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Considerações e propostas por uma nova política econômica

por Tony Volpon e Demetrio Carneiro

Introdução

As eleições presidenciais sempre sinalizam possibilidade de


mudanças. Necessariamente elas não ocorrem uma vez eleito o
presidente, mas é com essa expectativa de mudanças que lidamos.
A crise que todos vivemos trouxe à tona muitas contradições que
não estavam visíveis nos bons momentos vividos, mostrou certas
tendências que, levadas ao limite, podem implicar em problemas
graves para a nação. Também ficou mais clara a necessidade de se
questionar as estratégias até aqui adotadas e as políticas públicas
delas derivadas.

Ficou bastante evidente que teremos que aprofundar


questionamentos quanto ao modelo de desenvolvimento que
pretendemos e como encaramos nossas possibilidades reais de
crescimento. Para nós, que somos economistas, o desafio está em
propor políticas econômicas que sejam capazes de atender as
demandas impostas pela nova realidade. Temos que ser capazes
de propor um novo estilo de gestão econômica que responda com
mais eficiência às necessidades e momentos que estão por vir.
Temos que poder olhar para a gestão pública e, no nosso campo de
interesse específico, as políticas econômicas, entendendo que
qualquer programa de governo deve ser sustentado num mundo
real por um aparelho que é complexo e tem múltiplas interações,
mas que também é, em última análise, o canal pelo qual as
mudanças que propomos terão que ser implementadas.

Impossível negar que, nos últimos anos, o Brasil tenha passado por
um período de inéditas mudanças econômicas e que estão
permitindo ao país uma oportunidade de, finalmente, vislumbrar um
horizonte de desenvolvimento econômico com justiça social. Mas,
por ora, e apesar de alguns avanços, estamos muito longe de onde
podemos e devemos chegar.

Apesar do discurso ufanista, avaliando o progresso de outros


países emergentes nesse período, é fato que o Brasil não se
destaca.
A percepção de sucesso e de avanço é relativa e tem muito a ver
com nossas baixas expectativas e não uma avaliação objetiva do
que realmente foi feito dentro do campo de alternativas que hoje
temos.
A questão que se coloca agora, depois que passamos por uma
crise que por muito pouco não destrói qualquer possibilidade de
avanço econômico, é pensar quais as mudanças necessárias na
política econômica para o Brasil traduzir essas oportunidades e
potencialidades em progresso concreto.
Nesse intuito vamos abordar quatro áreas de política econômica
que se articulam e relacionam: política monetária, política fiscal,
política cambial e política industrial.

Esperamos mostrar que um conjunto de mudanças, muitas delas


técnicas, pode melhorar a eficiência da aplicação dessas políticas.
Esperamos mostrar também que o que deve nos preocupar não são
somente questões de “políticas” no senso mais restrito (policy), mas
sim a construção e a articulação institucional entre as instâncias
que executam essas políticas. Esperamos mostrar que um dos
grandes problemas dos últimos anos foi o quase total desencontro
na formulação, coordenação e execução entre essas áreas. Vamos,
também, ter como tema a necessidade de mudar políticas e
instituições para um período de sucesso e abandonar atitudes que
serviam para um período de crise.

1. Política monetária e fiscal

Iniciaremos discutindo uma questão muito debatida nos meios


acadêmicos e políticos: Porque as taxas de juros reais no Brasil são
tão altas? Embora possa ser certamente uma simplificação, há
nesse debate duas posições básicas. A primeira, defendida por um
pensamento que se diz keynesiano, afirmando que as altas taxas
de juros são fruto de um pacto entre uma classe rentista e seus
agentes no mercado financeiro, os quais controlariam o Banco
Central. Por essa lógica, parece que a solução seria a simples
tomada – revolucionária? – do BC por pessoas alinhadas com os
interesses contrários aos da classe rentista. Assim tudo se
resolveria muito rapidamente e sem grandes complicações.
É inegável que a captura de instâncias burocráticas por aqueles que
eles as deveriam, pelo menos tentar, regulamentar é um problema
sério que aflige todo o aparelho do Estado ao longo de nossa
história.
É também verdade que a atual composição do Comitê de Política
Monetária (Copom) precisa ser reformulada. Vamos discutir isso
mais à frente. Mas pensar que o problema dos juros altos se
resume a uma conspiração de elites demonstra, além do
desconhecimento da boa economia, enorme ingenuidade.

Existe na verdade uma prova empírica elementar, capaz de


demonstrar que a taxa de juros no Brasil é alta, mas que ser alta
não é resultado do equilíbrio geral da economia, por mais perverso
que esse equilíbrio seja. Apesar de alta, se os juros nominais
determinados pelo Banco Central fossem tão altos, por conta de
uma tentativa de premiar os rentistas, deveríamos observar uma
queda continua
da taxa de inflação.
Se a taxa nominal estiver acima da de equilíbrio haveria efeito
contracionista reduzindo a inflação. Não é o que observamos
concretamente.
De fato normalmente a inflação brasileira tem ficado acima da meta
fixada pelo governo, já bastante alta pelos padrões das economias
em desenvolvimento. Isto comprova que a taxa de juros nominal
está meramente seguindo uma taxa de juros real determinada pelas
condições estruturais da economia brasileira.

O BC decide a taxa nominal, mas quem determina a taxa real é o


resto da economia, dentro de condições objetivas que independem
da “vontade” dos economistas ou dos gestores públicos.
Uma visão, alternativa, a correta a nosso ver, é constatar o óbvio:
A questão dos juros altos no Brasil tem fortes e complexas causas
estruturais que, essas sim, devem ser atacadas. Dois pontos
cruciais para a eficiência de uma solução que vise manter juros
baixos de forma sustentável e de longo prazo: 1) Aumentar a
eficácia da política monetária e 2) Diminuir a sobrecarga imposta à
política monetária.
Vamos discutir isto.

2. Aumentando a eficácia da política monetária

Aumentar a eficácia da política monetária implica em atacar uma


variedade de arranjos institucionais que diminuem o impacto da
política monetária sobre a economia, e, portanto sobre a inflação.
Um foco importante seria implementar uma ampla desindexação da
economia.
Contratos que regem tarifas públicas, regras que estabeleçam
níveis mínimos de reajuste de salários, pensões e benefícios, ou
quaisquer outros mecanismos que criem inércia inflacionária devem
ser desmontados.
Devemos notar que, apesar disso ser mais fácil em um período de
inflação baixa e estável, muitos desses mecanismos refletem a
habilidade de certos grupos impor sobre outros grupos, ou a
sociedade como um todo, mecanismos para transferir renda em sua
direção, em seu favor. Cabe sim ao Estado o papel de arbitrar e
combater o resultado negativo desses conflitos e não criar
mecanismos de solução automática e fácil, mas que acabam
gerando inflação inercial.

Além dos resquícios de nosso passado de indexação, que,


insistimos, devem ser desmontados, há outra duas questões que
precisam ser enfrentadas. A primeira é algo já bastante debatido: a
ainda grande – apesar de cada vez menor – fatia da dívida pública
atrelada à taxa Selic, os chamados papéis pós-fixados.
Alguns economistas, que na realidade conhecem muito pouco os
mecanismos de mercado e da relação Estado/mercado, tratam do
assunto com certa mistificação. Segundo eles a existência dos
papéis pré-fixados atrapalha o bom funcionamento da política
monetária.
Apenas não é verdade. O que a existência desses títulos faz é
diminuir o efeito riqueza, tanto positivo quanto negativo, que as
mudanças na taxa nominal causam em qualquer ativo que gere
fluxos de caixa futuros. Dessa forma diminuem o poder desse canal
de transmissão da política monetária e, portanto, geram a
necessidade de uma taxa maior para levar ao mesmo efeito
contracionista.

A solução aqui deveria ser, apenas, uma determinação para que o


Tesouro Nacional fosse mais agressivo nas operações de troca
desses títulos por outros. Mas, como vamos discutir a seguir,
existem mais coisas que o Tesouro deveria fazer para mudar o
perfil da dívida pública e adequá-lo à nova situação vivida pela
economia brasileira.

Na mesma linha e tendo o mesmo efeito é a utilização da taxa TJLP


pelo BNDES para financiar investimentos de longo prazo. A TJLP,
como é hoje determinada, não sofre necessariamente nenhum
ajuste quando a Selic muda. Isso “isola” aqueles felizardos que têm
acesso à carteira de crédito do BNDES do efeito contracionista do
aumento da Selic e assim, como no caso dos papéis “pós-fixados”,
acaba forçando o BC a ter que aumentar ainda mais o nível dos
jurossobre o resto da economia para obter o mesmo efeito, caso
não existissem esses pontos de escape.
O caminho deveria ser uma gradual, mas necessária, reforma da
TJLP e dos moldes de operação do BNDES, para que essa taxa
seja mais sensível à política monetária e possa ter um papel mais
“anticíclico” na economia, sem que se abandone o importante, e
necessário, papel de fomento que o banco tem hoje e terá no futuro.

3. Diminuir a sobrecarga colocada na política monetária

Há outra razão para o Brasil ter uma taxa de juros real


demasiadamente alta, sobrecarregando a capacidade da Política
Monetária como instrumento de controle de ciclo econômico e
inflação. Tanto a política fiscal como a de crédito contêm elementos
fortemente prócíclicos, apesar da recente utilização do governo de
toda uma falsa ideologia keynesiana para justificar forte incremento
de gastos durante a crise.

Aumentar gastos durante uma crise, especialmente os de


investimentos, é um direito de países que demonstram
responsabilidade na condução da política econômica e o Brasil,
felizmente, ainda, é hoje um desses países. Mas no desempenho
recente dessa gestão o que vimos foi aumento de despesas
correntes do governo que, por lei e por pressão política, não irão ser
reduzidas no momento que a economia se recuperar. O que vai
causar, novamente, a necessidade do BC aumentar a taxa de juros,
de forma forte, para impedir o aumento da inflação acima da meta
estabelecida.

O que temos tido no governo atual, a partir da saída do ministro


Palocci, foi uma lógica que imagina que gastar mais é bom durante
épocas de forte crescimento porque, primeiro, há receita para isso
e, segundo, porque o gasto público é complementar ao investimento
privado.Mas também é bom gastar mais em momentos de crise
para implementar políticas “anticíclicas”. Enfim, sempre é bom
gastar mais!

Aqui o gasto não é instrumento de política pública, mas forma de


manutenção de poder de grupos no aparelho do Estado. Tal lógica
sempre gera pressão sobre a demanda agregada, estimulada pelo
setor público. Isso pode ser especialmente nocivo, como foi durante
o período 2006-2008, quando o investimento e consumo privado se
encontraram em forte expansão, momento que seria ideal para o
governo recuar na expansão de gastos do setor público. Mas,
infelizmente, a lógica do “há receita, então temos que gastar” torna
o gasto público outro fator de expansão de demanda, deixando à
política monetária a ingrata tarefa de ser a ovelha negra da família e
racionar a expansão da demanda via uma taxa de juros real mais
alta. Um resultado dessa falta de sincronia entre as políticas
monetária e fiscal são os permanentes e públicos, fartamente
publicizados, com intenções claramente políticas, embates entre o
Ministério da Fazenda e o Banco Central, que contam,
eventualmente, com a equivocada participação do próprio
presidente da República. A falta de coordenação entre ambas
instituições é um pesado fator de incerteza para os agentes
econômicos e que acaba apontando na direção do aumento do
prêmio de risco sobre os ativos financeiros, elevando o custo do
endividamento da economia, um fator hoje relevante, dadas
grandes incertezas sobre a condução da política econômica no
próximo ano.

A solução, para ser permanente, deveria passar por um conjunto de


reformas institucionais que garantissem a coordenação efetiva entre
óticas e interesses de gestão pública que podem, até legitimamente
a não apenas de forma oportunista, ser conflitantes.
Uma segunda área de reforma deve ser aumentar a flexibilidade na
área fiscal, tanto do lado das despesas como da arrecadação, para
tornar a política fiscal mais sensível à questão cíclica.
No aspecto relevante de uma maior coordenação, a proposta seria
uma reformulação do, agora, relativamente abandonado Conselho
Monetário Nacional (CMN), cujo nome talvez pudesse ser mudado
para Conselho Econômico Nacional (CEN). Formatar seu papel
como instituição encarregada de, periodicamente, alinhar as
políticas monetária, fiscal e cambial, afinal tudo que está no âmbito
dos ministérios da Fazenda e do Planejamento e do Banco Central.
O CEN poderia estar ligado diretamente à Presidência da
República, o que lhe daria status, e deveria ter corpo técnico
próprio.
Estaria encarregado de, em conjunto com os ministérios e o BC,
apresentar uma análise periódica das condições cíclicas da
economia e propor um conjunto de ações para garantir, ao longo do
tempo, que o crescimento econômico esteja o mais perto possível
do seu potencial. Sua meta seria esta: Buscar o nível máximo de
emprego da economia, mas sem prejuízo de que as políticas
monetária e fiscal sejam coerentes e equilibradas.
É importante insistir que a função de uma estrutura como o CEN
não seria impedir que o BC atuasse com independência operacional
na sua política de juros. A função do CEN seria alinhar as políticas
fiscal e monetária, dado um cenário econômico específico. Disso
sairia uma ação coordenada e planejada para ambas as políticas,
reativa ao cenário previsto. Na medida em que o cenário realizado
diferisse do previsto, todos os agentes envolvidos, mas
especialmente o BC, dado a maior facilidade relativa em mudar a
política monetária, deveriam ter a liberdade de implementar
mudanças na execução de suas políticas para atender às
necessidades concretas do momento.
Tal planejamento e coordenação, que deveria passar, por exemplo,
por um processo de transparência e informação pública para melhor
alinhar as expectativas dos agentes econômicos e ações do setor
privado.
Assim o planejamento coordenado geraria um ambiente onde a
política monetária ficaria menos sobrecarregada na sua função de
controlar a expansão da demanda agregada, garantindo uma queda
certa e sustentada da taxa de juros real.

Agora, isso só será possível e será mais eficaz na medida em que


haja uma maior flexibilidade, nas duas direções: na execução da
política fiscal e dos gastos públicos.
Hoje naturalmente existe alguma flexibilidade via o controle que o
Poder Executivo tem sobre a execução orçamentária, mas também,
e é bom frisar, pelo papel naturalmente anticíclico da alta
sensibilidade da arrecadação ao crescimento econômico, negativo
ou positivo.
O desafio aqui é conjugar o processo de planejamento
orçamentário, que deve atender a um conjunto de fatores de mais
longo prazo, com um processo de execução que deve estar em
sincronia com questões do caráter cíclico, imediato, da economia.
Neste caso a sugestão é que a decisão das estratégias de
execução orçamentária sejam colocadas no âmbito do CEN, num
sistema onde momentos de menor crescimento econômico possam
levar a uma aceleração da execução, gerando assim apoio à
demanda agregada pelo gasto público quando for necessário. Ou a
redução da execução em momentos de intensa atividade.
Da mesma maneira a execução da política tributária deveria
também entrar no âmbito de planejamento do CEN, assegurando
uma política de aumento autônomo da arrecadação em momentos
de forte expansão econômica, especialmente onde há fortes
chances dessa expansão estar acima do potencial atual da
economia, e, ao contrário, corte autônomo de arrecadação frente ao
menor crescimento. É um formato que dará papel mais efetivo de
instrumento de política econômica à tributação, ao contrário do que
acontece hoje.

Através do BC o CEN também deveria monitorar o setor financeiro


e bancário. A concessão de crédito e operações nos mercado de
capitais têm forte caráter pró-cíclico. São importantes tanto na
geração do ciclo econômico, como nas eventuais crises financeiras.
Taxação de operações, limites prudenciais de reservas contra
perdas e outras medidas podem também adquirir caráter anticíclico
e podem exercer importante papel na produção da política
econômica.

Em resumo, podemos e devemos aplicar uma política de maior


coordenação entre as diversas políticas macroeconômicas para
garantir sua maior eficácia. Note-se que a maioria das propostas
envolve mudanças da forma de gerenciamento e não complicadas
mudanças na estrutura atual. Também não necessitam de
mudanças complexas na legislação vigente.

Uma última palavra sobre o Banco Central e o atual sistema de


metas de inflação. Há, tanto no âmbito acadêmico, como no político,
várias propostas de reformular o atual sistema de metas. Ao
sistema de metas se imputam quase todos os males da economia.
Algumas propostas concretas desse campo de pensamento,
analisadas com cuidado mostram que acabarão gerando, conforme
o contexto, resultados com inflação igual ou maior que o sistema
atual, que é o criticado. Estas propostas incluem, por exemplo,
ampliar o tempo usado para atingir a meta; mudar o objeto da meta
do IPCA para um índice menos abrangente; e dar o direito ao BC de
“cancelar” a meta, em certas circunstâncias. Nesses casos, dado
que o mercado racionalmente precifica um prêmio pela inflação
esperada, a adoção dessas mudanças levará o mercado a formar
uma expectativa de maior taxa de inflação, exatamente quando o
propósito seria fazer o contrário acontecer.
Devemos, ou deveríamos, estar cientes que algumas mudanças no
sistema de metas, quando são unidirecionais acabam gerando
expectativa de mais inflação no futuro, o que acaba elevando o
nível do prêmio pedido pelos investidores e aumenta o custo de
captação da dívida pública.
Também devemos ter cuidado para não criar um ruído exagerado
no sistema atual com mudanças radicais e bruscas, que também
acabam levando a uma alta do prêmio inflacionário nas taxas de
juros. Um BC com modo operacional previsível, isso deveria ser
objetivo de política econômica, diminui o prêmio de risco do
mercado.

No conceito da boa economia as sinalizações do BC funcionam


como indicadores, recados ao mercado e são acatados. Mudanças
bruscas, impostas de forma autoritária, que tratam investidores, de
forma ideológica, como “rentistas” e, portanto, inimigos que devem
ser combatidos, são parte incorporada do discurso vigente de
muitos economistas que se autodenominam keynesianos e que,
nessa lógica estreita, pregam tais “reformas”. Propostas deste
gênero terão como resultado último a desestruturação do mercado
da dívida pública federal. Talvez seja um projeto revolucionário para
o controle do aparelho do Estado pelas massas, mas não será uma
forma sustentável de gestão pública.

A verdade mais básica é que o Estado não só não controla o


mercado, um de seus financiadores junto com os órgãos
multilaterais e outros governos, como dele depende, no caso. Lidar
com política monetária envolve um grau mínimo de compreensão
dessa premissa.
Muitos economistas embuídos em suas hipóteses pró-estatização
parecem não se dar conta dessa verdade mais elementar. Por isso
lançar mão de estruturas tipo FGTS, onde o governo controla o
Conselho, para financiar o BNDES ou substituir um diretor do BB,
para baixar por decreto o spread bancário, são atitudes atrativas
para os atuais gestores públicos e seus formuladores. Isso não quer
dizer que o sistema atual é “perfeito” e não mereça mudanças.

Uma mudança que parece necessária e que não seria do tipo que
iria garantir apenas um resultado inflacionário maior, seria
reformular a composição do Copom, hoje bastante restrito, fechado,
criando-se um sistema que inclua outros conselheiros que não
sejam apenas do BC. Poderiam ser escalados em rodízio e essa
proposta abriria as decisões do BC a idéias e influências diferentes,
enriquecendo o debate da fixação da política de juros. Deveriam ser
escolhidos dentro de critérios rigorosos de conhecimento e
experiência na área econômica e financeira, efetivo saber.
Deveriam ser remunerados pela tarefa e passar pelo mesmo
processo institucional de aprovação dos atuais diretores do BC.
Incorporariam também as regras de obrigação de sigilo e intervalo
mínimo de tempo para assumir funções no mercado.

4. Política cambial e industrial

Devemos tratar da política cambial e industrial como um conjunto,


pois hoje muito do debate sobre a política cambial passa pela
afirmação que a tendência de apreciação cambial está levando à
desindustrialização, no conceito acadêmico do termo, com a
economia brasileira se especializando cada vez mais no setor
primário de commodities e perdendo espaço para o setor industrial
devido à reorientação dos investimentos de um segmento para o
outro. Um forte exemplo seria o Pré-Sal. Isso seria nocivo para a
economia como um todo, já que é na indústria que se encontra o
setor mais moderno e produtivo, indutor de avanço tecnológico.
Devido a isso seria vital que o governo adotasse medidas para
desvalorizar o câmbio, como controle/taxação de entrada de
recursos, uma política mais agressiva de intervenção do BC e até a
constituição de mais um Fundo Soberano, para aquisição de
dólares pelo Tesouro Nacional, mediante emissão de títulos de
longo prazo.

Provavelmente é aqui onde fica mais claro que existe quase que
uma determinação de não entender como a situação do Brasil e sua
inserção na economia internacional podem ter mudado.
A afirmação que só a indústria agrega tecnologia não procede.
Pode ter sido verdade no passado, mas hoje, com o avanço da
economia de serviços, é um saudosismo um tanto inexplicável
afirmar que a indústria tem um lugar especial e privilegiado para a
acumulação de conhecimento técnico de ponta.

A formação e produção de conhecimento são hoje o grande núcleo


dinâmico da economia. São nos ativos intangíveis que deverá estar
o foco de investimento e interesse. Claro, isso não elimina a
importância do processo industrial, mas ele não é mais o referencial
principal. É igualmente importante entender que há um novo lugar
da economia brasileira nessa geopolítica mundial do pós-crise, cujo
núcleo é a ascensão das economias asiáticas e o relativo declínio
das economias do Atlântico Norte.

É fato que o relativamente bom comportamento da economia


brasileira durante a crise deu-se, em grande parte, devido a nossa
relação cada vez mais importante com a Ásia. Basta comparar o
Brasil com o México, economia que tem muitas semelhanças com a
nossa e uma grande diferença: a quase total dependência dos EUA
para suas exportações. A formulação da nossa política cambial e
industrial tem que ser feita em relação a essa nova realidade e não
um pensamento cujo tempo já passou.

Na esfera cambial temos que entender que, na situação atual, onde


ainda convivemos com taxa de juros reais altas e onde o Estado
ainda tem grande déficit nominal, deve ser visto como estranho
argumentar que devemos onerar o contribuinte com o custo de
acumular um ativo de pouco rendimento, com uma tendência de
queda de valor: o dólar americano. Isso está sendo feito pelo BC,
com um certo ganho, já que as reservas funcionam como
importante seguro contra crises internacionais. Seguro para o país
poder implementar políticas anticíclicas em momentos de crise,
como foi feito na última. Mas uma política de aquisição agressiva o
suficiente para realmente impedir a apreciação do Real frente ao
dólar teria que ser de tal tamanho que ficaria muito difícil justificar
para o contribuinte o seu custo.

Devemos entender, também, que controlar a entrada de capitais é


algo igualmente ineficaz, pelo simples fato que, para ter a
abrangência necessária, tais controles teriam que afetar e taxar a
entrada de investimentos diretos e de portfólio. E isso num
momento onde o país precisa pensar em como financiar projetos
tipo “Pré-Sal” ou cumprir compromissos assumidos com Copa do
Mundo e Olimpíadas. Tais controles também afetam, de forma
desproporcional, o Tesouro Nacional, já que os investidores
estrangeiros hoje estão entre os maiores compradores de dívida de
longo prazo, ponto que os defensores da idéia de controle de
capitais e que também pregam a necessidade de “acabar com as
LFTs”, parece não compreender não reconhecendo que há uma
contradição no conjunto de suas propostas.

Devemos olhar não para a restrição da demanda por reais, algo que
tende a crescer, na medida que a economia brasileira cresce em
importância, mas o outro lado da equação cambial, o aumento da
demanda por dólares e moedas estrangeiras como um todo. Isso
sim tenderia a depreciar a taxa de câmbio, mas de forma positiva
para a economia. Pode ser feito por várias maneiras, como, por
exemplo, corte de tarifas de importação, mas vamos mencionar
duas que se conjugam com a questão de uma política industrial.
A primeira seria liberar nossos fundos de investimento e pensão
para investir fora do país, diversificando suas carteiras. Tal
movimento, hoje muito restrito, ajudaria na internacionalização
desse setor, algo que devemos procurar como meta de política
econômica.

Na mesma direção devemos procurar incentivar a


internacionalização das empresas brasileiras nos setores que hoje
são mais complementares à demanda asiática por nossos produtos.
Devemos procurar agregar valor verticalmente nos setores de
exportação onde o Brasil detém vantagem comparativa. Isto
envolveria agregar valor não somente na formulação do produto,
mas na sua comercialização, inclusive.
Nesse processo teríamos o envolvimento de setores industriais e de
serviços em uma cadeia contínua de agregação de valor.

É necessário entender a histórica mudança que está levando o


deslocamento do eixo econômico mundial para a Ásia. Um tratado
de livre comércio com os EUA seria não nocivo, mas irrelevante.
Deveríamos sim ter como meta principal de política externa não
bolivarianos ou árabes, mas um tratado de livre comércio com as
potências emergentes asiáticas, buscando um processo de
integração de nossas matrizes produtivas, via comércio e
investimento direto mútuo de grandes grupos corporativos nas suas
áreas de atuação específica.

Há, nesse momento de declínio de consumo dos países do


Atlântico Norte, a oportunidade de apresentar o Brasil, e o restante
da América Latina, como, no plano global, um lugar de consumo da
produção asiática. Mas, para que isto seja possível é necessária
uma integração das cadeias produtivas das duas zonas,
aumentando a renda e o potencial de consumo da região.
Respeitando todo um debate teórico que estabelece a importância
de mudanças de comportamento para os países emergentes: de
poupadores para consumidores e integração de seus ciclos
poupança-investimentoconsumo. Esta é uma decisão
geoestratégica que afetará de forma positiva nosso futuro.

Importante ressaltar que essa proposta não é necessariamente


conflitiva com a busca de novos padrões de consumo/produção,
mas deve ser compatibilizada a eles. Para finalizar, o que devemos
formular não são políticas que tiveram o seu lugar num passado de
falta de recursos, mas sim políticas para um presente e um futuro
onde a abundância de dólares, e não sua escassez, será uma
situação normal. Em vez de taxar a entrada de capitais
estrangeiros, devemos incentivar a saída dos nossos capitais para
buscar uma dimensão internacional para os negócios brasileiros.
Esta é a hora e a vez de buscarmos um novo patamar. As janelas
de oportunidade estão abertas.
Compete aos brasileiros e brasileiras uma escolha e será esta
escolha que orientará, para o bem ou para o mal, os próximos ano,
afetando as futuras gerações.
Temos sim alternativas de política econômica e podemos sim
transformá-las em propostas concretas e coerentes com todo um
conjunto de novos paradigmas que o processo civilizatório terá que
assumir para se manter contínuo.