Você está na página 1de 218
O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS” Vol. 03
O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS” Vol. 03
O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS” Vol. 03

O DIREITO NA ORDEM DO DIA:

COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS”

O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS” Vol. 03 N.

Vol.

03

N.

03

TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)
TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)

TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)

TAUÃ LIMA VERDAN RANGEL (Organizador)

O DIREITO NA ORDEM DO DIA:

COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS” (Vol. 03 n. 03)

Capa: Salvador Dalí, “Cavaleiro em frente à Torre” (Horseman in front of the Tower), 1932.
Capa: Salvador Dalí, “Cavaleiro em frente à Torre” (Horseman in
front of the Tower), 1932.
Comissão Científica
Tauã Lima Verdan Rangel
Editoração, padronização e formatação de texto
Tauã Lima Verdan Rangel
Conteúdo, citações e referências bibliográficas
Os autores
É de inteira responsabilidade dos autores os conceitos aqui
apresentados. Reprodução dos textos autorizada mediante
citação da fonte.

APRESENTAÇÃO

O Projeto “Dispersar Direitos” substancializa uma proposta apresentada pelo Professor Tauã Lima Verdan Rangel, na ministração de suas disciplinas. O escopo principal do projeto supramencionado é despertar nos discentes do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo uma visão reflexiva e crítica sobre o universo jurídico. Trata-se de uma abordagem de temas tradicionais e contemporâneos do Direito, tal como suas implicações e desdobramentos em uma realidade concreta. Com o título “O Direito na Ordem do Dia”, a coletânea de Projetos de Trabalho de Curso busca explicitar para a Comunidade Acadêmica e o público interessado os esforços dos discentes do terceiro período, turno noturno, turma B, do Curso de Direito na construção de artigos acadêmicos interdisciplinares arrojados e contemporâneos. Para tanto, a proposta pauta-se na conjugação de diversos segmentos do conhecimento e a utilização de mecanismos de ensinagem que dialoguem conteúdo teórico com habilidades prática em conteúdos jurídicos,

despertando e aprimorando habilidades

imprescindíveis aos Operadores do Direito.

O leitor poderá observar que os temas são

heterogêneos, abarcando realidades locais e peculiares

do entorno da Instituição de Ensino Superior, tal como

questões mais abrangentes. Trata-se da

materialização do diferencial do Curso de Direito do

Centro Universitário São Camilo-ES, ao formar

Bacharéis em Direito capazes de atuar com o plural e

diversificado conhecimento inerente ao Direito, sem

olvidar da realidade regional, dotadas de

peculiaridades e aspectos diferenciadores que

vindicam uma ótica específica.

Boa leitura!

Tauã Lima Verdan Rangel Coordenador do Núcleo de Trabalho de Curso e Pesquisa do Curso de Direito

Í N D I C E

O direito humano à liberdade de gênero: A

possibilidade da transexualidade como afirmação da

dignidade da pessoa humana à luz da Bioética

09

O empoderamento do indivíduo através da evolução

dos direitos humanos e os conflitos na perspectiva do

Direito Fraterno

41

O direito humano à alimentação adequada e a relevância da Emenda Constitucional Nº 64, de 04 de

fevereiro de 2010, no Brasil

63

A biodiversidade e o patrimônio genético: patentes, fiel depositário e a bioprospecção em face aos aspectos

legais

96

A construção de um Estado Socioambiental baseado na ótica do Biodireito: papel da responsabilidade social na

salvaguarda do meio ambiente

125

Solidariedade intergeracional: o direito das gerações

146

futuras a um patrimônio genético não modificado

A Biossegurança à luz do princípio da precaução:

172

inquietações advindas da transgênia alimentar

A Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.510 e a fertilização in vitro: uma análise à luz da Bioética 195

O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS”

O DIREITO NA ORDEM DO DIA:

COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS”

O DIREITO NA ORDEM DO DIA: COLETÂNEA DE ARTIGOS DO PROJETO “DISPERSAR DIREITOS”

O DIREITO HUMANO À LIBERDADE DE GÊNERO: A POSSIBILIDADE DA TRANSEXUALIDADE COMO AFIRMAÇÃO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA À LUZ DA BIOÉTICA

BEDIN, Ana Carolina Fornazier 1 FLORÊNCIO, Diego Almago 2 SANTANA, Gabriella Ribeiro 3 RANGEL, Tauã Lima Verdan 4

Resumo: Tratando principalmente do transexualismo, muito discutido atualmente, o presente trabalho abordará um direito universal e que todo o ser é possuidor no decorrer da evolução histórica humana, considerando-os como sujeito de direito, a exclusão social como pré-conceito e sua capacidade de afetar a qualidade de vida do transexual, a escassez de leis que regulamentam especificamente este fator, como isso pode impedir que eles exerçam alguns direitos considerados inerente a pessoa, podendo considerar até mesmo uma

1 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: carolf.bedin@hotmail.com

2 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: diegoalmagof@hotmail.com;

3 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. E-mail: grsantana121294@hotmail.com

4 Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF. E-mail:

taua_verdan2@hotmail.com

ofensa à dignidade em tais limitações existentes, considerado direito fundamental. Esboçando a aquisição de personalidade jurídica, abordando assim a possibilidade em contrair direitos, por meio de sua capacidade estabelecida por lei, buscando normalidade nos atos de uma vida civil, como aquisição ao nome, prenome a primeira forma de identificação da pessoa , direito à intimidade, honra, vida privada, integridade física, liberdade, atos de disposição do próprio corpo, declarados pelo direito civil de forma perpétua e permanente. Também as condições em que se encontram expostos para a concretização de uma possível cirurgia, os reflexos na medicina na escolha de mudança sexual, do prenome, matrimônio e suas relações com família, Deus e religião, como ocorre a união estável no Brasil. A intenção trans como pretensão à plena cidadania, apontando alguns países que os permitem realizar-se, o poder difuso presente no artigo 1.723, como base de defesa. Apontando os três tipos de orientação sexual existente, explanando especificamente o transexual como escolha de uma nova vida, a omissão das Leis em vigor que permitem um ato de interpretação facultativa do juiz para sentenciar casos como este. E ainda métodos para diminuição desses preconceitos presentes na vida do transexual, e a manifestação da bioética sobre o tema.

Palavras-chave: Direitos Humanos. Transexualidade. Bioética. Liberdade de Gênero.

1 COMENTÁRIOS INICIAIS

Partindo da noção de uma sociedade composta por pessoas que se relacionam umas com

as outras a todo o momento, designa-se a essas pessoas a condição de sujeito de direito, tornando-se um atributo indispensável à personalidade jurídica, e que para a Teoria Geral do Direito Civil segundo os autores Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho (2014, p. 128 a 137) é a aptidão genérica para titularizar direitos e contrair obrigações, que de acordo com o artigo 2º do Código Civil o seu início se dá com nascimento com vida, possuindo então a Capacidade de Direito (de gozo ou aquisição), inerente à personalidade jurídica, e por meio desta todo indivíduo apresenta-se como sujeito de direito, mas apenas com a formalização de determinados atos da vida civil que o indivíduo possui a Capacidade de Fato, e a partir da formalização dos estágios exigidos, como por exemplo, atingir a maioridade (18 anos) e ser sã. Segundo a norma jurídica, mais especificamente no direito subjetivo, em que prevê a escolha que as pessoas têm sobre os seus direitos objetivos as prerrogativas que a lei oferece , permitindo

reclamar de algumas prerrogativas legais, como a mudança do nome. Os artigos 16 ao 19 do Código Civil garantem que todo indivíduo tem direito ao nome civil, sendo ele absoluto por ser um atributo de sua personalidade, pois é a primeira forma de identificação da pessoa, portanto se torna obrigatório, indisponível, exclusivo, imprescritível e inalienável, ou seja, ninguém pode dispor do próprio nome. Há a possibilidade de alteração do nome como os autores Pablo e Rodolfo demonstram em seu livro (2014, p. 163 a 167), mas somente apresentando justificativa com motivo realmente relevante, por conta disso, não é qualquer melindre ou capricho pessoal que autoriza a modificação; para a possibilidade de alteração é preciso ser uma causa necessária (decorrente da modificação do estado de filiação ou alteração próprio nome dos pais) ou voluntária (modificação do nome da pessoa estabelecia-se pelo casamento, a mulher assumia os apelidos do marido, agora é facultativo, o homem e a mulher podem se quiserem acrescer ao seu

sobrenome do outro; outra hipótese é a alteração imotivada, em que o interessado no primeiro ano após ter atingido a maioridade civil poderá alterar o nome, desde que não prejudique os apelidos da família, averbando-se a alteração que será publicada pela imprensa). E conforme o artigo 57, citado no livro Novo Curso de Direito Civil:

Qualquer alteração posterior de nome, somente por exceção e motivadamente, após audiência do Ministério Público, será permitida por sentença do juiz a que estiver sujeito o registro, arquivando-se o mandado e publicando-se a alteração pela imprensa. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2014, p. 166)

2 DIREITO E GARANTIAS

Passando agora para o âmbito dos Direitos Humanos Fundamentais, onde Alexandre de Moraes (2013) retrata os direitos e garantias do ser humano, que tem por finalidade básica o respeito a sua dignidade, protegendo contra o excesso do poder cometido pelos órgãos estatais, e o estabelecimento

de condições mínimas de vida e desenvolvimento da personalidade humana. São os direitos inerentes a todos os seres humanos, sem fazer distinção de raça, nacionalidade, religião, etnia, sexo, idioma, cor ou idade, tendo por objetivo a vida, liberdade, o trabalho, a educação, a saúde, entre muitos outros direitos que toda pessoa deve ter sem que haja qualquer discriminação. A maioria das pessoas deseja ter alguém com quem compartilhar sonhos, desejos, amor e carinho em relações amorosas estáveis. Então precisam lidar com questões como a vida financeira em relação à sexualidade, intimidade, comunicação, conflitos, família, filhos, profissão, relacionando e conciliando tudo em um mesmo momento. Para os autores Miriam Grossi, Anna Paula Uziel e Luiz Mello (2007), ao comparar casais héteros e casais homossexuais não são neste aspecto diferentes considerando a alternativa sexual da realidade encontrada em um relacionamento, uma vez que para obter sucesso em um relacionamento as questões seriam semelhantes para ambos. No

entanto casais de mesmo sexo enfrentam situações adicionais se comparados a um casal heterossexual. O preconceito é um desses adicionais, seja internalizado ou não, há falta de leis que os protejam para que possam exercer os direitos civis como qualquer cidadão em sua pátria, como o direito a herança, partilha de bens, inclusão do parceiro em planos de saúde e previdência, declaração conjunta da renda, adoção, entre muitos outros. O preconceito pode levá-los a ter que negociem o grau que devem assumir seu relacionamento, selecionando também as pessoas que podem mostrar seus interesses íntimos, avaliando os riscos que assumirão diante da decisão a ser tomada, pois terão que suportar uma provável rejeição, discriminação e marginalização, com isso muitas vezes preferem levar uma vida dupla e se esconder. A união estável é permitida apenas entre homem e mulher de acordo com a Constituição Federal de 1988, sendo considerada como entidade familiar, e a lei deve facilitar sua conversão em

casamento. O Código Civil reconhece a união estável do mesmo modo, tendo no seu artigo 1.723 praticamente a mesma escrita do texto constitucional. Por conta disso, se torna quase impossível a realização de uma união estável ou um casamento entre dois homens ou duas mulheres. Porém, em maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre homossexuais, contrariando, portanto a Constituição Federal, como descreve o autor Luiz Carlos Lodi da Cruz (2011), alegando que o artigo 1.723 do Código Civil possui uma plurissignificatividade, tendo o primeiro significado o reconhecimento apenas da união estável entre homem e mulher como constituição da família, e o segundo significado é o reconhecimento entre homem e mulher, mas que não exclui os homossexuais como entidade familiar, e alegam também que há a inconstitucionalidade no primeiro, pois discriminam por conta do sexo os homossexuais, ferindo o artigo 3º, IV, da Constituição Federal, e só se resolverá com uma

emenda constitucional que altere o artigo 226, § 3º da mesma. Mas vale ressaltar que em diversas leis orgânicas municipais e algumas constituições estaduais já adotaram em seus textos a inclusão da expressão “orientação sexual”, tornando-se causa de penalidade o ato discriminatório, como por exemplo, os municípios de Guarapari, Santa Leopoldina e Mantenópolis no estado do Espírito Santo.

3 APROVAÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL

Alguns pares homossexuais conseguiram o reconhecimento da união estável nas instâncias inferiores, mas não o casamento. Ao lado disso, a união entre pessoas do mesmo sexo foi reconhecida como entidade familiar pelo Supremo Tribunal Federal. O juiz que enfrenta casos como este deve decidir de acordo com a analogia, os costumes, os princípios gerais do Direito e a equidade, por conta da lacuna na lei que ampare e regule o tema, o que torna um grande problema não apenas para os casais homoafetivos, mas para todos os

homossexuais, pois continua a intolerância, o preconceito em relação às opções sexuais. Entretanto, a condição sexual de um indivíduo não lhe tira ou diminui os seus direitos, muito menos a dignidade da pessoa humana, e de acordo com o autor Rogério Silva Fonseca (2012) muitos atesta que a opção sexual e a aceitação do casamento não devem ser proferidas apenas pelo direito obrigacional, mas também pelo Direito de Família, pois se trata de sentimento, emoção e afeto, e há fortes possibilidades da existência de predisposição genética, portanto não é escolha da pessoa sua orientação sexual.

4 ESPÉCIES DE CONDIÇÃO SEXUAL

Entrando mais a fundo no tema, existem três espécies de condição sexual segundo as organizações GGB e LGBT: a heterossexual, a homossexual e a bissexual. Sobre a homossexual, podem ser apontados as lésbicas, os gays, os travestis, os transexuais e os

transgêneros; quanto à classificação dos fenômenos da sexualidade, descreveremos a diferença entre três: as lésbicas e os gays, que são mais conceituados como homossexuais, por serem aquelas pessoas que tem atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo, mas que estão satisfeitos com o seu sexo biológico, com a sua genitália de origem; os travestis, são aquelas pessoas que usam roupas, tem atitudes e maneirismo do sexo oposto, para assim obter prazer pessoal e sexual, e apesar de se “transformarem” em outro gênero sexual, aceitam sua genitália e a utilizam para obter prazer durante o sexo; e os transexuais, são as pessoas que não aceitam o sexo morfológico de origem, ou seja, sentem repulsa por seu órgão sexual, possuem a genitália externa e interna de um sexo, mas se consideram e se identificam com o sexo oposto, vivendo em situações de incertezas, frustrações, angústias e conflitos, são obcecados pelo desejo de ter o corpo alterado e possuir na sua concepção o seu verdadeiro sexo, levando-os a realizarem a cirurgia de reversão sexual, e pela Classificação

Internacional de Doenças esse fenômeno sexual é considerado um transtorno classificado pelo CID10 (F 64.0), conforme Aricele de Araujo (2013).

5 OS TRANSEXUAIS

Abordando a partir de agora somente a temática da transexualidade, em que provoca grandes reflexos nas áreas da Medicina, Psicologia e especialmente no Direito, por envolver o direito à identidade pessoal e o direito à identidade sexual que constituem os direitos da personalidade inerentes à dignidade da pessoa humana. E de acordo com o livro dos autores Miriam Grossi, Anna Paula Uziel e Luiz Mello, no plano das relações sociais, Fernanda Cardoso (2007, p. 242) apresenta a existência de uma segregação entre o público e o privado quando há a possibilidade de questionar o tratamento a ser considerado, se feminino ou masculino, que tem influência no grau de intimidade do transexual com outrem. Dependendo da situação que se encontrar tal tratamento poderá

ser acusado de violência contra a opção sexual do indivíduo, no entanto, existem dificuldades na afirmação do gênero, quanto à imensa feminilização, considerar uma transição masculino- feminino ou uma exclusividade em sua qualificação criando-se uma nova categoria. Sendo que a categoria de sexo inicialmente seria para designar a natureza de sexualidade reprodutora, hoje vem tomando outra forma. O transexual tem seu lugar no rol familiar independente de sua escolha ou dualidade de gênero tratando da sua construção física , sendo este tendencioso para o lado feminino, vai desde a participação na criação de crianças até aos afazeres domésticos. Porém nesse meio, mesmo estando inserido no universo feminino, são denominadas pelos familiares pelo gênero masculino em muitos casos. O livro sobre Transexuais: perguntas e respostas, aborda a temática do transexualidade da seguinte maneira:

O processo transexual a jornada que começa com uma terapia e vestir-se como o outro sexo, passa por tratamento hormonal e termina em cirurgia não é um capricho passageiro. É a busca consistente de integração física, emocional, social, espiritual e sexual, conquistada a enormes penas pessoais. (RAMSEY, 1998, p. 32)

Marcados por uma vida de discriminações, sofrimento, depressão, problemas em se relacionar seja socialmente ou na vida familiar, e a falta de conciliação entre a genitália e seu psicológico, incentiva os transexuais o desejo da integração física, sexual, emocional, ambiente social, espírito e corpo. Para que isso ocorra se submetem a um processo de tratamento hormonal, terapêutico e cirurgias diversas, que na maioria das vezes raramente são determinadas, como explana Aricele Julieta Costa de Araujo (2013).

6 MODIFICAÇÃO DE SEXO E DO REGISTRO CIVIL

A partir de um diagnóstico de transexualidade, são oferecidas duas opções, a primeira é a psicoterapia no qual o indivíduo é tratado para que

o seu psicológico atue em sincronia com sua

anatomia reprodutiva natural, mas somente se alcança a eficácia nos casos em que se observa uma

opção de gênero, pois nos casos de hermafrodita ou

no verdadeiro transexual não funciona, uma vez que

um dos órgãos reprodutores pode ser atrofiado pelos hormônios do sexo oposto ou por aqueles produzidos pelo próprio corpo. A segunda opção são as cirurgias de redesignação sexual, leva em consideração o distúrbio do indivíduo por meio de laudos médicos, sendo de caráter permanente e imutável, ocorrendo um acompanhamento por uma equipe especializada analisando vários critérios, e só então, é realizada a cirurgia. Que podem ser do tipo neocolpovulvoplastia, neofaloplastia e/ou

procedimentos complementares sob gônadas e caracteres sexuais secundários. A partir do ano de 2002 essas cirurgias foram liberadas pelo Conselho de Medicina Federal Brasileiro, pautadas na Resolução nº 1652/02 subordinadas aos artigos 3º e 4º, que apontam os seguintes quesitos necessários para a realização: o desconforto com a anatomia sexual, desejo de eliminar e modificar os órgãos reprodutores, ausência de outros transtornos mentais, bem como, o diagnóstico do médico, possuir mais de 21 anos, ausência de outras características físicas que poderiam atrapalhar a cirurgia, acompanhamento de dois anos e posterior autorização médica. Podendo ser realizada até mesmo pelo SUS. Toda a responsabilidade médica estaria então respaldada no artigo 56, na decisão de consentimento informado e esclarecido pelo paciente, que caso contrário, estaria o profissional da saúde violando o artigo 129, §2º, III, do Código Penal Brasileiro, que classifica como crime doloso

por praticar a mutilação, violando o princípio da indisponibilidade do corpo humano. A alteração do registro civil para os transexuais concretizaria sua identidade pessoal, pois após ter passado pela cirurgia, implica a alteração do prenome antes estabelecido no dia do nascimento, para que possa ter o exercício completo da sua cidadania. Porém mais uma vez o transtorno decorrente da dificuldade de concretização da sua postulada natureza associação entre genitália e psicológico , é encontrada nas condições para tal mudança, impedindo que a pessoa goze do direito da primeira dimensão, ou seja, direitos civis que são diretamente ligados aos direitos políticos. Todos são iguais perante a lei sem distinção de natureza, segundo o artigo 5º, caput, e Pedro Lenza (2014, p. 1072) aborda essa questão, e também a busca pela igualdade social vincula a busca pelo

processo de titularidade coletiva, reconhecida pelos direito humanos, caracterizados como fundamentais

à pessoa e essencial à vida. Posto que de acordo com

a Declaração dos Direitos Humanos no artigo 29, os

deveres de toda pessoa dão a ela a oportunidade de desenvolver livremente e plenamente sua personalidade, respeitando a liberdade dos demais buscando o bem-estar do indivíduo e da sociedade. Vale dizer que tudo aquilo que não está proibido é permitido. Não existe lei alguma no Brasil que acolha o pedido de mudança de sexo ou modificação no registro civil, mas encontramos jurisprudência em diversos sentidos que permitem a possível alteração do registro, podemos citar o Projeto de Lei nº. 70-B do Deputado José Coimbra, que pretende acrescentar um parágrafo ao artigo 129 (lesões corporais) do Código Penal, e de dois parágrafos ao artigo 58 da LRP (Lei de Registros Públicos), para que mediante autorização judicial e averbação no registro de nascimento e no documento de identidade de que se trata de um transexual e desclassificando como crime a alteração de sexo. O procedimento para a mudança apenas do prenome no Registro Civil, será aplicada as regras gerais de alteração de prenome, acontecendo a Ação

de Retificação de Registro Civil. A jurisprudência tem utilizado para essa mudança a Lei de Registros Públicos (Lei nº. 6.015/73), possuindo argumentos com os artigos 55, parágrafo único (por exposição ao ridículo), 57 (por exceção e motivadamente) e 58, caput (por apelido público notório). E há casos dos julgadores acolherem o julgamento antes da lide e sem ser necessária a perícia, pela petição inicial bem formulada, com os pareceres médicos e psicológicos, apresentando provas, mas também há casos que os documentos atestados não convencem o juiz, requerendo uma audiência de justificação com depoimento pessoal do interessado. Já o procedimento para a alteração do sexo no Registro Civil, deve acontecer a Ação de Redesignação do Estado Sexual, para alguns operadores do Direito a competência para julgar tal alteração não é definida ao certo, se é na Vara de Família ou na Vara de Registros Públicos, mas para a maioria o foro competente é a primeira Vara, por se tratar de ação de estado das pessoas que é matéria de ordem pública, tramitando em segredo

de justiça. E o juiz para se convencer da irreversibilidade da identificação psicológica ou ter certeza da realização da cirurgia, pode requerer a perícia médico-fisiológica e a realização de laudo psicossocial. No entanto, tanto para a alteração do prenome quanto para a alteração do sexo, são procedimentos que ocorrem com grande dificuldade, na maior parte das vezes o pedido é negado pelo juiz, que se baseia no Código Civil em que ninguém pode dispor do próprio nome, sendo ele definitivo, e mesmo após a cirurgia declara não possuir fundamento legal por ainda existir prevalência do sexo biológico sobre o psíquico.

7 A FAMÍLIA, DEUS E A POSSIBILIDADE DO MATRIMÔNIO

Quando as crianças começam a demonstrar aspectos e preferências por atividades do sexo oposto a família tende a criar estratégias para forçá- las a normalidade, porém acaba sendo uma ilusão

de que irá “consertar”. Além da criança não dar o retorno esperado os pais tendem a culpar um ao outro, levando a conflitos conjugais e até mesmo em divórcio, o que reflete no emocional da criança, onde se considera culpada por ser “diferente” e causar problemas, segundo Gerald Ramsey (1998). As mães, normalmente aceitam com mais facilidade a criança transexual do que os pais, e quando o transexual é homem-para-mulher se torna ainda mais difícil. A terapia para as mães e os pais também são necessárias, pois costumam se questionar de variantes maneiras, até mesmo se o esperma é defeituoso ou quanto a própria sexualidade e orientação. Então, é preciso que formulem uma teoria pseudo-acadêmica própria, com a tendência a se basear em elementos técnicos e históricos. As famílias de transexuais, mesmo as mais inflexíveis, depois de compreenderem a mudança de gênero atingem certo grau de aceitação, e na maioria das vezes pelo fato de terem duas opções: aceitar de alguma maneira o transexual ou perdê-lo.

Outro fator que entra em questionamento é quanto a Deus e religião, sendo no mesmo instante uma questão importante e perturbadora para os transexuais, pois alguns transexuais já crescem diante de uma cultura religiosa no qual adverte que a homossexualidade é um pecado. Com isso surgem perguntas frequentes como qual futuro terá sua alma, o porquê de um Deus compassivo permitir que sofram desta forma, como e por que Deus permite que o gênero biológico esteja em contradição com o ser emocional e psicológico, e por aí vai as suas dúvidas possuindo um sentimento de raiva muitas vezes por se sentirem injustiçados. Mas, as questões espirituais são resolvidas na maior parte das vezes pelos transexuais. O autor e psicólogo clínico Ramsey (1998) em seus trabalhos sobre o assunto, estimula principalmente que seus pacientes transexuais procurem um aconselhamento religioso seguindo sua denominação, seja por meio de um padre, um rabi ou qualquer outra autoridade, a rezar, meditar

ou participar de alguma prática religiosa, além de refletir a respeito de suas questões.

Em que acredito? Acredito que Deus não concedeu o direito exclusivo de discernir a verdade a nenhuma pessoa ou religião. Deixo a justiça para Deus e encorajo todos a encontrar cada um o seu caminho, conforme o seu coração, espírito e consciência determinarem. (RAMSEY, 1998, p. 85)

O matrimônio se torna outro problema para essas pessoas, tanto na vida religiosa, onde as doutrinas geralmente são contra a mudança de gênero sexual e consequentemente não aceitam fazer uma cerimônia para os casais que se encontram nessa situação, quanto na vida civil, referende ao direito, as leis e os costumes da sociedade. Contudo, a partir do instante que há o reconhecimento por parte da doutrina e jurisprudência em razão da adequação do sexo e do prenome no Registro Civil após a cirurgia, pode gerar para o transexual reflexo no Direito de

Família, como o direito ao casamento, pois se entende que ele pode contrair matrimônio com pessoa de sexo oposto, ou seja, ocorrerá o que a lei prevê, casamento entre homem e mulher. Luiz Mello (2007) reflete sobre o matrimonio entre pessoas do mesmo sexo tem se tornado cada vez mais comuns no mundo como nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Espanha que foi positivado pela Lei nº 13 do ano de 2006, afirmando assim os requisitos e efeitos semelhantes ao matrimônio de pessoas com sexo oposto, podemos dizer que com esta, pode haver uma ruptura no preconceito antes criado pelo Estado, que há três décadas ainda incluía como delito a opção sexual por alguém do mesmo sexo e este necessitaria de reabilitação social. Porém mesmo com tal aceitação de opção por parte do Estado, os homossexuais e transexuais não deixaram de sofrer agressões, seja físicas ou mentais, pois muitos cidadãos são extremamente conservadores ao ponto de não aceitá-los. Em situações como esta fica evidente que a convivência

pacífica ainda não pode ser considerada notória, como presenciou Luiz Mello em Madrid (2007, p. 170 e 171), mas na medida em que os direitos destinados a essa parcela da população for positivada é provável que a homofobia e a transfobia sejam reduzidas a ponto de deixarem de ser objeto de ira e perigo social.

8 BIOÉTICA COMO UM AUXÍLIO NA SOLUÇÃO DA TRANSFOBIA

Muitos tratam a homossexualidade e a transexualidade como um distúrbio, e os relacionam a doenças sexualmente transmissíveis, como por exemplo, a AIDS. Tal tema foi responsável por intensas discussões em todo o mundo, ligando-a ao âmbito moral e religioso, inclusive foram feitas três hipóteses para tentar justificar o motivo que uma pessoa altera seu gênero sexual: 1- é uma modalidade clinicamente indiferente; 2- um desvio da linha dos finalismos biológicos; 3- trata-se de

uma desarmonia psicossexual, cuja origem deve ser buscada na rede das relações afetivas e sociais. O autor Elio Screccia (2004, p. 106-109) em seu livro trata a transexualidade como um desvio sexual (desvio da tendência e/ou do comportamento), denominando-se assim pelas “patologias que levam a escolher um sujeito total de amor desviado”, ou também como um “desvio da atração afetivo- sexual”.

Os psicanalistas ligam a opção sexual a questão familiar ou de acontecimentos que ocorreram no decorrer da infância, devido a tendência de definição entre os 6 e os 12 anos de idade, pois as crianças do sexo masculino se apegam mais a mãe e as de sexo feminino mais ao pai. Grande parte dos estudiosos está de acordo com a terapia feita por psicanalistas para uma possível melhora e é constituída de dois fatores primordiais que são: uma família harmoniosa com ambos os pais presentes e também a socialização do menino e da menina precocemente. Normalmente a terapia de natureza psicológica é longa e demorada, por isso

estão sendo usadas as terapias de grupo como alternativa, com o objetivo de ajudar a pessoa a sair do isolamento, do sentimento de desprezo, também em algumas pessoas são utilizados métodos de hipnose. O tema também é muito abordado nas religiões atualmente, mais predominante na católica, é se a condição homossexual pode ser um ato pecaminoso ou não, e sobre casamentos homoafetivos, que por sinal já são realizados em vários lugares pelo mundo. A Igreja católica tem se mostrado mais aberta a tratar dessas questões, mesmo não sendo explicitamente favorável procura mostrar compreensão e apoio fraterno e pastoral. A condenação da Bíblia é apenas cultura transitória, pois se trata de um livro que pode ser interpretado de diferentes formas, ou seja, as interpretações vão de acordo com o entendimento de cada pessoa.

O respeito pela pessoa devido a seus valores, a proibição da marginalização social, a exigência da compreensão humana das situações de cada um não comportam a justificação tout-

court ou a relativização dos juízos éticos. Ressalta-se amplamente esse ponto nos documentos do Magistério da Igreja católica. (SGRECCIA, 2004, p. 117)

A Bioética, segundo Screccia no livro Manual de Bioética (2004), vê os dois lados de uma forma igualitária, respeitando todos os tipos de costumes e opiniões, pois aborda conceitos psicológicos para a homossexualidade e o uso de terapias para uma possível melhora no desenvolvimento da pessoa. E também aborda o lado religioso, onde antigamente o homossexualismo era muito repudiado, mas que hoje em dia as religiões vêm sendo mais compreensíveis, no entanto não perdendo a essência de suas doutrinas. Preconizando o respeito à diferença entre humanos, visto que uma denominação de transexual não o exclui, a Bioética, tenta desmarginalizar os preconceitos, valorando-os como seres humanos que possuem sentimentos, vontades, direitos a sua integridade, direitos de expressão sem serem reprimidos pela sociedade. Além de buscar

esclarecer métodos para que essas pessoas se sintam bem psicologicamente, fisicamente e com a sociedade, com isso auxiliando por meio de soluções e ajuda, reduzindo então a transfobia para que haja um mundo mais justo.

9 CONCLUSÃO

Dado o exposto, conclui-se que os transexuais, aquelas pessoas que nasceram com um sexo biológico diferente do que se identificam psiquicamente, são considerados doentes, por possuírem um transtorno pela Classificação Internacional de Doenças, vivendo muitas vezes em estado depressivo, por não estarem em sintonia fisicamente e emocionalmente. A medicina já comprovou através de estudos que a opção cirúrgica de redesignação sexual é de natureza terapêutica, e talvez a única forma para que o indivíduo consiga viver bem. Porém no Brasil, mesmo após a realização desta cirurgia os transexuais encontram-se

desamparados diante ao sistema jurídico, por não possuir leis que garanta o seu direito de adequação sexual, enfrentando constrangimentos sociais e psicológicos, por exemplo, para a modificação dos seus documentos de nome e de sexo . Pode-se dizer que o direito não acompanhou a evolução da medicina e social, ofendendo o princípio da dignidade da pessoa humana, a garantia dos direitos individuais, a tutela dos direitos da personalidade, assim como os direitos humanos, e cometendo a discriminação aos transexuais. Mas também, há pessoas conservadoras que não conseguem aceitar a orientação sexual contrária ao sexo biológico, sendo muitas vezes radicais, agredindo fisicamente ou mentalmente os transexuais, que estão ainda desprovidos de leis para defendê-los. A jurisprudência tem se mostrado favorável as questões que envolvem os transexuais, mas com várias restrições. No entanto, já é um grande passo com uma enorme importância na segregação do transexual no meio social, e podendo desse modo

usufruir dos direitos que lhe pertence por ser um

sujeito de direito, como o casamento, e possuir

punições para aqueles que o descrimine pela sua

orientação sexual.

REFERÊNCIAS:

ARAUJO, Aricele Julieta Costa de. A possibilidade de alteração do nome e sexo civil do transexual. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 18, nº 3627, 6 jun. 2013. Disponível em:

<http://jus.com.br/artigos/24631/a-possibilidade-de-

alteracao-do-nome-e-sexo-civil-do-transexual>. Acesso em 29 nov. 2014.

CERQUEIRA, Marcelo. Orientações: Orientação Sexual e Homossexualidade. Salvador: Grupo Gay da Bahia GGB. Disponível em:

<http://www.ggb.org.br/orienta-homosexual.html>. Acesso em: 13 jun. 2015.

CRUZ, Luiz Carlos Lodi da. Contrariando a Constituição, STF reconhece união estável entre pessoas do mesmo sexo. Disponível em:

<http://jus.com.br/artigos/19087/contrariando-a-

constituicao-stf-reconhece-uniao-estavel-entre-

pessoas-do-mesmo-sexo>. Acesso em 29 nov. 2014.

FONSECA, Rogério Silva. A união estável homossexual e a constituição de família. Disponível em: <http://espaco-

vital.jusbrasil.com.br/noticias/3137092/a-uniao-

estavel-homossexual-e-a-constituicao-de-familia>. Acesso em 29 nov. 2014.

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo Curso de Direito Civil. 16 ed. São Paulo: Saraiva, 2014.

GROSSI, Miriam; UZIEL, Anna Paula; MELLO, Luiz. Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 18 ed. São Paulo: Saraiva, 2014.

LGBT. Conheça os tipos de orientação sexual. Disponível em: <http://www.lgbt.pt/conheca-os-

tipos-de-orientacao-sexual/>. Acesso em: 13 jun.

2015.

MORAES, Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais. 10 ed. São Paulo: Atlas, 2013.

RAMSEY, Gerald. Transexuais: perguntas e respostas. São Paulo: GLS, 1998.

SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética: II aspectos médicos-sociais. 2 ed. São Paulo: Loyola, v. 2, 2004.

O EMPODERAMENTO DO INDIVÍDUO

ATRAVÉS DA EVOLUÇÃO DOS DIREITOS

HUMANOS E OS CONFLITOS NA

PERSPECTIVA DO DIREITO FRATERNO

ROHR, Gabryel Figueiredo 5 SANTOS, Marcos Nelson Rodrigues 6 GOMES, Rubia Minas 7 RANGEL, Tauã Lima Verdan 8

Resumo: O sistema jurídico brasileiro há anos enfrenta uma superlotação, pois cresce todos os dias conflitos para o judiciário resolver. Essa situação culmina na enorme lentidão em relação à resolução desses litígios, e abre espaço para outras formas de resolução de conflitos. Formas estas que revolucionam o direito no seu modo de agir, geralmente tão autoritário e que com essas formas alternativas de resolução de conflitos, “obrigam” o direito a abrir um espaço para o lado humano

5 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário são Camilo-ES, gabryelrohr@outlook.com;

6 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário são Camilo-ES, marcosnelsonrodrigues@outlook.com;

7 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário são Camilo-ES, rubia-mg@hotmail.com;

8 Professor Orientador. Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense.

taua_verdan2@hotmail.com

desses litígios. Utilizando as dimensões dos direitos humanos, consagradas ao longo do tempo, a ideia de fraternidade surge junto com a revolução francesa, e propõe uma nova forma de relacionar o Estado com os cidadãos. Essa forma é fraterna, equilibrada, e busca satisfazer todos os lados. Aproveitando a grande conquista dos cidadãos frente ao Estado controlador, o Direito, através do Direito Fraterno, tenta trazer para seu meio essa ideia de igualdade, não autoritarismo, e transformar o direito em algo mais humanístico do que as relações jurídicas existentes. Atualmente, o Direito Fraterno funciona como uma válvula de escape para o judiciário, proporcionando soluções sem a necessidade de levar o conflito para a jurisdição. Através da mediação, conciliação, arbitragem, autocomposição, entre outros, é possível desafogar o judiciário e acelerar a justiça brasileira. Nessas formas de resolução alternativas, o indivíduo tem um papel muito maior do que na jurisdição, de modo que ocorre um verdadeiro diálogo para se resolver a situação, sem recorrer à jurisdição. Isso proporciona decisões mais rápidas, justas, e até mais confortáveis para a parte que sai “derrotada”.

Palavras-chave: Empoderamento do indivíduo. Direito Fraterno. Direitos Humanos.

1 COMENTÁRIOS INICIAIS

Os Direitos Humanos, desde seus primórdios, priorizam as relações de igualdade e justiça entre os indivíduos, buscando estabelecer regras de convívio com o objetivo de promover a ordem na sociedade. As dimensões fundamentais dos direitos tratam de uma criação doutrinária, correspondem ao mínimo de poder possuir uma vida digna, ter direitos mediante a sociedade e ao Estado. As dimensões são históricas, vem de muitos anos atrás, onde uma sociedade via em si uma necessidade de tais atos corriqueiros que seriam fundamentais para a sobrevivência, assim eram impostos em sua constituição, ou seja, a valorização de certo direito em determinado momento da história. Os Direitos Humanos foram evoluindo e se tornando fundamentais através dos anos, além de consagrar novas dimensões e diretrizes da relação em sociedade. Os direitos de primeira dimensão segundo Norberto Bobbio, formado em filosofia e direito em

Turim, Itália, referem-se ao poder de liberdade, como o mesmo diz, “num primeiro momento, afirmaram-se os direitos de liberdade”, (BOBBIO, 2004, p. 32), ou seja, os direitos individuais, de natureza civil e política. Paulo Bonavides declara precisamente com suas palavras que, “os direitos fundamentais de primeira dimensão representam exatamente os direitos civis e

(BONAVIDES, 2006, p. 569). O direito

de liberdade, também conhecido como direito de liberdade negativa, pois limitam a atuação do poder público, buscando o respeito e o poder liberal individual da pessoa humana diante ao Estado. Exemplos de direitos de primeira dimensão podem ser citados como, o direito à vida, a liberdade, á propriedade, á liberdade de expressão, a participação política e religiosa, a inviolabilidade de domicilio, entre outros. Conclui se que a primeira dimensão trata-se da proteção de um indivíduo. Tais direitos dessa dimensão devem ser aplicados imediatamente, ou seja, se um país aderir a um tratado, este deve ser aplicado de imediato.

políticos[

]”.

Essa proteção tem a finalidade de tirar os cidadãos como seres subservientes ao Estado, e sim promover igualdade, privacidade, dignidade, e de “afastar” o Estado das decisões autoritárias e interesseiras em relação à sociedade.

A relação com o direito é muito clara, os direitos

humanos sempre revolucionam as relações entre o Estado e a sociedade, portanto proteger o indivíduo como primeira geração é algo que modifica o Direito, tira um pouco do autoritarismo e proporciona um pouco de autonomia para quem recorrer ao sistema jurídico.

2 SEGUNDA DIMENSÃO DE DIREITOS HUMANOS: A CONSAGRAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS

No início do século XX, surge a segunda dimensão, que visa os direitos sociais ou de

integrações sociais, culturais e econômicos. Ou seja,

o Estado gastando seus lucros para ajudar as

pessoas fazendo um bem social, o Estado cuidando

da proteção de grupos de pessoas, como proteção dos trabalhadores e proteção dos aposentados, nasce assim um Estado do Bem-Estar Social. O Estado se torna um Estado de ação, não um Estado omisso

.Pode se dizer que são

liberdades positivas, reais ou concretas, assegurando o princípio da igualdade material entre o ser humano. Exemplos de segunda dimensão são o direito ao trabalho, direito à cultura, direito à educação. Norberto Bobbio afirma, “direitos políticos, os quais concebendo a liberdade não apenas negativamente, como não impedimento, mas positivamente, como autonomia”. (BOBBIO, 2004). A segunda dimensão de direitos cobra a participação do Estado no âmbito social, garantindo que as integrações sociais, culturais e econômicas sejam realidade para todos os indivíduos.

como na primeira

dimensão.

Se os direitos fundamentais de primeira geração tinham como preocupação a liberdade contra o arbítrio estatal, os de segunda geração partem de um patamar mais evoluído: o homem, liberto do jugo do Poder Público, reclama agora uma

nova forma de proteção da sua dignidade, como seja, a satisfação das necessidades mínimas para que se tenha dignidade e sentido na vida humana. (ARAÚJO, JÚNIOR, 2008, p. 115-116)

Também chamados de direitos de igualdades, pois buscam agir para garantir a igualdade entre as pessoas. Os direitos sociais reforçam a tese de que o indivíduo é um ser humano antes de qualquer coisa, inclusive antes de ser cidadão. É necessário que o Estado garanta os direitos individuais e sociais nessa ordem, e na segunda dimensão o Estado surge como um protetor desses direitos. O direito sempre foi utilizado pelo Estado com forma de garantir os direitos sociais de todos, e a relação de cumplicidade entre o Estado e a sociedade. Porém, o direito costuma tratar os indivíduos apenas como mais uma engrenagem do judiciário, como foi dito anteriormente, e utiliza a letra fria da lei em muitos casos para decisões judiciais, sem analisar todo o contexto. Mesmo assim, o Estado participa dos litígios tentando

promover a organização social, exercendo sua função de protetor dos direitos sociais.

3

DIREITO FRATERNO

TERCEIRA

DIMENSÃO

DOS

DIREITOS:

Com ideia de fraternidade, a terceira dimensão vem impor um vínculo, uma ligação da proteção de um número indeterminado de pessoas, ou seja, um direito coletivo, o direito de todos. A imagem do homem é vista como um ser coletivo ou de grupo. Mostra uma grande preocupação com as dimensões humanas presentes e futuras. Além disso, prioriza o diálogo, a comunicação do indivíduo com o próximo, se preocupando com o bem estar coletivo. Paulo Bonavides diz:

Com efeito, um novo pólo jurídico de alforria do homem se acrescenta historicamente aos da liberdade e da igualdade. Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade, os direitos da terceira dimensão tendem a cristalizar-se no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção

dos interesses de um indivíduo, de um grupo ou de um determinado Estado. Tem primeiro por destinatário o gênero humano mesmo, num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de existencialidade concreta. (BONAVIDES, 2006, p. 563-569)

Sérgio Resende de Barros diz, “o direito da paz, o direito ao desenvolvimento, o direito ao patrimônio comum da humanidade, o direito á comunicação, o direito á autodeterminação dos povos e o direito ao meio ambiente sadio ou ecologicamente equilibrado.” Ou seja, direitos coletivos para todos. (BARROS, 2004) Ambas as dimensões citadas, correspondem ao lema da Revolução Francesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Até então, os fatos corriqueiros, mudam de acordo com a necessidade visada de um povo ou um ser sozinho. Todas essas dimensões mostram a evolução dos direitos humanos durante séculos, primeiro com os direitos individuais e o afastamento do Estado, depois com os direitos sociais e a proteção do Estado. E por último os direitos fraternos, a

relações pessoais, proporcionando uma boa relação entre todos, sem distinção de etnias, culturas, gêneros, ou qualquer outro tipo. Os direitos fraternos buscam o equilíbrio na sociedade, o progresso social, a paz, um bem estar social, mas que tem como principal função proteger cada indivíduo com suas particularidades dentro da sociedade. São os chamados interesses transindividuais, de modo que o que acontece a um indivíduo não terá consequências somente para ele, e sim para toda uma coletividade em que ele se inserir. Alexandre de barros também discorre sobre o assunto, e registra a seguinte frase em seu livro:

Por fim, modernamente, protege-se, constitucionalmente, como direitos de terceira geração os chamados direitos de solidariedade e fraternidade, que englobam o direito a um meio ambiente equilibrado, uma saudável qualidade de vida, ao progresso, a paz, a

autodeterminação dos povos e a outros

direitos [

]

(MORAES, 2006, p.60).

Alexandre de Barros ao dizer isso teve a intenção de passar para seus leitores que tentando proteger o próprio ser humano, surgiram-se através do tempo tais direitos, direitos esses transindividuais. Portanto o direito à vida passou a ser analisado como um direito possível, suscetível de ser lesado coletivamente, ou seja, uma lesão que pode ser tanto dirigido a uma ou mais pessoas. Partindo dessa ideia, o direito sofre modificações ao longo do tempo, desde quando o Estado tinha o direito como uma arma para garantir seus interesses, até chegar ao Direito Fraterno, onde os indivíduos, ou litigantes, se tornam a parte mais importante no meio jurídico.

4 FORMAS ALTERNATIVAS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS NO DIREITO FRATERNO:

MEDIAÇÃO

As formas alternativas de resolução de conflitos variam bastante, mas todas dão um poder ao indivíduo muito maior do que em um litígio

resolvido na jurisdição. Negociação, para falar de resolução de conflitos precisa se entender o que é uma negociação. Negociação nada mais é do que uma espécie de entendimento entre as partes conflitantes, ou seja, a restauração, transformação ou solução de trocas ou disputas de interesses das partes. Sem o interesse de um vencedor, tendo por objetivo um acordo positivo e benéfico para ambos participantes. Nem todas as espécies de negociação dependem das partes conflitantes para se resolver, sendo assim, surge um terceiro como uma espécie de norteador para a resolução do conflito, assim surgindo formas de resolução de conflitos alternativos. Uma das formas de resolução de conflitos é a mediação, um meio em que existe uma pessoa pelo qual denominado mediador, esse sendo uma pessoa imparcial e neutra, trabalhando como uma espécie de norteador, ou seja, um “iluminador” de caminhos até a solução. Na mediação, as partes conflitantes não são consideradas como adversárias,

e sim, cooperadores para a resolução do conflito. A mediação trabalha em torno de solução e prevenção de conflitos. Como citado por Christopher Moore:

A mediação de conflitos é geralmente definida como a interferência consentida de uma terceira parte em uma negociação ou em um conflito instalado, com poder de decisão limitado, cujo objetivo é conduzir o processo em direção a um acordo satisfatório, construído voluntariamente pelas partes, e, portanto, mutuamente aceitável com relação às questões em disputa. (MOORE, 1998)

O processo de mediação é mais rápido, tendo como possível a resolução em apenas uma reunião de acordo com as partes conflitantes, de benefício dos mesmos sem um vencedor, e sim dois ganhadores. Uma solução pacífica para que ambos não saiam desgastados de um processo que poderia ser longo. O mediador é muito importante na

condução do diálogo, pois tenta amenizar os ânimos

e dar espaço para as partes exporem seus pontos de vista, servindo como uma forma de desabafo dos

indivíduos a respeito de como se sentem sobre seus conflitos. A mediação não traz soluções prontas para os litígios, nem qualquer jurisprudência sobre casos semelhantes, pois se no Direito existem casos previstos em lei e a possibilidade de utilização de súmulas vinculantes para casos idênticos, o Direito Fraterno compreende o litígio como questão de conflito humano e social, portanto cada caso possui sua particularidade, seu contexto, e a condução do diálogo deve respeitar as particularidades dos indivíduos. Logicamente, existem muitos casos em que as partes não chegam a nenhum acordo, mesmo com todos os esforços do mediador em promover o diálogo e tentar fazer sobressair à fraternidade em relação ao individualismo. Geralmente os acordos não ocorrem quando uma, ou nenhuma das partes aceitam ceder algo em troca de um acordo. Um pensamento individual que acaba tornando uma sessão de mediação mais desgastante para o conflito, e culmina em levar o litígio à jurisdição.

5 CONCILIAÇÃO

Mais uma forma de resolução de conflitos é a conciliação, que se divide em dois tipos, a extrajudicial e a judicial. A Conciliação em si é uma forma parecida com a mediação já dita, o conciliador imparcial e neutro desta relação tem como por objetivo o alcance de um acordo entre as partes, e orientá-las na construção de um acordo benéfico para ambos. Rafael Oliveira de Carvalho Alves diz, “A principal característica dessa modalidade conciliação é a promoção de encontros entre os interessados, nos quais um conciliador buscará obter o entendimento e a solução das divergências por meio da composição não adversarial e, pois, ainda antes de deflagrada a ação”. (ALVES, 2008). Conciliação extrajudicial é aquela em que não envolve um processo judicial em andamento, ocorre um acordo fora do âmbito jurídico onde as partes entram em consenso sobre o acordo para a resolução final do problema. Ademir Buitoni dispõe que, “Não há dúvida que as partes se

sentem mais a vontade, nesse tipo de Conciliação Pré-Processual, pois estão na presença de um Conciliador que não tem poderes de decisão e de julgamento”. (BUITONI, 2010). Diferente da extrajudicial, a conciliação judicial ocorre dentro do âmbito jurídico, pode ser praticada pelo próprio juiz da causa ou um conciliador, e nos dois casos haverá uma sentença homologatória de conciliação, que será um título

executivo judicial. O conciliador, diferente do mediador, após ouvir todo o conflito e proporcionar o diálogo, aconselha as partes sobre a melhor decisão a ser tomada, sempre com o discurso de que os dois lados precisam ceder para que o acordo aconteça. O Direito Fraterno está inserido na conciliação justamente através do espaço proporcionado para as partes dialogarem durante a sessão de conciliação.

O conciliador trabalha da mesma forma que o

mediador, valorizando o lado humano e as

particularidades de cada litigante, porém a proposta

de acordo geralmente parte do terceiro envolvido,

diferente da mediação. Especialmente na

conciliação judicial, o conciliador age como um juiz em exercício, pois o acordo firmado será homologado como sentença judicial. Assim como na mediação, em muitos casos os acordos não ocorrem, e com a persistência da lide, o conflito entra na jurisdição para se tornar mais um dos vários processos longos que perdurarão por anos à espera de julgamento. Segundo Comoglio, as formas alternativas de resolução de conflitos se mostram vantajosas para as partes em muitos aspectos. Sendo mais econômicas, mais simples e mais rápida. Ele diz:

os meios alternativos de tutela são capazes de promover a solução dos litígios de forma mais célere, econômica e simplificada, evitando-se e prevenindo a utilização da via judicial, que, ao contrário, tem se revelado dispendiosa, complexa e morosa. (COMOGLIO, 2000, p. 253)

6 AUTOCOMPOSIÇÃO

A Autocomposição é uma das técnicas de solucionar conflitos que cresce cada vez

mais em nosso país. Isso porque esse tipo de solução garante para os cidadãos uma celeridade processual, ou seja, a lide é solucionada com mais rapidez que a jurisdição comum, assim como a mediação e a conciliação, vistas anteriormente. Visto que a Autocomposição tende a fazer com que os litigantes se ajustem, propondo acordos entre eles para que tal lide seja resolvida. Essa técnica jurídica é um dos maiores exemplos de direito fraterno, porém realizada de forma diferente. Geralmente, os litígios resolvidos de forma alternativa trazem consigo uma terceira figura que irá conduzir a situação. Na autocomposição não existe essa figura, pois as próprias partes decidem por elas e essa decisão tem valor de uma sentença, havendo resolução de mérito, homologada por sentença judicial. Os tipos de autocomposição são a renúncia, quando o titular do direito abre mão do mesmo, em favor da outra parte, em outras palavras, perdoa o “devedor”. De todas as formas de resoluções alternativas de conflitos que representam o Direito Fraterno, a

autocomposição talvez seja a que mais demonstre como funciona a fraternidade no âmbito jurídico. A ideia de um indivíduo abrir mão de seu direito para não prejudicar outro seja qual for o motivo, mostra como funciona essa ideia de fraternidade na sociedade sobressaindo à individualidade. A resignação ou submissão é quando uma das partes reconhece o direito invocado pela outra parte, e acata o pedido do detentor do direito perante a justiça. Nesse caso o réu no possível processo abre mão de seu direito de ampla defesa, garantido a todos pela Constituição Federal no seu art. 5º, LV “Aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios recursos a ela inerentes”. (BRASIL, 1998). Reconhecendo sua condição de “devedor” e aceitando a demanda judicial da parte reclamante. É possível notar a fraternidade no ato quando o indivíduo põe um direito pessoal em segundo plano, pensando na coletividade em torno do ato. E por último a transação ocorre quando ambas as partes fazem

concessões recíprocas para chegar a um acordo na maioria das vezes, que beneficiará ambas. Muito parecida com a mediação e a conciliação, a transação depende das duas partes para ocorrer, e tem como intuito proporcionar uma solução que será benéfica ou menos prejudicial para ambas. Uma decisão em conjunto que proporciona um final feliz para o conflito, com ambos cedendo em busca da melhor solução. O ato representa tanto o Direito Fraterno, pois diferentemente da mediação e conciliação, as partes não necessitam de um terceiro na relação, entram em um acordo com um diálogo próprio, pondo fim ao litígio. Todos esses casos se encontram no Art. 269 do CPC em vigência, sobre a extinção do processo com resolução de mérito, que diz:

Art. 269. Haverá resolução de mérito:

I quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido do autor II quando o réu reconhecer a procedência do pedido; III quando as partes transigirem; IV quando o juiz pronunciar a decadência ou a prescrição;

7 ARBITRAGEM

V

direito sobre que (BRASIL, 1973).

quando

o

autor

se

renunciar

funda a

ao

ação.

A arbitragem, dentre as formas de resolução de conflito, é a que mais se parece com a jurisdição, pois existe uma figura (árbitro), que apresenta uma solução para o litígio que terá resolução de mérito, mesmo sem uma, ou ambas as partes concordarem. Isso ocorre, pois diferente dos outros tipos de resolução alternativa de conflitos, onde as partes são quem tem o total controle da sessão, inclusive decidindo qual será a solução, na arbitragem o árbitro assim como um juiz, tem o poder de sentenciar de acordo com seu entendimento, mesmo sem a concordância plena das partes.

O Direito Fraterno se é representado na arbitragem através do direito de escolha das partes, que podem decidir quem julgará o litígio. O árbitro deve ser neutro e imparcial novamente, para que

não aja entre os participantes um benefício em relação à outra parte. Geralmente o árbitro é escolhido pelas partes mesmo, e é especializado na área, para exercer a arbitragem da melhor forma. Porém a própria doutrina da arbitragem discorre sobre a importância de não se escolher um árbitro que participe da jurisdição (magistrado), pois seria uma forma concorrente à jurisdição. Como todas as formas alternativas de resolução de conflitos que não estão presentes na jurisdição, a arbitragem proporciona vantagens como a rapidez de resolução, a verdadeira inserção do contexto através do diálogo entre as partes e o árbitro, além de estimular a busca pela justiça, como discorrem Bulos e Furtado:

A presteza e a celeridade do trabalho jurisdicional nunca foram tão exigidas como agora e o juízo arbitral poderá evitar desgastes pela demora na solução dos litígios, o que muitas vezes provoca um desestímulo para aqueles que pretendem obter uma resposta do Judiciário. (BULOS,

FURTADO, 1997).

Existem correntes ideológicas que caracterizam a arbitragem como uma parte da jurisdição, pois sendo uma relação de direito fraterno não poderia haver homologações de sentenças sem as partes concordarem. Assim como na jurisdição, decisões autoritárias seriam proteladas, com a diferença que na arbitragem não é exatamente o poder estatal em ação, e as partes estarão lidando com as decisões de um representante escolhido e aprovado por ambas. Referindo-se à concepção de ser ou não a atividade jurisdicional monopólio do Estado, Fredie Didier diz:

Com a remodelação da arbitragem no direito brasileiro, essa característica perdeu o prestígio, tendo em vista

que, atualmente, prevalece

concepção de que a arbitragem é atividade jurisdicional, com a diferença apenas quanto ao elemento confiança, que preside a arbitragem, estando ausente na jurisdição estatal, cujo órgão não pode ser escolhido pelas partes e cuja sentença lhes será imposta de forma coativa. A sentença arbitral, lembre-se, prescindi de homologação pelo Estado-juiz para

a

que possa ser 2007, p. 73)

executada. (DIDIER,

De qualquer forma, a arbitragem surge como um desafogo ao judiciário, uma solução não tão fraterna, mas ágil e simples, que procura estabelecer o bem estar no convívio social.

8 CONCLUSÃO

Os conflitos solucionados através do direito fraterno colocam o indivíduo como uma figura de maior importância do que no modo tradicional. É importante, pois desafoga o judiciário abarrotado de processos devido à alta demanda, e proporciona um diálogo maior entre as partes, além de um sentimento maior de justiça. O ordenamento jurídico brasileiro evolui com outras maneiras de se resolver conflitos, dentre elas destaque para as quatro citadas, mediação, conciliação, autocomposição e arbitragem. Essa evolução se torna necessária na medida em que a procura pela justiça aumenta, e o direito precisa estar em sintonia com sociedade, pois a sociedade também

está em constante evolução. Nos próximos anos, os litígios resolvidos dessa forma terão uma porcentagem ainda maior, o que é bom para os profissionais, para as partes, e para a justiça brasileira que fica mais ágil. Uma consagração das dimensões dos Direitos Humanos, que promoveram primeiro os direitos individuais, depois os direitos sociais, e por último o bem estar social através de medidas humanísticas que buscam integrar os indivíduos na sociedade, proporcionando uma boa relação entre todos. Conflitos sempre acontecerão, faz parte da sociedade, a parte do Estado é garantir que como ser humano, como cidadão, e como parte do convívio social, todos tenham acesso à justiça, e isso implica na demanda por novas formas de resolver conflitos. Empoderar o indivíduo significa colocar o ser humano acima do Estado, que é uma organização criada para ser subserviente ao cidadão, e não o contrário.

REFERÊNCIAS

ALVES, Rafael Oliveira Carvalho. Conciliação e

acesso a justiça. Webartigos, [S.I.], 20 nov. 2008.

<http://www.webartigos.com/articles/11585/1/Concil

iacao-e-Acesso-a-Justiça/pagina1.html> Acesso em

14 jun. 2015.

ARAUJO, Luiz Alberto David; NUNES JUNIOR,

Vidal Serrano. Curso de direito Constitucional.

11 ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2007.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

Lei Nº 5.869, de 11 de Janeiro de

1973. Institui o Código de Processo Civil.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br> Acesso em 07 jun. 2015

Lei nº 10.406, 10 de Janeiro de 2002. Institui o Código Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.

BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 1993.

Curso de direito constitucional. 18. ed. São Paulo: Malheiros, 2006.

BUITONI, Ademir. Mediar e conciliar: as diferenças básicas. Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2707,

29 nov. 2010. Disponível em:

<http://jus.uol.com.br/revista/texto/17963>. Acesso em: 14 jun. 2011.

BULOS, Uadi Lammêgo; FURTADO, Paulo. Lei da arbitragem comentada: breves comentários à Lei n. 9.307, de 23-9-1996. São Paulo: Saraiva, 1997.

DIDIER, Fredie Júnior. Curso de Direito Processual Civil. Vol. 1. 9. ed. Salvador:

JusPODIVM, 2007.

MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. Direito constitucional. Belo Horizonte: Livraria Mandamentos, 2000. Tomo 1.

MOORE, Christopher W. O processo de mediação. Porto Alegre: Artmed, 1998.

MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 19. ed. São Paulo: Atlas, 2006.

VAZ, Wanderson Lago; REIS, Clayton. Consentimento Informado na relação médico- paciente. Revista Jurídica CESUMAR, v. 7, n. 2,

jul. dez. 2007, p. 489-914. Disponível em:

<http://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revj uridica/article/view/580/497>. Acesso em 22 mai.

2015.

O DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA E A RELEVÂNCIA DA EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 64, DE 04 DE FEVEREIRO DE 2010, NO BRASIL

CESAR, Augusto 9 MARIN, Lorena Cypriano 10 ALPOIM, Luiza Miranda 11 RANGEL, Tauã Lima Verdan 12

Resumo: O presente artigo trata do direito humano a alimentação adequada, bem como a constitucionalização deste no Brasil. A princípio analisa-se o percurso da consolidação do direito à alimentação como fundamental e positivado no âmbito mundial. Posteriormente, é ressaltada a evolução e o desenvolvimento deste direito na forma da lei de Segurança Alimentar e Nutricional, como precedente da incorporação do direito à alimentação na Constituição Federal. Após a apreciação da trajetória do reconhecimento do direito humano à alimentação adequada e seus reflexos na conjuntura

9 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, augusto.place@gmail.com;

10 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, lorenacyprianomarin2@gmail;

11 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, luiza.m.alpoim@hotmail.com;

12 Professor orientador: Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense,

taua_verdan2@hotmail.com

mundial, fica cognoscível, portanto, a relevância da Emenda Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de 2010, para a população brasileira, no que tange a possibilidade da exigibilidade desse direito. Dito que a subnutrição caracteriza má qualidade de vida e, logo, impõe a responsabilidade do Estado ante seu compromisso com o direito a vida e a dignidade da pessoa humana.

Palavras-chave: Direito Humano à Alimentação Adequada. Segurança Alimentar e Nutricional. Direitos Humanos. Direitos Fundamentais.

1 COMENTÁRIOS INICIAIS

Faz-se dispensável o debate a respeito das consequências de uma má alimentação para os seres humanos, uma vez que se trata de uma premissa evidente e incontestável que a desnutrição gera efeitos degradantes à qualidade de vida de qualquer indivíduo. Uma alimentação sadia, adequada, dentro dos padrões nutricionais, é matéria unânime para a existência do ser humano, bem como seu pleno desenvolvimento, não somente durante sua infância, mas ao longo de toda vida. É inerente à história do ser humano a apreensão com os recursos alimentícios desde os

tempos da teoria do aumento populacional em progressão geométrica que previa a produção de alimentos cresceria em escala aritmética, logo, o receio se dava pela ideia de que em certo momento não haveria alimentos disponíveis para todos. Mas no que concerne a essa premissa, os produtos transgênicos se manifestaram como solução, através da capacidade científica de desenvolver alimentos mais resistentes e de maior escala produtiva no tempo.

Todavia, a problemática não foi ao todo resolvida, a preocupação do sustento populacional meramente migrou de curso, da insuficiência produtiva para o acesso diminuto à nutrição de qualidade. Infelizmente, a fome e a insegurança alimentar e nutricional ainda se fazem presentes na realidade de muitas famílias brasileiras. É importante que o enfoque do debate desvie da ótica engessada das necessidades dos indivíduos em situação de subnutrição, e passe a levar em consideração os direitos inerentes a eles, o que implica diretamente no dever das autoridades

públicas em garantir esse direito. Nesse sentido, Comparato ressalta a importância da afirmação dos direitos humanos de cada Estado:

Sem dúvida, o reconhecimento oficial de direitos humanos, pela autoridade política competente, dá muito mais segurança às relações sociais. Ele exerce, também, uma função pedagógica no seio da comunidade, no sentido de fazer prevalecer os grandes valores éticos, os quais, sem esse reconhecimento oficial, tardariam a se impor na vida coletiva. (COMPARATO, 2010, p.71)

A subnutrição, a fome e a miséria são condições de extremo insulto a dignidade da pessoa humana, por tanto, para sua erradicação faz-se indispensável à intervenção imediata do Estado, na forma de políticas públicas que atendam com prioridade a realização do direito a nutrição, em observação ao direito universalmente consagrado à vida.

Dito isto, vale frisar que o Direito Humano à Alimentação Adequada, assim como todo direito humano, mostra-se universal, inalienável,

interdependente e indivisível. Entretanto, compete aos Estados fundamentá-lo em sua constituição e facultar assim a sua exigibilidade de fato à população. Por tanto é nítida a relevância da Emenda Constitucional nº 64, de fevereiro de 2010, que é propósito de esclarecimento deste estudo.

2 BREVE HISTÓRICO DO DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA E SUA AFIRMAÇÃO JURÍDICA NO ÂMBITO MUNDIAL

Desde meados do século XX, a coletividade internacional procura respostas para erradicar a subnutrição no mundo. Grande é a influência do estudo da história para entender o mundo jurídico, principalmente ao se tratar dos direitos fundamentais à pessoa humana. O direito à liberdade, à vida, acesso à saúde, moradia, educação, informação e alimentação adequada, por exemplo, são direitos universais, indivisíveis e inalienáveis. Dito isso, a possibilidade de uma

maior compreensão acerca dos direitos fundamentais e direitos humanos está profundamente ligado a história, uma vez que, estes foram edificados ao longo dos anos. (ABRANDH, 2013, p.24; SIQUEIRA et al, 2014, p.302) A alimentação é uma necessidade básica do ser humano e ninguém deve ser destituído da mesma. Essa foi incorporada a vários tratados internacionais sobre Direitos Humanos. A Convenção de Genebra em 1864 foi uma das pioneiras a discorrer sobre o assunto, com o seu contexto histórico de guerra, se fez necessária a discussão sobre esses temas. O Protocolo Adicional à Convenção de Genebra de 12 de agosto de 1949 delibera o artigo 14:

Inanição dos civis como um método de combate é proibido. É, então, proibido atacar, destruir, remover ou tornar inútil, para este propósito, objetos indispensáveis à sobrevivência da população civil, como gêneros alimentícios, áreas agrícolas para a produção de gêneros alimentícios, culturas, criação de animais, instalações e abastecimento de água

potável

(BRASIL, 1943)

e

trabalhos

de

irrigação.

Esta declaração de proteção humanitária tem como dois princípios básicos a proibição à expulsão forçada das populações que é uma das maiores causas da fome e todas as necessidades primárias da população civil. Dessa forma já é possível perceber uma preocupação com o direito a alimentação desde 1864. Diante do contexto da promoção do direito à alimentação como um padrão adequado de vida, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto de direitos econômicos, sociais e culturais; efetiva o direito à alimentação adequada em seu artigo 25 no ano de 1948:

Artigo 25 - 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de

subsistência

fora

de

seu

controle.

(ONU, 1948)

Pacto

Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) no artigo 11 que prevê:

O

mesmo

direito

é

reiterado

no

1. Os Estados Partes do presente

Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível de vida adequando para si próprio e sua família, inclusive à alimentação, vestimenta e moradia adequadas, assim como a uma melhoria continua de suas condições de vida. Os Estados Partes tomarão medidas apropriadas para assegurar a consecução desse direito,

reconhecendo, nesse sentido, a

importância essencial da cooperação internacional fundada no livre consentimento.

2. Os Estados Partes do presente

Pacto, reconhecendo o direito fundamental de toda pessoa de estar protegida contra a fome, adotarão, individualmente e mediante cooperação internacional, as medidas, inclusive programas concretos, que se façam necessárias para:

a) Melhorar os métodos de produção, conservação e distribuição de gêneros alimentícios pela plena utilização dos conhecimentos técnicos e científicos, pela difusão de princípios de educação nutricional e pelo aperfeiçoamento ou

reforma dos regimes agrários, de maneira que se assegurem a exploração e a utilização mais eficazes dos recursos naturais; b) Assegurar uma repartição eqüitativa dos recursos alimentícios mundiais em relação às necessidades, levando-se em conta os problemas tanto dos países importadores quanto dos exportadores de gêneros alimentícios. (ONU, 1966)

Reconhecendo basicamente que os Estados Partes precisam garantir direito de toda pessoa a um nível de vida adequado para si próprio e sua família, inclusive à alimentação entre outras medidas. A Declaração Universal para a erradicação da Fome e Subnutrição teve um papel importante na responsabilidade fundamental dos governos, além de dar prioridade à subnutrição crônica entre os grupos mais vulneráveis. Sendo sua primeira Conferência Mundial da Alimentação sediada em Roma no ano de 1974 declarando:

Todo homem, mulher e criança tem o direito alienável de estar livre da fome e da subnutrição, para que se desenvolva plenamente e mantenha suas faculdades físicas e mentais. A

sociedade hoje já possui recursos suficientes, capacidade de organização e tecnologia e, portanto, a competência para alcançar este objetivo. Dessa forma, a erradicação da fome é um objetivo comum de todos os países da comunidade internacional, especialmente dos países desenvolvidos e de outros que estejam em posição de ajudar. (ONU,

1974)

Desse modo, é responsabilidade de toda comunidade internacional assegurar a disponibilidade de suprimentos mundiais de alimentos básicos, por meio de reservas apropriadas, incluindo reservas emergenciais. Existindo assim, uma colaboração na consolidação de um sistema efetivo de segurança mundial contra a fome.

3 A LEI ORGÂNICA DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL:

PRECURSORA DO DIREITO FUNDAMENTAL À ALIMENTAÇÃO NO BRASIL

A concepção de Segurança Alimentar e Nutricional SAN encontra-se em constante evolução, bem como a sociedade a qual pertence. Os mais diversos tipos de interesses estão co- relacionados à questão alimentar e nutricional, portanto trata-se de assunto amplamente questionado e debatido por inúmeras Conferências com temática alimentícia. Progressivamente, a SAN passa a ser compreendida como uma estratégia pública que assume garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada a todos. Nesse sentido, destaca-se a Lei de nº 11.346, de 15 de setembro de 2006, que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras

providências( BRASIL, 2006), dispõe em seu art. 3º,

o

conceito vigente no Brasil de Segurança Alimentar

e

Nutricional:

A segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente

a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam: ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis. (BRASIL, 2006)

A concepção de Segurança Alimentar e Nutricional prioriza a quantidade, qualidade e regularidade no acesso a alimentos. No que concerne o aspecto do acesso aos alimentos, nota-se que apesar da escala produtiva ser suficiente para o abastecimento mundial, as populações carentes dispõe tendência a encontrar dificuldades nesse acesso regular. No tocante à qualidade dos alimentos disponíveis para o consumo, esses devem estar aptos à ingestão humana, não sendo passível de qualquer tipo de restrição sanitária ou submetidos a riscos de contaminação. E referente ao aspecto quantitativo, compreende-se o acesso constante e regular aos nutrientes, partindo da premissa de que um desenvolvimento saudável requer três refeições

diárias. Logo, políticas de distribuição infrequente de cestas básicas, por exemplo, não atende o propósito de erradicação da situação de acesso restrito e insuficiente de determinada classe, como destaca o Professor Belik (2003, p.15) Assim, a relação existente entre a SAN e o DHAA caracteriza uma linha tênue, que segue numa mesma vertente de propósito, levando em consideração que para obter o sucesso, a Política de SAN deve ser o meio garantidor da realização do DHAA, bem como dispor dos mecanismos para a exigibilidade deste direito. Torna-se imprescindível ressaltar que, a Lei nº 11.346/06 reconhece a alimentação adequada como um direito fundamental em respeito aos direitos sancionados pela Constituição Federal, como enaltece o seu art.

2º:

A alimentação adequada é direito

fundamental do ser humano, inerente

à dignidade da pessoa humana e

indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público

adotar as políticas e ações que se

façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população. (BRASIL,

2006)

A normatização do direito a alimentação adequada pela Lei de Segurança Alimentar e Nutricional, suscitou a exigibilidade do DHAA no Brasil, de modo que transformou o acesso à nutrição de qualidade e quantidade suficiente, um direito de caráter fundamental. Essa disposição dá ao cidadão as condições necessárias para exigir a fundamentação desse direito, visto que a alimentação encontrava-se disposta somente de forma indireta na Constituição. A lei traz ainda outra disposição relevante para a exigibilidade, que é a determinação da responsabilidade do Estado em promover a SAN que, portanto deixa de ser uma iniciativa governamental de caridade e assume a posição de uma política de Estado, passível de reivindicação populacional plenamente respaldada pela lei.

4 A CONSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA PELA EC Nº 64/2010

A Emenda Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de 2010, incorporou a alimentação ao rol de direitos sociais do art. 6º da Constituição Federal, que até então não constava em sua redação, passando a vigorar com a seguinte formulação: “São direitos sociais: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção a maternidade e a infância, assistência aos desamparados, na forma desta constituição”. (BRASIL, 2010) Na esfera do direito de família, a nova emenda constitucional já tem um veemente defensor que é o principio da solidariedade, destacado pelo art. 3º, da CF. Portanto seus atributos já devem ser visualizados instantaneamente, complementando todas as garantias jurídico-institucionais em ajuda daqueles

que necessitam de uma alimentação adequada, especialmente tendo em vista o pleno desenvolvimento da criança como um ser mais frágil neste processo. A partir do momento que passa a evidenciar-se vizinho a outros direitos como a saúde, a educação, a moradia, o trabalho, a segurança, o lazer, a proteção à maternidade, a previdência social e a assistência aos desamparados, o DHAA quebra totalmente o tabu premeditado que envolve a fome como assunto reprimido. Dessa forma, ao fixar o espaço desse direito por entre outros direito sociais, fortifica uma importante proteção, dando impulso primordial para que a sociedade civil faça frente a qualquer tipo de discurso que busca posicionar a fome como um tema simplesmente econômico. Com a ratificação da emenda, o dever de solidariedade ganhou forma mais vigorante na tarefa alimentar, é conhecido que no espaço do direito de família, os alimentos resultam de parentesco, dever de assistência, atenção ao amparo

aos idosos e obrigações, dentre outras relações. Segundo Diniz (2002, p.467), o fundamento desta obrigação de prestar alimentos é o inicio da preservação da dignidade humana e o da solidariedade familiar, pois vem a ser personalíssimo, compromisso pelo alimentante na causa do parentesco que o liga ao alimentado. De acordo com essa visão Valente relata:

Um direito humano básico, sem o qual não há direito á vida, nem há cidadania, não há humanidade, isto é, o direito de acesso á riqueza material, cultural, cientifica e espiritual produzida pelo gênero humano. As pessoas necessitam de alimentos apropriados, no sentido quantitativo. No entanto, isto não é suficiente. Para o ser humano alimentar-se, o ato é ligado á tradição, vida familiar, amizade, e celebrações coletivas. Quando comendo com amigos, com a família, comendo pratos de sua infância e de sua cultura indivíduos renovam-se a si mesmos além do aspecto físico, fortalecendo a sua saúde física e menta (VALENTE et alii apud VALENTE, 2002, p.71)

a obrigação do congresso

nacional em ter presteza de lei que tratam do

É

palpável

direito à alimentação. Além disto, não se pode justificar que o cumprimento das leis e políticas públicas fique a favor de interesses políticos e que a sociedade fique no anseio de esperar a realização desse direito fundamental. O estimulo para o cumprimento do direito à alimentação adequada aponta desafios enfrentados pela sociedade e pelos órgãos públicos,

e também oportunidade na aquisição de resultados

positivos, especialmente com a relação de órgãos e instituições na construção de objetivos comuns. Diante desse contexto, a Emenda Constitucional nº 64/2010 pode ser compreendida, na esfera jurídica, como o resultado final que consolidou um processo histórico de luta pelo reconhecimento dos problemas da pobreza, da fome

e da miséria em nosso país como desafios que devem

ser enfrentados por todos, deixando de ser um tema

discriminado da nossa civilização, como anuncia Josué de Castro (CASTRO, 1965, 1984). Podemos dizer que a positivação do tema alimentação é primordial, pois o direito à

alimentação é parte dos direitos fundamentais humanos, esses direitos refletem um aglomerado de condições essenciais para que todos os seres humanos, de forma equitativa e sem nenhum tipo de discriminação, existam e desenvolvam suas capacidades plenamente na vida social. Segundo, o relator especial da ONU para o direito á alimentação definiu o DHAA declarando:

O direito á alimentação adequada é um direito humano inerente a todas as pessoas de ter acesso regular, permanente e irrestrito, quer diretamente ou por meios de aquisições financeiras, a alimentos seguros e saudáveis, em quantidade e qualidade adequadas e suficientes, correspondentes ás tradições culturais do seu povo e que garanta uma vida livre do medo, digna e plena nas dimensões físicas e mental, individual e coletivo. (ONU, 2002)

Neste raciocínio, torna-se substancial o acesso á alimentação como um direito em si mesmo, que não pode ser contrapor sem negar a primeira condição para a cidadania, que é a própria vida. Assim, pertence aos Estados seguirem a legislação

sobre os direitos humanos garantindo o respeito, a proteção, a promoção e o fornecimento dos mesmos e assegurar que todas as pessoas possam exercer livremente o seu direito humano á alimentação adequada.

A legislação brasileira, sobretudo á carta magna, desenvolveu instrumentos jurídicos que permitem a população reivindicar do Estado atenção aos seus direitos humanos. Apesar disso, os níveis obrigacionais não tem sido respeitados, a exigibilidade é a possibilidade de apresentar o respeito, a proteção, a promoção e o provimento de direitos, diante dos órgãos públicos competentes para prevenir as violações a esses direitos ou restaura-las. Além disso, a concepção de exigibilidade inclui o direito a uma resposta e ação em tempo oportuno para a reparação da violação ocasionado pelo poder público. (ABRANDH, 2007) O cumprimento do direito á alimentação, como direito fundamental demanda em todos os níveis, uma visão interdisciplinar, pois, passa pelo acolhimento de políticas e estratégias sustentáveis

de produção, distribuição, acesso e consumo de alimentos seguros e de qualidade, promovendo-os a saúde com uma alimentação saudável. Não e exequível analisar o acesso á alimentação contido a um só ponto de vista, motivado pelo qual o olhar interdisciplinar e essencial para apreciar o aspecto social, biológico, sanitário, jurídico e econômico envolvido na questão. (BRASIL, 2014)

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo principal deste trabalho foi evidenciar a importância da Emenda Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de 2010, no Brasil. Discorrendo sobre seus impulsores, que colaboraram para a efetivação do direito à alimentação adequada como um direito fundamental e humano na Constituição Federal de 1988. O presente artigo apontou relevantes contribuições nesse aspecto no âmbito histórico-sociológico e em especial, na área jurídica, intercalando tais campos com a Bioética, evidenciando assim, a preocupação com a dignidade

da pessoa humana. Paralelamente, foram pesquisados alguns doutrinadores como Maria Helena Diniz, Fábio Konder Comparato entre outros que tiveram papéis relevantes para o desenvolvimento desta pesquisa. Em relação ao Direito Humano à Alimentação Adequada, é possível perceber que o Brasil firmou uma sequência de Tratados Internacionais e leis internas que deliberam sobre esse ponto, contando, por exemplo, com a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional em 2006, como citada anteriormente, que foi fundamental para a afirmação e colaboração de tal direito em sua elevação como constitucional. Mera formalidade, se levado em consideração que no Brasil, os tratados internacionais possuem valor supra constitucional. Dessa maneira, posteriormente a isso, a inserção do direito à alimentação no artigo 6º da Constituição Federal, através da aprovação da emenda nº 64/2010, foi um meio de o Estado Brasileiro ratificar, de fato, o seu engajamento com

as obrigações assumidas nos tratados internacionais de direitos humanos com a publicação de leis nacionais relacionadas a esse direito. A conclusão é que a emenda nº 64 traz mais confiança na luta contra a fome, visto que, mesmo existindo normas que garantiam o direito à alimentação, a menção expressa desse direito na Constituição impulsionou o uso de argumentos para promover e exigir este direito diante daqueles que, por motivos políticos, ideológicos ou técnicos não fazem uma leitura da Constituição Federal e de outras normas legais que afirmam a promoção e a exigibilidade do DHAA. Destarte, essa proposta de inclusão é fundamental porque reforçam argumentos em prol do DHAA de duas ordens política e jurídica. Além de que, deve-se buscar das melhores formas os recursos necessários para garantir um mundo democrático e pacífico.

REFERÊNCIAS

ABRANDH (Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos). O Direito Humano à Alimentação Adequada e o Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional. Brasília, 2013. Disponível em:

<http://www.mds.gov.br/segurancaalimentar/public aco es%20sisan/dhaasisan-miolo- 030413.pdf/download> Acesso em 12 jun 2015.

ALBUQUERQUE, Maria de Fátima Machado de. A segurança alimentar e nutricional e o uso da abordagem de direitos humanos no desenho das políticas públicas para combater a fome e a pobreza. Rev. nutr, v. 22, n. 6, p. 895-903, 2009. Disponível em: <http://pesquisa.bvs.br/brasil/resource/pt/lil- 544482> Acesso em 10 mai 2015.

BELIK, Walter. Perspectivas para segurança alimentar e nutricional no Brasil. Saúde e sociedade, v. 12, n. 1, p. 12-20, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v12n1/04.pdf> Acesso em 03 jun 2015.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília:

Senado Federal, Diário Oficial da União, 1988.

Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional de Segurança

Alimentar e Nutricional SISAN. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 2006.

Constituição (1988). Emenda

Constitucional nº 64, de 04 de fevereiro de

2010. Altera o art. 6º da Constituição Federal, para

introduzir a alimentação como direito social. Diário

Oficial da União: Brasília, DF, 2010.

Decreto nº 849, de 25 de junho de

1993. Promulga os Protocolos I e II de 1977

adicionais às Convenções de Genebra de 1949, adotados em 10 de junho de 1977 pela Conferência Diplomática sobre a Reafirmação e o Desenvolvimento do Direito Internacional Humanitário aplicável aos Conflitos Armados. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 1993.

Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Segurança Alimentar e Nutricional. Disponível em:

<http://www.mds.gov.br> Acesso em: 23 mai. 2015.

CASTRO, Josué de. Geografia da fome. 10.ed. Rio de Janeiro: Editora Antares, 1984.

Geopolítica da fome. 7.ed. São Paulo:

Editora Brasiliense, 1965.

COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. 7 ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2010.

DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro Direito de Família. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

GAMBÁ, Juliane Caravieri Martins; MONTAL, Zélia Maria Cardoso. Direito humano à alimentação adequada e responsabilidade internacional. Semina: Ciências Sociais e Humanas, v. 30, n. 1, p. 53-70, 2009. Disponível em: < http://www.uel.br/revistas

/uel/index.php/seminasoc/article/viewFile/7714/6802

> Acesso em 24 mai 2015.

MALHEIROS, Mariana Rocha. O reconhecimento do direito a alimentação como direito fundamental e

a segurança alimentar como método para a

efetivação desse direito na região de Guarapuava.

Revista Eletrônica do Curso de Direito, p.28. Disponível em:

<http://scholar.googleusercontent.com/scholar?q=cac

he:cK6Q5

Q3NBfQJ:scholar.google.com/+emenda+64&hl=pt-

BR&as_sdt=0,5&as_vis=1> Acesso em 07 jun. 2015.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Disponível em:

<http://unesdoc.unesco.org/images/0013/00

1394/139423por.pdf >. Acesso em 16 mai. 2015.

Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966. Disponível em: <http://www.unfpa.org.br

/Arquivos/pacto_internacional.pdf > Acesso em 23 mai 2015.

PEREIRA, Angélica Teresa. A relação entre o direito e a bioética. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, X, n. 45, set 2007. Disponível em:

<http://www.ambito-juridico. com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitur a&artigo_id=2237>. Acesso em 16 mai. 2015.

PINHEIRO NETO, Othoniel. Os efeitos da Emenda Constitucional nº 64/2010 no Direito de Familia. Refletindo o Direito, v. 1, n. 1, 2013. Disponível em: <http://www.egov.u

fsc.br/portal/conteudo/os-efeitos-da-emenda-

constitucional-n%C2%BA-642010-no-direito-de-

fam%C3%ADlia> Acesso em 05 mai. 2015.

SIQUEIRA, Dirceu Pereira; PICCIRILLO, Miguel Belinati. Direitos fundamentais: a evolução histórica dos direitos humanos, um longo caminho. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XII, n. 61, fev. 2009. Disponível em: < http://www.ambito- juridico.com.br /site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&arti go_id=5414>. Acesso em 02 mai. 2015.

VALENTE, Flávio Luiz Schieck. Direito humano à alimentação: desafios e conquistas. São Paulo: Cortez, 2002.

VAZ, Jose Eduardo Parlato Fonseca. Reflexões sobre a Emenda Constitucional 64/2010. In:

Âmbito Jurídico, Rio Grande, XIII, n. 75, abr 2010. Disponível em: <http://www.ambito- juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigo s_leitura &artigo_id=7607>. Acesso em 07 junho 2015.

VIEIRA, Tereza Rodrigues. Bioética e Direito. São Paulo: Editora Jurídica Brasileira, 1999.

A BIODIVERSIDADE E O PATRIMÔNIO

GENÉTICO: PATENTES, FIEL DEPOSITÁRIO

E A BIOPROSPECÇÃO EM FACE AOS

ASPECTOS LEGAIS

PEREIRA, Marina Oss 13

SOBREIRA, Pollyana de Souza 14

RANGEL, Tauã Lima Verdan 15

Resumo: O presente está assentado em analisar e compreender a importância da proteção do Patrimônio Genético e da Biodiversidade, bem como discorrer acerca das patentes, fiel depositário e bioprospecção por meio de dispositivos legais. Estudo de natureza qualitativa com coleta de dados através de um questionário estruturado, com profissional da área de Direito Ambiental do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. É necessário dizer que o meio ambiente é de uso comum de toda a humanidade, ou seja, não pode ser exclusivo de um único ser. Qualquer alteração no patrimônio genético deve estar pautada em legislação pertinente de modo

13 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES.

14 Graduanda do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES.

15 Professor orientador: Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense,

taua_verdan2@hotmail.com

que essa ciência tenha caráter coletivo. O Brasil foi pioneiro ao assinar a Convenção sobre Diversidade Biológica. Em 1998 o Poder Executivo Federal, utilizou o termo “Patrimônio Genético” no projeto de lei nº 4.751/1998, retratando-o como patrimônio da União. É necessária a proteção do Patrimônio Genético e da biodiversidade por meio de dispositivos legais, a fim se evitar um desequilíbrio ecológico e um futuro cruel para as gerações futuras. Até 1988 as constituições brasileiras não apresentavam em seus conteúdos dispositivos específicos sobre a preservação do meio ambiente, sendo a pioneira a tratar do assunto deliberadamente. Nesse passo, a proteção ambiental constitucional é constante no art. 225, não podendo o Poder Público e à coletividade esquivar-se da sua obrigação de protegê-lo. A Proteção é regulada pela recente lei nº 13.123/2015, a referida lei conserva os direitos de propriedade intelectual pública ou privada no que se refere ao patenteamento de descobertas. Com o objetivo de abortar da biodiversidade valores econômicos tem-se a bioprospecção. Entende-se que o direito ambiental é também um direito fundamental, pois, garante a continuidade das gerações.

Palavras-chave: Patrimônio Genético. Biodiversidade. Legislação

1 COMENTÁRIOS INICIAIS

O meio ambiente é um bem de uso comum de todos, ou seja, não pode ser exclusivo de uma única pessoa. Levando em consideração que o Patrimônio Genético faz parte da legislação que se

refere ao meio ambiente, qualquer alteração no mesmo deve ser de acordo com dispositivos legais pertinentes, a fim de que essa ciência não tenha apenas caráter industrial, onde o lucro é o alvo mais almejado. Portanto, qualquer atividade que envolva o Patrimônio Genético e a Biodiversidade deve ser fiscalizada, visando sua preservação de modo que garanta a manutenção da vida. Nesta esteira, cuida salientar, que a preocupação com a preservação da biodiversidade se resultou do consumo demasiado de bens após a instauração da Revolução Industrial, aumentando consideravelmente a quantidade de lixo inaproveitável. A partir de então, vieram a consolidar os primeiros princípios ambientais na Conferência Internacional de Estocolmo no ano de 1972. (FIORILLO; DIAFÉRIA, 1999). Mais adiante, o Brasil foi pioneiro ao assinar a Convenção sobre Diversidade Biológica, considerada como marco legal e político para questões que envolvessem a biodiversidade. Em 1995 o Projeto de Lei nº 306/1995 de autoria da

senadora Marina Silva, marcou o processo de

discussão nacional sobre uma legislação que visasse

o meio ambiente e a biodiversidade. O projeto

visava à regulamentação do acesso aos recursos genéticos no Brasil. (AZEVEDO, 2002). Ainda na perspectiva de Cristina Maria do Amaral Azevedo o projeto de lei nº 4.579/1998, apresentado pelo Deputado Federal Jacques Wagner, de teor parecido com o de Marina Silva, alterou, a natureza jurídica do termo “recursos

genéticos” para bens de interesse público. Em 1998

o Poder Executivo Federal, utilizou a concepção

“Patrimônio Genético” no projeto de lei nº 4.751/1998, retratando-o como patrimônio da União, resultando em uma proposta de emenda constitucional com o acréscimo de um inciso no artigo 20. (AZEVEDO, 2002). Diante o exposto, foi estabelecido como objetivo deste trabalho analisar e compreender a importância da proteção do Patrimônio Genético e da Biodiversidade, bem como discorrer acerca das

patentes, fiel depositário e bioprospecção por meio de dispositivos legais. Estudo de natureza qualitativa com coleta de dados através de um questionário estruturado, com profissional da área de Direito Ambiental do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES. O professor foi abordado anteriormente e informado sobre o propósito da pesquisa, logo após, conduzido à entrevista. Igualmente, foram empregadas fontes bibliográficas para estabelecer o contexto teórico do tema debatido.

2 A PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO GENÉTICO E DA BIODIVERSIDADE NO DIREITO BRASILEIRO

Um ecossistema equilibrado permite ao homem viver com mais qualidade, para tanto, os recursos naturais devem ser utilizados de modo consciente, evitando sua escassez. Nessa perspectiva o Patrimônio Genético e a

Biodiversidade tem sido campo de intensa pesquisa no Brasil.

Para objeto de estudo faz-se necessário discorrer acerca dos conceitos de patrimônio genético e biodiversidade, para então buscar uma correlação entre eles e ingressar em suas formas de proteção com base em dispositivos legais pertinentes. Quadra salientar que a Medida Provisória nº 2.186-16/01 em seu art. 7º, inciso I define patrimônio genético como:

Informação de origem genética, contida em amostras do todo ou de parte de espécime vegetal, fúngico, microbiano ou animal, na forma de moléculas e substâncias provenientes do metabolismo destes seres vivos e de extratos obtidos destes organismos vivos ou mortos, encontrados em condições in situ, inclusive domesticados, ou mantidos em coleções ex situ, desde que coletados em condições in situ no território nacional, na plataforma continental ou na zona econômica exclusiva (BRASIL, 2001).

Consoante observa Édis Milaré “patrimônio genético é o núcleo de toda a biodiversidade”, (MILARÉ, 2011, p.722). Nesse passo, cuida salientar que Fiorillo e Diaféria evidenciam que a biodiversidade é a diversidade da vida, tanto para a existência do planeta quanto a do homem, sendo o ser humano o principal responsável pela preservação dessa diversidade e pela manutenção da vida em gerações futuras (FIORILLO; DIAFÉRIA, 1999, p. 22). Na perspectiva de André Araújo Alves da Silva, “A Biodiversidade e o Patrimônio Genético é uma riqueza do Brasil. A partir do conhecimento dos mesmos é possível o desenvolvimento de uma série de produtos para as mais diversas indústrias, ou seja, envolve forte interesse econômico” No Brasil existem duas vertentes, de um lado empresas prometendo grandes feitos através da biotecnologia, como o aumento da produtividade agrícola, descoberta de novos medicamentos e criação de alimentos mais saudáveis; visando lucro com tais estudos. Em contrapartida, parte da

comunidade científica atenta para possibilidade dos danos que essa prática pode causar ao meio ambiente, à saúde e à economia. Conforme bem salientou Celso Antonio Pacheco Fiorillo, a proteção jurídica do meio ambiente tem como objetivo único proteger a existência e a qualidade de vida (FIORILLO, 2003, p.20). Nesse contexto, torna-se imperiosa a necessidade de proteção ao Patrimônio Genético e à biodiversidade por meio de regulamentação legal, a fim se evitar um desequilíbrio ecológico e um futuro cruel para as próximas gerações. Como bem destaca André Araújo Alves da Silva “há necessidade de regulamentação pelo forte interesse econômico envolvido em confronto aos aspectos relacionados à vida”.

Até 1988 as constituições brasileiras não apresentavam em seus conteúdos dispositivos específicos sobre a preservação do meio ambiente, sendo a pioneira a tratar do assunto deliberadamente e notavelmente ambientalista (SILVA, 2009, p. 46). Nesse passo, a proteção

ambiental constitucional é constante no art. 225, sendo o meio ambiente um bem essencial à qualidade de vida, não podendo o Poder Público e à coletividade esquivar-se da sua obrigação de protegê-lo para as presentes e futuras gerações (BRASIL, 1988).

É de suma relevância a observação do

inciso II do §1º do artigo 225, pois, denota diretamente a preservação da diversidade e da integridade do patrimônio genético do País, incumbindo ao Poder Público a responsabilidade de garantir a todos um meio ambiente equilibrado (BRASIL, 1988). Em consonância com Verdan, após a promulgação da Constituição de 1988 o patrimônio genético passou a gozar de tratamento

jurídico, buscando a preservação da diversidade e a integridade do patrimônio supracitado (VERDAN, 2013, p.15).

O Brasil ainda é carente de legislação

sobre o assunto, porém acaba de ser sancionado o Novo Marco Legal da Biodiversidade pela

presidente Dilma Rousseff. A medida provisória

2.186-16/2001, criada após episódios de biopirataria no país é substituída pela lei 13.123/15 que estabelece novas regras para regulamentar o acesso ao patrimônio genético, à proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado e a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável da biodiversidade (BRASIL, 2015). Cuida destacar o termo biopirataria, pois, é uma prática relevante associada ao patrimônio genético e a biodiversidade. É importante salientar que, nesta senda, Fiorillo considera que:

A biopirataria consiste na coleta de

materiais

para

 

fabricação

de

medicamentos

no

exterior

sem

o

pagamento

de

royalties

ao

Brasil,

materiais

estes

 

oriundos

principalmente

 

da

região

da

Amazônia,

onde

a

diversidade

dos

recursos

genéticos

é

imensa

(FIORILLO, 1999, p. 66).

da

Biodiversidade traz consigo a proposta de reduzir as

burocracias, facilitando

pesquisadores e indústrias bem como beneficiar o

estudos por

O

chamado

Marco

Legal

os

aproveitamento do patrimônio genético, definindo a repartição das benfeitorias de produtos procedentes de seu acesso. Neste passo, o que se objetiva com tais dispositivos legais é a tutela jurídica do patrimônio genético e da biodiversidade, tendo em vista que os danos causados ao meio ambiente muitas vezes são irreversíveis, de modo que a única maneira para evitar prejuízos ao meio natural é a sua proteção efetiva.

3 O SISTEMA DE PATENTES NO BRASIL

No Brasil, o Estado desempenha papel essencial na proteção do patrimônio genético. Proteção regulada pela recente lei nº 13.123/2015, com o reconhecimento da contribuição das populações indígenas, comunidades e agricultores tradicionais para o desenvolvimento e conservação do patrimônio genético. A referida lei conserva os direitos de propriedade intelectual pública ou privada no que se refere ao patenteamento de

descobertas, voltadas para indústrias, oriundas de componentes do patrimônio genético; podendo acarretar a divisão de lucros ao titular do patrimônio genético. Ainda no que tange a lei 12.123/2015, o requerente de pedido de patente deverá informar ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a origem do material genético, quando solicitado, bem como apresentar o comprovante de cadastro de autorização emitido pelo Conselho Nacional de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN). O Instituto Nacional da Propriedade Industrial define patente como:

um título de propriedade temporário, oficial, concedido pelo ESTADO, por força de lei, ao seu titular ou seus sucessores (pessoa física ou pessoa jurídica), que passam a possuir os direitos exclusivos sobre o bem, seja de um produto, de um processo de fabricação ou aperfeiçoamento de produtos e processos já existentes, objetos de sua patente. Terceiros podem explorar a patente somente com permissão do titular (licença).

Durante a vigência da patente, o titular é recompensado pelos

esforços e gastos despendidos na

sua criação. (INPI, 2015).

Dentro dessa perspectiva, hasta salientar que sendo o fornecimento de patentes dependente da inovação do bem a ser tutelado, resguardar um conhecimento ou técnica tradicional é impraticável, haja vista que o conhecimento tradicional diz respeito a várias gerações e é coletivo, ou seja, se perpetua pelo tempo e não é propriedade de um único indivíduo. A lei 9.279/96 que regula direitos e obrigações relativos à propriedade industrial em seu artigo 18, inciso III não aborda o patenteamento de todo ou parte dos organismos animais e vegetais, somente microorganismos transgênicos que, apesar de serem considerados organismos vivos, são resultados de invenções. Dessa forma, vale destacar que:

O objeto de uma patente de

invenção e de modelo de utilidade

deve atender aos requisitos de novidade, atividade/ ato inventivo e aplicação industrial. A patente dá ao seu titular o direito exclusivo de explorar uma invenção tecnológica no mercado, bem como impedir que outras pessoas fabriquem, utilizem, divulguem para venda, vendam ou importem um produto ou um processo baseado na invenção patenteada, sem a prévia e expressa autorização do titular. Uma patente é um eficaz instrumento empresarial que possibilita aos empresários obter a exclusividade no uso de um novo produto ou processo, alcançar uma posição tecnológica e empresarial privilegiada no mercado e obter lucros através da exploração direta ou concessão de licenças. Um produto complexo (tais como uma má- quina fotográfica, um telefone portátil, ou um automóvel) pode incorporar várias invenções cobertas por diversas patentes que podem pertencer a detentores diferentes. (INPI,

2013).

O Instituto Nacional da Propriedade Industrial não abrange os conhecimentos tradicionais associados, vinculados aos produtos de nossa biodiversidade, como alvo de proteção. Para tanto, se fez necessário promulgar a lei 13.123/2015 de modo que garantisse as comunidades indígenas e locais o direito de arbitrar sobre o teor de seus conhecimentos tradicionais. É verificável que a regulação, fiscalização e emissão de autorização de acesso às amostras do patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado são de competência do CGEN. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico também podem emitir autorização de acesso ao patrimônio genético desde que estejam devidamente credenciados no CGEN. (ICMBIO). Ademais, a patente é reconhecida como instrumento fundamental para a proteção de invenções industriais, de modo que assegura ao seu dono um direito de propriedade, proporcionando a

capacidade de impedir a exploração não autorizada, promovendo a garantia da restituição financeira do investimento realizado.

4 INSTITUIÇÕES FIÉIS DEPOSITÁRIAS

A medida provisória 2.186-16/2001 gerou obrigações que facilitassem seu cumprimento. Dentre elas destaca-se o credenciamento da instituição fiel depositária, tendo como propósito a conservação das subamostras recebidas de modo a garantir sua identificação taxonômica em instituição reconhecida pelo governo. Uma instituição para ser considerada fiel depositária deve estar cadastrada juntamente ao CGEN. As instituições que são autorizadas pelo CGEN devem depositar subamostra do patrimônio genético seguindo os termos elencados no artigo 16, § 3º da medida provisória supracitada. O IBAMA define subamostra como:

amostra de material biológico ou de patrimônio genético que permita a identificação da procedência

e a identificação taxonômica, a ser depositada em instituição credenciada como “Fiel depositária de Amostra de Componente do Patrimônio Genético.” (MAIA, 2004). Consoante ao artigo 1º da Resolução nº 18, de 07 de julho de 2005, emitida pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, a instituição depositante da subamostra a que se refere o artigo 16, § 3º da medida provisória 2.186-16/2001 deverá fornecer no mínimo as seguintes informações:

I - identificação da instituição depositante; II - número da autorização de acesso e de

remessa; III - tipo do material depositado; IV - grupo taxonômico;

V - data da coleta; VI - Estado,

Município, localidade mais próxima e, quando possível, indicação georreferenciada do local onde foi realizada a coleta; e VII - quantidade depositada. (BRASIL, 2005).

No site do CGEN está disposta a lista das instituições fieis depositárias credenciadas junto ao órgão. Dentre as instituições estão presentes a

Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo - Instituto de Botânica do Governo do Estado de São Paulo, o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ e a Universidade Federal do Espírito Santo UFES. É importante salientar que o depósito de subamostra pode ser feito em qualquer instituição presente na lista encontrada no site do CGEN.

5 BIOPROSPECÇÃO COMO VALOR ECONÔMICO DA BIODIVERSIDADE

Com o objetivo de abortar da biodiversidade valores econômicos tem-se a bioprospecção. Originalmente a medida provisória 2.186-16/2001 traz em seu artigo 7º, inciso VII a bioprospecção como um exercício que visa a exploração juntamente com a identificação do composto de material genético em meio a um potente uso comercial. (BRASIL, 2001). Criados em habitat da biodiversidade, residentes destes, são alvo hoje da substituição de

seus nichos ecológicos para laboratórios. Conforme bem salienta Saccaro Júnior, há 12 anos, o número de organismos animais e vegetais utilizados para medicamentos terapêuticos eram significantes, no entanto, atualmente o número cresceu de forma irreparável, com aumento de 50% em todas as classificações, sejam estas vegetais, animais, fúngicas e microbianas. (SACARRO JUNIOR, 2011) Medicamentos utilizados com finalidades específicas acerca da saúde social trazem em sua composição organismos naturais, como é o caso de medicamentos anticancerígenos, desenvolvidos por meio de organismos terrestres e marinhos. No ramo farmacêutico, esses organismos ganham assistência, pois a cada momento novos tipos de antídotos são descobertos. Os materiais genéticos de animais são os que mais causam indagações. Um exemplo tradicional é a bradicinina, medicamento mais conhecido do mundo para hipertensos, desenvolvido a partir do plasma do veneno da jararaca. Este por sua vez, potencializa o efeito do medicamento em

pacientes que o ingerem. No âmbito de cosméticos, os perfumes importados sempre são os mais cobiçados em lojas. Por trás de fragrâncias existe a essência da natureza como é o caso dos perfumes e óleos da Channel derivados da composição do pau cor-de- rosa. Perfumes da empresa Natura são desenvolvidos a partir de essências extraídas da flora amazônica como maracujá, pitanga preta, guaraná, açaí, castanha, cupuaçu e manga. A Natura por sua vez, visa à preservação dos frutos cultivados para a utilização cosmética e para a sustentabilidade do planeta. O Boticário também se destaca no ramo de cosméticos por utilizar essências naturais de flores, frutos, madeiras e cafés em seus produtos.

Os contratos de repartição de benefícios é um dos tópicos consideráveis no que se refere a bioprospecção. Como exposto anteriormente, a bioprospecção possui como intuito objetivos econômicos, esses contratos se direcionam ao patrimônio genético com finalidades comerciais até

a divisão de resultados acerca de uma pesquisa

desenvolvida. A indústria usa a imagem de determinada comunidade para contar sobre a matéria prima lá existente. Um exemplo é o óleo de Andiroba feito no Pará, Rondônia, Acre e Amazônia, no entanto, não é

necessário ir até a comunidade para ter esse conhecimento, pois, a matéria prima já é conhecida há décadas e retratada em diversos livros. Se a substância é explorada economicamente, os

benefícios devem ser repartidos, logo, a exploração

de conhecimento exige benefícios.

A Lei nº 13.123/2015 regulamenta a repartição dos benefícios oriundos do acesso ao patrimônio genético:

Art. 17. Os benefícios resultantes da exploração econômica de produto acabado ou de material reprodutivo oriundo de acesso ao patrimônio genético de espécies encontradas em condições in situ ou ao conhecimento tradicional associado, ainda que produzido fora do País, serão repartidos, de forma justa e equitativa, sendo que no caso do

produto acabado o componente do patrimônio genético ou do conhecimento tradicional associado deve ser um dos elementos principais de agregação de valor, em conformidade ao que estabelece esta Lei. (BRASIL, 2015).

A bioprospecção é ainda uma atividade exploratória, mesmo sem saber qual substância ou molécula irá ser patenteada, se vai virar de fato um produto ou não, é necessário ter autorização prévia para a pesquisa.

7 CONCLUSÃO

Em virtude dos fatos mencionados, entende-se que o direito ambiental é também um direito fundamental, posto que, garante não apenas a proteção do meio natural, mas também das gerações que estão porvir. O patrimônio genético e a biodiversidade estão intimamente interligados, pois formam o conjunto de vida existente na terra. Portanto, o patrimônio genético é quem garante o equilíbrio da

natureza, estabelecendo importantíssimas

atividades econômicas como: pecuária, agricultura,

piscicultura, biotecnologia e produção.

Explorar o patrimônio genético, nem

sempre é sinônimo de lucro imediato, fato que

dificulta a preservação da biodiversidade, visto que,

o homem ainda desconhece todas as informações

necessárias sobre seu potencial. É notório que, sua

preservação deva ser alvo da legislação brasileira de

modo que garanta a manutenção do ecossistema e

de todas as formas de vida existentes no planeta,

mesmo que a princípio não tenha um valor

econômico definido.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Cristina Maria do A. Acesso aos Recursos Genéticos - Novos Arranjos Institucionais. Trabalho apresentado no I Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade. São Paulo, Nov. 2002. Disponível em:

<http://www.anppas.org.br/encontroanual/encontro1

/gt/biodiversidade/Cristina%20Maria%20do%20Ama

ral%20Azevedo.pdf>. Acesso em 11 jun. 2015.

BRASIL. Cartilha sobre acesso ao patrimônio genético e remessa de amostra do patrimônio genético. Brasília: IBAMA, 2004.

Conselho de Gestão do Patrimônio Genético. Resolução nº 18. Brasília, 2005. Disponível em:

<http://www.cnpq.br/documents/10157/d6845243-

489f-4122-b82d-2acb74b48a88>. Acesso em 10 jun.

2015.

Constituição (1988). Constituição

da República Federativa do Brasil. Brasília:

Senado Federal, 1988. Disponível em:

constituicao/constituicao.htm>.Acesso em 19 mai.

2015.

Lei nº 9.279, de 14 de maio de

1996.

Regula direitos e obrigações relativos à

propriedade industrial. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis

/l9279.htm>. Acesso em 10 de junho de 2015.

Lei nº 13.123, de 16 de março de

2015. Regulamenta o inciso II do § 1 o e o § 4 o do art.

225 da Constituição Federal, o Artigo 1, a alínea j do Artigo 8, a alínea c do Artigo 10, o Artigo 15 e os §§ 3 o e 4 o do Artigo 16 da Convenção sobre

Diversidade Biológica, promulgada pelo Decreto n o 2.519, de 16 de março de 1998; dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético, sobre a proteção e o

acesso ao conhecimento tradicional associado e sobre a repartição de benefícios para conservação e uso sustentável da biodiversidade; revoga a Medida Provisória n o 2.186-16, de 23 de agosto de 2001; e dá outras providências. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato 2015- 2018/2015/Lei/L13123.htm>. Acesso em 21 mai.

2015

Medida Provisória 2.186-16/01, de 23 de agosto de 2001. Regulamenta o inciso II do § 1 o e o § 4 o do art. 225 da Constituição, os arts. 1 o , 8 o , alínea "j", 10, alínea "c", 15 e 16, alíneas 3 e 4 da Convenção sobre Diversidade Biológica, dispõe sobre o acesso ao patrimônio genético, a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado, a repartição de benefícios e o acesso à tecnologia e transferência de tecnologia para sua conservação e utilização, e dá outras providências.Disponível em:

<http://www.planalto.gov. br/ccivil03/mpv/2186- 16.htm>. Acesso em 19 mai. 2015.

FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 4 ed. São Paulo:

Saraiva, 2003.

; DIAFÉIA, Adriana. Biodiversidade

e Patrimônio Genético no Direito Ambiental

Brasileiro. 2 ed. São Paulo: Editora Max Limonad.

1999.

INSTITUTO Chico Mendes de Conservação da

Biodiversidade (ICMBio). Patrimônio Genético. Disponível

em:<http://www.icmbio.gov.br/sisbio/duvidas-

frequentes/27-patrimonio-gen etico.html>. Acesso

em 09 jun. 2015.

INSTITUTO Nacional da Propriedade Industrial - INPI. Inventando o futuro: uma introdução às patentes para as pequenas e médias empresas/ Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Rio de Janeiro: INPI, 2013.

INSTITUTO Nacional da Propriedade Industrial - INPI. Manual para o depositante de patentes. Rio de Janeiro: INPI, 2015.

MAIA, Otávio Borges (organizador). Cartilha sobre acesso ao patrimônio genético e remessa de amostra do patrimônio

genético. Ministério do Meio Ambiente: Brasília,

2004.

MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. 7ª ed. São Paulo: RT, 2011.

RANGEL, Tauã Lima Verdan. A Tutela Jurídica do Patrimônio Genético na Constituição Federal: A Construção do Biodireito como Direitos Humanos de Quarta Geração, 2013. Disponível em:

SACCARO JUNIOR, Nilo L. A regulamentação de acesso a recursos genéticos e repartição de benefícios: disputas dentro e fora do Brasil. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada:

Brasília, 2011.

SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 7 ed. São Paulo: Malheiros. 2009

A

SOCIOAMBIENTAL BASEADO NA ÓTICA DO

DA

RESPONSABILIDADE SOCIAL NA SALVAGUARDA DO MEIO AMBIENTE

BIODIREITO:

ESTADO

CONSTRUÇÃO

DE

UM

PAPEL

BRUNORO, Bruna Marcelino 16 SOUZA, Lucas Pereira 17 RANGEL, Tauã Lima Verdan 18

Resumo: Buscando traçar ponderações no que tange a construção de um estado socioambiental, com enfoque na perspectiva do biodireito e relacionado ao papel da responsabilidade social na preservação do meio ambiente, é indispensável ressaltar em breve comentário sobre a trajetória deste contexto social. Nos primórdios do desenvolvimento da bioética, os questionamentos levantados pelos pesquisadores tinham um alvo nas questões de pesquisas médicas e as implicações éticas nestes parâmetros, no entanto, as pontuações e analises a respeito do meio ambiente como primazia do bem

16 Graduando do 3º período B do Curso de Direito do Centro

Camilo-ES,

bruninhamarcelino@windowslive.com

17 Graduando do 3º período B do Curso de Direito do Centro

Universitário São Camilo-ES,

18 Professor orientador: Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense,

taua_verdan2@hotmail.com

Universitário

São

lucas.dpsudeste@gmail.com.

coletivo, passou a ter maiores ressalvas um pouco mais tarde. Levantando ainda questionamentos e considerações de suma importância, visando à existência de um meio ambiente equilibrado no aspecto de fornecimento de qualidade de vida para todos os indivíduos, em paralelo com a responsabilidade que deve abranger a sociedade e estado, que agindo de forma conscientizadora e harmônica possam priorizar e garantir que este bem comum não se deteriore em larga escala, pois implicaria em grandes impactos nos recursos naturais, como falta de acesso ao consumo de água potável, saúde, bem estar e entre outros direitos sociais, que devem receber total atenção no que se refere à proteção da dignidade da pessoa humana, sendo essa proteção observada não só como evento futuro, no entanto que seja de grande relevância na atualidade em que vivemos.

Palavra chave: Estado Socioambiental. Responsabilidade. Preservação. Meio Ambiente

1 COMENTÁRIOS INICIAIS

A princípio, faz-se necessário pontuar uma breve conceituação no que diz respeito à Bioética e ao Biodireito. Conforme exposição de Jussara Suzi, em 1971 o “biólogo americano Van Rensselaer Petter, pela primeira vez, empregou a nova acepção bioética, para destacar a importância das ciências biológicas como garantidoras da

qualidade de vida e sobrevivência do planeta” (s.d., p.5). Sendo assim, pode se indicar que este é um estudo interligado, vinculando à ética que investiga, na área das ciências humanas e biomédicas, a generalidade das condições necessárias a uma gestão responsável na vida humana coletiva ou individual. Para Maria Gabriela Damião, o Biodireito é um ramo do Direito Público, que se associa a bioética, sendo assim, para que seja compreendido, ambos possuem uma relação de interdependência, é também a positivação das normas bioéticas, ou seja, o conjunto de leis positivas que visam estabelecer a obrigatoriedade de observância dos mandamentos bioéticos. Será de responsabilidade do Biodireito a defesa da vida humana, sem propiciar obstáculos aos avanços científicos, formulando normas jurídicas de cunho equilibrado que possibilite uma maior adequação entre os objetivos, possibilidades e resultados, objetivados pela biogenética em benefício da humanidade.

Abordando o meio ambiente a partir deste ponto, pode ser observado que tanto a bioética como também o biodireito estão intrinsecamente ligados às questões ambientais, pois atuam como uma espécie de tutores, prezando pela integridade desse sistema, limitando a interferência nociva do próprio ser humano neste contexto, como o desmatamento da mata atlântica, que por assim dizer, é um dos patrimônios naturais de grande importância para o equilíbrio deste meio, esgotamento dos recursos minerais e degradação por meio da alta poluição causada pela indústria de modo geral em seus ramos. Para melhor compreensão sobre o “meio ambiente” devidamente equilibrado, deve ser lembrado que no documento constitucional existe uma linha garantista deste direito coletivo, como exposta no caput do artigo 225 do referido documento, que expressa um ambiente ecologicamente equilibrado, e que este seja de uso comum da sociedade e de suma importância para a qualidade de vida, encarregando o poder público e a toda sociedade com o dever de primar e proteger

esse bem comum, para as presentes e futuras gerações.

Na perspectiva de Marcelo Abelha Rodrigues, o meio ambiente não está limitado à simples visão de espaço, indo à diante desta concepção, compreendendo um “conjunto de relações (físicas, químicas e biológicas) entre os fatores vivos (biótico) e não vivos (abióticos) ocorrentes nesse ambiente e que são responsáveis pela manutenção, pelo abrigo e pela regência de todas as formas de vida existentes nele (RODRIGUES, 2013, p.64). O autor ainda faz referência à proteção do meio ambiente por intermédio da interação destes indivíduos compreendendo seu meio.

2 SALVAGUARDA LEGAL DO BEM COMUM:

UMA FORMA DE RESPONSABILIZAÇÃO POR DANOS CAUSADOS AO MEIO AMBIENTE COM BASE NA LEGISLAÇÃO.

Ao postular uma responsabilidade social, que recai sobre a preservação do meio ambiente,

deve ser considerado também um fator muito notável que é de grande valia neste processo, sendo este os instrumentos normativos que fazem pontuações sobre este proeminente assunto. Referenciando o art. 3º da Lei n. 6.938/81 pode ser notado definições prévias concernentes ao meio ambiente e a degradação deste. Considerando o que compõe o meio ambiente o inciso I aponta este como sendo o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Já no inciso III são apresentados fatores como poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente, que por assim dizer é mencionado nas alíneas deste inciso, as degradações que causam algum dano à saúde, segurança e o bem-estar social, que interfiram nas atividades sociais e econômicas criando condições adversas a estas, afetando o bioma bem como mudando as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente, lançando matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais

estabelecidos. O inciso IV desde mesmo artigo traz a luz de nossa compreensão uma definição da figura de quem pratica a degradação a este modo entendesse o poluidor, a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental, e por último o inciso V toma nota no que consiste os recursos naturais, e estes compreendem a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora. Todos estes recursos necessitam de um amparo protetivo, para que possam se desenvolver e atender as necessidades do homem, e para tanto fazendo uma ressalva ao art. 225 do dispositivo constitucional podem ser observados alguns ordenamentos, como por exemplo, o § 1º incisos de I a VII que tratam da responsabilidade do estado, como preservação e restauração dos processos ecológicos essenciais e também a promoção do manejo ecológico das espécies e ecossistemas,

levando a pauta a preservação da diversidade e a integridade do patrimônio genético nacional, bem como exercer o serviço de fiscalização de entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético, e para enriquecimento de considerações sobre este último dever mencionado, citasse Tauã Lima o qual traz a luz a Lei de Biossegurança como um instrumento normativo e regulador, no que tange a manipulação de material genético:

Cuida anotar que a Lei de Biossegurança objetivou destacar no plano jurídico ambiental a tutela jurídica concernente ao patrimônio genético da pessoa humana, “assegurando em sede infraconstitucional tanto a tutela jurídica individual das pessoas humanas (como o direito às informações determinantes dos caracteres hereditários transmissíveis à descendência)”[38], em especial os referentes ao povo brasileiro, atento, porém, para a sua dimensão metaindividual. Quadra salientar que o diploma legislativo em comento afixou sanções para apenar a responsabilidade civil, administrativa e criminal em decorrência de possíveis condutas ou mesmo atividades consideradas lesivas ao

patrimônio genético da pessoa humana. (RANGEL, 2014, p.8)

O dispositivo constitucional, ainda

vincula o estado a definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes

a

serem especialmente protegidos, sendo a alteração

e

a supressão permitidas somente através de lei, é

também vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção. Ainda sedo de incumbência do Poder Público, exigir na forma da lei, referente à instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade, controlar a produção, a comercialização e o emprego

de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente. Dentre as responsabilidades apresentadas acima, o Estado também tem o dever de promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a

preservação do meio ambiente, e não menos importante é a proteção a fauna e a flora, que deve proibir na forma da lei as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, e que provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.

No parágrafo segundo deste mesmo artigo pode ser observado uma obrigação por parte dos que exploram recursos minerais, tendo estes o dever de recuperar o meio ambiente degradado por tais explorações, e que os programas de recuperação por estes adotados, estejam em concordância com as soluções técnicas exigidas pelo órgão público competente, na forma da lei. A disposto sobre as penalizações, o parágrafo terceiro, aponta em questão as condutas e atividades que tenham efeito lesivo ao meio ambiente, sendo assim independente da obrigação reparação do dano causado, os infratores, pessoas físicas ou jurídicas devem se sujeitar as sanções penais e administrativas. Tais dispositivos ocupam um patamar importantíssimo na preservação do ecossistema,

pois por si só este contexto não pode se defender da ação nociva do ser humano, e fato é que sem um meio regulador que tenha medidas preventivas quanto aos atos lesivos contra este bem comum, não existiria grandes esperanças na recuperação de danos causados pelo deflagrador aos recursos

naturais. No entanto, não é suficiente a relevância e

o peso que tais dispositivos possuem no

ordenamento jurídico frente ao combate a este mal

que prejudica tanto as gerações presentes e possivelmente as futuras. Realidade estarrecedora que carece de atenção não somente dos governantes do nosso país, mas também da atenção esmagadora

da sociedade no aspecto de responsabilização por

esta problemática social que tanto é discutida na atualidade. Fazendo ainda uma Ressalva a Marcelo Abelha Rodrigues que traz a seguinte consideração:

Sendo o direito o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado um direito que se antepõe aos demais, dada a sua índole de direito fundamental á vida, é óbvio que a agressão a ele repercutirá em diversos aspectos individuais, como lazer,

saúde, segurança, propriedade, etc. essas repercussões não são tuteladas como se fossem danos ambientais, justamente para se evitar a confusão como o “verdadeiro” dano ao bem jurídico próprio: o meio ambiente ecologicamente equilibrado, que tanto demorou para ser reconhecido como objeto autônomo de Direito (RODRIGUES, 2013, p.64).

3 CONCIENTIZAÇÃO SOCIAL: MEIO PARELO DE ASSITÊNCIA PARA A PRESERVAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS E DE INCLUSÃO DA SOCIEDADE NA CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO SOCIOAMBIENTAL.

Relacionado à construção de um estado socioambiental, voltado para a beneficência social, respeitando parâmetros legais, citasse aqui a visão da entrevistada Daiane Maia de Oliveira, Bióloga formada pela Universidade Estadual do Mato Grosso e Mestre Profissional em Biotecnologia pela Universidade Estadual, onde ela expressa com propriedade argumentos em resposta aos questionamentos realizados. Em aferição inicial, foi

feito menção a crise hídrica que atingiu algumas áreas do território brasileiro recentemente, onde inúmeras famílias não tiveram o devido acesso a água, seja por má administração pública, condições climáticas e até mesmo degradação do meio ambiente, ressaltando ainda que a água é um bem comum de uso coletivo, e para entendimento notasse a seguinte interrogativa:

Como os meios governamentais poderiam garantir que esse direito de acessibilidade a água não venha ser infringido novamente? E se for como dar maior apoio a sociedade? “Neste começo de 2015, o Sudeste do Brasil sofreu a falta do líquido essencial à vida, a água potável, que a cada momento diminui de maneira absurda. Outras regiões ou estados do Brasil, como o Nordeste, já vivenciam o problema há muito tempo, e até o Amazonas e o Pantanal têm sofrido, esporadicamente, com a estiagem. Devido à seca calamitosa que assolou São Paulo essas circunstâncias se teve clara percepção a nível nacional de uma realidade já vivenciada.”

A bióloga pontua que os verdadeiros

culpados dessa problemática não se limitam apenas

aos governos, mas também aos cidadãos, que de um

modo geral tratam com descuido nossos recursos hídricos. Essa crise exige união e compartilhamento de responsabilidades levando a respostas sistêmicas

com metas e ações de curto, médio e longo prazo. Assim, o governo precisa exercer papel protagonista para fomentar e programar soluções múltiplas com escala e impacto que atinjam diversos setores de uma só vez, utilizando técnicas avançadas para despoluição dos rios que podem fornecer água potável para os seres viventes. Mas também cabem

a nós consumidores de água, empresas e

organizações da sociedade civil desempenhar o nosso papel de corresponsabilidade acima de tudo, usando de forma racional, evitando desperdícios e poluição. Complementando a visão da bióloga referente ao esgotamento dos recursos hídricos citasse Leo Pessini e Christian de Paul onde estes pontuam o seguinte:

No imaginário dos pais fundadores da sociedade moderna, o desenvolvimento se movia dentro de dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do desenvolvimento rumo ao futuro. Esta pressuposição se revelou ilusória. Os recursos não são infinitos. A maioria está se acabando, principalmente a água potável e os combustíveis fósseis. E o tipo de desenvolvimento linear e crescente para o futuro não é universalizável. Não é, portanto,

(PESSINI;

BARCHIFONTAINE, 2012, p.102).

infinito.

Continuando a entrevista, a bióloga revela que nos últimos anos os problemas ambientais estão sendo discutidos de maneira exacerbada nas mais variadas vertentes sociais, vez que as consequências da poluição ambiental e desmatamento estão sendo sentidas cada vez mais em nosso dia-a-dia. “Em minha opinião a conscientização de todas as classes sociais e de todos os ramos industriais e econômicos pode gerar melhores resultados, mas sabemos que isso é um recurso em longo prazo. Outros procedimentos também são muito bem aceitos e possuem resultados mais imediatos como o aumento

da fiscalização e comprimento de medidas rigorosas aos infratores”. Abordando a bioética e fazendo referência a questão dos direitos coletivos e da beneficência social e dando um parecer sobre a visualização dessas situações na contemporaneidade do nosso país, e levando em consideração os avanços da ciência na resolução de problemas socioambientais, Daiane pontua que “o compromisso com a ética é o fundamento mais importante de um bom governo, que se estende a um código de valores partilhados por toda a sociedade, que objetivam a proteção do conjunto de seus cidadãos contra os interesses de uma minoria, detentora de interesses muitas vezes ou até exclusivamente econômicos. A bioética trouxe valores específicos com relação ao meio ambiente. Pouco havia se falado tanto em preservação do patrimônio natural da humanidade, e até alguns anos atrás, acreditavam-se que todos os recursos eram “infinitos”. Atualmente, os aspectos ambientais são colocados em primeiro lugar, muito mais que preocupações com a criminalidade ou

problemas econômicos, por se tratar de elementos básicos da vida. Apesar dessa evolução ainda há muito que melhorar e desenvolver a nível individual

e coletivo. Os recursos ambientais são, na

atualidade, o bem mais valioso que a sociedade possui”. Já é de fácil compreensão que para ser concebida essa construção de um estado socioambiental, obriga a toda sociedade voltar se para a beneficência social, respeitando os parâmetros legais. O que você entende que seria de maior proveito para construir uma sociedade de modo geral, voltada para os interesses socioambientais? Em tempos atuais, penso que a conscientização da população quanto aos danos

sofridos pela natureza seja primordial, antes mesmo

de tomar quaisquer medidas, e que toda estrutura

de uma sociedade depende da natureza, e o homem moderno tem consciência disso, apesar das suas ações não condizerem com seus conhecimentos. Contudo, para que essa conscientização ocorra, é preciso uma melhor integração sociedade-

natureza, e para tanto a Bióloga faz alusão a escola, por ser um dos espaços mais propícios para que essa integração aconteça, pois é através do aumento das informações que a população perceberá que se ampliará a possibilidade de um futuro sem tantas ocorrências municionadas pelo desconhecimento das causas geradoras do caos natural. Não sendo é claro, a escola o único local responsável por essa conscientização, tendo ação efetiva das autoridades e da sociedade em geral, finaliza a bióloga. Não eximindo o estado, na observação das necessidades em cada setor social, bem como adoção de medidas para fortalecimento deste sistema, pois se tratando de recursos ambientais é possível observar um dos bens mais valiosos da contemporaneidade para o ser humano, não podendo de forma alguma ser concebido pela coletividade como mera questão social, bem como excluir as análises críticas para beneficência da sociedade, sendo compreendida em sua totalidade, que para existir um futuro sustentável e viável para toda forma de vida, devendo ser discutido e

aperfeiçoado no presente de modo a dirimir futuras catástrofes sociais e ambientais. Por fim trazendo uma breve reflexão de Leo Pessini e Christian de Paul, onde estes apontam a importância de um estado com direitos e justiça social para todos:

Não há meio ambiente digno se existem injustiças e desigualdades sociais. A redução do modelo de desenvolvimento ao econômico pura e simplesmente é inaceitável. O desafio é elaborar uma ecocriação na construção de uma sociedade justa e solidária. É claro que não teremos um cenário novo que promova qualidade de vida e políticas. É nessa perspectiva que se fala, no Terceiro Mundo, de uma ecologia social ou de uma ética socioambiental, que integre ecologia e justiça social. (PESSINI; BARCHIFONTAINE, 2012, p.106)

CONCLUSÃO

Trazendo uma breve pontuação para fins conclusivos, sobre as exposições feitas nestes escritos, nota-se que no processo de construção de um estado socioambiental de direito, deve ser levado em conta a bioética e o biodireito como

garantidores dos direitos e interesses coletivos, no que se refere ao meio ambiente, pois é de suma importância que estes atendam as necessidades de cada indivíduo, seja ela presente ou futura. De igual modo deve ser considerado o ordenamento jurídico como meio preventivo e garantidor dos direitos sociais em questão, pois sem esta preciosa salvaguarda normativa não se é possível identificar

e responsabilizar os deflagradores do ecossistema

que incorpora o nosso país. Contudo, e não menos importante, pauta- se aqui a conscientização social, como sendo auxiliadora na construção de um Estado Socioambiental, cabendo ao Estado garantir que os recursos naturais que a geração atual tem

conhecimento, em um direito social não só para o presente como também para o futuro. E para que o futuro tenha o devido acesso a toda biodiversidade,

a fauna, a flora, ao um ambiente propicio e que

forneça condições de qualidade é preciso um grande passo no presente, a sociedade deve ser educada e

conscientizada da importância sobre a manutenção

sustentável do ambiente em que se vive, tendo assim a responsabilidade ética e social para como o contexto que estão inseridos. Além do enfoque da bioética e do biodireito como garantidores dos direitos e interesses coletivos, da questão normativa jurídica, da responsabilidade social com o meio ambiente, com os interesses comuns que devem ser vivenciada com mais afinco pela coletividade, bem como a conscientização social por meio da educação, deve ser ponderada ainda a responsabilidade individual que cada cidadão deve ter em prol desta problemática, pois não basta a implementação de políticas publicas que visem a conservação do mundo ecológico, não basta nenhuma destes fatores, que por assim dizer importantíssimos para a seguridade de um Estado consciente com seu papel ético na primazia dos direitos sociais, não é suficiente, se não existir primeiramente um mínimo ético individual dentro de cada ser humano, pois só assim poderá ter muito mais valia os de deveres compelidos a esfera governamental e também a

sociedade, e assim cumprindo um papel de

preservação e promoção deste bem coletivo, pois o

bem natural que possuímos não é inesgotável, e

sim, pode se extinguir, se esta causa ambiental não

for tutelada pela preservação, englobando os

direitos e deveres dos indivíduos para com este.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/con

stituicao.htm >. Acesso em 14 jun. 2015.

Lei nº 6.938, de 31 de Agosto de 1981 .Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências.Brasília, DF: Senado Federal. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6938.htm >. Acesso em 14 jun. 2015.

FERREIRA, Jussara Suzi Assis Borges Nasser.

Bioética e Biodireito. Disponível

<http://www.nhu.ufms.br/Bioetica/Textos/Princ%C3

%ADpios/BIODIREITO%20CONCEITO.pdf>

Acesso em: 14 jun. 2015.

em:

NEGREIROS, Maria Gabriela Damião de. Bioética, biodireito e meio ambiente. Disponível em: <http://www.ambito- juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigo s_leitura&artigo_id=10399> Acesso em: 14 jun.

2015.

PESSINI, Leocir; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul de. Problemas atuais da bioética. 10 ed. São Paulo: Edições Loyola; 2012

RANGEL, Tauã Lima Verdan. Biodireito e tutela jurídica do patrimônio genético. Revista Jus

Navigandi, Teresina, ano 19, n. 3847, 12

Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/26345>.

2014.
2014.

Acesso em: 14 jun. 2015.

RODRIGUES, Marcelo Abelha. Direito Ambiental Esquematizado. São Paulo: Saraiva; 2013.

SOLIDARIEDADE INTERGERACIONAL: O DIREITO DAS GERAÇÕES FUTURAS A UM PATRIMÔNIO GENÉTICO NÃO MODIFICADO

COTTA, Fernanda Fonseca 19 LOUZADA JUNIOR, Elimar de Almeida 20 ROSSI, Nayanne Castellari Bagatol 21 RANGEL, Tauã Lima Verdan 22

Resumo: O objetivo deste estudo é demonstrar a importância da solidariedade intergeracional, que é responsável por traduzir os vínculos entre as gerações presentes e futuras, também por garantir o equilíbrio que se deve ter da sustentabilidade e dos recursos naturais, para que as futuras gerações possam ter o direito de usufruir. Além disso, os autores Édis Milaré e Celso Pacheco Fiorillo em que ambos dizem que este tema concerne á construção da concepção de solidariedade intergeracional, contendo Norberto Bobbio e Paulo Bonavides discernindo sobre a historicidade dos

19 Graduanda do 3º período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, fernanda-f-c@hotmail.com

20 Graduando do 3º período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, junior.jr00@hotmail.com. 21 Graduanda do 3º período do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, nayannecb@hotmaill.com 22 Professor Orientador. Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF. E-mail: taua_verdan2@hotmail.com; tauarangel@saocamilo-es.br

direitos humanos. Em contrapartida à Declaração Universal do Genoma Humano no artigo 1º da declaração ratifica gene humano como parte fundamental do ser humano, igualmente, a Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, que trata sobre a biossegurança no território nacional, reforça a proteção do ser humano e de seus materiais genéticos, para assegurar que não haverá uso sem a autorização do indivíduo, e para uma possível clonagem humana, podendo evitar a cobrança das futuras gerações, contribuindo para que a natureza, preservando-a e lembrando que o direito respalda o favorecimento a usar materiais genéticos, entretanto, para fins terapêuticos sendo todo o processo regulado por lei.

Palavras-chaves: Solidariedade Intergeracional. Patrimônio Genético. Dignidade da pessoa humana.

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A presente pesquisa busca demonstrar o debate da solidariedade intergeracional, quanto à atual e as futuras gerações, por meio da decisão do STF e da Lei da Biossegurança, pautando-se na utilização do método hipotético-dedutivo, com especial atenção para o levantamento bibliográfico sobre o tema eleito, valendo-se do diálogo entre teóricos sobre os temas, em especial os autores Édis Milaré e Celso Pacheco Fiorillo, no que concerne à

construção da concepção de solidariedade intergeracional, bem como Norberto Bobbio e Paulo Bonavides, voltado para a delimitação dos direitos humanos. Igualmente, a observação a ser levantada

é promover um diálogo entre os marcos legais

internacionais, ratificados pelo Brasil, e a legislação

nacional em contraponto com o entendimento jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal sobre

a temática com exemplos e casos concretos de

alimentos transgênicos, prolatando seus benefícios e consequências a natureza e ao ser humano. O princípio da solidariedade intergeracional, em consonância o artigo 225º, caput, demonstra a importância da responsabilidade “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem

de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade

de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para

as presentes e futuras gerações.” (BRASIL, 1988, s.p), refere-se a prerrogativa que a coletividade e o poder publico tem de deixar o meio ambiente preservado e conservado para que tanto a presente

e as futuras gerações ter o direito de usufruir. Nesta perspectiva, em consonância com alguns teóricos, a exemplo de Édis Milaré (2014, p. 261), a solidariedade intergeracional pode ser classificada como sincrônica e diacrônica. Em termos conceituais, é possível pontuar que, conforme aponta Édis Milaré aborda e diferencia muito bem e diz que:

Em círculos ambientalistas e universitários, fala-se muito em dois tipos de solidariedade: a sincrônica e a diacrônica. A primeira, sincrônica (“ao mesmo tempo”), fomenta as relações de cooperação com as gerações presentes, nossas contemporâneas. A segunda, a diacrônica (“através do tempo”), é aquela que se refere às gerações do após, ou seja, as que virão depois de nós, na sucessão do tempo. Preferimos falar de solidariedade intergeracional, porque traduz os vínculos solidários entre as gerações presentes e com as futuras. (MILARÉ, 2014, p. 261)

uso

da

Vale ressaltar que “[

]

natureza

não

devem

os custos do mau

debitadas

ser

irresponsavelmente na conta das porvindouras gerações. Seremos questionados e cobrados pelos futuros ocupantes desta casa” (MILARÉ, 2014, p.261), ou seja, reforça a premissas da solidariedade intergeracional. Ao lado disso “a estrutura de bem ambiental deve este ser, além do bem comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida” (FIORILLO, 2014, p.192) sendo sempre, interesse da sociedade a qual vive, o coletivo no caso e do Poder Público conforme versado na Constituição Federal, mas, atenua-se que o verdadeiro sentido é que tem-se extrair da natureza o mínimo de existência e além de pensar em nossas futuras proles, a partir de tais preceitos é possível usar os bens ambientais, com consciência do legado que irá deixar com as consequências do seu uso-fruto.

2 O ARCABOUÇO HISTÓRICO DAS TRÊS PRIMEIRAS DIMENSÕES DOS DIREITOS HUMANOS: OS DIREITOS EMERGIDOS DAS NECESSIDADES SOCIAIS E A OBRIGAÇÃO DE NOVOS HORIZONTES

Falar de direitos humanos é lembrar que teve uma evolução histórica para chegar a um direito

positivado, seguindo a teoria da evolução de Direitos Humanos de Norberto Bobbio (2004, p.6) “os direitos

não nascem todos de uma vez [

com as conquistas e lutas das pessoas. Nesse cenário, a revolução industrial imperava, exploravam a plebe em condições trabalhistas vis, no entanto, o clamor pela luta dos direitos surgiu com a primeira dimensão dos direitos do homem, assim nomeado como a Liberdade, direito o qual existe em todas as constituições das sociedades democráticas, teve seu papel fundamental de tirar o homem da visão social mecanicista, segundo Paulo Bonavides informa que:

e sim de acordo

]”

Os direitos de primeira geração ou os direitos de liberdade têm por titular o indivíduo, são oponíveis ao Estado, traduzem-se como faculdades ou atributos da pessoa que ostentam má subjetividade que é seu traço mais característico; enfim, são direitos de

resistência ou de oposição perante o Estado. (BONAVIDES, 2004, p.563)

A primeira geração caracterizou-se por ser um status negativus, ou seja, resistência ao Estado em garantir seus direitos individuais, separando a Sociedade e o Estado. Com a progressão do liberalismo individual politico, após o termino da Segunda Guerra Mundial, a visão do Estado mudou a partir do século XX, período o qual a segunda dimensão dominou-a. Nesse período desabrolha os direitos sociais básicos (moradia, saúde, educação alimentação), por conseguinte, Daniel Sarmento pondera tal geração fazendo menção do Constituição de Weimar, de 1919 (Alemanha), e pelo Tratado de Versalhes, 1919 (OIT) em que o próprio relata:

As Constituições do México (1917) e de Weimar (1919) trazem em seu bojo novos direitos que demandam uma contundente ação estatal para sua implementação concreta, a rigor destinados a trazer consideráveis melhorias nas condições materiais de

vida da população em geral, notadamente da classe trabalhadora. Fala-se em direito à saúde, à moradia, à alimentação, à educação, à previdência etc. Surge um novíssimo ramo do Direito, voltado a compensar, no plano jurídico, o natural desequilíbrio travado, no plano fático, entre o capital e o trabalho. O Direito do Trabalho, assim, emerge como um valioso instrumental vocacionado a agregar valores éticos ao capitalismo, humanizando, dessa forma, as até então tormentosas relações jus laborais. No cenário jurídico em geral, granjeia destaque a gestação de normas de ordem pública destinadas a limitar a autonomia de vontade das partes em prol dos interesses da coletividade. (SARMENTO, 2006, p.

19)

Do mesmo modo, Paulo Bonavides destaca que elas “Nasceram abraçados ao principio da igualdade, do qual não se podem separar, pois fazê-lo equivaleria a desmembra-lo da razão de ser que os ampara e estimula” (2004, p.564) colocando em paridade as duas dimensões formadas nas esferas filosóficas.

Por conseguinte a terceira geração se finda pós-guerra mundial inclusive, atrocidades cometidas pelos regimes nazistas com experimentos horrendos em seres humanos no intuito do fortalecimento dos esfolados na guerra, todavia, a desigualdade das nações era um estopim de novos conflitos, com isso, a terceira dimensão contornou-se como resposta em busca da paz, da fraternidade bem como o direito ao meio ambiente, o direito a comunicação que é muito bem assinalado pelo autor Paulo Bonavides, o mesmo relata:

Com efeito, um novo polo jurídico de alforria do homem se acrescenta historicamente aos da liberdade e da igualdade. Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade, os direitos da terceira geração tendem a cristalizar-se no fim do século XX enquanto direitos que não se destinam especificamente à proteção dos interesses de um individuo, de um grupo ou de um determinado Estado. Tem primeiro por destinatário o gênero humano mesmo, num momento expressivo de sua afirmação como valor supremo em termos de

existencialidade concreta. Os publicistas e juristas já os enumeram com familiaridade, assinalando-lhe o caráter fascinante de coroamento de uma evolução de trezentos anos na esteira de coroamento de uma evolução de trezentos anos na esteira da concretização dos direitos fundamentais. Emergiram eles da reflexão sobre temas referentes ao desenvolvimento, à paz, ao meio ambiente, à comunicação e ao patrimônio comum da humanidade. (BONAVIDES, 2004, p.569)

Com as três dimensões formadas, tais não poderiam responder por barreiras e por serem

limitadas no sentido da bioengenharia, necessitava

de uma dimensão que atendesse as novas temáticas

pautando-se em buscar melhores respostas que visa

proteger princípios da vida humana, condicionados

e fundamentalmente importantes à sociedade,

saliente-se que o avanço da biotecnologia, Norberto

Bobbio destaca que tais proporcionam novidades que discorrem sobre as pesquisas biológicas (BOBBIO, 1992, p. 6).

Apesar de ainda não haver consenso na doutrina sobre qual o conteúdo da quarta dimensão dos direitos humanos, Norberto Bobbio ressalta, “tratam-se dos direitos relacionados à engenharia genética” (BOBBIO, 1992, p.6). Para acrescentar o entendimento da quarta dimensão, Teresa Rodrigues Vieira diz: “a lei deve assegurar o princípio da primazia da pessoa aliando-se às exigências legítimas do progresso de conhecimento científico e da proteção da saúde pública” (VIEIRA, 1998, p.18), proteção o artigo 225º da Constituição Federal ratificou. Também vale ressaltar que a quarta dimensão dos Direitos Humanos nos diz que o Estado deve proteger a prole e a natureza para as futuras gerações, mas não somente ao Estado é a responsabilidade de cuidar e defende-la, mas também a coletividade que inerte a tais conhecimentos, cada vez mais falece a natureza com os desmazelos de quem deve cuidar amparar e garantir para as próximas descendências a biodiversidade digna, todavia, a ciência não deve ficar de fora de tais avanços e ser taxada como vilã

por tais procedimentos riscos e acertos, mas tem que ser levada como um fio de esperança a novos experimentos, tanto em humanos quanto a natureza.

3 A BIOENGENHARIA EVOLUTIVA: A QUARTA DIMENSÃO ABORDANDO A COMPLEXIDADEDAS MODIFICAÇÕES GENETICAS NA NATUREZA

Como bem salientou a autora Vieira, a declaração universal do genoma humano vem ratificar que os processos legais para as pesquisas ocorrerem da forma correta e plausível, a declaração em seu artigo 15º nos diz: “Os Estados devem tomar as providências necessárias para constituir uma base para o livre exercício da pesquisa sobre o genoma humano, respeitando os princípios

estabelecidos na presente Declaração [

1997, s.p), tal declaração versa logo em prioridade a

(ONU,

]”

importância do genoma humano, enfatizando: O genoma humano tem subjacente à unidade

fundamental de todos os membros da família humana, bem como o reconhecimento da sua inerente dignidade e diversidade. Em sentido simbólico, constitui o patrimônio da Humanidade(ONU, 1997, s.p). Nos anos antecedentes, a evolução científica teve o progresso das descobertas de clonar animais ou plantas, mas não ao ponto de criar um ser humano, uma vez que as pesquisas são evoluídas dentro dessa contemporaneidade. O ano de 1996 é considerado um marco histórico, no que diz à evolução das pesquisas com clonagem quando teve o primeiro animal clonado, uma ovelha chamada Dolly onde precisou de 277 tentativas, utilizando o ADN de um embrião, embora a ovelha envelheça mais aceleradamente do que as normais. Todavia, há pessoas que concordem com a clonagem, pois alguns homens não podendo procriar, usariam o ADN de um embrião, injetando- o ao óvulo da mulher e assim fazendo o seu clone como um método natural. Com tais perspectivas, o homem passa a evoluir cientificamente desenvolvendo uma série de novas técnicas e que

permitiriam, teoricamente, a possibilidade do êxito da clonagem humana. A partir da ênfase de tal assunto, a sociedade atemorizou em primeiro instante, aumentando a preocupação quanto ao objeto clonado, no caso o ser humano e como ele suportaria tal fato, pois esse novo ser é dotado de racionalidade, um elemento essencial que nos diferenciam de outros animais. É a partir daqui que alinha de raciocínio passa a não ficar em matéria a disciplina saúde, passa a ganhar e integrar no espaço jurídico, pois diz respeito a futuras proles indefesas. O debate jurídico acerca da solidariedade intergeracional tem ênfase quanto aos riscos obtidos que consequentemente se finda, tais riscos acarretam tanto ao individuo e sua descendência, mas para o individuo em si, aspectos psicológicos quanto ao preconceito, provocarem anomalias, tumores e doenças secundárias, diminuição da imunidade, tempo de vida precoce, e a mais preocupante, o comprometimento da variabilidade genético, os riscos de haver um mercado negro de órgãos e a venda de genoma

humano que tem ênfase na declaração em seu artigo 4º que diz “O genoma humano em seu estado natural não deve ser objeto de transações financeiras” (ONU, 1997, s.p). Com a necessidade de respostas cientificas e conclusivas de doenças e problemas ainda não solucionados, o ser humano em constante evolução aparelhado à tecnologia, buscou métodos os quais passaram a ser fortemente criticados e episódios famosos, que podem ser citados os campos de concentração nazistas que antes das guerras, eram utilizados primariamente para amenizar os ferimentos dos seus soldados, mas a ideia cresceu e experiências mal formuladas sem o mínimo de respeito ao ser humano, que passou a ser um boneco de testes para conseguir ao modo que o resultado final poderá justificar as atrocidades feitas com cada ser humano com o preceito de ganho social. Mas essas pesquisas não ficam somente atreladas aos seres humanos, acontece frequentemente em plantas e animais para um melhor resultado econômico e gastronômico e assim favorecendo o

comercio capitalista sempre objetivando lucro em alimentos transgênicos. Normas de biossegurança foram implantadas em uma época de cultivo transgênico o qual a indústria avançava para tal ramo comercial, alimentos geneticamente modificados e que em suma, geraria uma durabilidade maior, qualidade maior e o principal, a rentabilidade. Referente às experiências macabras e mal elaboradas e também a quarta dimensão, pode-se enumerar casos em que a ciência foi além de suas capacidades e objetivou suas metas, mas pulando por cima da ética e moral do indivíduo e sua prole, como exemplos vemos de cientistas fazendo experimentos com animais, colocando-as com duas cabeças, ou animais com uma orelha humana implantada, ou experiências nos seres humanos de como o corpo reage a um choque elétrico mesmo estando em óbito, em fim, são inúmeros casos que extrapolam a moral e a ética, ademais, tem os que usam esses métodos como desculpas para suas formas cruéis de pesquisas e tem os que realmente

as utilizam para reprodução e criação de um organismo ou tecido para substituir um morto ou debilitado em um corpo, ou seja, formas de utilização dessas experiências para criar tecidos e assim ajudar indivíduos já debilitados por nascença ou no decorrer de sua vida.

4 AS APLICAÇÕES E IMPLICAÇÕES DAS MODIFICAÇÕES GENETICAS CONCRETAS COM MEDIDAS PROTETIVAS E A LEI DE BIOSSEGURANÇA

Falar de benefícios da bioengenharia nos leva a fatos em desenvolvimento e cada vez mutável, indefinido. Entretanto, o que se tem por avanço nessa área nos remete a um futuro de genes modificáveis e criacionismo de membros de um corpo de um ser humano, para tais tecidos criados a partir das próprias células mortas do coração, que substituem eficazmente o próprio coração do paciente, ademais há órgãos criados em laboratórios exemplos o próprio coração, traqueia e um casal

infértil que por inseminação artificial criam um filho, todavia tem seus riscos. Em seu artigo 11º, a Declaração Universal do Genoma humano ratifica que é proibido da clonagem do ser humano que diz:

“Não serão permitidas práticas contrárias à dignidade humana, tais como a clonagem reprodutiva de seres humanos” (ONU, 1997, s.p), bem como neste sentido, o artigo 26º respalda “Realizar clonagem humana: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa”(BRASIL,2005, s.p), para a prática de tal procedimento. Acerca da Biotecnologia e Biossegurança, um breve paralelo sobre a diferenciação e o surgimento da engenharia genética para melhor entendimento do tema exposto. Surgindo inicialmente nos anos 70, cientistas descobrem a quebra da molécula do DNA e a assim podendo junta-las e produzir novas espécies de variados produtos alimentícios e assim modifica-los ao seu bel prazer com isso, surgiram às siglas OGM’s que nada mais é que Organismos Geneticamente Modificados. Entretanto, com

capacidade de produção limitada atrelada as suas dependências tecnológicas, essas OGM’s que basicamente poderiam não somente modificar os fragmentos do DNA de uma planta, mas de um ser humano também, que logo com esse rápido avanço tecnológico, acarretou numa corrida desenfreada para que outros países buscassem informações e que pudessem atender as novas demandas comerciais. Contudo, a não receptividade social causou temor no mundo cientifico. Com isso, foi levado mais a sério o assunto tratado em debate ao que se findou em mudanças normativas de países que antes não eram receptivos e tal fato aconteceu no Brasil algumas alterações na legislação pela necessidade da implantação de estudos na área. Como já exposto, a quebra de fragmentos do DNA podendo liga-lo a outro da mesma espécie ou diferente, constitui um novo corpo e assim uma nova espécie ou a mesma melhorada, pois bem, com esse precedente de modificação, que antes jamais tinham visto, partindo de criatura a criador, abrindo horizontes

de possibilidades de utilizar plantas, animais inúteis em úteis a sociedade. Boa parte da confusão entre a biotecnologia e biossegurança é a não diferenciação de ambas, e é de suma importância saber diferencia-las para melhor compreensão, pois a primeira nos diz basicamente que é somente atrelada a mudança genética tanto de plantas e animais, entretanto a segunda é voltada a ações de prevenção, minimização ou extinção dos riscos que a primeira acarretará, portanto, biotecnologia analisa o que a natureza pode oferecer a biossegurança dizer respeito aos impactos ambientas e sociais da biotecnologia e entender isso, e importantíssimo para o entendimento de solidariedade intergeracional. Com esse OGM modificado posto na natureza, sendo ele um novo ser vivo em um ecossistema novo, pode-se acarretar seríssimas consequências aos seres humanos, pois é ele o consumidor final, tendo na terra sequelas deixadas pelo alimento modificado.

Como resultado, a Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, com finalidade de reforçar a proteção do ser humano e de seus materiais genéticos, para assegurar que não haverá uso sem a autorização do indivíduo e da natureza. Somando ao fato de que a Lei teve em seu inicio buscando confronto direto com empresas gerenciadoras de programas de mutações genéticas, impulsionadas pelas organizações protetoras da natureza, em que a discussão toda era em volta da competência de legislar as produções dos transgênicos. Corroborando o esposado, é possível, ainda, fazer menção ao paradigmático julgado proferido na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3.510-0, pelo Supremo Tribunal Federal, e também decisão do Supremo Tribunal Federal de Ação Direta de Inconstitucionalidade 3.510-0 Distrito Federal, em que reforça sua jurisprudência que a utilização de materiais excedentes é apenas para fins terapêuticos, além de reforçar sobre a dignidade humana e as prerrogativas inerentes.

Concernente à declaração universal de 1997, há em sua grande partes a responsabilidade dos Estados em disseminar as informações, conforme artigo 23º, Os Estados devem adotar medidas apropriadas com vista a promover, através da educação, formação e divulgação de informação, o respeito pelos princípios acima mencionados e fomentar o seu reconhecimento e efetiva aplicação” (ONU, 1997, s.p), a declaração visa e comporta aos Estados deveres de conscientizar as pessoas da importância da matéria de bioética para a genética com métodos interdisciplinares, reconhecendo sua importância para o cenário atual humanitário, mas também dar a infra-estrutura própria e adequada para as pesquisas, de acordo com a declaração é responsabilidade dos Estados da todo o aporte para que ocorram todas as pesquisas.

5 COMENTÁRIO FINAL: A IMPORTANCIA DO TEMA PARA A PRESERVAÇÃO DO BEM NATURAL EM PROSSEGUIMENTO AS FUTURAS PROLES.

É possível um debate aberto abordando o tema em todos os níveis sócio-educativos, ressaltando a importância do legado as futuras gerações, não somente abordando superficialmente e deixando as prerrogativas de direitos humanos conquistados arduamente por antecedentes. A tese em si, busca levar o conhecimento a fundo da gravidade da matéria a todos os níveis sociais, promovendo amplo saber da matéria de bioética jurídica, entretanto, a herança digna deve ser pensada o quanto antes, uma vez que o Direito traz em seu ordenamento positivado decisão onde protege os materiais genéticos e proíbe a clonagem humana, garantindo e preservando a dignidade da pessoa humana, datados em lei como direitos fundamentais. Nessa marca, o que se leva ao fim é a abordagem veemente do tema com seriedade, não atendendo a comércios tantos de grãos novos e custo-benefício excelente ou o comercio negro genético, entretanto, a estima deixada aos futuros descendentes, não abstendo dos valores sociais e da

premissa existente de um meio ambiente limpo,

sadio a qualidade de vida. Ressaltando que as

normas jurídicas respaldam e enfocam no uso

correto dos materiais genéticos, seja na modificação

genética, todavia, para fins terapêuticos, sendo toda

regulada, com confirmação das estimas

fundamentais da dignidade humana.

REFERÊNCIA

BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de janeiro: Editora Campus, 2004.

A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1992.

BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 18. ed. São Paulo: Malheiros, 2006.

BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil. Promulgada em 05 de outubro de 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/c

onstituicaocompilado.htm>. Acesso em: 01 mai.

2015.

Lei nº. 11.105, de 24 de março de 2005. Regulamenta os incisos II, IV e V do § 1 o do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados OGM e seus derivados, cria o Conselho Nacional de Biossegurança CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança CTNBio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança PNB, revoga a Lei n o 8.974, de 5 de janeiro de 1995, e a Medida Provisória n o 2.191-9, de 23 de agosto de 2001, e os arts. 5 o , 6 o , 7 o , 8 o , 9 o , 10 e 16 da Lei n o 10.814, de 15 de dezembro de 2003, e dá outras providências.Disponível

em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-

2006/2005/lei/l11105.htm>. Acesso em: 01 mai.

2015.

Supremo Tribunal Federal. Disponível em: <http://www.stf.jus.br>. Acesso em:

02 mai. 2015.

DINIZ, Maria Helena. O estudo atual do biodireito. São Paulo: Editora Saraiva, 2001.

FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro. 15ed. São Paulo:

Saraiava, 2014.

MILARÉ, Édis, Direito Ambiental. 9 ed. atual e ampl. São Paulo: Editora Revistas dos Tribunais,

2014.

MORAES , Alexandre de. Direitos Humanos Fundamentais. 5 ed. São Paulo: Editora Atlas,

2003.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal do Genoma Humano. Disponível em:

<http://direitoshumanos.gddc.pt/3_19/IIIPAG3_19_1

.htm>. Acesso em 01.mai.2015.

RODRIGUES, Tereza Vieira. Bioética e Direito. São Paulo: Editora Jurídica Brasileira, 1999.

SARMENTO, Daniel. Direitos Fundamentais e Relações Privadas. 2 Edição, Rio de Janeiro :

Editora Lumen Juris, 2006.

A BIOSSEGURANÇA À LUZ DO PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO: INQUIETAÇÕES ADVINDAS DA TRANSGÊNIA ALIMENTAR

AMARAL, Carlos 23 LOPES, Charllyson 24 FURTUNATO, Tharsis 25 RANGEL, Tauã Lima Verdan 26

Resumo: É necessário visualizar de forma concreta o momento mundial em que vivemos, em que se se busca cada vez mais um mercado capitalista, onde a produção possui um enfoque voltado para atender um público que é cada vez mais seletivo e consequentemente os produtores devem-se adequar a tal mudança e, em meio a essa adaptação que surge a produção dos alimentos geneticamente modificados ou alimentos transgênicos, que vem de encontro com os anseios desse mercado seletivo, porém é necessário que se adapte essa produção

23 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, carlos_vni@msn.com

24 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, lopes@gmail.com

25 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário São Camilo-ES, tharsis@gmail.com

26 Professor Orientador. Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF. Centro Universitário São Camilo, taua_verdan2@hotmail.com; tauarangel@saocamilo-es.br

valorizando seus benefícios e também expondo seus malefícios, tornou-se então necessário regulamentar essa prática, e para tal criou-se a lei de Biossegurança, que visa regulamentar questões que envolvem a transgenia tanto alimentar quanto vegetal.

Palavras-chaves: Biossegurança, transgenia alimentar, benefícios, malefícios, produção, consumo.

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O artigo a seguir abordará assuntos relacionados à transgenia alimentar, dentre os quais podemos destacar os argumentos favoráveis à sua utilização, e os contras, expostos por pesquisadores da área. Além disso, irá expor a necessidade de se ter um órgão que cuidará do controle químico para assegurar a ingestão totalmente segura de todo cidadão, que é a Biossegurança, buscando através de ações e leis que estão em vigor manter um controle de precaução sobre tais alimentos, desde sua plantação que deve manter o cuidado para não prejudicar o meio

ambiente, até o momento que é exportado para os mercados de todo país.

2

BIOSSEGURANÇA

CONCEITO

E

REGULAMENTAÇÃO

DA

Para poder entender tudo o que tange o campo da transgenia alimentar torna-se necessário fazer uma breve conceituação sobre Biossegurança, visto que seu campo de atuação se refere de forma direta ao assunto em questão. Segundo artigo publicado pelo professor de bioengenharia Jorge José, no site da Universidade Federal do Sergipe (UFS), pode-se definir a Biossegurança como o conjunto de estudos e procedimentos que visam evitar ou controlar os riscos provocados pelo uso de agentes químicos, físicos ou biológicos à biodiversidade. Outra definição bastante coerente é a encontrada na obra Teixeira e Vale, na sua edição do ano de 1996, que diz:

Biossegurança é o conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes à atividade de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviço, visando à saúde do homem, dos animais, a preservação do meio ambiente e a qualidade dos resultados. (TEIXEIRA E VALE, 1996, p.8)

Sabendo-se que esses estudos interferem de forma direta com a população humana, gerou-se um receio ao seu desenvolvimento, por isso foi necessário criar-se uma legislação que se regulamenta tudo o que se envolve tal assunto, seja seu campo de atuação, os métodos de desenvolvimento desses estudos ou sua forma de pesquisa, a Lei de Biossegurança veio com o intuito de resguardar a sociedade de forma geral, contra esses possíveis malefícios. Dentre seu campo de atuação destacam-se o referente aos alimentos transgênicos não seguros, embriões, células-tronco, além de discussões abrangendo a ciência, ética e bioética.

Como é possível aferir no artigo 1° da lei, descrito abaixo:

Art. 1 o Esta Lei estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização sobre a construção, o cultivo, a produção, a manipulação, o transporte, a transferência, a importação, a exportação, o armazenamento, a pesquisa, a comercialização, o consumo, a liberação no meio ambiente e o descarte de organismos geneticamente modificados OGM e seus derivados, tendo como diretrizes o estímulo ao avanço científico na área de biossegurança e biotecnologia, a proteção à vida e à saúde humana, animal e vegetal, e a observância do princípio da precaução para a proteção do meio ambiente (BRASIL,

2005).

A Lei n° 11.105 de 25 de março 2005,

foi sancionado com o objetivo de tanger tanto as

questões dos alimentos transgênicos quanto as questões relacionadas ao genoma humano, ou seja,

a legislação veio estabelecer garantias para

desenvolver tais estudos, visando resguardar a

todos que estão diretamente ou indiretamente ligados a tal experimento.

3 O SURGIMENTO DA TRANSGENIA ALIMENTAR E O CONSUMO DE ALIMENTOS GENETICAMENTE MODIFICADOS

Visto que a Lei de Biossegurança foi criada para regulamentar questões relacionadas aos alimentos transgênicos, torna-se necessário uma breve conceituação sobre o gênero alimentício, uma definição que abrange de forma coerente esse assunto é a encontrada no artigo 3° Lei n° 11.105 de 25 de março de 2005, como descrito abaixo:

As moléculas manipuladas fora das células vivas mediante a modificação de segmentos de ADN/ARN natural ou sintético e que possam multiplicar- se em uma célula viva, ou ainda as moléculas de ADN/ARN resultantes dessa multiplicação; consideram-se também os segmentos de ADN/ARN sintéticos equivalentes aos de ADN/ARN natural (BRASIL, 2005).

Tratando-se a transgenia alimentar de uma modificação genética que é feita tanto em animais quanto em vegetais, o seu estudo sempre envolveu muitos assuntos abrangentes a esse campo, passando por mais diversos países, nações e culturas diferentes, ou seja, desde seu inicio houve olhares divergentes referentes ao mesmo assunto. O surgimento dessa modificação genética se deu em 1973, quando os cientistas Cohen e Boyer, que coordenavam um grupo de pesquisas em Stanford e na University of Califórnia, deram o pontapé inicial para transgenia, ao transferir o gene de uma rã para uma bactéria, utilizando-se do DNA recombinante, que mais tarde passaria a ser denominada engenharia genética. Porém desde seu surgimento até a atualidade sua importância sempre abordada por estudiosos como é caso do autor Fábio Gelape Faleiro, em sua obra Biotecnologia e Transgênicos:

inquestionável que a

biotecnologia, incluindo as tecnologias

de

transformação genética, é hoje

[

]

uma das ferramentas de grande importância para o desenvolvimento de uma agricultura mais produtiva, saudável e sustentável, menos dependente do uso de agroquímicos, além de propiciar benefícios a diferentes setores da sociedade. A evolução da ciência biotecnológica está caminhando a passos largos e pode-se dizer que a biotecnologia moderna ainda é uma criança,

considerando todas as potencialidades

e o que ainda vai ser descoberto.

Nesse sentido, é estratégico para o Brasil aumentar o investimento em ciência e tecnologia e desobstruir tudo

o que tem dificultado as pesquisas pelas instituições públicas. (FALEIRO, 1998, p.16)

Apesar de todos os prós e contras, é possível

notar que a Biotecnologia e seus campos de atuação

é uma realidade atual. Seu desenvolvimento deu-se

de forma gradativa, foi se expandido de acordo com

a necessidade das nações que utilizavam a mesma

para buscar um desenvolvimento através da produção de alimentos transgênicos. Após esse breve histórico sobre transgenia, torna-se necessário focalizar de forma singular o que são os organismos geneticamente modificados,

os OGMS, segundo o site do Ministério da Cultura, os organismos geneticamente modificados, podem ser definidos como toda entidade biológica cujo material genético (ADN/ARN) foi alterado por qualquer técnica de engenharia genética, de uma forma diferente do que ocorreria naturalmente. Essa técnica permite que genes individuais selecionados sejam transferidos de um organismo para outro, inclusive entre espécies diferentes. Esse cultivo é cada vez mais utilizado no mundo, sendo que atualmente são 17 países que já fazem uso de recurso, dentre os quais se destacam o Brasil, ocupando o segundo lugar referente aos países que mais produzem esse gênero alimentício, segundo o relatório do Serviço Internacional de Aplicação em Agrobiotecnologia (ISAAA), seguido pela Argentina, Índia, Canadá, China, Paraguai, África do Sul, Paquistão, Uruguai, entres outros, como demonstra o gráfico abaixo:

Participação percentual de EUA OMGs por país França 71% 80% Itália 60% 40% Austrál 20%
Participação percentual de
EUA
OMGs por país
França
71%
80%
Itália
60%
40%
Austrál
20%
11%
5%
4%
3,50% 3,50% 2%
ia
0%
Alema
nha
Belgica

Fonte: OECD, 2013.

5 PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS SOBRE O CONSUMO DE ALIMENTOS TRANSGÊNICOS

Assim, como a maioria das questões que envolvem a alimentação ou a sua modificação por meio da ciência, existe autores que defendem essa utilização, como é o caso de Mariana Araguaia, que é graduada em Biologia e demonstrou em seu artigo publicado no site Brasil Escola, as vantagens de se produzir essa cultura.

Dentre as principais vantagens apresentas pela autora, destacam-se: o aumento de produção de alimentos, pois, essa cultura tem menos custo, o que possibilitaria um aumento em escala mundial, além disso, a produção desse gênero alimentício é mais resistente a pragas e por isso utilizaria menos agrotóxicos, possibilidades de criação de alimentos enriquecidos de forma, através de anticorpos, vitaminas e remédios e, também a utilização de terras que seriam improdutivas. Outro defensor do assunto é doutor Dráuzio Varela, que publicou em seu site:

nenhuma aplicação da

biotecnologia tem a abrangência da produção de alimentos transgênicos. Inserir genes novos nos vegetais cria possibilidades concretas de obter

plantas resistentes às pragas e às intempéries da natureza, capazes de produzir com mais eficiência e de fabricar compostos de interesse médico, como vitaminas, proteínas ou vacinas contra várias enfermidades. A produção de vacinas em vegetais poderá modificar a história da saúde pública. Por exemplo, introduzir nas bananeiras genes que codificam proteínas existentes na cápsula do vírus da hepatite B pode estimular a produção de anticorpos contra essa

[

]

doença epidêmica em populações inteiras.(VARELA, 2003, p.32)

Mesmo com todos os possíveis malefícios que acarretariam a produção desses alimentos, também existem inúmeras vantagens, que perfazem as desvantagens. Pela ótica da parcela de estudiosos que defendem a sua expansão, seus benefícios dariam desde agora chegando ao seu ápice nas gerações futuras, já que os mais otimistas acreditam que o mesmo poderia dizimar a fome mundial.

Ainda no campo tangente ao fim da fome mundial, essa visão é considerada por outra parcela mais descrente da população com utópica já que estudos demonstram que atualmente um terço (1/3) do total de alimentos produzidos vão para lixo, sendo eminente a disparidade cultural entre os povos. Sendo assim, todas as questões que venham como solução para tal problema são sempre úteis, mas é necessário um estudo minucioso de sua eficácia.

A produção de transgênicos é cada vez mais utilizada, visto que suas vantagens atingem diversos níveis, ou seja, vão desde o produtor, que tem uma atividade relativamente maior, que consequentemente aumenta a economia daquela região, fazendo assim uma teia que possui seus desmembramentos a partir de sua produção, tornando o mesmo essencial para aquela região. Além dessas vantagens apresentadas, ainda existem outras, como demonstra o gráfico abaixo:

Razões por consumir

60%

40%

20%

0%

54%

   

23%

16%

2 3 % 16%
 
7%

7%

7%

orgânicos

Saúde

Outros

Sem Agrotóxico

Qualidade

Fonte: Pesquisa Transgênicos, 2014.

Visto os pontos positivos, é necessário também demonstrar as negativas envolvendo essa

modificação genética onde se pode partir do princípio que todos têm direito ao meio ambiente equilibrado, como afirma a Constituição Federal de

1988:

Todos têm direito ao meio ambiente

ecologicamente equilibrado, bem de

uso comum do povo e essencial a

sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o

dever de defendê-lo e preservá-lo para

as presentes e futuras gerações. (BRASIL, 1988)

Um ponto negativo da produção desses alimentos seria relacionado ao meio ambiente, já que a Constituição Federal do Brasil garante que todo cidadão tem direito ao meio ambiente equilibrado, visto que o mesmo corresponde ao uma condição fundamental para o desenvolvimento do ser humano, como afirma o estudioso e jurista brasileiro Luiz Fachin:

O direito ao meio equilibrado

consignado no art. 225 da CF de 1988 funciona como contraponto ao dever de produtividade na medida em que

um determinado bem de produção

gerar um dano ambiental intolerável.

Em determinadas circunstâncias o não uso é a conduta que melhor se adapta ao preceito constitucional. O direito de propriedade privada clássico atribuía ao titular a faculdade de agir ou não agir segundo as suas conveniências. A função social da propriedade amenizando esse poder impõe ao titular o uso do bem de produção para fins sociais. Os dispositivos constitucionais que regulam o meio ambiente introduzem uma nova perspectiva e determinam o não uso econômico do bem quando em risco o direito ao meio equilibrado. A impossibilidade do uso intolerável do meio encarta-se no amplo e generoso conceito do direito à vida digna. Nesse quadro o meio equilibrado é um direito fundamental. (FACHIN,

1988).

Torna-se necessário antes da produção desse gênero alimentício a verificação de sua sustentabilidade, se o mesmo não afetará a população, seja para o meio de seu consumo direto ou de forma indireta. Afetando assim o meio em que a mesma vive, sendo necessário desenvolver um estudo de todas as questões que possivelmente seriam afetadas por tal produção.

Segundo Adriano Floriani existe várias desvantagens dessa cultura, que vão desde questões que envolvem a saúde até chegar ao campo tecnológico. As principais consequências descritas pelo autor são: a reação alérgica, que ocorreria com a transferência de um gene diferente do habitual para aquele alimento, ainda no campo de transferência genética, teria ainda a resistência antibiótica, já na parte da produção existem duas principais negativas que seria a poluição genética, que ocorre devido o cruzamento de espécies transgênicas com variedades selvagens e convencionais, que geria entre consequências a perda da biodiversidade, outra característica referente à produção seria o surgimento de superpragas, resistentes a herbicidas, e por ultimo pode-se citar a dependência tecnológica, que se daria por meio da dependência dos agricultores perante os fornecedores. Além dessas desvantagens ainda existe outras, como demonstra o gráfico abaixo:

Razões para não consumir Preço 50% 46% 45% 40% Outros 35% 30% Sem hábito 25%
Razões para não consumir
Preço
50%
46%
45%
40%
Outros
35%
30%
Sem hábito
25%
21%
20%
17%
Dispensam
15%
10%
7%
7%
5%
2%
Não
0%
encontra
Não vale a
pena

Fonte: Pesquisa Transgênicos, 2014.

Existem inúmeras desvantagens para o consumo de tal alimento, mas, além disso, existe o desconhecimento de grande parte da população que não conhecem os seus efeitos sejam ruins ou bons, já que a mesma não tem acesso, sendo na maioria das vezes devido ao elevado preço, que comparado com os demais alimentos existe uma disparidade entre eles.

A transgenia alimentar tem um grande conflito tangendo sua produção, por um lado existe

um lado positivo, que abrange a maior produção com baixo custo e a possível exterminação da fome mundial e também tem o lado negativo, que a interferência no meio ambiente, além do surgimento de superpragas e possíveis doenças que seu consumo acarretaria. Dessa forma, é necessário adequar a sua produção, visto que a mesma já é uma realidade, deve buscar-se uma produção segura e equilibrada, visando a sua melhor utilização no dia-a-dia, consumindo-os de forma adequada e também buscando resguardar quem os produz.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após verificar tudo o que foi descrito sobre a Biossegurança e a transgenia alimentar advinda de um olhar de precaução, foi possível verificar que como tantas questões que envolvem a ciência, essa também gera polêmica, seja por meio dos métodos que são utilizados para sua produção ou seus efeitos.

Sendo assim, torna-se necessário promover

um equilíbrio, visto que existem benefícios e

malefícios que a envolvem, ou seja, é preciso achar

um meio termo, que seja possível desenvolver esse

gênero alimentício, mas sem prejuízos para o ser

humanos e demais espécies, seja animal ou vegetal.

REFERÊNCIA:

ARAGUAIA, Marina. Argumentos contra os Transgênicos. Disponível em:

<http://www.brasilescola.com/biologia/transgenicos. htm>. Acesso em: 01 Mai. 2015.

BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

BRASIL. Constituição (1988) Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, promulgada em 05 de Outubro, 1988. Organização do Texto: Odete Medauar. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. BRASIL. Lei nº. 11.105, de 24 de março de 2005. Regulamenta os incisos II, IV e V do § 1 o do art. 225 da Constituição Federal, estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam organismos geneticamente modificados OGM e seus derivados, cria o

Conselho Nacional de Biossegurança CNBS, reestrutura a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança CTNBio, dispõe sobre a Política Nacional de Biossegurança PNB, revoga a Lei n o 8.974, de 5 de janeiro de 1995, e a Medida Provisória n o 2.191-9, de 23 de agosto de 2001, e os arts. 5 o , 6 o , 7 o , 8 o , 9 o , 10 e 16 da Lei n o 10.814, de 15 de dezembro de 2003, e dá outras providências. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-

2006/2005/lei/l11105.htm>. Acesso em 12 mai. 2015.

FALEIRO, Fábio Gelape. Biotecnologia e Transgênicos. Pesquisador da EMBRAPA/CPAC. Disponível em:

<http://www.agronline.com.br/artigos/artigo.php?id =180&pg=3&n=3> Acesso em: 10 de Mai 2013.

FACHIN, Luiz Edson. A função social da posse e a propriedade contemporânea: uma perspectiva da usucapião imobiliária rural. Porto Alegre:

Fabris, 1988.

PESSANHA, Lavínia; WILKINSON, John. Transgênicos, Recursos Genéticos e Segurança Alimentar O que está em jogo nos debates? Campinas: Armazém do Ipê, 2005.

RODRIGUES, Melissa Choni; Arantes, Olívia Márcia Nagy. Direito Ambiental e Biotecnologia uma abordagem sobre os transgênicos sociais. São Paulo: Ed. Juruá, 2004.

TEIXEIRA, Pedro; VALLE, Silvio. Biossegurança:

uma abordagem multidisciplinar. Rio de Janeiro:

Ed. Fiocruz, 1996.

VARELA, Dráuzio. Reflexões Transgênicas. Disponível

em:<http://drauziovarella.com.br/drauzio/reflexoes-

transgenicas/> Acesso em: 22 Mai 2013.

VILLEN, A.R. Biotecnologia: Histórico e tendências. Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia, Escola de Engenharia Mauá,

Out.2007.

ZANATTA, Ana Christina Albuquerque. BEVITORI, Rosângela. Transgênicos e Biotecnologia: a Ciência da Vida. Disponível em:

<http://noticias.universia.com.br/cienciatecnologia/n

oticia/2005/08/26/465074/transgnicos-e-

biotecnologia-cincia-da-vida.html> Acesso em: 10

Mai 2013.

DE

INCONSTITUCIONALIDADE Nº 3.510 E A FERTILIZAÇÃO IN VITRO: UMA ANÁLISE À

A

AÇÃO

DIRETA

LUZ DA BIOÉTICA

MACHADO, Angélica Polonini 27 PAGANOTTI, Isabela Taylor 28 PEIXOTO, Matheus 29 RANGEL, Tauã Lima Verdan 30

Resumo: O presente está assentado em examinar a fertilização in vitro, à luz da bioética, e de como é feito a prática de fertilização, sendo um processo onde ocorre a arrecadação do óvulo feminino, e por meio de laboratório ocorre o processo de fertilização, em conjunto com o sêmen do marido, e em um período de dois a seis dias retorna os embriões para o útero. Pode ser usado como um tipo de tratamento para a infertilidade em todos os casos com

27 Graduanda

Universitário

angelica.polonini73@gmail.com;

28 Graduanda

Universitário

isabela.paganotti@gmail.com; 29 Graduando do Curso de Direito do Centro Universitário São

Camilo-ES.

30 Professor Orientador. Doutorando vinculado ao Programa de

Pós-Graduação

Direito da Universidade

Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais

Camilo,

pela

taua_verdan2@hotmail.com; tauarangel@saocamilo-es.br

do

São

do

São

Curso

Curso

de

Direito

do

Centro

Camilo-ES.

E-mail:

de

Direito

do

Centro

Camilo-ES.

E-mail:

em

Sociologia

e

UFF.

Centro

Universitário

São

algumas exceções como no caso de casais que tem uma baixa contagem de espermatozoides no sêmen. Também são utilizados em casais que não conseguiram engravidar após um período de um ano tentando sem obter resultados, e aqueles que possui um bloqueio das trompas de Falópio com distorção da arquitetura anatômica. Mulheres que fizeram ligaduras das trompas, assim como homens que fizeram vasectomia. Tendo como base o ordenamento jurídico de lei 11.105/05, onde assegura a biossegurança das células-tronco embrionárias, dizendo o que se pode ser feito e o que é vetado pela lei, onde o descumprimento responde a pena na proporção que o ato foi praticado. E no paralelo desta análise, tem-se a ação direta de inconstitucionalidade, com a finalidade de abordar uma análise da lei 11.105/05, mais especificamente o artigo 5º e seus incisos e parágrafos, onde no mesmo aborda questões sobre a utilização de células-tronco embrionárias, através de fertilização in vitro. Em um primeiro ponto, essa proposta vem para defender questões sobre vida humana, independentemente da concepção que se tem sobre o início ou fim da vida, e também, onde se caracteriza como inviolável, questões que tratam-se sobre a dignidade da pessoa humana, sendo assim o embrião, considerado como vida humana, concluindo que o mesmo, é digno de direito tanto quanto um ser pós- nascimento.

Palavras-chave:

Bioética.

Direitos Humanos.

Fertilização

in

vitro.

1 COMENTÁRIOS INICIAIS

Os direitos humanos tiveram suas primeiras ideias da concepção religiosa, em que trazia a ideia de direito do ser humano. No segundo momento passou a ter uma visão política, jurídica e

histórica, no qual deixa a concepção religiosa e entra na visão jurídica em 1215 (COMPARATO, 2003, s.p), século XIII, na Inglaterra, através da magna carta, que elenca garantias a todos os súditos da monarquia inglesa, referido reconhecimento de direitos, limitando o poder, incluindo a garantias específicas em caso de violação dos mesmos. E foi em 1679, durante dois séculos que sucederam à Idade Média, a Europa passou por um recrudescimento da concentração de poderes, conhecida como monarquias absolutistas.

O parlamento Inglês com o intuito de limitar o

poder do rei, especialmente o poder de prender os opositores políticos, sem submetê-los ao processo criminal regular, criou-se a Lei de Habeas-Corpus.

Essa lei foi de suma importância pois teve como objetivo proteger a liberdade de locomoção, e então o habeas-corpus passou a ser utilizado não só em caso

de prisão efetiva, mas também no que se consistia

em ameaça de simples constrangimento à liberdade individual de ir e vir.

Em 1689 (COMPARATO, 2003), ainda na Inglaterra, promulgou-se a Declaração de Direitos, chamado como Bill of Rights, pela primeira vez, colocou fim ao regime monárquico absoluto, no qual todo o poder emana do rei e em seu nome é exercido. A declaração separou os poderes no Estado de forma permanente. E, em 1776 (COMPARATO, 2003), nos Estados Unidos da América, quando o mesmo ainda era colônia criou-se a declaração de direitos do bom povo da Virgínia, onde foi pela primeira vez criada os direitos humanos. Foi o primeiro reconhecimento de que todos os homens, pela sua natureza, são igualmente livres e independentes, e possuem certos direitos inatos. Além desses marcos históricos, os princípios de direitos humanos, teve a partir da revolução Francesa em 1789, que cominou a declaração dos direitos do homem e cidadão, que excluía do homem o posto de súdito para ser cidadão, e a mulher nesse momento histórico não possuía seus direitos. E mais tarde em 1776 (COMPARATO, 2003), houve

também a declaração de independência dos EUA, onde libertou a colônia das metrópoles, e o primeiro direito era assegurar a igualdade para todos, aonde acabou havendo uma divergência nessa época, porque o “todo” citado na declaração não inclui os negros que viviam lá. E mais tarde enquanto ainda havia pelo mundo conflitos para as conquistas de direitos, também teve suas primeiras aparições no Brasil através das constituições. A primeira constituição surgiu em 1824 (CASTRO, 2013), provocando repúdio em várias pessoas, no qual acarretou em vários protestos em todo território brasileiro, e de acordo com a constituição da época a inviolabilidade dos direitos civis e políticos baseavam-se na liberdade, segurança individual. Na constituição de 1091 (CASTRO, 2013), institui o sufrágio direto para a eleição dos deputados, senadores, presidente e vice-presidente da República, privando pessoas de várias classes de exercer direitos políticos. Com o passar do tempo, a população foi conseguindo através de protesto e revoltas, seus direitos

existentes atualmente, inclusive pela ditadura militar que foram anos de torturas, e sofrimentos para pessoas daquela época, pois não se tinha mais a liberdade de voz, de expressão, sendo um marco muito importante na história do Brasil. Atualmente os direitos humanos estão presente de forma garantidora na Constituição federal de 1988, que torna inconstitucional a violação dos seus direitos humanos do artigo 5º e seus incisos da constituição. Para Norberto Bobbio, o desenvolvimento dos direitos do ser humano passou por três fases, que são consideradas como três primeiras gerações ou dimensões clássicas dos direitos fundamentais, a primeira geração, afirmou os direitos de liberdade, direitos estes individuais, de natureza civil e política, criado com o intuito de proteger as pessoas do poder opressivo do estado. Já na segunda geração citada pelo Bobbio, fazem parte dos direitos sociais, culturais e econômicos, que surgiram com a queda do Estado Liberal e o nascimento do Estado do Bem-Estar social.

A terceira geração são os direitos sociais,

voltada para a solidariedade ou de titularidade coletiva, nascem em decorrência da generalidade da

humanidade.

E a quarta e última não sendo citada pelo

Bobbio mas que é reconhecida na atualidade, é a geração dos direitos que estão referidos à manipulação genética, à biotecnologia e à bioengenharia, abordando inúmeras reflexões a respeito da vida, e também da morte. Relacionado com questões de Direitos Humanos, a Bioética é um estudo mais recente, o termo foi criado por Potter por volta da década de setenta, e surge como uma espécie de saber reflexivo, relacionado a sobrevivência humano no planeta, ligando as ciências da biologia aos valores humanistas. Alguns bioeticistas alegam que a bioética é fruto do julgamento dos médicos nazistas, ocorrido na cidade de Nuremberg em 1947 (OLIVEIRA, 2010, s.p), onde os mesmos praticavam de forma cruel os atos contra os seres humanos de estereótipos divergente do que seria ideal para

Hitler, com isso, nos campos de concentração foi cenário de inúmeras violências, e práticas que foram alegadas ter sido realizada em prol da descoberta de novos avanços científicos. Portanto, há um paralelo entre direitos humanos e a bioética, uma vez, nos direitos humanos é defendido em prol do indivíduo e em conjunto com a coletividade, com o objetivo de resguardar bens jurídicos únicos do ser humano, e a bioética defendi a prática da ética dos estudos médicos, e científicos de seres humanos, animais e o meio ambiente, protegendo-os de violações que infringem os direitos básicos dos seres, trazendo à tona polêmicas, como por exemplo a forma com que deve ser feita a fertilização in vitro, garantindo ao paciente total conhecimento sobre o assunto, os possíveis resultados negativos, e principalmente positivos, deixando ciente de todos os procedimentos médicos, e só dando continuidade no experimento com o consentimento do paciente.

2 FERTILIZAÇÃO IN VITRO

A fertilização in vitro, se caracteriza como

sendo um processo onde ocorre a arrecadação do óvulo feminino, e por meio de laboratório ocorre o

processo de fertilização, em conjunto com o sêmen do marido, e em um período de dois a seis dias retorna o embrião para o útero. A primeira fertilização in vitro ocorreu na Inglaterra na década de setenta, e atualmente milhares de crianças nascem através desse método. Existe uma grande procura para esse procedimento, por pessoas acima de trinta e cinco anos, cuja essa idade é mais difícil de obter a gravidez, casais inférteis, e também por casais homossexuais.

O processo de fertilização pode ser usado

como um tipo de tratamento para a infertilidade em

todos os casos com algumas exceções como no caso de casais que tem uma baixa contagem de espermatozoides no sêmen. Também são utilizados em casais que não conseguiram engravidar após um

período de um ano tentando sem obter resultados, e aqueles que possuem um bloqueio das trompas de falópio com distorção da arquitetura anatômica. Mulheres que fizeram ligaduras das trompas, assim como homens que fizeram vasectomia. Ao passar do tempo houve-se questionamentos principalmente éticos quanto ao procedimento médico, cujo mesmo se dá quanto ao fato de se ocorrer a fecundação fora do corpo materno, o que para alguns seria contra a lei natural da reprodução. Grande opositora desse método de reprodução assistida, especialmente da fertilização in vitro foi a igreja católica, com base teórica em que para a Igreja:

O ato conjugal é formado por dois momentos que se implicam, completam-se e permitem-se reciprocamente. São os momentos da união e da procriação. Assim, apenas no amor espiritual de dois seres sexualmente opostos e unidos no indissolúvel matrimônio é que se torna legítima a pratica procriadora. (FRAZÃO, 2000, s.p)

Nessa forma, o embrião não nasce do amor carnal e espiritual do casal unidos pelo casamento, que segundo a Igreja é um ato sagrado, mas pela forma científica esterilizada e de um vidro inerente, no qual inclui um terceiro no ato de procriar, a figura fundamentalista para o processo,

o médico, que na visão católica, quebra a

“intimidade inviolável do casal”. (FRAZÃO, 2000)

O que ocorre é que através do

procedimento técnico, a mulher geralmente tem sua ovulação estimulada por certo tipo de hormônio. No qual, esses hormônios, as vezes são intencionados por administração do médico para provocar uma ovulação múltipla. Dessa forma, permite que os médicos preparem mais de um embrião para o caso

da ocorrência de algum imprevisto no momento da

concepção. Porém, como consequência existe inúmeros questionamentos de como o que iria ser feito com os embriões que foram reservados que de certa forma se tornou desnecessários para a concepção. Também existe a possibilidade de congelar os embriões para fins futuros precisar, mas

o que é bastante questionável é o que fim teria, aqueles embriões que passaram do certo período que poderia ficar congelado. Nem sempre as respostas são as das melhores, como, por exemplo, na Inglaterra, onde “alguns milhares de embriões que não tinha mais “utilidade” são jogados no lixo”. (FRAZÃO, 2000) A fertilização traz consigo consequências que são vistas como antiéticos, que ao recorrer a gametas e embriões de terceiros, é o fato de que essa prática fere a “liberdade e dignidade do embrião e do indivíduo dele resultante, pois este teria sua origem biológica diferente da sua origem social” (FRAZÃO, 2000), e problemas tidos como moral, pois pode-se entender a prática de Eugenia, que é quando ocorre a escolha de características do embrião como cor de pele, de cabelo, cor dos olhos. Além de problemas éticos e morais, na fertilização in vitro, também existe problemas, seja psicológicos, biogenéticos e socioculturais que estão relacionados. A principal consequência psicológica são os problemas de ordem afetiva, no meio

familiar, por causa da quebra do vínculo entre conjulgalidade e paternidade, e pelo sentimento de inferioridade que passa a dominar aquele membro do casal que não é progenitor biológico do filho, causando muitas vezes uma descriminação, que na maioria é por parte da mãe, pelo fato dela acreditar que o casal não tive um filho por conjunção carnal, por sua culpa. Na questão biogenética, o maior problema é quanto à possibilidade que um indivíduo possui de, doar seu esperma, ter seus gametas presentes em inúmeras fecundações diversas, o que iria acarretar um descontrole genético quanto a pessoa que será ligada ao vínculo sanguíneo do pai, que nem mesmo se conhecem. E a questão sociocultural que se relaciona com a possibilidade da prática da Eugenia.

A fertilização in vitro, que pertence a uma relação de reprodução assistida, é recente no panorama nacional. Contudo, não há existência de leis que regule de forma completa todas as consequências que acarretam na técnica. Apesar de

haver pouca regulamentação sobre o assunto em questão, existe normas jurídicas que de forma sucinta, obedecendo a um determinado limite. Normas essas, que estão fixadas no código de ética médica, também no conselho federal de medicina (CFM) nº 1.358/92 e a lei 8.974/95 que subordina os processos de manipulação genética.

3 CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA

No Código de Ética Médica, 1988, existe apenas alguns artigos que estão se referindo à matéria em questão, conforme art. 42 “ veda-se o médico a pratica ou indicação de atos médicos “ É vedado ao médico praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação” (FRAZÃO, 2000), assim como, no art. Seguinte nº 43, veda o médico descumprir a legislação “É vedado ao médico descumprir legislação específica nos casos de transplantes de órgãos e tecidos, esterilização, fecundação artificial ou abortamento”.(FRAZÃO,

2000,s.p)