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Instituto Serzedello Corrêa Prestação de Contas Anual ao Tribunal de Contas da União Módulo I

Instituto Serzedello Corrêa

Prestação de Contas Anual ao Tribunal de Contas da União

Módulo I

Finalidade e Fundamentos da Prestação de Contas

Aula 1

Conceitos Gerais e Finalidade da Prestação de Contas

© Copyright 2015, Tribunal de Contas de União

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RESPONSABILIDADE PELO CONTEÚDO Tribunal de Contas da União Secretaria Geral da Presidência Instituto Serzedello Corrêa 1ª Diretoria de Desenvolvimento de Competências Serviço de Planejamento e Projetos Educacionais

CONTEUDISTAS Diones Gomes da Rocha Geovani Ferreira de Oliveira Paulo Roberto Pinheiro Dias Pereira

REVISÃO DO CONTEÚDO Geovani Ferreira de Oliveira

TRATAMENTO PEDAGÓGICO Pedro Koshino Vivian Andrade Viana

RESPONSABILIDADE EDITORIAL Tribunal de Contas da União Secretaria Geral da Presidência Instituto Serzedello Corrêa Centro de Documentação Editora do TCU

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Ismael Soares Miguel Paulo Prudêncio Soares Brandão Filho Vanessa Vieira

At e nçã o ! Este material tem função didática. A última atualização ocorreu em
At e nçã o !
Este material tem função didática. A última atualização ocorreu em junho de 2015. As afirmações
e opiniões são de responsabilidade exclusiva do autor e podem não expressar a posição oficial do
Tribunal de Contas da União.

Módulo

I

-

Finalidade

e

Prestação de Contas

Módulo I - Finalidade e Prestação de Contas Fundamentos da Prestação de Contas, Accountability, Controle Social,

Fundamentos

da

Prestação de Contas, Accountability, Controle Social, Transparência Pública, Resultado, Desempenho: qual a relação entre esses temas?

Quais as principais mudanças introduzidas na prestação de contas?

principais mudanças introduzidas na prestação de contas? Para responder a essas e outras questões, vamos entender

Para responder a essas e outras questões, vamos entender alguns conceitos relacionados à prestação de contas e conhecer um pouco sobre as razões que levaram o TCU a construir um novo paradigma para a prestação de contas pelos gestores públicos, além de conhecer a legislação aplicável a esse tema.

A fim de facilitar o estudo, essa unidade, integrante do módulo 1, está organizada da seguinte forma:

Módulo I - Finalidade e Fundamentos da Prestação de Contas

3

Introdução

5

Módulo I – Finalidade e Fundamentos da Prestação de Contas

6

Aula 1 – Conceitos Gerais e Finalidade da Prestação de Contas

6

1 - Accountability e Prestação de Contas

6

2 - Prestação de Contas e Controle social

8

3 - Finalidade da Prestação de Contas

12

4 - Evolução da Sistemática de Prestação de Contas junto ao TCU

12

5 - Princípios Norteadores da Nova Sistemática de Prestação de Contas . 20

Princípio da Universalidade na Prestação

22

Princípio da Seletividade no Julgamento

22

Princípio da aproximação dos atores

24

Princípio da Transparência da Gestão

24

Princípio da Autorregulação e do Autocontrole da Gestão

25

Princípio da Normalização de Conteúdos

25

Síntese

27

Ao final dos estudos deste módulo, esperamos que você tenha condições de:

yyDiscutir a relação entre accountability e prestação de contas;

yyDiscutir a relação entre prestação de contas e controle social;

yyExplicar a finalidade da prestação de contas;

yyResumir a evolução da prestação de contas no TCU;

yyListar os princípios norteadores da prestação de contas;

yyInterpretar a legislação aplicável à prestação de contas;

yyDiferenciar prestação de contas de processo de contas;

yyConceituar os diferentes tipos de processo de contas;

yyDiferenciar prestação de contas anual de tomada de contas especial;

yyIdentificar o campo de incidência da prestação de contas.

Introdução

Introdução A prestação de contas anual ao Tribunal de Contas da União tem sido objeto de

A prestação de contas anual ao Tribunal de Contas da União tem sido objeto de transformações ao longo dos últimos anos, notadamente a partir da edição da Instrução Normativa TCU 54/2007 (IN 54/2007). Essa Instrução Normativa, que alterou conceitos e dispositivos da Instrução Normativa TCU 47/2004 (IN 47/2007), trouxe inovações importantes à sistemática de prestação de contas, tais como a definição do termo processo de contas, sob a ótica do TCU, e a possibilidade de se apresentar contas por função e programa de governo ou de se exigir informações para fins de julgamento de contas numa periodicidade menor que um ano.

A partir das inovações trazidas pela IN 54/2007 e das conclusões do Projeto

Áquila (Projeto interno do TCU que debateu os processos de trabalho do Tribunal, inclusive o processo de prestação de contas), iniciou-se de forma mais efetiva, a

transição do modelo anterior de prestação de contas ao Tribunal de Contas da União, até então sob a égide da IN 47/2004, para o atual modelo, instituído pela Instrução Normativa TCU 57/2008 (IN 57/2008) e, posteriormente, aperfeiçoado pela Instrução Normativa TCU 63/2010 (IN 63/2010).

OcursoPrestaçãodeContasAnualaoTribunaldeContasdaUniãobusca

evidenciar a trajetória percorrida pelo Tribunal para adequar a prestação de

contas à complexidade dos novos arranjos institucionais mediante os quais a Administração Pública Federal vem se organizando, dando ênfase a aspectos de desempenho e resultados, não presentes no modelo anterior.

Dessa forma, o curso está estruturado em três módulos, a saber:

yyMódulo I: Finalidade e Fundamentos da Prestação de Contas;

yyMódulo II: Organização e Estrutura da sistemática de Prestação de Contas;

yyMódulo III: Atores do ciclo da Prestação de contas.

O nosso primeiro desafio é estudarmos o módulo I, que está organizado

em duas aulas, a saber:

yyAula 1: Conceitos Gerais e Finalidade da Prestação de Contas;

yyAula 2: Fundamento da Prestação de Contas.

Assim, espera-se que os ensinamentos desenvolvidos no módulo I permitam aos participantes compreender a finalidade e os fundamentos da sistemática prestação de contas. Vamos começar?

Módulo I – Finalidade e Fundamentos da Prestação de Contas

Aula 1 – Conceitos Gerais e Finalidade da Prestação de Contas

O que é accountability? Como a accountability se relaciona com a prestação de contas? accountability? Como a accountability se relaciona com a prestação de contas?

a accountability se relaciona com a prestação de contas? Accountability é uma obrigação que acarreta a

Accountability é uma obrigação que acarreta a responsabilização de uma pessoa ou organização perante uma outra pessoa por alguma coisa ou por algum tipo de desempenho (Mosher,

1968).

1 - Accountability e Prestação de Contas

O termo accountability, dada sua complexidade, não encontra uma

tradução adequada em nosso vernáculo. Contudo, poderíamos atribuir a essa palavra a ideia de obrigação que as organizações e pessoas têm de prestar contas dos meios utilizados e dos resultados obtidos, em função das responsabilidades que decorrem de uma delegação de poder.

Accountability é uma obrigação inerente a todo agente público ou pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviço público, que, segundo Frederich Mosher (1968), “acarreta a responsabilização de uma pessoa ou organização perante uma outra pessoa por alguma coisa ou por algum tipo de desempenho”.

Esse entendimento, derivado do conceito oferecido por Mosher, é, de maneira geral, o que está no campo cognitivo de grande parte das pessoas.

Para nós, portanto, accountability está relacionada à ideia de que um determinado sujeito A, em função das responsabilidades advindas do exercício de suas atribuições, devidamente delegadas por um outro sujeito B, tem o dever de prestar contas dos meios utilizados e dos resultados obtidos com a exploração do patrimônio de B, seja ao próprio B, seja a um terceiro interessado C.

Uma vez definido o conceito que devemos ter em mente sobre accountability, relacioná-lo ao processo de contas tornou-se uma tarefa mais simples.

A Constituição Federal brasileira de 1988 (CF), em seu art. 70,

parágrafo único, vincula accountability à prestação de contas, senão vejamos:

Art. 70. (

)

Parágrafo único. PRESTARÁ CONTAS qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre

dinheiros, bens e valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome

dinheiros, bens e valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma obrigações de natureza pecuniária.

Confrontando-se, portanto, a definição oferecida por Mosher, com a determinação contida no art. 70, parágrafo único da nossa Carta Magna, podemos entender accountability, embora ainda de uma forma restrita, como a obrigação de prestar contas dos meios utilizados e dos resultados obtidos com a exploração do patrimônio de uma terceira pessoa. No nosso caso, da exploração dos recursos públicos.

Definido o termo accountability e a relação desse conceito com a prestação de contas, precisamos adicionar mais um ingrediente importante nessa deliciosa “sopa”, qual seja, a possibilidade de julgamento das contas prestadas por todos aqueles que, de alguma forma, administrem bens e valores públicos.

Esse ingrediente também pode ser facilmente identificado na nossa Carta Maior. Numa rápida consulta ao art. 71 da CF, encontramos em seu inciso II que compete ao TCU, dentre outras:

II - julgar as contas dos administradores e demais responsáveis por dinheiros,

bens e valores públicos da administração direta e indireta, incluídas as fundações e sociedades instituídas e mantidas pelo Poder Público federal, e

as contas daqueles que derem causa a perda, extravio ou outra irregularidade de que resulte prejuízo ao erário público.

Assim, devido à obrigação de accountability imposta a todo administrador, aos tribunais de contas foi atribuída a missão constitucional de julgar as contas prestadas por aqueles que, de alguma forma, têm a responsabilidade de gerir os recursos públicos.

Atenção!

Observe que o ato de prestar contas por si só não garante, de pronto, o reconhecimento pelo tribunal de que o gestor tenha utilizado com zelo os recursos colocados a sua disposição. Isso só ocorrerá após a manifestação do respectivo tribunal de contas. Essa discussão, contudo, será aprofundada na Unidade 2.

Dessa forma é que podemos estabelecer o entrelaçamento do termo accountability com a prestação de contas. Em outras palavras, no campo semântico da accountability está inserto o dever que todo o gestor de bens públicos tem, derivado de mandamento constitucional, de prestar contas dos recursos a ele confiados pelo Estado.

2 - Prestação de Contas e Controle social

O que é controle social? De que forma a prestação de contas pode incentivar o controle social?2 - Prestação de Contas e Controle social Como vimos, por força constitucional, todo gestor da

Como vimos, por força constitucional, todo gestor da coisa pública tem

o dever de prestar contas de suas ações relacionadas à gestão dos recursos

colocados a sua disposição. Mas, será que o cidadão pode participar nesse processo? Isso é o que vamos verificar a partir de agora.

Para respondermos a essa pergunta, precisamos entender o que vem

a ser controle social. Para tanto, e sem adentrar na discussão densa que o tema naturalmente suscita, podemos compreender o controle social como

a participação da sociedade na condução das atividades públicas.

Por essa dimensão, controle social pode ser pensado como a participação da sociedade no acompanhamento e verificação da gestão sobre a execução das políticas públicas, avaliando objetivos, processos e resultados.

Outra visão interessante é a trazida pelas professoras Assis e Villa (2003). Segundo elas,

pelas professoras Assis e Villa (2003). Segundo elas, O Programa Bolsa Família foi criado pela Lei

O Programa Bolsa Família foi criado pela Lei 10.836/2004, com a finalidade de unificar os procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal.

A participação social é um campo em construção com múltiplas

possibilidades de organização autônoma da sociedade civil, por meio das organizações independentes do Estado, tais como as associações

de moradores, conselhos de saúde, associação de docentes, grupos de

mulheres, que poderão confluir ou não suas intervenções para uma atuação

direta junto aos órgãos de controle previstos em Lei.

Nesse sentido, o controle ou a participação social é entendido como um espaço de representação da sociedade, onde se articulam diferentes sujeitos, com suas diversas representações: movimentos populares, entidades de classe, sindicatos, governo, entidades jurídicas, prestadores de serviço, entre outros, e uma população com suas necessidades e interesses que envolvem o indivíduo, família e grupos da comunidade (ASSIS e VILLA, 2003).

Para darmos uma visão estatal ao conceito de controle social, vamos nos apropriar aqui da definição oferecida pelo Ministério do Desenvolvimento Social ao instituir conselhos locais para acompanhamento do Programa Bolsa Família. Segundo o Ministério,

Controle Social é a participação da sociedade civil nos processos de planejamento, acompanhamento, monitoramento e

Controle Social é a participação da sociedade civil nos processos de planejamento, acompanhamento, monitoramento e avaliação das ações da gestão pública e na execução das políticas e programas públicos. Trata-se de uma ação conjunta entre Estado e sociedade em que o eixo central é o compartilhamento de responsabilidades com o objetivo de aumentar o nível da eficácia e efetividade das políticas e programas públicos.

Pelo que vimos até agora, o cidadão pode colaborar com as ações empreendidas pelo Estado na busca dos objetivos almejados, seja participando nos processos de planejamento, acompanhamento e avaliação das ações da gestão pública, seja na execução das políticas e programas públicos.

Mas, como a sociedade pode exercer efetivamente o controle social?

Bem, para ficarmos apenas no campo da prestação de contas, podemos dizer que a Constituição Federal estimula a participação social em pelo menos três artigos distintos, veja a tabela a seguir:

CF

INCETIVO PARA PARTICIPAÇÃO SOCIAL

Art. 5º, inciso XX-

Todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu inte- resse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no

XIII

prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.

Art. 74, § 2º

Qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato é parte legítima para denunciar irregularidades ou ilegalidades perante o Tribunal de Contas da União.

Art. 31, § 3º

Disponibilidade das contas municipais, por sessenta dias, anualmente, para exame e apreciação dos contribuintes.

Embora exista previsão constitucional que busca estimular a participação social, muitas vezes a sociedade encontra dificuldades para o exercício dessa prerrogativa. Como agir conjuntamente com o Estado sem ter conhecimento ou informação sobre o que o Estado faz?

Nos dias de hoje, a facilidade de comunicação criada pelo uso dos recursos computacionais tem permitido à administração pública disponibilizar um grande volume de informações que seria impensável há dez ou quinze anos.

Entretanto, a disponibilização ou publicação pura e simples da informação não significa que os órgãos e entidades públicas estejam sendo transparentes em suas ações. Para isso, as informações por eles

Segundo Meirelles (2008), Publicidade é a divulgação oficial do ato para conhecimento público e início

Segundo Meirelles (2008), Publicidade é a divulgação oficial do ato para conhecimento público e início de seus efeitos externos. Normalmente, tais atos se tornam oficiais pela publicação no Diário Oficial. No caso da Administração Pública Federal, a publicação dos diversos atos ocorre no Diário Oficial da União (DOU).

disponibilizadas devem possuir certas características que as tornem úteis ao cidadão e, por consequência, ao controle social.

Assim, para aclararmos essa discussão, precisamos compreender o que se costuma designar por TRANSPARÊNCIA PÚBLICA.

Num exercício puramente mental, pense em uma palavra que encerre

o significado do vocábulo transparência.

Muito provavelmente, deve ter vindo à sua cabeça palavras como:

publicidade, transparente, límpido, claro, que se pode ver através, etc. Talvez, também, você tenha pensado em palavras diferentes dessas. Se for esse o seu caso, não há com o que se preocupar, pois vamos agora tentar decifrar o significado da expressão “transparência pública”.

Deixando de lado as discussões acaloradas que possam existir sobre o tema, podemos dizer inicialmente que transparência pública não se

confunde com o princípio constitucional da publicidade dos atos emanados do poder público. Transparência pública é um conceito mais amplo do que

a simples ação de dar publicidade aos atos praticados pelo Estado para produzir certos efeitos jurídicos.

Nesse sentido, uma informação pode ser pública, mas não ser transparente, por faltar-lhe certos atributos capazes de torná-la útil aos propósitos do cidadão.

E que atributos são esses?

Bem, para responder a essa pergunta precisamos conhecer alguns conceitos.

Imagine, por alguns instantes, a administração pública como sendo uma grande empresa de capital aberto na qual seus dirigentes têm de prestar contas aos acionistas sobre o resultado de sua gestão.

Para tanto, os dirigentes dessa grande empresa se utilizam das

demonstrações contábeis para demonstrar aos acionistas os meios utilizados

e os resultados de sua administração em determinado período de tempo.

Levando em conta essa comparação, podemos pegar emprestado da ciência contábil alguns conceitos que podem nos auxiliar a estabelecer uma analogia entre os atributos que uma informação contábil deve possuir com os atributos que a informação disponibilizada pela administração pública deveria conter para ser considerada útil.

[ 10 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

A teoria contábil, a fim de tornar as demonstrações contábeis úteis para seus usuários, estabelece

A teoria contábil, a fim de tornar as demonstrações contábeis úteis para seus usuários, estabelece alguns atributos que devem ser intrínsecos às informações constantes daquelas demonstrações. A esse conjunto de atributos, a doutrina contábil denomina “Características Qualitativas da Informação.” As principais e que foram incluídas na Resolução CFC nº 1.121/08, são:

Compreensibilidade As informações contidas nas demonstrações contábeis devem ser prontamente entendidas pelos
Compreensibilidade
As informações contidas nas
demonstrações contábeis devem
ser prontamente entendidas
pelos usuários.
Relevância As informações devem ser relevantes às necessidades dos usuários na tomada de decisões.
Relevância
As informações devem ser
relevantes às necessidades dos
usuários na tomada de decisões.
Confiabilidade A informação deve ser confiável, ou seja, deve estar livre de erros ou vieses
Confiabilidade
A informação deve ser confiável,
ou seja, deve estar livre de erros
ou vieses relevantes e
representar adequadamente
aquilo que se propõe a
representar.
Comparabilidade Os usuários devem poder compa- rar as demonstrações contábeis de uma entidade ao longo
Comparabilidade
Os usuários devem poder compa-
rar as demonstrações contábeis
de uma entidade ao longo do
tempo.

Com esses conceitos em mente, faça de conta agora que você é o acionista da grande empresa administração pública e, portanto, usuário de suas informações. As informações disponibilizadas pela empresa com esses atributos faria alguma diferença para você, ou bastaria que ela, simplesmente, publicasse suas demonstrações sem qualquer tipo de preocupação em relação à utilidade da informação prestada?

Provavelmente você não desejaria apenas ver as informações publicadas. Desejaria também que a informação disponibilizada fosse facilmente entendida por você; que fosse relevante para as suas necessidades; que expressasse a verdade sobre a ação do gestor, além de permitir o acompanhamento de sua evolução ao longo do tempo. Em outras palavras, que a informação fosse útil as suas necessidades.

Levando-se em consideração os conceitos expostos, reflita por alguns instantes sobre a qualidade das informações disponibilizadas pelos órgãos e entidades da administração pública. Pergunte-se, por exemplo, se as informações por eles disponibilizadas têm sido úteis para você – acionista/ cidadão – acompanhar as atividades desenvolvidas pelo Estado.

– acompanhar as atividades desenvolvidas pelo Estado. Módulo I - Aula 1 – Conceitos Gerais e

Essa pergunta serve para demonstrar que transparência pública é uma ação mais abrangente do que a simples divulgação de dados sobre a gestão pública. Ou seja, a informação disponibilizada pelos órgãos e entidades públicos tem que permitir ao cidadão o entendimento claro e completo das atividades desenvolvidas pelo Estado. É esse tipo de informação que permitirá o exercício eficaz do controle social.

que permitirá o exercício eficaz do controle social. Refletindo: Antes de passar para o próximo tópico,

Refletindo:

Antes de passar para o próximo tópico, reflita sobre a seguinte relação: PRESTAÇÃO DE CONTAS – TRANSPARÊNCIA PÚBLICA – CONTROLE SOCIAL.

3 - Finalidade da Prestação de Contas

Como constatamos nas discussões anteriores, a prestação de contas encontra respaldo no conceito de accountability, além de amparo na Constituição Federal de 1988.

Outro aspecto importante, também realçado nas discussões anteriores, é o fomento ao controle social sobre as ações desenvolvidas pelo poder público. Controle social esse que está intimamente ligado aos conceitos da publicidade e da transparência dos atos da administração pública.

Nesse contexto é que se pode delinear a finalidade da prestação de contas como sendo:

»yDemonstrar, aos órgãos de controle, primariamente, e para toda a sociedade, secundariamente, os meios utilizados e os resultados da sua atuação enquanto responsáveis pela administração dos recursos públicos.

4 - Evolução da Sistemática de Prestação de Contas junto

ao TCU

A administração pública vem sofrendo transformações ao longo dos tempos. Aos poucos, a máquina pública vai perdendo a feição fortemente patrimonialista, onde as coisas do Estado se confundem com as coisas particulares, centrada apenas nos interesses do “Rei” (governante do dia), para incorporar uma feição onde o cidadão passa a ter papel de grande destaque.

Nessa nova perspectiva, a administração pública passa a perceber o cidadão não só como beneficiário dos serviços e políticas públicas, mas,

[ 12 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

também, como principal financiador das políticas do Estado, ou seja, como cidadão/cliente. Nesse novo contexto,

também, como principal financiador das políticas do Estado, ou seja, como cidadão/cliente.

Nesse novo contexto, a administração pública vem adotando modelos operacionais e organizacionais mais complexos, que enfatizam o atingimento de resultados.

Em razão dessa nova perspectiva, o TCU passou a se perguntar se estaria adequadamente preparado para lidar com essa nova realidade. A

nova perspectiva, o TCU passou a se perguntar se estaria adequadamente preparado para lidar com essa

resposta a essa indagação já era sabida de maneira intuitiva, mas só com

O

Projeto Áquila

a instituição, no âmbito do TCU, do Projeto Áquila, em 2007, é que foi

nasceu da

possível, a partir de uma abordagem metodológica, se chegar a uma resposta

necessidade de

mais clara e estruturada.

reflexão acerca da

Que resposta foi essa? Calma! Vamos conhecê-la no quadro a seguir. Antes, porém, precisamos dizer que o Projeto Áquila contou com a participação de grande número de servidores e de praticamente todos os gerentes e autoridades do Tribunal.

Como um dos produtos das discussões empreendidas no âmbito do Projeto, foram identificados alguns pontos de ineficiências nos principais processos de trabalho do TCU, denominadas “rupturas”.

atuação do Tribunal

de Contas da União e

do desafio de cumprir

da melhor forma sua

missão de assegurar

a efetiva e regular

gestão dos recursos

públicos em benefício

da sociedade.

Restringindo-se ao universo das contas anuais, foram apontadas as seguintes rupturas pelo Projeto Áquila:

Principais Rupturas Relacionadas às Contas Anuais Identificadas pelo Projeto Áquila

RUPTURAS

CAUSAS

Ineficiência na avaliação de resultados.

As contas ordinárias tinham sua aplicação no controle da legalidade e não na avaliação de resultados.

Impossibilidade de se avaliar, de forma sis- têmica, a execução da maioria dos progra- mas de governo.

Organização das contas ordinárias unicamente por Unidade Jurisdicionada.

Ausência de metodologia para análise.

A análise das contas ordinárias é pouco sis- tematizada e pouco automatizada.

Demora no julgamento das contas pelo TCU.

Processos de contas ordinárias com gran- de volume de irregularidades tendem a se arrastar por anos, em função de sucessivas representações, denúncias e auditorias que os sobrestam.

representações, denúncias e auditorias que os sobrestam. Rupturas representavam problemas identificados pelo Projeto

Rupturas

representavam

problemas

identificados pelo

Projeto Áquila e

que impactavam o

funcionamento do

Tribunal. No curso do

Projeto Áquila foram

identificadas 108

rupturas, sendo 36

relativas a questões

estratégicas e 72

ligadas a aspectos

operacionais.

RUPTURAS

 

CAUSAS

Baixa seletividade.

Grande parte dos processos de contas or- dinárias tinha pouca relevância material ou social. Não havia critério para selecionar quais deveriam ser analisados em maior profundidade.

Excesso de tomadas e prestação de contas sem relevância.

Tradição de julgar todas as contas ordinárias, independentemente de critérios de seletividade.

 

O

foco das auditorias de gestão realizadas

Baixa coordenação entre os trabalhos dos órgãos de controle.

pelos órgãos de controle interno era total- mente descasado do exame das contas or- dinárias.

Fragilidade do conteúdo das contas em dar subsídios para a avaliação da gestão.

Conteúdo informacional das contas ordiná- rias era restrito e pouco confiável, pois era gerado pelo próprio interessado, sem quais- quer padrões pré-definidos.

Ausência de procedimento institucionaliza- do e diferenciado para processos de baixo risco, relevância e materialidade.

Ausência de diferenciação no rito processu-

al

dos processos de contas ordinárias com

base em critérios de risco, relevância e ma- terialidade.

Pela análise das rupturas do quadro acima, você já deve ter imaginado

a resposta a que o Projeto Áquila chegou. Estou certo?

Pois é, o Projeto Áquila concluiu que as normas que regulavam a

sistemática de prestação de contas ao TCU não refletiam a mudança por que passava a administração pública. Elas também não permitiam alcançar

a dimensão de resultados, muito menos continham elementos para a análise da gestão como um todo, independentemente de se tratar de uma unidade jurisdicionada ou de um programa de governo e, principalmente, que as prestações de contas não eram úteis aos próprios gestores.

Em decorrência do resultado apurado pelo Projeto Áquila, a então Secretaria Adjunta de Contas formulou representação propondo a reformulação da IN TCU 47/2004, a fim de encaminhar solução inicial para diversas rupturas identificadas pelo Projeto Áquila, o que culminou com a edição da IN TCU 57/2008.

Essa IN TCU 57/2008 representou uma profunda reformulação da sistemática de prestação de contas anteriormente adotada pelo Tribunal, passando a ditar uma nova dinâmica para essa sistemática a partir de então.

[ 14 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

Mas o que caracterizaria a nova dinâmica da sistemática da prestação de contas? Bem, a

Mas o que caracterizaria a nova dinâmica da sistemática da prestação de contas? Bem, a resposta a essa pergunta obteremos a partir da análise do quadro a seguir:

Comparação Entre os Modelos de Contas Vigentes até 2007 e a Partir de 2008

Modelo Anterior

Novo Modelo

IN TCU 47/2004

IN TCU 57/2008

Análise das contas de todas as unidades jurisdicionadas para fins de julgamento da gestão dos responsáveis, sem levar em consideração critérios de relevância, materiali- dade e risco.

Escolha de apenas um grupo de unidades jurisdicionadas para ter os processos de contas ordinárias constituídos para fins de julgamento, com base em critérios de materialidade, relevância e risco.

Regulação em Decisão Normativa única dos diversos con- teúdos necessários ao julgamento das contas anuais (re- latório de gestão, relatório de auditoria de gestão etc.).

As contas passaram a ser reguladas por duas Decisões Normativas anuais. A primeira detalha o conteúdo a ser apresentado no relatório de gestão, que representa a prestação de contas anual, enquanto a segunda define quais unidades terão processo de contas anuais constituídos para fins de julgamento.

Referência ao processo administrativo usado para orga- nizar o processo de trabalho relacionado à prestação de contas como sendo processo de controle externo.

Processo de contas só passou a ser reconhecido como processo de controle externo do TCU, após sua regular autuação.

Rol de responsável abrangente, contendo dezenove na- turezas de responsabilidade que, por sua vez, correspon- dia a mais de sessenta cargos da administração pública, muito focado nos níveis tático e operacional da gestão dos órgãos e entidades.

Redução da responsabilização a apenas três naturezas de res- ponsabilidade e focada no nível estratégico da unidade presta- dora de contas.

Relatório de gestão com baixo teor informativo e consi- derado como peça sem importância.

O Relatório de gestão da unidade prestadora de contas passou a ser considerado como a principal peça a compor o processo de contas anuais.

Existência de processo de contas anuais simplificado que pouco se diferenciava dos demais processos de contas anuais, a não ser pela materialidade.

Extinção da classificação “simplificado” para os processos de contas, pois, uma vez selecionada para julgamento, todas as con- tas passam a ser analisados de forma completa.

“Pulverização” das unidades prestadoras de contas, o que resultava na constituição de processo de contas de unidade de pouca significância no contexto das políticas públicas.

Utilização de mecanismos de consolidação e agregação dos ór- gãos e entidades jurisdicionados ao TCU para melhor visualiza- ção da gestão estratégica dos órgãos e entidades.

O conteúdo das contas era quase que exclusivamente fo- cado nos aspectos da gestão contábil, financeira e patri- monial dos órgãos e entidades.

Ampliação das dimensões da gestão retratadas nas contas, pas- sando a incluir, também, as dimensões desempenho e resulta- dos na avaliação da gestão das unidades jurisdicionadas.

Periodicidade rígida de um ano para a produção e envio ao Tribunal de informações sobre a gestão.

Possibilidade de solicitar informações em periodicidade menor que um ano, para análise das contas anuais.

Não havia previsão normativa de configuração de conta em níveis mais agregados da gestão pública.

Possibilidade de se exigir a prestação de contas por função ou programa de governo.

Não havia mecanismos que propiciassem a aproximação das diversas instâncias que atuam sobre as contas.

Maior e melhor articulação da rede de controle que atua sobre as contas anuais (unidade prestadora de contas, auditoria inter- na, órgão de controle interno, supervisão ministerial, órgão de controle externo).

Pois bem, como se pode depreender do quadro acima, podemos admitir como características principais da nova dinâmica da sistemática da prestação de contas ao TCU:

»yO exercício da prerrogativa de escolha pelo Tribunal dos órgãos

e entidades cujos gestores terão suas contas julgadas a cada ano;

»yA normatização da prestação de contas anual por meio de duas decisões normativas, uma destinada a regulamentar a entrega dos relatórios de gestão, outra que orienta sobre a elaboração e o envio das peças complementares para constituição de processo

e julgamento das contas dos responsáveis;

»yA entrega regular do relatório de gestão como como quitação da obrigação constitucional de prestar contas e eleição dessa peça como a principal do processo de contas anuais;

»yA redução do rol de responsáveis a apenas três naturezas de responsabilidade e focalização da responsabilização no nível estratégico dos órgãos e entidades.

Embora a IN 57/2008 tenha “pavimentado o terreno” para a nova sistemática de prestação de contas, ela por si só não era suficiente para atingir todos os desafios do novo modelo, pois era imprescindível que os novos conceitos erigidos nessa IN fossem colocados em prática para serem testados.

[ 16 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

Dessa forma, a fase de operacionalização do novo modelo teve início no âmbito da Secretaria-Geral

Dessa forma, a fase de operacionalização do novo modelo teve início no âmbito da Secretaria-Geral de Controle Externo do TCU – Segecex a partir da instituição do “Projeto Contas”, em 2009. Esse Projeto teve como objetivo:

Implementar a nova sistemática de prestação de contas pelas unidades jurisdicionadas ao Tribunal preconizada pela Instrução Normativa TCU

57/2008.

A partir desse objetivo e das rupturas identificadas pelo Projeto Áquila, o Projeto Contas passou então a dar substância à nova sistemática da prestação de contas instituída pela IN 57/2008 e submeteu as seguintes medidas à aprovação do Plenário do TCU :

»yDois anteprojetos de decisões normativas anuais previstos nos artigos 3º e 4º da IN 57/2008, relativamente ao exercício de 2008;

»yLimitação

do

rol

de

responsabilidades;

responsáveis

a

três

naturezas

de

»yAnteprojeto de resolução para regulamentar a atuação das unidades técnicas do Tribunal em relação ao processo de prestação de contas;

»yModificação da sistemática de recepção do relatório de gestão, dando início, assim, ao recebimento eletrônico da prestação de contas;

»yAntecipação das normas que regulam a elaboração e envio dos relatórios de gestão para o exercício anterior ao de referência das contas.

O objetivo dessas medidas era dar maior efetividade à prestação de

contas anual da Administração Pública Federal, de forma a, num curto

espaço de tempo, permitir a percepção dos seguintes benefícios:

Benefícios Esperados

Maior efetividade das contas anuais como instrumento de controle externo, tanto em rela- ção à conformidade, quanto à avaliação do desempenho da gestão.

Utilização das prestações de contas como instrumento para aumento da transparência da gestão pública perante a sociedade.

Visão global da Administração pública sem prejuízo da expectativa de controle por parte dos jurisdicionados.

Aumento do nível de confiabilidade das informações contidas nas contas anuais para efeito de julgamento, inclusive no que se refere à melhor caracterização das irregularidades cons- tatadas nas auditorias realizadas pelos órgãos de controle interno.

Aumento da sinergia entre o Tribunal e os órgãos de controle interno de forma a reforçar o caráter de complementariedade das ações desses órgãos nas auditorias anuais de contas.

Redução do risco de julgamento de contas pela regularidade sem que tenham sido anali- sadas com a profundidade adequada, tanto pelos órgãos de controle interno, quanto pelo Tribunal.

Alinhamento das expectativas das unidades técnicas do TCU com os órgãos de controle interno.

Para finalizar este tópico, vamos chamar a atenção para mais um importante detalhe. Você deve ter percebido que entre as medidas propostas pelo Projeto Contas relacionadas em tópico anterior estava a reformulação da IN 57/2008, não é mesmo?

Pois é, decorridos dois anos de aplicação da IN 57/2008 (exercícios de 2008 e 2009), observou-se a necessidade de aperfeiçoamento dessa IN para que pudessem ser atingidos todos os objetivos pensados para o novo modelo de prestação de contas.

Para tanto, foi submetido ao Plenário do TCU anteprojeto de alteração da IN 57/2008, que culminou com a edição da IN TCU 63/2010 e consequente revogação da IN anterior (IN 57/2008).

A IN 63/2010 manteve os princípios gerais do novo modelo, porém,

promoveu evoluções, principalmente em relação a alguns conceitos, de forma a contemplar os conhecimentos acumulados pelas áreas da Segecex nos exercícios de 2008 e 2009 decorrentes do trato com as unidades técnicas do Tribunal, com os órgãos de controle interno e respectivas unidades jurisdicionadas sobre o novo modelo de contas.

[ 18 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

exercícios possibilitaram à equipe do Projeto Contas propor as seguintes modificações à IN 57/2008: Assim,

exercícios

possibilitaram à equipe do Projeto Contas propor as seguintes modificações

à IN 57/2008:

Assim,

as

observações

feitas

ao

longo

desses

dois

Proposta

Razão

Adequação do uso do termo “processo de contas.”

Adequar o termo à nova sistemática de prestação de contas, vez que processos de contas somente passam a existir após a sua autuação pela unidade técnica do TCU.

Eliminação da terminologia “processo de tomada e prestação de contas.”

Unificar o tratamento interno no TCU, utilizando-se o termo “prestação de contas” em sentido amplo.

Redefinição das formas de constituição dos processos de contas.

Possibilitar a adequação às múltiplas formas de organização da administração pública fe- deral.

Revisão do conteúdo das contas para dar subsídios à avaliação da gestão.

Permitir a visão sistêmica de um programa de governo que, em razão de sua relevância, materialidade e risco mereça uma avalia- ção no contexto de um processo de contas anuais.

Configuração dos relatórios de gestão como a materialização do dever de prestar con- tas, previsto no art. 70 da Constituição Fe- deral.

Caracterizar a prestação de contas por meio do relatório de gestão.

Caracterização da omissão prestar contas.

no dever de

Definir regras mais claras que possibilitem caracterizar a omissão no dever de prestar contas, seja pela não apresentação do rela- tório de gestão, seja pela desconformidade desse relatório com os padrões de apresen- tação definidos anualmente pelo Tribunal.

Definições quanto ao tratamento dos pro- cessos de contas extraordinárias.

Instituir os procedimentos a serem seguidos pelas unidades jurisdicionadas e pelo órgão de controle interno quando ocorrerem situ- ações que ensejam a prestação de contas extraordinárias.

Especificação de quais membros de colegia- dos devem compor os róis de responsáveis.

Esclarecer quais membros de colegiado de- vem compor o rol de responsáveis.

Como já dissemos, todas as propostas de modificação contidas no quadro acima foram aprovadas em 2010, com a edição da IN TCU 63/2010, que passou a estabelecer as regras gerais para a sistemática de prestação de contas a partir desse exercício financeiro. Essa revogação, entretanto,

não alterou a estrutura da nova sistemática de prestação de contas, apenas aperfeiçoou a norma anterior, além de torná-la mais simples e objetiva.

5 - Princípios Norteadores da Nova Sistemática de Prestação de Contas

No tópico anterior, discutimos os motivos e as razões que levaram o TCU a adotar uma nova sistemática de prestação de contas. Todavia, nada falamos acerca dos princípios que dão suporte a ela.

Neste tópico, portanto, vamos descobrir quais foram os princípios norteadores do novo paradigma de contas instituído pelo Tribunal de Contas da União.

Antes, porém, vamos verificar quais são os requisitos necessários ao novo modelo de contas.

Vamos lá?

Bem, a nova sistemática de prestação de contas contempla os seguintes requisitos:

»ySeletividade: Seleção das unidades que terão as suas gestões julgadas, baseada em relevância, materialidade e risco;

»yAcompanhamento/Monitoramento da gestão das unidades:

Controle mais estrito sobre as UJ mais relevantes pelas unidades técnicas do TCU;

»yÊnfase nos resultados: Controle com base nos resultados alcançados pelas unidades, levando-se em conta a gestão dos riscos associados aos seus negócios;

»yProgressiva sinergia entre os processos de contas e os demais instrumentos de controle externo: Permitir o inter- relacionamento entre a prestação de contas e os demais instrumentos de controle utilizados pelo Tribunal;

»yNormalização dos demonstrativos: Possibilitar a padronização com vistas ao processamento eletrônico dos dados e contemplar, nas normas que regem a prestação de contas, orientações mais detalhadas de como efetuar tal prestação;

»yAdoção de procedimentos pré-definidos para análise dos demonstrativos: Conferir rapidez e homogeneidade na análise das contas.

[ 20 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

Uma vez definidos os requisitos necessários à nova sistemática de prestação de contas, podemos apresentar,

Uma vez definidos os requisitos necessários à nova sistemática de prestação de contas, podemos apresentar, então, os princípios que lhe dão suporte. São eles: Seletividade no julgamento, Cooperação entre os órgãos, Transparência da Gestão, Autorregulação e Autocontrole da Gestão e Normalização de conteúdos.

Figura 1: Princípios da prestação de contas anuais

Universalidade na prestação Seletividade Aproximação entre os atores no julgamento Princípios norteadores da
Universalidade
na prestação
Seletividade
Aproximação
entre os atores
no
julgamento
Princípios
norteadores da
prestação de
contas anuais
Normalização
Transparência
de conteúdos
da gestão
Autorregulação
e autocontrole
da gestão

Princípio da Universalidade na Prestação

O Princípio da universalidade na prestação de contas pode ser visto de acordo com o âmbito institucional ou material.

De acordo com o âmbito institucional, o princípio da universalidade

é visto da seguinte forma:

“Todas as unidades da Administração Pública Federal (APF) devem prestar contas por intermédio da apresentação do relatório de gestão sob a forma individual, consolidada ou agregada”

Isso significa que a configuração do conjunto de unidades prestadoras de contas deve buscar a garantia de que todos os órgãos e entidades da Administração Pública Federal estejam integralmente contemplados nas contas anualmente prestadas.

no

âmbito

material,

podemos

considerar

o

princípio

da

universalidade como sendo:

 

As contas prestadas anualmente devem abranger a totalidade dos recursos federais geridos pelos órgãos e entidades.

 

Princípio da Seletividade no Julgamento

Este princípio está intimamente ligado à natureza da atividade principal exercida pelo Tribunal de Contas da União, que é auditoria. Em razão dos custos do exercício dessa atividade, o órgão de auditoria age,

quase que invariavelmente, sobre uma parte de um universo a ser analisado

e avaliado e não sobre todo ele.

No caso das contas anuais, não é diferente. O universo dos órgãos e entidades da APF é muito vasto e a análise das contas de todos eles anualmente demandaria um esforço para o qual o TCU não teria estrutura para operacionalizar e os custos para obtê-la certamente suplantariam os benefícios.

Assim, o Tribunal faz a seleção dos órgãos e entidades, com base em critérios de relevância, risco e materialidade, para definir quais as unidades terão a gestão analisada para fins do julgamento das contas dos responsáveis. Essa seletividade tem como fundamento da prerrogativa do inciso II do art. 71 da Constituição Federal.

[ 22 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

Bem, por ora, não vamos aprofundar muito na sistemática de seleção. Veremos isso com maiores

Bem, por ora, não vamos aprofundar muito na sistemática de seleção. Veremos isso com maiores detalhes na unidade 2.

Antes, porém, vamos fazer uma reflexão sobre esses dois princípios estudados até agora, o da universalidade na prestação e o da seletividade no julgamento das contas, pois existe uma relação forte entre eles. Vejamos!

Prestar contas é obrigação universal imposta pelo parágrafo único do artigo 70 da Constituição Federal. Para atender a esse comando geral em relação à APF, o TCU organiza em ato normativo a lista de órgãos e entidades para exigir a elaboração e divulgação do relatório de gestão, representando esse dever constitucional. Nesse mesmo normativo, o Tribunal define o conteúdo que cada relatório deve abranger. A organização da norma busca sempre garantir que a universalidade dos órgãos e entidades e dos recursos federais por eles administrados estejam contemplados no conjunto das contas prestadas.

Por outro lado, a escolha de quais órgãos e entidades terão as contas de seus administradores julgadas pelo Tribunal é feita sempre a partir daquele universo de órgãos e entidades obrigados a prestar contas, porém, representando apenas uma parte, uma amostra dele. Essa seleção é feita, normalmente obedecendo a um período de quatro anos, alinhado ao ciclo do Plano Plurianual do Governo Central (PPA). O gráfico a seguir representa a junção desses dois princípios: universalidade e seletividade.

Princípio da universalidade na prestação

Princípio da seletividade no julgamento

na prestação Princípio da seletividade no julgamento Todos os órgãos e entidades da APF devem estar
Todos os órgãos e entidades da APF devem estar representados no conjun- to das contas
Todos os órgãos e entidades da APF devem estar representados no conjun- to das contas

Todos os órgãos e entidades da APF devem estar representados no conjun- to das contas prestadas

A totalidade dos recursos federais geridas por esses órgãos devem ser retratada por esse conjunto

A totalidade dos recursos federais geridas por esses órgãos devem ser retratada por esse conjunto de contas prestadas

devem ser retratada por esse conjunto de contas prestadas A configuração da lista de órgãos e

A configuração da lista de órgãos e entidades e também de conteúdo das contas é dinâmica de forma a bem representar as gestões, que evoluem a cada ano

Apenas uma parte dos órgãos e entidades que prestam contas tem a gestão submetida ao julgamento do TCU

A seleção é feita com base nos critérios de relevância, risco e materialidade Num determinado

A seleção é feita com base nos critérios de relevância, risco e materialidade

base nos critérios de relevância, risco e materialidade Num determinado período de tempo, geralmente de quatro

Num determinado período de tempo, geralmente de quatro anos, todos os órgãos e entidades devem passar por pelo menos um julgamento de contas

de tempo, geralmente de quatro anos, todos os órgãos e entidades devem passar por pelo menos
de tempo, geralmente de quatro anos, todos os órgãos e entidades devem passar por pelo menos
Nesse contexto de aproximação, a participação de todos os atores na elaboração das normas e

Nesse contexto de aproximação, a participação de todos os atores na elaboração das normas e nos conteúdos das contas tem sido crescente. Em breve, inclusive, o Tribunal irá inaugurar o mecanismo de consulta pública toda vez que for elaborar um ato normativo sobre a prestação de contas.

Princípio da aproximação dos atores

Até a implementação da atual sistemática de prestação de contas havia um significativo distanciamento entre o TCU e os demais atores que desempenham papel destacado no ciclo da prestação de contas. Também, era praticamente inexistente a interação do TCU com as unidades jurisdicionadas nesse contexto. Dessa forma, a probabilidade de se levar em consideração possíveis informações e sugestões de aperfeiçoamento advindas dos órgãos de controle internos e das unidades jurisdicionadas na elaboração das normas que balizam a prestação de contas ao TCU era relativamente baixa.

Com a evolução da sistemática de prestação de contas nos últimos anos, o TCU passou a interagir, não somente com os órgãos de controle interno mas, também, com as unidades prestadoras de contas. É essa interação que, para a atual sistemática de prestação de contas, é tratada como o princípio da aproximação dos atores. Para tanto, o TCU mantém um conjunto de canais para permitir a interação, troca de conhecimento e ajustes de expectativas com os órgãos de controle interno, auditorias internas e unidades que prestam contas. Além disso, há uma extensa programação de encontros que vão desde reuniões técnicas, até a palestras e seminários sobre o tema.

Princípio da Transparência da Gestão

O princípio da transparência da gestão, por sua vez, possui estreito relacionamento com o fomento ao controle social. É em decorrência desse princípio, por exemplo, que todos os relatórios de gestão remetidos ao Tribunal anualmente pelas unidades jurisdicionadas são colocados à disposição, de toda a sociedade na internet.

Ficou curioso? Então dê uma olhada no relatório de gestão do órgão onde você trabalha, ou de algum outro de seu interesse. Para tanto, basta dar um clique, no link a seguir ou copie-o e cole-o na barra de endereço do seu navegador de internet: https://contas.tcu.gov.br/econtasWeb/web/ externo/listarRelatoriosGestao.xhtml

Quando a página estiver aberta, você poderá escolher a unidade ou unidades das quais deseja acessar o relatório de gestão, definindo alguns parâmetros do conjunto de possibilidades de filtros.

Experimente, é muito fácil!!!

[ 24 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

Princípio da Autorregulação e do Autocontrole da Gestão O princípio da autorregulação e do autocontrole

Princípio da Autorregulação e do Autocontrole da Gestão

O princípio da autorregulação e do autocontrole da gestão vai ao encontro de um dos principais resultados pretendidos pela atuação estratégica do TCU, que é o de “aprimorar a governança em organizações e políticas públicas”.

Tanto a autorregulação quanto o autocontrole podem ser aprimorados

a partir da autoavaliação que o gestor deve realizar sobre a sua própria

gestão, em decorrência dos achados e problemas identificados quando da preparação da sua prestação de conta anual.

A Autorregulação em si consiste nos ajustes necessários das normas

e orientações operacionais que combaterão as falhas identificadas, de

preferência evitando-as no futuro, enquanto o autocontrole consiste no estabelecimento de um sistema de controles internos administrativos forte o suficiente para manter a organização na direção desejada para o

atingimento dos seus objetivos estratégicos.

Repare que, pela sua importância e abrangência, a prática da autorregulação e do autocontrole exige que a prestação de contas passe a ser um produto institucional, não se admitindo mais que ela seja produzida sem a participação das áreas estratégicas da organização.

Nesse sentido, espera-se que o modelo de contas sirva como elemento indutor de boas práticas de gestão, permitindo a melhoria contínua da gestão pública e entregas de melhores produtos e serviços públicos à sociedade.

Princípio da Normalização de Conteúdos

O princípio da normalização deve ser interpretado levando-se em

consideração dois sentidos da palavra. Um, significando que as normas que regem a prestação de contas devem abranger todos os conteúdos nela inseridos; outro, que as normas buscarão estabelecer um padrão de elaboração dos conteúdos pelas unidades prestadoras.

Assim, com a normatização e a padronização das formas de apresentação dos conteúdos, o TCU poderá, também, automatizar a coleta

eletrônica desses conteúdos e instituir padrões de análise mais consistentes e céleres. A prestação de contas de forma estruturada já uma realidade com

o recém lançado Sistema de Prestação de Contas (e-Contas). O e-Contas,

dentro do seu cronograma de evolução, irá criar padrões para o tratamento das informações que compõem a prestação de contas, especialmente as de caráter financeiro.

de contas, especialmente as de caráter financeiro. e-Contas O e-Contas é um sistema corporativo desenvolvido

e-Contas

O e-Contas é um sistema

corporativo desenvolvido pelo TCU linguagem Java e se configura no sistema oficial de prestação de

contas de todos os órgãos

e entidades da APF ao

Tribunal. O e-Contas foi lançado em março de 2015

e abrange as operações

das unidades prestadoras

de contas, das unidades de auditoria interna, dos órgãos de controle interno, dos órgãos de supervisão ministerial

e das unidades técnicas

do TCU, envolvendo um

universo aproximado de 5.000 pessoas e chegando

a atingir 30.000 acessos

em determinadas datas de

pico.

Nesse sentido, de maneira ampla, podemos entender o princípio da normalização como padronização da forma de apresentação dos conteúdos da prestação de contas pelos órgãos e entidades, de forma a permitir, também, o desenvolvimento de procedimentos de análise. Entretanto, há que se considerar que essa padronização perseguida pela sistemática atual privilegia as diferenças de perfis das unidades prestadoras de contas, dando tratamento apropriado às especificidades da gestão de cada órgão ou entidade ou de conjunto deles.

Bem, considerando tudo o que vimos até aqui, podemos, em síntese, dizer que o modelo atual de contas foi concebido para:

Tornar o exame de contas anuais um meio eficaz e eficiente de avaliação da gestão dos responsáveis pelas unidades jurisdicionadas ao Tribunal, desonerando as suas unidades técnicas de instruírem um número excessivo de processos, e garantir uma maior transparência à gestão pública, contribuindo para a melhoria do desempenho das organizações públicas.

Também podemos demonstrar, de forma resumida, a relação entre os temas que foram abordados pela seguinte figura:

Controle social
Controle social
Transparência da gestão
Transparência
da gestão
Gestão dos órgãos e entidades
Gestão dos
órgãos e
entidades

Publicidade dos atos de gestãoda gestão Gestão dos órgãos e entidades Prestação de contas Accountability dos administradores

Prestação de contas
Prestação
de contas
Accountability dos administradores
Accountability
dos
administradores

Agora sim, vamos revisar os principais pontos da nossa primeira aula.

[ 26 ] Prestação de Contas Anual ao TCU

Síntese

Síntese Nesta aula, aprendemos que existe um estreito relacionamento entre os conceitos de accountability , controle

Nesta aula, aprendemos que existe um estreito relacionamento entre os conceitos de accountability, controle social, transparência e prestação de contas.

, controle social, transparência e prestação de contas. Aprendemos que o termo accountability pode ser visto

Aprendemos que o termo accountability pode ser visto como uma obrigação que as pessoas e organizações têm de prestar contas dos resultados obtidos, em função das responsabilidades a elas conferidas e dos recursos colocados a sua disposição.

Alémdisso,vimoscomoaaccountabilitysevinculaconstitucionalmente ao dever de prestar contas (art. 70, parágrafo único, da Constituição Federal).

Também vimos como o cidadão pode exercer influência na gestão dos recursos públicos por intermédio do controle social, além de conhecer como esse controle é incentivado.

Discutimos, ainda, a diferença entre o princípio da publicidade, entendido como sendo o dever dos administradores públicos de realizar a divulgação oficial dos atos praticados para conhecimento público e início de seus efeitos externos e transparência pública, que possui um escopo mais amplo e que não se satisfaz com a mera publicação das informações.

Aprendemos, também, a finalidade da prestação de contas, bem como os motivos que fizeram com que o Tribunal de Contas da União se dedicasse ao desenvolvimento da sistemática de prestação de contas contemplando, dentre outros, aspectos relacionados ao atingimento de resultados pelos órgãos e entidades públicos.

Assim, estudamos desde as contribuições advindas do Projeto Áquila, até os desafios formulados, enfrentados e ultrapassados pelo Projeto Contas. Dessa forma, demonstramos as ações mais recentes tomadas pelo TCU até se chegar ao modelo atual de prestação de contas.

Por fim, discutimos os princípios que dão suporte à nova sistemática de prestação de contas junto ao Tribunal de Contas da União, que têm o objetivo de:

Tornar o exame de contas anuais um meio eficaz e eficiente de avaliação da gestão dos responsáveis pelas unidades jurisdicionadas ao Tribunal, desonerando as suas unidades técnicas de instruírem um número excessivo de processos, e garantir uma maior transparência à gestão pública, contribuindo para a melhoria do desempenho das unidades jurisdicionadas.

A compreensão dos conceitos apresentados na aula 1 será necessária para dar continuidade a seus estudos. Portanto, não perca a oportunidade para tirar todas as suas dúvidas junto ao seu Tutor.

Na aula 2, apresentaremos os fundamentos da prestação de contas. Para tanto, abordaremos a legislação básica aplicável à prestação de contas ao TCU, bem como vamos conceituar e classificar os diferentes tipos de processo de contas. Também mostraremos a distinção entre prestação de contas e tomada de contas especial, além de explicitarmos o campo de incidência da prestação de contas.

FOI BOM TRABALHAR COM VOCÊ.

ATÉ A PRÓXIMA AULA!!!!!

[ 28 ] Prestação de Contas Anual ao TCU