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Aspectos do Romantismo Alemão

ANATOL ROSENFELD

1. Pré-romantismo  Por volta de 1770 eclodiu na Alemanha, estimulado em parte por sugestões

1. Pré-romantismo

1. Pré-romantismo  Por volta de 1770 eclodiu na Alemanha, estimulado em parte por sugestões vindas

Por volta de 1770 eclodiu na Alemanha, estimulado em parte por sugestões vindas da França e Inglaterra, o primeiro movimento “romântico” amplo da Europa: Sturm und Drang (tempestade e ímpeto)

O movimento, considerado “pré-romântico” durou até por volta de 1780

Não é considerado, na Alemanha, como um movimento romântico

Caracterizado por um violento impulso irracionalista, luta contra a Ilustração e contra os cânones classicistas da literatura francesa, subjetivismo radical, tendência ao primitivo, expressão imediata e espontânea das emoções, empenho pelo poema e canção populares

1. Pré - romantismo  Atitude de “dor do mundo”  Pessimismo profundo no tocante

1. Pré - romantismo

1. Pré - romantismo  Atitude de “dor do mundo”  Pessimismo profundo no tocante à

Atitude de “dor do mundo”

Pessimismo profundo no tocante à sociedade e civilização modernas

O homem genial é condenado a definhar no cárcere do mundo

O termo “romântico”, visto até esse momento como pejorativo (referente a

galantismo heroico, teor fantástico, quimérico e aventureiro) passa a ter teor

positivo nesse momento, referindo-se a paisagens agrestes, solitárias, selvagens e melancólicas

1. Pré - romantismo und Drang e no  Há romantismo alemão, que engloba: certo

1. Pré - romantismo

und Drang e no
und
Drang
e
no

romantismo alemão, que engloba:

certo

espírito

comum

impregnado

tanto

no

Sturm

Tendências anticlássicas;

Oposição aos cânones em geral, e em particular ao seu equilíbrio, proporção, ordem, harmonia, objetividade, ponderação, disciplina e visão apolínea

O romantismo alemão, porém, não exalta a expansão violenta das paixões e afetos e o ímpeto irracionalista

A visão melancólico-noturna também não é unânime entre os românticos

1. Pré - romantismo  Classicismo:  Poeta como servidor da obra, elaborada segundo regras

1. Pré - romantismo

1. Pré - romantismo  Classicismo:  Poeta como servidor da obra, elaborada segundo regras eternas

Classicismo:

Poeta como servidor da obra, elaborada segundo regras eternas e destinadas a certos fins (de ordem moral e catártica, de modo a se tornar útil e agradável)

Romantismo:

A autoexpressão da subjetividade do poeta é o mais importante

A verdade poética não vem da imitação da natureza, mas da “sinceridade” “autenticidade” da autoexpressão

A “perfeição” é nociva na medida em que suprime a sinceridade e espontaneidade

A projeção do mundo íntimo constitui a verdade profunda do universo exterior

O “Não-Eu” (o mundo) é símbolo do “Eu” e serve para a autocompreensão do “Eu”.

e

1. Pré - romantismo  A tendência ao subjetivismo se liga a uma nova concepção

1. Pré - romantismo

1. Pré - romantismo  A tendência ao subjetivismo se liga a uma nova concepção do

A tendência ao subjetivismo se liga a uma nova concepção do indivíduo.

ANTES: racional e liberal, mecanicista, baseia-se na razão

NO ROMANSTISMO: A razão não é valor supremo; as forças emocionais e a sensibilidade ocupam o primeiro plano. Acentua-se a singularidade da pessoa concreta, inseparável do contexto histórico e social.

2. Duas gerações  Conflitos entre o Sturm und Drang e o romantismo alemão propriamente

2. Duas gerações

2. Duas gerações  Conflitos entre o Sturm und Drang e o romantismo alemão propriamente dito.,

Conflitos entre o Sturm und Drang e o romantismo alemão propriamente dito., devidos especialmente à grande diferença no espírito de época

encontrado pelas gerações das quais emergem tais movimentos.

Ex.: Goethe e Schiller criticaram suas produções pré-românticas e a obras de Kant mudaram a visão filosófica da época.

Em relação à florescência do espírito alemão: pré-românticos= pioneiros;

românticos= herdeiros

2. Duas gerações  “Os românticos de modo algum querem ‘voltar’ à natureza; querem avançar

2. Duas gerações

2. Duas gerações  “Os românticos de modo algum querem ‘voltar’ à natureza; querem avançar até

“Os românticos de modo algum querem ‘voltar’ à natureza; querem avançar até ela, depois de

assimilado todo o processo civilizatório”

Uma natureza em que se encontram integradas as conquistas do

desenvolvimento.

“Em todo bom poema tudo deve ser propósito e tudo instinto” (SCHLEGEL)

“A bela arte deve parecer natureza, por mais que saibamos tratar-se de

arte” (KANT)

3. Ironia Romântica  Uma de suas raízes é a teoria de Schiller, “segundo a

3. Ironia Romântica

3. Ironia Romântica  Uma de suas raízes é a teoria de Schiller, “segundo a qual

Uma de suas raízes é a teoria de Schiller, “segundo a qual o estado estético (o único em que o homem é ‘integralmente’ homem, em que,

portanto, deixa de ser dissociado) é um estado lúdico, de infinita

disponibilidade.

“Ironia ‘é a consciência clara da eterna agilidade, do caos infinitamente pleno’; é ‘a forma do paradoxal’; ‘na mudança eterna de entusiasmo e

ironia’ exprime-se uma ‘simetria atraente de contradições’. Uma ideia é

‘um conceito aperfeiçoado até à ironia, uma síntese de antíteses absolutas, a constante mudança, autoproduzida, de dois pensamentos em choque’.”

3. Ironia Romântica  “Antíteses absolutas não admitem uma síntese absoluta, a não ser em

3. Ironia Romântica

3. Ironia Romântica  “Antíteses absolutas não admitem uma síntese absoluta, a não ser em aproximação

“Antíteses absolutas não admitem uma síntese absoluta, a não ser em

aproximação infinita que implica movimento constante. Esse oscilar entre

as contradições (

que pode ‘retirar-se de tudo, virar e inverter tudo, conforme quer’.”

)

exige ‘uma versatilidade infinita do intelecto culto’

“Um homem bem livre e culto deveria poder afirmar-se, à vontade, de um modo filosófico ou filológico, crítico ou poético, histórico ou retórico,

antigo ou moderno bem arbitrariamente, da mesma forma como se

afina um instrumento, a qualquer hora e em qualquer graus”

Tentativa de chegar a uma “segunda inocência” (da canção popular, conto de fadas, mito): transcendência/quase religiosidade.

3. Ironia Romântica  “Mas há também, neste pensamento contraditório que antecipa a dialética de

3. Ironia Romântica

3. Ironia Romântica  “Mas há também, neste pensamento contraditório que antecipa a dialética de Hegel,

“Mas há também, neste pensamento contraditório que antecipa a

dialética de Hegel, uma leveza espiritual muitas vezes levada à

leviandade”

A “cisão” romântica nunca é seguida de uma “de-cisão”, no sentido de escolha compromissada.

“O oscilar permanente não é superado por um verdadeiro compromisso com o

infinito”

SOLGER: “O olhar que paira acima de tudo, aniquila tudo” – surge o niilismo.

3. Ironia Romântica  “Para o homem irônico se desfazem todos os interesses, visto não

3. Ironia Romântica

3. Ironia Romântica  “Para o homem irônico se desfazem todos os interesses, visto não haver

“Para o homem irônico se desfazem todos os interesses, visto não haver nenhum valor que resista. Em dado momento, porém, o indivíduo passa a

almejar o contato objetivo com a realidade substancial, sem entretanto

ser capaz de abandonar a sua subjetividade solitária para penetrar na ‘coisa’, como o homem religioso ou moral, que se desfaz da subjetividade para ‘entrar na verdade’. Nesse saudosismo estético, o indivíduo fixa-se num certo prazer mórbido. Os românticos, de fato, tiraram uma satisfação

‘voluptuosa’ da insatisfação”.

3. Ironia Romântica  Poesia da posse (antigos gregos) x poesia da saudade (românticos) 

3. Ironia Romântica

3. Ironia Romântica  Poesia da posse (antigos gregos) x poesia da saudade (românticos)  Equilíbrio

Poesia da posse (antigos gregos) x poesia da saudade (românticos)

Equilíbrio de todas as coisas x fragmentação inerente que impossibilita o equilíbrio

A poesia romântica busca unir esses aspectos fragmentários, mundo espiritual e mundo sensível.

“Na arte e poesia gregas manifesta-se a unidade original e inconsciente de forma e conteúdo; na nova, procura-se a interpenetração mais íntima de ambos, enquanto ao mesmo tempo permanecem opostos”

4. A Remitização do Mundo  A busca de Eu (enquanto puro ato, vontade moral)

4. A Remitização do Mundo

4. A Remitização do Mundo  A busca de Eu (enquanto puro ato, vontade moral) é

A busca de Eu (enquanto puro ato, vontade moral) é fundamental no romantismo alemão, e se opõe ao Não-Eu, que são fenômenos em geral.

A visão é novamente IDEALISTA, por crer em um Eu infinito, absoluto, puro, livre e divino, que cria o Não-Eu e habita o interior dos indivíduos, sendo tarefa última destes últimos a busca de tal Eu. Busca-se, assim, a não diferenciação entre o Eu empírico e o Eu infinito.

4. A Remitização do Mundo  Na literatura do momento, a ironia torna-se atitude fundamental

4. A Remitização do Mundo

4. A Remitização do Mundo  Na literatura do momento, a ironia torna-se atitude fundamental –

Na literatura do momento, a ironia torna-se atitude fundamental mais que um recurso retórico.

“Criando a obra-de-arte, o autor a objetiva, distanciando-se dela e do próprio eu empenhado no ato da criação; em novo ato criativo introduz dentro da obra este mesmo ato de distanciamento, e assim sucessivamente.”

Resultado: obra aberta, experimental, incluindo em sua estrutura o próprio processo de sua criação.

4. A Remitização do Mundo  “O mundo exterior nada é senão o mundo íntimo

4. A Remitização do Mundo

4. A Remitização do Mundo  “O mundo exterior nada é senão o mundo íntimo elevado

“O mundo exterior nada é senão o mundo íntimo elevado a um estado secreto” (NOVALIS)

“O reino da fantasia é a própria realidade, mas na sua existência

essencial e mais elevada” (K. F. SOLGER)

“Magia é o estado de genialidade absoluta em que dominamos o próprio corpo e o mundo externo, podendo transfigurá-los a nosso bel-prazer”

“Identidade e unidade são os princípios fundamentais do movimento,

cujos expoentes ansiavam por superar os dilaceramentos da civilização moderna.” – o princípio da identidade (o belo, que une lógico e alógico, necessidade/natureza e liberdade/espírito) exerceu fascínio sobre os românticos, estimulando a tendência ao mito e ao misticismo.

4. A Remitização do Mundo

4. A Remitização do Mundo  MITO: “em que se manifesta a unidade original entre homem

MITO: “em que se manifesta a unidade original entre homem e universo, antes do cataclismo esquizoide que alienou o homem do universo”.

MISTICISMO: “através do qual se procura recuperar a unidade perdida, desfazendo o pecado original da individuação”.

OBRA DE ARTE: onde as tensões e antinomias são superadas (razão teórica x razão prática; ser x dever-ser; ciência x moral; natureza x cultura; ideal x real; infinito x finito)

RENOVAÇÃO EM RELAÇÃO AO IDEALISMO PLATÔNICO: a arte é vista como superior à natureza por acrescentar consciência ao

inconsciente.

5. Presença Romântica “Tanto no expressionismo (manipulação livre de elementos da realidade para exprimir e

5. Presença Romântica

5. Presença Romântica “Tanto no expressionismo (manipulação livre de elementos da realidade para exprimir e

“Tanto no expressionismo (manipulação livre de elementos da realidade para exprimir e constituir,

transcendentalmente, uma ‘realidade essencial’) como no surrealismo (exaltação do sonho) reencontramos muitos elementos românticos e, aliás, também do Sturm und Drang (‘escrita automática’, ‘drama de farrapos’). Certas ideias do romantismo (a ironia como atitude fundamental, a elaboração da teoria do símbolo) tornaram-se hoje domínio comum na investigação literária. Também passaram a ser patrimônio comum da poesia moderna muitas concepções antecipadas por Novalis: a ‘serenidade fria’ do poeta que é ‘aço puro, duro como seixo’, ‘álgebra e magia’, de que a linguagem poética é autônoma, sem função comunicativa, ‘operando’ como se fosse ‘com fórmulas matemáticas que contitue, um mundo por si e brincam apenas consigo mesmas’; de que o poema, tornado hermético,

visa apenas aos iniciados, exprime apenas ‘relações psíquicas musicais’ e tende a ser ‘mera

sonoridade, mesmo sem sentido e nexo’, apresentando fragmentosdas coisas mais diversas’ (veja-se

dadaísmo e surrealismo; montagens e colagens). (

encantados se hoje se defrontassem com um poema concreto: a fusão de uma arte temporal (poesia)

com uma arte espacial (gráfica) inspirar-lhes-ia numerosos aforismos sobre a ‘correspondência’ e

)

Alguns romântico, possivelmente, ficariam

‘afinidade química’ entre as artes.