguagem a marcadores paralingüísticos, como segmentos prosódicos. (Cf. GOFFMAN, 1979, 1998, p.

   

74-5).

De acordo com Goffman (1979, 1988, p. 89), é o desenho da estrutura de participação e formato de produção que fornece a base estrutural para a análise de mudança de footing. O autor (p. 75) introduziu o termo footing como outra forma de falar sobre uma mudança em nossos enquadres de eventos, uma mudança no alinhamento que adotamos para nós mesmos e para os outros presentes expressa na maneira de lidarmos com a produção ou recepção de um enunciado.

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UNIDADE III FUNCIONALISMO
UNIDADE III
FUNCIONALISMO

Já tivemos um primeiro contato com a Sociolingüística e com a Lingüística Interacional, que são áreas de pesquisa afinadas com o funcionalismo. Esta unidade 3 é também dedicada ao funcionalismo, mas agora tentaremos esboçar uma visão de conjunto dos diversos tipos de estudo que se abrigam sob essa denominação, e um pouco como surgiram.

1. A função estabelece a forma

Vimos na Unidade 1 que há várias maneiras de compreender o que é formalismo, algumas mais gerais e outras mais específicas. O que se conhece hoje como funcionalismo em Lingüística é principalmente um conjunto de reações às características mais “fortes” do formalismo – em especial do tipo de formalismo praticado pelos gerativistas – e que se desenvolveu com mais vigor a partir dos anos 1980. Mas, assim como o formalismo, o funcionalismo tem muitas nuances. Se considerarmos o funcionalismo de maneira ampla – como fizemos inicialmente com o formalismo, na Unidade 1 – ou seja, como a postura de estudar a linguagem associada às situações de comunicação, e de acreditar que a forma da linguagem resulta do uso, o funcionalismo tem uma longa história. Podemos pensar, por exemplo, na antiguidade e importância dos estudos de retórica, e nas teorias dos pensadores do romantismo acerca das línguas. Vejamos o que diz Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), por exemplo, em seu Ensaio sobre a origem das línguas, de

1781:

“As línguas formam-se naturalmente segundo as necessidades dos homens; elas transformam-se e se alteram segundo as transformações dessas mesmas necessidades.” (ROUSSEAU 1781 [1998]: 188)

Essa passagem de Rousseau não destoa de textos dos atuais funcionalistas: a língua transforma-se pelo uso, e também pelas atividades das pessoas que a falam. Lembremos ainda que os lingüistas histórico-comparatistas do final do século XIX davam ênfase à mudança, à transformação das línguas, e isso era muitas vezes acompanhado de hipóteses acerca da cultura dos povos antigos (por exemplo, as especulações acerca da cultura do povo que teria falado o indo-europeu), do contato entre as culturas (para explicar os empréstimos), e da psicologia dos falantes. Scott DeLancey, numa conferência sobre funcionalismo que você encontra (em inglês) em <http://www.uoregon.edu/~delancey/sb/LECT01.htm>, afirma que o funcionalismo moderno é uma volta à concepção dos lingüistas do final do século XIX. Autores da época, como Whitney, von der Gabelentz, Hermann Paul, e outros, entendiam que a estrutura lingüística deveria ser explicada em termos funcionais, cognitivos e “psicológicos”. A linguagem, para muitos lingüistas do final do século XIX, era um produto da história, e isso é de certa maneira retomado pelos funcionalistas atuais.

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Vamos acompanhar aqui a divisão tradicional entre o funcionalimo europeu e o norte-americano, porque ela, apesar de simplificar um pouco a situação das pesquisas, pode ser útil para vermos a variedade de abordagens funcionalistas.

2. O funcionalismo europeu

Na Unidade 1 mencionamos, sem detalhar, que o funcionalismo também está ligado ao desenvolvimento de escolas saussureanas. Isso parece conflitar com a idéia de que a postura de Saussure difundida no Curso de lingüística geral seria formalista. Entretanto, é bom ter em mente que o Curso é bastante complexo, por um lado, e por outro que muitas afirmações estão ali apenas esboçadas, o que permitiu desenvolvimentos diversos e coexistência com outras direções de pesquisa. O funcionalismo se fez mais presente nos trabalhos de André Martinet, e dos lingüistas das Escolas de Praga e de Genebra. Vamos comentar aqui a assim chamada Escola lingüística de Praga. A Escola lingüística de Praga foi um grupo de estudiosos da linguagem (mas nem todos eram de Praga) que esteve mais atuante no período entre as duas guerras da Europa (entre 1919 e 1939, portanto). Representantes famosos são Nikolaj Troubetzkoy, Roman Jakobson e Wilhem (ou Vilém) Mathesius. A contribuição da escola de Praga

é talvez mais famosa em fonologia, pois foi nessa escola que se desenvolveram ou

divulgaram as noções de contraste funcional – utilizada na separação entre a fonética

e a fonologia – pares mínimos, e traços distintivos. Além disso, os lingüistas de Praga estudaram também outras funções dos fonemas, como a demarcadora e a expressiva. Segundo Ilari (2004:69), os membros dessa escola conseguiram também associar os ensinamentos saussureanos às idéias do psicólogo vienense Karl Bühler acerca da comunicação. A muito famosa teoria das funções da linguagem de Roman Jakobson, ainda hoje estudada, é uma aplicação bastante detalhada da idéia de que as características dos enunciados lingüísticos refletem o uso a que se destinam. No esquema das funções de Jakobson, o relevo dado aos diversos elementos ou fatores da comunicação é o que vai caracterizar as funções dos enunciados:

O destaque dado ao emissor, ou falante, caracteriza a função expressiva; ao receptor, a função conativa; à mensagem, a função poética, que recebeu a maior atenção de Jakobson. Quando a ênfase está no código, temos a função metalingüística; no canal, a função fática, e, finalmente, se o referente é o mais importante, temos a função referencial.

Além da fonologia e das funções da linguagem, os lingüistas de Praga desenvolveramtambémumtipodeanálisegramaticalqueficouconhecidaposteriormente como perspectiva funcional da sentença, devida principalmente a Wilhem Mathesius. Nesse tipo de análise trabalha-se com a hipótese de que a comunicação tem partes informacionalmente mais ou menos dinâmicas. Ou seja, certas partes do que é dito carregam mais informação nova do que outras, e isso é refletido na maneira como os enunciados são organizados. Simplificando, dizemos que os enunciados têm uma parte menos dinâmica, com menos quantidade de informação, o tema, e uma parte mais dinâmica, o rema. O tema (também dizemos “tópico”) é o assunto da sentença ou enunciado, e o rema (“comentário”, ou ainda “enunciação”) é o que que se diz do tema. Assim, o tema da sentença apresenta aquilo que já se sabe, ou aquilo que parece óbvio

ao falante numa certa situação. O rema é o que o falante acrescenta, a informação nova, o que se pensa ser ainda desconhecido acerca do tema. Dito dessa maneira, pode

parecer que estamos falando do sujeito e do predicado, mas não é o mesmo. Tema e rema podem coincidir ou não com o sujeito e o predicado da sentença, e são portanto independentes dessas categorias. Mathesius chegou à conclusão de que tema e rema são indicados (em checo, e também em inglês) pela ordem das palavras dentro da sentença e pela entoação. Vejamos os exemplos:

1.

Mariana armou a árvore de Natal no canto da sala.

2.

Quem foi que armou a árvore de Natal no canto da sala?

3.

O que foi que Mariana fez?

4.

Quem foi que armou a árvore de Natal?

5.

Onde foi que Mariana armou a árvore de Natal?

6.

No canto da sala, Mariana armou a árvore de Natal.

Notamos que alguns pares de pergunta e resposta formados a partir de 1-6 acima são mais naturais, soam espontâneos, e outros não parecem adequados, embora superficialmente todos falem quase a mesma coisa. Por exemplo, 5-1 e 4-1 parecem adequados. Nesses pares “adequados”, a informação velha, o tema (sombreado), é comum à pergunta e à resposta:

Onde foi que

Mariana armou a árvore de Natal?

Mariana armou a árvore de Natal

no canto da sala.

O

que foi que

Mariana

fez?

Mariana

armou a árvore de Natal no canto da sala.

O sombreado dá uma idéia apenas aproximada da análise, é claro, mas serve para vermos que um outro par de pergunta-resposta não seria sempre tão natural:

Quem foi que

armou a árvore de Natal?

 

Mariana

armou a árvore de Natal

no canto da sala.

Aqui parece que “sobra” uma parte da informação da resposta. É claro que essa

troca poderia ser utilizada naturalmente em alguns contextos, mas não seriam talvez

os mesmos contextos em que o par 5-1 seria mais natural. A idéia básica é justamente que deve existir uma adequação das sentenças aos contextos, em termos do que é considerado conhecido ou não, e que tais diferenças se refletem na organização da sentença.

A oposição entre informação nova e infomação já conhecida, na sentença, é também estudada em diversas abordagens semânticas e pragmáticas como o fenômeno da pressuposição.

Os trabalhos de Mathesius foram influentes durante bastante tempo, mesmo depois da guerra, sendo retomadas por lingüistas como Franticek Danes, Ian Firbas e M. A. K. Halliday (ILARI 2004:70).

3. O funcionalismo norte-americano

Apesar da predominância de correntes formalistas, como estruturalismo pós-

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bloomfieldiano, e posteriormente o gerativismo, uma tendência para o funcionalismo poderia ser apontada nas propostas de Sapir (e de seu famoso seguidor B. L. Whorf), uma vez que, para Sapir, a língua é indissociável da cultura do povo que a fala. Outro precursor foi Dwight Bolinger (1907-1992), mas foi principalmente em meados da década de 1970 que análises funcionalistas se tornaram mais comuns. Vejamos os títulos de algumas publicações da época:

l

em 1974, Gillian Sankoff e Penelope Brown publicaram The Origins of Syntax in Discourse;

l

em 1979, Talmy Givón publicou From Syntax to Discourse;

l

em 1980, Sandra Thompson e Paul Hopper publicaram Transitivity in Grammar and Discourse.

Ao contrário do que vinha propondo o gerativismo, desde que, de certo modo, “tomara conta” do panorama de estudos da linguagem nos Estados Unidos, para os funcionalistas não era pertinente fazer análise sintática de exemplos sem tomar por base tanto o contexto lingüístico como a situação extralingüística. Também não é adequado propor uma sintaxe modular, separada e independente de outras competências comunicativas:

“Ou seja, há uma forte vinculação entre discurso e gramática:

a sintaxe tem a forma que tem em razão de estratégias de organização da informação empregadas pelos falantes no momento da interação discursiva.” (Cunha 2008:163)

Podemos encontrar hoje em dia vários tipos de funcionalismo, desde um mais radical – em que se considera que todas as categorias gramaticais são resultado das pressões comunicativas – a um mais moderado, que admite interação entre forma e função nas línguas.

UNIDADE IV LINGÜÍSTICA COGNITIVA
UNIDADE IV
LINGÜÍSTICA COGNITIVA

Lingüística Cognitiva, na Lingüística e nas Ciências Cognitivas, refere-se ao campo das ciências da linguagem que explica os fenômenos da criatividade lingüística, aquisição, aprendizado e uso da linguagem com base na cognição humana. Três posições centrais caracterizam essa disciplina:

 

Os

teóricos da Lingüística Cognitiva rejeitam

a

idéia de que a mente tenha um módulo único

A Lingüística Cognitiva nega

e autônomo para a aquisição de linguagem, em contraste com as premissas da gramática gerativa. Ainda que não negue que parte

das habilidades lingüísticas seja inata, a lingüística cognitiva não separa a linguagem

a existência de uma faculdade

autônoma da linguagem na mente individual

 

do

resto da cognição humana.

 

O conhecimento dos fenômenos lingüísticos

fonologia, morfologia, sintaxe – é

essencialmenteconceitual.Oarmazenamento

e

produção de dados lingüísticos não é muito

A

Lingüística Cognitiva

compreende a gramática como uma operação conceptual

diferente do armazenamento e produção de outros tipos de conhecimento. O uso da linguagem para a compreensão emprega habilidades cognitivas semelhantes às usadas

em outras tarefas não-lingüísticas.

 

A

Lingüística Cognitiva assume

A

linguagem é um fenômeno situado e

que o conhecimento lingüístico

corporificado em um ambiente específico. Linguagem e cognição se influenciam mutuamente e são imbricadas nas experiências e contextos dos usuários.

emerge do uso da linguagem

A Lingüística Cognitiva constituiu-se nos anos 80, a partir dos trabalhos dos norte-americanos George Lakoff, Ronald Langacker e Leonard Talmy sobre a metáfora conceitual, a gramática cognitiva e a semântica cognitiva, respectivamente. As origens dessa disciplina estão marcadas pelo interesse pelo significado, pela insatisfação com o programa de estudos da Gramática Generativa e pela investigação da psicóloga Eleanor Rosch sobre o papel dos protótipos no processo de categorização. Geeraerts (1995) define a Lingüística Cognitiva como uma abordagem de análise da linguagem natural que prioriza a língua como um instrumento para a organização, processamento e transmissão de informação. Em termos metodológicos, a análise

287

288

da base conceitual e experiencial das categorias lingüísticas é de suma importância para a Lingüística Cognitiva. Ela considera a linguagem primeiramente como um sistema de categorias. As estruturas formais da linguagem não são estudadas como estruturas autônomas, mas como reflexo da organização conceitual geral, princípios de categorização, mecanismos processuais e experimentais e influências ambientais. Pelo fato de ver a linguagem como parte das capacidades cognitivas gerais do homem, alguns tópicos são de interesse especial para a lingüística cognitiva: as características estruturais de categorização da linguagem natural; a interface conceitual entre sintaxe e semântica; a base experiencial e pragmática da língua em uso; e a relação entre língua e pensamento, incluindo questões sobre o relativismo e os universais conceituais.

 

Refere-se

ao

processo

integral

de

organização

da

CATEGORIZAÇÃO

experiência humana em conceitos gerais e sua respectiva

estrutura lingüística.

 

1. Lingüística Cognitiva e Cognição Humana

Geeraerts (1995) afirma que a Lingüística Cognitiva é o estudo da língua na sua função cognitiva. Cognitivo, neste caso, presume que nossa interação com o mundo é mediada pelas estruturas informacionais na mente. A Lingüística Cognitiva é mais específica do que as Ciências Cognitivas, por exemplo, pois tem como foco a língua natural como um meio de organizar, processar e dar significado às informações. A língua é vista, assim, como um repositório do conhecimento do mundo, uma coleção estruturada de categorias significativas que pode nos ajudar a lidar com novas experiências e armazenar informação sobre as velhas. Desta caracterização geral, podemos apresentar alguns traços fundamentais da Lingüística Cognitiva: a primazia da semântica na análise lingüística; a natureza enciclopédica do significado lingüístico; a natureza perspectiva do significado lingüístico. A primeira característica mostra que a função básica da linguagem envolve primeiramente o significado; as outras duas especificam a natureza do fenômeno semântico em questão.

 

Umatendênciaoriundadaprópriaperspectivacognitivista define a primazia da semântica na análise lingüística:

Primazia da semântica

se a função primária da linguagem é a categorização, então o significado deve ser um fenômeno lingüístico primário.

Natureza enciclopédica do significado

A natureza enciclopédica do significado lingüístico vem da função categorial da língua: se a língua é um sistema usado para a categorização do mundo, não há necessidade de postular um nível de significação lingüístico sistêmico ou estrutural que seja diferente do nível onde o conhecimento de mundo é associado às formas lingüísticas.

Natureza perspectiva do significado

Anatureza perspectiva implica em dizer que o mundo não é objetivamente refletido na língua: a função categorial da língua impõe uma estrutura ao mundo ao invés de apenas refletir a realidade objetiva. Especificamente, a língua é um modo de organização do conhecimento que reflete as necessidades, interesses e experiências dos indivíduos e das culturas.

2. Relação entre a Lingüística Cognitiva e a Gramática Gerativa

Lingüística Cognitiva (LC)

Gramática Gerativa (GG)

Ambas concordam que não há conhecimento sem um tipo de representação mental que tenha um papel mediador constitutivo na relação entre sujeito e objeto.

Para a LC as línguas naturais

corporificam perspectivas categoriais no mundo exterior

Para a LC, o conhecimento do mundo se dá pela contribuição da linguagem

do mundo se dá pela contribuição da linguagem • Para a GG as línguas naturais são
do mundo se dá pela contribuição da linguagem • Para a GG as línguas naturais são

Para a GG as línguas naturais são o próprio objeto desta relação.

A GG se preocupa com o conhecimento da linguagem e como ocorre a aquisição deste conhecimento

Ambas se interessam pelas estruturas mentais que são constitutivas do conhecimento.

Relevante para a LC é o conhecimento do mundo

A LC desenvolve uma teoria não autônoma de aquisição da linguagem (AL), incorporando a predição de que a AL envolve mecanismos e restrições que não são específicos da língua natural.

que não são específicos da língua natural. • Relevante para a GG é o conhecimento lingüístico

Relevante para a GG é o conhecimento lingüístico

A âncora cognitiva da aquisição da linguagem (AL) no Gerativismo é a idéia de que haja restrições geneticamente determinadas na estrutura formal das línguas naturais

3. As principais áreas de pesquisa da Lingüística Cognitiva

A Lingüística Cognitiva não é uma teoria de linguagem única, mas um conjunto de enfoques compatíveis amplos. O panorama abaixo não contempla todos os enfoques individuais, mas dá uma idéia do tipo de trabalho desenvolvido no campo da lingüística cognitiva. A LC é um tipo de lingüística pragmaticamente orientada, pois atribui grande importância a considerações funcionais na análise lingüística, como:

O Estudo dos processos de categorização no léxico, tomados como ponto de partida metodológico para um estudo mais amplo dos processos de categorização na gramática.

289

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A função de categorização das unidades lingüísticas, estudada sob três perspectivas:

1. A estrutura interna das categorias tomadas separadamente (teoria prototípica)

2. As estruturas conceptuais mais amplas que combinam diversas categorias individuais em modelos mentais coerentes (metáfora; semântica de enquadres)

3. A relação entre forma e sentido (iconicidade)

As estruturas conceptuais mais amplas, estudadas na interface com o ambiente cultural, o estudo dos modelos culturais.

Para Geeraerts (1995), a lingüística cognitiva é um tipo de lingüística de orientação pragmática, tanto em termos metodológicos como teóricos (cf. Nuyts, 1993). Metodologicamente, é um enfoque pragmático por ser um modelo baseado no uso. Em termos teóricos, é uma teoria pragmática por causa da importância dada às considerações funcionais na análise lingüística: especificamente porque relaciona o fenômeno lingüístico à função de categorização da língua. Como a lingüística cognitiva assume ser uma teoria de linguagem, ela ainda traz alguns dos focos tradicionais da teoria lingüística, que prioriza a estrutura

lingüística ao invés do uso ou variação da língua. Por outro lado, a lingüística cognitiva

é influenciada pelo enfoque tradicional da semântica lingüística que tem como foco o

significado conceitual e denotativo ao invés de valores comunicativos no sentido mais

amplo possível.

3.1. Categorização e protótipos

A categorização é o processo mental de identificação, classificação e nomeação de diferentes seres como membros de uma mesma categoria e constitui uma de nossas capacidades cognitivas fundamentais. ALinguística Cognitiva diz que a categorização se processa a partir de protótipos (que são os exemplares mais representativos de um determinado ser ou objeto). Vários membros ou propriedades de uma categoria possuem diferentes graus de saliência em relação aos protótipos (uns são mais prototípicos e outros mais periféricos) e organizam-se por similaridades parciais ou “parecenças-de-família” (cf. Wittgenstein, 1953). Os limites entre os membros de uma categoria, assim como entre diferentes categorias são geralmente imprecisos.

Eleanor Rosch foi uma das primeiras teóricas a postular a existência de categorias prototípicas. Sua concepção repousa sobre a natureza contínua, gradual das categorias. Isto é, cada categoria possui representantes mais ou menos típicos, e não é clara a linha que separa os exemplares mais próximos de uma categoria de seus não- exemplares. Para a autora, as categorias são observáveis através de sua expressão na língua, e “os assuntos da categorização com os quais nos ocupamos primeiramente têm

a ver com a explicação das categorias encontradas em uma cultura e codificadas pela língua daquela cultura em um ponto especifico do tempo” (1978, p. 28). As categorias combinam quatro efeitos de prototipicidade, por exemplo (Soares,

1997):

a) A categoria fruta apresenta membros mais representativos (laranja, maçã, pera, banana, etc.) do que outros (azeitona, tomate, coco);

b) Uma estrutura de elementos sobrepostos e em “parecenças-de-família” (isto

é, entre os exemplares não existem obrigatoriamente traços comuns, mas

semelhanças);

c) Os limites entre os exemplares são fluidos, isto é, não há uma delimitação clara (por exemplo, a azeitona é um exemplar dúbio, situando-se numa zona de

sobreposição do fruto e do vegetal),

d) A categoria não pode ser definida por “condições necessárias e suficientes”, ou seja, as categorias não se caracterizam como entidades constituídas de propriedades essenciais e suficientes partilhadas por todos os membros de uma mesma classe.

Pausa para refletir:

Quais propriedades caracterizam uma categoria como Ave ou Pássaro?

Com base nas propriedades que você citou, ordene os exemplos abaixo, do mais prototípico para o mais periférico

Avestruz – Ema – Beija-flor – Pingüim – Pardal – Morcego – Galinha – Cisne

Você excluiria algum item da lista acima? Por quê?

Nor termos de Geeraerts (1988), as categorias são formadas e organizadas

em termos de prototipicidade porque esta propriedade as torna cognitivamente mais eficientes, em razão das seguintes vantagens:

flexibilidade, que permite com que as categorias se adaptem aos vários contextos em que são usadas e integrem novas entidades como membros mais ou menos periféricos

estabilidade, que proporciona a interpretação de novas experiências (através dos protótipos existentes), sem que seja necessária a criação de novas categorias ou a redefinição de categorias já existentes.

3.2. Metáforas conceptuais

O tema da metáfora e da metonímia foi considerado, por muito tempo, no

terreno da estilística e da literatura como uma questão de figura de estilo, isto é, como mecanismos retóricos de ornamentação da linguagem. Essa abordagem das metáforas

(típicas da linguagem literária) são objeto de estudo de filósofos, retóricos e críticos literários que, por um lado a consideram fundamental na elaboração do texto com função poética e inapropriada em textos objetivos, científicos. A Linguística Cognitiva passou a conceber as metáforas e metonímias como fenômenos cognitivos, conceptuais, que constituem modelos cognitivos. Nessa teoria,

a principal diferença entre metáfora e metonímia é o fato de que a primeira envolve

domínios de experiência diferentes, que se projetam numa estrutura dupla, denominada domínio-fonte e domínio-alvo. Por exemplo, na metáfora TEMPO É DINHEIRO,

a projeção (linha sólida) ocorre entre o domínio-fonte ‘dinheiro’ e o domínio-alvo ‘tempo’, para produzir a metáfora correspondente.

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292

292 A metonímia, por sua vez, realiza-se dentro de um mesmo domínio, e ativa ou realça

A metonímia, por sua vez, realiza-se dentro de um mesmo domínio, e ativa ou realça uma categoria ou um sub-domínio por referência a outra categoria ou a outro sub-domínio do mesmo domínio (Lakoff 1987, p. 288). As Metonímias conceptuais, segundo Soares (1997), se baseiam em relações de contiguidade (não apenas no sentido espacial, mas também temporal, causal ou conceptual), tradicionalmente designadas como ‘continente pelo conteúdo’, ‘causa pelo efeito’, ‘instrumento pelo agente’, ‘matéria pelo objeto’, ‘parte pelo todo’, etc. Para Lakoff & Johnson (1980), conceptualizamos os domínios de nossa experiência cotidiana por meio de metáforas conceptuais, através da projeção em outros domínios. Um exemplo clássico dessa teoria é o modo como conceptualizamos uma discussão (um debate) através da metáfora DISCUSSÃO É GUERRA. Entre os dois domínios estabelecem-se analogias estruturais:

os participantes de uma discussão correspondem aos adversários de uma guerra;

dos

o

conflito

de

opiniões

corresponde

às

diferentes

posições

beligerantes;

levantar objeções corresponde a atacar e manter uma opinião a defender;

desistir de uma opinião corresponde a render-se, etc.

Na guerra, assim como na discussão, o conflito acontece em fases distintas:

a) as posições iniciais dos oponentes

b) momentos de ataque, defesa, retirada, contra-ataque

c) a vitória de um dos oponentes

A metáfora conceptual realiza-se linguisticamente em enunciados como:

atacamos ou defendemos determinada idéia”; “seu argumento é indefensável”; “nossas estratégias ganharam o debate”, “atacamos o ponto fraco das suas idéias”, “destruimos a argumentação do outro”, “vencemos ou perdemos o debate”, etc.

Pausa para refletir:

Você percebe alguma metáfora nas seguintes expressões linguisticas? “Não consigo captar essas ideias com clareza” “ – O bebê já está a caminho? – Não, ainda não providenciamos.” “Nosso relacionamento naufragou antes de completarmos um ano”

Você poderia dar exemplos de expressões que realizem as metáforas? TEMPO É DINHEIRO DISCUSSÃO É GUERRA TEMPO É ESPAÇO

Alguns exemplos de metáfora em nossa vida cotidiana se tornam muito

frequentes. Segundo Lakoff & Turner (1989), pensamos e falamos sobre a vida humana em termos de três tipos de viagem (VIDA É VIAGEM):

1. O nascimento é fim da nossa primeira viagem (chegar ao mundo);

2. Do nascimento até à morte, realizamos a nossa segunda viagem (somos viajantes; nossos objetivos são destinos; os meios para realizarmos nossos propósitos são caminhos; as dificuldades da vida são obstáculos; etc.)

3. A morte é o começo da nossa última viagem (partiu, foi para a sua última morada, etc)

Outro exemplo clássico apresentado por Reddy (1993) é a métafora do canal, segundo a qual conceptualizamos as expressões lingüísticas como conteineres onde armazenamos ideias e informações; as ideias e os significados como objetos ou coisas que podem ser armazenada; e a comunicação linguística como envio e recepção de pacotes de informação. As metáforas conceptuais desempenham, assim, papel crucial na conceptualização de muitos domínios e da nossa mamneira de pensar. Ametáfora e a metonímia conceptual são operações de abstração frequentemente feitas conjuntamente. Soares (1997) afirma que as categorias da emoção são um dos domínios em que a interação metáfora-metonímia é particularmente freqüente. Kövecses (1986, 1988, 1990) e Lakoff (1987, p. 380-415) apontam o princípio metonímico do tipo causa-efeito no funcionamento da conceptualização dos sentimentos e das emoções,

como a ira, a tristeza, o medo, a alegria, o amor, etc. e várias metáforas conceptuais acionadas por estas metonímias, por exemplo: IRA É CALOR; RAIVA É FOGO; IRA

É UM ANIMAL PERIGOSO; MEDO É OPRESSOR; ALEGRIA É LUZ; TRISTEZA

É ESCURIDÃO; AMOR É ALIMENTO; etc.

Pausa para refletir:

Apresente exemplos de expressões linguisticas que realizam as metáforas:

IRA É CALOR; RAIVA É FOGO; IRA É UM ANIMAL PERIGOSO; MEDO É OPRESSOR; ALEGRIA É LUZ; TRISTEZA É ESCURIDÃO; AMOR É ALIMENTO;

293

294

3.3. Modelos cognitivos e culturais

Lakoff & Johnson (1980) defendem que o nosso sistema de conceptualização se assenta na utilização das nossas experiências enquanto organismos dotados de uma configuração biológica. Esta projeção do corpo na mente é denominada hipótese da corporificação (Cf. JOHNSON & LAKOFF 1980; LAKOFF, 1987). Uma noção central a esta teoria é a de “esquema imagético”, um modelo (ou matriz) cognitivo determinado de forma genérica, recorrente na nossa experiência sensorial e motora, que é projetado noutros domínios da experiência, determinando a sua configuração. Segundo Lakoff (1987, p. 13) a idéia de um modelo cognitivo é a noção que une as teorias sobre a categorização, presentes no modelo das ‘semelhanças de famílias’, de Wittgenstein; de estruturas prototípicas e de categorização de nível básico de Rosch. Os modelos cognitivos estruturam o pensamento e são usados na formação de categorias e raciocínio. Os conceitos caracterizados pelos modelos cognitivos são compreendidos via a corporificação destes modelos. As categorias são formadas a partir de um pequeno grupo de modelos cognitivos idealizados: “as categorias conceptuais humanas têm propriedades que são, pelo menos em parte, determinadas pela natureza corporal das pessoas que as categorizam” (LAKOFF, 1987, p. 371). A noção proposta pelo autor, na lingüística cognitiva, relativa aos modelos cognitivos idealizados (MCI), reflete a maneira como organizamos o nosso conhecimento através de estruturas de categorias e efeitos prototípicos que são produtos resultantes da disposição dos MCI. A noção de modelos cognitivos é tributária de quatro fontes no âmbito da lingüística: a semântica dos frames de Fillmore (1982), a teoria de metáforas e metonímias como organizações cognitivas de Lakoff e Johnson (1980), a gramática cognitiva de Langacker (1986) e a teoria dos espaços mentais de Fauconnier (1985, 1994). Estas teorias, em especial a semântica dos frames, mantêm similaridades com as noções de esquemas como estruturas de expectativas e conhecimento. Para Lakoff (1987, p. 68), o MCI é um todo complexamente estruturado, que utiliza quatro princípios de estruturação: as estruturas proposicionais, as estruturas esquemáticas de imagem, os mapeamentos metafóricos e os metonímicos. Cada MCI também estrutura um espaço mental. Para melhor entender o alcance dos MCI é preciso voltar à noção de enquadre (frame) de Fillmore. Lakoff (p. 68-69) parte da observação de uma categoria cotidiana como ‘terça-feira’. Para o autor, ‘terça-feira’ só pode ser definida relativamente a um modelo idealizado que inclui o ciclo natural definido pelo movimento do sol, a maneira padrão de caracterizar o fim de um dia e o começo do outro, e um calendário cíclico mais amplo de sete dias – a semana. No modelo idealizado, a semana é um todo dividido em sete partes, numa seqüência linear. Cada parte é chamada de dia, e a terceira parte é a terça-feira. Similarmente, o conceito de fim de semana requer a noção de uma semana composta por cinco dias úteis, seguidos de uma pausa de dois dias, superposta no calendário de sete dias. Nosso modelo de semana é, desta forma, idealizado. Semanas de sete dias não existem objetivamente na natureza, mas são criações dos seres humanos – nem todas as culturas têm o mesmo tipo de semana. Nós usamos modelos cognitivos idealizados para tentarmos compreender o mundo. Em geral, qualquer elemento de um modelo cognitivo pode corresponder a

uma categoria conceptual. Um MCI pode se adequar à compreensão que uma pessoa tem do mundo de forma perfeita ou imperfeita. Quanto menos perfeita é a adequação

entre as condições prévias do MCI e nosso conhecimento, menos apropriada para nós

é a aplicação de um conceito. Lakoff (p. 70-71) ilustra este caso ao utilizar a categoria ‘solteirão’, já discutida por Fillmore (1982). Esta categoria é definida relativamente ao MCI de uma sociedade humana que possui a instituição do ‘casamento monogâmico’ e que prevê uma idade típica em que as pessoas contraem o matrimônio. Este MCI não prevê a existência de sacerdotes celibatários, união conjugal não formalizada, homossexualidade, ou poliginia, como é o caso de certas culturas em que a um homem é permitido desposar várias mulheres. Com respeito a este MCI, ‘solteirão’ é apenas um homem adulto não casado.

Este MCI, entretanto, não se ajusta ao mundo real de forma precisa. Enquanto se adequa a certos segmentos da sociedade em que um adulto não casado pode ser, de fato, considerado um solteirão, deixa de contemplar outros casos como o do Papa João Paulo II, o de homens vivendo em união conjugal estável, ou mesmo o de pessoas que, involuntariamente, vivem sozinhas, como seria o caso de Tarzan. Desta forma, a condição prévia de homem adulto não casado, segundo o MCI descrito, não é suficiente para se apreender a categoria ‘solteirão’. Os MCI têm, portanto, status cognitivo. São usados para a compreensão do mundo e para a criação de teorias sobre o mundo. Assim, os modelos cognitivos nos permitem fazer sentido de uma variedade de fenômenos semânticos. Neste sentido, Miranda (2000, p. 61) pontua que “qualquer operação de significação presume invocar,

bases de dados que orientam as expectativas dos sujeitos em suas ações

individuais ou conjuntas”, estas bases de dados são domínios sócio-cognitivos estáveis

da memória (

),

classificados em MCI. O desenrolar do discurso exige que sejam efetuadas construções cognitivas que incluem conjuntos de conhecimentos organizados e estruturados de acordo como domínios estáveis e locais. Os MCI são domínios estáveis, que ao lado dos enquadres comunicativos e esquemas genéricos estruturam o conhecimento socialmente produzido e localmente disponível.

3.4. Domínios cognitivos discursivos

Segundo Fauconnier & Sweetser (1996, p. 8-9), “a linguagem nos permite falar não só sobre o que é, mas também sobre o que poderia ser, o que será, do que se espera, do que se acredita, de hipóteses, do que é visualmente esperado, do que aconteceu, do que deveria ter acontecido, dentre outros”. Sendo assim, dependendo dos propósitos que temos em mente, fazemos referência a diversos fatos. Para Fauconnier & Sweetser,

a idéia central é a de que quando as pessoas se envolvem em um evento de fala, espaços

mentais são construídos, estruturados, e ligados a partir da gramática, do contexto e da

cultura, e são motivados pela sua intenção comunicativa. O efeito disto é a criação de uma rede de espaços através dos quais nos movemos à medida que o discurso ocorre. A linguagem aciona os meios para se construir o significado, assim como o contexto em que os participantes estão inseridos, a experiência anterior dos mesmos e as conexões feitas a partir das construções de espaços mentais. “É inerente à cognição humana contextualizar e acessar informações de maneira diferente em contextos diferentes” (p. 8).

Há expressões lingüísticas que podem criar novos espaços, ligar espaços a outros externos, ou remeter o ouvinte a um espaço anterior ou posterior, que são denominadas de construtores de EM. Estes construtores são expressões lingüísticas variadas, desde os tempos e modos verbais até sintagmas adverbiais e preposicionais que introduzem

295

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as marcas de diferença entre um espaço e outro, projetando um domínio em outro. Os construtores de espaço acionam, entre outros, domínios de crença (eu acho, eu acredito, eu penso que ele é holandês); de imagem (na foto, na pintura, Cris tem olhos azuis); espaços contrafactuais ou hipotéticos (se sua mãe estivesse viva e ouvisse tal absurdo, ela desejaria estar morta); de gradação, escala (Macunaíma é um tipo de anti- herói); espaços construtores de tempo (na adolescência, eu podia derrotar qualquer um de vocês na corrida); de drama (no filme, Camila Morgado é Olga Benário); de lugar (no nordeste todas a praias são belas); bem como espaços construtores de certos modelos culturais como ‘no judaísmo, Jesus é apenas um homem’; ‘na lingüística, a noção de erro é bastante diferente’; ‘no futebol americano, a trave se parece com um ípsilon gigante’. Os EM são constituídos de conjuntos de domínios conceptuais ou do conhecimento oriundo de muitos domínios separados. São construídos de maneira dinâmica na memória de trabalho, mas também se tornam arraigados na memória de longo prazo. A experiência imediata é outra fonte para se construir espaços mentais. O modelo dos Espaços Mentais baseia-se na capacidade da mente humana em que a linguagem é considerada um instrumento cognitivo. Dois construtos teóricos são pertinentes ao modelo: as noções de domínios e projeções. O princípio nuclear da cognição humana corresponde à projeção entre domínios, desta forma operando a produção, o fracionamento da informação, a transferência e o processamento do sentido (Cf. SALOMÃO, 1999). Segundo este modelo, as projeções têm como função construir e ligar domínios. Fauconnier (1997, p. 9) afirma que para falar ou pensar sobre determinados domínios (domínio–alvo), usamos estruturas de outro domínio (domínio–fonte) e do correspondente vocabulário. Essas projeções ajudam-nos a entender as intenções dos falantes no discurso e são também fontes de evidência de que a negociação conceptual está presente na linguagem cotidiana. De acordo com esta perspectiva, a projeção conceptual tem lugar entre espaços mentais, que são definidos como representações temporárias construídas pelos falantes. Estes espaços dependem em larga medida de estruturas cognitivas estáveis (como os Modelos Cognitivos Idealizados), mas diferentemente destes, os EM são representações de curto prazo, cuja função é responder às necessidades de conceptualização, muitas vezes novas e mesmo únicas, dos falantes. Esta teoria postula a existência de quatro (ou mais) espaços mentais envolvidos no processo de projeção conceptual entre domínios: dois espaços de input (espaços influentes correspondentes ao domínio-fonte e ao domínio-alvo), um espaço genérico que comporta a estrutura abstrata partilhada pelos dois espaços anteriores (e eventualmente por muitos outros) e ainda um espaço-mescla (blend), em que se verifica a combinação, a mistura, de representações dos espaços influentes, e por vezes, também de outros espaços mentais cuja informação é mobilizada. É desta mesclagem que resulta uma nova conceptualização, não submissível a uma soma das estruturas dos espaços influentes, nem a um mero conjunto de correspondências previsíveis fora deste processo.

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